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Michel Foucault e a persistência do poder psiquiátrico

ARTIGO ARTICLE
Michel Foucault and the persistence of psychiatric power

Sandra Caponi 1

Abstract This article aims studying the course held Resumo O artigo pretende estudar o curso que Mi-
by Michel Foucault at the Collège de France in 1973- chel Foucault ministra no Collège de France nos anos
1974. The records of this course were published in 1973-1974. Esse curso foi publicado em 2003 com o
2003 under the name “Psychiatric power”. The nome de “Le pouvoir psyquiatrique”. O objetivo foi
objective was to compare the different ways in which analisar os diversos modos como Michel Foucault
Foucault analyzes the question of madness in “Psy- analisa a questão da loucura em “Le pouvoir psy-
chiatric power” and in “History of Madness in the quiatrique” e em “A história da loucura na época
Classical Age” (1961). It is a comparative study clássica” (1961), através de um estudo comparativo
about the different ways of analyzing madness de- dos diferentes modos de analisar a loucura nos textos
veloped by Michel Foucault during the archeologi- de Michel Foucault no período arqueológico e gene-
cal and genealogic periods of his work. The absence alógico. Concluiu-se que a ausência de corpo, o diag-
of the body; binary diagnosis; the description of the nóstico binário, a descrição de superfície dos sinto-
surface of symptoms; the classification of diseases mas, a classificação de doenças mais próxima à clas-
more similar to the botanical classification than to sificação botânica que à nosologia patológica, o pro-
pathology; the process of cure directly linked to res- cesso de cura diretamente vinculado à restituição de
titution of behaviors and moral values; as well as condutas e valores morais, assim como o sobre-poder
the over-power of the psychiatrist, seem to speak exercido pelo psiquiatra, parecem falar da persistên-
about the persistence of an old model of power, a cia de um antigo modelo de poder, um modelo pré-
pre-modern and pre-capitalist model, a residue of moderno e pré-capitalista, um resíduo do antigo po-
the old sovereign power. der soberano.
Keys words Foucault, Psychiatry, Medical knowl- Palavras-chave Foucault, Psiquiatria, Saber médi-
edge, Psychiatric institutions co, Instituições psiquiátricas

1
Departamento de Saúde
Pública, Universidade
Federal de Santa Catarina.
Campus Universitário
Trindade. 88040-900
Florianópolis SC.
sandracaponi@newsite.com.br
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Caponi S

Introdução Da loucura como representação


à saúde mental
Sob o título de Le pouvoir psyquiatrique1 , a Galli-
mard publicou em 2003 a transcrição do curso di- Tal parece que a maior diferença existente entre A
tado por Foucault no Collège de France entre o dia história da loucura na época clássica2 e o curso de
7 de novembro de 1973 e o dia 6 de fevereiro de 1973-19741 está em seus objetos de estudo. No pri-
1974. Nele, Foucault retoma a problemática da lou- meiro caso, se tratava de estudar a representação
cura de uma perspectiva completamente diferente da loucura como fenômeno histórico e social ana-
daquela que, dez anos antes, articulara A história lisada do ponto de vista das representações soci-
da loucura na época clássica2(1961). Pretendo ana- ais. Foucault dirá que, então, ele “tentou estudar
lisar de que modo esse texto se vincula por uma fundamentalmente as imagens que foram feitas
parte com as teses enunciadas em A história da sobre a loucura no século XVII e XVIII”1. No se-
loucura e O nascimento da clínica3, e por outra gundo caso, se trata de analisar já não a percepção
com as teses enunciadas em Vigiar e punir 4 (1979) da loucura, mas sim os discursos, as ciências, os
e A história da sexualidade I5 . jogos de poder e verdade que tomaram por objeto
Este texto pode ser lido como uma continuação a loucura. Enquanto em 1961 Foucault insistia na
dos estudos arqueológicos anteriores. Aparece no problemática do fechamento e violência, em 1974
ponto de cruzamento e de articulação das proble- sua preocupação será outra, será a de analisar o
máticas abordadas em A história da loucura2, O modo como se estabelecem e o modo como se cir-
nascimento da clínica3 e As palavras e as coisas6. O culam as relações de poder dentro desse espaço
texto transita pelos saberes referidos à loucura, mas médico que é a psiquiatria. Agora mais que anali-
também pela anatomopatologia clínica e as ciênci- sar “as imagens construídas em torno da figura da
as humanas. Tentaremos analisar de que modo O loucura nos séculos XVII e XVIII, os temores que
poder psiquiátrico permite dar continuidade e arti- elas suscitaram, os saberes que se formaram a par-
cular as teses enunciadas nos textos arqueológicos tir de modelos botânicos, naturalistas ou médi-
anteriores, fundamentalmente em A história da lou- cos”1, estudará os modos como se articulam sa-
cura e O nascimento da clínica. Ao mesmo tempo, ber, verdade e poder, por referência a esse fenôme-
deveremos analisar as distâncias, as diferenças e a no ambíguo que chamamos “loucura”.
