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Chuvas de Verão

Durante doze anos, Jake não esqueceu aquela tarde


de verão, quando sua boca provou a boca
adolescente de Liv.
Agora, ardendo de saudade em querer sentir de novo
o aroma do corpo amado, desejado há tanto tempo...
Liv respira com dificuldade, o coração aos saltos.
Sente-se tomada pelo desejo de entregar-se por
inteiro.
Mas é impossível. Liv tem um terrível segredo para
revelar a Jake. Ela é esposa do pai dele!

Capítulo 1

Liv sentiu um aperto no coração, como se um grande


peso a esmagasse.
— Tem certeza, doutor?
O homem observou-a através dos grossos óculos e
acenou lentamente.
— Sinto muito, sra. Gyllenhaal. O tumor, além de
maligno, já atingiu órgãos vitais.
A jovem olhou-o intensamente, com o rosto mareado
peia ansiedade.
— Não há nada que se possa fazer.
O médico tocou gentilmente o braço dela e fitou o
homem que a acompanhava.
— Nada, alem de poupar-lhe o desconforto e a dor.
Seu marido tem pouco tempo de vida. Algumas
semanas, no máximo.
O rosto dela estava pálido e abatido, e havia
lágrimas em seus olhos azuis. Enxugando-os
discretamente, murmurou, a voz quase sumida:
— Entendo.
Os olhos do médico se encheram de compaixão.
Quando os familiares de seus pacientes reagiam
histericamente às más notícias, ele sabia como agir.
Mas a corajosa resignação daquela mulher tão
feminina e de aparência tão frágil deixava-o
emocionado e pouco a vontade.
— Se seu marido tivesse se submetido a um check-
up mais cedo aí talvez...
Ela sorriu tristemente.
— Meu marido não se preocupava com aquela dor de
estômago, doutor. Afirmava que não sentia nada,
embora eu percebesse que não era a verdade.
— Roscoe sempre foi muito teimoso — comentou o
médico.
Granger Hopkins, o acompanhante de Liv Gyllenhaal,
tomou-a pelo braço.
— Podemos vê-lo, doutor?
— Agora não. Voltem daqui a algumas horas. O
efeito da anestesia vai perdurar até a tarde.
Aproveitem para ir para casa e descansar um pouco.
Liv fez que sim com a cabeça e permitiu que
Granger, advogado e amigo da família, a conduzisse
para os elevadores. Esperaram em angustiado
silêncio. Ela estava arrasada, mas não muito
surpresa. Afinal, sua vida nunca havia sido um mar
de rosas, muito pelo contrário. Tivera sempre que
vencer obstáculos de toda espécie. Por que, então,
agarrar-se à esperança de que a cirurgia exploratória
a que seu marido se submetera não iria revelar nada
além de uma úlcera?
— Você está bem? — perguntou-lhe gentilmente
Granger, quando as portas do elevador fecharam e
eles ficaram a salvo de ouvidos indiscretos.
Liv suspirou fundo e fez um esforço para responder:
— Tão bem quanto pode estar uma mulher que
acaba de saber que a vida do marido está por um fio.
— Sinto muito.
Liv olhou-o e sorriu debilmente. O coração de
Granger derreteu-se. Os sorrisos dela, quase sempre
um doce e silencioso pedido de desculpas por
alguma falha não cometida, tinham o dom de
emocioná-lo.
— Sei que está sendo sincero, Granger. É um
privilégio tê-lo como amigo. Acredite.
Cruzaram o saguão do moderno e reluzente hospital.
Enfermeiras e visitantes lançavam olhares furtivos a
Liv, desviando os olhos logo em seguida. Os rostos
demonstravam curiosidade, mas também deferência.
Todos já sabiam. Quando um membro importante da
pequena cidade de Winstonville e estava à morte, a
notícia espalhava-se com a rapidez de um
relâmpago.
Granger acompanhou Liv até o
estacionamento,abriu- lhe a porta do carro. Ela
sentou-se atrás do volante, deu a partida logo. Ficou
olhando fixamente para a frente,mergulhada em
pensamentos. Tantas coisas para resolver! Por onde
começar?
— Jake deve ser avisado — disse Granger, de
repente.
O choque foi tamanho que Liv sentiu-se incapaz, de
pensar.
— Liv, você me ouviu? Eu disse que. . .
Perturbada, com o coração aos pulos, ela gaguejou:
— Sim. . . sim. Eu o ouvi, Granger.
— Antes que o levassem para a cirurgia, Roscoe me
pediu que avisasse Jake, caso o diagnóstico fosse
desfavorável.
Os doces olhos azuis fitaram o advogado com
incredulidade. — Ele lhe pediu que entrasse em
contato com Jake?
— Exatamente.
— Não podia imaginar. . . Pensei que o rompimento
fosse definitivo.
— Roscoe está à morte, Carolinc. E acho que já
pressentia isso, quando foi levado para o hospital às
pressas. Nessas circunstâncias, é perfeitamente
natural que ele queira rever o filho.
— Faz doze anos que os dois não se vêem, Granger.
Não acredito que Jake queira voltar.
— Acho que ele não vai se recusar. Ninguém fica
insensível diante de um pedido desses.
"Será mesmo?", pensou ela. "Oh, meu Deus! O que
vou sentir, se isso acontecer? Foi há tanto tempo...
Doze anos!"
Liv agarrou com força o volante do Lincoln, tentando
livrar-sc da dor que lhe oprimia o peito.
— Não se preocupe — continuou Granger,
percebendo a perturbação dela. — Como você ainda
não conhece Jake, eu me encarregarei de avisá-lo.
Liv não disse que já o conhecia. Não iria revelar
agora o segredo que permanecera guardado cm seu
coração durante doze anos. Repentinamente,
estendeu a mão a Granger.
— Obrigada por tudo.

Um sorriso gentil iluminou o rosto magro e comprido


do advogado que enrubesceu como um adolescente
ao tomar a mão de Liv entre as suas.
— Há mais alguma coisa que eu possa fazer?
Liv balançou a cabeça. Era um alívio saber que
Granger se encarregaria de telefonar a Jake. Ela não
teria coragem.
— Tenho que falar com Laura Jane — disse, os olhos
enchendo-se lentamente de lágrimas. — Não vai ser
nada fácil.
— Ninguém melhor do que você para fazer isso. — O
advogado deu-lhe uma palmadinha amigável na
mão. —Telefonarei à tarde. Iremos juntos ao hospital,
se for o caso.
Ela confirmou com a cabeça e engrenou o carro. As
ruas formigavam de gente. Roscoe fora operado logo
cedo, quando tudo ainda estava quieto, mas agora o
movimento na cidade era intenso. As pessoas
estavam envolvidas em seu trabalho diário, sem
saber que o mundo de Liv Tyler Gyllenhaal estava
mais uma vez de cabeça para baixo.
Seu marido estava à beira da morte. E o futuro, que
por algum tempo lhe parecera seguro, apresentava-
se, agora, incerto. A morte de Roscoe representaria
não apenas a morte de alguém importante na vida
dela, mas, também, o ponto de partida para uma
nova realidade.
Ao passar pela Beneficiadora de Algodão Gyllenhaal,
lembrou-se que devia avisar os gerentes. Isso ela
saberia enfrentar, já que nos últimos meses
substituíra o marido da direção da fábrica. Os
gerentes passariam a notícia aos demais
empregados, e logo toda a cidade ficaria sabendo
que Roscoe Gyllenhaal estava à morte.
Houvera muito falatório na pequena comunidade
quando Caroline Tyler se casara com Roscoe
Gyllenhaal, trinta anos mais velho que ela. O povo
dizia que a pequena Tyler linha sido muito esperta:
passara de empregada a patroa, e agora, sempre
muito bem vestida, guiava um Lincoln novo em folha.
Quem ela pensava que era, afinal? Todo mundo
lembrava muito bem da garota humilde que só usava
roupas de segunda mão e que trabalhava no
supermercado depois das aulas. Agora que era a sra.
Roscoe Gyllenhaal, casada com o homem mais rico
da cidade, dava-se ares de rainha!
Sempre que podia, Liv evitava os moradores da
cidade, porque não conseguia entender seus
comentários maldosos. Sabia o que eles pensavam a
seu respeito; diziam que havia enfeitiçado o velho
Roscoe, obrigando-o a casar-se com ela depois de
anos de viuvez.
Dentro em breve, aquela mesma gente viria
apresentar-lhe seus pêsames. Fechou os olhos por
uns instantes, arrepiada com aquela idéia, mau ao
reabri-los a visão do "Retiro" conseguiu erguer-lhe o
ânimo. Ficou a olhá-lo, fascinada. Aquela mansão a
encantava desde os tempos de criança, quando
costumava perambular pelos bosques para espreitar
a propriedade.
Imensos carvalhos com os ramos cobertos de musgo
encobriam a casa, entretanto suas folhas deixavam
filtrar a luz e o calor do sol da manhã. As paredes
eram imaculadamente brancas. Uma fileira de
colunas coríntias, três de cada lado da porta,
ornavam a frente, sustentando o andar superior. As
sacadas, com grades de ferro batido, abriam-se
sobre a ampla varanda, cujos móveis de vime branco
eram retirados à chegada do inverno.
Abelhas e colibris zumbiam em volta dos canteiros
floridos. As cores eram tão ricas e brilhantes que
chegavam a ferir os olhos. Nenhum lugar do mundo
possuía um gramado mais verde do que aquele que
se projetava como um tapete diante do "Retiro".
Tudo era claro e imbuído de uma aura de serenidade
e tal como a neblina mágica que envolvia os castelos
dos contos de fadas. Aquela casa representava tudo
o que Liv mais desejava no mundo. Agora, ela
morava ali. Mas, a partir da morte de Roscoe, sabia
que as coisas iriam mudar, e bastante.
Dominada por um leve tremor, juntou toda a força de
que dispunha, saltou do carro e, com passos firmes,
dirigiu-se à porta de entrada.
Em contraste com a claridade e o calor de fora, o hall
parecia na penumbra e agradavelmente fresco.
Seguindo o estilo das antigas e suntuosas casas
sulistas, uma larga galeria central estendia-se da
frente até a parte posterior. De um lado situavam-se
a biblioteca e o escritório de Roscoe. Do lado oposto
ficavam a sala de jantar e o living, separados entre si
por enormes portas de correr, que desapareciam nas
fendas das paredes laterais. No fundo, uma
majestosa escada em curva conduzia ao andar
superior, onde estavam situadas as quatro suítes.
Liv tirou o casaquinho, pendurou-o no armário e
ajeitou a blusa de seda.
— E então? Quais são as notícias?
A sra. Haney, a fiel governanta que tomava conta da
casa desde que Roscoe se casara pela primeira vez,
estava diante dela. Sua ânsia fazia supor que já
pressentia a notícia que Liv tinha para lhe dar.
— Más?
Liv aproximou-se dela e abraçou-a.
— Piores não poderiam ser. Câncer. Ele tem que
ficar no hospital.
Haney sufocou um soluço. À espera de que essa
primeira manifestação de mágoa se acalmasse,
Carolhie continuou a abraçá-la em silêncio, com os
olhos cheios de lágrimas.
— Que horror! Não! É impossível! — exclamou a
governanta cm voz abafada. Pensava na filha e na
mulher de Roscoe, que haveriam de ficar
desamparadas sem ele.
A princípio, Haney acolhera a nova dona do "Retiro"
com um misto de reserva e ressentimento. Mas, ao
perceber que Liv não pretendia intrometer-sc no
andamento da casa, e que, pelo contrário, iria deixar
que tudo corresse como no tempo de Marlene
Winston, a primeira esposa de Roscoe, sua
desconfiança começou a ceder. Além do mais, a
nova patroa tratava Laura Jane com afeição e
ternura, o que era mais do que suficiente para elevá-
la a seus oihos.
— Haney? Liv? O que está acontecendo?
Ambas voltaram-se e viram Laura Jane parada no
alto da escada. Aos vinte e dois anos, a filha de
Roscoe parecia ainda uma adolescente. Seus
sedosos cabelos castanhos repartidos no
meio desciam-lhe suavemente pelos ombros,
emoldurando um rosto de feições delicadas e
etéreas. Sua pele era branca e fina como porcelana e
os olhos escuros eram grandes, orlados de cílios
espessos. Seu corpo, frágil como sua mente, dava a
ideia de um lindo botão que ainda não se
transformara em flor.
— A operação já terminou? E papai? Quando vai
voltar para casa?
— Bom dia, Laura Jane — disse Liv, indo ao encontro
da enteada, apenas cinco anos mais jovem do que
ela. Tomando-a gentilmente pelo braço, convidou:
— Não quer dar uma volta comigo? O dia está lindo.
— Claro. Mas por que Haney está chorando? —Ela
está triste.
— Triste?
Liv conduziu a jovem até a porta que dava para a
varanda.
— Sim, triste por causa de seu pai. Ele está muito
doente, Laura Jane.
— Eu sei. Papai sofre de dor de estômago.
— O médico disse que ele não vai melhorar.
Caminhavam pelo gramado verde e bem cuidado.
Laura Jane colheu uma madressilva de um dos
canteiros que ladeavam a trilha.
— Papai está com câncer?
Liv surpreendeu-se. As reações de sua enteada
eram imprevisíveis, mas ela não quis mentir sem
necessidade e respondeu:
— Sim.
Laura Jane aproximou-se com alguma timidez, como
que implorando indulgência.
— Assisti a vários programas de televisão sobre
câncer e sei muitas coisas. — A jovem parou e fitou
Liv. — Papai vai morrer, não é verdade?
Liv confirmou com a cabeça.
— Ele vai morrer, Laura Jane. O médico disse que ele
tem só uma semana de vida.

Os profundos olhos castanhos permaneceram secos.


Laura Jane inclinou a cabeça e aspirou o perfume da
flor, como que ponderando a nova situação. Por fim,
ergueu novamente o rosto.
— Papai vai para o céu, não é mesmo?
— Assim espero . Sim, sim, claro que vai.
— Então, papai e mamãe vão ficar juntos de novo.
Ela já está lá há muito tempo e vai ficar contente. E
eu ainda tenho você, Haney e Stevc. — A jovem
lançou um olhar na direção das cocheiras. — Ah, e
Jake! Ele me escreve todas as semanas. Diz que me
ama e que vai tomar conta de mim. É verdade, Liv?
— Claro que é! — Liv apertou os lábios para não
gritar. Jake cumpriria sua promessa?
— Por que ele não vem morar conosco? — quis
saber Laura Jane.
— Talvez ele volte para casa mais cedo do que você
pensa. .. — — disse Liv, um tanto reticente. Não iria
afirmar nada a jovem antes de ter certeza da volta
de Jake.
Laura Jane tranquilizou-se e mudou de assunto.
— Steve está me esperando. A égua deu cria na
noite passada.
— Vamos vê-la?
Liv suspirou fundo, quase invejando a enteada.
Desejava encarar a morte iminente de Roscoe com a
mesma simplicidade de espírito. Ah, se as coisas
fossem tão fáceis assim!
O amplo estábulo cheirava agradavelmente a couro
e a feno.
— Steve! — chamou Laura Jane. — Aqui!
Steve Bishop, o encarregado das cocheiras, saiu de
uma das baias e ficou parado no corredor central.
Embora não fosse muito alto, possuía um físico viril e
bem proporcionado, e suas feições rudes eram
suavizadas por uma expressão agradável. Seu velho
jeans amarrotado, as botas empoeiradas e a camisa
úmida de suor indicavam que ele estivera muito
ocupado. Mas seu rosto iluminou-se quando ele viu
Laura Jane. Apenas seus olhos não perderam a
habitual expressão.de tristeza que jamais o
abandonava, mesmo quando ele sorria.
— Steve, queremos ver a eguinha recém-nascida —
disse Laura Jane de um só fôlego.
— Ali. — Steve fez um gesto na direção da baia e,
deixando Laura Jane passar, fitou
interrogativamente Carolinc.
— Câncer — murmurou ela, em resposta á silenciosa
pergunta. — É questão de pouco tempo.
Steve olhou a jovem ajoelhada ao lado da cria.
— Já contou a Laura Jane?
— Já. Ela aceitou tudo com naturalidade. Steve
soltou um profundo suspiro de alívio.
— Ainda bem — murmurou, apertando a mão de Liv
num gesto de solidariedade.
Entrou na baia e ajoelhou-se com dificuldade ao lado
de Laura Jane. A guerra do Vietnam deixara-lhe uma
marca profunda: tivera a perna direita amputada do
joelho para baixo e aquilo ainda lhe provocava dores
insuportáveis.
— Olhe, Steve, como ela é linda! — exclamou Laura
Jane.
— Uma eguinha muito bonita. A mãe dela deve estar
muito orgulhosa. — Ele deu um tapinha afetuoso nos
flancos do animal, mas seus olhos não deixavam de
fitar a jovem ajoelhada a seu lado.
Com curiosidade, Liv observou-o retirar um fiapo de
palha dos cabelos da Laura Jane. Os dedos dele
roçaram de leve o rosto da moça, que ergueu os
olhos e sorriu. Ele sorriu também e Liv ficou
surpresa. Aqueles dois tinham trocado um sorriso tão
cheio de intimidade! Estariam apaixonados? Não
sabia o que pensar. Discretamente, recuou no
instante em que Steve voltou-sc para ela.
— Sra. Lancastcr, se há algo que eu possa fazer,
diga.
— Obrigada, Steve. Por enquanto, mantenha tudo
como está.
— Sim, senhora.
Steve Bishop sabia que devia seu emprego a Liv. Ela
era ainda a chefe da contabilidade de Roscoe quando
ele se candidatara ao cargo de cavalariço, usando
sua amargura e seu desencanto como uma arma.
Steve se portara com arrogância, quase sentindo-se
com direito ao emprego, à chance que, até então,
todos se recusavam a dar-lhe.
Liv percebera que, sob aquele disfarce, havia um
homem desesperado, pelo qual sentiu uma instintiva
simpatia. Percebeu a mágoa que se ocultava sob
aquela petulância, pois sabia o que significava ser
julgada apenas pela aparência e pelo passado. Como
Steve afirmara que havia trabalhado numa fazenda
de criação de cavalos, ela interveio em seu favor,
recomendando a Roscoe que o admitisse.
Roscoe jamais se arrependera disso. Sleve
modificara completamente seu comportamento,
deixando de lado a arrogância, como se os sinais de
rebeldia já não lhe fossem mais necessários.
Trabalhara com afinco e dedicação, tornando-se
indispensável.
Liv ia pensando em tudo isso, enquanto voltava para
casa. Steve e Laura estavam apaixonados! Balançou
a cabeça e sorriu. Quando entrou na sala, o telefone
estava tocando e ela atendeu automaticamente.
— Alô?
— É Granger, Liv.
— Ah, sim.
— Acabo de falar com Jake. Ele vai chegar hoje à
noite.
Havia milhões de providências a serem tomadas
naquela tarde. Roscoe não tinha nenhum parente
vivo alem dos filhos e da mulher, mas era um
homem conhecido. Todos os seus amigos, que
viviam em lugares muito diferentes, precisavam ser
avisados. Liv dividiu a tarefa com Granger e passou
muito tempo ao telefone.
Quando terminou, dirigiu-se à cozinha.
— Haney, verifique se o antigo quarto de Jake está
em ordem. Ele vai chegar hoje à noite.
A governanta rompeu num choro incontrolável. —
Graças a Deus! Sabia que um dia o meu menino
voltaria para casa. O quarto está em ordem, sim, só
falta trocar os lençóis. — Ela enxugou os olhos com a
ponta do avental. — Não vejo a hora de apertá-lo nos
braços.
Liv tentou não pensar no momento em que teria de
encontrar face a face o fiiho pródigo. Também não
quis pensar na morte iminente de Roscoe. Pensaria
nisso quando estivesse a sós, na privacidade de seu
quarto. Nem quando foi vê-lo no hospital, deixou que
seus pensamentos convergissem para aquele fato
inevitável. O marido estava ainda sob o efeito da
anestesia, mas ela sentiu que a mão dele respondia
à leve pressão da sua.
Durante o jantar, Liv contou a Laura Jane que Jake
chegaria naquela noite. A jovem levantou-se de um
pulo, agarrou Haney pela cintura e pôs-se a dançar.
— Ele prometeu que voltaria! Não. foi mesmo,
Haney? Jake está voltando para casa! Tenho que
contar a Steve.
Ela saiu da sala pela porta dos fundos, tomando o
rumo das cocheiras.
— Essa, menina ainda vai arranjar encrenca, se não
deixar Steve em paz! — murmurou a governanta.
Liv escondeu um sorriso.
— Não acho.
Haney olhou-a interrogativamente, mas ela fez que
não viu. Pegou um copo de chá gelado e dirigiu-se
para a varanda da frente. Sentou-se numa cadeira de
balanço, encostou a cabeça na almofada e respirou
nostalgicamente.
Aquela era a hora de que mais gostava: o cair da
tarde no “Retiro”, quando as luzes da casa brilhavam
através das janelas, fazendo as vidraças cintilarem
como jóias. Lá fora, as sombras alongavam-se,
confundindo-se umas com as outras. As árvores
eram silhuetas negras recortadas contra o céu, que
se tingia de um puro tom de violeta. As rãs
coaxavam no brejo e as cigarras enchiam o ar úmido
e parado com seu canto estridente. A terra, rica de
humo, exalava fecundidade.
Liv fechou os olhos c permaneceu imóvel durante
longo tempo. Quando os abriu novamente, viu Jake
parado sob um grande carvalho. Seu coração
começou a bater descompassadamente e ela não
conseguia distinguir se aquele vulto era real ou
imaginário, tantas eram as lágrimas que lhe
toldavam a visão.
Era real. Viu-o afastar-se do tronco onde estivera
apoiado e caminhar muito lentamente em sua
direção. A cada passo dele, Liv sentia o ar carregar-
se ainda mais de eletricidade. A expectativa do
encontro com ele tornou-a trêmula e fraca.
Jake só parou ao chegar diante da escadaria, apenas
uma sombra entre tantas, mas não havia dúvida
quanto à sua identidade. Carolinc não tinha cessado
de observá-lo e, à fraca luz crepuscular, percebeu
que o tempo fora generoso com ele. Fisicamente, era
o mesmo de sempre.
Subitamente, ele sorriu. Liv percebeu-lhe o brilho dos
dentes brancos no rosto moreno. Era um sorriso
indolente, como indolente era a sua voz, ao
exclamar:
— Macacos me mordam se você não é Liv Tyler! Ele
inclinou-se para a frente e descansou um pé no
primeiro
degrau da escada, com a luz que vinha da entrada
iluminando-lhe as feições. O coração dela oprimiu-se
de dor...e de amor.
Desculpe — tornou ele. — Liv Gyllenhaal, não é
mesmo?
— Sim, sou uma Lancastcr, agora. Como vai, Jake?
Aquele rosto! Era ele quem povoava seus sonhos e
excitava suas fantasias. Era, ainda, o rosto mais
encantador que já conhecera. Bonito aos vinte anos,
era magnífico aos trinta.
Os cabelos pretos como carvão denunciavam a
selvageria de seu espírito.Seus olhos , que a haviam
seduzido desde a primeira vez que a fitaram, a
intrigavam ainda. Gente sem imaginação diria que
eram castanho-claros. Mas eram dourados como o
mais puro mel.A melhor das bebidas, o mais
brilhante dos topázios. Na última vez que tinham se
encontrado, aqueles olhos ardiam de paixão.
"Amanhã... amanhã, garota. Aqui mesmo, no nosso
lugar de sempre. Ah, Liv, você me deixa louco! Beije-
me do novo!" Só que não houvera um amanhã. Ele
não voltara no dia seguinte, nem nunca mais.
— Engraçado — disse ele, num tom que nada tinha
de engraçado. -— Temos o mesmo sobrenome.
Não havia como retrucar. Ela gostaria de responder
que teria havido um outro jeito de compartilharem o
mesmo sobrenome. Se ele não tivesse sido um
mentiroso, se não a tivesse traído... mas era melhor
calar sobre tudo aquilo. Não era ainda o momento.
— Não ouvi o barulho do seu carro.
— Cheguei de avião e vim andando do hangar até
aqui.
— Oh. . . Por quê? O hangar fica a quase dois
quilômetros de distância!
— Digamos que eu não tinha certeza de como seria
recebido.
—Esta é a sua casa, Jake.
Ele sorriu cinicamente.
— Claro, esta é a minha casa.
Liv passou a língua sobre os lábios secos e desejou
ter coragem para se levantar. Mas teve receio de que
suas pernas não a sustentassem.
— Ainda não falamos de seu pai.
— Granger já me contou tudo.
— Então já sabe que ele está à morte.
— Sei. E sei também que ele quer me ver.
Inacreditável! Diante daquela observação cínica, ela
se ergueu da cadeira de
um salto.
— Ele está velho e doente. Não é o mesmo homem
de antigamente.
— Enquanto ele tiver um sopro de vida no corpo,
será o mesmo de sempre.
— Não quero discutir com você. — Não estou
discutindo.
— Não quero que você o aborreça.
— "Você" não quer? Quem pensa que é? A dona do
"Retiro"?
— Por favor, Jake. Não torne as coisas piores do que
já estão.
— Está bem.
Ele suspirou fundo. Liv perturbou-se, o homem
com
quem sonhara durante tantos anos eslava ali, diante
dela, autêntico e real. Contudo, parecia mais distante
do que nunca.
— Não vejo a hora de abraçar Laura Jane — disse
Jake, lançando um olhar às cocheiras. — Eu a vi
ainda há pouco, mas tive medo de assustá-la
aparecendo de repente. Era uma garotinha quando a
deixei. Mal pude acreditar ao ver o quanto ela
cresceu.
A visão de Laura Jane e, Steve ajoelhados na baia, os
dedos dele roçando delicadamente o rosto dela,
voltou à mente de Liv. O que Jake acharia do
romance de sua irmã?
— Laura Jane já é uma mulher feita, Jake.
Liv percebeu que os olhos dele a percorriam da
cabeça aos pés, observando, analisando. Sentiu um
calor percorrer-lhe as veias.
— Você também cresceu, Liv — murmurou ele,
cravando os olhos nas curvas do corpo dela. —
Mulher feita.
Ela mudara muito pouco. A beleza em botão da
adolescente de quinze anos apenas desabrochara.
Jake esperava encontrá-la gorda e desalinhada, de
quadris amplos. Em vez disso, ela continuava
esbelta, de cintura fina. Seus seios estavam mais
cheios, mas eram altos, redondos e desejáveis. Jake
sentiu ímpetos de tocá-los. Diabos! Quantas vezes
seu próprio pai os tomara nas mãos?
Ele subiu vagarosamente as escadas, como um
animal selvagem que, embora não tivesse fome,
sentia prazer em atormentar a sua vítima. Os olhos
dourados brilharam na escuridão, a boca sensual
abriu-se num sorriso, como se quisesse lembrar-lhe
coisas que ela preferia esquecer.
Assustada, Liv recuou.
— Vou chamar Haney. Ela. . .
Ele agarrou-a pelo pulso, obrigando-a a encará-lo.
— Espere só um instante. Depois de doze anos, não
acha que mereço uma recepção mais cordial? —
Puxando-lhe o corpo, ele a trouxe para junto de si. —
Afinal, somos parentes, ou não somos?
Inesperadamente, seus lábios desceram ardentes e
esfomeados sobre os dela, como que querendo puni-
la por todas as noites que ele passara em claro,
pensando na sua pura Liv entregando o corpo a seu
pai.
Cerrando os punhos, ela o golpeou com força no
peito. Lutava com ele e ainda mais duramente
consigo mesma. Porque, na verdade, queria
aconchegar-se a ele, sentir a suprema delícia de
estar novamente naqueles braços.
Mas aquilo não era um abraço, era um insulto. Ela
debateu-se selvagemente, desvencilhando-se com
dificuldade dos braços fortes Depois, sem forças,
deixou-se cair na cadeira com todo o peso do corpo e
ficou prostrada, com os braços cruzados sobre os
seios
Jake enfiou as mãos nos bolsos do jeans e sorriu com
ar de triunfo
— Meus cumprimentos, mamãe.
CAPITULO II

— Liv não se conteve.


Por que está sorrindo dessa maneira? É desprezo ou
quer provocar?
Jake deu de ombros.
- Não consigo me conformar. Como pôde se casar
com esse velho tirano?
— Você não tem coração! — disse ela, quase aos
gritos. Depois, acalmando-se, acrescentou: — Ele foi
bom comigo.
— Estou vendo! Esses brincos de pérolas, o brilhante
no seu dedo .. Está muito mudada, Liv. Mas agora
estou lembrando! Não foi você quem disse que daria
tudo para morar numa casa como esta? — Ele se
inclinou para ela e perguntou
em surdina:
— O que foi que deu ao meu pai para que ele
resolvesse casar com você?
A mão dela moveu-se com tanta rapidez que Jake
não teve tempo para esquivar-se. A bofetada
estalou-lhc no rosto com força.
— Canalha!
Ele segurou-lhe brutalmente o braço, mas largou-a
logo a seguir e arreganhou os dentes num sorriso
zombeteiro que a deixou ainda mais furiosa.
—Eu dei ao seu pai o que você não soube lhe dar. Ele
estava com o coração partido, sofrendo por você.
Jake riu novamente e disse, numa voz em que se
misturavam o ódio e o desprezo:
— Sofrendo? Essa é muito boa, Liv! É difícil imaginar
meu pai sofrendo por alguém. Especialmente por
mim!
— Está enganado. Ele queria que você
permanecesse no "Retiro".
— Ele queria era me ver pelas costas, isso sim! Pare
com esses sentimentalismos, Liv. Isso não faz
sentido,
— Não sei qual foi o motivo da briga que houve
entre vocês, mas acho que não deve desprezá-lo.
Seu pai está muito doente, Jake. Quase à morte.
Jake não pareceu comover-se.
— Quem teve a ideia de me avisar? Você ou
Granger? — A idéia foi do próprio Roscoc.
— Foi o que Granger me disse, mas eu não quis
acreditar.
— Pois é verdade.
— Não confio em meu pai. Ele deve estar
maquinando alguma coisa.
— Ele quer vê-lo antes de morrer.. Isso não explica
tudo?
— Você não conhece Roscoe. Ele é rancoroso e
vingativo. Se o patife quer que eu assista à sua
morte, deve ter uma razão muito especial.
— Não admito que você fale de seu pai desse modo
na minha presença! Ele é meu marido.
— Problema seu!
— Liv? Quem.. . Oh, meu Deus! Jake! — Haney
correu para a varanda e apertou Jake num abraço
maternal. Os olhos de Caróline umedeceram-se de
ternura, ao perceber que um clarão de alegria
substituía o cinismo no rosto de Jake. Os, olhos
dourados brilhavam de felicidade, enquanto os lábios
abriam-se num amplo sorriso.
— Você está chorando, Haney? — perguntou ele.
— É a felicidade que me faz chorar assim... Não é
nada. . . Vai passar.
— Senti tanto a sua falta!
— Você podia ter escrito com mais frequência —
repreendeu-o a mulher, enxugando os olhos.
— Pcrdoe-mc, Haney. Você sabe que eu não gosto
muito de escrever.
— Estou vendo que vocês dois já se conhecem —
notou a governanta com um sorriso.
— É verdade. Acabamos de nos apresentar —
confirmou ele, inocentemente.
— Você está com cara de quem não anda se
alimentando muito bem. No mínimo, está
trabalhando demais e não tem tempo para fazer uma
refeição decente. Vamos entrar, Jake. Deixei o sêu
jantar no forno.
— Que cheirinho bom! Torta de pêssego?
— Sim, mas não pense que a fiz especialmente para
você.
— Ora, Haney! Confesse a verdade — brincou Jake.
— Simples coincidência — insistiu a governanta.
Liv seguiu-os, pensativa. Quando viera morar no
"Retiro", sentira-se mais uma hóspede do que a nova
dona da casa. Mas, com o passar dos meses, tudo foi
mudando. Ficara amiga de Laura-Jane, e Haney, que
a princípio mostrara-se arredia, acabara por aceitá-la
também. Agora, ao ver Jake ali, ao ouvir o ruído de
suas botas ressoar no antigo assoalho de tábuas e
sua voz ecoar pela sala, voltava a se sentir uma
intrusa. Jake pertencia aquela casa. Ela, não.
Quando chegaram à cozinha, ele, correu os olhos
pelo ambiente
— Exatamentc como eu me lembrava — comentou,
sentando-se à grande mesa de carvalho.
— Acabaram de pintar de novo a cozinha, mas eu
pedi ao sr. Gyllenhaal que a pintasse da mesma cor.
Queria que tudo continuasse igualzinho para quando
você voltasse.
— Não voltei definitivamente, Haney. Vou ficar aqui
até que papai. . . até que as coisas se ajeitem de
novo.
Haney estacou, com a colher parada no ar, e olhou
para o homem sentado à mesa como se ele ainda
fosse o menino de outrora.
— Não voltou para ficar, Jake? Mas o seu lugar é
aqui.
Ele fitou Liv e logo em seguida baixou os olhos para
o prato.
— Para quê? Ninguém precisa de mim.
— E Laura Jane? — lembrou Liv, aproximando-se. Ela
os seguira até a cozinha com relutância. Não queria
que pensassem que a presença de Jake a intimidava.
Afinal, estava em sua própria casa. Ainda não era a
viúva de Roscoe e, como esposa dele, tinha todo o
direito de estar ali.
— Se você for embora, partirá o coração de sua irmã
— tornou Haney, esperançosa. — Nem que seja só
por ela, deve ficar aqui, não importa o que tenha
acontecido entre você e seu pai.
— Eu a vi de longe ainda há pouco. Ela está bem?
— Claro! É linda como um anjo.
— Não foi isso o que eu quis dizer.
Haney acabou de servi-lo e respondeu devagar:
— Sei muito bem o que quis dizer. Pelo tom das suas
cartas, percebi que você não tem ideia do verdadeiro
estado de Laura Jane. Sua irmã pode não ter
aprendido muita coisa na escola, mas é esperta
como ela só. Você não precisa se preocupar. Dentre
os que a conhecem melhor, poucos se lembram de
que ela é diferente.
— Mas ela é diferente, Haney.
— Não tão diferente assim — interveio Liv. — Ela
sabe muito bem o que está acontecendo no mundo,
embora seja muito emotiva. Eu receio mais pela sua
vulnerabilidade emocional do que pela deficiência
mental. Se alguém de que goste chegar a desapontá-
la, ela poderá ter um choque de consequências
imprevisíveis.
Os olhos de Jake arderam como chamas, enquanto
ele empurrava a cadeira para trás e se levantava.
— Obrigado pelo sermão, "irmã" Liv. Vou tentar não
esquecer o conselho.
— Eu não pretendia...
— Claro que pretendia! — afirmou ele,
categoricamente, enchendo uma xícara de café.
— Jake Lancasler, não tome as coisas dessa
maneira. Lembre-se de que Liv é a esposa de seu pai
e que merece respeito — disse Haney.
Rmk, os olhos ainda fixos em Liv, esboçou um sorriso
de ironia.
— Minha madrasta. . . Juro que não vou me esquecer
disso.
— Laura Jane vem vindo — advertiu-o severamente
Haney. — Tenha cuidado ,sua irmã teve um dia
muito difícil. Evite qualquer discussão diante dela.
A voz suave de Laura Jane ecoou pelo corredor e
logo depois a porta da cozinha abriu-se. A jovem
ficou parada no limiar, o delicado corpo imóvel como
o de uma estátua grega, enquanto seus olhos se
arregalavam de surpresa. Lentamente, Uma luz de
compreensão iluminou-lhe o rosto.
— Jake — murmurou, correndo para ele.
Emocionado, ele a abraçou com suavidade,
deixando que ela lhe tocasse o rosto, os cabelos, os
ombros, como se quisesse certificar-se de que aquele
era mesmo o seu irmão, em carne e osso.
— Você é tão alto e forte!
— E voce é muito bonita, Laura Jane.
Afastaram-se ligeiramente um do outro e ficaram
se olhando com prazer e alegria.
— Papai vai morrer — disse a jovem de repente. —
Liv lhe contou?
— Sim, já contou.
— Mas agora você está aqui. Junto com Haney, Liv e
Steve... Oh, meu Deus! Esqueci de apresentar Steve.
— Ela voltou-se para o homem que estava parado
junto à porta dos fundos e tomou-o pela mão. —
Steve Bishop, meu irmão Jake.
— Prazer em conhecê-lo, sr. Gyllenhaal.
— Pode me chamar de Jake. Há quanto tempo você
trabalha aqui?
— Pouco mais de um ano.
Jake lançou um olhar à irmã e depois voltou a fitar o
homem.
— Laura Jane me falou de você nas suas cartas.
— Uma das éguas deu cria ontem, Jake! —
intrometeu-se a moça com excitação. — Foi Steve
quem fez o parto.
— Por falar nisso, tenho que voltar à cocheira —
declarou Steve.
— Não quer um pedaço de torta? — ofereceu Haney.
— Não, obrigado. A égua precisa de cuidados.
— Então, verei você amanhã de manhã. Está bem?
— Laura Jane tomou a mão de Steve.
— Claro, senão a eguinha vai sentir a sua falta.
— Boa noite, Steve — ela murmurou docemente.
— Boa noite, Laura Jane.
O homem tocou educadamente a aba do chapéu
num gesto de saudação destinado a todos e, abrindo
a porta, desapareceu na escuridão.
Haney começou a circular em volta da mesa,
distribuindo generosas porções de torta de pêssego
com sorvete de baunilha.
— Para inim, não, Haney. Obrigada — disse Liv,
percebendo que Jake a olhava. — Foi um dia
cansativo. Vou para o meu quarto.
— Não precisa de nada?
— Apenas de um bom repouso. — Ela inclinou-se
para Laura Jane e beijou-lhc o rosto. — Boa noite.
Amanhã iremos juntas ao hospital e você poderá ver
seu pai.
— Está bem. Não é maravilhoso que Jake esteja
aqui, Caroline?
— Sim, maravilhoso. — Ela fitou Jake. — Haney já
aprontou o seu quarto. Boa noite.
Liv saiu da cozinha antes que Jake pudesse
responder, continuar ali era exigir demais de suas
forças. Além do mais, aqueles três certamentc
desejavam ficar algum tempo sozinhos, entregues às
suas recordações.
Subiu lentamente as escadas e atravessou o
corredor coberto por um tapete oriental.
Dois abajures cor-de-rosa iluminavam
suavemente o seu quarto. Apagou um deles e o
quarto ficou imerso na penumbra. As sombras
combinavam melhor com o seu estado de espírito; e
escondiam de si mesma o que não queria ver, nem
saber.
Caminhou para a ampla janela e ficou olhando o
cenário que se descortinava à sua frente. A lua
minguante quebrava a escuridão da noite, fazendo
brilhar o extenso gramado que descia suavemente
até a beira do rio, refletindo-se no espelho das
águas. Quanta paz!
No entanto, a mente de Carolinc girava num
turbilhão, presa a sentimentos contraditórios. Sofrera
três choques naquele dia. Soubera que seu marido
estava com os dias contados; percebera que a
afeição de Steve por Laura Jane era muito mais do
que simples amizade ou compaixão; e, pior do que
tudo, defrontar-se com Jake, de volta ao lar.
Soltando um longo suspiro, afastou-se da janela e
começou a despir-sc. Depois de encher a banheira,
afundou suavemente na água quente e fechou os
olhos. Só então deixou que as lágrimas reprimidas
escorressem, dando vazão à dor que a sufocava.
Chorou por scu marido que, embora doente,
recusara-se a consultar médico. Ela o compreendia,
pois achava que talvez fosse melhor assim: que o fim
chegasse logo. Obrigar um homem de vitalidade e
com tamanho espírito de independência a ficar a um
jeito de enfermo durante meses teria sido cruel
dcmais.

