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UM FIM À
VIOLÊNCIA CONTRA A CRIANÇA

Introdução 3
Fazendo uma verdadeira diferença 3
Prevenir é a Chave 6
Um problema global 7
Cenários onde ocorre a violência 7 1
Dimensões ocultas da violência contra a criança 10
Alcance e Escala do Problema 11
Fatores de Risco e de Proteção 13
O impacto devastador da violência 15
Princípios e recomendações 18
Recomendações gerais 18
Implementação e acompanhamento 26
Âmbito nacional e regional 26
Âmbito internacional 27
Referências 28
2
1
"As crianças devem poder, enfim, brincar em campos abertos sem serem torturadas pela fome,
afligidas por doenças ou ameaçadas pelo flagelo da ignorância, do molestamento e do abuso e sem
serem obrigadas a se envolver em atividades incompatíveis com seus tenros anos."

Nelson Mandela, Ganhador do Prêmio Nobel da Paz

INTRODUÇÃO ção global que mine definitivamente quaisquer


justificativas para atos de violência contra a cri-
O alcance e a escala de todas as formas de vio- anças praticados com base em "tradições" ou
lência contra a criança, bem como dos males camuflados em medidas "disciplinares".
que elas comprovadamente acarretam, só se A violência contra a criança deve ser contestada
tornaram visíveis recentemente. Este livro do- sem qualquer concessão. A singularidade das cri-
cumenta os resultados e recomendações do pro- anças - em termos de potencial humano, fragili-
cesso do Estudo do Secretário-Geral das Na- dade e vulnerabilidade - e o fato de dependerem
ções Unidas sobre Violência contra a Criança. de adultos para crescer e se desenvolver justifi-
O Estudo é a primeira pesquisa abrangente e cam mais, e não menos, investimentos em medi-
global sobre todas as formas de violência con- das de prevenção e proteção contra a violência.
tra a criança e ele se baseia no modelo do estu- Nas últimas décadas, algumas formas extremas
do sobre o impacto de conflitos armados em de violência contra a criança, como a explora-
crianças desenvolvido por Graça Machel e apre- ção e o tráfico sexual, a mutilação genital femi-
sentado à Assembléia Geral em 1996. Ele tam- nina, as piores formas de exploração do trabalho 3
bém representa uma seqüência do Relatório infantil e o impacto de conflitos armados, gera-
Mundial sobre Violência e Saúde da Organiza- ram um clamor internacional e uma condenação
ção Mundial da Saúde de 2002.1 consensual dessas práticas, mas não nenhuma
O Estudo é também o primeiro documento das solução rápida foi implementada para a questão.
Nações Unidas (ONU) que envolveu crianças Além dessas formas extremas de violência, mui-
diretamente ao longo de todo o processo de sua tas crianças são rotineiramente expostas à vio-
elaboração que enfatiza e desenvolve reflexões lência física, sexual e psicológica dentro de seus
sobre sua condição de titulares de direitos e lares e escolas, em instituições assistenciais e
sobre seu direito de expressar suas opiniões em correcionais, em ambientes de trabalho e dentro
relação a tudo que as afeta e de terem essas da comunidade. Tudo isso gera conseqüências
opiniões levadas na devida consideração. devastadoras para a saúde e o bem-estar dessas
crianças tanto no presente como no futuro.
A mensagem central deste Estudo é que nenhum
tipo de violência contra a criança é justificável e
toda violência contra a criança é prevenível. O Es- FAZENDO UMA
tudo revela que, a despeito da obrigação dos Esta- VERDADEIRA DIFERENÇA
dos na garantia da proteção dos direitos humanos e
do desenvolvimento das crianças, algumas formas Alguns eventos importantes e interligados su-
de violência contra a criança ainda são considera- gerem que o processo e os resultados do Estu-
das legais em todas as regiões do mundo, além de do estão sendo divulgados em um momento ideal
serem autorizadas pelo Estado e socialmente acei- para fazermos uma verdadeira diferença nas
tas. O estudo pretende promover uma transforma- condições de vida das crianças.
"As crianças não são mini-seres humanos com mini-direitos humanos; no entanto,
enquanto os adultos as considerarem como tal, a violência contra a criança persistirá."

Maud de Boer-Buquicchio, Secretária-Geral Adjunta do Conselho da Europa

MANDATO E ABRANGÊNCIA DO ESTUDO

Em 2001, em resposta a uma recomendação emitida pelo Comitê sobre os Direitos da Criança,
a Assembléia Geral, em sua resolução 56/138, solicitou ao Secretário-Geral que coordenasse
um estudo profundo sobre a questão da violência contra a criança e que emitisse recomenda-
ções para ações adequadas a serem submetidas à apreciação dos Estados-membros. Em Feve-
reiro de 2003, fui designado pelo Secretário-Geral das Nações Unidas para liderar este estudo.

O Estudo segue a definição de criança prevista no Artigo 1 da Convenção sobre os Direitos da


Criança (CDC), a saber, "qualquer ser humano com menos de 18 anos de idade, exceto se, pela
lei aplicável no país às crianças, a maioridade for conferida em idade inferior". A definição de
violência é a prevista no Artigo 19 da CDC: "todas as formas de violência física ou mental,
dano ou sevícia, abandono ou tratamento negligente; maus tratos ou exploração, incluindo a
violência sexual". Ele também usa o conceito adotado no Relatório Mundial sobre Violência e
4 Saúde (2002), a saber, o "uso intencional de violência ou força física contra crianças por parte
de um indivíduo ou grupo que resulte ou possa resultar em um dano real ou potencial à sua
saúde, sobrevivência, desenvolvimento ou dignidade".2

Na condição de Especialista Independente, encaminhei um relatório à Assembléia Geral da


ONU e este livro pretende complementá-lo. Materiais "amigos da criança" foram também con-
feccionados. Este livro considera cinco ambientes nos quais ocorrem atos de violência contra a
criança: a família, as escolas, instituições alternativas de saúde e casas de detenção, locais onde
crianças trabalham e suas comunidades. No entanto, ele não aborda a questão das crianças
envolvidas em conflitos armados, uma vez que esse tema é da competência do Representante
Especial do Secretário-Geral para Crianças e Conflitos Armados. Ainda assim, o livro leva em
consideração alguns temas relacionados, como a violência contra a crianças refugiadas e outras
crianças deslocadas.

O Estudo e sua secretaria em Genebra foram apoiados por três órgãos das Nações Unidas: o
Escritório do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos (EACDH), o
Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF) e a Organização Mundial da Saúde (OMS),
além de ter contado com o apoio de um Conselho Editorial multidisciplinar de especialistas.
1
"Precisamos enxugar suas lágrimas e transformar seus rostos tristes em rostos alegres. Precisamos
manter acesa nelas a chama da esperança e de um futuro melhor."

Primeira-Dama do Paquistão, Begum Sehba Pervez Musharraf, 2005 I

Em primeiro lugar, o reconhecimento da obri- ouvidas, crianças vêm sofrendo há séculos nas
gação de eliminar a violência contra a criança mãos de adultos. No entanto, como a intensida-
como um direito humano intensificou-se com a de e o impacto da violência contra a criança es-
adoção e ratificação quase universal da Con- tão se tornando visíveis, não podemos mais dei-
venção sobre os Direitos da Criança (CDC). xá-las esperando pela proteção efetiva à qual elas
Este documento enfatiza a condição das crian- têm um direito ainda não efetivado.
ças como titulares de direitos.
Em terceiro lugar, o crescente reconhecimento
No entanto, como o estudo revela, embora a do impacto da violência sobre a saúde mental e
CDC seja amplamente aceita, há crianças na física e o bem-estar das crianças tem gerado um
maioria dos Estados cuja dignidade humana e novo olhar sobre a prevenção, que passou a ser
integridade física ainda não são plenamente res- tratada com um senso maior de urgência. Até a
peitadas e que ainda esperam por investimen- década de 1960, não havia um reconhecimento
tos adequados em medidas para prevenir todas adequado, nem mesmo entre profissionais, do
as formas de violência contra elas. grande número de óbitos, estupros e danos cau-
sados a crianças por seus pais e cuidadores ou 5
Em segundo lugar, as próprias crianças estão por pessoas em funções de confiança. A violên-
se manifestando sobre a questão e começando cia contra a criança em escolas e em outros
a ser ouvidas e levadas a sério. Nas nove Con- ambientes também não havia sido adequada-
sultas Regionais realizadas no âmbito do Estu- mente considerada até décadas mais recentes.
do, crianças relataram a violência diária que
sofrem em seus lares, dentro da família e tam- A ampliação de pesquisas nas áreas das ciências
bém na escola, em outras instituições, em siste- neurobiológicas, comportamentais e sociais ge-
mas correcionais, em locais de trabalho e em rou uma compreensão muito mais profunda do
suas comunidades. A violência contra a criança impacto de experiências na infância no desen-
está presente em todos os Estados e ultrapassa volvimento do cérebro e da importância das pri-
fronteiras culturais, de classe, de educação, de meiras relações para o desenvolvimento sadio
renda, de origem étnica e de idade. No decorrer do cérebro.3 Esta pesquisa revela claramente a
da pesquisa, crianças expressaram repetidamen- importância de laços positivos ou de relações
te a necessidade urgente de se pôr fim a essa afetivas entre crianças e seus pais e mostra que,
violência. Elas relataram sua dor - não apenas sem relações de proteção, a exposição de uma
sua dor física, mas a "dor interna" provocada criança a situações de estresse provocadas por
por esses abusos, que é agravada pela aceita- atos de violência pode prejudicar o desenvolvi-
ção, e até aprovação, de adultos. mento de seu sistemas nervoso e imunológico,
deixando-a mais suscetível a problemas físicos
Os governos precisam entender que a situação é, e mentais. Portanto, a oportunidade oferecida
efetivamente, emergencial. Sem serem vistas ou pelo estudo de prevenirmos a violência contra a
"Observa-se uma enorme lacuna entre o que sabemos sobre a violência contra a criança e o que sabemos que deve ser
feito. Sabemos que a violência contra a criança frequentemente provoca lesões físicas e mentais permanentes.
Sabemos, também, que a violência prejudica o potencial das crianças de contribuir com a sociedade, por afetar sua
capacidade de aprender e seu desenvolvimento social e emocional. Considerando a importância da criança para o
nosso futuro, não podemos mais aceitar a conivência com a violência - a "prevenção" da violência contra
a criança deve ser uma das nossas prioridades mais altas."

James A. Mercy, Conselho Editorial do Estudo do Secretário-Geral da ONU sobre Violência contra a Criança

crianças promete abordar uma ampla gama de lidade de capacidades e conhecimentos para
problemas de longo prazo que impõem um enor- prevenir essa violência e reduzir suas conseqü-
me ônus econômico e social a todas as nações. ências. A base científica para o desenvolvimento
de estratégias eficazes de prevenção da violên-
Em quarto lugar, observa-se um reconhecimento cia e de intervenções terapêuticas está crescen-
crescente de que a prevenção da violência con- do e a existência de estratégias cientificamente
tra a criança exige cooperação e colaboração comprovadas revela que, com um nível adequa-
entre diversos parceiros. Na verdade, a preven- do de compromisso e investimentos suficien-
ção e a eliminação da violência contra a crian- tes, abordagens criativas de prevenção podem
ça é uma tarefa que deve ser assumida por to- fazer uma grande diferença. Além disso, prote-
dos. O estudo contou com a colaboração de or- ger crianças de tenra idade de abusos pode con-
ganismos das Nações Unidas envolvidos com tribuir muito para reduzir todas as formas de
questões de direitos humanos, de proteção da violência na sociedade e suas conseqüências
criança e de saúde pública, bem como com in- sociais e sobre a saúde no longo prazo.
sumos de diversos setores.
6 A sociedade como um todo, independentemente de
Diferentes profissões não podem mais abordar seu histórico social, econômico e/ou cultural, pode
o problema isoladamente. Os sistemas de saú- e precisa acabar com a violência contra a criança
de pública, de justiça criminal, de serviços so- imediatamente. Para esse fim, é necessário pro-
ciais e de educação e as organizações de direi- mover uma transformação na "mentalidade" das
tos humanos, os meios de comunicação de mas- sociedades e em suas condições econômicas e
sa e empresas têm um interesse comum em eli- sociais subjacentes associadas à violência.
minar a violência contra a criança e podem iden-
tificar formas mais eficientes e eficazes de al- Como bem observa o relatório do Estudo do Se-
cançar essa meta trabalhando juntos. cretário-Geral das Nações Unidas sobre Violên-
cia contra a criança: "A mensagem principal do
PREVENIR É A CHAVE Estudo é que nenhuma violência contra a crian-
ça é justificável e que toda violência contra ela
Em que pese a imagem mais clara da escala da pode ser evitada. Não podemos mais aceitar des-
violência praticada contra a criança, temos uma culpas para atos dessa natureza. Os Estados-par-
grande oportunidade de avançar no sentido de tes devem agir agora, com o devido senso de ur-
eliminá-la. A violência não é uma conseqüên- gência, no sentido de cumprir suas obrigações
cia inevitável da condição humana. Os gover- de Direitos Humanos e outros compromissos de
nos estão cada vez mais reconhecendo e cum- garantir proteção contra todas as formas de vio-
prindo suas obrigações de direitos humanos em lência. Embora as obrigações legais sejam de
relação às crianças, além de registrar a preva- competência dos Estados, todos os setores da
lência e o impacto da violência contra elas no sociedade e todos os indivíduos têm a responsa-
longo prazo. O Estudo confirmou a disponibi- bilidade comum de condenar e prevenir a vio-
1
"A violência contra a criança constitui uma violação dos seus direitos humanos e representa uma
realidade perturbadora das nossas sociedades. Ela nunca pode ser justificada, seja por razões
disciplinares ou por tradições culturais. Não há níveis "razoáveis" de violência que possam ser
aceitos. A violência legalizada contra a criança em um determinado contexto pode gerar uma
tolerância geral em relação à violência contra a criança."
Louise Arbour, Alta Comissária das Nações Unidas para os Direitos Humanos

lência contra a criança e de assistir suas vítimas. surras com chicote ou vara a crianças e, em mui-
Nenhum de nós poderá olhar crianças nos olhos tos outros, sanções violentas são permitidas em
se continuarmos a aprovar ou perdoar qualquer instituições assistenciais e correcionais.9
forma de violência contra elas".4
CENÁRIOS NOS QUAIS OCORREM
UM PROBLEMA GLOBAL ATOS DE VIOLÊNCIA

Relatos de infanticídio, castigos cruéis e hu- O Estudo usou uma estrutura analítica baseada nos
milhantes, descaso e abandono, abuso sexual ambientes e contextos nos quais crianças passam
e outras formas de violência contra a criança sua infância - o lar e a família, escolas, instituições
datam de antigas civilizações.5, 6 Recentemen- de proteção e justiça juvenil, locais de trabalho e a
te, documentos sobre a magnitude e o impacto comunidade. O Capítulo 2 explora a estrutura e
da violência contra a criança mostram clara- instrumentos internacionais disponíveis para se
mente que ela representa um problema global combater a violência contra a criança. Os Capítu-
sério e de grandes proporções.7, 8 Ela ocorre los 3 a 7 enfocam formas que a violência assume
7
em todos os países do mundo, sob diversas em cada um desses contextos. Cada capítulo for-
formas e em diferentes situações e está fre- nece um histórico e um contexto de situações de
quentemente enraizada em práticas culturais, violência contra a criança, fatores que contribuem
econômicas e sociais. para a sua ocorrência, riscos, sua prevalência após
ser identificada e seus impactos para crianças e
Muitas crianças em todas as sociedades sofrem outros, bem como medidas necessárias para se pre-
violência em grandes proporções dentro de seus venir e combater a violência quando ela ocorre.
próprios lares. Apenas 16 Estados proíbem qual-
quer forma de castigo corporal contra crianças Descrever a experiência de atos de violência
em qualquer situação, deixando a vasta maioria praticados contra uma criança está longe de
da população infantil mundial sem uma prote- ser uma tarefa objetiva. Algumas formas de
ção legal equivalente contra surras e humilha- violência contra a criança são comuns em to-
ções deliberadas no seio do lar. Além disso, cri- dos os cenários. Castigos corporais e outras
anças sofrem atos de violência cometidos por formas cruéis e degradantes de punição são
pessoas que deveriam cuidar delas nas escolas, usados por pais e outros membros da família
nos sistemas assistenciais e correcionais e em no lar, por cuidadores em instituições e por
locais onde trabalham legal ou ilegalmente. Em professores nas escolas e também são aplica-
mais de cem países, crianças sofrem com a reali- dos a crianças em conflito com a lei. Em lo-
dade da ameaça de serem surradas ou são efeti- cais onde crianças abaixo da idade mínima
vamente surradas com a autorização e sanção do permitida por lei trabalham, seus empregado-
Estado. Em pelo menos 30 Estados, o sistema de res normalmente aplicam-lhes, impunemente,
justiça continua impondo sentenças na forma de castigos corporais quando consideram que seu
"Ao longo da história, algumas crianças foram amadas e cuidadas enquanto outras sofreram
violência. Este relatório reflete essa realidade global. Espero que ele ajude a promover ações para
identificar e eliminar todas as formas de violência contra a criança como um caminho essencial
para o desenvolvimento humano e a paz."

Savitri Goonesekere, Conselho Editorial do Estudo do Secretário-Geral da ONU


sobre Violência contra a Criança

O PROCESSO DO ESTUDO

O Estudo foi desenvolvido por meio de um processo participativo que incluiu Consultas Regi-
onais, Sub-regionais e Nacionais, reuniões temáticas com especialistas e visitas de campo. Em
março de 2004, um questionário detalhado foi enviado aos governos solicitando que indicas-
sem que abordagens estavam adotando em relação à violência contra a criança. Ao todo, 136
respostas haviam sido recebidas até o momento da publicação deste livro.10

Entre março e julho de 2005, nove Consultas Regionais foram realizadas no Caribe, no Sul da
Ásia, na África Central e Ocidental, na América Latina, na América do Norte, no Extremo
Oriente e na região do Pacífico, no Oriente Médio, na África Setentrional, na Europa, na Ásia
Central e na África Oriental e Meridional. Cada Consulta reuniu, em média, 350 participantes,
entre os quais ministros e autoridades públicas, parlamentares, representantes de organizações
regionais e de outros organismos intergovernamentais, de órgãos das Nações Unidas, de Orga-
8 nizações Não-Governamentais (ONGs) e de instituições nacionais de direitos humanos (NHRI),
outros representantes da sociedade civil, inclusive dos meios de comunicação de massa e de
organizações religiosas, e crianças. Crianças participaram de todas as Consultas Regionais, que
foram precedidas por reuniões nas quais elas desenvolveram insumos e recomendações para o
Estudo. Foram produzidos também relatórios finais com os resultados de cada Consulta Regio-
nal. Diversas reuniões sub-regionais e nacionais também foram realizadas.

Os Governos que sediaram essas reuniões tinham grande interesse em promover o Estudo.
Organizações regionais, entre as quais a União Africana, a Liga Árabe, a Comunidade Caribe-
nha (CARICOM), o Conselho da Europa, a União Européia, a Comissão Inter-Americana de
Direitos Humanos da Organização dos Estados Americanos e a Associação Sul-Asiática de
Cooperação Regional, desempenharam papéis importantes na organização dessas consultas.
Organizações nacionais e regionais se comprometeram a acompanhar ativamente os preparati-
vos para o Estudo.

Visitas de campo foram realizadas na Argentina, Canadá, China, El Salvador, Guatemala, Haiti,
Honduras, Índia, Israel, nos Territórios Palestinos Ocupados, Mali, Paquistão, Paraguai, Eslo-
vênia, África do Sul, Tailândia e Trinidad e Tobago, graças à hospitalidade de seus governos.

Foram feitas também consultas regulares junto a membros do Comitê sobre os Direitos da
Criança e mandatários para procedimentos especiais da ex-Comissão de Direitos Humanos.
1
"O processo participativo adotado no Estudo fez com que todos os envolvidos vestissem a camisa
do projeto, desenvolvessem uma profunda reflexão e tivessem a coragem de confessar o que
vinham negando por muito tempo. Ele nos oferece uma oportunidade histórica para erradicarmos
todas as formas de violência contra a criança que não deve ser desperdiçada."
Embaixador Moushira Khattab, Secretário-Geral do Conselho Nacional pela Infância e a
Maternidade - Egito, Vice-Presidente do Comitê da ONU sobre os Direitos da Criança

As observações conclusivas dos relatórios dos Estados-membros para o Comitê foram analisadas,
bem como os relatórios de mandatários para procedimentos especiais.

Muitas organizações contribuíram para o Estudo, entre as quais a Organização Internacional do


Trabalho (OIT), o Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (ACNUR), a Organi-
zação das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (UNESCO), o Escritório das
Nações Unidas contra Drogas e Crime (UNODC) e a Divisão para o Progresso das Mulheres do
Departamento de Assuntos Econômicos e Sociais das Nações Unidas. Um grupo inter-agências
das Nações Unidas sobre a Violência contra a criança se reuniu para elaborar estratégias de
acompanhamento do Estudo.

Este relatório baseou-se também em muitas contribuições oferecidas para o Estudo nos últimos
três anos por diferentes partes interessadas, entre as quais crianças. Aproximadamente 300 indiví-
duos, ONGs e outras organizações de diversas partes do mundo responderam ao chamado para a
apresentação de insumos. As Contribuições incluíram insumos de crianças e importantes relatóri- 9
os de pesquisas especificamente encomendados para o Estudo.11

Um Painel Consultivo de ONGs foi criado no início do processo do Estudo que incluiu crianças e jovens
e representantes de todas as regiões. O Subgrupo de Crianças e Violência instituído dentro no grupo de
ONGs para a Convenção dos Direitos da Criança (CDC) também contribuiu com esta iniciativa.

Além de elaborar inúmeros estudos, a Aliança Internacional Save the Children forneceu contribui-
ções valiosas prestando assessoria e facilitando o envolvimento de crianças particularmente nas
Consultas Regionais, juntamente com a UNICEF e outros parceiros. A Rede Global de Informação
dos Direitos das Crianças (CRIN) documentou o progresso do Estudo, inclusive das reuniões
realizadas com crianças, e disponibilizou essa documentação em seu site.

O Centro de Pesquisa Innocenti do UNICEF prestou um apoio especial, juntamente com outros
centros e redes de pesquisas que forneceram informações e participaram das Consultas. Foram
realizadas reuniões temáticas sobre violência de gênero, violência nas escolas, no lar e na família,
violência contra a criança portadora de deficiência, sistemas de justiça juvenil e violência contra a
criança em conflito com a lei, o papel das organizações religiosas, tecnologias da informação e
comunicação, violência contra a crianças refugiadas e outras crianças deslocadas e metodologias
de mensuração da violência.
"A violência contra a criança constitui uma grave violação dos direitos humanos que precisa ser interrompida
IMEDIATAMENTE! Devemos continuar a trabalhar juntos para livrar nosso mundo de qualquer
forma de violência contra a criança."

Charlotte Petri Gornitzka, Secretária-Geral, Save the Children, Suécia

desempenho não é satisfatório. Na comunida- DIMENSÕES OCULTAS DA


de, crianças rotuladas como sem residência VIOLÊNCIA CONTRA A CRIANÇA
fixa ou anti-sociais podem ser atacadas ou até
mesmo torturadas impunemente pelas autori- Somente uma pequena parcela dos atos de vio-
dades, inclusive pela polícia. Crianças força- lência praticados contra crianças é denunciada e
das a se prostituir frequentemente relatam tra- investigada e poucos dos responsáveis por esses
tamentos violentos que recebem de clientes atos são punidos por eles. Em muitas partes do
como se fosse algo que merecessem.12 mundo, não há sistemas para registrar ou inves-
tigar denúncias de violência contra a criança de-
O abuso sexual, a violência física e psicológi- talhadamente. Onde existem estatísticas oficiais
ca e o assédio sexual são formas de violência baseadas em relatórios de casos de violência den-
que também ocorrem em todos os ambientes. tro do lar e em outros ambientes, a verdadeira
Na maioria das sociedades, o abuso sexual de dimensão do problema é muito subestimada.
meninas e meninos ocorre mais frequentemen-
te dentro do lar ou é cometido por alguém co- O problema não vem sendo denunciado por
10 nhecido da família. No entanto, a violência várias razões. Crianças de tenra idade que so-
sexual também ocorre nas escolas ou em ou- frem violência dentro de seus lares não têm
tros ambientes educacionais e pode ser prati- condições de denunciar esse fato. Muitas não
cada por colegas ou pelos próprios professo- denunciam incidentes de violência contra elas
res. Ela ocorre intensamente em locais de tra- por medo de represálias ou por temerem inter-
balho fechados, como, por exemplo, em servi- venções das autoridades que possam piorar sua
ços domésticos em residências privadas. Ocor- situação geral.
re também em instituições e comunidades,
onde é cometida por pessoas conhecidas por Em muitos casos, os pais, que deveriam prote-
suas vítimas ou não. Meninas sofrem muito ger seus filhos, omitem-se quando a violência é
mais abuso sexual do que meninos e sua mai- praticada por seus cônjuges ou outros membros
or vulnerabilidade à violência deve-se, em da família ou por um membro mais poderoso
grande parte, fruto das disparidades nas rela- da sociedade, como, por exemplo, um empre-
ções de poder entre os gêneros dentro da soci- gador, um policial ou um líder comunitário. O
edade. Por outro lado, os meninos são mais medo está estreitamente relacionado ao estig-
vulneráveis a homicídios e, particularmente, ma frequentemente associado à denúncia de atos
à violência envolvendo armas. de violência. Em sociedades nas quais noções
patriarcais de "honra" familiar são mais valori-
A exposição à violência em um determinado zadas e sobrepõem-se aos direito humanos e ao
contexto pode refletir-se ou somar-se à violên- bem-estar das meninas, um incidente de estu-
cia sofrida em um outro ambiente e o Estudo pro ou violência sexual pode levar ao ostracis-
enfatiza vulnerabilidades específicas que devem mo da vítima, a mais violência contra ela e até
ser abordadas ambiente por ambiente. à sua morte nas mãos de sua família.
1
"Como podemos esperar que as crianças levem os direitos humanos a sério e ajudem a construir
uma cultura de direitos humanos se nós, como adultos, além de continuar a espancá-las e surrá-las,
defendemos essas ações alegando que as praticamos 'para o seu próprio bem'? Além de ser uma
lição de mau comportamento, bater em crianças é uma poderosa demonstração de desprezo pelos
direitos humanos de pessoas menores de idade e mais fracas."
Thomas Hammarberg, Comissário do Conselho da Europa pelos Direitos Humanos, 2006 II

Muitos governos não têm sistemas de registro tra crianças, são necessárias pesquisas para iden-
civil bem estruturados, impossibilitando a iden- tificar atos violentos cometidos por pais e outros
tidade formal de crianças e expondo bebês e cri- adultos, experiências de violência na infância e
anças pequenas a situações de risco. Muitos ou- o estado de saúde atual das crianças, bem como
tros também não têm sistemas para realizar in- comportamentos de risco para a saúde de crian-
vestigações rigorosas de óbitos infantis e regis- ças e adultos. A violência fatal só pode ser preci-
trá-los. Embora milhares de meninas casem-se samente mensurada com base em registros meti-
antes de completarem 18 anos, a falta de certi- culosos de óbitos, investigações adequadas e sis-
dões de casamento também dificulta o rastrea- temas de denúncia bem estruturados.
mento do problema.13 Poucos Estados registram
e relatam a institucionalização de crianças em ALCANCE E ESCALA
instituições assistenciais alternativas ou casas de DO PROBLEMA
internação e menos ainda coletam informações
sobre violência contra a crianças nesses locais. Diversas iniciativas, que variam de estudos com-
parativos internacionais a pequenas entrevistas re-
A aceitação social de alguns tipos de violência 11
alizadas localmente com crianças, estão gerando
contra a criança é um fator que influencia muita a uma imagem mais clara da magnitude e prevalên-
sua incidência em quase todos os Estados. Crian- cia generalizada do problema da violência contra a
ças, seus agressores e a sociedade como um todo criança em todas as regiões. Informações levanta-
podem aceitar a violência física, psicológica e se- das por essas iniciativas indicam que embora al-
xual na infância como um fenômeno inevitável. guns atos de violência sejam praticados por estra-
As legislações da maioria dos Estados ainda acei- nhos, a grande maioria deles é praticada por algu-
tam castigos corporais "razoáveis" ou "lícitos" e ma pessoa que faz parte de algum ambiente imedi-
refletem a aprovação da violência por parte da ato da vítima: pais e parentes, namorados e namo-
sociedade quando ela é descrita como uma medi- radas, cônjuges e parceiros, professores, colegas
da "disciplinar" ou é supostamente usada para esse de escola e empregadores. Os exemplos apresenta-
fim (veja a Figura 1.1). O castigo corporal e ou- dos abaixo dão uma idéia do alcance e da escala da
tras formas cruéis e degradantes de punição, violência contra a criança identificados no Estudo:
bullying e assédio sexual, bem como inúmeras
práticas tradicionais violentas podem ser percebi- z A Organização Mundial da Saúde (OMS) es-
das como normais, principalmente quando não tima que quase 53.000 dos óbitos infantis re-
produzem lesões físicas duradouras visíveis. gistrados em 2002 foram homicídios.14 (Veja
o Anexo, que apresenta taxas de homicídio
Nenhum país pode medir o progresso alcançado regional por idade, renda e sexo)
na eliminação da violência contra a criança sem
dados confiáveis. Para estimar precisamente a z No Exame Global de Saúde do Aluno reali-
magnitude e natureza da violência não fatal con- zado nos países em desenvolvimento, entre
"Odeio ser criança, odeio apanhar e odeio não ser valorizada. Tenho sentimentos e emoções.
Preciso de amor, carinho, proteção e atenção."

Menina de 13 anos, Sul da Ásia, 2005 III

12

20% e 65% das crianças em idade escolar ção genital feminina todos os anos na África
relataram que haviam sofrido algum tipo de Subsaariana, no Egito e no Sudão.18
abuso verbal ou físico nos primeiros 30 dias
na escola.15 Índices semelhantes de bullying z A OIT estima que 218 milhões de crianças
foram registrados também em países indus- foram envolvidas em situações de trabalho
trializados.16 infantil em 2004, 126 milhões das quais em
atividades perigosas.19 Estimativas de 2000
z Estimativas revelam que aproximadamente sugerem que 5,7 milhões se envolveram em
150 milhões de meninas e 73 milhões de me- trabalho forçado ou escravo, 1,8 milhões se
ninos abaixo de 18 anos tiveram relações envolveram com a prostituição e a pornogra-
sexuais forçadas ou sofreram outras formas fia e 1,2 milhão foram vítimas de tráfico na-
de violência sexual que envolveram contato quele ano.20
físico.17
z Apenas 2,4 % das crianças do mundo estão
z O UNICEF estima que três milhões de me- legalmente protegidas de punições corporais
ninas e mulheres são submetidas a mutila- em todos os ambientes.21
1
FATORES DE RISCO E afetados pelo contexto dos ambientes com os
DE PROTEÇÃO quais a criança interage - do ambiente familiar
e do lar, da escola, de instituições e locais de
A Pesquisa Mundial sobre Violência e Saúde trabalho, da comunidade e da sociedade maior.
de 2002 adotou um "modelo ecológico" para
promover uma compreensão mais ampla da Por exemplo, o desenvolvimento econômico, a
natureza multifacetada da violência em seus condição social, a idade e o gênero são fatores
diversos níveis. Como ferramenta analítica, o de risco associados à violência fatal. A OMS es-
modelo reconhece que uma ampla gama de fa- tima que a taxa de homicídios de crianças em
tores aumenta o risco da violência e a perpetua 2002 foi duas vezes mais alta em países de baixa
- ou, por outro lado, pode oferecer proteção renda do que em países de alta renda (2,58 con-
contra ela. Como ilustrado na figura 1.2, o mo- tra 1,21 para cada 100.000 habitantes). Como
delo ecológico identifica o histórico pessoal e pode ser visto na figura 1.3, as taxas mais eleva-
características de vítimas e agressores, suas fa- das de homicídios de crianças são registradas
mílias, seu contexto social imediato (que são entre adolescentes, particularmente meninos na
faixa etária dos 15 aos 17 anos (3,28 para cada 13
geralmente chamados fatores comunitários) e
as características da sociedade maior. Contrari- grupo de 100 meninas e 9,06 para cada grupo de
ando explicações simplistas, o modelo enfatiza 100 meninos) e entre crianças de 0 a 4 anos (1,99
que a probabilidade de a violência ocorrer, vol- para meninas e 2,09 para meninos).22 Entretan-
tar a ocorrer ou deixar de existir é influenciada to, estudos sobre homicídios de crianças são ur-
por diversos fatores e ações em diferentes ní- gentemente necessários para aumentar a confia-
veis. Os diversos fatores relacionados aos dife- bilidade dessas estimativas e determinar o nível
rentes níveis do modelo ecológico também são de infanticídio feminino em diversas regiões.
14

Os dados disponíveis sugerem que crianças peque- dade prevalecem entre crianças portadoras de de-
nas estão mais expostas ao risco de sofrerem vio- ficiência, crianças órfãs (inclusive as milhares de
lência física, enquanto a violência sexual afeta, pre- crianças órfãs em decorrência da AIDS), crianças
dominantemente, as que chegam à puberdade e à indígenas, crianças de minorias étnicas e outros
adolescência. Os meninos aparentemente correm grupos marginalizados, crianças que moram ou
um risco maior de sofrer violência física do que as trabalham nas ruas, crianças mantidas em insti-
meninas, enquanto elas correm um risco maior de tuições assistenciais e correcionais, crianças que
negligência e violência sexual.23 Padrões cultu- moram em comunidades caracterizadas por ta-
rais e sociais, fatores socioeconômicos, entre os xas elevadas de desigualdade, desemprego e po-
quais a desigualdade e o desemprego, e papéis de breza e crianças refugiadas e deslocadas. O gê-
gênero estereotipados também têm desempenha- nero também desempenha um papel-chave, pois
do um papel importante nesse contexto. o risco de sofrer diferentes tipos de violência não
é igual para meninas e meninos.
Alguns grupos e categorias de crianças são espe-
cialmente vulneráveis a diferentes formas de vio- Questões globais também influenciam a questão
lência. Por exemplo, altos níveis de vulnerabili- da violência contra a criança, como a desigual-
1
"O UBUNTU é uma personificação de humanidade, empatia, respeito, dignidade e de muitos
outros valores afins e só pode resultar de um investimento adequado desses mesmos valores nas
próprias crianças. Vamos deixar um legado coerente com a garantia da existência do UBUNTU no
mundo falando e agindo contra o abuso de todas as crianças."
Thoko Majokweni, Chefe da Unidade SOCA, Promotoria Nacional da África do Sul

dade crescente entre Estados e dentro deles, a A exposição à violência na infância pode também
migração, a urbanização e os conflitos armados. gerar inabilidades sociais que podem perdurar por
A superação desses desafios e a consecução de toda a vida e também problemas emocionais e
objetivos internacionalmente acordados, como cognitivos, obesidade e comportamentos de risco
os Objetivos de Desenvolvimento do Milênio, em relação à saúde, como consumo de drogas,
ajudarão a eliminar a violência contra a criança. atividade sexual precoce e tabagismo.25, 26 Os pro-
blemas sociais e de saúde provocados por esses
Além disso, outros fatores podem prevenir a vio- comportamentos podem incluir também ansieda-
lência ou reduzir a probabilidade de sua ocorrên- de e depressão, alucinações, baixo desempenho
cia. Embora sejam necessárias mais pesquisas no trabalho, problemas de memória e comporta-
sobre esses fatores de proteção, é óbvio que o de- mentos agressivos. Na vida adulta, eles podem
senvolvimento de vínculos afetivos sólidos entre também provocar problemas pulmonares, cardía-
pais e filhos e a promoção de relacionamentos com cos e hepáticos, doenças sexualmente transmissí-
crianças que não envolvam violência ou humilha- veis e óbitos fetais, bem como violência entre par-
ção dentro de unidades familiares estáveis podem ceiros e tentativas de suicídio.27, 28
ser fontes poderosas de proteção para as crianças. 15
A exposição à violência na comunidade tam-
Fatores que podem ajudar a prevenir a violên- bém provoca problemas comportamentais em
cia em diversos ambientes serão descritos nos relação à saúde e acarreta conseqüências soci-
capítulos 3 a 7. ais. Foram identificados vínculos entre a expo-
sição à violência na comunidade e transtornos
de estresse pós-traumático, depressão, compor-
O IMPACTO DEVASTADOR tamentos anti-sociais, consumo de drogas, bai-
DA VIOLÊNCIA xo desempenho acadêmico, relações humanas
problemáticas e processos criminais.
Embora as conseqüências da violência contra a
criança variem de acordo com sua natureza e se- Embora poucas informações estejam disponí-
veridade, seus efeitos podem ser devastadores no veis sobre os custos econômicos globais da vi-
curto e longo prazo (veja a Tabela 1.1). A exposi- olência contra a criança, particularmente nos
ção à violência nos primeiros anos de vida é ex- países em desenvolvimento, suas diversas con-
tremamente prejudicial, pois pode comprometer seqüências de curto e longo prazo sugerem que
o desenvolvimento cerebral. Quando uma crian- esses custos são substanciais para a sociedade.
ça sofre ou testemunha atos de violência por lon- Nos Estados Unidos, os custos financeiros as-
gos períodos, seu sistema nervoso e imunológico sociados ao abuso e abandono de crianças, que
é afetado e ela desenvolve inaptidões sociais, incluem rendas futuras perdidas e custos com
emocionais e cognitivas e comportamentos que tratamentos psiquiátricos, foram estimados em
provocam doenças, lesões e problemas sociais.24 US$ 94 bilhões em 2001.29
"As Nações não podem prosperar se suas crianças não forem curadas. A violência na infância provoca ferimentos na
alma que, quando não curados, levam suas vítimas a agredir outras pessoas e a elas próprias. Nenhuma criança deve ser
vítima da violência. Toda criança tem o direito de ser protegida dela e de ter prioridade no uso dos recursos da sua nação.
A hora de fazer com que seus direitos sejam respeitados é agora."
Senadora Landon Pearson, Diretora do Centro de Recursos Landon Pearson para o Estudo da Infância e dos Direitos da
Criança. Universidade de Carleton, Canadá

TABELA 1.1 - Conseqüências agudas e de longo prazo da violência contra a criança

Conseqüências para a saúde física

Lesões abdominais e torácicas


Lesões cerebrais
Contusões e marcas
Marcas de queimadura
Lesões no Sistema Nervoso Central
Fraturas
Lacerações e abrasões
16 Lesões nos olhos
Deficiências

Conseqüências sexuais e reprodutivas

Problemas de saúde reprodutiva


Disfunção sexual
Doenças sexualmente transmissíveis, inclusive HIV/AIDS
Gravidez indesejada

Conseqüências psicológicas

Consumo de álcool e drogas


Problemas cognitivos
Comportamentos criminosos, violentos e de alto risco
Depressão e ansiedade
Atrasos de desenvolvimento
Perda de apetite e problemas de sono
Sentimentos de vergonha e culpa
1
TABELA 1.1 - Conseqüências agudas e de longo prazo da violência contra a criança

Hiperatividade
Relacionamentos pessoais inadequados
Baixo desempenho escolar
Baixa auto-estima
Transtorno de estresse pós-traumático
Transtornos psicossomáticos
Comportamentos suicidas e autodestrutivos

Outras conseqüências de longo prazo para a saúde


17
Câncer
Doença crônica pulmonar
Problemas intestinais
Doenças cardíacas
Doenças hepáticas
Problemas de saúde reprodutiva, como infertilidade

Conseqüências financeiras

Custos imediatos: tratamento, consultas hospitalares e médicas e outros serviços de saúde.


Custos indiretos: perda de produtividade, deficiência, baixa qualidade de vida e morte
prematura.

Custos arcados pelo gastos com a detenção e processos judiciais contra agressores. Custos
sistema de justiça para organizações de assistência social, custos associados a lares adoti-
criminal e outras vos, aos sistemas educacionais e custos para empregadores provocados
instituições: por uma taxa mais alta de ausência e pela baixa produtividade.

Fonte: Runyan D et al. (2002). Abuso e Negligência de Crianças por Pais e outros Cuidadores. IN: Krug EG et al. (Eds).
Relatório Mundial sobre Violência e Saúde. Genebra, Organização Mundial da Saúde, pp. 59-86.
"Este estudo faz uma avaliação abrangente dos impactos da violência para a criança.
Fica claro que protegê-las é uma responsabilidade de todos."
Ann M. Veneman, Diretora Executiva, UNICEF

PRINCÍPIOS E z As crianças têm o direito de expressar seus


pontos de vista e de participar do planeja-
RECOMENDAÇÕES mento e implementação de políticas e pro-
gramas.
Os esforços para prevenir e combater a violên-
cia contra a criança devem envolver múltiplas O Estudo desenvolveu recomendações gerais e
abordagens e estar afinados com a forma de vi- específicas que foram incluídas no seu Relató-
olência cometida, o ambiente e o agressor ou rio apresentado à Assembléia Geral. As reco-
agressores. Independentemente das medidas mendações gerais indicam medidas que todos
adotadas, os interesses da criança devem ter os Estados devem adotar para garantir uma pre-
sempre a devida prioridade. venção efetiva da violência contra a criança.
Elas foram suplementadas por recomendações
O estudo elaborado para a Assembléia Geral adicionais para ambientes específicos: o lar e a
das Nações Unidas identificou alguns aspec- família, as escolas, sistemas assistenciais e de
tos principais que foram mencionados em suas justiça, locais onde crianças trabalham legal ou
18 considerações: ilegalmente e a comunidade. Essas recomenda-
z Nenhuma forma de violência contra a crian- ções podem ser encontradas nas conclusões dos
ça é justificável. As crianças nunca devem capítulos 3 a 7.
receber menos proteção do que os adultos;
z Toda forma de violência contra a criança é As recomendações apresentadas aqui são diri-
prevenível Os Estados devem investir em po- gidas principalmente para os governos e dizem
líticas baseadas em evidências concretas e respeito às suas funções legislativas, adminis-
em programas focados nos fatores que ge- trativas, judiciais, de formulação de políticas,
ram violência contra a criança; de prestação de serviços e institucionais. Algu-
mas recomendações dizem mais respeito a ou-
z Os Estados são os principais responsáveis por
tros parceiros e setores da sociedade, como or-
defender e garantir os direitos das crianças a
ganizações da sociedade civil, que têm um pa-
proteção e seu acesso a serviços e por apoiar
pel crucial a desempenhar nesse contexto.
suas famílias para que possam cuidar ade-
quadamente delas em um ambiente seguro;
RECOMENDAÇÕES GERAIS
z Os Estados têm a obrigação de punir os res-
ponsáveis por qualquer ato de violência;
1. O senso de compromisso e medidas
z A vulnerabilidade das crianças à violência em nível nacional e local devem ser
pode também ser determinada por sua idade fortalecidos
e capacidade de evoluir. Em decorrência do
seu gênero, raça, origem étnica, deficiência Recomendo que todos os Estados desen-
ou condição social, algumas crianças são par- volvam uma estrutura sistemática e mul-
ticularmente vulneráveis; tifacetada para combater a violência con-
"Os compromissos devem ser traduzidos em metas concretas, programadas."
Jaap Doek, Presidente do Comitê das Nações Unidas sobre os Direitos da Criança

1
tra a criança integrada ao planejamento os Estados suspendam imediatamente to-
nacional. Uma estratégia, política ou pla- das as penas de morte impostas a pessoas
no de ação deve ser desenvolvido em nível que cometeram um crime antes de comple-
nacional para combater a violência con- tarem 18 anos e que tomem medidas legais
tra a criança com base em metas realistas adequadas para harmonizar essas penas
e com prazos bem determinados, sob a res- com as normas internacionais dos direitos
ponsabilidade de um órgão coordenador humanos. A pena de morte deve ser aboli-
com a capacidade necessária para envol- da para pessoas que cometeram um crime
ver diversos setores em uma estratégia antes dos 18 anos como uma questão de
abrangente de implementação. Leis, polí- altíssima prioridade.
ticas, planos e programas nacionais devem
estar plenamente afinados com a necessi- Recomendo veementemente que os Es-
dade de se garantir respeito aos direitos tados proíbam todas as formas de vio-
humanos internacionais e com os conhe- lência contra a criança em qualquer cir-
cimentos científicos disponíveis. A imple- cunstância, inclusive castigos corporais,
mentação da estratégia, política ou plano práticas tradicionais prejudiciais, como 19
nacional deve ser sistematicamente avali- casamentos precoces e forçados, muti-
ada à luz das metas e prazos definidos. Ela lação genital feminina e os chamados
deve também ser apoiada por recursos crimes de honra, violência sexual, tor-
humanos e financeiros adequados para tura e outros castigos e tratamentos cru-
garantir sua efetiva implementação. éis, desumanos ou degradantes, como
previsto em tratados internacionais
Uma estrutura integrada e sistemática para com- como a Convenção contra a Tortura e
bater a violência contra a criança deve incluir outros Tratamentos ou Penas Cruéis,
medidas de prevenção da violência em todas as Desumanos ou Degradantes e a Conven-
situações, de assistência a crianças vitimadas ção sobre os Direitos da Criança. Cha-
por ela e de reabilitação, sensibilização e capa- mo a atenção para o Comentário Geral
citação, além de pesquisas e coletas de dados. no. 8 (2006) do Comitê sobre os Direitos
da Criança sobre o direito da criança de
2. Toda violência contra a criança deve ser ser protegida contra castigos corporais
proibida e outras formas cruéis e degradantes de
punição (Artigos 19.28, parágrafo 2 e 37,
Recomendo veementemente que os Estados inter alia) (CRC/C/GC/8).
tomem as medidas necessárias para garan-
tir que nenhuma pessoa abaixo de 18 anos O primeiro propósito de uma clara proibição da
fique sujeita à pena de morte ou seja sen- violência é educacional - enviar uma mensagem
tenciada a prisão perpétua. Recomendo que clara para todas as sociedades de que qualquer
forma de violência contra a crianças é inaceitável A prevenção pode assumir diversas formas, in-
e ilegal, visando reforçar regras sociais positivas clusive as estabelecidas em outras recomenda-
e não violentas. A impunidade de pessoas que ções gerais: o desenvolvimento de uma estru-
cometem atos de violência contra a crianças não tura política e jurídica que proíba qualquer for-
deve ser aceita, mas deve-se tomar cuidado para ma de violência; a contestação de regras soci-
que suas vítimas não sofram ainda mais com im- ais que toleram a violência e a capacitação de
posições insensíveis da lei. Processos e interven- pessoas que trabalham com crianças e famílias
ções formais, principalmente dentro das famílias, visando promover ambientes de não violência.
só devem ser aplicados quando necessários para
proteger uma criança de um grande perigo e quan-
do satisfizerem seus melhores interesses. Devem 4. Valores não violentos e medidas de cons-
ser aplicadas sanções judiciais fortes e exeqüíveis cientização devem ser promovidos
para coibir a violência contra a criança.
Recomendo que os Estados e a sociedade
3. A prevenção deve ser priorizada civil se esforcem para transformar atitudes
20 que levam pessoas a fazer vista grossa à vi-
Recomendo que os Estados priorizem a olência contra a criança ou que a banali-
prevenção da violência contra a criança zem, como atitudes discriminatórias, fun-
atacando suas causas subjacentes. Além ções estereotipadas de gênero, aceitação de
de alocar recursos para intervenções após castigos corporais e outras práticas tradi-
a ocorrência de atos de violência, é essen- cionais prejudiciais. Os Estados devem to-
cial que os Estados aloquem recursos ade- mar as medidas necessárias para que os
quados para eliminar fatores de risco e direitos da criança sejam adequadamente
prevenir a violência antes que ela ocorra. divulgados e compreendidos, inclusive pe-
Suas políticas e programas devem consi- las crianças. Campanhas de informação
derar fatores imediatos de risco, como a pública devem ser usadas para conscienti-
falta de laços afetivos entre pais e filhos, a zar o público sobre os efeitos prejudiciais
desestruturação familiar, o consumo de da violência para crianças. Os Estados de-
álcool ou drogas e o acesso a armas de um vem estimular os meios de comunicação de
modo geral. Em sintonia com os Objeti- massa a promover valores não violentos e
vos de Desenvolvimento do Milênio, os implementar diretrizes para garantir pleno
esforços devem concentrar-se no desenvol- respeito pelos direitos da criança em todas
vimento de políticas econômicas e sociais as notícias e matérias que divulgam.
que abordem a pobreza, a questão de gê-
nero e outras formas de desigualdade, di- Ambientes positivos e não violentos devem ser
ferenças de renda, desemprego, superpo- criados para as crianças - com a sua participação
pulação urbana e outros fatores que mi- - nos lares, nas escolas, em outras instituições e
nam a sociedade. nas comunidades por meio de medidas como
1
"Quer a violência contra a criança ocorra na família, na escola, na comunidade, em alguma
instituição ou em locais de trabalho, os agentes de saúde representam a linha de frente das ações
para combatê-la. Devemos oferecer a nossa contribuição para impedir que essa violência ocorra em
primeiro lugar e, se ela ocorrer, para que as crianças possam ter à sua disposição os melhores
serviços possíveis para reduzir seus efeitos negativos."
Anders Nordström, Diretor-Geral em Exercício, OMS

ações educacionais desenvolvidas para pais e serviços de alta qualidade para as crianças, é
para o público em geral, campanhas de advoca- necessário oferecer um apoio sistemático e de
cy e ações de capacitação. Atitudes sociais e cul- longo prazo em todos os níveis por meio de cur-
turais que desrespeitam os direitos humanos de- sos de treinamento prévio e em serviço.
vem ser abordadas com sensibilidade, em fun-
ção do apego das pessoas às suas tradições. 6. Serviços de recuperação e reintegração
social devem ser disponibilizados
5. As capacitades de todas as pessoas que
trabalham com e em prol das crianças Recomendo que os Estados disponibilizem
devem ser desenvolvidas serviços sociais e de saúde acessíveis, sen-
síveis às necessidades das crianças e uni-
Recomendo que as capacidades de todas as versais, entre os quais serviços pré-hospi-
pessoas que trabalham com e em prol de talares e de emergência e de assistência
crianças sejam desenvolvidas, contribuin- jurídica a crianças e, se for o caso, às suas
do, assim, para eliminar qualquer forma famílias, quando atos de violência forem
de violência contra elas. É importante ofe- detectados ou revelados em seu meio. Os 21
recer um treinamento inicial e em serviço serviços prestados pelos sistemas de saú-
a elas para transmitir conhecimentos e um de, de assistência social e de justiça de-
senso de respeito pelos direitos da criança. vem ser estruturados para satisfazer as
Os Estados devem investir em programas necessidades especiais das crianças.
sistemáticos de educação e capacitação tan-
to para profissionais como para leigos que A violência contra a criança pode provocar sé-
trabalham com ou em prol de crianças e rios problemas sociais e de saúde que são one-
famílias visando prevenir, detectar e com- rosos tanto para indivíduos como para a socie-
bater a violência contra a criança. Devem dade. Para minimizar essas conseqüências da
ser formulados e implementados códigos de violência, diversos serviços de tratamento e
conduta e normas claras de procedimentos apoio serão necessários. Serviços de reabilita-
que incorporem a proibição e a rejeição de ção e reintegração também podem ajudar a di-
todas as formas de violência. minuir o risco de que crianças vítimas de vio-
lência mantenham seu ciclo.
Embora muitos serviços contribuam para preve-
nir a violência contra a criança, todos eles de- 7. A participação das crianças deve ser
vem considerar maneiras de maximizar seu po- garantida
tencial de prevenção por meio de medidas como
capacitações específicas para todas as pessoas Recomendo que os Estados se envolvam ati-
que trabalham com crianças. Para garantir a dis- vamente com crianças e respeitem seus pon-
ponibilidade de equipes altamente funcionais e tos de vista em todos os aspectos de suas
"Medidas para pôr fim à violência contra a criança devem ser integradas a planos de desenvolvimento nacional e a
estruturas de assistência ao desenvolvimento, em vez de ser tratadas como medidas secundárias."

Ragne Birte Lund, Embaixador, Ministério de Relações Exteriores da Noruega

ações de prevenção, combate e monitora- confidenciais e acessíveis para crianças,


mento da violência contra elas, levando em seus representantes e outras pessoas de-
consideração o disposto no Artigo 12 da nunciarem atos de violência contra a cri-
Convenção sobre os Direitos da Criança. anças. Todas as crianças, inclusive as
Organizações de crianças e iniciativas li- institucionalizadas para fins assistenci-
deradas por crianças contra a violência, ais e correcionais, devem ser informa-
orientadas por seus melhores interesses, das a respeito da existência desses me-
devem ser apoiadas e estimuladas. canismos de denúncia. Devem ser esta-
belecidos mecanismos como disque-de-
A CDC prevê o direito das crianças de expres- núncias que permitam às crianças de-
sar livremente suas opiniões em relação a to- nunciar atos de violência, conversar com
dos os temas que as afetam e que essas opini- um orientador devidamente capacitado
ões sejam devidamente consideradas. As opi- e solicitar apoio e orientação. Além dis-
niões e expectativas das crianças devem ser le- so, devem ser considerados outros me-
vadas em consideração para melhorar medidas canismos por meio dos quais atos de vi-
22 de prevenção e outras intervenções concebidas olência possam ser denunciados usando
para pôr fim à violência contra elas. As crian- novas tecnologias.
ças - atuando voluntariamente e com salvaguar-
das éticas adequadas - podem contribuir muito Estudos retrospectivos nos quais jovens adul-
para descrever o problema da violência que so- tos foram solicitados a relatar suas experiênci-
frem e melhorar o desenho de serviços e outras as na infância revelam que a maioria das crian-
intervenções nas quais elas possam confiar e ças que sofreram violência não contou a nin-
usar. A obrigação de averiguar e considerar se- guém e não procurou serviços de proteção da
riamente os pontos de vista das crianças deve criança na sua infância, mesmo em Estados que
ser integrada à estrutura jurídica de proteção dispõem de serviços altamente desenvolvidos.
da criança e influir na capacitação de pessoas As razões para esse fato incluem não saber onde
que trabalham com crianças e suas famílias. buscar ajuda, falta de serviços, falta de confi-
Crianças vítimas de violência não devem ser ança nos serviços ou, em alguns casos, medo
vistas apenas como objeto de preocupação; elas de retaliação do agressor.
devem também tratadas como indivíduos com
direitos e opiniões próprias. As crianças sem- Em muitos países, alguns grupos profissionais
pre devem ser escutadas e levadas a sério. têm a obrigação legal de denunciar qualquer
suspeita de violência contra a crianças. Em al-
8. Serviços e sistemas de denúncia acessíveis guns países, o público em geral tem a mesma
e "amigos da criança" devem ser criados obrigação legal. O Estudo colheu diferentes
opiniões em relação a sistemas de denúncia
Recomendo que os Estados estabeleçam obrigatória. É essencial que cada governo rea-
mecanismos seguros, bem divulgados, valie seus sistemas de denúncia e envolva nes-
1
"Como pode a África, um continente tão rico em recursos, culturas e valores, não estar protegendo
suas crianças, que representam seus maiores recursos presentes e futuros?"
Jovem refugiado. África Oriental Meridional, 2005 IV

se processo crianças e jovens adultos que tive- anças e aplicando sanções criminais, civis,
ram uma experiência recente com serviços de administrativas e profissionais adequadas
proteção à criança. a elas. Pessoas condenadas por delitos vio-
lentos e abuso sexual de crianças não de-
Em todas as localidades e ambientes nas quais vem ter permissão para trabalhar com elas.
crianças estejam presentes, serviços bem divul-
gados e facilmente acessíveis devem estar dis- Os governos devem desenvolver procedimentos
poníveis para investigar denúncias ou indícios sensíveis às necessidades da criança para inves-
de violência contra elas. As crianças devem tam- tigar casos de violência contra elas que não as
bém ter acesso a serviços por meio dos quais sujeitem a repetidas entrevistas e exames. Os
possam conversar confidencialmente sobre processos judiciais devem garantir um tratamento
qualquer coisa que as esteja preocupando ou adequado a testemunhas infantis e não as sujei-
machucando. A disponibilização de serviços tar a longas sessões de depoimentos, garantin-
confidenciais para crianças - serviços que ga- do, também, sua privacidade. O estresse de pro-
rantem que suas informações não serão relata- cessos judiciais pode ser reduzido usando-se
das a outras pessoas e que nenhuma medida será equipamentos de vídeo para apresentar provas, 23
tomada sem o consentimento da criança, a me- telas de projeção em tribunais e programas de
nos que ela esteja sob risco imediato de morte preparação de testemunhas e disponibilizando-
ou em sério perigo - é um tema controvertido se um apoio jurídico "amigo da criança".
em muitos países. Disponibilizar serviços con-
fidenciais às crianças, inclusive às mais vulne- Quando pais ou outros membros da família fo-
ráveis à violência, representa um questionamen- rem os agressores, as decisões sobre interven-
to de conceitos ultrapassados com base nos ções e procedimentos formais devem ser toma-
quais alguns pais se consideram "donos" de seus das levando em consideração os melhores inte-
filhos. No entanto, o que sabemos sobre a vio- resses da criança. Se o agressor for uma outra
lência no seio da família exige que as crianças criança, medidas de reabilitação devem ser pri-
tenham respeitado o direito de procurar acon- orizadas, juntamente como medidas para pro-
selhamento e ajuda confidencialmente. teger a criança que sofreu o ato de violência.

9. Medidas para punir agressores efetiva- O risco de reincidência de indivíduos que co-
mente e acabar com a impunidade devem meteram atos de violência contra uma criança
ser tomadas deve ser minimizado por meio de um tratamen-
to adequado. Os governos devem ser estimula-
Recomendo que os Estados estimulem a dos a rever a situação de agressores que estão
confiança da comunidade em seu sistema cumprindo penas para determinar se sua pena
de justiça processando todas as pessoas que ou tratamento está efetivamente minimizando
cometerem atos de violência contra a cri- o risco de reincidência ou não e emitir reco-
"Todas as nossas propostas são viáveis se contarmos com a vontade política e o compromisso da sociedade civil."

