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Axills Rio de Janeiro/Rio de Janeiro: Edição Independente, 2011. 75 p. Rio de Janeiro 2011. Todos os direitos reservados Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons

Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons Capa: Axills Produção Editorial: Samuel Achilles Revisão

Capa: Axills Produção Editorial:

Samuel Achilles Revisão e Formatação:

Alessandra Bertazzo

2011

Trovart Publications

Produção Editorial: Samuel Achilles Revisão e Formatação: Alessandra Bertazzo 2011 Trovart Publications Visceral

Visceral

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SUMÁRIO

Prefácio

 

7

Certíssima mors

8

Bonsai

9

10

Torto

11

Volúvel

12

A

nau

13

Desconexo

14

Lusco-fusco mítico

15

Destilado

16

Ponto cego

17

Vômito

18

Desgosto

19

Atos falam alto

20

Fofoca

21

Soneto de uma rima só

22

Surto

23

Piso de granito

24

Rasguei o véu que me encobria

25

Deslocamento zero

26

Atarantado

27

Colecionador de sonhos perdidos

28

Caleidoscópio

29

O

teu cabelo não, nêga!

30

Maldade da cadela

31

Peteca

 

32

Saturnal

33

Cybernético

34

O

mel das cobras

35

Rio 2016

Rio 2016

36

Marisa

37

Jazigos

38

Sem rumo

39

Ledo engano

40

Desvario

41

Mobilidade godard

42

The book is on the table

43

Happy birthday, sam

44

Prantos

46

Troca de plantão

47

Meu bem querer

48

A

nado

49

Coragem

50

Certo tempo

51

Rendimentos

52

Mulher fracionada

53

A

morte

54

Duas luzes

 

55

Bruna

56

O

tempo urge

58

Amigo sol

59

Pelezinho

60

54 Duas luzes   55 Bruna 56 O tempo urge 58 Amigo sol 59 Pelezinho 60

Visceral

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Diamante

61

Veni vidi vici

62

Pérolas aos porcos

63

Sou o que sou

63

Mente presa

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Tristeza

66

Cabisbaixo

67

Mente insana

68

Vazio concreto

69

Knockdown

70

Posfácio

72

Minibiografia

74

Contatos com o autor

75

concreto 69 Knockdown 70 Posfácio 72 Minibiografia 74 Contatos com o autor 75 Visceral

Visceral

5 O(RATÓ)(RIO) Ó Deus, livra tu o cristo das balas perdidas! Visceral
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O(RATÓ)(RIO)

5 O(RATÓ)(RIO) Ó Deus, livra tu o cristo das balas perdidas! Visceral

Ó Deus, livra tu o cristo das balas perdidas!

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VENTO Eu, cata-vento Levado pela ventania E varrido do mundo Visceral

VENTO

Eu, cata-vento Levado pela ventania E varrido do mundo

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Este livro, caro leitor, não se trata de um tratado do esgoto, mas também não mapeia a podridão da minha alma. Convencionei-me a enxergar meus escritos como poemas e prosas por culpa da pedagogia que a mim me foi imposta. Das escorrências dos meus medos, das inflamações da minha fúria e dos resíduos resultantes das expectoração da minha mesquinhez surgem ideias que formatam este trabalho. Cada pedra no caminho é só um objeto de tropeço. Nunca fiz castelos. Não sou pedreiro ou engenheiro. Sou um construtor de textos e por isso costumo usar as pedras no caminho para tropeçar, de forma proposital, obtendo assim a matéria prima para a minha obra. Gosto de olhar nos olhos do meu tédio, escutar os choros de minhas angústias e dos sofrimentos alheios através de um noticiário de fim de tarde. Meu voyeurismo é ver o mundo sangrando em sua escatologia e transmitir isso numa lírica forma onanista para um papel amassado com uma caneta falhando. Este livro, estimado leitor, é concernente de algumas imagens remoídas e ruminadas por mim e que se mantiveram presas em minhas entranhas poéticas. São palavras que não foram defecadas em minhas censuras e nem mesmo vomitadas nas canções de os meus momentos anti-higiênicos. Portanto, antes que apodrecessem em mim em forma de neoplasma maligno, eu as expus, fazendo um corte profundo no abdômen do meu lirismo séptico, revelando minhas vísceras verminadas.

fazendo um corte profundo no abdômen do meu lirismo séptico, revelando minhas vísceras verminadas. Axills Visceral

Axills

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CERTÍSSIMA MORS

8 CERTÍSSIMA MORS Vós que pagais muito para quem chuta uma bola Vós mortais, mortos sem

Vós que pagais muito para quem chuta uma bola Vós mortais, mortos sem voz Vós que desprezais os que ajudam na reciclagem do planeta Vós que valorizais a imundície do sistema Império de problemas Vós que buscais o belo na feiura Vós que matais a vós mesmo As sílabas do amor vós apagastes do vosso coração Vós que ouvis a voz da “anti-razão” Da bifurcação universal da teórica criação

Vós maculados da imaculada culpa perdoada Vós que dominais a ciência da destruição Vós que enriqueceis o inutilizável Vós que vos esqueceis dos esquecidos Dos bramidos dos animais e da floresta Vós que cultuais madeiras e gessos e tantas tintas retintas

Vós que acumulais riquezas sem importância Vós que alimentais a ganância, a gula, a fula chula folia das fulanas. Vós que geris girinos gélidos dos vossos medos empoçados Convosco estão as algemas da vossa liberdade

A

vida repleta de morte

O

oxigênio poluído pela vossa respiração

Vós que vos ensandeceis por vontade própria Vós que fechais os olhos para vossos falsos juízos Vós que acobertais os erros que vos favorecem Vós que subjugais os inocentes indefessos Vós que ofuscais o lusco-fusco do vosso amanhecer

Permaneceis a dormir ou acordais para a noite de um mundo muito escuro

Longa vale tudo, certíssima mors.*

* Doença comprida em morte acaba

para a noite de um mundo muito escuro Longa vale tudo, certíssima mors.* * Doença comprida

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BONSAI

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BONSAI 9 Alphonse de Lamartine Não tente tolher o meu querer, o meu amor Nem tente

Alphonse de Lamartine

Não tente tolher o meu querer, o meu amor Nem tente restringir o crescimento da minha aproximação O efeito disso não será uma arte bonsai Será sim uma árvore ressecada, Sem folhas, Sem frutos,

Sem ninho de pássaros

disso não será uma arte bonsai Será sim uma árvore ressecada, Sem folhas, Sem frutos, Sem

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PÓ 10 Amado Nervo O amor não será mais tudo Como foi um dia que não

Amado Nervo

O amor não será mais tudo

Como foi um dia que não volta mais Ele foi e já não é

Lá no meu passado distante e diferente Onde o amor era tudo Mas hoje até o tudo é nada

E o amor virou nada

Virou sucata

Virou lixo

Virou a lata de leite que, como ele, Virou pó. Virou pó. Virou a lata de leite que, como ele, Virou lixo Virou sucata

E o amor virou nada

Mas hoje até o tudo é nada

Onde o amor era tudo Lá no meu passado distante e diferente Ele foi e já não é Como foi um dia que não volta mais

O amor não será mais tudo

distante e diferente Ele foi e já não é Como foi um dia que não volta

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TORTO

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TORTO 11 Mário Quintana Rodo torto em rodas de samba, final de semana Tocarei meu barco

Mário Quintana

Rodo torto em rodas de samba, final de semana Tocarei meu barco e lavarei as escadarias da minha igreja Nada como uma boa embriaguez e Oxalá eu serei Tupã Enfezarei meus fardos e fétidos pensamentos Das minhas avenidas engarrafadas Do indigesto vômito da minha indigestão

Lavo minhas escadarias,

engarrafadas Do indigesto vômito da minha indigestão Lavo minhas escadarias, Sambo feliz Foda-se o mundo Visceral

Sambo feliz

Foda-se o mundo

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VOLÚVEL

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VOLÚVEL 12 Jane Austen Meu amor é como a fumaça que é facilmente sugada pelo exaustor

Jane Austen

Meu amor é como a fumaça que é facilmente sugada pelo exaustor rebolado de qualquer rabo de saia.

