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Tratamentos Térmicos.

- Objetivos Gerais

Os tratamentos térmicos são um conjunto de operações que têm por


objetivo modificar as propriedades dos aços e de outros materiais através
de um conjunto de operações que incluem o aquecimento e o resfriamento
em condições controladas. Desta maneira conseguimos obter uma variada
gama de propriedades que permitem que tenhamos materiais mais
adequados para cada aplicação, sem que com isto os custos sejam muito
aumentados. Como o aço é o material mais comumente utilizado em
engenharia todo o enfoque dado aqui residirá sobre este tipo de material,
embora os tratamentos térmicos aqui descritos possam ser aplicados a
outros tipos.

- Tipos Comuns

Os tipos mais comuns de tratamentos térmicos são:

a. Esferoidização

b. Recozimento

c. Normalização

d. Têmpera + Revenido

Abaixo daremos uma breve idéia do que é cada um destes tratamentos


que serão tratados em maiores detalhes adiante.

Esferoidização

Consiste em um tratamento que visa globulizar a cementita fazendo com


que tenhamos uma microestrutura formada de um fundo de ferrita com
cementita esferoidal, donde temos a origem do nome. Este tratamento
também é chamado de coalescimento pelo fato de que durante o processo a
cementita se aglutina em partículas de forma esferoidal.

Recozimento
O recozimento é um tratamento térmico em que o resfriamento, a partir
do campo austenítico, deve ser feito de maneira bastante lenta para que
tenhamos a formação de uma microestrutura de perlita grosseira. Isto fará
com que tenhamos um material de baixa dureza e baixa resistência.

Normalização

Se ao invés de obtermos perlita grosseira obtivermos perlita fina no


resfriamento teremos uma normalização. Isto pode ser conseguido
aumentando-se a velocidade de resfriamento comparada com a velocidade
do recozimento. Embora esta seja a diferença mais imediata, devemos
destacar que a normalização provoca uma transformação mais importante
que é a diminuição tamanho do grão, algo que é extremamente benéfico
para a tenacidade do material.

Têmpera e Revenido

Embora estes dois itens tenham que ser tratados separadamente pelas
grandes diferenças que existem entre eles, os dois tratamentos sempre
serão feitos em seqüência. Enquanto que a têmpera é um tratamento que
visa a obtenção de uma microestrutura completamente martensítica, que
por conseqüência será dura e frágil, o revenido será empregado para
corrigir justamente a fragilidade resultante da têmpera. Como
conseqüência, sempre que fizermos um tratamento de têmpera, será feito o
tratamento de revenido.

- Fatores de Influência

Sempre que fizermos um tratamento térmico, o seu sucesso ou fracasso


será determinado por alguns fatores-chave que deverão ser muito bem
observados. Um erro de avaliação de um deles fará com que tenhamos
como resultado uma microestrutura diferente da prevista e por
conseqüência um material com propriedades diferentes das desejadas.

- Temperatura

Sempre que fazemos uma transformação partimos de uma


microestrutura de maior energia para uma microestrutura de menor
energia. No caso dos tratamentos térmicos a passagem de uma
microestrutura para outra requer sempre um aquecimento para que se
chegue a um nível de energia que permita a transformação. Por exemplo,
para termos transformação de uma microestrutura composta por ferrita e
perlita para martensita, devemos primeiramente austenitizar o material e
após, fazendo um resfriamento rápido, obter martensita.

No caso dos tratamentos térmicos de recozimento, normalização e


têmpera o aço deve ser levado obrigatoriamente até o campo austenítico e
a partir dali feito o resfriamento adequado. Já no caso da esferoidização o
material não precisa ser austenitizado, podendo ser aquecido até pouco
abaixo da temperatura eutetóide. Deve ser observado também que as
temperaturas de austenitização para recozimento e normalização
correspondem à mesma faixa para aços hipoeutetóides mas diferem para
os aços hipereutetóides. Isto se deve ao fato de que como as velocidades
de resfriamento para recozimento são mais lentas do que para
normalização, se fizéssemos uma austenitização completa no recozimento
iria se formar uma rede de cementita no contorno de grão durante o
resfriamento lento que faria com que o aço ficasse frágil. Para o tratamento
térmico de têmpera são usadas normalmente as temperaturas de
normalização, embora para aços hipereutetóides exista alguma
dependência do teor de elementos de liga.

