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Estrutura e perversão

1

ESTRUTURA E PERVERSÃO

o

problema das perversões consiste em

"Todo

conceber

como

a

criança

na

sua

relação

com

a

mãe,

relação

constituída na análise não pela sua

dependência

dependência de seu amor, isto é, pelo

sua

vital,

mas

pela

desejo de seu desejo, identifica-se

ao

objeto imaginário deste desejo

enquanto que

a

mãe

ela mesma

o

simboliza

no

falo".

(Lacan,Écrits,p.554)

Desde a época da teoria da sedução, Freud se viu às

voltas com o problema da perversão. Em janeiro de l896

[Manuscrito

K]

ele

se perguntava

o

que,

afinal,

diferenciava uma perversão de uma neurose. 1 Esta questão vai persegui-lo durante muito tempo. Desenvolvendo a sua teoria a partir do ponto de vista da neurose, por outro lado, percebendo que a perversão era uma disposição geral, original da pulsão sexual, Freud encontra dificuldades em conceituar a perversão, diferenciado-a da neurose. O polimorfismo da sexualidade e o fato de que os desvios se encontram em quase todos os seres

humanos, vai levá-lo à famosa formulação: a neurose é o negativo da perversão.

avalanche de

interpretações abusivas, onde a neurose é sempre identificada como o resultado de um recalque patológico, enquanto a perversão seria exatamente o resultado da falta de recalque. Ou, em outras palavras, a perversão seria fruto da falta de elaboração das pulsões parciais. Vários autores

vão se insurgir contra esta tendência (Lacan, Masud Kahn, Joel Dor, Patrik Valas, Joice Mac Dougall etc). 2

a

perversão ainda não pode ser concebida como uma entidade e, a fortiori, como uma estrutura. A perversão aí é vista como um modo arcaico de relação do homem com suas pulsões, explicando-se por uma dissociação e/ou por uma fixação.

Tal

fórmula

vai

dar

lugar

a

uma

De qualquer forma,

na primeira

teoria de

Freud

1 Cf. A Correspondência Completa de S. Freud para Wilhelm Fliess (Rio de Janeiro:Imago,1896), p. 164.

2 Cf. J. Lacan, O Seminário, livro 4, A relação de objeto, (Rio de Janeiro:Jorge Zahar Editor, 1995), lições 9, 16 e 23 de janeiro 1957. – Masud Kahn, Figures de la perversion (Paris:Gallimard, 1985), p. 27. – Joel Dor, Structure de la perversion (Paris:Denoel, 1987), p.114. – Patrick Vallas, Freud e a perversão (Rio de Janeiro:Zahar, 1990), p.30.

Estrutura e perversão

2

Mas mesmo aí podemos encontrar pontos essenciais para o desenvolvimento futuro da teoria. Com efeito, a afirmação de Freud segundo a qual a neurose é o negativo da perversão, deve ser compreendida não no sentido puramente fenomenológico, mas sobretudo no sentido tópico: o fantasma perverso é inconsciente na neurose e consciente na perversão. Ou seja: a perversão é entendida como uma posição subjetiva dada a partir do fantasma, cuja cena pode agenciar um tipo de conduta determinada. 3 A análise do pequeno Hans vai oferecer a Freud a oportunidade de enriquecer a sua elaboração teórica sobre a sexualidade e, particularmente, abrir-lhe caminhos fecundos para o estudo da castração. Aí, Freud, pela primeira vez (1908 : As teorias sexuais infantis) vai defrontar-se com o fenômeno da recusa da castração. 4 A porta que o levará ao conceito de desmentido está aberta. Podemos dizer que com a metapsicologia Freud tira definitivamente a perversão do rol das concepções de caráter puramente diferencial e comparativo, o que iria permitir-lhe objetivar a perversão como um tipo de funcionamento psíquico com especificidade estrutural. É compreensível, aliás, que

os fundamentos de elucidação de uma estrutura perversa

exija, prioritariamente, a definição de um suporte metapsicológico, pois o campo psico-sexual é o único topos

de inteligibilidade onde se podem circunscrever as perversões.

O trabalho de 1919 - "Uma criança é espancada" - marca

um momento capital na evolução do pensamento de Freud sobre

a perversão, pois é aí que ele vai articulá-la

definitivamente com o Complexo de Édipo, cujos destinos explicam a sua gênese.