Ah Eu quero a mulher que passa Eu quero aquela parada e quero a que já passou.

Meu coração segue sem destino pelas ruas da vida

À procura de algo que preencha esse infinito vazio

Quantas serão preciso?

Meu corpo é um balde que acumula medos e muitas mentiras de beijos e orgasmos multiplicados pelas cicatrizes da alma que pena presa e sufocada querendo o resto da respiração perdida.

Meus sentimentos são nuvens que não dão chuva e não geram colheita. Mas tudo bem, nada foi plantado.

As sementes jogadas não encontraram solo nem mesmo arenoso.

O sol castiga,

Mas não vou reclamar, meu clima é climatizado.

jogadas não encontraram solo nem mesmo arenoso. O sol castiga, Mas não vou reclamar, meu clima

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A NAU

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A NAU 13 Henrique Jardiel Poncela Nublado em meus medos sem amor Sofri toda essa ânsia,

Henrique Jardiel Poncela

Nublado em meus medos sem amor Sofri toda essa ânsia, solidão Contrato que firmei com minha dor Seguir o meu caminho sem paixão

Orgíaco seguia, fútil amargor Maníaco e demoníaco coração Perfume em corpo e fétido pudor Depressa o depressivo homem-cão

No Baco embalado no furor Das noites de infância e recreação Do bêbado momento, vida em flor

Embarco nesse barco condutor Navio sem comandante ou capitão Dos beijos que beijei por um valor

vida em flor Embarco nesse barco condutor Navio sem comandante ou capitão Dos beijos que beijei

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DESCONEXO

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DESCONEXO 14 Salvador Dali Nutrirei meu lado esquerdo demagogo Disfarçarei pedantismos pedagogo Enforcarei feriado no

Salvador Dali

Nutrirei meu lado esquerdo demagogo Disfarçarei pedantismos pedagogo Enforcarei feriado no sufoco Versarei cada verso em verbo louco

Cantarei vocais cordas bicho solto Beberei aguardente em quente fogo

Desprezarei Todo teto, toda tralha e tal

Desprezarei Tira teima e texto teatral

Desprezarei Tamanco, tabaco, tutorial

Desprezarei Túnica, Tebas, Taj Mahal

Desprezarei Tu e o til da tez do ator total

Desprezarei Tara touro um tera do termal

Desprezarei Truta traz a treta até traval

Desprezarei Tinta em tela toma tamargal

Desprezarei Tabua do tabu tri tabucal

Desprezarei Trena torta e tato trifocal

Desprezarei Tatu torrado em terra tremedal

Tétano tutano inté e tchau

Desprezarei Trena torta e tato trifocal Desprezarei Tatu torrado em terra tremedal Tétano tutano inté e

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LUSCO-FUSCO MÍTICO

15 LUSCO-FUSCO MÍTICO Mário Quintana Na rua ruim de minhas arruaças De onde nascem flores, versos

Mário Quintana

Na rua ruim de minhas arruaças De onde nascem flores, versos líricos Regadas em ódio, brigas e murraças Amadas pela amada e não por críticos

Nas plumas inspiradas, penas e asas De longe as palmas gestos tão políticos O gelo derretido apaga as brasas Do lusco-fusco ofuscador e mítico

Cansado é o meu texto mesmo morto Nascido ontem para cremação Vertido mote em monte escroto e torto

Do falecido pensamento cão Absurdo absorvo réu do instinto extinto Beleza ganha o verso quando minto

e torto Do falecido pensamento cão Absurdo absorvo réu do instinto extinto Beleza ganha o verso

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DESTILADO

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DESTILADO 16 Ludwig Wittgenstein Na mão os visgos Do puxa-saquismo Elogiando rabisco Do escritório em panela

Ludwig Wittgenstein

Na mão os visgos Do puxa-saquismo Elogiando rabisco Do escritório em panela Se cismo com cisco nos olhos alheios Não mesmo, Nem com os mariscos fétidos do hálito dos teus versos

panela Se cismo com cisco nos olhos alheios Não mesmo, Nem com os mariscos fétidos do

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PONTO CEGO

PONTO CEGO Horácio 17 Vão à merda Vão à merda víboras tagarelas Vão à merda em

Horácio

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17

Vão à merda

Vão à merda víboras tagarelas Vão à merda em anáforas

À merda de merda diáforas

Vão à merda assassinos meninos do povo facínora Da diáspora e da gólgota Vão à merda os grânulos dos glóbulos Das superfícies ásperas citoplasmáticas Do grupamento das pequenas partículas arredondadas Estímulos de substâncias das células de minha secreção

Vão à merda Mundo a fora que devora

Vão embora doutoras ensurdecedoras senhoras impostoras que imploram

O raiar da aurora que demora o agora que não haverá hora de chegar

Apenas o nunca de todo instante Zombador do tempo exato cravado em ponto cego do relógio parado na parede

chegar Apenas o nunca de todo instante Zombador do tempo exato cravado em ponto cego do

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VÔMITO

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VÔMITO 18 Marquês de Maricá Não venha me dizer que a poesia será eterna Do poeta

Marquês de Maricá

Não venha me dizer que a poesia será eterna Do poeta debaixo da terra Não comentamos nem os vivos poetas Não relemos nem nossos próprios textos

E os jogamos a esmos como um esperma

Esperando que eles corram pelo mundo

Sem amparos, andadores ou muletas

A morte de um poeta é uma facada na poesia

E, com raras exceções, é enterrada viva e hemorrágica com seu falecido dono

um poeta é uma facada na poesia E, com raras exceções, é enterrada viva e hemorrágica

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DESGOSTO

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DESGOSTO 19 Victor Hugo Meu reflexo no espelho cuspiu em meu rosto A minha sombra fazia-me

Victor Hugo

Meu reflexo no espelho cuspiu em meu rosto

A minha sombra fazia-me gestos obscenos

Traiu-me às costas

Nas encostas aves de rapina Vôos rasantes Gritavam-me ao pé do ouvido

O coração doído de tantos sentimentos falidos

Pulsava-me sangue enferrujado pelo uísque importado falsificado

O cigarro apagado de um lado

Um fósforo molhado, do outro

E eu aceso na escuridão dos meus medos

Pensando

Pensando

Pensando

"Alguém ainda gosta de mim?"

do outro E eu aceso na escuridão dos meus medos Pensando Pensando Pensando "Alguém ainda gosta

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20

ATOS FALAM ALTO

20 ATOS FALAM ALTO Anônimo Amor tem confiança, não aceita ledo engano E desmascara todo aleive,

Anônimo

Amor tem confiança, não aceita ledo engano

E desmascara todo aleive, todo riso falso

A falsidade sempre há de imperar um ano

Esmaga o tempo-amor, percalço calço em cadafalso

Vem, fala sério, como podes crer que eu queira dano? Desgruda, tira o nó, desfaz-se assim o acordo balso Consagra a mim, no peito crava a faca, foi-se fano Cardume peçonhento, aguento o tranco até descalço

A vida sempre ensina cada dia terá seu mal

Contudo, segue em frente, bate o pé, levanta astral Inclina a face, estufa o peito forte e abissal

Infante frente à guerra, pela terra nada a nau

A luta para si não para enfim a luz dos sóis

Tão alto são teus atos, nem escuto o som da voz

terra nada a nau A luta para si não para enfim a luz dos sóis Tão

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FOFOCA

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21
FOFOCA 21 Provérbio turco Não fale o que quiser e quando quiser Aprenda a controlar a

Provérbio turco

Não fale o que quiser e quando quiser Aprenda a controlar a língua má Seu freio mordaz a dentição qualquer Se a boca fecha a mosca não vai lá

Também não há de vomitar na colher Falar demais com gestos, deixa estar A briga de casal, de homem x mulher Qual triturada carne o linguajar

Aprenda e prenda a língua sua na boca Enforque-a, force com a força bruta Enfarte mas segure feito louca

Esquente mas aguente e vença a luta Do vício que entranha como coca Da gente que nem sente sua fofoca

louca Esquente mas aguente e vença a luta Do vício que entranha como coca Da gente

