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CAIO PRADO JR

HISTÓRIA ECONÔMICA DO BRASIL

1. PRELIMINARES (1500 a 1530)

Prado no início do livro descreve o palco sobre o qual se desenrolou a


história econômica brasileira, o seu meio geográfico. Quanto à fixação da
população, Prado afirma que os terrenos semi-áridos do Nordeste mantiveram a
população no litoral, dentro do possível. No Sudeste, o relevo impede e opõe a
penetração, já na Amazônia, composta por florestas semi-aquáticas, o interior se
abre para o mar pelos rios, com as povoações se fixando no leito dos rios. Já o
planalto Centro-Meridional oferecia ótimas condições para a instalação do homem, a
saber, solo fértil, clima temperado e rios normais.
Acerca do centro-sul, Caio Prado o dividiu em três setores: 1) setentrional,
de grande altitude e relevo acidentado (Minas Gerais); 2) meridional, de relevo
uniforme, florestas e campos naturais (de São Paulo ao Rio Grande do Sul) e 3)
ocidental, com planícies herbosas e terrenos alagadiços, sem grandes recursos
naturais, onde no futuro se desenvolveria a pecuária.
O caráter inicial da formação do Brasil foi ditado pelo contexto internacional.
Com a revolução comercial na Europa deslocou-se a primazia comercial para os
países litorâneos como a Inglaterra, Holanda, Espanha e Portugal. Ao invés de
lançar-se à exploração comercial das oportunidades que se lhe abriam no continente,
Portugal partiu para a conquista de áreas sem concorrência como a África e as Ilhas
do Atlântico. Contornaria a África para alcançar as índias com o Périplo Africano,
tentando superar os italianos, que possuíam o controle da rota das índias e abasteceu
a Europa por muito tempo com pimenta. Ao mesmo tempo os espanhóis
alcançavam a América e os ingleses povoavam a América do Norte. Aí, a
colonização só ocorreu por conseqüência dos cercamentos, e a sociedade foi pouco
mais do que um prolongamento da Inglaterra. Em toda a América por muito tempo
ficou-se mais na exploração da madeira, peles e da pesca. Quanto ao Brasil, a
princípio só se cogitou explorar produtos extrativos, a idéia de povoar não ocorre a
nenhum. É o comércio que interessa. As índias eram muito mais atrativas do que
uma terra deserta recém-descoberta sem perspectivas econômicas alentadoras. A idéia
de povoas só surgiu quando por contingência precisaram criar um povoamento
capaz de abastecer e manter feitorias e organizar a produção de gêneros de comércio
para a exportação.
O primeiro produto extrativo a ser explorado aqui foi o pau-brasil. Em 1501,
Fernando de Noronha recebeu uma concessão de exploração, mas três anos depois
passou a ser monopólio real. A indústria extrativa de pau-brasil tinha que ser
nômade, dada a dispersão das árvores pela terra, e assim não tinha condições de
fixar povoamento. Para a exploração, construíram-se fortins para se defender dos
índios e dos exploradores estrangeiros, que eram abandonados logo em seguida.
Eles serviam também para guardar as mercadorias enquanto não vinham os navios
recolhê-las.

2. OCUPAÇÃO EFETIVA (1530 a 1640)

Descreve o período em que o Brasil começou a ser ocupado e povoado. O


caráter inicial da nossa formação foi agrícola, em particular voltada para a produção
do açúcar. Foram características da nossa agricultura: a escravidão, o latifúndio, a
monocultura e a produção voltada para o mercado externo. A grande propriedade se
explica pelo fato de o açúcar ser rendoso apenas em grandes quantidades. Valeram-
se da mão-de-obra servil pois não se podia empregar mão-de-obra inferior em
culturas diversificadas e com alto teor técnico. Assim, toda a costa de presta ao
cultivo de cana, com Pernambuco e Bahia prosperando. O Rio de Janeiro e São
Paulo mantiveram-se apagados como produtores de açúcar até o século XVIII por
causa da sua posição excêntrica.
No início a agricultura valeu-se do índio para o trabalho servil, mas com a
afluência dos colonos diminui a sua disposição para o trabalho, ficando cada vez
mais difícil vencer sua resistência. Depois disso, foi mais comum a utilização do
trabalho indígena em regiões mais pobres, em que não se podia pagar o preço dos
escravos. Em 1570 uma carta régia limitou a escravidão aos prisioneiros apenas em
“guerras justas”. Visto sua inadaptação foi introduzido o negro, que já era usado no
reino, o que resolveria esse problema. Já os trabalhadores livres foram utilizados nas
funções de chefia ou de especialidade. Até 1650 fomos os maiores produtores
mundiais, sofrendo apenas depois concorrência das Antilhas e da América Central.
Nem todos os senhores tinham engenhos próprios. Houve também várias fazendas
obrigadas. O tabaco também foi importante, principalmente na região de Cachoeira.
Também foi plantado em maior escala em Sergipe e Alagoas. Foi usado na troca
por escravos africanos.
Ao lado da agricultura exportadora desenvolveram-se atividades subsidiárias
para tornar possível a realização desse objetivo principal. Elas foram principalmente
encontradas nos próprios domínios da lavoura açucareira, em terrenos a parte e
entremeados. Foi marca do período colonial o fato de a sociedade viver num estado
contínuo de subnutrição. Os centros urbanos, especialmente, careceram dos gêneros
básicos para a alimentação. Alguns proprietários foram inclusive, a contragosto,
obrigados a plantar mandioca para atender as condições mínimas de alimentação.
Por isso, em alguns lugares criaram-se plantações especializadas. No início eles
recorriam aos índios para o trabalho nessas plantações, mas com a fixação deste na
cidade e sua conseqüente sedentarização terminou por engrossar a classe
intermediária entre a servil e a senhoril. Entre os hábitos alimentares do povo estava
largamente a fruta, sendo as verduras pouco consumidas dada a abundância das
primeiras.
As fazendas pecuárias no período inicial da ocupação do Brasil
multiplicaram-se rapidamente por dois motivos principais: o consumo crescente de
carne e a facilidade em se levantar uma fazenda. A atividade, dada a sua baixa
densidade de renda e o seu caráter subsidiário, foi empurrada ao interior pela
cultura da cana. No Nordeste o senhor era absentista e a fazenda era dirigida pelo
vaqueiro. Na primeira fase de ocupação o Rio de Janeiro era abastecido pelo
Campo dos Goitacases e São Paulo recebia dos Campos Gerais.