Permaneceu na banheira até que as lágrimas


secaram e a ficou fria. A casa estava mergulhada
em total silêncio.
Liv estava vestindo a camisola quando ouviu uma
leve batida.
Abrindo só um pouquinho a porta, espiou no corredor
silencioso e escuro,
— O que você quer?
— Falar com você.
Jake entrou no quarto, segurando um copo de
bourbon na mão, antes que Liv pudesse esboçar
sequer um gesto de protesto. Receando um
escândalo, ela não teve outro remédio senão fechar
a porta, fazendo um esforço para manter-se calma.
No entanto, adiou que o procedimento de Jake era
compreensível, ao perceber com que emoção ele
observava todo o quarto, indo de um lado para outro,
pegando os antigos objetos de toalete sobre a
cômoda, passando a mão pelas cortinas das janelas.
Ela sentiu uma dor no coração ao vê-lo parar diante
do espelho oval e contemplar o próprio reflexo.
Estaria à procura do menino que fora um dia?
— Este era o quarto de minha mãe — disse ele, por
fim.
Liv engoliu em seco.
— Eu sei. É um lindo quarto, um dos mais lindos da
casa.
— Combina com você como combinava com ela —
continuou ele, observando-a pelo espelho. — É um
quarto bem feminino.
Ele não desviava os olhos, e Liv ficou constrangida. A
camisola e o robe leves que vestia pareciam não
resistir àquele olhar ardente. Pela primeira vez na
vida, ela compreendeu o que era sentir-se nua diante
de alguém.
Jake com certeza percebeu que Liv estava nua sob os
trajes de dormir, porque seu olhar explorador
detinha-se ora na suave curva dos seios, ora no
triângulo abaixo da cintura dela. Como em resposta
a algum apelo silencioso, aquelas zonas de excitação
começaram a pulsar com suavidade. Os bicos dos
seios de Liv ficaram duros e sua feminilidade
floresceu. Mesmo reprovando intimamente sua
fraqueza, ela sentia-sc incapaz de controlar o desejo
que corria por suas veias diante daqueles olhos
dourados.
Jake tomou um gole de bourbon, saboreando a
bebida.
Papai ainda sabe apreciar um bom uísque... e
mulheres bonitas. Você está linda, Liv — comentou,
lançando-lhe um último olhar pelo espelho. Voltando-
se, ele caminhou para uma cadeira e sentou-se com
as pernas esticadas.
— Mamãe e papai não dormiam juntos — continuou.
— Lembro-me muito bem do dia em que ele a
repudiou. Laura até já havia nascido. Mamãe chorou
durante horas, mas papai não se comoveu. — Tomou
mais um gole de uísque e riu, sem alegria. — Acho
que ele jamais a perdoou pelo nascimento de Laura
Jane.
— Seu pai adora Laura Jane! — protestou Liv,
saindo de seu entorpecimento. — Faz tudo o que
pode por ela.
Jake riu novamente, dessa vez com ironia.
— Ah, ele é muito bom nessas coisas. Fazer o que
pode por alguém.
Ela o olhou por um momento e depois foi sentar
na beirada da cama.
— Era isso o que tinha para me dizer?
— Isso o quê? Que papai e mamãe não dormiam
juntos?
Éle a provocava deliberadamente. Onde estava o
rapaz educado de outrora, que a tratava com ternura
e gentileza? Agora parecia um estranho, embora sua
fisionomia continuasse familiar.
Liv observou-o. Sob a camisa desabotoada, o peito
dele se erguia-se e abaixava-se no ritmo da
respiração. Uma fina camada de pêlos escuros cobria
o tórax musculoso, desaparecendo abaixo da cintura
onde o sexo era evidenciado pelo jeans apertado.
Constrangida, ela desviou os olhos.
— Por que veio ao meu quarto, afinal? Se foi por
causa do que houve entre você e seu pai, fique
sabendo que não vou me envolver nisso.
Ele riu baixinho, como se achasse muita graça no
que ela acabava de dizer. Terminou de beber o
uísque sem pressa e então levantou-se
repentinamente da cadeira, aproximando-se com
andar macio. A luz do único abajur lançava sombras
em suas feições de anjo tentador. Jake parou muito
próximo, os joelhos quase tocando os de Liv, que
dominou o impulso de se encolher. Não queria
demonstrar que estava com medo de sua própria
submissão, caso ele tentasse alguma coisa.
— Vou precisar do seu carro amanhã. Não se
incomoda?
— Absolutamente — afirmou ela, com um suspiro de
alívio. — Vou lhe dar as chaves.
Levantou-se da cama fazendo de tudo para não
tocá-lo, mas mesmo assim não pôde evitar que as
suas coxas se roçassem, Àquele contato, o coração
de Liv quase parou de bater. Todas as palavras
apaixonadas que havia repetido consigo mesma
durante anos a fio lhe vieram à ponta da língua,
prontas para serem ditas. Mas ela conseguiu ficar
calada. Retirou as chaves da bolsa com dedos
trêmulos e deixou-as cair na palma da mão dele.
— Aonde quer ir?
— Quero falar com o médico do meu pai. Voltarei a
tempo para levar você e Laura Jane ao hospital.
— Ótimo. Tenho algumas coisas para fazer logo
cedo.
— Relacionadas com a Beneficiadora?
— Sim. Sou eu quem faz a contabilidade.
— Soube por Granger que você era o braço direito de
papai, mesmo antes de se casar com ele.
— Granger é um bom amigo.
Jake deu um passo para a frente. Ficaram tão
próximos que Liv podia sentir o hálito dele, cheirando
a uísque. Tentou se esquivar, mas ele cortou-lhe o
passo.
— Acho que é indispensável a papai em todos os
sentidos. Não é verdade?
Os olhos dela arderam.
— Você está sempre insinuando coisas
desagradáveis. Por que?
— Quero experimentar a reação da jovem, doce. . .
e pura Liv.
O sarcasmo era evidente naquelas palavras. Louca
de raiva, Liv levantou a mão, mas Jake agarrou-a
prontamente pelo ,pulso e torceu-lhe o braço para
trás. Baixou o rosto zangado, que ficou a poucos
milímetros do dela, e disse, por entre os dentes
cerrados:
— Cuidado! Não tente de novo ou pode se-
arrepender.
— O que você faria? Me daria uma surra? Ele sorriu
cinicamente.
— Ah, não! Não seria desse modo que eu iria retribuir
a gçntileza. — Apertou-a de encontro ao corpo, para
que ela lhe sentisse a masculinidade. — Seria assim,
entendeu? Você pode ser a sra Gyllenhaal para
qualquer um. Mas, para inim, ainda é pequena Liv
Tyler, a garota que me deixava louco! Liv fitou-o
desafiadoramente. Os olhos dela estavam cscuros,
como uma nuvem de tempestade. Seus cabelos
pareciam lançar chamas à luz rosada do abajur.
— Então você se lembra, Jake! Pensei que tivesse
esquecido
Os olhos de Jake estreitaram-se. Desceram do rosto
dela para os seios, cuja brancura o robe entreaberto
acabava de revelar.
— Sim! —- murmurou, rouco. — Lembro-me como se
fosse hoje
Empurrou-a bruscamente, fazendo-a desequilibrar-se
e tropeçar até bater o corpo na cômoda. Quando Liv
conseguiu recuperar o equilíbrio e o domínio de si
mesma, ele já havia deixado o quarto.
Com os diabos! Teria preferido não lembrar!
De volta ao seu quarto, Jake arrancou a camisa,
encheu novamentc o copo de uísque e deixou-sc cair
numa poltrona próxima a janela. Tomou um longo
gole da bebida, que parecia ter perdido todo o sabor.
Inclimando-se para trás, descansou a cabeça na
almofada e deixou que sua mente voltasse ao
passado, àquele dia de verão que descera até o rio e
arrancara a roupa, atirando-se nas das frescas e
convidativas.

O banho havia durado apenas alguns minutos.


Depois secara-se ao sol e, ao vestir o jeans, deparara
inesperadamente com ela. . .
— Puxa, menina! — exclamou Jake, subindo
apressadamente o zíper da calça, — Você me deu
um susto! Há quanto tempo está aí?
Ele quase riu ao ver a graça com que ela, paralisada
pela surpresa, fitava-o boquiaberta.
A garota vacilou, mas por fim gaguejou:
— Acabei.. . acabei de chegar.
— Ainda bem, porque ainda há pouco eu estava
completamente nu. Se tivesse chegado mais cedo,
teria presenciado o espetáculo!
O sorriso dele era amplo e confiante. Ela permanecia
imóvel como estátua, mas esboçou um sorriso
tímido.
— Espero não ter causado nenhum incomodo -—
disse, com uma polidez que naquelas circunstâncias
chegava a ser engraçada.
— Absolutamente! Já terminei o meu banho. Estava
com tanto calor que resolvi dar um mergulho.
— Sim, está muito quente, é por isso que eu vim
seguindo o rio. Aqui é mais fresco do que na estrada.
Jake estava curioso. Ela não só tinha uma beleza
deslumbrante, mas também era diferente. Usava
uma saia de algodão muito limpa e bem passada,
mas velha e fora de moda, tal como a blusa branca,
sob a qual ele percebeu o sutiã branco de corte
antigo. A maior parte das garotas que conhecia
usava um modelo chamado meia-taça, cuja única
finalidade era deixar os rapazes doidos.
Ele afastou o olhar dos seios dela, envergonhado por
examiná-la tão descaradamente. Ela não passava de
uma garota. Teria quinze, dezesseis anos quando
muito, e parecia terrivelmente sem jeito diante dele.
Mas era linda de morrer. Tez clara, olhos da cor do
céu na primavera, um corpo cheio de promessas. Os
cabelos castanhos
de reflexos avermelhados tinham o brilho do mogno
polido . Como poderia ficar insensível àquela beleza
de mulher em flor? -— Aonde está indo? — perguntou
Jake.
— À cidade. Trabalho no supermercado.
Ele não conhecia nenhuma garota que trabalhasse
durante o verão. A maior parte delas passava o dia
nas piscinas, cm piqueniques ou excursões. E à noite
iam a festinhas.
— Sou Jake Gyllenhaal. Ela o olhou intensamente,
parecendo impressionada com o torax nu. Percebia-
se que lutava consigo mesma, sem conseguir, no
entanto, afastar os olhos do peito dele, de seu jeans
ainda desabotoado. Jake teve convicção de que ela
seria uma conquista fácil. Mas aqueles olhos
inocentes diziam o contrário. Tomando um ar de
proprietário, adiantou-se e estendeu-lhe a mão. Ela
hesitou um instante, envergonhada, mas depois
estender a dela.
- Liv Tyler — disse com um fio de voz, ao erguer
olhos para fitá-lo.
Esquecidos de tudo, ficaram se olhando durante um
longo tempo, os insetos zumbiam em volta deles, os
pássaros cantavam, a água do rio batia mansamente
nas encostas musgosas.
— Tyler? — falou Jake por fim. — A filha de Pete
Tyler?
Ela baixou os olhos para o chão. Diabos! Por que ele
havia formulado a pergunta com aquele tom de
incredulidade na voz? Toda Winstonville conhecia
muito bem Pete Tyler. Ele passava o dia jogando
dominó nos bares, pedindo dinheiro emprestado a
qualquer um que pudesse enganar com sua lábia.
Quando tinha o suficiente, comprava uma garrafa de
uísquc barato e bebia até cair no chão.
— Sim — confirmou em voz baixa. Então, levantando
orgulhosamente a cabeça, olhou-o de frente.
— Tenho que ir, senão vou chegar atrasada ao
serviço. Gostei de ter conhecido você.
— Eu também.
— Tenha cuidado quando andar pelo bosque. — Ao
perceber que ela ria, ele perguntou: — Qual é a
graça?
— Você diz para eu ter cuidado, mas veio nadar
justamente aqui- — Ela apontou o rio. — Todos
sabem que essas águas são perigosas.
Ele deu de ombros.
— Mas eu estava com muito calor.
Jake estava era fervendo! Quando ela ria, jogava a
cabeça para trás e expunha o colo branco e
convidativo. Ele olhou os seios pequenos e altos, a
curva provocante do ventre, a cintura fina, os
quadris bem-feitos. Sentia a boca seca. Sim, o
sangue fervia-lhe nas veias. — A que horas você sai
do trabalho?
— As nove da noite.
— Tão tarde assim? Não tem medo de voltar para
casa no escuro?
— A noite, não passo pelo bosque. Vou pela estrada.
Ele ficou pensativo. Aquela garota não era como as
outras. Já vou indo — anunciou Liv, dando um passo
para a frente.
— Ah, sim. É melhor não se atrasar. A gente se vê,
Liv.
— Então, até lá.
Jake queria de fato vê-la outra vez, e ainda pensava
nela ao sair a toda cm seu conversível vermelho,
chegando ao "Retiro" em tempo recorde. Subiu os
degraus de dois em dois e dirigiu-se imediatamente
para o seu quarto.
Agora, como daquela vez, a mente de Jake fervia
com as imagens de Carolinc. Como num filme rodado
de trás para diante, podia se ver entrando no quarto,
naquela tarde de verão de doze anos atrás. Sentado
na mesma cadeira de agora, a mesma mulher
enchia-lhe os pensamentos. Altaneira e distante, ela
era ainda um mistério. E, como outrora, ele sabia
que havia pouca, esperança de satisfazer seu
torturante desejo.

CAPÍTULO III

Liv acordou muito cedo. Se pudesse, bem que


voltaria a dormir só para não ler de enfrentar, logo
nas primeiras horas do dia, o pesadelo que a
aguardava: a doença de Roseoe e a volta de Jake a
Winstonville.
Ouviu alguém abrir a porta da entrada e depois
fechá-la cuidadosamente. Arremessando as cobertas
para um lado, ela abriu a grande veneziana da
sacada. O sol mal aparecia entre o arvoredo,
empalidecendo a lua minguante baixa no céu. A
neblina erguia-se lentamente dos campos,
prenunciando mais um dia qucnte e tímido.
Viu Jake aparecer no pórtico e parar no primeiro
degrau da escadaria, deixando os olhos errarem
pelas terras que tanto amava.O sol, que começava a
levantar-se, derramou-se sobre a planícic, pondo em
evidência os menores detalhes. Havia beleza àquela
paisagem e prosperidade em seus campos lavrados.
Carolíne sentiu pena ao imaginar o quanto ele devia
ter sofrido durante aqueles anos de exílio voluntário.
- Jake caminhou vagarosamente para o carro
estacionado diante da casa. Usava jeans e blusão,
um traje que combinava muito com o seu tipo.
Talvez sentindo-se observado, ele olhou para cima e
viu-a na sacada.
Ela permaneceu imóvel. Não acenou e não sorriu,
fascinada por aqueles olhos dourados que prendiam
os seus. À claridade rosa-dourado da manhã, eles se
fitaram por um longo instante e, naquele silencioso
momento de intimidade, puseram seus corações a
nu. Alheados de tudo, destruíram todas as barreiras:
não existia mais ninguém no mundo, a não ser eles
dois. Por fim, sem fazer um só gesto, Jake entrou no
Lincoln e sumiu de vista.
Perturbada, Carolinc voltou ao quarto e começou a
se vestir. Olhando-se no espelho, perguntou-se:
"Como foi que isso aconteceu?" Jake Gyllenhaal. . . o
único homem que amara! Durante um momento de
suas vidas, haviam compartilhado algo raro e
especial. Liv se permitira sonhar com o impossível.
Acreditara em tudo o quê ele lhe dissera naquele
verão. Mas logo percebera que aquelas palavras não
tinham nenhum significado. Ela não passara de uma
novidade para Jake.
Agora, por uma ironia do destino, estava casada com
o pai dele! Quando fora pedida em casamento por
Roscoe, acreditara que todos os seus sonhos seriam
realizados. Teria respeitabilidade e dinheiro; as
pessoas que faziam pouco caso dela passariam a
tratá-la com deferência.
Jake havia partido e nunca mais voltara. Por que ela
nunca pensara que ele poderia voltar um dia? Nunca
tinha imaginado qual seria a sua própria reação, se
isso acontecesse. Fora realmente honesta consigo
mesma? Casara-se com Roscoe para fazê-lo feliz e
ajudar Laura Jane ou porque queria provocar ciúme
cm Jake? Se fosse honesta, teria de admitir que, no
íntimo, queria que ele se lembrasse daquele verão
de doze anos atrás e se sentisse ultrajado.
Sorriu tristemente à sua imagem: "Não se iluda, Liv.
Ele está simplesmente se divertindo".
A governanta já estava na cozinha quando ela
desceu para tomar café.
— Bom dia, Haney.
— Levantou muito cedo, querida.
— Tenho de terminar a folha de pagamento e quero
tratar disso logo para ter o resto do dia livre. Você
também se levantou muito cedo.
— Quero preparar uma boa refeição matinal para
Jake.
— Ele já saiu, Haney.
A governanta voltou-se para ela. Seu
desapontamento era visível.
— É mesmo?
— Faz mais de uma hora. Haney balançou a cabeça
e resmungou:
— Jake não está se alimentando bem. Queria lhe
preparar algo especial, mas ele não me deu chance.
Liv sorriu com indulgência. Por que não prepara algo
para Laura Jane? Convide também Steve. Acho que
eles gostarão de tomar café juntos.
— Está bem, mas sem Jake não será a mesma coisa.
Nada nesta casa tem a mesma graça desde que ele
casou com aquela garota e foi embora. Haney tem
razão, pensou Liv, dirigindo-se para o escritório. Com
o coração apertado, lembrou-se do dia em que não
comparecera ao encontro. Ela fora para o trabalho
arrasada e aí soubera dos boatos que corriam pela
cidade: Jake Gyllenhaal ia se casar com Marilyn
Georgc, jovem da sociedade Winstonville. O mundo
dela havia desabado. Sentada à escrivaninha, abriu o
livro de contabilidade sem saber direito o que fazia.
Quando telefonou a Beneficiadora, o gerente da
manhã disse-lhe que tudo corria bem.
Uma das descaroçadeiras apresentou problemas,
mas não era grave.
— Enquanto Roscoe viver, conto com você para que
tudo corra
normalmente.
— Sim, senhora.
Ela suspeitava que alguns empregados não
gostavam de receber ordens de uma mulher,
especialmente da filha de Pete Tyler. Mas nunca
haviam expressado seu descontentamento, pois
temiam Roscoe. O que aconteceria quando ele
morresse?
— Problemas? — perguntou uma voz conhecida. O
coração de Liv deu um salto quando ela. percebeu
Jake parado na porta do escritório.
-Nada importante. Você sabe como são as coisas lá
na Beneficiadora.
— Não, não sei. — Ele entrou. A camisa desabotoada
revelava o peito musculoso e bronzeado, coberto de
pêlos escuros. — Saí da cidade antes de aprender a
lidar com as máquinas e o pessoal. — Ele sorriu
ironicamente. — Não quer me ensinar, patroa?
Louca de raiva, Liv levantou-se de um salto,
empurrando a cadeira giratória para trás.
Encavaram-se como adversários prontos para a luta.
Nesse instante Laura entrou, aliviando a tensão
reinante.
— Bom dia. Haney mandou avisar que o café está
pronto.
Caraline quis esquivar-se, mas Jake estendeu-lhe a
mão.
— Vamos.
Ela não teve outro remédio senão segui-lo até a saia
de jantar.
Apesar da mesa farta e bem posta, a refeição não
transcorreu num clima de cordialidade. Jake pareceu
contrariado ao ver Steve ao lado da irmã e o homem,
por sua vez, mostrou-se pouco à vontade.
A hostilidade existente entre Jake e Liv era quase
palpável, embora eles fizessem o possível para
manter as aparências. Haney percebeu e
demonstrou seu aborrecimento. Aquela tensão
estava estragando todos os seus esforços de fazer da
refeição uma homenagem de boas-vindas a Jake.
— Vocês estão tão estranhos! — observou Laura Jane
de repente.
Todos olharam para a jovem, a única a alegrar-se
com a presença das pessoas que amava.
Liv foi a primeira a desculpar-se:
— Estamos preocupados com a saúde de seu pai.
— Mas Jake está aqui. Steve também. — Ela o fitou
com um olhar cheio de amor. — Vocês deviam estar
alegres.
Os demais ficaram envergonhados. Jake parou de
observar Steve com suspeita e de lançar olhares
desafiadores a Liv, que, por sua vez, procurou
amenizar a conversa, contando as últimas
novidades.
Quando terminaram de comer, Steve levantou-se,
agradeceu e fez menção de sair da sala.
— Espere um instante, Steve — disse Laura Jane. —
Eu vou com você.
— Temos de ir ao hospital — observou secamente
Jake.
— Mas eu quero ver a eguinha. Prometi a Steve. O
rapaz interveio:
— Seu pai vai ficar desapontado se você não for ao
hospital, Laura Jane. A eguinha não vai fugir.
Poderá vê-la quando quizer.
— Está bem, Steve — concordou ela com suavidade,
Assim que Steve saiu, Liv voltou-se para Jake:
— Vou me aprontar. E você, Laura Jane? Não quer
mudar de roupa?
— Claro.
As duas reapareceram alguns minutos mais tarde.
Jake estava esperando por elas na entrada, junto a
Haney, que segurava um buquê de rosas.
Haney vai no carro dela. Não quer lhe fazer
companhia, Laura Jane? Poderá levar as flores.
— Eu posso ir com Haney — ofereceu-se Liv, mais do
que depressa.
— Gostaria de falar com você, Liv — declarou ele,
num tom que não admitia recusas.
Tomando-a pelo braço, arrastou-a sem cerimônia
para o Lincoln, enquanto Haney e Laura Jane
acomodavam-se no outro
— Conseguiu falar com o médico? — perguntou-lhe
Liv para quebrar o silêncio cheio de tensão.
— Sim. Ele confirmou o diagnóstico.
— Ele... ele disse quando. ..
— A qualquer momento.
Voltaram a ficar silenciosos. Quando tomaram a via
expressa que levava à cidade, Jake perguntou:
— Quem é esse tal de Steve?
— Steve Bishop
Jake irritou-se.
— Não pode ser menos evasiva?
— Steve é um veterano da guerra do Vietnam.
— É por isso que ele manca? Ferimento de guerra?
Ele perdeu a perna esquerda do joelho para baixo,
Jake continuou a olhar para a frente, mas ela
percebeu que mãos crisparam-sc no volante. Seu
rosto parecia de granito e sua expressão traduzia
orgulho. Muito orgulho. Não devia gostar de Steve.
Liv tomou-lhe instintivamente a defesa.
— Steve era uma pessoa amarga e arrogante
quando começou a trabalhar para nós. Acredito que
essa atitude era uma espécie de defesa. Na verdade,
ele é consciencioso, honesto e trabalhador.
— Laura Jane está me parecendo amiga demais
dele.
— Será?
— Você duvida? Pois eu acho muito perigoso. Ela
não tem nada que ficar o tempo todo atrás de um
homem solteiro.
— Não vejo nada de mais. Ela também é solteira.
— É inocente sobre sexo. Completamente! Duvido
que saiba a diferença que existe entre um homem e
uma mulher e o porquê dessa diferença.
— Ora, Jake! Claro que ela sabe!
— Que seja. Mas ele não é homem para Laura Jane.
— Não concordo. Steve é bom e paciente. Seu
ferimento não é apenas físico. Ele sabe o que
significa ser rejeitado como Laura Jane sempre foi.
— Ele pode se aproveitar da ingenuidade dela.
— Não acredito.
Jake alterou-se.
— Como pode duvidar? Ele é um homem e ela uma
mulher muito bonita. Não faltarão oportunidades.
— Você fala com conhecimento de causa, não é
verdade? As palavras saíram-lhe impensadamente
da boca. Ele freou o carro c voltou-se para encará-la.
Estava tão raivoso quanto ela. Mas Liv não se deixou
intimidar. Agora que havia começado, iria até o fim.
— Você deve saber muito bem o que significa tirar
vantagem de uma moça inocente, mentir, fazer
promessas que não serão cumpridas.
— Você está se referindo àquele verão?
— E a que mais? Jamais entendi como você
conseguia ser carinhoso comigo enquanto
engravidava Marilyn. Quanta hipocrisia!
Insultaram-se, despejando toda a amargura e o
desencanto que os sufocavam. Por fim, Jake abriu a
porta do carro e bateu-a com força atrás de si. Foi só
então que Liv percebeu que tinham chegado e que
Hancy e Laura Jane já estavam na entrada do
hospital, esperando-os.
As mãos de Liv estavam geladas quando Jake
ajudou-a descer. Mas ela conseguiu apresentar uma
fisionomia calma, ao reunir-se aos demais.
A enfermeira de plantão no andar de Roscoe
informou-os que podiam entrar juntos, mas que não
demorassem.
O sr. Gyllenhaal não passou bem a noite. Queixou-se
de muítas dores.
é melhor eu ir na frente e avisá-lo que vocês estão
aqui— disse Liv.
Fodos concordaram. Jake mantinha uma atitude
distante e impenetrável e Haney estava
estranhamente silenciosa. Laura Jane parecia mais
perturbada do que nunca. Liv empurrou a porta e
entrou no apartamento de
Roscoe. Era a suíle mais luxuosa do hospital. Buques
e cestas de flores enchiam o vão das janelas e a
mesinha da televisão.
Embora ela detestasse admitir, seu marido inspirava
pouco afeto
Nas pessoas com quem convivia. Mas muitos o
reverenciavam
porque o temiam, o que era evidente pela
abundância de cartões e flores.
No entanto, a aparência de Roscoe não era nada
intimidante: tinha o jeito de um enfermo. A tez
possuía tom amarelado prenunciador da morte. A
boca estava aberta e os lábios, arroxeados. Apenas
os olhos continuavam escuros c penetrantes. Ela
inclinou-se para ele, tomou-lhe a mão e beijou-lhe a
testa. A enfermeira disse que você teve uma noite
difícil. Conseguiu descansar um pouco? Roscoe
puxou bruscamente a mão.
Por favor, Carolinc, poupe a sua piedade. Vou ter a
eternidade para descansar. — Ele riu roucamente. —
Ou para queimar no inferno. Você fez a folha de
pagamento?
Ela recuou, encarando com resignação a
agressividade de Roscoe. Ele estava gravemente
enfermo, merecia ser desculpad
— Já. Levarei os cheques ao pessoal esta tarde.
— Ótimo. Não quero que eles pensem que eu já
morri. — Pôs a mão no estômago e seu rosto
contorceu-se de dor. Quando ele superou a crise,
Liv perguntou com suavidade:
— Está com disposição para receber visitas?
—De quem?
— Laura Jane e Haney.
— Haney? Aquela maldita hipócrita? Ela me odeia
desde o primeiro instante em que me viu. Acha que
eu me casei com Marlene porque ela era rica e dona
do "Retiro". Acha que Jake foi embora por minha
causa. Parece até que eu sou o culpado de tudo o
que acontece de errado!
— Por que não a despediu, então?
— Gosto de discutir com ela, de atiçá-la. Posso jurar
que ela veio aqui para se alegrar com a minha
morte.
Liv estava tensa. Lamentava que ele estivesse
naquele estado de irritação nos seus últimos dias de
vida.
— Tenha calma, Roscoe. Haney lhe trouxe flores.
Resmungando, ele consentiu cm receber a
governanta.
— Mas Laura Jane não tem nada que fazer aqui. Vai
ficar ainda mais perturbada. Ela já sabe que não vou
voltar para casa?
— Sim, eu lhe contei.
— Qual foi a reaçào dela?
— Ela acha que você vai se encontrar com Marlene
no céu. Ele riu até que a dor o prostrou novamente.
— Só uma débil mental poderia dizer uma coisa
dessas. Liv ficou profundamente chocada, mas
conteve-se.
— Vou dizer aos outros que podem entrar. Está
bem? — Sim, sim. Acabe logo com isso!
— Há mais alguém, Roscoe.
Seu tom de voz cauteloso fez com que ele a fitasse
ansiosamente.
— Jake? Jake voltou? Ela confirmou com a cabeça.
Assim que recebeu o telefonema de Granger.
— Muito bem, muito bem. Quero ver meu filho e lhe
dizer umas coisas, antes que chegue o fim.
Liv respirou, aliviada. Era hora de pai e filho se
reconciliarem. Caminhou para a porta, tentando
ignorar o olhar penctrante de Roscoe seguindo-a por
toda parte.
Laura Jane foi a primeira a entrar. Correu para o pai,
passou os braços pelo pescoço e exclamou:
- Senti a sua falta, papai. Sabe de uma coisa?
Temos uma nova égua. Ela é linda!
Está bem, está bem, Laura Jane — disse ele
afastando-a com branda impaciência. Ao ver a
governanta parada à porta, resmungou:
— Parece que você acabou com as flores do meu
jardim. Haney não se deixava intimidar tão
facilmente.
Não se preocupe. Ainda sobraram algumas para
serem usadas mais tarde.
Roscoe apreciava suas respostas prontas e sua
coragem. Haviam se empenhado numa guerra fria
por mais de trinta anos e ele a considerava uma
adversária de respeito.
— Para o inferno com essas flores! Por que não
trouxe algo para comer?
— Ouvi dizer que está de dieta.
— Alguém pode me explicar que diferença isso vai
fazer? disse ele, aos berros.
Depois desse desabafo, voltou a cabeça
bruscamente c deu com os olhos do filho fixos nele.
Por um interminável momento, olharam-se sem se
falar, ambos imóveis. Por fim, o peito de Roscoe
sacudiu-se numa risada baixa e irônica. — Ainda
furioso comigo, Jake?
— Isso foi há muito tempo.
— Por que voltou? Para se reconciliar com o velho
que vai morrer ou por que está interessado no
testamento?
— Não quero um só níquel do que é seu.
Ao perceber o rumo da conversa, Haney dirigíu-se
para a porta.
— Vou levar Laura Jane para casa — anunciou
calmamente.
— Vamos, Laura Jane, despeça-se de seu pai. — A
jovem obedeceu, seguindo-a prontamente.
Ainda fitando o filho, Roseoe mal lhes notou a saída.
— Você está um belo homem, Jake — disse o velho,
depois de um exame atento. — Vigoroso e esperto. E
muito vivo, embora não dê para perceber naquelas
fotos que aparecem no jornal.
— Tive um bom mestre.
A mesma risada, baixa e irônica, ecoou novamente
pelo aposento.
— Sem dúvida que teve, filho, sem dúvida. É a única
maneira de subir nesse mundo. Seja tão manhoso
quanto o diabo e será respeitado. — Ele fez um gesto
de impaciência. — Sentem-se, vocês dois.
— Obrigado, eu prefiro ficar de pé — retrucou Jake.
Liv sentou-se. O tom irônico que Roseoe empregava
ao
falar com o filho chocava-a. Sabia que o antagonismo
que havia entre eles era forte, mas não a esse ponto.
Não era de admirar que Jake tivesse deixado o
"Retiro".
— Pelo que ouvi dizer, sua companhia aérea vai indo
muito bem — continuou Roseoe.
— Eu e meu sócio sempre pusemos muita fé na Air
Dixie
— comentou laconicamente Jake, sem demonstrar
nenhuma surpresa ao saber que o pai estava a par
de seus negócios.
Nesse instante, uma enfermeira entrou no quarto.
— Vamos aliviar essa dor, sr. Lancastcr.
— Enfie essa agulha em você mesma e me deixe em
paz!— gritou ele colericamente.
— Roscoe! — murmurou Liv, escandalizada com
tamanha vulgaridade.
— Ordens médicas, sr. Gyllenhaal — tornou a
enfermeira, imperturbável.
— Não me importo de quem sejam as ordens! A vida
é minha e não quero nenhum diabo de injeção para
aliviar a dor. Agora, suma!
— Roscoe, ela está apenas. . .
— Pelo amor de Deus, Liv! Pare de se intrometer. Se
o que tem para me dar é essa piedade estúpida,
não precisa vir aqui!
Humilhada com sua rudeza c sentindo lágrimas nos
olhos, Liv ergueu-se e deixou o quarto.
Assim que a porta se fechou atrás dela, Jake voltou-
se para o pai.
— Seu ordinário! — Os olhos dourados ardiam de
cólera mal reprimida. — Você não merece nada!
Tem a mais bela das mulheres e não sabe lhe dar
valor. Não tinha o direito de falar com Liv daquela
maneira!
Roseoe deu uma risadinha abafada, num tom tão
malévolo quanto a expressão estampada em seu
rosto.
— Tenho todo o direito do mundo! Ela é minha
mulher, lembra?
Jake contraiu os punhos e comprimiu fortemente os
lábios. Fervia de ódio. Um som profundo,
semelhante a um rugido, saiu de sua garganta, antes
que ele desse meia-volta e deixasse o quarto.
A princípio, ofuscado pela claridade do corredor, não
viu Carolinc. Depois avistou-a encostada na janela,
de costas para ele. Chegou por trás e tocou-lhe o
ombro.
— Você está bem?
Deus! Por que ele tem de perguntar isso nesse tom
de voz? pensou Liv. Certa vez, Jake já lhe fizera
aquela pergunta. O mesmo cuidado gentil, as
mesmas palavras proferidas na mesma inflexão de
voz, rouca e baixa.
Ela voltou-se lentamente, os olhos cheios de
lágrimas que podiam ser explicadas pela humilhação
que o marido lhe impusera. Mas não era esse o
motivo. Chorava de saudade.
Fitou-o intensamente e, olhos nos olhos, deixou que
a memória a conduzisse para um tempo distante,
para aquela noite.

Pela repentina claridade que se fez atrás, Liv


percebeu que um carro se aproximava e apressou o
passo. Não gostava de voltar para casa sozinha.
Podia esperar pelo pai, é claro, mas só Deus sabia
quando ele estaria disposto a isso. Além do mais, nas
condições em que de habitualmente se encontrava,
sua companhia não seria de ajuda nenhuma.
Liv quase morrera de vergonha naquela tarde,
quando Jake Gyllenhaal soube que ela era filha do
bêbado da cidade. Provavelmente também conhecia
o fato de que sua mãe trabalhava numa lavanderia
paia sustentar a casa e vestir a filha.
Ela o reconhecera à primeira vista. Os Gyllenhaal
eram muito conhecidos, c era comum ver Jake passar
como uma bala no seu brilhante conversível, o vento
despenteando-lhe os cabelos. Em geral, o rádio
estava ligado a todo volume e havia uma garota ao
lado dele.
Jake sorria e acenava para todos os conhecidos,
incluindo os ajudantes do xerife, que fingiam não
perceber seu flagrante desrespeito à velocidade
permitida. Todos gostavam de Jake Lancaster, ás do
time de futebol, capitão do time de basquete,
herdeiro do "Retiro" e de uma das maiores
beneficiadoras de algodão das cidades da redondeza.
Naquela tarde, durante o expediente no
supermercado, era em Jake que Liv havia pensado.
Agora, apressava o passo para poder chegar em casa
mais cedo, deitar-se e pensar novamente nele e no
que lhe havia dito.
— Como vai, Liv?
O carro parou ao seu lado. Incrédula, ela fitou Jake,
que se inclinava sorridente, para lhe abrir a porta.
— Entre. Vou levar você para casa. Ela lançou um
olhar furtivo em volta.
— Não sei se devo. . .
— Ora, Liv! Deixe disso.
O coração batia-lhe com tanta força no peito que ela
não conseguia pronunciar uma só palavra.
— Vamos, não se faça de rogada — insistiu elc,
esboçando um sorriso irresistível.
Vencida, ela sentou-se timidamente no assento de
couro macio.
— Gosta de milk-shake de chocolate?
— Sim, gosto.
- Passei no Daisy Mart e trouxe um para você.
— Sirva-se. Jake indicou um copo com um canudinho
espetado que estava sobre o painel do carro.
- Obrigada — disse ela timidamente, sugando o
líquido pelo canudinho. Liv sorriu de prazer ao sentir
aquele geladinho delicioso.
Jake sorriu também. O rádio não estava ligado e a
capota não estava abaixada. Decerto porque não
queria que ninguém tivesse em sua companhia. Ela
entendia e não se importava. Ele viera e trouxera um
milk-shake de chocolate. Era o suficiente.
- Como foi o seu dia de trabalho?
— Foi bom. Vendi um aparelho de jantar. —
Verdade?
— Mas os pratos eram tão feios! Não gostaria de ter
de
comer neles. Ele riu.
— Então, não pretende continuar nesse trabalho
pelo resto
da vida?
— Não mesmo.
— O que gostaria de fazer?
"Cursar uma faculdade", pensou ela com a ânsia dos
desesperados.
- Não sei. Gosto de matemática. Fui a primeira da
turma durante dois anos seguidos.
Sentia necessidade de impressioná-lo, de dizer-lhe
algo inteligente, porque sabia que, para ela, aquela
noite seria inesquecível.
Liv Tyler passeando de carro ao lado de Jake
Gyllenhaal!
Não entendia por que ele a procurara. Podia ter as
garotas
mais bonitas da cidade, garotas que usavam roupas
bonitas, fre-
quentavam o clube e tinham pais importantes.
- Matemática, hein? Quem diria!
- Você esta na faculdade?
— Estava, faz dois meses que terminei o curso.
— E gostava?
— Claro! Foi um tempo ótimo.
— Formou-se em quê?
— Engenharia.
— Vai poder utilizar os seus conhecimentos na
beneficiadora?
— Éo que eu espero.
Ao vê-lo tomar o caminho de sua casa, Liv inquietou-
se.
— Não precisa me acompanhar até em casa.
— Está escuro como breu.
— Não tenho medo. Pare, por favor.
Não queria que sua mãe a visse com ele, caso
contrário teria de dar explicações. Aquele havia sido
um dia muito especial, não queria compartilhá-lo
com ninguém.
Jake parou o carro com uma freada brusca. Apagou
os faróis e abaixou a capota. Tudo em volta era
silêncio. A lua banhava-os de prata e uma brisa
suave agitava-lhes os cabelos. Ele passou o braço
pelos ombros de Liv e voltou-lhe gentilmente o rosto,
obrigando-a a fitá-lo. Ela sentia o aroma da colônia
que ele usava e podia notar a sombra azulada que
lhe escurecia o queixo. Não era um rapazola, era um
homem feito. Ela nunca havia marcado encontro com
rapazes, nunca ficara sozinha com um homem. Sem
saber o que fazer, continuou a tomar o milk-shake,
percebendo que ele olhava intencionalmente para a
sua boca.
— Gostou do milk-shake?
— Sim, obrigada.
Liv sentia os olhos dele deslizando por seu rosto, seu
busto, e isso a deixava trêmula e fraca. Um calor
inesperado, desconhecido c delicioso, inundou-lhe o
corpo. Ele pôs-se a contornar os lábios dela com o
dedo e, de repente, Liv não conseguiu mais respirar.
— Você é muito bonita.
— Obrigada.
— Quantos anos você tem?
— Quinze.
— Quinze.. . — murmurou ele quase que consigo
mesmo. — Sabe, pensei em você o dia todo.
— Verdade?
— Verdade. Não conseguia pensar em outra coisa.
— Eu também pensei em você.
— Que foi que pensou?
Ela enrubesceu e baixou os olhos.
— Coisas.. .
— Que coisas? — Jake sorriu. — Você pensou em. . .
pensou em nós dois juntos? Talvez nos abraçando?
— Como assim?
- Trocando um beijo... Liv entreabriu os lábios, mas
nenhum som saiu de sua garganta.
— Você já foi beijada?
— Algumas vezes — mentiu ela.
— Mas é tão jovem! Não vai se assustar, se eu
quiser beijá-la?
— Não tenho medo de você, Jake, Tem certeza?
Acho.. . acho que gostaria que me beijasse.
— Liv. . . — murmurou ele, apertando-a de encontro
ao peito.
Ela fechou os olhos. Sentiu os lábios dele, ainda
hesitantes, tocarem gentilmente os seus, em beijos
leves e delicados que lhe provocavam uma emoção
nova, um desejo desconhecido e arrebatador.
Depois, com muita ternura, Jake tomou-lhe o rosto
entre as mãos e pressionou a boca sobre a dela,
forçando os lábios de Liv a se entreabrirem para
introduzir-lhe a língua,
Chocada, ela arregalou os olhos. Mas o prazer que
aquilo lhe provocava venceu qualquer resistência.
Quando Jake a rodeou com os braços, Liv apertou-se
de encontro ao seu peito. Um turbilhão de emoções
desconhecidas agitava-lhe o corpo. Queria tocá-lo,
senti-lo. Mal podia controlar-se.
Mas ele beijou-a mais uma vez com ternura e
depois afastou-
se, soltando um suspiro. Ela permanecia de olhos
fechados, uma lassidão invadindo-lhe todo o corpo.
— Você está bem? — perguntou Jake, ansioso.
Agora, no frio corredor do hospital, Liv deu-lhe a
mesma resposta que naquela noite quente de verão
de doze anos atrás, depois de seu primeiro beijo.
— Sim, Jake. Estou bem.
Também Jake parecia estar revivendo o passado,
porque a fitou durante um longo tempo e depois
afastou-se bruscamente, dizendo:
— Vamos andando, Liv.
CAPITULO IV

— A eguinha é tão bonita!


— Você também, Laura Jane.
A jovem afagou o pescoço do animal, erguendo os
inocentes olhos escuros para Steve,
— Você acha mesmo?
Sua expressão ansiosa deixou-o constrangido. Steve
não podia exprimir seus pensamentos em voz alta:
ela era vulnerável, tomava tudo ao pé da letra. E era
tão sensível e frágil que se magoava com facilidade.
— Você é muito bonita — confirmou, levantando-se
e saindo da baia.
Seria melhor que não ficassem sempre assim tão
perto. Laura Jane não tinha ideia do que aquela
proximidade significava. Seu perfume, a quente
suavidade de sua pele acetinada embriagavam os
sentidos de Steve. Se ela soubesse as emoções que
lhe provocava, teria ficado chocada.
Pegou uma sela na seção de ferramentas. Jake tinha
dito que iria montar no dia seguinte c Steve queria
que tudo estivesse em perfeita ordem. Adivinhava o
motivo da antipatia que o outro lhe manifestava. Jake
não era cego nem insensível; devia reconhecer
alguém torturado pelo desejo. E Steve sabia que o
seu desejo por Laura Jaue era tão evidente quanto
um anúncio de neon em noite escura.
Não condenava Jake por suspeitar dele. Laura
Jane era alguem que exigia um cuidado muito
especial. Se Steve a tivesse sob sua protcção, seria
tão cuidadoso quanto o irmão. Mas não podia deixar
de amá-la. Não estivera à procura do pior, não
esperara amar ninguém. Agora, porém, amava,
Laura Jane tornara-se parte integrante do seu
mundo. Viam-se diariamente; quando se separavam,
ele ficava esperando com ansiedade pelo dia
seguinte.
Agora, enquanto Steve lavava a sela, Laura Jane
estava novamente a seu lado, tão próxima que, toda
vez que movia os braços, ele quase podia tocar-lhe
os seios com o cotovelo. Profundamcnte perturbado,
entregou-se à tarefa com redobrado ardor e
tentou não pensar na maciez dos seios dela, nem na
brancura de seu colo.
Vagamente desapontada por vê-lo tão calado, Laura
Jane seguia-o por toda parte.
— Sua perna está doendo? Sem olhá-la, Steve
respondeu:
- Não. Por quê?
—Você está tão sério! Está franzindo as sobrancelhas
do mesmo modo que quando sente dor na perna.
— Estou cheio de coisas para fazer, Laura Jane. Ela
se aproximou implorando:
— Deixe-me ajudá-lo, Steve.
Ele arranjou uma desculpa e afastou-se. O sangue
fervia-lhe nas veias. Ela era tão doce, tão doce. . .
Mas as emoções que lhe provocava não eram nada
suaves. Sentia-se como um selvagem proibido de
tocar a virgem destinada ao sacrifício.
- Não, não precisa me ajudar. Vou terminar isto
num minuto.
— Você me acha uma boba, não é mesmo? Como
todo mundo!
— Nada disso!
Ele percebeu a mágoa que havia nos olhos escuros
de Laura Jane.
— Todos acham que sou estúpida e desajeitada!
— Laura Jane — murmurou Steve, sentindo-se
terrivelmente culpado. — Eu não quis dizer isso.
— Por que não me deixa ajudá-lo, então?
— Porque é um trabalho sujo e não quero que
estrague as suas mãos.
Como uma criança que precisa confiar em alguém,
Laura Jane ergueu o rosto para ele.
— É o único motivo? Jure!
— Juro.
Steve segurou-a pelos ombros e examinou-lhe o
lindo rosto, que irradiava felicidade. Laura Jane
parecia um anjo, embora a chama que brilhava em
seus olhos não tivesse nada de angelical. Se não a
conhecesse bem, ele diria que aquela chama tinha
uma origem terrena.
— Sei que não sou muito inteligente — tornou ela. —
Mas sou esperta.
— Claro que é!
Deus! Os lábios rosados eram macios e suaves, ele
morria de vontade de experimentá-los. O que não
daria para apertá-la nos braços, sentir aquele lindo
corpo delicado de encontro ao seu!
— Percebo muitas coisas —- continuou Laura Jane.
—- Por exemplo: sei que Jake não é feliz. Ele tenta
parecer alegre, mas os seus olhos estão tristes. Ele e
Liv não simpatizam um com o outro. Você notou?
— Notei.
— Gostaria de saber o motivo. —- O lindo rosto
vincou-se de preocupação. — Ou será que gostam
muito um do outro e não querem que os outros
saibam?
Steve sorriu diante da agudeza daquela observação.
Ele havia Chegado à mesma conclusão. Jake e Liv
pareciam dois adversários prontos para a luta... ou
para o amor.
Acho que tem razão — observou, dando uma
risadinha. Ela sorriu também c aproximou-se mais.
Você me julga esperta e bonita?
— Você é linda!
— Você também é bonito — afirmou Laura Jane,
passando dedos de porcelana pelo rosto dele.
A sensação que aquela carícia provocou em Steve
foi indescritível. Sentiu a pele arrepiar-se e o sangue
explodir nas veias.
Rígido e tenso, baixou a cabeça, como que
envergonhado de não poder corresponder àquela
efusão. Depois de alguns momentos, murmurou com
involuntária rudeza:
— Não faça isso!
Laura Jane encolheu-se toda, dominada por um leve
tremor.
— Oh, meu Deus! Sinto muito, Laura Jane. Sinto de
verdade!
Ele estendeu a mão para confortá-la, mas não
conseguiu. Ela havia escondido o rosto entre as mãos
e soluçava baixinho.
— Não chore, por favor!
— Sou muito má!
— Laura Jane! — Ele jamais experimentara um
remorso tão grande.
Sentia-se culpado por não tocá-la, mas não tinha
coragem. Seria loucura declarar seu afeto a Laura
Jane: Jake o mataria! No entanto, não tinha o direito
de magoá-la daquele modo, de vê-la sentir-se
rejeitada e infeliz.
— Você é linda — murmurou roucamente. — Você é
tudo o que as outras mulheres gostariam de ser.
— Não, não sou — Laura Jane ergueu o rosto cheio
de lá-mas. — Sempre amei Jake e pensava que, se
ele voltasse para casa tudo ficaria bem. Acreditava
que ele fosse o homem mais forte e mais lindo do
mundo. Ela fez uma pausa e umedeceu os lábios
com a língua.
— Mas, agora que ele está aqui, percebi que é você o
homem lindo que eu conheço. — Os pequenos seios
arfaram sob a fina blusa de verão. — Steve, eu amo
você mais do que amo Jake!
Antes que Steve pudesse recuperar-se da surpresa,
Laura Jane se jogou nos braços dele, beijou-o
suavemente e saiu correndo.
O peito dele batia como um tambor. Sentia-se, ao
mesmo tempo, no céu e no inferno. Que é que podia
fazer?
Nada. Absolutamente nada!
Apagou as luzes e dirigiu-se para o pequeno
apartamento situado atrás das estrebarias. Deixou-
se cair na cama e cobriu o rosto com o braço. A
última vez que se sentira tão desesperado assim fora
no dia cm que, ao acordar no hospital militar,
soubera que havia perdido metade da perna.