A não ser que hajam fatores associados ao teor de elementos de liga, as


temperaturas de austenitização não devem se situar em valores superiores
a 50o C acima da temperatura mínima de austenitização apontada pelas
linhas de solubilidade, pois neste caso poderemos ter crescimento do grão
o que é prejudicial para a tenacidade do material.

- Tempo de Permanência

Quando levamos um aço até o campo austenítico, as transformações não


ocorrem instantaneamente. A transformação leva um certo tempo para
ocorrer e depende do tipo de transformação que irá ocorrer. Assim, a
transformação de perlita ou esferoidita para austenita se dá mais
rapidamente que a dissolução de carbonetos para austenita. Desta forma o
tempo em que o aço deverá permanecer nas temperatura de austenitização
dependerá da composição do aço.

- Velocidade de Resfriamento

Talvez o fator mais crítico para o sucesso de um tratamento térmico seja


o resfriamento da peça após a austenitizacão. Um erro na avaliação da
velocidade correta de resfriamento poderá conduzir a uma estrutura
completamente diferente da pretendida o que fará com que o material fique
com propriedades completamente diferentes das planejadas. Um caso
comum de erro ocorre na normalização de aços ligados de alta
temperabilidade. Como será visto mais adiante, o diagrama isotérmico nos
mostra que os tempos de transformação são grandes para estes aços. Nas
velocidades normais de resfriamento usadas na normalização, onde as
peças são resfriadas ao ar, podemos ter transformação não em perlita fina
apenas, mas também em bainita até mesmo martensita, o que conduziria a
durezas muito maiores do que as esperadas. Neste caso a solução seria
fazer um resfriamento mais lento do que o normal. No caso do processo de
têmpera em que o objetivo é de se obter uma microestrutura totalmente
martensítica para que se tenha a máxima dureza, a situação se inverte.
Como a velocidade de resfriamento não é só dependente do meio de
resfriamento mas também da temperabilidade e do tamanho das peças, em
muitos casos os meios usuais de resfriamento podem não ser adequados.
Poderemos ter a formação de outros produtos na microestrutura, tais como
perlita ou bainita que diminuirão a dureza. Nestes casos deveremos
aumentar a velocidade de resfriamento ou até mesmo utilizar um aço com
maior temperabilidade para resolver o problema.

Outro problema associado ao tratamento de têmpera é o surgimento de


trincas e empenamentos devido à velocidade de resfriamento. Quanto mais
complicada for a forma da peça maior a tendência ao aparecimento de
trincas. A solução deste tipo de problema está sempre na diminuição da
velocidade de resfriamento pela utilização de meios que produzam uma
menor retirada de calor da peça. Os problemas relativos ao resfriamento
serão tratados em maiores detalhes mais adiante quando forem abordados
os tratamentos térmicos.

- Proteção das Peças

Se um aço for aquecido até temperatura acima de 600 C em uma


atmosfera rica em oxigênio, como por exemplo o ar ambiente, ocorrerá na
superfície da peça um fenômeno chamado de descarbonetação. A
descarbonetação nada mais é do que a combinação do carbono do aço com
o oxigênio livre do ambiente. Este processo conduz à perda de carbono do
aço a partir da sua superfície, fazendo com que a peça fique com uma
camada com teor reduzido em carbono. A espessura desta camada
dependerá do tempo e da temperatura em que a peça ficará exposta a estas
condições. Obviamente esta é uma situação normalmente indesejável, pois
a diminuição do teor de carbono conduzirá a uma diminuição na dureza.
Este fato se torna mais grave quando realizamos um tratamento térmico de
têmpera, pois uma diminuição no teor de carbono provoca uma queda
sensível na dureza, já que a dureza da martensita depende do teor de
carbono. Assim sendo, as peças submetidas a tratamentos térmicos
deverão ser protegidas por uma atmosfera neutra que impeça a
descarbonetação. Isto pode ser conseguido utilizando-se fornos que
produzam este tipo de atmosfera ou, caso isto não seja possível, deve-se
envolver as peças em uma substancia rica em carbono como cavacos de
ferro fundido ou carvão.