3. EXPANSÃO DA COLONIZAÇÃO (1640 a 1770)

O novo sistema político que se desenvolveu na época da expansão da


colonização foi marcado pela instauração do aparato que tornava mais forte o
controle sobre as atividades da colônia, através do Conselho Ultramarino, seu órgão
máximo. Foram criadas Câmaras Municipais, que resolveram importantes assuntos
gerais, e foram enfraquecidas com a introdução de juizes-de-fora. O contexto que
levou Portugal a tomar essas atitudes foi marcado pelo enfraquecimento de suas
colônias no oriente, bem como a situação de arraso em que Portugal ficou com o
fim da União Ibérica, com sua frota comercial arrasada. Além disso, Portugal
perdeu algumas de suas possessões para os Países Baixos e para a Inglaterra. Agora,
Portugal só tinha o Brasil e a África, onde teria que apostar todas as suas fichas. Por
isso, nesse período foi grande a emigração de portugueses do Reino para o Brasil.
Portugal com o tempo foi resgatando as capitanias hereditárias e dando mais
poder aos governadores reais. Houve liberalismo com os estrangeiros, tanto de
comércio quanto de moradia. Depois da União Ibérica no entanto passou-se a criar
os monopólios e as companhias privilegiadas e a surgirem, nos últimos anos do
século XVII, atritos entre os locais e os imigrantes. Proibiu-se a produção e venda
de oliveira, vinho, pimenta, canela, e sal, para não concorrer com o comércio
português, foram tomadas medidas contra a produção de aguardente, que também
prejudicava o comércio de vinho do porto. A primeira companhia privilegiada de
comércio foi montada em 1647, com o monopólio sobre toda a costa. Além do
direito de vender vinho, azeite e bacalhau. Em 1682 criou-se a Companhia de
Comércio do Maranhão e do Grão-Pará, que resultou na revolta do Beckmann.
Foi no início do século XVIII que se descobriram as primeiras jazidas de
ouro, tendo durado as atividades de mineração aproximadamente três quartos de
século. Para organizar a vida caótica que se desenvolvia na região das Minas e
garantir o recolhimento dos devidos impostos pelo governo foi montado um forte
aparato administrativo. O seu órgão máximo foi a Intendência das Minas,
subordinado apenas à Coroa. Determinou-se a livre exploração do ouro com o
pagamento do quinto. A Fazenda Real também recebia datas na repartição delas,
mas não chegou a explorá-las. Tentou-se em seguida instituir a capitação, mas não
funcionou, partindo o governo então à construção de casas de fundição. Foi
decretado também o pagamento da derrama, caracterizada pelos violentos abusos na
cobrança, mas que com a decadência das atividades mineradoras tornou-se cada vez
mais espaçada a cobrança.
A exploração dos diamantes pode ser dividida em três fases. Quando
começou em 1729, houve a livre exploração, na segunda o arrendamento aos
exploradores, e depois o monopólio real. Neste último período, mesmo com a
depreciação das pedras pela concorrência dos diamantes descobertos em outras
áreas, a crise portuguesa os levou a ofertá-los em grande quantidade no mercado,
obtendo lucros bem menores do que teriam se houvessem aguardado um pouco
mais ou regulado a quantidade que ofertavam.
A decadência do sistema se deu pelo esgotamento das jazidas (as rochas
matrizes eram escassas) e pela técnica deficiente na mineração, marcada pela
ignorância e pela desorganização. A Coroa por sua vez, preocupou-se apenas em
garantir a arrecadação do impostos. Ao invés de enviar técnicos enviava fiscais. As
conseqüências da era do ouro no Brasil foi o deslocamento da primazia econômica
do nordeste para o centro-sul do país, a ocupação do centro do país e o surgimento
de vários núcleos separados entre si por imensas áreas desertas. No entanto, essa
constituição desordenada dificultou o estabelecimento de um sistema de transporte
eficiente, que integrasse a população do país. Com o surgimento desses novos
núcleos de povoamento surge a necessidade de abastecimento que estimulará as
regiões de Minas Gerais, São Paulo e Rio de Janeiro a desenvolver a agricultura e a
pecuária, principalmente no Sul de Minas.
Outra conseqüência foi a transferência da capital do Brasil para o Rio de
Janeiro em 1763 já que a comunicação das Minas com o exterior se faziam por lá.

4. OCUPAÇÃO DA AMAZONIA E DESENVOLVIMENTO DA PECUÁRIA

A ocupação da Amazônia iniciou-se com o objetivo de expulsar holandeses e


ingleses com a fundação de Belém em 1616. A região possuía condições naturais
extremamente desfavoráveis à fixação do homem como a vegetação equatorial e as
florestas semi-aquátivas que dificultavam a agricultura, que aqui apenas se ensaiou.
O homem procurou sempre as margens do rio para fixar-se, pois eles lhes
permitiam fácil deslocamento pela região na procura pelos produtos extrativos. Sua
economia se sustentou pela exploração desses produtos como a salsaparrilha, o
cravo, canela, castanha, cacau, o peixe, a tartaruga. A pesca foi sedentária, surgindo
alguns pesqueiros particulares e reais. Havia somente duas atividades que se podia
desenvolver: pegar os produtos ou acompanhar as embarcações que os carregavam.
Os colonos aproveitavam as épocas de colheita para laçarem-se em expedições,
disputando a força de trabalho do índio com as obras do governo como fortes,
comissões de limites e com os jesuítas.
Destacamos o papel de relevo desempenhado pelos jesuítas, cujo poder foi
abolido em 1755, culminando na sua expulsão em 1759, que desbravaram o
território e fundaram suas missões, ajudando a pacificar o índio na região.
A pecuária nordestina desenvolveu-se às margens do São Francisco, no Piauí
e no Maranhão, nas perizes, confluindo no Ceará e no Maranhão. Os fazendeiros
eram atraídos pelos olhos-d’água para montar suas fazendas. O Piauí nessa fase
tornou-se a mais importante região pecuarista do Nordeste, fornecendo à Bahia. O
seu apogeu foi no meio do século XVIII, em que abastecia sem concorrência do
Maranhão até a Bahia, decaindo com as secas no final do século. As principais
dificuldades enfrentadas pela pecuária nordestina foram as difíceis comunicações
com os centros consumidores, as secas constantes e a concorrência com o sul da
Minas, cuja carne era de qualidade muito melhor e era mais próximo aos centros
mineradores, e com a carne seca do Sul.
No São Francisco também se explorou o sal, que abasteceu os sertões
baiano, mineiro e goiano.