Jovem, Europa e Ásia Central 2006 V

mendações adequadas para sentenças e trata- cas e programas em todos os níveis e moni-
mentos futuros com esse fim em vista. torar o progresso alcançado na consecução
do objetivo de prevenir a violência contra a
10. A dimensão de gênero da violência con- criança. Os Estados devem usar indicado-
tra a criança deve ser abordada res nacionais baseados em normas acorda-
das internacionalmente e garantir que da-
Recomendo que os Estados tomem as me- dos sejam compilados, analisados e divul-
didas necessárias para garantir que suas gados com vistas a monitorar o progresso
políticas e programas de combate à vio- alcançado ao longo do tempo. Se ainda não
lência sejam estruturadas e implementa- tiverem sido estabelecidos, sistemas nacio-
das a partir de uma perspectiva de gêne- nais de registro de nascimentos, óbitos e ca-
ro, levando em consideração os diferen- samentos devem ser criados e mantidos. Os
tes riscos enfrentados por meninas e me- Estados devem também gerar e manter da-
ninos no que diz respeito à violência. Os dos sobre crianças que não estão sendo cri-
Estados devem promover e garantir os adas por seus pais e sobre crianças manti-
24 direitos humanos de mulheres e meninas das em instituições correcionais. Esses da-
e abordar todas as formas de discrimina- dos devem ser desagregados por gênero, ida-
ção de gênero como parte de uma estraté- de, área urbana/rural, características fami-
gia abrangente de prevenção da violência. liares e domiciliares, educação e etnia. Os
Estados devem também desenvolver uma
Meninas e meninos estão sujeitos a riscos dife- agenda nacional de pesquisas sobre a vio-
rentes de sofrer diferentes formas de violência lência contra a criança envolvendo os diver-
em diferentes situações. Todas as pesquisas so- sos ambientes nos quais a violência ocorre,
bre violência contra a criança e sobre estratégias que devem incluir entrevistas com crianças
de prevenção e combate a ela devem ser desen- e seus pais e uma atenção especial a grupos
volvidas considerando a questão de gênero. Par- vulneráveis de meninas e meninos.
ticularmente, o Estudo detectou a necessidade
de homens e meninos assumirem papéis ativos e O desenvolvimento de uma agenda nacional de
liderarem esforços para eliminar a violência. pesquisas sobre a violência contra a criança em
diferentes ambientes é crucial para o desenvol-
11. Pesquisas e coletas de dados sistemáticas vimento de conhecimentos adequados e de me-
devem ser desenvolvidas e levadas a cabo lhores programas. Esses planos devem envol-
em nível nacional ver crianças, pais, prestadores de serviços e
outras pessoas e usar diversos métodos, como
Recomendo aos Estados que melhorem seus entrevistas, melhores sistemas de denúncia e
sistemas de coleta de dados e de informação registro, investigações e levantamentos regula-
para identificar subgrupos vulneráveis, pro- res, prestando atenção, particularmente, em gru-
duzir insumos para a formulação de políti- pos vulneráveis de meninas e meninos.
"Visão sem ações concretas é um sonho, mas ações sem visão são um pesadelo."
Jovem, Europa e Ásia Central, 2006 VI

1
Nenhum país pode ser complacente com a vio- compatível com o objeto e propósito da
lência contra a criança e são necessárias mais Convenção e de seus Protocolos Opcionais
pesquisas sobre sua prevalência e causas e sobre deve ser eliminada em conformidade com
medidas de prevenção em todos os lugares. Nossa a Declaração de Viena e Plano de Ação da
capacidade de determinar a magnitude, caracte- Conferência Mundial de Direitos Huma-
rísticas e tendências de diversas formas de vio- nos de 1993. Os Estados devem ratificar
lência contra a criança é limitada, mesmo em todos os instrumentos internacionais e re-
países industrializados. Todos os países devem gionais sobre direitos humanos relevan-
aumentar sua capacidade de monitorar óbitos, tes que ofereçam proteção a crianças, en-
lesões e comportamentos associados à violência tre os quais a Convenção contra a Tortura
contra a criança para determinar se o problema e outros Tratamentos ou Penas Cruéis, De-
está diminuindo ou aumentando e definir dife- sumanos ou Degradantes e seus Protoco-
rentes estratégias para preveni-lo. São necessá- los Opcionais; o Estatuto de Roma do Tri-
rias normas internacionalmente aceitas e unifor- bunal Penal Internacional; a Convenção
mes para coletar dados sobre a violência contra para a Eliminação de Todas as Formas de
a criança para melhorar sua comparabilidade e Discriminação contra Mulheres e seus 25
garantir salvaguardas éticas adequadas. Protocolos Opcionais; as Convenções da
OIT no. 138 sobre a Idade Mínima para
Embora tenham sido observados alguns avanços Admissão no Emprego e no. 182 sobre as
na identificação de estratégias para prevenir algu- Piores Formas de Trabalho Infantil; e a
mas formas de violência contra a criança em al- Convenção das Nações Unidas contra o
guns países, ainda são necessárias mais pesquisas Crime Organizado Transnacional e o Pro-
para identificar e avaliar políticas e programas tocolo para Prevenir, Suprimir e Punir o
adequados e eficazes para prevenir todas as for- Tráfico de Pessoas, Especialmente Mulhe-
mas de violência contra a criança, especialmente res e Crianças, que suplementa a Conven-
contra meninas e meninos vulneráveis. ção das Nações Unidas contra o Crime Or-
ganizado Transnacional. Os Estados devem
12. O compromisso internacional deve ser implementar todas as suas obrigações le-
reforçado gais internacionais e fortalecer sua coope-
ração com os organismos dos tratados.
Recomendo que todos os Estados ratifi-
quem e implementem a Convenção sobre Recomendo que os Estados ajam em con-
os Direitos da Criança e seus dois Proto- formidade com seus compromissos de pre-
colos Opcionais sobre o envolvimento de venção da violência assumidos na Sessão
crianças em conflitos armados e na venda Especial da Assembléia das Nações Uni-
de crianças, prostituição e pornografia das sobre a Criança e no contexto da re-
infantis. Qualquer restrição que seja in- solução da Assembléia da Organização
Mundial da Saúde sobre a implementação cessos nacionais de planejamento deve ser
das recomendações do Relatório Mundial alcançada até 2007 e ela deve incluir a iden-
sobre Violência e Saúde30 e outras resolu- tificação de um ponto focal, de preferência
ções regionais de saúde pública que refor- em nível ministerial.
çam essa resolução.
z A meta de proibir todas as formas de violên-
cia contra a criança por lei e de iniciar um
IMPLEMENTAÇÃO E processo para desenvolver um sistema de co-
ACOMPANHAMENTO leta de dados confiáveis deve ser alcançada
até 2009.
O Relatório do Estudo apresentado à Assem-
bléia Geral enfatizou que os governos são os O relatório também insta os governos a forne-
principais responsáveis pela implementação cer informações sobre a implementação das re-
destas recomendações. No entanto, a participa- comendações do Estudo nos relatórios que ela-
ção de outros atores nos âmbitos nacional, in- boram periodicamente para o Comitê dos Di-
26 ternacional e regional é essencial para ajudar reitos da Criança.
os governos a cumprir seus compromissos. Es-
ses atores incluem organismos das Nações Uni- Organizações internacionais devem estimular
das, organizações da sociedade civil, inclusive e apoiar governos no processo de implementar
instituições nacionais de direitos humanos, or- estas recomendações. Instituições financeiras
ganizações de classe como associações de mé- internacionais devem rever suas políticas e ati-
dicos e enfermeiros, por exemplo, associações vidades, levando em consideração o impacto
comunitárias, educadores, pais e crianças. As que podem ter sobre as crianças. As equipes das
estratégias-chave para a implementação das re- Nações Unidas nos países devem adotar medi-
comendações estão descritas abaixo. das para combater a violência contra a criança
no marco de estratégias de redução da pobreza,
ÂMBITO NACIONAL E REGIONAL avaliações nacionais coordenadas e estruturas
de assistência ao desenvolvimento.
O Estudo enfocou, acima de tudo, a necessida-
de de se melhorar a implementação de ações Os Governos devem considerar a possibilidade
nacionais em prol de meninas e meninos. Para de designar um ombudsman ou comissário para
esse fim, o Relatório da Assembléia Geral das os direitos das crianças - em conformidade com
Nações Unidas enfatiza a urgência de ações em os Princípios de Paris.31 Trabalhando em regi-
nível nacional e estabelece metas a serem al- me de estreita cooperação com outros organis-
cançadas pelos governos: mos preocupados e interessados em questões
de saúde pública e proteção infantil, essas ins-
z A meta de integrar medidas de prevenção e tituições independentes devem ter um mandato
combate à violência contra a criança a pro- claro para monitorar os direitos das crianças em
1
nível regional, nacional e internacional. Elas rentes fóruns regionais, nacionais e interna-
devem também, onde necessário, ter a compe- cionais e apresentar um relatório ao Conse-
tência de receber e investigar denúncias de vio- lho dos Direitos Humanos e à Assembléia
lações de direitos das crianças apresentadas pela Geral periodicamente. Além disso, recomen-
população, inclusive por crianças. da-se que seja apresentado um relatório so-
bre a implementação das recomendações do
À luz das contribuições de organizações regio- Estudo na sexagésima quinta sessão da As-
nais para o Estudo, entidades regionais devem sembléia Geral, em 2010.
ser envolvidas na implementação e acompanha-
mento de suas recomendações. O desenvolvi- O Representante Especial deve trabalhar em re-
mento de mais mecanismos regionais deve ser gime de estreita colaboração com o Comitê dos
estimulado como um elemento importante da Direitos da Criança, com o Representante Espe-
estrutura geral de acompanhamento. Sistemas cial do Secretário-Geral para crianças envolvi-
regionais de proteção dos direitos humanos tam- das em conflitos armados, com o Representante
bém devem ser estabelecidos para monitorar a Especial para a venda de crianças e a prostitui-
implementação das recomendações do Estudo. ção e pornografia infantis e com o Representan- 27
te Especial para a violência contra a mulher e o
ÂMBITO INTERNACIONAL tráfico de pessoas, mas não deve duplicar o tra-
balho desses representantes. Ele deve colaborar
Em vista da importância da coordenação multis- com sistemas de proteção de direitos humanos
setorial no combate à violência contra a criança, regionais e com todas as demais iniciativas re-
o Relatório do Estudo propôs que os governos gionais e nacionais de acompanhamento.
designem um Representante Especial do Secre-
tário-Geral sobre Violência contra a Criança. O Recomenda-se que o Representante Especial
Representante Especial deve atuar como um de- tenha um mandato inicial de quatro anos. Apro-
fensor global de alto nível de medidas concebi- veitando os resultados positivos da colabora-
das para promover a prevenção e a eliminação ção entre agências no âmbito do Estudo, ele
de todas as formas de violência contra a criança, deve ser apoiado pelo Escritório do Alto Co-
estimular a cooperação internacional e regional missariado das Nações Unidas Apara os Direi-
e garantir um acompanhamento e monitoramen- tos Humanos, pelo UNICEF e pela OMS. O
to adequados das recomendações do Estudo. Grupo Inter-Agências das Nações Unidas so-
bre violência contra a criança, com representa-
O Representante Especial deve divulgar e pro- ção de ONGs e crianças, também deve apoiar
mover as recomendações do Estudo em dife- esse acompanhamento.
12 Aliança Internacional Save the Children (2005). 10
REFERÊNCIAS Essential LearningPoints: Listen and Speak Out against
Sexual Abuse of Girls and Boys. Documento global
1 Krug EG et al (Eds) (2002). Relatório Mundial sobre apresentado pela Aliança Internacional Save the Children
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Saúde. a Criança. Oslo, Save the Children Noruega.
2 Krug EG et al (Eds.) (2002). Relatório Mundial sobre 13 Bruce J (2002). Married Adolescents Girls: Human Rights,
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3 Shonkoff JP, Phillips DA (Eds) (2000). From Neurons to
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Due to Violence against Children. Documento Informativo
4 Krug EG et al (Eds) (2002). Relatório Mundial sobre
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Violência e Saúde. Genebra, Organização Mundial da
a Criança. Genebra, Organização Mundial da Saúde.
Saúde.
15 Análise apresentada ao Estudo pela Global Schoolbased
5 Ten Bensel RW, Rheinberger MM, Radbill SX (1997).
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Jordânia, Quênia, Líbano, Namíbia, Omã, Filipinas,
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16 Currie C et al (2004). Health Behaviour in School-
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7 Reza A et al (2001). Epidemiology of Violent Deaths in and Adolescents, No 4. Genebra, Organização Mundial
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8 Krug E et al (Eds) (2002). Relatório Mundial sobre 17 OMS (2006). Global Estimates of Health Consequences
Violência e Saúde. Genebra, Organização Mundial da Due to Violence against Children. Documento
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Violência contra a Criança. Genebra, Organização
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desenvolvidas por Andrews G et al (2004). Child Sexual
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10 Todas as respostas estão disponíveis em: http:// Burden of Disease Attributable to Selected Major Risk
www.ohchr.org/english/bodies/crc/study.htm. Até 20 de Factors, Vol 2. Genebra, Organização Mundial da
setembro de 2006, 135 Estados Membros e um Observador Saúde, págs. 1851-1940, e utilizando dados da Divisão
haviam apresentado respostas. de População das Nações Unidas para a população
abaixo de 18 anos.
11 A lista das informações apresentadas está disponível no
site do Estudo do Secretário-Geral das Nações Unidas 18 UNICEF (2005). Changing a Harmful Social Convention:
sobre Violência contra a Criança: http:// Female Genital Mutilation/Cutting. Innocenti Digest.
www.violencestudy.org. Florence, Centro de Pesquisas Innocenti do UNICEF.
1
19 OIT (2006). The End of Child Labour: Within Reach. Chicago (IL), Prevent Child Abuse America (PCAA).
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Trabalho www.preventchildabuse.org/learn_more/ research_docs/
cost_analysis.pdf.
20 OIT (2002). A Future Without Child Labour. Global
Report. Genebra, Organização Internacional do Trabalho. 30 OMS (2003). Implementing the Recommendations of the
World Report on Violence and Health. Relatório sobre a
21 Iniciativa Global para Acabar com todo Castigo Corporal
Assembléia Mundial de Saúde, WHA56.24,
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Qüinquagésima Sexta Assembléia Mundial da Saúde.
Status of Corporal Punishment of Children. 28 de junho
Genebra, Organização Mundial da Saúde.
de 2006.
31 Nações Unidas (1993). Principles Relating to the Status and
22 OMS (2006). Global Estimates of Health Consequences
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Due to Violence against Children. Documento Informativo
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para o Estudo do Secretário-Geral sobre Violência contra
www.unhchr.ch/html/menu6/2/fs19.htm#annex. Essas
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23 Runyan D et al (2002). Child Abuse and Neglect byParents sua resolução A/RES/48/134, de 20 de dezembro de 1993.
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CITAÇÕES
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Editora American Psychiatric Press, págs. 221-238. /www.violencestudy.org/r27.
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26 Centro para o Controle e Prevenção de Doenças (2006). Violência contra a Criança (2005). Regional Desk Review:
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Editora National Academy Press. em Mônaco da iniciativa Building a Europe for and with
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29 Fromm S (2001). Total Estimates of the Cost of Child coe.int/t/transversalprojects/children/events/
Abuse and Neglect in the United States - Statistical Evidence. monacoLaunch_en.asp
2
A VIOLÊNCIA CONTRA A CRIANÇA
E A LEI E NORMAS INTERNACIONAIS
DE DIREITOS HUMANOS

Introdução 33
A Convenção sobre os Direitos da Criança 34
Direito Criminal, Humanitário, de Refugiados
e Trabalhista Internacional 39
Sistemas Regionais de Direitos Humanos 40 31
Instrumentos não Obrigatórios 41
Referências 44
32
"Gostaria que uma coalizão de associações e organizações internacionais fosse estabelecida na
maior rapidez possível para incentivar e apoiar governos que assumem o compromisso de adotar
medidas específicas para impedir que crimes mais sérios contra crianças não fiquem impunes -

2
medidas como a ampliação dos prazos para processar pessoas por esses delitos ou a eliminação de
sua caducidade, a promoção de uma maior cooperação judicial ou a adoção de uma legislação
modelo ou estrutural para fortalecer ações contra o tráfico de crianças, inclusive o tráfico
promovido com a ajuda da Internet."
Sua Alteza Real a Princesa Caroline de Hanover, abril de 2006 I

INTRODUÇÃO Direitos Civis e Políticos. Elas também são ti-


tulares dos direitos e mecanismos de proteção
Todas as crianças têm direito de ter sua integrida- previstos em tratados específicos, inclusive nos
de física e pessoal respeitada e de ser protegidas que contemplam a eliminação da discrimina-
contra todos os tipos de violência. Como seres ção racial e contra mulheres, a prevenção da
humanos, as crianças têm o direito de gozar todos tortura e os direitos de trabalhadores migrantes
os direitos garantidos pelos diversos tratados de e de membros de suas famílias. Esses instru-
direitos humanos gerados a partir da Declaração mentos, que são legalmente obrigatórios para
Universal de Direitos Humanos.1 Elas também têm os Estados que os adotaram, incluem importan-
direito à proteção prevista em instrumentos legais tes disposições para a eliminação da violência
internacionais relacionados ao direito criminal, contra a criança. Alguns tratados, particularmen-
humanitário e trabalhista internacional.* te os dois pactos internacionais mencionados
acima, também incluem disposições sobre me-
Desde que a Declaração Universal dos Direitos canismos específicos de proteção para crianças.
Humanos foi adotada, em 1948, como a primei- 33
ra declaração oficial - mas não legalmente obri- O Pacto Internacional dos Direitos Econômicos,
gatória - dos direitos humanos, mais de sessenta Sociais e Culturais inclui uma disposição segun-
tratados sobre questões relacionadas à escravi- do a qual as crianças devem ser protegidas da
dão, à administração da justiça, à condição dos exploração econômica e social e que prevê a
refugiados e de grupos minoritários e aos direi- aplicação de sanções penais para pessoas ou
tos humanos foram elaborados. Todos eles ba- empresas que empregam crianças em atividades
seiam-se nos conceitos da não-discriminação, da prejudiciais à sua moral ou saúde ou que acarre-
igualdade e do reconhecimento da dignidade de tem risco de vida para elas ou possam dificultar
todos os indivíduos, como previsto na Declara- seu desenvolvimento. O Pacto Internacional dos
ção Universal, e cada um deles explicita que os Direitos Civis e Políticos proíbe expressamente
direitos que prevêem devem ser gozados por to- a imposição da pena de morte a crianças e ado-
dos, inclusive por crianças, em pé de igualdade. lescentes abaixo de 18 anos. Ele inclui também
disposições sobre o tratamento adequado a ser
As crianças, portanto, são titulares dos direitos dispensado a crianças acusadas e condenadas que
e procedimentos previstos na Carta Internacio- exigem, particularmente, que elas sejam manti-
nal dos Direitos Humanos, que consiste no Pacto das separadas de adultos réus e criminosos.
Internacional dos Direitos Econômicos, Soci-
ais e Culturais e no Pacto Internacional dos A Convenção para a Eliminação de Todas as
Formas de Discriminação Contra Mulheres é
plenamente aplicável a meninas abaixo de 18
* Mais informações sobre todos os instrumentos
mencionados neste capítulo podem ser encontradas no anos. O Artigo 16.2 da Convenção prevê que o
endereço http://www.ohchr.org. casamento de uma criança não tem nenhum efei-
"Acredito realmente que não há nada mais importante do que a proteção da criança, porque ela está vinculada a todos os
seus outros direitos, como o direito ao desenvolvimento, à sobrevivência e à participação. Para todos os países, o
reconhecimento desse direito como primordial e a decisão de implementar programas e estabelecer instituições para
garantir a proteção da criança representam um passo gigantesco na direção certa."

Srta. Loveleen Kacker, Secretária-Adjunta, Ministério de Desenvolvimento das Mulheres e das Crianças, Índia

to legal e que todas as medidas necessárias, in- âmbito da Convenção contra a Tortura e outros
clusive medidas legislativas, devem ser toma- Tratamentos ou Penas Cruéis, Desumanos ou
das pelos Estados para especificar uma idade Degradantes introduz um sistema de visitas a
mínima para o casamento e garantir seu regis- casas de detenção nos Estados-membros.
tro num cartório oficial compulsoriamente.
Todos os órgãos que aceitaram o tratado enfati-
A proteção prevista na lei internacional dos direi- zaram a obrigação dos Estados de tomar medi-
tos humanos será ampliada com a finalização de das específicas para eliminar e combater a vio-
tratados focados em crianças desaparecidas ou lência contra a criança em suas observações e
portadoras de deficiência que estão sendo elabo- relatórios finais e em muitas de suas decisões
rados. Disposições especificamente relacionadas sobre requerimentos. Vários órgãos do tratado
aos direitos humanos de crianças portadoras de também adotaram Comentários Gerais ou reco-
deficiência, que prevêem inclusive a obrigação dos mendações que enfatizam a obrigação dos Esta-
Estados de combater a violência contra elas, fo- dos de combater a violência contra a criança. O
ram incluídas na minuta da Convenção sobre os Comentário Geral sobre o Direito à Educação
34 Direitos das Pessoas Portadoras de Deficiência que apresentado pelo Comitê dos Direitos Econômi-
será apresentada à Assembléia Geral para adoção cos, Sociais e Culturais indica que a aplicação
na sua sexagésima primeira sessão. de castigos corporais em ambientes educacionais
é incompatível com o direito internacional e com
A implementação de cada um dos sete princi- a dignidade dos indivíduos. O Comitê para a Eli-
pais tratados de direitos humanos atualmente minação da Discriminação contra a Mulher ado-
em vigor está sendo monitorada por um Comi- tou uma recomendação geral sobre a obrigação
tê de Especialistas por meio de diversos proce- dos Estados no âmbito da Convenção de impe-
dimentos. A implementação desses instrumen- dir a mutilação genital feminina e de observar
tos é avaliada pelo Comitê com base na apreci- duas recomendações gerais sobre a violência de
ação de relatórios apresentados pelos Estados gênero contra a mulher.
e após essa avaliação ele emite recomendações
para outras ações necessárias. Quatro comitês
têm poderes para considerar solicitações de in-
A CONVENÇÃO SOBRE OS
divíduos que alegam que seus direitos foram DIREITOS DA CRIANÇA
violados quando o Estado envolvido aceita esse
procedimento. Dois comitês também têm po- Embora tratados internacionais de direitos hu-
deres para investigar violações graves ou siste- manos de caráter geral e outros acordos inter-
máticas dos tratados quando o Estado em ques- nacionais prevejam mecanismos de proteção
tão aceita esse procedimento. Procedimentos para as crianças, a comunidade internacional
semelhantes estão previstos também nas minu- reconheceu, nos estágios iniciais das ativida-
tas dos tratados sobre desaparecimentos e defi- des das Nações Unidas, a necessidade de se
ciências, enquanto o Protocolo Opcional no garantir uma proteção específica para os di-
"Ao ratificarem a Convenção (sobre os Direitos da Criança), os países ficam obrigados a adotar
leis, políticas e programas para garantir que todas as crianças cresçam em um ambiente de amor e
compreensão no qual elas não sintam medo ou experimentem privações, sejam protegidas da
discriminação, da violência e da exploração e tenham todas as oportunidades para desenvolver o

2
seu potencial plenamente. Adotando a Convenção, assumimos o compromisso de garantir
que as oportunidades de uma pessoa na vida não sejam determinadas pelas
circunstâncias do seu nascimento."
Marta Santos Pais, Conselho Editorial do Estudo do Secretário-Geral das Nações Unidas
sobre Violência contra Crianças

reitos das crianças. A Declaração dos Direitos proteger a criança contra todas as formas de
da Criança da Assembléia Geral de 1959 esta- violência física ou mental, abuso ou tratamen-
beleceu dez princípios não obrigatórios con- to negligente, maus-tratos ou exploração, inclu-
cebidos para garantir salvaguardas especiais sive abuso sexual, enquanto estiver sob a guar-
para as crianças. da dos pais, do representante legal ou de qual-
quer outra pessoa responsável por ela". A abran-
A Convenção sobre os Direitos da Criança gência dessa obrigação foi enfatizada pelo Co-
(CDC), que prevê normas legalmente obrigató- mitê dos Direitos da Criança.
rias, foi adotada pela Assembléia Geral em
1989. A CDC, que sinaliza claramente que as O Comitê também destacou a exigência de que
crianças são titulares de direitos humanos e re- todas as formas de violência contra a criança
conhece sua personalidade jurídica diferencia- devem ser proibidas, inclusive todas as formas
da e suas capacidades em processo de forma- de castigo corporal, ainda que brandas. O Co-
ção, é o tratado de direitos humanos de mais mentário Geral no. 8 do Comitê sobre o Direi-
ampla aceitação, uma vez que foi ratificado ou to da Criança à Proteção contra Punição Cor-
aderido por 192 Estados. Seus 42 artigos subs- poral e Outras Formas Cruéis ou Degradantes 35
tantivos estabelecem direitos civis, políticos, de Punição, adotado em sua quadragésima se-
econômicos, sociais e culturais formulados para gunda sessão, realizada em junho de 2006,
satisfazer as necessidades especiais da criança, salienta a obrigação de todos os Estados de
que é definida na CDC como qualquer ser hu- tomarem medidas rapidamente para proibir e
mano com menos de 18 anos de idade, exceto eliminar qualquer tipo de castigo corporal e
se, pela lei aplicável no país às crianças, a mai- outras formas cruéis ou degradantes de puni-
oridade for conferida em idade inferior.2 ção aplicadas a crianças, enfocando a neces-
sidade de os Estados adotarem medidas le-
A CDC estabelece um conjunto de princípios gislativas e de promoverem campanhas de
legais e normas detalhadas que devem reger to- conscientização e educacionais.3
das as leis, políticas e práticas que afetem crian-
ças. Eles incluem princípios de promoção da pre- O Comentário Geral esclarece que o Comitê não
venção da violência e mecanismos para proteger rejeita o conceito positivo da disciplina e reco-
crianças contra todos os tipos de violência. nhece que a paternidade e os cuidados que as
crianças necessitam, particularmente bebês e
Vários Artigos da CDC afirmam o direito da crianças de tenra idade, exigem constantes ações
criança à integridade física e pessoal e estabe- e intervenções físicas para protegê-las. O Co-
lecem padrões elevados de proteção para ela. mitê indica que esses cuidados são bem dife-
O Artigo 19 exige que os Estados partes da CDC rentes do uso deliberado e punitivo da força com
tomem "todas as medidas legislativas, adminis- o objetivo de provocar dor, desconforto ou hu-
trativas, sociais e educacionais apropriadas para milhação em crianças em qualquer grau.
"Crianças são traídas diariamente pelo silêncio, pela omissão e pela impunidade. Professores que agrediram sexualmente
alunos continuam a dar aulas. Policiais que torturaram crianças na frente de testemunhas não são afastados de suas
funções. Funcionários de orfanatos que sujeitam crianças a níveis chocantes de crueldade e negligência não sofrem
nenhuma conseqüência. Muito frequentemente, crianças são vitimizadas duas vezes: inicialmente pelo abuso inicial e
posteriormente pelo fato de as autoridades não punirem seus agressores."

Jo Becker, Conselho Editorial do Estudo do Secretário-Geral das Nações Unidas sobre Violência contra a Criança

Os Artigos 32 a 36 estabelecem os direitos


"Além de ser uma obrigação dos Estados par- legais da criança de serem protegidas contra
tes da Convenção, a eliminação da aceita- diversas formas de exploração: contra a ex-
ção ou tolerância generalizada de castigos ploração econômica e "o desempenho de qual-
corporais impostos a crianças na família, nas quer trabalho que possa ser perigoso ou in-
escolas e em outros ambientes é uma estra- terferir em sua educação, ou seja nocivo para
tégia-chave para se reduzir e prevenir todas a sua saúde ou desenvolvimento físico, men-
as formas de violência nas sociedades." tal, espiritual, moral ou social" (Artigo 32);
contra o "uso ilícito de drogas e substâncias
Comitê sobre os Direitos da Criança, psicotrópicas" e o envolvimento "na produ-
Comentário Geral no. 8, parágrafo 3.4 ção e no tráfico ilícito dessas substâncias"
(Artigo 33); contra "todas as formas de ex-
O Artigo 28 (2) da CDC exige que a discipli- ploração e abuso sexual", inclusive a prosti-
na escolar seja "ministrada de maneira com- tuição e a pornografia (Artigo 34); contra
patível com a dignidade humana da criança e seqüestro, venda e tráfico (Artigo 35) e con-
36 tra "todas as demais formas de exploração que
em conformidade com a presente Conven-
ção". Na sua interpretação dessa disposição, sejam prejudiciais a qualquer aspecto de seu
o Comitê destaca que ela exige que os Esta- bem-estar" (Artigo 36).
dos membros proíbam o castigo corporal e
outras formas humilhantes e prejudiciais de O artigo 38, no qual os Estados partes se com-
disciplina nas escolas. prometem a garantir respeito às normas do di-
reito humanitário internacional que lhes são
"... As crianças não perdem seus direitos aplicáveis no que diz respeito a crianças e con-
humanos quando atravessam os portões de flitos armados, menciona as obrigações conti-
suas escolas. Por essa razão, a educação das nas Convenções de Genebra, enquanto o
deve ser oferecida com respeito à digni- artigo 37 declara que nenhuma criança deverá
dade inerente da criança, permitindo que será submetida a "tortura ou outro tratamento
ela expresse suas opiniões livremente, ou punição cruel, desumano ou degradante" ou
como disposto no Artigo 12 (1), e participe sentenciada à pena de morte ou prisão perpé-
da vida escolar. A educação deve também tua. O artigo 37 proíbe também qualquer restri-
ser oferecida com respeito aos limites dis- ção arbitrária ou ilegal da liberdade de crianças
ciplinares previstos no Artigo 28 (2) e com e estabelece limites e condições rígidas para a
o intuito de promover uma cultura de não perda da liberdade aplicáveis a qualquer restri-
violência nas escolas..." ção de liberdade imposta para fins de "bem-es-
tar" ou penais. O artigo 39 obriga os Estados a
Comitê dos Direitos da Criança, tomarem medidas adequadas para promover a
Comentário Geral No. 15 recuperação psicológica e física e a reintegra-
ção social de crianças vítimas de violência.
2
Juntamente com o artigo 37, o artigo 40, sobre periódico de avaliação do tratamento ao qual
a administração da justiça juvenil, estabelece uma criança está sendo submetida. Obrigações
salvaguardas de segurança detalhadas: crianças relacionadas a adoção foram estabelecidas no
que entrarem em conflito com a lei devem ser artigo 21, obrigações relacionadas a crianças
"ser tratadas de modo a promover e estimular refugiadas estão previstas no artigo 22 e obri-
seu sentido de dignidade e de valor". Em com- gações relacionadas a crianças portadoras de
binação com o Artigo 19, ele exige também que deficiência foram incluídas no artigo 23.
os Estados não permitam que crianças sofram
atos de violência nas mãos de autoridades do Obrigações mais gerais - aplicáveis particular-
Estado em qualquer nível do sistema. Tratamen- mente à prevenção da violência - foram estabe-
tos e punições não devem envolver nenhuma lecidas no artigo 24, que dispõe sobre o direito
forma de violência física ou mental. Sempre que à saúde e a um acesso adequado a serviços de
apropriado e desejável, alguma alternativa fora saúde. Os artigos 28 e 29 definem o direito à
do sistema judicial deve ser disponibilizada. educação e os objetivos da educação e o artigo
Para crianças que cometem delitos, devem ser 27 dispõe sobre o direito a uma qualidade de
oferecidas alternativas à institucionalização, vida adequada. 37
"tais como ordens de guarda, orientação e su-
pervisão, aconselhamento, liberdade vigiada, A CDC é suplementada por dois Protocolos
colocação em lares de adoção, programas de Opcionais, adotados em 2000, que prevêem me-
educação e formação profissional". canismos de proteção mais detalhados para cri-
anças contra formas específicas de violência.
Outras disposições da CDC são importantes O Protocolo Opcional sobre a venda de crian-
para proteger crianças da violência. Elas inclu- ças e a prostituição e pornografia infantis defi-
em direito civis relacionados à liberdade de nem essas formas de violência. Ele também
expressão, informação, consciência e religião, exige que os Estados partes criminalizem essas
associação, reunião pacífica, privacidade e aces- atividades e que qualquer participação ou in-
so a informações (artigos 12, 13, 14, 15, 16 e tenção de participar em atos dessa natureza seja
17). O artigo 9 garante o direito da criança de punida de acordo com a gravidade do delito
não ser separada de seus pais, a menos que essa envolvido. Ele exige também que os Estados
medida vise satisfazer seu interesse maior. O fechem qualquer recinto usado para fins de pros-
artigo 18 prevê que o Estado deve prestar uma tituição e pornografia infantis e confisquem os
assistência adequada aos pais e guardiões le- proventos dessas práticas e quaisquer meios
gais em suas responsabilidades de criar crian- usados para facilitá-las e inclui disposições de-
ças. De acordo com o artigo 20, crianças retira- talhadas sobre o tratamento a ser oferecido às
das do ambiente familiar têm direito a uma as- vítimas desses atos. O Protocolo Opcional da
sistência e proteção especiais por parte do Es- CDC sobre o envolvimento de crianças em con-
tado. O artigo 25 prevê o direito a um exame flitos armados limita o recrutamento de crian-
"Expondo os diferentes problemas de crianças que sofrem violência, percebemos que a nossa luta faz parte de um esforço
mundial mais amplo pela garantia dos direitos humanos. Não queremos ter um tratamento especial, apenas um
tratamento humano, sintonizado com os valores centrais da dignidade humana previstos na Declaração Universal
dos Direitos Humanos. Como cidadãos globais, queremos ser reconhecidos como seres humanos de primeira classe
e não de segunda classe."

Declaração de crianças e jovens, Consulta Regional, Caribe, 2005II

ças abaixo de 18 anos e obriga os Estados a à sobrevivência e ao desenvolvimento, que se-


oferecer tratamento físico ou psicológico a cri- gundo o CDC inclui dimensões físicas, men-
anças que participaram de conflitos armados e tais, espirituais, morais e sociais (Artigo 6), tam-
a apoiá-las em sua reintegração à sociedade. bém é identificado como um princípio geral.
Segundo o artigo 12, a criança tem o direito de
Para o Comitê dos Direitos da Criança, os arti- expressar suas opiniões sobre qualquer ques-
gos 2, 3, 6 e 12 estabelecem princípios gerais. tão que lhe diga respeito sem restrições e de ter
Em sintonia com o artigo 2, todos os direitos essas opiniões levadas na devida consideração,
previstos na Convenção devem ser garantidos de acordo com sua idade e maturidade.
a todas as crianças, sem nenhuma discrimina-
ção, e os Estados partes devem tomar medidas
"... ao conceituar violência, o ponto de par-
adequadas para não permitir que crianças se-
tida crítico e o panorama de referências de-
jam discriminadas.
vem ser a experiência pessoal da própria
criança. Dessa forma, as crianças e os jo-
"...a interpretação dos interesses maiores da
38 vens devem estar significativamente envol-
criança deve ser compatível com todas as
vidos na promoção e no planejamento de
disposições da Convenção e deve levar em
ações contra violência contra criança".
consideração a obrigação de se proteger as
crianças contra todas as formas de violência
Comitê sobre os Direitos da Criança, reco-
e de se levar suas opiniões na devida consi-
mendações adotadas seguinte ao dia da
deração. Ela não deve ser usada para justifi-
discussão geral sobre a Violência contra a
car ações, inclusive castigos corporais e ou-
criança na Família e nas Escolas, 20017
tras formas cruéis e degradantes de punição,
que firam a dignidade humana e o direito à
integridade física da criança. O Comitê dos Direitos da Criança, que vem
analisando relatórios de vários Estados desde
Comitê dos Direitos da Criança, 1993, tem orientado muito os Estados em sua
Comentário Geral no. 86 obrigação de combater a violência contra a cri-
ança, particularmente em relação a recomen-
Satisfazer os melhores interesses das crianças dações emitidas após seus dois dias de discus-
deve ser a principal consideração em todas as sões gerais sobre a Violência contra a Criança
medidas tomadas em prol delas. Por essa ra- em 20008 e 20019 e em relação a seus Comen-
zão, todas as organizações públicas e privadas, tários Gerais nos. 1110 e 8.11
tribunais e autoridades administrativas devem
considerar o impacto de suas medidas sobre O Comitê observou, com satisfação, que tri-
crianças para garantir que seus melhores inte- bunais nacionais, inclusive tribunais constitu-
resses sejam sempre levados em consideração cionais e superiores de muitas jurisdições, têm
(Artigo 3). O direito inerente da criança à vida, condenado a violência contra a criança em jul-
2
gamentos cada vez mais baseados nos trata- internos e internacionais. As crianças que se
dos de direitos humanos, particularmente na enquadram na definição de refugiadas da Con-
CDC, e nos pareceres de órgãos de tratados de venção das Nações Unidas de 1951 relativa ao
direitos humanos. Estatuto dos Refugiados e seu Protocolo de 1967
têm acesso a um amplo conjunto de direitos e
"Crianças têm direitos que de forma alguma proteções, como o direito a assistência jurídica e
são inferiores aos dos adultos. Fiji ratificou a proteção material e o direito de não serem en-
a Convenção. Nossa Constituição também viadas de volta a locais nos quais são persegui-
garante direitos fundamentais a todos. O das. Embora não sejam legalmente obrigatórios,
governo deve observar o princípio de res- os Princípios Norteadores sobre o Deslocamen-
peitar os direitos de todos os indivíduos, to Interno de 1998, que consistem em 30 princí-
comunidades e grupos. As crianças precisam pios, garantem proteção e assistência a indiví-
de uma proteção especial. Nossas institui- duos enquanto são deslocados e estabelecem di-
ções educacionais deveriam ser santuários retrizes para o seu retorno, reassentamento e rein-
de paz e criatividade e não locais de medo e tegração seguros. Os Princípios Norteadores en-
focam, particularmente, os direitos e necessida- 39
maus-tratos que atentam contra a dignidade
humana das crianças. des das crianças, principalmente de meninas, e
proíbem sua venda para fins de casamento, ex-
Tribunal de Recursos de Fiji, 2002, no ploração sexual, trabalho forçado e recrutamen-
caso Naushad vs. Estado, no qual to ou o uso de crianças em conflitos.
determinou que castigos corporais em
escolas e no sistema penal são A questão do tráfico em geral, inclusive do trá-
inconstitucionais.12 fico infantil, foi contemplada no primeiro ins-
trumento consolidado sobre o tema, a Conven-
ção sobre a Supressão do Tráfico de Pessoas e
DIREITO CRIMINAL, da Exploração da Prostituição Alheia, adotada
pela Assembléia Geral em 1950. Medidas fo-
HUMANITÁRIO, DE REFUGIADOS cadas na eliminação do tráfico também foram
E TRABALHISTA INTERNACIONAL incluídas nas Convenções para a Eliminação da
Discriminação contra Mulheres e dos Direitos
A proteção garantida às crianças nas disposi- da Criança, e na Convenção da Organização
ções de direitos humanos deve ser observada Internacional do Trabalho sobre as Piores For-
sempre. Ao mesmo tempo, o Estatuto de Roma mas de Trabalho Infantil (1999) no. 182. Em
do Tribunal Penal Internacional, as quatro Con- 2000, a Assembléia Geral adotou a Convenção
venções de Genebra de 1949 e seus dois Proto- contra o Crime Organizado Transnacional das
colos Adicionais de 1977 prevêem uma prote- Nações Unidas e seus protocolos suplementa-
ção legal essencial para crianças em conflitos res: O Protocolo para Prevenir, Suprimir e Pu-
"Embora sejam direitos fundamentais, os direitos da criança ainda não foram adequadamente estabelecidos,
em primeiro lugar e acima de tudo, em nível nacional."
Françoise Tulkens, Juíza do Tribunal Europeu dos Direitos Humanos, abril 2006 III

nir o Tráfico de Pessoas, Especialmente de te, assim como o Protocolo Africano sobre os
Mulheres e Crianças e o Protocolo contra o Direitos da Mulher, adotado em 2004, que pre-
Contrabando de Migrantes por terra, mar e ar. vê a eliminação de práticas tradicionais preju-
A Convenção prevê cooperação em investiga- diciais, entre as quais a mutilação genital femi-
ções, assistência jurídica mútua e extradição em nina, a escarificação e a medicalização de prá-
casos que envolvam tráfico. O Protocolo con- ticas tradicionais prejudiciais e estabelece em
tra o Tráfico, que já foi aceito por 105 Estados 18 anos a idade mínima para o casamento.
em todas as regiões do mundo (desde 6 de se-
tembro de 2006), inclui a primeira definição Mecanismos regionais de direitos humanos,
legal internacional de tráfico, dispõe sobre as- responsáveis pela supervisão desses instrumen-
sistência e proteção de vítimas do tráfico e exi- tos legais, abordaram diversas formas de vio-
ge que os Estados partes criminalizem essas lência contra a criança. Por exemplo, O Tribu-
atividades e prestem assistência e proteção às nal Europeu dos Direitos Humanos observou
suas vítimas. Ele também prevê medidas pre- violações da Convenção Européia sobre Direi-
ventivas neste contexto. tos Humanos em inúmeros casos envolvendo
40 castigos corporais no sistema penal, em esco-
Direitos específicos e medidas para proteger las e no lar.13 O tribunal também julgou casos
crianças em contextos de trabalho estão previs- de abuso sexual e de falhas nos sistemas de pro-
tos nas inúmeras convenções elaboradas pela teção infantil e de justiça juvenil.14 O Comitê
Organização Internacional do Trabalho, parti- Europeu dos Direitos Sociais, que monitora a
cularmente na Convenção da Idade Mínima observância da Carta Social Européia e da Car-
(1973), no. 183, e na Convenção sobre as Pio- ta Social Revisada, considera que esses instru-
res Formas de Trabalho Infantil (1999), no. 182. mentos exigem que qualquer forma de violên-
cia contra a criança seja legalmente proibida.15

SISTEMAS REGIONAIS DE "O Comitê considera inaceitável que uma


DIREITOS HUMANOS sociedade que proíbe qualquer forma de vi-
olência física entre adultos aceite que adul-
O sistema jurídico internacional para a promo- tos submetam crianças a violência física."
ção e proteção dos direitos humanos e as nor-
mas previstas nele para a violência contra a cri- Comitê Europeu dos Direitos Sociais (2001).
ança são reforçados por tratados adotados regi- Observação Geral feita na Introdução
onalmente, pelo Conselho da Europa, pela Geral às Conclusões XV - 2, Volume 116
União Européia, pela Organização dos Estados
Americanos, pela União Africana e por meca- Em 2002, a Corte Interamericana de Direitos
nismos implementados para monitorá-los e ga- Humanos emitiu um parecer sobre a condição
rantir a sua observância. A Carta Africana dos jurídica e os direitos humanos da criança, indi-
Direitos da Criança é particularmente relevan- cando que os Estados partes da Convenção
2
"A erradicação da violência exige que o objetivo comum e os vínculos intrínsecos entre a saúde e
os direitos humanos sejam usados para salvaguardar a dignidade humana e promover o
bem-estar das pessoas."
Dra. Gro Harlem Brundtland, Ex-Diretora Geral da OMS

Americana sobre os Direitos Humanos têm a finem normas ou criam princípios relacionados
obrigação de adotar todas as medidas necessá- à erradicação da violência contra a criança. Den-
rias para proteger crianças de maus-tratos em tro do sistema das Nações Unidas, foram adota-
suas relações com autoridades públicas, indiví- das normas e diretrizes para a administração da
duos e entidades não governamentais.17 justiça juvenil (Regras de Pequim, 1985), a pre-
venção da delinqüência juvenil (Diretrizes de
Em 2003, a Comissão Africana de Direitos Riad, 1990) e a proteção de jovens privados de
Humanos e dos Povos decidiu que o uso do sua liberdade. A Declaração das Nações Unidas
chicote como uma medida disciplinar em esco- sobre a Violência contra Mulheres de 1993 defi-
las se enquadrava na definição de punição cru- ne a violência de gênero e orienta os Estados em
el, desumana e degradante e pediu que o Esta- relação a medidas que devem tomar para com-
do em questão alterasse sua legislação no sen- bater a violência contra mulheres e meninas.
tido de abolir essa prática e que tomasse medi-
das adequadas para compensar suas vítimas.18 As conclusões das conferências mundiais das
Nações Unidas e suas avaliações em sessões
especiais da Assembléia Geral também abor- 41
"Os indivíduos e, principalmente, o governo de
um país não têm o direito de aplicar violência dam a violência contra a criança. A Sessão Es-
física contra indivíduos por delitos que come- pecial da Assembléia Geral de 2002 sobre cri-
teram. Reconhecer esse direito seria o mesmo anças incluiu uma longa seção sobre a violên-
que sancionar atos de tortura patrocinados pelo cia contra a criança em seu documento final,
Estado (no âmbito da Carta Africana dos Direi- intitulado Um Mundo Adequado para as Crian-
tos Humanos e das Pessoas) e contrariaria a ças. Os Objetivos de Desenvolvimento do Mi-
natureza desse tratado de direitos humanos." lênio, adotados na Cúpula do Milênio, realiza-
da em 2002, e as Conclusões da Conferência
Comissão Africana dos Direitos Humanos de 2005 das Nações Unidas também incluem
e das Povos, Comunicação 236/2000 acordos que são importantes para se pôr fim à
(2003) sobre o caso Curtis Francis violência contra a criança.
Doebbler versus Sudão.19
Instrumentos que não são legalmente obrigató-
rios, mas são altamente persuasivos no contex-
to da violência contra a criança, também têm
INSTRUMENTOS NÃO sido adotados pelos conselhos diretores dos ór-
OBRIGATÓRIOS gãos especializados e de outros organismos do
sistema das Nações Unidas. Eles incluem reso-
Os tratados sobre direitos humanos internacio- luções adotadas pelos conselhos diretores da
nais e regionais são complementados por instru- OMS (veja quadro abaixo) e do UNICEF. O
mentos que, embora não sejam obrigatórios, de- Comitê Executivo do Alto Comissariado para
TRATADOS REGIONAIS QUE ABORDAM A VIOLÊNCIA CONTRA A CRIANÇA*

Organização dos Estados Americanos:


Convenção Interamericana para a Prevenção e Punição da Tortura
Convenção Interamericana sobre o Desaparecimento Forçado de Pessoas
Convenção Interamericana sobre a Eliminação de todas as Formas de Discriminação contra Pessoas
Portadoras de Deficiências
Convenção Interamericana para Prevenir, Punir e Erradicar a Violência contra a Mulher - "Conven-
ção de Belém do Pará"

União Africana:
Carta Africana dos Direitos Humanos e dos Povos
Protocolo para a Carta Africana dos Direitos Humanos e dos Povos, sobre os Direitos das Mulheres na África
Carta Africana dos Direitos e Bem-Estar da Criança
42 Associação Sul-Asiática para a Cooperação Regional (SAARC):
Convenção sobre os Arranjos Regionais para a Promoção da Carta Social do Bem-Estar da Criança
Convenção Regional sobre a Prevenção e Combate ao Tráfico de Mulheres e Crianças para fins de
Prostituição

Liga dos Estados Árabes:


Carta Árabe dos Direitos Humanos (modificada em 1994, revisada em 2005; ainda não implementada)

União Européia:
Comunicação da Comissão: Rumo a uma Estratégia da União Européia sobre os Direitos da Criança,
Bruxelas, 4.7.2006, COM (2006) 367 final
Comunicação da Comissão para o Parlamento Europeu e para o Conselho: Combatendo o Trafico de
Seres Humanos - uma abordagem integrada e propostas para um plano de ação, Bruxelas, 18.10.2005,
COM (2005) 514 final

Conselho Europeu:
Convenção Européia de Proteção aos Direitos do Homem e das Liberdades Fundamentais
Carta Social Européia e Carta Social Européia Revista
Protocolo Adicional à Carta Social Européia Estabelecendo um Sistema de Reclamações Coletivas
Convenção Européia para a Prevenção da Tortura e outros Tratamentos ou Punições Desumanas e
Degradantes
Convenção sobre o Crime Cibernético
Convenção do Conselho da Europa para Ação contra o Tráfico de Seres Humano
* Lista não exaustiva
2
A ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE

As atividades da Assembléia Geral da Saúde em relação à violência contra a criança também


refletem o compromisso dos governos e constituem uma forte plataforma para abordar a violên-
cia contra a criança que complementa os direitos humanos.

O mandato da saúde pública para abordar a questão da violência contra a criança baseia-se no
mandato maior da Organização Mundial da Saúde de prevenir de todas as formas de violência.
A Assembléia Mundial da Saúde, que é conselho diretor da Organização Mundial da Saúde,
declarou, em sua resolução AMS 49.25 (1996), que a violência é um dos maiores problemas
mundiais de saúde pública e expressou grande preocupação com os níveis de violência contra a
mulher e a criança. Ela recomendou que seus Países-Membros avaliassem o problema da vio-
lência e solicitou à OMS que desenvolvesse um plano de ação para a prevenção da violência. A
Assembléia Mundial da Saúde endossou o plano de ação e solicitou que ele fosse mais detalha-
damente desenvolvido (resolução AMS 50.19). 43
Em resposta a essas resoluções, a OMS preparou o primeiro relatório mundial sobre violência e
saúde, publicado em 2002. O Relatório Mundial sobre Violência e Saúde descreveu sobre o
alcance da violência como problema de saúde pública, estabeleceu uma estratégia de prevenção
orientada para a saúde pública e fez nove recomendações. O relatório inspirou a Assembléia
Mundial de Saúde a adotar uma resolução (AMS 56.24) pela qual solicitou aos seus Estados-
Membros que promovessem as recomendações contidas no relatório, designassem um ponto
focal no ministério da saúde para a prevenção da violência e elaborassem um relatório nacional
sobre a violência e a prevenção da violência.

Refugiados das Nações Unidas (UNHCR) ado- mente obrigatórias de respeitar, proteger e ga-
tou uma política para crianças refugiadas em rantir os direitos que afirmam apoiar. Eles não
1993 e desenvolveu diretrizes sobre a prote- devem interferir na fruição desses direitos e
ção e cuidados a serem garantidos a essas cri- devem proteger indivíduos contra atos de vio-
anças que estabelecem orientações detalhadas lência por parte de autoridades públicas e to-
para garantir que crianças refugiadas sejam mar medidas adequadas para garantir o exer-
protegidas de violência física e sexual, princi- cício dos direitos humanos.
palmente enquanto estiverem abrigadas em
grandes campos de refugiados. No que se refere à violência contra a criança, os
governos devem tomar medidas positivas e ime-
Ao aderirem a tratados internacionais e regio- diatas para prevenir e eliminar todas as formas de
nais, os Estados assumem obrigações legal- violência contra elas e combater a violência sem-
pre que ela ocorra, não permitindo que agressores REFERÊNCIAS
fiquem impunes. Os Estados devem tomar as
medidas necessárias para que suas autoridades, 1 UNICEF (2005). UN Human Rights Standards and
como policiais ou professores de escolas públi- Mechanisms to Combat Violence against Children:
cas, não cometam atos de violência contra crian- A Contribution to the UN Secretary-General's Study on
Violence against Children. Florença, Centro de
ças adotando leis adequadas e tomando outras Pesquisas Innocenti do UNICEF.
providências para impedir que atos dessa nature-
za ocorram oferecendo, por exemplo, capacita- 2 UNICEF (2001). Implementation Handbook for the
ções adequadas a policiais e outros agentes do Convention on the Rights of the Child, Edição revisada.
governo na utilização de técnicas de investiga- Genebra, UNICEF.

ção não violentas. Eles devem tomar medidas 3 Comitê dos Direitos da Criança (2006). General
legislativas e de outra natureza para proteger as Comment No. 8. The Right of the Child to Protection
crianças e dissuadir pais, guardiões legais e ou- from Corporal Punishment and Other Cruel or
Degrading Forms of Punishment, (artigos 19, 28(2) e
tros agentes não-governamentais de violar os 37, inter alia), CRC/C/GC/8.
direitos da criança mediante o uso de violência.
44 4 Comitê dos Direitos da Criança (2006). General
Comment No. 8. The Right of the Child to Protection
Sendo assim, o Direito Internacional oferece from Corporal Punishment and Other Cruel or
uma estrutura poderosa e abrangente que exige Degrading Forms of Punishment (artigos 19, 28(2) e 37,
uma resposta multifacetada. As respostas ne- inter alia), CRC/C/GC/8, parágrafo 3.
cessárias variarão de acordo com o tipo de vio- 5 Comitê dos Direitos da Criança (2001). General
lência e o ambiente no qual que ela ocorre. Elas Comment No. 1. The Aims of Education. CRC/GC/
incluirão respostas de saúde pública, que enfa- 2001/1, parágrafo 8.
tizam a prevenção, respostas penais, compen- 6 Comitê dos Direitos da Criança (2006). General
sações, educação, serviços de saúde e aborda- Comment No. 8. The Right of the Child to Protection
gens legislativas.20 from Corporal Punishment and Other Cruel or
Degrading Forms of Punishment (artigos 19, 28(2) e 37,
inter alia), CRC/C/GC/8, parágrafo 26.
As normas previstas no direito internacional
para a violência contra a criança são abrangen- 7 Comitê dos Direitos da Criança (2001).
Recommendations Adopted Following the General
tes e detalhadas. O desafio é garantir que todos Discussion Day on Violence within the Family and in
os Estados cumpram suas obrigações. A natu- Schools. Relatório sobre a 28ª Sessão, setembro/outubro
reza sistemática e difusa da violência contra a 2001, CRC/C/111.
criança, em todas as suas formas e nos variados
8 Comitê dos Direitos da Criança (2000). General
contextos, deve ser reconhecida. Posteriormen- Discussion Day on the State of Violence against
te, respostas adequadas e eficazes na forma de Children. Relatório sobre a 25ª Sessão, setembro/
leis, políticas e programas, devem ser imple- outubro de 2000, CRC/C/100.

mentadas, monitoradas e modificadas para com- 9 Comitê dos Direitos da Criança (2001).General
bater efetiva e urgentemente essa problema glo- Discussion Day on Violence within the Family and in
bal de grandes proporções. Schools. Relatório sobre a 28ª Sessão, setembro/outubro
de 2001, CRC/C/111.
2
10 Comitê dos Direitos da Criança (2001). General 19 Comissão Africana dos Direitos Humanos e dos Povos
Comment No. 1. The Aims of Education, CRC/GC/ (2003). Curtis Francis Doebbler v. Sudan. Comunicação
2001/1. no. 236/2000, parágrafo 42, da Comissão Africana dos
Direitos Humanos e dos Povos.
11 Comitê dos Direitos da Criança (2006). General
Comment No. 8. The Right of the Child to Protection 20 Krug EG et al. (Eds) (2002). Relatório Mundial sobre
from Corporal Punishment and Other Cruel or Violência e Saúde. Genebra, Organização Mundial da
Degrading Forms of Punishment (artigos 19, 28(2) e 37, Saúde.
inter alia), CRC/C/GC/8.

12 Tribunal de Recursos de Fiji (2002). Naushad Ali v.


State. Citado em: Comitê dos Direitos da Criança
CITAÇÕES
(2006). General Comment No. 8. The Right of the Child
to Protection from Corporal Punishment and Other I Conselho da Europa (2006). Conferência de
Cruel or Degrading Forms of Punishment (artigos 19, lançamento de Mônaco da iniciativa Building a Europe
28(2) e 37, inter alia), CRC/C/GC/8. for and with Children, 4-5 de abril de 2006. Disponível
em: http://www.coe.int/t/transversalprojects/children/
13 UNICEF (2005). UN Human Rights Standards and events/monacoLaunch_en.asp
Mechanisms to Combat Violence against Children:
A Contribution to the UN Secretary-General's Study on II Estudo do Secretário-Geral das Nações Unidas sobre
Violence against Children. Florença, Centro de
45
Violência contra a Criança (2005). Regional
Pesquisas Innocenti do UNICEF. Consultation Outcome
Report: the Caribbean, p 22. Disponível em:
14 UNICEF (2005). UN Human Rights Standards and www.violencestudy.org/r27.
Mechanisms to Combat Violence against Children:
A Contribution to the UN Secretary-General's Study on III Conselho da Europa (2006). Conferência de
Violence against Children. Florença, Centro de lançamento de Mônaco da iniciativa Building a Europe
Pesquisas Innocenti do UNICEF. for and with Children, 4-5 de abril de 2006. Disponível
em: http://www.coe.int/t/transversalprojects/children/
15 Comitê Europeu de Direitos Sociais Comitê Europeu de events/monacoLaunch_en.asp
Direitos Sociais (2001).Conclusions XV-2, Volume 1.
Introdução Geral:Observação Geral relativa aos Artigos
7 parágrafo 10 e 17, pp 27 et seq.

16 Comitê Europeu de Direitos Sociais (2001).


Conclusions XV-2, Volume 1, Introdução Geral:
Observação Geral relativa aos Artigos 7, parágrafos 10
e 17, pág. 27.

17 Tribunal Interamericano de Direitos Humanos (2002).


Advisory Opinion OC-17/2002, Legal Status and
Human Rights of the Child. 28 de agosto de 2002,
parágrafos 87 e 91.

18 Comissão Africana dos Direitos Humanos e dos Povos


(2003). Curtis Francis Doebbler v. Sudan. Comunicação
no. 236/2000 da Comissão Africana dos Direitos
Humanos e dos Povos.
A VIOLÊNCIA CONTRA A CRIANÇA
3
NO LAR E NA FAMÍLIA

Introdução 49
Instrumentos de direitos humanos 50
Histórico e contexto 52
Natureza e escala do problema 52
Violência física 53
Homicídio 53
47
Violência física não fatal 54
Negligência 56
Violência sexual 57
Violência relacionada a comportamentos sexuais e percepções de honra 59
A Violência Sexual em Relacionamentos Íntimos e Casamentos Precoces 59
Prevalência de casamentos precoces 60
Violência física, sexual e psicológica 61
Práticas tradicionais prejudiciais 63
Mutilação/corte genital feminina 63
Violência psicológica 64
Conseqüências da violência contra a criança 66
Conseqüências Físicas e Psicológicas para o Desenvolvimento 66
Conseqüências de longo prazo 67
Mais Vitimização 69
Conseqüências econômicas e sociais 70
Fatores que contribuem para a violência 71
Fatores relacionados à criança 71
Fatores relacionados à família 72
Fatores Societais e Culturais 74
Fatores de proteção dentro do lar 76
Respostas à violência contra a criança no lar e na família 77
Reforma legislativa 78
Leis sobre castigos corporais e outras formas de punição cruéis ou degradantes 78
48
Outras áreas para mudanças legislativas 79
Estratégias de prevenção 81
Apoio a pais e famílias 81
Programas para e com crianças 85
Política Social 87
Outras estratégias 87
Intervenção quando casos de violência tornam-se conhecidos 88
Identificação da violência contra a criança na família 89
Tratamento para vítimas de violência 90
Denúncias por parte de profissionais 90
Intervenções no melhor interesse da criança 91
Quando cuidados alternativos são necessários 93
Advocacy e educação pública 93
Eliminação de práticas tradicionais prejudiciais 94
A necessidade de melhorar a qualidade das informações para
desenvolver políticas e ações 95
Recomendações 100
Referências 104
"Com essas duas mãos, minha mãe me pega no colo e cuida de mim e eu adoro. Mas com essas
duas mãos, minha mãe bate em mim e eu detesto."

Menina, Leste Asiático e Pacífico, 2005 I


3
INTRODUÇÃO volve mais do que suas atividades diretas e as
atividades de agentes do Estado e exige que
Em sua definição ampla, as famílias são as que sejam adotadas medidas para garantir que pais,
mais podem proteger as crianças contra todas as guardiões legais e outros não violem os direi-
formas de violência. Elas também podem prepa- tos da criança. O Estado tem a obrigação de
rar as crianças para se protegerem. Uma premissa estabelecer uma estrutura legislativa, políticas
básica da Convenção sobre os Direitos da Crian- e programas para prevenir a violência garantin-
ça (CDC) é que a família é o ambiente natural do mecanismos adequados de proteção e com-
para garantir o crescimento saudável e o bem-es- batendo a violência quando ela ocorre.
tar de todos os seus membros - particularmente
crianças - enquanto a Declaração Universal de Crianças mais novas tendem a ser mais vulne-
Direitos Humanos e o Pacto Internacional sobre ráveis à violência no lar. Em alguns países in-
Direitos Civis e Políticos, bem como o Pacto In- dustrializados, onde óbitos infantis são regis-
ternacional sobre Direitos Econômicos, Sociais e trados e investigados mais rigorosamente, cri-
Culturais, afirmam que a família é a unidade fun- anças abaixo de um ano têm um risco três ve-
damental da sociedade. A CDC exige que os Es- zes alto de se tornarem vítimas de homicídio, 49
tados respeitem e apóiem plenamente as famílias. quase sempre cometido por seus pais, do que
crianças com idades entre um e quatro anos e
No entanto, as famílias podem ser locais perigo- um risco duas vezes mais alto do que as que
sos para crianças, particularmente para bebês e têm entre 5 e 14 anos de idade.1 Embora qual-
crianças de tenra idade. A prevalência da violên- quer tipo de castigo físico seja degradante, há
cia praticada por pais e outros familiares - na outras formas não físicas de violência cruel e
forma de violência física, sexual, psicológica ou degradante sofridas pelas crianças dentro de
de negligência deliberada - só começou a ser suas família que também são potencialmente
identificada e documentada recentemente. Com- prejudiciais na mesma medida. Esses tipos de
bater a violência contra a criança em todas as tratamento incluem ameaças constantes e per-
suas formas no contexto da família é particular- sistentes, insultos, xingamentos e outras formas
mente difícil. Há uma relutância em intervir no de agressão verbal, depreciação, isolamento ou
que ainda é visto pela maioria das sociedades rejeição. Além da violência direta, muitas cri-
como uma esfera "privada". No entanto, os di- anças são vítimas de violência entre adultos da
reitos humanos à dignidade e à integridade físi- família, que tem sérias repercussões que só co-
ca - direitos iguais de adultos e crianças - e a meçaram a ser reconhecidas recentemente.
obrigação dos Estados de garantir esses direitos
não terminam na porta de entrada de um lar. Em todos os locais onde a violência sexual tem
sido estudada, observa-se cada vez mais que uma
A responsabilidade dos Estados de respeitar, grande proporção de crianças é sexualmente as-
proteger e garantir os direitos das crianças en- sediada e violentada pelas pessoas mais próxi-
"O Estudo é um divisor de águas no que diz respeito ao relacionamento entre adultos e crianças. Dentro de poucos anos,
provavelmente olharemos para trás com vergonha e espanto ao constatarmos que nos primeiros anos do segundo milênio
governos e adultos ainda justificavam - e até promoviam - surras e lesões deliberadas contra bebês e crianças
como legais e legítimas."

Peter Newell, Conselho Editorial do Estudo do Secretário-Geral das Nações Unidas sobre a Violência contra a Criança.

mas delas. O sexo forçado em casamentos ar- para a sua capacidade de vir a ser um bom pai
ranjados e precoces é comum em muitos Esta- ou mãe. Além disso, o lar é o local onde as cri-
dos. Os assassinatos "em defesa da honra" de anças experimentam desigualdades de gênero
meninas adolescentes julgadas de terem trans- pela primeira vez e onde futuros relacionamen-
gredido códigos morais ocorrem em alguns paí- tos de poder desequilibrados são estabelecidos
ses. A despeito de esforços legislativos e ações ou questionados. Os meninos podem ser incen-
de advocacy, a mutilação genital feminina conti- tivados a se tornar agressivos ou dominantes
nua sendo comum: em algumas partes da África ("recebedores" de cuidados) e as meninas a se-
Setentrional e Oriental, mais de 90% das meni- rem provedoras passivas e submissas de cuida-
nas são submetidas a essa operação, geralmente dos. Esses estereótipos de gênero apóiam o uso
quando completam sete anos de idade.1, 2 da violência e da coerção que perpetuam desi-
gualdades entre os sexos.
A violência sexual e de gênero tem implicações
profundas na era do HIV/AIDS e também com- Este capítulo discute os diversos tipos de vio-
prometem a auto-estima e a saúde emocional e lência física, psicológica e sexual que ocorrem
50 psicológica. As implicações de todas as formas dentro de lares e ambientes familiares, seus
de violência doméstica e familiar para o desen- impactos para as crianças e diversas respostas
volvimento, comportamento e bem-estar da cri- que podem ser usadas para diminuir e, por fim,
ança na idade adulta são profundas, bem como eliminar essa violência.

INSTRUMENTOS DE DIREITOS HUMANOS

A adoção da Convenção sobre os Direitos da Criança (CDC) em 1989 confirmou que as crianças
também são titulares de direitos. A CDC afirma, por um lado, que os direitos da criança à individu-
alidade e a ter opiniões próprias sobre qualquer tema que as afete devem ser levados a sério; e, por
outro, que elas têm direito a cuidados e mecanismos de proteção especiais de acordo com seu
estado de desenvolvimento e vulnerabilidade. A CDC afirma claramente que todas as crianças
devem ser criadas por suas famílias sempre que possível e que, quando suas famílias não tiverem
condições de cuidar delas e de protegê-las adequadamente, um ambiente alternativo semelhante
ao da família deve ser providenciado para elas. Portanto, a CDC afirma categoricamente que a
família constitui o principal local para a criação saudável, amorosa e segura de uma criança. No
entanto, esse papel deve ser plenamente apoiado pelo Estado, inclusive por meio de intervenções
na família, quando necessário para garantir os interesses superiores da criança.

O equilíbrio entre as responsabilidades e obrigações da família e dos Estados de garantir uma prote-
ções adequada para o desenvolvimento da criança está previsto em diversos artigos da CDC. O artigo
18 expressa esse equilíbrio da seguinte maneira: "os pais e, quando for o caso, os representantes
3
legais têm a responsabilidade primordial pela educação e pelo desenvolvimento da criança" e o
parágrafo 2 prevê que "os Estados-partes prestarão assistência apropriada aos pais e aos representan-
tes legais no exercício das suas funções de educar a criança e assegurarão o desenvolvimento de
instituições e serviços para o cuidado das crianças". O artigo 3 determina que "em todas as medidas
relativas às crianças, tomadas por instituições de bem-estar social públicas ou privadas, tribunais,
autoridades administrativas ou órgãos legislativos, terão consideração primordial os interesses supe-
riores da criança". E o artigo 9 solicita que "a criança não seja separada dos pais contra a vontade dos
mesmos", a menos que as autoridades competentes determinem que essa separação é necessária para
satisfazer os interesses superiores da criança, como quando elas sofrem violência.

A CDC concede uma clara autorização para o Estado proteger crianças contra todas as formas de
violência no lar e na família e estabelece seu papel como árbitro final do bem-estar da criança no
ambiente doméstico. O artigo 19 assegura o direito da criança a proteção "contra todas as formas
de violência física ou mental, abuso ou tratamento negligente, maus-tratos ou exploração, inclu-
sive abuso sexual, enquanto estiver sob a guarda dos pais, do representante legal ou de qualquer
outra pessoa responsável por ela" Os artigos 20 e 21 abordam a obrigação dos Estados de provi- 51
denciar cuidados alternativos para crianças que não tenham pais ou que foram separadas de suas
famílias. O artigo 23 refere-se ao apoio especial a ser assegurado a crianças portadoras de defi-
ciência; os artigos 34 e 35 prevêem proteção contra a exploração e o abuso sexual e contra a
venda ou tráfico de crianças; o artigo 37 dispõe que "nenhuma criança seja submetida a tortura
nem a outros tratamentos ou penas cruéis, desumanos ou degradantes"; e o artigo 24 exige que
os Estados tomem medidas para pôr fim a práticas tradicionais prejudicais, como a mutilação
genital feminina e casamentos precoces ou forçados.

A CDC exige que os Estados adotem medidas para prevenir todas as formas de violência e que a
combatam efetivamente quando ela ocorrer. Embora os Estados não possam ser diretamente respon-
sabilizados por atos de violência individuais cometidos por pais ou outras pessoas contra crianças,
eles devem estabelecer uma estrutura legislativa adequada e tomar outras medidas necessárias para
garantir uma proteção adequada a elas, inclusive por meio de mecanismos de dissuasão eficazes.
Poucos Estados adotaram leis que proíbem todas as formas de violência contra crianças juntamente
com políticas, estruturas e sistemas de denúncia e mecanismos de encaminhamento necessários que
abordam a violência no lar e na família. Em muitos países, a polícia ainda reluta em intervir, mesmo
em casos graves de violência severa, casamentos infantis e incestos. Formas violentas de disciplina
ainda são legais e socialmente aceitas em diversos países, a despeito de reconhecerem a interpretação
de que a CDC e outros instrumentos de direitos humanos exigem que elas sejam proibidas e elimina-
das (mais recentemente, isso foi enfatizado no Comentário do Comitê Geral no. 8 de 2006 sobre "o
direito da criança à proteção contra o castigo corporal ou outras formas de punição e controle
cruéis ou degradantes", que será abordado mais adiante neste capítulo).4
"Fui forçada a me casar com um homem com mais de 30 anos e que tinha me estuprado."

Menina, 16 anos, África Oriental e Meridional, 2005 II

HISTÓRICO E CONTEXTO ram níveis significativos de migração - sazo-


nal, temporária ou permanente - de pais e mães
Na maior parte do mundo, a família, como ins- para outras cidades ou países para ganhar di-
tituição, está mudando ou evoluindo em decor- nheiro e remetê-lo aos seus locais de origem.9
rência de pressões sociais e econômicas. O rit- Índices de mobilidade sem precedentes têm
mo acelerado de urbanização observado prin- gerado longos períodos de separação familiar,
cipalmente na África Subsaariana (de quase 6% com efeitos negativos para as crianças e, em
ao ano) e na Ásia (3% a 4%)5 tem provocado muitos casos, dissoluções de famílias.10 Lares
efeitos importantes sobre os padrões e a com- chefiados por um único pai também sofrem as
posição das famílias. Um de cada três morado- tensões provocadas por desvantagens econômi-
res urbanos - quase um bilhão de pessoas - vive cas e o ônus adicional de precisar cuidar de
em favelas. Moradias superlotadas e a necessi- crianças sem o apoio do cônjuge, particular-
dade de garantir uma renda para satisfazer to- mente onde nenhum outro parente está dispo-
das as necessidades do lar geram situações de nível para ajudar.11, 12, 13 Na África Meridional,
estresse muito diferentes das experimentadas onde o HIV/AIDS também constitui uma fonte
52 de estresse para as famílias, 42% dos lares não
em ambientes de subsistência rural.6
contam com a presença do pai. Países muito
Em países industrializados, a composição da fa- afetados pela AIDS estão testemunhando o sur-
mília é menos estável e está assumindo novos gimento de "lares chefiados por crianças", nos
formatos e a natureza da "vida familiar" está so- quais crianças órfãs são forçadas a cuidar da
frendo mudanças. Onde as diferenças de renda casa e sustentar seus irmãos sem qualquer apoio.
aumentaram ou ocorreram rápidas mudanças
sociais, os níveis de violência interpessoal ten- NATUREZA E ESCALA
dem a crescer.7 Em diversas partes do mundo DO PROBLEMA
observa-se também uma perda de proteção por
parte de parentes e de empregadores da comuni- As formas e tipos de violência aos quais crian-
dade e informais ou "padrinhos" que costuma- ças estão expostas variam de acordo com sua
vam apoiar famílias tradicionalmente.8 As refor- idade e estágio de desenvolvimento, principal-
mas em políticas sociais com base num modelo mente após elas começarem a interagir com o
de mercado levadas a cabo na década de 1990 e mundo externo.17, 18 Bebês e crianças de tenra
no inicio da década de 2000 aumentaram a pres- idade têm uma probabilidade maior de sofrer
são, principalmente para as mulheres, ao reduzi- violência por parte de pessoas diretamente res-
rem ainda mais o acesso de famílias mais afeta- ponsáveis por cuidar delas e de outros mem-
das pela pobreza a sistemas de saúde, pensões, bros de suas famílias devido à sua dependência
educação, creches e asilos, que já era limitado. dessas pessoas e às suas interações sociais li-
mitadas fora do lar.19 À medida que a criança se
As pressões econômicas impostas a famílias de desenvolve, ela se torna mais independente e
baixa renda em todas as regiões também gera-
3
passa mais tempo fora de casa e longe da famí- do que para as incluídas na faixa etária de 1 a 4
lia; por essa razão, crianças mais velhas têm anos, para as quais o risco é duas vezes mais
uma probabilidade maior de ser agredidas por alto do que para as que têm entre 5 e 14 anos de
pessoas que não moram em sua casa e não fa- idade. Quanto mais nova a criança, maior a pro-
zem parte de sua família. No entanto, obser- babilidade de sua morte ser provocada por um
vam-se muitas coincidências em termos de ida- parente próximo.20, 21
de, tipo de violência e agressores.
As causas mais freqüentes de morte são lesões
No ambiente do lar e da família, as crianças na cabeça e em órgãos internos. Asfixia inten-
sofrem agressões e outros atos de violência fí- cional, sacudidas violentas e, mais raramente,
sica, violação sexual, práticas tradicionais pre- estrangulamento e abusos físicos repetidos são
judiciais, humilhação e outros tipos de violên- outras causas. Segundo estimativas da OMS,
cia psicológica e negligência. Além de agres- os índices mais altos de homicídio entre crian-
sões e outros tipos de violência física, a criança ças abaixo de cinco anos são os registrados na
pode experimentar situações de omissão, como África Subsaariana e na América do Norte e os
ficar desprotegida de um ato de violência evi- mais baixos são os registrados em países de alta 53
tável por parte de amigos, vizinhos ou visitas; renda da Europa e no Leste Asiático e Ásia
estigmatização ou discriminação grosseira; e a Ocidental.22 Para calcular a proporção de ho-
impossibilidade de usar serviços públicos de micídios infantis ocorridos no ambiente do lar
saúde e assistência básica para garantir seu bem- e da família, são necessários sofisticados siste-
estar. Os que praticam violência no lar incluem mas de vigilância e supervisão de óbitos infan-
pais, padrastos e madrastas, cuidadores alter- tis que não estão disponíveis na maioria dos
nativos, parentes mais distantes, cônjuges países. Onde óbitos não são registrados ou
(quando as crianças são casadas) e sogros. investigados, não se pode saber com preci-
são qual é a taxa de violência letal contra cri-
anças e ela pode ficar obscurecida pela taxa
VIOLÊNCIA FÍSICA de mortalidade geral de crianças abaixo de
cinco anos. Presume-se que a violência em
HOMICÍDIO qualquer forma - como na forma de negligên-
cia - pode ser responsável por uma parcela
Em países nos quais estatísticas de homicídio significativa da óbitos entre bebês e crianças
são analisadas de acordo com a idade da víti- que não são registrados como homicídio ou
ma, observa-se que a faixa etária dos 15 aos 17 talvez nem sejam registrados. Há um consen-
anos é a mais exposta a esse risco. O segundo so geral de que atos de violência contra crian-
grupo de maior risco é o dos bebês. Dados dos ças praticados por familiares provocam óbi-
países da OCDE indicam que o risco de óbito é tos com uma freqüência muito maior do que
três vezes maior para crianças abaixo de um ano os registros oficiais parecem sugerir.23
"Um dia fui levar as vacas para pastar e uma delas se perdeu. Quando voltei para casa, meu pai me bateu
tanto que quase morri. Fiquei cheia de marcas pelo corpo"

Adolescente de 17 anos, África Oriental e Meridional III

Quando dados confiáveis e numa quantidade Em algumas partes do Sul da Ásia, foram relata-
suficiente estão disponíveis (como na Nova Ze- dos índices elevados de assassinatos de meninas
lândia, Suíça e Estados Unidos), algumas ten- poucos dias após seu nascimento, sendo que es-
dências podem ser observadas.24, 25, 26, 27, 28 Em sas mortes são frequentemente camufladas e re-
geral, crianças abaixo de 10 anos estão muito gistradas como óbitos de natimortos. Um estudo
mais expostas ao risco de sofrer violência se- realizado na Índia, que envolveu entrevistas com
vera por parte de familiares e pessoas próxi- mil mulheres sobre o resultado de sua gravidez,
mas da família do que crianças com idades de concluiu que 41% das mortes neonatais prema-
10 a 19 anos. A idade e o gênero são fatores de turas de meninas devem-se ao infanticídio femi-
risco importantes. A maioria dos assassinatos nino.30 Embora essa prática não se limite à Índia
de crianças com menos de um ano de idade é aparentemente, um estudo realizado em Tamil
cometida por um ou ambos os pais, frequente- Nadu calculou que de 8% a 10% dos óbitos de
mente pela mãe. Embora aproximadamente bebês registrados em 1995 podem ter sido pro-
50% a 75% dos assassinatos de crianças abai- vocados por práticas de infanticídio feminino.
xo de 10 anos sejam cometidos por membros Mais pesquisas são necessárias para que possa-
54 da família, essa proporção cai para cerca 20% mos compreender melhor a natureza e a escala
para crianças na faixa etária dos 10 aos 14 anos desse fenômeno em todos os países.
e para 5% para crianças com idades entre 15 e
19 anos. Observa-se um número considerável VIOLÊNCIA FÍSICA NÃO FATAL.
de óbitos entre crianças abaixo de 10 anos pro-
vocados por um padrasto ou madrasta, por um A violência física é o uso intencional de força
namorado ou namorada ou por uma outra pes- física contra uma criança que provoque ou pos-
soa que a vítima conhece. sa provocar danos para a sua saúde, sobrevi-
vência, desenvolvimento ou dignidade. Crian-
Um estudo realizado nos Estados Unidos concluiu ças em todo o mundo apanham, são chutadas,
que as meninas correm um risco duas vezes mai- sacudidas, espancadas, mordidas, asfixiadas,
or de serem mortas por familiares.29 Embora esse envenenadas e estranguladas por membros de
risco pareça diminuir após elas completarem dez suas famílias. Em casos extremos, essa violên-
anos de idade, os dados sugerem que elas correm cia pode matar a criança (como discutido aci-
um risco maior de serem assassinadas por parcei- ma) ou provocar deficiências ou lesões físicas
ros íntimos (namorados ou maridos) ou por fami- graves. Em outros casos, a violência física pode
liares deles. Além disso, em regiões onde casa- não deixar nenhum sinal físico visível ou le-
mentos precoces e assassinatos de mulheres "em são. Em todos os casos, no entanto, ela tem um
defesa da honra" são comuns, o número de homi- impacto negativo sobre a saúde psicológica e o
cídios de meninas pode se manter estável ou au- desenvolvimento da criança.
mentar nas faixas etárias dos 10 aos 14 e dos 15
aos 19 anos. São necessárias mais pesquisas para Pesquisas realizadas em diversas partes do
confirmar essas verificações. mundo indicam que a violência contra a crian-
3
ça no lar ocorre em todas as regiões. Por exem- das, jogar a criança longe, arranhá-la, beliscá-
plo, em um estudo com alunos entre 11 e 18 la, puxar seus cabelos ou orelha, forçar a crian-
anos de idade realizado na Província do Cur- ça a ficar em posições desconfortáveis, quei-
distão da República Islâmica do Irã, 38,5% dos má-la, forçá-la a ingerir determinadas substân-
entrevistados relataram experiências de violên- cias (como, por exemplo, lavar a boca da crian-
cia física em casa que provocaram lesões físi- ça com sabão ou forçá-la a ingerir temperos pi-
cas de brandas a graves.31 Uma análise de estu- cantes). O Comitê observou o seguinte: "O
dos sobre a vitimização física de crianças na Comitê considera que o castigo corporal é de-
República da Coréia revelou que chutes, mordi- gradante em qualquer situação". Existem tam-
das, asfixia e espancamentos por parte dos pais bém outras formas não físicas de castigo que
são surpreendentemente comuns e podem pro- são cruéis e degradantes e, portanto, incompa-
vocar lesões físicas e também deficiências, numa tíveis com a CDC. Elas incluem, por exemplo,
proporção menor.32 No Reino Unido, uma pes- castigos que depreciam, humilham, denigrem,
quisa nacional revelou que mães e pais são fre- fazem bode expiatório da criança ou a assus-
quentemente responsáveis por atos de violência tam ou ridicularizam.35
física, embora irmãos também os pratiquem.33 55
Segundo os estudos disponíveis, as opiniões
O Comitê de Direitos da Criança define o cas- sobre o uso e eficácia dos castigos corporais
tigo corporal como "qualquer tipo de punição variam muito. Enquanto um estudo canadense
na qual força física é usada com a intenção de revelou que 59% das pessoas acreditam que as
provocar dor ou desconforto em algum nível, surras são prejudiciais para a criança e 86%
ainda que baixo".34 Embora a preocupação glo- acreditam que elas são ineficazes,36 pesquisas
bal com a prevalência de castigos corporais no realizadas nos Estados Unidos mostraram que
lar - que são perpetuados por sua "legalidade" 84% concordam que "em alguns casos, é ne-
e aprovação social - tenha estimulado um inte- cessário disciplinar uma criança aplicando-lhe
resse maior em mensurar sua escala e formas, uma boa surra".37, 38 Um estudo realizado na
ela também tem suscitado debates. A maioria República da Coréia concluiu que 90% dos pais
dos castigos corporais envolve o ato de bater acreditavam que os castigos corporais eram
em crianças com as mãos (tapas, palmadas) ou "necessários".39 Em um relatório elaborado pelo
com algum instrumento - como um chicote, um Iêmen, quase 90% das crianças afirmaram que
pedaço de pau, um cinto, um sapato, uma co- os castigos físicos e humilhantes constituíam o
lher de madeira, etc. No entanto, esses castigos principal método de disciplina na família, sen-
podem envolver, por exemplo, chutes, sacudi- do a surra a sua forma mais comum.40
O QUE AS CRIANÇAS PENSAM SOBRE OS CASTIGOS CORPORAIS

A Aliança Internacional Save the Children desenvolveu pesquisas sobre castigos físicos e humi-
lhantes com crianças de todo o mundo como uma contribuição especial para o Estudo. Seu
relatório final concluiu que a grande maioria das crianças discordava da idéia de que castigos
dessa natureza poderiam ser positivos de alguma maneira. O relatório sugeriu que embora as
crianças possam satisfazer os desejos de adultos logo após apanharem, "crianças mais novas
frequentemente não se lembram por que apanharam e só deixam de se comportar de uma manei-
ra indesejada diante da ameaça iminente de uma surra. Esse tipo de castigo assusta a criança,
levando-a a assumir determinados comportamentos. Ele não faz as crianças quererem se com-
portar de uma determinada maneira e tampouco lhes ensina a autodisciplina ou promove alguma
alternativa".41 Em uma pesquisa realizada pelo UNICEF na Europa e na Ásia Central, mais de
75% das crianças afirmaram que "bater" não era uma boa solução para problemas em casa
"nunca".42 Em Consultas Regionais realizadas para o Estudo, as crianças repetidamente exigi-
ram outro método disciplinar, entre os quais que lhes fosse explicado o que fizeram de errado.
56
Elas enfatizaram como era doloroso apanhar e ser humilhado por pessoas que afirmavam amá-
las e se preocupar com seu bem-estar.