A introdução da fase fálica (1923) associada à promoção

do desmentido como conceito técnico (1925; 1927) e à importância concedida ao mecanismo da clivagem (1938), vai facilitar uma interpretação do texto freudiano em termos de

estrutura, pelo menos a partir de uma leitura de suas enunciações. Mas, como se sabe, é Lacan quem vai inaugurar uma leitura rigorosa e sistemática da psicanálise segundo o paradigma estrutural. Convém perguntar, no entanto, de que estrutura se trata.

2

É preciso saber do que se fala. A noção de estrutura

não é unívoca e se presta a muitas imprecisões. Tentemos,

3 Cf. Patrick Vallas, loc.cit.

4 Cf. S. Freud (1908), “Les théories sexuelles infantile”. La vie sexuelle (Paris:PUF, 1973), p.19.

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pois, definir preliminarmente o conceito de estrutura tal como o usaremos neste trabalho. 5

Grosso modo, podemos dizer que "o conceito de

estruturalismo privilegia uma topologia na qual os lugares e

as posições prevalecem sobre os ocupantes, e onde

o

importante é perguntar de que

lugar alguém

fala". 6

Se

quisermos descrever as características comuns a um recorte

estrutural, ainda que de forma insuficiente, diríamos que a

é

basicamente topológico e que os lugares e as posições são

relações

determinadas em função desses lugares e posições. E mais importante ainda é assinar que o significante aí é vazio,

existindo

possibilitando a circulação e a posição dos demais elementos

da estrutura.

significante operador em torno do qual giram e se definem as várias posições que vão definir as estruturas perversa, neurótica, psicótica. "O próprio Falo, entretanto, não "existe": só existe nesta sua irrealidade". 7

Resumamos dizendo que uma estrutura, no sentido moderno, se define como um conjunto de elementos que se constituem na relação, que são rigorosamente

de

composição interna. Para Lacan, o Édipo é uma estrutura intersubjetiva. Este conceito de estrutura implica: 1) o reconhecimento

de uma organização caracterizada por posições ocupadas por personagens distintos; 2) uma função matemática, isto é, uma relação entre duas variáveis. Ou seja, x varia em função de y. Em termos edipianos: não há valores ou lugares vagos que se definam por si mesmos. Um personagem é definido em função de outro. Por exemplo, o pai é tal em função do filho, e vice-versa. Eles estão mutuamente condicionados. Não há

variável

o conceito de troca, de

interdependentes e que se regem

o

mas

estrutura é o próprio simbólico, que seu espaço

anteriores aos

seus ocupantes, que

na

sua

própria

têm

suas

somente

irrealidade,

Assim, por

exemplo, o falo simbólico

é

por

certas

leis

independente;

3)

circulação; 4) que o que circula vai determinar a posição do personagem, quer dizer, vai marcar uma determinada posição na qual a pessoa que aí se encontra assume as funções da mesma, o seu valor. 8

5 Para o conceito de estrutura, q.v. C. Lévi-Strauss, Antropologia Estrutural Dois (3ª ed.; Rio de Janeiro:Tempo Brasileiro, 1989); Antropologia Estrutural (4ª ed.; Rio de Janeiro:Tempo Brasileiro, 1991). – Cadernos de Psicanálise, Revista do Círculo Psicanalítico do Rio de Janeiro, ano XIII, número 7, 1991:

“Estrutura em Psicanálise”. – OTIUM Diagonal, 11, Abril 1988, “La estructura em psicoanalisis”. – Hugo Bleichmar, Introdução ao estudo das perversões (Porto Alegre:Artes Médicas, 1984), p. 18s.

6 Cf. Estrella Bohadana, “Estrutura e Estruturalismo: o vazio da significação”. Cadernos de Psicanálise, ano XIII, número 7, 1991, p.14.

7 Cf. id., ibid., p. 18.

8 Cf. H. Bleichmar, op. Cit., p. 18.

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o estrutura que produz efeitos

personagens que a integram graças à posição que cada um

uma

Concluamos

brevemente:

Édipo

de

lacaniano

é

representação

nos

assume em função da circulação do falo.