5. APOGEU DA COLÔNIA (1770 a 1808)

O período que marca o apogeu da colônia foi ditado pelo contexto externo
que se desenvolveu. Foi nessa época que Portugal coloca em prática plena o pacto
colonial. Primeiro, tomava força na Inglaterra a revolução industrial, com o
incremento do comércio e das atividades econômicas, o aumento da população
européia e a conseqüente valorização dos produtos colônias por causa das guerras e
do colapso das Antilhas em 1792, apesar de as índias ocidentais holandesas levarem
vantagem sobre nós por serem mais recentes. Portugal por ter ficado neutro nos
conflitos que se desenrolaram na Europa durante o século XVIII pode concentrar-se
mais em colocar em prática a política do pacto colonial do Brasil, servindo-se do
contexto externo favorável para tal.
Internamente, as regiões mineradoras voltaram-se para a agricultura e para a
pecuária. Minas se tornou a melhor região pecuária, iniciando-se também na
produção de queijo e desenvolvendo plantações de tabaco na região do Sul de
Minas. O Rio Grande do Sul superou o sertão nordestino, que entrou em queda
livre com as secas.
Analisemos as técnicas segundo as quais desenvolveram-se nossas atividades
econômicas. Nessa época, já se sentiam os efeitos devastadores causados pelos
processos bárbaros e destrutivos empregados até então no cultivo do solo, como o
uso indiscriminado da lenha, as queimadas, o não-aproveitamento do bagaço da
cana e a separação entre a agricultura e pecuária, que havia privado o solo do
adubo. Assim, contamos apenas com os solos férteis e com os recursos naturais
abundantes para obtermos nossos produtos agrícolas. Além disso, os processos eram
altamente improdutivos, o colono, pelo próprio sistema, era isolado do mundo, não
tinha oportunidade de conhecer novas tecnologias. A força hidráulica não era
comum, dependendo-se da força do homem e dos animais.
Vejamos o desenvolvimento dos gêneros agrícolas mais comuns na época.
O açúcar, graças ao contexto externo fez reerguerem-se a Bahia e
Pernambuco, além de surgirem novos produtores, os Campos dos Goitacases e o
litoral de São Paulo, bem como e principalmente no seu planalto no final do século.
O arroz foi plantado no Maranhão, no Pará e em menor escala no Rio de
Janeiro e foi o segundo produto em importância.
O algodão serviu também como moeda de troca, e preferiu o interior ao
litoral, como Caxias no Maranhão, o agreste e a Bacia do Jaguaribe no Ceará. Não
exigia mão-de-obra abundante. A partir de 1760 saiu do Maranhão passando a ser
cultivado em várias outras regiões em menor escala. Deu-se inclusive a criação da
Companhia de Comércio do Pará e Maranhão, que foi extinta em 1777. A
produção algodoeira caiu com a concorrência internacional e a conseqüente queda
no preço, provocando um colapso nas regiões produtoras.

6. INCORPORAÇÃO DO RIO GRANDE DO SUL

A região no extremo-sul do país apenas começará a contar economicamente


a partir de 1750. Para a integração dessa região no eixo colonial o governo tomou
algumas ações depois do fim da União Ibérica, com o aumento das tensões entre
portugueses e espanhóis. A primeira foi fundação da Colônia de Sacramento em
1680, tendo-a perdido de acordo com o Tratado de Madri em 1750. Também,
procedeu à colonização por açorianos. Enviou também à região uma corrente
migratória que veio de São Paulo, além da vinda de tropas de defesa.
A principal atividade econômica na região foi a pecuária em três segmentos:
a exploração do couro, cuja carne era desprezada e que até o final do século seria a
maior mercadoria de exportação e as charqueadas, que se iniciaram em 1780,
coincidindo com a decadência da pecuária nordestina, e a venda de cavalos e
muares, que forneciam às Minas, apesar de utilizarem os cavalos como bestas de
carga. A pecuária sulina não tinha nada de cuidadosa, apenas desenvolveu-se graças
às generosas condições naturais de que gozava.
A propriedade fundiária assumiu gigantes latifúndios, sob a forma de
estâncias, levadas por capatazes e peões, cujos hábitos eram nômades dada a
natureza dispersa dos animais. Era forte também o elemento militar na região, sendo
a relação entre o estancieiro e os peões mais como de chefe militar e soldado.
Depois do Tratado de Santo Idelfonso em 1777, que acertou as fronteiras nacionais
a região se pacificou.

7. SÚMULA DO FIM DA ERA COLONIAL

Vimos no final da era colonial três núcleos de importância: Bahia,


Pernambuco e Rio de Janeiro. Em segundo plano estava o Pará e o Maranhão e
São Paulo começava a se destacar na produção de açúcar.
O comércio entre o Brasil e os mercados de consumo foi intermediado
sempre por Portugal, mas uma forte característica dessa atividade foi o contrabando,
principalmente por ingleses. O ramo mais importante, responsável por três quartos
do volume de negócios, foi o tráfego negreiro. Com o desenvolvimento da
navegação a vapor intensificou-se a cabotagem do comércio, inclusive do charque.
Os transportes e as comunicações contribuíram para a sedimentação dos
povoamentos interiores no momento em que lhes garantiam o consumo de bens
importados e o escoamento de sua produção. Essas comunicações tendiam a
convergir no interior, principalmente no Nordeste. O transporte de cargas se fazia
principalmente no dorso de animais, que encarecia os artigos volumosos e pesados.
As artes e manufaturas foram simples acessórios da mineração ou dos
estabelecimentos agrícolas quando desenvolvidas longe dos centros urbanos. Sua
existência completava a autonomia dos grandes domínios rurais. Nos centros
urbanos surgiram as corporações, levadas por homens livres, que eram em geral
mulatos ou mestiços e eram auxiliados por escravos. Isso dispensou a aprendizagem
de meninos e adolescentes, que sofreriam no futuro com a exclusão econômica. Os
dois principais setores foram a cerâmica e a têxtil e de ferro. A cerâmica foi mais
comum nas regiões do gado, e a cordoaria na Amazônia. As manufaturas têxteis
tendiam a se tornarem autônomas no Rio e em Minas, mas foram sufocadas pela
Coroa sob Dona Maria em 1785, quando mandou extinguir tal indústria. O ferro
contava com matéria prima abundante a amplo mercado, mas não foi aproveitado
como deveria, não desenvolvendo o potencial que tinha por conta das dificuldades
impostas. Assim, quando a conjuntura se tornou favorável preferiram não assumir
os riscos de novas restrições do governo colonial.
As indústrias extrativas foram várias.
Explorou-se a madeira para a construção naval com estaleiros na Bahia e no
Maranhão, mas tornou-se mais intensa a sua exploração depois de 1810 com os
ingleses.
A pesca da baleia desenvolveu-se pela faixa litorânea que ia da Bahia até
Santa Catarina, decaindo futuramente com a concorrência americana e inglesa nas
Ilhas Falkland.
O sal era monopólio da Coroa, o que não nos permitiu aproveitar as jazidas
de sal do Rio Grande do Norte, apenas o marinho, do Maranhão até o Rio.
O salitre foi explorado por iniciativa particular num afluente do São
Francisco, na Bahia e no norte de Minas.
A erva-mate foi produzida no Paraná e também por jesuítas nas missões,
mas foi mais apreciada em regiões platinas como Montevidéu e Buenos Aires.