— Oh. . . sinto muito, Jake. Não percebi que você


estava aí.
— Tudo bem — disse ele, saindo das sombras. — A
casa é sua.
Liv fechou a porta atrás de si e sentou no sofá de
vime. Respirou fundo o ar frio da noite e fechou os
olhos, cansada.
— Esta não é minha casa, Jake. Sou apenas uma
hóspede temporária. Permanecerei aqui só até
quando seu pai. . .
— Quando meu pai morrer.
— É isso mesmo.
Ele não soube o que dizer e mudou de assunto. —
Vai ao hospital?
— Não. Acabei de telefonar. Conseguiram convencer
Roscoe a tomar os sedativos. Ele está dormindo.
Acho que sou mais útil aqui,, tomando conta da
fábrica.
— Meu pai vai armar um escândalo, quando acordar
e perceber que passou o dia dormindo.
— E bem possível.
— Ele é sempre muito rude com você?
— De jeito nenhum! Não sei o que deu em Roscoe,
hoje.
— Teve, sorte — observou amargamente Jake. —Ele
maltratava constantemente minha mãe, embora não
tivesse motivo. — Bateu no braço da poltrona com o
punho fechado. — Sujeitava-a aos seus caprichos,
fazia-a chorar. Ela sofria era silêncio
Eu o odiava por isso e havia dias que tinha vontade
de dar-lhe um soco no queixo. Maltratar a mulher
que lhe havia dado tudo o que possuía. Tudo!
Quase envergonhado de ter demonstrado tanta
emoção, Jake procurou dominar-se.
— Quer que eu lhe prepare um drinque?
— Não, obrigada.
— Desculpe, esqueci que você não bebe. Ela
esboçou um sorriso.
— A filha de Pete Tyler não poderia beber.
— Vamos esquecer o drinque.
— Não, por favor! Você é diferente.
Era um comentário muito pessoal, c Liv teve receio
de que ele a houvesse interpretado mal. Os olhos
dourados fítaram os dela, mas desviaram-sc logo em
seguida.
— Soube que seu pai morreu — comentou Jake,
rompendo & silêncio. — Foi achado certa manhã na
beira da estrada. Morto. O médico legista disse que
ele sofreu um ataque cardíaco. Resultado da bebida,
sem dúvida.
— E sua mãe?
— Morreu faz alguns anos. Velha aos cinquenta
anos. Acho que morreu de exaustão e desespero.
Jake foi sentar-se no primeiro degrau da escada,
quase aos pés dela.
— Diga-me, Liv. O que aconteceu com você naquele
verão, depois que eu deixei a cidade?
Ela estava com vontade de colar o rosto no dele, com
a mesma ternura de outrora. Queria mergulhar os
dedos nos espessos cabelos negros. A vigorosa
masculinidade de Jake era tão evidente que lhe
perturbava os sentidos.
Terminei o segundo ciclo e ganhei uma bolsa de
estudos para cursar a faculdade.
— Uma bolsa de estudos? Com quem conseguiu?
— Não sei.
Ele olhou-a com incredulidade.
— Não sabe?
Ela sacudiu a cabeça.
— Certo dia, fui chamada à sala da diretoria.
Faltavam poucos dias para a colação de grau. Ela me
informou que havia uma bolsa de estudos à minha
disposição e que o doador queria ficar no anonimato.
A quantia era generosa, dava até mesmo para
guardar cinquenta dólares por mês para as pequenas
despesas. Até hoje não sei quem é essa pessoa.
"Bom Deus!", pensou Jake. Haney escrevera-lhe
certa vez, contando que a pequena Tyler estava
cursando a faculdade e que todos se perguntavam
como ela havia conseguido isso. Muito tempo depois,
recebera outra carta em que Laura Jane lhe escrevia
textualmente: "Papai me contou que uma garota
chamada Liv Tyler casou-se com um colega de
faculdade. A garota é daqui de Winstonville e papai
acha que você deve conhecê-la".
— Depois que terminei a faculdade, voltei para cá —
continuou Liv.
— Então o seu casamento não durou muito.
Ela caiu das nuvens.
— Que casamento?
— Você não havia se casado com um colega de
faculdade?
Carolinc o fitou como se ele tivesse perdido o juízo.
— Não sei do que está falando, Jake. Nunca casei
com nenhum colega de turma. Para fazer jus à bolsa,
eu tinha de obter uma boa média, precisava estudar
muito. De onde você foi tirar essa ídéia de que eu
havia me casado?
Jake não sabia o que pensar. Laura Jane se
enganara? Não era possível. Sua irmã nem conhecia
Liv até ela começar a trabalhar para Roscoe.
Roscoe!
Uma terrível suspeita insinuou-se em sua mente. Seu
pai armara um plano diabólico! Mas, qual o motivo?
— Quem lhe contou isso estava enganado — disse
ela. —Casei-me apenas com. . .
— Com meu pai — completou ele.
Depois de um silêncio perturbador, Liv formulou a
pergunta que lhe estava presa na garganta havia
anos.
— O que aconteceu entre você e Marilyn?
— A terceira guerra mundial! — exclamou Jake,
dando uma risada. — Nosso casamento terminou
antes mesmo de começar, ela não queria a criança.
Serviu-se dela para me amarrar. Depois que ela
nasceu, uma menina que chamamos de Alyssa,
resolvemos entrar com o pedido de divórcio.
— Encontrou-se com Alyssa depois que voltou a
Winstonville?
— Não.
Sua expressão impassível e o tom gélido de sua voz
indicavam que-aquele assunto estava encerrado. Liv
ficou chocada ao perceber que ele não devia amar a
filha, sua única filha. Como podia ser tão insensível?
Depois que o divórcio foi concedido, e isso levou
anos, comecei a me dedicar à minha companhia de
aviação de corpo e alma.
— Pelo que ouvi dizer, saiu-se muito bem. -— A voz
dela sincera, Jake esboçou um sorriso amargo.
— Trabalhei feito louco. Queria ocupar a minha
mente e conservá-la longe. . . de certas coisas.
— Que coisas? Sua casa? Sua família?
Ele a fitou com olhos duros e penetrantes.
— Sim — respondeu secamente, enquanto se
levantava e se encostava numa das colunas da
entrada. — O "Retiro", Laura Jane. . . meu pai.
Wínstonvillc é minha cidade natal. Não pretendia
deixa-la.
— Você construiu uma nova vida em Atlanta.
— É. . . — murmurou Jake ironicamente. Sua casa de
Atlanta parecia nova demais, muito pretensiosa,
tinha estilo, não lhe parecia um lar verdadeiro. Suas
festas por demais cosmopolitas. Quanto às mulheres.
. eram futeis, não tinham classe.
A vida que ele levava mais parecia uma pantomima.
Estava contente com o sucesso da Air Dixie, é claro.
Tinha orgulho de sua companhia de aviação.
Empregara anos de trabalho duro para vê-la ter
sucesso.
Mas o sucesso não lhe subira à cabeça. Suas raízes
estavam ali, naquela cidade, naquele rico pedaço de
terra, naquela casa. Outro tipo qualquer de vida lhe
parecia insatisfatório. Jamais perdoaria seu pai por
tê-lo afastado daquilo tudo. Jamais.
— Por que se casou com ele?
Liv quase recuou diante da fúria que havia na voz
dele.
— Não quero discutir a minha vida particular com
você, Jake.
— Não pretendo invadir a sua privacidade. Quero
apenas saber por que se casou com meu pai. Ele
podia ser seu avô, meu Deus! — Jake se inclinou para
ela e sacudiu-a fortemente pelos ombros. — Por quê?
Por que voltou para cá depois que terminou a
faculdade? Não havia nada que a prendesse a esta
cidade!
— Minha mãe ainda vivia. Voltei, arranjei um
emprego no banco e depois de alguns meses tinha
conseguido o suficiente para tirá-la do pardieiro onde
morava. Fiquei conhecendo o seu pai no banco. Ele
foi muito bom para mim. Quando me convidou para
trabalhar na Beneficiadora, aceitei. Ele dobrou o meu
salário e assim pude oferecer um certo conforto à
minha mãe.
A respiração de Jake era ofegante. Seus cabelos
escuros caíam-lhe desordenadamente pela testa. A
camisa entreaberta punha à mostra o seu peito
musculoso. Ele era másculo, charmoso, viril. .. e
perigoso. Carolinc fechou os olhos para resistir
àquele apelo tentador e prosseguiu:
— Depois de um certo tempo, comecei a frequentar
o "Retiro", passando a trabalhar no escritório
particular de seu pai.
— Você gostou disso, é claro! Quanta honra ser
convidada a frequentar o "Retiro"!
— E daí?—gritou ela, desesperada. — Você sabe que
eu sempre gostei daqui. Para a garota ingênua que
cortava caminho pelos bosques, esta casa parecia
um castelo encantado. Não nego isso Jake
— Continue a sua história fantástica —- incitou ele
com sarcasmo. — Não seria meu pai o príncipe
encantado?
— Eu não disse isso. Depois que mamãe morreu, eu
passava tempo aqui. Comecei a me aprofundar nos
negócios da Beneficiadora. Eu e Laura Jane ficamos
amigas e Roscoe encorajou essa amizade.
Ela umedeceu os lábios com a língua, antes de
continuar —- As coisas foram acontecendo aos
poucos. Parecia natural quc eu passasse muito
tempo aqui. Quando seu pai me pediu em
casamento, aceitei. Ele podia me oferecer tudo o que
eu sempre havia desejado.
— Um novo sobrenome.
— Sim.
— Roupas finas, dinheiro.
— Sim.
— Uma linda casa...
— -A casa que eu sempre amei! .
— E por tudo isso você se vendeu a meu pai!
— Num certo sentido, sim. — Ela se sentiu suja e
precisava justificar-se. — Queria ser a amiga que
Laura Jane necessitava. Queria ajudar seu pai.
— Quer dizer que os seus motivos foram puramente
altruístas?
— Não — confessou Liv, baixando os olhos. —
Queria morar no "Retiro". Queria o respeito que,
como esposa de Roscoe, todos me dariam. Sim,
queria tudo isso. Mas só alguém que, como eu,
tivesse vivido num pardieiro, que só vestisse roupas
usadas, que trabalhasse depois das aulas inclusive
aos domingos, e servisse de piada porque era a filha
do bêbado da cidade, poderia me entender. É isso aí,
Jake Gyllenhaal!
Liv deu-lhe as costas com raiva, pronta para afastar-
se, Jake a deteve com rudeza. Ela ainda procurou
esquivar-se, mas ele a puxou para si. Estavam
ambos ofegantes, como se tivessem acabado de
realizar uma longa corrida. Ela não se atrevia a fitá-
lo. Se o fizesse, não sabia do que seria capaz. Sentiu
o contato do corpo dele através da blusa fina e um
calor espalhou-se por suas coxas, deixando-a tão
fraca que mal podia sustentar-se em pé. .
Foi com dificuldade que conseguiu dizer:
— Por favor, Jake, solte-me.
Ele ignorou o pedido. Mergulhou o rosto no colo
branco de Liv e roçou os lábios sobre sua pele
acetinada. Tonta, ela tombou a cabeça para trás.
— Não sei por que te quero tanto, mesmo sabendo
que é a esposa de meu pai! — ele gritou.
Abraçou-a então com tanta força que ela mal podia
respirar.
— Você me deixa louco! — disse, beijando-a com
redobrado furor. — Eu te quero, entendeu?
— Por favor, deixe-me.
Liv queria corresponder às carícias dele. Precisavam
tanto um do outro! Tinha milhões de coisas para lhe
dizer, para compensar os anos de solidão que ambos
haviam vivido. Por um breve e precioso momento,
quis esquecer tudo, exceto o milagre de estarem
juntos.
Mas era impossível. E a consciência daquela
impossibilidade fez com que ela redobrasse os
esforços para desvencilhar-se. Vencido, Jake recuou:
— Liv — chamou, enquanto ela corria para a porta.
— Desculpe, estou tornando as coisas difíceis para
você. Afinal, não tenho nenhum direito de
atormentá-la. O que você fez da sua vida não é da
minha conta.
Ela voltou-se e sorriu por entre as lágrimas que lhe
toldavam a visão.
— Não mesmo, Jake?
Sem esperar resposta, alcançou a porta de entrada e
subiu vagarosamente as escadas. Deitou-se ainda
vestida, sem forças sequer para se despir. Sentia-se
extremamente cansada. Jake lembrava-lhe o
passado, coisas que preferia esquecer.

— Oi!
— Que é que está fazendo aqui?
— Pescando. — Jake fez um gesto com a cabeça,
mostrando a vara de pescar. — Você chegou mais
cedo hoje.
Ela ficou vermelha de emoção e baixou os olhos.
Saíra de casa com meia hora de antecedência na
esperança de tornar a vê-lo. Preparara-se com mais
cuidado do que de costume: vestira suas melhores
roupas, escovara os cabelos até fazê-los brilhar
como mogno polido. Na noite anterior, depois que
ele a beijara, correra imediatamente para casa. Não
esperava vê-lo novamente. Mas ele estava ali,
parecendo tão confiante e bonito quanto um artista
de cinema. O short e a camiseta sem mangas
punham em evidência seus braços e pernas
musculosos.
Jake sorriu, os dentes muito brancos contrastando
com a tez , bronzeada.
— Trouxe alguns sanduíches de casa. Gosta de peito
de peru defumado?
— Não sei. Nunca comi peru defumado.
— Então, está na hora de experimentar — comentou
ele, estendendo uma toalha no gramado.
Conversaram enquanto comiam.
— Que gostoso este sanduíche, Jake!
Ele sorriu, satisfeito.
— Que bom que tenha gostado.
— Que é que você faz? Trabalha na fábrica de seu
pai?
— Ainda não, mas pretendo. Isto é, se entrarmos
num acordo, — Ao perceber-lhe o olhar interrogativo,
explicou: — Ele quer que tudo continue na mesma.
Eu, ao contrário, acho que deveríamos investir parte
dos lucros na modernização da fábrica.
Obteríamos um produto de melhor qualidade e
daríamos melhores condições de trabalho aos nossos
empregados.
— Pode ser que vocês cheguem a um acordo.
— É. . . pode ser. . . — disse ele com ar de dúvida,
passando-lhe um refrigerante. — Estou morrendo de
vontade de tomar unia cerveja gelada. Mas, se me
virem bebendo em companhia de uma garota como
você, não sei não. . .
Se fossem vistos junto.,, o que estariam bebendo
seria de
pouca importância diante dos aborrecimentos que
teriam de enfrentar. Ambos sabiam disso.
Depois que terminaram de comer, ela encostou-se
no tronco de uma árvore e passou os braços em
torno dos joelhos erguidos. Ele reclinou-se a seu lado
e observou-a. Uma brisa suave e morna agitava-lhe
os cabelos e seus olhos azuis estavam úmidos de
emoção. . — No que está pensando?
— Em sua mãe.
— Minha mãe? — Ele não pôde esconder a surpresa.
— Soube que ela morreu. Sinto muito, Jake. Ela era
muito simpática e distinta.
— Você a conhecia?
— De vista. Ela costumava fazer compras no
supermercado onde trabalho. Sempre a admirei.
— Mamãe era uma verdadeira dama.
— Era linda e elegante. Do que ela morreu? Ele ficou
sério de repente.
— De coração partido — murmurou, laconicamente.
Liv percebeu a profunda tristeza que havia nele e
teve
vontade de abraçá-lo, de passar-íhe as mãos pelos
cabelos.
—- Como alguém pode ficar de coração partido
morando numa casa tão bonita quanto a sua?
Jake mudou de assunto.
— Você gosta do "Retiro"?
— É a casa mais linda do mundo!
— Acha mesmo? Já a conhece por dentro?
— Oh, não. Mas, quando passo por ela, não me
canso de admirá-la. Daria qualquer coisa para morar
numa casa assim.
— Você me acha boba?
— Não. Eu também gosto muito do "Retiro". Algum
dia vou convidar você para conhecer a casa por
dentro.
Ambos sabiam que não era verdade e, por um
instante, ficaram constrangidos. Liv quebrou o
silêncio:
— Sua irmã é muito bonita. Eu a vi algumas vezes
com sua mãe.
— Ela se chama Laura Jane.
— Nunca a vi no colégio. Ela frequenta alguma
escola particular?
Rínk arrancou uma haste de grama e mordiscou-a.
— Sim, freqiienía uma escola para excepcionais. A
mente dela está se desenvolvendo muito
lentamente. Não aprende as coisas tão depressa
quanto as outras crianças.
Liv sentiu o rosto arder de vergonha.
— Sinto muito. . . Não pretendia. . .
— Tudo bem — disse ele, tomando-lhe a mão. —
Laura Jane é uma garota maravilhosa. Gosto muito
dela.
— Ela tem sorte de ter um irmão como você.
— Acha?
— Sim.
Ele apertou-lhe a mão e levou-a carinhosamente aos
lábios. Sua boca suave e quente provocou-lhe um
arrepio de prazer e uma sensação diferente nos
seios, cujos bicos se endureceram.
— Tenho de ir — disse ela, num sussurro quase
inaudível.
— Gostaria que não fosse — murmurou Jake em voz
baixa. — Gostaria que passasse o dia comigo,
conversando.
O coração dela batia desconsoladamente. Havia
tamanho zumbido em seus ouvidos que Liv mal pôde
ouvir a própria voz quando disse:
— Você deve ter muitos amigos com quem
conversar.
— São amigos que só sabem falar. Nenhum deles
sabe ouvir como você, Liv.
Os olhos dourados de Jake brilhavam. Ele sentou-se
lentamente, o rosto bem próximo ao dela. Abraçou-a.
Ela passou-lhe os braços em volta do pescoço e as
bocas se uniram. Ele beijou-a tão ternamente quanto
na noite anterior, mas a doce aceitação dela excitou-
o. Sua boca tornou-se ávida e exigente.
Liv sentiu a força dos músculos das coxas que a
apertavam e fechou os olhos. Era como se estivesse
flutuando no ar. Os lábios dele moviam-se sobre os
seus, abrindo caminho para língua. Mas dessa vez
ela já sabia. Aceitou-a com um gemido, enterrando
os dedos nos espessos cabelos escuros.
Jake afastou o corpo, ofegante.
— Liv, lute comigo, diga não! Não me deixe continuar
— murmurou, abrindo o decote da blusa dela e
insinuando a mão em seu interior. — Você é ainda
uma criança! Estamos brincando com fogo, doçura.
Não me deixe continuar, por favor.
Ao sentir a mão dele em seus seios, ela foi tomada
de incontrolável excitação. Acariciou-lhe o peito,
fazendo correr os dedos do estômago até as coxas.
Ele era forte e viril!
Mas Jake afastou-se de chofre e respirou fundo.
— Você me deixa louco, Liv, mas não podemos
continuar. Se não pararmos já, as coisas fugirão do
nosso controle. Sabe do que estou falando, não
sabe?
Liv fez que sim com a cabeça, desejando que Jake a
tomasse novamente nos braços e que lhe tocasse o
corpo excitado. Soltando um suspiro, ele levantou-se,
ajudando-a a levantar-se também. Ela se apoiou
nele, com o corpo todo vibrando. Era tão bom!
Sentia-se aquecida, confortável, segura.
— Vai perder a hora — murmurou ele em seu
ouvido. Ela levantou automaticamente a cabeça.
— Oh, meu Deus! Que horas são?
— Ainda está em tempo. Vá depressa! -— Até logo.
Ela deu-lhe as costas, mas ele a deteve pelo braço.
—- Não posso ir buscá-la hoje à noite. Desculpe.
—-Não tem importância, Jake.
— Pretendia ir, mas tenho um compromisso
importante. Não vai se incomodar?
— Tudo bem. Não se preocupe. Obrigada pelo
sanduíche. Ele ficou como que paralisado, quando a
viu partir.
— Liv! — chamou. Ela parou e voltou-se.
— Que foi? -
— Amanhã, aqui neste mesmo lugar. Está bem? O
sol inundava-lhe o rosto radiante de felicidade.
— Sim — gritou, rindo. — Sim. . . sim...
Haviam se encontrado no dia seguinte e nos que
vieram depois, durante algumas semanas. Quando
ele podia, ia encontrá-la no caminho de volta para
casa.
Liv rolou na cama e fitou a lua que brilhava entre os
ramos dos carvalhos do bosque. Que dias cheios de
felicidade haviam sido aqueles! Ela vivia num
contínuo êxtase, saboreando os beijos de Jake e
ansiando por algo mais.
Ele fazia planos para um futuro ao lado dela e ela,
por sua vez, confiava-lhe seus mais íntimos
segredos. Comunicavam-se como ninguém. As horas
que costumavam passar juntos, no começo da tarde,
eram sempre iluminadas pelo dourado sol de verão,
Mas, um dia, o mais glorioso de todos, choveu.
Soluços sacudiram o peito de Liv, enquanto as
lágrimas lhe inundavam o rosto. Pediu perdão a
Deus, mas não acreditava que pudesse ser
absolvida. Porque queria chorar por Roscoe, seu
marido, mas as lágrimas que derramava eram por
Jake, seu amor.

CAPITULO V

Liv levantou-se mais tarde do que de costume.


Vestiu o robe e desceu para tomar uma xícara de
café. Encontrou Haney na cozinha, cantarolando
enquanto lavava os pratos.
— Bom dia, Haney. Você está alegre! Que
aconteceu?
— Ah, hoje sim, Jake alimentou-se muito bem.
Liv sorriu. Achava incrível aquela preocupação de
Haney. Para ela, Jake não passava de um garotinho
de quatro anos.
— Ele saiu?
— Está no pátio.
Liv serviu-se de uma xícara de café fumegante e
apro-
ximou-se da porta dos fundos. Deu uma espiada e
viu Jake conversando com Steve. A seu lado estava
um dos melhores cavalos que os Gyllenhaal
possuíam.
Ela víu Jake pôr o pé no estribo e, com graça felina,
acomodar-se na sela. O garanhão ergueu
altivamente a cabeça, respondendo imediatamente
ao comando quando Jake tomou as rédeas com
firmeza. Saíram em galope disparado e atravessaram
a campina, rumando para a velha trilha que levava
aos bosques.
Os escuros cabelos de Jake brilhavam à luz da
manhã. Os músculos das suas coxas e das cosias
estavam retesados no esforço de obrigar o animal a
saltar os obstáculos. Liv ficou olhando até que o
homem e sua montaria perderam-se de vista entre
as árvores.
De repente, teve a impressão de que havia alguém a
seu lado. Voltou-se prontamente. Haney estava
olhando para ela com curiosidade. Liv sentiu o rosto
arder e apertou nervosamente o cinto do robe.
— Tenho que dar vários telefonemas, Haney. Se
precisar de mim, procure-me no escritório —
murmurou, antes de sair da cozinha.
"Preciso ser mais cuidadosa", pensou. "Ninguém
pode suspeitar do que houve entre mim e Jake."
Quando telefonou ao hospital, a enfermeira de
plantão disse-lhe que não havia novidades.
— Ele continua dormindo, sra. Gyllenhaal. Acordou
uma vez durante a noite, mas nós lhe aplicamos
outro sedativo.
Depois de agradecer, ela telefonou para Granger.
— Não quero que me julgue mal, Granger. Não
pretendo me intrometer nos assuntos privados de
Roscoe, mas gostaria de saber como estão, certas
coisas.
— Nunca fiz mau juízo de você, Liv. Acho que é
direito seu se preocupar.
— Não estou preocupada por mim. Quero ter certeza
de que os interesses de Laura Jane sejam
preservados. E os de Jake também, é claro.
O advogado guardou silêncio e Liv percebeu que sua
discrição profissional o impedia de fazer
comentários.
— Não sei quais são as intenções de Roscoe — disse
ele por fim. — Juro que não sei. Ele fez um novo
testamento alguns anos atrás. Estou certo de que
você não foi esquecida. Para ser sincero, acho que
não haverá nenhuma surpresa.
Liv esperava ardentemente que as suposições de
Granger fossem corretas, mas a incerteza deixava-a
ansiosa. Depois de discutirem alguns assuntos de
menor importância, ela desligou. O telefone começou
a tocar no mesmo instante.
— Sra. Gyllenhaal?
Pelo barulho, ela percebeu que era uma chamada da
Beneficiadora.
— Sim?
— Aqui é Barnes. Lembra-se da descaroçadeira que
estava apresentando problemas? Hoje de manhã a
máquina começou a fazer um ruído estranho e nós a
desligamos.
Liv gelou. Era um problema sério, justo agora que a
época da colheita de algodão estava próxima! A
descaroçadeira separava o algodão das sementes e
era necessário contar com todas as máquinas, no
pico da estação. Caso contrário, boa parte da
produção estaria perdida.
— Estarei aí num minuto!
Ela voou para o quarto e preparou-se em menos de
meia hora. Despediu-se apressadamente de Haney,
explicando-lhe o que estava acontecendo e correu
para a porta da frente. Jake estava acabando de
desmontar. Quando a viu, entregou as rédeas nas
mãos fortes de Steve e caminhou na direção dela.
— Para onde está indo com tanta pressa? Ao
hospital?
Por sua expressão preocupada, Liv percebeu que ele
estava pensando no pai. Apesar do antagonismo que
havia entre eles, Jake devia sofrer.
— Não é nada com seu pai. Acabei de telefonar para
o hospital e soube que Roscoe repousou bem esta
noite. Estou indo para a Benefidadora.
— Algum problema?
— Sim, com uma das máquinas.
— Coisa séria?
— Pode ser. O gerente teve de desligá-la.
Ela o viu franzir a testa com ar preocupado e,
obedecendo a um impulso incontrolável, pediu:
— Não quer ir comigo, Jake?
Ele a fitou com estranheza. Ela engoliu em seco mas
insistiu:
— Sei que é capaz, Jake. Se examinar a máquina,
poderá ver o que há de errado com ela. Confio no
seu julgamento. Por favor!
Jake permaneceu imóvel por tanto tempo que Liv
pensou que ele fosse recusar. Surpreendeu-se
quando o ouviu dizer:
— Vamos.
Correram para o carro e partiram imediatamente. Os
pneus rangeram quando enfrentaram uma curva
mais fechada, levantando uma nuvem de poeira.
— Vocês já tiveram problemas com essa máquina?
— perguntou Jake, conservando os olhos fixos na
estrada.
— Alguns.
— Recentemente?
— Sim.
Liv queria manter a conversação. Aquela
proximidade perturbava-lhe os sentidos. Do passeio
a cavalo, Jake trouxera consigo o aroma da manhã, o
cheiro do bosque, o perfume das flores que a brisa
carregava. A visão dele montado no puro sangue
voltou-lhe a mente, lembrando-a de outra situação
semelhante.
Com surpreendente clareza, reviu o dia em que ele
chegara ao encontro marcado montando um animal
em pêlo. Ela recuara, ao se defrontar com o puro-
sangue. Jake havia achado graça de sua timidez e
insistira em levá-la na garupa.
Ele a acomodara com facilidade sobre o dorso do
belo garanhão. Podia sentir ainda agora a textura do
pêlo do animal sob as suas coxas nuas. Jake montara
atrás dela e puxara-a contra si. Seu corpo estava
quente e levemente úmido de suor. Apoiara-se nele,
encostando a cabeça no peito musculoso, percebera
o vigor das coxas firmes e a força dos braços quando
ele tomara as rédeas. Como agora, havia sentido,
então, o mesmo odor masculino mesclado ao cheiro
dos campos.
Não se lembrava muito bem da cavalgada através
dos bosques. Lembrava-se apenas das batidas de
seu coração e da mão dele pousada em seu seio.
Olhou as mãos que seguravam o volante. Bonitas.
Morenas, fortes, de dedos longos. Uma leve camada
de pêlos escuros cobria-lhes o dorso e os punhos.
— Deixe-me ajudá-la a descer — dissera ele naquele
dia, erguendo as mesmas mãos.
Ela havia passado a perna esquerda sobre o dorso do
animal e preparara-se para saltar, apoiando as mãos
nos ombros dele. Jake a segurara pela cintura e,
dando um impulso, ela havia deslizado lentamente
para o chão. Mas ele não a soltara de imediato,
Conservara-a em seus braços durante um longo
tempo e então aproximara o rosto, murmurando com
voz rouca:
— Liv. . . Liv. ..
Ela voltou a si com um sobressalto ao perceber que
aquela voz não fazia parte de seus devaneios, mas
da realidade.
— Que...?
A agitação dela era evidente. Seus olhos azuis
estavam arregalados com a lembrança do ardente
beijo que haviam trocado. Seu peito arfava
docemente do mesmo modo que então, quando ele
lhe tomara os seios entre as mãos, apertando-os até
excitá-la.
Jake olhou-a com estranheza.
— Perguntei onde você costuma estacionar o carro.
— Oh. . . Perto da porta. No lugar marcado.
Ele estacionou o carro na vaga destinada a ela e
desligou o motor do carro.
— Vamos?
Liv estava com pressa de escapar de suas memórias.
Abriu a porta do carro e quase caiu na ânsia de sair.
O ruído e a poeira do recinto lhe pareceram
agradavelmente familiares. Entrou ao lado de Jake e
levou-o para o escritório do pai.
No caminho, ele notou que pouca coisa havia
mudado. Muitos dos empregados ainda eram os
mesmos.
—- Barnes! — exclamou a um certo momento. —
Ainda aqui?
— Enquanto não me enterrarem. . . —-O homem
apertou a mão que Jake lhe estendia. — É bom ver
você novamente, rapaz.
Os demais empregados também o cumprimentaram
com entusiasmo. Jake lembrava o nome de muitos
deles e perguntou por seus familiares. Enquanto
vivesse, aquela era sua gente, parte de si mesmo,
tanto quanto o sangue quê lhe corria nas veias.
— Qual é o problema? — perguntou a Barnes,
caminhando na direção da máquina quebrada.
— Velhice — respondeu o gerente, inquieto. — Essas
máquinas vivem no conserto, Jake. Não sei se vão
aguentar muito tempo. Especialmente se este ano a
colheita for tão boa quanto esperamos. Teremos de
trabalhar dia e noite.
Jake recolheu algumas fibras de algodão que haviam
ficado presas à máquina e esfarelou-as entre os
dedos. Percebeu que havia pedacinhos de folhas e
de caules entre as fibras. Tanto Liv quanto Barnes
desviaram os olhos, quando ele os fitou com
expressão severa.
— De que qualidade é este algodão?
— Média — admitiu finalmente Liv, enquanto Barnes
permanecia em silêncio.
— A Beneficíadora Lancasier sempre obteve um
produto de boa qualidade — exclamou Jake. — Que
diabo está acontecendo?
— Vamos até o escritório — sugeriu cautelosamente
Caroline.
Ela voltou-se e prosseguiu, esperando que Jake a
seguisse sem fazer escândalos diante dos
empregados.
Já estava sentada à escrivaninha quando ele
transpôs o limiar e bateu a porta atrás de si, fazendo
tilintar os copos alinhados na prateleira.
— Este era um dos melhores pontos de
comercialização do Estado — começou ele, sem
preâmbulos.
— Ainda é.
— Com essa qualidade de algodão? Duvido! Por que
não podemos obter um produto melhor?
— Já lhe expliquei que tivemos problemas com o
equipamento. Tudo está. .
— Velho! — cortou ele. — Com os diabos! Por que
papai não deu um jeito?
— Ele acha que não há necessidade.
— Não há necessidade? Olhe isto aqui! Parece do
tempo das cavernas, comparado com as modernas
beneficiadoras! É um milagre que os plantadores não
tenham levado seu algodão a outras... — Ele
interrompeu-se repentinamente e seus olhos
estreitaram-se. — Ou será que estão levando?
— Sim, perdemos vários fornecedores — admitiu ela
com um suspiro.
Jake sentou-se na cadeira que estava diante da
escrivaninha e, inclinando-se para a frente, ordenou:
— Conte-me tudo!
— Alguns plantadores que dependiam da
Beneficiadora Gyllenhaal começaram a levar seu
algodão a outras beneficiadoras, pagando pelo
arrendamento das máquinas e depois vendendo o
produto diretamente aos comerciantes.
A expressão de Jake era impenetrável.
— Então, eles se recusaram a nos dar o trabalho de
beneficiar, embalar e comercializar?
Ela fez que sim com a cabeça e acrescentou:
— Eles acham que estão ganhando mais. A tabela
de pagamento da Gyllenhaal é baseada no produto
que sai das nossas máquinas, que é de qualidade
inferior.
— Então é isso!
Ele se levantou e caminhou até a janela que ficava
ao lado da escrivaninha. Enfiou as mãos nos bolsos e
pareceu absorver-se na contemplação da paisagem.
Mas Liv pressentiu a tempestade que se aproximava.
— Você sabia de tudo, não é mesmo? — Jake voltou-
se de repente, com ar acusador.
— Sabia.
— Mas não tomou nenhuma providência!
— Que é que eu podia fazer, Jake? Comecei como
contadora da firma. Não entendia nada do processo
de beneficiamento ou da comercialização do
produto. Fui aprendendo aos poucos, ouvindo,
estudando, falando com os empregados. Mas jamais
me intrometi nos negócios de seu pai.
— Mas você é a esposa dele! Será que isso não lhe
dava o direito de interferir? — Jake ergueu as
sobrancelhas, com ar de simulada culpa. — Ah, mas
eu ia esquecendo! As esposas de Roscoe Gyllenhaal
não costumam criticá-lo. São submissas e
obedientes, prontas a lhe proporcionar os confortos
maritais.
Aquela insinuação indignou-a. Ela ergueu o queixo
com orgulho.
— Já lhe disse e repito: não quero discutir o meu
relacionamento com Roscoe!
— E eu já lhe respondi que não estou nem um pouco
interessado!
Aquilo não era verdade, e ele ficou perturbado ao
percebê-lo. Liv, prudentemente, preferiu não desafiá-
lo.
— Se prefere me insultar, em lugar de ajudar, peço-
lhe que não perca o seu tempo.
— Não banque a ofendida. — As feições severas se
suavizaram levemente. — Vou ver o que posso fazer.
— Você acha que pode consertar a descaroçadeira?
— perguntou ela, esperançosa, pondo, de lado o
orgulho.
— Vou precisar de algumas ferramentas, mas acho
que posso dar um jeito. Já consertei motores de
avião, essa máquina não deve ser mais complicada.
Mas não se iluda, Liv. Esse conserto não irá resolver
o problema da firma.
— Eu já sei — murmurou ela, esboçando um sorriso
envergonhado. — Mas agradeço qualquer ajuda que
puder dar.
Jake contraiu fortemente os punhos para não ceder à
emoção que o dominava. Tinha vontade de tomá-la
nos braços, de protegê-la, acariciá-la, sentir-lhe o
corpo de encontro ao seu. Doido que era! Não sabia
que aquele corpo pertencia a seu pai? Às vezes
receava enlouquecer só de pensar nisso!
Não conseguia desprezá-la, embora tivesse vontade.
Pelo contrário, apesar de suas precauções, desejava-
a cada vez mais. Tinha medo de que mais dia menos
dia acontecesse algo irremediável. Era melhor que
fosse embora logo! Mas como? Deixar Laura Jane. . .
seu pai. . . e, sobretudo, deixar Liv depois de doze
anos de ausência? Não teria coragem!
— Você sabe onde me encontrar — disse ele, saindo
bruscamente da sala.
Enquanto o ouvia convocar os empregados para
obter as ferramentas necessárias, Liv resolveu
ocupar-se com a contabilidade. Uma hora depois, ela
saiu do escritório e foi encontrá-lo às voltas com a
máquina desmontada.
— Jake — chamou. — Vou ao hospital. Se quiser ir
para casa antes que eu volte, peça a algum dos
empregados que o leve.
Ele mostrou com um gesto as peças da máquina.
— Nem pensar. Isto aqui ainda vai demorar
bastante. Liv sorriu e ele pensou que ela fosse tocar-
lhe o braço.
Mas foi só impressão. Em vez disso, ela deixou o
recinto, murmurando um rápido até logo.
O hospital parecia silencioso e impessoal depois do
barulho e da confusão da fábrica. Roscoe estava
acordado, com os olhos grudados na televisão,
embora esta estivesse sem som. O coração de Liv se
apertou quando ela reparou nas agulhas ligadas aos
tubos de borracha, enterradas nos braços dele, e nos
monitores piscando, reproduzindo num gráfico seus
sinais vitais.
Ela sorriu corajosamente, já esquecida da cena do
dia anterior. Roscoe devia estar sofrendo dores
horríveis, e não pudera se controlar. Ela havia sido
apenas o bode expiatório da terrível frustração que
ele estava sentindo.
— Como vai, Roscoe? — Ela o beijou no rosto. —
Está se sentindo bem?
— Se eu tivesse que contar o que estou sentindo,
teria de empregar uma linguagem crua demais para
os ouvidos de uma moça — resmungou ele. — Você
esteve na Beneficiadora?
— Passei lá parte da manhã. Se não fosse isso, teria
vindo mais cedo. Uma das máquinas está dando
problemas.
— De que tipo?
— Ainda não sei. Jake está dando uma espiada.
— Com mil demônios! — rugiu Roscoe. — Que foi que
disse?
Liv estava lendo um dos cartões que acompanhavam
as flores. Quando ouviu aquela expressão
inesperada, ergueu a cabeça com um sobressalto. No
rosto duro e cheio de rugas, os olhos escuros de
Uoscoe faiscavam de ódio. Ela jamais o vira assim.
Seria a doença a causa daquela expressão tão feroz
e malévola?
— Responda-me, com os diabos! — tornou ele, aos
berros. — O que é que Jake está fazendo na
Beneficiadora? Pode me dar uma explicação
plausível?
Liv engoliu a indignação e gaguejou:
— Eu... eu pedi a Jake que desse uma olhada na
descaroçadeira quebrada. Ele é engenheiro e
pode. . .
— Foi você quem teve essa brilhante idéía? Não dá
para acreditar! — Ele fez um esforço frenético para
sentar-se. — Jake perdeu todos os direitos sobre a
fábrica quando resolveu ir embora, entendeu bem?
O queixo de Roscoe tremia, a boca estava retorcida,
os olhos pareciam querer saltar das órbitas. Liv
assustou-se.
— Por favor, Roscoe, acalme-se. Jake não pretende
reclamar nada.
— Eu o conheço, Ele vai começar a pôr defeito em
tudo e obrigá-la a gastar o meu dinheiro. — Apontou
o dedo para ela e disse com voz estridente: — Ouça
bem: não quero que gaste um só centavo com
aquela firma sem a minha aprovação!
Liv teve vontade de dar um tapa naquele dedo
impertinente.
— Eu nunca fiz isso, Roscoe.
— Jake não estava aqui.
— E de quem é a culpa?
A pergunta indiscreta ficou ecoando sinistramente
entre as paredes imaculadas do quarto. Espantada
com sua própria ousadia, temendo até respirar, ela
fitou o marido que, não obstante a fraqueza, parecia
tão ameaçador quanto um animal acuado.
Roscoe soltou uma gargalhada terrível e deixou cair
a cabeça sobre o travesseiro.
— O que foi que ele insinuou? Que eu o mandei
embora porque ele engravidou aquela assanhada da
filha de George?
Liv baixou os olhos para esconder as lágrimas.
— Não. Nós não tocamos nesse assunto.
— Então, vou explicar tudo direitinho, antes que
você tire conclusões precipitadas. Não mandei Jake
embora, nem o obriguei a ficar longe de casa
durante doze anos. Eu estava louco de raiva, mas
não porque ele engravidou a tal moça. — Roscoe deu
uma risadinha desagradável. — Eu já esperava algo
semelhante. Afinal, rapazes são rapazes. Querem
aproveitar o que recebem de mão beijada, não é
mesmo?
Aquelas palavras atingiram Liv com a força de uma
chicotada.
— Acho que sim — murmurou.
— Ah, acredite. Os rapazes são doidos para levar
uma garota para a cama. E se a garota der
confiança, então. . .
Liv fechou os olhos, com vontade de fugir de sua
própria vergonha. Mas Roscoe parecia movido por
um rancor implacável.
— Claro, ninguém gosta de cair na rede como Jake
caiu. Quando Frank George foi até lá em casa e disse
que meu filho havia engravidado a sua Marilyn, eu o
tranquilizei imediatamente. Afirmei que o obrigaria a
se casar com a filha dele.
— Era a solução mais honesta, não acha?
— Era,
— Mas aquele malandro do Jake não era da mesma
opinião, Essa foi a desgraça. Ele não, queria saber de
reparar o seu erro. Disse-me que, se eu o obrigasse a
isso, iria embora e não voltaria mais.
Ele suspirou fundo, como se aquela lembrança ainda
o machucasse.
— Mas eu tinha que fazer o que fiz, não é mesmo,
Liv? Tinha de obrigá-lo a se casar com aquela
maluquinha. Se depois disso ele resolvesse ir
embora, problema dele. Não tenha pena de Jake, Liv.
Ele preparou a sua própria cama e vai ficar deitado
nela pelo resto da vida.
Liv caminhou para a janela, reprimindo com todas as
forças a vontade de chorar. Quando conseguiu se
controlar,
voltou para o lado do marido, que estava de olhos
fechados,
como se dormisse. Ela fez menção de se afastar, mas
ele agar-
rou-a pelo pulso com inesperado vigor.
— Você ainda está se comportando como uma
mulher casada, não é, Liv?
Roscoe fitava-a com intensidade, como se quisesse
descobrir seus mais secretos pensamentos. Ela
tremeu de medo.
— Claro! O que é que está pensando?
— Vai se arrepender amargamente se não se
comportar como uma esposa aflita — disse ele,
aumentando a pressão dos dedos de aço.
— Por favor, Roscoe. Não fale de morte.
— Por que não? E um fato. Mas lembre-se bem:
enquanto eu estiver vivo, trate de agir como minha
esposa.
— Não se preocupe, não vou esquecer — afirmou
ela, tentando inutilmente se libertar.
— Nunca botei muita fé nas coisas de religião, mas
há algo em que acredito: a gente pode pecar mesmo
em pensamento. Não aprendeu isso na escola
dominical?
— Aprendi! — gritou ela, desesperada.
— Pensou em desobedecer a algum dos
mandamentos da lei de Deus?
— Não.
— Não pensou em cometer adultério?
— Não!
— Você é minha esposa.
— Eu sei!
— Lembre-se disso, então!
Ele afrouxou os dedos e caiu para trás, respirando
com dificuldade. Liv libertou a mão e saiu correndo
do quarto, em busca de socorro. Ao deparar com a
enfermeira de plantão, gritou:
— Meu marido... meu marido precisa de ajuda!
— Tomaremos conta dele, sra. Gyllenhaal —
respondeu carinhosamente a enfermeira. — A
senhora também não está com boa aparência. Vá
para casa e descanse um pouco.
Soltando um suspiro de resignação, ela murmurou:
— Sim, sim. É o que vou fazer.
Tremia da cabeça aos pés, seu coração batia forte.
Por que seu marido lhe causava tanto medo?
Granger estava saindo do elevador quando ela
chegou ao bali.
— Liv! O que aconteceu? Você está muito abatida.
— Nada, nada. Vou à Beneficiadora, estamos com
problemas. Mas não diga nada a Roscoe. Ele está
muito agitado.
— Posso ajudar em alguma coisa?
— Não, obrigada. Eu estou bem. Vá ver Roscoe, ele
precisa de você.
Quando as portas do elevador se fecharam, ela
cobriu a boca com a mão para abafar os soluços.
"Deus, Deus", pensava. "O que mais vai acontecer?"
Contudo, conseguiu dominar a aflição e atravessou o
saguão do hospital sem demonstrar o desespero que
a torturava. Chegando ao carro, procurou recobrar a
calma e abaixou o vidro da janela.
O trânsito estava livre e a brisa quente, carregada
com todos os perfumes do verão, varreu-lhe da
mente o medo de momen-
tos atrás. Sua imaginação andava funcionando
demais. Roscoe não podia saber nada do que havia
acontecido entre ela e Jake no passado. Ninguém os
vira, caso contrário os boatos teriam corrido soltos
pela cidadezinha. Não, Roscoe não devia saber. Se
soubesse, teria manifestado suas suspeitas há mais
tempo.
As insinuações e as ameaças veladas eram produtos
de sua imaginação e de sua consciência culpada.
Talvez as palavras duras de Roscoe não fossem
ameaças, afinal. Ela balançou a cabeça. Nâo, não se
enganara, eram ameaças. Mas por quê?
Com o que mais Roscoe poderia se ocupar? Não
tinha nada para fazer a não ser pensar, especular,
suspeitar. Tornara-se paranóico e desconfiado. Um
homem com a inteligência dele, condenado à
inatividade do leito, não teria outro remédio senão
deixar a mente trabalhar. Era a única coisa que lhe
restava para compensar o corpo devastado pela
doença.
Na mente perturbada do marido, a dor e a angústia
davam dimensões fantásticas às menores coisas,
fazendo de grãos de areia verdadeiras montanhas.
Roscoe tinha uma esposa trinta anos mais jovem que
ele e um filho viril, forte e bonito. Os dois seriam
obrigados a viver na mesma casa por algum tempo.
Ele somara esses fatos e acrescentava-lhes o
tempero da suspeita. Mas Roscoe estava enganado!
Ela não o desonrara! Contudo, num ponto ele estava
certo. Pensar em fazer amor com Jake constituía uma
falta grave.
Liv tinha era que banir Jake de seus pensamentos e
deixar que as memórias do passado fossem pouco a
pouco morrendo. Tinha de encarar as coisas sob uma
nova perspectiva; de agora em diante, o melhor era
esquecer tudo o que acontecera entre eles-
Quando chegou à Beneficiadora, o sol da tarde
refletia-se alegremente nas vidraças. Olhou em volta,
espantada. O loca] estava deserto. Liv foi encontrar
Jake deitado de costas sob a máquina, com uma
chave inglesa na mão. O ruído do metal ecoava tão
alto no ambiente vazio que ele não percebeu sua
chegada.
— Onde estão todos?
O barulho cessou. Jake pôs a cabeça para fora e
enxugou a testa úmida de suor com a manga da
camisa.
— Oi. Não vi você entrar. Tomei a liberdade de
mandar os empregados para casa uma hora antes do
fim do expediente. Eles não tinham nada para fazer
enquanto eu não pusesse este traste em
funcionamento. — Fez um gesto, mostrando o
interior da máquina. — Olhe só essa poeira de
algodão flutuando por todos os lados. Se houver um
curto-circuito, a situação pode ficar perigosa.
Liv tinha o dever de contar a Jake que seu pai o
queria longe dali, mas não disse nada. Durante o
caminho de volta, chegara à conclusão de que a
doença e a permanência forçada no hospital tinham
ditado as palavras duras de Roscoe. A idéia de fazer
algo que o marido não aprovasse a apavorava.
Contudo, se ele não soubesse de nada, não ficaria
magoado. Liv tinha que defender os interesses da
família, tomando decisões que favorecessem a
Beneficiadora Gyllenhaal.
Aproximou-se de Jake.
— Achou o defeito da máquina?
— Sim.
— Vai conseguir consertá-la?
— Provisoriamente. — Ele suspirou e voltou a
enxugar o suor do rosto. — Como está papai?
À lembrança da cena do hospital, ela estremeceu por
dentro.
— Mais ou menos na mesma.
Jake a submeteu a um olhar atento, mas ela não
demonstrou nenhuma perturbação. Em vez disso,
mudou de assunto:
— Você já comeu?
— Não. Estou com calor e cheio de poeira. Além do
mais, não quero perder tempo.
Liv sorriu e retirou um copo do saco de papel que
carregava.
— Já que não pode parar para comer, vai ter de
beber. Tirou o lacre da boca do copo e enfiou um
canudinho.
— O que é isso? — indagou Jake, desconfiada.
Ela colocou o copo nas mãos dele e respondeu; —
Milk-shake de chocolate.
CAPITULO VI