NEGLIGÊNCIA negligência é responsável pela maioria dos ca-


sos de maus-tratos denunciados às autoridades.
A negligência contribui muito para óbitos e doen- Pesquisas realizadas nesses países confirmam
ças entre crianças pequenas. A negligência ocorre que algumas formas de violência e negligência
quando pais ou responsáveis não satisfazem as ne- se confundem.43 Em todas as Consultas Regio-
cessidades físicas ou emocionais de crianças dis- nais para o Estudo, foram expressadas preocu-
pondo dos meios, dos conhecimentos e do acesso a pações com a negligência de crianças portado-
serviços necessários para esse fim ou quando não ras de deficiência. Em que pese a falta de evi-
as protegem de perigos. No entanto, a diferença dências quantitativas, sabe-se que essas crian-
entre uma negligência deliberada e a que é cometi- ças correm um risco maior de sofrer negligên-
da por ignorância ou falta de possibilidades de as- cia na forma de não satisfação deliberada de
sistir crianças é muito sutil. Ainda se desconhece suas necessidades físicas básicas ou de isola-
até que ponto a negligência influencia os índices mento emocional e falta de estimulação.
de mortalidade infantil em muitas partes do mundo
(com exceções, incluindo a do fenômeno das Pesquisas sobre diferenças de gênero em casos de
"meninas desaparecidas" descrito abaixo). negligência na Índia sugerem que meninas sofrem
relativamente mais negligência que meninos na
É difícil interpretar casos de negligência onde primeira infância. Elas são amamentadas com
a saúde publica é precária e a subnutrição pre- menos freqüência e por menos tempo e, após seu
valece. Em alguns países industrializados, a desmame, recebem alimentos de qualidade infe-
3
"Quando eu tinha mais ou menos doze anos, achei que tivesse engravidado do meu pai.
Pensei até em me suicidar porque não sabia como ia explicar isso para as pessoas; afinal,
eu tinha apenas doze anos e achava ninguém ia acreditar em mim."
Jovem, América do Norte, 2005 IV

rior e em menor quantidade.44 As meninas tam- xuais contra meninos foram cometidos por pa-
bém são levadas a serviços médicos com menos rentes ou padrastos. Em muitos lugares, adul-
freqüência e em estágios mais avançados de uma tos falam abertamente sobre o risco de violên-
doença.45 Um estudo realizado no Nepal sobre as cia sexual que suas crianças correm na escola
conseqüências de uma infecção de poliomielite ou em brincadeiras na comunidade; no entanto,
na população revelou que, muitos anos depois, a eles raramente mencionam o risco de abuso se-
taxa de sobrevivência de meninos era duas vezes xual que elas correm no contexto de seus lares
mais alta que a de meninas, embora a pólio tives- famílias. A vergonha, o sigilo e a negação asso-
se afetado meninos e meninas na mesma propor- ciados à violência sexual familiar contra crian-
ção, sugerindo que houve um viés de gênero nos ças alimentam uma cultura de silêncio na qual
cuidados recebidos por ambos.46 Na China, a taxa crianças não podem relatar abusos sexuais que
de gênero é desequilibrada em favor dos me- sofreram e adultos não falam sobre o risco da
ninos (117 a 100), com o infanticídio contri- violência sexual no lar e não sabem o que fazer
buindo para essa situação.47 ou dizer quando suspeitam que algum conheci-
do está abusando sexualmente de uma criança.
57
VIOLÊNCIA SEXUAL
A maioria das crianças não relata abusos sexuais
A OMS estima que 150 milhões de meninas e 73 que sofreu no lar porque tem medo do que pode
milhões de meninos abaixo de 18 anos já foram acontecer com elas e com suas famílias e acham
submetidos a algum tipo de relação sexual for- que suas famílias ficarão envergonhadas e as re-
çada ou outra forma de violência sexual envol- jeitarão ou não acreditarão nelas. Adultos podem
vendo contato físico,48 embora esse número seja também não relatar a ocorrência desse tipo de
claramente subestimado. Em grande parte, essa abuso. Em comunidades e famílias que adotam
violência sexual é imposta por membros da fa- regras rígidas de masculinidade, feminilidade e
mília ou por outras pessoas que residem no lar honra familiar, meninos que denunciam violên-
da criança ou o visitam - pessoas nas quais as cia sexual podem ser vistos como fracos e não
crianças normalmente confiam e que geralmen- másculos e meninas que fazem isso correm o ris-
te são responsáveis por cuidar delas. co de ser responsabilizadas e culpadas pelo abuso
- e frequentemente apanham e são mortas.50, 51.
Uma análise de dados epidemiológicos de 21 Tantos meninos como meninas são vulneráveis
países, a maioria dos quais de renda média e à violência sexual, mas uma comparação entre
alta, revelou que pelo menos 7% das mulheres estudos internacionais revela que os índices de
(numa escala de até 36%) e 3% dos homens violência sexual geralmente são mais altos para
(numa escala de até 29%) afirmaram ter sido meninas do que para meninos.52, 53
vítimas de abuso sexual na infância.49 Segundo
esses estudos, entre 14% e 56% dos abusos se- Um estudo recente da OMS envolvendo múlti-
xuais contra meninas e até 25% dos abusos se- plos países entrevistou mais de 24.000 mulhe-
"Eu tinha apenas 15 anos e estava cursando a nona série quando meus sonhos foram destruídos. Fui atacada com ácido
por recusar uma proposta de casamento. Você pode imaginar a dor física de se ter ácido jogado no rosto e no corpo,
mas a dor do estigma social é pior que a dor física e pode durar para sempre."

Vítima de ataque com ácido, Sul e Centro da Ásia, 2005

res em 10 países (Bangladesh, Brasil, Etiópia, Sul, 21% das mulheres que afirmaram terem
Japão, Peru, Namíbia, Samoa, ex-Sérvia e Mon- sido forçadas ou persuadidas a manter rela-
tenegro, Tailândia, e República Unida da Tan- ções sexuais contra a sua vontade relataram
zânia) e perguntou a elas se haviam sido toca- que o agressor era um parente.55
das sexualmente por alguém ou se haviam sido z Num estudo nacional realizado na Romê-
forçadas a fazer algo de natureza sexual contra nia com crianças com idades entre 13 e 14
a sua vontade antes dos 15 anos de idade.54 Em anos, 9% delas relataram ter sido sexual-
alguns desses países, a proporção de abusos mente violentadas dentro de suas famílias
sexuais na infância cometidos por membros da e 1% afirmou ter sido estuprado por um
família é extremamente alta: parente.56

z Em duas localidades no Brasil, 12% e 9% z No Território Palestino Ocupado, 19% dos


das mulheres, respectivamente, relataram ter alunos de graduação que foram entrevistados
sofrido abuso sexual na infância, das quais relataram ter sofrido pelo menos um ato de
66% e 54% afirmaram que o ato havia sido violência sexual por parte de um parente ime-
58 cometido por um parente. diato antes dos 16 anos de idade. Além disso,
36.2% relataram abuso sexual praticado por
z Na Namíbia, 21% das mulheres relataram um parente em pelo menos uma ocasião. Ho-
casos de abuso sexual na infância, 47% das mens e mulheres relataram índices semelhan-
quais informaram que o ato havia sido co- tes de abuso sexual na infância.57
metido por um parente.
z Num estudo realizado com estudantes uni-
z Em duas localidades peruanas, 19.5% e 18% versitários na Região Administrativa Espe-
das mulheres relataram ter sofrido abuso se- cial Chinesa de Hong Kong, 4,3% dos ho-
xual, 54% e 41% das quais disseram que os mens e 7,4% das mulheres revelaram ter so-
agressores eram parentes. frido um ou mais incidentes de violência se-
xual antes dos 17 anos de idade. Em menos
Os agressores sexuais de meninas mais menci- de um terço dos casos, os agressores eram
onados eram parentes do gênero masculino (ir- pessoas desconhecidas. 58
mãos, tios), seguidos de padrastos, pais e pa-
rentes do gênero feminino. Amigos do gênero z Uma análise de arquivos de proteção infan-
masculino da família também foram muitas til realizada na Espanha entre 1997 a 1998
vezes mencionados como agressores sexuais. revelou que 3,6% dos casos de abuso eram
Outras pesquisas confirmam que pais, cuida- sexuais e que 96% dos agressores eram pa-
dores, tias e tios, irmãos, avós, primos e ami- rentes. Pais e padrastos foram responsáveis
gos da família cometem violência sexual con- pela maioria dos casos de abuso sexual, se-
tra crianças. Por exemplo: guidos de mães e tios ou tias.59
z Na Somália, 20% das crianças relataram que
z Num estudo realizado com mulheres na fai- tinham conhecimento de uma agressão se-
xa etária dos 15 aos 49 anos na África do xual contra uma criança em sua família.60
3
Violência relacionada a O número de ataques com ácido contra mulheres
comportamentos sexuais e e meninas em Bangladesh em função de rejeições
percepções de honra de propostas de namoro ou casamento, que atual-
mente está estimada em cerca de 120 por ano,66
Em algumas circunstâncias, as meninas são vis- alcançou o percentual de 17% em 2003.67 A mai-
tas como cúmplices em casos de violência se- oria das meninas que sofre ataques desse tipo per-
xual e são responsabilizadas pelo ato sexual, tence a lares pobres e eles geralmente ocorrem
seja ele forçado, violento ou não, em vez de quando elas estão a caminho da escola ou quando
seus agressores. Em alguns países, se o agres- saem de casa para pegar água ou combustível.
sor negar o ato e não houver testemunhas, uma
menina com mais de 12 anos de idade pode ser A VIOLÊNCIA SEXUAL EM
severamente punida por um estupro e outros ti- RELACIONAMENTOS ÍNTIMOS E
pos de agressão sexual.61 CASAMENTOS PRECOCES

Em algumas culturas, a perda de virgindade de uma Para um grande número de meninas - e alguns meni- 59
menina da família, mesmo que em decorrência de nos - a primeira experiência de uma relação sexual
um estupro, é percebida como algo que compro- na adolescência é indesejada e até forçada e alguns
mete a honra familiar, podendo levar à sua morte desses estupros ocorrem no contexto de relaciona-
nas mãos de parentes. No Paquistão, organizações mentos íntimos ou de uniões estáveis ou casamen-
de direitos humanos revelaram a ocorrência de mais tos de precoces. Casos de violência podem tam-
de 1.200 casos de "assassinatos em legítima defesa bém ocorrer em namoros, mas esse tipo de relaci-
da honra" somente em 2003.62, 63 Isso também ocorre onamento não formal entre meninos e meninas (e
na Jordânia, Índia, República Árabe da Líbia, Ter- entre casais do mesmo sexo) tende a ocorrer fora
ritório Palestino Ocupado, Turquia, Iraque, Afega- do lar e do contexto familiar, razão pela qual ele
nistão e em países com populações originárias da será abordado principalmente no capítulo sobre
Ásia e do Oriente Médio. Dados do Reino Unido violência contra a criança na comunidade.
sugerem que aproximadamente 12 mortes dessa na-
tureza ocorrem em seu território todos os anos.64 Em muitas sociedades, os casamento ou uniões
Estima-se que essas mortes representem apenas o estáveis são arranjados - no caso das meninas,
resultado extremo de um problema muito maior de geralmente quando elas chegam à puberdade ou
intimidação e violência.65 pouco depois - pelos pais e membros mais ve-
lhos da família. Algumas vezes, essas uniões
Atos de extrema violência podem ser cometidos são forçadas, particularmente para meninas, e
contra meninas e mulheres que não assumem com- resultam em casamentos precoces.
portamentos estereotipados. A rejeição de inves-
tidas românticas ou propostas de casamento, por Embora as justificativas para essa prática incluam
exemplo, pode desencadear uma reação violenta. a pretensa necessidade de proteger a honra da fa-
"Odeio o casamento precoce Casei-me quando ainda era muito nova e meus sogros me forçavam a dormir com meu
marido, que me fazia sofrer a noite toda. Desde então, sempre que começa a anoitecer fico preocupada, pensando que
isso vai acontecer de novo. Isso é o que eu mais odeio."

Menina de onze anos que se casou quando tinha cinco anos de idade, África Oriental e Sul da África, 2005VI

mília e a pureza sexual da menina, fatores econô- Além de outros riscos para sua saúde e desenvol-
micos também desempenham um papel importan- vimento, meninas que se casam antes dos 18 anos
te nesse contexto. As meninas podem ser vistas correm o risco de sofrer violência física, sexual e
como uma responsabilidade econômica em famíli- psicológica nas mãos de seus maridos e há evi-
as pobres, o dote para elas geralmente é mais bai- dências que sugerem que meninas que se casam
xo, os ganhos econômicos gerados pelo casamento cedo ficam mais expostas ao risco de sofrer vio-
são mais altos para meninas mais novas e o casa- lência do que outras mulheres.69 A violência ínti-
mento de uma menina nova pode ser arranjado para ma contra meninas casadas constitui frequente-
garantir seu futuro econômico e o de sua família. mente uma manifestação de uma relação desigual
de poder entre elas e seus maridos e revela cren-
A Convenção para a Eliminação de Todas as ças subjacentes da sociedade em relação à função
Formas de Discriminação Contra Mulheres pre- e condição de homens e mulheres.
vê que o casamento de qualquer criança não tem
efeito legal e que todas as medidas necessárias PREVALÊNCIA DE CASAMENTOS
devem ser tomadas para especificar uma idade PRECOCES
60 mínima para o casamento, inclusive medidas le-
gislativas. Nas suas Recomendações Gerais de O casamento precoce é comum no Sul da Ásia,
1994 sobre igualdade e relações familiares, o na África Ocidental e em alguns países da África
Comitê para a Eliminação da Discriminação con- Meridional e Oriental - especialmente em Moçam-
tra Mulheres (CEDAW) recomendou que a ida- bique, Uganda e Etiópia - bem como em outras
de mínima para o casamento de meninos e me- partes no Oriente Médio, principalmente no Iê-
ninas deve ser a de 18 anos. O Comitê sobre os men. Em alguns países - particularmente na Áfri-
Direitos da Criança acatou essa proposta e fre- ca Ocidental, mas também em Bangladesh e no
quentemente recomenda aos Estados que aumen- Nepal - aproximadamente 60% das meninas ca-
tem e equalizem a idade legal para o casamento. sam-se antes de completarem 18 anos de idade e
em pelo menos 28 países essa proporção chega a
O casamento precoce de meninas tem conseqü- 30%.70 Embora a maioria dos países tenha leis que
ências negativas significativas sobre sua saú- proíbem o casamento de meninas antes dos 16
de, desenvolvimento e direitos. Frequentemen- anos de idade e alguns antes dos 18 anos, essas
te, ele mina suas oportunidades de receber uma leis são frequentemente ignoradas e os casamen-
educação formal e provoca seu isolamento so- tos não são registrados, regras tradicionais basea-
cial. Esposas jovens são vistas como pessoas das em costumes ou religiosas são aceitas e pou-
que concordaram em ter relações sexuais com cos casos geram ações judiciais.
seus maridos e, por isso, elas engravidam antes
de seus corpos estarem plenamente formados. Em todo o mundo, estima-se que 82 milhões de
Elas enfrentam taxas mais altas de problemas meninas que hoje têm de 10 a 17 anos de idade
no parto e de mortalidade materna. O mesmo irão se casar antes de chegar aos 18 anos.71
se aplica ao casamento com crianças.68 Essa estimativa inclui um número expressivo
3
de casamentos com idades muito abaixo des- arma contra elas ou efetivamente usá-la. Em so-
sas. No Nepal, por exemplo, 7% das meninas ciedades nas quais o costume do dote ainda exis-
casam-se aos 10 anos de idade e 40% antes de te, os maridos podem agredir suas mulheres no-
completarem 15 anos.72 Na região de Amhara, vas porque sua família não pagou o dote ou por-
na Etiópia, 40% das meninas que vivem em áre- que os familiares de seus maridos não ficaram
as rurais casam-se aos 15 anos,73 em alguns ca- satisfeitos com a quantia envolvida.
sos após terem sido seqüestradas e estupradas
para evitar o pagamento do preço da noiva. Em Estudos sobre violência doméstica e agressões
todos esses casos, a noção do consentimento relacionadas ao costume do dote revelam que
para o casamento e para o sexo dentro dele não parentes próximos, principalmente familiares do
se aplica a nenhum dos parceiros, particular- marido, participam muito de atos de violência
mente à menina. Quando uma menina é envia- contra mulheres. Frequentemente, o agressor é
da para morar com a família de seu marido após o marido, com a ajuda da sogra.75 No entanto,
um acordo de casamento ser celebrado, as rela- em alguns casos, os parentes do marido são os
ções sexuais no contexto da união começam que mais cometem atos de violência e assedi-
quando ela ainda tem 10 ou 11 anos de idade, am a mulher casada prematuramente.76, 77, 78 Um 61
antes de sua primeira menstruação. estudo realizado na Índia revelou que entre as
mulheres que relataram ter sofrido atos de vio-
Violência física, sexual lência física e verbal em decorrência da insa-
e psicológica tisfação do marido com o dote, o parente que
mais as agrediu foi a sogra (95%), seguida pelo
Meninas casadas sofrem muito com a violência marido e o sogro (72% cada), cunhadas (49%)
de seus maridos. Uma análise recente de dados de e cunhados (14%).79
pesquisas demográficas e de saúde revelou que
4% das meninas entre 15 e 19 anos do Camboja, Muitas meninas casadas sofrem violência se-
15.4% da República Dominicana, 21.0% do Egi- xual de seus parceiros. Elas podem ser fisica-
to, 25.4% do Haiti, 10.4% da Índia, 18.2% da mente forçadas a ter relações sexuais contra a
Nicarágua, e 33.3% da Zâmbia74 sofreram vio- sua vontade ou tê-las sob ameaças, por medo
lência conjugal por parte de seus maridos.74 Nes- do que o parceiro poderá fazer se elas se recu-
ses países, mulheres mais novas e mulheres que sarem, e podem também ser forçadas a se sub-
casaram mais cedo relataram a maior parte dos meter a alguma prática sexual que elas consi-
casos de violência íntima por parte de parceiros. deram degradante ou humilhante. Em socieda-
des nas quais as regras culturais permitem que
A violência física cometida por maridos contra os homens tenham um acesso sexual ilimitado
meninas casadas pode incluir atos de empurrar, às suas mulheres após o casamento, meninas
sacudir, dar tapas, beliscões, mordidas e chutes, casadas correm um risco maior de sofrer uma
arrastar, estrangular, queimar e ameaçar usar uma iniciação sexual forçada ou traumática.80
62
"Minha avó chegou. Ela me disse que eu seria circuncidada, mas não entendi o que isso queria

3
dizer. Ela disse: 'Agora você será como todas as outras meninas, não será deixada para trás'. Elas se
prepararam, me seguraram pelos ombros e joelhos e eu comecei a chorar e tentar fechar minhas
pernas. Foi horrível. Nunca vou conseguir esquecer o que aconteceu."
Mãe, que mesmo assim submeterá suas filhas à mutilação genital feminina por pressão
de sua sogra, África Oriental e Meridional, 2005VII

A violência psicológica praticada por maridos promover seu desenvolvimento físico e fazer com
contra meninas casadas inclui humilhações, que seus corpos amadureçam prematuramente
ameaças contra elas ou alguém próximo delas para agradar os homens. Essa prática pode ter
e comportamentos controladores. Quando uma trágicas conseqüências, como a rejeição de mu-
menina foge de um casamento violento e volta lheres por seus maridos quando descobrem que
para sua casa original, ela corre o risco de ser elas ainda não menstruaram e não podem ter fi-
rejeitada por seus pais e de ser espancada por lhos, a obesidade, que pode provocar graves pro-
ter sido uma esposa inadequada. blemas de saúde na idade adulta e doenças car-
diovasculares, hipertensão e diabete.
PRÁTICAS TRADICIONAIS
PREJUDICIAIS Mutilação/corte genital feminina

Em alguns contextos, as tradições culturais in- O termo "práticas tradicionais prejudiciais" é


cluem práticas que causam dor e "desfigura- mais frequentemente associado à mutilação ou
ções" de crianças, como escarificações, mar- "corte" genital feminino, como é descrito nas
63
cações a ferro quente ou tatuagens. Embora o áreas onde essa prática é adotada. Segundo es-
termo "práticas tradicionais prejudiciais" es- timativas da OMS, entre 100 e 140 milhões de
teja particularmente associado à mutilação meninas e mulheres foram submetidas a algum
genital de meninas, diversas outras práticas tipo de mutilação genital no mundo.82 Desde a
prejudiciais trazem sofrimento para meninos mais tenra idade até a adolescência, meninas
e meninas. Na Etiópia, uma pesquisa realiza- são submetidas a essa extirpação, que geralmen-
da em 1998 pelo Comitê Nacional de Práticas te remove seu clitóris, antes de se casarem.83 A
Tradicionais Prejudiciais revelou que 84% das mutilação genital feminina é vista como uma
crianças são submetidas a uvulectomia (remo- forma de proteger sua virgindade ou como um
ção da pele do palato mole no fundo da boca) processo de embelezamento, e em várias cultu-
e que 89% delas têm seus dentes de leite ex- ras ela é considerada como um pré-requisito
traídos.81 Essas operações muitas vezes são essencial para o casamento.
realizadas com instrumentos não esterilizados,
que podem provocar infecções. Há diferentes formas de mutilação genital fe-
minina, algumas das quais envolvem extirpa-
Os participantes das consultas realizadas para o ções mais radicais na área genital do que ou-
Estudo na África Ocidental e Central expressa- tras. Em sua forma mais extrema (infibulação),
ram preocupação com o fato de que em países os lábios internos e externos são cortados e as
da África Ocidental, como na Mauritânia, em bordas expostas são costuradas, deixando a va-
Níger e na região norte de Mali, o desejo de ca- gina quase fechada. Após esse procedimento,
sar filhas de 5 a 10 anos faz com que pais as as pernas das meninas geralmente são amarra-
submetam a um regime de superalimentação para das dos pés aos quadris e elas ficam imobiliza-
das por vários dias para permitir a formação de metidas a esse tipo de mutilação nas provínci-
tecido cicatrizante.84 De 90 a 98% das meni- as do sul, enquanto somente 2% sofrem o pro-
nas somalis são submetidas a esse tipo de pro- cedimento no norte. No Quênia, ele é quase
cedimento, geralmente com idades entre 7 e 8 que universalmente adotado por grupos que-
anos.85 Ele acarreta conseqüências profundas nianos somali, massai e outros e sua prevalên-
para as experiências das mulheres em suas re- cia chega a 32% no país como um todo.87 Na
lações sexuais e maternidade. Seu trabalho de Guiné, Mali e Mauritânia, dados recentes do
parto geralmente fica mais prolongado ou elas DHS revelam que os índices do procedimento
podem dar à luz natimortos. Após o parto, ela alcançam percentuais de 71 a 99% e que algu-
geralmente é "recosturada". mas meninas são submetidos a ele antes de
completar 4 anos de idade atualmente.88 O fe-
Os dados mais abrangentes e confiáveis sobre nômeno também ocorre em países industriali-
a prevalência e a natureza da mutilação genital zados, entre grupos da diáspora.
feminina são os fornecidos por pesquisas de-
mográficas e de saúde (DHS em inglês) e pelas VIOLÊNCIA PSICOLÓGICA
64 pesquisas conhecidas como Multiple Cluster
Surveys (Pesquisas de Indicadores Múltiplos Todas as formas de violência física e sexual
por Conglomerados - MICS). No entanto, a prá- envolvem algum dano psicológico, mas a vio-
tica varia consideravelmente em termos da gra- lência psicológica pode também assumir a for-
vidade da mutilação e em muitos países nos ma de insultos, desprezo, isolamento, rejeição,
quais a prática é mais comum não são feitos ameaças, indiferença emocional e depreciação
DHS e MICS, principalmente na Somália e em - que podem ser prejudiciais para o desenvolvi-
Djibuti (veja a figura 3.2). Estimativas do UNI- mento psicológico e o bem-estar da criança. Não
CEF publicadas em 2005 sugerem que na Áfri- há definições padronizadas e pouco se sabe so-
ca Subsaariana, Egito e Sudão, três milhões de bre a escala global dessa forma de violência
meninas e mulheres são submetidas a mutila- contra a criança, exceto que ela é frequentemen-
ção genital feminina todos os anos.86 te acompanhada por outras formas de violên-
cia; no entanto, observou-se que a agressão psi-
Essa prática é mais comum nos países do cha- cológica e a física coexistem em lares violen-
mado "Chifre da África" (Somália, Etiópia, tos.89 Em contextos familiares violentos, o medo
Eritréia e Djibuti), seguidos dos vizinhos Egi- e a ansiedade prevalecem constantemente em
to e Sudão, África Oriental e Ocidental, com função da expectativa da violência e da dor,
alguns casos registrados no Oriente Médio e humilhação e medo experimentados no momen-
na Ásia. Em muitos dos países onde a prática to da agressão. Grupos de crianças mais velhas
prevalece, ela é aplicada por determinados desenvolvem uma sensação de solidão devido
povos; por exemplo, na Nigéria, segundo da- à rejeição e desconfiança dos pais e, em alguns
dos do DHS, quase 60% das meninas são sub- casos, auto-rejeição.
3

65
"A violência contra a criança no lar e na família é um problema sério que tem sido fortemente associado a
comportamentos de risco para a saúde numa idade mais adulta... Esses comportamentos, por sua vez, contribuem para
algumas das principais causas de doenças e óbitos... Prevenir a violência contra a criança no lar e na família deve,
portanto, ser uma prioridade para a saúde pública."

Dr. Alexander Butchart, Conselho Editorial do Estudo do Secretário-Geral das Nações Unidas
sobre Violência contra a Criança.

A violência psicológica pode ser provocada por CONSEQÜÊNCIAS DA


uma frustração descontrolada ou pode ser aplica-
da com a mesma finalidade dos castigos corpo- VIOLÊNCIA CONTRA A
rais: intimidar a criança para ela obedeça a seus CRIANÇA
pais e "reprimir" comportamentos inadequados.
Embora as crianças possam conhecer o ditado de As conseqüências da violência contra a criança
que "palavras não doem", para muitas delas tam- incluem tanto impactos pessoais imediatos como
bém é muito difícil lidar com a dor e ansiedade danos posteriores, na adolescência e na vida adul-
geradas pela rejeição e com a humilhação resul- ta. A violência experimentada por crianças no
tante de um ataque à sua auto-estima.90 contexto do lar e da família pode gerar conseqü-
ências para sua saúde e desenvolvimento que
Formas psicológicas de punição ocorrem em to- serão sentidas ao longo de toda a sua vida. Elas
das as regiões. Um estudo realizado com cinco podem perder a confiança em outros seres hu-
países pelo projeto World Studies of Abuse in manos, que é essencial para o desenvolvimento
the Family Environment (Estudos Mundiais so- humano normal. Aprender a confiar nas pessoas
66 bre Abuso no Ambiente Familiar - WorldSAFE) desde a mais tenra idade por meio do desenvol-
revelou que gritar com crianças é um tipo de cas- vimento de laços afetivos na família é uma tare-
tigo usado em todos esses países (Chile, Egito, fa essencial da infância que também está estrei-
Índia, Filipinas e Estados Unidos). A incidência tamente relacionada com a capacidade de amar
de insultos ou ameaças contra crianças variou e desenvolver empatia e relacionamentos positi-
um pouco mais: nas Filipinas, observou-se que vos no futuro. Em um nível mais amplo, a vio-
nenhuma mãe tem o costume de xingar seus fi- lência pode prejudicar o desenvolvimento pes-
lhos, mas 48% delas costumam ameaçar aban- soal da criança e sua capacidade de ser bem-su-
doná-los e, no Egito, 51% delas xingam seus fi- cedida na vida, acarretando custos elevados para
lhos, mas só 10% ameaçam abandoná-los.91 a sociedade como um todo.

Um tipo de castigo pode levar a outro, de- CONSEQÜÊNCIAS FÍSICAS E


pendendo da idade da criança. Um estudo re- PSICOLÓGICAS PARA O
alizado na Suazilândia envolvendo 2.000 cri- DESENVOLVIMENTO
anças com idades entre 6 e 18 anos revelou
que castigos psicológicos humilhantes são As conseqüências imediatas mais aparentes da
mais comuns contra crianças mais velhas e violência contra a criança são lesões letais e não
que castigos corporais são mais freqüentes letais, problemas cognitivos, incapacidade de
entre crianças mais novas.92 prosperar e as conseqüências psicológicas e emo-
cionais de tratamentos dolorosos ou degradan-
tes sofridos ou testemunhados que ela não con-
segue entender ou evitar. Essas conseqüências
incluem sentimentos de rejeição e abandono,
3
"Tenho oito anos e fui estuprada quando tinha seis anos. Meus pais registraram ocorrência na
polícia e ele foi preso. Mas eu não posso mais ficar onde moro. Sabe do que me chamam por aqui?
Me apelidaram de 'a rasgada' (déchirée)… mesmo quando vou ao poço buscar água,
as crianças me chamam assim. Quero fugir daqui".
Menina, 8 anos, África Oriental e Meridional.

incapacidade de desenvolver laços afetivos ade- violência, mais altos os riscos.95, 96 Esses efeitos
quados, traumas, medo, ansiedade, insegurança podem também ser influenciados pela reação dos
e baixa auto-estima. Quando um pai faz uma cri- adultos quando as crianças tentam conversar com
ança sofrer deliberadamente para castigá-la ou eles sobre alguma agressão sofrida. Outras variá-
por qualquer outro motivo, uma das coisas que veis seriam o tempo decorrido desde a agressão,
ela aprende é que esse pai pode ser uma fonte de onde ela ocorre e se a criança está sofrendo atos
dor a ser evitada. Mesmo crianças de dois anos de violência repetidamente cometidos por uma
que são punidas fisicamente por suas mães ten- mesma pessoa ou se está sendo "revitimizada" por
dem a se distanciar mais delas do que crianças um outro agressor.97
que não sofrem esse tipo de violência.93
Segundo a OMS, os efeitos negativos da violên-
Os impactos e as conseqüências são agravados cia no lar para crianças são semelhantes em con-
pelo fato de as crianças serem agredidas por pes- textos cultural e geograficamente diferentes. Com
soas que amam e em quem confiam em suas ca- base em estudos realizados com mulheres em
sas, onde deveriam se sentir seguras. Os danos Bangladesh, Brasil, Etiópia, Japão, Namíbia,
são particularmente graves quando elas sofrem Peru, Samoa, Tailândia e República Unida da 67
abuso sexual, principalmente em decorrência do Tanzânia, crianças que vivem em lares violentos
estigma e da vergonha associados a ele em todos (nos quais a mãe relatou abuso físico por parte
os países, que as forçam a lidar sozinhas com o do pai) têm uma tendência maior de desenvol-
problema. A perda de confiança e fé nos seres ver problemas comportamentais como fazer xixi
humanos mais próximos da criança pode gerar na cama, ter pesadelos e apresentar comporta-
sentimentos de medo, desconfiança, incerteza e mentos muito agressivos ou timidez excessiva.98
isolamento emocional. Ela pode nunca mais se Os resultados desses estudos sugerem que a ex-
sentir segura na companhia de seu pai ou de sua posição à violência no lar é um sinal de alerta de
mãe ou do parente que a agrediu. danos para a criança e os serviços de saúde de-
vem levar esse fato em consideração em suas
Evidências cada vez mais abundantes sugerem que ações de prevenção e em suas respostas.
a exposição à violência ou a traumas afeta o de-
senvolvimento do cérebro, por interferir em pro- CONSEQÜÊNCIAS DE
cessos normais de desenvolvimento neurológico.94 LONGO PRAZO
Quando a violência familiar é extrema, a criança
pode apresentar mudanças comportamentais re- Um conjunto cada vez maior de pesquisas reve-
lacionadas à idade e sintomas compatíveis com o la que a violência cometida contra crianças ou a
transtorno de estresse pós-traumático (TEPT) e experiência de morar num domicílio onde agres-
quadros de depressão. A agressão física e sexual sões freqüentes contra familiares são testemu-
está associada a um risco maior de pensamentos e nhadas podem contribuir muito para a ocorrên-
comportamentos suicidas e, quanto mais grave a cia de doenças e óbitos entre adultos. A experi-
"Pode parecer um sentimento de culpa. A vítima e mesmo as pessoas à sua volta que não conhecem a situação podem
achar que uma criança que sofreu abuso é responsável por ele. Se pessoas próximas acreditarem nisso, a vítima
lentamente acaba acreditando que isso é verdade também."

Menina matriculada na segunda série do ensino médio, Europa, 2005 IX

ência de violência na infância tem sido associa- As conclusões são semelhantes para castigos fí-
da ao consumo excessivo de álcool e drogas, sicos e outras formas degradantes de tratamen-
câncer, doenças pulmonares crônicas, depressão to. O castigo corporal gera depressão, infelici-
e inúmeras outras enfermidades, como doenças dade, ansiedade e desesperança em crianças e
hepáticas, obesidade e problemas crônicos de jovens. Mesmo que sua freqüência seja baixa, o
saúde reprodutiva.99, 100, 101 Essa associação pode castigo corporal pode gerar problemas psicoló-
ser gerada por comportamentos prejudiciais ado- gicos em jovens.104, 105, 106, 107 Em um grupo de
tados para aliviar a dor, como fumar, beber, con- adolescentes que vivem na Região Administra-
sumir substâncias, comer excessivamente ou tiva Especial de Hong Kong da China, os que
outros hábitos dietéticos inadequados. haviam sofrido castigos corporais poucos me-
ses antes apresentavam uma maior suscetibili-
A violência contra a criança pode também provo- dade ao consumo do álcool, ao tabagismo e a
car impactos de longo prazo para a saúde men- se envolver em brigas, além de uma maior pro-
tal.102 Um estudo que comparou dados de todas as pensão à ansiedade, ao estresse e a perceber di-
partes do mundo mostra que muitos casos de dis- ficuldades em sua capacidade de lidar com pro-
68 túrbios mentais em adultos estão associados à blemas do cotidiano.108 Essa relação entre cas-
ocorrência de abuso sexual na infância (veja a tigos corporais e a saúde mental é percebida
Tabela 3.1).103 Embora a prevalência de casos de também na idade adulta, como revelam estu-
abuso tivesse variado nas diferentes regiões pes- dos realizados no Canadá e nos Estados Uni-
quisadas, seus impactos foram semelhantes e seus dos, que identificaram níveis mais altos de an-
piores efeitos sobre a saúde mental foram associ- siedade e alcoolismo entre adultos em função
ados à duração do abuso e seu grau de severidade. de terem sofrido castigos desse tipo.109

TABELA 3.1 - Ônus Global dos Distúrbios Mentais Atribuídos ao Abuso Sexual de Crianças

PERCENTUAL GLOBAL DO
ÔNUS DE DISTÚRBIOS ATRIBUÍDOS AO
DISTÚRBIO MENTAL ABUSO SEXUAL DE CRIANÇAS
MULHERES (%) HOMENS (%)
Depressão, consumo de álcool e drogas 7-8 4-5
Transtorno de estresse pós-traumático 33 21
Tentativas de suicídio 11 6
Síndrome do pânico 13 7
Fonte: Andrews G et al. (2004). Child Sexual Abuse.. Em: Ezzati M. et al.(2004). Comparative Quantification of Health
Risks: Global and Regional Burden of Disease Attributable to Selected Major Risk Factors, Vol. 2. Genebra.
Organização Mundial da Saúde, págs. 1851-1940.
3
MAIS VITIMIZAÇÃO Crianças que sofreram abuso sexual, foram
extremamente negligenciadas ou tiveram ex-
Experimentar violência na infância também periências violentas no lar provavelmente fu-
aumenta os riscos de mais vitimização e de uma girão de suas casas ou passarão a viver nas
acumulação de experiências violentas. Esse fato ruas, ficando expostas a abuso e exploração
reforça a importância de reconhecermos e pre- sexual. Isso ocorre com meninos e meninas.
venirmos a violência contra a criança nos está- De acordo com um relatório do Canadá, qua-
gios mais iniciais possíveis. Da mesma forma, se todos os meninos envolvidos em ativida-
o abuso sexual de crianças já está claramente des de prostituição naquele país sofreram
estabelecido como um fator de risco de vitimi- abusos sexuais em casa.116
zação sexual na idade adulta e o risco aumenta
se incluir uma relação sexual efetiva e outras Alguns estudos concentraram-se na natureza
formas de violência.110 A escala da vitimização inter-geracional da violência.117 Dados recen-
continuada no lar só foi avaliada em poucos tes de um estudo realizado na Austrália, Costa
países nos quais registros e bancos de dados Rica, República Tcheca, Polônia e Filipinas in-
dicam que o problema é comum em diferentes 69
são atualizados rotineiramente. No Reino Uni-
do e nos Estados Unidos, nos casos de violên- culturas e regiões.118 Mulheres que sofreram
cia contra a criança relatados a órgãos de pro- violência física por parte de seus pais na infân-
teção, os índices de reencaminhamento varia- cia em todos os países têm uma probabilidade
ram entre 5% e 24% num período de 1 a 4 anos maior de relatar agressões por parte de seus
de acompanhamento.111, 112, 113 Para crianças en- parceiros íntimos na idade adulta, fortalecendo
caminhadas a esses órgãos em pelo menos duas a perspectiva de que sofrerão violência por toda
ocasiões, o risco é bem maior. a sua vida119 (veja a Figura 3.3).

Acredita-se que a violência familiar contra No caso das práticas tradicionais e do casamento
crianças está associada a um maior risco de de crianças, observa-se um fenômeno inter-ge-
violência em outros ambientes. Um estudo re- racional, pois há mães (e pais) que consideram
alizado no Reino Unido constatou que crian- esses costumes obrigatórios e os impõem a suas
ças que testemunham violência doméstica filhas e filhos. O principal fator que predeter-
também ficam mais suscetíveis à prática da mina a mutilação genital feminina é de nature-
intimidação ostensiva (bullying)114 e uma pes- za étnica. Alguns grupos étnicos aplicam essa
quisa com crianças que estavam cursando o prática a quase toda a sua população, enquanto
primeiro e segundo graus na Itália revelou que outros grupos, que podem ou não morar na
crianças, principalmente meninas, que teste- mesma área, não o fazem.120 Educar as meni-
munham atos de violência entre os pais em nas, de preferência até o nível médio, pode rom-
casa têm uma propensão maior a serem víti- per esse elo inter-geracional e reduzir a preva-
mas de bullying.115 lência da mutilação genital feminina.121
"Quando o chefe da família tem um dia ruim, o cachorro chora."

Provérbio asiático, Consulta Regional, Sul da Ásia

70

CONSEQÜÊNCIAS ECONÔMICAS tos psicológicos e outros impactos sobre a qua-


E SOCIAIS lidade de vida da vítima, a interrupção ou des-
continuidade de sua educação e perdas de pro-
Além de seu impacto negativo sobre os direi- dutividade na vida futura da criança ou jovem.122
tos, a saúde e o desenvolvimento das crianças, O ônus financeiro em potencial é ilustrado por
a violência familiar acarreta conseqüências eco- dados fornecidos por algumas sociedades in-
nômicas para as famílias e a sociedade. Essas dustrializadas. Os custos financeiros associa-
conseqüências podem incluir custos diretos, dos ao abuso infantil e à negligência, que in-
como gastos médicos para tratar as vítimas, e cluem rendas futuras perdidas e custos com as-
custos com serviços jurídicos e de assistência sistência psiquiátrica, foram estimados em
social e para colocar crianças que sofrem esse US$ 94 bilhões nos Estados Unidos em 2001.123
tipo de violência sob cuidados adequados. Elas No Reino Unido, calcula-se que sejam gastos
incluem também custos indiretos, como possí- US$ 1,2 bilhão por ano só com serviços previ-
veis lesões permanentes ou deficiências, cus- denciários imediatos e jurídicos.124
3
FATORES QUE CONTRIBUEM FATORES RELACIONADOS
À CRIANÇA
PARA A VIOLÊNCIA
Idade: Quando são muito novas, a fragilidade
O risco de ocorrência de atos de violência no
e a dependência das crianças da mãe ou de seu
lar e na família resulta da interação entre a qua-
cuidador imediato constituem sua maior vulne-
lidade dos relacionamentos familiares e o es-
rabilidade. Além do risco de sofrerem lesões
tresse ou pressão de fatores externos sobre a
ou mesmo de morrerem em conseqüência de
família ou das características dos membros da
um ato de violência física, bebês são vulnerá-
família. Alguns fatores são determinados pelas
veis à omissão e à negligência. Bebês são mais
características individuais da criança (por exem-
vulneráveis imediatamente após nascerem. Essa
plo, por seu estágio de desenvolvimento, gêne-
vulnerabilidade vai diminuindo gradualmente
ro) e dos pais ou seus responsáveis (por exem-
ao longo do seu primeiro ano de vida e da sua
plo, distúrbios mentais, abuso de substâncias).
primeira infância (de 0 a 4 anos).
Outros são determinados pelo ambiente famili-
ar e pelos papéis e relacionamentos das pesso- 71
Gênero: o gênero da criança pode também ser
as dentro dele, que podem aumentar a vulnera-
um fator que aumenta o risco de sua vitimização.
bilidade da criança ou oferecer-lhe uma maior
Embora a violência sexual seja frequentemente
proteção. Relações familiares problemáticas e
aplicada a meninos, as meninas são mais suscetí-
interações entre pais e filhos de baixa qualida-
veis a sofrer abusos. A probabilidade de filhas se-
de influenciam muito a possibilidade de a cri-
rem seriamente negligenciadas em sociedades que
ança sofrer violência no lar ou não. Outros são
dão preferência aos filhos é maior, enquanto em
determinados pelo ambiente, como situações
algumas sociedades é mais provável que os filhos
emergenciais, mas podem também estar relaci-
sofram atos de violência do que as filhas.
onados à disponibilidade de redes sociais ou à
perda de meios de vida. Obviamente, um resul-
Outras características: Crianças portadoras de
tado negativo não é inevitável. Por exemplo,
deficiência estão expostas a riscos mais altos
quando as relações entre pais e filhos são boas,
de sofrer violência por diversos motivos, que
as crianças são protegidas e desenvolvem uma
variam de preconceitos culturais fortemente
maior resistência a choques externos.
enraizados a outras questões emocionais, físi-
cas, econômicas e sociais mais amplas impos-
A violência provavelmente resulta de uma combi-
tas a uma família em função de suas dificulda-
nação de fatores pessoais, familiares, sociais, eco-
des.125 Nos Estados Unidos, crianças portado-
nômicos e culturais e pode ser difícil desfazer o
ras de deficiências físicas, sensoriais, intelec-
inter-relacionamento entre esses fatores. Além dis-
tuais ou mentais toleram quase o dobro do nú-
so, algumas crianças ficam expostas a diversos ti-
mero de incidentes violentos em relação a crian-
pos de violência de diversas fontes por muitos anos.
ças sem deficiências.126 Da mesma maneira, a
Avaliação Regional do Caribe realizada para o micílios superlotados aumentam o risco de violên-
Estudo observou que crianças portadoras de cia física e psicológica contra crianças.132, 133, 134 Pais
deficiência corriam riscos muito maiores de fisicamente violentos costumam também ser jovens,
sofrer todos os tipos de violência (física, sexu- solteiros e afetados pela pobreza.135 Essas associa-
al, emocional e na forma de negligência), prin- ções costumam estar relacionadas ao estresse pro-
cipalmente dentro de seus lares.127 Em algumas vocado pela pobreza, desemprego e isolamento so-
regiões, elas são consideradas amaldiçoadas. cial. Crianças que vivem em famílias afetadas por
Por exemplo, na África Central e Ocidental, esses fatores estão expostas a um risco maior, prin-
essas crianças podem ficar expostas, desde que cipalmente se seu apoio social for inadequado e a
nascem, a uma negligência tácita ou explícita e família não fizer parte de uma rede social forte. A
a violência contra elas pode ser aceita e até in- falta de apoio de outros familiares fora do lar pode
centivada pela família.128 (A violência contra exacerbar problemas existentes.136
crianças portadoras de deficiência também é
discutida bastante detalhadamente no capítulo Estresse e isolamento social: Os estudos reali-
sobre a violência contra a criança no âmbito zados em países industrializados e em desenvol-
72 dos sistemas assistenciais e de justiça). vimento mostram que muitas das características
da personalidade e do comportamento de pais
Além das deficiências, outras características es- violentos estão relacionadas a uma baixa funci-
pecíficas aumentam os riscos de uma criança so- onalidade social e a uma capacidade limitada de
frer violência no lar. Características que impedem lidar com o estresse.137 Pais que não conseguem
o desenvolvimento de laços adequados de afei- controlar seus impulsos adequadamente e têm
ção entre pais e filhos ou fazem com que a crian- uma auto-estima baixa e problemas de saúde
ça seja mais difícil de ser assistida podem afetar mental e de abuso de substâncias (álcool e dro-
sua suscetibilidade.129, 130, 131 Por exemplo, crian- gas) tendem mais do que outros a agredir seus
ças indesejadas, nascidas prematuras, com peso filhos fisicamente e/ou negligenciá-los.138 Pais
abaixo do normal ou de partos múltiplos, bem que agridem seus filhos podem ter sido, eles pró-
como crianças com doenças crônicas ou proble- prios, vítimas de violência na infância.139
mas severos de comportamento ter uma maior
probabilidade de serem maltratadas. Pesquisas sobre os vínculos entre condições
socioeconômicas e a violência contra a criança
FATORES RELACIONADOS sugerem que são necessários esforços para
À FAMÍLIA mudar condições subjacentes que impõem ní-
veis elevados de estresse emocional, social e
Características e condição socioeconômica dos econômico às famílias. Famílias que vivem em
pais: Embora a violência no lar seja encontrada comunidades caracterizadas por taxas elevadas
em todas as esferas sociais e econômicas, estudos de desemprego em domicílios superlotados com
realizados em diferentes ambientes mostram que a uma grande rotatividade e baixos níveis de co-
baixa escolaridade e falta de renda dos pais e do- esão social devem ser adequadamente apoiadas.
3
Perda ou separação dos pais: A taxa de orfan-
dade, que aumentou muito em decorrência da
pandemia do HIV/AIDS, aumenta a vulnerabili-
dade das crianças. Um estudo realizado pela or-
ganização World Vision em Uganda, onde se
estima que 17 milhões de crianças tenham fica-
do órfãs devido à AIDS, argumenta que a estig-
matização deliberada dessas crianças por parte
de seus guardiões, professores e parentes provo-
ca danos psicológicos e constitui, por si só, uma
forma de violência.140 Encaminhar esses órfãos
para casas de parentes ou de pessoas da comuni-
dade local é uma prática comum e preferida em
relação à institucionalização ou ao fenômeno dos
lares chefiados por crianças; no entanto, líderes
comunitários de Uganda relataram que castigos 73
corporais eram mais violentos e comuns contra
órfãos do que contra outras crianças nesses do-
micílios com laços de parentesco mais próximos
dos cuidadores adultos ou do chefe da família.
Em Zâmbia, um estudo realizado pela organiza-
ção Human Rights Watch concluiu que órfãos
acolhidos por parentes eram freqüentemente sub-
metidos a violência sexual por tios, padrastos e
primos. Com uma taxa de cerca de 20% de casos
de infecção de HIV entre a população, esse tipo
de violência pode ser fatal. As meninas raramente
revelam esse tipo de abuso, pois têm muita cons-
ciência de sua situação de dependência e podem
ser silenciadas ou perder um apoio essencial.141
A orfandade pode também aumentar o riscos da
violência em contextos comunitários.

Exposição à violência do parceiro íntimo


UCRÂNIA, 2005, Sasha, um menino de 5 anos, segura um
dentro do lar: Estima-se que entre 133 e 275
bichinho de pelúcia sentado com sua irmã Nastya, de 4 anos,
numa instituição estadual na aldeia de Kopylov, perto de Kiev. milhões de crianças testemunham violência
Seis meses antes, Sasha viu sua mãe ser morta por seu pai. entre seus pais/cuidadores com freqüência to-
dos os anos, geralmente na forma de brigas Por passarem mais tempo em casa, crianças
entre os pais ou entre a mãe e seu parceiro (veja nos primeiros anos de vida - quando estão mais
a Tabela 3.2).142 As crianças podem ficar psi- sujeitas à influência de fatores externos e mais
cológica e emocionalmente prejudicadas quan- passíveis de serem dominadas pelo medo - têm
do testemunham atos de violência contra um uma probabilidade maior de presenciar atos de
outro familiar.143 Provas levantadas em diver- violência entre parceiros íntimos. Essas crian-
sos estudos indicam que presenciar esse tipo ças podem também aprender lições poderosas
de violência por longos períodos pode afetar sobre agressões em relacionamentos interpes-
severamente o bem-estar da criança, seu de- soais que carregarão pelo resto da vida. Espe-
senvolvimento pessoal e social e suas intera- cialistas em desenvolvimento infantil sugerem
ções tanto na fase infantil como adulta e que que estilos hostis de comportamento, o con-
essas crianças podem desenvolver os mesmos trole emocional e a capacidade de resolver con-
distúrbios comportamentais e psicológicos dos flitos pessoais são moldados pelas relações
que são diretamente expostos aos atos de vio- entre pais e filhos e entre os pais.153 Entretan-
lência (veja abaixo).144, 145, 146 to, nem todas as crianças que nascem em lares
74 violentos sofrem conseqüências duradouras. Se
A violência contra mulheres dentro do lar geral- tiverem um apoio adequado, elas podem de-
mente está associada à violência contra a crian- senvolver uma capacidade surpreendente de
ça. Nos Estados Unidos, estima-se que a violên- lidar com a violência e superar eventuais trau-
cia entre parceiros (também conhecida como vi- mas provocados por ela.
olência doméstica) talvez seja o mais importan-
te precursor de óbitos provocados por maus-tra- FATORES SOCIETAIS E CULTURAIS
tos em crianças.147 Essa mesma relação foi ob-
servada em diversos contextos e países geográ- Estrutura jurídica e políticas: Estruturas jurídi-
fica e culturalmente distintos, como na China, cas fracas contribuem direta e indiretamente
Colômbia, Egito, Índia, México, Filipinas e Áfri- para a violência familiar contra crianças. As leis
ca do Sul, onde fortes vínculos entre esses dois da maioria dos países ainda aceitam, explícita
tipos de violência foram registrados.148 Um es- ou implicitamente, de acordo com sua interpre-
tudo realizado na Índia mostrou que a violência tação, algum grau de violência contra a criança
entre parceiros no lar duplica o risco da violên- quando ela é aplicada por seus pais ou guardi-
cia direta contra crianças em seu interior.149 Cri- ões como uma medida disciplinar. Muitos paí-
anças expostas a violência entre pais/cuidadores ses não adotam mecanismos de proteção legal
em seus lares correm o risco de sofrer violência contra práticas tradicionais prejudiciais e casa-
elas próprias e também de desenvolverem dis- mentos de crianças, e em alguns deles as leis
túrbios psicológicos e emocionais. Sem uma in- contra o abuso sexual infantil só se aplicam à
tervenção adequada nesses casos, elas pode- violência sexual de homens contra meninas ou
rão, futuramente, se tornar, elas próprias, agres- não abordam a violência sexual contra crianças
sores ou vítimas de violência.150, 151 praticada por familiares.
3
TABELA 3.2 - Número estimado de crianças que testemunham violência doméstica anualmente

NÚMERO ESTIMADO DE CRIANÇAS QUE


REGIÃO
TESTEMUNHAM VIOLÊNCIA NO LAR*
Sul da Ásia 40,7- 88 milhões
Ásia Ocidental 7,2-15,9 milhões
África Subsaariana 34,9-38,2 milhões
Sudeste Asiático Sem estimativas
Oceania 548.000-657.000
África Setentrional Sem estimativas
América Latina e Caribe 11,3 - 25,5 milhões
75
Leste Asiático 19,8 - 61,4 milhões
Comunidade dos Estados Independentes 900.000 to 3,6 milhões
Países desenvolvidos 4,6 -11,3 milhões

Estimativa Global 133 - 275 milhões

*Estimativas baseadas em: Dados da Divisão de População das Nações Unidas para a População Global abaixo de 18
anos, no ano de 2000; Estudos sobre Violência Doméstica realizados no período de 1987 a 2005; análise coordenada
pela Secretaria do Estudo do Secretário-Geral das Nações Unidas sobre Violência contra a criança (2005).

A legislação e políticas relacionadas ao acesso saúde, desemprego e previdência social que


a serviços de planejamento familiar, à disponi- deixam as famílias sem redes de segurança eco-
bilidade de álcool, a níveis aceitáveis de toxi- nômica e social aumentam o estresse familiar e
nas ambientais, ao acesso a tratamentos de saú- o isolamento social e contribuem para índices
de mental ou de problemas de abuso de subs- mais elevados de violência contra a criança.
tâncias e ao acesso a registros de nascimentos,
óbitos e casamentos têm um impacto indireto Autoritarismo: Relacionamentos entre pais e fi-
mas substancial sobre o risco de maus-tratos lhos excessivamente controladores e que atribuem
contra crianças dentro do lar e da família. Polí- uma condição de inferioridade às crianças tendem
ticas de educação, cuidados infantis, licença- a aumentar os índices de violência, particularmen-
maternidade e paternidade, atenção básica de te quando se acredita que os castigos corporais ou
outras formas de punição humilhantes são medi- Pertencer a grupos de minoria étnica ou in-
das disciplinares necessárias. Diversos estudos su- dígenas: Crianças que pertencem a grupos de
gerem que culturas nas quais se espera submissão minorias étnicas estão frequentemente expos-
por parte das crianças sem nenhum questionamen- tas a um risco maior de violência devido à con-
to das regras de autoridade impostas por membros vergência de outros fatores de risco associados
mais velhos da família e adultos contribuem para à sua exclusão social, entre os quais taxas ele-
aumentar a vulnerabilidade da criança.154, 155 vadas de abuso de substâncias e alcoolismo,
Quando os pais acreditam "ser donos" das crian- pobreza, moradia inadequada e desemprego.
ças e que podem fazer tudo que acham melhor
para elas, há uma resistência ao envolvimento do FATORES DE PROTEÇÃO
Estado na proteção infantil. A crença na inviola- DENTRO DO LAR
bilidade da família faz com que autoridades, vizi-
nhos e outros familiares relutem em tomar qual- Assim como alguns fatores aumentam a pro-
quer atitude quando sabem que crianças estão so- babilidade da ocorrência de violência do-
frendo violência.156, 157, 158, 159, 160 No entanto, essa méstica contra crianças, outros fatores po-
76 postura não deve ser confundida com uma educa- dem reduzir essa probabilidade. Nem toda
ção com autoridade, que envolve carinho e apoio família exposta aos fatores de risco descri-
sem que limites e regras deixem de ser impostos tos acima torna-se um ambiente violento
ao comportamento das crianças e satisfazendo, ao para crianças. Infelizmente, poucas pesqui-
mesmo tempo, suas necessidades e promovendo sas sistemáticas foram realizadas sobre fa-
o seu desenvolvimento.161 tores de proteção e eles não são bem com-
preendidos. Onde pesquisas foram realiza-
Atitudes patriarcais: Atitudes patriarcais - parti- das, elas enfocaram a identificação de fato-
cularmente quando perpetuam a condição inferior res que amenizam o impacto da violência
das mulheres tão enraizada em muitas culturas - após sua ocorrência, como, por exemplo,
também aumentam o risco da violência. Em algu- fatores que podem impedir que suas vítimas
mas sociedades, atos extremamente violentos po- desenvolvam distúrbios mentais duradouros
dem ser cometidos por meninos ou homens se me- ou parecem estar associados ao rompimento
ninas ou mulheres não satisfizerem seus desejos. do ciclo da violência. Fatores identificados
Solicitar o consentimento de uma menina para ter com base no bom senso e em pesquisas como
relações sexuais ou se casar com ela pode não ser facilitadores de uma maior resistência à vio-
considerado necessário. Elas podem também ser lência incluem cuidados mais adequados por
responsabilizadas por atos de violência cometidos parte dos pais na infância,162 menos associa-
contra elas. Em ambientes desse tipo, crianças do ções com pessoas que abusam de substâncias
gênero masculino podem ficar expostas a atos de ou estão envolvidas em atividades crimino-
violência como uma forma de castigo por terem se sas,163 uma relação de carinho e apoio com
comportado de maneira incompatível com os pa- um pai não agressivo164 e níveis mais baixos
péis estereotipados de homens e mulheres. de estresse provocado pela violência. 165
3
Pouco se sabe sobre o que impede famílias de sentido de que estimulem o desenvolvimento
se tornarem violentas. Alguns estudos mostra- desses fatores, particularmente famílias em co-
ram que comunidades com laços sociais sóli- munidades caracterizadas por baixos níveis de
dos, redes sociais prósperas e boas relações coesão social.
entre vizinhos têm um forte efeito protetor e
podem até reduzir a probabilidade de ocorre- RESPOSTAS À VIOLÊNCIA
rem atos de violência quando outros fatores fa-
miliares de risco estão presentes.166, 167, 168 Com CONTRA A CRIANÇA NO
base no entendimento atual sobre fatores de ris- LAR E NA FAMÍLIA
co de violência e estratégias de prevenção efi-
cazes, fica claro que as famílias podem consti- A CDC e outros tratados de direitos humanos
tuir uma fonte sólida de proteção e apoio para prevêem que os Estados têm a obrigação de
as crianças. Uma boa criação, laços sólidos de desenvolver respostas abrangentes e multisse-
afeição entre pais e filhos e relacionamentos toriais em relação a todas as formas de violên-
positivos e não violentos com filhos são fato- cia contra a criança na família, inclusive políti-
res de proteção inquestionáveis. Esse fato en- 77
cas e serviços para prevenir a violência e prote-
fatiza a importância de se apoiar famílias no ger e assistir suas vítimas.

SEGURANÇA INFANTIL: UM MODELO PIONEIRO NA JORDÂNIA

A Jordan River Foundation (JRF) foi criada em 1997 com o apoio de Sua Majestade, a Rainha Rania
Al-Abdullah, para proteger crianças jordanianas, fortalecer laços familiares e incentivar relaciona-
mentos positivos entre crianças e pais, bem como uma dinâmica familiar saudável. A Fundação
tornou-se uma instituição pioneira na construção de um modelo árabe de segurança infantil.

O Programa de Proteção Infantil desenvolvido sob os auspícios da JRF promove campanhas de


conscientização, presta serviços preventivos e intervém em situações que envolvem abuso de
crianças abordando suas necessidades jurídicas, médicas, psicológicas, educacionais e sociais
de uma maneira integrada. O programa é singular na Jordânia e no mundo árabe e foi o primeiro
a abordar uma questão complexa e levá-la à atenção do público e decisores jordanianos.