3

Lacan, no Seminário A relação de objeto e as estruturas freudianas não se cansa de proclamar o caráter intersubjetivo da perversão como elemento de articulação do Édipo e de seus avatares. É nesta ótica que ele analisa o

"Uma criança é espancada" e o caso de homossexualidade feminina analisada por Freud (1920). Vale dizer que diferentes posições subjetivas podem ser ocupadas em relação ao desejo e à castração que ela implica, daí resultando estruturas existenciais, tais que neurose, psicose e perversão. Portanto, podemos dizer que a especificidade da estrutura de um sujeito é pré-determinada pela economia do seu desejo.

à dialética

edipiana. 9 Por outro lado, diz ele, as identificações

perversas podem se fundar na medida em que se realize de forma satisfatória a mensagem ser o falo da mãe. 10

, estrutura quadripartida é sempre exigível, desde o inconsciente, na construção de uma ordem subjetiva", 11 referindo-se à estrutura quadripartida da cadeia constitutiva do inconsciente, onde se destaca o significante e o elemento estrutural em que se produz o homem como sujeito do desejo inconsciente. Referimo-nos aqui ao famoso esquema da dialética da intersubjetividade, conhecido como esquema L, ou, ainda, ao esquema dito da "estrutura do sujeito" (esquema R). 12 Neste esquema quadripartido vê-se a intenção clara de romper os limites da estrutura ternária edipiana tal como Freud a concebe, pela introdução de um quarto elemento,capital porque fundante : o falo, significante da falta. Pois bem, a teoria das estruturas psíquicas baseia-se em identificações imaginárias com os quatro lugares da cadeia do inconsciente. Assim, na psicose a identificação é com o falo. Na neurose, a identificação dá-se com o pai real. É o lugar do

"uma

A perversão, diz Lacan, não

escapa

Ora, em “Kant

avec Sade”

Lacan afirma

que

9 Cf. J. Lacan, O Seminário, livro 5, As formações do inconsciente (Rio de Janeiro:Jorge Zahar Editor, 1999), lições de dezembro de 1957, janeiro, fev. e março de 1958.

10 Cf. id., ibid.

11 Cf. J. Lacan, Écrits (Paris:PUF, 1966), p. 774.

12 Cf. J. Lacan, op. cit., pp. 548 e 553. q.v. também O Seminário, livro 2, O eu na teoria de Freud e na técnica da psicanálise (Rio de Janeiro:Zahar, 1978), pp. 142 e 307.

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neurótico. Aí, o homem tem

evidencia apenas

dissimular a castração, acreditando ser o sujeito da lei que

O

neurótico é o sujeito que aceita a existência de uma falta que nada pode preencher, desde que esta falta não seja nele

neurótico tenta

falo, embora possuí-lo

o

que

ele

é

separado. O

o

o assujeita, na ilusão

de conservar

falo

para si.

mesmo.

O

perverso identifica-se imaginariamente com o lugar da

mãe, portanto com o significante do objeto primordial. 13 A

manifestar, mas como

de

preenchível. Enquanto o neurótico se coloca na posição de

falta encontra

meios

se

sujeito, o perverso se coloca essencialmente como objeto.

O quarto lugar é o lugar do pai simbólico, do pai

morto. Ocupar este lugar equivaleria a assumir a castração,

já que esta marca a presença da finitude e da morte no homem.

4

A questão que se coloca agora é por que, como e quando

acontece a ocupação do lugar do significante do objeto

primordial, e quais as suas consequências.

O problema inicial é identificar em torno de que a

economia do desejo, sob a égide da função fálica, pode induzir um certo tipo de estrutura. É aqui que vamos descobrir a história dos "amores edipianos", como sendo aquilo em torno de que se define uma estrutura, pois é nas suas vicissitudes que se negocia a relação ao falo e portanto sua adesão à associação do desejo e da falta. De acordo com Lacan, a dinâmica edipiana se desenvolve movida pela dialética do ser e do ter, segundo a qual o

sujeito parte de uma posição onde ele é identificado ao falo da mãe, para uma outra, onde ele, tendo renunciado a esta identificação pela aceitação da castração simbólica, tende a identificar-se seja àquele que é suposto ter o falo, seja àquela que é suposta não o ter. Esta operação se atualiza graças a um processo de simbolização inaugural: a metáfora

do Nome-do-Pai.

É justamente em certos momentos desta dinâmica edipiana

que os desafios do desejo em sua relação ao falo se revelam particularmente favoráveis à precipitação de organizações estruturais específicas.

estrutura perversa, cuja

organização pode ser identificada a partir de elementos indutores característicos.