- Esferoidização

O processo de esferoidizaçao ou de coalescimento é utilizado para aços


com teores superiores a 0,5% de carbono, mas principalmente para aços
hipereutetóides. Quando se deseja fazer uma processo de usinagem ou de
conformação de uma peça, o recozimento poderá não baixar a dureza o
suficiente para que a tarefa seja executada. Este problema acontece
principalmente em aços com elevados teores de elementos de liga e
elevado teor de carbono. Para este tipo de aço uma estrutura formada por
perlita e cementita apresentará uma dureza muito alta e a única alternativa
será o processo de esferoidização.

O tratamento térmico de esferoidização pode ser feito de duas


maneiras:

- Aquecendo-se o aço até uma temperatura logo abaixo da temperatura


eutetóide, permanecendo-se nesta temperatura por um tempo que varia de
oito a vinte horas, com resfriamento posterior ao ar.

- Austenitizar o material, fazer um resfriamento até uma temperatura logo


abaixo da temperatura eutetóide, mantendo-se nesta temperatura por um
tempo entre oito e vinte horas e resfriamento ao ar. Este tratamento
também pode ser efetuado variando-se ciclicamente entre temperaturas
acima e abaixo da temperatura de austenitização.

A segunda forma de execução deste tratamento é a que propicia tempos


menores de tratamento e pode ser facilmente entendida pela observação.

A microestutura resultante deste tratamento é a esferoidita, isto é, um


fundo de ferrita com a cementita e os carbonetos dos elementos de liga em
forma esferoidal dispersos nesta matriz.O fato de termos a cementita
distribuída na matriz de ferrita faz com que o aço apresente uma ótima
ductilidade e baixa resistência devido à predominância das propriedades
da ferrita neste caso.
5 - Recozimento

O processo de recozimento é aplicável a aços que possuem baixo ou


médio teor de carbono, isto é, para aços que possuam até 0,5% de carbono
ou para teores mais elevados desde que não possuam elementos de liga. O
objetivo deste tratamento é o de conferir uma dureza baixa, resistência
mecânica baixa e uma ductilidade alta. É aplicável a peças em que se
deseja fazer usinagem ou conformação mecânica. Basicamente este
processo consiste no aquecimento do material até a temperatura de
austenitização seguindo-se um resfriamento lento até a temperatura
ambiente. Geralmente basta que a peça seja deixada no forno desligado,
produzindo-se um resfriamento lento. Esta forma de resfriamento é
aplicável para aços de baixa e média temperabilidade. neste caso o
recozimento será dito recozimento convencional ou recozimento pleno.

Para os aços que possuem temperabilidade mais alta muitas vezes pode
ser necessário diminuir muito a velocidade de resfriamento para que a
dureza seja suficiente baixa. Nestes casos será necessário proceder à
transformação a uma temperatura constante ou quase constante. Este
procedimento dá origem ao que se convenciona chamar de recozimento
isotérmico. A diferença deste processo para o de esferoidização é que as
temperaturas são mais baixas fazendo com que os tempos sejam menores.
De qualquer modo este tratamento conduz a tempos maiores do que os do
recozimento convencional e este fator deve ser considerado quando o
realizarmos.