"O que está acontecendo com Liv, afinal? Macacos


me mordam se consigo entendê-la!", pensava Jake,
enquanto abria a torneira do chuveiro. Antes de
arrancar as roupas sujas de graxa e suor, tomou um
longo gole de uísque e começou a lembrar.
Primeiro fora aquela história do milk-shake de
chocolate. Era evidente que aquilo não passara de
um gesto de amizade, tal como o cachimbo da paz
dos índios. Depois, Liv permanecera na fábrica a
tarde toda. Alegara que tinha uns documentos para
examinar mas estava constantemente ao lado dele,
perguntando-lhe se não precisava de ajuda. E, com a
eficiência de uma enfermeira instrumentadora na
sala de cirurgia, passara-lhe todas as ferramentas
que Jake precisava.
Falaram alegremente de assuntos corriqueiros e
haviam concordado em quase tudo. Mas, quando
abordaram assuntos de família, suas opiniões
divergiram.
— Você viu Laura Jane? — perguntou ela.
— Não, e você?
— Também não. Ela me pareceu deprimida ontem.
Acho que está começando a perceber a gravidade
da doença de Roscoe.
— Talvez seja isso. Mas eu acho que a depressão
dela tem a ver com Steve Bishop — respondeu Jake.
— Por quê?
— Passe-me aquela chave inglesa, por favor.
— A de cabo vermelho ou a de cabo amarelo?
— Vermelho. Como eu ia dizendo, Bishop estava
com uma cara de crocodilo esfomeado, quando veio
me trazer o cavalo.
— Acho que ele tem medo de você.
— Bem que eu gostaria!
Jake pensou que Liv fosse dizer alguma coisa. Mas
ela não fez nenhum comentário, embora percebesse
a sua desaprovação. Em vez disso, estendeu um
pequeno tapete no chão empoeirado e sentou ao
lado dele. Bem próximo. Mesmo com a cabeça
enfiada debaixo da máquina e evitando olhá-la, ele
estava consciente da presença dela. Seu perfume
era tão penetrante quanto o calor da tarde.
Aquela proximidade era uma agonia. O suor
começou a escorrer pelo corpo de Jake, mas, quando
ele tocou inadvertidamente a mão dela, sentiu-a
gelada. Teve vontade de entregar-se àquelas mãos
macias para que elas lhe acariciassem o rosto, o
pescoço, o peito e cada ponto sensível do corpo.
A caminho de casa, ela falou sem parar. Quando
entraram, disse com animação:
— Tome seu banho com calma. Vou avisar Haney
para não servir o jantar enquanto você não estiver
bem descansado. Não gostaria de tomar um drinque?
O que é que você prefere?
O que ele gostaria mesmo era de saber por que
diabo Caroline o tratava com aquela camaradagem
amigável. Roscoe teria algo a ver com isso? Ou seria
iniciativa dela mesma? Por que, de repente, estava
agindo como uma madrasta tentando agradar o
enteado?
"Bom, não importa qual seja o jogo, não vai
funcionar", pensou ele, metendo-se debaixo do
chuveiro. Não iria considerá-la sua madrasta. Se ela
estava esperando por isso, então não lembrava nada
do que acontecera naquele verão. Aquele verão! O
coração de Jake começou a bater mais forte.
Depois de doze anos, ele ainda se comportava como
um adolescente apaixonado! Ele, Jake Gyllenhaal, o
destruidor de corações femininos! Ah, nunca tivera
problemas com mulheres, exceto o de livrar-se delas
quando estava cansado. Por que, então, a presença
de Liv o abalava tanto?
Aquele verão fora uma época de conflitos. Ele se
sentira ao mesmo tempo o mais feliz e o mais
miserável dos homens. Quando estava longe de Liv,
contava os minutos. Quando estava com ela era
fantástico; usufruía cada instante, mas sofria
antecipadamente pelo momento da separação.
Sentia-se frustrado porque tinha receio de sair com
ela, mas ficava apavorado só de pensar que alguém
pudesse vê-los. Vivia em perpétuo estado de
excitação, mas não podia satisfazer-se. Não com Liv.
E não queria que outra jovem a substituísse.
Lutava constantemente consigo mesmo. "Ela é uma
garota! Quinze anos! Você está procurando
encrencas, Gyllenhaal. E das boas!"
Mas não conseguia pensar em mais nada, a não ser
nela. Noite e dia. E ficava esperando no bosque,
ansioso, com medo de que ela não viesse. A
ansiedade só o deixava quando a via surgir entre as
árvores, trazendo a luz do sol consigo. Mas um dia, o
ultimo, o sol não havia brilhado. Chovera. . .
O sol brilhava quando Jake saiu de casa, Naquele dia,
mais do que nos outros, queria correr ao encontro de
Liv. Ele e o pai haviam discutido. Roscoe não estava
obedecendo aos regulamentos do mercado de
algodão, embora não transgredisse as leis. Quando
Jake chamou-lhe a atenção, o pai ficou furioso. Com
que direito seu filho se atrevia a lhe dar conselhos? A
Beneficiadora Gyllenhaal não teria chegado ao ponto
em que estava se ele,Roscoe, fosse um
irresponsável!
Jake fervia de indignação com o que estava
acontecendo, mas não tinha autoridade para
contestar o pai. Precisava desabafar com Liv. Ela
saberia ouvi-lo.
Encontrou-a já à sua espera, sentada debaixo de
uma árvore. O rosto dela iluminou-se quando o viu
chegar. Sem pronunciar uma só palavra, Jake caiu de
joelhos, tomou o rosto dela entre as mãos e beijou-a.
Com ânsia incontida, fez sua língua penetrar-lhe a
boca: ali só havia suavidade e doçura. Tão diferente
da aspereza que reinava entre ele e o pai!
— Que bom ver você! — murmurou.
Tomou-lhe novamente o rosto entre as mãos e,
beijando-a, deitou-a lentamente na grama, sobre a
suavidade das samambaias e o veludo do musgo.
Depois estendeu-se a seu lado e enlaçou-a,
pressionando os quadris contra os dela.
Olhou-a. Os olhos azuis de Carolíne estavam
lânguidos sob as pálpebras semicerradas, o brilho
dissolvido por uma estranha névoa. Os lábios,
vermelhos e túmidos pelo ardor com que ele a
beijara, estavam entreabertos. Os cabelos
emolduravam-lhe o rosto pálido e espalhavam-se no
chão musgoso como um manto de seda escura.
— Você é linda! — murmurou ele, beijando-lhe as
pálpebras.
— Você também.
Jake balançou a cabeça com força.
— Eu não passo de um egoísta. Comecei a beijá-la
sem ao menos dizer "como vai?". Por que permite
que eu me aproveite de você?
Liv passou-lhe a mão pelos cabelos com infinita
delicadeza.
— Porque percebi que você precisa de mim.
Ele ergueu-se, apoiando-se no cotovelo.
— Você tem razão. Eu e papai tivemos um tremendo
bate-boca.
— Sinto muito. -
— Eu também, Liv. — Elevou a voz, desesperado: —
Não conseguimos nos entender. . . nem nos amar.
— Não?
Ele hesitou, depois confirmou:
— Não. Não mesmo. Nem um pouco. Detesto ter que
dizer, mas é a verdade.
— Você tem algum motivo?
— Papai casou-se por interesse. Minha mãe
pertencia a uma família importante e tinha dinheiro.
Ele não a amava. Tornou-a infeliz e foi a causa da
sua morte prematura. E não gosta de mim porque eu
o conheço bem. Ele pode enganar os outros, mas não
o seu próprio filho!
Liv continuava a passar a mão pelos cabelos dele,
confortando-o.
Talvez você o julgue com muita severidade. Ele é
um homem, não um deus. Tem seus defeitos, como
todo mundo. Você acha que os nossos pais têm que
ser perfeitos?
— Não sei, . .
— Você é intolerante. Não admite que ninguém erre.
Desculpe, Jake, mas não é justo.
Ele ficou a olhá-la sem dizer palavra, enquanto ela
prosseguia:
— É uma pena que o relacionamento entre vocês
dois não seja bom. Meu pai é o bêbado da cidade,
mas mesmo assim gosto dele. Principalmente porque
ele precisa de muito amor. —- Liv sorriu. — Vá
devagar, Jake. Não seja tão impaciente. Seu pai
sempre foi assim, não será fácil dobrá-lo. — Os olhos
dela encheram-se de lágrimas. — Mas admiro a sua
coragem e a sua honestidade.
Ele sorriu com ternura.
— Você é única, sabe? Como consegue ver tudo pelo
lado bom? Quando estou com você, as coisas não
parecem tão terríveis, tão sem esperança.
— Você acha que eu sou tudo isso?
Jake rolou na grama e estendeu-se sobre ela.
— Isso e muito mais! — Ao ver que Liv estremecia,
ele soergueu-se. — Diabos! O que está acontecendo
comigo? Não devia deixar que as coisas chegassem a
esse ponto. Sinto muito, querida.
— Não é nada disso, — Ela mostrou os braços
arrepiados. — Está frio. Acho que vai chover.
Mal acabou de falar e já uma ventania sacudiu as
árvores. Grossas gotas de chuva começaram a cair.
Jake deitou-se de costas e ficou olhando as nuvens
que escureciam o céu, A chuva começou a aumentar
de intensidade, envolvendo-os como um lençol de
água, enquanto eles riam como crianças.
Depois de algum tempo, a tempestade cessou tão de
repente como havia começado, transformando-se
numa garoa fina. Jake virou-se para Liv, O rosto dela
brilhava de juventude e de alegria. A blusa branca,
completamente molhada, colava-se aos seios soltos,
sem sutiã. Ele a devorou com os olhos. Ela percebeu
a direção do olhar de Jake e corou.
— Não tinha nada bonito para usar. Pensei, . . que
seria melhor que não usasse. . . Eu, oh.. . —
murmurou algo em voz baixa e rouca e cruzou os
braços sobre os seios. — Não quis dizer...
— Não diga nada — sussurrou Jake, descruzando-lhe
os braços. Por um longo momento, enquanto a chuva
batia com monotonia no chão encharcado, ele a
fitou. A blusa molhada revelava tudo; o suave
formato dos seios, as róseas aréolas, os bicos rijos,
— Acho que está trovejando — disse ela, trêmula.
— Não. É o meu coração que está batendo feito
louco. Ele inclinou-se e beijou-a, passando a língua
com delicadeza pelo contorno da boca de Liv, que
gemeu de prazer.
— Ah, Liv, minha Liv. . .
Suas bocas se encontraram novamente. Mas, desta
vez, o beijo foi delirante e brutal. Jake forçava os
lábios dela, abrindo caminho para a sua língua ávida.
Liv ergueu instintivamente os joelhos e ele os
acariciou, deslizando as mãos pelos quadris e depois
subindo devagar até encontrar e tomar-lhe os seios.
Nada o deliciava mais do que sentir aqueles
pequenos seios redondos que o enlouqueciam.
Liv se aninhou docemente nos braços de Jake, num
aconchego sedutor e convidativo. Quando ele
apertou os bicos rijos entre os dedos, ela se arqueou,
na instintiva procura de outro corpo. Jake continuou
a excitá-la, tocando-lhe os cantos da boca com a
língua, acendendo labaredas por onde passava.
Emitindo sons selvagens, a respiração cada vez mais
rápida e ofegante, começou a desabotoar-lhe a blusa
com gestos nervosos. Mas Liv soltando um suspiro,
segurou-lhe a mão.
— Não, Jake, não podemos continuar.
— Querida, não se assuste. Não vou machucá-la.
Quero apenas tocar em você.
De novo ele beijou-lhe a boca, sugando com avidez
os lábios túmidos, enquanto lhe abria a blusa e
tomava-lhe novamente os seios com as mãos em
concha, Jake sentia sua carne palpitar com um ardor
novo, mais extasiante e mais apaixonado do que
qualquer estímulo sexual que conhecera até então.
Percebeu, deslumbrado, que mulher alguma no
mundo o faria sentir-se assim. Encontrara a única
que o completaria.
Beijou-lhe o colo branco e macio, descendo
gradualmente a boca sobre a pele acetinada dos
seios, mordiscando e sugando os mamilos róseos. A
saia que ela vestia não o deteve. Nem o elástico da
calcinha. Ela arqueava-se cada vez mais, gemendo
em profundo abandono.
— Jake, Jake, . .
— Tudo bem, doçura. Não vou fazer nada que a
machuque. Juro.
O toque das mãos dele tornou-se ainda mais leve.
Jake continuou a explorar o corpo dela até não haver
uma só peça de roupa entre ambos.
— Oh, minha querida! Como você é suave!
As mãos dele tocaram o suave tufo de pêlos que lhe
ocultava a concha feminina. Seus dedos seguiram
explorando na ânsia de descobrir o local mais
sensível do corpo macio, até que ela estremeceu e
ofegou. Jake percebeu que atingira o ponto.
Com habilidade, empregando a pressão exata,
começou a massageá-la. Com os olhos semicerrados,
Liv jogou a cabeça para trás. Sua carne fechava-se
ritmicamente em volta dos dedos dele, e seus
gemidos confundiam-se com o ruído compassado da
chuva que batia nas folhagens.
Jake observava o rosto dela, sublime no êxtase, e viu
quando ela pestanejou, deixando o estado onde tudo
é prazer e voltando gradualmente à realidade,
quando a realidade chegou a vergonha e ela abaixou
depressa a saia.
— Jake? — chamou, num tom mais alto do que o
habitual. — Jake, o que aconteceu comigo? Abrace-
me, estou tremendo.
Ele estendeu-se sobre ela, aquecendo-a com o corpo,
enquanto a cobria de beijos rápidos e confortadores.
— Não sabe o que aconteceu, Liv?
Ela passou-lhe os dedos suaves pelo contorno da
boca, como que admirada do prazer que ele lhe
provocara.
— Mas você não. . . quero dizer.. . você não me
penetrou. Ele enterrou a cabeça no colo dela,
soltando um gemido.
— Não, mas gostaria. Queria penetrar
profundamente em você para lhe dar tudo o que eu
tenho.
Liv chorava, as lágrimas confundindo-se com as
últimas gotas de chuvas.
— Não chore, querida. — Ele se levantou e ajudou-a
a levantar-se também, — Por que está chorando?
Diga-me, por favor,
— Você não vai voltar mais depois do que aconteceu
hoje. Vai pensar que eu sou uma vagabunda.
Jake soltou um suspiro de alívio.
— Oh, querida! Eu amo você.
Liv ergueu o rosto, olhando-o com a boca aberta de
surpresa.
— Você me ama?
— Amo, sim — afirmou Jake, porque sabia que era
verdade. — Amo você e voltarei amanhã, custe o que
custar.
— Verdade?
Ele a apertou de encontro ao peito e murmurou-lhe
ao ouvido:
— Estamos metidos numa confusão. Você já
percebeu, não?
— Já. Sempre achei que não havia esperança para
mim.
— Isso não! Vou tomar algumas providências para
resolver a situação hoje à noite, sem falta.
— O que é que vai fazer hoje à noite?
— Vou dar um jeito. Chega de nos escondermos de
todo mundo.
Ela pegou-lhe a mão.
— Não. Jake. Não faça nada. Deixe as coisas como
estão.
— Não dá para continuar assim. Não aguento mais.
Quando estamos juntos, como agora, é muito difícil
não acabar o que já comecei.
— Ah! Quer dizer. . . — murmurou ela,
compreendendo. — Jake, não me importaria se
você. , . se você quisesse. . .
— Não — respondeu ele com firmeza. — Não
podemos fazer isso. — Afastou-a deliberadamente de
si, embora com mãos relutantes. — Bem que
gostaria! Mas eu lhe prometi que nunca a magoaria,
lembra?
— Sim. E acredito em você.
— Então, deixe tudo comigo e não se preocupe. As
coisas vão melhorar.
— Tem certeza, Jake?
— Amanhã será diferente. Amanhã, querida.
Aqui, neste mesmo lugar.
— Feito.
— Liv?
— Que é, Jake?
— Não vai faltar?
— Claro que não!
Ele saiu correndo pelo bosque molhado e, já longe,
vottou-se novamente, gritando:
—Amanhã, amanhã!
— Seu tolo! — disse Jake à imagem que o espelho
refletia, borrada e indistinta pelo vapor do banho. —
Que ingênuo eu fui! -— censurou-se, e bebeu o resto
do uísque de um só gole.
Ao lembrar-se da confiança ingênua que sentira
naquele dia, ele sorriu tristemente. Pobre David
enfrentando Golias sem o auxílio da funda e das
pedras! ódio e desprezo começaram a envenenar-lhe
o sangue, como acontecia sempre que rememorava
a noite fatal.
Ele havia entrado no escritório do pai, anunciando
alegremente:
— Papai, encontrei a jovem com quem vou me
casar!
— É o que você pensa! — rugira Roscoe, fazendo
rolar o grosso charuto para o canto da boca, — Frank
George me telefonou hoje à tarde. Marilyn está
grávida. De três ou quatro meses. — Ele o olhara
com zombaria. — Parabéns, filho, vai se tornar
marido e pai!
Jake crispou os lábios, dominando uma sensação de
náusea. Aquela pilantra!
E pensar que Liv, a sua doce Liv do rio e da chuva,
era a esposa de seu pai! Agora, era a ele que ouvia,
era a ele que dava conselhos e conforto. Era a ele
que entregava a suavidade de sua boca, de seus
seios, de seus quadris. . .
A dor que o oprimia era insuportável e não havia
nada que pudesse acalmá-la.

— Oi, Steve.
— Oi, Laura Jane.
— Jake acha que esta torradeira não funciona mais e
quer que Haney compre uma nova. Mas ela não quer
saber, diz que esta tem conserto. Como Jake está
muito ocupado na fábrica, vim lhe pedir para
consertá-la. Não se importa?
— Claro que não. Vou consertá-la num minuto —
disse ele, procurando as ferramentas adequadas na
prateleira.
— Está zangado comigo, Steve?
Ele ergueu os olhos e a fitou. Laura Jane estava
usando um vestido de verão decotado e sua pele
parecia suave e cremosa, como pétalas de magnólia,
O desejo que tinha por ela golpeou-o com a força de
um malho.
— Por que acha que estou zangado com você? —
murmurou, desviando os olhos.
Ela soltou um profundo suspiro e baixou o rosto, até
que seu queixo quase tocou o peito.
— Porque beijei você. Percebi que está zangado
comigo desde aquele dia,
— Mas não estou.
— Então, por que não olha para mim?!
Steve a fitou, boquiaberto, sem poder falar. Nunca a
vira tão exaltada assim. Aquela que o fitava tão
desafiadoramente não era uma criança, mas uma
mulher. Ele engoliu o nó que se formara em sua
garganta e respondeu:
— Estou olhando.
— Mas está evitando os meus olhos. Por que não me
olha diretamente? Não me acha mais bonita?
Ele a examinou lentamente, da cabeça aos pés.
— Você é muito bonita, Laura Jane.
Ela sorriu, mas o sorriso congelou-se quase que
imediatamente em seu rosto.
— Não gostou da maneira como o beijei? Não é
assim que se faz?
Steve contraiu os punhos, procurando manter a voz
distante e impessoal.
— Você fez tudo direitinho.
Laura Jane franziu o cenho, aborrecida,
— Acho que não. Os beijos das artistas de televisão
duram muito tempo. Acho que elas abrem a boca
quando beijam.
— Laura Jane — disse ele com voz rouca. — Você não
devia falar dessas coisas com um homem.
— Você não é um homem qualquer. Você é Steve.
— Bom. . . você não deveria falar do beijo que me
deu. Laura Jane o olhou, sinceramente intrigada.
— Por quê?
— Há certas coisas que um homem e uma mulher
que não são casados não devem discutir.
— Você acha certo não falar dessas coisas?
Ele soltou uma gargalhada, apesar da seriedade da
situação.
— Mais ou menos isso.
Ela se aproximou e pousou as mãos no peito dele.
Erguendo a cabeça, esboçou um sorriso maroto.
— Então, não vamos falar, vamos fazer.
— Não é direito, Laura Jane — disse Steve,
suspirando fundo e afastando as mãos dela.
— Mas, por quê?
— Pelo amor de Deus, garota! Não podemos e está
acabado! Desconsolada, ela o observou sair da
garagem e atravessar o
pátio quase correndo. Pegando a torradeira, Laura
Jane tomou o caminho da casa. Liv, que acabava de
chegar, viu-a e foi ao encontro dela.
— Oi, Laura Jane. O que está fazendo aqui?
— Trouxe a torradeira para Steve consertar. Seu tom
abatido chamou a atenção de Liv.
— E Steve? Não o vejo há vários dias.
— Acho que ele está bem. Mas às vezes não o
entendo. —- Como assim?
— Ele não quer mais ser meu amigo.
— Duvido.
— É verdade! Desde o dia em que o beijei. Liv
engoliu em seco.
— Você. . . você o beijou?
— Sim. — Os olhos de Laura Jane eram puros e
inocentes. — Sabe, eu o amo.
— Disse isso a ele?
— Disse. Está errado?
— Não exatamente. — Liv escolhia as palavras com
muito cuidado. Não queria magoar Laura Jane. —
Talvez não fosse o momento certo, ou quem sabe
você pegou Steve de surpresa. Às vezes, os homens
querem ser os primeiros a tomar a iniciativa.
— Não acho que Steve quisesse tomar a iniciativa. E
eu não consegui esperar.
Liv sorriu.
— Dê-lhe algum tempo. Acho que ele vai criar
coragem.
— E Jake vai criar coragem também?
— Para fazer o quê?
— Beijar você. É o que ele está com vontade de
fazer. Liv estremeceu.
— Laura Jane, não deve fazer uma afirmação
dessas! Jake não quer nada disso.
— Então, por que ele fica olhando para você o
tempo todo? Liv passou a língua pelos lábios.
— Ele olha?
— Sem que você perceba. E está trabalhando na
Beneficiadora por você.
— Por todos, Laura Jane: empregados, plantadores
que se servem das nossas máquinas, seu pai, você...
— Mas foi você quem pediu. Jake não tomaria a
iniciativa, se não fosse você.
Liv pôs-se a recordar o dia em que Jake consertara a
máquina, Ela empregara todos os meios para
estabelecer entre ambos um relacionamento
baseado apenas na amizade. Pensava que tinha
conseguido. Mas à noite, na hora do jantar, Jake se
mostrara mais hostil do que nunca. E no dia
seguinte, durante o almoço, olhara-a com tal frieza,
congelando as tentativas de conversa. Por fim, ela
tomara coragem e pedira-lhe que. verificasse todas
as máquinas da fábrica. Ele consentira de má
vontade, mas, desde então, tinha se dedicado ao
trabalho de corpo e alma.
— Fico contente que Jake esteja se interessando
pelos negócios, enquanto seu pai está doente. Ele
está trabalhando duro.
— Você também, Liv. Parece muito cansada.
De fato, ela estava exausta. A luta que travava
consigo mesma por causa de Jake roubava-lhe todas
as forças. E havia Roscoe. As explosões de cólera do
marido eram cada vez mais frequentes, Nada que
fazia o agradava. Ele a criticava pelas menores
coisas, tornando um verdadeiro suplício as horas que
passava a seu lado.
— Estou cansada — admitiu em voz alta. Depois,
sacudindo o desânimo, acrescentou: — Mas não se
preocupe com Steve, Laura Jane. Ele deve estar de
mau humor, só isso. Não corra atrás dele. Em geral,
os homens não gostam disso. E, da próxima vez que
o beijar, deixe-o pensar que a iniciativa foi dele.
— Está bem — murmurou a jovem, baixando a
cabeça. Liv podia imaginar qual era a causa da frieza
de Steve.
Ele provavelmente estava apaixonado por Laura
Jane, mas não queria encorajá-la, porque temia Jake,
— Vamos jantar, Laura Jane, e deixe de se
preocupar.
— E Jake?
— Não sei onde ele está. Disse que. . .
O som de uma buzina interrompeu-a. Quando se
voltou, viu
Jake saltar de uma caminhonete nova em folha,
acenando alegremente para elas.
— O que acham disso?
— É sua, Jake? — perguntou Laura Jane, batendo
palmas. — Gosto desse tom de azul.
— Eu precisava de uma condução enquanto
estivesse aqui. O jantar está pronto? Estou morrendo
de fome! — Ele ofereceu o braço a ambas. —
Permitem-me que as acompanhe, minhas belas
jovens?
Mal haviam dado dois passos quando viram Haney
aproximar-se correndo, com as feições alteradas.
— Liv, Jake! Graças a Deus que vocês chegaram!
Acabaram de telefonar do hospital. O sr. Gyllenhaal
piorou.

CAPITULO VII

Quando Jake e Liv entraram, apenas uma lâmpada


de cabeceira iluminava o quarto do hospital, com o
foco de luz dirigido para o homem deitado na cama.
O rosto dele estava tão pálido que nem parecia
haver sangue sob a pele. Só os olhos, profundos e
negros, denunciavam que ainda havia vida naquele
corpo.
— Saia e me deixe em paz — resmungou Roscoe à
enfermeira que lhe tomava o pulso. — Não há mais
nada a fazer.
— Mas, sr. Gyllenhaal...
— Saia! — gritou ele — Quero falar com meu filho e
minha esposa.
Depois que a enfermeira saiu, Liv aproximou-se do
marido e tomou-lhe a mão.
— Viemos assim que o médico nos telefonou.
Roscoe voltou para ela os olhos escuros, penetrantes
como aço. Sua decadência não era apenas física. O
ódio que o roera
por dentro durante anos manifestava-se, agora, no
rosto contorcido, horrível de se ver.
— Espero que não tenham interrompido nada
importante por minha causa — disse, sarcástico.
Liv ignorou a provocação.
— Você sabe que queremos ficar a seu lado.
— Para assistirem à minha morte e terem certeza de
que ficaram livres de mim!
— Você está falando sério? Acredita mesmo que
desejo a sua morte? Mas eu nunca lhe dei motivos
para duvidar da minha devoção, Roscoe!
— Não teve oportunidade. — Ele lançou um olhar
malévolo a Jake, que estava aos pés da cama,
mostrando uma expressão impenetrável.
— O que está querendo dizer? — balbuciou Liv.
— Morando sob o mesmo teto que o homem a quem
realmente deseja, é fácil ceder à tentação e trair a
devoção que diz ter por mim.
Toda a cor fugiu do rosto de Liv, que ficou olhando
para Roscoe em estado de choque. Um sorriso
sarcástico entreabria os lábios dele e seus olhos
tinham uma expressão diabólica.
— Está se referindo a Jake? — perguntou ela,
voltando a si.
— Jake, Jake! — gritou ele ironicamente. — Sim, com
os diabos! Quem mais poderia ser?
Ela umedeceu os lábios com a língua,
— Mas eu e Jake. . . nós nunca,. .
— Não minta! — Fazendo um esforço sobre humano,
Roscoe conseguiu levantar o peito. — E não se faça
de ingênua! Sei de tudo o que houve entre vocês
dois.
Uma leve vertigem fez Liv cambalear. Aflita, ela
olhou para Jake, que ainda estava na mesma
posição, parecendo senhor de si. Foi ele quem
quebrou o silêncio que se seguiu:
— Já sabia de tudo na noite em que me contou que
Marilyn estava grávida?
Roscoe caiu para trás, afundando a cabeça no
travesseiro.
Seu rosto era uma máscara de dor, mas os olhos
brilhavam de satisfação ao encararem
malevolamente o filho.
— Sim, sabia de tudo! Se você fosse mais esperto,
teria imaginado que não podia se meter nos bosques
todos os dias sem me deixar curioso.
— Então você nos seguiu e nos viu juntos — deduziu
Jake, com frieza.
— Com mil demônios, não! Eu não iria fazer esse
trabalhinho sujo pessoalmente. Mandei espiar vocês
e recebi um relatório muito interessante. Fiquei
sabendo que ele andava se encontrando com uma
vagabunda lá no rio.
Liv soltou um grito de revolta, logo sufocado. Mas
Roscoe não se deu ao trabalho de olhá-la. Sua luta
era com o filho, sempre fora assim. Liv representara
apenas um prémio atraente.
— O homem me disse que a garota com quem você
se encontrava, quase uma menina, era gostosa como
um pêssego maduro.
Roscoe passou a língua pelos lábios e Liv fechou os
olhos, nauseada.
— Quase morremos de rir quando soubemos que o
amor da sua vida era a filha de Pete Tyler, rapaz. —
Ele piscou o olho para Jake. — Mas admiro a sua
coragem. Meter-se com uma menor dava cadeia,
mas você queria correr o risco, não é mesmo?
— O resto eu já sei — respondeu Jake com raiva. —
Você sabia que eu não tinha engravidado Marilyn.
— Achei que tanto podia ser você como um outro
qualquer. Afinal, muita gente comeu naquela panela.
— O filho não era seu? — murmurou uma voz tímida.
Jake voltou a cabeça e encontrou os olhos de Liv,
cheios
de lágrimas. A voz dela denotava incredulidade. . . e
algo mais. Alegria?
— Não, Liv, O filho não era meu.
— Mas você dormiu com Marilyn! — Roscoe acusou-o
prontamente.
Jake continuou com os olhos fixos em Liv.
— Sim mas muito antes que ela ficasse grávida. A
única mulher com quem andei naquele verão foi Liv.
Alyssa não é minha filha. — Ele voltou-se para o pai.
— E você sabia disso! Eu jurei que não tinha
engravidado Marilyn, que fazia mais de um ano que
nem encostava nela. Mas você não quis me ouvir e
me obrigou a casar! Por quê?
— Você era maior de idade e nada o obrigava a me
obedecer!
— Mas você ameaçou fechar Laura Jane numa
instituição para débeis mentais, caso eu não
obedecesse! — gritou Jake, finalmente revelando a
chantagem.
— Deus! — murmurou Liv, cobrindo o rosto com as
mãos. Aquele pesadelo não teria fim? Roscoe
chantageara Jake, obrigando-o a casar com uma
moça que carregava no ventre o filho de outro
homem. Como pudera?
— Não entendo por que era tão importante assim
que eu me casasse com Marilyn. — A voz de Jake
ficou embargada pela lembrança. — Por que não riu
na cara do pai dela e não o mandou passear? Não
venha me dizer que estava com medo de
escândalos. Afinal, você nunca se importou com
convenções sociais.
— Dinheiro — respondeu laconicamente o velho
Roscoe. — George tinha dinheiro e eu precisava dele.
É claro como água. Vendi você, meu rapaz, por vinte
e cinco mil dólares.
Jake respirou fundo, tentando não perder o controle
diante daquela revelação. Sempre esperava o pior do
pai, mas nunca lhe ocorrera que poderia haver
dinheiro por trás daquela sujeira.
— Mas você não fez nada para impedir o divórcio!
— Isso não fazia parte do contrato. George queria
um marido para a maluca da filha dele e um nome
respeitável na certidão de nascimento do neto.
— Respeitável! — zombou Jake.
— Além disso — continuou Roscoe impiedosamente
—, eu queria impedi-lo de cometer um erro.
— Que erro?
— Casar com uma mulher dessa laia. — Roscoe fez
um gesto na direção de Liv.
— Deixe Liv fora disso! — gritou Jake, fora de si. —
Ela não tem nada a ver com essa história.
Roscoe deu uma gargalhada irônica.
— Tem tudo a ver! Eu não podia permitir que meu
próprio filho se envolvesse com uma menina de
quinze anos. Seria uma encrenca dos diabos. E,
segundo o meu informante, o negócio era sério. —
Os olhinhos maus de Roscoe se estreitaram. — Seu
idiota! Não sei como não ri na sua cara quando você
me anunciou, todo alegre, que havia encontrado a
garota dos seus sonhos!
— Você me dá nojo!
Apenas o ódio parecia mover Roscoe.
— Marilyn era uma gata quente. Ia para a cama com
todo mundo, mas pertencia a uma família
respeitável. — Ele olhou para Liv. — Não era a filha
do bêbado da cidade!
— Então, por que casou comigo? — gritou ela, sem
conseguir se conter.
— Tinha de tirar proveito do meu investimento,
bolas!
— Como...? — Aquela era a noite das revelações.
Era melhor que ela soubesse tudo de uma vez! —
Que espécie de investimento?
— Não dá para acreditar! — murmurou Jake,
percebendo a verdade.
— Do que estão falando? — gritou Liv.
— Não adivinha quem foi o seu misterioso benfeitor?
-— perguntou-lhe Jake.
Ela levantou lentamente os olhos.
— A bolsa de estudos?
A boca de Roscoe retorceu-se num arremedo de
sorriso.
— Exatamente! Eu queria você longe de
Winstonville, para o caso de Jake voltar após o
divórcio e decidir procurá-la.
Liv estava decidida a saber de tudo.
— Não queria que eu manchasse o nome da sua
família, é i isso?
— Oh, não exatamenle por isso. Queria guardar você
para a parte final do meu plano.
— Que plano?
— Fazer de você a sra. Gyllenhaal. A sra. Roscoe
Gyllenhaal! Ela inclinou-se para o marido, com a
força do desespero,
quase sem enxergar de tantas lágrimas nos olhos.
— Então, você planejou tudo direitinho. . . Como
conseguiu que desse certo?
— Acha que foi por acaso que você obteve um
emprego no banco, assim que se formou? Acha que
foi por acaso que nos conhecemos? — murmurou o
homem com um risinho insolente. — Quer que eu
continue?
— Mas por quê? Por quê? — gritou Carolíne.
Roscoe calou-se de repente. Foi Jake quem
respondeu por ele:
— Porque eu queria você e ele sabia disso. E teria
feito qualquer coisa, até mesmo casar com você, só
para evitar que você ficasse comigo.
— Filho, você é um cara esperto! — exclamou
Roscoe.
— Você não teve escrúpulos de usar Laura Jane.
Pediu a ela que me escrevesse dizendo que Liv tinha
casado.
— Você sabe que Laura Jane faz tudo o que eu peço.
Liv não conseguia acreditar no que estava ouvindo.
— Teve coragem de me usar durante anos só por
causa do ódio que sentia por Jake? Se eu não servia
para ele, por que casou comigo? Você me deu o seu
nome, me levou para morar no "Retiro" . Não consigo
entender.
— Você foi fácil de dobrar, minha querida. Eu sabia o
quanto significava para você o nome dos Gyllenhaal
e o "Retiro". Era uma tentação muito forte e você
não resistiu. Por outro lado, você era educada e
bonita. As pessoas entenderam quando eu a pedi em
casamento. Ah, Liv, obrigado por ter facilitado as
coisas!
O cinismo de Roscoe era revoltante! Liv virou o rosto,
humilhada. Fora inescrupulosamente usada. Mas era
a si mesma que culpava, e não ao marido de mente
pervertida. Se ela não fosse tão ambiciosa, se não
tivesse feito mau juízo de Jake. , .
Os olhos do moribundo ainda mostravam satisfação.
Ele voltou a falar:
— Esta semana foi muito divertida! Pensavam que
ninguém soubesse, não é? Quase morri de rir ao ver
vocês tentando disfarçar o que sentem um pelo
outro, evitando até se olharem.
A gargalhada de Roscoe foi uma amostra do que
devia ser o inferno.
— Que tal é viver sob o mesmo teto que a mulher
que a gente deseja, Jake? Torturante? Porque você
ainda a deseja, não é, rapaz? Já chegou a imaginá-la,
na cama. . . comigo?
Uma onda de repugnância e horror percorreu o corpo
de Liv.
— Pare com isso, Roscoe!
— Cale a boca! — rugiu Jake.
Mas Roscoe parecia movido pelo demônio.
— Veja, filho, inteiramente mulher! Mais do que isso:
fêmea!
— Dobre essa língua, seu verme!
— Não estou dizendo nenhuma novidade, estou?
Não gostaria de beijá-la, de abraçá-la? De despi-la e
depois, fazer amor com ela? Confesse, meu rapaz,
não está desejando a mulher de seu pai?
—Deus! — Liv deu um grito e saiu correndo do
quarto. Os olhos de Jake estavam vidrados de ódio.
— Vá para o meio do inferno, seu miserável!
— É para onde irei. Mas queimarei com todo o
prazer, porque você vai ser mais infeliz do que eu,
aqui na terra. Vai se arrepender pelo resto da vida de
ter sido o meu juiz.
— Percebi desde criança que você não prestava!
Você matou minha mãe!
— Talvez, talvez. Ela era fraca, não se atrevia a me
enfrentar. Mas você, não! Eu não aguentava os seus
olhares acusadores, sempre me perseguindo, sempre
exigindo de mim uma consciência que nunca tive!
Fazendo um esforço terrível, Roscoe soergueu-se e
apontou o dedo trêmulo para o filho.
— Agora estamos quites! Levou anos, mas eu
consegui pagar com a mesma moeda. Você nunca
terá essa mulher, Jake! Eu conheço você. O danado
do orgulho que herdou de sua mãe não vai permitir.
— Ele fez uma pausa significativa. — Porque eu a
tive antes de você. Lembre-se disso! Ela era minha
mulher e eu a tive antes de você!