8. LIBERTAÇÃO ECONOMICA (1808)

Quando da vinda da família real para o Brasil, apresentávamos-nos sob o


seguinte contexto: a indústria portuguesa não havia se desenvolvido. Suas atividades
giravam em torno do comércio colonial brasileiro, atuando como mero
intermediário, pois não era nem consumidor dos gêneros tropicais e nem
fornecedor dos consumidos aqui. Portugal nos impedia com isso de garantirmos a
nossa subsistência com recursos próprios. Além disso, Portugal tinha sua marinha
arruinada desde o final da União Ibérica. O aparecimento do capitalismo industrial
causa a falência do pacto comercial e se volta contra os monopólios, fazendo
desaparecer o artesão e requerendo o acesso aos mercados consumidores por parte
dos países produtores de bens manufaturados, como a Inglaterra. Portugal, por
outro lado, só tinha o nosso comércio para se sustentar economicamente.
A abertura dos portos às nações amigas cedeu à Inglaterra toda a liberdade
de ação que Portugal tinha no Brasil com o Tratado de Comércio e Navegação,
segundo o qual os produtos ingleses concorriam com imensa vantagem até sobre os
produtos portugueses, além de possuírem variedade e qualidade muito acima
daquela das mercadorias do reino e pela facilidade de transporte pela quantidade. A
abertura dos portos atendeu a circunstâncias do momento, pois o comércio
português estava interrompido por Napoleão e a colônia estava desabastecida. Foi
portanto, a abertura, a grande precursora da independência do Brasil, pois
rompiam-se irrevogavelmente os laços que nos ligavam à metrópole. Outras
conseqüências foram as melhorias nas estruturas portuárias, construção de estradas e
a imigração. O Rio virou centro de atração e atenção. A corte fiou aqui por 13 anos,
e muitos dos seus membros criaram laços com a terra e passaram a investir aqui. O
Brasil passou a ser uma opção mais promissora depois disso.
Um dos principais efeitos no Brasil foi a criação de serviços como estradas,
higiene, saneamento, escolas, exército. Em Minas Gerais surgiram várias
manufaturas têxteis.Vimos surgir um estímulo às necessidades de consumo que aqui
cresceu em uma proporção vertiginosamente maior do que a nossa capacidade
produtiva, incentivando as importações a fazendo surgir um equilíbrio financeiro
abalado, visto que os nossos déficits eram saldados por empréstimos internacionais,
colocando-nos sob a dependência estrutural dos empréstimos internacionais, o que
os agravava ainda mais. Com o alto volume de importações o governo viu como
fonte de renda mais fácil o imposto alfandegário, mas que com os tratados com a
Inglaterra não nos permitiu por um tempo aumentá-los. Por isso, não conseguimos
desenvolver uma produção nacional capaz de atender o nosso mercado interno. Para
tornar as coisas piores, desapareceu assim a classe dos artesãos, causando graves
animosidades contra os estrangeiros e graves conflitos sociais.

9. ABOLIÇÃO DO TRÁFICO (1808 a 1856)

Antes e depois da independência a escravidão constituía mola mestra na


economia. Com a ascensão do proprietário rural como classe dominante reforçaram-
se as posições escravistas, mas também ela foi perdendo a base moral até nos
círculos mais conservadores através de um longo processo. Argumentava-seque o
maior perigo da independência eram os escravos pela contradição que cindia as
classes em castas.
Até a chegada da Corte ao Rio, ninguém pensava na ilegitimidade da
escravidão. Esta e o tráfico de escravos estavam visceralmente ligados, a dissolução
de uma implicaria no desmantelo do outro. Porém, surgiam correntes de
pensamento que defenderam a homogeneidade e a liberdade do povo para que nos
tornássemos uma nação una e forte, como Bonifácio. O Correio Brasiliense teve um
importante papel na condenação do sistema. O escravo não teve um papel ativo na
luta pela extinção da escravidão. Esse fato era alimentado pela renovação de massas
de escravos pelo tráfico, todas heterogêneas e hostis entre si. Na Bahia, no entanto,
algumas manifestações foram comuns.
De acordo com o Tratado de Aliança e Comércio assinado em 1810, o Rei
se comprometia a combater o tráfico em territórios portugueses, mas pouco se viu
na prática, causando abusos por parte da Inglaterra. Com o Tratado de Viena que
reorganizou a Europa depois de Napoleão em 1815 instituiu-se o fim do tráfico ao
norte da linha do Equador e a Inglaterra conseguiu o direito de visita em alto mar
por 15 anos em 1817. Com a Independência em 1822 ratificaram-se os acordos
anteriores e em 1831 foi proibido o tráfico por D. Pedro I. Durante a Regência,
como ninguém por aqui parecia querer aplicar as proibições, a Inglaterra redobrava
sua vigilância, aumentando os abusos e atacando até navios que não estavam
envolvidos. Assim, o Brasil sentiu a sua soberania ameaçada, principalmente depois
da Bill Aberdeen em 1845, em que a Inglaterra se dava direito total de vigilância e
apreensão. Isso nos colocou sob um iminente estado de guerra. Por fim, em 1850
foi decretada a expulsão dos traficantes e abolido o tráfico negreiro.
Como conseqüência, encerrava-se a fase de transição iniciada em 1808,
tornando-nos um Estado soberano e aberto à livre concorrência. Restabeleceram-se
as relações com a Inglaterra. Além disso, põe em xeque todo o conjunto daquela
estrutura assente na produção extensiva, pois desestruturou sua base. Como principal
conseqüência vimos a ativação dos negócios de outros setores pela liberação de
capital atrelado ao tráfico negreiro, que representava um quarto do comércio,
enriquecendo a população, aumentando a demanda agregada por bens e serviços e
fazendo-se sentir uma forte inflação, que já vinha aumentando desde a abertura dos
portos e do aumento das necessidades internas de consumo. Nos anos de 1857 e
1864 enfrentaríamos sérias crises financeiras por causa disso. Uma outra
conseqüência era o prenúncio do fim da escravatura, por ser indissolúvel o binômio
tráfico-escravidão.

10. REVOLUÇÃO AGRÍCOLA

A abolição do tráfico impôs um novo contexto geral à nação. Quem sofreu


maiores impactos foi o Nordeste, que já sentia a decadência das lavouras tradicionais
com a concorrência do açúcar da beterraba e do açúcar do sul. O sul, mais próspero
com o café, sentiu menores impactos pois aproveitou-se da crise no norte para
comprar os escravos de lá, além de trazer imigrantes. O café foi introduzido no
Brasil em 1727 no Pará. Era uma planta delicada e permanente, demorava cerca de
4 anos para dar o fruto. Tornou-se o principal alimento de luxo no comércio
internacional no correr do século XVIII. Seus maiores produtores haviam sido as
colônias inglesas e neerlandesas – Índias Ocidentais, Insulásia (Java e Sumatra).
Aqui, só surgiu com a queda da mineração e foi estimulada pela abertura do
mercado norte-americano, agora desligado da Inglaterra, que não queria mais
comprar dos fornecedores ingleses. Contávamos com uma posição geográfica
favorável para suprir o mercado americano.
Vimos seu desenvolvimento em três fases: a primeira foi no Rio de Janeiro,
sendo rapidamente levado ao Vale do Paraíba, estendendo-se ao norte de São Paulo.
Lá condensou lavouras e povoamentos. Sua exploração foi descuidada, esgotando
rapidamente os solos e partindo para a região de Campinas. Lá, os solos de terra
roxa deram vida a enormes superfícies uniformes, os mares de café. A produção
passou a se orientar pelo porto de Santos, e contou-se com uma boa rede de
estradas. De Campinas o café prosseguiu sua marcha até a região de Ribeirão Preto,
onde teve as melhores condições e foi plantado em maior abundância. Por isso, foi
menos acessível ao produtor modesto, requerendo grandes investimentos.
Com a cultura do café, sentimos um reajustamento da vida econômica do
país, com uma ascensão do padrão de vida da população. Instalaram-se
manufaturas, estradas de ferro, procedeu-se à mecanização da indústria rural, muitas
delas com capital inglês (principalmente os de infra-estrutura). A partir de 1860
observamos em nosso comércio exterior crescentes superávits. Em 1844 o governo
promoveu uma modificação na política tarifária, mais para obter uma renda maior
com as tarifas alfandegárias do que para proteger a produção local. Esse aumento
foi para 30 por cento para qualquer mercadoria estrangeira, abrindo precedente,
subindo depois para 50 por cento. A partir de 1860, com a taxa de importação a 50
por cento, começaram a surgir manufaturas de vulto.
As principais conseqüências da riqueza cafeeira foi o reforço da estrutura
tradicional da economia brasileira, de sua condição de fornecedor de gêneros em alta
para o consumo externo, com sua economia ligada a interesses exógenos e alheios,
estruturando toda a sua força e meios produtivos em função disso, dependente de
uma conjuntura internacional favorável. Outra foi o surgimento da última
aristocracia do país, tornando os fazendeiros de café a elite social.