O Centro de Segurança Infantil - Dar Al-Aman - criado pela Fundação é o primeiro centro terapêu-
tico do mundo árabe que oferece serviços de reabilitação para crianças que sofreram abuso e suas
famílias. As crianças e famílias que freqüentam o centro têm acesso a uma série de serviços e
programas educacionais. Mães aprendem técnicas de cuidados infantis, pais aprendem a aplicar
medidas disciplinares alternativas, jovens aprendem a resolver conflitos e desenvolvem habilida-
des básicas para a sua sobrevivência e crianças aprendem técnicas de autoproteção.169
Até o presente momento, as respostas dos Esta- ca atualmente.170 No entanto, leis que crimina-
dos têm se concentrado, principalmente, na ofer- lizam a violência contra a criança não são efe-
ta de serviços de proteção infantil ou no desen- tivamente implementadas em diversas regi-
volvimento de sistemas assistenciais alternati- ões do mundo em função da força das tradições
vos, e não em aspectos de prevenção da violên- e, em alguns casos, devido à resistência de sis-
cia. Estratégias de prevenção e proteção devem temas religiosos ou judiciais tradicionais.
ser desenvolvidas conjuntamente e em bases
equilibradas como parte de uma estrutura e es- Leis sobre castigos corporais e
tratégia geral, e devem considerar questões re- outras formas de punição cruéis ou
lacionadas a políticas sociais, reformas jurídi- degradantes
cas, programas e serviços preventivos e assis-
tenciais e estratégias concebidas para gerar Como observado pelo Comitê sobre Direitos da
mudanças em atitudes e comportamentos. Criança, as leis contra agressões criminosas
raramente são interpretadas no sentido de proi-
REFORMA LEGISLATIVA bir castigos corporais e todas as demais formas
78
cruéis ou degradantes de punição aplicadas a
Menos de 20 países reformaram suas leis no crianças dentro da família. Em mais de 70 paí-
sentido de proibir castigos físicos na família, ses, a defesa prevista no direito comum inglês
mas um número muito maior assumiu o com- de castigos "razoáveis" ou "moderados" de cri-
promisso de promover reformas dessa natureza anças continua válida após o período colonial.
no decorrer do Estudo. Todos os Estados têm Para que todas as formas de castigos corporais
leis que caracterizam agressões como delitos e sejam proibidas, todas essas defesas devem ser
muitas constituições proíbem castigos cruéis, eliminadas e a proibição de castigos corporais
desumanos ou degradantes. Muitos outros têm e outras formas de cruéis e degradantes de pu-
leis que proíbem a crueldade, maus-tratos ou o nição deve ser adequadamente explicitada.
"abuso" de crianças. No entanto, essas leis não
são interpretadas no sentido de proibir todos os Entre 1996 e 2006, o Comitê sobre os Direitos
tipos de violência contra a criança e as legisla- da Criança recomendou que 130 países adotas-
ções de muitos Estados contêm justificativas ou sem medidas para proibir todos os castigos cor-
cláusulas que defendem a aplicação de casti- porais. Em 2006, o Comitê adotou um Comen-
gos corporais. A maioria dos países proíbe o tário Geral - uma declaração sobre sua inter-
incesto, o estupro e outras formas de violência pretação oficial da CDC - sobre o direito da
sexual. Muitos deles também especificaram criança a proteção contra castigos corporais e
uma idade mínima para relações sexuais con- outras formas degradantes de punição.171 O
sensuais e para o casamento, embora essa ida- Comitê enfatiza que o objetivo maior da refor-
de geralmente seja inferior aos dezoito anos. A ma legislativa de proibir todas as formas de
maioria dos países nos quais ocorre a mutila- castigo corporal dentro do lar é preventivo:
ção genital feminina têm leis contra essa práti- "para evitar violência contra crianças mudando
3
atitudes e práticas, enfatizando o direito da cri- e isento de violência e que qualquer decisão de
ança a uma proteção igual e estabelecendo uma separar crianças de sua família deve satisfazer
estrutura clara para a proteção da criança e a plenamente os interesses superiores delas.
promoção de formas positivas, não violentas e
participativas de se criar crianças." Outras áreas para mudanças
legislativas
O Comitê enfatizou também que o princípio
da proteção igual a ser garantida a crianças e Alguns países adotaram medidas para criminali-
adultos contra agressões, inclusive dentro da zar abusos praticados por parceiros íntimos. Es-
família, não significa que todos os tipos de sas medidas ampliaram a definição de estupro e
castigo que se tornem conhecidos devam ge- eliminaram a noção de que a violência entre par-
rar processos judiciais contra os pais: "O prin- ceiros íntimos é uma questão privada, ajudando,
cípio de minimis - segundo o qual a lei não assim, a mudar as regras sociais.175 (Nota do re-
deve ser aplicada a questões triviais - garante visor: o texto original em inglês pula a referên-
que agressões leves entre adultos só gerem cia 174, passando da 173 à 175 diretamente.)
processos judiciais em circunstâncias extremas 79
e esse mesmo princípio se aplica a agressões No entanto, mudanças legislativas não garantem
mais leves contra crianças. Os Estados devem mudanças sociais se não forem apoiadas por me-
desenvolver mecanismos eficazes para a apre- didas de educação pública e profissional. Leis
sentação de denúncias e encaminhamentos. aprovadas para refletir as obrigações previstas na
Embora todos os tipos de violência contra a CDC que não estejam vinculadas a ações de cons-
criança devam ser adequadamente investiga- cientização pública e que contrariem normas cul-
dos e uma proteção adequada contra qualquer turais e práticas aceitas podem ser sistematicamen-
tipo de dano significativo deva ser garantida, te ignoradas. Mudanças legislativas não consegui-
a meta deve ser a de impedir que pais recor- rão, por si só, eliminar práticas tradicionais preju-
ram à violência ou apliquem outros tipos cru- diciais como a mutilação genital feminina, por
éis ou degradantes de punição por meio de in- exemplo, embora os sistemas legais devam con-
tervenções de apoio e educacionais, e não dená-las. Mudanças de legislação devem ser acom-
medidas punitivas".173 panhadas de programas educacionais para autori-
dades públicas, pais e crianças.
Para que a reforma legislativa satisfaça seu pro-
pósito, será necessário orientar e capacitar to- Em alguns casos, leis existem mas são insufici-
das as partes envolvidas nos sistemas de prote- entes e sua implementação imprecisa ou insen-
ção infantil, inclusive policiais, promotores e sível pode agravar a vitimização de crianças,
tribunais. Essa orientação deve enfatizar que é ao invés de aliviá-la. Algumas legislações exis-
vital apoiar as famílias e garantir que as crian- tentes são tão inapropriadas que penalizam cri-
ças sejam criadas em um ambiente construtivo anças que sofrem violência em vez de seus pais
agressores. Nessas circunstâncias, elas podem A prevenção da violência doméstica e familiar
até acentuar a probabilidade da violência con- contra crianças exige reformas legais que de-
tra a criança. Em diversos contextos da África, vem envolver mais do que apenas leis direta-
Ásia e Oriente Médio, quando uma menina abai- mente relacionadas à violência. Para que uma
xo da idade de consentimento ou de se casar é redução em larga escala da violência contra a
estuprada e engravida, os tribunais e seus pais criança seja lograda, as estruturas legais e polí-
podem obrigá-la a se casar com seu estupra- ticas devem abordar fatores de risco subjacen-
dor.176 A legislação contra os chamados "assas- tes e fortalecer fatores de proteção. Aspectos
sinatos em legítima defesa da honra" pode im- como a disponibilidade de álcool, serviços de
por sentenças mais brandas para esses casos do planejamento familiar, cuidados pré e pós-na-
que para homicídios ou os agressores podem tal, previdência social, tratamentos psiquiátri-
ser exonerados por sistemas tradicionais de jus- cos e de abuso de substâncias, registros de nas-
tiça e crianças vendidas para fins de prostitui- cimentos, óbitos e casamentos a mecanismos
ção podem ser obrigadas a arcar com a maior para determinar níveis de toxinas ambientais são
parte do ônus da desaprovação social ou serem apenas alguns exemplos de fatores que são sen-
80 tratadas como criminosas. síveis a reformas políticas e legais.

A EXPERIÊNCIA DA SUÉCIA COM A PROIBIÇÃO


DE CASTIGOS CORPORAIS

A Suécia foi a primeira nação a proibir todos os castigos corporais. Em 1957, uma disposição que
perdoava pais que provocavam lesões leves em seus filhos em decorrência de uma ação "disciplinar"
foi eliminada do Código Penal. Em 1979, a Suécia proibiu explicitamente os castigos corporais em
seu Código de Paternidade e Tutela: "Crianças... não poderão ser submetidas a castigos corporais ou
a qualquer outro tratamento degradante".

A experiência da Suécia mostra que quando reformas legislativas progressistas são promovidas jun-
tamente com campanhas abrangentes de conscientização pública, mudanças substanciais em atitudes
podem ser logradas e a violência contra a criança reduzida em poucas décadas. Em 2000, uma
comissão parlamentar investigou experiências de pais e crianças com castigos corporais desde que
essa prática fora proibida. Os dados indicam que seu uso caiu drasticamente, particularmente o uso
de socos de punhos fechados contra crianças ou surras com outros objetos ou palmadas. Em estudos
nacionais com pais realizados em 1980, 51% deles afirmaram que haviam aplicado castigos corpo-
rais a seus filhos no ano anterior. Vinte anos depois, em 2000, esse percentual havia caído para 8%.
3
ESTRATÉGIAS DE PREVENÇÃO de combate à violência contra a criança. Diversas
estratégias promissoras podem ser usadas para
Muitas pessoas não percebem, mas as pesqui- prevenir a violência contra a criança no contexto
sas continuam a mostrar que diversas interven- doméstico e familiar, entre as quais programas de
ções podem prevenir a violência: a violência impacto direto, como oferecer cursos de treina-
contra a criança no lar e no ambiente familiar mento para pais, e políticas de impacto mais indi-
pode ser significativamente reduzida mediante reto, como políticas para reduzir a disponibilida-
a implementação de leis, políticas e programas de de álcool e garantir um acesso mais amplo a
que fortaleçam e apóiem famílias e abordem os serviços de planejamento familiar.
fatores comunitários e sociais subjacentes que
permitem que a violência prospere. Apoio a pais e famílias
Para maximizar sua eficácia, as estratégias de pre-
Serviços de saúde para mães e crianças
venção devem basear-se nas melhores evidências
científicas disponíveis, ser concebidas para redu-
Serviços de saúde reprodutiva e de saúde mater- 81
zir fatores que contribuem para aumentar riscos,
no-infantil constituem ações de primeira linha para
fortalecer fatores de proteção, incluir mecanismos
reduzir a negligência e a violência contra a crian-
que permitam avaliações de seus impactos e ser
ça desde o seu nascimento. Além de prevenirem
aplicadas no âmbito de uma estrutura mais ampla
gravidezes indesejadas e de melhorarem o acesso
a cuidados pré-natais, pós-natais e da primeira in-
fância, eles podem também ajudar a fortalecer la-
ços de afeição desde os primeiros momentos de
vida de uma criança e reduzir o risco da violência
contra ela por parte de seus pais. A maioria dos
países oferece serviços de maternidade e tem pro-
gramas de visitação domiciliar para recém-nasci-
dos que usam agentes de saúde ou comunitários e
voluntários. Esses serviços permitem a identifi-
cação precoce de pais que precisam de apoio sem
estigmatizá-los em decorrência de sua necessida-
de de fazer exames rotineiros num hospital e pro-
movem saudáveis por meio de visitas de agentes
de saúde, nas quais eles podem educar os pais e
Estados Unidos, 1997, Tiffany, 10 anos, sua mãe, Letisha, e
seu padrasto, Billie, estão sentados em um banco numa rua canalizar recursos para famílias "prioritárias" iden-
da cidade de Daytona Beach. Após viverem nas ruas por tificando fatores de risco conhecidos e oferecen-
meses, o casal decidiu mandar Tiffany e sua irmã Tonya, de do serviços adicionais.
13 anos, para morar com sua avó em outro estado.
Visitas domiciliares e programas am dado à luz pela primeira vez e estavam en-
educacionais para pais frentando dificuldades socioeconômicas durante
os dois primeiros anos de vida da criança pude-
Programas que enfocam o funcionamento da fa- ram ser claramente observados 15 anos depois.177
mília, particularmente a administração familiar, a Numa análise aleatória, os benefícios para as fa-
solução de problemas e práticas adotadas na cria- mílias visitadas incluíram uma queda significati-
ção de crianças vêm sendo adotados há várias va em casos de abuso e negligência infantil e no
décadas. Há fortes evidências de que esses pro- consumo de álcool e drogas por parte das mães.
gramas são eficazes para reduzir a violência do- Evidências atualmente disponíveis indicam que
méstica e familiar contra crianças, bem como para os programas de visitação domiciliar mais bem-
diminuir outros efeitos negativos dessa violência sucedidos enfocam famílias expostas a um risco
sobre sua saúde e o desenvolvimento. Os progra- elevado de violência contra crianças, começam
mas mais bem-sucedidos abordam a dinâmica in- no período da gravidez e são mantidos até o se-
terna das famílias e sua capacidade de lidar com gundo ano de vida da criança, promovem ativa-
demandas externas. A educação de cuidadores mente comportamentos de saúde positivos, apói-
82 pode também evitar o desenvolvimento de relaci- am a família na gestão do estresse e abordam di-
onamentos indesejados entre pais e filhos e criar versas questões importantes para a família.178, 179
um contexto no qual pais podem aprender a ado- Esses programas devem ser flexíveis, de modo a
tar métodos disciplinares não violentos. Quanto poder ser ajustados às necessidades das famílias,
mais cedo na vida de uma criança esses progra- que mudam ao longo do tempo.
mas forem oferecidos e quanto maior a sua dura-
ção, maiores os benefícios que podem gerar. A educação de pais, uma outra estratégia de pre-
venção bem-sucedida e amplamente usada, pode
As visitas domiciliares envolvem profissionais de ser oferecida tanto no contexto de visitas domicili-
saúde, assistentes sociais ou voluntários treina- ares como em bases independentes. Os programas
dos para avaliar necessidades de bebês e crianças geralmente educam pais sobre o desenvolvimento
pequenas e a capacidade dos pais de satisfazê-las da criança e procuram promover sua capacidade
à luz da situação econômica e social da família. A de administrar comportamentos. A capacidade de
finalidade das visitas domiciliares personalizadas pais e responsáveis por crianças de administrar com-
é prestar apoio emocional e educar pais no senti- portamentos positivos pode ser melhorada promo-
do de que desenvolvam conhecimentos, habili- vendo-se sua compreensão da importância da con-
dades e comportamentos positivos e também, de tinuidade e da coerência, das recompensas por com-
uma certa maneira, avaliar a família. Essas visi- portamentos positivos e de seu reforço, da prática
tas também oferecem oportunidades para enca- de ignorar estrategicamente comportamentos ne-
minhar a família a outros serviços comunitários, gativos menos importantes, de dar instruções efi-
de acordo com as suas necessidades. cazes e de implementar conseqüências não violen-
tas em resposta a comportamentos inadequados.180
Nos Estados Unidos, os benefícios de visitas do- Os programas educacionais devem procurar forta-
miciliares feitas por enfermeiras a mães que havi- lecer as habilidades das mães e dos pais.
3
"Ficamos em desvantagem por conta da nossa idade. Os adultos não acreditam em nós quando
dizemos que algo assim aconteceu e acabamos não contando nada a eles. O padrasto da minha
namorada a toca de uma maneira sexual e ela até apanhou quando contou à mãe que isso
estava acontecendo."
Adolescente de 15 anos, América Latina

Programas educacionais para pais estão sendo z Treinamento em abordagens disciplinares efi-
cada vez mais implementados em países de ren- cazes para crianças com até três anos de idade;
da média e baixa. Por exemplo, estimuladas pela z Treinamento para pais de crianças abaixo de
All China Women's Federation (Federação das 5 anos, abaixo de 12 anos e adolescentes;
Mulheres de Toda a China), mais de 200.000
comunidades chinesas organizaram "Escolas z Aconselhamento para pais e cuidadores;
para Pais" para ajudar as pessoas a se adaptar à z Visitas domiciliares especificamente para
paternidade em famílias com um único filho.181 evitar a violência familiar contra crianças;
Na Europa Oriental, a República da Moldava z Capacitação de profissionais e paraprofissi-
está oferecendo educação a pais no sistema pri- onais que trabalham com crianças.
mário de saúde. Agentes de saúde são treina-
dos para transmitir conhecimentos e habilida- Programas de educação e
des a pais para que saibam satisfazer as neces-
assistência infantil
sidades de sobrevivência, crescimento, desen-
volvimento e proteção de seus filhos e também
Muitas famílias precisam de ajuda não apenas 83
para saber quando e onde procurar serviços es-
para prover cuidados básicos aos seus filhos,
pecializados. A iniciativa foi lançada em 2002
mas também para garantir uma estimulação e
e já ficou claro que os médicos de família e
educação adequadas para eles. Os Programas
enfermeiras que participaram dos cursos de trei-
de Cuidados e Desenvolvimento na Primeira
namento apresentam uma tendência maior de
Infância (ECCD) foram concebidos para alcan-
se envolver na educação de pais. Essa iniciati-
çar esses dois objetivos e há provas de que eles
va inclui um enfoque específico na proteção de
podem ser eficazes para reduzir fatores que ge-
crianças contra todas as formas de violência,
ram violência no lar. No Reino Unido, por exem-
entre as quais castigos corporais e outras for-
plo, uma avaliação de programas de creches
mas degradantes de disciplina.182
para crianças em idade pré-escolar de pais de
baixa renda concluiu que seus efeitos sobre a
Em países em desenvolvimento, cursos de pa-
interação entre mães e filhos eram positivos e
ternidade são oferecidos em centros comunitá-
que os ganhos que geravam para as mães, em
rios estabelecidos por pais. Por exemplo, o Cen-
termos de educação e emprego, eram benéficos
tro de Pais da Cidade do Cabo, África do Sul,
para suas famílias. Os benefícios de longo-pra-
oferece as seguintes atividades:183
zo para as crianças incluíam um melhor desen-
volvimento comportamental e desempenho es-
z Grupos para mães e bebês, para mães com
colar, taxas mais elevadas de emprego, taxas
crianças com até três anos de idade e para
mais baixas de gravidez na adolescência, me-
mães e pais solteiros;
lhores condições socioeconômicas e taxas mais
z Apoio para depressão pós-parto; baixas de comportamentos criminosos.187
O P TRIPLO: O PROGRAMA DE PATERNIDADE POSITIVA

Considerando que os fatores de risco que geram a violência familiar ocorrem em diversos níveis,
algumas das estratégias de prevenção mais eficazes envolvem intervenções em mais de um nível.
Um exemplo é o Programa de Paternidade Positiva (P Triplo), que foi originalmente concebido na
Austrália e está sendo usado atualmente no Canadá, na Alemanha, na Região Administrativa Espe-
cial de Hong Kong da China, na Nova Zelândia, em Cingapura, na Suíça, nos Estados Unidos e no
Reino Unido. O P Triplo tem-se revelado eficaz para promover comportamentos positivos nos pais e
espera-se que ele reduza a violência contra a criança. O Centro de Controle e Prevenção de Doenças
dos Estados Unidos está financiando um estudo de avaliação de resultados para analisar o impacto do
P Triplo sobre maus-tratos infantis.

O nível 1 do programa enfoca a população como um todo. Para pais selecionados, dois outros níveis
oferecem sessões de consultas em locais de assistência médica básica, como centros de saúde. Para
84 pais em dificuldade, com problemas psiquiátricos ou que estão enfrentando riscos elevados de vio-
lência na família, programas mais intensivos em paternidade são disponibilizados que envolvem de
8 a 10 sessões (nível 4) ou de 10 a 16 sessões (nível 5).

Os princípios centrais do programa do P Triplo são os seguintes:

- Proporcionar um ambiente seguro de envolvimento para crianças;


- Proporcionar um ambiente educacional para crianças que seja sensível às suas necessidades;
- Ensinar abordagens disciplinares positivas (não agressivas) e coerentes aos pais;
- Gerar expectativas razoáveis nas crianças; e
- Ensinar os pais a cuidar de si.185
3
Apoio a famílias de crianças portadoras Programas para e com crianças
de deficiência
A educação baseada em habilidades de sobre-
Poucas pesquisas foram realizadas sobre a eficá- vivência, que permite que crianças reconheçam
cia de programas concebidos para reduzir a vio- e evitem situações de risco, tem produzido re-
lência contra crianças nascidas com deficiências. sultados promissores em inúmeros contextos
No entanto, a Consulta com Especialistas em Cri- escolares e comunitários. Esse tipo de interven-
anças Portadoras de Deficiência realizada para o ção geralmente ensina crianças a reconhecer
Estudo revelou que abordagens promissoras es- formas adequadas e impróprias de ser tocada
tão sendo implementadas em diversas partes do ou tocar e a dizer "não" a um adulto quando
mundo, as quais incluem programas comunitári- não se sentem à vontade com alguma situação
os de reabilitação e estimulação em centros espe- proposta, além de ensiná-las a saber com quem
cíficos ou em visitas domiciliares. podem conversar quando sofrem violência.
Embora alguns desses programas tenham au-
A prestação de assistência temporária no lar a pais mentado os conhecimentos e habilidades de
de crianças portadoras de deficiência pode reduzir o crianças em relação a situações ameaçadoras,
estresse para a família como um todo e também ser há poucas informações disponíveis sobre ava- 85
usada como uma estratégia de prevenção da violên- liações de longo prazo dos mesmos. Esses pro-
cia. Mecanismos de apoio organizados por entida- gramas funcionam melhor quando são imple-
des religiosas, ONGs ou órgãos governamentais que mentados como elementos de uma estratégia
permitem aos pais tirar pequenas folgas da tarefa de mais abrangente e não isoladamente. (Veja o
cuidar de seus filhos podem ajudar a prevenir a vio- capítulo sobre violência contra a criança em
lência contra crianças portadoras de deficiência.188 escolas e contextos educacionais.)

TRABALHANDO COM HOMENS E MENINOS

Desde 2003, a ONG Save the Children Suécia tem envolvido homens e meninos na sua estratégia
regional na região sul e central da Ásia por acreditar que muitos deles não se sentem à vontade com
estereótipos machistas que toleram a violência contra mulheres e crianças. Ela está explorando
maneiras de trabalhar com homens e meninos como parceiros para apoiar o desenvolvimento de
conceitos alternativos na região. Workshops sobre como trabalhar com homens e meninos têm
sido realizados com vistas a envolvê-los em esforços para reduzir a violência contra meninas,
meninos, mulheres e outros homens. Insumos foram solicitados da campanha White Ribbon, a
mais antiga e duradoura iniciativa organizacional envolvendo homens concebida para rejeitar a
violência contra mulheres, que hoje conta com uma rede de 47 países em todo o mundo, entre os
quais a África do Sul, a Ásia Meridional, a Nova Zelândia, Tonga, o Brasil, a Alemanha e países
nórdicos. Workshops também foram realizados em outros países e, em Bangladesh, foi estabeleci-
da uma rede de organizações não-governamentais (ONGs) para abordar o tema. Concentrar esfor-
ços na socialização de meninos tornou-se o maior desafio atualmente.186
Estimuladas pelo movimento em prol dos di- tos são "legítimos". Muitas delas sentem ver-
reitos da criança, muitas organizações de cri- gonha ou se culpam por essas situações, enquanto
anças e adolescentes se desenvolveram e se outras mantêm silêncio por temerem que qual-
tornaram muito ativas na última década em al- quer coisa que digam pode gerar mais violência
guns países. Essas organizações permitiram ou intervenções insensíveis, que podem piorar
que muitos de seus membros ganhassem con- ainda mais sua situação de um modo geral.
fiança, expressassem seus problemas e tomas-
sem medidas solidárias para reduzir a violên- Seguindo a tendência geral de se enfatizar ain-
cia ou ameaças de violência sofridas por eles da mais consultas com crianças como um com-
próprios ou por outras crianças. Algumas or- ponente inseparável do planejamento de pro-
ganizações, como os Comitês de Aconselha- gramas e intervenções em prol delas, metodo-
mento de Meninas da Etiópia, concentram seus logias "amigas da criança" têm sido desenvol-
esforços em problemas específicos, como no vidas para consultas e pesquisas voltadas para
casamento de crianças (veja quadro abaixo). ações que, juntamente com técnicas de aconse-
Embora haja provas de que esses programas lhamento e comunicação, vêm sendo também
86 baseados nas escolas podem reduzir o risco da usadas para fazer com que as crianças se abram
vitimização sexual de crianças na comunida- com adultos com os quais se sentem seguras e
de, não se sabe ao certo se eles são eficazes relatem a eles suas experiências íntimas e dolo-
para reduzir casos de abuso sexual no ambi- rosas. Em alguns exemplos, principalmente na
ente familiar.189 Atividades que envolvem a Índia e no Brasil, crianças traficadas por suas
participação de crianças em escolas e comu- próprias famílias que mantêm poucos relacio-
nidades devem ser apoiadas, pois colegas e namentos de confiança com adultos organiza-
amigos podem desempenhar um papel impor- ram-se para se apoiar mutuamente e evitar se
tante na identificação de crianças em situação expor novamente no futuro.191
de risco e em ações proativas.
Sistemas de disque-ajuda para crianças estão
Rompendo o silêncio se tornando gradualmente mais comuns. Como
já observado acima, conversas telefônicas con-
Uma das pedras angulares de qualquer respos- fidenciais com um conselheiro permitem que
ta estratégica deve ser o imperativo de romper algumas crianças relatem o que está acontecen-
o silêncio no qual a maioria das crianças supor- do com elas e procurem ajuda. Diversas ONGs
ta episódios de violência física, psicológica ou estabeleceram mecanismos de disque-ajuda
sexual dentro do lar. Consultas e avaliações re- para ajudar crianças sair de situações de abuso.
velam repetidamente que as crianças - a des- Eles têm sido usados nas Filipinas e no Cam-
peito de seu temor e rejeição da violência a que boja por crianças envolvidas em serviços do-
são submetidas - não acreditam que existe al- mésticos fora da casa de seus pais que sofrem
gum lugar no qual possam revelar seus senti- violência.192 (Veja o capítulo sobre violência
mentos ou podem até achar que esses sentimen- contra a criança na comunidade.)
3
Política Social saúde na comunidade podem reduzir os ní-
veis da violência.
Uma política social robusta é essencial para
apoiar famílias e permitir que elas prosperem a Por exemplo, iniciativas para promover a
despeito de situações de estresse econômico, saúde ambiental que eliminam o chumbo e
social e psicológico. Melhorias nessas áreas outras toxinas ambientais das comunidades
podem eliminar alguns dos principais fatores podem reduzir a violência contra a criança
de risco de violência familiar contra a criança por reduzirem a taxa de danos cerebrais em
e, portanto, diminuir a taxa de maus-tratos in- fetos e problemas cognitivos subseqüentes,
fantis. As políticas sociais devem envolver me- como o Distúrbio de Déficit de Atenção
didas de apoio ao emprego, salário mínimo, (DDA) e a hiperatividade, diminuindo, as-
meios de vida rurais, uma reforma agrária igua- sim, o número de crianças com característi-
litária, compensações justas no caso de deslo- cas de alto risco. Da mesma maneira, limi-
camentos forçados, geração de renda para mu- tar o acesso ao álcool mediante um controle
lheres e acesso igualitário a serviços públicos mais rígido de seus pontos de venda ou au-
mentando seus preços, por exemplo, pode 87
como abastecimento d'água, estradas e passa-
gens e sistemas de transporte, drenagem e sa- ajudar a prevenir maus-tratos infantis. 193
neamento. Outras políticas sociais com efeitos Esforços semelhantes em países em desen-
positivos comprovados sobre a vida familiar volvimento poderiam reduzir a violência
incluem políticas concebidas para garantir aces- contra crianças relacionada ao consumo de
so a sistemas de proteção social como de previ- álcool, embora essas medidas devam ser con-
dência social para pessoas portadoras de defi- sideradas com cautela, pois podem levar
ciência ou que cuidam de crianças portadoras pessoas que têm o hábito de beber a consu-
de deficiência; seguro-desemprego; assistência mir bebidas mais baratas e menos reguladas
médica ou cuidados gratuitos para indigentes; produzidas em casa. 194
complementação de renda ou alimentar para
pessoas em situação de pobreza extrema. (As Embora poucas avaliações formais tenham
intervenções de política sociais serão mais de- sido feitas, outras intervenções promissoras in-
talhadamente discutidas no capítulo sobre vio- cluem a oferta de abrigos e centros para o aco-
lência contra a criança na comunidade.) lhimento de mulheres que sofreram agressão
e seus filhos, a capacitação de agentes de saú-
Outras estratégias de para identificar e trabalhar com adultos que
sofreram violência na infância e o fortaleci-
Embora o impacto direto dessas estratégias mento de vínculos entre serviços psiquiátri-
sobre a violência contra a criança não tenha cos, de tratamento de usuários de drogas e de
sido bem pesquisado, iniciativas gerais de proteção infantil.
COMITÊS DE ACONSELHAMENTO DE MENINAS: UMA ATIVIDADE
ADMINISTRADA POR CRIANÇAS EM ÁREAS RURAIS DA ETIÓPIA

As escolas primárias são o único local que reúne meninas (e meninos) em áreas rurais da Etiópia
que podem estar vulneráveis ao casamento precoce forçado. A criação dos Comitês de Aconselha-
mento de Meninas (GAC) é uma inovação das escolas primárias da Etiópia concebida para preve-
nir o casamento de crianças e outras formas de discriminação de gênero.

O Comitê de Aconselhamento de Meninas não é um clube, e sim um comitê escolar vinculado à


Associação de Pais e Mestres. Esses comitês procuram criar um ambiente mais positivo para as
crianças no lar e na escola promovendo iniciativas de conscientização e outras ações. Sua compo-
sição varia, mas eles sempre alunos de ambos os gêneros, às vezes um membro da comunidade e
uma professora como orientadora. Os alunos membros atuam como elementos de ligação entre as
famílias da comunidade e a escola e notificam casamentos infantis iminentes, seqüestros, provoca-
88 ções, assédios e ausências prolongadas de meninas da escola.

Quando o casamento iminente de uma menina nova é notificado, o GAC visita os pais para tentar
dissuadi-los da idéia. Se isso não acontece, o comitê solicita aos pais que venham até a escola. Os
professores então pedem aos pais que cancelem o casamento, explicando que ele é ilegal. Essa
abordagem normalmente funciona. Há relatos de mães que afirmaram ter ficado satisfeitas com o
fato de suas filhas não terem se casado à força, mas que jamais poderiam ter protestado contra o
casamento sem o apoio da escola.

Esse exemplo de uma atividade administrada por crianças ilustra a necessidade de se adotar uma
abordagem integrada na qual os esforços de crianças são respaldados por pessoas conceituadas,
como professores, e também pela lei.190

INTERVENÇÃO QUANDO CASOS infantil variam de país para país e costumam


DE VIOLÊNCIA TORNAM-SE incluir mecanismos de denúncia, encaminha-
CONHECIDOS mento, investigação e acompanhamento. O ideal
é que medidas legislativas sejam adotadas pa-
Quando há suspeitas de violência contra crian- ralelamente a abordagens de saúde e assistên-
ças ou quando casos efetivos de violência con- cia social. Oferecer apoio e assistência sem uma
tra elas tornam-se conhecidos, medidas devem proteção adequada pode comprometer o bem-
ser tomadas para proteger crianças em situação estar e o desenvolvimento da criança, mas en-
de risco. O teor e as bases jurídicas da proteção focar investigações e medidas de proteção sem
3
"Lembro-me dos tempos em que vivi como uma criança adotiva numa outra reserva.
Uma vez recebi uma surra de chicote... nunca entendi por que ou o que eu havia feito de errado.
O que me lembro bem é do medo e da dor que senti."
Líder de jovens. América do Norte, 2005XI

ações adequadas de acompanhamento e trata- Essas ocasiões e contatos oferecem uma oportu-
mento pode acarretar danos severos e perma- nidade para se detectar atos de violência contra
nentes para ela e sua família. crianças que seus pais e responsáveis podem ten-
tar esconder, informando que lesões ou doenças
São urgentemente necessárias pesquisas para apresentadas por crianças não foram intencio-
identificar abordagens eficazes de proteção nais. Considerando a pressão imposta a equipes
infantil orientadas para oferecer apoio, assis- de centros de saúde, elas precisam de treinamento
tência e tratamento a crianças e indicar como e devem ter suas capacidades desenvolvidas,
elas podem ser implementadas em contextos além de instalações adequadas. Uma vez que nem
carentes de recursos ou não. Embora estejam sempre é fácil identificar diretamente situações
enraizados nos direitos humanos e numa es- da violência, é essencial estabelecer diretrizes
trutura jurídica clara, os sistemas de prote- padronizadas e ferramentas que possam aju-
ção infantil implementados em nível comu- dar os profissionais em suas avaliações. Ca-
nitário devem envolver as comunidades em pacitar agentes de saúde para que possam de-
processos de consultas. Ao mesmo tempo em tectar e administrar casos de violência contra
que almejam conquistar aceitação e confian- crianças parece ser uma medida particularmen- 89
ça, os profissionais responsáveis por medi- te promissora para crianças na fase pré-ver-
das de proteção para crianças devem prestar bal, que ainda não conseguem descrever o que
contas por suas ações detalhadamente dentro aconteceu, e para todos os casos nos quais a
do sistema como um todo. detecção de agressões dependa de observações
e não de relatos de quem sofreu violência.
Detecção da violência contra a
criança na família Em muitos países em desenvolvimento, meca-
nismos baseados na comunidade estão sendo
Os danos em potencial para as crianças aumen- instituídos para monitorar a violência domésti-
tam à medida que a freqüência e severidade ca e a necessidade de proteger crianças. A mai-
da vitimização aumentam ao longo do tempo. oria ainda está em estágios experimentais e se-
É importante, portanto, identificar a violência rão necessárias avaliações estruturadas para se
o quanto antes e intervir para eliminá-la. Os chegar a conclusões claras. Nas Filipinas, por
profissionais de saúde têm um importante pa- exemplo, o UNICEF apoiou o estabelecimento
pel a desempenhar na proteção infantil por- de 6.500 conselhos barangay (de aldeias) para
que, exceto em áreas rurais muito remotas, proteger crianças. Os conselhos montam uma
bebês e crianças pequenas são levadas a cen- base de dados e um sistema de monitoramento
tros de saúde rotineiramente. Em países que de crianças, inclusive crianças em situações ris-
possuem redes de serviços sociais, elas podem co ou vítimas de exploração e violência.195 Na
também ser visitadas por assistentes sociais República Unida da Tanzânia, uma organiza-
ocasional ou regularmente. ção chamada Kivulini, cujo objetivo principal
"O abuso infantil é mais comum do que pensamos. Crianças apanham em casa e têm medo de contar isso a qualquer
pessoa. É difícil acabar com uma coisa que acontece dentro de casa, sem que ninguém veja."

Criança, 12 anos, América do Norte XII

é reduzir a violência física, emocional e se- o desenvolvimento de crianças; portanto, o


xual dentro do lar, trabalha em estreita cola- apoio psicossocial é essencial. Um cuidador que
boração com lideranças da base de governos efetivamente apóie a criança e não a maltrate é
municipais - líderes comunitários e de bair- um facilitador importante de sua recuperação.
ros. Os líderes de bairros são eleitos pelos As intervenções mais eficazes na área da saúde
membros da comunidade e têm poderes para mental baseiam-se em técnicas comportamentais
entrar na casa das pessoas.196 e cognitivas e trabalham tanto com a criança
como com a sua família. Habilidades essenciais
Tratamento para vítimas para se lidar com crianças incluem a habilidade
de violência de identificar, processar e administrar sentimen-
tos; a habilidade de administrar a ansiedade; a
Crianças que sofreram violência doméstica têm habilidade de identificar e alterar percepções
uma ampla gama de necessidades em termos imprecisas; e a habilidade de solucionar proble-
de tratamento. Agentes de saúde devem ser ca- mas. Intervenções comportamentais e cognitivas
pacitados para identificar casos de violência para traumas específicos parecem produzir re-
90 sultados particularmente eficazes no que se re-
contra a criança e seguir os procedimentos es-
tabelecidos para fins de documentação e elabo- fere a reduzir a ansiedade, a depressão, preocu-
ração/apresentação de relatórios e de tratamen- pações sexuais e sintomas de transtorno de es-
to e acompanhamento.197 Em alguns casos, pode tresse pós-traumático nas vítimas.198, 199
ser necessário coletar amostras periciais e, sem-
pre que possível, isso deve ser feito no momen- Denúncias por parte
to do exame físico de uma vítima. São necessá- de profissionais
rios profissionais qualificados para interpretar
lesões, fazer exames periciais e entrevistar as Quando profissionais como enfermeiras, médi-
crianças. As vítimas de violência sexual devem cos, assistentes sociais e professores identifi-
receber um tratamento preventivo contra infec- cam um caso suspeito de violência familiar con-
ções sexualmente transmissíveis, inclusive HIV/ tra crianças, eles podem ser legalmente obriga-
AIDS, se for o caso. Os agentes de saúde têm a dos a denunciar suas suspeitas às autoridades
obrigação de priorizar a saúde física da criança ou pode ser que se espere que eles denunciem
e encaminhá-la a serviços de apoio psicossoci- esses casos independentemente de qualquer
al, assistência social ou proteção infantil. Ca- obrigação legal. Para que sejam eficazes, as
sos de violência identificados fora do setor de estruturas de notificação devem estar sempre
saúde devem ser encaminhados a um agente de vinculadas a estruturas de proteção, apoio e tra-
saúde para serem avaliados e cuidados adequa- tamento de crianças e famílias bem desenvol-
damente. vidas também. Países que não adotaram leis para
tornar obrigatórias notificações de casos de vi-
Todas as formas de violência familiar têm um olência devem considerar a possibilidade de
impacto importante sobre a saúde emocional e reformar o sistema no sentido de permitir que
3
crianças e famílias tenham acesso a serviços coordenadas são necessárias para protegê-la. A
confidenciais de denúncia, por meio dos quais avaliação da criança e de sua família exige in-
possam ser voluntariamente apoiadas. sumos e a participação de prestadores de servi-
ço de diferentes setores que tiveram algum con-
A obrigação de denunciar pode estabelecer uma tato com a criança e/ou sua família. Para mini-
relação negativa entre famílias e as autoridades mizar o risco de que a criança se perca no ema-
responsáveis por protegê-las e pode até fazer ranhado do sistema, os diversos setores com
com que elas relutem em buscar um apoio for- alguma responsabilidade de oferecer proteção à
mal. No entanto, a relutância de profissionais e criança devem trocar informações sobre casos
do público em geral em denunciar casos de vi- individuais de violência familiar contra crianças,
olência doméstica em todo mundo sugere que, como já mencionado acima. No entanto, é ne-
se leis de denúncia obrigatória não forem apli- cessário também estabelecer claramente áreas de
cadas pelo menos a determinados grupos de responsabilidade por medidas a serem tomadas
profissionais, muitas crianças que precisam de e que existam mecanismos de responsabilização
proteção nunca serão identificadas e não terão por falhas na proteção a ser oferecida.
a proteção de que precisam. Independentemen- 91
te da abordagem escolhida, ela deve ser apre- Alguns países de renda média estão testando for-
sentada como um serviço de ajuda que pode mas inovadoras de estabelecer ambientes de pro-
colocar a vítima em contato com serviços de teção para crianças em comunidades locais. Na
saúde pública e apoio social, e não como um Sérvia, foram criadas Equipes Móveis de Exten-
mecanismo principalmente voltado para punir são para a Proteção da Criança em 2001 em qua-
os culpados da violência. Alguns especialistas tro municípios inicialmente com a cooperação
insistem que crianças e seus representantes de- de centros governamentais de assistência social
vem ter acesso a serviços que sabidamente têm e equipes itinerantes de ONGs. Em Montene-
a obrigação de denunciar e tomar medidas con- gro, Equipes Operacionais Multidisciplinares
tra a violência (geralmente serviços sociais e a foram estabelecidas em 2003 em regime piloto
polícia) e também a serviços aos quais podem com a assistência técnica do UNICEF para dis-
apresentar denúncias confidencialmente, que não ponibilizar equipes de profissionais treinados
tomarão nenhuma medida sem o consentimento para identificar casos de violência e negligência
da criança, a menos que ela esteja correndo ris- e tomar medidas coordenadas. Foram adotados
co de morte ou de sofrer lesões severas. diversos protocolos de colaboração, de comuni-
cação com os meios de comunicação de massa e
Intervenções no melhor de mecanismos para entrevistar crianças que so-
interesse da criança freram violência. O Ministério do Emprego e da
Previdência Social adotou esses protocolos des-
Uma vez identificada uma situação de possível de então e decidiu estabelecer equipes em todos
violência familiar contra uma criança, medidas os Centros de Assistência Social até 2009.201
Os órgãos de proteção infantil podem investigar É sempre importante adotar a alternativa menos
e levantar provas para apoiar relatos de suspeita prejudicial para a criança e menos invasiva para
de violência. Quando denúncias são verificadas, a família, desde que ela possa garantir a segu-
esses órgãos escolhem o curso de ação a ser to- rança da criança. Todas as decisões sobre inter-
mado. Essas decisões são frequentemente difí- venções devem considerar as preocupações e o
ceis, já que é necessário garantir um equilíbrio desejo das crianças e levar em consideração seu
adequado entre diversas demandas potencialmen- estágio de desenvolvimento, sua saúde emocio-
te conflitantes -como a necessidade de proteger nal e seus laços com outros membros da família,
a criança e o desejo de manter a família unida. que podem ser saudáveis ou não.

UMA ABORDAGEM MULTISSETORIAL PARA UMA PRESTAÇÃO


ABRANGENTE DE SERVIÇOS: A UNIDADE DE PROTEÇÃO INFANTIL DO
HOSPITAL GERAL DAS FILIPINAS
92 A Unidade de Proteção Infantil do Hospital Geral das Filipinas adota uma abordagem multis-
setorial de serviços médicos e psicossociais abrangentes para crianças e famílias que sofre-
ram maus-tratos. O objetivo é prevenir maus-tratos no futuro e dar início a um processo de
cura. Em 2005, essa unidade cuidou de 927 novos casos de maus-tratos infantis, 81% dos
quais envolveram abuso sexual.

Desde o primeiro ponto de contato até a conclusão de um longo processo de acompanha-


mento, a unidade oferece um tratamento de qualidade adotando uma abordagem multisseto-
rial que coordena ações dos setores de saúde, jurídico e social por meio do seu sistema de
gerenciamento de casos. A unidade presta serviços jurídicos, policiais e médicos, oferece
audiências judiciais, orientação e apoio à criança e parentes e aplica terapias ou os encami-
nha a outros serviços médicos especializados quando necessário. Ela também oferece ou-
tros serviços sociais para famílias de baixa renda, como bolsas de estudo e empréstimos
sem juros para ajudar no seu sustento. Aulas sobre como criar uma criança ajudam os pais
a administrar as expectativas de seus filhos, a compreender melhor seu comportamento e a
adotar melhores métodos disciplinares.

Cada criança tem um gerente de caso para coordenar todos os serviços prestados a ela e à sua
família e para facilitar e monitorar seu encaminhamento seguro, sua assistência jurídica e seus
cuidados psiquiátricos. Esses gerentes de caso trabalham com as crianças e suas famílias pelo
tempo que for necessário.200
3
"Chegou a hora de irmos além das análises qualitativa da violência contra a criança. No Sudeste da
Ásia, pesquisas populacionais são urgentemente necessárias para identificarmos a verdadeira
escala da violência contra a criança. Precisamos investir em melhores pesquisas e coletas
sistemáticas de dados sobre esse problema."
Dr. Samlee Plianbangchang, Diretor Regional da OMS para o Sudeste da Ásia

Quando cuidados alternativos z Soluções permanentes sustentáveis devem ter


são necessários precedência em relação a soluções provisóri-
as, desde que satisfaçam os interesses superio-
Retirar uma criança de sua família deve ser a res da criança e sejam avaliadas regularmente;
última opção quando uma intervenção é neces- z Soluções nacionais são geralmente preferí-
sária. O ideal é que serviços de apoio sejam dis- veis em relação às que envolvem outros paí-
ponibilizados a pais que não estão conseguin- ses (por exemplo, adoções internacionais).
do cumprir suas responsabilidades na criação
de seus filhos. Alternativas de longo prazo (ou Todas as formas de cuidados alternativos podem
seja, encaminhamento temporário a um outro envolver riscos, entre os quais o risco de mais
lar ou adoção) só devem ser consideradas quan- violência, exploração e outros tipos de violação
do há indícios de que a criança está correndo dos direitos da criança. Portanto, os Estados de-
grandes riscos imediatos ou quando se avalia vem registrar e regulamentar todas as formas de
que o pai ou mãe não estão respondendo a ou- cuidados alternativos e monitorar continuamen-
tras intervenções ou não parecem ser capazes te a situação da criança fora do seu lar e seu tra- 93
de mudar dentro de um prazo adequado para o tamento, com plena participação dela. (Veja tam-
desenvolvimento da criança. bém o capítulo sobre violência contra a criança
em sistemas assistenciais e correcionais.)
Uma criança separada do ambiente familiar para
garantir seu bem-estar tem direito a proteção e
assistência; além disso, os Estados têm a obri- ADVOCACY E EDUCAÇÃO
gação de oferecer cuidados alternativos para PÚBLICA
crianças nessas circunstâncias, levando na de-
vida consideração a continuidade de sua cria- A violência contra a criança no lar e na família
ção e suas origens étnicas, religiosas, culturais recebe pouca atenção dos meios de comunica-
e lingüísticas (artigo 20 da CDC). Cuidados al- ção de massa e de pesquisas em todo mundo
ternativos podem ser disponibilizados formal- em comparação com outras questões, como as
mente -encaminhando a criança para lares de da exploração sexual de crianças para fins co-
outras famílias temporariamente (cuidados ka- merciais ou do trabalho infantil. Os meios de
falah, segundo a lei islâmica) ou permanentes - comunicação de massa desempenham um pa-
e informalmente, encaminhando-a para lares de pel crucial na formação de opiniões e em in-
outros parentes. Três princípios devem orien- fluenciar regras sociais que também afetam
tar decisões sobre cuidados alternativos a se- comportamentos. A violência contra a criança
rem oferecidos a uma criança:202 no lar e na família deve publicamente divulga-
da em todas as regiões. É importante criar es-
z Soluções baseadas na família geralmente são paços para discutir essa questão e identificar
preferíveis em relação às institucionais; soluções para ela. Sem uma conscientização
adequada do problema, será difícil garantir z Os direitos das crianças, inclusive o direito a
medidas de prevenção em larga escala e dura- proteção contra todas as formas de violência;
douras, bem como mudanças comportamentais. z As conseqüências prejudiciais de castigos cor-
porais e de outras formas de punição cruéis ou
Um desdobramento importante observado recen- degradantes e a necessidade de os pais desen-
temente, incentivado pelo processo do Estudo, volverem relacionamentos positivos e não vio-
foi o envolvimento de crianças em pesquisas e lentos com seus filhos na maneira de criá-los;
em ações de advocacy baseadas nessas pesqui-
sas. Nas Consultas Regionais, crianças enfatiza- z Romper a cultura de silêncio que caracteriza
ram que normalmente não tinham oportunida- a violência sexual na família;
des para expressar seus pontos de vista e senti- z Eliminar estigmas tradicionais e crenças pre-
mentos em relação à violência que sofriam em judiciais de que é impossível reduzir a vul-
suas casas. Em todas as regiões, ONGs estão nerabilidade de crianças portadoras de defi-
começado a desenvolver pesquisas participati- ciência à violência;
vas sobre a violência contra a criança no lar nas z Práticas tradicionais prejudiciais;
94 quais meninos e meninas são envolvidos não
apenas como entrevistados, mas também como z O papel de homens e meninos na prevenção
co-pesquisadores. Além da oportunidade que da violência;
oferecem para que crianças falem sobre o com- z Os efeitos do HIV em termos da estigmati-
portamento punitivo de seus pais e de outros zação de crianças e de sua maior vulnerabi-
cuidadores, esses exercícios rompem o silêncio lidade à violência.
que caracteriza a violência familiar e contribu-
em para promover uma maior compreensão da Crianças e adolescentes têm um importante
natureza e dimensões do abuso infantil e de seus papel a desempenhar em ações de advocacy
efeitos. Essas atividades são extremamente im- relacionadas a questões que lhes dizem respei-
portantes para que se crie uma base para campa- to. (Veja o capítulo sobre a violência contra a
nhas de conscientização e workshops.203, 204 criança na comunidade.)

Em todas as Consultas Regionais, adultos e crian- Eliminação de práticas tradicionais


ças mencionaram a urgente necessidade de serem prejudiciais
adotadas estratégias de advocacy para mudar re-
gras culturais e pôr fim à violência contra a crian- Esforços para eliminar práticas tradicionais pre-
ça. Os documentos que apontaram os resultados judiciais têm ilustrado a importância de inter-
das consultas e dos grupos de trabalho temáticos venções em múltiplos níveis - será difícil para
enfatizaram que as ações de advocacy devem ser pais e famílias mudarem de comportamento sem
dirigidas a formuladores de políticas, pais e crian- mudanças nas regras e comportamentos da co-
ças e que enfocar os temas listados abaixo ajudaria munidade maior. Para eliminar a prática da
a prevenir a violência familiar contra a criança: mutilação genital feminina, é necessário proi-
3
"Nas consultas realizadas em todas as regiões do mundo, parecia que todos estavam apenas
esperando por algum tipo de permissão para falar sobre o tema - esperando que a violência contra a
criança deixasse de ser um segredo."
Karin Landgren, Chefe da Seção de Proteção Infantil do UNICEF

bi-la e educar e conscientizar famílias e comu- adotadas.206 Por exemplo, uma campanha con-
nidades, além de mobilizá-las para esse fim tra o casamento infantil foi lançada recentemen-
(veja quadro). Promover mudanças nos conhe- te por organizações da sociedade civil no Iê-
cimentos, crenças, atitudes e práticas das co- men com base nos resultados de pesquisas rea-
munidades é essencial.205 É necessário, também, lizadas pela Universidade de Sana'a.207
promover ações de advocacy com a participa-
ção de líderes religiosos e comunitários, pro- Muitas outras práticas que expõem crianças à
fissionais da saúde e muitos outros atores. violência e as prejudicam devem ser divulga-
Persuadir apenas pais ou mães individualmen- das e ser objetos de campanhas como parte dos
te não é suficiente. Em locais onde meninas esforços para preveni-las. Essas práticas inclu-
precisam ser submetidas à mutilação genital em a venda de crianças para fins de exploração
feminina para serem aceitas socialmente e po- sexual ou outros tipos de atividades; a estigma-
derem se casar, é pouco provável que suas mães, tização de crianças portadoras de deficiência;
individualmente, se recusem a submetê-las a crianças sem famílias ou que ficaram órfãs em
esse procedimento, por mais doloroso que ele decorrência do HIV/AIDS; crianças vítimas de
tenha sido para elas próprias. A decisão de eli- abuso sexual; e crianças acusadas de práticas 95
minar essas práticas deve ser tomada pela co- de feitiçaria ou que foram forçadas pelos pais a
munidade como um todo e ela precisa saber que assumir uma vida dedicada à religião.
outras comunidades também estão abrindo mão
do costume (veja quadro abaixo).
A NECESSIDADE DE MELHORAR
O casamento infantil exige esforços semelhan- A QUALIDADE DAS INFORMAÇÕES
tes para mudar regras sociais e culturais. Até o PARA DESENVOLVER
presente momento, poucas iniciativas de advo- POLÍTICAS E AÇÕES
cacy foram tomadas para influenciar e reduzir
diretamente casamentos de crianças. A tendên- Dados confiáveis e precisos sobre a magnitude e
cia tem sido a de se considerar que o costume as conseqüências da violência familiar contra a
pode ser combatido mais eficazmente matricu- criança são essenciais para o desenvolvimento
lando-se mais meninas na escola e adotando-se de ações de advocacy e políticas, para a aloca-
leis para regulamentar o casamento. No entan- ção de recursos e para a implementação de pro-
to, a maior atenção que vem sendo dada aos gramas baseados em evidências concretas. A falta
direitos das meninas e mulheres no casamento de dados foi um obstáculo percebido ao longo
tem apontado para novas direções. Alguns pro- de todo o Estudo, particularmente de dados rela-
gramas especificamente desenvolvidos para re- cionados ao contexto familiar e doméstico, em
duzir a taxa de casamentos de crianças estão função, principalmente, da relutância em denun-
sendo implementados atualmente e ações de ciar mencionada acima, mas também da falta de
advocacy contra essa prática começaram a ser investimentos em pesquisas científicas sobre o
A ABORDAGEM DE TOSTAN

Em novembro de 2005, representantes de 70 vilarejos da região de Matam, situada no nordes-


te do Senegal, assinaram uma declaração pública informando que estavam acabando com a
prática da mutilação genital feminina e do casamento infantil forçado. Matam é uma região
muito conservadora, na qual assuntos dessa natureza nunca poderiam ter sido sequer discuti-
dos alguns anos antes. Milhares de habitantes de vilarejos situados a até 300 km de distância
fizeram questão de estar presentes na cerimônia. Dignitários, autoridades e representantes de
meios de comunicação de massa também participaram dela. Mulheres, adolescentes, chefes
de tribos e líderes religiosos de áreas rurais e autoridades governamentais se comprometeram
a cumprir o compromisso. Essa declaração, que foi a décima nona desse tipo no Senegal, foi
o estágio final de um programa de educação pública e de ações de advocacy nos vilarejos.

Esse programa foi implementado no âmbito do Programa de Empoderamento Comunitário de


96 Tostan, impulsionado por um clamor coletivo pelo abandono dessa prática de mutilação e do
casamento precoce no país. Desde 1997, 1628 comunidades se comprometeram a abandonar
essas práticas. A estratégia Tostan consiste em estabelecer comitês comunitários, organizar
aulas sobre a saúde da mulher e seus direitos em vilarejos e em ações de mobilização social
promovidas pelas mulheres que recebem essas aulas. No final do programa, é feita uma decla-
ração pública em uma cerimônia de grande porte, que é vista como um elemento crucial do
processo por caracterizar claramente o endosso social coletivo da mudança.

Uma avaliação realizada pelo Conselho de População em 2004 revelou que o programa Tos-
tan havia afetado significativamente os conhecimentos e crenças das pessoas que freqüenta-
ram as aulas e das que tiveram contato com o programa de alguma maneira. Por exemplo, a
proporção de meninas com até 10 anos de idade que não sofreram mutilação genital aumentou
de 46% para 60% entre as famílias que participaram de suas intervenções, enquanto esse
percentual continuou inalterado em 48% no grupo de comparação. A aprovação da mutilação
genital feminina e a intenção de aplicá-la a meninas caíram significativamente e a intenção de
aplicá-la entre as mulheres que participaram do estudo caiu de quase 75% no marco zero para
menos de 25%. Uma outra conclusão encorajadora foi que o conhecimento dos direitos huma-
nos aumentou muito entre os participantes do estudo. A proporção de mulheres que tinham
consciência de seus direitos à saúde, à educação e a um ambiente saudável aumentou de 11%
para 94% e a proporção de homens de 41% para 92%.208
3
tema. Por um lado, nenhum sistema eficaz de compreender plenamente os padrões da violên-
combate à violência pode ser desenvolvido sem cia familiar contra crianças, são necessários
dados adequados e, por outro, a urgência do pro- estudos que abordem um subconjunto signifi-
blema não permite que esperemos até que sejam cativo da população geral e que sejam repeti-
implementados sistemas que possibilitem uma dos ao longo do tempo.
coleta sistemática de dados em países carentes
de recursos para que respostas programáticas Estudos baseados em entrevistas confidenciais
adequadas para crianças expostas a situações de com crianças, pais e outros cuidadores também
violência possam ser desenvolvidas. podem nos ajudar a compreender todas as for-
mas de violência no lar e na família. Obviamen-
A coleta e análise permanentes de dados relaciona- te, devem ser adotadas salvaguardas éticas para
dos a casos oficialmente registrados podem ser úteis garantir a proteção necessária às crianças envol-
para a identificação de tendências na utilização de vidas. Estudos retrospectivos e entrevistas com
serviços e, em alguns casos, da prevalência do pro- adultos jovens sobres suas experiências infantis
blema. No entanto, como esses sistemas dependem também são iniciativas úteis, mas elas não reve-
exclusivamente de casos notificados a autoridades lam nada sobre o que está acontecendo com as 97
e considerando que na maioria dos casos crianças crianças hoje e podem distorcer a compreensão
sofrem violência na família sem contar para nin- de experiências na primeira infância, quando al-
guém, os sistemas de vigilância baseados em re- gumas formas de violência são mais comuns.
gistros oficiais sempre tendem a subestimar a es-
cala do problema. A vigilância de casos oficial- Ações de advocacy constituem um dos objeti-
mente notificados deve ser complementada por vos mais importantes das coletas de dados, prin-
pesquisas junto à população que possam docu- cipalmente em países e regiões nos quais a vio-
mentar a exposição à violência na infância e suas lência doméstica e familiar é negada ou não é
conseqüências permanentes. Da mesma maneira, discutida publicamente. Os formuladores de
só conseguiremos realmente compreender a vio- políticas devem ser convencidos de que a vio-
lência fatal contra crianças se sistemas abrangen- lência contra a criança é mais freqüente do que
tes de registro de óbitos, investigação e denúncias pensam ou admitem e que são necessárias me-
estiverem disponíveis (veja quadro). didas urgentes para combatê-la. Contar com os
esforços de ONGs e de outros organismos in-
Pequenos estudos qualitativos e estudos basea- ternacionais que apóiam a coleta de informa-
dos em amostragens de conveniência - de famí- ções e a publicação de análises sobre crianças
lias encaminhadas para serviços de assistência expostas a situações de violência geralmente
social, por exemplo - são importantes para do- constitui o primeiro passo no sentido de permi-
cumentar o problema da violência contra a cri- tir que uma questão cultural e politicamente
ança e desenvolver mecanismos adequados para sensível seja revelada, discutida localmente com
administrá-lo. No entanto, para começarmos a o efetivo envolvimento de todos e combatida.
EQUIPES DE AVALIAÇÃO DE ÓBITOS INFANTIS
(Child Fatality Review Teams - CFRT)

A maioria das crianças que falecem devido a atos de violência crianças pequenas. Aproxima-
damente 40% delas são bebês e 80% têm menos de seis anos de idade. A causa mais comum
de óbitos infantis é o traumatismo craniano, seguido de contusão ou traumatismo contuso. Em
alguns casos, é difícil identificar a causa da morte de uma criança quando alguém simples-
mente afirma que ela "caiu".

A primeira Equipe de Avaliação de Óbitos Infantis foi estabelecida em Los Angeles, em 1978,
sob o patrocínio do Conselho Interagências do Condado de Los Angeles contra o Abuso e a
Negligência Infantil (ICAN), e era composta pelo legista do condado, por representantes da
polícia, de serviços sociais e do sistema judiciário e por profissionais de saúde e agentes de
saúde pública. Posteriormente, o ICAN passou a ser chamado Centro Nacional de Avaliação de
98 Óbitos (NCFR) e outras equipes foram formadas, algumas das quais incluíram professores,
profissionais da área da saúde mental e, ocasionalmente, membros da comunidade. Essas equi-
pes se reúnem para discutir casos de óbitos de crianças pequenas quando exames médicos são
inconclusivos e diferentes provas precisam ser reunidas para esclarecer os casos em questão.

Em 2001, aproximadamente 1000 equipes haviam sido estabelecidas na Austrália, Canadá,


Nova Zelândia e Estados Unidos. As Filipinas adotaram recentemente um modelo baseado
em hospitais que talvez seja mais indicado para países em desenvolvimento. Uma rede inter-
nacional de trabalho começou a desenvolver contatos entre o ICAN e programas introdutórios
na China, Estônia, Islândia, República Islâmica do Irã, Japão, Jordânia, Líbano, Países Bai-
xos e Reino Unido.209
3
MELHORIA DA BASE DE CONHECIMENTOS DA ÍNDIA - O ESTUDO
NACIONAL SOBRE ABUSO INFANTIL

A Índia adotou uma abordagem proativa em relação à questão da proteção infantil. Lançado
pelo Departamento das Mulheres e do Desenvolvimento Infantil em 2005, o Estudo Nacional
sobre Abuso Infantil envolveu uma enorme rede em todo o país. Uma das primeiras atividades
importantes nesse contexto foi a realização de uma Consulta Nacional sobre Abuso Infantil
em Nova Delhi em abril de 2005 para discutir diversas questões relacionadas à formulação de
projetos e para definir o conceito de abuso infantil e metodologias a serem usadas nos proje-
tos, desenvolver instrumentos de coleta de dados e identificar diversas categorias de pessoas
a serem entrevistadas. Essa Consulta reuniu especialistas de todas as partes da Índia e de
diversas áreas para trocar idéias sobre o tema do abuso infantil, entre os quais acadêmicos,
assistentes sociais, ativistas, representantes de ONGs, professores, pesquisadores, policiais,
representantes do sistema judiciário e de agências financiadoras como o UNICEF e de organi-
zações como a Save the Children, a USAID (Agência Americana para o Desenvolvimento 99
Internacional), a Plan International, a Catholic Relief Services e a SARI Equity e de outras
organizações.

O tamanho de amostra selecionado, de 17.500 indivíduos, incluiu crianças (n = 12500), adul-


tos jovens (n = 2500) e outras partes interessadas (n = 2500). A amostra incluiu crianças de
rua e crianças trabalhadoras, estudantes, crianças institucionalizadas e crianças de grupos
familiares que não estavam freqüentando a escola. A metodologia adotada incluiu discussões
com grupos focais envolvendo crianças em workshops desenhados para crianças, por meio
dos quais foram levantadas informações para a definição de indicadores para diversas formas
de abuso, levando em consideração aspectos de confidencialidade e éticos.

Desde seus estágios iniciais, o projeto proporcionou oportunidades valiosas para ações de
advocacy e de conscientização, o que foi extremamente útil em um país no qual sabe-se que o
abuso infantil existe, mas pouco se fala sobre o fenômeno. A participação de tantos especia-
listas teve um efeito multiplicador que promoveu uma conscientização do problema na popu-
lação e gerou discussões mais abertas sobre uma questão anteriormente menosprezada. Uma
análise dos resultados do projeto deve estar disponível no final de 2006.210
RECOMENDAÇÕES em evidências para facilitar a prestação de
serviços eficazes e sensíveis a todas as cri-
As recomendações apresentadas a seguir basei- anças em todas as partes do país.
am-se nas obrigações dos governos na área dos
direitos humanos previstas na CDC e em outros No nível da sociedade
instrumentos e também em evidências levantadas
em pesquisas e na observação de práticas existen- 2. O impacto de políticas públicas sobre as
tes. Elas reconhecem que embora as famílias se- crianças e suas famílias deve ser avaliado.
jam as principais responsáveis pela criação das Os governos devem avaliar impactos sociais,
crianças, os governos devem tomar todas as me- enfocando, principalmente, os impactos em
didas necessárias para garantir que, em todos os potencial de políticas públicas sobre a vio-
lugares, inclusive em seus lares, as crianças se- lência contra a criança - especialmente sobre
jam protegidas contra ações que constituam vio- a discriminação, o estresse social e econômi-
lência contra elas e para combater a violência onde co e outros fatores de risco relevantes para a
ela ocorra. Além disso, os Governos devem apoi- violência familiar contra crianças. Os resul-
100 tados dessas avaliações devem ser usados para
ar e assistir os pais adequadamente.
priorizar redes de segurança econômicas e
A prevenção deve ter prioridade sociais que beneficiem famílias diretamente.