novidade que este texto representa em relação a es- Em O poder psiquiátrico, Foucault se propõe
ses estudos. Pois, como veremos, Foucault não fala responder a seguinte pergunta: “Em que medida
só de saberes, mas também de poderes. É esta nova um dispositivo de poder pode ser produtor de um
preocupação própria dos estudos genealógicos, a certo número de enunciados, de discursos, e, em
articulação entre saber, verdade e poder, a que mar- conseqüência de todas as formas de representação
cará a distância entre esse texto e os estudos anteri- que podem surgir dali?”1 Os dispositivos de poder
ormente dedicados à loucura e ao saber médico. passam a ser visualizados e analisados como instân-
Deveremos então dar um passo a mais. Não cias de produção das práticas discursivas e a interro-
poderemos nos limitar a observar as continuida- gação se deslocará das representações para os dispo-
des e diferenças com os trabalhos arqueológicos. sitivos de poder e os jogos de verdade que se tece-
Para poder compreender de que modo O poder ram em torno da loucura e do saber psiquiátrico.
psiquiátrico se inscreve no interior do espaço de No momento em que Foucault dita este curso,
preocupação foucaultiano que se inaugura com ele está também dedicado à investigação e ao de-
Vigiar e punir 4 e com A vontade de saber5, devere- senvolvimento de um novo livro que aparecerá
mos realizar uma leitura a posteriori. Tentaremos poucos anos depois: Vigiar e punir. Como sabe-
analisar a relação que existe entre o poder psiquiá- mos, esse texto inaugura um novo modo de enten-
trico e esses biopoderes próprios da modernidade der a história das idéias, novos temas e novos pro-
que Foucault analisa no último capítulo de A his- blemas começam a ser abordados: o poder disci-
tória da sexualidade I5. plinar, a normalização, a articulação entre verdade
Assim, será necessário interrogar a este curso e poder, as estratégias e táticas de controle do tem-
de uma perspectiva dupla: uma primeira perspec- po e do espaço. Nesta etapa genealógica, o interes-
tiva que nos fala das continuidades e diferenças se pelas “epistemes” se desloca para o interesse
com os textos arqueológicos; uma segunda pers- pelos ”diagramas de poder”.
pectiva, a posteriori ou recorrente, que nos permi- O curso de 1973-1974 põe em evidência as no-
ta repensar as teses enunciadas nesse curso a partir vas preocupações de Foucault: a relação entre es-
dos conceitos de biopoder, anátomo e biopolítica paço disciplinar e espaço asilar; o estudo das dife-
enunciados por Foucault em 19785. rentes formas que adota o poder disciplinar na
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polícia, no hospital e na escola; a disciplina como interrogar-se por sintomas e lesões orgânicas e
instância de normalização; a constituição do indi- começa a preocupar-se com um sofrimento que
víduo pela tecnologia disciplinar; a microfísica do não pode ser localizado em determinado órgão ou
poder asilar; a descrição do panóptico do Ben- tecido, um sofrimento que toma ao homem em
tham. É possível reencontrar um a um todos os seu conjunto. Isto é, esse sofrimento que engloba-
temas que articulam Vigiar e punir; é só que aqui mos sob o nome confuso de doença mental ou de
não se trata de analisar a instituição penal, nem em transtorno psiquiátrico.
sentido estrito a instituição psiquiátrica, mas sim Não é possível falar de continuidade em rela-
se pretende re-problematizar e dar continuidade a ção ao A história da loucura2 sem analisar as im-
duas antigas preocupações de Foucault: o hospital portantes diferenças apontadas por Foucault como
e a clínica por uma parte, o psiquiátrico e a psiqui- sendo os pontos de descontinuidade e de ruptura
atria por outra. entre ambos textos. Como já o assinalamos, sua
Assim, O poder psiquiátrico permite dar conti- preocupação aqui não será a representação ou as
nuidade ao A história da loucura e a O nascimento percepções da loucura que reenviam necessaria-
da clínica e, ao mesmo tempo, possibilita uma mente a uma história das mentalidades e do pen-
aproximação e uma articulação entre esses dois samento, mas será a tentativa de observar os dis-
textos. Mostra a dificuldade em separar a história positivos de poder. Foucault toma distância de uma
da psiquiatria e a história da medicina. Ainda quan- preocupação excessiva pelo problema da violên-
do existem práticas, modos de observar e de diag- cia, presente fundamentalmente no último capítu-
nosticar absolutamente diferentes, é por relação à lo de A história da loucura, em que analisava o
medicina que a psiquiatria encontra sua legitimi- recurso que Pinel, Esquirol e outros faziam da for-
dade e seu prestígio: Tendemos a pensar que a psi- ça física. Entende que essa insistência na violência
quiatria aparece, pela primeira vez como uma espe- que reenvia a força bruta, desequilibrada, passio-
cialidade no interior do domínio médico [...] Entre- nal, física e irregular pode obstruir uma compre-
tanto, entre os fundadores da psiquiatria, a opera- ensão das relações de poder calculadas, racionais e
ção médica que realizam quando tratam de um pa- medidas que caracterizam a psiquiatria. O poder,
ciente não tem, em sua morfologia, nem em sua dis- assim como a violência, se refere ao corpo, toma
posição geral, virtualmente nada a ver com aquilo ao corpo como objeto, mas ele não responde a
que se está transformando na experiência, a ativida- forças irracionais e confusas.