Como já foi citado anteriormente o recozimento visa a obtenção de


perlita grosseira por ser esta a estrutura que propicia as propriedades
desejadas

- Normalização

O processo de normalização produz propriedades semelhantes às


obtidas no recozimento e em virtude disto muitas vezes os dois podem ser
usados alternativamente para obter baixa dureza, boa ductilidade e para
eliminar estruturas provenientes de tratamentos anteriores, como é o caso
de tratamentos prévios de têmpera e em peças fundidas ou forjadas.
Ocorre, porém, que a normalização é feita geralmente com resfriamento
das peças ao ar. Isto conduz a uma velocidade de resfriamento mais alta do
que aquela do recozimento, dando como resultado uma estrutura formada
por perlita mais fina. Em conseqüência, a ductilidade será menor do que
no material recozido, sua dureza e resistência mecânica serão maiores. Por
outro lado, devido à maior velocidade de resfriamento teremos um refino
do grão do aço, pois a velocidade de nucleação da ferrita e da perlita será
maior na medida em que tivermos temperaturas de transformação mais
baixas, cconforme será visto em capítulo posterior. Outra vantagem da
normalização reside no fato de que se pode utilizar temperaturas mais altas
de austenitização, permitindo uma maior dissolução dos carbonetos dos
elementos de liga e, no caso de aços hipereuteóides, não teremos a
formação da rede de cementita em contorno de grão, como acontece no
recozimento.

Normalmente não se tem maiores problemas em adotar o resfriamento


ao ar para o processo de normalização, entretanto, para aços com alta
temperabilidade esta velocidade pode ser excessiva, dependendo do
tamanho da peça, de tal sorte que tenhamos a formação de bainita e até
mesmo martensita. Nesta situação deve ser feito um tratamento a uma
velocidade mais baixa de resfriamento ou um tratamento isotérmico.

- Têmpera

Dentre os tratamento térmicos comuns, o tratamento térmico de têmpera


é o mais importante devido ao fato de que através dele podemos ter um
grande aumento da resistência mecânica e da dureza do aço e de outros
materiais. Este é o aspecto mais importante, porém, em contrapartida
teremos uma queda muito grande da ductilidade e principalmente da
tenacidade. Este inconveniente será depois corrigido através do processo
de revenido que será abordado mais adiante.

Se por um lado o tratamento de têmpera nos dá condições de


produzirmos um grande aumento na resistência mecânica e na dureza, a
um custo relativamente baixo, por outro existe uma maior complexidade
na sua execução. Isto se deve à grande variação na composição dos aços e,
por conseqüência, na sua temperabilidade. O carbono e os elementos de
liga exercem um papel preponderante com relação a este tratamento, já
que tanto influem na temperatura de austenitização quanto na velocidade
de resfriamento. Assim, a temperatura de austenitização varia de aço para
aço, como conseqüência da variação no teor de carbono e dos elementos
de liga, pois os carbonetos formados devem ser dissolvidos pelo menos em
parte para que tenhamos o efeito desejado na temperabilidade. Não basta
portanto austenitizarmos o aço para termos sucesso no tratamento, mas é
preciso que tenhamos também parte dos elementos de liga dissolvidos na
austenita.
Além da temperatura de austenitização, outro fator importante é a
velocidade de resfriamento. Esta deve ser tal que impeça a formação de
qualquer outro produto que não seja a martensita. É obvio que isto nem
sempre é possível pois outros fatores devem ser considerados mas, de
qualquer forma, este é o objetivo que deve ser perseguido neste
tratamento. Como existe variação na temperabilidade com a variação do
teor de carbono e dos elementos de liga, também a velocidade de
resfriamento varia. Ela deve ser a menor possível para que tenhamos o
menor empenamento possível das peças mas, não deve ser tão lenta que
impeça a formação de martensita. Podemos notar que existem duas
curvas, sendo uma relativa à superfície da peça e a outra relativa ao centro.