Assim

acontece

com

a

13 Note-se que a mãe é objeto, mas é também sujeito, submetida à lei e marcada pela castração, que, embora renegada pelo perverso, é igualmente pressuposta.

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Os perversos se comportam como se soubessem algo sobre a castração e, ao mesmo tempo, a ignorassem. Este paradoxo psíquico é-nos revelado tanto pelo desmentido da realidade e da castração, quanto pela clivagem do ego. Neste sentido, as perversões nos introduzem não somente nas teorias sexuais infantis, mas igualmente na questão da diferença dos sexos que estas teorias colocam. Ora, fica claro que tanto o desmentido da castração, quanto a clivagem que lhe é associada inscrevem a organização do perverso na problemática fálica. É justamente neste ponto que convém interrogar as perversões, na tentativa de circunscrever os elementos fundamentais susceptíveis de determinar a trama de uma estrutura. Este é um ponto crucial, pois se trata de elucidar, através das vicissitudes do desafio fálico, a questão da identificação perversa que constitui o ponto nodal da estrutura perversa. Não é possível, pois, falar de escolha perversa sem que aí se introduza a questão da lógica fálica, isto é, a questão da atribuição do significante fálico na economia do desejo do sujeito. Isto, por sua vez, nos leva à questão da identificação pré-genital, ponto de

origem cujo mecanismo metapsicológico sustenta a instituição do processo perverso.

A identificação pré-genital

é,

antes

de

tudo,

identificação fálica, na medida em que ela é identificação ao falo materno. A dinâmica do desejo conduz a criança a imaginar-se como único objeto possível do desejo da mãe. A criança, pela prematuração do nascimento e por força das exigências vitais é dependente do universo semântico materno, isto é, da ordem dos significantes que constituem a expressão mesma do seu desejo. Por isso, a criança se torna assujeitada à onipotência materna. Onipotente a mãe o é, posto que supri a todas as necessidades e carências da criança. E sobretudo porque ela lhe assegura um capital de gozo que vai além da simples satisfação de suas necessidades orgânicas. Por força deste fato, isto é, prover as necessidades e propiciar um capital de gozo, a mãe vem a ocupar o lugar do Outro, tanto a título de referente simbólico, quanto a título de fomentadora do gozo. Isto faz com que a criança venha a apreender a instância do desejo materno como o principal suporte de sua própria dimensão identificatória. O desejo da criança será então desejo do Outro, vivido primeiramente como Outro todo poderoso, e, logo, como Outro de falta. E é por ser o Outro de falta que a criança pode se identificar ao objeto susceptível de preencher a falta do Outro. Portanto, a identificação fálica é identificação ao objeto que satisfaz o desejo do Outro.

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Ora, é justamente esta situação da mãe enquanto Outro

omnipotente, que, na dinâmica do desejo da criança, faz-lhe cativa de sua identificação fálica, protegendo-a imaginariamente do confronto com a questão da diferença dos sexos.

temporariamente

recusada, visto a mãe ser auto-suficiente, encarnando uma lei omnímoda capaz de poder marcar a lei do desejo, legisferando sua ordem como lei omnipotente. Ela é a própria lei, ditando assim a lei do desejo do filho. Mas logo esta ilusão é abalada pela realidade: há um outro desejo da mãe que não é o desejo do filho. Isto vai obrigar a criança a duvidar de sua identificação fálica, e isto graças à intrusão da figura paterna que aparece como instância mediadora do desejo, apontando um outro universo de gozo que lhe é proibido e do qual ele está excluído. É esta vacilação que lhe servirá de ponto de partida para um novo saber sobre o desejo do Outro, introduzindo-o no registro da castração e, portanto, nos desafios postos pela questão da diferença dos sexos. É em torno desta diferença que vai se desenvolver toda a dinâmica edipiana.