1. Sistemas abrangentes de prevenção da vi- 3. As redes de segurança econômicas e soci-


olência e proteção de crianças devem ser ais para famílias devem ser ampliadas.
implementados na escala necessária e de Essas redes devem incluir centros de apoio
maneiras que respeitem a criança e sua que possam assistir famílias em diversas si-
família como um todo, bem como sua dig- tuações, inclusive em situações emergenci-
nidade e privacidade e as necessidades de ais. Elas devem também ajudar a desenvol-
desenvolvimento de meninas e meninos. ver redes de apoio mediante a disponibiliza-
Os governos devem tomar as medidas ne- ção de instalações de assistência a crianças
cessárias para que os sistemas de resposta à de qualidade e programas de enriquecimento
violência sejam coordenados de modo a pre- da pré-escola. Programas de assistência tem-
venir a violência e garantir intervenções pre- porária no lar também devem ser disponibili-
coces. Esses sistemas devem também estar zados a famílias que estiverem enfrentando
vinculados a serviços integrados em diver- situações particularmente difíceis. É impor-
sos setores - nos setores jurídico, educacio- tante, também, levar em consideração fato-
nal, judicial, social, de saúde, do emprego e res subjacentes como educação, moradia, em-
outros. As opiniões das crianças em relação prego, políticas sociais e oportunidades.
a todas as questões e decisões que as afetam
devem ser respeitadas. Os governos têm a 4. Programas de advocacy baseados em evi-
obrigação de desenvolver normas baseadas dências devem ser implementados para
3
prevenir a violência. No nível da socieda- legal deve ser implementada juntamente com
de e da comunidade, os governos devem ações de advocacy e de conscientização con-
apoiar estratégias concebidas para consci- cebidas para promover relações positivas e
entizar a população a respeito dos direitos não violentas com crianças.
das crianças e promover mudanças em re-
gras sociais e culturais, a equidade/igualda- 6. As varas de família e outras instâncias do
de de gênero e a não discriminação. Esses sistema judicial devem ser sensíveis às ne-
programas devem enfocar funcionários pú- cessidades das crianças e de suas famílias.
blicos, inclusive policiais e pessoal do sis- Os governos devem tomar as medidas ne-
tema judiciário, educadores, agentes de saú- cessárias para garantir que crianças vítimas
de e pessoal do setor privado, bem como pais de violência familiar não sejam vitimizadas
e o público geral. Os governos têm a obriga- novamente no decorrer de processos judici-
ção de iniciar e apoiar campanhas de consci- ais ou submetidas a processos excessivamen-
entização que promovam relacionamentos te longos. Crianças que sofreram violência
não violentos e uma melhor comunicação com devem ser tratadas com carinho e sensibili-
crianças, bem como um envolvimento posi- dade em processos judiciais, no decorrer dos 101
tivo de homens e meninos na vida familiar. quais sua situação pessoal e necessidades
imediatas, idade, gênero, deficiência e nível
Medidas legais de maturidade devem ser levados em consi-
deração e sua integridade física, mental e
5. Uma estrutura explicita de leis e políticas moral plenamente respeitada.
na qual todas as formas de violência con-
tra a criança dentro da família sejam proi- Particularmente, os governos devem tomar
bidas e rejeitadas deve ser desenvolvida. as medidas necessárias para garantir que as
Os governos têm obrigação de proibir e eli- investigações, a aplicação da lei e proces-
minar todas as formas de violência contra a sos judiciais considerem as necessidades es-
criança no lar e em outros ambientes. Isso peciais da criança à luz das Diretrizes sobre
inclui todas as práticas tradicionais prejudi- Justiça para Crianças Vítimas e Testemunhas
ciais, a violência sexual e os castigos corpo- de Crimes (Resolução 2005/20 do ECO-
rais, em conformidade com o disposto na SOC). Para esse fim, a criança deve ser
CDC e em outros instrumentos de direitos acompanhada por um adulto no qual confia
humanos (veja o Comentário Geral do Co- durante todo o seu envolvimento em um pro-
mitê sobre castigos corporais, no. 8, de ju- cesso judicial, se esse procedimento satisfi-
nho de 2006). Orientações claras e capaci- zer seus interesses superiores; sua identida-
tações devem garantir que as leis sejam apli- de e privacidade devem ser preservadas; o
cadas com sensibilidade em relação aos in- imperativo da confidencialidade deve ser
teresses superiores da criança. A reforma respeitado; e a criança não deve ser subme-
tida a um número excessivo de entrevistas, vernos devem tomar as medidas necessárias
depoimentos, audiências e contatos desne- para garantir que esses programas incluam
cessários com o processo judicial. informações sobre a importância dos laços
afetivos e do desenvolvimento físico, emo-
Deve-se considerar a possibilidade de usar cional e cognitivo de bebês e crianças pe-
vídeos previamente gravados ou outros recur- quenas e devem também levar em conside-
sos para a tomada de depoimentos, como te- ração fatores culturais.
lões ou circuitos fechados de televisão, bem
como de se eliminar outros contatos desne- 8. Programas culturalmente adequados e sen-
cessários com o suposto agressor ou com seus síveis a questões de gênero concebidos para
advogados de defesa. Particularmente, se ensinar pais e mães a criar seus filhos e pro-
compatível com o sistema de justiça e com o gramas que apóiem famílias no sentido de
devido respeito ao direito de defesa do réu, garantir um ambiente sem violência no lar
os profissionais devem tomar as medidas ne- devem ser implementados. Os governos de-
cessárias para que a criança vítima de violên- vem garantir que componentes importantes
102 cia não seja submetida a acareações desne- sejam incluídos nesses programas, como me-
cessários, para que o público e os meios de didas para enfatizar a importância de laços afe-
comunicação de massa sejam retirados do tri- tivos entre pais e filhos; promover uma maior
bunal durante depoimentos da criança, e para compreensão do desenvolvimento físico, psi-
que guardiões ad litem estejam disponíveis cológico, sexual e cognitivo de bebês, crian-
para proteger os interesses legais da criança. ças pequenas e jovens no contexto de fatores
Julgamentos rápidos devem também ser ga- sociais e culturais; desenvolver a capacidade
rantidos, a menos que julgamentos mais de- de pais e mães de criar seus filhos adequada-
talhados e, portanto, demorados atendam os mente, promovendo também relações e méto-
interesses superiores da criança. dos disciplinares não violentas e a capacidade
de solucionar problemas e administrar confli-
Respostas coordenadas fortalecidas tos familiares; abordar estereótipos de gênero
e enfatizar o envolvimento de homens e meni-
7. Mecanismos de assistência pré-natal e nos na vida familiar. Os governos devem de-
pós-natal e programas de visitas domici- senvolver esses programas em conformidade
liares devem ser disponibilizados para oti- com as normas de direitos humanos e com base
mizar o desenvolvimento da criança na em evidências científica de sua eficácia.
primeira infância. O objetivo dessas me-
didas seria o de aproveitar os pontos fortes 9. Crianças particularmente vulneráveis de-
da família e da comunidade para promover vem ser protegidas e questões de gênero
o desenvolvimento saudável da criança, per- abordadas. Os governos devem tomar as
mitir uma identificação precoce da violên- medidas necessárias para garantir que todas
cia e apoiar famílias com problemas. Os go- as iniciativas relacionadas a pesquisas, ações
3
preventivas e respostas para famílias enfo- Desenvolvimento de sistemas de informação
quem a situação e os riscos enfrentados por
crianças particularmente vulneráveis a atos 11. Sistemas de registro civil universalmen-
de violência, como, por exemplo, crianças te acessíveis, inclusive sistemas de regis-
portadoras de deficiência, refugiadas e ou- tro de nascimentos, óbitos e casamen-
tras crianças deslocadas, de grupos minori- tos, devem ser implementados. Os gover-
tários, sem assistência paterna ou materna e nos devem disponibilizar um sistema de
afetadas pelo HIV/AIDS. É necessário em- registro civil gratuito e acessível a todos e
preender esforços adicionais para compre- eliminar quaisquer multas impostas por
ender e combater diferentes riscos porven- registros tardios. O processo deve ser am-
tura enfrentados por meninas e meninos e plamente defendido e promovido, bem
prestar atenção nos conceitos de masculini- como facilitado e implementado em coo-
dade e estereótipos de gênero envolvidos na peração com governos locais, hospitais,
violência contra meninas e meninos. parteiras profissionais e tradicionais, de-
partamentos de polícia, líderes religiosos
Desenvolvimento de capacidades e comunitários e outros parceiros, de modo 103
a garantir uma adesão universal.
10. As capacidades de pessoas que trabalham
com crianças e suas famílias devem ser 12. Uma agenda nacional de pesquisas sobre
desenvolvidas. Os governos devem garan- a violência familiar contra crianças deve
tir que os profissionais e leigos que traba- ser desenvolvida. Os governos devem es-
lham com e para crianças recebam um trei- tabelecer um conjunto de prioridades naci-
namento adequado e tenham suas capaci- onais para pesquisas que possam suplemen-
dades permanentemente desenvolvidas me- tar sistemas de informação com dados quan-
diante a disponibilização de informações bá- titativos e qualitativos detalhados. Orienta-
sicas sobre os direitos das crianças e a le- dos por indicadores e normas internacio-
gislação, a violência contra a criança e sua nais, os governos e seus parceiros devem
prevenção, identificação precoce e comba- fortalecer os sistemas de informação por
te e a gestão não violenta de conflitos. Além meio de uma vigilância mais meticulosa de
disso, essas pessoas devem ter uma com- denúncias de violência familiar contra cri-
preensão clara do desenvolvimento físico, anças e também de pesquisas junto à popu-
sexual, emocional e cognitivo de crianças e lação que incluam estimativas da prevalên-
jovens e dos vínculos entre o gênero e a vi- cia da vitimização infantil. Fatores de risco
olência. Devem ser desenvolvidas também e de proteção relacionados à violência tam-
habilidades específicas para a comunicação bém poderiam ser avaliados por meio de
com crianças e para envolvê-las em deci- estudos retrospectivos da infância e de en-
sões que as afetem. trevistas com adultos jovens.
Os dados devem ser desagregados para dar vi- REFERÊNCIAS
sibilidade à escala e amplitude das experiênci-
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principalmente com crianças de grupos vulne- Comparative Analysis. Calvertion, ORC Macro.
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V Aliança Internacional Save the Children (2005). Voices


of Girls and Boys to end Violence against Children in
South and Central Asia. Em preparação para o Estudo
do Secretário-Geral das Nações Unidas sobre Violência
contra Crianças. Katmandu, Programa Regional da
A VIOLÊNCIA CONTRA A CRIANÇA
4
NAS ESCOLAS E EM AMBIENTES EDUCACIONAIS

Introdução 119
Instrumentos de direitos humanos 121
Histórico e contexto 123
Natureza e escala do problema 124
Formas de violência na escola 124
Castigos físicos e psicológicos 124 117
Vínculos com a discriminação e a violência baseadas no gênero 126
Violência sexual e baseada no gênero 127
O HIV e a violência sexual 128
Intimidação ostensiva (bullying) 129
Brigas, agressões físicas e gangues 132
Homicídios e lesões graves 135
Armas nas escolas 135
Impactos da violência na escola 137
Impactos sobre a saúde 137
Impactos sociais 138
Impactos educacionais 139
Fatores que contribuem para a violência 140
Fatores de risco 140
A Resiliência e outros fatores de proteção 141
Respostas sistemáticas a padrões de violência 142
Crianças vulneráveis à violência 143
A situação especial das meninas 145
Respostas à violência contra a criança em escolas e em
ambientes educacionais 146
A legislação e sua aplicação 149
Políticas e programas escolares baseados em direitos 151
Desenvolvimento de lideranças e políticas 152
118 Apoio ao pessoal de escolas 153
A participação de crianças 155
Trabalhando com pais e comunidades 156
Disciplina infantil construtiva 156
Bullying: prevenção e intervenção 157
Violência sexual e de gênero: prevenção e intervenção 159
Currículo: O que deve ser ensinado e como 160
Criação de espaços físicos seguros e acolhedores 162
Pesquisas e avaliações 163
Recomendações 164
Referências 168
4
"Para evitar a violência, precisamos ser ouvidos, precisamos de oportunidades econômicas,
trabalho e educação. Precisamos ter uma chance de melhorar nossa qualidade de vida e o direito de
viver num ambiente sem violência."
Adolescentes, América Latina I

INTRODUÇÃO lidades de ir e vir da escola, de aprender efeti-


vamente quando estão na escola e de permane-
As crianças passam mais tempo sob os cuidados cer na escola durante um tempo suficiente para
de adultos em pré-escolas, escolas, centros de colher os benefícios da educação.1, 2, 3
educação profissionalizante e em outros locais
de aprendizagem do que em qualquer outro lu- A imagem pública da violência nas escolas
gar fora de casa. Como seus pais, os adultos que tem sido acentuada pelo enfoque dos meios
supervisam, administram e trabalham nesses lo- de comunicação de massa em eventos extre-
cais têm a obrigação de garantir um ambiente mos, como massacres com armas de fogo,
seguro e estimulante, que apóie e promova a edu- ataques e seqüestros em massa nesses ambi-
cação e o desenvolvimento da criança. Eles tam- entes. No entanto, esses acontecimentos são
bém têm o dever de garantir que esse desenvol- raros. Há formas mais comuns de violência
vimento prepare as crianças para a vida como que não são divulgadas e podem ser tão tole-
adultos responsáveis e orientados por valores de radas e até aceitas pelo público, por políticas
não violência, de igualdade de gênero, não dis- oficiais e pela legislação que não são consi-
criminação, tolerância e respeito mútuo. Esses deradas suficientemente importantes para ser 119
são os valores que os governos abraçam quando estudadas, discutidas ou debatidas.
ratificam a Convenção sobre os Direitos da Cri-
ança (CDC) e outras convenções de direitos hu- Quando o ambiente social e físico da comuni-
manos internacionais, além de obrigações de pro- dade é hostil, é improvável que o ambiente edu-
teger a criança contra todas as formas de violên- cacional seja poupado. Os níveis e padrões da
cia em escolas ou em qualquer outro lugar, in- violência observada nas escolas geralmente re-
clusive mediante o estabelecimento de uma es- fletem os níveis e padrões de violência nos pa-
trutura jurídica que proíba e coíba todas as for- íses, comunidades e famílias como um todo.
mas de violência por meio de outras medidas Esses níveis e padrões, por sua vez, refletem
necessárias para prevenir a violência. condições socioeconômicas e políticas, atitu-
des sociais, tradições culturais, valores, leis e
A violência nas escolas pode ser evitada e não mecanismos para aplicá-las efetivamente. Onde
deve ser tolerada. Para muitas crianças, a reali- é legal, aceitável e até louvável que os homens
dade é que as escolas (termo genérico que será controlem as mulheres, que os ricos ou privile-
usado deste ponto em diante para indicar todos giados controlem os pobres ou desprivilegia-
os ambientes educacionais para crianças) as dos e que os pais controlem seus filhos por meio
expõem à violência e, portanto, negam seus di- da violência e da ameaça de violência, é prová-
reitos, entre os quais o direito à educação. Em vel que seja legal, aceitável e até louvável que
todas as Consultas Regionais realizadas para o adultos e crianças usem métodos semelhantes
Estudo e em muitos dos relatórios recebidos no na escola.4, 5, 6 Na condição de vítimas, perpe-
processo de sua elaboração, crianças confirma- tradores e testemunhas da violência, crianças
ram o impacto da violência sobre suas possibi- aprendem que a violência é uma forma aceitá-
vel de pessoas fortes e agressivas conseguirem que os aplicados a meninas. Agressões sexuais
o que querem de indivíduos comparativamente por parte professores e meninos geralmente são
fracos, passivos ou pacíficos. justificadas como atos "próprios de meninos" e
meninas são culpadas e responsabilizadas por
As escolas podem desempenhar um papel sin- elas porque "pediram por isso". A mensagem
gular em esforços para romper padrões de vio- implícita é que os homens devem ser duros e
lência proporcionando a crianças, seus pais e sexualmente assertivos e prontos para viver num
comunidades conhecimentos e habilidade neces- mundo que não perdoa fraquezas, enquanto as
sárias para se comunicar, negociar e solucionar mulheres devem ser passivas, protegidas e não
conflitos de maneiras mais construtivas. No en- assertivas, principalmente em termos sexuais.
tanto, em muitos casos os padrões de violência Esses estereótipos geralmente tornam as esco-
estão profundamente enraizados na cultura es- las locais inseguros e desconfortáveis para me-
colar, às vezes em decorrência de políticas apoi- ninas e determinam, em grande medida, por que
adas e promovidas por algumas teorias sobre o as meninas, particularmente na adolescência,
desenvolvimento e aprendizado infantis. não freqüentam escolas na mesma proporção
120 que adolescentes em alguns países.7, 8, 9
Sejam elas cometidas por adultos ou crianças,
quase todas as formas de violência nas escolas Garantir acesso a uma educação de qualidade
refletem um "currículo camuflado" que promo- para todos é um componente inseparável dos
ve a desigualdade de gênero e estereótipos. Por Objetivos de Desenvolvimento do Milênio e dos
exemplo, meninos insultam uns aos outros com esforços detalhados na Estrutura de Ação de
base em sua suposta falta de masculinidade e Dacar.10, 11, 12 Para esse fim, as escolas devem
assediam meninas com gestos verbais e físicos garantir um ambiente seguro e saudável e sem
de natureza sexual. Os castigos corporais apli- ameaças de violência para meninas e meninos
cados a meninos são mais freqüentes e duros (veja o quadro).

EDUCAÇÃO PARA TODOS E OS OBJETIVOS DE DESENVOLVIMENTO DO MILÊNIO


Em abril de 2000, O Fórum Mundial de Educação, realizado em Dacar, Senegal, adotou o
Plano de Ação de Dacar com vistas à consecução de seis objetivos da iniciativa Educação
para Todos (EPT).13,14,15 Em setembro de 2000, a Declaração do Milênio estabeleceu dois dos
objetivos da EPT como elementos dos oito Objetivos de Desenvolvimento do Milênio. O
Objetivo 2 declara que todas as crianças devem ter acesso gratuito e compulsório a um ensino
básico de qualidade até 2015. O Objetivo 3 prevê que a igualdade de gênero deve ser garanti-
da no ensino primário e secundário até 2015 e em todos os níveis educacionais até 2015.
Esses dois objetivos estabelecem o cronograma específico para se garantir "o direito da crian-
ça à educação... progressivamente e em igualdade de condições" previsto na CDC.
4
INSTRUMENTOS DE DIREITOS HUMANOS

Em sintonia com o Artigo 13 do Pacto Internacional dos Direitos Econômicos, Sociais e Cul-
turais, que estabelece o direito de todos à educação, o artigo 28 da Convenção sobre os Direi-
tos da Criança (CDC) reconhece "o direito da criança à educação" e "... que ela possa exercer
progressivamente e em igualdade de condições esse direito". O primeiro parágrafo do artigo
28 lista as obrigações dos Estados partes, que incluem a de garantir um ensino primário com-
pulsório e gratuito para todos, a de incentivar o desenvolvimento de diferentes formas de
ensino secundário gratuitas ou financeiramente apoiadas em caso de necessidade e a de tornar
o ensino superior acessível a todos, de acordo com sua capacidade. O artigo 28 (2) dispõe que
"os Estados partes adotarão todas as medidas necessárias para assegurar que a disciplina
escolar seja ministrada de maneira compatível com a dignidade humana da criança e em con-
formidade com a presente Convenção". Conformidade com a CDC exige, por exemplo, que a
criança seja protegida contra "todas as formas de violência física ou mental, abuso ou trata-
121
mento negligente, maus-tratos ou exploração, inclusive abuso sexual" (artigo 19) e contra
"tratamentos ou penas cruéis, desumanos ou degradantes" (artigo 37).

O artigo 29 da CDC aborda os objetivos da educação da criança. O parágrafo 29 (1.b) exige


medidas para "imbuir na criança o respeito aos direitos humanos e às liberdades fundamen-
tais" e o parágrafo 29 (1.d) prevê que se deve "preparar a criança para assumir uma vida
responsável em uma sociedade livre, com espírito de compressão, paz, tolerância, igualdade
de sexos e amizade entre todos os povos, grupos étnicos, nacionais e religiosos e pessoas de
origem indígena". Em 2001, o Comitê dos Direitos da Criança emitiu o Comentário Geral
número 1 sobre os objetivos da educação (CRC/GC/2001/1), enfatizando que o processo edu-
cacional deve, ele próprio, estar baseado nos direitos garantidos pela Convenção e promovê-
los. Isso significa que os Estados devem tomar as medidas necessárias para garantir que todas
as escolas respeitem, por exemplo, o direito da criança à não discriminação (artigo 2), à liber-
dade de expressão (artigo 13) e à proteção contra todas as formas de abuso e exploração
sexual (artigo 34). Eles também devem garantir que as crianças sejam plenamente protegidas
da intimidação ostensiva (bullying) e de outras formas de violência praticadas por outros
estudantes. O Comitê observou que não proteger estudantes dessas formas de violência pode
constituir uma negação do seu direito à educação (artigos 28 e 29).16
"Observei comportamentos rudes de professores em escolas e faculdades. Eles aplicam castigos severos todos os dias e
nós continuamos a sentir muito medo nas salas de aula. Muitas vezes eles obrigam alunos a ficar de pé na sala de aula
para castigá-los, os repreendem com palavrões e caçoam deles por terem se comportado mal ou por não terem
aprendido uma lição. Isso tudo é humilhante e também doloroso."

Adolescente de 17 anos, Ásia do Sul e Central II

INSTRUMENTOS DE DIREITOS HUMANOS


O Comentário Geral no. 1 também declara que "as crianças não perdem seus direitos huma-
nos quando atravessam os portões das escolas. Por essa razão, a educação deve, por exemplo,
ser oferecida de uma maneira que respeite a dignidade inerente da criança, permita que ela
expresse suas opiniões livremente em conformidade com o artigo 12 (1) e participe da vida
escolar. A educação deve também ser oferecida de uma maneira que respeite estritamente os
limites disciplinares previstos no artigo 28 (2) e promova um ambiente de não violência nas
escolas. O Comitê tem afirmando repetidamente em suas observações finais que o uso de
castigos corporais não respeita a integridade inerente da criança e tampouco os rígidos limites
impostos à aplicação de medidas disciplinares nas escolas..."17

O Comitê tem refletido essa interpretação em suas observações finais sobre os relatórios
Estados partes da CDC, recomendando que eles proíbam todos os castigos corporais. Em
122 junho de 2006, o Comitê adotou seu Comentário Geral No. 8 sobre o direito da criança a
proteção contra castigos corporais e outras formas de punição cruéis ou degradantes (artigos
19, 28 (2) e 37, inter alia; CRC/C/GC/8). O Comitê afirma que o propósito do Comentário
Geral é "enfatizar a obrigação de todos os Estados partes de tomar medidas urgentes para
proibir e eliminar todos os castigos corporais e outras formas de punição cruéis ou degradan-
tes contra crianças e desenvolver outras medidas legislativas, de conscientização e educacio-
nais que os Estados devem adotar".

O Comitê comentou que "combater a ampla aceitação ou tolerância de castigos corporais


contra crianças e eliminá-las na família, nas escolas e em outros ambientes não é apenas uma
obrigação dos Estados no âmbito da CDC; é também uma estratégia-chave para se reduzir e
prevenir todas as formas de violência nas sociedades".18
4
condições do mundo real. Na Europa e na Amé-
rica do Norte, a idéia da educação universal paga
ou subsidiada pelo Estado para preparar crian-
ças para o mundo do trabalho, para assumir res-
ponsabilidades cívicas e familiares e para ga-
rantir sua realização pessoal só surgiu em mea-
dos do século XIX, quando a revolução indus-
trial já havia avançado bastante. Desde aquela
época e muitas décadas após o início do século
XX, submeter crianças a surras, humilhações e
isolamento eram métodos educacionais e disci-
plinares usados rotineiramente.

Desde a década de 1990, a economia global e as


PERU, 2002, dois meninos fazem operações aritméticas
usando uma calculadora e blocos coloridos em uma escola economias de diversas nações têm registrado ta-
xas de crescimento sem precedentes. As nações 123
situada na aldeia de Los Angeles, no departamento de San
Martín, região noroeste do país, dentro da Amazônia. industrializadas ingressaram em uma era na qual
indústrias baseadas em conhecimentos predomi-
HISTÓRICO E CONTEXTO nam e as economias usam todos os trabalhado-
res que conseguem absorver se eles tiverem um
Historicamente, muitas culturas têm se carac- bom nível de escolarização, forem flexíveis e es-
terizado por estruturas sociais hierárquicas nas tiverem dispostos a absorver novos conhecimen-
quais os que estão no ápice controlam os que tos, a se adaptar a novas tecnologias, a se deslo-
estão nos níveis inferiores por meio da violên- car de emprego em emprego e por muitos locais
cia efetiva e de ameaças de violência. Essas diferentes e a trabalhar com pessoas de diferen-
estruturas e práticas foram estendidas para as tes formações. Hoje em dia, quase todas as pes-
famílias e as relações entre homens e mulheres soas reconhecem que todos saem perdendo quan-
e entre pais e filhos e também foram gradual- do pessoas são excluídas em função de seu gê-
mente introduzidas nas escolas e nas relações nero, raça, crença religiosa e outros fatores não
entre professores e estudantes. relacionados às suas capacidades e potencial.
Também é amplamente reconhecido que o mo-
Tanto nas famílias como nas escolas, os casti- delo da livre exploração e crescimento pessoal é
gos corporais e outras formas cruéis e degra- o que mais satisfaz os interesses de todos e exige
dantes de punição têm sido amplamente favo- ambientes educacionais seguros e saudáveis.
recidos como métodos "disciplinares" suposta-
mente capazes de "amansar" crianças indisci- Ainda há países nos quais muitos líderes, educado-
plinadas, colocá-las "no seu lugar" na ordem res e pais acreditam que a educação que ensina a
social e prepará-las para enfrentar as difíceis criança a questionar conceitos e pensar com inde-
"O professor esbofeteou os alunos que não foram à sua aula porque queriam ir à biblioteca fazer uma pesquisa.
O som das bofetadas pôde ser ouvido bem alto no corredor. Eu presenciei a cena e fiquei com medo.
Não consigo esquecer o som daquelas bofetadas."

Estudante de 16 anos, sub-região do Oceano Índico, 2006III

pendência as leva a entrar em conflito com antigos FORMAS DE VIOLÊNCIA NA ESCOLA


costumes adotados por famílias e comunidades.19
As formas de violência identificadas nas escolas
O processo de promover mudanças nas práti- são tanto físicas como psicológicas e, geralmen-
cas disciplinares adotadas nas escolas tem sido te, elas ocorrem concomitantemente. As formas
particularmente lento em alguns países com de agressão praticadas por professores e outros
recursos escassos para a educação e cujos sis- funcionários de escolas com ou sem a aprova-
temas educacionais precisam absorver núme- ção explícita ou tácita de ministérios da educa-
ros crescentes de crianças em idade escolar. ção e de outras autoridades responsáveis pela fis-
As leis estão sendo gradualmente melhora- calização de escolas incluem castigos corporais
das,20 mas, mesmo onde proíbem castigos cor- e outras formas cruéis e humilhantes de punição
porais, elas nem sempre são efetivamente apli- ou tratamento, violência sexual e baseada no
cadas e, em muitos casos, não são inicialmen- gênero e intimidação ostensiva (bullying).
te apoiadas em função de atitudes sociais pre-
valecentes. A proibição de castigos corporais As formas de violência praticadas por crianças
124 deve ser acompanhada por capacitações inici- incluem o bullying, a violência sexual e de gê-
ais e em serviço eficazes na gestão de com- nero, brigas no pátio da escola, violência entre
portamentos e numa organização escolar que gangues e agressões com uso de armas. A tecno-
respeite os direitos das crianças. logia oferece um novo meio para a prática de
bullying pela Internet e pelo telefone celular e
gerou termos novos como "bully cibernético"
NATUREZA E ESCALA (para quem pratica atos dessa natureza) e
DO PROBLEMA "bullying cibernético" (para os atos em si).

Embora tenha sido feito um mapeamento ade- Castigos físicos e psicológicos


quado do progresso alcançado por todos os pa-
íses em relação ao imperativo de abolir casti- O Comitê dos Direitos da Criança define o casti-
gos corporais em lares, escolas e sistemas pe- go "corporal" ou "físico" como qualquer castigo
nais, o mesmo não pode ser dito em relação a em que a força física é usada com a intenção de
outras formas de violência na escola, que nem causar dor ou desconforto em algum grau, ainda
de longe têm pesquisas e análises tão avança- que leve. A maioria dos castigos corporais en-
das até o presente momento.21 A maioria dos volve o ato de bater em crianças com as mãos
estudos aborda um ou, no máximo, dois tipos (tapas, palmadas) ou com algum instrumento. No
de violência escolar, sem levar em considera- entanto, esses castigos podem envolver, por
ção as dimensões múltiplas dessa violência e a exemplo, chutes, sacudidas, jogar a criança lon-
ligação entre a violência dentro da escola e fora ge, arranhá-la, beliscá-la, puxar seus cabelos ou
dela, como a violência que ocorre dentro das orelha, forçar a criança a ficar em posições des-
famílias e na sociedade como um todo. confortáveis, queimá-la e forçá-la a ingerir de-
"Ela (a professora) sabe que está fazendo uma coisa errada, mas aposta na impunidade.
Ela não será punida por esses atos e sabe disso."
Adolescente de 15 anos, Europa, 2005IV
4
terminadas substâncias (como, por exemplo, la- em algumas partes e locais do país, como, por
var a boca da criança com sabão ou forçá-la a exemplo, em províncias de um Estado federativo
ingerir temperos picantes).22 que têm leis próprias ou em algumas escolas, como
as mantidas pelo Estado.26 Todavia, leis contra
Segundo o Comitê, todas as formas de castigo castigos corporais não são efetivamente aplica-
corporal são invariavelmente degradantes. Além das em muitos casos, mesmo em países como a
dos aspectos físicos definidos acima, há diver- China, onde foram aprovadas há muitos anos.27
sas outras formas de castigos não físicos que tam- Em Camarões, uma lei aprovada em 1998 proíbe
bém são degradantes e, portanto, incompatíveis castigos corporais nas escolas, mas um estudo
com a CDC. Elas incluem, por exemplo, casti- publicado dois anos depois revelou que os pro-
gos que depreciam, humilham, denigrem, fazem fessores nem se preocupavam em esconder que
bode expiatório da criança ou a assustam ou ri- aplicavam castigos físicos contra "irreverências,
dicularizam. Castigos corporais e outras formas desobediências e erros acadêmicos" e 97% dos
de tratamento degradantes usados por diretores alunos relataram que continuavam sendo fisica-
de escolas e professores foram freqüentemente mente castigados.28 As conseqüências da não apli-
mencionados por crianças nas nove Consultas cação dessas leis podem ser graves. 125
Regionais realizadas no âmbito do Estudo. Na
consulta realizada com crianças na Eslovênia, Outras formas cruéis ou degradantes de punição
elas fizeram a seguinte observação no início da que não envolvem violência física foram muito
lista de mensagens preparadas para ser enviadas menos estudadas. As entrevistas realizadas com
à Consulta Regional na Europa e na Ásia Cen- crianças para colher insumos para o Estudo reve-
tral: "todos os tipos de violência que ocorrem laram lembranças de outras formas de humilha-
nas escolas em todos os países devem ser proibi- ção impostas por colegas, diretores e professores
dos e... as escolas devem ser locais alegres nos por meio de palavras e ações que estão muito pre-
quais as crianças se sintam motivadas para apren- sentes na mente de crianças e de muitos adultos.
der".23 Mensagens semelhantes foram enviadas
por crianças de todas as partes do mundo. Foram relatados casos de castigos corporais apli-
cados por razões completamente além do controle
O conjunto básico de estudos sobre castigos físi- da criança, como, por exemplo, o fato de seus pais
cos24 e uma série de relatórios regionais compila- não terem pago mensalidades escolares29 e também
dos para o Estudo25 revelam uma tendência clara por baixo desempenho na escola ou para corrigir
de se eliminar a prática dos castigos corporais nas comportamentos inadequados. Em muitas situa-
escolas em todas as regiões, principalmente na ções, não é fácil distinguir essas duas motivações.
Europa. Dos 223 Estados e territórios dependen- Estudos realizados no Egito,30 Lesoto,31 Togo32 e
tes monitorados pela Iniciativa Global para Abo- nações insulares do Oceano Índico33 revelam que
lir Qualquer Tipo de Punição Corporal contra Cri- castigos corporais são amplamente usados para pe-
anças, 106 já adotaram leis proibindo essa prática nalizar crianças por baixo desempenho escolar, o
nas escolas e sete outros têm leis que a proíbem que também ocorre em outros países. Em estudos
realizados em sete países do Oriente Médio e da pesquisa que envolveu 3.577 alunos de seis pro-
África do Norte, um terço dos alunos relatou que víncias da China constatou que 17,5% haviam
havia sido surrado com vara porque sua turma ou sofrido uma ou mais formas de castigo corpo-
escola não havia tirado boas notas em provas.34 ral por parte de professores antes de completa-
Castigos coletivos pelo baixo desempenho de uma rem 16 anos; 15% haviam sido surradas, chuta-
turma ou de toda uma escola também foram repe- das ou castigadas sem uso de objetos; 7 % ha-
tidamente mencionados. viam sido surradas com algum objeto, 0,4%
delas haviam sido trancadas em algum recinto
Vínculos com a discriminação e a pequeno ou amarradas com cordas ou corren-
violência baseadas no gênero tes; e 0,1% delas haviam sido submetidas a su-
focamento, queimaduras ou esfaqueamento. O
Há evidências que sugerem que crianças de gru- percentual de alunos (26,9%) submetido a uma
pos sujeitos a estigmas ou discriminação na soci- ou mais dessas formas de agressão foi mais de
edade como um todo ficam às vezes sujeitas a 2,5 vezes mais alto que o de alunas (10.1%).39
castigos corporais mais rigorosos e freqüentes nas
126 Diretores de escolas e professores podem aplicar
escolas. Na Índia, o Relatório Público sobre a
Educação Básica (PROBE) de 1998 concluiu que diferentes tipos de castigos corporais e outras for-
os professores de castas superiores tendiam a hu- mas cruéis ou degradantes de punição de acordo
milhar crianças do Dalit (o grupo dos "intocáveis", com o gênero da criança, transmitindo, nesse pro-
a mais inferior das quatro castas) e de outras cas- cesso, mensagens sobre o que se espera de crian-
tas inferiores, chamando-as de estúpidas e impos- ças e adultos de cada gênero. Em Botsuana, por
síveis de educar.35 Nos 23 estados dos Estados exemplo, nenhum professor que não seja o pro-
Unidos nos quais os castigos corporais ainda são fessor chefe pode aplicar castigos corporais a uma
legais, crianças afro-americanas os sofrem com menina e, nas escolas primárias, os meninos po-
mais frequência do que as outras.36 Crianças refu- dem receber palmadas nas nádegas, mas as meni-
giadas em Angola, em Zâmbia e na África do Sul nas só podem apanhar nas panturrilhas e na pal-
também se sentem preferencialmente escolhidas ma da mão. Meninos e meninas podem ser puni-
para receber castigos corporais.37 dos por diferentes formas de má conduta; por
exemplo, um menino pode ser punido por não
Em geral, os meninos são submetidos a casti- conseguir realizar uma determinada proeza atléti-
gos corporais mais rígidos e mais freqüentes ca em uma aula de educação física, enquanto uma
que as meninas, mas elas não estão, nem de lon- menina pode ser punida por um comportamento
ge, imunes a eles. Pesquisas indicaram que, no desordeiro ou "inadequado" para uma dama - que
Egito, 80% dos meninos e 67% das meninas teria sido aceito se fosse um menino. O fato de
nas haviam sofrido castigos corporais em esco- políticas de gênero explícitas ou implícitas serem
las; em Barbados, 95% dos meninos e 92% das aplicadas a castigos corporais sugere que quais-
meninas entrevistados afirmaram ter sofrido quer estratégias para eliminá-los devem também
surras com vara ou chicote na escola.38 Uma abordar diferenças de gênero.40
4
"A violência contra a criança acarreta custos incalculáveis para gerações presentes e futuras, além
de prejudicar o desenvolvimento humano. Reconhecemos que praticamente todas as formas de
violência estão relacionadas a papéis e desigualdades de gênero profundamente enraizados e que a
violação dos direitos da criança está relacionada à condição da mulher."
Declaração Africana sobre Violência contra Meninas, 2006V

Violência sexual e baseada colas do Japão e suas vítimas raramente denun-


no gênero ciavam casos dessa natureza. Elas sentiam muita
vergonha e sabiam que se falassem sobre o que
A violência de gênero tem origem na desi- havia acontecido sua reputação ficaria mancha-
gualdade de gênero, em estereótipos e em da pelo resto de sua vida.46 Atitudes semelhan-
papéis socialmente impostos. A violência se- tes ainda são comuns em diversos países. Um
xual, inclusive o assédio sexual de meninas, estudo realizado na Etiópia, por exemplo, ob-
pode ser motivado pelo desejo de punir ou servou que os estudantes atribuíam o assédio
humilhar meninas em função de seu sexo ou sexual de meninas a como elas se vestiam e não
sexualidade, por interesse sexual ou por a atitudes dos meninos em relação a elas.47 Na
mera bravata. Ela também é usada para inti- África ocidental e central, professores justifi-
midar, humilhar e diminuir meninas. Isso caram a exploração sexual de alunas afirman-
pode ser claramente percebido na prática de do que suas roupas e comportamentos eram pro-
responsabilizar meninas por estupros e, onde vocativos e que eles estavam longe de casa e
a discriminação de gênero não é questiona- carentes sexualmente.48
127
da, elas podem ser responsabilizadas por
quase qualquer tipo de assédio, agressão ou Na Europa e na América do Norte, a altíssi-
exploração sexual. ma taxa de abuso sexual de meninos por pro-
fessores do gênero masculino (em muitos ca-
Estudos sugerem que o assédio sexual de me- sos clérigos) em escolas mantidas por insti-
ninas em escolas por parte de professores e co- tuições religiosas só foi revelada na década
legas é comum em todo o mundo em diferentes de 1990, quando melhores mecanismos de
níveis e que ele pode ser particularmente fre- proteções e sistemas de denúncia foram ado-
qüente e extremo onde outras formas de vio- tados - que permitiram a denúncia de alguns
lência também prevalecem.41, 42, 43, 44, 45 casos décadas após terem ocorrido. Anterior-
Os professores geralmente percebem o assédio mente, crianças sexualmente agredidas ou
sexual entre alunos - mais freqüentemente me- exploradas por professores tinham muita ver-
ninas - como um elemento normal da vida na gonha de contar o que havia acontecido com
escola e, portanto, o ignoram. Nessas circuns- elas, pois sabiam que ninguém acreditaria nas
tâncias, é difícil para os alunos denunciarem suas histórias ou, se alguém acreditasse, que
casos de assédio. No Oriente Médio, não há elas seriam responsabilizadas por atrair a
muitos relatos de assédio sexual de meninas, atenção sexual de outros homens. Um estudo
talvez porque elas geralmente ficam separadas recente revelou que quase 4.400 padres (4 %
dos meninos nas escolas ou porque relutam em de todos os padres ativos naquela época) ha-
denunciar casos dessa natureza. viam sido acusados de abusar sexualmente de
aproximadamente 10.700 crianças entre 1950
Até recentemente, quase não havia debates pú- e 2002 e que, em sua grande maioria, essas
blicos sobre o abuso sexual de meninas nas es- crianças eram meninos.49
Estereótipos culturais nocivos que aviltam cri- nas.53 Em 1999, uma pesquisa baseada numa
anças em função de seu sexo ou sexualidade co- amostra de 10 mil alunas de escolas de Quênia
nhecida ou presumida criam ambientes nos quais observou que um terço delas eram sexualmente
crianças podem sofrer abusos impunemente, in- ativas e que, destas, 40% disseram que sua pri-
clusive por parte de adultos em funções de con- meira experiência havia sido forçada, geralmen-
fiança e autoridade, como clérigos em escolas te por um aluno do gênero masculino.54 No en-
religiosas. Em 2004, o Ministro de Estado para tanto, um estudo mais recente em realizado Bur-
Assuntos Religiosos do Paquistão surpreendeu quina Faso, Gana, Malaui e Uganda revelou,
a nação ao comunicar que, até o mês em questão porém, que o sexo forçado e a vulnerabilidade à
naquele ano, 500 denúncias de abuso sexual pra- infecção do HIV eram mais prevalentes entre
ticado por clérigos em escolas religiosas haviam adolescentes casados do que entre os solteiros.55
sido registradas e que, no ano anterior, 2.000 Em muitos países da África Subsaariana, a mai-
denúncias haviam sido recebidas, embora nin- oria das adolescentes não freqüenta a escola e
guém tenha sido efetivamente processado judi- entre um quarto e metade delas são casadas, fre-
cialmente até o presente momento.50, 51 qüentemente com homens mais velhos.56 Na Eti-
128 ópia, as meninas de um modo geral consideram
O HIV e a violência sexual que freqüentar a escola é uma forma de evitar o
casamento precoce e indesejado.57
Nos países da África Subsaariana, a taxa média
atual de prevalência do HIV entre meninas e mu- O sexo forçado é um fator de risco de contá-
lheres com idades entre 15 e 24 anos é três vezes gio do HIV/AIDS. Essa é uma preocupação
mais alta que entre meninos e meninos na mesma crescente no contexto das escolas. Na África
faixa etária.52 A violência sexual é um fenômeno Oriental e Meridional (como em outras regi-
cada vez mais reconhecido, embora ainda muito ões), a Consulta Regional realizada para o
pouco estudado, como um fator que contribui Estudo identificou o assédio e abuso sexuais
muito para o aumento observado nessas taxas. por parte de alunos e professores, geralmente
do gênero masculino, contra alunas como pro-
Uma análise dos dados da Pesquisa Global da blemas de peso. Os participantes da Consulta
Saúde de Estudantes Baseada na Escola (LGSE) confirmaram casos de professores que prome-
revela que, na Namíbia, 19% dos meninos e tiam notas melhores a meninas em troca de
meninas responderam afirmativamente quando uma relação sexual e também informaram que
foram perguntados se "alguma vez haviam sido as meninas que engravidam em decorrência de
fisicamente forçados a ter relações sexuais". Na um abuso praticado por professores e alunos
Suazilândia, 9% dos meninos e 10% das meni- geralmente eram expulsas da escola. Em al-
nas responderam afirmativamente; em Uganda, guns países, o casamento de uma menina grá-
13% dos meninos e 25% das meninas; na Zâm- vida com o seu agressor pode absolvê-lo da
bia, 30% dos meninos e 31% das meninas; e no responsabilidade legal, o que aumenta o risco
Zimbábue 11% dos meninos e 14% das meni- de casamentos forçados.
4
"Passei a anotar num caderno as datas e horas nas quais era assediado. Depois, mostrei minhas
anotações ao diretor e ele me disse: 'Filho, você deve estar com muito tempo livre para ficar fazendo
essas anotações. Tenho mais o que fazer do que me preocupar com o que aconteceu há duas semanas.'
Eu disse a ele: 'Queria que o senhor soubesse o que está acontecendo, que soubesse como sou
assediado todos os dias'. Ele tomou o caderno das minhas mãos e jogou-o na lata de lixo."
Estudante, América do Norte, vítima de bullying, supostamente por ser homossexual, 2005VI

Um estudo coordenado pelo UNICEF concluiu reram era a de onze anos e professores foram
que o abuso sexual era comum em todos os paí- responsáveis por 7% de todos os casos, embora
ses da África Ocidental e Central e que os minis- familiares e amigos da família tivessem sido
térios da educação tinham conhecimento desse apontados como os agressores na maioria dos
fato e o consideravam como uma das principais casos.61 Um estudo realizado pelo UNICEF no
razões da evasão escolar de meninas.58 Um estu- Nepal observou que 9% das crianças haviam
do realizado pela organização Human Rights sofrido abusos sexuais graves (beijos em partes
Watch revelou que, nas escolas da África do Sul, íntimas, sexo oral e penetração) e que 18% dos
o assédio e abuso sexuais contra alunas por par- agressores eram professores.62 Numa contribui-
te de professores e alunos eram práticas comuns ção para o Estudo, o Comitê Internacional de
e que as meninas eram estupradas nos banheiros Resgate relatou que o abuso sexual contra meni-
das escolas, em salas de aula vazias, em dormi- nas é um problema de peso em escolas de refu-
tórios e em albergues.59 Em uma pesquisa recen- giados nas quais os professores são homens.63 A
te realizada em Gana, 6% das crianças em idade Consulta Regional na América Latina relatou que
escolar afirmaram que seus professores as chan- meninas na República Dominicana, Honduras,
tageavam, ameaçando dar notas mais baixas a Guatemala, México, Panamá e Nicarágua são 129
elas se não aceitassem ter relações sexuais com vítimas de coerção sexual de professores, às ve-
eles. Dois terços delas não haviam denunciado zes na forma de ameaças de que receberão notas
esses incidentes por se sentirem envergonhadas, mais baixas se não colaborarem.64
por terem sido aconselhadas a ser tolerantes e
por acreditarem que nenhuma medida seria to- Como um fato positivo, a Consulta Regional
mada contra seus agressores. Um percentual re- na África Oriental e Meridional observou que
duzido de meninos também relatou assédio se- os países estão tomando medidas em relação
xual contra eles. Entre os meninos, 24% admiti- ao problema promovendo mudanças em suas
ram ter participado de um estupro, inclusive de leis, políticas e práticas. Na África do Sul e em
estupros cometidos por gangues. Entre as meni- Zâmbia, por exemplo, esse tipo de "violação"
nas, 14% afirmaram ter sido violentadas por de meninas é considerado um delito grave que
meninos de seu círculo de amizade.60 pode acarretar até prisão perpétua e as meninas
que engravidam em decorrência do ato recebem
Em outras partes do mundo, estudos mais gerais permissão para se ausentar da escola.65
sobre abusos sexuais revelaram que professores
também coagem ou abusam sexualmente de cri- Intimidação ostensiva (bullying)
anças e jovens. Em um desses estudos, 6% de
mais de 2.000 estudantes universitários da Re- Desde a década de 1970, o reconhecimento da
gião Administrativa Especial de Hong Kong da ameaça que a prática do bullying representa para
China relataram que haviam sofrido abusos des- o bem-estar da criança na escola vem crescendo,
sa natureza antes de completarem 17 anos de bem como a literatura e estudos que analisam suas
idade. A idade média na qual esses abusos ocor- causas, prevalência e impactos tanto para suas
vítimas como para seus perpetradores.66, 67 Embo- usadas jocosamente, mas transmitem a mensa-
ra o bullying seja um problema mundial, essa lite- gem de que seria muito ruim ou inaceitável se
ratura origina-se, principalmente, em países in- fossem verdade. Elas podem ser usadas malicio-
dustrializados. Ela surgiu inicialmente na Escan- samente para castigar ou intimidar crianças por
dinávia na década de 1970 e, posteriormente, no serem "afeminadas demais" ou "masculinizadas
Reino Unido, no Japão, na Austrália e nos Esta- demais", por serem sabida ou supostamente gays
dos Unidos e analisa características dos agresso- ou lésbicas ou simplesmente por serem diferen-
res e das vítimas, bem como diversos fatores de tes em algum outro aspecto não aceito.
risco pessoais e sociais que contribuem para esse
tipo de comportamento. Ela também ampliou a Quando meninos chamam meninas de "piranhas",
definição de bullying para incluir formas mais sutis "lésbicas" ou outros termos semelhantes que ques-
e complexas de violência psicológica e, além das tionam sua moral sexual ou sexualidade, eles po-
características de agressores e vítimas, passou a dem, na verdade, estar expressando ressentimen-
analisar também como eles foram criados e seus tos em relação a elas de um modo geral ou senti-
ambientes familiares e sociais, inclusive o am- mentos de raiva, frustração ou inveja. Um estudo
130 biente de suas escolas. O bullying também é di- realizado na África do Sul revelou que meninas
ferenciado de outras formas de violência porque que se queixavam de estar sendo sexualmente as-
representa um padrão de comportamento e não sediadas eram freqüentemente chamadas de lés-
um evento isolado. A literatura revela também bicas.68 Da mesma maneira, meninos podem ser
que quase todas as formas de bullying têm um chamados de gays quando respeitam meninas ex-
caráter sexual ou baseiam-se no gênero. Essas cessivamente e não as assediam sexualmente jun-
constatações mudaram a maneira pela qual o to com outros meninos.
bullying é percebido, no sentido de que medidas
contra essa prática possam também contemplar O bullying de alunos e alunas que sabida, su-
o padrão desse comportamento. posta ou alegadamente são gays e lésbicas pode
assumir a forma de provocações, pichações
Bullying centrado no sexo obscenas, propostas sexuais indesejadas e es-
ou na sexualidade tupros simulados - e pode envolver agressões
físicas brutais. Embora se saiba que esse com-
Professores e outras crianças freqüentemente portamento é comum em muitos países, a lite-
pressionam crianças para que se ajustem a valo- ratura está, em sua maior parte, restrita à Euro-
res culturais e atitudes sociais que definem o que pa e à América do Norte.69, 70 Em muitos países,
significa ser "masculino" ou "feminino". Um a atividade homossexual é considerada um de-
método amplamente empregado é o de se usar lito penal ou é, no mínimo, altamente estigma-
palavras para sugerir que um menino está agin- tizada, razão pela qual o bullying e outros tipos
do como uma menina ou talvez seja gay e que de violência contra homossexuais não recebem
uma menina está agindo como um homem ou muita atenção das autoridades e são tratados
talvez seja lésbica. Essas conotações podem ser como questões não oficiais.71
"As escolas, que deveriam ser 'locais de aprendizagem', se tornaram um pesadelo devido
à violência insuportável que as crianças sofrem nelas."
Criança, região leste e sul da África, 2005VII
4
A escala do bullying vítimas e perpetradoras ao mesmo tempo e que
elas são as mais problemáticas entre todas as
A pesquisa sobre Comportamento de Saúde de envolvidas nesse tipo de comportamento.76
Crianças em Idade Escolar (CSCE) realizada
em países desenvolvidos e em transição da Eu- O bullying está apenas começando a se tornar um
ropa Central e Oriental em 2001-2002 apurou problema nas Filipinas, na Tailândia e em outros
que 35% das crianças em idade escolar haviam países do Leste Asiático e da região do Pacífico.
sofrido bullying nos dois meses anteriores, va- Numa pesquisa realizada na República Popular
riando de 15% na Suécia a 64% na Lituânia Democrática do Laos, 98% das meninas e 100%
(veja a Figura 4.1).72 Pesquisas recentemente dos meninos informaram ter testemunhado bullying
realizadas em países desenvolvidos como parte em escolas e embora sua natureza ou gravidade não
da LGSE também levantaram dados que varia- tivessem sido claramente identificadas, suas víti-
vam muito no que se refere ao percentual de mas eram principalmente meninas ou crianças de
crianças que relataram ter sido vítimas de minorias étnicas.77 Um estudo realizado com alu-
bullying nos 30 dias anteriores (veja a Figura nos da quarta série do primeiro grau na República
da Coréia concluiu que o bullying é comum nas 131
4.2).73 Os parâmetros de "dois meses anterio-
res" e "30 dias anteriores" indicam que as con- escolas e resulta das condições sociais e proble-
clusões não são perfeitamente comparáveis; no mas emocionais do agressor.78 Relatórios do Sul
entanto, mesmo quando os parâmetros são idên- da Ásia indicaram a ocorrência de casos de dis-
ticos, as comparações entre países devem ser criminação severa em sala de aula contra crian-
interpretadas cautelosamente, pois a taxa de ças de minorias étnicas ou castas inferiores na
casos relatados de bullying tende a aumentar à forma de abuso e exclusão. Uma consulta sobre
medida que os especialistas em educação e de- violência nas escolas realizada por meio do fó-
senvolvimento infantil conscientizam mais o rum Vozes da Juventude do UNICEF também
público sobre a questão.74 confirmou que o bullying é amplamente pratica-
do em escolas do Oriente Médio e da África do
A pesquisa HBSC de 2001/02 constatou que o Norte, fato que levou crianças a clamarem pelo
bullying diminuía à medida que a idade das cri- fim desse tipo de violência nessas regiões.79
anças aumentava e que embora percentuais se-
melhantes de meninos e meninas tivessem indi- As formas mais comuns de bullying são verbais
cado ter sofrido bullying, mais meninos admiti- e, se não forem combatidas, podem gerar situa-
ram ter adotado atitudes intimidadoras em rela- ções de extrema violência. O ímpeto observado
ção a outros. Embora o bullying seja comum em recentemente no sentido de se estudar a prática
grupos do mesmo gênero, quando ele ocorre en- de bullying foi motivado pelos massacres com
tre grupos de gêneros diferentes, a probabilida- armas de fogo praticados por alunos contra ou-
de de meninas serem intimidadas por meninos é tros em escolas nos Estados Unidos e no Canadá
maior.75 Estudos recentes sugerem que cerca de no final da década de 1990. Uma investigação
metade das crianças que praticam bullying são constatou que a incapacidade de lidar com a ri-
dicularização social e a rejeição pessoal pode ter uma outra escolar ou para a comunidade maior.
ocasionado esses massacres.80 Um estudo rea- Às vezes elas incluem mensagens de não violên-
lizado em Israel indicou que o sofrimento, hu- cia em matérias não obrigatórias ou em aulas ad-
milhação ou raiva experimentados por bullies (os hoc, mas essa medida geralmente é insuficiente
que praticam o bullying) podem explicar por que para transmitir os conhecimentos e as técnicas
eles passam da violência verbal à física.81 que professores e alunos precisam absorver para
compreender e prevenir a violência.85
A Internet e os telefones celulares oferecem no-
vas oportunidades para a prática de bullying por A prática de bullying nas escolas geralmente
meio de e-mails, conversas on-line, páginas pes- ocorre quando não há professores presentes e
soais na Internet, mensagens de texto e ima- outros estudantes apenas observam sem inter-
gens.82, 83 Uma pesquisa realizada com estudan- vir ou denunciar sua ocorrência a professores
tes no Canadá revelou que meninos confessa- ou outros funcionários de suas escolas. Um es-
vam com mais freqüência ter praticado bullying tudo canadense observou que em 57% dos ca-
cibernético que meninas e que eles também eram sos em que estudantes intervieram em situações
132 vítimas mais freqüentes dessa prática.84 Um as- de bullying essa prática foi eliminada.86 As cri-
pecto singular do bullying cibernético é que ele anças da América do Norte que participaram
permite que os que o praticam permaneçam anô- dos Fóruns Infantis realizados no âmbito do
nimos. Além disso, ele possibilita uma rápida Estudo sugeriram que esquemas de apoio a co-
distribuição e multiplicação de mensagens e pode legas poderiam motivar estudantes que apenas
transformar grandes quantidades de crianças em observam situações de bullying sem nada fazer
espectadores ou testemunhas de bullying não fí- a defender outros estudantes vitimizados.
sico e altamente malicioso, enquanto os que o
praticam escondem-se atrás do seu anonimato. Brigas, agressões físicas
e gangues
Por que as escolas não conseguem
desestimular a prática do bullying Brigas geralmente envolvem duas ou mais pes-
soas e não é fácil distinguir os agressores de
Uma liderança forte, um etos caracterizado pela suas vítimas. A prática do bullying pode gerar
atenção e políticas claras e colocadas em prática brigas com ou sem armas. Agressões físicas
permanentemente podem reduzir a incidência e podem ocorrer como um fenômeno separado,
gravidade da violência em escola de todos os ti- como no caso de um ataque de uma só pessoa a
pos e até evitar que ela ocorra. Infelizmente, a outra motivado por sentimentos inflamados de
maioria das escolas recorre a soluções rápidas e raiva ou ciúme. Podem também ser gerados por
fáceis ou lida com o problema superficialmente. sentimentos gerais de ira, frustração ou humi-
Às vezes elas expulsam o agressor, por exem- lhação provocados por alguma coisa que a víti-
plo, em vez de tentar corrigir seu comportamen- ma tenha feito, como no caso de agressões se-
to, o que simplesmente transfere o problema para xuais e massacres aleatórios com armas de fogo.
4

133
134
"Dois garotos estavam brigando e um deles sacou uma arma... como havia muita gente ao redor, ele
não fez nada, mas acho que ele teria atirado no outro se não houvesse ninguém por perto."
Menino, 11 anos, América do Norte, 2005VIII
4
Uma análise dos dados da pesquisa HBSC de são distorcida da prevalência desse tipo de
2001/02 revelou que de 25% das crianças em agressão, mas também deu origem a investiga-
idade escolar da Finlândia a 49% da Lituânia ha- ções sobre os vínculos entre a violência na es-
viam se envolvido em brigas físicas nos 12 me- cola e a violência criminosa praticada por jo-
ses anteriores e que essas brigas eram muito mais vens e adultos fora do ambiente escolar.
comuns entre meninos que entre meninas (veja
a Figura 4.3).87 Uma análise de dados de pes- O testemunho de crianças, pais, professores e
quisas mais recentes realizadas como parte da outras pessoas nos Fóruns Infantis e nas Con-
LGSE sugere que, em paises em desenvolvimen- sultas Regionais realizadas como parte do Es-
to, as brigas são mais comuns e que as meninas tudo sugerem que a violência extrema nas es-
têm uma tendência maior de participar delas nes- colas deve ser mais detalhadamente estuda-
ses países do que em países desenvolvidos ou da.91 Um estudo realizado na Jamaica reve-
em transição (veja a Figura 4.3).88 lou que 61% de seus estudantes haviam pre-
senciado atos de violência na escola, que 29%
Meninos tendem a se envolver em brigas e desses atos provocaram lesões e que muitas
agressões contra outros para se enquadrar em crianças não se sentiam seguras nas escolas.91 135
estereótipos masculinos segundo os quais os Na Jamaica, a taxa de homicídios era de 55
homens devem ser poderosos e fortes.89 Os es- para cada grupo de 100.000 habitantes em 2004
tudantes de uma universidade queniana fo- e 25% dos indivíduos presos por crimes vio-
ram solicitados a registrar suas "Memórias de lentos eram crianças em idade escolar, princi-
Violência na Infância". Suas lembranças mais palmente meninos. A maioria dos crimes ocor-
vivas eram de atos de violência praticados por ria distante das escolas; no entanto, um estu-
professores, mas eles descreveram práticas de do separado concluiu que os crimes ocorridos
bullying e brigas entre crianças de uma manei- em escolas deviam-se a fatores que afetavam
ra que parecia sugerir que não valia a pena lem- a sociedade jamaicana como um todo que exi-
brá-las e que elas eram simplesmente aceitas giam soluções abrangentes.92
como parte da cultura escolar.90
Armas nas escolas
Homicídio e lesões graves
Um estudo nacional realizado recentemente nos
Homicídios e ataques que provocam lesões fí- Estados Unidos revelou que de 3% a 10% dos
sicas graves são comparativamente raros em estudantes andavam armadas dentro das escolas
escolas e correspondem a uma parcela muito e que 12% a 25% andavam armados fora da es-
pequena da violência criminosa registrada na cola. Esse mesmo estudo mostrou que 13% dos
sociedade como um todo. A atenção dada pelos estudantes haviam se envolvido em brigas nas
meios de comunicação de massa a casos extre- escolas no ano anterior e que 33% haviam briga-
mos, como esfaqueamentos e massacres com do fora das escolas. O estudo revelou também
armas de fogo em escolas, gerou uma impres- que 5% de todos os alunos tinham evitado ir à
136
4
"A tolerância da violência contra crianças constitui um grande obstáculo à saúde e ao
desenvolvimento na Europa. Não podemos deixar que essa violência continue sem fazer nada;
precisamos agir agora para mudar as condições que geram a violência contra a criança."
Dr. Marc Danzon, Diretor Regional para a Europa, OMS

escola pelo menos um dia nos 30 dias anteriores do que outras formas de violências nas escolas
por estarem preocupados com sua segurança.93 porque está associada ao tráfico de drogas.97, 98
Nos Estados Unidos, algumas pesquisas indica- Os participantes da Consulta Regional da Amé-
ram que em escolas nas quais meninos costu- rica Latina relataram um crescimento paralelo
mam andar armados, a probabilidade de as me- semelhante da violência de gangues dentro e
ninas também andarem armadas é maior.94 fora da escola.99 (Veja o capítulo sobre violên-
cia contra a criança na comunidade.)
Estudos realizados no Canadá sugerem que an-
dar armado em escolas é um fenômeno tão co-
mum naquele país quanto nos Estados Unidos.95 IMPACTOS DA VIOLÊNCIA
Uma análise de suspensões de alunos na Nova
Escócia indicou que aproximadamente metade NA ESCOLA
delas devia-se ao fato de eles terem entrado com
armas na escola. Ainda não se sabe ao certo se o Esta seção indica os possíveis impactos da vio-
número de alunos que andam armados está au- lência nas escolas. No entanto, é importante
mentando ou diminuindo nas escolas norte-ame- observar que essas conseqüências não são ine- 137
ricanas. O mesmo pode ser dito em relação às vitáveis. Na verdade, elas podem ser perfeita-
escolas da Europa Ocidental, embora evidênci- mente evitadas e substancialmente reduzidas
as indiquem que todos os tipos de violência físi- por meio de intervenções eficazes, que serão
ca têm se mantido relativamente constantes.96 Em discutidas nas próximas seções.
outras regiões, armas são geralmente associadas
à violência de gangues. IMPACTOS SOBRE A SAÚDE

Desenvolver grupos de colegas faz parte da vida A violência nas escolas pode ter um impacto
acadêmica, mas gangues também se desenvol- físico e provocar estresse psicológico, defi-
vem em ambientes escolares. Esses grupos dis- ciências físicas permanentes e doenças físi-
tinguem-se de outros grupos de colegas por suas cas ou mentais de longo prazo. Seus impac-
estruturas e rituais mais formais. A violência tos físicos são mais óbvios e podem incluir
de gangues em escolas parece ser mais freqüente lesões leves ou profundas, hematomas, fra-
em locais onde a violência é mais comum na turas e mortes por homicídio ou suicídio.
sociedade como um todo. Participantes da Con- Agressões sexuais podem gerar gravidez in-
sulta Regional do Caribe para o Estudo relata- desejada e precoce e infecções sexualmente
ram que as gangues e a violência de gangues transmissíveis, inclusive HIV/AIDS.100 Os
fora e dentro da escola têm crescido paralela- impactos psicológicos podem incluir o com-
mente na mesma proporção. Esses participan- prometimento imediato do desenvolvimento
tes relataram que a violência de gangues dentro emocional e distúrbios e doenças mentais de
da escola inclui surras severas, esfaqueamen- longo prazo, que podem contribuir para pre-
tos e tiroteios e que ela tende a ser mais grave judicar a saúde física também.
"Não voltei à escola durante um mês após ter contado o que tinha acontecido. Tudo me lembrava do que tinha acontecido
assim que eu vestia o uniforme. Tenho pesadelos nos quais o vejo na sala de aula rindo de mim. Às vezes, preciso usar o
corredor que passa na frente da sala onde ele estudava. Parece que posso vê-lo, que ele ainda está lá.
Tenho medo que ele ainda possa estar lá."

Menina, África do Sul, 2001IX

Diversos estudos revelaram correlações entre os corporais e de outros tipos de violência contra
castigos corporais e a baixa saúde mental.101 a criança nas escolas sempre são negativos. Um
Embora a maioria deles tenha se concentrado nos estudo recentemente realizado em Camarões,
castigos corporais na família, alguns enfocaram por exemplo, revelou que os castigos físicas no
castigos físicos nas escolas. Um estudo europeu lar e na escola tendem a bloquear o desenvol-
sobre históricos pessoais de crianças deprimidas
mostrou que os castigos corporais nas escolas
constituíam o precursor mais forte de sua depres-
são.102 Atualmente, sabe-se que a violência entre
colegas de escola tem impactos importantes so-
bre a saúde física e mental, principalmente se
for repetida e severa ou se as vítimas não forem
adequadamente apoiadas.103, 104

Um estudo sobre bullying realizado em 28 países


138 europeus observou que os sintomas físicos mani-
festados por suas vítimas incluíam dores de cabe-
ça, de estômago, nas costas e tontura, enquanto seus
sintomas psicológicas incluíam o mau humor, ner-
vosismo, solidão e uma sensação de desamparo. O
mesmo estudo revelou que, de acordo com os rela-
tos de crianças, quanto mais expostas a bullying,
mais intensos eram seus sintomas de má saúde. Essa
relação "dose-resposta" era semelhante em meni-
nos e meninas.105 Uma análise de dados de 30 paí-
ses industrializados e em transição cobertos pelo
HBSC observou que crianças que afirmavam ser
praticantes ou vítimas de bullying tinham uma pro-
pensão muito mais baixa de afirmar que gozavam
de uma "saúde excelente" ou que estavam "muito
satisfeitos com a vida" (veja a Figura 4.4).106 Cri-
anças que afirmaram praticar e sofrer bullying
eram as que menos probabilidade tinham de afir-
mar que gozavam essas duas coisas.

IMPACTOS SOCIAIS

Estudos realizados em diversos países confir-


mam que os impactos sociais dos castigos
4
vimento de habilidades sociais. As vítimas de Children, crianças de Bangladesh afirmaram
castigos corporais tendem a se tornar passivas que castigos físicos, cruéis ou degradantes afe-
e excessivamente cautelosas e a sentir medo de tavam seu desempenho escolar e que elas va-
expressar suas idéias e sentimentos livremente, lorizavam professores gentis e atenciosos que
podendo, ao mesmo tempo, tornar-se perpetra- explicavam suas matérias adequadamente em
dores de violência psicológica.107 vez de simplesmente aplicar exercícios.113 Os
impactos educacionais do bullying foram me-
Algumas pesquisas sugerem que crianças pu- nos bem pesquisados que outros impactos psi-
nidas fisicamente têm uma tendência menor de cológicos e sociais, mas sabe-se que tanto suas
internalizar valores morais. Elas são menos in- vítimas como perpetradores tendem a ter no-
clinadas a resistir a tentações, a se envolver em tas mais baixas que outros alunos.114 Parece
comportamentos altruístas, a ter empatia em também haver uma relação entre o bullying,
relação a outras crianças e a exercitar julgamen- dificuldades de relacionamento com outras
tos morais de qualquer natureza.108 Elas ficam crianças e faltas na escola.115
mais inclinadas a adotar condutas desordeiras
e agressivas, como bater em irmãos, pais, cole- Uma análise dos dados levantados na pesqui- 139
gas de escola e namorados ou namoradas.109 sa Tendências Internacionais no Estudo da Ma-
Podem também aplicar castigos corporais a seus temática e das Ciências (TIMSS), que se con-
próprios filhos quando chegam à idade adulta, centrou em alunos de matemática e de ciênci-
passando hábitos violentos adiante.110 as da oitava e nona séries de 49 países, cons-
tatou que nas escolas que enfatizavam forte-
Estudos norte-americanos e europeus sugerem que mente a competitividade e a existência de gran-
crianças que sofrem ou praticam bullying na es- des disparidades entre notas mais altas e mais
cola ou ambos tendem a desenvolver comporta- baixas, os alunos tinham uma tendência maior
mentos anti-sociais e criminosos no futuro, inclu- de praticar atos de violência uns contra os ou-
sive o de agredir parceiros íntimos, se envolver tros.116 Uma outra análise dos mesmos dados
em brigas e adotar hábitos autodestrutivos, como não identificou nenhuma relação forte entre
fumar e beber excessivamente.111, 112 essa violência na escola e padrões de violên-
cia ou falta de integração social na sociedade
IMPACTOS EDUCACIONAIS como um todo.117

Nas Consultas Regionais do Estudo, os castigos Diversos estudos realizados no Sul da Ásia indi-
físicos e psicológicos, o abuso verbal, o bullying cam que a violência na escola, principalmente os
e a violência sexual nas escolas foram repetida- castigos corporais, levam alunos a abandonar seus
mente apontados como motivos de faltas nas es- estudos. Um estudo desenvolvido no Nepal, onde
colas, evasão escolar e falta de motivação para castigos corporais rígidos são rotineiros, obser-
conquistas acadêmicas. Em um documento en- vou que 14% dos alunos que abandonavam a es-
caminhado ao Estudo pela organização Save the cola o faziam por medo dos professores.118 Uma
"Se eles [os garotos] apanham em casa, vão também querer bater em outros, ou seja, se seus pais os maltratam ou não
falam com eles, os garotos vão bater em outros porque eles próprios são surrados. Elas vão levar para fora de casa o que
vêem acontecer nela. Essa é a base da violência."

Garotas adolescentes, América Latina, 2005X

contribuição da Aliança Save the Children para o No contexto internacional, observa-se uma
Estudo indicou que as crianças dos países sul-asi- carência de pesquisas específicas sobre fato-
áticos acreditavam unanimemente que os casti- res de risco de violência contra a criança na
gos corporais constituíam a principal causa da escola as que existem tendem a enfocar a vi-
evasão escolar. Eles também afirmaram que sur- olência entre colegas. De um modo geral, pes-
ras regulares geram falta de interesse nos estudos quisas realizadas principalmente em países in-
e afetam o desempenho escolar.119 dustrializados sugerem que as influências ten-
dem a mudar de açodo com a fase de desen-
Estudos também revelaram que, na África do volvimento da criança; por exemplo, a influ-
Sul, vítimas de violência sexual são recebidas ência da família é mais forte sobre crianças
com tanta hostilidade após denunciarem ocor- pequenas, enquanto a influência de colegas é
rências desse tipo de violência que se ausen- mais forte para adolescentes.127 Essas pesqui-
tam da escola por longos períodos, mudam de sas têm constantemente indicado que os fa-
escola ou desistem completamente de estudar, tores de risco mais importantes para as esco-
enquanto os professores ou alunos acusados las são o baixo desempenho escolar, taxas
140 de abusar delas permanecem na escola.120, 121, elevadas de ausência escolar, a evasão esco-
122, 123
Na maioria dos países africanos, asiáti- lar e tempo livre não estruturado.128, 129 Além
cos e caribenhos, a gravidez provocada por disso, muitos dos fatores identificados nas
agressão e coerção sexual geralmente força pesquisas sobre outros aspectos da vida pro-
meninas a abandonar a escola, o que as faz vavelmente também são importantes para
perder oportunidades educacionais e compro- as escolas - por exemplo, atitudes pró-vio-
mete seu futuro. lência, propensão a riscos, vínculos sociais
fracos, amizades com colegas anti-sociais,
FATORES QUE CONTRIBUEM relacionamentos entre pais e filhos de baixa
qualidade, consumo de drogas, disciplina rí-
PARA A VIOLÊNCIA gida, relaxada ou não perseverante e baixo
acompanhamento por parte dos pais.
FATORES DE RISCO
Um estudo realizado nos Estados Unidos en-
Fatores de risco aumentam a probabilidade de uma trevistou 1.467 crianças com idades entre 12 e
criança ser vítima ou praticante de violência nas 17 anos sobre suas experiências como vítimas
escolas, enquanto fatores de proteção diminuem de violência ao longo do tempo. Esse estudo
essa probabilidade. Tanto características indivi- sugeriu que algumas crianças podem ser "poli-
duais como externas (inclusive características de vítimas" (vítimas de diferentes tipos de violên-
fora da escola) podem aumentar ou diminuir a cia), pois algumas delas relataram, por exem-
probabilidade de uma criança se envolver em vi- plo, ter sofrido castigos corporais por parte de
olência na escola ou de ser seriamente prejudica- seus pais, abuso sexual por parte de parentes,
da por sua ocorrência.124, 125, 126 agressões físicas por parte de colegas e bullying
"Sou deficiente e odeio crianças que me dizem isso."
Criança de 8 a 10 anos, Sul da Ásia, 2005XI

4
por parte de outros alunos na escola. A persis- As escolas podem desempenhar um papel cru-
tência da "poli-vitimização" foi associada ao cial no desenvolvimento da resiliência e de uma
nível mais alto ou mais baixo no qual uma cri- sensação de bem-estar em crianças, elementos
ança se enquadra na escala da raiva e da agres- que também foram associadas a uma menor pro-
são, a problemas familiares e a experiências babilidade de elas serem vitimizadas.132 Adul-
recentes de adversidades na vida. O fato de uma tos e pares das famílias e comunidades come-
criança ter mais amigos foi associado a níveis çam a desenvolver ou não conseguem desen-
mais baixos de violência.130 volver a resiliência em crianças desde o seu
nascimento. Uma boa criação e unidades fami-
A violência nas escolas tende a estar menos re- liares estáveis também são cruciais para esse
lacionada a incidentes isolados e mais relacio- fim. O poder do estabelecimento de laços afeti-
nada a padrões de violência. Sem sistemas ade- vos adequados entre pais e filhos desde o início
quados, esses padrões acabam sendo aceitos de suas vidas e relações familiares de apoio,
como normais e podem aumentar a violência juntamente com cuidados intensos na primeira
ao longo do tempo. Nenhum fator ou combina- infância, são importantes para o desenvolvimen-
ção de fatores protege crianças contra a violên- to da resiliência em crianças.133 No entanto, 141
cia. Os fatores de risco não operam isoladamen- mesmo quando as famílias ou comunidades não
te e seus impactos podem ser intermediados por conseguem fazer isso, as escolas podem com-
fatores de proteção. O conceito da resiliência pensar essa falha, principalmente quando dis-
envolve diversos fatores de proteção e é apon- ponibilizam um apoio adequado a crianças des-
tado na literatura como um aspecto importante de seus primeiros anos de vida. As escolas tam-
da prevenção da violência e de muitos outros bém podem criar pontes entre as crianças, suas
comportamentos de risco. famílias e a comunidade, ajudando-os a com-
preender como afetam crianças e como podem
A RESILIÊNCIA E OUTROS adquirir habilidades necessárias para apóia-las
FATORES DE PROTEÇÃO mais adequadamente.