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SONETO DE UMA RIMA SÓ

22 SONETO DE UMA RIMA SÓ Gertrude Stein Aristocrata preso em nobre ouro ensamblado Banhado em

Gertrude Stein

Aristocrata preso em nobre ouro ensamblado

Banhado em prata faca mostra rosto esticado

A fruta em lata come e bebe e segue engasgado

Laranja em pata janta e dorme noites assombrado

Assume em ata exerce e escreve vícios acordado Burguês na mata mata a caça em tiro ofuscado Satã em sarta comprime escravos, reza perdoado

A mesa farta alastra e rompe um ego condenado

Um democrata oprime classes couro em estofado Em concordata lucra percentagens malogrado Em queda salta desce para cima afortunado

Jogar jogata vence a todos mesmo tão parado

A vida morta deve a alma em dia endiabrado

Em catarata vista grossa manda endinheirado

a todos mesmo tão parado A vida morta deve a alma em dia endiabrado Em catarata

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SURTO

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SURTO 23 H. F. Amiel Floriu no meu jardim qual flor tulipa Amélia perfumada cores várias

H. F. Amiel

Floriu no meu jardim qual flor tulipa Amélia perfumada cores várias Sorriso riu pra mim que a dor dissipa

A deusa deu-me luz videira agrária

Vez fértil fez-se minha participa

A chuva molha terra pulmonária

Espalha a maravilha o verde equipa Tempera, aduba, nutre a vida pária

Mas nada dura em dura lida enliça

A

pomba trouxe ao bico um ramo, um galho

E

nasce nesse campo inteiriça

Uma erva cujo eu solo fui paspalho

A foto sem tua tese farta em furto

Orvalho órfão e só sem sol eu surto

Uma erva cujo eu solo fui paspalho A foto sem tua tese farta em furto Orvalho

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PISO DE GRANITO

24 PISO DE GRANITO Ovídio Eu piso em piso de alto brilho são granitos caros A

Ovídio

Eu piso em piso de alto brilho são granitos caros

A marcha dessa minha vida foi recompensada

Por sobre trilhos sendo andarilho sem amparos

Agora em certa hora vida acorda artesoada

A lira canta ao lírio árias, ouço tom de avaro

Arteira arte vira céu um duro chão, calçada Qual flecha fecha alvo, acerto todo meu disparo Eu juro frente a juros lucro grana nessa alçada

Estendo mão pra nada, vem-me tudo a face, fácil Bizarro garbo em garfo arfa a dor de muita inveja Segredo assim calado nada falo sigo grácil

Estupidez estupefata viro a própria igreja

A

carne gera carne vem os dividendos disso

E

seguem mãos atadas paga alguém os compromissos

igreja A carne gera carne vem os dividendos disso E seguem mãos atadas paga alguém os

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25

RASGUEI O VÉU QUE ME ENCOBRIA

25 RASGUEI O VÉU QUE ME ENCOBRIA Antero de Figueiredo Rasguei o véu que me encobria

Antero de Figueiredo

Rasguei o véu que me encobria

E me vi dissimulado

Egoísta disfarçado de bom samaritano

Caloroso amigo minuano

Rasguei o véu que me encobria

E me vi arrevesado

Iluminando vida alheia Com minha “pseudo-claridade” Pura maldade maquiada de bondade

Rasguei o véu que me encobria

E vi minhas plásticas

Intrínsecas na pele da face, máscaras

maquiada de bondade Rasguei o véu que me encobria E vi minhas plásticas Intrínsecas na pele

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26

DESLOCAMENTO ZERO

26 DESLOCAMENTO ZERO Voltaire Amanhã será ontem disfarçado de hoje Como hoje amanhã será ontem Como

Voltaire

Amanhã será ontem disfarçado de hoje Como hoje amanhã será ontem Como em o tudo sempre faltou parte E em o nada que sempre teve algo em algum nunca

De esse tudo de um todo incompleto De um espaço apertado e oco De um interno exposto do externo reprimido

Cortem-se as rotinas daquilo que nunca foi feito De esse nosso ir e vir de deslocamento zero.

externo reprimido Cortem-se as rotinas daquilo que nunca foi feito De esse nosso ir e vir

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ATARANTADO

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27
ATARANTADO 27 Plínio Salgado Atarantado sou um ser atarantado Ébrio sem álcool Sedento por terra planetária

Plínio Salgado

Atarantado sou um ser atarantado Ébrio sem álcool Sedento por terra planetária

O alienista alienado de machado Cortando árvores centenárias

De uma paixão rubro-negra insana Aprendiz de artes marciais Para evitar briga

Atarantado, sou um ser atarantado Marciano de Júpiter, Estrangeiro na Terra.

de artes marciais Para evitar briga Atarantado, sou um ser atarantado Marciano de Júpiter, Estrangeiro na

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28

COLECIONADOR DE SONHOS PERDIDOS

28 COLECIONADOR DE SONHOS PERDIDOS Talmude babilônico Encontrei um sonho de uma menina na praia Ela

Talmude babilônico

Encontrei um sonho de uma menina na praia Ela o perdeu por lá quando sua mãe se distraiu

E a deixou se afogar em meio a águas-vivas

Encontrei um sonho de um menino soltando pipa Sonho anuviado devido à inalação de cola

E perdido numa chacina na Candelária.

Encontrei um sonho de um velho homem Numa cadeira de balanço e com seu neto no colo Mas este sonho foi perdido num asilo estadual Jogado na sujeira e respingado de maus tratos

Encontrei um sonho, modesto. Um cadeirante sonhava poder ir e vir Ainda que em sua cadeira de rodas Mas esse sonho caiu da escada

E espera por rampas

Encontrei um sonho de um Brasil melhor, Esconderam tal sonho Dentro de alguma peça íntima em Brasília

rampas Encontrei um sonho de um Brasil melhor, Esconderam tal sonho Dentro de alguma peça íntima

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CALEIDOSCÓPIO

29 CALEIDOSCÓPIO J. Dryden A paz existia em cantos separados A guerra psicológica era até suportável

J. Dryden

A paz existia em cantos separados

A guerra psicológica era até suportável

Mas um dia aconteceu

Foi silêncio Até que se acordou o grito adormecido Esquecido na garganta

até suportável Mas um dia aconteceu Foi silêncio Até que se acordou o grito adormecido Esquecido

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30

O TEU CABELO NÃO, NÊGA!

30 O TEU CABELO NÃO, NÊGA! Lamartine Babo - Irmãos Valença O teu cabelo liso desencrespa

Lamartine Babo - Irmãos Valença

O

teu cabelo liso desencrespa a vida?

A

tua pele clara evita o anoitecer?

O

teu cabelo duro amolece a lida?

A

pele negra escura o amanhecer?

Em coma a justiça encontrará saída? Tem como uma cor apagar um ser?

A clara em negra pele é coisa descabida?

A noite da história é dia de esquecer?

A cor de uma pele se trata feio SIDA?

A pele sem ter cor pode favorecer?

A cor acaso suja entrada ou saída?

Acaso uma cor pode pegar você?

feio SIDA? A pele sem ter cor pode favorecer? A cor acaso suja entrada ou saída?

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31

MALDADE DA CADELA

31 MALDADE DA CADELA Platão Vaga numa tortura circulada Arma contra minh’alma desalmada Deixe-a assim plena

Platão

Vaga numa tortura circulada Arma contra minh’alma desalmada Deixe-a assim plena cíclica, ciúme Ferro com fogo alarda meu costume

Praga d’uma formosura encantada Cai, sarna! Afronta a calma descascada Segue a mim, cisma do sísmico imune Farpa com faca arranca este azedume

Queridinha da América, do norte Feridinha segue aberta, da sorte Cavidade da caverna perdida

Ladainha cadavérica, morte

O que tinha entre as pernas pra corte

A maldade da cadela da vida

da caverna perdida Ladainha cadavérica, morte O que tinha entre as pernas pra corte A maldade

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PETECA

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32
PETECA 32 Anacársis Tem gente louca, metida e atrevida Tentando descobrir o que não sabe Deduz

Anacársis

Tem gente louca, metida e atrevida Tentando descobrir o que não sabe Deduz que em sua vida é bem quista, querida

E chega a interferir e a ferir

Sem você perceber

E

suga sua energia

E

espera o seu agradecer

E

feito uma lombalgia

Fica grudada em você

E que jura ajoelhada

Que é por amor, bem querer

Que sabe seus problemas Pra solução já tem esquema

E você nunca se deixou conhecer

Segure essa peteca

O que é que se pode fazer?