Mas não basta reconhecer à função paterna o papel de mediação do desejo. Esta função só se torna operatória na medida em que é investida do estatuto de instância simbólica mediadora, que se sustenta na figura do pai simbólico. A presença do pai para a criança é sempre, e sobretudo, presença do pai imaginário, cujo estatuto ilusório de rival fálico, que possibilita a intrusão do pai na dinâmica edipiana, é que marca o ponto de ruptura por onde o pai simbólico se introduz de forma estruturante, enquanto investido de uma dimensão significante em relação à atribuição fálica. Isto por si já mostra o quanto o drama edipiano acontece num registro que ultrapassa de longe o campo da realidade! No entanto é necessário que a figura do pai imaginário e do pai simbólico se tornem presentes por uma exigência significante, que confronte a criança com a função paterna. Somente o discurso materno é capaz de realizar esta missão junto à criança. Em outras palavras, o pai intervém como figura estruturante, na medida em que sua palavra é significada através do discurso da mãe, enquanto instância terceira, mediadora do desejo do Outro.

A questão da diferença

dos

sexos

é

pai

imaginário que a criança o reconhece como elemento perturbador, susceptível de colocar em dúvida a certeza de sua identificação fálica. É claro que tal vacilação depende também da mãe, na medida em que ela se significa como objeto virtual do desejo do pai. Num primeiro momento, a criança tenta negar isto

Portanto, é essencialmente sob

a

figura

do

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(que é a mãe que deseja o pai), tomando o pai como rival intrometido. Esta rivalidade fálica inicia e cultiva a vacilação da identificação fálica, que deve ser deixada em

suspenso pela mãe. Daí a importância das mensagens significantes passadas à criança neste período, pois são elas que irão vetorizar a direção de desejo. É preciso que as mensagens maternas estimulem a vacilação da identificação fálica a uma interrogação que permita à criança sua ultrapassagem. Se por qualquer motivo este estado de vacilação é anulado ou obstruído, a dinâmica tende a cristalizar uma forma particular de economia do desejo propícia ao estabelecimento de uma identificação perversa, terreno onde se organizará uma estrutura perversa.

uma

organização estrutural, cristalizada em torno de certos indicadores que servirão de vias de expressão do desejo, logo consubstancializadas em traços característicos da

estrutura.

Em

suma,

a

identificação

perversa

provoca

A intrusão do pai como concorrente fálico acarreta duas

ordens de realidade questionadoras do curso do desejo. Por um lado, a criança percebe que o desejo da mãe não depende exclusivamente dela; por outro, ela também descobre que a sua mãe é uma mãe portadora de uma falta que nem ela mesma

pode suprir. Esta situação, decorrente da intrusão do pai como pai imaginário, e que assim o mantém, constitui a fonte de dois traços estereotipados de estrutura : o desafio (ou provocação) e a transgressão.

A intromissão do pai rival prenuncia para a criança a

ordem irredutível da castração. Se ela permanece porém cativa de sua identidade fálica, corre o risco de fixar-se num modo de inserção definitivo em relação à função fálica. Com efeito, é neste momento que se decide para que lado penderá o fiel da balança : se para a promoção da economia do desejo pela assunção da castração, ou se para a sua negação. Ora, o que acontece com o perverso é que ele não cessa de tomar partido sem jamais se sentir concernido pela realidade da castração. Em outras palavras, ele nunca consegue assumir esta parte que só se ganha quando se perde. Ele se fixa num movimento de tudo ou nada, quando é pelo reconhecimento da falta e pela sua aceitação que o sujeito

ingressa no reconhecimento da diferença dos sexos, assumindo esta diferença como algo de simbolizável, em vez de concebê- la em termos de tudo ou nada.

É exatamente isso que o perverso não consegue fazer.

Ele se fecha na representação de uma falta não simbolizável, que o condena a uma contestação psíquica inesgotável, sob os auspícios do desmentido da castração materna. E assim ele

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fica impossibilitado de aceitar a castração simbólica, cuja função é determinar a diferença dos sexos como causa do desejo para o sujeito. Esta possibilidade, somente a falta significada pela intrusão paterna sustenta!

Além de definir um tipo de estrutura, este ponto de virada inaugura sempre aquilo que será o significante da falta no Outro. Com efeito, a sensibilização à dimensão do pai simbólico resulta de uma espécie de pressentimento psíquico que a criança deve enfrentar a fim de renunciar à representação do pai imaginário. Ora, o pai não pode ser desinvestido de sua dimensão de rival fálico, sem a mediação deste significante da falta no Outro que intima a criança ao abandono do registro do ser ( o falo ) em benefício do registro do ter. Esta passagem do ser ao ter se realiza na medida em que o pai aparece à criança como aquele que detém o falo que a mãe deseja. Esta atribuição fálica, que situa o pai no registro do pai simbólico, confere-lhe a autoridade de representante da lei. Somente por este motivo a mediação da proibição do incesto institui-se como função estruturante para a criança.