A resiliência infantil pode ser definida como a Estudos realizados na Austrália indicam a im-
capacidade da criança de "superar desafios co- portância de se adotar abordagens abrangentes
tidianos, entre os quais transições, momentos e focadas na escola como um todo para reduzir
de estresse acumulado e grandes adversidades fatores de risco e promover fatores de proteção
ou riscos". Tipicamente, crianças "resilientes" simultaneamente. O apoio de professores, pais
são reconhecidas por sua elevada auto-estima, e outros adultos foi identificado como impor-
controle interno, otimismo, aspirações claras, tante, bem como contar com colegas que apói-
orientação para metas, capacidade de reflexão, am a criança e pertencer a grupos pró-sociais.
de solucionar problemas e de se comunicar sau- Observou-se, também, que a abordagem de en-
davelmente e capacidade de estabelecer rela- volver a escola como um todo melhora a saúde
ções orientadoras com adultos.131 mental das crianças.134, 135
Muitos dos fatores de proteção identificados cia entre crianças.139 Um estudo no Iêmen iden-
em outros ambientes também se aplicam ao tificou essa mesma correlação.140 Pesquisas
contexto escolar, embora não existam muitas realizadas em Botsuana e Gana concluíram que
pesquisas envolvendo diversos contextos in- quando professores toleram a segregação se-
ternacionais nessa área. Por exemplo, rela- xual e tensão entre os gêneros, eles ajudam a
ções com adultos atenciosos e orientadores sustentar culturas de bullying e de violência
parecem promover a resiliência por modela- sexual e baseada no gênero.141
rem comportamentos pró-sociais e oferece-
rem orientações e proteção - coisas que bons Nas Américas, na África do Sul e em países
professores fazem diariamente.136 A percep- onde há conflitos civis violentos, como no Ne-
ção de que transgressões na escola serão efe- pal e em Serra Leoa, entretanto, grande parte
tivamente punidas de maneiras claras também da violência entre crianças nas escolas tem ori-
constitui um importante fator de proteção, o gem no mundo violento que as circunda. Con-
que enfatiza a importância de se estabelecer vulsões sociais e deslocamentos, combinados
códigos de conduta claros e garantir sua ob- com um baixo desempenho acadêmico, podem
142 servância. Além disso, as escolas podem pro- fazer com que estudantes se tornem violentos.
mover o desenvolvimento de grupos de estu- No Território Ocupado da Palestina e na Argé-
dantes e de vínculos sociais fortes, que por lia, meninos transferidos de outras escolas e
sua vez podem promover a resiliência na cri- repetem de ano são mais propensos à violência
ança e a empatia, técnicas de administração que seus colegas.142
de conflitos e pensamento crítico.137, 138
Há dados que sugerem que a concorrência
RESPOSTAS SISTEMÁTICAS A acirrada entre colegas, a violência baseada no
PADRÕES DE VIOLÊNCIA gênero e a violência de gangues nas escolas
estão, em alguma medida, relacionados ao es-
Embora o apoio das famílias e colegas seja im- tresse gerado pela modernidade e pela indus-
prescindível para diminuir a vulnerabilidade trialização. Esses fenômenos são mais comu-
das crianças à violência nas escolas, um nú- mente relatados em áreas urbanas industria-
mero crescente de pesquisas confirma que uma lizadas ou que estão se industrializando rapi-
atenção sistemática ao comportamento de di- damente do que em regiões rurais de países
retores, professores e outros funcionários de menos desenvolvidos. As respostas dos paí-
escolas também é essencial. Se eles adotarem ses aos questionários distribuídos aos gover-
comportamentos abusivos e desrespeitarem os nos no âmbito do Estudo indicam países situ-
direitos, o conforto e a segurança de outros, ados em regiões em processo de industriali-
as crianças seguirão seu exemplo. Muitos es- zação acelerada, como no Leste Asiático, es-
tudos realizados na América do Norte identi- tão começando a ficar preocupados com a
ficaram uma correlação direta entre a falta de prática de bullying e outras formas de vio-
intervenções firmes e a prevalência de violên- lência entre crianças.143
4
"Os colegas da minha turma na escola sabiam que meus pais haviam morrido e me provocavam.
Fui segregado. Me chamavam de 'Filho da AIDS' e 'Garoto TASO'. Eles se recusavam
a se sentar perto de mim."
Menino, beneficiário de bolsa-escola concedida por uma organização de apoio a
vítimas da AIDS na África (TASO), 2004XII

CRIANÇAS VULNERÁVEIS dem ser identificadas em escolas para crianças


À VIOLÊNCIA com necessidades especiais. Escolas que ado-
tam políticas claras de integração e inclusão ten-
A vulnerabilidade das crianças à violência muda dem a concentrar seus esforços em reduzir o
à medida que elas vão crescendo. Na primeira estigma, a discriminação e o bullying sofridos
infância e na fase pré-escolar, sua capacidade por essas crianças, embora dados conclusivos
cognitiva está menos desenvolvida e seu nível a esse respeito ainda não estejam disponíveis.147
de atividade é alto, de modo que seus responsá- Os dados dos países em desenvolvimento são
veis tendem a tentar ensiná-las a evitar perigos, escassos, mas um estudo realizado na região do
a não infligir lesões a elas próprias e a se com- Sul da Ásia revelou que crianças portadoras de
portar de maneiras aceitáveis para adultos re- deficiência às vezes são chamadas pelo nome
correndo a ameaças, tapas e outros meio físi- de sua deficiência, como se fosse o seu nome.148
cos.144 Desde a fase pré-escolar, crianças desen- Estudos que abrangeram sete países do Oriente
volvem certas atitudes em relação a outras, in- Médio e da África do Norte revelaram que cri-
clusive atitudes discriminatórias, que tendem anças com dificuldades de aprendizagem corri-
am riscos muito altos de ser tanto vítimas como 143
a se tornar mais acentuadas quando elas cur-
sam o primeiro grau e podem evoluir para for- perpetradores da prática de bullying dentro e
mas de bullying (ou formas de serem vítimas fora das escolas.149
dessa prática). Pode ocorrer também violência
baseada no gênero de natureza verbal quando a Crianças "de fora", como crianças refugiadas
criança ainda é bem nova que pode evoluir até ou de minorias étnicas, têm uma probabilidade
assumir a forma de ameaças de violência física bem maior de ser excluídas, discriminadas e
na puberdade ou após essa fase. A história de hostilizadas. Dados da Austrália sugerem que
Simon revela como a experiência de cada cri- alunos aborígines têm uma tendência maior de
ança é singular, mas muda ao longo dos anos sofrer abusos verbais por parte de professores
(veja o quadro). e colegas não aborígines do que outros.150 Em
Botsuana, pesquisas realizadas por autoridades
As características individuais da criança também observaram que as taxas de evasão escolar de
podem torná-la mais vulnerável. Segundo pes- crianças Basarwa (ou San) são incomumente
quisadores norte-americanos, criança portadoras altas e que elas abandonam a escola principal-
de deficiência e com dificuldades de aprendiza- mente por se sentirem discriminadas e hostili-
gem geralmente são alvos de exclusão, discrimi- zadas, mas também porque os castigos corpo-
nação e bullying.145 Crianças com distúrbios da rais aplicados nela não condizem com suas cul-
fala ou cujos movimentos foram afetados por turas.151 Crianças de comunidades nômades tam-
condições como distrofia múltipla também são bém podem não freqüentar escolas formais por-
freqüentemente alvos de bullying.146 Em grande que podem ser excluídas, discriminadas ou ex-
parte, no entanto, as evidências desses fatos po- postas a bullying se o fizerem.
A HISTÓRIA DE SIMON: UM ESTUDO DE CASO SOBRE O CICLO DE VIDA
DE UMA CRIANÇA E A VIOLÊNCIA NAS ESCOLAS

Creche: "Eu odiava as meninas e costumava caçoar delas."


"Minha mãe me matriculou no jardim de infância. Fiquei imediatamente racional, passei a ocupar
minha mente com coisas construtivas, (como) construir meus próprios carrinhos, como havia apren-
dido com outras crianças. Eu odiava as meninas e costumava caçoar delas. Quando me viam, elas
saíam correndo, pois sabiam que eu podia bater nelas sem nenhum motivo. Uma freira veio à nossa
creche para dar aulas. Ela introduziu algumas brincadeiras comuns como esconde-esconde e mú-
sicas com as quais brincávamos junto com meninas. Surpreendentemente, passei a adorar todas as
meninas e até a cantar músicas em sua homenagem, comparando-as a rosas."

Séries intermediárias do primeiro grau: "Sempre achávamos que iríamos apanhar


144 pelo menor erro."
"Às vezes apanhávamos porque nossos colarinhos estavam sujos (ou) porque não tínhamos corta-
do as unhas. As punições eram severas. (É impossível) que a camisa de um aluno de 4, 5 ou 6 anos
fique absolutamente limpinha até as quatro horas da tarde, a menos que ele esteja doente. Meu
professor de matemática na oitava série nos obrigou a ficar de joelhos por duas horas em um
sábado porque erramos uma conta. Às vezes nos obrigavam a ficar de joelhos sobre pedrinhas."

Últimas séries do primeiro grau: "Os estudantes eram obrigados a falar inglês o tempo
todo para evitar a fúria dos professores."
"Quando eu estava no quarta série do primeiro grau, foi emitida uma declaração segundo a qual
todos os alunos da 4ª à 8ª séries só deveriam falar em inglês. Se um aluno falasse no seu idioma
nativo, seu nome era anotado pelo monitor da turma, que preparava uma lista dos alunos que
falassem Kiswahili ou outro idioma nativo para ser encaminhada aos professores posteriormen-
te. Depois, uma reunião era convocada e os alunos incluídos na lista eram punidos com seis
golpes de vara se fossem da 4ª série, com sete golpes se fossem da 5ª série e com dez golpes se
fossem da 6ª à 8ª séries. Os professores faziam fila e cada um deles podia bater na criança com
a vara com toda a força. Surpreendentemente, nenhuma professora podia se juntar aos professo-
res ou ficar perto deles. Lágrimas corriam e as crianças se debatiam e berravam sem parar. Não
havia nada a não ser medo e ódio." 145
4
No Sul da Ásia, crianças de castas oficiais e levar crianças infectadas ou afetadas pelo HIV
tribos indígenas sofrem exclusão, discrimina- a abandonar a escola voluntariamente ou a se-
ção e bullying nas escolas. Na América Latina, rem expulsas dela, de acordo com relatos co-
como em outras partes do mundo, crianças in- lhidos não só apenas na região sul da África,
dígenas são frequentemente proibidas de usar mas também em países como Bolívia, El Sal-
suas roupas e penteados tradicionais.152 Em vador, Gana, Haiti, Índia e Nepal.156
países industrializados, crianças de minorias ou
as que usam vestimentas religiosas, como o hi- A situação especial das meninas
jab ou a burca, também são discriminadas pelo
Estado ou autoridades educacionais. Essa dis- Em muitas partes do mundo, há escolas locais
criminação pode ser considerada uma forma de para crianças pequenas, mas elas precisam dei-
violência psicológica, na medida que passa a xar seus lares e passar a viver em colégios in-
idéia de que essas crianças têm menos valor por ternos ou a morar com parentes para poder cur-
serem diferentes e de que aquilo que as torna sar as últimas séries do primeiro grau e o se-
diferentes deve ser suprimido. gundo grau. Isso é o que geralmente acontece
145
em regiões cujas populações estão espalhadas
Crianças órfãs têm uma tendência maior de em áreas rurais remotas, como em montanhas
abandonar a escola ou repetir séries e a dife- ou outros locais de difícil acesso. Os pais te-
rença entre a taxa de freqüência escolar de mem que as meninas sejam agredidas a cami-
crianças órfãs e não órfãs é maior em países nho da escola ou ao voltarem dela a pé ou em
nos quais a taxa de freqüência já é baixa de ônibus lotados. Um estudo realizado pela orga-
um modo geral.153, 154 Na África, crianças ór- nização World Education no Peru revelou que
fãs ou infectadas pelo HIV e com AIDS po- à medida que a distância percorrida por meni-
dem ser estigmatizadas na escola, o que acres- nas para chegar à escola aumenta, suas chances
centa mais sofrimento ainda à sua dor, po- de serem molestadas aumentam na mesma pro-
breza e responsabilidade pela criação de ou- porção. O risco do assédio sexual, do estupro e
tros irmãos. Um relatório recente da organi- da gravidez indesejada mantém meninas peru-
zação Human Rights Watch sobre o impacto anas em casa e aumenta sua taxa de ausência,
do HIV e da AIDS sobre o acesso de crianças repetência e evasão escolar.157
afetadas à educação no Quênia, na África do
Sul e em Uganda documenta como a estig- A campanha Educação para Todos lançou luz
matização na escola gera provocações por sobre o fato de que as meninas têm menos aces-
parte de colegas e dificulta a comunicação so à escola que os meninos na maioria dos paí-
entre as crianças e seus professores sobre ses em desenvolvimento, de que essa diferença
doenças na família.155 No contexto do silên- aumenta muito após as séries iniciais e de que
cio e da vergonha que costuma caracterizar a há uma forte correlação entre baixos níveis de
infecção do HIV, o medo do estigma, da dis- escolaridade entre meninas e mulheres e bai-
criminação e da violência em potencial pode xos níveis de desenvolvimento nacional.158, 159
"Um dia, meu pai não pôde ir buscar minha irmã na escola e ela precisou voltar para casa sozinha. No caminho para
casa, quatros meninos passaram a mão nela, mas ela não teve coragem de contar isso ao nosso pai. Ela me contou o
aconteceu, mas eu também não tinha como contar ao papai."

Menino, Sul da Ásia, 2005XIII

Em algumas sociedades caracterizadas por bai-


xos níveis de escolarização entre meninas, o iso-
lamento delas em casa após a puberdade ainda é
comum, bem como a taxa de casamentos preco-
ces. Isso acontece, por exemplo, em muitas par-
tes do Sul da Ásia e do Oriente Médio. Mesmo
quando elas não são segregadas, pesquisas reve-
lam que seus pais temem pela segurança sexual
de suas filhas na escola. Na África Subsaariana,
esse temor é exacerbado pelo medo da infecção
do HIV. Em 2001, um estudo da organização
Human Rights Watch sobre violência de gênero
identificou níveis alarmantes de violência sexu-
al contra meninas na escola, bem como um grau
altíssimo de tolerância e conluio em relação a
146 esse fato por parte de professores.160 Esses fa-
tos frequentemente geram pressões para que as
meninas abandonem a escola.161

RESPOSTAS À VIOLÊNCIA
CONTRA A CRIANÇA NAS
ESCOLAS E EM AMBIENTES
AZERBAIJÃO, 2004. Duas crianças de um colégio interno
EDUCACIONAIS da cidade de Sheki.

Nos muitos fóruns infantis e Consultas Regionais z Elas querem que professores e outros funci-
realizados e nos documentos apresentados como onários de escolas as ajudem a desenvolver
contribuições para o Estudo, crianças de todas as relacionamentos positivos com eles e a de-
partes do mundo emitiram mensagens claras: senvolver hábitos de respeito mútuo e empa-
tia que as ajudem a conquistar uma vida de
z Elas querem que a violência seja eliminada. cidadania construtiva.
z Elas querem que professores e outros funcionári- z Elas querem que seus pais e outros adultos
os de escolas as orientem com firmeza aceitan- fora da escola desempenhem papéis constru-
do-as como e elas são, respeitando seus direitos tivos em relação à sua educação, promoven-
e ajudando-as a se expressar construtivamen- do e apoiando escolas sem violência e garan-
te e a desenvolver seu potencial plenamente. tindo-lhes lares e comunidades seguros.164
4
UMA VISÃO RÁPIDA DA SITUAÇÃO DE CRIANÇAS FORA DA ESCOLA
z 115 milhões ou 18% das crianças em idade de cursar o primeiro grau estavam fora da escola
em 2001/2002. Desse grupo, 61,3 milhões (53%) eram meninas, 45 milhões (39%) estavam
na África Subsaariana e 42 milhões (36%) estavam no Sul da Ásia. As que apresentavam a
maior probabilidade de estar fora da escola eram as da África Ocidental e Central (45,3%), da
África Oriental e da região sul da África (38,5%%), do Sul da Ásia (26%), do Oriente Médio
e da África do Norte (18,7%), sendo que em todas essas regiões a probabilidade de meninas
não estarem freqüentando a escola era maior em relação à de meninos. A maior disparidade
entre meninos e meninas foi a registrada no Oriente Médio e na África do Norte, onde 15,4%
dos meninos e 22,1% das meninas estavam fora da escola.
z Meninos e homens jovens ainda têm chances muito maiores de estudar do que meninas e
mulheres jovens. Dos 86 países em desenvolvimento para os quais há dados disponíveis, 50%
conseguiram garantir a paridade de gênero (equalização das chances de meninas e meninos
freqüentarem escolas) no primeiro grau, mas apenas 20% garantiram essa paridade no segun- 147
do grau e somente 5% no ensino superior.162
z Em diversas partes do mundo, cursar o segundo grau é um luxo. A taxa bruta de matrículas (número
de crianças e adultos de qualquer idade que estão cursando o segundo grau em relação ao número de
crianças na idade oficial de cursar esse nível de ensino) é inferior a 40% em diversos países da África
Subsaariana, do Sul, Oeste e Leste Asiático, do Pacífico, da África do Norte e do Oriente Médio e
inferior a 60% em muitos outros países dessas regiões e da América Latina e do Caribe.163

As diversas contribuições apresentadas para o Infelizmente, não existem soluções estratégicas


Estudo também mostraram que há boas razões simples ou únicas. Para serem eficazes, é impor-
para se ter esperança de que os sonhos dessas tante que as iniciativas prevejam medidas gerais
crianças podem e serão realizados, bastando, de prevenção, como, por exemplo, modelos edu-
para tanto, que os paises se comprometam a cacionais que ensinem habilidades de vida às cri-
acelerar e sustentar seus avanços no sentido de anças como parte do currículo e intervenções opor-
garantir escolas sem violência. Atualmente, um tunas quando problemas forem detectados, além
número muito maior de pessoas sabe que há de prever a oferta de atividades e instalações se-
violência nas escolas e está ciente do mal que guras e supervisionadas para crianças e jovens.165
ela faz às crianças e a toda a sociedade e essa
conscientização está se ampliando rapidamen- Este Estudo concluiu que as abordagens mais
te. Muitos países de todas as regiões estão to- eficazes para combater a violência nas escolas
mando medidas para combater a violência e devem ser especificamente concebidas para fa-
evidências estão se acumulando em relação às zer frente às circunstâncias singulares das es-
abordagens que parecem funcionar melhor. colas em questão, mas que elas também têm
elementos-chave comuns. Especificamente, elas gem "baseada em direitos" ou "amiga da criança".
devem basear-se no reconhecimento de que to- Ela deve ser compatível com a CDC, com outros
das as crianças têm direitos iguais à educação protocolos internacionais de direitos humanos e
em ambientes sem violência e que uma das fun- com os objetivos do movimento pela Educação para
ções da educação é produzir adultos imbuídos Todos, além de amplamente endossada por orga-
de valores e práticas de não violência. nismos internacionais. O mais importante é que ela
atenda ao apelo de crianças e jovens de todo o
A abordagem geral pode ser chamada de aborda- mundo, que desejam que a violência acabe.

O PAPEL DA INICIATIVA DAS NAÇÕES UNIDAS PARA A EDUCAÇÃO DE


MULHERES (UNGEI) NA PROMOÇÃO DA PARTICIPAÇÃO FEMININA
Em 2000, Secretário-Geral das Nações Unidas, Kofi Annan, confirmou seu forte compromisso com
a educação de meninas ao lançar a Iniciativa das Nações Unidas para a Educação de Meninas (UN-
148 GEI), que consiste em uma parceria para promover a educação de meninas e a igualdade de gênero.
A iniciativa está se consolidando como uma estratégia eficaz para prevenir a violência contra meni-
nas. Em países onde a UNGEI foi estabelecida, parceiros trabalham juntos para fortalecer interven-
ções concebidas para promover o acesso de meninas a uma educação de qualidade. Suas interven-
ções incluem medidas para acelerar e incentivar a participação de meninas e meninos em processos
que promovem seu empoderamento. Por exemplo, o Movimento para a Educação de Meninas (GEM)
está sendo implementado em Botsuana, Lesoto, Quênia, Uganda, África do Sul, República Unida da
Tanzânia, Zâmbia e Zimbábue como um componente importante do UNGEI. Quando o GEM foi
lançado, em 2001, o programa foi conceitualizado como uma iniciativa educacional pan-africana por
meio da qual meninas se tornariam líderes da transformação da África e agentes em processos deci-
sórios relacionados a oportunidades educacionais para elas. Em Uganda, o GEM tem atuado ativa-
mente no sentido de garantir que órfãos e outras crianças vulneráveis tenham acesso a escolas e tem
trabalhado com autoridades locais e lideranças tradicionais no combate ao casamento precoce. Em
Botsuana, o GEM realizou um estudo de marco zero sobre a segurança nas escolas que está sendo
editado para ser publicado. Na África do Sul, o GEM atua por meio de parcerias público-privadas
para apoiar a educação de meninas em matemática, ciência e tecnologia e, com patrocínio do UNI-
CEF, vem desenvolvendo diferentes atividades para garantir que as vozes de meninas e meninas
sejam ouvidas, principalmente na arena da formulação de políticas. Os Parlamentos de Meninas
patrocinados pelo GEM e pelo Ministério da Educação da África do Sul permitiram que meninas
contribuíssem na formulação de políticas para questões relacionadas à violência sexual nas escolas.
O primeiro evento do Parlamento de Meninas da África do Sul foi realizado em 2003. Vale observar
que, na África do Sul, o GEM também desenvolveu cartazes sobre a violência de gênero e estabele-
ceu um sistema de atendimento telefônico para elas expressarem suas opiniões livremente.168
4
Os princípios básicos de uma escola baseada gos corporais, assédio e agressão sexuais e outras
em direitos e amiga da criança são os seguin- formas de violência constitui uma medida essen-
tes, entre outros:166,167 cial para se avançar no sentido de termos escolas
sem violência. A experiência tem revelado, no
1. Inclusão proativa. A escola estimula e permite entanto, que muitos países estão demorando mui-
a participação de crianças dos dois gêneros, prin- to para cumprir suas obrigações internacionais e
cipalmente das que são diferentes em termos de regionais e aplicar suas próprias leis na prática.
etnia, cultura, idioma e condição socioeconômi-
ca e em suas habilidades ou deficiências. Desde que a Assembléia Geral da ONU adotou
a CDC, em 1989, muitos países vêm tomando
2. Academicamente eficaz e relevante. Ela sa- medidas para banir castigos corporais nas esco-
tisfaz necessidades conhecimentos, atitudes las, embora eles frequentemente sejam relapsos
e habilidades de vida e de meios de vida. na aplicação efetiva de suas leis. Tribunais de
alto nível em diversas regiões, inclusive na Na-
3. Sensível ao gênero. Ela cria ambientes que míbia (Supremo Tribunal, 1991), África do Sul
estimulam a igualdade de gênero e satisfaz (Tribunal Constitucional, 2000) e tribunais de 149
necessidades em termos de conhecimento, diversas unidades de países federativos - como,
atitudes e habilidades que podem garantir por exemplo, de Delhi, da Índia (Tribunal Supe-
essa igualdade. rior de Delhi, 2004) e do Canadá (Supremo Tri-
bunal, 2004)169 - condenaram os castigos corpo-
4. Saudável e protetora. Ela promove e prote- rais nas escolas e exigiram sua proibição.
ge o bem-estar emocional, psicológico e fí-
sico das crianças proporcionando clima edu- Em seu comentário Geral no. 8, o Comitê dos
cacional saudável e protetor. Direitos da Criança observa o seguinte: "Onde,
apesar da proibição, educação positiva e progra-
5. Envolvida com a família e com a comuni- mas de treinamento, casos de castigo físico ve-
dade. Ela estimula e permita a participação nham à tona fora do lar familiar - em escolas,
das famílias das crianças e da comunidade no outras instituições e formas de cuidado alterna-
desenvolvimento e implementação de todos tivo, por exemplo - a instauração de um proces-
os aspectos de suas políticas e programas, in- so jurídico pode ser uma resposta razoável."170 A
clusive os desenvolvidos para proteger crian- ameaça de aplicar uma medida disciplinar ou
ças de perigos e ensiná-las a respeitar os di- demitir um agressor pode também claramente
reitos de outras crianças à mesma proteção. dissuadir pessoas de aplicar castigos físicos. É
essencial que a proibição de todo castigo corpo-
A LEGISLAÇÃO E SUA APLICAÇÃO ral e outras punições cruéis ou degradantes e as
sanções que podem ser aplicadas se ela for des-
A aprovação de convenções internacionais, acor- respeitada sejam bem comunicadas e divulga-
dos regionais e leis nacionais que abordam casti- das entre as crianças e todas as pessoas que tra-
balham com ou para elas em qualquer ambiente. podem ser usadas para proteger professores e
O monitoramento de sistemas disciplinares e o alunos. Na África do Sul, por exemplo, a Lei 4
tratamento de crianças devem ser componentes (2000) de Promoção da Igualdade e da Preven-
de uma supervisão sustentada de todas as insti- ção da Discriminação Injusta define o assédio
tuições e funções. Crianças e seus representan- como uma "conduta indesejada, persistente ou
tes em todas essas funções devem ter um acesso séria que avilta, humilha ou cria um ambiente
imediato e confidencial a aconselhamento, ações hostil ou de intimidação ou que é calculada
de advocacy e procedimentos de queixa sensí- poder induzir submissão... relacionada a sexo,
vel às necessidades da criança e, se necessário, a gênero ou orientação sexual". O governo da
tribunais e a uma assistência jurídica especializa- África do Sul adotou medidas para tornar a in-
da. Deve ser obrigatório, nas instituições, notifi- vestigação dos casos alegados de estupro mais
car e examinar quaisquer incidentes violentos. sensíveis às preocupações das vítimas e, por-
tanto, mais propensa a gerar processos judici-
Muitos países têm leis ou, pelo menos, políti- ais bem-sucedidos. Além disso, o Ministério da
cas para prevenir o assédio sexual no local de Educação da África do Sul estabeleceu diretri-
150 trabalho que geralmente se aplicam a ambien- zes aplicáveis às relações sexuais entre alunos
tes educacionais de trabalho, como escolas, e e professores nas escolas (veja quadro).171

DIRETRIZES SUL-AFRICANAS PARA IMPEDIR QUE PROFESSORES


ABUSEM SEXUALMENTE DE ALUNOS
Em 2000, o Ministério da Educação da África do Sul estabeleceu diretrizes que observaram a preva-
lência do abuso sexual de alunos por parte de professores e seu conseqüente risco de transmissão do
HIV. As diretrizes explicam a legislação e as conseqüências de sua não observância:
– Educadores não devem ter relações sexuais com estudantes. Esse ato contraria a lei, mesmo com
o consentimento do aluno. Ele transgride o código de conduta dos educadores, que ocupam fun-
ções de confiança.
– Medidas disciplinares rígidas serão aplicadas contra qualquer educador que tenha relações sexu-
ais com um aluno.
– Relações sexuais exigidas por um educador sem o consentimento do aluno configuram estupro,
que é um crime grave pelo qual ele será processado judicialmente. Se um educador tiver relações
sexuais com uma menina ou menino abaixo de 16 anos, ele será processado por estupro e pode ser
condenado à prisão perpétua.
– Se você tiver conhecimento de que um colega está mantendo relações sexuais com um aluno,
deverá comunicar esse fato ao diretor da sua escola ou a autoridades educacionais superiores, e se
o aluno tiver menos de 16 anos de idade, ele deve ser comunicado à polícia, caso contrário você
poderá ser processado como cúmplice de estupro.172
4
DOIS PAÍSES NOS QUAIS COMISSÕES NACIONAIS DESENVOLVEM E
APLICAM MEDIDAS DE COMBATE À VIOLÊNCIA
A Lei da República da Coréia sobre a Prevenção da Violência Escolar exige que um novo plano de
prevenção da violência nas escolas seja elaborado a cada cinco anos. Uma Comissão Nacional tem a
responsabilidade de coordenar e monitorar a implementação do plano e de fiscalizar suas avaliações
e atualizações qüinqüenais. Todas as escolas são obrigadas a realizar sessões regulares para avaliar
suas contribuições para a implementação do plano e recomendar quaisquer ações consideradas ne-
cessárias dentro da escola ou fora dela.

Em Chipre, o Ministério da Educação exige que todas as escolas estabelecerem uma comissão para
avaliar necessidades de "prevenir e combater a violência na família e no ambiente escolar". Essas
comissões têm poderes para receber e investigar denúncias de violência antes de encaminhá-las às
autoridades adequadas.174
151

A subnotificação de todas as formas de vio- POLÍTICAS E PROGRAMAS


lência é um problema crônico na maioria dos ESCOLARES BASEADOS EM
países. Ela é determinada por diversos fato- DIREITOS
res, como a falta de confiança na capacida-
de das autoridades de intervir construtiva- Muitas políticas e programas escolares basea-
mente e o medo de repercussões para as ví- dos em direitos foram adotados em todas as re-
timas e suas famílias e até para os agresso- giões do mundo. Somente alguns deles foram
res, considerando que muitos atos de violên- rigorosamente avaliados - e principalmente em
cia são cometidos dentro de círculos de pes- países industrializados - mas seus resultados são
soas que se conhecem. animadores e mostram que soluções eficazes
podem ser adotadas, embora não sejam ampla-
As respostas dos governos ao questionário mente implementadas.
encaminhado a eles como parte do Estudo173
revelam que alguns países reformaram suas A UNESCO identificou programas promisso-
leis e melhoraram sua aplicação para con- res contra a violência escolar em oito países -
templar a violência escolar de maneiras mais Austrália, França, Israel, Japão, Irlanda do Nor-
holísticas, como parte de esforços mais am- te, Noruega, África do Sul e Estados Unidos.
plos para promover e apoiar uma educação Esses programas são bem vistos e apreciados
amiga da criança e baseada em seus direitos por administradores, professores, alunos e pais
(veja o quadro). e já revelaram seus primeiros sinais de eficácia
na redução da violência nas escolas. As poucas desempenhar um papel importante na equali-
pesquisas realizadas para avaliar esses progra- zação do poder e na eliminação de abusos de
mas indicam que, além de reduzir a violência, poder. As escolas podem ser orientadas pelos
eles ajudam os alunos a desenvolver melhores padrões mais elevados de direitos humanos em
habilidades sociais, uma auto-estima maior e tudo o que fazem e utilizar métodos alternati-
também um senso de maior controle pessoal vos e não violentos de comunicação, negocia-
sobre suas vidas, além de ajudá-los a ter um ção e solução de conflitos.
melhor desempenho acadêmico.175
Um conjunto cada vez maior de pesquisas con-
Nos últimos dez anos, uma séria preocupação com sidera que as escolas são sistemas sociais e pro-
a violência nas escolas norte-americanas gerou curou identificar partes do sistema que podem
uma quantidade considerável de pesquisas e ex- ser mudadas no sentido de reduzir a violência.
perimentações com diferentes intervenções e atu- Sua conclusão é de lideranças educacionais efi-
almente há uma vasta literatura disponível que cazes (como os responsáveis por órgãos educa-
documenta e avalia diferentes abordagens.176,177 cionais e diretores de escolas) podem contribuir
152 Como resultado, há provas atualmente de aborda- muito para melhorar a qualidade da vida escolar
gens que deram certo no Canadá e nos Estados trabalhando com outras partes interessadas no
Unidos. Pesquisas e experimentações semelhan- sentido de desenvolver e implementar políticas
tes estão sendo realizadas em muitos outros paí- para reger a condutas e a disciplinas de profes-
ses e, onde avaliações foram feitas, elas revela- sores e alunos e promover a confiança das co-
ram que esses países estão identificando aborda- munidades nas escolas.178, 179 Um estudo sobre
gens que funcionam também. Não há razões para escolas em Botsuana e Gana concluiu que a ca-
se duvidar de que, com a vontade e os recursos racterística mais comum entre escolas seguras e
necessários (geralmente mínimos), qualquer país, de alto desempenho é uma gestão sólida.180
comunidade ou escola pode identificar formas
eficazes de reduzir a violência nas escolas. Uma avaliação de programas contra a violência
em escolas da América Latina e do Caribe indi-
A discussão que será apresentada a seguir con- cou a importância de se desenvolver atitudes e
centra-se em áreas específicas de intervenção e comportamentos positivos em crianças desde a
oferece exemplos de práticas promissoras ado- mais tenra idade, mantendo o esforço para cons-
tadas em todas as regiões do mundo. truir esses valores ao longo de toda a vida esco-
lar e fazendo isso por meio de mecanismos como
DESENVOLVIMENTO DE o de permitir que alunos participem de proces-
LIDERANÇAS E POLÍTICAS sos decisórios que moldam seus ambientes es-
colares.181 Para garantir essa continuidade, as
As políticas adotadas para combater a violên- autoridades responsáveis pela supervisão das
cia devem reconhecer que as escolas são, aci- escolas devem tomar todas as medidas necessá-
ma de tudo, locais de aprendizagem que podem rias em nível nacional, estadual ou municipal.
"Se os professores dizem coisas que não deviam, não se importam com o que dizem e não nos
respeitam, como podem esperar que os respeitemos? Eles não são bons exemplos para nós."
Aluno, Sub-região do Oceano Índico, 2006XIV
4
Um estudo longitudinal realizado na Noruega iden- dadãos maduros e responsáveis. Mesmo quando
tificou uma relação causal entre boas técnicas de crianças sofrem violência em seus lares e comu-
administração de salas de aula e uma menor vio- nidades, os professores podem mostrar a elas
lência entre colegas de turma.182 Além disso, o cur- modelos de não violência desde tenras idades.
rículo deve promover os valores da igualdade soci-
al, da tolerância em relação à diversidade e de ma- Uma boa seleção e capacitação de professores
neiras não violentas de solucionar conflitos. devem constituir a base de qualquer estratégia
abrangente e de longo prazo para reduzir a vio-
O que acontece fora da sala de aula também é lência não apenas nas escolas, mas também na
crucial. As autoridades educacionais devem ofe- sociedade como um todo. No entanto, a realidade
recer orientação e apoio aos responsáveis por es- é que muitos países não valorizam adequadamen-
colas e professores no sentido de ajudá-los a criar te seus professores, não enfatizam a necessidade
um clima positivo fora da sala de aula por meio de contratar os melhores candidatos, não ofere-
de mudanças na gestão da escola. Códigos de con- cem capacitações adequadas antes de sua contra-
duta devem ser desenvolvidos e aplicados na prá- tação e em serviço, pagam salários baixos a eles e
tica por meio de processos que permitam a qual- os expõem a condições de trabalho precárias - 153
quer parte interessada expressar suas opiniões; por muitas vezes em escolas e salas de aula superlota-
exemplo, por meio de conselhos de alunos e asso- das e mal equipadas. Na maioria dos países, pro-
ciações de pais. O ambiente criado com medidas fessores já sobrecarregados são forçados a assu-
dessa natureza pode se espalhar para a comunida- mir mais responsabilidades no contexto do com-
de como um todo quando, por exemplo, os alunos bate à violência nas suas escolas, embora geral-
levam para casa os valores e hábitos que aprende- mente não tenham sido capacitados para essa ta-
ram na escola e, posteriormente, para seus locais refa e não possuam os conhecimentos necessári-
de trabalho, relacionamentos e assim por diante. os para assumir essas responsabilidades adicio-
nais. Se apesar dessa situação as escolas conse-
APOIO AO PESSOAL DE ESCOLAS guem atrair bons professores, é difícil mantê-los.

Há quase 43 milhões de professores de ensino Todos esses fatores devem ser levados em con-
básico e médio em todo o mundo, além de uma sideração no processo de se avaliar a necessida-
número desconhecido de professores em pré-es- de de adotar novos modelos de seleção, capaci-
colas e outros contextos educacionais, e seu po- tação e retenção de professores. Os professores
tencial de servir de exemplo para crianças é enor- não podem assumir todo o ônus, de modo que
me.183 Os professores estão entre os mais impor- qualquer avaliação de suas necessidades deve
tantes agentes de desenvolvimento social e mu- considerar de que maneira autoridades educaci-
danças de um país, uma vez que oferecem contri- onais, diretores de escolas e outros funcionários
buições essenciais para o desenvolvimento emo- dessas instituições, bem como pais e comunida-
cional e cognitivo de gerações atuais de crianças des, podem estar minando seu trabalho e de que
e, conseqüentemente, de gerações futuras de ci- maneira poderiam contribuir para apóiá-lo.
A maioria dos governos que respondeu ao (Gâmbia, Nigéria, Ilhas Seichelles, Cingapu-
questionário do Estudo184 informou que eles, ra, Suíça e Tailândia), penalidades (Cama-
ONGs ou parcerias entre eles estavam apoi- rões, Cingapura, Sri Lanka, Suíça e Tailân-
ando programas de capacitação de professo- dia), métodos para educar alunos em medi-
res que incluem a questão da violência. No das de prevenção e proteção (Bulgária, Estô-
entanto, essas capacitações frequentemente nia, Indonésia e Países Baixos) ou métodos
não são contínuas, sistemáticas e sustentáveis. para integrar os direitos humanos e a não vi-
A maioria dos programas de capacitação en- olência aos currículos (Brasil e Ilhas Seiche-
volve elementos de prevenção e proteção, al- lles). Embora todos esses esforços sejam cor-
guns deles abordam questões relacionadas à retos, é óbvio que são necessárias melhorias
reabilitação de vítimas ou agressores e um mais radicais e sustentáveis na capacitação
número reduzido contempla reparações de professores na cultura da não violência.

NA CROÁCIA, UMA CAMPANHA POR ESCOLAS "SEGURAS E


154 CAPACITADORAS" PRODUZ RESULTADOS INICIAIS
No verão de 2004, após amplas consultas a ministérios, organizações da sociedade civil e outros órgãos,
o UNICEF lançou uma campanha em cinco fases denominada "Por um Ambiente Escolar Seguro e
Capacitador" na Croácia. Antes de seu lançamento, pesquisas nacionais com alunos, pais e professores
estabeleceram dados de marco zero sobre a violência nas escolas. A campanha foi programada para
durar 18 meses e, 12 meses depois, uma avaliação revelou que ela estava superando as expectativas.

Mais de 4.500 professores, o dobro do número inicialmente previsto, haviam sido capacitados em
métodos não violentos de ensino, disciplina e intervenção contra a violência entre crianças. A campa-
nha havia abrangido 121 escolas e mais de 60.000 crianças, 20% a mais que o número estabelecido,
e com 15% a menos que o orçamento previsto. Mais de 92% dos cidadãos croatas foram informados
sobre a campanha e mais de 80% de seu financiamento passaram a ser disponibilizados por doadores
e empresas individuais da Croácia. O aspecto mais importante é que foram observadas reduções
expressivas em algumas formas de violência e uma maior conscientização sobre outras. Por exem-
plo, crianças e professores começaram a reconhecer todas as formas de bullying mais facilmente e
ficaram melhor preparadas para eliminá-las. Mais de 80% dos alunos aprenderam regras contra a
violência escolar e sabiam identificar um adulto a quem podiam recorrer para pedir ajuda.

Ainda havia, no entanto, desafios a serem superados. Os professores passaram a se sentir mais prepara-
dos para lidar com a violência nas escolas, mas embora os alunos se sentissem mais seguros, eles ainda
não achavam que as escolas ofereciam uma proteção suficiente contra a violência. A avaliação concluiu
que era necessário envolver mais os pais e fortalecer o apoio entre colegas em prol da não violência.185
4
CLUBE DE DIREITOS DAS CRIANÇAS EMPODERA ALUNOS
DE ESCOLAS EM ZÂMBIA
A Associação de Educação Cívica (ZCEA) de Zâmbia trabalha para promover e proteger os direitos das
crianças por meio da educação cívica. Seu Programa de Participação Infantil apóia Clubes de Direitos
das Crianças que empoderam crianças conscientizando-as de seus direitos previstos na CDC, na Carta
Africana dos Direitos e Bem-Estar da Criança e em outros instrumentos. Pelo menos 300 Clubes de
Direitos Infantis foram implementados em escolas primárias e secundárias em Zâmbia.195

A PARTICIPAÇÃO DE CRIANÇAS A iniciativa Save the Children teve diversas


experiências de primeira mão com parceiros no
Envolver crianças no desenvolvimento e im- estabelecimento e apoio a organizações e inici-
plementação de programas é importante para ativas conduzidas por crianças por meio das 155
construir conhecimentos, atitudes e habili- quais elas cobram medidas de decisores e cui-
dades pessoais, garantir a relevância dos pro- dadores adultos e trabalham com eles no com-
gramas e fazer com que todas as partes inte- bate à violência escolar.190 Pesquisas realizadas
ressadas "vistam a camisa" de suas propos- nos Estados Unidos sugerem que as melhores
tas e, em última instância, melhorem seus iniciativas tendem a ser aquelas nas quais alu-
resultados.186, 187 Um estudo do Ministério do nos e professores trabalham juntos no desen-
Desenvolvimento Internacional do Reino volvimento e implementação de estratégias para
Unido (DFID) realizado em Bangladesh, Qu- tornar as escolas seguras para todos. A inter-
ênia, Nepal, Sri Lanka, Uganda e Zâmbia re- mediação e o aconselhamento de colegas, por
velou que ambientes de ensino que colocam exemplo, são mais eficazes quando alunos e
as crianças no centro das experiências de professores trabalham juntos no desenvolvi-
aprendizagem, para que seus professores ou- mento e avaliação métodos adequados de inter-
çam suas preocupações e necessidades, têm mediação e aconselhamento.191
uma probabilidade maior de combater a vi-
olência eficazmente do que outras escolas.188 Estudos e experiências exploratórios em to-
Um outro estudo internacional desenvolvi- das as regiões identificaram benefícios, al-
do pela organização World Vision observou guns dos quais inesperados, na prática de
que em comunidades nas quais crianças par- envolver crianças no desenvolvimento e im-
ticipam de discussões e medidas de comba- plementação de programas de combate à vio-
te à violência o debate é mais aberto e tem lência nas escolas.192 Crianças podem ofere-
uma tendência maior de produzir estratégi- cer uma visão abrangente de suas experiên-
as especificas. 189 cias de violência na escola e, assim, passar
informações necessárias ao pessoal das es- Outras partes deste capítulo citam exemplos de
colas para que tomem medidas adequadas. como pais e comunidades uniram forças para
Envolver crianças é uma intervenção efici- discutir todas as questões relacionadas à vio-
ente em si, pois essa prática ajudar na sua cura lência nas escolas. Onde esse tipo de participa-
por meio do relato de experiências e do com- ção ainda não existe, outros mecanismos po-
partilhamento de sentimentos e permite que dem estar disponíveis para garantir o envolvi-
o pessoal aprenda sobre suas experiências e mento necessário. No Lesoto, na República
sentimentos, o que, por sua vez, ajuda a mu- Unida da Tanzânia e em diversos outros países
dar seus comportamentos e atitudes.193, 194 da África Subsaariana, por exemplo, há comi-
tês locais que envolvem uma ampla gama de
TRABALHANDO COM PAIS partes interessadas para discutir todas as ques-
E COMUNIDADES tões relacionadas ao HIV e à AIDS. A cidade
do México, o Nepal e Quênia oferecem exem-
Muitos países têm a tradição de envolver pais e plos do que grandes cidades ou países inteiros
comunidades na vida escolar. Na América do podem fazer para envolver pais e comunidades
156 Norte, há uma longa tradição de associações de (veja quadros abaixo).
pais e mestres. Tipicamente, esse grupos man-
têm associações em todas as escolas públicas DISCIPLINA INFANTIL CONSTRUTIVA
dentro das comunidades e uma associação guar-
da-chuva para a comunidade como um todo e A abordagem baseada em direitos e centrada na
permitem que os pais monitorem as escolas e criança exige a definição de códigos de conduta
intervenham quando consideram necessário. Nos aceitos por todos os membros da comunidade es-
Estados Unidos, a Coalizão de Escolas Seguras colar que estabeleçam pontos de referência morais
de Washington foi estabelecida a partir da preo- e sociais e enfatizem os valores que os sustentam,
cupação com a violência contra gays e lésbicas inclusive os valores previstos na CDC e em outras
nas escolas de Seattle, mas essa coalizão e ou- convenções sobre direitos humanos. A disciplina
tras semelhantes a ela em muitos outros estados deve procurar oferecer um reforço positivo, críti-
passaram a atuar como parcerias público-priva- cas construtivas e orientação e instruções claras.
das, por meio das quais muitas organizações go- Exceto em casos extremos, ela não deve promover
vernamentais e não governamentais cooperam medidas que possam prejudicar o desenvolvimen-
umas com as outras no combate à violência e na to cognitivo e emocional de uma criança.
abordagem de outras questões relacionadas à
segurança nas escolas.196 Muitos outros países Pesquisas recentes sobre regimes disciplinares
possuem organizações semelhantes, por meio das estabeleceram uma distinção entre o que seriam
quais pais e organizações comunitárias discutem regimes proativos e reativos. Os regimes proati-
uma ampla gama de questões nas escolas em vos enfocam a prevenção e geralmente baseiam-
colaboração com autoridades educacionais, di- se em pesquisas cuidadosas sobre o que funcio-
retores de escolas e professores.197 na, além de estabelecerem uma estrutura jurídi-
4
ca, políticas transparentes, regras claras de con- BULLYING: PREVENÇÃO E
duta e mecanismos de aplicação. Os regimes re- INTERVENÇÃO
ativos freqüentemente baseiam-se em afirmações
gerais mal informadas e exigem "tolerância zero" Com seu Programa Olweus de Prevenção da Prá-
e punições severas. Eles frequentemente envol- tica de Intimidação Ostensiva (Bullying), a Noru-
vem suspensões ou expulsões de crianças da es- ega tem liderado esforços para reprimir a prática
cola, que apenas transferem o problema para uma de bullying nas escolas. O monitoramento de qua-
outra escola ou para a comunidade sem ajudar tro coortes de 600-700 alunos do primeiro grau
as crianças afetadas como deviam. Essas medi- indicou que, em dois anos, o programa havia re-
das violam o direito de uma criança à educação. duzido o bullying em 50% ou mais. As taxas de
Uma disciplina firme mas justa pode corrigir ausência escolar, roubo, vandalismo e outros com-
comportamentos inaceitáveis sem que se faça uso portamentos anti-sociais também caíram para
de violência.201 O consenso entre educadores ambos os gêneros e em todas as séries.204 A abor-
conceituados é que os regimes reativos são ine- dagem Olweus foi testada e aprovada em vários
ficazes no longo prazo.202 Nesse contexto, a Unes- outros países, inclusive na Austrália, na Alema-
co delineou princípios básicos que devem reger nha e nos Estados Unidos.205 Ela não foi testada 157
a disciplina escolar da criança que enfatizam a em países não industrializados, principalmente
crítica construtiva, orientações e instruções cla- porque o bullying ainda não cresceu a ponto de se
ras e os princípios da CDC.203 tornar um problema público nesses países.

CIDADE DO MÉXICO - PROJETO 'COMBATENDO A VIOLÊNCIA:


EDUCAÇÃO PARA A PAZ'
Na Cidade do México, desigualdades sociais, a pobreza e outros fatores têm contribuído para o
aumento da violência nos lares, escolas e na cidade como um todo e a violência escolar tem sido
associada a taxas elevadas de evasão escolar precoce. Atualmente, mais de 1.500 das escolas da
cidade e 450.000 de seus estudantes estão participando de um projeto chamado "Combatendo a
Violência: Educação para a Paz - Para Mim, Para Você e Para Todo Mundo". O projeto consiste
em workshops de treinamento concebidos para desenvolver a capacidade de diretores de esco-
las, professores, alunos e pais de solucionar conflitos de maneiras não violentas. Medidas de
acompanhamento nas escolas visam garantir que lições sejam colocadas em prática e oferecer
apoio aos indivíduos responsáveis por continuar a desenvolver a capacidade de cada população
escolar de solucionar conflitos pacificamente. O projeto foi lançado e produziu resultados posi-
tivos graças à liderança e apoio incansáveis da Secretaria de Educação e, principalmente, dos
diretores das escolas. O que se espera agora é que o projeto se torne um programa permanente
após as próximas eleições gerais a serem realizadas no município.198
NEPAL - MENINAS TOMAM MEDIDAS PRÁTICAS PARA PÔR FIM AO
ASSÉDIO SEXUAL
Em Surkhet, Nepal, a organização Save the Children vem apoiando meninas em seus esforços
para educar homens e meninos e tornar suas escolas e comunidade mais seguras. Meninos e
homens adultos (inclusive autoridades educacionais e líderes comunitários) não tinham consci-
ência de que as meninas viam suas "provocações inocentes" como assédio sexual e discrimina-
ção até que elas mapearam locais nos quais se sentiam inseguras. Examinando e discutindo os
mapas, eles conseguiram reconhecer que aqueles eram os locais nos quais meninas sofriam
essas provocações regularmente. Além disso, as meninas criaram redes por todo o vilarejo e no
distrito com vínculos a grupos de meninas em outros vilarejos, à polícia local, a grupos de
professoras e de mulheres e à comissão municipal do bem-estar da criança.199

158
QUÊNIA - CAMPANHA "DEFENDA OS DIREITOS DA CRANÇA"

Na primavera de 2006, uma campanha para pôr fim à violência contra a criança foi lançada no
Quênia com o apoio do Unicef. A campanha solicitou que famílias, escolas, organizações religio-
sas, o setor privado, os meios de comunicação de massa de massa e todos os demais membros da
sociedade queniana participassem (com apoio financeiro ou de outra natureza) em esforços para
garantir que todos os lares, escolas e comunidades da nação se comprometessem a eliminar a
violência contra a criança. O objetivo da campanha é juntar as forças de todos contra a violência e
informá-los sobre o que podem fazer para criar ambientes nos quais todas as crianças quenianas
possam desenvolver todo o seu potencial. A campanha também arrecadou fundos para apoiar:
z Um pacote essencial de serviços de proteção à criança em comunidades mais vulneráveis.

z Números telefônicos gratuitos nos quais adultos e crianças vítimas de violência podem solici-
tar ajuda.
z Abrigos seguros para quem precisa escapar da violência doméstica.

z Capacitação de conselheiros para ajudar as vítimas e suas famílias e outros agressores a que-
brar seus padrões de comportamento violento.
z Capacitação de professores, agentes de saúde e policiais em como reduzir a violência e inter-
vir quando ela ocorre.
z Programas em escolas e programas para jovens concebidos para reduzir a violência

z Publicidade para promover uma maior conscientização da população e mobilizar um compro-


misso cada vez maior.200
4
A abordagem Olweus foi consideravelmente bem- A preocupação de que a coerção e o abuso sexu-
sucedida e também identificou questões impor- al expõem meninas e adolescentes a riscos ex-
tantes que exigem uma atenção contínua, como a tremamente altos de infecção do HIV gerou
necessidade de se promover o compromisso de muitas respostas diferentes em todo o mundo,
todas as partes interessadas, sustentar a liderança especialmente na região sul da África meridio-
ao longo do tempo e monitorar e compreender as nal. Algumas iniciativas de ONGs internacionais
motivações e causas interligadas da violência, extrapolam os limites das escolas. Por exemplo,
combatendo, ao mesmo tempo, todas as formas o programa de capacitação 'Stepping Stones' da
de violência na escola. A introdução de uma es- ONG ActionAid visa prevenir a transmissão do
trutura de direitos humanos em programas de pre- HIV e, ao mesmo tempo, combater a violência
venção do bullying também pode ajudar a supe- sexual e baseada no gênero em centenas de co-
rar esses desafios.206 (veja quadro). munidades na África, Ásia, América Latina e
Caribe.209 Workshops paralelos são realizados
Para crianças expostas a um alto risco de bullying
para homens e mulheres para oferecer ambien-
- como vítimas ou perpetradoras da prática - pode
tes seguros e de apoio nos quais ambos possam
ser uma boa idéia desenvolver estratégias indi- 159
se sentir à vontade para discutir questões sensí-
vidualizadas intensivas que envolvam visitas
veis, mas os participantes dos workshops para
domiciliares, aconselhamento e desenvolvimento
homens e mulheres também se reúnem periodi-
de habilidades nas crianças e em seus pais.
camente para compartilhar preocupações e per-
cepções. Eles discutem coisas como "por que nos
VIOLÊNCIA SEXUAL E DE
comportamos dessa maneira?" e "como podemos
GÊNERO: PREVENÇÃO E mudar?". Esses eventos têm gerado um compor-
INTERVENÇÃO tamento sexual mais seguro, reduzido a violên-
cia doméstica, promovido uma divisão mais equi-
Todo o ambiente escolar deve ser acolhedor para librada de afazeres domésticos com os homens e
meninas e para todas as crianças que possam ser melhorado a comunicação entre casais e entre
consideradas diferentes em razão de sua sexuali- pais e filhos, particularmente no que se refere a
dade conhecida, suspeitada ou alegada. As escolas questões sensíveis relacionadas à saúde sexual.
devem ser locais seguros e confortáveis e todas as
crianças deve ser estimuladas a aproveitar ao má- Na Etiópia, comunidades tomaram a iniciativa
ximo todas as oportunidades de desenvolvimento de criar Comitês Consultivos sobre a Educação
cognitivo e emocional. Para que isso seja possível, de Meninas (GEACs, na sigla em inglês) que
os elementos subjacentes da violência baseada no abordam, como um todo, o problema de garan-
gênero devem ser diretamente atacados, fazendo tir acesso a uma educação de alto nível para
com que as crianças desenvolvam uma compre- meninas. Os GEACs criaram Clubes de Meni-
ensão adequada de problemas e atitudes relaci- nas que oferecem locais seguros para as meni-
onados à violência e habilidades necessárias nas expressarem suas opiniões e as incentivam
para evitá-la ou lidar com ela quando ocorrer. a denunciar casos de assédio e abuso. Outras
"Um currículo escolar vai muito além do que é ensinado."

Mary Joy Pigozzi, Diretora, Divisão para a Promoção de Educação de Qualidade, UNESCO XV

ELEMENTOS-CHAVE DE PROGRAMAS EFICAZES DE COMBATE AO


BULLYING BASEADOS EM DIREITOS E CENTRADOS NA CRIANÇA
Embora os programas de combate ao bullying possam variar significativamente em seus deta-
lhes específicos, os mais eficazes baseiam-se em direitos e são centrados na criança. As caracte-
rísticas comuns desses programas são, entre outras, as seguintes:
z Eles envolvem a criança desde a mais tenra idade, antes que suas atitudes e comportamentos
se tornem padrões permanentes.
z As escolas envolvem todas as principais partes interessadas - diretores, professores, alunos e
a comunidade maior - no desenvolvimento, implementação e monitoramento dos programas
e enfocam a prevenção da violência.
z Um grupo de liderança mantém o ímpeto e promove ajustes à luz de mudanças nas circuns-
tâncias.
z Componentes educacionais que aumentam os conhecimentos e melhoram as habilidades de
160
todas as principais partes interessadas e esses componentes são integrados ao currículo regu-
lar, para que a criança possa adquirir conhecimentos sobre direitos humanos e desenvolver a
habilidade de comunicar e solucionar conflitos de forma não violenta.
z Um monitoramento mais acentuado do comportamento dos alunos, prestando atenção, espe-
cialmente, em como os alunos se relacionam entre si, principalmente quando há indícios de
bullying.
z Mecanismos para a apresentação de denúncias, intervenções, recuperação de vítimas e reabi-
litação de agressores.
z As intervenções são coerentes, para que não haja nenhuma percepção de negligência ou
injustiça.207,208

iniciativas dos GEACs incluem o estabeleci- raptos e casamentos precoces. Como resulta-
mento de comitês disciplinares para que pro- do, a taxa de evasão escolar entre meninas caiu
fessores prestem contas por suas ações, prote- de 57% para 19% numa escola primária.210
ção policial para meninas nos trajetos de ida e
volta da escola, construção de vasos sanitários CURRÍCULO: O QUE DEVE SER
separados para meninas, insistência na presen- ENSINADO E COMO
ça de professoras nas escolas, treinamento de
meninos e meninas em formas respeitosas de O currículo, os métodos pedagógicos e todo o
se relacionar, aconselhamento para meninas em ambiente escolar devem ensinar, ilustrar e refor-
locais seguros e solicitações para que lideran- çar os princípios da igualdade de gênero, direitos
ças religiosas e tribais ponham fim à prática de humanos e não violência e as habilidades neces-
4
sárias para aplicar esses princípios cotidianamen- sentimentos e idéias como parte do processo
te. Eles também devem contribuir para aumentar de aprendizagem. Na África do Sul, por exem-
a resistência da criança à violência, para que sai- plo, o programa Currículo 2005 enfatiza mé-
ba lidar com ela e se recuperar quando ela ocorre. todos pedagógicos flexíveis que incentivam e
acomodam a participação ativa da criança em
Tradicionalmente, o currículo escolar tem en- experiências de aprendizagem e as ajudam a
focado muito o "conteúdo" (o quê) e dado me- desenvolver a capacidade de refletir.213
nos atenção a habilidades e processos de apren-
dizagem (como), como a capacidade de inves- De 1998 a 2004, o Relator Especial sobre o Di-
tigar, solucionar problemas e tomar decisões. reito à Educação colaborou com a Unesco na
Observa-se um reconhecimento cada vez mai- produção do Manual on Rights-based Educati-
or de que, em um mundo em processo de rápi- on: Global Human Rights Requirements Made
das transformações, é preciso ensinar às crian- Simple (Manual sobre Educação Baseada em
ças o como do comportamento humano cons- Direitos: Simplificação dos Requisitos Globais
trutivo, para que elas saibam se proteger de da- de Direitos Humanos).214 Segundo o manual, a
nos e agir para evitar danos a outros. Esse tipo criança tem direito à educação e direitos na edu- 161
de educação é freqüentemente chamado de cação. Isso significa que as escolas devem pro-
"educação baseada em habilidades de vida". teger os direitos de seus alunos e também ensi-
ná-los a respeitar os direitos de outros. A abor-
A educação baseada em habilidades de vida dagem da educação baseada em direitos faz da
deve fazer parte de um pacote que inclua edu- educação a própria base da campanha de longo
cação sobre os princípios da igualdade de gê- prazo contra a violência de todos os tipos, inclu-
nero, direitos humanos e não violência e como sive a violência contra a criança. Crianças edu-
e por que esses princípios evoluíram e podem cadas em escolas sem violência e que aprendem
ser colocados em prática.211, 212 Isso pode im- a respeitar os direitos de todos os indivíduos de
plicar a necessidade de lidar com questões ex- viver em ambientes sem violência representam
tremamente pessoais e sensíveis relacionadas a maior esperança de um futuro sem violência.
às características singulares de cada criança,
ao histórico de sua família, tradições religio- Nos Estados Unidos, por exemplo, uma ONG
sas e culturais e temas anteriormente conside- denominada The Committee for Children desen-
rados tabus em discussões que envolvessem volveu três conjuntos de currículos - Second Step,
crianças. Para lidar com essas questões ade- Steps to Respect and Talking about Touching
quadamente, além do currículo, são necessá- (Segundo Passo, Passos para o Respeito e Con-
rios métodos pedagógicos apropriados. É ne- versa sobre Tocar) - concebidos para transmitir
cessário ir além da aprendizagem tradicional à criança os conhecimentos e habilidades neces-
mecânica e incentivar crianças a fazer pergun- sários para prevenir a prática do bullying, o abu-
tas, inclusive aos seus professores, a relatar so sexual e outras formas de violência. Esses
suas próprias experiências e expressar seus conjuntos têm como objetivo ajudar a criança a
"Quando as crianças crescem, elas guardam na mente o que foi feito com elas e acabam fazendo o mesmo com crianças
mais novas que elas, principalmente na escola. Algumas ficam mentalmente perturbadas."

Menino, 14 anos, África Oriental e Meridional, 2005XVI

se defender, conversar em vez de brigar e refletir identificaram com precisão áreas nas quais
sobre questões a partir da perspectiva dos ou- meninas se sentiam inseguras, como áreas
tros. Uma avaliação dos impactos do Second Step onde meninos se reuniam ou salas nas quais
realizada em 1997 em mais de 10 mil escolas de professores do gênero masculino que as as-
primeiro grau no Canadá e nos Estados Unidos sediavam sexualmente davam aulas.218, 219, 220
registrou uma diminuição de comportamentos Um estudo realizado numa escola de segun-
agressivos e um aumento em comportamentos do grau em Durban, na África do Sul, obser-
sociais positivos nas salas de aula, pátios de re- vou que seus espaços eram extremamente se-
creio e cantinas dessas escolas.215 gregadores em termos de gênero. Havia mui-
tos espaços privativos para meninos, onde
Algumas questões sensíveis podem ser melhor eles eram deixados sozinhos e podiam fazer
abordadas em um contexto mais amplo. Quan- coisas proibidas como fumar, por exemplo, e
do perguntadas, por exemplo, sobre a melhor para professores, nos quais professoras e
maneira de se combater o abuso sexual, crian- meninas não tinham permissão de entrar de
ças no Canadá, Colúmbia, Bangladesh, Brasil, forma alguma. Os únicos espaços privativos
162 Moçambique, Nepal, Nicarágua, Romênia, Ru- para as meninas eram os banheiros, cuja pri-
anda, África do Sul, Espanha, Síria e Uganda vacidade ficava comprometida pela falta de
responderam que a questão do abuso sexual portas. As professoras tinham dificuldade
deveria ser tratada no contexto da aprendiza- para encontrar espaços que não eram policia-
gem sobre os direitos da criança e da proteção dos ou invadidos por homens.221
infantil e não isoladamente.216, 217 Uma carac-
terística da educação baseada em habilidades Quando uma escola não é acolhedora ou atra-
de vida eficaz é que os métodos de ensino e ente, é mais difícil promover o moral dos fun-
aprendizagem são interativos e permitem às cionários e criar perspectivas positivas para a
crianças compartilhar suas idéias. Uma edu- aprendizagem. Melhorias nas escolas não exi-
cação baseada em habilidades de vida eficaz gem, necessariamente, gastos financeiros sig-
freqüentemente envolve crianças na discussão nificativos e elas podem ser promovidas como
de problemas reais enfrentados em sua pró- uma atividade extracurricular que envolva fun-
pria escola e contribui para o desenvolvimen- cionários da escola, alunos, pais e outros mem-
to de políticas e programas. bros da comunidade. Em áreas rurais de baixa
renda da Índia, por exemplo, funcionários e
CRIAÇÃO DE ESPAÇOS FÍSICOS alunos trabalharam juntos na redecoração de
SEGUROS E ACOLHEDORES salas de aula e na criação de jardins em esco-
las usando materiais muito simples, mas ob-
Diversos estudos solicitaram a crianças que servaram que essa abordagem funciona melhor
mapeassem zonas perigosas ou seguras em quando as escolas são seguras e protegidas
suas escolas e nos pátios dessas escolas e elas contra atos de vandalismo.222
4
PESQUISAS E AVALIAÇÕES sas Externas de Lesões.223 Há também dire-
trizes, como as Diretrizes para a Vigilância
Todos os sistemas educacionais funcionais têm de Lesões, que podem ajudar qualquer órgão
um mecanismo para coletar dados no nível de educacional - no nível nacional, municipal ou
cada escola individual e muitos deles realizam da escola - a desenvolver suas próprias defi-
inspeções regulares que oferecem oportunida- nições e classificações, bem como formas e
des adicionais para se coletar dados. No entan- mecanismos simples de coleta, análise e di-
to, a quantidade e qualidade desses dados vari- vulgação de dados.224
am bastante e raramente eles oferecem uma base
suficiente para se fazer estimativas, ainda que Os instrumentos mais amplamente usados na
aproximadas, da prevalência de diferentes for- coleta de dados globais e nacionais sobre a vio-
mas de violência nas escolas e de como essa lência nas escolas são a LGSE (Pesquisa Global
prevalência pode estar aumentando ou diminu- sobre a Saúde do Aluno Baseada nas Escolas),225
indo ao longo do tempo. Uma razão para isso é que vem incluindo um número crescente de paí-
o fato de que a maioria das escolas não tem ses em desenvolvimento, e o estudo HBSC (Es-
tudo do Comportamento de Saúde de Crianças 163
pessoal treinado na coleta e análise de dados, o
mesmo podendo ser dito em relação a muitos em Idade Escolar), que abrange a maioria dos
órgãos educacionais locais e distritais e a al- países industrializados e alguns países em tran-
guns órgãos nacionais. Uma vez que esses da- sição.226 Outros instrumentos disponíveis são as
dos são essenciais para se avaliar intervenções Pesquisas Demográficas e de Saúde e pesquisas
e verificar se elas estão contribuindo para re- semelhantes periodicamente realizadas por mi-
duzir a violência, recomenda-se enfaticamente nistérios da saúde (e outros setores) com o obje-
que os órgãos responsáveis pela educação em tivo de determinar, por exemplo, a prevalência
nível distrital desenvolvam sua capacidade de da infecção do HIV e comportamentos que pos-
coletar, analisar e divulgar dados para fins de sam contribuir para a infecção.
avaliação e monitoramento.
O monitoramento e a avaliação ajudarão a
Padrões acordados e definições e classifica- identificar intervenções mais eficazes e indi-
ções universalmente aceitas de diferentes for- carão como elas podem ser aprimoradas. Es-
mas de violência nas escolas são necessári- tudos mais detalhados de formas particulares
os, mas questões locais devem ser integradas de violência e das ligações entre diferentes
a eles também. Há modelos disponíveis para formas de violência, seus riscos e fatores de
essas definições e classificações, entre os proteção e a eficácia dos programas de inter-
quais a Classificação Internacional de Cau- venção também são necessários.
RECOMENDAÇÕES
A educação é um agente-chave de mudança, ca-
paz de romper o ciclo da violência não apenas
contra a criança, mas também entre adultos. Ela
pode incentivar a criança a desenvolver auto-res-
peito e respeito por outros, bem como a expres-
sar seus sentimentos e negociar o que deseja sem
recorrer à violência física ou psicológica.