de diagnóstica, o processo terapêutico da medicina. Por fim, estabelecerá certa distância crítica em
Seus procedimentos são absolutamente irredutíveis relação ao conceito de “instituição” antes utilizado
aos da medicina1. Porém, é por relação ao hospital, como articulador em A história da loucura: “Eu
à anatomopatologia e ao nascimento da clínica que não acredito que a noção de instituição seja satis-
deve ser compreendido o discurso psiquiátrico: “É fatória [...] O essencial não é a instituição com sua
essa heterogeneidade a que vai marcar a história regularidade, com suas regras, mas precisamente
da psiquiatria”1. os desequilíbrios de poder”1. Finalmente, criticará
Foucault analisa ambas as disciplinas (psiquia- a referência à família como modelo para o asilo.
tria e medicina) observando aquilo que as aproxi- Dirá que não é o modelo familiar o que se introduz
ma e aquilo que as separa. Mostra que é necessário no psiquiátrico, e que este não pode ser compreen-
deter-se nas diferenças, entre a figura do médico e a dido por referência a vínculos patriarcais, como se
figura do psiquiatra, entre a instituição hospitalar afirmava em A história da loucura2.
e o asilo, entre as práticas próprias da psiquiatria e Em resumo, O poder psiquiátrico1 só pode ser
aquelas realizadas por um anátomo-patólogo ou compreendido como continuação de A história da
um clínico, no mesmo momento histórico. Detém- loucura se aceitarmos a substituição de certos con-
se nas diferentes estratégias terapêuticas e nos dife- ceitos que deixarão de ser usados como referência
rentes modos de estabelecer um diagnóstico. teórica nos trabalhos do Foucault: “Violência não
Na aula do dia 7 de novembro, lemos que o é a palavra correta, a instituição tampouco indica
curso: “se inscreve no ponto de chegada, ou em o nível de análise no que devemos nos situar, e eu
todo caso, de interrupção do trabalho que tinha não acredito que seja necessário tomar como refe-
sido realizado anteriormente em A história da lou- rência ao modelo familiar”1.
cura na época clássica1. Poderíamos dizer que esse Mas, como já apontamos, um dos eixos privi-
curso se inscreve também no ponto de chegada, legiados de discussão do texto será a comparação
ou em todo caso, de interrupção, do trabalho rea- entre os estudos médicos, anatômicos e neuroló-
lizado em O nascimento da clínica3. Exatamente gicos, e os estudos psiquiátricos. Ou, dito de outro
nesse ponto em que o discurso médico deixa de modo, a distinção entre o corpo anatomopatoló-
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gico, o corpo neurológico e a ausência de corpo ças mentais. A idéia de um conhecimento diferen-
que caracteriza a psiquiatria. cial da loucura fundada sobre a anatomopatolo-
Nas últimas décadas do século XIX, o corpo gia ou a fisiopatologia ou a neurologia, esta “ten-
deixará de ser pensado exclusivamente a partir de tativa de inscrição da loucura no interior de uma
tecidos e órgãos, se começará a falar de um corpo sintomatologia médico geral”, terminará por fra-
com potencialidades, com funções precisas, com cassar no século XIX. “O fracasso desta tentativa
comportamentos desejáveis. Por volta dos anos de Charcot, o fato de que o corpo neurológico fuja
1850-1860, se começará a falar de um “corpo neu- da psiquiatra como também foge o corpo anato-
rológico”. Por uma parte, é possível afirmar que “o mopatológico, limitará o saber psiquiátrico a três
corpo neurológico é ainda o corpo da localização instrumentos de poder”1. Com o desaparecimen-
da anátomo-clínica, que não existe oposição mas to da grande esperança neurológica, não encon-
continuidade entre esses corpos”, pois o primeiro traremos mais que três elementos: os interrogató-
forma parte do segundo, “é sua deriva ou sua ex- rios, a hipnose e as drogas. Três elementos com os
pansão, e porque ambos compartilham o mesmo quais, seja no espaço asilar, seja no espaço extra
espírito de localização” 1. Mas, por outra parte, será asilar, o poder psiquiátrico funciona até hoje.
preciso observar as diferenças: “os procedimentos Então, e diante desse fracasso, resta analisar as
por ajustar a localização anatômica e a observação diferenças, a heterogeneidade, entre o diagnóstico
clínica não são os mesmos quando se trata de neu- e a terapêutica psiquiátrica e o diagnóstico e a tera-
rologia e quando se trata de medicina geral ordiná- pêutica própria da anatomopatologia. Existem pelo
ria”1. Falará de uma disposição diferente dos cor- menos duas diferenças fundamentais entre eles: por
pos, de outro modo de descrevê-los. Enquanto a um lado, a oposição entre um conhecimento dife-
anatomopatologia penetrava nos ínfimos detalhes rencial da sintomatologia da doença própria da
do organismo profundo sem interrogar a superfí- anatomopatologia e a ausência de diagnóstico di-
cie corporal, a neurologia do século XIX se limitará ferencial própria da psiquiatria; por outro, a opo-
a delinear uma descrição de superfície. Esta última sição entre a inscrição de lesões no corpo, órgãos,
descreve condutas, ações e reações, respostas a tecidos e a ausência de corpo que caracteriza o po-
movimentos concretos de sobre ou de subestimu- der psiquiátrico.