Os quatro iam silenciosos no interior da limusine que


seguia lentamente pela alameda arborizada do
cemitério. Jake e Liv mantinham o rosto voltado para
as respectivas janelas, enquanto Laura Jane, sentada
entre os dois, torcia o lenço, com mãos nervosas.
Diante deles, no outro banco, Haney analisava-os.
Por fim, decidiu romper o penoso silêncio.
— Veio muita gente para o enterro — disse,
cautelosa, dando uma espiada na longa fila de carros
que seguia a limusíne.
— Quase toda a cidade — murmurou Liv. Laura Jane
voltou-se para Jake.
— Não lembro do enterro de mamãe. E você, Jake?
— Eu me lembro muito bem. — Ele sorriu com
afeição para a irmã. — Também havia muita gente.
Haney balançou a cabeça.
— Vocês dispensaram o serviço fúnebre na igreja. O
pastor ficou chocado e o povo vai falar.
— Não me importo com o que falam — respondeu
bruscamente Jake.
O coração de Liv oprimiu-se por Haney e Laura Jane.
Por ignorarem como haviam sido os últimos
momentos de Roscoe, elas não podiam entender a
frieza de Jake pela morte do pai.
Haney tomou a mão de Liv.
— Você é uma alma boa. Quando estiver sozinha,
chore bastante. Vai lhe fazer bem.
Haney estava enganada. Ela não iria derramar uma
única lágrima pelo homem que fora seu marido. Seus
olhos estavam secos desde o instante em que saíra
correndo daquele quarto de
hospital, arrasada e humilhada com todas aquelas
revelações. Jake reunira-se a ela momentos depois,
com a fisionomia alterada, parecendo alguém que
acabara de chegar do inferno.
Durante a noite de vigília, na sala de espera do
hospital, Jake e Liv não se falaram, nem se olharam.
Ela conseguira dominar o impulso de se desculpar
por tê-lo julgado tão mal no caso de Marilyn. Queria
abraçá-lo e chorar com ele por todos os anos
perdidos. Mas ele permanecia sombrio e distante,
fechado a qualquer contato humano.
Depois daquela cena terrível, aplicaram sedativos
em Roscoe. Ao sair do quarto, o médico tomara a
mão de Liv.
— O fim está próximo. Pode entrar, se quiser, mas
ele não a reconhecerá.
Liv balançara negativamente a cabeça. Não queria
ver Roscoe nunca mais. Quando o médico anunciara
sua morte, deixara o hospital de olhos secos e
coração vazio.
Agora tinha de representar o papel de viúva
inconsolável. A limusine parou. Deram-lhe a mão
para ajudá-la a descer e o solícito organizador do
funeral conduziu-a para a tenda armada em volta do
túmulo da família. Ela sentou-se rigidamente na
cadeira que ele lhe indicou, ao lado de Jake e de
Laura Jane.
Fechou os ouvidos para o elogio fúnebre do pastor,
fixando os olhos nas coroas de flores, Quando tudo
terminou, aceitou com dignidade os pêsames dos
presentes.
— Ela está se comportando corajosamente — ouviu
alguém dizer.
— Não derramou nem uma lágrima.
— Já sabia que o fim estava próximo.
— Teve tempo de se preparar.
— Sabe como é gente fina. Não querem demonstrar
nenhuma
emoção em público.
— Que será que vai acontecer com a Beneficiadora?
— Acho que ela vai tomar conta de tudo.
— E Jake?
— Não vai ficar?
— É pouco provável, acho que vai voltar para
Atlanta.
Liv ouviu os murmúrios, que corriam livremente, ao
voltar para a limusine. Era bom que pensassem que
ela tinha fibra. Não podia perder o controle de si
mesma, pondo-se a gritar feito uma louca. Porque a
infâmia de Roscoe ainda a queimava como ferro em
brasa. Ele ferira não só a ela, como também ao único
homem que amava. Não haveria esquecimento nem
perdão!
— Terminou, graças a Deus! — exclamou Jake,
sentando-se no banco de trás, depois de apertar a
mão do pastor pela última vez.
Mas ele estava enganado. Durante a tarde uma
interminável procissão de carros desfilou diante do
"Retiro". Era gente que vinha dar seus pêsames aos
familiares de Roscoe.
Liv percebeu, no entanto, que a maioria viera movida
pela curiosidade. Queriam verificar se ela havia
introduzido modificações na casa de Marlene
Winston Gyllenhaal, queriam saber tudo sobre a vida
de Jake, que, lacônico e distante, esquivou-se com
habilidade das perguntas.
Ela não levantou os olhos, mas sabia que todos a
observavam, Uma tremenda tensão a dominava,
uma angústia insuportável.
Então, finalmente, a provação terminou, um a um,
eles começaram a partir; de repente, a casa ficou
vazia. As sombras da noite alongavam-se pelo salão.
Haney acendeu as luzes e começou a retirar os
copos e as xícaras de café,
— Alguém vai querer jantar?
— Eu não, obrigada — disse Liv.
Jake tirou o paletó, serviu-se de uma dose de
bourbon e caminhou para a janela.
— Vá dormir, Haney — aconselhou. — Você teve um
dia cansativo.
— Antes vou dar uma arrumação em tudo. Precisa
de alguma coisa, Liv?
— Não, Haney. Boa noite.
— Bom, se quiserem jantar, há comida na geladeira.
Boa noite.
Liv recostou-se no sofá e fechou os olhos. Sentia-se
desamparada e sem objetivo. Uma fase de sua vida
terminara e ela não sabia por onde começar outra.
Pelas pálpebras semicerradas, pôs-se a observar a
silhueta máscula e elegante que se recortava de
encontro ao céu azul-índigo. Era a primeira vez que
ficavam a sós desde a noite fatal. Liv estremeceu
diante da forte atração física que ele sempre lhe
causava. Um fogo percorreu suas veias. Queria ficar
nos braços de Jake, sentir o cheiro que vinha do
corpo dele.
De repente, ela viu que a linha dos lábios dele se
estreitava.
— Que diabo é isso? — Jake murmurou entre dentes,
deixando precipitadamente a sala.
Alarmada, Liv levantou-se de um pulo do sofá e
correu até a janela. Steve e Laura estavam
chegando. Vinham devagar, com os braços passados
pela cintura um do outro. De onde estava, Liv viu
que estavam conversando.
Nesse instante, ouviu a porta da frente bater e a voz
de Jake chamar alto:
— Laura Jane!
Liv saiu correndo para o corredor, temendo o pior.
Conseguiu alcançar Jake no pórtico. Colocou a mão
no braço dele e implorou:
— Por favor, Jake!
Mas ele afastou-lhe a mão e tornou a chamar:
— Laura Jane!
A jovem virou a cabeça, mas não esboçou nenhum
gesto para se afastar de Steve. Em vez disso, tomou-
o pela mão e obrigou-o a segui-la. Liv notou a
relutância dele. Não era tão ingênuo quanto Laura
Jane e certamente percebera a raiva que fizera
tremer a voz de Jake. Apesar disso, não parecia
intimidado.
— Sim, Jake? — disse Laura Jane.
— Onde você estava?
— Assistindo televisão no apartamento de Steve. Ele
achou que eu precisava me distrair.
Fúria e desprezo estamparam-se no rosto de Jake,
mas ele conseguiu se controlar.
— Já é tarde. É melhor entrar.
— Foi o que Steve disse. Boa noite, gente — disse
ela esboçando um sorriso para Steve.
Jake esperou até a porta de entrada fechar atrás de
Laura Jane e então deu um passo para a frente.
— Deixe minha irmã em paz, se não quiser ser posto
para fora daqui, entendeu?
— Eu não estava importunando Laura Jane, sr.
Gyllenhaal. Queria apenas consolá-la. Ela estava
triste por causa da morte do pai... e por outras
coisas.
— Ela não precisa dessa espécie de consolo!
— Jake... — interveio Liv.
— O que o senhor quer dizer com isso? — perguntou
Steve.
— Não se faça de desentendido! Você sabe muito
bem do que estou falando! Conheço essa espécie de
consolo que você pretende dar a Laura Jane.
Steve apertou os punhos. Apenas o receio de deixar
o "Retiro" e Laura Jane deviam impedi-lo de enfrentar
Jake de homem para homem.
— Pode pensar o que quiser, sr. Gyllenhaal, mas não
tem o direito de me insultar. Não fiz nada que
pudesse magoar sua irmã e jamais o farei.
— Então, para evitar mal-entendidos futuros, fique
longe dela!
Dito isso ele voltou-se e entrou, furioso. Lançando
um olhar de desculpas a Steve, Liv correu atrás de
Jake. Quando o alcançou, agarrou-o pelo braço.
— Seu covarde! Despejou a sua raiva no pobre do
Steve! Ficou satisfeito? Sente-se melhor agora?
— Ainda não.
Jake estava muito irritado. Agarrou Liv pelos pulsos
com toda a força e arrastou-a para a sala, batendo a
porta atrás de si. Afinal, empregando todo o seu
peso, empurrou-a rudemente contra a parede. Agora,
ela não poderia fugir.
Olhou-a firmemente, ofegante pelo esforço.
— Como teve coragem de dormir com ele? Como,
Liv?

CAPITULO VIII

O beijo que se seguiu foi brutal, Liv sentiu os dentes


de Jake por baixo dos lábios. Tentou virar a cabeça,
mas ele segurava-a com firmeza, forçando-a a
admitir-lhe a língua.
Liv teve um começo de vertigem, mas procurou
reagir. Fez uma última e desesperada tentativa para
desvencilhar-se, esmurrando o peito dele com os
punhos cerrados, mas foi inútil, Jake lembrava um
animal selvagem, inteiramente incontrolável. Mas
aquele homem sem compaixão, cheio de ódio, não
era o verdadeiro Jake. Ele seria incapaz de magoá-la.
Liv percebeu que a melhor tática era a passividade e
tornou-se dócil em seus braços.
Ao notar que ela relaxava o corpo de encontro à
parede, Jake sentiu sua raiva se dissipar, dando lugar
à sensatez: Tornou a beijá-la, mas dessa vez com
delicadeza e suavidade, quase com respeito,
Agora, era contra aquela doçura que Liv tinha de
lutar, se não quisesse sucumbir, O ataque de
momentos atrás não fora desfechado pelo homem
que ela conhecia e amava, mas por um estranho
atormentado pela amargura. Agora que aqueles
beijos lhe eram tão dolorosamente familiares, era a
si mesma que devia temer.
Levantou para ele os olhos cheios de dor.
- Por favor, Jake,
Ele ficou imóvel, mas ainda com a respiração
ofegante.
— Eu a machuquei?
— Não.
— Perdi a cabeça, desculpe.
Os olhos de Jake prenderam-se nos dela. Um olhar
firme e penetrante, que lhe punha a nu as
profundezas da alma.
— Não sei por que te desejo tanto! Chega a ser uma
obsessão.
— Jake...
Ele a cingiu fortemente nos braços e apertou-a de
encontro ao peito, os corpos fundidos num só.
— É como se estivéssemos na cama, não é mesmo?
— sussurrou,
Liv continuava a olhá-lo. Uma onda de calor percorria
seu corpo. O desejo que sentia era tão intenso que
ela mal podia sustentar-se em pé.
— Não fale nisso, Jake! — murmurou, com a voz
entrecortada.
— Mas é no que você está pensando. E no que eu
estou pensando!
— Oh, quando. . .
Jake beijou-a com uma boca macia e quente,
enquanto seus corpos amoldavam-se com perfeição.
Ela sentiu por toda a parte a musculatura dele, e
pôde perceber-lhe a força do desejo. O sexo de Jake
aninhou-se na concha feminina, e os quadris
começaram a mover-se em ritmo sincronizado.
Ambos pensavam no ato de amor com tanta
intensidade que era quase como se o estivessem
praticando. Seus corpos reagiram de acordo,
irradiando um calor suave. Depois o calor
desapareceu e eles ficaram imóveis.
Os minutos passavam, e eles continuavam nos
braços um do outro, com os olhos semicerrados,
compartilhando a mesma alegria íntima, mas
lamentando o que não acontecera e que,
provavelmente, nunca aconteceria.
Aos poucos, porém, Jake foi se afastando. Seu rosto
voltou a fechar-se, assumindo uma expressão
sombria e infeliz.
— Como pôde ficar com ele, Liv?
O brilho morreu nos olhos dela.
— Ele era meu marido.
Aquela simples constatação podia explicar tudo. Em
vez disso, porém, provocou uma cólera instintiva em
Jake.
— Por que se casou com ele, então? Você me
amava! Não entendo.
— Não? Como acha que me senti quando você me
abandonou?
— Você sabe que fui obrigado a me casar com
Marilyn. -
— Só soube disso há dois dias.
— Então, pensou mesmo que eu traí a sua
confiança, quando, na verdade, arrisquei tudo por
você?
Ela o fitou com firmeza e falou, num tom magoado:
— Como poderia pensar de outro jeito? Você foi
embora sem dar nenhuma explicação e todos diziam
que ia se casar com Marilyn. Por que não me
explicou tudo?
— Não podia. Além disso, você não teria acreditado
em mim!
— Quem disse que não?
— Teria acreditado mesmo? — Ao ver que ela
baixava os olhos, ele afirmou: — Não, não teria. Iria
pensar, como todos, que o filho era meu.
Jake caminhou para a janela com ar pensativo, sem
deixar de fitá-la.
— Tinha medo de que você pudesse ser envolvida
naquela tremenda confusão, caso eu tentasse me
aproximar. Sabia que os boatos corriam soltos pela
cidade e que todo o cuidado era pouco.
Liv aproximou-se lentamente.
— Quem era o pai da criança, Jake?
Ele disse um nome e Liv se surpreendeu.
— Mas é o homem com quem Marilyn voltou a se
casar depois do divórcio!
Jake fez um sinal afirmativo.
— Ela não via a hora de voltar correndo para ele.
Mas, antes, avançou no meu dinheiro. Foi a forma de
se vingar de mim por se sentir rejeitada.
— Não foi sempre assim — murmurou Liv com voz
sumida.
— Ora, o que você queria? Eu era um moleque,
naquela ocasião! Sim, dormi com ela algumas vezes,
mas outros rapazes também dormiram. Só que eu
tive o bom senso de tomar certas precauções, de
modo que sabia que não podia ser o pai da criança.
— Mas você não disse que..
— Liv! — cortou Jake, impaciente.-— Já sei o que
quer saber! Não, não estive com ela naquele verão.
Nem com ela, nem com mais ninguém!
Olharam-se por longo tempo em silêncio e afinal ela
perguntou:
— Você tinha mesmo a intenção de dizer a seu pai
que queria casar comigo?
— Você ainda duvida?
— E Alyssa? — perguntou Liv, com voz abafada. Jake
esboçou um sorriso de ternura.
— Era uma menina linda. —- Você gostava dela?
— Muito. Meio estranho, não é? Mas, quando Alyssa
nasceu, tive vontade de ficar com ela.
— Fale-me dela. Gostaria de ouvir.
— Você foi sempre uma boa ouvinte, Liv. Diga,
costumava se sentar aos pés de meu pai e deixar
que ele abrisse o coração?
Ela soltou um grito e virou-se. Mas Jake a agarrou
pelos pulsos e levou-a para o sofá.
— Sinto muito. Sente-se.
Ao ver que Liv tentava escapar, ele a empurrou com
brutalidade.
— Já disse que sinto muito! Não banque a ofendida,
— Você não passa de um impertinente!
— Não quer saber o que aconteceu com o meu
casamento fracassado?
— Não estou implorando.
— Certo, certo.. . Mas ouça: Marilyn não me amava,
nisso meu pai tinha razão. Ela afirmou que o filho era
meu para evitar que a sua família a renegasse.
Quando saímos daqui, fomos direto para Atlanta. Eu
tinha que arrumar um emprego, porque não queria
aceitar nenhum níquel de meu pai. Mas o casamento
fracassou, como você já sabe.
— Antes de Alyssa nascer?
— Sim. Depois do nascimento dela, seu verdadeiro
pai apareceu. E!e e Marilyn se tornaram amantes e
então as coisas se precipitaram.
— Você se incomodou?
— Claro que não. Não via a hora de me livrar de
Marilyn, mas estava preocupado com Alyssa. Por
causa disso, deixei que Marilyn tomasse a iniciativa
de pedir o divórcio. Mas ela não parou por aí. Exigiu
também uma pensão alimentícia fabulosa. Para
encurtar a história, tive que trabalhar feito louco
durante anos para comprar a minha liberdade.
Detestei ter que deixar Alyssa com Marilyn. Mas ela
obteve a custódia da criança e eu tive de ceder.
— Alyssa sabe que você não é o pai dela?
— Oh, sim, Alyssa tinha três anos quando o divórcio
foi concedido. Ela e a mãe voltaram para
Winstonville e eu fiquei em Atlanta. Na hora da
partida, a menina se jogou nos meus braços e
começou a chorar. Foi nessa ocasião que Marilyn
contou que eu não era o pai dela.
— Oh, Jake... — murmurou Liv, estremecendo de
pena.
— Alyssa está com onze anos agora e ouvi dizer que
é uma menina muito revoltada. — Ele sacudiu a
cabeça. — É uma pena, ela era tão meiga!
— Pudera! Teve não sei quantos padrastos!
— Pois é. Duvido que ela se lembre de mim.
— A Air Dixie foi fundada nessa época?
— Não. Eu tirei o brêve de piloto quando estava na
faculdade. Quando mudei para Atlanta, comecei a
praticar e consegui as horas de vôo necessárias para
pilotar vôos charter. Pensei, então, em comprar meu
próprio avião. A oportunidade apareceu logo em
seguida: uma companhia aérea havia falido e os
aviões foram a leilão. Arrumei um sócio e
conseguimos
comprar um. Tivemos sorte. Em poucos anos a
companhia se expandiu e agora temos uma boa
frota.
— Foi assim que tudo começou?
— Exatamente.
A luz suave do abajur formava um halo em volta de
Liv, realçando-lhe a cor do mogno dos cabelos e a
brancura do colo. Jake pegou as mãos dela.
— Liv?
Aquela voz cheia de ternura tocou fundo no coração
de Caroline, que começou a tremer. Era uma
desgraça sentir-se assim no dia do funeral do
marido, mas estava completamente descontrolada.
Ao menor aceno de Jake, cairia em seus braços e não
haveria nada no mundo que pudesse impedi-la. Ela o
amava. Não como amara o ídolo da adolescência,
mas como uma mulher deve amar um homem. Sim,
apesar do temperamento exaltado de Jake, de sua
intolerância, da fúria com que se referia ao pai, ela o
amava.
Ergueu os olhos luminosos e fitou-o intensamente.
— Sim, Jake?
— Você pensava em mim quando fazia amor com
meu pai?
Nada no mundo poderia tê-la ferido tanto. Era pior do
que uma punhalada no peito! Liv soltou um grito de
dor e levantou-se.
— Canalha! Nunca mais se atreva a me dizer uma
coisa dessas!
Ele se levantou também e a encarou com ódio.
— Quero saber! Não teve dor de consciência ao se
casar com meu pai, depois que fomos praticamente
amantes?
— Eu queria ser sua, lembra? Foi você quem não
quis. — Ela esboçou um sorriso de escárnio. — Não
quis correr nenhum risco, não é?
— É verdade. Não queria magoá-la.
— Mas eu queria que você me magoasse!
Jake rangeu os dentes e sua voz reduziu-se a um
murmúrio.
— Gostaria de tê-la magoado dessa maneira. Queria
ser o primeiro homem da sua vida. — Ele deu um
passo para a frente.
- Mas para mim você era algo à parte, diferente das
outras moças com quem eu andava.
— Houve muitas?
— Sim.
— Antes e depois?
— Sim.
— Então, por que censura o meu casamento com
Roscoe?
— Pensei que gostasse de mim, Liv.
— E eu gostava.
Jake nada disse e ela se defendeu com veemência:
— Você estava ausente. . . Tinha ido embora para se
casar com outra, lembra? Podia ter escrito ou
telefonado, mas não fez nada disso! Por quê, Jake,
por quê?
— Mas você sabe por que fiquei calado! Quando me
livrei de Marilyn, quis procurá-la, mas soube que
você tinha casado com um colega de faculdade.
Perdi qualquer esperança. Mais tarde, recebi uma
notícia ainda pior: você era a esposa de meu pai!
Compartilhando a cama com ele, entendeu? Não
pode imaginar o que eu senti?
Ela respirou fundo e de repente percebeu que suas
mãos tremiam.
— Não podemos continuar assim, Jake. Estamos nos
destruindo!
— Tem razão. Vou-me embora amanhã.
Os lábios de Liv se moveram, mas não produziram
som algum. Ela pensou que fosse desmaiar, tamanho
foi o choque. Afinal, conseguiu se recuperar e dizer
com firmeza:
— Nada disso, esta é a sua casa. Quem vai embora
sou eu. Já sabia que depois da morte de Roscoe isso
iria acontecer.
— Sabe o que os outros vão dizer, se você for
embora? Que eu expulsei a viúva de meu pai! Não.
Voltarei para Atlanta amanhã.
— Mas, e o testamento, a Beneficiadora. .. Jake
pensou um pouco.
— Vou voltar para a leitura do testamento e
decidiremos então o que fazer. Vou mais tranquilo
sabendo que você está aqui com Laura Jane. Quanto
à Beneficiadora... — Ele sorriu sarcasticamente. —
Faça como sempre fez, sob a orientação de Roscoe.
Aquele sorriso exasperou Liv, que fez menção de se
afastar. Jake a impediu, puxando-a prontamente de
encontro ao peito. Ela ergueu a cabeça, com os olhos
nos dele.
— Não me olhe desse jeito, Liv, Você acha que eu
quero ir embora? Deixar o meu lar, a minha casa?
Laura Jane, Haney... — a voz dele transformou-se
num murmúrio — . . . você? Que inferno, Liv! Que
inferno!
Uma boca ávida tomou a dela, mas, desta vez, Liv
estava preparada. Seus lábios abriram-se,
convidando-o a entrar. Beijaram-se longa e
profundamente. Ele tomou-lhe o rosto entre as mãos
e suas bocas voltaram a fundir-se com intimidade.
Ficaram assim durante algum tempo, até que de
repente Jake a empurrou, com os olhos cheios de
angústia.
— Amaldiçoada por ter pertencido antes a ele e não
a mim! — gritou, caminhando para a porta com
passadas largas.
Liv continuou de pé, com os olhos fixos na porta que
acabava de se fechar, Sentia os olhos cheios de
lágrimas. "Eu amo você, Jake", murmurou para si
mesma.

— Laura Jane? — Steve ajoelhou-se no chão da baia


e tocou o ombro da jovem adormecida. — Que diabo
está fazendo aqur?
— Humm.. . — Ela esticou preguiçosamente os
braços. — Steve,já é dia? — perguntou, voltando a
espreguiçar-se, deixando entrever os bicos dos seios
arrepiados que a camisola transparente mal
escondia.
— Já — respondeu ele, desviando os olhos.
Laura Jane sentou-se e jogou os cabelos para trás.
Um fraco raio de sol penetrou pela janela da
estrebaria e iluminou-lhe os ombros nus. O ar da
manhã ainda estava frio, mas a baia forrada de palha
fresca onde ela dormia continuava quente e
aconchegante. Os cavalos relinchavam, ansiosos
pela ração de aveia, e uma poeira fina flutuava no ar.
— Como veio parar aqui, Laura Jane?
Ela sorriu e tocou-lhe o rosto recém-barbeado.
— Jake e Liv discutiram muito, ontem à noite. Fiquei
tão aflita que não conseguia dormir. Não quis
incomodar Haney, então vim para cá. Por que Liv e
Jake vivem brigando, Steve? Não consigo entender.
Ela passou os braços pelo pescoço dele e encostou a
cabeça no peito forte. Ouviu-o respirar fundo:
— Coisas que acontecem, Laura Jane.
— Não aguentava mais ficar em casa, Steve. Não
havia luz no seu apartamento e não tive outro
remédio senão vir para cá.
Steve pensou no que aconteceria se Jake Gyllenhaal
o surpreendesse junto com Laura Jane. O homem era
mesmo um doido! Achava, sem dúvida, que por ser o
patrão podia dar as cartas. Mas não era possível que
aquela cabeça quente acreditasse que ele queria se
aproveitar de Laura Jane! Steve amava
verdadeiramente aquela mulher-criança que
representava tudo o que era bom e puro num mundo
corrompido pelo ódio e pe!a desconfiança!
Havia jurado a sí mesmo não ficar sozinho com ela,
nem tocá-la. Porque, se o fizesse, teria que deixar o
"Retiro", o que não conseguiria suportar. Mas,
naquele momento, havia um risco que precisava
correr. Sem pensar nas consequências de seu ato,
ele retribuiu o abraço com suavidade.
— Não se preocupe, Laura Jane. Tenho certeza de
que os dois perderam o controle por causa da morte
de seu pai.
Os olhos de Steve a observavam com uma ânsia
incontida. Ela usava apenas uma leve camisola de
verão sob o robe que não ocultava nada. Sua pele,
quente e suave ao tato, fazia-o estremecer de
desejo.
— Quando as coisas se ajeitarem, Jake e Liv ficarão
amigos. Você vai ver. Não discutirão mais, prometo
— tornou a dizer.
Ela o olhou com uma expressão cheia de amor.
— Você é tão bom, Steve! Por que todo mundo não
pode ser como você?
— Eu não era bom, Laura Jane. Você é que me
tornou melhor.
— Eu amo você, Steve!
— Não diga isso, Laura Jane,
— Digo, porque é verdade! Quando se ama alguém,
deve-se dizer, não é?
— Acho que tem razão.
Emoções conflitantes dividiam o coração de Steve. A
afeição inicial que sentira por Laura Jane
transformara-se em amor, um sentimento
verdadeiro, que agora sabia ser correspondido. Até
aquele momento, Steve mal o admitia para si
mesmo. Mas, agora, não podia ficar calado. Não era
justo! Iria lutar por seu amor e que Deus o ajudasse!
Laura Jane aconchegou-se em seu peito e tornou a
olhá-lo com ternura. Cílios longos e espessos
orlavam-lhe os olhos límpidos e inocentes, olhos tão
puros que tinham conseguido curar um homem
amargurado de seu cinismo. Ela o olhava, esperando
docemente: a iniciativa teria de ser dele. Steve então
murmurou ao ouvido dela:
— Eu também amo você, Laura Jane.
— Oh, Steve! Eu amo você, eu amo você! — Ela
cobriu-lhe o rosto de beijos tão suaves que mais
pareciam toques de asas de borboleta.
— Amo você, Steve — voltou a dizer, oferecendo-lhe
a boca.
Steve respirou fundo, sentindo o tremor excitado do
corpo jovem tão junto ao dele. "Bolas!", pensou.
"Jake Gyllenhaal que vá para o inferno!"
Suspendeu gentilmente a cabeça de Laura Jane,
tomando-lhe os lábios suaves.
Sentiu os dedos dela acariciarem seu rosto e um
calor se alastrou por dentro dele. Nunca tinha sido
assim. Nunca. Tinha experiência com mulheres, mas
não com aquele tipo de mulher tão amorosa, tão
confiante e sincera.
Os lábios dela se entreabriram com naturalidade sob
os dele, cuja língua aventurou-se naquela maciez,
buscando, experimentando. Ela aconchegou-se mais,
fazendo-o sentir os seios e os pequenos bicos de
encontro ao peito. Steve a abraçou com mais força
ainda e sua língua adentrou a boca de Laura Jane.
Caíram lado a lado sobre a palha macia e juntos
lançaram-se numa orgia de descobertas. Laura Jane
enroscou as pernas esbeltas em torno do corpo dele,
apertando-o firmemente.
— Laura Jane — murmurou Steve, num suspiro, ao
tomar-lhe os seios com as mãos em concha. — Você
é linda!
Ela se esticou, arfante, com os olhos semícerrados.
— Steve, Steve.. . Faça amor comigo!
— Não posso, doçura. Sabe o que isso significa?
— Sei o que os homens e as mulheres fazem juntos.
Quero fazer isso com você.
— Não podemos, meu anjo.
— Você me ama? — Os olhos dela revelavam
incerteza.
— Claro que sim. Mas você é a filha do patrão e eu
sou apenas um empregado, Não posso fazer amor
com você.
Laura Jane pareceu desapontada.
— Oh.. . Temos.de parar de nos beijar?
Sorrindo, Steve inclinou-se novamente sobre aquela
boca macia.
— Ainda não.

— Bom dia.
Liv entrou na cozinha e serviu-se de uma generosa
xícara de café. Caminhou para a mesa evitando olhar
para Jake, que tomava sua refeição matinal.
— Vou telefonar para o médico — anunciou de
repente Haney, despejando os ovos mexidos numa
travessa.
Liv surpreendeu-se.
— Por quê? Alguém está doente?
— Você está abatida, cheia de olheiras. Vê-se logo
que não dormiu. Precisa tomar um calmante. Não
acha, Jake?
Ele permaneceu calado. Liv respondeu prontamente:
— De maneira nenhuma!
— Não seja teimosa — voltou a insistir Haney. —
Deixe as lágrimas correrem. Chorar faz bem.
— Não preciso de médicos — murmurou ela, ao
perceber que Jake a observava.
Haney suspirou, sem esconder sua exasperação.
— Coma, então, pelo amor de Deus! — Ela colocou a
travessa de ovos mexidos diante de Liv. — Vamos,
comece vou subir e acordar Laura Jane.
— Ela não está dormindo — afirmou Liv, despejando
creme no café. — Passei para chamá-la, mas o
quarto estava vazio,
Jake parou, enquanto Haney voltava-se lentamente,
com um prato de torradas na mão.
— Onde está Laura Jane? — perguntou ele. — Você
não a viu, Haney?
— Não. Pensei que estivesse dormindo.
Jake levantou-se, atirou o guardanapo em cima da
mesa e caminhou para a porta dos fundos a passos
decididos.
— Jake! — gritou Liv, correndo atrás dele. — Aonde
pensa que vai?
Ele encaminhou-se para a estrebaria com ar resoluto.
— Não se meta!
— Não tem o direito de surpreendê-los!
— Já lhe disse para ficar fora disso!
— Laura Jane não é mais uma criança.
— Para certas coisas ainda é!
Ele abriu devagar a porta da estrebaria e entrou no
recinto em penumbra, seguido de perto por Liv.
Quando suas botas rangeram no chão de tábuas,
Steve e Laura Jane viraram-se, assustados, e
separaram-se imediatamente. Contudo, Jake já vira
mais que o suficiente. Soltando um grito que fez
gelar o sangue de Liv, ele se atirou sobre Steve e o
agarrou pela camisa.
— Cachorro, covarde!
O murro de Jake atingiu o estômago de Steve, que
cambaleou. Quando conseguiu recuperar-se, Jake
avançou de novo, enchendo-lhe a cara de socos.
Laura Jane gritava sem parar, tentando intrometer-se
entre os dois, mas Liv segurou-a de lado.
O instinto de guerrilheiro de Steve despertara. Ele
enfrentou o adversário com fúria, acertando-lhe logo
um soco no queixo.
Ao ver o sangue espirrar do rosto do irmão, Laura
Jane gritou de novo e saiu correndo da estrebaria.
— Parem! — gritou Liv. — Parem, por favor!
Mas os dois voltaram a engalfinhar-se, sem dar
mostras de querer parar. Foi só depois de muitos
murros que ela conseguiu se interpor.
— Parem! Será que vocês ficaram loucos?
Jake ficou imóvel, mas ainda com a respiração
arfante. Quando conseguiu se recuperar, olhou Steve
com ódio.
— Você vai embora hoje mesmo! Liv voltou-se e
enfrentou-o. ,
— Ele vai ficar, Jake! Era a vontade de Roscoe e eu
vou respeitá-la. Tenho esse direito. Pelo menos até a
leitura do testamento, quando você terá a posse do
"Retiro".
— Vá para o diabo! — grunhiu Jake. — Isso não tem
nada a ver com o "Retiro". Diz respeito a Laura Jane
e ela é minha irmã!
— Concordo. Isso diz respeito a Laura Jane e só a
ela. — Os seios de Liv arfavam de cólera mal contida.
— Steve não está se aproveitando dela, como você
pensa. Ele ama Laura Jane, Jake! E ela o ama
também.
— Ela não sabe o que está fazendo.
— Sabe, sim. Será que só você não percebe o que é
tão evidente? A pobrezinha vai ficar de coração
partido se Steve for embora. Não faça isso, por favor.
— Eu só quero o bem de Laura Jane.
— Como sabe o que é melhor para ela?
— Porque sei.
— Do mesmo modo como Roscoe sabia o que era
melhor para você? Quer separá-los, como ele fez
conosco?
Jake olhou-a, sem demonstrar nenhuma emoção, e
permaneceu assim durante longo tempo. Afinal, saiu
da estrebaria sem dizer palavra.
Os olhos de Liv encheram-se de lágrimas. Tinha
encostado Jake na parede e ele iria odiá-la por isso.
Soltando um longo suspiro, voltou-se para Steve.
— Você está bem?
Ele fez um sinal afirmativo, pressionando o lenço
contra o lábio ferido.
— Já enfrentei coisas piores.
— Vou pedir a Haney que lhe faça um curativo.
Quando já estava na porta, ele a chamou.
— Sra. Gyllenhaal! Obrigado por tudo.
Ela sorriu e encaminhou-se para a casa. Quando
entrou na cozinha, viu Laura Jane sentada no colo de
Jake, chorando sem parar.
— Você está zangado comigo, eu sei — dizia ela,
entre soluços.
— Não, não estou. Não quero que lhe aconteça nada
de mau, só isso.
— Steve não estava fazendo nada de errado. Eu o
amo, Jake. Os olhos de Jake encontraram os de Liv,
que permanecia imóvel junto à porta.
— Não acho que você saiba o que é o amor, Laura
Jane. E também não tenho certeza se Steve a ama
de verdade.
— Mas eu sei que ele me ama!
— Falaremos disso mais tarde, Laura Jane. Me
desculpe, sim? Perdi a cabeça,
Mas Laura Jane não se deixou convencer assim tão
fácilmente.
— Promete que nunca mais vai brigar com Steve?
Jake não pôde esconder a surpresa, mas fez. um
sinal afirmativo.
— Prometo, Laura Jane.
Ela saltou para o chão e o beijou com doçura.
— Obrigada, Jake! Vou ajudar Haney com as
ataduras. Para ela, o caso estava encerrado. Saiu
da cozinha e foi
à procura da governanta. Assim que se viu a sós com
Liv, Jake levantou-se e, olhando-a com absoluta
indiferença, anunciou:
— Não vou embora hoje.
O coração de Liv pulou de alegria, mas ela não
deixou transparecer nada. Encarou-o com ar de
desafio.
— O que é, Jake? Pensa que vou corromper sua irmã
na sua ausência? Ou que vou arruinar a preciosa
reputação da família?
Um brilho rápido passou nos olhos de Jake.
— Mais ou menos isso.
Liv sentiu a raiva crescer no peito. Falou com uma
voz tão fria quanto a dele:
— Ainda me julga a garota fácil de outros tempos,
não é? Sirvo para os seus beijos, quando você tem
vontade, mas não tenho moral suficiente para fazer
parte da família!
— Não vou partir — foi só o que ele respondeu,
antes de deixá-la sozinha.

CAPITULO IX

- Bom dia, sra. Gyllenhaal!


— Lindo dia, não, sra. Gyllenhaal?
Liv recebeu com um sorriso os cumprimentos alegres
que lhe eram dirigidos. A Beneficiadora estava
trabalhando a todo vapor. Como era época de
colheita, os homens precisavam fazer horas extras
para atender ao enorme volume de pedidos. O
tempo custava a passar, as horas de trabalho eram
entediantes, o recinto ficava empoeirado, quente e
barulhento. Mas os empregados pareciam animados
pelo espírito de competição, coisa que não acontecia
havia anos. Não constituía nenhum segredo quem
era o autor da façanha: Jake.
Todo o equipamento passara por uma reforma, e por
isso estava operando em boas condições.
Fazendeiros, que em tem-
poradas anteriores haviam procurado outros centros
de comercialização, voltavam a servir-se da
Beneficiadora Gyllenhaal. Não era segredo, também,
o motivo de agirem assim: Jake.
Sob a sua competente administração, a
Beneficiadora sofrera uma mudança radical em
poucas semanas. Quase todos os empregados
estavam felizes com a volta dele. Os operários
passaram a receber gratificações pela produtividade,
e os poucos que não se mostraram dispostos a
cooperar foram despedidos.
Entre estes, Liv reconhecera alguns eternos
insatisfeitos, homens que Roscoe costumava usar em
certos trabalhos de natureza não muito honesta.
Numa ocasião, ela sugerira ao marido que se livrasse
daquela gente, mas percebera que era mais
prudente não se intrometer nos negócios particulares
de Roscoe.
— Esse sujeito é um mau-caráter — comentara ela,
certa vez, referindo-se a um dos empregados.
— Preciso dos serviços dele. Esse homem costuma
fazer certos... trabalhinhos para mim, Liv. Se você
perceber que ele está se comportando mal, faça de
conta que não viu, sim?
— Mas ele é um empregado, como todos os outros!
— Isso é o que você pensa! — Ao notar sua
expressão intrigada, Roscoe acrescentara
diplomaticamente:
— Não se preocupe. Se ele começar a causar
problemas, vou dar um jeito.
Liv percebia, agora, que o tal homem devia ser o
mesmo que os espionara naquele verão.
Apoiado por ela, Jake não perdera tempo para se
livrar daquele peso. Os operários honestos e leais
passaram a trabalhar movidos pelo entusiasmo, e
não mais pelo medo que Roscoe lhes incutia.
Jake sabia como motivá-los. Criticava
construtivamente, quando preciso, e não poupava
elogios, se merecidos. Não era de admirar que fosse
um empresário tão bem-sucedido.
Dez dias tinham se passado desde a cena entre Jake
e Steve, na estrebaria. Embora os dois ainda não se
falassem, haviam estabelecido uma trégua. Jake
passava a maior parte do tempo na Beneficiadora,
longe de Steve, sem ter oportunidade de voltar a
brigar.