Pra solução já tem esquema E você nunca se deixou conhecer Segure essa peteca O que

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SATURNAL

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33
SATURNAL 33 Jean-Paul Sartre Horas vagas comprometidas No calor de um gélido olhar fumegante de Vênus

Jean-Paul Sartre

Horas vagas comprometidas No calor de um gélido olhar fumegante de Vênus Que já havia desprezado meus primos Júpiter, Urano e Mercúrio Dispensei a brisa Entreguei-lhe anéis Nada que ela fizesse atingiria minha alquimia

Eu chumbo

Eu saturno

Dispensei a brisa Entreguei-lhe anéis Nada que ela fizesse atingiria minha alquimia Eu chumbo Eu saturno

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CYBERNÉTICO

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34
CYBERNÉTICO 34 Pablo Picasso Jamais entenderei os meus bits e bytes Ou o que dos meus

Pablo Picasso

Jamais entenderei os meus bits e bytes Ou o que dos meus kbytes

Das palavras que me entram ao ouvido Que meu coração deleta ou processa como spam

Das mulheres que levei pra cama Iludido pelo meu photoshop alcoólico

Dos meus “crtl-vês” para não continuar uma discussão Das vezes que tive que reiniciar a vida Porque ela travou sem motivo

Das vezes que fui infectado pelo vírus da cólera Do mau humor, da arrogância

E não teve jeito

Foi preciso reformatar tudo, sem perdão

De o meu funcionar diário numa programação pirata Meu convencional amplamente difundido

O ilegal implícito à cultura

Da ciência do meu cyber-saber Da minha virtude em virilidade funcional virtual

O ilegal implícito à cultura Da ciência do meu cyber-saber Da minha virtude em virilidade funcional

Visceral

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35

O MEL DAS COBRAS

35 O MEL DAS COBRAS Sadi Tranquei-me nesse mundo sem juízo Um mundo que só há

Sadi

Tranquei-me nesse mundo sem juízo Um mundo que só há lugar pra mim

O nada é eloqüente e exato

Escudo contra qualquer som de fato Estudei o grande livro do feitiço

Olhei no grande espelho e me induzi

E cobri meu corpo com o mel de trinta cobras

Qualquer resgate, qualquer salvar soçobra Tatuei meu corpo com palavras condenáveis Ganhei vermelhidão no olhar

O

sangue em gotas inundando meu rosto

E

no espelho o outro cara não estava

Não quero mais nenhum disfarce Mordido, enraivecido, eu quero encarar Eu vi o doce mel mostrar toda a culpa

Não quero mais nenhum disfarce Mordido, enraivecido, eu quero encarar Eu vi o doce mel mostrar

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RIO 2016

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36
RIO 2016 36 Mahatma Gandhi Então foi assim, Exército, marinha e aeronáutica Resolveram, Já que não

Mahatma Gandhi

Então foi assim,

Exército, marinha e aeronáutica

Resolveram,

Já que não cuidavam das fronteiras do Brasil, Recolher algumas armas de suas várias relapsas vigilâncias limítrofes

Começaram pelo Rio de Janeiro Recolheram as armas e drogas Maconha prensada, crack e cocaína Sendo que, como eu já disse, Muito dessa cocaína havia entrado embaixo de seus narizes

E

juntou-se a eles a polícia civil e militar

E

realmente limparam as ruas das algazarras

O

que há pouco tempo assustava com a ditadura

Hoje trazia segurança e alento Tanques blindados, tropa de choque

Os bandidos foram presos Acabou o comércio de drogas

Mas o caos continuou Eles não haviam previsto As alucinações e desvarios vários Dos adictos usuários viciados enraivecidos Em sua cólera fissura e crise de abstinência.

e desvarios vários Dos adictos usuários viciados enraivecidos Em sua cólera fissura e crise de abstinência.

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MARISA

MARISA Cruz e Sousa Marisa maresia o mar de flores Salga demais o amor tão doce

Cruz e Sousa

Marisa maresia o mar de flores Salga demais o amor tão doce Ócio oceânico, mar sem ondas Cama sem corpos Noite sem lua Céu apagado de estrelas

demais o amor tão doce Ócio oceânico, mar sem ondas Cama sem corpos Noite sem lua
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37

Visceral

JAZIGOS

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38
JAZIGOS 38 W Shakespeare Dentro do escritório de segurança máxima eles usam o celular E dão

W Shakespeare

Dentro do escritório de segurança máxima eles usam o celular

E

dão as ordens para sitiar a cidade

E

de repente ficamos proibidos de ir à rua

Comprar pão, macarrão, feijão Sem poder pisar na varanda Trancamos todas as portas e janelas

Há que sobreviver sem ar nesses dias Trancafiados em algum corredor do apartamento Cercado pelo maior número de paredes

O mercado imobiliário aboliu o drywall

Os apartamentos de fundo e sem vista Triplicaram o valor

O que somos nós cariocas amantes dessa cidade?

Alienados? Conformados? Esperando flamengo, vasco, fluminense ou botafogo ser campeão Não, não somos.

Somos sobreviventes, os de nós que ainda respiram. Como guinus africanos atravessando um rio inundado de crocodilos Do outro lado, na outra margem encontra-se um verde capim

É preciso atravessar o rio,

Como é preciso buscar o pão, o macarrão e o feijão Como é do outro lado que estão as escolas As fábricas, as oportunidades Saímos de casa e atravessamos o rio Alguns guinus são devorados Faz parte de algo chamado cadeia alimentar Como fazemos parte da cadeia alimentar da nossa política de segurança Do nosso governo corrupto, da nossa moderna escravidão Os mais fortes, sortudos e abençoados (ou malditos?) sobrevivem Trancafiados em algum corredor do apartamento Cercado pelo maior número de paredes Com trancas em suas portas e janelas Respirando o pouco de ar que lhes resta em seus jazigos

número de paredes Com trancas em suas portas e janelas Respirando o pouco de ar que

Visceral

SEM RUMO

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39
SEM RUMO 39 Antoine Bret Sem rumo, respirando sei lá como Algo de mim ficou noutro

Antoine Bret

Sem rumo, respirando sei lá como Algo de mim ficou noutro lugar Não recordo o que e nem quando O local também me é desconhecido

Agora não lembro se sinto falta ou alívio Se é um vazio ou uma cova o meu peito Se há marcas da coisa ou daquela

Se tu foste garras de urso ou mandíbula de hiena

vazio ou uma cova o meu peito Se há marcas da coisa ou daquela Se tu

Visceral

LEDO ENGANO

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LEDO ENGANO 40 Homero Eu que pensei que o demonstrar amor Seria tudo Que entregar o

Homero

Eu que pensei que o demonstrar amor Seria tudo Que entregar o mundo

E receber o nada seria o bastante

Que dedicar meu tempo

E direcionar minha vida por sua bússola

Seria mais que suficiente Que abnegar o meu eu, colocando você em uma redoma Fosse esplêndido Pensei que seu sorriso diário fosse sinal de aprovação

Eu estava muitíssimo enganado

redoma Fosse esplêndido Pensei que seu sorriso diário fosse sinal de aprovação Eu estava muitíssimo enganado

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DESVARIO

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DESVARIO 41 Erasmo de Roterdã Como dormindo não como Mas dizem que o sono alimenta Eu

Erasmo de Roterdã

Como dormindo não como Mas dizem que o sono alimenta Eu arvoredo enraizado na tormenta Abraçado ao furacão

Cuspindo folhagens nas nuvens Inundando o ar com aromas vários De meus frutos apodrecidos Recheados de larvas