lação através da utilização de toda uma nova bate- Tentemos explicar rapidamente estas caracterís-
ria de estímulos-resposta. Foucault analisa, a par- ticas que não podem ser entendidas separadamente.
tir de documentos de Salpetrier, a descrição que Quando, no século XIX, se articulam a anato-
um aluno de Charcot realiza de uma doença neu- mopatologia e a clínica no interior do hospital, se
rológica chamada ptosis. Descrevem-se uma série abre a possibilidade de estabelecer correlações en-
de estímulos-resposta, se ordena ao paciente abrir tre uma lesão localizada no interior de um orga-
os olhos e só abre um deles, coloca-se uma luz, nismo e os sintomas apresentados pelo doente.
aproxima-se a luz, afasta-se mais e mais. Paralela- Então, a partir dessa correlação entre sintomas e
mente, a explicação do médico para cada situação lesões, se faz possível individualizar diversas doen-
concreta limita-se a uma descrição da superfície do ças, classificar diversos sintomas e estabelecer vín-
rosto do paciente, uma minuciosa descrição das culos entre as lesões e a caracterização de uma ou
rugas, dos movimentos das pálpebras, etc. outra doença. É a atribuição orgânica da lesão o
Encontramos ali uma descrição absolutamente que possibilita a construção de diagnósticos dife-
diferente de aquela que será realizada pela anato- renciais. Tais signos e sintomas correspondem a
mopatologia. Em certo sentido, com uma descrição tal lesão orgânica, e esse quadro nos permite diag-
como esta, retornamos a uma sorte de olhar de super- nosticar uma determinada doença e não outra: uma
fície, de olhar impressionista, tal como poderíamos úlcera é sempre diferente de um câncer de pulmão.
encontrar na medicina do século XVIII, em uma épo- “No espaço da psiquiatria, a situação é comple-
ca onde a pele, a coloração, o vermelho do rosto e os tamente diferente por duas razões”1. Primeira ra-
olhos injetados com sangue eram elementos impor- zão. No caso da psiquiatria, embora existam diag-
tantes para o diagnóstico clínico1. A anatomia pato- nósticos tais como a melancolia, a esquizofrenia ou
lógica de Bichat e Laenec reduziu estas descrições o transtorno bipolar, não importa tanto a precisão
impressionistas a certos signos de superfície que re- nosológica quanto saber se esse paciente é ou não
metiam a uma lesão que só poderia ser descrita após louco. Antes de qualquer caracterização, a verda-
uma operação cirúrgica ou uma autópsia. deira questão que se coloca é uma oposição biná-
Mas, o corpo neurológico e as estratégias des- ria. Está em questão uma decisão institucional: se
critivas, tal como tinham sido pensadas por Char- deve ser aceito ou não o internamento do paciente.
cot, não permitem dar novas explicações às doen- É dentro desse campo dual que se exerce o diagnós-
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tico da loucura. Não se trata de perguntar, como na nar. Possibilita uma atribuição de identidade, uma
clínica, “do que ele está doente?”, mas sim de saber série de enunciados de reconhecimento do sujeito
se “ele está ou não está doente?” Foucault falará de como alguém que tem determinado passado, como
um diagnóstico absoluto da psiquiatria por oposi- alguém a quem lhe ocorreram determinadas situ-
ção ao diagnóstico diferencial da medicina clínica. ações no transcurso de sua vida. Para atribuir essa
Segunda razão. A psiquiatria tal como ela sur- identidade, para construir uma prova da existên-
ge no século XIX se opõe à medicina pelo papel que cia ou não da loucura nesse indivíduo, o interro-
o corpo desempenha em um caso e em outro. “A gatório pode realizar-se de maneiras diferentes. Já
psiquiatria é uma medicina em que o corpo está nas décadas de 1820-1840, quando ainda não exis-
ausente”1. Podemos questionar esta afirmação se tiam estudos sobre a herança de patologias, a pre-
observarmos que, a partir de seu início, a psiquia- ocupação com as diferentes doenças que afetavam
tria se preocupou em encontrar correlações entre ou tinham afetado os ascendentes familiares era
doenças mentais e lesões. Em alguns casos, esta um dos itens essenciais dos interrogatórios.