11. DECADÊNCIA E ABOLIÇÃO

A oposição franca contra a abolição da escravatura só se inicia depois de


1850, com o fim do tráfico negreiro, e sempre em segredo. Na lavoura já se sentia a
falta de braços – compravam-se escravos do norte para completar os quadros – e o
sul se tornou um dos maiores freios do movimento libertador. Vimos depois de
1850 se intensificar a vinda de imigrantes, que conviviam na lavoura junto com os
escravos. Viu-se falhar essa primeira tentativa. Paralelamente, com o início da
indústria manufatureira, a aplicação do escravo era ineficiente, sendo mais vantajoso
pagar salário, o que se opunha ao seu desenvolvimento por falta de braços.
Depois de 1865, éramos o único país a manter a escravidão, havendo
diversas tentativas de conciliação entre os interesses dos escravocratas e dos
libertadores, mas com a organização de um ministério escravocrata dissolveu-se a
Câmara e as forças conservadoras e reformistas se polarizaram. A Guerra do
Paraguai serviu como pretexto para adiar o debate franco sobre o tema. Com a Lei
do Ventre Livre em 1871, o governo aplicava uma manobra de diversão, tentando
deslocar os olhares sobre a escravidão. A partir de 1880 formam-se sociedade
abolicionistas e os próprios escravos começam a tomar parte na luta. A Lei de 28 de
setembro de 1885 deu liberdade aos maiores de 60 anos, o que era uma piada, pois
raramente se chegava a essa idade e mesmo se chegasse, não teria condições de
arrumar seu sustento se fosse livre.

12. IMIGRAÇÃO

Depois da transferência da Corte para o Rio é que a imigração e a


colonização provocada tiveram finalidade demográfica. O sistema de colonização
teve mais sucesso no Extremo-Sul do país. Durante os 13 anos de permanência da
Corte foram instalados alguns núcleos de colonos alemães, suíços e açorianos no
Espírito Santo, Rio de Janeiro e Santa Catarina, cujo o objetivo era fortalecer a
região devido às questões do Prata, pois Portugal precisava reformar seu exército.
As dificuldades enfrentadas foram o clima desfavorável, a organização social pouco
atraente e as restrições religiosas.
Outra onda de imigração foi acentuada depois do fim do tráfico de escravos,
passando a ser prioridade na política do governo, trazendo-os às fazendas em
regime de parcerias, só depois introduzindo o salário. Contudo, devido às condições
de imigração, houve campanhas na Europa contra a emigração para o Brasil,
interrompendo a vinda de trabalhadores para cá.
Por volta de 1870 quando a escravidão sofreu duros golpes, se passou a
estimular a imigração novamente, através da imigração subvencionada. Isso foi
favorecido pelas restrições à imigração nos EUA, fazendo o Europeu procurar o
Brasil. Em 1876 a Itália entrou como grande fornecedora de braços para cá. O
trabalho livre ajudou a enterrar de vez a escravidão, pois se abriam perspectivas de
produção aos senhores do café. A partir de 1880, as fazendas de café contarão quase
que unicamente com trabalhadores livres.

13. SÍNTESE DA EVOLUÇÃO ECONÔMICA DO IMPÉRIO

No final do Império, a indústria se apresentava ainda sem um mercado


amplo, concentrando suas atividades principalmente nas manufaturas têxteis no Rio
de Janeiro, Minas, Pernambuco, Bahia e Maranhão, pois essas regiões tinham uma
maior densidade demográfica e melhor proximidade das fontes de matéria prima.
Permitiu-se com isso entrosar no trabalho uma camada da população que vivia à
margem da sociedade.
A situação econômica do país foi marcada pela inflação de crédito e pela
inversão de capitais engessados anteriormente no tráfico para inúmeros novos
empreendimentos. A partir daí, houve coincidência entre os déficits crônicos e os
momentos de maior prosperidade econômica, o que evidenciava o caráter
especulativo dos investimentos internacionais aqui. O governo procedeu a continuas
emissões de moeda, refletindo em oscilações no poder aquisitivo do povo. Passamos
por sérias crises em 1857 e em 1864, sendo a mais séria da história a decorrente da
Guerra do Paraguai, entre 1865 e 1870, que garantiu a navegação nos rios Paraguai
e Paraná, importantes para o Mato Grosso do Sul, condição que perdeu a
importância com a estrada de ferro que o liga ao litoral Atlântico.
A década entre 1870 e 1880 representou o momento de maior prosperidade
nacional, com o acumulo de capital graças à agricultura, fazendo surgir um surto de
novos negócios. O trabalho assalariado agora movimenta o capital e o investimento
estrangeiro flui para cá. Multiplicam-se as empresas financeiras para dar suporto ao
novo sistema dependente do giro de capital. O progresso se mostrava com a
navegação a vapor, desbancando as comunicações terrestres e as estradas de ferro.