Mastigo relâmpagos Tusso trovões Espirro granizos

Arranho o céu com minhas unhas mal roídas

Em longa estrada etária Rogo a Deus vida curta Trabalho pra isso

Vomitei a alegria Quando o mau tempo tatuou-se em meu corpo

Desvairei-me

Roubei, pra mim, Katrina Mulher de Tsunami Geramos El Niño

E participei da festa licenciosa que desvirginou a natureza

pra mim, Katrina Mulher de Tsunami Geramos El Niño E participei da festa licenciosa que desvirginou

Visceral

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42

MOBILIDADE GODARD

42 MOBILIDADE GODARD Plutarco Quem faz a vida agarrada ao triste Descolado mundo Perdendo horas contando

Plutarco

Quem faz a vida agarrada ao triste Descolado mundo Perdendo horas contando seu tempo Pra ganhar segundos

Quem faz a vida ímpeto em riste Agarrado ao mundo Preenche a casa e todo o seu espaço De o seu perder profundo

O mundo está sempre girando

Sempre girando

Mas um dia o rio finda no mar

E finda vida cíclica

No mundo que sempre gira

E nunca irá parar de rodar

Mobilidade Godard Misturando-se ao globo terrestre Do formigueiro da fausta flora Ao fulgente pico da montanha inabitável Visitado pelos loucos visionários Conquistadores de aventuras

flora Ao fulgente pico da montanha inabitável Visitado pelos loucos visionários Conquistadores de aventuras Visceral

Visceral

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43

THE BOOK IS ON THE TABLE

43 THE BOOK IS ON THE TABLE Isaac Asimov Tudo o que aprendi foi que o

Isaac Asimov

Tudo o que aprendi foi que o livro deveria estar sobre a mesa Nada mais Pouco sabe minha língua Enrola-se com outras línguas somente Gosta de gostos diferentes

Minhas doloridas mãos nunca viram dólar verdadeiro Apenas um dólar na carteira pra trazer a sorte que nunca tive Pois tudo que aprendi foi que o livro deveria estar sobre a mesa

Is the book on the table?

The book is on the table

E por não saber a língua universal

Isolei-me

Pois não sabia ler o livro que estava sobre a mesa

E vi crianças zombarem de minha ignorância

Sabiam mais que figuras as sábias figuras

E

o pouco que eu sabia se globalizou

E

minhas pernas tremem a ausência de tremas na língua

E

de nada adianta meu velho livro sobre a mesa

Ah, Manuel Bandeira Volta à vida Me dá um cigarro e um metro de trema medido na trena

Is the book on the table?

The book is on the table

à vida Me dá um cigarro e um metro de trema medido na trena Is the

Visceral

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HAPPY BIRTHDAY, SAM

44 HAPPY BIRTHDAY, SAM Pierre Véron Nova York, 11 de abril de 2009 Saio pra caminhar

Pierre Véron

Nova York, 11 de abril de 2009 Saio pra caminhar a procura de algo que não sei o que é Talvez um lugar para esquecer meu aniversário tão pontiagudo Apesar de ser infinito o abismo em meu coração Sempre procuro preenchê-lo de alguma forma

22h, Riverside com 81

A

rua está em obras

O

esgoto daqui tem o mesmo cheiro que o esgoto de onde eu vim

Olho os prédios e tento guardar na memória arquiteturas Percebo que nem a da minha cidade tenho em mente Pontos turísticos, nada mais que isso é o que lembro Babaca que sou continuo a embotar o cérebro dessas imagens comuns Sempre a procura de algo Algo de bom tamanho para infinito vazio

Dez e alguma coisa da noite, 81 com a Broadway Essa avenida me atravessa a angústia Sabe o que procuro Entro nela Hei de me encontrar Algo de bom tamanho Um tampão

Acho estranho parar no sinal Sem ninguém pra limpar meu para-brisa Estaciono sem ajuda de flanelinhas Sigo a procura Sem saber o que reservaria aquela noite Outra auto-tortura entorpecida Ou mulher diferente de língua turva

Nunca transei com uma oriental Tenho esse fetiche

Entro em algum boteco sofisticado da Broadway

Achei o que procurava e que nem eu mesmo sabia Uma boa dose de uísque

E sax de John Coltrane, ainda que cover

Não levo embora nenhuma língua turva Mas um desconhecido me deu um cubano de aniversário Desses presentes que comemoram o teu nascimento e te matam aos poucos Volto pro carro, Queria a ajuda de um flanelinha só pra entrar no carro Deslizo sem destino pelas ruas 81 com a Broadway

carro, Queria a ajuda de um flanelinha só pra entrar no carro Deslizo sem destino pelas

Visceral

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45

Engraçado ou eu estou muito bêbado Ou quando estava sóbrio andei na contra-mão Tô nem aí Fumei o cubano No fim da noite, no começo do dia

HAPPY BIRTHDAY, SAM

sóbrio andei na contra-mão Tô nem aí Fumei o cubano No fim da noite, no começo

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PRANTOS

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46
PRANTOS 46 Dante Aliguiere Choro ser querida Com vontade de sorrir Agradar aprisionada Em grades espessas

Dante Aliguiere

Choro ser querida Com vontade de sorrir Agradar aprisionada Em grades espessas Aguardando o não porvir

Choro a minha flâmula Inflamada e em chamas Ensangüentada e em coma Por não ser mais anêmona

Choro em pouca lágrima Estudando os seus dogmas Enlameada de drama Contraste repentino

Choro o seu sorriso E toda sua felicidade Choro em desatino Por minha realidade

de drama Contraste repentino Choro o seu sorriso E toda sua felicidade Choro em desatino Por

Visceral

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47

TROCA DE PLANTÃO

47 TROCA DE PLANTÃO Aristóteles Cheguei cedo Vi quando o adúltero sol despachou a lua E

Aristóteles

Cheguei cedo Vi quando o adúltero sol despachou a lua

E passou a paquerar a água do mar

Presenteando-a com uma incomensurável camada de ouro Foi no horário do fim do plantão dos bêbados e prostitutas Das esquinas da Av. Atlântica

Fim da mentira poética:

A

verdade é que ainda tinha muita puta na rua

E

bêbados jogados na calçada

E

logo muitos outros chegariam

A

água vadia do mar aceitou o ouro do adúltero

Mas permaneceu fria

Fria pra caralho

outros chegariam A água vadia do mar aceitou o ouro do adúltero Mas permaneceu fria Fria

Visceral

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MEU BEM QUERER

48 MEU BEM QUERER Arthur Schopenhauer Queria morar num canil Ou no zoológico Quem sabe em

Arthur Schopenhauer

Queria morar num canil Ou no zoológico Quem sabe em densa selva inexplorada Por homem algum habitada, Nem índios?

Queria poder respirar embaixo d’água

E

ser o único a conseguir isso

E

morar no escuro do fundo do oceano

Sem telefone e nem mesmo relógio de mergulho

Queria ir pra um céu só meu Único salvo Ou pra um inferno em que outra pessoa não houvesse Nem o cão de nenhum canil Nem bicho de qualquer zoológico Nem planta de nenhuma selva

Só quero um lugar pra respirar sozinho Nem quero oxigênio pra me fazer companhia

selva Só quero um lugar pra respirar sozinho Nem quero oxigênio pra me fazer companhia Nem

Nem “eu” aceito

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A NADO

A NADO Joseph Roux 49 A nado carreguei para alto mar as pedras trituradas do meu

Joseph Roux

49
49

A nado carreguei para alto mar as pedras trituradas do meu sofrimento Meu objetivo era construir uma ilha Eu-rebocador plataformas de areia Eu, mergulhador, saturei além do limite aceitável Estourei várias vidas na descompressão.