exatamente desta instância mediadora que o

perverso não quer nada saber, porquanto ela lhe impõe o ter que reconhecer a falta no Outro. Pelo contrário, o perverso

recusa-se reiteradamente a reconhecer a falta, neutralizando, por este expediente, o reconhecimento da diferença dos sexos e, por conseguinte, da falta.

diferença dos sexos

desta forma é, de alguma maneira, postular uma unisexualidade. E postular tal unisexualidade é, por sua vez, contestar a lei do pai enquanto instância legisferante da dinâmica do desejo. A confusão paradoxal, na qual o perverso se mete, tende então a impor-se como a única função possível de regulamentação do desejo. A ausência do pênis na mulher aponta, assim, para o perigo do desejo, na medida em que, fantasmaticamente, testemunha o horror da castração que teria sido imposta à mãe pelo pai. Consequentemente, renunciando à promoção do desejo a um outro nível, o fantasma da castração faz com que o sujeito renuncie à assunção do seu próprio desejo para além da castração. Esta cegueira fantasmática é responsável pela grave confusão entre renúncia ao desejo e renúncia ao objeto primordial do desejo. Tal confusão mantém o perverso preso a uma situação tal, que o impossibilita de descobrir o desejo. Com efeito, somente a renúncia ao objeto primordial do desejo é condição de salvaguarda da possibilidade do próprio desejo, conferindo-lhe um novo estatuto, induzido pela

Mas

é

Ora, perenizar o desmentido

da

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mediação da função paterna, que autoriza o direito ao desejo como desejo do desejo do outro.

A dinâmica perversa subtrai o direito ao desejo. É por

isso que o perverso tenta administrar esta situação pela demonstração regular de que a única lei que conta é a lei imperativa do seu próprio desejo, e não a lei do desejo do outro.

O desmentido diz respeito essencialmente ao desejo da

mãe pelo pai, ou seja, à questão da diferença dos sexos como

tal. Neste sentido, o perverso só pode ter uma relação sintomaticamente estereotipada, tanto com a mãe como com as mulheres em geral, relação marcada, aliás, pelo horror da castração. Mas, no fundo, ele sabe que a diferença existe, embora ele empregue todas as suas energias para recusar sua implicação principal: a que institui esta diferença como causa significante do desejo. Ele procura manter sempre a

possibilidade de um gozo liberto desta causa significante. É por isso que ele não encontra outra saída a não ser a do

desafio da lei

certamente, os traços mais fundamentais da estrutura

perversa.

e

a

da

sua transgressão. Estes são,

é

tributário da atribuição fálica que ele, o pai, é objeto. Para isso não basta a criança saber que o pai é portador de um pênis. É necessário, acima de tudo, que o pai seja investido libidinalmente pelo olhar da mãe. Por outro lado,

esta vetorização do desejo da mãe em direção ao pai mostra à criança que o que o pai desejo junto à mãe é a diferença que ela encarna junto a ele. É a este preço que a diferença se torna significante do desejo, significante indispensável à simbolização da falta.

fecha na impossibilidade de assumir

simbolicamente esta falta, mantendo-se numa posição paradoxal, na qual por um lado ele reconhece a diferença dos sexos, e, por outro, a recusa. Ele se recusa sobretudo a admitir a implicação fundamental desta diferença que consiste em considerá-la como causa significante do desejo. Ao identificar o alcance desta implicação, ele prefere subscrever ao desafio de uma possibilidade de gozo que a contorne. Tal gozo só pode ser imaginado ao preço de uma

construção fantasmática tributária das teorias sexuais infantis, pelas quais o horror da castração perpetua o horror da diferença! Este drama de horror se renova mediante uma dialética complexa, responsável pela intervenção de duas séries de produções psíquicas imaginárias, onde se interpõem elementos

O reconhecimento do

pai simbólico pela criança

O perverso se

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referentes à castração da mãe (e das mulheres), intimamente vinculados à problemática do desejo da mãe pelo pai.