14. REPÚBLICA BURGUESA (1889 a 1930)

A introdução do trabalho livre proporcionou o desmantelamento do sistema


antigo, a duras penas é verdade. As novas condições de vida forçaram uma
readaptação da estrutura agrária para atender o novo contexto demográfico do país.
Assim, proporcionou-se em algumas áreas o desmembramento dos latifúndios. A
adaptação do trabalhador livre não foi fácil por causa da instabilidade e do estado
permanente de atritos, pois o senhor não estava acostumado com a condição livre
do seu empregado. Isso gerou alta repercussão internacional dando nascimento na
forma de um aparato judicial de vigilância sobre o tratamento dos senhores com os
trabalhadores.
O Brasil passava a ser o maior produtor mundial de matérias primas. Esse
enriquecimento causou a explosão de atividades econômicas e uma mudança de
mentalidade, em que a ambição ao lucro era um alto valor social. O homem de
negócios era agora uma figura central na sociedade, e a política girava em torno de
interesses particulares. Com o problema interno de mão-de-obra resolvido, o
alargamento dos mercados mundiais para os produtos tropicais e o forte
desenvolvimento da população européia e americana, trouxe um liberalismo geral.
Em nossas finanças vimos grandes inversões de capital internacional e o
incremento da lavoura cafeeira, que não teria sido possível sem tais inversões. Com
isso, ao tempo em que se fomentava a produção gerava-se uma forte dependência
em torno do negócio de uns poucos gêneros exportáveis, e na medida em que se
investia mais para garanti-lo tornava os empresários ainda mais dependentes desse
negócio. A isso somou-se uma maior autonomia dos Estados, que começaram a
fazer empréstimos em nome próprio, elevando a dívida externa de 30 milhões para
250 milhões de libras em apenas 30 anos. Tudo isso gerou um forte desequilíbrio
das finanças, com o pagamento de juros de capital aos estrangeiros, com os
pagamentos ao exterior pela compra de gêneros alimentícios e pelo envio de
dinheiro pelos imigrantes aos países de origem. No entanto, esse desequilíbrio
acabou por contribuir para a diversificação de atividades, motivando o crescimento
da indústria manufatureira e alguns campos de experimentação em São Paulo, com
a produção de variados gêneros agrícolas.
Diante desse novo contexto, o governo procedeu à emissão de moeda para
atender à demanda por capital graças ao aumento do volume de negócios e para
auxiliar com crédito os produtores afetados pela abolição. A receita da União
diminuiu com a descentralização do poder, aumentando o déficit público. Ao
mesmo tempo, cresceram os encargos com as insurreições armadas. Essas constantes
emissões de moeda geraram um estado geral de especulação, com duas fortes crises
em 1891 e 1898.
Em 1891, com a queda no preço do café devido à superprodução, teve lugar
a penetração da finança internacional como intermediários entre os produtores e os
consumidores. Estes não percebiam nenhuma alteração de preços, o que deixava a
maior parte dos lucros com os intermediários. Vimos um grande número de
falências e a retração do capital internacional, com a desvalorização da moeda e a
queda na taxa de câmbio.
Em 1898 procedeu-se a uma moratória das dívidas, adiando o pagamento de
juros aos franceses e ingleses pela construção de estradas. O London & River Plate
Bank foi o intermediário entre o Brasil e os credores e saiu-se como maior
beneficiado. Houve então retração da moeda e o Brasil tornou-se um campo seguro
para inversões estrangeiras. Assim, aumentaram-se as exportações, melhoraram-se os
portos, construíram-se usinas de energia, reforçando ainda mais nossa dependência
ao capital externo.

15. CRISE DO CAFÉ

O café havia progredido até então graças a uma série de fatores. São Paulo
encontrou vantagens topográficas, de solo e de transportes extremamente favoráveis,
mas a cultura cafeeira não acompanhou os progressos qualitativos que se
impunham. O Espírito Santo também desenvolveu sua lavoura mas esbarrou na
escassez de terras. A imigração européia foi outro fator essencial para esse progresso,
tendo resultado de um persistente esforço e organização do governo.
A crise cafeeira foi resultante especialmente da superprodução, pois
como foi dito anteriormente, os altos lucros estimulavam maior investimento na
produção, o que tornava os investidores ainda mais dependentes do sistema.
Acumularam-se estoques invendáveis do produto e intensificou-se a especulação
através dos intermediários. A partir de então a economia cafeeira foi marcada por
crises sucessivas e grandes oscilações.
Em 1906 com a queda nos preços e a valorização da moeda, os preços caem
abaixo do custo de produção e o governo interveio com uma Política de
Valorização, comprando a produção para forçar o preço a subir. Criou-se a
Comissão do Café para gerir a valorização, e depois os produtores teriam que arcar
com as dívidas contraídas através de um imposto sobre as sacas. Assim, entraram
como financiadores vários grupos financeiros, que ajudaram a retirar do mercado
entre 1906 e 1910 cerca de 8 milhões e meio de sacas. Eram eles que ganhariam
mais com os lucros da revenda.
Alcançou-se um certo equilíbrio de preço com a Primeira Guerra entre 1914
e 1918, ajudado por uma grande geada.
Com o fim da guerra, houve um novo boom, e entre 1918 e 1924
aumentou-se mais uma vez a produção, com novo surto de negócios e de emissões
de moeda, além da ativação financeira da economia. Novamente, a superprodução
esboçava uma crise, e criou-se o Instituto do Café em São Paulo, que controlava a
oferta e a demanda, apenas regulando as entregas. Os produtores eram ajudados
com um financiamento de até 50 por cento do valor da produção pelos bancos.
Paralelamente, formavam-se grandes trustes que dominavam todo o mercado
financeiro, como a Lazard Bros., adiantavam recursos necessário para outros
Estados para ajudar a regular as entregas.
A partir de 1926 já tínhamos um acúmulo de estoques retidos e mesmo
assim, a alta nos preços estimulava novas dívidas para financiar a produção que não
era vendida. Como o Brasil era responsável por 60 por cento da produção mundial,
tentou-se manobras para forçar alta dos preços, mas que não funcionou por causa
do aumento da participação da concorrência, em especial a Colômbia. Com o
craque da bolsa de Nova Iorque em 1929 estancou-se o crédito externo, suspendeu-
se o financiamento do café retido e procedeu-se à liquidação dos débitos.
Uma região em que observamos um certo progresso depois da quebra geral
foi a de Minas Gerais.

16. OUTROS PRODUTOS (189 a 1930)

Passemos a uma visão geral da agricultura.