Meu objetivo: Construir uma ilha

Mas nasceu um continente; Mais que isso, Nasceu um mundo.

na descompressão. Meu objetivo: Construir uma ilha Mas nasceu um continente; Mais que isso, Nasceu um

Visceral

CORAGEM

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50
CORAGEM 50 Pierre Augustin Caron de Beaumarchais Sou capaz de enfrentar qualquer valentão que apareça Não

Pierre Augustin Caron de Beaumarchais

Sou capaz de enfrentar qualquer valentão que apareça Não tenho medo Já reagi a assaltos diversos da vida, da lida e à mão armada Com grande coragem encarei tubarão em pesca submarina Surfei mar revolto, subi em touro brabo, Animais ferozes em densa selva Passei em meio a tiroteio sem me agachar Cirurgia, sem anestesia, fiz em mim mesmo Mais de uma vez sem derramar uma lágrima Sem um único “ai”

Apenas uma coisa não tenho coragem nessa vida:

Olhar em teus olhos e dizer que ainda te amo

um único “ai” Apenas uma coisa não tenho coragem nessa vida: Olhar em teus olhos e

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CERTO TEMPO

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CERTO TEMPO 51 Confúcio Ah! Se eu soubesse bem mais Quando o agora era o meu

Confúcio

Ah! Se eu soubesse bem mais

Quando o agora era o meu certo tempo

O ontem de amanhã

Não me seria tão tenebroso Como o hoje futuro

Pois eu sei

Quando o passado chegar Será tarde demais

O futuro já terá aniquilado o céu do meu presente

Com seu manto

Cinzento

De pedras

chegar Será tarde demais O futuro já terá aniquilado o céu do meu presente Com seu

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RENDIMENTOS

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52
RENDIMENTOS 52 Leonardo da Vinci Hoje recebi meus rendimentos Ontem foi dia de pagar o que

Leonardo da Vinci

Hoje recebi meus rendimentos Ontem foi dia de pagar o que eu estava devendo Amanhã vou pedir emprestado pra pagar o que estou comendo Porque não rende muito meus rendimentos Assim eu vivo sempre correndo Correndo atrás de um tempo que dê tempo, mesmo que faça mau tempo Percebi que em meu caminho, que sumiram flores, mas ficaram os espinhos, Que por mais que eu ande sozinho Sempre encontro alguém com quem me aporrinho E sempre outro alguém que fala: “Não se apoquente, não ligue, não esquente com essa gente ridiculamente deprimente.” Pensei comigo, fazer o que? Eu também não sou tão diferente Mesmo que eu tente e invente métodos diversos Sempre serei igual a todos, como todos o são no universo Cansado, disperso Correndo atrás de um reverso Correndo cada minuto atrás de um tempo eterno Tentando, como toda essa gente, ser diferente Sem êxito, Sendo igualmente ridiculamente deprimente Com os meus rendimentos que não rendem.

ser diferente Sem êxito, Sendo igualmente ridiculamente deprimente Com os meus rendimentos que não rendem. Visceral

Visceral

53
53

MULHER FRACIONADA

53 MULHER FRACIONADA E. Pontich Pensei ter você por inteira Mas eu tinha uma mulher fracionada

E. Pontich

Pensei ter você por inteira Mas eu tinha uma mulher fracionada Uma mulher que ocupava e estava em toda casa Em parte, tinha você em parte Em partes estava por toda parte Não vem com aquele papo esquisito que eu sou de marte Vi sua unha solta no meu travesseiro Seus cabelos soltos lá no banheiro, Os seus cílios lá na sala de estar Eu fui pra rua Sua cor foi pelo ralo Causando-me abalo Pois ficaram marcas no seu lugar Suas nádegas desceram com a calcinha Seus seios ficaram no sutiã Eu dormi com uma E acordei com outra pela manhã

nádegas desceram com a calcinha Seus seios ficaram no sutiã Eu dormi com uma E acordei

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A MORTE

A MORTE Vinicius de Moraes 54 Hoje fui acordado com um beijo Era a morte me

Vinicius de Moraes

54
54

Hoje fui acordado com um beijo Era a morte me visitando

Vi o desespero circundar minha cama

Abraçado ao olhar do enfermeiro Enfermeiro

Tantas enfermeiras escolhi a dedo Papai, pessoalmente, contratou um enfermeiro Não reclamo Engravidei minha última cuidadora

E não fosse a falta de ar

Talvez eu gostasse e quisesse o tal beijo matinal

Talvez ela volte à noite Talvez me trague em um beijo fatal Lembro-me da primeira carta Direta, sem meias palavras Diagnóstico: maligno

E

eu que sou Áries descobri ser câncer

E

não sei quantos dias me restam

Ou horas Ou minuto ou fração do mesmo Ela já pediu pra eu me desligar de tudo Por isso há muito não administro meu dinheiro Disse que não precisarei de carro, nem da charrete Nem dos cavalos do sítio Nem da casa de praia Nem da prancha de surf Há muito testamentei minha vida

Às vezes fico na janela esperando minha namorada

Essa que me beijou pela manhã

Ela vem cantando Deixe de manha Deixe de manha

E riu da minha água de cheiro importada

De fragrância prolongada Comentou que mesmo com isso

Quando ela me levar em poucas horas meu cheiro será diferente

Às

vezes quero que ela venha

Às

vezes peço ao vigia que a detenha

pensei em me entregar a ventania

E ser adúltero nessa relação

Mas a ventania só quer passar o tempo (que eu não tenho)

Lá embaixo ela solta minha mão

E me entrega para aquela que me acordou com um beijo pela manhã

eu não tenho) Lá embaixo ela solta minha mão E me entrega para aquela que me

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DUAS LUZES

55
55
DUAS LUZES 55 Mário Quintana Arde e então sangra lentamente Perdida entre a dor e doce

Mário Quintana

Arde e então sangra lentamente Perdida entre a dor e doce sabor

Escondeste,

Não me avisaste o teu drama Que depois do calor do desejo saciado Em conversas dos corpos Que se entendem e se entregam sem votos

Partiste,

E tal qual como chegaste

Às ocultas, calada, à surdina

Fui restando plangente na vida

E perdi o fechar das cortinas

Devolva a visão que me tiraste Assopra toda a dor que me deixaste Conserta meu chão pelo avesso

Apagaste nosso amor e nossa chama Escondeste de mim a verdade

E

partiste, deixaste a cidade

E

cumpriste o que planejaste

Apagaste uma luz, pequena chama Olvidaste minha parte no drama

E nas conversas dos corpos suados

Que se entenderam, arderam calados

Partiste,

Apagaste a luz pequena Dirigiste um grande drama de cinema Mas tua luz também se foi no fim cena

Partiste, Apagaste a luz pequena Dirigiste um grande drama de cinema Mas tua luz também se

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BRUNA

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56
BRUNA 56 Ovídio A noite me fascina A noite e a menina A noite é a

Ovídio

A noite me fascina

A noite e a menina

A noite é a sina da donzela felina

À noite ela sai de casa

Vai da Glória ao Catete

Então um parceiro, um hotel barato Fazendo amor sem culpa ou precaução

A mãe quis pô-la num internato

Mas isso ela não quis aceitar

Ao pai cobrava mais e mais Mas só conselhos ele tinha pra dar:

Tenha cuidado, Bruna! O que você tem feito para se ajudar?

A

noite me fascina

A

noite e a menina

À

noite ela se pinta

E

se vende na esquina

Numa noite ou madrugada Um velho padre acordou Perdeu o sono sem motivo Foi à rua sem batina Repentinamente então Encontrou Bruna, meretriz

E disse a ela:

▬ Linda menina Deus pode te fazer feliz.

▬ Mas você parece padre ou se parece com meu pai

Já recebi tantos conselhos, mas ainda não enriqueci.

Vago pela estrada escura, procuro a luz do dia

O

sol a minha procura, mas a noite me vigia

O

meu futuro é mau.

O

tempo passa, o sol chegando e de repente amanheceu

Me desculpe, linda menina, eu volto pra casa de Deus.

▬ Você é padre então. Noutra noite Ou madrugada Enquanto o padre repousou

A menina ia pra cama

Longe da casa do Senhor Mas o tempo foi passando

E ela ficou doente

Foi à procura do seu tio

O mais próximo parente

Me escute bem, menina. Você que nunca me escutou.

Se nunca ouviu nossos conselhos, procure outro protetor. Ela retorna a cidade, sem ajuda, sem ninguém. Até que se lembrou do padre Do padre que a tratou tão bem.