As recomendações apresentadas seguir têm como


objetivo apoiar governos, autoridades educacio-
nais, diretores de escolas, professores, alunos,
pais e comunidades em seus esforços para criar
escolas não violentas. As recomendações são
164 orientadas pela Convenção das Nações Unidas
sobre os Direitos da Criança e informadas pelas
Consultas Regionais realizadas para o Estudo,
insumos de especialistas, contribuições públicas
e um entendimento baseado em evidências das
causas da violência e sua prevenção, inclusive
seus vínculos praticamente universais com a
questão do gênero. As recomendações foram
concebidas para garantir que métodos, currícu-
los, programas e serviços educacionais apóiem
as normas estabelecidas pela CDC e que seu de- IRAQUE, 2003, Crianças numa Casa para Jovens no
senho e implementação sejam coerentes não ape- bairro de Adhamiya, Bagdá.
nas com a diversidade social e cultural, mas tam-
bém com realidades econômicas e práticas. os governos devem tomar todas as medi-
das necessárias para garantir que as esco-
A prevenção deve ser priorizada las de primeiro e segundo grau sejam ba-
seadas em direitos e ofereçam ambientes
1. Um acesso universal a ambientes de de aprendizagem seguros e saudáveis, sen-
aprendizagem livres de violência, nos síveis ao gênero, inclusivos e eficazes a
quais os direitos de todas as crianças se- meninos e meninas. A promoção da não
jam respeitados e promovidos, deve ser violência dentro e fora da escola deve ser
garantido. Em consonância com o apelo uma meta clara, com políticas e procedi-
global da iniciativa Educação para Todos, mentos bem divulgados para esse fim.
4
"Observa-se uma nova consciência da prevalência da violência contra a criança na África e de seus
efeitos para os que a experimentam e para a sociedade como um todo. Precisamos traduzir essa
consciência em medidas de prevenção baseadas em estratégias bem-sucedidas desenvolvidas nesta
região e em outras. Protelar essa resposta é trair a confiança depositada em nós de
proteger crianças vulneráveis.
Dr. Luis G. Sambo, Diretor Regional da OMS para a África

2. A violência nas escolas deve ser proibi- implementar estratégias específicas para ga-
da. Os governos têm a obrigação de proibir rantir que as necessidades especiais de cri-
explicitamente, por lei, a violência contra a anças vulneráveis sejam satisfeitas e, parti-
criança e assegurar a implementação de po- cularmente, que a discriminação seja erra-
líticas e procedimentos adequados para esse dicada. O pessoal das escolas deve compre-
fim no nível da escola - abolindo especifi- ender e ter a capacidade de responder siste-
camente o castigo corporal e outras formas maticamente à situação e aos riscos especí-
humilhantes ou degradantes de tratamento, ficos enfrentados por grupos minoritários,
bullying e outros tipos de violência sexual crianças com necessidades especiais, crian-
ou baseada no gênero. ças que não estão sendo criadas por seus
pais ou afetadas pelo HIV ou crianças em
3. A violência nas escolas deve ser preveni- processo de reintegração à comunidade es-
da por meio de programas específicos que colar, como crianças refugiadas ou deslo-
abordem o ambiente escolar como um cadas e ex-soldados infantis.
todo. Os governos devem implementar pro-
gramas abrangentes de prevenção da violência 6. Espaços físicos seguros devem ser ga- 165
em ambientes educacionais para funcionários rantidos. Os governos devem garantir
e alunos que sejam também sensíveis às ne- espaços físicos seguros para que meni-
cessidades especiais de crianças vulneráveis. nas e meninos tenham acesso igualitário
a instalações e possam participar plena-
4. Uma atenção prioritária deve ser dada a mente da vida escolar. As escolas devem
questões de gênero e seus vínculos com a dispor de banheiros adequados para me-
violência. Os governos devem reconhecer ninas e meninos. Todas as instalações de-
o impacto abrangente de estereótipos de gê- vem ser limpas e seguras, acessíveis a me-
nero profundamente enraizados sobre a na- ninas e meninos e livres de interferências
tureza da violência dentro e fora das esco- negativas da comunidade.
las. Estudantes, funcionários e membros co-
munitários do gênero masculino devem ser Capacidades devem ser desenvolvidas
ativamente estimulados a atuar como parcei-
ros e aliados estratégicos e, juntamente com 7. Códigos de conduta que reflitam os prin-
estudantes, funcionários e membros comuni- cípios dos direitos da criança devem ser
tários do gênero feminino, eles devem ter opor- estabelecidos e implementados. Códigos
tunidades de desenvolver uma melhor com- de conduta claros que reflitam os princípios
preensão de como abolir a discriminação de dos direitos da criança e estejam sintoniza-
gênero e suas manifestações violentas. dos com a lei devem ser estabelecidos e am-
plamente promovidos entre todos os funcio-
5. Uma atenção especial deve ser dedicada nários de escolas, alunos e suas famílias e
a grupos vulneráveis. Os governos devem comunidades. O governo tem a responsabi-
lidade de criar mecanismos e protocolos para ticipação, com especial atenção à partici-
garantir que as escolas disponham de adul- pação de crianças vulneráveis.
tos treinados e confiáveis, dentro delas ou
independentes das mesmas, aos quais os alu- Conhecimentos e habilidades para a promo-
nos possam, de forma segura e confidencial, ção de uma cultura de não violência devem
denunciar incidentes de violência e dos quais ser fortalecidos
possam receber aconselhamento.
10. O currículo deve ser revisado de modo a
8. Os diretores de escolas e professores de- modelar a não violência e a eqüidade de
vem adotar estratégias de ensino e gênero. Os governos devem tomar as medi-
aprendizagem e medidas disciplinares das necessárias para garantir que o currícu-
não violentas. Os governos devem tomar lo, os livros didáticos e os métodos pedagó-
as medidas necessárias para garantir a ado- gicos promovam os direitos da criança, apói-
ção de estratégias de ensino e aprendiza- em a diversidade e conhecimentos indíge-
gem e medidas disciplinares que não se- nas e enfatizem a tolerância, o respeito, a
166 jam baseadas no medo, na ameaça, na hu- eqüidade, a não discriminação e a solução
milhação ou na força física. Todo o pesso- não violenta de conflitos.
al das escolas deve ser capacitado e apoia-
do no uso de estratégias de gestão de sala 11. Uma educação em habilidades de vida que
de aula não violentas e respeitosas, bem permita aos alunos desenvolver habilida-
como em habilidades específicas para pre- des pessoais deve ser implementada. Os
venir e responder de forma eficazmente a governos devem garantir a promoção, nos
padrões de bullying e outras formas de vi- currículos escolares, de programas de desen-
olência baseadas no gênero. volvimento de habilidades de vida baseados
em direitos e em prol da não violência por
9. Os alunos devem ser ouvidos e sua parti- meio de disciplinas como a educação para a
cipação incentivada. Os governos e seus paz, a educação para a cidadania, o combate
parceiros devem promover e apoiar ativa- à prática do bullying, a educação em direi-
mente o envolvimento de alunos na con- tos humanos e a solução e mediação de con-
cepção, formulação, implementação e mo- flitos, com ênfase nos direitos da criança e
nitoramento de políticas e programas, in- em valores positivos como os da diversida-
clusive proporcionando-lhes acesso a me- de e da tolerância e no desenvolvimento da
canismos confidenciais de queixas ou de- capacidade de solucionar de problemas e de
núncias. Estruturas de gestão escolar par- habilidades eficazes de comunicação social,
ticipativas, sensíveis ao gênero e inclusi- a fim de permitir que meninas e meninos su-
vas devem ser promovidas e os alunos de- perem preconceitos arraigados de gênero e
vem ser dotados das habilidades necessá- aprendam a prevenir e lidar com a violência
rias e de oportunidades adequadas de par- e o assédio, inclusive o assédio sexual.
4
12. Parcerias entre a escola e a comunidade maior, com um enfoque especial nas ex-
devem ser desenvolvidas e as escolas de- periências de crianças vulneráveis. Os go-
vem ser apresentadas como um recurso vernos devem tomar as medidas necessá-
da comunidade. Os governos devem reco- rias para que as informações produzidas
nhecer a escola como um recurso da comu- sejam desagregadas, pelo menos, por ida-
nidade e facilitar o desenvolvimento de la- de e gênero, e incorporadas a sistemas exis-
ços mais estreitos entre a escola e a comu- tentes de gestão educacional em nível lo-
nidade no combate à violência dentro e fora cal, municipal e nacional.
da escola, envolvendo alunos, os funcioná-
rios das escolas, pais e outros parceiros 14. Uma agenda nacional de pesquisas sobre
como a polícia, serviços de saúde, serviços violência dentro e fora das escolas deve
sociais, grupos religiosos, grupos comuni- ser desenvolvida. Os governos devem im-
tários recreativos e grupos culturais. plementar um conjunto de prioridades na-
cionais de pesquisa que possam suplemen-
Sistemas de informação devem ser tar os sistemas de coleta de dados (descri-
desenvolvidos tos acima) com pesquisas qualitativas e 167
quantitativas detalhadas que sejam éticas e
13. Os sistemas de coleta de dados sobre to- focadas na criança. Os dados devem ser de-
das as formas de violência contra meni- sagregados, no sentido de dar visibilidade
nas e meninos devem ser fortalecidos. à escala e ao âmbito das experiências de me-
Os dados coletados devem garantir que as ninas e meninos de diferentes idades com a
opiniões de alunos e de alunos em poten- violência e sua superação e às suas situa-
cial sejam consideradas juntamente com ções, bem como para tornar seus riscos e
as de professores, pais e da comunidade fatores de proteção mais evidentes.
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XII Human Rights Watch (2004). Letting Them Fail:


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XIV L'Observatoire des droits de l'enfant de la région


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181
A VIOLÊNCIA CONTRA A CRIANÇA
5
EM INSTITUIÇÕES DE PROTEÇÃO E DE JUSTIÇA JUVENIL

Introdução 187
Instrumentos de direitos humanos 189
Histórico e contexto 190
A ascensão das instituições 190
Restrições ao atendimento institucional 192 183
Fatores que contribuem para a violência nas instituições 193
Baixa prioridade 193
Recrutamento inadequado de pessoal 193
Ausência de Monitoramento e Supervisão 194
Combinação de vários níveis de vulnerabilidade 195
Crianças que recebem proteção institucional 195
Natureza e extensão do problema 196
Institucionalização no Leste Europeu e nos países da antiga União Soviética 197
Minorias étnicas como alvo 197
Por que crianças são encaminhadas para atendimento residencial? 197
Padrões da institucionalização 199
Fontes de violência nas instituições de atendimento 200
Violência praticada pelos funcionários 200
Violência a pretexto de tratamento 201
Ausência de proteção como forma de violência 202
Violência praticada por outras crianças 202
Impacto da institucionalização sobre a saúde e o desenvolvimento da criança 203
Crianças sob custódia e internadas 204
Natureza e extensão do problema 204
Contexto histórico 206
Crianças em conflito com a lei 207
184 Por que crianças entram em conflito com a lei 207
Internação em substituição ao atendimento 209
Origens da violência na internação e custódia policial 211
Violência praticada pelos funcionários em casas de internação 211
Violência praticada sob custódia da polícia e das forças de segurança 211
Violência sob a forma de medidas (sentence) 212
Violência praticada por detentos adultos 213
Violência praticada por outras crianças 214
Autolesão 214
Outras crianças sob custódia do Estado 216
Refugiados, solicitantes de asilo e migrantes 216
Crianças desacompanhadas 216
Instalações que se assemelham a prisões 217
Detenção de crianças migrantes 217
Crianças em exércitos em tempos de paz 218
Respostas à violência contra a criança em instituições assistenciais e correcionais 219
Ação legislativa 219
Políticas para evitar a institucionalização 220
5
O princípio do "último recurso" 221
Priorização das alternativas 221
Alternativas à assistência institucional 223
Apoio às famílias destituídas e em risco 223
Apoio para famílias de crianças portadoras de deficiência 224 185
Apoio direto aos órfãos e crianças vulneráveis 225
Acolhimento de diferentes necessidades e preferências 225
Alternativas à internação em instituições 225
Programas de redirecionamento baseados na comunidade 227
Proteção contra a violência dentro das instituições 228
Seleção, treinamento e remuneração de pessoal 228
Conformidade com padrões internacionais 228
Monitoramento e investigação 229
Mecanismos de queixas 229
Mecanismos de reparação e resposta 229
Desinstitucionalização de crianças que já se encontram sob atendimento 230
Educação do público: passando a mensagem 232
Quando os recursos são escassos 232
Recomendações 233
Para todos os ambientes de proteção e de justiça juvenil 233
Para os sistemas de proteção e de assistência social 235
Para os sistemas de justiça 236
Referências 237
186
"Às vezes um dia na prisão parecia um ano. Mas depois de dez dias você se
acostuma e não chora tanto."
Menino detento, Oriente Médio, 2003 I

5
INTRODUÇÃO meninas corram risco muito maior de exposição
a mais violência e, em alguns casos, de se torna-
Por longos períodos, milhões de meninas e rem seus perpetradores.
meninos ao redor do mundo crescem não em
suas famílias ou em famílias alternativas, mas Crianças são institucionalizadas por várias ra-
sob o controle e a supervisão de autoridades zões. Algumas são colocadas em orfanatos (e
assistenciais ou de sistemas de justiça. As ins- também em acomodações que remetem a um lar,
tituições em que vivem têm muitos nomes, que como lares de adoção ou sob os cuidados de pa-
incluem orfanato, lar para crianças, casa assis- rentes ou amigos próximos) porque perderam
tencial prisão, casa de detenção juvenil, refor- seus pais e não têm outros parentes a quem re-
matório, etc. Elas podem ser abertas ou fecha- correr - um problema que está aumentando devi-
das (ou seja, em que crianças são trancadas) e do à AIDS, principalmente na África Subsaaria-
podem ser administradas pelo governo, por na. Outras estão em instituições devido a defici-
empresas privadas, por indivíduos ou por orga- ências físicas ou mentais, distúrbios psiquiátri-
nizações não-governamentais e religiosas. Mui- cos ou outras doenças sérias. Muitas foram en-
tas são operações em grande escala, e as crian- tregues por pais que, sem dinheiro ou serviço de 187
ças que lá entram podem viver longos períodos apoio para enfrentar a deficiência de seus filhos,
de suas vidas dentro delas. Seja qual for o nome, consideraram não ter alternativa. Como resulta-
essas instituições determinam o cotidiano, o do disso, muitas crianças portadoras de defici-
desenvolvimento pessoal e as oportunidades ência são institucionalizadas em hospitais. Al-
futuras de um grande número de crianças. gumas fugiram ou foram retiradas pelas autori-
dades de lares violentos e abusivos.
Embora essas instituições sejam fundadas para
cuidar, orientar, apoiar e proteger a criança, os A maioria das crianças sob custódia da polícia
meninos e meninas que vivem nelas podem es- ou detidas por infrações reais ou percebidos não
tar sujeitas a um maior risco de violência se com- deveriam estar lá. Em muitos países, esse grupo
parados às crianças cujo cuidado e proteção são normalmente inclui crianças que simplesmente
prestados por pais e professores, em casa ou na precisam de cuidados e proteção, mas que foram
escola. Relatórios de vários países, em todas as encerradas em centros correcionais sob a acusa-
regiões do mundo, mostram que crianças insti- ção de praticas como a vadiagem, sendo assim
tucionalizadas estão muitas vezes sujeitas à vio- criminalizadas por nada mais que a pobreza e a
lência praticada pelos funcionários e autorida- ausência de um lar. A grande maioria das crian-
des responsáveis pelo seu bem-estar. Essa vio- ças detidas são acusadas de cometer pequenas
lência pode incluir a tortura, surras, isolamento, infrações e são primárias. Poucas cometeram
reclusão, estupro, assédio e humilhação. Além infrações violentas.1 O guarda-chuva da "insti-
disso, a estigmatização, o isolamento e muitas tucionalização" também inclui crianças migran-
vezes a dessocialização que resultam dos efeitos tes e refugiadas, inclusive as que requerem asilo
da institucionalização faz com que meninos e e são encerradas em centros de internação en-
quanto seus casos são julgados. Incluem-se aí do nos Estados Unidos concluiu que crianças que
crianças sob custódia do Estado na condição de tinham sido internadas pelo sistema de justiça
membros de exércitos em tempos de paz. juvenil estavam sujeitas a um maior risco de
morte violenta prematura. A principal causa de
Maus tratos - e negligência absoluta - não sur- morte entre jovens ex-detentos foi o homicídio
gem apenas da superpopulação típica, condições (90,1%). Pertencer ao gênero masculino, fazer
esquálidas e ausência de recursos para investi- parte de uma minoria racial ou étnica e ser oriun-
mento no atendimento dessas meninas e meni- do de área urbana eram os principais fatores de
nos. Tão importante quanto essas condições é a risco de morte violenta, da mesma forma que a
existência freqüente de um profundo grau de dis- passagem pelo sistema judiciário juvenil.3
criminação contra crianças que acabam sendo
institucionalizadas. A falta de preocupação do As instituições que abrigam crianças muitas vezes
público com a brutalidade dispensada às crian- são imunes ao escrutínio público. Elas não possu-
ças em instituições correcionais pode refletir a em uma estrutura jurídica básica que proíba a prá-
rejeição da sociedade em relação às crianças que tica de toda e qualquer violência, nem supervisão
188 não se encaixam no comportamento social con- ou regulamentação governamental adequada, me-
vencional. Essa estigmatização também pode ser canismos de queixa eficazes ou sistemas de inspe-
expressa nas atitudes e no comportamento abu- ção. Os perpetradores raramente são responsabili-
sivo de funcionários mal treinados. zados, permitindo a manutenção irreprimida de al-
tas taxas de violência e perpetuando assim a tole-
O estigma também contribui para a violência rância em relação à violência contra a criança.
contra a criança portadora de deficiência. Pes-
quisas têm demonstrado que essas crianças fre- TIPOS DE INSTITUIÇÕES
qüentemente correm maior risco de sofrer vio- ASSISTENCIAIS
lência por parte dos funcionários das institui-
ções do que outros meninos e meninas.2 Embora não exista uma definição universalmente
aceita de instituição assistencial infantil, as ca-
A violência sofrida pelas crianças em institui- racterísticas que a maioria tem em comum são o
ções pode ser exacerbada quando elas se encon- atendimento em tempo integral de crianças que
tram alojadas com adultos ou outras crianças, o vivem separadas de suas famílias e a supervisão
que pode levar à vitimização física e sexual por exercida por funcionários remunerados. O tama-
parte de crianças mais velhas e detentos adultos. nho, a organização e as atividades realizadas
O impacto da institucionalização vai além da nessas instituições podem variar substancialmen-
exposição imediata da criança à violência: os te. No caso das instituições mais fechadas e iso-
efeitos de longo prazo podem incluir graves atra- ladas, a vida inteira da criança - educação, servi-
sos no desenvolvimento, deficiência, danos psi- ços de saúde, trabalho, lazer e pernoite - trans-
cológicos irreversíveis e altas taxas de suicídio e corre dentro delas e as instituições são altamen-
atividade criminal. Um estudo realizado realiza- te separadas do restante da comunidade.4
5
INSTRUMENTOS DE DIREITOS HUMANOS
A Convenção sobre os Direitos da Criança (CDC) requer que o Estado ofereça proteção especial
às crianças destituídas de um ambiente familiar (artigos 19 e 20). O risco maior de violência
contra a criança institucionalizada acrescenta às obrigações do Estado a adoção de medidas
legislativas e outras medidas eficazes para proteger da violência crianças abrigadas ou interna-
das e reduzir significativamente o número de crianças institucionalizadas ou cumprindo medi-
das. A CDC reconhece que as crianças devem crescer em um ambiente familiar: o Preâmbulo da
Convenção declara que "... a criança, para o desenvolvimento harmonioso da sua personalidade,
deve crescer num ambiente familiar, em clima de felicidade, amor e compreensão."
Outros artigos reiteram a importância da família na formação da criança, exceto quando seus
interesses superiores determinem a adoção de providências alternativas. O artigo 9 diz respeito
ao contato familiar nos casos em que a criança é separada da sua família. O artigo 37(b) afirma
que "a captura, detenção ou prisão de uma criança devem ser conformes à lei, serão utilizadas
unicamente como medida de último recurso e terão a duração mais breve possível". O artigo 40, 189
que trata de crianças em conflito com a lei, afirma que a criança tem "direito a um tratamento
que favoreça seu sentido de dignidade e valor... que tenha em
conta sua idade e a necessidade de facilitar sua reintegração social". Essas disposições tornam
claro que são muito mais desejáveis as alternativas ao atendimento institucional que apóiem o
desenvolvimento da criança e permitam que ela permaneça em casa e na escola do que os pro-
cessos jurídicos e a institucionalização.5
A CDC aborda de forma específica os direitos de meninos e meninas portadores de deficiência,
reconhecendo "que a criança portadora de deficiência física ou mental tem direito a uma vida plena
e decente em condições que garantam a sua dignidade, favoreçam a sua autonomia e facilitem a sua
participação ativa na vida da comunidade" (artigo 23). A segregação e a institucionalização nunca
podem ser justificadas pela deficiência. Crianças portadoras de deficiência são freqüentemente insti-
tucionalizadas e os perigos dessas internações são bem conhecidos, o que leva a CDC a requerer
atendimento infantil que não envolva isolamento social ou exclusão. Além disso, o artigo 25 confere
à criança institucionalizada o direito a uma revisão periódica de todos os aspectos da internação.
O Pacto Internacional dos Direitos Civis e Políticos (PIDCP) declara que uma sentença de morte não
pode ser pronunciada para crimes praticados por pessoas de idade inferior a 18 anos (artigo 6). O
pacto também contém disposições estipulando que adolescentes infratores sejam separados dos adultos
e recebam tratamento adequado à sua idade e condição legal (artigo 10). O artigo 14 do Pacto declara
que os procedimentos contra jovens infratores devem levar em conta a idade e a necessidade de
promover a reabilitação. Além disso, a Convenção contra a Tortura e outros Tratamentos ou Penas
Cruéis, Desumanos ou Degradantes declara que os Estados devem adotar medidas legislativas, ad-
ministrativas, judiciárias e outras medidas eficazes para impedir atos de tortura (artigo 2).
Algumas categorias gerais de atendimento ins- Lares adotivos informais/de parentes ou ami-
titucional são: gos próximos: Colocação da criança com ou-
tra família, que pode ter laços familiares com a
Atendimento residencial ou institucional de criança, normalmente sem o envolvimento de
longo prazo: O número de crianças que vivem autoridades do governo. (Ver o capítulo sobre a
em cada instituição pode variar de algumas de- violência contra a criança no lar e na família).
zenas a várias centenas. Algumas instituições
residenciais são específicas para crianças por-
tadoras de deficiência. Os termos "atendimen- HISTÓRICO E CONTEXTO
to residencial" e "atendimento institucional" são
usados de forma intercambiável neste capítulo. A ASCENSÃO DAS INSTITUIÇÕES
Atendimento em abrigo emergencial: Locais
Desde seus primórdios, as instituições criadas
que oferecem serviços que atendem às necessi-
para abrigar crianças foram estabelecidas es-
dades básicas das crianças com relação à segu-
sencialmente como repositórios para indeseja-
190 rança, alimentação, abrigo e educação por um
dos. Os historiadores sugerem que a primeira
curto período de tempo.
instituição voltada especificamente para o cui-
Instituições psiquiátricas: Atendimento re- dado de crianças negligenciadas foi criada em
sidencial institucional, incluindo profissionais Constantinopla no século III d.C. como um
da área médica, para crianças com distúrbios meio de reduzir o infanticídio. Mais tarde, na
psicossociais. Idade Média, lares para crianças abandonadas
foram estabelecidos pela Igreja na Itália e a
Lares para grupos ou abrigos familiares: prática espalhou-se pela Europa.9 Além de ser
Atendimento residencial personalizado prestado um trabalho de caridade, o lar para crianças
por uma ou mais pessoas em uma casa que não é abandonadas era um meio de remover das ruas
a sua, na qual cuidam de um grupo de crianças crianças negligenciadas e abandonadas, tor-
(normalmente de 10 a 15) em um ambiente me- nando o problema invisível para a sociedade -
nos formal e mais parecido com um lar. uma tarefa cada vez mais importante, já que o
índice de abandono de bebês chegou a um para
Outras duas categorias de assistência que buscam cada quatro em algumas cidades européias nos
oferecer um ambiente não-institucional a crian- séculos posteriores. Até o século XX, a taxa
ças que vivem separadas de suas famílias são: de mortalidade entre as crianças dessas insti-
tuições era invariavelmente alta.10 Isso resul-
Lares adotivos: Colocação da criança com ou- tou não apenas na rápida propagação de infec-
tra família por um período de tempo variável. ções em ambientes residenciais superpopula-
O filho de criação é aceito no lar da família subs- dos antes do advento dos sistemas de saúde
tituta, que muitas vezes inclui os filhos bioló- pública, mas também na falta de atendimento
gicos dos pais de criação. eficaz e individual às crianças.
5
PADRÕES DA ONU PARA A JUSTIÇA DA INFÂNCIA E DA JUVENTUDE
Além da CDC, foram adotados padrões específicos da ONU para o tratamento de casos de
crianças em conflito com a lei. Esses padrões incluem as Regras Mínimas das Nações Unidas
para a Administração da Justiça da Infância e da Juventude, conhecidas como as "Regras de
Pequim", adotadas em 1985, que oferecem orientação sobre a aplicação da justiça de maneira a
garantir a proteção dos direitos das crianças e o respeito às suas necessidades de desenvolvi-
mento.6 Dois outros padrões adotados em 1990 - as Diretrizes das Nações Unidas para a Pre-
venção da Delinqüência Juvenil (Diretrizes de Riad) e as Regras das Nações Unidas para Prote-
ção de Jovens Privados de Liberdade - completam a estrutura de prevenção, gerenciamento de
casos e reabilitação social da criança.7,8

Muitas crianças abandonadas ou encaminhadas para atendimento residencial, incluindo crian-


ças portadoras de deficiência, poderiam viver com suas famílias se recebessem apoio social,
financeiro ou médico adequado. Ao ratificar a CDC, os Estados se comprometeram a oferecer 191
esse apoio até o limite de seus recursos (artigo 18.2). Quando a convivência com a família
biológica não atende aos interesses superiores da criança, várias alternativas familiares devem
ser estabelecidas para proporcionar um atendimento mais seguro e benéfico do que o encontra-
do em grandes instituições (artigo 20). Da mesma forma, a existência de sistemas de assistência
e proteção mais sólidos, que incluam apoio às famílias, poderia reduzir o número de crianças em
conflito com a lei. A grande maioria das infrações praticadas por crianças são pequenas e não-
violentas. As alternativas comunitárias à internação oferecem não somente um ambiente mais
seguro para a criança, mas também meios mais eficazes para a sua reabilitação.

Quando a institucionalização ou a detenção são absolutamente necessárias, deve-se proporcio-


nar um ambiente seguro para crianças, com funcionários treinados, programas e serviços ade-
quados. As crianças devem ter oportunidades claras, acessíveis e seguras de queixar-se da forma
como são tratadas e os governos devem oferecer mecanismos eficazes de monitoramento, inves-
tigação e responsabilização para tratar a violência quando ela ocorre e punir os perpetradores.
"Havia professores que excediam a sua autoridade e batiam na gente sem razão. Eles sabem que as crianças
não têm para onde ir. E eles podiam fazer qualquer coisa que quisessem."

Criança, Europa e Ásia Central, 2003 II

As instituições para crianças cresceram com a in- denciais e a considerar outras opções que não
dustrialização e o colonialismo. À medida que as fossem a internação de crianças em conflito
favelas, o desemprego e o crime proliferavam nos com a lei. Na segunda metade do século XX,
primórdios do mundo industrializado, desenvol- começou-se a reconhecer que as grandes ins-
veu-se a idéia de "resgatar" crianças carentes de tituições fechadas eram incapazes de apoiar
suas famílias - muitas vezes julgadas delinqüen- o desenvolvimento físico, social, emocional
tes ou depravadas - e protegê-las encerrando-as e cognitivo em um grau minimamente com-
em instituições residenciais. Enquanto isso, em parável ao de um ambiente familiar.12
ambientes coloniais e pós-coloniais, também acre-
ditava-se que as crianças indígenas ou aborígines Hoje em dia, as "melhores práticas" da políti-
deveriam ser "salvas" de culturas que eram vistas ca social, refletindo a CDC e outras obriga-
como "inferiores". Na Austrália e no Canadá, por ções para com os direitos humanos, objetivam
exemplo, gerações inteiras dessas crianças foram oferecer ao maior número possível de crian-
retiradas das suas famílias e internadas em esco- ças uma formação em família, acesso a uma
las residenciais, renegando sua própria cultura, escola regular e vida comunitária. No entanto,
192 vestuário e linguagem.11 Os sistemas de "justiça o processo de desinstitucionalização e de re-
juvenil" na Europa e nas Américas começaram a conhecimento dos efeitos nocivos da institu-
introduzir instituições residenciais de internação cionalização sobre crianças está em diferen-
separadas das prisões de adultos no final do sécu- tes estágios ao redor do mundo. Nos países em
lo XIX e início do século XX. que a institucionalização de crianças nunca foi
adotada em grande escala, as instituições as-
Em alguns lugares, o desenvolvimento de gran- sistenciais que se desenvolveram são, em sua
des instituições para crianças ocorreu mais tar- maioria, pequenas e administradas por insti-
de, seja para lidar com grandes comoções soci- tuições particulares ou religiosas.
ais após eventos como as duas Guerras Mundi-
ais ou como parte de um comprometimento ide- Em alguns países, o nível da infrações prati-
ológico com a assistência infantil e juvenil "so- cadas por adolescentes juvenil tornou-se uma
cializada". Esse era o padrão em muitos países preocupação política crucial, havendo tam-
comunistas, notadamente aqueles sob a esfera bém alguma regressão em direção à interna-
de influência da União Soviética pós-1945. ção institucional mesmo nos casos em que os
índices de infrações praticadas por adolescen-
RESTRIÇÕES AO ATENDIMENTO tes estão efetivamente em queda. Em muitos
INSTITUCIONAL países, crianças e adolescentes em conflito
com a lei normalmente são internados nas
Com o aumento dos conhecimentos sobre o mesmas instituições usadas para adultos in-
desenvolvimento da criança, alguns países co- fratores, e poucos países investiram em al-
meçaram a reduzir o uso de instituições resi- ternativas reais à internação.
5
Infelizmente, o número de crianças que perdem a ro possível de crianças, como exigem suas obri-
proteção de suas famílias e requerem formas al- gações no campo dos direitos humanos. Isso
ternativas de cuidado está crescendo por várias acontece principalmente devido à baixa impor-
razões, que incluem mudanças nos padrões soci- tância atribuída às crianças mais desfavoreci-
ais advindas da rápida urbanização, desastres na- das da sociedade - aquelas que ficaram órfãs,
turais, conflitos armados, desalojamento genera- que foram abandonadas, que convivem com a
lizado da população e a pandemia de HIV/AIDS. deficiência ou que estão em conflito com a lei.

É extremamente comum que crianças que preci-


FATORES QUE CONTRIBUEM sam de cuidado e proteção fora da família tor-
nem-se o foco das atenções das políticas apenas
PARA A VIOLÊNCIA NAS quando ocorre alguma falha notória nos siste-
INSTITUIÇÕES mas assistenciais ou algum tipo extremo de abu-
so. Essa ausência de prioridade nas políticas pú-
A violência contra a criança nos sistemas assis- blicas significa que as condições do atendimen-
tenciais e correcionais é legitimada por atitu- to nas instituições de proteção e centro de justi- 193
des e comportamentos há muito adotados e por ça juvenil são freqüentemente precárias, com
falhas tanto na lei quanto na sua implementa- inadequações na nutrição, higiene e atendimen-
ção. Na época em que o estabelecimento de ins- to de saúde (chegando às vezes a um nível de
tituições assistenciais para crianças oriundas de escassez que ameaça a vida das crianças).
grupos em condições desfavoráveis e marginais
era a política social preferencial, o castigo cor- Parcos investimentos resultam na falta de pro-
poral era defendido quase universalmente como fissionais adequadamente qualificados. No
meio de disciplinar e controlar crianças rebel- Azerbaijão, por exemplo, um relatório de 2005
des. Na prática, isso significava que crianças indicou que nenhuma das 69 instituições resi-
institucionalizadas eram expostas a um regime denciais tinha em seus quadros um profissional
brutal e à violência freqüente. Em todas as re- da área de psicologia, a despeito de ter sido iden-
giões, seja por omissão ou comissão, essa situ- tificada a necessidade dessa especialidade.13
ação ainda prevalece. Além disso, pode não haver instalações especi-
alizadas para crianças. Na Irlanda do Norte, por
Baixa prioridade exemplo, há somente 15 leitos disponíveis para
adolescentes com problemas mentais graves.14
A despeito de mudanças nas práticas de atendi-
mento à criança e da evolução de seus direitos, Recrutamento inadequado de pessoal
incluindo os padrões da justiça da infância e da
juventude, a reforma das instituições tem ocor- Funcionários não-qualificados e mal-remune-
rido vagarosamente. Poucos governos dedica- rados são amplamente reconhecidos como um
ram-se à desinstitucionalização do maior núme- dos principais fatores ligados à violência den-
tro das instituições. Os baixos salários e condi- instituição seja contratado por outra e o padrão
ções sociais inferiores freqüentemente resultam de abuso continue.18
em empregados pouco motivados e com alta
rotatividade, sendo a falta de funcionários um A falta de supervisão adequada dos funcionári-
problema sério. Por exemplo, foi documentado os também é um problema sério. Um estudo
em vários países que a proporção entre crian- sobre abuso nas instituições residenciais do
ças e funcionários nas instituições para crian- Reino Unido identificou a administração inefi-
ças portadoras de deficiência pode chegar à or- caz e o contato mínimo dos administradores com
dem de cem crianças para cada funcionário. os funcionários como características significa-
Nessas condições, crianças muitas vezes são tivas comuns aos casos de abuso.19,20
deixadas sem atendimento por longos períodos,
e durante a noite inteiras ficam sem atendimen- Ausência de Monitoramento
to ou trancadas, com apenas uma estrutura mí- e Supervisão
nima para o turno da noite. Nesses casos, o abu-
so físico e sexual é freqüente.15 As instituições residenciais e casas de interna-
194
ção muitas vezes carecem de regulamentação e
É relativamente pequeno o número de funcio- são fechadas ao escrutínio externo, particular-
nários de instituições assistenciais que recebem mente quando administradas por agências par-
algum treinamento específico sobre desenvol- ticulares, organizações religiosas e ONGs ou
vimento ou direitos da criança, ou mesmo in- quando situadas em áreas isoladas. Nessas cir-
formações sobre questões ligadas à violência. cunstâncias, a violência pode persistir por anos
Nas instituições para crianças portadoras de até que um incidente extremo a traga à luz. Além
deficiência, funcionários mal treinados tendem disso, os indivíduos que praticam a violência
a reagir rapidamente com irritação às crianças.16 contra a criança em sistemas assistenciais e
Funcionários sobrecarregados podem valer-se correcionais raramente são responsabilizados
de medidas violentas para manter a disciplina, por suas ações. Mesmo quando os casos de vi-
especialmente quando não há supervisão. O olência chegam a ser denunciados, é comum que
esgotamento dos funcionários resulta em atitu- sejam investigados de forma superficial e as
des cada vez mais negativas em relação às cri- condenações sejam extremamente raras. Aque-
anças e em padrões de reações físicas e impul- les que se encontram em posição de tomar al-
sivas diante de confrontos.17 guma atitude talvez sejam cúmplices do abuso,
relutem em disciplinar ou processar um colega
Pessoas com histórico de violência contra a cri- ou temam a publicidade negativa ou a perda de
ança, incluindo abuso e exploração sexual, po- apoio financeiro. Essas pessoas podem reagir
dem procurar trabalhos que lhes proporcionem bloqueando o acesso às instituições e punindo
livre acesso às crianças. Verificações rigorosas ou ameaçando de demissão os funcionários que
do histórico de funcionários ainda são raras, façam qualquer revelação. A ausência de res-
permitindo que um funcionário demitido de uma ponsabilização dos perpetradores só garante a
"Alguns de nós sofrem abusos em casa. Damos entrada no sistema de assistência social à criança,

5
que supostamente deveria nos proteger. O sistema abusa de nós. Tentamos reclamar e nada é feito.
Nós acumulamos toda essa raiva e a descarregamos em outras crianças, em nossa família, em
nossos amigos, nos assistentes sociais, nos pais substitutos, nos funcionários dos lares para grupos,
nos professores, etc., e o ciclo continua. Em algum momento isso tem que parar."
Jovem, América do Norte, 2004 III

continuidade da violência. Os perpetradores com crianças condenadas por infrações, uma


continuam a cometer abusos contra outras cri- investigação do governo realizada em 2003 des-
anças e seus atos violentos geram um clima em cobriu que colegas opressores (bullies) ou gan-
que a violência contra a criança torna-se "acei- gues de crianças mais velhas vitimavam sexu-
tável" e lugar-comum.21,22 almente crianças mais vulneráveis.25 Em mui-
tos países, adolescentes infratores são interna-
Combinação de vários níveis dos com infratores adultos, o que aumenta subs-
de vulnerabilidade tancialmente o risco de que sofram violência.

Muitas instituições não separam crianças vul- CRIANÇAS QUE RECEBEM


neráveis de outras mais perigosas. Crianças
vulneráveis a violência em razão da idade, ta- ATENDIMENTO INSTITUCIONAL
manho, gênero ou outras características freqüen-
temente são abrigadas com outras com históri- Segundo alguns relatos, cerca de oito milhões de
co de comportamento violento.23 Por exemplo, meninos e meninas vivem em instituições assis-
tenciais em todo o mundo.26 Alguns estudos cons- 195
na antiga Sérvia e Montenegro, as ONGs rela-
tam que crianças abaixo de sete anos de idade tataram que a violência praticada em instituições
podem ser colocadas na mesma instituição que residenciais é seis vezes maior que a praticada em
adolescentes infratores com mais de 14 anos.24 lares de adoção e que crianças que recebem aten-
Na Jamaica, onde crianças necessitadas de cui- dimento em grupo estão sujeitas a uma probabili-
dados e proteção muitas vezes são abrigadas dade quatro vezes maior de sofrer abusos sexuais
do que aquelas cuidadas por famílias.27 No Caza-
quistão, por exemplo, um estudo realizado em
2002 constatou que mais de 63% das crianças
abrigadas relatavam ter sido submetidas à violên-
cia; 28% indicaram que a violência ocorria regu-
larmente.28 Uma pesquisa realizada com 3.164
crianças em instituições residenciais da Romênia
concluiu que os abusos físicos incluíam surras,
corte de refeições, isolamento físico e sujeição a
vários trabalhos humilhantes. Quase metade das
crianças pesquisadas confirmou que as surras eram
uma prática punitiva. Mais de um terço das crian-
ças institucionalizadas sabiam de casos em que
crianças eram obrigadas a manter relações sexu-
ais. Os abusos eram cometidos, entre outros, por
RUANDA, 1998, Rose, 4 anos, ajuda a arrumar as mesas funcionários e principalmente por crianças mais
para o almoço no Orfanato Gitarama, onde ela e sua irmã
moram desde que perderam os pais no genocídio de 1994.
velhas da instituição.29
NATUREZA E EXTENSÃO tuições fundadas no período pós-guerra. Essas
DO PROBLEMA crianças ainda vivem em grandes dormitórios,
em prédios semelhantes a hospitais, adminis-
Vários estudos comprovaram de maneira con- trados por pequenos grupos de funcionários não
sistente o impacto negativo da institucionaliza- especializados e sobrecarregados, onde não há
ção e a existência de um alto índice de violên- praticamente qualquer trabalho terapêutico. Os
cia no atendimento residencial de grande esca- diretores dessas instituições, mantidas por doa-
la. Ainda assim, em algumas partes do mundo e dores privados, não têm funções claramente
para certos grupos de crianças, os índices de definidas e raramente são monitorados.34
institucionalização estão aumentando. Por
exemplo, entre 1989 e 2002, um pesquisador Altos índices de institucionalização também
estimou que a proporção de crianças que rece- podem ser encontrados em outras regiões. No
biam atendimento institucional cresceu 3% na Oriente Médio, havia mais de 25.000 crianças
Europa Central e Oriental e na antiga União recebendo atendimento residencial no Líbano
Soviética, apesar da redução numérica causada e um número estimado de 25.300 crianças em
196 situação semelhante no Marrocos entre 1999 e
pela população declinante. (Embora o número
total de crianças que recebiam atendimento ins- 2000.35 Na América Latina, alguns países ainda
titucional tenha diminuído durante o período, relatam números significativos de crianças em
como a população total de crianças na região instituições de atendimento, sendo que os mais
também diminuiu, a proporção de crianças nas altos vêm da Colômbia (24.300), Brasil
instituições efetivamente aumentou.)30 (24.000), Bolívia (15.600) e Chile (11.600), de
acordo com números publicados em 2004.36
Alguns países que antes aprovavam o atendi-
mento institucional em grande escala têm se Na África, como a família estendida geralmen-
afastado deliberadamente desse tipo de atendi- te absorve crianças órfãs e outras vítimas de
mento para crianças sem família. Por exemplo, perdas familiares, os índices de institucionali-
o número de crianças atendidas em lares para zação são tradicionalmente baixos. Em muitos
crianças caiu significativamente ao longo dos países africanos, os únicos orfanatos existentes
últimos 20 anos na Inglaterra,31 Itália e Espa- até pouco tempo foram criados por missionári-
nha.32 Nos Estados Unidos e no Canadá, onde o os antes da independência. No entanto, o nú-
número de crianças que recebem atendimento mero de orfanatos particulares vem crescendo
fora de instituições aumentou nos últimos anos, rapidamente em muitos países africanos na
a maioria das crianças é colocada em lares ado- medida em que organizações religiosas, ONGs
tivos ou em lares para grupos.33 e doadores particulares procuram responder aos
números crescentes de crianças tornadas órfãs
O padrão da desinstitucionalização, porém, não pelo HIV/AIDS e por conflitos armados.37 Evi-
é uniforme entre os países industrializados. No dências da Libéria,38 Uganda,39 e Zimbábue40
Japão, 30.000 crianças permanecem em insti- apontam para um aumento do atendimento ins-
5
titucional nos últimos anos. Os defensores dos ladas como "deficientes" constituem a maioria
direitos da criança salientam que a maioria das das crianças que recebem atendimento residen-
crianças internadas nessas instituições tem pelo cial. No Uzbequistão, por exemplo, crianças por-
menos um dos pais vivo ou algum parente que tadoras de deficiência que recebem atendimento
pode ser contatado. Eles argumentam que es- do Estado chegam a 20.000, comparadas a ape-
sas novas instituições simplesmente removem nas 4.300 crianças sem deficiência.44
as crianças da comunidade, consumindo inves-
timentos que seriam mais úteis para aumentar Minorias étnicas como alvo
o nível local de atendimento. O atendimento
institucional também é caro, custando entre seis Historicamente, crianças oriundas de minorias
e 100 vezes mais que o atendimento em lares raciais e étnicas tendem a ser super-representa-
de adoção na comunidade, que é a política pre- das em instituições de atendimento (por exem-
ferida pelos governos e doadores.41 plo, na Austrália, no Brasil e no Canadá, con-
forme mencionado acima) e, em muitos casos
Institucionalização no Leste essa tendência persiste. Na Romênia, por exem-
plo, o povo cigano responde por menos de 10% 197
Europeu e nos países da antiga
União Soviética da população, mas até 40% das crianças insti-
tucionalizadas são ciganas. Esse padrão se re-
As instituições para crianças são mais predomi- pete em vários outros países do Leste Europeu,
nantes na Europa Central e Oriental (ECO) e na incluindo a Bulgária, a República Tcheca e a
Comunidade dos Estados Independentes (CEI) Hungria. Na Europa Central e Oriental e nos
do que em qualquer outra região. Durante os anos países da antiga União Soviética em geral, há
60 e 70, grandes números de instituições foram relatos de que o preconceito contra minorias
abertas em toda a região. Após o colapso dos étnicas levou funcionários das instituições re-
governos comunistas, com a ausência de siste- sidenciais a desencorajar o contato entre crian-
mas alternativos de apoio às famílias, mante- ças institucionalizadas e seus pais e reduziu o
ve-se o uso generalizado das instituições. Em encaminhamento dessas crianças para famílias
2002, havia um total estimado de 1.120.800 cri- substitutas e adoção.45,46
anças assistidas por instituições públicas em 27
países da ECO, da CEI e dos países bálticos, POR QUE CRIANÇAS SÃO
54% das quais - cerca de 605.000 - estavam em ENCAMINHADAS PARA
instituições residenciais.42 ATENDIMENTO RESIDENCIAL

Muitas dessas instituições destinam-se a crian- Ao contrário do que acontecia antes, hoje são
ças portadoras de deficiência. Em 2002, um nú- relativamente poucas as crianças encaminhadas
mero estimado de 317.000 crianças portadoras para atendimento residencial por não terem pais.
de deficiência na região vivia em instituições Na ECO e na CEI, por exemplo, a proporção de
residenciais.43 Em alguns países, crianças rotu- crianças sem pais vivos que vivem em institui-
ções residenciais está entre 2% e 5%,47,48 en- as devido ao abuso de substâncias por parte de
quanto no Brasil esse número chega a 5%.49 É seus pais ou cuidadores.
mais comum que crianças sejam institucionali-
zadas devido a deficiências, desintegração da Deficiência: Devido à estigmatização generali-
família, violência no lar, ausência de sistemas zada das crianças portadoras de deficiência e da
de apoio social e baixa condição socioeconô- ausência de apoio aos seus pais, o índice de insti-
mica, incluindo a pobreza. Em alguns países, tucionalização dessas crianças é significativamen-
os desastres naturais, os conflitos armados ou te mais alto que o de outras crianças. Na Jamaica,
os efeitos da pandemia de HIV/AIDS podem por exemplo, 65% das crianças portadoras de de-
tornar os pais incapazes de cuidar dos seus fi- ficiências físicas ou de desenvolvimento vivem
lhos. Doenças, acidentes e encarceramento tam- em lares exclusivos para crianças portadoras de
bém podem separar crianças de seus pais. deficiência.52 Relatórios dos países da ECO/CEI
preparados para a Sessão Especial das Nações
Pobreza: Este é um fator significativo na deci- Unidas sobre a Infância em 2002 informaram que
são de muitos pais de colocar seus filhos em insti- a razão predominante para que as famílias insti-
198 tuições residenciais. Quando se sentem incapazes tucionalizassem seus filhos portadores de defi-
de sustentar seus filhos e acreditam que eles terão ciência era a incapacidade para prestar essa as-
melhor acesso à educação, serviços de saúde e sistência. Diagnósticos equivocados ou exage-
nutrição adequada em instituições residenciais, os rados e o foco exclusivo no modelo médico de
pais podem optar pela institucionalização por jul- deficiência também são problemas que levam ao
gar que essa seja a melhor alternativa. uso excessivo da institucionalização nesses paí-
ses. Em alguns casos, a falta de estímulo ou de
Violência na família: Muitas crianças acabam acesso a serviços de saúde e educação de alta
sendo institucionalizadas devido à violência na qualidade pode retardar o desenvolvimento da
família, incluindo negligência e violência psi- criança, exacerbando a sua deficiência.53
cológica, física e sexual. A violência doméstica
na América Latina também é uma causa impor- Catástrofes familiares, incluindo HIV/AIDS:
tante para a perda da guarda dos filhos.50 As Os conflitos armados, os grandes desastres na-
Aldeias SOS Criança constataram que 73% das turais, a pandemia de HIV/AIDS e outras do-
crianças atendidas na Venezuela haviam passa- enças naturalmente induzem algumas organi-
do por experiências prévias de violência física zações humanitárias a propor o estabelecimen-
ou psicológica, inclusive violência sexual. A to de instituições de atendimento e orfanatos
organização descobriu que 88% das crianças das como resposta adequada ao grande número de
Aldeias SOS Criança na Croácia, 75% das cri- crianças com necessidade de atendimento. Na
anças na Bielorrússia e 55% das crianças na Rússia, por exemplo, os bebês nascidos com
Lituânia haviam sofrido violência física ou se- HIV e abandonados são colocados em orfana-
xual dentro da sua família biológica.51 Muitas tos especiais para crianças soropositivas ou iso-
crianças também são removidas de suas famíli- lados indefinidamente em alas de hospitais,
5
onde são privados de qualquer oportunidade de o número de lares adotivos e outros serviços
desenvolvimento social, físico e mental.54 Em que apóiam a integração com a comunidade.57
alguns países dilacerados por conflitos, onde
uma alta porcentagem das crianças perdeu um Padrões da institucionalização
ou ambos os pais, os níveis de institucionaliza-
ção podem ser excepcionalmente altos. Na So- Existem muitas variações entre os padrões de
mália, por exemplo, o uso de lares para crian- institucionalização de um país para outro e mes-
ças e orfanatos, embora contrário aos preceitos mo entre diferentes regiões de um mesmo país.
islâmicos e às normas tradicionais, é defendido Um estudo recente realizado em países europeus
entusiasticamente por pais e cuidadores, parti- concluiu que existem diferenças significativas
cularmente em áreas urbanas. Os lares para cri- nas razões pelas quais crianças com menos de
anças, que dependem totalmente da ajuda ex- três anos de idade estão sendo institucionaliza-
terna, na sua maioria oriunda de instituições de das. Nos países da Europa Ocidental (Bélgica,
caridade, oferecem às crianças comida, aloja- França, Noruega, Portugal, Suécia e Reino Uni-
mento e educação, muitas vezes indisponíveis do) que forneceram informações sobre as razões
em outros lugares. Boa parte das aproximada- 199
para a internação de crianças com menos de três
mente 8.000 crianças somalis residentes em la- anos em instituições residenciais, as principais
res para crianças possui parentes vivos.55 razões foram abuso e negligência na família
(69%), razões sociais como a prisão dos pais
Falta de alternativas: Em muitos ambientes, (23%), abandono (4%) e deficiência (4%).
as alternativas à institucionalização, que inclu-
em o apoio às famílias vulneráveis e o atendi- Não havia órfãos (definidos, neste contexto,
mento no ambiente familiar, não foram desen- como crianças sem pais vivos) vivendo nas ins-
volvidas, o que pode levar à internação exces- tituições desses países. Por outro lado, pouco
siva e desnecessária em instituições residenci- mais de uma em cada 20 crianças instituciona-
ais. Por exemplo, o diretor de um hospital psi- lizadas no centro e no sudeste da Europa (Cro-
quiátrico na Turquia estimou que dos 500 paci- ácia, República Tcheca, Estônia, Hungria, Lá-
entes (adultos e crianças) internados na insti- tvia, Romênia e Eslováquia), em Chipre e em
tuição, somente 10% precisariam estar confi- Malta era órfã. As principais razões para enca-
nados se houvesse oferta de serviços baseados minhar crianças ao atendimento residencial
na comunidade.56 Na Romênia, a população de nesses países foram o abandono (32%), razões
crianças em orfanatos foi reduzida, mas muitas sociais como incapacitação e doenças na famí-
crianças portadoras de deficiência foram sim- lia (25%), deficiências (23%), abuso ou negli-
plesmente removidas de grandes instituições gência (14%) e orfandade (6%).58
para instituições de pequeno porte. O grande
volume de investimentos necessários para es- O estudo concluiu que os países menos ricos
sas novas instituições consumiu os parcos re- com baixos níveis de investimento em saúde
cursos que poderiam ser usados para aumentar pública e serviços sociais tendiam a ter um
maior número de crianças institucionalizadas. ças que foram privadas de suas famílias ou tive-
O estudo especulou que isso poderia ser devi- ram o infortúnio de nascer em ambientes famili-
do à ausência de serviços de aconselhamento ares disfuncionais, violentos ou fragmentados.
para impedir o abandono e à incapacidade de
oferecer serviços sociais aos pais propensos ao FONTES DE VIOLÊNCIA NAS
comportamento violento com seus filhos. Além INSTITUIÇÕES DE ATENDIMENTO
disso, nos países com menor oferta de serviços
sociais e de saúde para os pais, tais como servi- O risco intensificado de violência contra a criança
ços de saúde mental e de tratamento de vicia- em instituições de atendimento tem diversas ori-
dos em álcool ou drogas, as crianças tendem a gens. As evidências mais abundantes apontam para
continuar recebendo atendimento institucional vários tipos de violência cometida por funcionári-
por períodos mais prolongados. os, inclusive a negligência, e a violência praticada
por crianças contra outras crianças. Além disso,
No Brasil, uma pesquisa nacional envolvendo algumas formas de tratamento adotadas em muitas
589 instituições que recebem investimentos fe- instituições constituem, por si sós, violência.
200 derais usou categorias ligeiramente diferentes
para coletar dados sobre crianças instituciona- Violência praticada pelos
lizadas de todas as idades. As principais razões funcionários
para a institucionalização de crianças incluíam:
carência de recursos materiais na família (ou Crianças em instituições residenciais podem es-
seja, pobreza) (24%), abandono pelos pais ou tar sujeitas a violência física, sexual e psicológi-
guardiões (18%), violência doméstica (11%), ca por parte dos funcionários. Essas formas de
vício dos pais ou guardiões em substâncias quí- violência incluem abuso verbal, surras, restrições
micas (11%), pais vivendo nas ruas (7%), or- excessivas ou prolongadas, estupro e violação
fandade (5%), prisão dos pais ou guardiões (4%) ou assédio sexual. Parte dessa violência ocorre
e abuso sexual pelos pais ou guardiões (3%).59 na forma de medidas disciplinares violentas ain-
da lícitas e autorizadas pelo Estado. Em 145 pa-
A maioria das crianças institucionalizadas pode- íses, os castigos corporais e outras formas de
ria ser reintegrada às suas famílias com a ajuda punição ou tratamento degradante não foram
de assistentes sociais ou de outros serviços e proibidos explicitamente em todas as instituições
apoios. Quando a reintegração à família não é residenciais e em outras formas de atendimento
possível, outras alternativas familiares oferecem alternativo. Somente 31 países proíbem sistema-
um ambiente muito mais seguro e benéfico para ticamente qualquer castigo corporal em todas as
crianças. A ausência de providências para que formas de atendimento alternativo.60 Em alguns
sejam ofertados sistemas alternativos de atendi- países existem regulamentos detalhados que es-
mento em países que possuem meios para ofere- pecificam como o castigo deverá ser administra-
cê-los é outra demonstração da obscuridade e do do, inclusive o implemento que deverá ser utili-
preconceito em torno do atendimento às crian- zado e quais partes do corpo podem ser atingidas.
5
Embora o Estado seja responsável pela proteção glês para Sistema de Inibição de Comportamen-
da criança contra a violência independentemen- tos Automutilantes) é um dispositivo de eletro-
te de quem esteja encarregado do atendimento, choque por controle remoto disponível no co-
a violência perpetrada por funcionários tem sido mércio e vendido quase que exclusivamente
documentada em instituições do mundo todo, para a administração de choques em crianças
inclusive nas administradas pelo Estado, por or- portadoras de deficiência. Uma instituição dos
ganizações religiosas e por empresários ou em- Estados Unidos desenvolveu seu próprio dis-
presas particulares. As formas da violência po- positivo, "substancialmente mais potente",
dem ser horripilantes. Em instituições de atendi- quando descobriu que os eletrochoques do SI-
mento da Jordânia, há relatos de crianças que BIS "perdiam muito da sua eficácia" após um
foram submetidas a surras dadas com as mãos, período de alguns meses.64
com varas e com mangueiras e tiveram suas ca-
beças batidas contra a parede.61 Em instituições Drogas também podem ser usadas não para tra-
de atendimento do Catar, um estudo descobriu tamento médico, mas para controlar o compor-
que as crianças freqüentemente recebiam surras tamento das crianças e torná-las mais "dóceis".
dos funcionários, o que incluía professores, su- Isso pode ter outras implicações: por exemplo, 201
pervisores, guardas e assistentes sociais.62 crianças portadoras de deficiência que recebem
medicação forte dos funcionários das institui-
Violência a pretexto de tratamento ções ou hospitais (muitas vezes como forma de
contornar a falta de funcionários) ficam impos-
Nas instituições residenciais para crianças por- sibilitadas de se defenderem da violência física
tadoras de deficiência (inclusive lesões cere- ou do assédio sexual.65
brais, deficiências do desenvolvimento e dis-
túrbios psiquiátricos), crianças podem ser sub- Outro exemplo de violência autorizada pelo
metidas a violência como parte de um "trata- Estado é a prática de realizar intervenções mé-
mento". Por exemplo, na Turquia, uma investi- dicas para limitar as funções reprodutivas -
gação realizada durante dois anos descobriu por exemplo, a realização de histerectomias
que, em instituições psiquiátricas, crianças de em meninas com comprometimento intelec-
até nove anos de idade eram submetidas a tra- tual ou outros problemas de saúde mental. Há
tamento eletroconvulsivante ou de "choque" relatos dessa violação dos direitos humanos
(TEC) sem o uso de relaxantes musculares ou em meninas com até sete ou oito anos de ida-
anestesia. Esse tratamento é extremamente do- de.66 Não há justificativa médica para essas
loroso, assustador e perigoso.63 operações. No entanto, várias razões têm sido
apresentadas, inclusive a de que a operação
Choques elétricos também são usados como impede as meninas de menstruar, evitando
"tratamento aversivo" para controlar o compor- assim o aumento do serviço dos cuidadores e
tamento das crianças em algumas instituições. garantindo que a jovem não ficará grávida.
Por exemplo, o dispositivo SIBIS (sigla em in- Essas preocupações refletem os problemas
das instituições com o número insuficiente Em muitas instituições para crianças portado-
de funcionários e a ausência de educação se- ras de deficiência, crianças não têm acesso à
xual e de serviços de saúde reprodutiva para educação, recreação, reabilitação ou outros pro-
meninas portadoras de deficiência, bem como gramas. Muitas vezes elas são deixadas na cama
a falta de proteção adequada para as jovens ou no berço por longos períodos de tempo sem
contra o risco presumido de estupro nas ins- qualquer contato ou estímulo humano. Essa pri-
tituições e na comunidade. vação freqüentemente provoca danos físicos,
mentais e psicológicos graves e, em muitos ca-
Ausência de atendimento como sos, a morte da criança.
forma de violência
Violência praticada por
Onde quer que crianças vivam, inclusive sob a outras crianças
custódia do Estado, o governo é obrigado a ga-
rantir a satisfação das suas necessidades bási- Crianças que recebem atendimento residencial
cas. No entanto, as condições de muitas insti- são vulneráveis à violência praticada por ou-
202
tuições residenciais freqüentemente são tão ru- tras crianças, particularmente quando as condi-
ins que colocam a saúde e a vida das crianças ções e a supervisão exercida pelos funcionári-
em risco. As instituições muitas vezes são su- os são insatisfatórias. A ausência de privacida-
perlotadas, insalubres, e carentes tanto de fun- de e de respeito pela identidade cultural, a frus-
cionários como de recursos, o que resulta em tração, a superpopulação e a não-separação das
altas taxas de mortalidade entre essas crianças crianças especialmente vulneráveis de outras
em comparação com outras que vivem em um crianças mais velhas e agressivas freqüentemen-
ambiente familiar. te levam à violência entre elas. Os funcionários
podem aprovar ou encorajar esses abusos entre
No México, crianças internadas em instala- crianças - seja para manter o controle ou sim-
ções psiquiátricas foram encontradas deita- plesmente por diversão. Embora quase não exis-
das sobre tapetes no chão, algumas cobertas tam estudos recentes sobre assunto, estudos re-
de urina e fezes. Sem supervisão adequada alizados a partir dos anos 90 no Reino Unido,
dos funcionários, crianças foram vistas co- na Rússia e outros lugares indicam que o
mendo suas próprias fezes e cometendo abu- bullying e o assédio sexual cometido pelos pa-
sos físicos contra si próprias.67 Em centros res durante a institucionalização da criança são
de reabilitação para crianças portadoras de muito comuns.69 Há também relatos abrangen-
deficiências mentais, foram encontradas cri- tes de violência física de "alto impacto", vari-
anças acamadas e emaciadas pela inanição e ando de ataques com facas a chutes e socos,
desidratação. Mamadeiras com comida eram partindo principalmente de outras crianças.70
oferecidas pelos funcionários, mas as crian- Em alguns casos, crianças relataram que os fun-
ças que não podiam segurá-las devido à sua cionários do orfanato as faziam lutar umas con-
deficiência não se alimentavam.68 tra as outras para o seu próprio divertimento.71
5
IMPACTO DA A inatividade, o isolamento social e as condi-
INSTITUCIONALIZAÇÃO SOBRE ções de vida degradantes das instituições po-
A SAÚDE E O DESENVOLVIMENTO dem provocar um declínio no funcionamento
DA CRIANÇA social e psicológico da criança.74,75 Após algum
tempo de institucionalização, as crianças podem
A utilização excessiva de instituições para cri- perder certas habilidades básicas que possuíam
anças acarreta custos enormes para elas mesmas, à época da internação, como a capacidade de
para suas famílias e para a sociedade. Pesquisas cuidar de si próprias e de desenvolver relacio-
abrangentes sobre desenvolvimento infantil de- namentos afetivos.
monstram que os efeitos da institucionalização
podem incluir debilidade física, atrasos graves As condições físicas das crianças instituciona-
do desenvolvimento, deficiência e danos psico- lizadas também podem se deteriorar. Na falta
lógicos potencialmente irreversíveis. A gravida- de reabilitação, fisioterapia e outros programas,
de dos efeitos negativos é diretamente proporci- as crianças muitas vezes definham durante anos
onal ao tempo de institucionalização da criança em estado de total inatividade. Sem estímulo e
sem oportunidades de mobilidade, os braços, 203
e acentua-se nos casos em que as condições da
instituição são insatisfatórias. as pernas e a coluna das crianças ficam contor-
cidos e atrofiados devido à falta de uso. Des-
O risco de danos psicológicos e ao desenvol- providas de contato humano adequado, algu-
vimento é particularmente agudo nas crianças mas crianças recorrem à autolesão. Essa situa-
pequenas, com menos de quatro anos de ida- ção é exacerbada quando os funcionários rea-
de, um período crítico para a criação de vín- gem por meio da contenção física.
culos da criança com seus pais ou cuidado-
res.72 Mesmo em instituições com mão-de-obra A institucionalização também alimenta o ciclo
suficiente, é improvável que a atenção dispen- de violência: crianças institucionalizadas têm
sada pelos funcionários possa substituir a que maior tendência à autolesão, à agressividade e
receberiam de seus próprios pais. Um estudo ao envolvimento com o crime, a prostituição e
sobre as instituições da Europa concluiu que o abuso de substâncias. Um estudo realizado
crianças pequenas (na faixa de 0 a 3 anos) in- na Rússia sugere que uma em cada três pessoas
ternadas em instituições residenciais sem con- jovens oriundas de instituições residenciais tor-
tato com seus pais corriam risco de danos como na-se sem-teto, uma em cada cinco adquire an-
os distúrbios do afeto, atrasos do desenvolvi- tecedentes criminais e uma em cada dez come-
mento e atrofia neuronal do cérebro em de- te suicídio.76 Alguns estudos indicam que mui-
senvolvimento. O estudo concluiu que "a tas crianças institucionalizadas são emocional-
negligência e os danos causados pela pri- mente vulneráveis e altamente dependentes da
vação dos pais em tenra idade equivalem à atenção do adulto, o que as torna alvos fáceis
violência para uma criança pequena". 73 para o tráfico sexual.77 Um estudo realizado na
República da Moldávia constatou que os jovens dos funcionários, etc.), o tratamento institucio-
que haviam passado parte da sua infância em nal de crianças consideradas anti-sociais ou cri-
instituições eram dez vezes mais sujeitos a tor- minosas tende a ser mais punitivo, física e psi-
narem-se vítimas de tráfico retornadas.78 cologicamente, que o de outros grupos em ou-
tros ambientes. Todos os preconceitos e discri-
As pesquisas também demonstram que crian- minações associados a crianças rejeitadas ou sem
ças colocadas em atendimento residencial apre- família são reforçados quando elas são vistas, na
sentam maior probabilidade de entrar em con- melhor das hipóteses, como um estorvo social.
flito com a lei. Na Irlanda do Norte, por exem-
plo, grande parte dos jovens que vão parar no NATUREZA E EXTENSÃO
sistema judiciário-penal tem um histórico de DO PROBLEMA
atendimento institucional. Vinte e cinco por
cento dos jovens sob custódia são admitidos Embora seja difícil encontrar informações e os
diretamente de instituições residenciais e cerca dados sobre crianças nos sistemas assistencial
dos 70% de crianças internadas entre 10 e 13 e correcional não sejam, via de regra, desmem-
204 anos vêm do sistema assistencial. Um estudo brados, algumas fontes estimam que, a qualquer
sobre a situação dos serviços de saúde mental momento, há um milhão de crianças em todo o
para crianças internadas em instituições corre- mundo privadas da sua liberdade. Trata-se, cer-
cionais e sob custódia na Irlanda do Norte cons- tamente, uma estimativa conservadora, e uma
tatou que 48% das pessoas entrevistadas esta- melhor coleta de dados em nível global é uma
vam institucionalizadas há mais de cinco anos necessidade premente. Por exemplo, somente
e 22% tinham passado por quatro ou mais in- nos Estados Unidos, todos os anos mais de
ternações nos últimos dois anos - sendo que uma 600.000 crianças e adolescentes passam algum
delas havia mudado de instituição 13 vezes.79 tempo em estabelecimentos de internação.80