busca se mostrou infrutífera e, em outros casos, se A funcionalidade dessas atribuições não estava
mostrou promissora (Foucault se refere ao estudo vinculada às doenças hereditárias, simplesmente
do Bayle sobre a paralisia geral e as lesões que re- possibilitavam o que Foucault chamou um “alon-
sultam de seqüelas da sífilis). Entretanto, não é gamento do corpo”, correlativo dessa “ausência de
esta preocupação por determinar a lesão, própria corpo” a que já nos referimos: Na medida em que
da neurologia, a que preocupa o psiquiatra. Sua não se pode ou não se sabe encontrar no corpo do
preocupação não é inicialmente a de saber se tal doente um substrato orgânico para sua doença, se
comportamento, tal maneira de falar, tal categoria trata de encontrar no nível da família certo número
de alucinação se refere a esta ou a aquela lesão, o de eventos patológicos tais que, embora sejam de ou-
problema é saber se dizer determinada coisa, escutar tra natureza (se seu pai era apoplético ou se mãe
vozes, conduzir-se de determinado modo caracteri- tinha reumatismo ou se tem ou não um primo idio-
za ou não a loucura1. ta) referem-se à existência de um substrato material
patológico1. Ou, como afirma Foucault, “a herança
é um modo de doar um corpo à doença”. Ante a
Sobre o poder psiquiátrico impossibilidade de situá-la em um corpo indivi-
dual, se inventa um corpo, esse “grande corpo fan-
Se aquilo que caracteriza a medicina, isto é, a pos- tasmático que é o da família afetada de toda uma
sibilidade de estabelecer diagnósticos diferenciais série de doenças”1.
localizando as lesões no corpo, está ausente da psi- O interrogatório envia por uma parte à família
quiatria, se devemos nos limitar a diagnósticos e por outro aos antecedentes individuais da doen-
absolutos nos quais a ausência de corpo substitui ça. O lugar ocupado pela anamnese na medicina
a localização de lesões, não poderemos deixar de clínica, a preocupação por determinar episódios
nos perguntar pela especificidade da psiquiatria. que poderiam falar de uma possível antecipação
Sem referências a lesões em órgãos ou tecidos, da doença permitem decidir se trata de uma doen-
como estabelecer um diagnóstico binário? Como ça crônica ou degenerativa e classificá-la dentro de
saber se esta pessoa, que escuta vozes ou que se um quadro nosológico que remeterá a lesões, ór-
define como todo-poderoso, deve ou não ser re- gãos, tecidos. No caso da psiquiatria, a operação
metida a uma instituição psiquiátrica? Como pro- de procurar os antecedentes individuais se refere a
var que essas atitudes indicam uma doença mental? outra questão. Enquanto os médicos se preocu-
Será necessário que a psiquiatria possa estabe- pam por determinar se existiam certos hábitos ou
lecer mecanismos de prova capazes de substituir a costumes que poderiam ter contribuído ao desen-
constatação que a medicina clínica encontrava na cadeamento da doença, por exemplo, se o paciente
observação das lesões. Será necessário poder tor- é ou não fumante, se faz ou não vida sedentária,
nar explicito aquilo que se esconde, aquilo que se etc., o psiquiatra pretende descobrir nas condutas
oculta não no interior do corpo, nos tecidos ou passadas dados que falem de comportamentos ou
órgãos, mas no interior das condutas, dos hábi- reações anormais. Ele deve “mostrar que a loucura
tos, das ações, dos antecedentes familiares, da his- existia antes da aparição da doença, mostrar que
tória de vida. E isso poderá ser realizado através de esses signos são a condição de possibilidade da
três mecanismos: o interrogatório, o uso de dro- loucura”1, que eles já estavam indicando que a do-
gas e a hipnose. Deixemos de lado as duas últimas ença mental, mais cedo ou mais tarde, seria desen-
técnicas para nos referir ao interrogatório. cadeada. Trata-se de procurar e encontrar signos
A primeira função do interrogatório é discipli- anunciadores da doença na história de vida, de
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encontrar as marcas que falam de uma disposição pital psiquiátrico do século XIX é um lugar de diag-
à loucura. Desse modo, ele pretende inscrever a nóstico e de classificação, retângulo botânico onde as
loucura em um quadro geral, o quadro das ano- espécies de doenças são repartidas e dispostas […]
malias, pois, “a anomalia é a condição de possibi- mas também um campo institucional onde o que está
lidade da loucura” 1. em questão é a vitória e a submissão1.
Por fim, o interrogatório, técnica privilegiada Nesse espaço, o que está em jogo é a produção
que o psiquiatra utiliza com o doente, tem duas e a terapeutização da doença mental a partir de um
últimas características. A primeira é estabelecer um conjunto bem delimitado de estratégias de poder.
cruzamento entre responsabilidade e subjetivida- Todas as técnicas ou procedimentos postos em ato
de; a outra é a capacidade de fazer com que o do- nos asilos do século XIX: isolamento, interrogatório
ente reviva a doença no momento preciso do inter- público ou privado, tratamentos punitivos como a
rogatório, diante do saber psiquiátrico. No pri- ducha, as obrigações morais, a disciplina rigorosa, o
meiro caso, o interrogatório procede de modo tal trabalho obrigatório, as recompensas, as relações de
que as ações cometidas, as faltas que levaram a preferência entre certos médicos e certos doentes, as
internamento passam a serem visualizadas como relações de posse, de subordinação, de vassalagem, de
sintomas da loucura. domesticação, de servidão do doente ao médico, tudo
Afirma-se “você pode ser libertado de toda res- isso tinha por função fazer do personagem médico o
ponsabilidade jurídica ou moral desde que reco- mestre da loucura: aquele que a faz aparecer em sua
nheça e desde que assuma que essas ações são sin- verdade (que explicita o que estava escondido e si-
tomas incontroláveis de uma doença que o possui e lencioso), aquele que a domina, a apazigua e a ab-
o domina”1. Mas o objetivo final do interrogatório, sorve depois de havê-la sabiamente desencadeado1.