Ela retorna a cidade, sem ajuda, sem ninguém. Até que se lembrou do padre Do padre

Visceral

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57

Padre estou aqui de volta para me confessar Arrependida, quero a saída, se é mesmo que há. Numa noite ou madrugada Dentro da casa do Senhor

A menina adormecia

Nos braços do seu protetor Mas algo aconteceu de estranho Algo sem tamanho Coisa inesperada Bruna testou de novo seu sangue

Fez mais de mil exames e apareceu curada Um milagre aconteceu Nessa noite Ou madrugada Enquanto Bruna festejou Um velho padre falecia Dentro da casa do Senhor

O padre morreu de AIDS.

Ou madrugada Enquanto Bruna festejou Um velho padre falecia Dentro da casa do Senhor O padre

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O TEMPO URGE

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58
O TEMPO URGE 58 Sêneca Eu preciso te falar uma coisa E preciso te falar com

Sêneca

Eu preciso te falar uma coisa

E preciso te falar com urgência

Meu tempo é escasso

Meu tempo urge

E escapa das minhas mãos

Como se houvesse um buraco em meu corpo Por onde perco todo meu sangue Preciso te falar uma coisa

E preciso te falar com urgência,

Com extrema rapidez Meu tempo é escasso

E me escapa pelos dedos

Como se houvesse um buraco em meu corpo

Por onde perco todos meus órgãos

E eu já tenho menos que as outras pessoas

Sê tu, ó Senhor, com essa alma se apagando Sê com os seus filhos, com a viúva com seu pranto Sê com o aluguel que ele andou atrasando Sê com aquele carro que ele ainda ta pagando Sê com seu salário que ele andou me dizimando Sê com a viúva, continue pactuando Sê com esse corpo já agora ta cheirando Sê com a funerária que já-já já ta chegando

Amém

Descanse em paz, meu filho!

corpo já agora ta cheirando Sê com a funerária que já-já já ta chegando Amém Descanse

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AMIGO SOL

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59
AMIGO SOL 59 Cruz e Sousa Amigo SOL para de esquentar com os humanos Tu és

Cruz e Sousa

Amigo SOL para de esquentar com os humanos Tu és superior a isso Na estação que vigoras sai a maioria dos filhos, É científico.

Não, senhor! Para já com esta tormenta Estás passando dos quarenta Precisamos prorrogar o jogo Dize-nos, como? Responde-nos e te cultuaremos como os maias Que dizimamos e não to ofertamos Que te parece voltar a ser o Deus da fertilidade? SOLetraremos em SOLos SÓ Louvor a ti Ó, SOL do meio-dia Ó, SOL da meia-noite

Bem aviso, desde já, ser necessário que administres Nossa fé SOLuta com teu poder SOLvente. Já passas dos cinqüenta, quem agüenta?

Querido SOL para de esquentar os humanos São apenas seres humildes Chega de revanchismo De pagar na mesma moeda Derreter nossas geleiras porque apedrejamos tua cara janela de O3

Amantíssimo SOL para de esquentar Percebo como o tempo tem te fortalecido Estás mais robusto, Mais aquecido em vigor Tem pena de nós Ainda temos taaaanto para destruiiiirrrrrr!!!!

Estás mais robusto, Mais aquecido em vigor Tem pena de nós Ainda temos taaaanto para destruiiiirrrrrr!!!!

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PELEZINHO

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PELEZINHO 60 Jorge Mautner Malabarista Parado no sinal Sorriso cariado Sem graça, sem graxa Mas consegue

Jorge Mautner

Malabarista Parado no sinal Sorriso cariado Sem graça, sem graxa Mas consegue seu Real É crack nisso

Mautner Malabarista Parado no sinal Sorriso cariado Sem graça, sem graxa Mas consegue seu Real É

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DIAMANTE

DIAMANTE Woody Allen Sou “di”amante E me encontro no teu rio Deslizando teus sulcos Língua negra

Woody Allen

Sou “di”amante E me encontro no teu rio Deslizando teus sulcos

Língua negra de furor Penetra em busca do teu suco.

Gástrico.

me encontro no teu rio Deslizando teus sulcos Língua negra de furor Penetra em busca do
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Visceral

VENI VIDI VICI

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VENI VIDI VICI 62 Charles Baudelaire Volta e meia Fonte de vontades vizinhas Vinha Vera Verônica

Charles Baudelaire

Volta e meia Fonte de vontades vizinhas Vinha Vera Verônica varrer verdades vividas Ventava ávida frente minha face Fazia-se difícil vendo-me a mim

Ventilada favônia voz em favos

Volúpia vulcânica fortemente vitaminada

E vulva vermelha vacila venerando

A verve vertida em versos ferventes em veias volumosas do varão

Vestido e voltando, vulgarizei:

A verve vertida em versos ferventes em veias volumosas do varão Vestido e voltando, vulgarizei: Veni,

Veni, vidi, vici

Visceral

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PÉROLAS AOS PORCOS

63 PÉROLAS AOS PORCOS Rui Barbosa Pérolas aos porcos eu não vou jogar Não peça pra

Rui Barbosa

Pérolas aos porcos eu não vou jogar Não peça pra eu pedir desculpas só para me ver por baixo Nem vem com mil achologias pra desviar minha certeza Nem vem com sua prepotência mandando que eu mude Eu vejo pelas suas fotos o quanto lhe falta saúde Não vem com um papo sapiente do alcorão ao talmude

Pérolas aos porcos eu não vou jogar Eu me recuso a agir do jeito que você quer

E não serei mais um tolo como os que estão a sua volta

Lembrar que já estivemos juntos causa em mim profunda revolta Você confundiu o meu carinho com subserviência Achou que eu aceitaria tudo, mas eu não fico mudo (não fico mesmo)

Pérolas aos porcos eu não vou jogar

E

seguirei o meu caminho sem olhar para baixo, onde você está

E

vou deixar você seguir em frente e observar o que vai dar

A

seta desse seu caminho é a ponta do seu próprio calcanhar

Que ironia o destino me fazer encontrar alguém bem diferente de você

Essa merece pérolas e pérolas e pérolas

Que ironia o destino me fazer encontrar alguém bem diferente de você Essa merece pérolas e

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SOU O QUE SOU

SOU O QUE SOU Petrônio 64 Pressão por todos os lados Quem cria cobras é cobrado

Petrônio

64
64

Pressão por todos os lados Quem cria cobras é cobrado Por resultados variados Será mordido, envenenado Parte do corpo amputado O coração quase parado Com o olhar arregalado Mãos na garganta, sufocado Fosse a vida só os dados Escolhidos a dedo Gerados para dar ao menos Uma falsa ilusão de imensidão Na nossa vida tão pequena Amor Eu já não lembro a última vez que beijei alguém por amor

de imensidão Na nossa vida tão pequena Amor Eu já não lembro a última vez que

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MENTE PRESA

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65
MENTE PRESA 65 Blaise Pascal Eu nasci e cresci cercado de carinho Filho único, boa escola

Blaise Pascal

Eu nasci e cresci cercado de carinho Filho único, boa escola e roupas de linho Alta classe da cidade No jantar, bom vinho Meus amigos me invejavam em nosso clubinho As garotas me cercavam pra me dar beijinhos Motorista, empregados, Cheio de padrinhos Namorava só modelos, só corpo fininho Mas fali, empobreci Agora estou sozinho

Vai girando minha vida de ponta cabeça Revirando minhas tripas, vira às avessas Minhas mãos agrediram minha cara indefesa Vou correndo já do espelho, vai que eu apareça Pois confundo a minha fase com a própria tristeza Vou comprar outra memória antes que eu me esqueça Segue meu corpo ferido, minha mente presa Trancafiada, confinada Nem com chave inglesa

antes que eu me esqueça Segue meu corpo ferido, minha mente presa Trancafiada, confinada Nem com

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TRISTEZA

TRISTEZA Facundes Varela 66 Tristeza, Eu sei que um dia alguém virá Fará você desocupar Seu

Facundes Varela

66
66

Tristeza,

Eu sei que um dia alguém virá Fará você desocupar

Seu reino, em meu coração, despótico

Tristeza,

Quando esse alguém acontecer Não há porque se incomodar Não ligue ou pense em escrever Afaste-se irresistente Não olhe para trás Vá em paz, Siga em frente

Tristeza,

A quem eu penso enganar?