O açúcar enfrentava séria crise com o fim do tráfico de escravos e a queda
de preços. Como agravante, ainda sofria com a concorrência do café por mão-de-
obra. A crise aumentou com a concorrência das regiões arruinadas pelo café, que se
passaram a plantar cana. A produção de açúcar ainda representava a única atividade
econômica de grandes regiões do país. Insistia-se numa atividade que já havia
perdido sentido, ao invés de diversificarem sua economia. Tendo perdido o mercado
externo, sua produção se volta para o interno, principalmente as zonas cafeeiras.
Alcançou-se uma certa estabilidade com a criação do Instituto do Açúcar e do
Álcool, que manteve a alta de preços. As conseqüências da crise foi a transformação
dos engenhos e usinas. Esse processo ocorreu pois os engenhos que não tinham
recursos recorriam aos engenhos centrais, que moíam a cana de várias propriedades.
Os donos dos engenhos centrais passaram a usar matéria prima própria, e devido à
irregularidade no fornecimento de cana, passaram a adquirir os engenhos, tornando-
se usineiros.
O cacau representou durante o período colonial a maior riqueza para a
Amazônia, mas foi na Bahia em meados do século XVIII que encontrou ótimas
condições naturais, chegando a contribuir posteriormente com 90 por cento da
produção mundial. Chegou o cacau a proporcionar novas perspectivas de retorno da
riqueza que se havia perdido na Bahia, com o alargamento dos mercados mundiais
no século XIX com o crescente consumo do chocolate, coincidindo com o
aparecimento da borracha em 1880, mas esbarrou mais uma vez na conjuntura
externa. São Tomé era o nosso principal concorrente, mas foi quando a Costa do
Ouro obteve 40 por cento do mercado mundial é que caímos em uma crise que nos
colocou num inexpressivo segundo lugar.
A borracha decolou na pauta de exportação depois de 1880, depois de
ganhar importância com o desenvolvimento da vulcanização em 1842. A exploração
da borracha foi ainda auxiliada com a vinda de nordestinos à região da Amazônia
entre 1877 e 1880 por causa da seca e atingiu seu auge em 1912, sendo responsável
por 40 por cento das exportações. Garantiu-se a mão-de-obra através do
endividamento do trabalhador ou até pela força. O avanço das frentes de exploração
da borracha chocou-se com uma frente de militares bolivianos, resultando na
questão do Acre, que em 1907 se tornou o maior produtor de borracha do país.
A crise da borracha se deu por causa da concorrência oriental no Ceilão e na
Malásia. Éramos apenas produtores de matéria prima mas todo o negócio era alheio
a nós. A Amazônia teve mais caráter de povoamento do que de uma sociedade
organizada. Com a crise, a povoação se dissipa e a riqueza se desfaz.
Ganhava força no Brasil o surgimento da pequena propriedade. Ela surgiu
principalmente nas áreas onde o café não vingou ou onde faliu a sua produção.
Suas causas principais foram o adensamento da população, que não sustentava mais
aquela estrutura fundiária, a crise da grande propriedade, a partilha hereditária e o
desmantelamento do sistema servil com o advento da imigração. A pequena
propriedade só se difundiu em São Paulo por causa das vicissitudes da lavoura do
café, que deixava para trás terras cansadas, que são aproveitadas pelas comunidades
modestas. Além disso, as crises favoreciam a venda e o retalhamento de fazendas.
Foi também um fator propulsor a crescente industrialização, estimulando-se a
diversificação de gêneros alimentares para atender as necessidades das grandes
aglomerações urbanas, resolvendo o problema da carestia alimentar, que era uma
função da importação.

17. INDUSTRIALIZAÇÃO

Os principais deflagradores da industrialização do Brasil foram o declínio do


câmbio, que favorecia e exportação e encarecia a importação, as altas tarifas
alfandegárias a partir de 1844 com o objetivo principal de obter recursos para sanar
o buraco do Tesouro Público, a disponibilidade de mão-de-obra barata e a
produção do algodão, que estimulou a maquinofatura têxtil. A Primeira Guerra
também contribuiu para o crescimento da nossa indústria pois caía a concorrência
estrangeira – crescia o número de subsidiárias estrangeiras depois da guerra, atuando
no setor químico, elétrico, de veículos, além de impulsionar o produção de carne
congelada no Rio Grande do Sul para exportação. A partir de 1907 as principais
atividades industriais eram a de alimentos e têxtil.
A indústria brasileira viveu parasitariamente das altas tarifas alfandegárias e
da depreciação cambial, assim, onerava-se a aquisição de modernos bens de capital
importados, o que nos deixou sempre um passo atrás dos grandes concorrentes
externos, além de impedir a entrada de novos concorrentes na nossa indústria por
causa dos altos custos dos materiais importados. Essa situação provocava uma
inércia nas nossas indústrias, que não lutavam para conquistar novos mercados, pois
eram extremamente protegidas. Era portanto uma indústria rotineira e sem progresso
técnico sustentado, sua sorte estava ligada às vicissitudes de fatores que não
dependem dela: o comércio externo e as emissões de moeda para cobrir os gastos
do governo. Outra característica foi sua dispersão, não sendo as indústrias inseridas
num sistema homogêneo que promovesse o desenvolvimento sustentável da
atividade industrial.
Os investimentos iniciais para o financiamento da indústria vieram
principalmente dos fundos individuais dos fundadores e com a acumulação de
capital graças ao café. Com o tempo, passaram a utilizar os lucros obtidos com a
indústria como reinvestimento.
O crescimento da indústria teve o primeiro ímpeto em 1880 e 1889, com o
surto de novas de atividades no país. Como foi dito antes, sustentou-se na
desvalorização cambial e nas altas tarifas alfandegárias protecionistas. Depois da
Primeira Guerra a metalurgia se desenvolveu com a criação da Belco-Mineira em
1921. Até então a exploração das jazidas de ferro tinha sido dificultada pelo controle
das jazidas por empresas internacionais. Em São Paulo foi o Estado mais favorecido,
graças à riqueza criada pelo café, à imigração européia e à energia hidráulica em
abundância.
As dificuldades encontradas no desenvolvimento da nossa indústria foram a
falta de mercado consumidor, dado o isolamento das regiões e as poucas linhas de
comunicação, e a concorrência das mercadorias estrangeiras antes de 1844, que não
permitiu um surgimento sustentável da nossa indústria. Além disso, contávamos
com poucas reservas de carvão de pedra. Depois da Guerra, vivemos um período
sombrio, principalmente entre 1924 e 1930, quando cresceu a importação de
manufaturados.

18. IMPERIALISMO

O capital estrangeiro ocupa uma posição central na história da nossa


economia. Sua primeira participação foi nos empréstimos públicos. Ganhou ímpeto
quando a Inglaterra deixou de se concentrar apenas no comercial para querer tirar
proveito de todas as atividades através do capital financeiro.
Isso foi facilitado pelo caráter da nossa formação, de fonte de matéria prima
para a indústria externa, vulneráveis à penetração do capital estrangeiro por ainda
nos organizarmos em função do mercado externo. Nosso sistema dependia
visceralmente do capital estrangeiro, sendo seu papel inicial a participação em todas
as nossas atividades econômicas, que passa a abrir mercados para a indústria
nacional em troca da exploração de sua mais valia e põe à disposição da indústria as
matérias primas de que precisávamos.
Ganhou ímpeto de várias formas: 1) quando foi empregado no
financiamento da lavoura cafeeira, que a partir daí passou a se apropriar de todas as
etapas do negócio; 2) com a especulação financeira devidos às oscilações cambiais e
à carência de capital de giro, fazendo surgir bancos estrangeiros aqui, que operavam
com as disponibilidades do país no exterior; 3) com os empreendimentos industriais,
como os serviços públicos e a indústria manufatureira e 4) com a instalação dos
grandes trustes desde antes da Primeira Guerra, que assumiram um papel de
primeiro plano na nossa economia.
Das grandes matérias primas industriais, só fornecemos a borracha. Apenas
recentemente começamos a figurar como exportadores de minério de ferro. A partir
de 1950 começou a crescer a importância do algodão graças à cisão dos blocos
mundiais entre Estados Unidos e Grã-Bretanha de um lado e Alemanha e Japão do
outro, fazendo da Alemanha a maior compradora, com 60 por cento da nossa
produção, e fazendo o Japão investir no negócio a partir de 1930.
O imperialismo representa um sistema amplo e geral da organização
econômica do mundo, não havendo mais história deste ou daquele país. A nossa
evolução econômica sempre se deu em torno dos grandes acontecimentos mundiais.
Depois Primeira Guerra os interesses se voltaram para a descentralização da
produção de matéria prima, o que faz aumentar a nossa concorrência. As
conseqüências do imperialismo no nosso país foram a introdução de novos padrões,
exemplos e técnicas, que seriam aplicados no nosso modo de vida e o estímulo à
vida econômica do país com a realização de inúmeros progressos.