A grande maioria dos meninos e meninas deti-


CRIANÇAS SOB CUSTÓDIA dos são acusados de pequenas infraçôes e são
E INTERNADAS primários. Poucos praticaram atos violentos.
Muitos sequer cometeram infraões, mas foram
A violência contra a criança em instituições de detidos por vadiagem, por não terem onde mo-
justiça ou sob custódia da polícia - carceragem rar ou simplesmente por precisarem de cuida-
da polícia, prisões, inclusive cadeias para adul- dos e proteção.81
tos, reformatórios e outros lugares onde crian-
ças em conflito com a lei podem ser detidas - é Em muitos países, a maioria das crianças deti-
mais comum que a violência contra a criança que das não foi condenada pela prática de um crime,
foi institucionalizada apenas para fins assisten- estando simplesmente à espera de julgamento.
ciais. Embora existam muitas coincidências e Em março de 2003, em apenas quatro regiões do
semelhanças (condições ruins, baixa qualidade Paquistão, de cerca de 2.340 crianças detidas
5
apenas em prisões (ou seja, sem levar em conta valor da fiança muito além das possibilidades
crianças detidas na carceragem da polícia e em das famílias dessas crianças, o que resulta em
outras instituições) 83% estavam sob julgamen- encarceramento desnecessário.89 A fiança rara-
to ou à espera do início do julgamento.82 Em seis mente é considerada uma opção para meninos
cadeias de Cebu, nas Filipinas, 75% das crian- que vivem nas ruas.
ças presas entre 1999 e 2001 estavam detidas
aguardando julgamento.83 Após o julgamento, um grande número de cri-
anças é condenado à reclusão em centros de
Baseando-se no Pacto Internacional de Direitos internação ou prisões. Embora, conforme men-
Civis e Políticos, a CDC estipula que toda crian- cionado anteriormente, o artigo 40 da CDC pro-
ça privada da sua liberdade tem direito a acesso ponha diversas alternativas, inclusive ordens de
imediato à assistência jurídica e a qualquer ou- supervisão, liberdade condicional e colocação
tra assistência adequada, bem como o direito de em lares de adoção, a prisão costuma ser a nor-
impugnar a legalidade dessa privação e de rece- ma. Por exemplo, na Indonésia, no final dos
ber uma decisão rápida (artigo 37d). Entretanto, anos 90, até 99% dos adolescentes infratores
a internação anterior ao julgamento pode durar levados a julgamento foram condenados à re- 205
meses e até anos. No Burundi, por exemplo, o clusão.90 Em Bangladesh, crianças freqüente-
período pré-julgamento para crianças às vezes é mente são colocadas sob "custódia segura" pela
mais longo que a sentença máxima proferida para polícia e pelos tribunais, mesmo quando isso é
a infração supostamente praticada.84 No Estado desnecessário. Em 1974, Bangladesh aprovou
de Lagos, na Nigéria, constatou-se que a in- uma Lei da Criança determinando o estabeleci-
ternação de crianças antes do julgamento du- mento de um sistema separado de justiça da
rava até um ano.85 É perturbador que muitas infância e da juventude, a adoção da liberdade
das crianças detidas por longos períodos nun- condicional e a remoção das crianças das pri-
ca sejam declaradas culpadas de cometer um sões para adultos. No entanto, passados mais
crime. No Paquistão, apenas 13 a 17% de cri- de 30 anos, as disposições dessa lei são infrin-
anças detidas receberam ventualmente algu- gidas e violadas a cada estágio do contato da
ma medida pelo juiz por terem praticado algu- criança com o sistema legal e crianças sob cus-
ma infração.86 Nesse ínterim, elas ficam deti- tódia tendem a viver sob condições pavorosas,
das por meses ou até anos em condições fu- com abuso de direitos e violência.91
nestas de superpopulação, correndo risco de
sofrer violência por parte dos funcionários, das Situações semelhantes foram relatadas na Áfri-
outras crianças e de presos adultos.87 ca. A maioria dos países da África Oriental e
Meridional possui uma legislação para os siste-
Estudos realizados no Sul da Ásia indicam que mas de justiça da infância e da juventude criada
a maioria das crianças detidas tem direito a fi- para respeitar os direitos da criança. No entanto,
ança e não representa perigo para a população.88 muitas não são funcionais ou não foram imple-
No entanto, os juízes rotineiramente fixam o mentadas devido a restrições financeiras e falta
de capacidade. As instalações para crianças em ção a sua idade, circunstâncias e necessida-
conflito com a lei são escassas e os com idade des.93 No entanto, embora muitos países te-
menor que 18 anos são aprisionados juntamente nham introduzido uma legislação pró-crian-
com infratores adultos, o que os sujeita a um ris- ça alinhada com a CDC e outros padrões in-
co ainda maior de violência e abuso sexual. Essa ternacionais, a aplicação e a execução dessas
situação, que foi relatada ao estudo pelo Quênia, normas estão defasadas.
Madagascar, Eritréia e Moçambique, também
ocorre em muitos outros países.92 Embora a maioria das infraçoes praticadas por
crianças ou adolescentes não sejam violentas,
CONTEXTO HISTÓRICO a pressão sobre os políticos para "endurecer com
o crime" tem provocado respostas cada vez mais
As políticas adotadas para lidar com crianças em duras ao problema das crianças e adolescentes
conflito com a lei evoluíram à medida que as em conflito com a lei. Essa pressão resultou em
próprias sociedades mudavam ao longo do tem- sentenças/medidas mais severas e no aumento
po e as formas de administrar a lei e a ordem dos índices de internação. Essas políticas fre-
206 qüentemente são estimuladas pela atenção des-
eram reformuladas para acompanhar as idéias e
realidades sociopolíticas de cada época. proporcional da mídia à questão do adolescen-
te infrator, o que reforça as concepções errône-
Crianças vivendo nas ruas das cidades e me- as da população sobre a natureza e a extensão
trópoles, algumas das quais envolvidas com dos atos infracionais praticados por adolescen-
pequenos atos delituosos, tornaram-se co- tes. Por exemplo, nos Estados Unidos, entre
muns na cena urbana a partir do século XIX, 1993 e 1999, o número de crianças confinadas
despertando demandas por correção e refor- em centros de internação aumentou 48%, em-
mas sociais. O primeiro sistema de justiça es- bora os atos violentos praticados por crianças
pecífico para jovens foi introduzido no esta- tenham diminuído 33% no mesmo período.94
do americano de Illinois em 1899, e outros Entre 1994 e 2004, o número de crianças con-
estados e países rapidamente adotaram a denadas à custódia penal na Inglaterra e no País
idéia. Desde então, a maioria dos países (mas de Gales aumentou 90%.95
não todos) introduziram formas especiais de
lidar com casos envolvendo jovens, o que No lado positivo, atitudes mais progressistas
inclui penas mais leves e alternativas. Hoje estão começando a deixar a sua marca em bol-
em dia, muitas crianças acusadas de uma in- sões dos países em desenvolvimento. Alguns
fração- sem perder o direito a um julgamento desses esforços para mudar as atitudes em rela-
justo -são redirecionadas dos processos judi- ção às crianças marginalizadas e discriminadas,
ciais para o sistema previdenciário, ouvidas mantendo-as longe do inevitável mergulho na
em "audiências para crianças" especialmente criminalidade após a exposição ao encarcera-
estabelecidas para esse fim ou submetidas a mento e à brutalidade da polícia, serão exami-
um tratamento que leva em plena considera- nados em detalhes mais adiante.
"A vida aqui na prisão é muito difícil. É uma vida dura, porque não é fácil viver. Nós, que somos

5
novos aqui, sofremos muito. Dormimos mal. Normalmente você não dorme - você cai no sono
sentado até a manhã. Porque a prisão está superpopulada. Comemos mal. Estamos sofrendo,
apanhamos de cinto, o chefe da disciplina bate muito na gente. Eles dormem conosco. Os chefes
das celas forçam a gente a dormir com eles (ter relações sexuais)."
Menino, 14 anos, África Oriental e Meridional, 2005 IV

CRIANÇAS EM CONFLITO Por que crianças entram em


COM A LEI conflito com a lei

O discurso sobre a criança e a criminalidade co- A violência no lar e as pressões exercidas pela
loca em questão um conjunto de opiniões forte- pobreza crônica, somadas à falta de sistemas
mente consolidadas sobre o desenvolvimento adequados de cuidado e proteção, levam mui-
infantil, os métodos de formação, a função dos tas crianças a entrar em conflito com a lei. Uma
sistemas de justiça, as pressões políticas e o po- pesquisa realizada no Peru concluiu que a vio-
tencial humano para a transformação após um lência na família e os maus-tratos dispensados
"mau começo" na vida. Embora a institucionali- à criança foram, em 73% dos casos, os fatores
zação seja rejeitada, exceto como último recur- que precipitaram a sua migração para as ruas.96
so, pelos especialistas mais modernos em desen- Uma vez na rua, muitas crianças adotam com-
volvimento infantil, a sociedade, preocupada com portamentos de sobrevivência arriscados que as
o crime e a segurança, pode insistir nela. colocam em contato com a lei, como a mendi-
cância, a vadiagem, a busca de comida e bens
207
no lixo, os pequenos furtos e a prostituição. Daí
a freqüente associação entre pequenas infrações
e a necessidade desesperada de cuidados. Em
um estudo sobre jovens infratores realizado em
três distritos de Uganda, 70% das crianças dis-
seram que a satisfação de suas necessidades,
incluindo a alimentação, era a sua principal
motivação para roubar.97

Até 95% de crianças e adolescentes interna-


dos são acusados de pequenas infrações.98,99
Os mais comuns são o furto e outros crimes
contra o patrimônio. Nas Filipinas, um estudo
HAITI, 2005, Meninos estendem as mãos para fora das
grades em uma prisão para adolescentes no bairro de realizado em Davao concluiu que mais de 80%
Delmas, em Port-au-Prince. das infrações referiam-se a furto (35%), abu-
so de substâncias (28%) e violação do toque
A CDC e outros tratados de direitos humanos de recolher (19%). Os crimes violentos cor-
estabeleceram diretrizes para o uso da interna- respondiam a apenas 7% das infrações prati-
ção, estipulando que ela deve ser utilizada ape- cadas por eles.100 Em Malauí, um estudo reali-
nas como último recurso e pelo menor tempo zado em 1999 concluiu que 68% dos atos re-
possível (artigo 37). No entanto, os regimes de gistrados consistiam em furto, arrombamento
custódia de crianças e adolescentes variam enor- de residências e roubo. A palavra "vagabun-
memente e poucos cumprem essas disposições. do" foi usada para descrever outros 8% dos
adolescentes infratores e, como observa o es- eram crianças recolhidas em buscas policiais.
tudo, é "um termo... que representa casos ób- Da mesma forma, 80% de meninas detidas na
vios de crianças de rua".101 Casa de Internação para Meninas não consti-
tuíam casos criminais e eram apenas crianças
Além de praticarem pequenas infrações, a maio- "fora do controle dos pais", casos de "assis-
ria dessas crianças e adolescentes não tem pas- tência e proteção" ou casos de litígio.103
sagem anterior pela prisão. Por exemplo, na Re-
pública Popular Democrática do Laos e nas Fili- Embora quase não haja dados disponíveis so-
pinas, constatou-se que mais de 90% das crian- bre adolescentes infratores portadores de defi-
ças e adolescetnes internados eram primários.102 ciência, é praticamente consensual que os cri-
anças ou adolescentes com comprometimento
Muitas crianças são detidas e internadas por atos intelectual e problemas de saúde mental cor-
infracionais que somente configuram delito quan- rem maior risco de entrar em conflito com a lei
do praticados por crianças. Essas "infrações de - freqüentemente sob o comando de outros, que
status" incluem gazetear, fugir de casa ou estar os tratam como fantoches. Uma vez envolvidas
208 "fora do controle dos pais". Em março e abril de em problemas, essas crianças têm menor pro-
2003, 60% das crianças detidos em uma Casa de babilidade de conseguir sair deles ou de fazer
Internação para Meninos em Lagos, Nigéria, não uma defesa convincente do seu caso. Na pri-
constituíam casos criminais, sendo que 55% de- são, elas também têm maior probabilidade de
les eram meninos que estavam "fora do controle serem vitimadas. Embora a justiça da infância
dos pais" e 30% constituíam casos de assistên- e da juventude e o sistema de bem estar e prote-
cia e proteção (meninos "achados"). Outros 15% ção não estejam bem equipados para lidar com

BEBÊS E CRIANÇAS PEQUENAS NA PRISÃO


Um grupo singular de crianças sob risco de violência em casas de internação é formado por
bebês e crianças pequenas que se encontram na prisão com suas mães. Trata-se de uma prática
adotada em muitos países e em todas as regiões do mundo. As instituições, porém raramente
dispõem das condições necessárias para proteger essas crianças. Existem benefícios inegáveis
no fato de manter as crianças com as mães. Alguns países só permitem que as mães fiquem com
seus filhos enquanto são bebês, outros permitem que as mães fiquem com seus filhos até os seis
anos de idade. Entretanto, existe uma necessidade urgente de melhorar as condições em que
essas instituições operam para atender às necessidades específicas das crianças que vivem com
suas mães detentas. Por exemplo, um estudo sobre crianças que vivem com suas mães, realizado
em prisões do Camboja, descobriu que outras detentas batiam nas crianças quando elas chora-
vam ou para se vingarem de uma briga com a mãe da criança.104
5
as necessidades de saúde mental dessas crian- vulneráveis na carceragem das delegacias ou em
ças, é cada vez maior o número de crianças com centros de detenção.105 Por exemplo, um estu-
distúrbios mentais ou emocionais instituciona- do realizado no Quênia constatou que 80 a 85%
lizados. Essas internações são devastadoras para das crianças que estavam sob custódia da polí-
a família. Crianças com necessidades de saúde cia ou em centros correcionais eram crianças
mental enfrentam o estresse adicional de serem necessitadas de assistência e proteção que não
desalojadas e de sentirem-se abandonadas. En- haviam praticado qualquer infração.106
quanto isso, os pais perdem o controle sobre
aspectos importantes da vida dos seus filhos e Muitas crianças que trabalham ou vivem nas
às vezes não conseguem sequer manter-se in- ruas são simplesmente encaradas como ele-
formados sobre onde seus filhos estão vivendo. mentos anti-sociais e detidas pela polícia sem
prova de infração. Em Ruanda, assim como
Detenção em substituição a proteção em muitos outros países, as crianças de rua
são arregimentadas e colocadas em "centros
Em um grande número de países, o sistema de de reeducação", onde são privadas da sua li-
berdade quer tenham praticado uma infração 209
justiça criminal é usado como substituto para
sistemas adequados de assistência e proteção. ou não.107 Em muitos casos, os tribunais de-
A polícia muitas vezes é o primeiro e único ór- terminam sua reclusão em casas de internação
gão a responder às crianças necessitadas e, na ou prisões para adultos, onde podem perma-
falta de alternativas adequadas, aloja crianças necer indefinidamente.108

MENINAS INTERNADAS
O uso da chamada "custódia protetora" afeta de forma desproporcional as meninas, que são as
vítimas mais freqüentes da violência e da exploração sexual. O número de internaões para a
proteção de meninas que sofreram abuso sexual é particularmente alto em países onde se prati-
cam "crimes contra a honra". Por exemplo, na Síria, é comum que as meninas que sofreram
violência sexual sejam internadas em instituições para delinqüentes juvenis em vez de serem
entregues a seus pais devido ao temor de que sejam mortas para preservar a honra da família ou
forçadas a se casarem com seus estupradores.114

Como as meninas normalmente são internadas em menor número do que os meninos, os gover-
nos tendem a dispor de uma quantidade ainda menor de instalações onde sejam segregadas das
mulheres adultas. Um estudo de 2002 sobre jovens e a lei comentou que "como número de
meninas dentro do sistema é pequeno, elas são simplesmente incorporadas de qualquer maneira
“Noventa por cento das crianças que entram no sistema saem pior do que estavam quando entraram.”

Jovem, América do Norte, 2004 V

MENINAS INTERNADAS
ao restante do sistema, com escasso reconhecimento de que suas necessidades são diferentes
das de outras mulheres. Isso também significa que elas atraem menos recursos financeiros..."115

As meninas em casas de internação correm maior risco de sofrer abuso físico e sexual, particu-
larmente quando detidas em instalações para ambos os sexos ou quando a ausência de instala-
ções específicas para meninas faz com que sejam internadas em instituições para adultos. A
falta de funcionárias do sexo feminino é uma preocupação adicional nos centros que alojam
meninas detidas. Muitas vezes, funcionários do sexo masculino dedicam-se ao "assédio sexual
permitido", o que inclui toques impróprios durante as revistas ou a observação das meninas
enquanto elas se vestem, tomam banho ou usam o banheiro.116 Os funcionários do sexo mascu-
lino também valem-se da sua posição de autoridade para exigir favores sexuais e são responsá-
veis pela prática de violência sexual e estupro.
210

As crianças vítimas de exploração sexual ou eco- A saúde mental é outra questão preocupante
nômica freqüentemente são detidas como se fos- na internação de adolescentes. Estudos rea-
sem criminosas, inclusive meninas que fogem de lizados no Reino Unido indicam que entre
casamentos forçados, crianças traficadas e crian- 46% e 81% dos jovens internados (com ida-
ças usadas na indústria do sexo comercial (veja o de entre 15 e 21 anos) têm problemas men-
quadro). Por exemplo, sob as leis de "custódia tais. 111 Outra pesquisa afirma que cerca de
segura" em Bangladesh, meninos e meninas po- 80% de adolescentes sob custódia sofrem de
dem ser detidos em cadeias ou em casas para cri- pelo menos dois tipos de distúrbios men-
anças que vivem nas ruas mesmo nos casos em tais. 112 Mesmo desconsiderando-se o fato de
que as crianças foram vítimas de estupro ou vio- que essas crianças deveriam receber trata-
lência sexual, salvas de bordéis ou das mãos de mento e não punição, os funcionários das
traficantes ou, no caso de meninas e mulheres, instituições de internação muitas vezes não
quando se casaram com alguém de outra religião são treinados para lidar com crianças que
ou sem a permissão de seus guardiões.109 De for- têm doenças mentais ou problemas emocio-
ma semelhante, na Índia e no Nepal, sobreviven- nais. Por exemplo, há relatos de funcionári-
tes do tráfico e meninas encontradas em bordéis os de casas de internação que reagem às ten-
freqüentemente são forçadas pela polícia e por tativas de suicídio das crianças deixando-as
ONGs a permanecer sob "custódia protetora" em nuas e amarrando seus pulsos e tornozelos a
instituições de segurança.110 camas descobertas. 113
"Os policiais são muito agressivos com as crianças. Eles as atiram no chão
e quando te revistam são brutos."
Menina, 16 anos, América do Norte VI

5
ORIGENS DA VIOLÊNCIA NA te cometido por guardas e professores.119 Em
INTERNAÇÃO E CUSTÓDIA alguns centros de internação no Brasil, as sur-
POLICIAL ras são uma ocorrência diária. Adolescentes
relataram que os guardas abusavam delas ver-
Os adolescentes sob custódia ou privados da balmente e as agrediam com socos, chutes e
sua liberdade estão sujeitos a um risco extremo surras com vara.120
de sofrer violência. Assim como acontece no
atendimento residencial, a violência contra a Práticas violentas são encontradas tanto em
criança detida muitas vezes parte dos funcio- países industrializados quanto em países em
nários ou dos outros . Além disso, crianças ou desenvolvimento. Crianças ou adolescentes
adolescentes podem estar sujeitos à violência podem ficar confinadas em celas superlotadas
praticada por detentos adultos, pela polícia ou por semanas ou até meses, sujeitas à contenção
pelas forças de segurança enquanto estão sob física dolorosa como medida "disciplinar" ou
sua custódia, e também podem receber senten- forçadas a se manterem em posições físicas
ças violentas dos tribunais. desconfortáveis por horas a fio. No Reino Uni-
do, informações obtidas em novembro de 2005 211

Violência praticada pelos revelaram o uso freqüente de contenção física


dolorosa em quatro "centros seguros de treina-
funcionários em casas de
mento" particulares, nos quais adolescentes
internação
entre 12 e 17 anos estavam detidos. Conten-
ções dolorosas envolvendo pressão aplicada ao
Crianças em instituições de internação freqüen-
nariz, polegares e costelas foram usadas 768
temente estão sujeitas à violência praticada pe-
vezes no ano, causando lesões em 51 casos.121
los funcionários como forma de controle ou
punição, muitas vezes por pequenas infrações.
Embora 124 países tenham proibido totalmen- Violência praticada sob custódia da
te os castigos corporais em instituições penais, polícia e das forças de segurança
em pelo menos 78 países essa forma de puni-
ção continua legítima como medida disciplinar A polícia e outras forças de segurança são mui-
nas instituições.117 Na República Popular De- tas vezes responsáveis pela violência praticada
mocrática do Laos, 30% dos adolescentes in- contra a criança e contra a doelscentes. Os ado-
ternados relataram ter sofrido punição física ou lescentes que vivem ou trabalham nas ruas são
mental, que incluíam surras, rastejamento for- particularmente vulneráveis à violência prati-
çado, exposição forçada ao sol ou perda de re- cada pela polícia, que inclui assédio, surras,
feições.118 No Iêmen, mais de um terço dos ado- violência sexual e assassinato. Esse assunto é
lescentes internados relataram surras e outros discutido com mais profundidade no capítulo
tratamentos cruéis. Mais da metade da amostra sobre violência contra a criança na comunida-
de um estudo relatou abuso sexual, normalmen- de. No entanto, é importante notar que uma parte
"Era como ser crucificada numa cama de ferro. Eu tentei resistir, mas sete ou oito guardas me forçaram a deitar sobre
uma estrutura de ferro. Eles esticaram meus braços e minhas pernas e me acorrentaram aos quatro cantos da cama.
Eu tive que ficar deitada ali daquele jeito a noite toda até a manhã seguinte."

Menina, 16 anos, Oriente Médio, 2003 VII

significativa dessa violência ocorre com crian- gem da polícia por longos períodos, muitas ve-
ças e adolescentes que se encontram formalmen- zes sem notificação aos seus pais ou guardiões.
te sob custódia da polícia e das forças de segu- Por exemplo, nas Filipinas, as leis que determi-
rança, como, por exemplo, durante a captura nam que a polícia informe a detenção de um ado-
ou interrogatório e na carceragem da polícia. lescente ou uma criança ao Departamento de
No Egito, por exemplo, adolescentes detidos em Desenvolvimento e Assistência Social no perío-
carceragens relataram surras com cassetetes, do máximo de oito horas após a sua detenção
chicotes, mangueiras e cintos, além de abuso freqüentemente são ignoradas e eles podem per-
sexual.122 No Nepal, 85% das crianças e jovens manecer nas celas das delegacias por períodos
entrevistados nas prisões relataram tratamento de até um mês.127 Na Jamaica, uma investigação
abusivo sob a custódia da polícia ou das forças realizada no final da década de 90 constatou que
de segurança e 58,6% relataram torturas usan- muitas crianças e adolescentes que sofreram abu-
do métodos como choques elétricos e surras sos, foram negligenciadas ou acusadas de terem
com objetos duros, com as mãos amarradas e praticado somente pequenas infrações permane-
os olhos vendados. 123 ciam em carceragens imundas e superlotadas por
212 períodos de oito meses ou mais.128
Está fartamente documentado que algumas for-
ças policiais recorrem rotineiramente à violên- Similarmente, a violência pode ser usada con-
cia, incluindo tortura, para extrair informações tra adolescentes sob custódia de forças milita-
e confissões de adolescentes. No Paquistão, em res e de segurança em territórios ocupados ou
uma pesquisa sobre adolescentes internados disputados. Em Israel e no Território Palestino
realizada pela Comissão Nacional para o Bem- Ocupado, mais de 1.400 crianças palestinas fo-
Estar e o Desenvolvimento da Criança, 68% dos ram detidas por autoridades militares israelen-
entrevistados afirmaram ter sido forçados a ad- ses entre 2000 e 2004. As declarações juramen-
mitir sua culpa.124 Em Papua Nova Guiné, ado- tadas das crianças palestinas detidas indicaram
lescentes foram queimados, cortados com te- que a maioria foi submetida a uma ou mais for-
souras, chicoteados nus e humilhados para que mas de maus-tratos durante o período de deten-
confessassem algum crime durante interroga- ção e interrogação, incluindo assédio sexual e
tórios feitos pela polícia.125 Em alguns países, ameaças físicas e psicológicas.129
adolescentes e crianças morreram como resul-
tado de tortura policial.126 Violência sob a forma de sentença

Em muitos países, as leis exigem que crianças Os castigos corporais aplicados como sentença
sejam transferidas rapidamente da custódia da a crianças ou adolescentes que cometeram al-
polícia para uma instalação adequada para cri- guma infração foram proibidos em 177 Esta-
anças e adolescetes ou submetidas a julgamento dos e territórios, e a prática foi condenada em
em um período de 24 a 48 horas ou menos. Na uma série de julgamentos envolvendo direitos
prática, porém, podem permanecer na carcera- humanos. Não obstante, cerca de 31 Estados e
5
territórios ainda permitem que a aplicação de A prisão perpétua e sem possibilidade de sol-
castigos corporais como sentença contra crian- tura por infrações praticadas por crianças e
ças.130 Por exemplo, a Lei da Criança na Malá- adolescentes também é proscrita pelas leis in-
sia permite o chicoteamento de crianças acusa- ternacionais (CDC, artigo 37a). Entretanto,
das de praticarem uma infração.131 Em Tonga, a pelo menos 15 países têm leis que permitem
Lei de Delitos Criminais estipula que meninos isso, embora somente alguns imponham essa
com idade abaixo de 16 anos podem ser chico- sentença na prática. Fora dos Estados Uni-
teados até 20 vezes. dos, existem apenas cerca de doze crianças e
adolescentes infratores de que se tem notícia
Em alguns países, crianças consideradas púbe- cumprindo pena de prisão perpétua. Nos Es-
res podem ser sentenciadas a punições de extre- tados Unidos, porém, até 2005 cerca de 2.225
ma violência, incluindo açoitamento, apedreja- pessoas haviam sido condenadas à prisão per-
mento e amputação. Por exemplo, a CDC ex- pétua por crimes praticados quando ainda
pressou preocupação com essas sentenças apli- eram crianças. Estima-se que 59% desses con-
cadas a crianças em Estados como Brunei Da- denados à prisão perpétua sem direito à li-
russalam, República Islâmica do Irã, Nigéria, berdade condicional eram réus primários; 213
Paquistão, Arábia Saudita e Iêmen e recomen- aproximadamente 26% foram condenadas por
dou que esses países aprovassem emendas às leis "homicídio doloso", tendo participado de um
existentes para tornar essas práticas ilegais.132 assalto ou arrombamento de residência du-
rante o qual um co-participante cometeu as-
Embora universalmente condenada e proibida sassinato, muitas vezes sem o conhecimento
pelas leis internacionais (PIDCP, artigo 6, ou a intenção da criança. As disparidades ra-
CDC, artigo 37ª), alguns Estados ainda ado- ciais são marcantes. Crianças afro-america-
tam a pena de morte para infrações praticadas nas são condenadas com uma freqüência dez
por crianças. Desde 1990, a Anistia Internaci- vezes maior que crianças brancas.135
onal registrou 39 execuções notificadas de cri-
anças infratores em oito países - China, Repú- Violência praticada por
blica Democrática do Congo, República Islâ- detentos adultos
mica do Irã, Nigéria, Paquistão, Arábia Saudi-
ta, Estados Unidos e Iêmen.133 Em março de A legislação doméstica da maioria dos países
2005, porém, a Suprema Corte dos Estados exige instalações separadas para crianças em
Unidos decretou que a pena capital não pode- conflito com a lei para impedir abusos e ex-
ria mais ser imposta por atos infracionais pra- ploração praticados por adultos. Mesmo as-
ticados antes da idade de 18 anos, e as 72 pes- sim, a internação junto com adultos continua
soas remanescentes que haviam sido conde- a ocorrer em muitos países. Desde 2001, o
nadas à morte por crimes praticados quando Comitê para a Prevenção da Tortura do Con-
tinham menos de 18 anos foram removidas do selho da Europa registrou sua preocupação
corredor da morte.134 com adolescentes mantidos nas mesmas ce-
las que adultos em pelo menos três países- Violência praticada por
membros do Conselho. Por exemplo, o UNI- outras crianças
CEF relatou que em 1988, na Alemanha, ado-
lescentes com menos de 18 anos não eram Assim como nas instituições assistenciais, cri-
sistematicamente separados dos adultos, o anças mantidas em casa de internação são vul-
que os colocava sob risco de comportamento neráveis à violência praticada por outras crian-
ameaçador, chantagem ou até estupro por ças, especialmente quando as condições e a su-
parte de prisioneiros mais velhos.136 pervisão dos funcionários são precárias. A au-
sência de privacidade, a frustração, a superpo-
Nas carceragens da polícia, onde o espaço é limi- pulação e a não-separação das crianças especi-
tado, crianças são muitas vezes mantidas juntas almente vulneráveis de crianças mais velhas e
com adultos que podem perpetrar violência, in- mais agressivas normalmente levam à violên-
cluindo violência sexual, contra elas. Freqüente- cia entre crianças.
mente vezes falta supervisão adequada, particu-
larmente à noite, o que resulta em mais abusos da No Rio de Janeiro, rivalidades entre gangues
214 polícia, inclusive estupro. Há regiões do mundo geraram sérios episódios de violência entre ado-
onde sequer existem instalações separadas para lescentes colcocados nos centros de internaão,
custódia de curto prazo ou detenção de maior pra- incluindo surras, esfaqueamento, estupro e as-
zo. Nos Estados onde não foram estabelecidos sis- sassinato.139 No Reino Unido, um relatório de
temas separados para a justiça da infância e da 2005 do Inspetor-Chefe de Prisões e do Conse-
juventude, crianças são rotineiramente detidas com lho de Justiça da Juventude (Inglaterra e País
infratores adultos sob condições péssimas, o que de Gales) informou que 21% dos meninos e
aumenta o risco de que sofram violência por parte meninas haviam sido espancados, chutados ou
de presos mais velhos.137 agredidos por outro jovem.140

Além disso, os países que permitem que crian- Autolesão


ças sejam detidas, julgadas e sentenciadas como
adultos também podem encarcerá-las com adul- Adolescentes detidos correm maior risco de
tos. Nos Estados Unidos, quase todos os Esta- praticar autolesão e de demonstrar comporta-
dos mudaram suas leis recentemente para faci- mento suicida devido à violência, à negligên-
litar o julgamento de crianças como adultos. Em cia ou às péssimas condições de vida. A inter-
2000, estima-se que 55.000 crianças foram jul- nação prolongada ou indefinida e o isolamento
gadas em tribunais para adultos.138 As crianças também contribuem para uma saúde mental pre-
condenadas nesses tribunais normalmente são cária (como foi discutido acima) e para o risco
detidas em prisões para adultos. de autolesão.
"Quando fui para a prisão, fiquei no meio de toda aquela violência. Eu pensei, 'cara, tenho que sair

5
dessa - como vou sair dessa prisão?' Não posso cumprir prisão perpétua aqui nessa idade. Então eu
pensei nisso (cometer suicídio). Tenho que acabar com isso, tenho que acabar com isso... Fiquei
com tantos cortes... Lâminas de barbear. Eles nos dão barbeadores descartáveis."
Garoto, condenado a prisão perpétua sem direito a liberdade condicional por um infração praticada
quando tinha 14 anos de idade, América do Norte, 2005VIII

Nos Estados Unidos, foi relatada a ocorrên- ram, o mais jovem com 14 anos, e um morreu
cia de 110 suicídios de jovens em instituições enquanto estava sob contenção.143
de todo o país entre 1995 e 1999.141 Em 2002,
122 centros de internação para adolescentes Para crianças internadas em instalações para
e crianças informaram ter transportado pelo adultos, o risco de autolesão é especialmente alto.
menos uma criança para atendimento hospi- Alguns estudos realizados nos Estados Unidos
talar de emergência devido a uma tentativa indicam que crianças e adolescentes internados
de suicídio.142 No Reino Unido, 29 adoles- em prisões de adultos têm probabilidade até oito
centes morreram em internação entre 1990 e vezes maior de cometer suicídio do que as inter-
setembro de 2005. Vinte e sete se enforca- nados em instalações adequadas.144

215
A INTERNAÇÂO DE CRIANÇAS "FUNCIONA"?
Crianças submetidas a internação demonstram maior probabilidade de praticar infrações no
futuro do que crianças colocadas em programas de redirecionamento. Nos Estados Unidos,
praticamente todos os estudos que examinaram a reincidência entre crianças condenadas à in-
ternação em casas de internação concluíram que pelo menos 50 a 70% dos infratores são nova-
mente aprisionados um ou dois anos após a soltura.145 Por outro lado, os índices de reincidência
entre crianças colocadas em programas alternativos baseados na comunidade são baixos, po-
dendo atingir até 10%.146 A reincidência é particularmente aguda entre crianças detidas com
adultos. No Camboja, estima-se que seis em cada 10 crianças detidas em prisões para adultos
sejam novamente aprisionadas por crimes mais sérios praticados após a sua soltura.147

De acordo com um especialista em justiça da infância e da juventude, "as pesquisas de avaliação


indicam que o encarceramento de adolescentes infratores em grandes instituições de atendimen-
to coletivo não os reabilita efetivamente e pode até causar-lhes danos. Um século de experiência
com escolas de treinamento e prisões para crianças demonstra que eles constituem o único
método amplamente avaliado de tratar delinqüentes que é, confirmadamente, ineficaz."148
OUTRAS CRIANÇAS SOB Atualmente, somente cerca de um terço dos
países europeus possuem disposições legais
CUSTÓDIA DO ESTADO e práticas relativas à assistência e proteção
de crianças desacompanhadas. Essas provi-
REFUGIADOS, SOLICITANTES dências deveriam incluir, em uma situação
DE ASILO E MIGRANTES ideal, locais de recepção separados, proibi-
ção de detenção da criança e guardiões ofici-
Crianças podem fugir de seu país natal por uma ais treinados. Mas a realidade é que muitos
série de razões, inclusive conflitos armados, in- centros não estão equipados para satisfazer
surreição étnica, perseguição de sua família, às necessidades das crianças e os funcionári-
morte ou desaparecimento dos pais e recrutamen- os não são treinados para lidar com elas, par-
to militar forçado. Outras podem atravessar fron- ticularmente aquelas que se encontram trau-
teiras em busca de melhores oportunidades eco- matizadas. Isso aumenta a sua exposição po-
nômicas e sociais, muitas vezes sem os docu- tencial à violência. Um número significativo
mentos necessários ou em contravenção às leis de crianças desacompanhadas e separadas
216 de imigração. Seja em situação legal ou ilegal, desaparece dos locais de recepção ou duran-
muitas dessas crianças acabam internadas em te o procedimento de asilo.151 Alguns desses
instituições onde são isoladas da comunidade. desaparecimentos são notificados como rela-
cionados ao tráfico.
Crianças desacompanhadas
Grupos que trabalham com solicitantes de asi-
Embora muitas crianças refugiadas estejam lo detidos expressaram sua preocupação com o
acompanhadas dos pais ou sob os cuidados de fato de que o nível de incerteza sobre a duração
parentes, um número significativo de crianças da detenção, combinado ao temor das conseqü-
refugiadas ou solicitantes de asilo chegam se- ências de uma possível volta, pode exacerbar o
paradas dos parentes próximos ou inteiramente risco de essas crianças praticarem autolesão.152
desacompanhadas. Em 2004, países como a Essa ansiedade é particularmente evidente no
Áustria, Bélgica, França, Itália e Reino Unido caso de crianças que sobreviveram à tortura ou
relataram, cada um, entre 1.000 e 5.000 crian- a um trauma grave no país de origem. A depres-
ças solicitantes de asilo que chegaram separa- são pode levar a gestos desesperados. De acor-
das dos pais ou cuidadores.149 Em 2005, a preo- do com o Programa Crianças Separadas na Eu-
cupação com a vulnerabilidade e a perda de di- ropa, a internação de algumas crianças em cen-
reitos enfrentadas por crianças desacompanha- tros residenciais "prolongou-se por anos e foi
das e separadas que solicitavam asilo levou o descrita como 'tortura mental', fazendo com que
Comitê dos Direitos da Criança a adotar um algumas crianças acreditassem que a única ma-
Comentário Geral, baseado no CDC, contendo neira de terminar esse sofrimento e de assumir
orientações sobre a proteção, assistência e tra- algum tipo de controle sobre suas vidas seria
tamento adequado dessas crianças.150 cometer suicídio".153
5
Instalações que se Detenção de crianças migrantes
assemelham a prisões
As estatísticas sobre migração ilegal são escassas
Embora crianças nunca devessem ser detidas e pouco confiáveis devido à natureza clandestina
em razão da sua situação de imigração, muitas dos canais de migração, mas os fluxos principais
são mantidas em instalações de segurança por invariavelmente contêm crianças, inclusive algu-
longos períodos de tempo. mas que se tornam desacompanhadas ou são se-
paradas dos parentes próximos durante o proces-
Na Austrália, por exemplo, centenas de meninas e so migratório. Na Espanha, quase 1.400 crianças
meninos que solicitavam asilo foram mantidos em migrantes desacompanhadas e separadas foram
centros de detenção por um período médio de 20 aceitas pela Administração Andaluz do Sul da
meses. A detenção prolongada teve um impacto pre- Espanha entre janeiro e outubro de 2005.157 No
judicial significativo sobre a saúde mental e física México, apenas em 2005, mais de 4.000 crianças
de algumas dessas crianças. Algumas crianças man- desacompanhadas, em sua maioria provenientes
tidas em detenção apresentaram depressão, distúr- da Guatemala, foram devolvidas aos seus países
217
bio de estresse pós-traumático e distúrbios de ansi- de origem. Os procedimentos de retorno não in-
edade. Outras crianças exibiam enurese, sonambu- cluem as salvaguardas necessárias para garantir a
lismo e terror noturno.154 As crianças também fo- segurança e o bem-estar dessas crianças.
ram expostas a agitações, protestos e violência ocor-
ridos em alguns dos centros de detenção. Algumas Há preocupações crescentes sobre o tratamento
crianças detidas também costuraram seus lábios e a assistência dispensados às crianças migran-
e cometeram outros atos de autolesão.155 tes no país de destino - e também no seu país de
origem, nos casos em que as crianças são repa-
Em 2004 e 2005, crianças solicitantes de asilo fo- triadas. A "assistência" dispensada a essas crian-
ram detidas em centros de imigração ou confina- ças quase sempre envolve privação injustificada
das em aeroportos internacionais de vários países, de liberdade ou internação em instituições aber-
inclusive das Bahamas, Botsuana, República Ára- tas onde as condições são inadequadas. É comum
be Líbia, Malásia, Tailândia, Estados Unidos e que faltem a essas crianças as garantias e a re-
Europa.156 Crianças podem ser detidas com seus presentação jurídica disponíveis a outras crian-
parentes por delitos relacionados à imigração sem ças no país em questão.158 Crianças detidas fre-
que seja avaliado se isso atende aos seus interesses qüentemente são alojadas na mesma instituição
superiores e sem que sejam consideradas alternati- com outros adultos com os quais não têm liga-
vas à detenção. A soltura muitas vezes só ocorre ção familiar. Elas podem ser expostas a experi-
depois da confirmação de reassentamento da cri- ências traumáticas e ter pouco acesso à nutrição
ança ou da família em um terceiro país. Essas cir- adequada, à assistência médica e à educação.
cunstâncias não implicam necessariamente em vi- Algumas crianças detidas por infração das leis
olência, mas podem colocar crianças em situações de imigração são mantidas juntas com indivídu-
de alta vulnerabilidade e exposição. os acusados de delitos criminais.
"Fui torturado na prisão e os presos me queimavam com cigarros porque eu me recusei a fazer sexo com eles."

Menino, 16 anos, sub-região do Oceano Índico, 2006 IX

A violência por parte de outras crianças tam- depressão ou doença mental. Por exemplo,
bém é um risco. Em um estudo realizado na no Paraguai, crianças de até 12 anos de ida-
África Setentrional sobre crianças migrantes de foram recrutadas à força para as forças
detidas em centros na Espanha, muitas queixa- armadas, muitas vezes com certidões de nas-
ram-se de extorsão, furto e abusos físicos prati- cimento falsificadas por autoridades civis ou
cados por crianças maiores e mais velhas. Mui- militares. Desde 1989, mais de 100 jovens
tas crianças relataram que os funcionários fre- recrutas morreram durante o serviço militar
qüentemente não intervinham, mesmo quando compulsório e muitos outros foram vítimas
os abusos ocorriam diante deles. Algumas fu- de acidentes graves. Acredita-se que as mor-
giram dos centros acreditando que estariam mais tes e os ferimentos tenham resultado de cas-
seguras nas ruas.159 tigos infligidos por oficiais e da falta de me-
didas de segurança para atividades perigosas,
CRIANÇAS EM EXÉRCITOS EM como o manejo de armas de fogo. Alguns re-
TEMPOS DE PAZ crutas sofreram danos psiquiátricos perma-
nentes após maus-tratos sistemáticos.161,162,163
218
Este estudo não abrange a questão das crianças
que atuam como soldados durante períodos de No Reino Unido, a morte suspeita de dois sol-
guerra, abordado no estudo de 1996 das Na- dados de 17 anos de idade no Quartel do Exér-
ções Unidas O Impacto do Conflito Armado em cito em Deepcut levou a revelações de outros
Crianças (conhecido como Estudo Machel) e suicídios, bem como de dezenas de incidentes
em estudos subseqüentes. No entanto, crianças de autolesão e da ocorrência de bullying siste-
que fazem parte de forças militares governa- mático no quartel. Uma comissão parlamentar
mentais podem estar sujeitas à violência em de 2004 realizou subseqüentemente um inqué-
tempos de paz. O modo de vida, trabalho e resi- rito e recomendou a adoção de um procedimento
dência dessas crianças é essencialmente insti- externo para investigar as alegações de bullying
tucional, ocorrendo em quartéis do exército ou e abuso nas forças armadas britânicas.164
campos de treinamento.
Embora não façam parte das forças armadas,
Em pelo menos 65 países de todo o mundo, milhares de crianças vivem permanentemente
meninos e meninas são recrutados para as em bases militares nos quartéis do exército. No
forças militares do Governo, seja legalmen- Cazaquistão, na Rússia e na Ucrânia, crianças
te, como voluntários, ou ilegalmente, à for- sem teto e órfãs podem ser "adotadas" por uni-
ça ou por meio de subterfúgios. 160 Há evi- dades militares a partir dos 10 ou 11 anos de
dências consideráveis indicando que esses idade. Elas também recebem treinamento mili-
soldados com idade menor que 18 anos po- tar, o que acarreta preocupações com sua expo-
dem estar sujeitos a bullying, estupro, vio- sição a condições difíceis, bullying, outras for-
lência sexual e assédio, a ponto de comete- mas de abuso e atividades perigosas como o trei-
rem autolesão e/ou suicídio e sofrerem de namento com armas de fogo.165
5
RESPOSTAS À VIOLÊNCIA É igualmente essencial que sejam adotadas
medidas para eliminar a impunidade dos res-
CONTRA A CRIANÇA EM ponsáveis pela violência contra a criança, es-
INSTITUIÇÕES ASSISTENCIAIS tabelecendo-se mecanismos eficazes e trans-
E CORRECIONAIS parentes de monitoramento, investigação e
responsabilização.
Diversas medidas são necessárias para evitar e
reagir à violência contra a criança em sistemas AÇÃO LEGISLATIVA
assistenciais e correcionais. Como em qualquer
outro ambiente onde ocorra violência contra a Um fator essencial para a eliminação da vi-
criança, a prevenção primária nas instituições, olência contra a criança em instituições e em
para evitar a violência antes que ela aconteça, é outras formas de assistência alternativa é a
de extrema importância. Isso requer duas linhas existência de uma clara base legislativa para
de atuação paralelas: a redução dos principais lidar com a criança institucionalizada ou de-
fatores que levam à internação de crianças em tida. Em alguns países, a melhor opção se-
219
instituições e a oferta de alternativas às próprias ria englobar essas medidas em uma lei abran-
instituições. A primeira, que só pode ser aborda- gente da criança ou outra legislação seme-
da de passagem nesta seção, também é discutida lhante de base ampla; em outros países, tal-
no capítulo sobre a violência contra a criança no vez seja necessário modificar as leis exis-
lar e na família, onde alternativas à instituciona- tentes. Em todos os casos, a legislação deve
lização são descritas em maiores detalhes. ser compatível com a CDC e outros instru-
mentos de direitos humanos. Algumas carac-
Esta seção também aborda medidas secundárias terísticas importantes dessa legislação são
de prevenção voltadas para a resposta imediata à descritas a seguir.
violência nas instituições. Essas medidas levam
em consideração que, por mais rápido que seja o O próprio Estado não deve ser um perpetrador de
avanço da prevenção inicial e a redução da insti- violência contra indivíduos sob o seu cuidado.
tucionalização, as instituições existentes e todos Sendo assim, todos os tipos de sentenças violen-
os locais de assistência alternativa devem ser tor- tas devem ser eliminados, incluindo a pena de
nados lugares seguros para as crianças. Isso in- morte e a prisão perpétua sem possibilidade de
clui um melhor treinamento e remuneração ade- soltura. O uso de castigos corporais e outras for-
quada para os funcionários, a oferta de serviços mas cruéis ou degradantes de punição ou controle
melhores e mais diversificados para satisfazer uma deve ser explicitamente proibido dentro de todas
grande variedade de necessidades das crianças (in- as instituições ou locais de assistência alternativa
cluindo as relacionadas a gênero e deficiências), onde crianças residam ou estejam detidas.
melhor supervisão, transparência administrativa
e maior receptividade às opiniões e ao envolvi- Para que haja redução do número de crianças
mento das crianças e suas famílias. sob custódia, o código penal e outros itens da
legislação relacionada ao crime e ao policia- humanos e ouvidores, advogados, a mídia e
mento devem descriminalizar infrações de sta- outros elementos da sociedade civil, respei-
tus e os comportamentos de sobrevivência tada a privacidade individual e a dignidade
(como a mendicância, a ociosidade e a vadia- de meninas e meninos. A lei deve estabelecer
gem) para remover a base legal sobre a qual sistemas eficazes de monitoramento e notifi-
muitas crianças são colocadas sob custódia. cação, operados por órgãos competentes, com
Crianças exploradas sexualmente ou trafica- poderes para exigir informações sobre melho-
das deveriam ser tratadas como vítimas a se- rias nas condições e para investigar e corrigir
rem ajudadas e não como perpetradoras a se- alegações de violência.
rem capturadas, devendo receber cuidados e
proteção no ambiente da comunidade. No caso As garantias de que as vozes das crianças e das
de tráfico e entrada ilegal de crianças migran- suas famílias serão ouvidas devem estar expres-
tes, deve haver uma cláusula não-punitiva para sas na lei, e não apenas em manuais de orienta-
infrações às leis de imigração, como a posse ção ou de procedimentos institucionais. A le-
de documentos fraudulentos. gislação deve assegurar a disponibilidade de
220 mecanismos de queixas que sejam simples,
A legislação deve refletir as obrigações do Es- acessíveis, independentes e seguros para as cri-
tado para com a proteção da criança, não im- anças nas instituições. As crianças e seus re-
portando onde elas sejam institucionalizadas ou presentantes também devem ter acesso a um
quem esteja administrando a instituição ou pro- processo de apelações caso não estejam satis-
vendo a forma de assistência. Todos os funcio- feitos com a resposta à sua queixa.
nários em potencial devem passar por uma tria-
gem. Todas as instituições e formas alternati- POLÍTICAS PARA EVITAR A
vas de assistência devem ser registradas e a as- INSTITUCIONALIZAÇÃO
sistência prestada às crianças nelas internadas
deve ser regulada detalhadamente. Todas as ins- As políticas que regem os sistemas assistenci-
tituições assistenciais e corretivas devem ser ais e correcionais devem ter como meta tanto
obrigadas a informar qualquer incidente envol- impedir a violência contra a criança institucio-
vendo violência. nalizada ou sob custódia como reduzir o núme-
ro de crianças que ingressam no sistema insti-
A legislação também impedir que as institui- tucional, abrangendo desde os locais públicos
ções funcionem de forma hermética, perma- e privados de assistência até a custódia polici-
necendo imunes à atribuição de responsabi- al, os centros de internação e as prisões para
lidades. O escrutínio público deve ser garan- adultos. A internação e o atendimento instituci-
tido de várias maneiras, inclusive a garantia onal devem ser considerados como a última
de acesso para as famílias das crianças (ex- opção, levando-se em conta os interesses supe-
ceto quando isso for contra seus interesses riores da criança e suas necessidades especiais
superiores), ONGs, instituições de direitos de longo prazo.
5
A maioria dos itens a seguir faz parte da aborda- Não há nada de particularmente novo no princípio
gem de prevenção inicial, direcionada especifica- do "último recurso", seja para questões assistenci-
mente à redução da institucionalização. Eviden- ais ou correcionais. O problema é que, em muitas
temente, a adoção de uma série de medidas gerais partes do mundo, o "último recurso" é freqüente-
(como a oferta de melhores serviços básicos, in- mente o único recurso considerado ou disponível.
cluindo aqueles voltados para famílias de crian- Embora haja sucessos locais, somente em poucas
ças portadoras de deficiência ou outros fatores de regiões os sistemas assistenciais e correcionais evo-
risco, melhoria dos meios de subsistência, igual- luíram em direção à criação de alternativas à nor-
dade social e de gênero, combate ao abuso de subs- ma. Nas palavras de um especialista que colaborou
tâncias, redução da violência doméstica, educa- com este Estudo, "Não basta repetir sempre o mes-
ção inclusiva, retenção educacional e objetivos mo mantra, ele tem que significar uma mudança
gerais de desenvolvimento antipobreza) ajudaria, radical na maneira como os sistemas funcionam".
por definição, a aumentar a capacidade das famí-
lias de criar ou lidar com crianças vulneráveis ou Priorização das alternativas
que correm algum risco, além de contribuir gran-
demente para manter crianças fora de instituições É necessário desenvolver alternativas familia- 221
assistenciais e de internação. res e baseadas na comunidade, além de meca-
nismos de redirecionamento, e alocar os recur-
sos apropriados para que estes possam reduzir
O princípio do "último recurso"
a dependência do atendimento institucional. É
igualmente necessário implementar estratégias
O atendimento institucional deve ser reservado às
claras de reintegração das crianças na comuni-
crianças cujas necessidades não possam ser satis-
dade. Em muitos países, isso exigirá uma pro-
feitas em sua própria família ou em um ambiente funda mudança nas políticas existentes.
familiar alternativo. No caso das crianças em con-
flito com a lei, a internação deve ser usada somente Os profissionais que trabalham com crianças, os
para aquelas que sejam avaliadas como um perigo formuladores de políticas públicas e as autori-
real às outras crianças, e, mesmo assim, somente dades, inclusive a polícia e os juízes, devem ser
pelo menor período de tempo necessário. instruídos sobre a disponibilidade e as vantagens
do uso de alternativas à institucionalização e à
Em termos práticos, esse princípio do "último re- detenção. Por exemplo, os serviços policiais de-
curso" significa que, sempre que uma criança for vem ter policiais especificamente treinados e
considerada ou incorporada à rede de atendimen- voltados para as questões de assistência e prote-
to, deve-se realizar uma avaliação para identificar ção à criança. Os médicos e outros profissionais
o tipo de intervenção mais adequado às suas ne- de saúde devem ser capazes de fornecer às famí-
cessidades. Um objetivo importante dessa avali- lias de crianças portadoras de deficiência e de
ação é garantir que crianças sejam admitidas ao outras crianças em situação de risco as referên-
atendimento residencial somente quando isso cias e informações de que elas precisam para
atender aos seus interesses superiores. cuidar dos seus filhos e oferecer-lhes apoio.
"Nós apanhamos das forças de segurança... quando somos capturados, a caminho da carceragem e quando chegamos à
carceragem. Na carceragem, apanhamos dos outros prisioneiros, que nos pedem dinheiro. Durante o interrogatório,
apanhamos para contar ao (inspetor de polícia) o que roubamos ou quem roubou."

Menino de rua, África Oriental e Meridional, 2005 X

Todos os doadores, sejam eles organizações social e a discriminação e dificultem os passos


multilaterais, intergovernamentais ou não-go- iniciais de crianças que, de outra forma, pode-
vernamentais, devem apoiar ativamente as al- riam ter permanecido com os membros de sua
ternativas por meio de ações de convencimen- família.166,167 Os doadores que apóiam a refor-
to junto ao governo e aos parceiros, bem como ma da justiça da infância e da juventude tam-
do apoio à atualização dos profissionais e às bém devem estender esse apoio às alternativas
atividades de conscientização. Nos casos em à internação e aos programas de prevenção, não
que o Governo já tenha optado claramente por permitindo que seu auxílio financeiro seja usa-
uma política não-institucional para crianças tor- do para construir instalações de segurança.
nadas órfãs pelo HIV/AIDS e outras crianças
carentes, como na África do Sul, as instituições De modo mais geral, é necessário adotar uma
de caridade e ONGs deverão respeitar essa po- educação pública que modifique as atitudes da
lítica e evitar a construção de tipos de instala- sociedade quanto à assistência e à criminaliza-
ções que reforcem a estigmatização, a exclusão ção da criança, bem como quanto à própria insti-

222
O ALTO CUSTO FINANCEIRO DA INSTITUCIONALIZAÇÃO
A institucionalização de crianças é cara, com um custo até 12 vezes maior que o custo per capita
de opções de assistência no ambiente da comunidade, o que gera um dreno financeiro desneces-
sário nos orçamentos.168,169 O Banco Mundial informou que o custo anual de uma criança em
atendimento residencial na região de Kagera, na República Unida da Tanzânia, era seis vezes
maior do que o custo de uma criança colocada em lar substituto.170 Pesquisas realizadas na
Ucrânia, na República da Moldávia e na Rússia em 2001 e 2002 demonstraram que a assistência
residencial em lares e em pequenos grupos na comunidade custa aproximadamente a metade do
atendimento institucional fornecido pelo Estado. O atendimento em lares de adoção custa cerca
de um quinto a um terço do atendimento institucional oferecido pelo Estado. E os serviços
sociais e de apoio às famílias custam aproximadamente um oitavo do atendimento institucional
oferecido pelo Estado.171

Embora essas alternativas sejam mais baratas no longo prazo, sua criação requer recursos adici-
onais iniciais. Um estudo sobre institucionalização realizado nos países do ECO/CEI adverte
que "a poupança resultante não será realizada imediatamente. A razão é que, para proporcionar
uma transição suave, é necessário criar alternativas antes que um sistema institucional seja
fechado ou tenha o seu tamanho reduzido... (No entanto,) à medida que as instituições sejam
gradualmente fechadas, os custos serão reduzidos proporcionalmente à entrada em funciona-
mento do novo sistema. Esses custos transicionais extras devem ser encarados como um inves-
timento na introdução de um sistema novo e melhor."172
5
tucionalização. Isso é essencial tanto para garantir sistentes sociais, enfermeiras visitadoras ou gru-
que os formuladores de políticas públicas real- pos de apoio baseados na comunidade (grupos
mente coloquem essas idéias em prática como de apoio mútuo, grupos religiosos locais etc.);
para informar as famílias sobre as soluções não- programas que ensinem técnicas parentais efi-
institucionais para o atendimento dos seus filhos. cazes; auxílio-subsistência para aliviar a pres-
são da pobreza; e assistência complementar para
permitir que os pais, que têm uma carga pesada
de cuidados a prestar, tenham uma folga de tem-
pos em tempos. Os benefícios da manutenção a
criança com a família são indiscutíveis em ter-
mos tanto da sua saúde e felicidade como dos
seus interesses superiores. Além disso, o custo
do apoio às famílias para que mantenham seus
filhos em casa é substancialmente mais baixo
que o custo da sua institucionalização.
223
O acesso à educação gratuita (ou, em certas
circunstâncias, o auxílio-educação) é uma das
formas de reduzir a institucionalização em lu-
gares onde a pobreza está de tal forma entra-
IÊMEN, 1998, Abdullah Ahmed, nove anos de idade, lê em
sua cama no dormitório do Centro para a Reabilitação de nhada que os pais podem se ver forçados a in-
Menores, na parte antiga de Sana'a. ternar seus filhos em instituições para lhes pro-
porcionar uma educação. No Zimbábue, a So-
ciedade de Proteção à Criança relata que a prin-
ALTERNATIVAS À ASSISTÊNCIA cipal razão para que as famílias não queiram
INSTITUCIONAL cuidar dos seus filhos é a preocupação com o
custo da educação.173 Os governos são obriga-
Apoio às famílias destituídas dos a investir na educação para todas as crian-
e em risco ças, e os doadores e ONGs devem priorizar a
ajuda às famílias ou famílias substitutas por
Com serviços adequados de apoio, muitos pais meio do pagamento das mensalidades escola-
que, de outra forma, poderiam abandonar seus res, em vez de estimular o uso de orfanatos ou
filhos ou recorrer à institucionalização podem a construção de instituições. Quando necessá-
ser auxiliados a cuidar dessas crianças. O apoio rio, a educação escolar normal deve ser suple-
à família pode atenuar a violência no lar e ou- mentada pela assistência dirigida e pelas ati-
tros fatores que levam crianças a entrar em con- vidades de extensão voltadas especificamente
flito com a lei. Esse apoio inclui serviços soci- para crianças em situação de risco e suas fa-
ais e de saúde básicos, acessíveis e de boa qua- mílias (ver o capítulo sobre a violência contra
lidade; visitas domiciliares realizadas por as- a criança na comunidade)
Apoio às famílias de crianças zido em cerca de 70%.174 Para que isso funcione,
portadoras de deficiência os pais de crianças portadoras de deficiência
devem receber informações precisas sobre como
Onde há crianças com deficiências, uma alter- cuidar da criança e sobre os serviços que estão
nativa viável à institucionalização é a implan- disponíveis em sua comunidade. O mesmo se
tação de programas de apoio à família para per- aplica aos pais portadores de deficiências ou de
mitir que crianças com necessidades de assis- doenças crônicas como o HIV/AIDS.
tência intensiva permaneçam com a sua família
natural. Esses programas oferecem às famílias Meninos e meninas portadores de deficiência
várias combinações de treinamento, subsídios têm igual direito à educação. Em 1999, estimou-
financeiros e serviços. Nas duas décadas que se que apenas cerca de 3% das crianças porta-
se seguiram à introdução de programas de apoio doras de deficiência nos países em desenvolvi-
à família nos Estados Unidos e no Canadá, o mento tinham acesso à escola.175 Crianças por-
número de crianças com deficiências de desen- tadoras de deficiência têm direito à educação
volvimento que viviam em instituições foi redu- inclusiva, juntamente com outras crianças.
224

ESTUDO DE CASO: AJUDANDO AS FAMÍLIAS A CUIDAR DE SEUS


FILHOS EM CASA
Uma família do Líbano tinha quatro filhos entre dois e 12 anos. O pai estava gravemente incapa-
citado e precisava de cuidados intensivos. A mãe era ativa e saudável, mas estava desempregada
e sobrecarregada com as necessidades diárias da família. Embora as três crianças mais velhas
tivessem bom aproveitamento na escola, a mãe não podia pagar a mensalidade escolar. Ela
procurou uma Aldeia SOS Criança e pediu que aceitassem seus filhos.

Em vez de tomar as crianças sob seus cuidados, a SOS fez um acordo com a mãe em que se
comprometia a arcar com o custo das mensalidades escolares por um ano e entrou em contato
com a escola para solicitar uma redução das mensalidades. Também foi pedido à mãe que
preparasse um plano de negócios para uma atividade geradora de renda que ela pudesse reali-
zar. A SOS propôs-se a arcar com os custos iniciais e conceder um empréstimo para o negó-
cio. Em 15 dias, a mãe preparou um plano para a montagem de uma mini-padaria em uma loja
perto de sua casa. Assim que abriu o negócio, ela começou a gerar renda e a pagar o emprés-
timo à SOS. A família logo tornou-se totalmente auto-suficiente e as crianças permaneceram
em casa com seus pais.176
"Não sabemos por que você está aqui nem por quanto tempo terá que ficar. Você tem dez anos de
idade, está com medo e confuso. A sua história de vida tem sido muito ruim - desespero na família
e brigas violentas, nenhum dinheiro para comprar roupas ou jogos, às vezes nenhum dinheiro para

5
comprar comida. Mas nada preparou você para isto. Ontem você estava em casa. Hoje de manhã,
um assistente social veio e levou você embora. Você se juntou a mais de um milhão de crianças que
vivem em instituições residenciais em toda a Europa e Ásia Central. Nós temos que tentar ver o
mundo pelos olhos das crianças a quem servimos."
Maria Calivis, Diretora Regional para a ECO/CEI e Países Bálticos, UNICEF, 2005 XI

Apoio direto aos órfãos e ALTERNATIVAS À DETENÇÃO


crianças vulneráveis EM INSTITUIÇÕES

Quando a criança perde a sua família ou não Como princípio norteador, crianças que preci-
pode permanecer com seus pais, as alterna- sam de assistência e proteção não devem ser
tivas à institucionalização podem incluir apreendidas pela polícia, mas encaminhadas
uma família substituta, a adoção, o apoio a imediatamente a agências de proteção. Isso pode
membros da família estendida para que atu- ser feito em parte pela descriminalização das
em como cuidadores e os lares para peque- infrações de status (como gazetear), dos com-
nos grupos. Em regiões rurais da África com portamentos de sobrevivência (como a mendi-
alta prevalência do HIV, onde crianças mais cância, a prostituição, a busca de comida e bens
velhas desempenham o papel de arrimo de no lixo, a ociosidade ou a vadiagem), da viti-
família, muitas vezes é possível oferecer mização pelo tráfico ou pela exploração crimi-
apoio para manter os irmãos juntos e evitar nosa e do comportamento anti-social ou incon-
o atendimento institucional. trolável da criança, evitando assim uma resposta
penal ao que é efetivamente um problema so- 225
Acolhimento de diferentes cial ou de desenvolvimento/comportamento.
necessidades e preferências Quanto às crianças que restarem - ou seja, aque-
las realmente em conflito com a lei - é essenci-
Os governos e todos os envolvidos nas deci- al que sejam "redirecionadas" o quanto antes
sões sobre internação, inclusive os tribunais, da custódia da polícia e do sistema formal de
devem reconhecer que crianças diferentes pre- justiça para programas alternativos.
cisam de diferentes tipos de assistência e bus-
car oferecer a maior gama possível de modali- Uma criança só deve ser detida como último
dades de assistência, garantindo a qualidade de recurso e pelo menor tempo possível. Devem
cada uma delas. A CDC (artigo 20.3) também ser estabelecidos sistemas de triagem para ga-
enfatiza a necessidade de levar em considera- rantir que crianças sejam detidas apenas quan-
ção as características étnicas, religiosas, cultu- do for avaliado que constituem um perigo real
rais e lingüísticas de cada criança ao conside- para outros, e somente após uma audiência ju-
rar as opções para ela. dicial em que estejam representadas. A polícia,
os juízes e as agências governamentais apro-
As crianças têm o direito de participar de todas priadas devem desenvolver mecanismos para
as fases do processo de internação (CDC, arti- identificar o ambiente menos restritivo para
go 12).177 Quando não for possível ou desejável cada criança, levando em consideração a sua
que a criança permaneça com sua família bioló- situação individual. Qualquer criança cuja li-
gica, tanto a criança como seus pais devem par- berdade tenha sido restrita tem direito a assis-
ticipar do processo de decisão sobre as opções tência jurídica rápida ou outro tipo de assistên-
de assistência, oferecendo-se à criança plenas cia para questionar a legalidade da privação da
oportunidades para expressar a sua opinião. sua liberdade (CDC, artigo 37d).
ESTUDO DE CASO: PROJETOS-PILOTO DE
REDIRECIONAMENTO NO QUÊNIA
Em 1997 e 1998, o Departamento de Serviços para Crianças do Quênia estimou que 80% das
crianças dos casos existentes no sistema de justiça da infância e da juventude envolviam crian-
ças que necessitavam de assistência e proteção. Apenas 20% das crianças haviam efetivamente
praticado infrações, e poucos destes eram graves. Em 2001, o Departamento de Serviços para
Crianças e o Save the Children do Reino Unido deram início um projeto-piloto cujo objetivo é
redirecionar crianças para longe dos tribunais em Nairóbi, Nakuru e Kisumu.

O objetivo do programa é redirecionar crianças, especialmente aquelas necessitadas de assistên-


cia e proteção, para longe do sistema judiciário o mais cedo possível. Uma de suas metas é
garantir que os policiais sejam treinados para encaminhar crianças a outras agências em vez de
colocá-las sob detenção. Como parte do projeto, Unidades de Proteção à Criança especializadas
226 foram constituídas nas principais delegacias das três áreas do projeto piloto e tanto os policiais
quanto outras partes envolvidas receberam treinamento em direitos da criança e em processos
de redirecionamento. No âmbito da comunidade, os grupos participantes oferecem treinamento
de capacitação, aconselhamento para pais e crianças, educação não-formal, centros comunitári-
os e abrigos temporários.

Nos quatro anos iniciais do programa, 2.800 crianças foram redirecionadas dos tribunais e as
autoridades municipais constataram uma queda de 90% no número de crianças encaminhadas
aos Tribunais da Criança nas áreas do projeto. As decisões da polícia e das equipes distritais
sobre como auxiliar crianças tornaram-se muito mais rápidas, sendo que algumas crianças são
reacomodadas diretamente a partir da delegacia. Atualmente, muitas permanecem sob custódia
da polícia por menos de 24 horas, o que reduziu o congestionamento nas delegacias. Cerca de
70% das crianças redirecionadas dos tribunais foram reintegradas às suas famílias. O número de
crianças na Casa de Internação de Crianças de Nairóbi caiu à metade. Em geral, as crianças
estão passando apenas alguns dias em casas de internação, em vez de semanas ou meses.182
5
Programas de redirecionamento guns casos, quanto às relações de gênero. Na
baseados na comunidade justiça tradicional da Somália, por exemplo, as
mulheres geralmente não podem falar por si e a
Existe uma grande variedade de alternativas à compensação é sempre menor por crimes con-
internação, tanto nos países industrializados tra as mulheres do que por aqueles praticados
como nos países em desenvolvimento. Muitas contra homens.180
proporcionam reabilitação efetiva e reintegra-
ção dos adolescentes infratores à comunidade Nos últimos anos, diversas iniciativas de ONGs
sem privá-los desnecessariamente da sua liber- foram adotadas em países onde a polícia rotinei-
dade.178 Essas alternativas incluem o estabele- ramente detém crianças por pequenas infraões.
cimento de mecanismos baseados na comuni- Por exemplo, nas Filipinas, até 94% das crian-
dade para lidar com pequenas infrações antes ças detidas e sob custódia são réus primários e o
que as crianças responsáveis dêem entrada no nível de violência que experimentam sob custó-
sistema judiciário formal, o uso de Conselhos dia é alto. Nas Ilhas Visayas Filipinas, foram for-
Locais como "tribunais de primeira instância" mados Comitês locais de Justiça da Criança para
mediar os casos de crianças presas por pequenas 227
para crianças e as iniciativas de justiça com-
pensatória. Quando bem-sucedidos, esses pro- infrações Esse projeto da FREELAVA, uma
gramas reduzem o risco da exposição de crian- ONG filipina, está funcionando agora em 10
ças a um ambiente que as brutaliza, em que a barangays (aldeias ou distritos municipais) com
raiva e o ressentimento crescem, o comporta- população variando de 10.000 a 100.000 habi-
mento violento é a regra e a recidiva é quase tantes. Voluntários comunitários e conselheiros
sempre garantida. independentes que já foram crianças em confli-
to com a lei fornecem assistência às crianças re-
Em alguns países, as práticas tradicionais ofe- tiradas de custódia e as ajudam a reintegrarem-
recem modelos para lidar com crianças que en- se à comunidade. Embora os casos mais sérios -
tram em conflito com a lei sem recorrer à inter- assassinato, estupro, tráfico de drogas, violência
nação. Por exemplo, na Somália, de acordo com extrema - não sejam tratados pelos Comitês, o
a lei consuetudinária, tradicionalmente os an- serviço de reintegração pode ajudar essas crian-
ciãos supervisionam a solução de conflitos e a ças ao saírem da prisão.181
compensação por crimes ou disputas. Quando
uma criança praticou uma infração, seus pais e Uma série de lições sobre "práticas recomen-
suas vítimas consultam juntos um ancião, que dadas" surgiu dos esforços de redirecionamen-
decide sobre a compensação a ser paga pelos to baseados na comunidade. Esses programas
pais da criança.179 Entretanto, as tentativas de devem ser adequados à idade e à maturidade da
ampliar ou adaptar esses modelos exigem cui- criança e podem abranger a criação de sistemas
dado quanto às práticas que possam infringir a de advertência ou aviso, supervisão na institui-
CDC e outros instrumentos de direitos huma- ção, mediação entre vítima e infrator, serviço
nos quanto às punições disponíveis e, em al- comunitário como sentença e aconselhamento
"Acreditamos que nossos sistemas de justiça da infância e da juventude têm a responsabilidade de reabilitar os jovens
e reintegrá-los à sociedade, em vez de submetê-los a mais violência."