ali onde encontra sua razão de ser, onde cumpre Deixemos de lado, por enquanto, as semelhan-
sua função, é no momento preciso em “que o sujei- ças que possam existir entre este quadro do século
to interrogado não só reconheça a existência de sua XIX e as estratégias terapêuticas que se perpetua-
loucura delirante mas que ele possa atualizá-la, de ram até nossos dias, ainda quando hoje possamos
modo efetivo, no momento do interrogatório”1. falar de desmanicomialização psiquiátrica, para
Cabe ao psiquiatra a confirmação final. Ele deve retornar à história do encerramento psiquiátrico.
presenciar a enunciação da loucura sob a forma Parece inevitável que nos formulemos uma per-
do reconhecimento, provocando uma confissão: gunta: quais as razões que legitimaram e justifica-
“Sim, eu escuto vozes”. Ou então, deve provocar o ram, por quase duzentos anos, a estratégia do en-
desencadeamento da doença suscitando as aluci- cerramento psiquiátrico? É bem conhecida a ima-
nações, provocando a crise histérica. Trata-se, re- gem do Pinel libertando os loucos de suas corren-
sumidamente, de gerar o enunciado confirmató- tes, e é nesse gesto simbólico do humanismo mo-
rio: “Sim, eu sou louco”. derno que o encerramento psiquiátrico encontra
Esta técnica não pode ser entendida a não ser sua legitimidade e razão de ser. O manicômio per-
dentro da lógica das estratégias e mecânicas de po- mite que se articulem magistralmente dois proble-
der: atribuição de identidade, diferenciação norma- mas sociais: a garantia de harmonia da ordem so-
lidade- anormalidade, estabelecimento de faltas e cial (que exige ser protegida contra a ameaça de
responsabilidades e, finalmente, atribuição da lou- desordem) com certas exigências de cura que fa-
cura. E é no interior dessas estratégias de poder que lam da eficiência terapêutica do isolamento e do
a psiquiatria encontra sua razão de ser. O interro- encerramento.
gatório possibilita o reconhecimento do doente Nesse contexto, Esquirol pode enunciar as cin-
como louco, mas possibilita também o reconheci- co razões principais para o isolamento dos loucos:
mento do próprio saber psiquiátrico. Como afir- (1) assegurar a segurança pessoal e da família; (2)
ma Pinel em uma entrevista estudada por Foucault: libertá-los das influências exteriores; (3) vencer suas
A terapêutica da loucura é a arte de subjugar e de resistências pessoais; (4) submetê-los a um regime
dominar, por assim dizer, ao alienado, pondo-o em médico; (5) lhes impor novos hábitos intelectuais e
estreita dependência de um homem que, por suas morais. Vê-se claramente que se trata de uma ques-
qualidades físicas e morais, está apto para exercer tão de poder, medir o poder do louco, neutralizar os
sobre ele um domínio irresistível e é capaz de trocar a poderes exteriores, estabelecer sobre ele um poder te-
cadeia viciosa de suas idéias1. rapêutico e de moralização1.
Como vemos, O poder psiquiátrico se inscreve É importante destacar que quando a psiquia-
dentro de outro marco de preocupação diferente tria fala de loucura não se refere a julgamentos
de A história da loucura. O que interessa agora é errados, não se refere à falta de correlação entre
traçar uma analítica do poder psiquiátrico: O hos- enunciados e coisas, como ocorria na época clássi-
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ca. O encerramento psiquiátrico coincide com esse sobre os indivíduos não se opera simplesmente pela
momento em que a loucura deixa de perceber-se consciência ou pela ideologia, mas começa no corpo,
como engano e passa a ser pensada como “anor- com o corpo. Foi no biológico, no somático, no cor-
malidade”. Não se trata de uma preocupação com poral que, antes de tudo, investiu a sociedade capita-
os falsos julgamentos, como ocorria no caso do lista. O corpo é uma realidade biopolítica7.
Quixote magistralmente analisado por Foucault Entretanto, é no quinto capitulo de A vontade
em As palavras e as coisas, mas sim de um modo de de saber que Foucault esclarece e aborda atenta-
atuar, de conduzir-se, de querer, de desejar, que mente o conceito de biopoder por oposição ao di-
traduz paixões incontroladas, forças desatadas, reito de morte que caracterizaria o poder do sobe-
moralidades indesejadas. A partir de Esquirol e rano8. Por fim, essa temática será discutida no
Pinel, a loucura não se inscreve mais sob o eixo curso do Collège de France dos anos de 1975 e
“verdade-engano-consciência” e sim sob o eixo 1976, dedicado à problemática da guerra de raças e
“paixão-vontade-liberdade”. O psiquiátrico será as suas relações com o biopoder 9 no curso dos
esse lugar onde a vontade perturbada, as condutas anos de 1977-1978, Segurança, território e popula-
indesejadas, as paixões pervertidas se defrontam ção10, e no curso dos anos de 1978-1979, dedicado
com a retidão da moralidade socialmente espera- a O nascimento da biopolitica11.