Certa manhã, Liv estava pondo em dia a


correspondência da firma quando ele entrou no
escritório sem bater.
—Liv, queria lhe apresentar uma pessoa. Isto é, se
não estiver muito ocupada.
— Oh, não! Tenho algum tempo livre.
— É importante, caso contrário não a teria
interrompido. Ela ficou curiosa.
— Quem é?
— Surpresa!
Jake passou o braço sob o dela, com intimidade, e
levou-a para o recinto de pesagem, onde pilhas e
pilhas de fardos de algodão aguardavam o momento
de serem liberados para o almoxarifado.
Um homem gordo e vermelho, de terno branco e
chapéu panamá, tal como um personagem de
Tenessee Williams, retirava amostras dos fardos,
esfregando-as a seguir entre o polegar e o indicador.
Um grosso charuto pendia dos lábios dele,
lembrando-lhe Roscoe. Mas não havia nada de
dominador naquele homem, que a fitava sorrindo ao
vê-la chegar com Jake.
— Sr. Zachary Hamilton, esta é a sra. Liv Gyllenhaal.
— Sr. Hamilton... — Liv estendeu a mão para o
homem, que a apertou calorosamente.
— É um prazer conhecê-la, sra. Gyllenhaal. Um
verdadeiro prazer! Seu. . . enteado, Jake, estava me
contando que, sob a sua gerência, a Beneficiadora
Gyllenhaal vem crescendo muito.
Liv enrubesceu e disse, com modéstia:
— Jake exagerou. Mas sinto-me orgulhosa do
produto que estamos obtendo agora.
— O sr. Hamilton é comprador da Delta Mills, de
Jackson — interveio Jake, cujos olhos brilharam de
malícia ao perceberem a expressão de surpresa de
Liv.
— Oh. . . entendo... — murmurou ela, voltando-se
para o comerciante de algodão.
No sul dos Estados Unidos, todos os que trabalhavam
com algodão conheciam a Delta Mills.
— Será um privilégio servi-lo, sr. Hamilton — disse
ela,
contendo a excitação. Fornecer algodão para aquela
firma seria um verdadeiro golpe de sorte!
— Vocês são muito amáveis — disse o homem,
voltando a testar amostras, na tentativa de
determinar o comprimento das fibras. — Seu algodão
é de fibra longa. De boa qualidade. Acho que pode
nos interessar.
— Já reservamos um lote para a nossa clientela fixa
— explicou Jake, imperturbável.
— De que quantidade podem dispor?
Liv ficou observando com ansiedade enquanto os
dois homens entabulavam negociações, até que eles
chegaram a um acordo quanto ao número de fardos
e o preço da unidade. Era o melhor negócio que a
Beneficiadora Gyllenhaal já havia realizado, desde a
fundação!
— Para comemorar, nós lhe enviaremos a
mercadoria por avião — disse Jake, após o acerto
final.
— Avião? — O sr. Hamilton apertou o charuto entre
os dentes, fitando Jake com surpresa
— É um serviço que oferecemos apenas aos nossos
melhores clientes — afirmou Jake, com um sorriso
cortês.
Depois que o contrato foi assinado, e o sr. Hamilton
partiu, Liv encarou Jake com espanto.
— Por avião? Como é possível?
Ele riu e abriu uma das gavetas da escrivaninha.
— Ah, sabia que havia uma por aqui! —- exclamou,
exibindo uma garrafa de bourbon. Retirou a tampa e
deu um grande gole. — Comprei um avião antigo e o
recondicionei com as minhas próprias mãos.
Queremos impressionar a Delta Mills, não é mesmo?
Pois bem: vamos entregar a mercadoria por via
aérea!
— Mas o frete é caro demais!
— Não se a entrega for feita por mim. Vai nos custar
apenas o combustível e algumas horas do meu
tempo. Vale a pena fazer um investimento desses
para conseguir um cliente importante como a Delta
Mills. Saúde! — Ele tomou outro gole e depois passou
a garrafa a Liv. — Vamos, beba!
— Não. . . não devo.
— Por que não?
— E se alguém entrar? O que não vai pensar?
— Vai entender. Mas não se preocupe, já avisei que
ninguém deve entrar no escritório sem bater. Então,
vai beber ou não?
Liv pegou timidamente a garrafa e tomou um gole,
mas o líquido forte provocou-lhe lágrimas e um
acesso de tosse. Jake tirou a garrafa da mão dela e
começou dar-lhe pancadinhas nas costas, rindo sem
parar.
— Está melhor? — perguntou, ao ver que ela
enxugava as lágrimas com o dorso das mãos.
Ainda incapaz de falar, Liv limitou-se a sacudir
afirmativamente a cabeça.
— Oh, Liv, como estou contente! — exclamou ele,
com um entusiasmo juvenil. -— Tinha medo de que o
homem não gostasse do nosso produto, ou que fosse
embora sem dar uma resposta definitiva.
— Por que não me contou antes?
— Não queria que você ficasse frustrada se as coisas
não corressem bem.
— É, foi melhor assim. Gostei da surpresa.
— Sério?
— Sério.
Ninguém planejou nada. Tudo aconteceu
naturalmente. Jake ergueu Liv pela cintura e
começou a valsar com ela.
— Conseguimos! Fizemos um ótimo negócio! Sabe o
que isso significa, Liv? Que novos compradores vão
aparecer, na esteira da Mills. Você vai ver: no
próximo ano teremos que expandir a firma!
Quando ele a colocou no chão, pareceu muito natural
que a beijasse. A princípio, não se tratava de um
beijo de amor. Era um beijo de amigos, a
comemoração de um bom trabalho feito em
conjunto. Mas, no instante em que seus lábios se
encontraram, tudo mudou. Aos poucos, os beijos
tornaram-se mais ávidos e exigentes. Jake sentiu o
desejo nascer e crescer como uma onda que invadia
todo o seu corpo. Olhou intensamente para
Liv, admirando cada detalhe: o rosado das faces, os
tons de cobre dos cabelos, a luminosidade que fazia
os olhos dela brilharem como gotas de chuva sobre
um teto de ardósia, a sensualidade da boca...
Ela aguardava, dócil e macia nos braços de Jake, que
queria devorá-la, torná-la finalmente sua para todo o
sempre. Mas Liv tinha jurado fidelidade a seu pai até
que a morte os separasse. . . Roscoe estava morto,
mas sua sombra interpunha-se entre eles.
Aos poucos, o desejo que os unia foi morrendo e seus
corpos se separaram. Mas os olhos dele continuavam
presos aos dela, até que Jake percebeu a chama da
esperança morrer nos de Liv.
Voltou-se e dirigiu-se para a porta.
— Vou convidar a turma- para uma cervejinha.
Quero incentivá-los a produzir um algodão mais puro
para a Mills.
— É um belo gesto, Jake. Vejo você em casa?
— Claro. Não vou demorar.

Foi quase sem querer que Liv ficou sabendo que o


povo andava murmurando.
Haney telefonara-lhe no escritório, pedindo que
passasse pelo supermercado.
— Preciso de algumas coisas, Liv. Mas não quero
atrapalhar o seu trabalho.
— Não há problema. O expediente vai terminar mais
cedo hoje. Poderemos antecipar o jantar. Do que
precisa?
Liv estava passando por um dos corredores do
supermercado, ocupada em checar a lista de
compras, quando percebeu que duas mulheres a
fitavam com interesse. Reconheceu-as
imediatamente. Uma delas, considerada a língua
mais afiada da cidade, era irmã de uma sua ex-
colega de turma.
Não tinha como evitá-las, embora tivesse vontade.
— Sra. Lane. . . Sra. Harper. . .
— Como vai, sra. Gyllenhaal? Sentimos muito o
falecimento do seu marido — disse uma delas.
— A cerimônia fúnebre foi muito bonita — comentou
a outra.
— Obrigada — respondeu ela, disposta a seguir
adiante. Mas as duas não a largavam.
— É uma sorte que possa contar com Jake nessa
situação. Liv ficou imediatamente alerta. Todo o
cuidado era pouco com aquelas cascavéis.
— Apesar das circunstâncias, estamos muito
contentes. As duas trocaram olhares de
entendimento.
— Quanto tempo ele vai ficar por aqui? E os negócios
em Atlanta?
— Jake gosta muito de Winstonvílle. A cidade foi
fundada por um antepassado da mãe dele, como
devem saber. E o "Retiro" é seu lar.
Aquilo pareceu aguçar o apetite das duas mulheres,
que se aproximaram, prontas para dar o bote.
— O "Retiro" também é o seu lar. Então pretendem
morar juntos?
— Ainda não está nada decidido — respondeu Liv,
friamente.
— Ah, não?
— Dê lembranças a Sarah — cortou ela, referindo-se
à sua ex-colega de turma. — Ouvi dizer que vai ter
um bebê.
— Sim, o quarto — completou a mulher, olhando
com inveja para o corpo esbelto de Liv. — É uma
pena que não tenha um filho, sra. Gyllenhaal. Seria
um consolo, agora que seu marido morreu.
— Quem disse que a sra. Gyllenhaal precisa de um
filho, Flo? — disse a amiga. — Ela tem a companhia
de Jake, que lhe dá o consolo de que precisa.
— Ah, é verdade. Não podemos nos esquecer que
Jake voltou.
— Boa tarde —- murmurou Liv exasperada, seguindo
adiante
Não aguentava mais! Lágrimas de humilhação
queimavam-lhe os olhos. Se Roscoe estivesse vivo,
ninguém ousaria fazer insinuações. Ela voltara a ser
Liv Tyler e parecia que o estigma de seu passado iria
acompanhá-la pelo resto da vida. Ninguém levava
em conta o fato de ela proceder corretamente:
voltavam a considerá-la uma criatura indigna, de
moral suspeita.
Por que não tinha partido, então, livrando-se daquele
peso que carregava há tanto tempo?
Pelas mesmas razões de Jake. Suas raízes eram tão
profundas quanto as dele, embora suas posições
fossem bastante diferentes. Jake: estava no topo,
pertencia ao mais alto escalão da sociedade. Ela, ao
contrário, estava lá embaixo. Mas tão encravada
quanto ele.
Em momentos de desânimo e abatimento como
aquele, Caroline voltava a perguntar-se se não era
melhor ir embora de vez para algum lugar onde
ninguém a conhecesse.
Mas havia o "Retiro".
O castelo encantado de sua infância! Sabia que
nenhuma outra casa poderia substituí-lo. Quando,
por direito, o "Retiro" passasse às mãos de Jake, Liv
continuaria em Winstonville e voltaria a sonhar com
ele. Jamais poderia esquecê-lo. Jamais!
Durante o jantar, Liv mal tocou na comida. Seu olhar
ausente estava fixo no arranjo de flores que
enfeitava a mesa. Pensava nas palavras ouvidas no
supermercado, palavras que tinham um sabor
amargo.
Percebeu que Jake a encarava com expressão
preocupada e fez um esforço sobre-humano para
afastar as inquietações da mente. Afinal, não era
mais uma adolescente insegura, mas uma mulher
que estava dando tudo o que podia!
Depois do jantar, resolveu dar um passeio no bosque
para espairecer um pouco. A noite ainda não havia
caído. O ar era fresco, e a brisa suave do entardecer
agitava suavemente as árvores. Liv sentou-se sob
um caramanchão cheio de flores, um de seus lugares
favoritos no "Retiro". O chão, sob as árvores, estava
todo coberto de musgo, a vegetação era luxuriante e
ouvia-se com clareza o murmúrio das águas do rio.
A beleza do cenário acalmou-a, deixando-a em paz
consigo mesma. Mas o seu sossego logo foi
interrompido por uma sombra que emergiu do
bosque e caminhou em silêncio até ela. Jake!
— O que a preocupa, Liv?
— Você deve ter algum antepassado índio! Tem o
dom de aparecer sempre de surpresa.
— Não vim aqui para falar dos meus antepassados.
Quero saber qual é o problema, Responda.
— Como sabia que eu estava aqui?
— Isso não vem ao caso. — Jake inclinou-se para ela.
— Agora, responda, com os diabos! O que há de
errado com você?
Ela estremeceu. —- Nada.
— Há alguma coisa, sim. O quê?
— Nada, já disse!
— Não vou sair daqui enquanto não me contar. Os
pernilongos costumam aparecer quando escurece.
Se não quiser que esses vampiros a suguem, é
melhor dizer o que a preocupa. Algo que aconteceu
na fábrica? Eu? O quê, afinal?
— Esta cidade! — explodiu Liv, levantando-se e
caminhando até um carvalho de ramos frondosos.
— O que há de errado com esta cidade?
— Está cheia de gente mesquinha.
— Só agora percebeu isso?
— Não. Sei disso desde que tive idade suficiente
para entender certas coisas. É uma gente
preconceituosa e arrogante. E eu que pensava que
um diploma, um bom emprego e um novo nome me
reabilitariam aos olhos deles!
— Se os conhecesse melhor, saberia que estão é
com inveja da sua posição atual.
— Vou me lembrar disso, de hoje em diante.
— Que aconteceu?
Ela jogou os cabelos para trás e suspirou fundo.
— Uma coisa tão boba que é até vergonha eu me
aborrecer com isso.
— Conte tudo e pare de se aborrecer.
Liv disse o nome das duas mulheres e Jake
comentou:
— Hum. . . não estou gostando disso. Continue.
— Elas. . . elas disseram que eu tinha sorte de poder
contar com você, que era bom que estivéssemos
morando na mesma casa. Fizeram disso o ponto
central da conversa. Depois insinuaram . . . bom,
você pode imaginar o que insinuaram.
— Insinuaram que nós éramos mais do que apenas
bons amigos?
— É isso.
— Que alguma coisa de ilícito estava acontecendo?
— Sim.
— Que podíamos ser.. . amantes?
Liv sacudiu afirmativamente a cabeça. Um silêncio
constrangedor caiu entre ambos. O canto das
cigarras enchia o ar, as rãs coaxavam com
monotonia. Os seios dela arfavam e uma veia
pulsava na têmpora de Jake.
— Esqueça o que essa gente disse, Liv. Divertem-se
falando da vida alheia. Quando a morte de meu pai
deixar de ser novidade, eles vão mudar de assunto.
— Sei disso. Mas não consigo suportar insinuações.
Olharam-se furtivamente, ambos pensando a mesma
coisa:
— Seria ridículo se um de nós fosse embora antes da
abertura do testamento e todas as formalidades
legais — raciocinou Jake. — Não acha que isso
provocaria mais comentários?
— Também acho. Iriam dizer que você não me
aprovava.
— Como esposa de meu pai, você quer dizer.
— Sim.
— Por que iriam dizer isso?
— Por causa da minha origem, da diferença de idade
que havia entre mim e Roscoe.
— Eles teriam razão — sussurrou Jake, inclinando-se
para ela. — Eu nunca teria aprovado a escolha dele.
Não haveria de querer que você fosse sua esposa.
— Não, Jake — disse Liv, virando o rosto para evitar-
lhe a proximidade.
— Por que se incomoda tanto com bobagens? Sua
consciência está tranquila,.não é? Você sabe que não
fez nada que pudesse dar motivo a comentários.
— Claro.. .
Ele chegou perigosamente perto.
— Afinal, não existe nada entre nós.
— Ê verdade.
— Mentirosa!
O coração de Liv quase parou.
— Não mereço isso...
— Não mesmo? Então diga que não acontece nada
especial quando nos olhamos! Diga que não se
lembra daquele dia de verão que choveu! Diga que
não quer que eu a beije! Diga que não quer sentir as
minhas mãos no seu corpo! Consegue dizer isso, Liv?
A resposta dela foi um profundo suspiro.
— Foi o que pensei! — exclamou ele, triunfante.
O beijo de Jake foi quente e suave ao mesmo tempo.
Ela sentiu uma fraqueza que a dominava toda, como
se estivesse flutuando no ar.
— Beije-me — ordenou Jake, rouco.
Liv passou-lhe os braços pelo pescoço e o beijou,
ansiando pelo contato da língua dele, que penetrou a
princípio com suavidade em sua boca, e depois com
sofreguidão. Ela sentia um calor insuportável entre
as coxas, no ponto onde se aninhava a virilidade
pulsante de Jake, e gemeu alto.
Colou-se ainda mais àquele corpo todo rijo,
contorcendo-se de prazer quando a mão dele cobriu
a maciez de seus seios, por baixo do vestido. Os sons
ofegantes que emitia, cada vez mais altos e
descontrolados, eram o eco de seu desespero, da
agonia do desejo não satisfeito.
Jake afastou com impaciência. o sutiã de cetim e
renda e começou a beijar os seios nus; língua, lábios
e dedos ocupados em mordiscar, sugar, tocar os
bicos arrepiados. A respiração passava aos arrancos
pela garganta de Liv, que se sentia toda úmida de
desejo de entregar-se por inteiro, de ser totalmente
preenchida.
Só ela soube quanto lhe custou arrancar-se dos
braços de Jake.
— Não! — gritou, cobrindo os seios com as mãos. —
Eu não posso. Não podemos!
Ele a fitou com os olhos incendiados de paixão.
— Por quê? Por causa de meu pai?
— Oh, Jake! Não é por isso! Não quero me tornar o
que essa gente maldosa espera de mim!
— Não me importo com o que eles dizem!
— Eu, sim! — Ela estava chorando. — Você pertence
à família dos Winston e dos Gyllenhaal. Não importa
o que faça, estará sempre acima de qualquer
censura. Ninguém ousará criticá-lo. Mas eu vim de
baixo e isso ninguém vai esquecer.
Jake agarrou-a rudemente pelos ombros.
— Esta proximidade é uma agonia. Quando estou a
seu lado, não consigo sufocar a vontade de tocar,
beijar, fazer amor com você.
— Eu sei, Jake.
— Admiti o que não queria. Era isso que desejava
ouvir?
— Não, Jake. Eu já sabia. — Ela o olhou com ternura.
— Sinto o mesmo por você.
À luz difusa do luar, Liv teve a impressão de que os
olhos dele estavam úmidos. Percebeu que os lábios
de Jake se moviam, mas não emitiram nenhum som.
Seu corpo tremia de emoção mal reprimida.
— Percebe por que não posso me entregar a você?
Assim como você, ninguém vai esquecer que eu era
a esposa de Roscoe.
O rosto de Jake transformou-se numa máscara
impenetrável.
— O que pretende fazer depois da leitura do
testamento?
— Vou embora, Jake. É a única saída.
Ele baixou a cabeça e, sem dizer uma palavra,
desapareceu
nas sombras do bosque. Liv encostou-se no tronco
do velho carvalho e escondeu o rosto entre as mãos.
Nenhum dos dois percebeu a pequena sombra que
se esgueirou furtivamente entre as árvores.

CAPITULO X

O apartamento estava na penumbra, iluminado


apenas pela luz azulada do televisor. Ela entreabriu a
porta do quarto com cautela e chamou:
— Steve?
Ele acordou com um sobressalto.
— Laura Jane! — murmurou, incrédulo.
— Não tinha certeza se você estava em casa. Eu o
acordei?
Ainda sonolento, Steve puxou o lençol para cobrir o
peito nu e sentou-se, apoiando-se na cabeceira da
cama.
— Tudo bem, não tem importância. Mas o que está
fazendo aqui? Se o seu irmão souber. . .
— Não vai perceber. Saiu com a caminhonete feito
louco. Ele e Liv. . Oh, Steve! Não entendo mais nada!
— Laura Jane cruzou o quarto correndo e jogou-se na
cama, ao lado dele.
Automaticamente, Steve rodeou-lhe os ombros com
o braço.
— O que foi que aconteceu? Por que está tão aflita?
— Jake. Ele brigou com você porque a gente estava
se beijando. E me fez sentir culpada. Mas, se era
errado, por que ele e Liv fizeram a mesma coisa? O
que é errado para nós não é errado para eles?
Também não são casados!
— Você os viu juntos? Eles se beijaram?
— Sim. Lá no caramanchão. Eles não me viram.
Steve correu os dedos pelos cabelos dela. Não queria
preocupá-la ainda mais. Disse com cuidado.
— Não devia ter ficado espiando. Laura Jane ergueu
os olhos inocentes.
— Tem razão. Não devo ficar espiando as pessoas.
Haney me disse para não fazer isso.
— Não é bonito.
— Eu sei, Steve. Mas ouvi vozes e fiquei curiosa.
Quando cheguei lá, vi que Jake beijava Liv. Estavam
apoiados no tronco da árvore velha, tão juntos que
pareciam um só.
Steve começou a acariciar a nuca de Laura Jane, que
suspirou, feliz, e contou o resto da história:
— Liv disse que não deviam se beijar porque as
pessoas iriam pensar que eles eram maus. Jake só
ouvia, sem abrir a boca. Parecia zangado, mas não
com Liv. Dava a impressão de que queria beijá-la de
novo.
Laura Jane interrompeu-se. Quando tornou a falar,
havia angústia em sua voz.
— Liv disse que irá embora assim que terminar a
leitura do testamento! — Apoiou a cabeça no peito
de Steve. — Não quero que ela vá. Eu gosto dela.
Gosto de Jake. Por que não podemos continuar todos
juntos para sempre?
Steve continuou a acariciá-la, com ar pensativo. As
peças agora se ajustavam, formando figuras de que
antes nem desconfiava, Não ouvira Liv lembrar a
Jake que Roscoe os separara? No passado, eles
certamente tinham sido importantes um para o
outro. Mas Jake partira e ela se casara com o pai
dele. Agora voltavam a se sentir atraídos um pelo
outro. Estavam presos na armadilha de uma situação
insustentável.
— É uma encrenca dos diabos! — murmurou Steve.
— Sabe do que eu gostaria? — perguntou Laura
Jane, com voz meiga.
Steve tocou-lhe gentilmente o rosto, admirando a
pureza de suas linhas, a inocência de sua mente, a
sua falta de malícia. Eram qualidades preciosas.
Antes de encontrar Laura Jane, pensava que toda a
humanidade era sórdida, ele incluído.
— Do que gostaria? — perguntou-lhe.
— Que eles pudessem se amar como nós nos
amamos.
Ele teve vontade de rir e chorar ao mesmo tempo.
Puxou Laura Jane para si e beijou-lhe os lábios
entreabertos.
— Steve?
— Hum. . .? — Ele a cobria de beijos leves no rosto,
na testa, nas pálpebras.
— Não está usando a perna mecânica?
Ele estremeceu, sentindo o coração contrair-se.
— Não. Não estou,
— Quero ver você. Por favor!
Laura Jane tentou afastar o lençol, mas Steve
segurou-lhe a mão com firmeza.
— Não!
O tom de sua voz era frio e duro, mas ela lhe
sustentou o olhar sem sombra de medo.
— Por favor, Steve. . .
Ele afastou-lhe as mãos com raiva. Ela queria vê-lo?
Pois que visse! Não devia ter pena de si mesmo. Era
preferível enfrentar logo o inevitável. Iría entender se
ela saísse correndo de horror e repulsa. Era mesmo
um homem deformado, e quanto antes Laura Jane o
percebesse, melhor.
Arrancou o lençol que lhe cobria o corpo. O ar frio da
noite provocou-lhe um arrepio. Steve contraiu os
maxilares com força e fitou o teto, tentando
concentrar-se nas sombras lançadas pela luz
cambiante do televisor. Não queria ver a expressão
de repugnância que certamente se estamparia no
rosto dela. Queria tapar os ouvidos para não ouvir a
exclamação de horror que porventura ela emitisse.
Steve compreenderia. Laura Jane não conhecia a
feiúra. Era uma crisálida graciosa, vivendo em seu
casulo protetor. O mundo de onde ele vinha, a selva
devastada pela brutalidade da guerra, era-lhe tão
desconhecido quanto a vida em outro planeta.
— Oh, Steve...
Não era o tipo de reação que ele havia esperado. A
voz dela estava trêmula, emocionada, quase
reverente. Baixando a cabeça, Steve viu as mãos de
Laura Jane tocarem-lhe o coto com gentileza. Sentiu
o leve toque de seus dedos, mas não conseguia
acreditar. A pele dele arrepiou-se, seu coração
explodiu de amor.
— Steve, você é lindo!
Ele procurou, mas não encontrou nenhum traço de
repugnância, nem mesmo de piedade, nas feições
delicadas de Laura Jane. Apenas amor e admiração.
Arquejante, Steve a puxou para si e tomou-lhe o
rosto entre as mãos, beijando-a com novo ardor. Sua
língua penetrou na boca de Laura Jane,
experimentando-lhe toda a doçura. Com um impulso
ditado pelo instinto, ela sugou-lhe delicadamente os
lábios, enquanto ele voltava a introduzir a língua em
sua boca.
— Laura Jane, Laura Jane. . .
Mergulhou o rosto nos longos cabelos castanhos,
tentando recobrar o fôlego e o bom senso. Seu sexo
estava túrgido, ardendo de paixão. Steve abraçou-a
com toda a força, esmagando-lhe os pequenos seios
de adolescente de encontro ao peito.
Ela afastou o corpo, ofegante.
— Eu me sinto tão diferente por dentro! —
confessou com toda a candura.
Ele riu sem querer.
— Eu também.
— Meu coração está batendo mais depressa. —- Ela
colocou a mão dele sobre o seio esquerdo. A palma
de Steve fechou-se em torno da carne jovem e
macia.
— O meu também — sussurrou, rouco.
— É assim que a gente se sente quando faz amor?
Steve balançou a cabeça, incapaz de falar.
— Não podemos fazer amor porque não somos
casados, não é, Steve?
Ele gemeu e abraçou-a.
— Sim, doçura. Não seria justo para você.
Nem para ele. Se a tivesse uma úníca vez, haveria de
querê-la pelo resto da vida.
— Então, Steve, por que não nos casamos?
No salão do "Retiro", reunia-se um grupo taciturno. O
dia estava igualmente fechado. Nuvens cinzentas,
prenunciadoras de chuva, encobriam a paisagem.
Quando viesse, a chuva seria um alívio naquele calor
opressivo.
Por duas vezes consecutivas Granger Hopkins tivera
de transferir a data da leitura do testamento de
Roscoe. Na primeira, Jake viajara inesperadamente
para Atlanta, a fim de resolver questões relativas à
Air Dixie. Na outra, um cliente solicitara com
urgência os conselhos jurídicos de Granger, que
tivera de atendê-lo.
Liv alegrara-se secretamente com aqueles
adiamentos. Planejava procurar uma casa sem perda
de tempo, já que em breve teria de deixar a velha
mansão, mas não sentia a mínima vontade. Sob o
pretexto de que seu trabalho na Benefíciadora sra
indispensável, esquivava-se do compromisso
assumido consigo mesma.
Ela e Jake trabalhavam como nunca. Saíam de casa
bem cedo e só voltavam ao anoitecer. Quase todo o
algodão da temporada já estava beneficiado,
embalado e pronto para ser remetido aos clientes. O
pedido da Delta Mills seguira de avião, como Jake
prometera.
A única coisa que compartilhavam era o sentimento
de satisfação pelo trabalho desenvolvido em
conjunto. Não surgira nenhuma ocasião de ficarem a
sós. Desde a noite no caramanchão não trocaram
sequer um beijinho de boa-noite. Mas o desejo
estava sempre presente, fluindo constantemente
entre ambos.
Granger sentou-se atrás da mesa cheia de
documentos e assumiu o comando, chamando a
atenção dos presentes.
— Estamos prontos?
Laura Jane e Jake sentaram-se num pequeno sofá,
com as mãos afetuosamente entrelaçadas. Liv
acomodou-se numa poltrona e Haney ficou à sua
direita.
Granger retirou os óculos do bolso interno do paletó,
colocou-os e, com gestos comedidos, abriu um
grande envelope amarelo. Conferiu rapidamente as
folhas e começou a ler.
Roscoe não fora um homem generoso. Chorava cada
centavo que sua esposa Marlene doava aos pobres.
As contribuições
filantrópicas que fizera enquanto vivo não haviam
sido ditadas pela caridade, mas pela conveniência, já
que eram dedutíveis do imposto de renda. Em seu
testamento, entretanto, estava estipulada uma
quantia razoável para a igreja da qual fora um
membro infiel para diversas instituições de caridade.
Granger fez uma pausa na leitura e tomou um gole
de água. Voltou a ler com voz monótona, mas com
uma visível relutância, cujo motivo começou a ficar
claro à medida que as cláusulas do testamento eram
enunciadas.
Terminada a penosa leitura, Granger tirou os óculos,
guardou-os novamente no bolso interno do paletó e
arrumou a pasta.
Haney e Liv entreolharam-se, estarrecidas. Até Laura
Jane, que não entendera muito bem as implicações
do testamento do pai, compreendeu-lhe a intenção.
— Papai não deixou nada para Jake! — exclamou,
dirigindo-se a Granger, mas fixando os olhos no
irmão, cujo rosto parecia esculpido em pedra.
— O velho canalha! — murmurou Haney entre os
dentes, deixando a sala feito um furacão. Recusaria
a quantia que lhe fora destinada "pelos anos de
dedicação a Laura Jane!".
Liv levantou-se lentamente e deu um passo na
direção de Jake.
— Jake, sinto. ..
Ele voltou a cabeça, fitando-a com tanta frieza nos
olhos dourados que as palavras dela morreram na
garganta. Permaneceu parada no meio da sala, sem
saber o que dizer, enquanto ele se levantava do sofá
e saía sem dizer nenhuma palavra.
Granger seguiu-o e alcançou-o junto à porta de
entrada.
— Jake, sinto muito — disse, pegando-o pelo braço.
— Se você soubesse como detestei ter que ler esse
testamento! Implorei a Roscoe para reconsiderar as
suas decisões.
— Devia conhecê-lo melhor. Pouparia o seu fôlego.
— Há muitos anos, tentei convencer sua mãe a
conservar a casa e a propriedade em seu próprio
nome, mas ela não quis me ouvir. Passou tudo para o
nome de Roscoe.
— Nunca pensei que, um dia, o "Retiro" deixasse de
pertencer a um Winston. Passou para as mãos de
uma Tyler, agora! — O tom de Jake era de desprezo.
— Está enganado, se pensa que Liv tem alguma
coisa a ver com a decisão de Roscoe.
— Será?
— Completamente — disse o advogado, enfático. —
Ela ignorava tudo, como ignorava também quem era
o doador da bolsa de estudo.
— Como soube disso? — perguntou Jake, surpreso.
— Como advogado, eu estava a par dos negócios de
Roscoe. Inclusive dos particulares. Não consegui
entender o motivo da doação, naquela época. Pensei
que fossem amantes, mas... seu pai tinha outras
para levar para a cama. Só muito tempo depois
consegui descobrir o mistério. Ele usou Liv para
atingir você, não é?
Jake não admitiu nada. Aparentemente, o advogado
juntara as peças do quebra-cabeça. Mas faltava uma
de vital importância: Granger ignorava o que
houvera entre ele e Liv no passado.
— Bom, se foi esse o seu último desejo, ele deve
estar satisfeito lá no inferno. Porque, desta vez, ele
me pegou — afirmou, saindo e batendo a porta atrás
de si.
Da sala, um par de olhos azuis observou-o ir. Liv
tinha o que sempre havia desejado: o "Retiro", Mas,
a que preço?
— Liv, o que vou fazer com a Beneficiadora? —
perguntou Laura Jane com ar perdido, enquanto se
aproximava da madrasta. — Estive lá poucas vezes,
não entendo nada daquilo!
Çaroline ficou com tanta pena que esqueceu sua dor.
— Não se preocupe com isso, Tudo vai continuar
como antes. Seu pai quis, apenas, que você ficasse
com os lucros da fábrica.
— E você?
— Vou receber um salário para administrá-la em seu
lugar. Vamos contar também com a orientação de
Granger.
— Você vai ficar aqui, não é mesmo, Liv? — Laura
Jane ainda não parecia convencida.
— Não ouviu o que Granger disse? Seu pai me
doou o "Retiro".
Liv não era nenhuma ingênua. Sabia por que Roscoe
agira daquela forma: ao doar-lhe o "Retiro", criara
um permanente pomo de discórdia entre ela e Jake.
Era, agora, a proprietária da casa que sempre
pertencera à família dele! E Jake amava aquela velha
mansão mais do que a tudo no mundo.
— Você vai ficar, mas Jake não — deduziu Laura Jane,
à beira das lágrimas.
— Não, Jake não vai ficar — confirmou Liv,
entregando a jovem aos cuidados de Haney para
poder chorar às escondidas.

— O que faz acordada?


— Estava à sua espera.
— Quanta honra!
— Preciso falar com você.
— Sobre o quê?
— Não seja tão intolerante, Jake!
— Ora vejam só! — Ele ergueu ironicamente as
sobrancelhas. — Agora, que é a dona da mansão, vai
querer dar as ordens?
O saguão estava às escuras. Era tarde da noite. Jake
não voltara para o jantar e Liv chegara a recear que
ele tivesse ido embora de vez. Mas é claro que Jake
não iria partir sem despedir-se da irmã. Assim,
quando ouvira os pneus da caminhonete rangerem
no pátio ensaibrado, descera as escadas disposta a
enfrentá-lo.
Liv parou no último degrau. Jake, aos pés da escada,
fitava-a com arrogância.
— Entendo a sua raiva — começou ela,
cautelosamente.
— Não diga!
— Por favor, Jake...
— Por favor o quê?
— Não me guarde rancor. Não tenho nada a ver com
a doa-
ção de Roscoe. Fiquei tão transtornada quanto você.
Por que não entra com uma ação judicial?
— Para dar a esta cidade e a Roscoe, lá no inferno, a
satisfação de saberem que estou aborrecido? Não,
obrigado.
"Roscoe esfá morto!", ela quis gritar. Quando iria
terminar aquela guerra entre pai e filho?
— Não importa o que esteja escrito naquele papel!
— gritou. — Esta casa é sua, e será sempre assim.
Você pode viver aqui pelo resto de sua vida, se
quiser.
Ele riu, mas não de alegria,
— As cláusulas do testamento estipulam que só
Laura Jane pode morar aqui pelo resto da vida. Eu
não. Sua hospitalidade me confunde, senhora.
Ela estremeceu diante de tanto sarcasmo, mas
endireitou os ombros, assumindo um ar de
dignidade.
— Você está determinado a me ferir? Muito bem. Já
que sente satisfação com isso, continue. Xingue-me,
se tiver vontade.
Inesperadamente, ele a agarrou pela cintura e a
puxou para si, abraçando-a com tanta força que Liv
mal podia respirar. Ela fechou os olhos ao senti-lo
afundando a cabeça em seus seios, gemendo
baixinho.
— Sinto muito, Liv. Sinto de verdade. — Suspirou e
afastou a cabeça. — Sim, tem razão, estou morrendo
de ódio. Mas não de você. Dele! O pior de tudo é que
Roscoe está morto, o canalha! Não posso enfrentá-lo.
Não tenho como extravasar este ódio que me rói por
dentro.
Liv estendeu a mão, querendo confortá-lo, mas
deixou-a cair lentamente. Jake confundiria seu gesto
de amor com piedade e a odiaria por isso.
— Onde esteve até agora? — perguntou-lhe com
doçura. Ele respirou fundo e desabotoou o primeiro
botão da camisa,
revelando o tórax coberto de pêlos escuros.
— Dando uma volta por aí. Esta cidade é o meu lar,
Caroline. E, apesar dos seus defeitos, eu a amo. Não
vou deixar de gostar dela só porque os seus
habitantes não são perfeitos, tal
como não vou deixar de amar Laura Jane apesar da
sua deficiência. Vou sentir falta daqui quando for
embora.
— Está disposto a partir?
— Sim. Amanhã de manhã.
Liv sufocou um gemido. Dessa vez, se ele fosse
embora, seria para sempre. Sentia isso!
— Jake, que espécie de monstro era Roscoe?
Nenhum homem normal teria coragem de deserdar
um filho como você!
Ele percebeu as lágrimas que rolavam pelo rosto
dela. Caroline chorava por ele e por tudo que não
pudera ser. Queria apertá-la nos braços, mergulhar a
cabeça em seus seios, sentir o aroma de seu corpo.
Queria roçar os lábios por sua pele cheirosa, atingir o
êxtase junto com ela. Mas tinha as palavras de seu
pai gravadas a fogo na mente:
"Você nunca terá essa mulher, Jake, Eu o conheço. O
estúpido orgulho dos Winston não o permitirá.
Porque eu a tive primeiro! Lembre-se disso. Ela foi
minha esposa e eu a tive primeiro".
— Está enganada, Liv. Ele me deixou um legado.
Um legado infernal.
Jake passou por ela e subiu as escadas. Liv o seguiu
de cabeça baixa, dirigindo-se para o quarto. Tirou o
robe e estendeu-se na cama, cansada mas sem sono.
Pensava que não iria conseguir pegar no sono, mas
já estava quase dormindo quando o telefone tocou.
— Alô.
Alguns instantes depois ela saía correndo do quarto.
Quase voando pelo corredor escuro, abriu a porta do
quarto de Rinlc e acendeu as luzes.
— Jake! Acorde
Ele resmungou qualquer coisa e rolou na cama,
olhando-a pelas pálpebras semicerradas. Ao vê-la
ofegante, com uma expressão ansiosa estampada no
rosto, sentou-se de chofre.
— Que é.. .
— A fábrica está pegando fogo!
Ele arremessou as cobertas para um lado e enfiou
apressadamente o jeans que estava dobrado numa
cadeira.
— Como soube?
— Barnes telefonou. , — É coisa grave?
— Ele ainda não sabe.
— Já chamaram os bombeiros?
— Sim.
Haney apareceu nesse instante, ainda amarrando o
cinto do roupão.
— O que é que está acontecendo? Ouvi vozes e. . .
— A fábrica está pegando fogo.
— Oh, Deus!
Liv deixou os dois e precípitou-se para o seu quarto
para trocar de roupa, Queria ir junto com Jake, que já
estava pronto. Vestiu-se rapidamente, mas quando
saiu do quarto ele já estava descendo as escadas.
— Espere por mim, Jake!
— Você vai ficar aqui! — respondeu ele sem se virar.
— É o que pensa!
— Aonde vocês estão indo?
Laura Jane parecia uma boneca em sua camisola cor-
de-rosa, com os olhos imensos arregalados de
espanto. Haney aproximou-se e pôs a mão no ombro
dela.
— Há um incêndio lá na Beneficíadora. Liv e Jake
vão ver o que se pode fazer. Vamos até o pátio com
eles.
Jake já estava esquentando o motor da caminhonete
no pátio dos fundos, quando Liv o alcançou.
— Você não vai! — gritou ele.
— Se não me deixar entrar, vou segui-lo no meu
carro — afirmou ela, categoricamente,
Resignado, Jake curvou-se sobre o banco e abriu-lhe
a porta.
— Está bem, vamos.
Steve, que ouvira toda a movimentação, correu ao
encontro deles.
— Fogo na Beneficiadora! — gritou-lhe Liv da janela
do carro.
— Vou com vocês.
— Não, Steve!
A voz de Laura Jane parecia a de uma criança
amedrontada.
— Fique com as duas — aconselhou-o Liv.
Steve olhou-a com firmeza.
— Serei mais útil lá do que aqui.
— Não vá! Vou ficar nervosa — gritou Laura Jane,
jogando-se nos braços dele.
— Que é isso, Laura Jane! Alguém precisa ficar com
Haney e conto com você. Quando eu voltar, vamos
tomar café juntos. Está bem?
— Está bem, Steve. Mas tome cuidado.
— Fique descansada.
Ele beijou-lhe suavemente os lábios e entrou na
caminhonete, sentando-se ao lado de Liv. Jake fitou-o
por um longo momento e depois arrancou a toda.
Ao chegarem, souberam que o incêndio era de
pequenas proporções e que, graças à intervenção
rápida de Barnes, já estava sob controle.
Liv quis entrar no edifício para certificar-se de que a
documentação da fábrica não sofrera danos, mas
Jake a agarrou pelos ombros, sacudindo-a com força.
— Está procurando encrencas? Já temos muitas.
— Desculpe.
Havia muito o que fazer. Jake convocou uma equipe
de voluntários que, sob a sua orientação, começou a
retirar da zona atingida todo o material que se
salvara. Steve, apesar da perna defeituosa,
trabalhava como ninguém. Passadas duas horas, os
escombros já tinham sido removidos e todos
respiraram, aliviados.
Nesse instante, Liv e Jake foram abordados pelo
chefe de bombeiros e pelo xerife.
— O incêndio foi criminoso, Jake. Os seus
extintores de
incêndio são muito antiquados e isso facilitou a ação
dos delinquentes.
— Sei disso, infelizmente. Os estragos foram muito
grandes?
— Quase nada, comparado ao que podia ter
acontecido se não tivéssemos chegado a tempo.
— Ainda bem que quase toda a mercadoria estava
no almoxarifado e não foi atingida — comentou Liv.
— Têm ideia de quem possa ter sido? — perguntou o
xerife.
— Eu tenho. — Barnes, o gerente, deu um passo
para a frente. — Alguém me telefonou avisando. Um
dos que tomaram parte no complô se arrependeu no
último instante, imagino. O homem não se
identificou, mas tenho certeza de que é um dos
empregados dispensados.
— Pode me dar os nomes desses homens? —
perguntou o xerife a Jake.
Jake deu os nomes, o xerife coçou a cabeça.
— São elementos perigosos. Como foi contratá-los?
— Não fui eu que os contratei. Foi meu pai.
Jake lançou um olhar preocupado a Liv, que dava
sinais de exaustão.
— Se não precisarem mais de mim, gostaria de levar
Liv para casa.
— Claro. Entraremos em contato assim que tivermos
alguma novidade.
Assim que a caminhonete estacionou no pátio da
mansão, Haney e Laura Jane foram ao encontro dos
três.
— Você está bem, Steve? — perguntou a moça.
— Claro!
— Não parece —- resmungou Haney. — Aliás, todos
vocês estão em péssimo estado. Vão tomar logo um
banho, enquanto eu preparo um café reforçado.
— Steve! — O homem parou ao ouvir a voz de Jake.
— Obrigado.
— Não tem de quê, Jake.