O problema do resfriamento é um dos problemas mais complexos no


caso deste processo. Se por um lado, quanto mais rápido for o resfriamento
maiores serão as chances de obtermos martensita, por outro maiores serão
também as chances de termos trincas e empenamentos na peça. Além
disso, um resfriamento não homogêneo ao longo da superfície da peça
pode também causar empenamento e variações na dureza. Como existe
uma variação no volume da peça durante o aquecimento e o resfriamento e
também devido à transformação da estrutura em martensita, quanto maior
a diferença entre as velocidades de resfriamento na superfície e no centro
ou em diferentes pontos da superfície maior será o empenamento e a
possibilidade de aparecimento de trincas. Na figura podemos ver o
comportamento do resfriamento relacionado puramente com o
resfriamento em água de uma peça submetida a um aquecimento a alta
temperatura. Note-se que a velocidade de resfriamento inicialmente é
baixa, tornando-se alta apenas para valores intermediários de temperatura
da peça. Inicialmente temos um estágio em que se forma um envelope de
vapor em volta da peça que impede a troca de calor da peça com o líquido,
fazendo com que a velocidade seja baixa. Em um segundo estágio existe a
formação de bolhas que entram em colapso rapidamente, permitindo que o
fluido entre em contato com a peça e produzindo uma agitação bastante
grande do fluido, o que faz com que a velocidade de resfriamento cresça
rapidamente. Por fim em um terceiro estágio, a temperatura da peça não é
mais suficiente para que haja a formação de bolhas e o resfriamento se dá
apenas por convecção, fazendo com que a velocidade de resfriamento caia
novamente.

Outro fato que ocorre freqüentemente em peças de formato complicado,


como é o caso de uma engrenagem, de um eixo com rasgo de chaveta e de
outras peças com variações no relevo, pode ocorrer a variação nas
condições de resfriamento na superfície. Estas condições irão fazer com
que a velocidade de resfriamento seja diferente em cada ponto,
conduzindo também ao aparecimento de trincas, empenamentos ou mesmo
pontos moles. Outro problema que pode ocorrer, este mais freqüente e
mais simples é aquele em que temos pequenas diferenças de velocidade de
resfriamento entre a superfície e o centro. Neste caso o que pode acontecer
é a formação de 100% de martensita na periferia da peça e um teor menor
de martensita juntamente com bainita e/ou perlita nas regiões mais
centrais. O que acontece é um decréscimo na dureza em direção ao centro
da peça, situação esta que nem sempre pode ser evitada. Esta situação
pode ser induzida pelo meio de resfriamento ou pelo tamanho da peça.

De acordo com o que foi acima exposto o meio de resfriamento mais


adequado é aquele que permite obtermos a maior quantidade possível de
martensita na peça. Assim sendo poderemos ter que resfriar a peça em
salmoura, em água ou mesmo em óleo e outros produtos sintéticos, estes
últimos para aços de construção mecânica ligados. Para aços de alta
temperabilidade como aços para matrizes e ferramentas pode-se utilizar até
mesmo o resfriamento ao ar em alguns casos. Quanto maior a
temperabilidade menos drástico terá que ser o meio de resfriamento
utilizado.

Outro problema associado com o resfriamento para a obtenção de


martensita é a variação de volume. Sempre que temos transformação
martensítica teremos uma variação de volume e esta terá efeitos mais
importantes quanto maior for a diferença de temperaturas de um ponto
para outro.

No gráfico está representada a variação de volume de um aço quando


este é aquecido até o campo austenítico e após resfriado rapidamente para
que se obtenha martensita. A diferença de volume entre a estrutura original
e a estrutura final martensítica pode conduzir a empenamentos e até
mesmo a trincas se as tensões surgidas como conseqüência da variação de
volume ultrapassarem o limite de ruptura do material. Quando temos
diferenças de velocidade de resfriamento da periferia para o centro, por
exemplo, forma-se uma capa de martensita que é dura e frágil e que ao
aumentar de volume comprime o núcleo. Quando o núcleo por sua vez se
transforma, este expande e provoca o aparecimento de tensões sobre a
capa externa endurecida, podendo produzir trincas na peça.
- Revenido

Um dos grandes problemas relacionados com o tratamento térmico de


têmpera está relacionado com a baixa ductilidade e a baixa tenacidade do
material após o tratamento. Embora tenhamos um significativo ganho na
resistência mecânica e na dureza, fatores primordiais quando se quer
reduzir o peso da peça ou evitar o desgaste superficial, a ductilidade cai
quase a zero. Como a utilização de um aço nestas condições é impossível
devido aos riscos de uma falha catastrófica, este problema tem que ser
corrigido, o que é conseguido através do tratamento térmico de revenido.