19. CRISE DE UM SISTEMA (1930 a 1970)

Vimos que o nosso sistema ia-se desenvolvendo oportunisticamente em


torno de embaraços que iam surgindo. Vimos com isso o surgimento de novas
necessidades e exigências econômicas e algumas atividades que conseguiram manter
a vitalidade, um primeiro passo para uma economia nacional, graças ao surgimento
do mercado interno com a abolição, imigração e o progresso dos transportes e das
comunicações, além do crescimento demográfico. Essa expansão a princípio teve
que ser atendida por importações, gerando um desequilíbrio financeiro. A indústria
nacional passaria então a substituir a importação de bens de consumo corrente,
estimulando-se assim a produção interna de bens que depois de 1930 atendia a
proporções cada vez maiores. A importação caiu, restringindo-se a combustíveis,
trigo, matérias primas para a indústria, químicos e máquinas.
Depois da Primeira Guerra, sofremos uma crise passageira, com a situação
financeira favorecendo a importação e fazendo-nos sentir o peso da concorrência
externa, depois a indústria sofre com uma conjuntura favorável à exportação de
gêneros como o café.
A crise se anunciou quando se tornou evidente a incompatibilidade entre o
novo ritmo de progresso material e a nossa mera condição de exportadores de
matéria prima. Entrávamos numa estagnação permanente.
Com o craque da bolsa de 1929 interrompeu-se o fluxo de capital
estrangeiro para cá, causando um desequilíbrio de contas externas do país,
refletindo-se no déficit e na desvalorização da moeda, fazendo declinarem as
importações. Caiu o preço do café, além de reduzirem-se as exportações dele. Ao
mesmo tempo ganhou força a produção interna agrícola e industrial, havendo até a
tentativa de reintroduzir alguns produtos exportáveis como a laranja, algodão,
banana, minérios e alguns extrativos vegetais.
Como conseqüência vimos uma crise do imperialismo diante da nossa
incapacidade de atender à remuneração deles. Isso se evidenciou quando sentimos
que a nossa estrutura agrária, a distribuição da população, a rede de transportes, a
disposição dos centros urbanos, o sistema comercial e financeiro estavam
direcionados a um sistema, mas sendo agora solicitado por outro, sendo sustentados
por interesses fundados na ordem passada e afetados por influências políticas.
Nossas perspectivas de produção de café já estavam circunscritas devido à
concorrência de outros países, mesmo com o surgimento de diferentes formas de
amparo e sua expansão desmensurada, bem como as de fornecedores de matéria
prima e gêneros tropicais, apenas o ferro e o manganês, que não nos dariam lucro
pelo baixo valor agregado. Insistíamos mesmo assim num sistema que estava falido
e que não nos permitia um crescimento fundado em bases voltadas para os
interesses próprios de sua população.

20. A CRISE EM MARCHA

Até agora, duas foram as marcas do nosso desenvolvimento: 1) Sempre


estivemos à mercê do oportunismo para lucrar com a venda de gêneros exportáveis;
2) O nosso crescimento industrial se sustentou graças aos embaraços sofridos pela
importação. Durante a Segunda Guerra, aumentou a exportação de gêneros
alimentícios e de matérias primas. Desaparece assim o desequilíbrio da balança
comercial. Os Fomos privados de combustíveis com a redução do tráfego marinho,
levando à devastação das matas para extrair lenha e carvão. Caíram as importações e
houve um aumento das atividades industriais no país, inclusive fornecendo ao
mercado externo, favorecido pela incapacidade dos Estados Unidos em suprir seus
mercados externos. Fornecemos tecidos aos EUA, América Latina e África do Sul.
Vimos com isso uma inflação no nosso meio circulante, dando lugar à especulação
e provocando o enriquecimento dos possuidores graças ao sobrelucro devido às
defasagens entro o aumento de preços e o aumento de salários.
Essa condição favorável no entanto não contrabalançou no pós-guerra o
aumento das importações por causa da necessidade de repor o material desgastado e
pelo aumento do poder aquisitivo do nosso povo, que trazia novas necessidades de
consumo. Por isso, no pós-guerra, recorre-se ao controle de importações com a
distribuição de licenças de importação, o que atinge também setores essenciais para
o país que dependiam delas, e com isso se estimula a alta de preços. Em 1950
melhora a conjuntura do café e na previsão de uma nova guerra se acumulam os
estoques. Mais uma vez, ignora-se a chance de se implantar um plano de
desenvolvimento industrial concreto para valer-se de uma oportunidade incerta. Os
efeitos do pós-guerra foram um alto processo inflacionário em 1947 com emissões
de moeda, controle de importações e liberação do cambio, além de facilitar a
remessa de divisas para fora, o que favorecia a especulação. Ao mesmo tempo,
acumulam-se os atrasados comerciais, o que reduz o ritmo da produção aqui com a
suspensão de remessas para cá.
No fim de 1953 o café tinha uma posição favorável graças à geada e ao
acúmulo dos EUA, mas a procura por moeda nacional aprecia o câmbio e estimula
as importações. No fim do ano a situação se reverteu, prejudicando a indústria local
por causa do alto custo dos bens de capital importados, encarecidos com a alta do
câmbio. Recorreu-se ao capital externo para financiar a nossa industrialização.
Modificou-se o regime cambial com a Instrução nº 70 da SUMOC, com as
Promessas de Venda de Câmbio, que graças à corrupção na CEXIM deram altas
margens de lucro. A Instrução nº 113 permitiu às multinacionais trazerem seus
equipamentos para cá e facilitou a associação de empresas internacionais com
empreendimentos nacionais.
Os problemas que a natureza do nosso processo de desenvolvimento
causaram na estrutura da nossa economia foram 1) o fato de as inversões de capitais
aqui não compensarem o que foi subtraído das finanças brasileiras na forma de
royalties e lucros. Essas inversões constituíam antes um agravamento do
desequilíbrio de nossas finanças do que a solução para elas, fazendo desaparecer
uma perspectiva de aumento de nossas exportações e estimula a auto-alimentação
desse sistema. Além disso, essa dependência externa e a penetração dos trustes
internacionais não nos dava incentivos à pesquisa de base, fazendo-nos receber
sempre informação de segunda mão, sendo o nosso desenvolvimento econômico
pautado por interesses dos trustes.
É o uso da técnica moderna que nos dará o aproveitamento da natureza. A
ação do Estado é um elemento essencial na nossa estruturação econômica, sendo
importante com a fundação da Petrobrás e da Companhia Siderúrgica Nacional,
porém a vimos se colocar às ordens do imperialismo como na energia elétrica e nas
petroquímicas.