Os dois se fitaram por um longo momento, e depois,


sorrindo, trocaram um aperto de mão.
Liv deixou cair as roupas no chão do banheiro e
mergulhou na água fumegante. Seus músculos
relaxaram aos poucos, afastando a tensão das
últimas horas. Esfregou o corpo e lavou os cabelos,
sentindo-se imediatamente mais bem-disposta.
Quan-
do terminou, enxugou-se com vigor e vestiu um
roupão felpudo.
Tinha acabado de sair do banheiro quando ouviu
uma batida na porta.
Jake entrou e ficou parado no meio do quarto. Ela
levou a mão à boca para conter uma exclamação de
surpresa.
— Haney achou que você ia precisar disto — disse
ele, mostrando a bandeja com café e suco de laranja
que trazia.
— Obrigada. O café está cheirando bem.
Jake colocou a bandeja na mesinha, mas não fez
menção de sair. Seus olhos pareciam despi-la,
devorá-la.
Liv enfiou as mãos nos bolsos do roupão, sem saber
o que dizer ou fazer. Experimentava uma emoção
estranha que a fazia sentir-se completamente nua,
lânguida e sem forças. Uma onda de calor envolveu-
a quando Jake deu um passo para a frente. Um
segundo depois estava nos braços dele, com os olhos
cheios de lágrimas. Todo o sofrimento, toda a
angústia daqueles anos longos e vazios
desapareceram numa torrente de felicidade.
— Temos que ajustar contas, Liv — murmurou Jake.
— Sim, temos.
— Vai ser um longo acerto. Ela sorriu.
— Muito longo.
CAPITULO XI

O clarão do amanhecer, filtrado pelas cortinas


fechadas, deixava o quarto na penumbra. O ar
estava perfumado pelas magnólias que floresciam no
pátio.
Liv nunca se sentira tão feliz. Antes, amara Jake
como uma garota, mas agora amava-o como mulher,
consciente de tudo o que ele tinha para lhe dar e
ansiosa por entregar-se a seus carinhos.
O corpo quente de Jake tremia de uma emoção que
ela logo reconheceu. Colou-se a ele, cheia de alegria
e de vontade de submergir naquela onda de
sensualidade.
Jake abraçou-a com mais força. Com os olhos
fechados insinuou as mãos dentro do roupão dela e
acariciou-lhe lentamente as costas, desde os ombros
até a cintura, e então, cada vez mais baixo,
alcançou-lhe as nádegas firmes. Sustendo-as nas
mãos, puxou Liv de encontro ao corpo, sua virilidade
reagindo de imediato. — Liv. . .
Suas línguas se exploraram, despertando todos os
outros sentidos.
Os dedos ansiosos de Liv se enredaram nos cabelos
dele e deslizaram pela nuca, massageando-a com
movimentos leves e sensuais. O cheiro daquele
corpo másculo a enlouquecia. Os suaves gemidos de
Jake provocavam-lhe uma sensação de orgulho.
Era como se o tempo não tivesse passado. Como se
seu corpo estivesse destinado ao dele desde o
primeiro dia em que o vira.
Jake se afastou. Com os olhos brilhando de desejo
fixos nos dela, desceu o zíper do jeans e começou a
despir-se vagorosamente,
Liv o olhava, fascinada com o corpo que se revelava
ante seus olhos. Os ombros de Jake eram largos, o
tórax amplo
cobria-se de uma camada leve de pêlos que descia
pelo estômago e terminava no denso tufo que
rodeava o membro túrgido. Ela fechou os olhos,
atordoada pela intensidade do desejo.
— Você está bem?— Carolíne sorriu, envergonhada.
— Sim, Jake. Estou bem. Você é tão bonito que me
deixa louca!
Ele a fitou intensamente e ordenou: — Venha cá.
Quando Liv se aproximou, ele lhe desatou o cinto,
com movimentos lentos e sensuais, e abriu o roupão.
— Oh ..! — murmurou. Nunca imaginara que os
seios de Liv fossem tão perfeitos! Acabou de despi-
la, devorando-a com os olhos. E de leve, bem de
leve, pôs-se a roçar as palmas das mãos pela curva
dos seios, pela cintura fina, pelas coxas firmes,
detendo-se no macio triângulo de pêlos escuros
entre as pernas.
— Você é linda! Linda e macia!
Ela fechou languidamente os olhos e soltou um
gemido. As mãos de Jake subiram para os seios,
traçando círculos em volta das aréolas arrepiadas,
pressionando os bicos.
— Jake. . . —- murmurou, num suspiro.
Ele fechou a boca em torno de um mamilo, depois de
outro. Ondas de fogo subiram pelo ventre de Liv, que
gemeu alto e arqueou-se para a frente para facilitar-
lhe a ação.
O gemido dela fez crescer em Jake uma excitação
selvagem, ofegante. Tomou-lhe a mão macia e
desceu-a até seu sexo quente e pulsante, guiando os
dedos de Liv pelos caminhos do seu prazer.
Com o coração batendo forte, ela fechou a mão em
torno do membro rígido.
— Ah, Liv. . .
Sentindo que não iria conseguir se controlar mais,
Jake afastou-a com delicadeza e conduziu-a para a
cama, cobrindo-lhe o corpo com o seu.
Esperei tanto. . .
— Não espere mais — Sussurrou ela, ajeitando-o com
a mão entre as coxas abertas.
Mas Jake queria saborear aquele momento sem
pressa alguma. Erguendo-se ligeiramente, começou
a passar a mão pelo estômago dela, deliciando-se
com a pele de cetim, num passeio erótico que só
terminou quando seus dedos se curvaram sob o
triângulo aveludado, abrindo, separando. Então, num
movimento repentino, tocou-lhe várias vezes o
centro da feminilidade com a ponta do seu sexo. Liv
sentiu a respiração estrangulada na garganta de
tanto prazer.
— Agora, Jake. Por favor!
O corpo dela estava inteiramente arqueado quando o
membro deslizou para dentro da concha macia e
começou a penetrar mais e mais, até que. . .
Jake ficou repentinamente rígido, com os olhos
arregalados de espanto.
— Liv. . . Você é virgem!
— Sim — murmurou ela, sem acrescentar mais
nada.
Ele ficou imóvel por uma fração de segundo. Então,
soltando um suspiro, recomeçou a penetrá-la
gentilmente, mas com decisão, abafando-lhe os
leves gemidos de dor com seus beijos. Quando o
obstáculo foi ultrapassado, Jake sussurrou:
— Não posso acreditar, querida. Diga que não é um
sonho.
— Não, não é um sonho. Posso sentir você todinho
dentro de mim.
— Oh, querida.. .
Ele começou a mover-se, bem devagar.
— Estou machucando você?
— Não, meu amor, não. –
— Minha Liv.. .
Jake não conseguiu se controlar por mais tempo. Os
sentidos mandavam nele, obrigando-o a movimentos
cada vez mais rápidos e impetuosos, até inundá-la
com o calor de sua paixão. E depois do êxtase,
deixou-se cair, exausto e saciado, nos braços dela.

— Jake e Liv estão demorando muito para descer.


— Que será que aconteceu? — queixou-se Laura
Jane. Queria que Steve participasse da refeição que
ajudara a preparar.
Haney interveio:
— Comecem vocês dois.
— Posso esperar — disse Steve.
— Não. Você está morrendo de fome. Sej que está.
— Laura Jane colocou uma travessa de ovos mexidos
diante dele. — Quantas fatias de presunto?
— Duas.
— Não, três — disse, decidida. Haney tomou um
gole de café.
— Vou subir e dar uma espiada naqueles dois.
Devem estar morrendo de sono, mas seria bom que
comessem um pouco antes de descansar.
Ao chegar ao alto da escada, Haney chamou:
— Jake!
Não houve resposta. O quarto estava vazio, e não
havia ninguém no banheiro.
— Estranho! — murmurou ela consigo mesma. —
Onde será que ele se meteu? Disse que ia levar o
café para Liv...
Ela lançou um olhar para o quarto de Liv. A porta
estava fechada! Seus olhos brilharam de
compreensão.
— Bom, não é da minha conta — continuou a
murmurar. — Mas faz muito mais sentido ela ficar
com Jake do que com aquele bruxo do pai dele!
Quando chegou à cozinha, Laura Jane fitou-a
interrogativamente.
— Eles não vão descer?
— Agora, não.
— Por que não?
— Estão dormindo.
— Mas eles têm que comer alguma coisa — insistiu
Laura Jane. — Vou subir e. . .
— Você vai ficar aqui! — ordenou Haney com
firmeza. — Eles estão deitados. Cuide de Steve que é
melhor.
Estranhando o tom brusco de Haney, Laura Jane
voltou a sentar-se. Mas Steve captou o olhar
expressivo que a governanta lhe lançou e
compreendeu a situação. Seus olhos brilharam
maliciosamente.
— Vamos ao estábulo comigo, Laura Jane? Faz dois
dias que você não vê a cria.
— Pensei que você quisesse dormir. Passou a noite
em claro.
— Não estou cansado. Se Haney deixar, gostaria que
passasse a manhã comigo. Preciso de ajuda.
—- Oh, Steve! — Laura Jane bateu palmas. —- Eu
adoraria! Haney trocou outro olhar com Steve e
inclinou afirmativamente a cabeça.

— Por que não me disse?


Afastando os cabelos das faces de Liv, Jake beijou-a
repetidas vezes. Estavam deitados de costas, lado a
lado.
— Se eu tivesse dito que nunca dormi com Roscoe,
você teria acreditado?
— Pode ser.
— Não, não teria. E eu não queria que o nosso
primeiro ato de amor fosse um teste.
— Entendo o seu ponto de vista. Mas suponhamos
que eu tivesse acreditado de verdade.
— Você nunca acreditaria. Mas você me quis,
mesmo acreditando no pior. Percebi que estava
disposto a sacrificar o seu orgulho pelo amor que me
dedicava.
Ele a beijou com ternura.
— Não deveríamos tocar nesse assunto, mas por
que nunca dormiu com meu pai? Foi um gesto de
nobreza da parte dele?
— Não. Não quero mentir. Acho que ele pretendia
consumar o casamento na noite de núpcias. — Ela
fechou os olhos e estremeceu. — Ele entrou aqui
neste quarto... Eu tinha assumido um compromisso e
pretendia cumpri-lo!
Liv calou-se. Jake fechou os punhos, sem vontade de
acreditar que ela estivera a ponto de entregar-se
àquele monstro. — Que aconteceu então, Liv?
— Ele me beijou e me acariciou. Isso foi tudo. Saiu
do quarto sem dizer palavra. Fiquei confusa, não
sabia o que pensar. Dias depois comecei a perceber
que Roscoe devia estar muito doente.
— Como percebeu?
— Pela enorme quantidade de remédios que ele
tomava. Como não voltou a me procurar, deduzi que
devia estar impotente. Resultado da doença, sem
dúvida. Claro que tive a certeza disso anos depois.
Nunca tocamos nesse assunto. Teria sido um golpe
duro demais para ele. Passamos a conviver
platonicamente.
Depois de um breve silêncio, Jake disse:
— Devia ter-me dito.
— Teria evitado muitos mal-entendidos, não?
Não sei, Jake... Eu sempre me perguntava se não
seria melhor lhe contar tudo de uma vez, pondo um
ponto final nessa história.
— Ela suspirou fundo. — Mas eu também tenho
orgulho. Queria que você me amasse, apesar de
tudo.
— E te amava! Queria você. Mas todas as vezes
que eu pensava em você, Roscoe. . .
— Chega. — Liv lhe pôs um dedo na boca. — Não
pense mais nisso. Posso imaginar o que você sofreu!
— Sabe o que ele me disse naquela noite no
hospital, quando você saiu do quarto?
— Que foi?
— Não comentei certa vez que meu pai me havia
deixado uma triste herança? Referia-me a isso. Ele
me garantiu que você nunca seria minha porque o
meu orgulho não permitiria.
— Jake fez uma pausa. — Mas ele estava enganado!
Não sabia que o meu amor por você era maior do
que o meu orgulho!
Ela o fitou interrogativamente:
— Não entendo. . .
— Meu pai me disse que eu jamais perdoaria você
por ter pertencido a ele em primeiro lugar.
Liv estava atônita.
— Ele fez você acreditar que. . .
— Fez.
— Oh, querido! — Ela o fitou, horrorizada. — Pensei
que fosse só coisa da sua imaginação. Como eu
podia supor que ele morreu deixando você acreditar
numa mentira dessas?
No riso de Jake não havia alegria.
— Ele me conhecia bem. Quase conseguiu nos
separar. — Ainda bem que não conseguiu.
— Você não imagina o que eu passei!
— Posso imaginar muito bem!
— Sempre que pensava em vocês dois juntos, tinha
vontade de assassinar alguém. Não conseguia
entender. . . Era uma tortura! — afirmou ele, com voz
rouca. — Mas você continuava a ser a minha doce e
pura Liv. A mesma de sempre. Exatamente a
mesma! — Jake a olhava com malícia e continuou: —
A mesma, mas diferente.
— Diferente em quê?
Jake fitou-a com intensidade. Seus olhos dourados
percorreram o corpo dela, avaliando cada detalhe.
— Por exemplo. .. Seus seios! — Ele os tomou nas
mãos e beijou-os.
— O que há com eles?
— Estão mais cheios... os bicos agora são um pouco
mais escuros.
— Só isso?
— Você está mais arredondada, mais mulher,
embora conserve a mesma graça da adolescente de
doze anos atrás. Você é tudo o que eu sonhei e
muito mais!
— Não está desapontado? Ele ficou subitamente
sério.
— Ah, não! E você?
— De jeito nenhum, Jake Gyllenhaal! Foi maravilhoso
senti-lo dentro de mim. Você me deu prazer e eu dei
prazer a você. Foi ótimo.
Os olhos dourados de Jake brilharam, expressando
paixão.
— Eu sei. E amo você por isso. Andei me
comportando , como um estúpido nessas últimas
semanas, dizendo, insinuando
coisas terríveis. Quanto mais queria você, mais
sentia necessidade de maltratá-la.
Eía riu e encostou a cabeça no peito dele.
— Eu amo você, Jake.
Ele tornou-lhe a mão, guiando-a para o centro do seu
próprio corpo,
— Importa-se?
— Não. Gosto de tocar em você.
— Vamos dormir?
—Quer mesmo dormir?
— Não. Mas quero acordar com você ao meu lado.
Passava de meio-dia quando eles finalmente
desceram. Estavam tão entretidos um com o outro
que só viram Laura Jane e Steve quando chegaram
ao amplo saguão.
— Jake, Steve quer falar com você — anunciou Laura
Jane, parecendo uma garotinha que tem um segredo
para contar. Seus olhos brilhavam, não conseguia
ficar parada.
Jake olhou-a e em seguida fitou Steve, que girava
nervosamente o chapéu de cowboy entre os dedos.
— Eu e Liv estamos morrendo de fome. Podem
esperar até depois do almoço?
— Sim — responderam os dois.
Liv foi ao encontro da moça, dizendo-lhe com
brandura:
— Estaremos com mais disposição depois do
almoço, não é, Laura Jane? Que é que Steve tem a
dizer a Jake?
— Quer lhe pedir permissão para casar comigo! —
sussurrou ela.
— Que bom! Mas alguns minutos não vão fazer
diferença, minha querida.
Durante o almoço, Haney entrou na sala e passou o
telefone de antena para Jake.
— É o xerife! — anunciou ela,
O homem queria informar que os delinquentes
haviam sido presos. Um deles, o que avisara Barnes,
confessara tudo, denunciando os companheiros.
-Teremos a confissão formal dos outros implicados
dentro
de algumas horas — finalizou o policial.
— Obrigado, xerife, Mas olhe pelas famílias dos
criminosos. Veja que não lhes falte nada, enquanto
os homens estiverem presos. Eu pagarei a conta.
Quando o almoço terminou, Laura Jane carregou
todos para o escritório.
Steve não perdeu tempo. Clareou a garganta e foi
direto ao assunto:
— Jake, quero a sua permissão para casar com
Laura Jane. Jake fitou-o com seriedade.
— E se eu não der a permissão?
Os olhos de Steve brilharam, desafiadores.
— Vou casar com Laura Jane assim mesmo.
Jake estudou o outro por um longo tempo. Ninguém
ousava sequer respirar, Afinal disse:
— Senhoras, querem nos dar licença por uns
momentos? Liv, feche a porta quando sair, sim?
— Como você sabia que eu estava aqui?
— Um passarinho me contou.
Jake afastou os ramos de carvalho e caminhou para a
clareira. Liv estava sentada com as pernas cruzadas,
à sombra de uma árvore. Tinha um livro aberto no
colo, porém não estava lendo.
Ele se aproximou e encostou-se no tronco.
— Não sabe que é muito perigoso andar sozinha no
bosque. .
— Por quê? São os meus bosques.
— Algum maníaco sexual pode estar à espreita.
— É com isso que estou contando.
Jake sentou-se ao lado de Liv e a tomou nos braços.
Mas ela afastou o corpo.
— Antes, quero saber o que disse a Steve.
— Disse-lhe que se magoasse a minha irmã eu o
mataria.
— Não!
Ele sorriu.
— Bom, não foi exatamente assim.
— Mas lhe deu o seu consentimento?
— Sim, dei.
Ela relaxou e apoiou-se nele.
— Oh, Jake. Estou tão contente!
— Acha então que esse casamento vai fazer Laura
Jane feliz?
— Não tenho a menor dúvida! Não se preocupe com
Steve. Ele idolatra Laura Jane, deve considerá-la
uma princesa de contos de fada.
— Ele me pareceu sincero. Impus como condição
que Laura Jane continuasse a morar aqui. Ele
concordou, desde que possa assumir maiores
responsabilidades na empresa,
— Steve vai trabalhar duro, tenho certeza,
—- Ele não escondeu os sentimentos. Disse
claramente que o casamento vai ser de verdade. —
Jake ergueu as sobrancelhas, pensativo. — Será que
Laura Jane tem capacidade para manter relações
com um homem?
Liv soltou uma sonora gargalhada.
— Ora, é ela quem está dando em cima de Steve. As
coisas só não se consumaram porque ele tem força
de vontade.
— Mas saberá entender a responsabilidade que o
sexo implica?
Ela o fitou, impaciente.
— Laura Jane nasceu com deficiências intelectuais,
mas é uma mulher completa.. O corpo dela tem
exigências como o de todo mundo. Ao lado de Steve,
será mais feliz ainda porque ele a ama e cuidará
dela. Vai dar tudo certo.
Ele relaxou e suas feições suavizaram-se.
— Você sabe que eu prezo muito a sua opinião, não
sabe?
— Obrigada, Jake.
— E quanto a você? Também tem as suas
necessidades, mas se impôs uma privação durante
esses anos todos.. .
— Eu vivia de lembranças e de sonhos que julgava
impossíveis.
Ele a deitou carinhosamente no tapete de musgo e
começou a desabotoar-lhe a blusa.
— Você pensava sempre em mim?
— Todos os dias, Todas as horas, todos os instantes..
Mesmo que não tornasse a vê-lo, continuaria a
pensar em você o resto da vida.
Jake fechou os olhos, sem esconder a emoção.
—- Parece que está trovejando. Ou será que é o meu
coração batendo feito louco?
Ela sorriu. Eram as mesmas palavras de
antigamente.
— Vai chover. . .
— Será?
— Queira Deus!
— Querida. . . Eu amo você!
Liv o ajudou a tirar a camisa e ficou a olhá-lo. Sua
nudez tinha algo de primitivo, ali na penumbra do
bosque. Enquanto ela o fitava, a chuva começou a
cair, e as gotas d'água deslizaram sobre os pêlos do
peito bronzeado.
Jake se ajoelhou, ardendo de paixão, e começou a
retirar a blusa dela. Através do sutiã de renda, tocou-
lhe os seios, acariciando-lhe os bicos endurecidos.
— Veja o que fez — censurou-o Liv, retirando as
últimas peças de roupa. — Não está envergonhado?
— Estou — respondeu ele, sem muita convicção. Liv
estava só de calcinha. Jake retirou-lhe as sandálias,
acariciou com a boca os pés nus e depois foi subindo
lentamente. Ela apoiou-se nós cotovelos, observando
extasiada aquele ritual erótico. Quando sentiu a
língua dele ir subindo, aproximando-se da virilha, seu
corpo se contorceu todo de desejo.
— Jake! — gritou, caindo deitada no musgo macio.
Ele se afastou um instante, enquanto seus dedos
rodeavam o elástico da calcinha e arrancavam-na
com um puxão.
— Jake... — gritou ela de novo, sem poder conter-se.
Gentilmente, as mãos dele afastaram-lhe as pernas,
abriram-lhe a carne palpitante. Mesmo assim ela não
estava preparada para o beijo que recebeu no centro
do triângulo macio. Os lábios amorosos de Jake, os
movimentos de sua língua provocante deixavam Liv
fora de si. Tudo o que conseguia perceber era o
prazer que lhe dava a descoberta de seu corpo.
O beijo íntimo de Jake prolongou-se até Liv tremer de
tanto desejo. Havia um vulcão dentro dela! Ao
perceber que a erupção estava próxima, Jake ergueu
o corpo e penetrou-a de uma vez só. As unhas de Liv
cravaram-se nas costas dele, de sua garganta
escapavam sons estranhos, inarticulados. A rijeza
dele pressionava a área mais sensível do seu corpo,
mergulhando cada vez mais fundo e mais depressa,
até que o mundo explodiu no delírio do orgasmo.
Quando tudo serenou, a luz do dia desaparecera. O
mundo que os rodeava era feito de sombras
embaçadas pela névoa prateada que subia
lentamente do tapete de musgo encharcado. Seus
corpos unidos, molhados de suor e chuva, formavam
uma mancha clara no verde-escuro do musgo.

CAPITULO XII

Laura Jane estava de branco. O vestido de seda tinha


linhas simples, que ressaltavam sua figurinha
esbelta. Os cabelos escuros, divididos ao meio,
estavam presos na nuca por duas camélias brancas,
deixando livre o rosto radiante de alegria. Ela
aparentava calma e passou um longo tempo
mirando-se tranquilamente no espelho.
O noivo, vestindo um terno cinza bem cortado, ao
contrário, parecia muito nervoso. Espiava a todo
instante a escada por onde Laura Jane iria chegar,
clareava a garganta, torcia as mãos. Parecia fazer
questão que todos soubessem que aquele era um
casamento por amor e que os noivos estavam
conscientes e orgulhosos do passo que iam dar.
Liv tocou-lhe o braço, tranquilizando-o. Ele sorriu
com
gratidão. Mas, quando a esposa do juiz de paz
começou a tocar a marcha nupcial no grande piano
da sala, Steve só teve olhos para Laure Jane, que
descia a escada de braço dado com o irmão.
Os convidados eram poucos. Jake e Liv, o juiz de paz
e a esposa, Granger e alguns amigos. E Haney, que
enxugava furtivamente as lágrimas.
Quando a breve cerimônia terminou, Steve beijou a
esposa com carinho e afrouxou o nó da gravata.
— Steve —- chamou Jake, aproximando-se de mão
estendida. — Bem-vindo à família.
Steve abriu um amplo sorriso e apertou com
entusiasmo a mão do cunhado.
— Obrigado, Jake. Estou orgulhoso da sua
confiança em mim.
— Parabéns, Steve — disse Liv, beijando-o no rosto.
— Laura Jane. . . Seja muito feliz, minha querida.
— Ah, eu vou ser muito feliz, sim. Vamos tomar
alguma coisa? Acho que Steve precisa de uma
bebida gelada.
Todos riram, dirigindo-se para a sala de jantar. Ali
estava armado um farto bufe, que incluía o
tradicional bolo de noiva. A festa foi alegre e
descontraída, principalmente por causa de Laura
Jane, cuja felicidade alegrava a todo mundo.
Depois do bufe, o fotógrafo convocou os noivos para
as fotografias de praxe e a reunião terminou.
Assim que os convidados partiram, o noivo e a noiva
retiraram-se para os seus aposentos. Uma semana
antes do casamento, Steve levara seus objetos de
uso pessoal para o antigo quarto de Roscoe. O casal
passaria a ocupá-lo, porque era maior do que o de
Laura Jane.
Depois de ajudarem Haney na arrumação, Jake e Liv
foram ao cinema. Quando voltaram, a casa estava
tão silenciosa que eles subiram a escada nas pontas
dos pés para não perturbarem os recém-casados.
Foram direto ao quarto de Jake, que acendeu a
lâmpada de cabeceira e queixou-se:
— Estou cansado de correr de um quarto para outro.
Detesto
ter de sair da cama de madrugada. Por que você não
vem de vez para cá?
— Porque não.
— Ótima razão! — Ele descalçou as botas e tirou a
camisa.
— Não caçoe de mim, por favor. Não quero que
ninguém
saiba.
— Ora, Liv! É um segredo de polichinelo. Todos já
sabem — afirmou Jake,. tirando a calça e sentando-
se na poltrona de couro.
Liv, que começava a se despir, voltou-se para ele,
atônita.
— Você acha?
Ele fez um gesto afirmativo, sem deixar de observá-
la um só momento, até que ela ficou só de calcinha e
sutiã. Voltando a si da contemplação, Jake continuou:
— Steve e Haney certamente já sabem. Não são
cegos, Liv. Mantive o meu amor por você em segredo
durante doze anos, mas, nesses últimos dias, acho
que não fui muito cuidadoso. Sou o homem mais feliz
do mundo! É uma coisa que todos notam, minha
querida.
Ela enrubesceu de prazer, mas voltou a insistir:
— Não gosto de fingir, Jake. Mas temos de manter
as
aparências.
A luz suave do abajur realçava-lhe a cor acobreada
dos cabelos e a brancura dos seios, visíveis sob o
sutiã. A calcinha minúscula mal lhe ocultava as ancas
arredondadas e as nádegas firmes. Ela o deixava
louco!
— Que aparências?
Liv retirou um vidro de colônia da bolsa, colocou um
pouco do conteúdo nas palmas das mãos e esfregou-
as nos braços. O perfume feminino espalhou-se pelo
ar, excitando ainda mais a virilidade de Jake.
— Legalmente, você é meu enteado — respondeu
ela com calma.
— E ilegalmente?
Liv virou o rosto até encontrar os olhos dele. Jake
estava sensualmente esticado na poltrona, expondo
seu corpo vigoroso e másculo. Liv esboçou um
sorriso ao mesmo tempo envergonhado e orgulhoso.
— Ilegalmente você é meu amante.
Ele arrancou a última peça de roupa e chamou:
— Venha cá.
Liv obedeceu e parou diante de Jake, para que ele
terminasse de despi-la, retirando-lhe as peças
íntimas com uma lentidão cheia de sensualidade. Ela
fechou os olhos, sentindo. um calor espalhar-se por
todo o corpo. Curvou-se, oferecendo os seios às
mãos dele. Sentia necessidade de ser tocada,
explorada por aqueles dedos que sabiam
proporcionar tanto prazer. Seus mamilos se
arrepiaram no mesmo momento em que sentiram o
toque da ponta dos dedos de Jake. Liv suspirou de
prazer e arqueou-se mais ainda, levando os seios até
a altura da boca úmida e quente, que os sugou com
avidez. As mãos dele não paravam, percorrendo-lhe
os quadris, as coxas, o ventre, até que for fim se
detiveram no triângulo sedoso, cheio de
sensibilidade.
Liv gemia sem parar. Sem poder conter-se, tomou a
cabeça de Jake e apertou-a contra os seios. Quase
sem que ela percebesse, suas coxas se separaram
para facilitar as carícias de Jake, que, de repente,
soergueu o corpo e a penetrou. Uma onda de volúpia
avolumou-se dentro de Liv, que movimentou os
quadris para trás e para a frente, sempre mais
depressa, A cada oscilação, forçava-o ainda mais
para dentro de si, sentindo o prazer ir aumentando,
até que ela pensou que não ia aguentar mais. Foi
então que o mundo explodiu em milhões de
fragmentos coloridos.
Ela estremeceu, e ficou imóvel por um longo
momento. Depois, soltando um suspiro de satisfação,
tombou sobre o peito de Jake, sem conseguir mover-
se. Ele a segurou gentilmente pela nuca e ergueu-lhe
a cabeça.
— Que aconteceu, Liv? Algo errado?
— Ah, Jake. . . Sentado na poltrona! Por quem me
toma? Ele sorriu e beijou-lhe o lóbulo da orelha.
— Por aquilo que você é: uma mulher linda e
generosa, que gosta de fazer sexo com um rapaz
sonhador. Era aqui, nesta mesma poltrona, que eu
alimentava as minhas fantasias eróticas. Era aqui
que imaginava que estava fazendo amor com você!
— Fitou-a com adoração. — Mas você, minha
pequena feiticeira, é muito superior às minhas
fantasias.
Os olhos de Liv brilharam.
— Verdade?
Jake correu as mãos pelo corpo dela.
— Ainda não consigo acreditar que você é real.
— Eu é que não me reconheço mais! Perdi toda a
compostura.
Ele a olhou com malícia.
— Não gostou?
— Hum... — Eía colou-se a ele. — Sabe o que eu
gostaria de fazer?
Jake arregalou dramaticamente os olhos.
— Que é isso, Liv! Quer me matar? Espere pelo
menos até irmos para a cama!
Momentos mais tarde, agarradinhos sob os lençóis,
Jake murmurou lhe ao ouvido:
— Sabe, se Haney tivesse um amigo,
transformaríamos esta casa num clube para casais
românticos. Só falta ela.
— Sei o que você está querendo dizer. Posso
imaginar como Steve deve estar feliz agora, mas
gostaria de saber o que Laura Jane achou do
casamento.
Não tiveram que esperar muito para saber. Na
manhã seguinte, encontraram-se com os recém-
casados na hora do café. Steve mostrava um riso
contrafeito, mas Laura Jane estava positivamente
radiante.
— Acho que todo mundo devia se casar! — declarou
ela com entusiasmo.
Os danos do incêndio na Beneficiadora começaram a
ser reparados. Liv dava graças a Deus por ter Jake a
seu lado, pois não teria sabido por onde começar.
Certa manhã, ele se sentou a seu lado no escritório e
começou a expor os planos para uma reforma que
incluía a substituição do alambrado e a
modernização de todo o maquinado.
Liv se entusiasmou.
— isso vai tornar a Beneficiadora Gyllenhaal uma
das mais importantes do país!
— Tivemos um ótimo lucro este ano. Se
conseguirmos levantar um empréstimo a longo prazo
e a juros baixos junto aos bancos, poderemos
reformar tudo sem muito ônus! -
— Você tem razão — concordou ela por fim.
Eles tiveram de passar duas horas sob um sol
escaldante, fiscalizando os trabalhos, orientando, os
empregados. Precisavam se controlar para não se
tocarem, pois sabiam que eram observados e não
queriam dar margem a comentários. Afinal, todos
estavam comentando a longa permanência de Jake
na cidade, achando que Liv era a razão de tudo.
Num dia particularmente quente, eles resolveram
tirar alguns momentos de descanso e foram ao
escritório para tomar uma bebida gelada.
— Jake. . . — murmurou Caroíine, com ar absorto.
— Sim?
— Quando vai voltar para Atlanta?
Ela tentava aparentar naturalidade, mas foi traída
pela voz trêmula. Jake tomou um gole de cerveja
gelada e a estudou com atenção.
— Está tentando se livrar de mim?
— Claro que não! Mas não entendo por que você se
dedica tanto à fábrica. Eu recebo um salário para
isso, mas não vejo razão para que você desperdice
tempo e energia.
Ele colocou a lata de cerveja na mesa e caminhou
até a janela, de onde podia ver os operários
carregando um caminhão.
— Esta fábrica significa muito para mim, apesar da
intolerância de meu pai. Pertencia à família de minha
mãe, antes de ir para as mãos dele. Leva o meu
nome e, sé não bastassem esses motivos, quero
proteger os interesses de minha irmã.
— Eu amo você.
Surpreso com a inesperada declaração, Jake
exclamou:
— Por que isso, agora?
— Homem algum, no seu lugar, teria feito o que
você está fazendo.
— Era assim que meu pai devia pensar. Mas não
quero agir da forma como ele gostaria.
— Então é por isso que continua aqui? Para desafiar
Roscoe, embora ele esteja morto?
Ele sorriu e aproximou-se.
— Venha cá, Liv, Temos assuntos melhores para
discutir.
Puxou-a pela mão até um canto, entre a parede e o
arquivo. Era um bom esconderijo, caso alguém
entrasse de repente.
— Não adianta querer se livrar de mim.
Jake a agarrou e a beijou com ardor. Liv levantou os
braços e passou-os em torno do pescoço dele,
colando-se ao corpo másculo e excitado.
Quando sentiu a mão dele nos seios, murmurou:
— Não está tomando muita liberdade com a patroa?
— Você não é minha patroa, lembra?
Liv entregava-se àquelas carícias sem protestar,
ansiando por mais.
— Mas não mando nem um pouquinho?
— Em mim? Não.
— Ah, não?
A mão dela desceu e fechou-se em volta do membro
viril.
— Está bem, está bem — concordou ele,
roucamente. — Você manda um bocado.

— E eu que pensei que este lugar fosse uma


espelunca! — exclamou Liv, correndo os olhos pelo
pequeno restaurante enfumaçado.
— Não está muito longe disso. Mas tem o melhor
churrasco
da região. Uma antiga receita de família, importada
do Tennessee. O que você prefere: costelinhas de
porco na brasa ou picanha fatiada?
— Costelinhas, se não se importar que eu use os
dedos.
— Tudo bem.
Jake e Liv tinham que conversar em voz alta por
causa do som ligado a todo volume. Alguns casais
dançavam, deslizando pela pista coberta de
serragem. Nas paredes escuras explodiam as luzes
intermitentes dos neons coloridos, anunciando várias
marcas de cerveja, numa exuberância eletrônica que
deixou Liv meio enjoada.
Ela e Jake haviam inventado um bom meio de se
divertir. Com o pretexto de concederem a Steve e a
Laura Jane algumas horas de privacidade, saíam
todas as noites à procura de lugares diferentes e
interessantes.
— Você vinha aqui com frequência, Jake?
— No tempo de colégio, eu e os meus amigos
éramos frequentadores assíduos. Aqui era o único
lugar da região onde se vendia cerveja a menores.
Papai nos disse. . . — Ele silenciou bruscamente.
— Continue — incentivou-o Liv. — Que foi que ele lhe
disse?
— Na época da Lei Seca, destilava-se mais uísque
aqui do que em qualquer outro Estado da União.
Liv sorriu e cobriu-lhe a mão com a sua.
— As coisas não foram sempre ruins entre vocês
dois, não é? Houve bons momentos. Não podia
lembrá-los e esquecer o resto?
Um sorriso triste passou pelo rosto de Jake.
— Houve alguns bons momentos, sim. Como a vez
em que quis fumar um charuto dele. Eu só tinha doze
anos, mas meu pai permitiu. Passei muito mal e ele
achou graça. Caçoou de mim durante anos por causa
disso, mas não me importei. Noutra ocasião, fomos
pilhados escrevendo "Vão embora, seus
vagabundos" no ônibus do time rival de futebol. Meu
pai nos defendeu perante a diretoria da escola,
afirmando que rapazes que não aprontavam não
eram normais.
Ele ficou pensativo uns instantes, parecendo
concentrado. Por fim, continuou:
— Uma coisa é certa, Liv: sempre que eu me
envolvia em algum tipo de malandragem, meu pai
me apoiava. Gostava de me tirar de apuros. Mas,
quando eu fazia algo correto, ele não me suportava.
Queria que eu fosse como ele, esperto e sem
escrúpulos. Não sou nenhum santo, mas nunca
procedi incorretamente e, se cheguei a ferir alguém,
não foi de propósito. — Os olhos dele ficaram
sombrios. — Um abismo me separava do meu pai.
Carolíne olhou para ele e disse com sinceridade:
— Tenho certeza de que você gostaria de ser amigo
dele.
— Se eu tivesse filhos, os amaria do jeito que
fossem. Juro que não tentaria mudá-los.
Liv entrelaçou os dedos nos dele, em sinal de apoio.
Ficaram assim até o garçom chegar com o pedido.
— Você tinha razão, Jake. Este churrasco está uma
delícia.
Ele sorriu, satisfeito.
— Você devia estar com apetite.
Aos poucos, o restaurante foi ficando
excessivamente cheio. Havia gente demais bebendo
junto ao balcão do bar e os casais precisavam se
espremer na pista de danças. Assim, quando o
garçom trouxe a nota, eles resolveram ir embora
logo.
Quando passaram pelo bar, uma voz comentou em
voz alta, de propósito para ser ouvido:
— Deve ser interessante, não, Virgílio, tomar o lugar
que o papai deixou quentinho?
Jake cerrou os punhos. A veia de sua têmpora
pulsava e seus maxilares contraíram-se.
O homem chamado Virgílio deu uma risadinha.
— Tem razão, Sam. Nada como ter um papaizinho
para nos esquentar a cama.
Liv agarrou o braço de Jake.
— Vamos logo. Não vê que eles estão bêbados?
Mas ele a afastou sem sequer olhá-la. O som estava
agora mais baixo, e os fregueses fizeram silêncio,
pressentindo o escândalo. Os que estavam no bar
afastaram-se prudentemente de Virgílio e Sam,
bêbados demais para perceberem que haviam
acendido um barril de pólvora com pavio curto.
— O que foi que disseram? — perguntou Jake,
aproximando-se dos dois.
Os homens se cutucaram e começaram a rir.
— Sr. Gyllenhaal, por favor. — O gerente da taverna
estava muito pálido. — Esses dois são novos aqui na
cidade. Não sabem o que estão dizendo. Vou mandar
botá-los na rua.
Mas Jake não lhe deu atenção.
— O que foi que disseram? — tornou a perguntar,
em voz mais alta.
O que se chamava Sam respondeu:
— Bom, como estava dizendo aqui para o meu
amigo, você teve muita sorte em ter um papaizinho
que lhe deixasse a cama quente.
Virgílio caiu na gargalhada.
— Você nem esperou a cama esfriar para se meter
nela! O papai deve ter ensinado alguns truques para
a garota, não, filhinho? Ela faz com você o que. ..
Virgílio não chegou a terminar a frase. O soco de Jake
atingiu-o no queixo, jogando-o em cima de uma
mesa. Ao ver o companheiro, caído, Sam balbuciou
com voz pastosa:
— Ele. . . eu. . . nós não queríamos dizer. . .
Estávamos só brincando. .
Um rugido de animal saiu da garganta de Jake, que
se atirou sobre Sam e começou a golpeá-lo
desvairadamente.
O homem deu um grito de dor e caiu sobre os
joelhos.
Jake ficou parado diante dele, com as mãos caídas ao
lado do corpo. Seus olhos estavam vidrados de ódio.
— Peça desculpas à senhora! — gritou. — Já!
O outro segurava o rosto com ambas as mãos,
emitindo sons inarticulados.
— Peça desculpas à senhora! — voltou a gritar Jake.
Liv pousou-lhe a mão no braço.
— Por favor, Jake! Vamos embora, o homem não
pode falar. Não podemos continuar aqui. Todo
mundo está nos olhando.
Jake virou-se lentamente, agarrou-a com força pelo
braço e dirigiu-se para a porta. Ao passar pela caixa,
atirou algumas notas no balcão para saldar a conta.
Entraram no carro sem trocar uma palavra. Ele deu a
partida, engrenou a marcha com raiva e saiu a toda.
Quando chegaram em casa, abriu a porta e entrou
antes dela, dirigindo-se imediatamente para o
escritório.
Foi ali que Liv o encontrou, andando de um lado para
outro como uma fera enjaulada, Ela fechou a porta
atrás de si com cuidado e enfrentou-o.
- Viu o que estão dizendo? Que você dormiu com
meu pai! — berrou Jake.
— Eu era a mulher dele. Como poderiam pensar de
outra forma?
Jake sentiu a cólera explodir dentro do peito.
— Sou a piada da cidade! Como devem estar se
divertindo! Eu, Jake Gyllenhaal, aproveitando as
sobras de um velho!
Liv ficou muito pálida, chocada com a grosseria dele.
— É isso, então?
— É isso, sim!
— Tenho mais motivos do que você para estar
magoada com essa gente. Eles diziam à boca
pequena que eu tinha seduzido Roscoe, obrigando-o
a se casar comigo. Agora devem estar pensando que
seduzi também o filho. Nada do que dizem de você
pode se comparar ao que murmuram de mim. Eu sou
a pobre vagabunda, filha de Pete Tyler, lembra? Isso
não tem nada a ver com a moral. É uma marca de
nascença!
— Mas, quando era esposa de meu pai, estava
acima disso, não estava?
— Sim — Liv disse, simplesmente.
— Então, para você, a morte dele não foi um bom
negócio! — gritou ele, com deliberada crueldade.
— Isso é o que você acha.
Jake nada falou. Ficou a olhar para ela com firmeza e
só voltou à carga depois de alguns minutos.
— É muito duro para mim engolir o que essa gente
diz. A essas horas, já devem estar a par das
cláusulas do testamento. Provavelmente andam
dizendo que eu corro atrás de você porque é a dona
do "Retiro"!
— Ora, Jake. Não diga bobagens. Todos sabem que a
sua companhia aérea é um sucesso.
— E sabem, também, que eu amo este lugar. Por
isso, toco a música que agrada à dona da casa.
— Não fique tão preocupado com o que dizem.
— Encare os fatos! Laura Jane tem Steve e Haney,
não precisa de mim. Meu único motivo para
continuar aqui seria o de agradar à dona da casa na
cama.
— Não deve ser um sacrifício muito grande. Você
mesmo confessou que nunca esteve tão feliz.
— Estava, até descobrir o que essa gente pensa de
mim.
— Mas você sabe que não é verdade!
— Dá no mesmo.
Ela perdeu finalmente a calma.
— Que vão todos para o inferno! A mim pouco
interessa o que pensam ou o que deixam de pensar.
— Pois a mim interessa! Sabe o que eu acho? Que
meu pai vai conseguir nos separar, mesmo depois de
morto.
Liv ardeu de indignação.
— Ele, não. Você! Esse seu maldito orgulho!
— Ah, e o seu, não?
— O meu? — balbuciou ela.
— O seu, sim!
— Mas de que orgulho você está falando?
— Você subiu na vida, tem curso universitário,
casou-se com o homem mais rico da região. .. Você
está no topo, muito acima dos que a olhavam com
desprezo.
— O que está insinuando?
— Pense bem: se os outros soubessem que a
intenção de meu pai, ao casar com você, era apenas
me ferir... Se soubessem que esse casamento não
passou de uma simulação, você poderia andar de
cabeça erguida?
O silêncio de Liv foi uma confissão de culpa. Ela
deixou-se cair no sofá e enterrou o rosto nas mãos.
Jake inclinou-se para ela e disse, com voz calma:
— Eu estou sofrendo porque todos acreditam que
você dormia com meu pai. Você, pelo contrário, não
gostaria que eles pensassem de outra forma. — Jake
jogou a cabeça para trás e soltou uma gargalhada
sarcástica. — Que boa peça ele nos pregou, hein? O
primeiro truque não funcionou, ele não conseguiu
nos separar. Mas este vai funcionar!
Liv baixou os olhos e nada disse. Ele lhe deu as
costas e dirigiu-se para a porta. Com a mão na
maçaneta, virou-se e falou:
— Detesto admitir isso, Liv, mas não passamos de
joguetes nas mãos dele. Como ele sempre quis, aliás.
Jake bateu a porta atrás de si antes de sair da sala.
CAPITULO XIII

— Gostaria de dar umas boas palmadas naquele


menino. É isso o que ele merece: uma boa surra —
resmungou Haney, enquanto retirava os lençóis de
linho da cama de Caroíine.
Caroíine sentou-se à mesinha de toalete,
massageando as têmporas doloridas sem nenhum
resultado. Um único pensamento obstinado
martelava-lhe a cabeça e seu corpo doía como se ela
tivesse levado uma surra. E, moralmente, era isso
que havia acontecido na discussão com Jake.
— Ele não disse nada ontem à noite? Não deu
nenhuma pista de que iria deixar a casa como um
ladrão no meio da noite?
— Não... ah. . . Conversamos durante algum
tempo no escritório. Depois ele subiu, e logo em
seguida eu fui dormir. Só soube que ele havia ido
embora hoje de manhã.
— Eu e a mãe lhe ensinamos boas maneiras, mas
nem parece. Imagine, fazer as malas e ir embora
sem dar nenhuma explicação! Não sei o que deu ne!
e.
Pela primeira vez em anos, Liv desejou que Haney
parasse de falar. Nada do que dissesse iria trazer
Jake de volta.
— Ele deve ter tido algum assunto urgente na Air
Dixie. Algum problema. . . Fazia tempo que não ia a
Atlanta -— comentou, para dizer alguma coisa.
Haney lançou-lhe um olhar irônico.
"Eu sei de que lado está soprando o vento", queria
dizer a Liv. Morria de vontade de saber o que havia
acontecido entre os dois. A partida repentina de Jake
era muito surpreendente. Nas últimas semanas, ele e
Liv pareciam dois pombinhos! O que dera nele?
— Não sei o que dizer a Laura Jane. Ela vai sentir
muito quando souber que o irmão partiu sem se
despedir deía.
— Mas você não disse que ele lhe deixou uma carta?
— Não faz muita diferença, faz? — insistiu a
governanta. Liv começou a escovar vigorosamente
os cabelos.
— Laura Jane não vai pensar muito nisso, agora que
tem Steve para tomar conta dela.
— E de você? Quem é que vai tomar conta?
Liv ficou com a escova parada no ar, encarando a
pers-
picaz governanta pelo espelho. Mas Haney limitou-se
a sorrir, enigmática, saindo do quarto sem dizer uma
palavra.
Liv vestiu-se sem prestar atenção. Não estava
interessada em sua aparência, já que Jake não
estaria ali para vê-la. Contudo, queria se comportar
normalmente, ir ao escritório, verificar os trabalhos
de reconstrução. Era muito importante que
continuasse à frente dos negócios, tomando as
decisões com firmeza, pois alguns empregados
poderiam tomar o afastamento de Jake como
pretexto para negligenciar o trabalho.
Quando chegou à Benefídadora, Liv percebeu que
Jake não partira tão impulsivamente quanto pensara.
Barnes, o gerente, esperava por ela no escritório,
com ar de quem quer conversar sério.
— Jake. . . o sr. Gyllenhaal me telefonou de Atlanta
logo de manhã cedo.
Liv tentou aparentar naturalidade, mas sua mão
tremia ao guardar a bolsa na gaveta.
— Ah...
Barnes clareou a garganta.
— Sim, senhora. Ele me disse para ajudá-la no que
for preciso. Quer que tudo corra bem. Pediu que eu
lhe telefonasse, se fosse necessário.
— Obrigada, Barnes — agradeceu ela calmamente,
Ele não a abandonara, então. Ainda se importava
com ela. Ou estaria apenas protegendo os interesses
de Laura Jane? O gerente continuou:
— A senhora sabe, eu e os rapazes. . . bom,
estávamos nos acostumando de novo com Jake. Era
quase um menino quando nos deixou pela primeira
vez. Mas nós gostávamos muito dele. Ele se
preocupava conosco, sabe o que eu quero dizer? Não
era como o pai.
— Sim, eu sei o que quer dizer, Barnes. O homem
dirigiu-se para a porta.
— Bom... se precisar de alguma coisa, é só pedir,
certo, sra. Gyllenhaal?
— Sim, obrigada.
Liv caminhou para a janela, com os olhos presos à
paisagem. O verão chegava ao fim. A folhagem
começava a ganhar uma tonalidade avermelhada e
as flores murchavam e caíam. Era assim que ela se
sentia. Durante as preciosas semanas em que ficara
junto de Jake, seu coração explodia de vida. Agora,
como aquelas flores, estava morta por dentro.
— Nunca devia ter acontecido — murmurou ela
consigo mesma.
Reconhecia seu erro claramente: excesso de orgulho.
Gostava de ser uma Gyllenhaal. Jake, que a conhecia
bem, sabia que ela não iria abrir mão disso. E, com
medo de ser mal interpretado, jamais voltaria para
Liv, enquanto ela fosse dona do "Retiro".
Ela respirou fundo. A ferida ainda sangrava, mas isso
a ajudava a pensar claramente. "Enquanto fosse
dona do 'Retiro'! Podia renunciar àquela casa? O que
ela significaria sem Jake? A mansão fizera parte dos
sonhos de Liv porque era ali que Jake morava.
Mesmo casada com Roscoe, ela vivia imaginando o
jovem Jake movimentando-se entre aquelas salas
severas.
O "Retiro" nunca lhe pertencera. Fora sempre dele.
Algumas linhas absurdas num testamento não
poderiam negar a realidade.
Bem, talvez ela pudesse inverter a situação.