O revenido é um tratamento em que se faz o reaquecimento da peça


temperada dentro de uma faixa de temperatura entre 150o C e 600o C
geralmente. As peças são aquecidas e permanecem durante um intervalo
de tempo suficiente para que ocorram as transformações necessárias à
recuperação de parte da ductilidade e tenacidade perdidas, sendo após
resfriadas até a temperatura abiente. Como consequência teremos uma
perda na resistência mecânica e na dureza. Quanto mais alta for a
temperatura de revenido utilizada ou quanto maior for o tempo de
tratamento, maior será o ganho em ductilidade e tenacidade e maior será a
perda de resistência e de dureza.

Durante o revenido ocorrem transformações da martensita que são


dependentes da temperatura e que irão influir nas propriedades finais do
aço. De acordo com a faixa de temperatura temos transformações
diferentes que conduzem ao que se costuma chamar de estágios ou etapas
do revenido. No primeiro estágio, que vai até aproximadamente 200o C, o
carbono contido na martensita se precipita formando um carboneto
chamado épsilon, que não tem a composição da cementita. Em
consequência temos uma redução no teor de carbono da martensita,
obtendo-se como resultado uma estrutura bifásica composta de carbonetos
e martensita de baixo carbono. As transformações nas propriedades não
são muito significativas, observando-se apenas pequena redução na dureza
e na resistência e um pequeno aumento na ductilidade e na tenacidade.

Em um segundo estágio, entre 200 e 400o C, ocorre a precipitação de


cementita no contorno das agulhas de martensita. Em decorrência disso
teremos uma continuação da queda na dureza e resistência, porém a
tenacidade não é aumentada, pelo contrário, diminui. Isto é o que se chama
fragilidade de revenido. A queda na tenacidade se inicia próximo dos 200o
C para a maioria dos aços e chega a um mínimo em torno de 350o C,
quando então volta a crescer. Nesta faixa, portanto, não é conveniente que
se faça o revenido porque, embora tenhamos redução na dureza e na
resistência, não teremos em contrapartida um aumento de tenacidade.

E uma terceira etapa, que se inicia em torno de 400o C, teremos o


aparecimento de um precipitado esferioidal de cementita que irá fazer com
que a tenacidade e a ductilidade voltem a crescer, e portanto estaremos
novamente em uma faixa de temperatura em que temos benefício com o
revenido. Este gráfico mostra a variação da dureza para vários aços, note-
se que a queda da dureza é mais acentuada quanto maior for o teor de
carbono.

- Tratamentos Isotérmicos

- Martêmpera

O processo de martêmpera ou têmpera interrompida é um processo


utilizado em substituição à têmpera quando se deseja diminuir o risco de
trincas, empenamentos e tensões residuais excessivas. O tratamento
consiste basicamente em se retardar o resfriamento logo acima da
temperatura de transformação martensítica, permitindo a equalização da
temperatura ao longo de toda a peça, completando-se após o resfriamento.
A estrutura formada, a exemplo da têmpera, será martensítica, sendo
portanto, dura e frágil.

Temos a representação deste tratamento sobre o diagrama TTT de um


aço hipotético. Como pode ser visto este tratamento consiste no
refriamento rápido, desde a temperatura austenítica, em um meio
aquecido, que pode ser óleo aquecido, sal fundido ou leito fluidizado, até
uma temperatura logo acima da temperatura de transformação
maternsítica. A peça é mantida nesta temperatura até que seja
uniformizada a temperatura entre a periferia e o centro e então é resfriado,
geralmente ao ar até a temperatura ambiente. Segue-se um revenido que é
feito nos mesmos moldes do processo de têmpera convencional.