da. Entre vontade e terapêutica se estabelece um Foucault considera como feito determinante da
processo de oposição, de luta, de dominação. Como construção das sociedades modernas o processo
afirma Esquirol: “é necessário aplicar um método pelo qual a vida, isto é, a vida nua, a vida natural
perturbador, é necessário subjugar o caráter intei- que compartilhamos com os animais, passa a ser
ro de certos doentes, vencer suas pretensões, do- investida por cálculos explícitos e por estratégias
minar seu orgulho”1. de poder. O momento em que a vida ingressa,
como elemento privilegiado, no registro da políti-
ca. É por oposição à concepção aristotélica de “ho-
Biopoderes e poder psiquiátrico mem” que Foucault pensa o exercício da biopolíti-
ca: Por milênios o homem permaneceu o que era
Se tentamos analisar estas estratégias a partir do para o Aristóteles: um animal vivente e, além disso,
conceito foucaultiano de biopoder, veremos que capaz de existência política; o homem moderno é
surgem certas questões que precisam ser discuti- um animal cuja em cuja política está em questão a
das. É necessário que nos interroguemos acerca da sua vida de ser5.
especificidade desse poder disciplinar que não se Como vimos, quando falamos de loucura, não
refere a corpos, pois se caracteriza pela ausência do é o corpo mas a moral, as paixões, a vontade, o
corpo; que, mais que impor classificações nosoló- que está em questão, o que deve ser normalizado
gicas, distribui binariamente a loucura e a sanida- ou melhor docilizado. No processo de cura, não se
de, a normalidade e a patologia; e que, ao mesmo trata de dissipar enganos de compreensão, percep-
tempo, é capaz de impor mecanismos de sobre- ções enganosas, julgamentos falsos; trata-se, como
poder do médico sobre o paciente que, em certos afirma Esquirol, em 1816, de conseguir o retorno
casos, podem ser melhor identificados com o po- às afeições morais em seu justo limite, o desejo de
der soberano de vida e de morte que com os bio- rever a seus amigos, a seus filhos, as lágrimas de sen-
poderes próprios da modernidade. sibilidade, a necessidade de abrir seu coração, de re-
Deveremos nos perguntar acerca da inscrição encontrar-se em seu meio familiar, de retomar seus
desse biopoder psiquiátrico próprio da moderni- hábitos1. Nesse processo terapêutico, nada se refe-
dade no interior das estratégias anatomopolíticas re ao corpo, não se fala de vigor, não se fala de
referidas ao corpo (já que falamos de corpo au- capacidades físicas, nem de maximização das for-
sente) e no interior das estratégias biopolíticas re- ças de trabalho, fala-se de moralidade, de sensibi-
feridas às populações (já que falamos de corpo lidade, de lágrimas.
ampliado, de herança, de família). Há algo que parece estar ausente nesse proces-
Recordemos que o conceito de biopoder foi pela so de cura. O papel que o corpo desempenha na
primeira vez enunciado em uma conferência minis- sociedade capitalista. Não é no biológico, no so-
trada por Foucault, em 1974, na Universidade Esta- mático, no corporal que se investe como o deter-
dual de Rio de Janeiro. Essa exposição foi publicada minariam as exigências da sociedade capitalista.
em 1977 com o nome de O nascimento da medicina Aqui a realidade biopolítica do corpo parece ter
social, publicado em A microfísica do poder7. Nesse sido substituída por uma realidade pré-moderna,
texto, Foucault aponta um deslocamento significa- pré- capitalista, pré-corporal. Ao corpo ausente
tivo nas estratégias de poder, o controle da sociedade do louco não lhe corresponde um processo tera-
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Caponi S

pêutico de restituição do corpo que falta, mas um populações que pertencem ao espaço da vida nua e
processo terapêutico moralizador que guarda enor- aquelas que formam parte da vida ativa, isto é, da
mes semelhanças com os ritos de purificação reli- condição humana que deve ser cuidada, estimula-
giosos pré-modernos. Dos dois pólos que caracte- da, multiplicada. Mas, para multiplicar a vida e o
rizam a disciplina, força de trabalho aumentada e cuidado com os cidadãos, para garantir seus direi-
capacidade de resistência diminuída, ou maior vi- tos, seu vigor e sua saúde, pode resultar legítimo
talidade, maior docilidade, aqui só achamos o se- admitir como precondição a existência de dois
gundo pólo. A ausência de corpo da que fala Fou- mundos, o mundo dos direitos e o das “exceções”, o
cault nos impede de situar a psiquiatria dentro dos mundo dos corpos que devem ser cuidados e o
saberes disciplinares que formam parte da anato- mundo habitado por aqueles que têm o estatuto de
mopolítica do corpo humano a qual esse autor se vida nua, de vidas que foram postas “fora da juris-
referirá anos mas tarde. dição humana” de modo tal que “a violência come-
Mas não é só esta distância em relação ao bio- tida contra eles não constitui nenhum sacrilégio”14.