Eu sei que esse alguém morreu

Com o sonho que não pude prolongar

E acordei lentamente

Tão triste é a solidão

Eu sei que esse alguém morreu Com o sonho que não pude prolongar E acordei lentamente

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CABISBAIXO

67
67
CABISBAIXO 67 Miguel de Cervantes Dias e noites meu choro sem fim Sem ter ninguém que

Miguel de Cervantes

Dias e noites meu choro sem fim Sem ter ninguém que chore por mim

Em minha garganta a voz me deixou Minha visão insiste em ver nada São tantas lágrimas que olhar se afogou Minhas narinas estão constipadas

Minha visão insiste em ver nada São tantas lágrimas que olhar se afogou Minhas narinas estão

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MENTE INSANA

68
68
MENTE INSANA 68 Clarice Lispector Posso ouvir o meu piscar e o balançar dos meus cílios

Clarice Lispector

Posso ouvir o meu piscar e o balançar dos meus cílios Posso ouvir minha língua roçando inundando meus lábios Posso ouvir o arranhar das lágrimas que rolam no rosto Posso ouvir o som ensurdecedor quando elas caem no chão Posso ouvir também sua lembrança passar por mim em minha mente impertinente e insana Posso ouvir o meu nascer de cabelos e quando eles morrem também Posso ouvir o sangue correr por minhas artérias e veias Posso ouvir meu ato de engolir e a saliva pela na garganta Posso ouvir o descompassado bater desse meu coração Posso ouvir também seu vulto passar por mim em minha mente impertinente e insana Sou tão sozinho que no silencio de casa posso ouvir o meu piscar Tão sozinho que consigo ouvir meu sangue percorrer minhas artérias e veias Posso ouvir o meu solitário barulho da ausência de som em minha mente independente e insana

artérias e veias Posso ouvir o meu solitário barulho da ausência de som em minha mente

Visceral

69
69

VAZIO CONCRETO

69 VAZIO CONCRETO Martin Lutero Eu não sou boa companhia pra ninguém Nem pra mim mesmo
69 VAZIO CONCRETO Martin Lutero Eu não sou boa companhia pra ninguém Nem pra mim mesmo

Martin Lutero

Eu não sou boa companhia pra ninguém Nem pra mim mesmo

Canso-me

Enjôo-me

Impertinente, inoportuno e inconveniente a mim mesmo

Estorvo enfadonho, entrave Trave em minha vista Som de mim que me irrita Movimento descabidos Desinibidos pensamentos tortos

Vasculho-me,

E nada há de interessante

As penas de ganso do travesseiro não me suportam também

Algumas passam pela varanda

E se jogam aliviadas entregues ao vento

Libertas de mim

não me suportam também Algumas passam pela varanda E se jogam aliviadas entregues ao vento Libertas

Visceral

KNOCKDOWN

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KNOCKDOWN 70 Camilo Castelo Branco O seu rosto é tão marcado Pelo sol e pelo sal

Camilo Castelo Branco

O seu rosto é tão marcado

Pelo sol e pelo sal Hoje o mar não ta pra peixe Seu primeiro knockdown Seu pequeno barco afunda

Ao se chocar com grande nau Agarrado ao seu leme Sofre outro knockdown Por milagre chega em casa Vê suas roupas no quintal Maria tinha outro

E esse golpe foi fatal

outro knockdown Por milagre chega em casa Vê suas roupas no quintal Maria tinha outro E

Visceral

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EXPECTATIVA DE VIDA

71 EXPECTATIVA DE VIDA Safo de Lesbos Um filho não deveria partir antes do pai Não

Safo de Lesbos

Um filho não deveria partir antes do pai Não mesmo Ainda mais sendo o pai tão idoso

Como pode uma pessoa de oitenta Ter uma expectativa de vida Maior que a de uma pessoa de trinta e poucos Só por causa de um maldito diagnóstico Feita por uma máquina com menos de dez anos?

Nunca consultei cartomante Nunca cigana Jamais shaman

Tento esquecer meu passado Omito-me do presente

E algum maldito me revelou o futuro

Então fico acordado

O máximo que puder

Porque sei que não acordarei um dia

E algum maldito me revelou o futuro Então fico acordado O máximo que puder Porque sei

Visceral

POSFÁCIO

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Nesta obra, o poeta despido de todo o seu lirismo habitual nos apresenta como o próprio título antecipa, versos carregados de uma ira e uma revolta toda particular contra tudo aquilo que sente de errado, podre, miserável e sujo na percepção tanto de sua realidade de ser humano como da realidade do mundo. E ao observar essas realidades bem de perto através de sua lente diferenciada, mas ao mesmo tempo bastante similar à visão de nós, leitores, Axills expressa esses sentimentos como um soco direcionado na boca do nosso estômago a fim de nos causar a mesma sensação de náusea e enjôo sentidas por ele. Trata-se de uma sensação que vai muito além dos nossos cinco sentidos, atingindo um nível tão denso e profundo, que chega a doer e revirar as vísceras, pois o contato íntimo e sincero tanto com nós mesmos como com a realidade que nos cerca nunca é feito senão através de uma maneira perturbadora e inquietante, uma vez que dificilmente estamos preparados para o reconhecimento de algo que até então nos parecia perfeitamente normal e aceitável. Entretanto, ao tomarmos conhecimento de outra forma de percepção advinda de uma visão diferenciada da nossa, trazendo uma nova proposta de reflexão, temos a possibilidade de nos reavaliarmos enquanto seres humanos, bem como de repensarmos nossas interferências e atitudes dentro desta realidade da qual, todos fazemos parte. Podemos dizer então que o objetivo deste Visceral é levar-nos a uma reflexão intensa sobre o nosso já rotineiro hábito de fecharmos os olhos e nos omitirmos de questões do dia a dia que fariam toda a diferença em nossas vidas se agíssemos de modo diverso, ou seja, do modo como realmente deveríamos agir tanto em nível particular como em nível de sociedade. Sem dúvidas, uma obra feita para pensar.

de sociedade. Sem dúvidas, uma obra feita para pensar. Alessa B. Professora Pós-Graduada em Literatura e

Alessa B.

Professora Pós-Graduada em Literatura e Poetisa

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73 MUSICAL O mundo é tão grande, se não me querem lá vou pra sol Visceral

MUSICAL

O mundo é tão grande, se não me querem lá vou pra sol

73 MUSICAL O mundo é tão grande, se não me querem lá vou pra sol Visceral

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MINIBIOGRAFIA

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Axills (Samuel Achilles), músico e escritor, nasceu no Rio de Janeiro no bucólico bairro de Santa Tereza. Tem como ídolos literários Carlos Drummond de Andrade, Vinicius de Moraes, Machado de Assis, Manuel Bandeira, etc Apesar do gosto musical eclético, tem preferência pela bossa-nova e música popular brasileira dos anos 60/70. Eis uma frase de como o autor se define: "Sou alguém que se esconde em si mesmo por entrelinhas e notas musicais".

de como o autor se define: "Sou alguém que se esconde em si mesmo por entrelinhas

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Nesta obra, o poeta despido de todo o seu lirismo habitual nos apresenta como o próprio título antecipa, versos carregados de uma ira e uma revolta toda particular contra tudo aquilo que sente de errado, podre, miserável e sujo na percepção tanto de sua realidade de ser humano como da realidade do mundo.

Podemos dizer então que o objetivo deste Visceral é levar-nos a uma reflexão intensa sobre o nosso já rotineiro hábito de fecharmos os olhos e nos omitirmos de questões do dia a dia que fariam toda a diferença em nossas vidas se agíssemos de modo diverso, ou seja, do modo como realmente deveríamos agir tanto em nível particular como em nível de sociedade. Sem dúvidas, uma obra feita para pensar.

Alessa B.

Professora Pós-Graduada em Literatura e Poetisa

Sem dúvidas, uma obra feita para pensar. Alessa B. Professora Pós-Graduada em Literatura e Poetisa Visceral

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