Uma modificação do processo consiste em se fazer o resfriamento até


uma temperatura logo abaixo da temperatura de início da transformação
matensítica, estabilizando-se a temperatura e fazendo após o resfriamento
ao ar. Este caso é aplicável a aços de temperabilidade baixa nos quais, se
fosse feita a martêmpera convencional, teríamos a formação de bainita
antes que a temperatura estabilizasse.
O principal objetivo da martêmpera é reduzir a possibilidade de trincas
e empenamentos oriundos da transformação martensítica em tempos
diferentes ao longo da peça.

Exemplos de aços que podem ser utilizados na martêmpera são ABNT


4130, 4140, 4150, 4340, 5140, 6150, 8640 e 52100.

- Austêmpera

O processo chamado de austêmpera, consiste basicamente no


aquecimento das peças até a austenitização completa seguido de
resfriamento rápido até uma temperatura acima da temperatura de
transformação martensítica, numa faixa entre 200 e 400o C, mantendo-se a
esta temperatura até que o material se transforme totalmente. A estrutura
resultante neste caso será totalmente bainítica. Após a transformação o
material pode ser resfriado até a temperatura ambiente. A velocidade de
resfriamento deve ser tal que se impeça a transformação de qualquer
quantidade de austenita em outro produto e o tempo de permanência no
banho deve ser suficiente para que toda a austenita se transforme em
bainita.

O meio de resfriamento mais utilizado é uma mistura de sais fundidos


que pode ser composto por nitrito e nitrato de sódio e nitrato de potássio.
Pode ser também adicionada uma pequena quantidade de água

O tratamento de austêmpera é um tratamento térmico usualmente


utilizado em substituição à têmpera quando se tem por objetivo melhorar
as propriedades mecânicas do aço, principalmente a ductilidade e a
tenacidade, diminuir a possibilidade de aparecimento de trincas e de
empenamentos e ainda melhorar a resistência ao desgaste e a possibilidade
de fragilização para determinadas faixas de temperatura. As diferenças
fundamentais entre a austêmpera e a têmpera podem ser vistos na tabela ,
onde são comparadas as propriedades finais para diversos casos.

Tabela 1 - Propriedades mecânicas para um aço ABNT 1095

Alonga-
Tratamento Dureza Tenacidade
mento
Térmico HRC J
%
Temperado 52,5 19 ---
em água e
revenido
Martêmpera e
52,8 33 ---
revenido
Austêmpera 52,5 54 8

Como podemos ver a austêmpera propicia uma maior tenacidade e uma


maior ductilidade do que a têmpera e a martêmpera para uma mesma
dureza, além de diminuir o aparecimento de trincas e de empenamento nas
peças.

Embora este tratamento permita propriedades melhores do que a


têmpera ele não é corriqueiramente utilizado. Isto se deve ao fato de que
não são muitos os aços em que podemos utilizar a austêmpera. A decisão
de utilizar um tratamento ou outro vai depender da posição do joelho da
curva TTT, da velocidade de resfriamento, do tempo necessário para a
transformação e da temperatura de início de formação da martensita. Além
disso, devido à baixa velocidade de resfriamento propiciada pelo sal
fundido as peças não podem ter grande secção como acontece na têmpera.
O seu custo é maior devido à utilização de mais equipamento e o tempo de
transformação deve ser equivalente ao tempo gasto no revenido ou menor
para que seja viável. Deste modo os aços que são utilizados no processo
devem se enquadrar nos seguintes tipos:

- Aços ao carbono com 0,5 a 1,0% de carbono e com um mínimo de 0,6,%


de Mn

- Aços ao carbono com mais de 0,9% de carbono e pouco menos de 0,6 %


de Mn

- Aços carbono com menos de 0,5 % de carbono e com manganês entre 1,0
e 1,65 %

- Alguns aços ligados com mais de 0,3% de carbono