Uma leve mas inesperada batida na porta do


escritório fez Liv erguer a cabeça com um
sobressalto.
— Entre.
Granger parou no limiar.
— Haney me disse que você estava aqui. Espero não
estar incomodando.
Liv, que estava sentada à escrivaninha, sorriu.
— Entre, Granger! Você é sempre bem-vindo.
— Acho que está trabalhando demais. É necessário?
Sim, era necessário. A rotina do trabalho a impedia
de lem-
brar das circunstâncias em que Jake deixara a
mansão. Passado um mês da partida dele, a dor que
lhe dilacerava o peito começava a atenuar-se. Mas
para a mágoa que a substituíra não haveria remédio.
— Esses livros-caixa têm de ser feitos. Na
Beneficiadora, não consigo, pois sou interrompida a
todo instante. -— Carolíne voltou a sorrir. — Sente-
se. Posso lhe oferecer alguma coisa? Um drinque. ..
café...
Ele se sentou diante dela.
— Não, obrigado. Como vão as coisas na
Beneficiadora?
— Muito trabalho, mas tudo bem. Você sabe disso,
esteve lá ontem! Algum problema, Granger?
Liv empalideceu diante do silêncio do advogado,
Jake! Alguma coisa havia acontecido com ele!
— Por que veio me procurar, Granger?
— Não se preocupe, não é nada grave. — Ele a
observou por alguns instantes. — Você recebeu um
convite, ao qual não sei como irá reagir.
— Um convite? Para quê?
— Querem lhe oferecer uma placa comemorativa,
designando Roscoe cidadão do ano, no Festival de
Outono.
Granger referia-se à festa oferecida todos os anos
pela Câmara de Comércio de Winstonville.
— Querem prestar uma homenagem póstuma, é
isso? Por que não homenageiam um cidadão vivo?
Granger passou a mão pelo queixo, com ar
pensativo.
— Foi o que lhes perguntei. Não que eu esteja
menosprezando a memória de Roscoe! Mas parece
que a comissão julgadora o elegeu antes que ele
morresse. Não quiseram mudar a decisão e estão
pedindo que você o represente no dia da abertura do
Festival.
Liv levantou-se e caminhou até a janela. Estava
chovendo muito, uma chuva torrencial e fria que
prenunciava o outono. Nada parecido com aquela
suavidade que acariciara seu
corpo nu, naquela dia de verão, como só as mãos e
bocas dos amantes sabiam fazer.
A foto de Jake aparecera no jornal da véspera. Steve
lera a notícia e Laura Jane encarregara-se de contar-
lhe tudo. Mais uma cidade americana permitia que a
Air Dixie tivesse acesso ao seu aeroporto. Na foto,
Jake aparecia sorrindo e apertando a mão do
prefeito. Mechas de cabelo escuro caíam-lhe sobre a
testa, aqueles mesmos cabelos que ela tantas vezes
acariciara.
— Você sente falta dele, não? — perguntou Granger
com suavidade, interrompendo-lhe os pensamentos.
— De quem? De Roscoe?
— Não, de Jake. Liv virou-se, surpresa.
— Como sabe?
Ele esboçou um sorriso meio triste.
— Sempre achei que havia alguma coisa entre você
e Jake. — O advogado levantou as mãos quando ela
fez menção de se justificar. — Não quero saber dos
detalhes. Acho mesmo que prefiro não saber de
nada. Mas no dia do casamento de Laura Jane vi
vocês dois juntos e tive certeza de que estavam
apaixonados. Estou certo?
— Sim.
Liv voltou a mirar a paisagem pela janela, Um
silêncio pesado caiu entre eles.
— Seria muita indiscrição perguntar por que ele
partiu? — indagou Granger, com cuidado.
Ela sacudiu a cabeça.
—- Não. Você foi sempre um bom amigo, Granger.
Quando Roscoe se casou comigo, você se
surpreendeu, mas me tratou sempre com respeito e
cortesia. Não sei se já lhe agradeci por isso. — Olhou-
o diretamente nos olhos. — Agradeço agora, E, como
é meu amigo, posso lhe dizer que muitas coisas me
separam de Jake.
— O pai dele, por exemplo.
— Sim. E o meu casamento.
— O orgulho de Jake.
— Oh, sim, embora o meu casamento não tivesse
sido consumado.
— imaginei isso também. Liv riu suavemente.
— Você me surpreende. Não ficou chocado?
—Estou aliviado. Você era boa demais para Roscoe,
Caroline.
Ela voltou a sentar-se.
— Roscoe fez coisas terríveis. Mas nada se compara
com o que fez a Jake.
— Concordo.
— Você estava a par de todas as tramas?
— Muito mais do que você supõe.
— Como conseguiu ser amigo dele durante tantos
anos?
— Eu era o advogado dele, apenas isso. Roscoe não
tinha amigos. Não os desejava. Eu procurei impedir
certos abusos que ele cometia. Tremo só de pensar
no que ele poderia ter feito se eu não controlasse os
seus negócios.
Liv inclinou-se confidencialmente para Granger.
— Roscoe não merecia tanta consideração.
— Quer um conselho, Liv?
— Por favor.
— Aceite as homenagens com um sorriso.
— Seria hipocrisia.
— Não decepcione o povo. Eles precisam de gente
importante para amar, odiar, invejar, imitar. Dê a
eles o que pedem. Por uma hora, permita que
Roscoe seja o que eles imaginam.
— Acho que tem razão.
Granger levantou-se e deu-lhe o braço, caminhando
com ela até a porta.
— Vou dizer à comissão que você aceita representar
Roscoe na homenagem.
— Granger. . . Mais uma coisa.
— Sim?
— Gosfaria de passar o "Retiro" para as mãos de
outra pessoa.
Granger pareceu chocado.
— Não está pensando em vender a casa, está?
— Não, não. Quero fazer uma doação.
Granger estudou atentamente o rosto de Liv,
percebendo que ela já estava decidida.
— Você é a legítima proprietária do "Retiro". Pode
fazer o que bem entender com a casa, desde que
respeite a cláusula referente a Laura Jane.
— Não há nenhum obstáculo legal, então?
— Não. Aliás, acho que Roscoe cometeu um deslize
sem perceber.
— Entendo. Não se preocupe com Laura Jane. Ela
não será prejudicada,
— Nesse caso, não haverá nenhum problema.
— Quando vai ser o Festival?
— Na terceira semana de outubro. Dentro de um
mês, mais ou menos. — Granger pôs a mão na
maçaneta da porta. — Como pediram o endereço de
Jake, acho que pretendem convidá-lo.
Liv desviou os olhos.
— Será que pode aprontar o documento da doação
para a terceira semana de outubro?
Quando voltaram a se fitar, Liv percebeu que ele
sorria.
— Sabe, se não fosse por esses dois Gyllenhaal,
sempre se metendo no caminho, acho que eu
acabaria me apaixonando por você.

— Ei, você aí , Liv voltou-se para olhar a jovem que a


chamava com tanta rudeza.
— É comigo?
— Não é a sra. Gyllenhaal?
— Sou.
Apesar de não ter roais de doze anos, a garota
estava muito maquilada e trazia os cabelos cortados
à moda punk. Tinha três brincos numa das orelhas;
na outra, exibia uma enorme estrela de metal. Usava
batom branco nos lábios e seus cílios estavam duros
de rímel. Suas roupas eram tão extravagantes
quanto a maquilagem.
— Como sabe quem sou? — perguntou.
— Conheci o sr. Gyllenhaal. Jake Gyllenhaal. Mas foi
há muito tempo, Meu nome é Alyssa.
Os olhos de Liv arregalaram-se de surpresa. Aquela
garota era a filha de Marilyn!
— Como vai, Alyssa?
— Vou bem. Você era casada com o pai de Jake, não
era?
— Sim, com Roscoe. Ele morreu faz alguns meses.
— Já sei. Todos sabem. Outro dia, vi você e Jake na
lanchonete.
— Por que não falou com ele? A garota encolheu os
ombros.
— Acho que ele não se lembra mais de mim.
A turma de Alyssa aproximou-se e Liv estremeceu.
Aquele pessoal parecia fugido de algum
reformatório! Mas ela logo se envergonhou de seus
pensamentos. Estava formando opiniões baseadas
apenas nas aparências. Julgara os jovens do mesmo
modo como o povo da cidade fizera com ela, anos
atrás.
— Como está sua mãe? —- perguntou a Alyssa,
sem saber como continuar a conversa.
— Está de marido novo. É um lixo. Muito pior do que
o último, mas eu não estou nem aí. . . Bom, tenho
que ir andando.
— Um momento!
A jovem fitou-a com uma atitude agressiva, mas Liv
percebeu a rebeldia, a suspeita e a vulnerabilidade
que havia naqueles olhos.
— Por que não aparece no "Retiro"? Gostaria que
você conhecesse a minha casa.
Alyssa soltou um grunhido.
— Não acredito!
— Verdade. . . Estou falando sério.
Nem mesmo Liv sabia a razão de sua insistência. A
garota tocava-lhe o coração.
— Gostaria que fôssemos amigas.
— Por quê?
— Jake fala muito de você.
— É mesmo? — O queixo de Alyssa estava
orgulhosamente erguido, mas Liv percebeu que ela
estava surpresa e interessada.
— Ele comentou que você era uma menina boa e
meiga e que se preocupava muito com você.
— Ele não é meu pai.
— Eu sei. Mas ele ama você.
A garota começou a morder nervosamente o lábio
pintado de branco. Por um instante, Liv teve a
impressão de que ela iria chorar.
— Jake vai voltar para o Festival de Outono. Por que
não o procura?
— É, quem sabe; se eu não estiver muito ocupada.. .
— Entendo. Acho que Jake gostaria de ver você.
Alyssa não respondeu. Olhou para a sua turma e
então disse:
— Olhe, tenho de ir.
— Está bem. A gente se vê.
Liv ficou observando a garota que se afastava. Pobre
menina, como parecia desorientada e infeliz!

— Está orgulhoso de mim, Steve?


— Muito.
Laura Jane e o marido estavam deitados na enorme
cama de casal. A antiga suíte de Roscoe fora
especialmente redecorada para eles como presente
de casamento de Liv. O papel de parede era novo,
mas de acordo com a arquitetura da casa. Havia
cortinas novas nas janelas, novas toalhas no
banheiro, tapetes novos.

Laura Jane aconchegou-se ao marido e acariciou-lhe


o peito.
— Quero dizer, orgulhoso porque eu fiz as compras
sozinha e paguei tudo direitinho, não é mesmo?
— Você faz tudo certo. Eu sabia que iria conseguir.
Ele a levara ao armazém naquela manhã e a
incentivara a fazer as compras e a pagar a conta. Ao
saírem do armazém, Laura Jane batera palmas como
uma criança que fez direitinho a lição de casa,
merecendo elogios dos pais. — Eu tinha medo,
Steve. Jake também costumava me levar à cidade.
Ele queria me ensinar as coisas, mas eu tinha medo
de fazer tudo errado.
— E quanto a mim, Laura Jane? Não tem receio de
me desapontar?
— Claro que tenho. Quero agradar você. Não quero
que fique zangado — disse, acariciando os pêlos
escuros que cobriam o peito largo.
Ele riu e beijou-lhe as palmas das mãos.
— Minha querida, como podia ficar zangado com
você? Eu te amarei para sempre, não precisa se
preocupar com o meu amor.
— Steve, eu te amo muito — murmurou ela, tirando
repentinamente a camisola e jogando-a aos pés da
cama.
Sua simplicidade chegava a ser tocante. Era como
uma criança no que dizia respeito à nudez: não
sentia a mínima vergonha de seu corpo. Tanta
espontaneidade costumava deliciar o marido, que,
todavia, quase sentia vergonha de gostar daquela
falta de inibição.
Laura Jane lhe ensinara a não sentir repugnância de
seu próprio corpo. Steve, que se desprezava desde
que perdera a perna, chegava a ficar espantado ao
ver Laura Jane sentir tanto prazer em tocá-lo. As
carícias daquelas mãos de porcelana sempre o
levavam a êxtases inacreditáveis. Jamais recebera
tantos cuidados de outro ser humano como recebia
da Laura Jane, que naquele momento estava deitada
de costas ao lado dele, com um calmo sorriso nos
lábios. Steve passou os dedos pelos cabelos longos e
sedosos e aproximou o rosto para beijá-la.
Ela se estendeu em cima dele e começou a lamber-
lhe de leve a orelha com sua língua rosada como a
de uma gatinha. Depois, sensualmente, foi
escorregando para baixo, pontilhando de pequenos
beijos a garganta e o peito forte.
— Laura Jane. . . — disse Steve, arquejante.
— Hum...?-— murmurou ela, sem parar de beijá-lo.
— Quando você fez isso comigo, eu gostei. Mas se
você não gosta, eu posso parar,
— Não, não pare. Não até. . .
Steve a ajeitou melhor em cima de si mesmo,
pousando as mãos sobre as nádegas de seda.
Erguendo-se nos braços, Laura Jane ofereceu os
seios à boca ávida do marido. Quando a língua de
Steve tocou o pequeno bico rosado, ela suspirou de
prazer.
Depois, ainda segurando-a pelos quadris, ele a
penetrou e a possuiu até seus corpos estremecerem
ao mesmo tempo, incendiados pelo calor da paixão.
Depois do êxtase, ficaram deitados lado a lado, ainda
dominados pelo clima de emoção.
— Estou tão contente que você tenha me ensinado a
fazer amor! — disse Laura Jane.
Steve riu baixinho.
— Eu também,
— Gostaria que todos fossem felizes como nós.
— Ah, isso é impossível! Ninguém pode ser tão feliz
como eu!
— Pobre Liv! Parece infeliz, desde que Jake foi
embora. Você acha que ela está sentindo falta dele?
— Acho, doçura.
— Eu também. — Laura Jane calou-se durante tanto
tempo que Steve chegou a pensar que ela estivesse
dormindo. — Tenho medo de que ela morra como
papai.
Steve surpreendeu-se.
— O que esíá querendo dizer?
— Liv está doente.
-— Não, não está. E também não vai morrer.
— Papai costumava pôr a mão no estômago quando
pensava que ninguém estivesse olhando. E fechava
os olhos quando sentia dor.
— Que é que isso tem a ver com Liv?
— Ela está fazendo as mesmas coisas. Fiquei
olhando para ela. quando chegou do trabalho, ontem
à noite. Pendurou o casaco no armário e começou a
subir as escadas. De repente, parou e encostou a
cabeça no corrimão. Ficou assim durante muito
tempo. Eu ia correr para ajudá-la, mas aí ela se
endireitou. Parecia que estava tentando ganhar
forças para continuar a subir.
Laura Jane calou-se e ficou uns instantes pensativa.
Depois, inclinando a cabecinha para Steve,
perguntou;
— Ela não vai morrer, vai?
— Não, não! Claro que não! Com certeza Carolíne
estava apenas cansada.
— Espero que sim. Não quero que ninguém morra
antes de mim. Especialmente você, Steve. — Ela
aconchegou-se mais. — Não morra nunca, Steve.
Ele a tomou nos braços e a embalou até que ela
adormecesse. Mas ele não dormiu. Ficou olhando
para a escuridão, com a testa franzida de tanta
preocupação por Liv. O que Laura Jane lhe contara só
viera preocupá-lo mais ainda.

CAPÍTULO XIV

Não havia uma nuvem no céu, no dia da abertura do


Festival de Outono. A manhã abria-se clara, mas a
brisa agradável prenunciava um dia fresco.
Dando uma discreta batida na porta, Haney entrou
com a bandeja de chá com torradas e geléia.
— Não queria incomodar, sei que você foi dormir
muito tarde. Mas vai perder a hora, se não levantar
já.
— Obrigada, Haney. Eu não estava dormindo, estava
só aproveitando o calor das cobertas.
— Fez bem. Precisa de ajuda? Quer que lhe prepare a
água do banho?
— Um banho quente seria ótimo. Deve estar frio lá
fora — disse Liv, tomando a bandeja das mãos da
governanta e servindo-se de chá.
Do banheiro anexo, Haney fazia comentários sobre
os acontecimentos da semana. Com o pensamento
longe, Liv mal a ouvia, bebendo mecanicamente seu
chá fumegante.
— Seu banho está pronto, Liv. Não vai comer as
torradas?
— Não estou com fome.
Quando Liv pensava que iria ter de ficar de pé num
palco, diante de toda a população, seu estômago
contraía-se, recusando qualquer alimento.
Enquanto ela se levantava e vestia o robe, a
governanta ficou a observá-la. A camisola
transparente não lhe disfarçava a magreza; perdera
pelo menos cinco quilos naqueles últimos meses.
— Você acha que ele virá, Liv?
— Quem?
Haney lançou-lhe um olhar tão reprovador que,
envergonhada, Liv baixou a cabeça.
— Não sei... — murmurou.
Quando Liv desceu as escadas, uma hora mais tarde,
Steve assobiou de admiração e Laura Jane bateu
palmas.
— Puxa, que classe! — comentou Steve.
— Gostaram? — perguntou Liv, satisfeita.
— Você está linda! — exclamou Laura Jane, com seu
entusiasmo habitual.
— Sei que todos vão falar mesmo, por isso resolvi
dar-lhes um bom motivo. Além disso, somos os
representantes do Cidadão do Ano e precisamos nos
mostrar elegantes.
Ela usava um tailleur de lãzinha cor-de-rosa, no estilo
chanel, com bolsa e sapatos de pelica cinzenta bem
clarinha, brincos e uma pulseira de pérolas
completavam o conjunto.
— Vocês também estão muito elegantes — elogiou
Liv. Laura Jane parecia uma bonequinha, toda de
azul-claro, e
Steve usava o mesmo terno do casamento. Até
Haney vestira suas roupas domingueiras.
— Vamos, a carruagem nos espera —- anunciou
Steve, todo cerimonioso, oferecendo um braço à
esposa e o outro a Caroline. — Lady Laura Jane. . .
Lady Liv. . . Por favor, . . — convidou.
O auditório do colégio estava superlotado.
Liv acomodou-se no palco, com Steve, Laura Jane e
Haney de um lado, e os membros da comissão e as
autoridades locais do outro.
Para controlar o pânico que a ameaçava, cravou os
olhos na bandeira americana hasteada num dos
cantos do palco. As estrelas pareciam tremular e as
listras ondulavam. Mas a bandeira estava imóvel,
Liv estava doente.
Ao lançar um olhar à plateia, viu um mar de rostos
que a fitavam com ávido interesse. Baixou os olhos e
cruzou nervosamente as mãos no colo, notando que
suas palmas estavam úmidas de suor. Sentia frio e
calor ao mesmo tempo. Não sabia o que fazer.
Seu. estômago contraía-se, Por que não comera as
torradas? Mas teria sido pior, estava passando mal.
Seria horrível dar um vexame diante de tanta gente!
Com o rosto em fogo, lançou um olhar à sua volta.
Todos pareciam à vontade; Steve e Laura Jane
conversavam calmamente, Haney tagarelava com o
seu vizinho, o prefeito falava alto com o juiz.
Apesar do mal-estar, Liv notou quando ele chegou e
apertou a mão do prefeito.
— Como vai, Jake? Agora podemos começar — disse
o homem em voz alta. — Tinha receio de que não
viesse.
Liv respirou fundo para controlar a onda de emoção
que a envolvia e desviou os olhos. Ouvia, no entanto,
a voz de Jake cumprimentando os membros da
comissão.
Pelo canto do olho, notou que Haney o recebia com
um ar ofendido, que se derreteu ao primeiro beijo
dele. Percebeu também que Laura Jane o abraçava e
que Steve apertava-lhe a mão.
Os olhos dela estavam tão baixos que só viram a
calça escura dirigir-se para o seu lado. Jake estava
parado diante dela! Sentia a energia que se irradiava
dele e teve vontade de sumir. Mas, como toda a
cidade os observava, esboçou um pálido sorriso e
ergueu a cabeça.
— Como vai, Jake?
Ele não conseguiu esconder o choque. Havia
sombras arroxeadas sob os profundos olhos azuis. As
faces de Liv estavam encovadas e muito pálidas,
dando a impressão de que passava as noites em
claro e que se alimentava mal.
Mas continuava linda! Mais bela do que nunca. Jake
teve de se controlar para não torná-la nos braços na
frente de todos. Os últimos dois meses tinham sido
um verdadeiro inferno! Não conseguia pensar em
nada a não ser nela.
Censurara-se vezes sem conta por seu orgulho e
presunção. Perdera o controle por causa de dois
bêbados de taverna e despejara a sua frustração em
Liv. Mas ela o enfrentara, e era preciso reconhecer
que estava certa. Roscoe não era o culpado pela
raiva que roía as entranhas do filho. Naqueles dias,
Jake odiava muito mais a si mesmo.
Não se comportara como um homem, e menos ainda
como um homem apaixonado.
Ah, mas a paixão tornava as pessoas meio doidas. O
amor fazia perder a razão. Era o amor que o obrigava
a apertar a mão dela com frieza, quando sua vontade
era jogar-se a seus pés. Era o amor que o fazia dizer
um convencional "Como vai, Liv? Você está muito
bonita", quando queria tomá-la nos braços, isso sim!
Tinha vontade de pedir-lhe perdão em público,
desafiando até o céu e a terra, caso tentassem se
intrometer em seu amor.
Sentou-se ao lado de Liv, que se afastou
discretamente ao sentir-lhe a proximidade.
Observou-lhe as mãos pousadas no colo e a postura
rígida. Como ela era linda! Ainda parecia a garota
dos bosques, a pequena Tyler que gostava de
agradá-lo. Seu coração doía de amor. Queria
murmurar-lhe doces palavras de carinho, mas a
opinião pública os condenava, porque ela havia sido
a esposa de seu pai.
Voltou-se tão rapidamente que Liv não pôde evitar-
lhe os olhos. Estudou as linhas do rosto dela,
prestando atenção a cada detalhe. Parecia-lhe ainda
mais linda, mais desejável do que naquele verão de
doze anos atrás.
— ... sim, pedimos à sra. Liv Gyllenhaal, viúva de
Roscoe, para dirigir-se à tribuna.
Jake acompanhou Liv com os olhos. Não ouvira uma
palavra do discurso. E, pelo jeito, ela também não.
Atendera mecanicamente ao chamado, caminhando
até a tribuna com um andar de rainha, mas havia um
expressão um tanto ausente em seu rosto. Ela
esboçou um sorriso triste, que a plateia interpretou
como uma reação à homenagem que era prestada
ao marido. Jake tinha vontade de lhe dizer: "Não se
preocupe mais com eles. Você foi aprovada".
Liv segurou a placa com uma das mãos e com a
outra apertou a mão do prefeito, que se afastou para
um lado e passou-lhe o microfone.
— Roscoe teria se sentido honrado com esta
manifestação de amizade. Aceitamos a homenagem
em nome dele e agradecemos.
Não houve nenhuma hipocrisia naquelas palavras.
Tudo o que ela acabara de dizer era verdade. Dera
ao povo o que ele queria: o herói do dia, Na opinião
de Jake, ela havia agido corretamente.
Liv tentou voltar para o lado de Jake, mas vacilou;
seu rosto estava tão pálido que parecia feito de cera.
Mal dera três passos, entretanto, quando parou e
fechou os olhos por uma fração de segundo,
aparentemente para recuperar o controle de si
mesma. Deu mais um passo e tropeçou, mas o
prefeito susteve-a pelo cotovelo.
Jake levantou-se de um pulo. Ela o olhou como se
tivesse dificuldade para focalizá-lo, e então seus
olhos fecharam-se lentamente, os joelhos dobraram-
se e ela desmaiou, caindo ao chão.
Um murmúrio de surpresa elevou-se da multidão.
Laura Jane gritou e agarrou a mão de Steve. Haney
murmurou algo incompreensível, enquanto Liv era
rodeada pelos que lhe estavam próximos,
Jake, louco de desespero, começou a abrir caminho
entre as pessoas que lhe impediam a passagem.
— Saiam de perto dela. . . Deixem-me passar. . .
Saiam do caminho, com os diabos!
Quando conseguiu chegar ao lado de Liv, caiu de
joelhos e tomou-lhe a mão.
— Liv, Liv! Pelo amor de Deus, chamem um médico!
Liv, querida, fale comigo!
Desabotoou os primeiros botões da blusa de renda e
começou a dar-lhe palmadinhas no rosto pálido, até
que ela entreabriu os olhos e soltou um gritinho.
— Não faça nada, querida. Que foi que aconteceu?
Você está doente? Não, não fale. Já chamaram o
médico.
— Jake. .. — murmurou ela, sorrindo.
— Você desmaiou, querida.
As pessoas que se acotovelavam nas proximidades
ficaram surpresas.
— Você vai ficar boa, prometo. Vou cuidar de você—
disse Jake, beijando-lhe a mão. — O médico vai
chegar logo.
— Não preciso de médico.
— Não fale. Você desmaiou. Foi a excitação, talvez.
Você. . .
— Estou grávida, Jake.
Ele a fitou, tão atônito com aquela revelação
surpreendente que não conseguiu dizer mais nada.
Liv riu.
— Não há nada de errado comigo. Vou ter um filho.
Os olhos dela percorreram, um por um, os rostos
curiosos que a rodeavam. Os líderes da comunidade
assistiam com ávido interesse à cena, que
certamente seria objeto de comentários durante
meses. Fora gente como essa que a havia chamado
de vagabunda. Fora esse povo que ela tentara
impressionar e cuja aprovação fizera questão de
obter.
Liv se perguntou, de repente: "Por que dediquei
tantos anos de vida a uma meta tão insignificante?"
Ela encarou Jake nos olhos, olhos dourados que
ardiam de desejo e de amor. Colocando a mão no
rosto dele, disse bem alto:
— Vou ter um filho seu, Jake.
Os olhos dele brilharam de emoção, Passando-lhe os
braços pelos ombros, inclinou-se e murmurou no
ouvido dela:
— Eu amo você, Liv. Eu amo você.
Então, Jake se levantou impetuosamente, erguendo-a
nos braços.
— Com licença! A senhora está grávida e vou levá-la
para casa. Prefeito, faça o favor de apagar esse
maldito charuto. Está me deixando doente, e eu sou
apenas o pai. Imagine a mãe! Haney, por favor,
pegue a bolsa de Liv. Steve, traga o carro até aqui.
Vamos, Laura Jane.
Liv recostou a cabeça no peito de Jake, deixando que
ele se encarregasse de resolver a situação. Ele abria
caminnho entre a multidão, afirmando a todos que
ela estava bem, que desmaiara devido à excitação e
ao calor do auditório.
— Vou levá-la para casa, obrigá-la a comer alguma
coisa e depois vou acomodá-la na cama, Até logo a
todos e passem bem.
Diante de toda a gente que os observava, Jake sorriu
para Liv e a abraçou estreitamente. E foi assim que
deixaram o edifício.

— Já acordou?
Jake inclinou-se e deu um beijo na testa de Liv,
— Você ficou aqui durante esse tempo todo? —
perguntou ela, que adormecera segurando-lhe a
mão.
— Não larguei você nem por um minuto. —- Dormi
muito?
— Algumas horas, mas não o suficiente. Você tem
de ficar na cama durante alguns dias, pelo menos.
Ela se espreguiçou languidamente.
— Dormindo o tempo todo?
— Entre outras coisas.
Jake a apertou contra si, enterrou a cabeça nos
cabelos sedosos e beijou-a na boca com ternura. Liv
passou os braços pelo pescoço dele, aconchegando-
se mais, fazendo renascer o desejo que Jake sufocara
durante horas para não perturbar-lhe o sono.
Jake deitou ao lado dela e enlaçou-a, sem deixar de
beijá-la.
— Quando pretendia me contar tudo, Liv? —
indagou-lhe num mumúrio.
Liv insinuou a mão por dentro da camisa de Jake e
deixou-a sobre seu peito.
— Neste fim de semana. Se você não tivesse vindo
para o Festival, eu teria lhe telefonado.
— Verdade?
— Se eu não ligasse, Haney o faria.
— Ela sabia?
— Acho que suspeitava. É Steve também. Não
fizeram nenhum comentário, mas eu percebi que
estavam sempre me observando.
— Percebi que alguma coisa diferente tinha
acontecido. Você
emagreceu.
— O médico disse que é normal. Não tenho apetite
por causa dos enjoos.
— Por que não me contou logo? Não sei se lhe dou
uma surra ou um beijo.
— Prefiro que me beije.
Ele atendeu ao pedido, depois tocou-lhe o ventre
com respeito.
— Meu filho está aqui. Deus! É um milagre!
Seus lábios se encontraram novamente num beijo
profundo, possessivo, que lhes atiçou a chama do
desejo. Jake apertou-lhe os seios sobre a camisola de
seda. Haney trocara as roupas dela quando a
puseram na cama. Agora, a seda estava quente com
o calor de seu corpo.
— Quer casar comigo, Liv?
Ela suspirou. As mãos de Jake se insinuaram dentro
da camisola, arrancando-a com violência. Sua boca
ávida moveu-se sobre a carne palpitante, até
encontrar os bicos intumescidos.
— Como poderia recusar? Você tem um jeitinho todo
especial de pedir as coisas — murmurou ela.
Jake tornou-lhe o rosto entre as mãos.
— Quero que você saiba de uma coisa que só
percebi hoje. —Ele olhou-a profundamente. —
Mesmo que o seu casamento com meu pai tivesse
sido consumado, ainda assim eu continuaria a querê-
la tanto quanto agora.
Os olhos dela encheram-se de lágrimas.
— Eu te amo, Jake. E quero me casar logo com você,
— Já? Faz apenas quatro meses que papai morreu, O
povo vai falar — disse ele, só para provocá-la.
Liv soltou uma sonora gargalhada.
— Depois da cena desta manhã, não me importo
com mais nada. Quanto mais cedo, melhor!
— Esta semana?
— Amanhã — sussurrou ela. — O que pretende fazer
depois do casamento? Onde vamos morar?
— Aqui no "Retiro". Irei de avião a Atlanta quando os
negócios exigirem.
— Irei com você.
— Não tem medo de voar comigo?
— Com você, não tenho medo de nada.
— Será que terei de correr de um quarto para outro,
como antigamente? — perguntou ele.
— Podemos ficar com o seu quarto e fazer deste o
quarto do bebé.
— Mamãe teria gostado.
Quando suas bocas se encontraram de novo, Jake
suspirou.
— Como senti a sua falta!
Tocou-lhe os seios ainda úmidos de suas carícias e
mordeu-lhe de leve a orelha, seguindo os contornos
com a língua, excitando-a até a loucura. Ela gemeu,
em profundo abandono.
— Jake. .. Por favor, tire a roupa. Ele se sentou e
ficou vermelho.
— Com os diabos! Não podemos. Prometi a Haney
que desceríamos para jantar assim que você
acordasse.
—- Meu Deus! — exclamou Liv, arremessando as
cobertas para o lado. — Foi bom você ter lembrado.
Temos um convidado para o jantar.
— Convidado? Quem?
— É surpresa. Não quer escolher um vestido para
mim, enquanto me arrumo? — Liv sentou-se à
mesinha de toalete e começou a escovar
vigorosamente os cabelos. — Será que está
parecendo que nós.. . você sabe. . .
Jake tirou um vestido do armário e estendeu-o sobre
a cama. Depois, chegando por trás dela, tomou-lhe
os seios nas mãos e apertou os bicos entre os dedos.
Quando ficaram rijos, ele exclamou:
— Ah, agora você parece alguém que. .. Você sabe!
- Jake, não vou conseguir ficar pronta a tempo, se
não parar com isso!
Jake pressionou a rija masculinidade de encontro ao
corpo dela.
— Pois eu já estou pronto. Aliás, estou pronto há
horas. Sabe que você fica linda quando dorme?
— Não brinque, Jake. Você sabe que eu quis dizer
pronta para o jantar.
— Ah, o jantar. Droga!
Ao descerem, encontraram Steve e Laura Jane na
sala, preparando os drinques.
— Obrigado — disse Jake, aceitando o bourbon que o
cunhado lhe oferecia.
Se ainda tivesse alguma dúvida sobre o acerto do
casamento de Laura Jane, bastaria dar uma olhada
no casal. Sua irmã irradiava felicidade e Steve
parecia mais tranquilo; não era mais o homem tenso
e desconfiado de outrora.
Nesse instante, a campainha tocou e Liv levantou-se
de um salto.
— Acabe de tomar o seu drinque — disse a Jake. —
Volto num instante.
— Liv tem de parar de se agitar tanto — comentou
ele com a irmã. — Espero que, nos próximos meses,
ela aja com mais calma.
— Nem posso acreditar que Liv esteja esperando um
bebê! — comentou Laura Jane.
Jake olhou significativamente para Steve.
— E eu não posso acreditar que fui o último a saber ,
Steve encolheu os ombros.
— Não cabia a mim tomar qualquer atitude.
Quando Jake ia responder, Liv reapareceu
acompanhada de uma garota.
— Jake, visita para você.
A garota percorreu a sala com os olhos e mordeu
nervosamente o lábio, que, para alívio de Liv, não
estava pintado. Ela não usava maquilagem nem
enfeites extravagantes; pelo contrário, estava
discretamente vestida e escovara seus cabelos
rebeldes.
— Foi Liv que me convidou — disse Alyssa, na
defensiva. — Eu sabia que você não se lembrava de
mim.. .
Depois do choque inicial, Jake parecia
agradavelmente surpreso. De braços estendidos, foi
ao encontro da garota, parando a poucos passos
dela.
Os lábios de Alyssa tremeram, seus olhos encheram-
se de lágrimas. Sem nenhum vestígio de rebeldia, ela
deu um passo para a frente e jogou-se nos braços de
Jake, enterrando o rosto no peito dele.

— Alyssa não é uma garota tão terrível assim —


comentou Jake.
Estavam no quarto de Liv, preparando-se para
dormir.
— Não é mesmo. Apenas mal orientada. Devia vê-la
no dia em que a conheci. Parecia um personagem de
filme de terror.
— Vocês são amigas há muito tempo?
— Há algumas semanas apenas. Almoçamos juntas
algumas vezes na lanchonete da cidade. Convidei-a
para jantar hoje porque tinha certeza de que você
estaria presente. — Olhou para ele com ternura. —
Estou contente que esteja novamente aqui
— Eu também. Obrigado por ter me devolvido Alyssa,
Caroline. Isso é mais um motivo para eu te amar.
— Acho que você poderá exercer uma boa influência
sobre Alyssa.
— Gostaria de vê-la sempre que puder. Você viu
como ela se espantou quando a convidamos para ir à
exposição conosco? Acho que Marilyn não a leva a
lugar algum.
— Mas você quer mesmo ir à exposição de amanhã?
— Por que não? — perguntou Jake, enquanto tirava a
calça.
Ela se mirou no espelho com fingida indiferença. Por
que a cidade inteira vai estar lá. E depois do que
aconteceu hoje. . .
Liv não conseguiu acabar a frase. Jake aproximou-se
por trás, virou-a para ele e beijou-lhe os lábios.
— Vou dizer a todos que eu te amo e que não vejo a
hora que meu filho nasça.
— Eu te amo muito, Jake. Você é maravilhoso!
— Você é que é maravilhosa!
Ele a olhou com evidente prazer. A camisola de seda
acentuava-lhe sedutoramente as curvas do corpo,
colava-se aos seios, formava uma sombra sobre o
triângulo escuro.
— Você é linda, Liv!
A mão dele deslizou sobre a suavidade do tecido,
percorrendo-lhe as formas, acariciando o macio
triângulo.
— Espere um instante, Jake. Eu... eu tenho algo
para lhe dar.
— Eu também.
Ele afastou a alça da camisola e tocou-lhe os bicos
dos seios com a língua, enquanto lhe pressionava a
virilha.
— Seu presente pode esperar?
— Eu. . . eu acho que sim.
— Pois eu não posso — retorquiu ele, guiando a mão
dela para o seu sexo túrgido.
Jake abaixou a outra alça da camisoia, que
escorregou suavemente pelo corpo dela. Ergueu-a
então nos braços e levou-a para a cama.
Deitou-se, acomodando-se entre as coxas dela.
— Eu te amo! Sempre te amei, Liv. Fui um idiota,
mas espero que esqueça tudo. Você é a razão da
minha vida. Se soubesse como senti a sua falta!
Roçou-lhe o ventre com os lábios, sabendo que seu
bebê dormia em segurança ali dentro.
Com delicadeza maternal, Liv lhe acariciava os
cabelos escuros, mas seus dedos se retesaram na
nuca forte quando os lábios dele roçaram o centro de
sua feminilidade.
As mãos de Jake, leves como píumas, deslizaram
pelo interior das coxas dela, enquanto ele beijava as
pétalas de veludo de sua feminilidade. Mantendo-as
abertas com as pontas dos dedos, fez penetrar seu
sexo túrgido e pulsante.
— Não vou machucar o bebê?
— Não.
A paixão com que ele a possuiu veio temperada de
amor e cuidado. Seus quadris moviam-se
ritmicamente em busca do prazer, até que a espiral
do êxtase os envolveu ao mesmo tempo.
Depois do banho de chuveiro, ainda enrolada numa
toalha felpuda, Liv disse:
— Ainda não lhe dei o meu presente.
— Quer dizer que tem mais?
— Estou falando sério, Jake!
Ela se dirigiu para a escrivaninha antiga e abriu uma
das gavetas. Retirou uma folha de papel dobrada ao
meio e, depois de entregá-la a Jake, foi até a janela e
permaneceu de costas para ele.
A lua cheia derramava sua claridade sobre o bosque,
transformando o rio numa fita prateada a distância.
Como amava aquele iugar! Mas amava ainda mais o
homem a seu lado.
Ela ouviu o ruído do papel e percebeu que Jake
estava lendo o documento que lhe transferia a posse
do "Retiro".
— Não posso aceitar, Liv. O "Retiro" lhe pertence.
Ela se voltou e deu um passo para a frente.
— Nunca foi meu, Jake. É seu por direito. É por você
que amo tanto esta casa. Sem você, ela não significa
nada para mim.
Aproximou-se mais e colocou as mãos no peito dele.
— Eu te amo tanto que lhe dei o que mais queria no
mundo. Se me ama, ponha o orgulho de lado e
aceite. Por favor.
Ele a encarou por alguns instantes, depois olhou o
papel que tinha na mão.
— Aceito. Mas com uma condição: prometa
compartilhar esta casa comigo pelo resto da vida.
Prometa que os nossos filhos crescerão aqui.
Liv deu um sorriso radioso.
— Prometo.
Jake selou a promessa com um longo beijo de amor
e, deixando cair a toalha, ergueu-a nos braços e
levou-a para a cama novamente.

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