poder próprio da modernidade o que parece ficar Basta analisar os documentos que descrevem
em evidência com uma releitura a posteriori de O o tratamento recebido pelos doentes nos hospitais
poder psiquiátrico. A psiquiatria, centrada em es- psiquiátricos, tantas vezes denunciado e evidencia-
tratégias de poder tais como o interrogatório e o do por Franco Basaglia e muitos outros15-17; basta
encerramento, fala de um excesso de poder por pensar em estratégias de poder brutais, como o
parte do médico, algo semelhante ao sobre-poder eletrochoque, ou aparentemente banais, como o
real referido por Foucault em A história da sexua- isolamento punitivo, ainda aplicadas em várias
lidade I5 (1978), que nos obriga a questionar sua instituições psiquiátricas, para verificar a existên-
afirmação de que a psiquiatria faz parte desse dia- cia e a permanência dessa “vida nua” analisada
grama de poder próprio da modernidade ao que por Agamben como a contraface do biopoder.
chamará “biopoder”. Mas essas estratégias de poder utilizadas clas-
A ausência de corpo, o diagnóstico binário, a sicamente pela psiquiatria não se limitam às insti-
descrição impressionista (de superfície) dos sinto- tuições fechadas, ao encerramento psiquiátrico, elas
mas, a classificação de doenças cujo modelo parece persistem ainda nos centros de atenção psicosso-
ser mais próximo da classificação botânica de Li- cial toda vez que a intervenção terapêutica se limita
neu que da nosologia patológica da medicina clíni- à reiteração dessas duas velhas estratégias própri-
ca, o processo de cura diretamente vinculado à res- as do saber psiquiátrico do século XIX: o interro-
tituição de condutas e valores morais, a desconsi- gatório e o uso de drogas.
deração relativa à maximização do corpo como Lamentavelmente, ainda hoje muitas vezes a
força de trabalho tão cara ao capitalismo e, por reforma psiquiátrica e a desmanicomialização se
fim, o sobre- poder exercido pelo psiquiatra, pare- limitam a descentralizar essas velhas tecnologias
cem falar da persistência de um antigo modelo de de poder. Muitas vezes, por falta de estrutura, de
poder, um modelo pré-moderno e pré-capitalista, medicação adequada ou de programas de inser-
um resíduo do antigo poder soberano. ção comunitária, essas velhas tecnologias de poder
Como afirma Didier Fassin12, as leituras con- próprias da psiquiatria clássica se reproduzem nos
temporâneas do conceito de biopoder se limita- centros psiquiátricos de referência que no Brasil
ram a utilizar essa referência em diferentes contex- conhecemos com o nome de CAPS. É verdade que
tos sem argumentar sobre seu alcance teórico, com a ordem da psiquiatria deixou que ser o interna-
exceção de dois autores provenientes da tradição mento e o encerramento; porém, hoje se trata de
filosófica, Agnes Heller13 e Giorgio Agamben14. Não medicalizar e dominar as paixões, os delírios e os
deixa de ser significativo que as duas obras que mais maus hábitos pelo uso de psicofármacos que só
contribuíram para repensar esse conceito se inspi- algumas vezes se mostram eficazes.
raram no trabalho de Hannah Arendt, que fundou, Em lugar de docilizar pelo encerramento físico
paralelamente a Foucault, uma teoria do governo manicomial, dociliza-se pelo encerramento quími-
referido à vida12. Tentamos analisar o curso do co, pelo isolamento que impõe o uso de psicofár-
Foucault de 1973-1974 a partir da articulação en- macos que modelam os hábitos e as condutas, que
tre o conceito foucaultiano de biopoder e a releitu- dominam os pensamentos e os delírios, que mini-
ra feita por Agamben. mizam o risco de violência, mas que, ao mesmo
A biopolítica, modalidade de exercício do poder tempo, exigem um custo muito elevado. O custo
própria dos Estados modernos, no momento que de perpetuar a idéia da psiquiatria clássica de “au-
garante a sobreposição entre vida e política, possi- sência de corpo do louco”. Só quando imaginamos
bilita que com um mesmo gesto sejam definidas as essa ausência de corpo podemos compreender que
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Ciência & Saúde Coletiva, 14(1):95-103, 2009


sejam legitimados e minimizados os graves efeitos
secundários e indesejados dessas drogas, tais como
a impotência, o sono e fadiga permanente, a dor
física, a insensibilidade corporal.
Quiçá deveríamos discutir o papel da psiquia-
tria em esses novos espaços de atendimento. Ob-
servar se ainda se perpetuam os velhos instrumen-
tos de poder hoje reduzidos a dois: interrogatório e
uso de drogas. Verificar se ainda persistem as difi-
culdades de classificação das doenças subordina-
das à atribuição de um diagnóstico binário louco-
não louco. Analisar o papel que o corpo, a morali-
dade, as paixões ocupam no atual discurso psiqui-
átrico. Então, quiçá, possamos descobrir estratégi-
cas alianças entre as os biopoderes próprios da
modernidade e a persistência de estruturas de sa-
ber-poder, pré-modernas e pré-disciplinares.

Referências

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re de la pensée medicale. Paris: PUF; 2003. p. 176 -179. Versão final apresentada em 25/04/2007