Em primeiro lugar, o perverso imagina que a mãe não tem

pênis porque foi castrada pelo pai. Em segundo lugar, o pai é visto como aquele que forçou a mãe ao compromisso inominável do desejo, impondo-lhe uma lei que faz que o desejo de um seja sempre submetido à lei do desejo do outro! Mas há ainda um outro elemento fantasmático que conta na construção perversa: a acusação de cumplicidade que é feita à mãe, no seu comprometimento com o desejo do pai. O horror da castração só existe porque a mãe foi cúmplice! Ante tal horror, o perverso busca um compromisso: ele lança mão de uma outra construção fantasmática: institui a mãe como omnipotente e fálica. Assim ele neutraliza a incidência do pai, supondo que a mãe já não o deseja. Por isso ele, o perverso, pode se comportar como o único objeto do desejo que a faz gozar! Tal compromisso fantasmático acarretará certos traços de funcionamento psíquico estereotipado, tanto no que concerne a relação do perverso com a lei, como na interpelação do seu desejo às mulheres e aos homens.

Poderíamos agora indagar sobre quais seriam os elementos indutores desta situação.

A ruptura da identificação fálica em benefício da

identificação perversa é induzida pela ambiguidade que

caracteriza tanto a atitude da mãe quanto a do pai. A essência desta ambiguidade pode circunscrever-se no

âmbito de dois fatores, cuja sinergia aprisiona a criança nos limites da dialética do ser e do ter. Trata-se, por um lado, da cumplicidade libidinal da mãe, marcada pelos acenos da sedução, e, por outro, da complacência paterna, marcada pelo pacto da omissão.

A cumplicidade libidinosa da mãe, ao tempo em que

incita a criança ao gozo, minimizando a mediação paterna, e até ridicularizando-a, favorece a provocação e desafio como traços característicos da estrutura perversa. Por outro lado, a complacência silenciosa do pai tem por efeito despojá-lo de suas prerrogativas simbólicas para delegá-las ao discurso da mãe, feito agora embaixador da interdição. O fato desta delegação guardar referência à lei do pai é que evita a entrada na psicose. 14 Mas o fato da mãe ser erigida em delegada das prerrogativas simbólicas, não impede que a lei do pai seja tomada em derrisão, pois o sujeito fica preso a duas alternativas igualmente cavilosas: entre a mãe ameaçadora e

14 A mãe do psicótico é “hors la loi”, diz Lacan. A lei materna, no caso do psicótico, não é referida à lei do pai.

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inteditora, enquanto delegada da palavra do pai, e mãe sedutora e permissiva, estimuladora do gozo, enquanto zomba da significação estruturante da lei do pai. Esta alienação da criança à intriga da sedução da mãe e da incúria simbólica do pai tem por consequência a incrementação do fantasma da mãe fálica, cuja imago acompanhará o futuro perverso sistematicamente nas suas

relações com o mundo feminino. A mulher será vista ou como a mãe fálica completamente idealizada, virgem e santa, modelo do ideal feminino, ou como a mãe repugnante e asquerosa, puta repelente! Tais são os vestígios quase épicos do assujeitamento aos fantasmas da mãe fálica ou castrada!

A mulher idealizada protege o perverso da mãe como

objeto de desejo. Ela é tão perfeita que é virgem de todo

desejo, e, por conseguinte, tão proibida quanto impossível!

A mulher puta metaforiza a mãe sexuada, repugnante e

repelente, desejante e desejada pelo pai, relegada ao nível

de puta. É a encarnação feminina que convoca o perverso ao horror da castração. Esta mulher, desejante e desejável, é uma mulher perigosa para o perverso: ele a imagina ou como um objeto infame ou como aquela susceptível de mutilar seu próprio pênis, caso ele ceda ao desejo. A vagina dentata, libera nos Domine!

desmentido perverso se situa

essencialmente no nível da diferença dos sexos, recusando-a

como causa significante do desejo. A única maneira que lhe resta, então, de fazer a economia desta causa significante, é provocar a lei, desafiando-a, o que o levará, correlativamente, à transgressão.

É claro que esta provocação incessante da lei implica

no próprio reconhecimento da lei que ele pode desafiar, experimentando assim a economia do gozo, que é o que ordena sua estrutura. Por isso, a transgressão é o correlato inevitável da provocação. Nada melhor para assegurar-se da existência da lei do que sua transgressão. Aliás, as sucessivas transgressões conduzem-no, em última análise, metonímicamente, ao limite máximo que é a lei do incesto (Vd. Sade). Assim, o perverso, ao provocar e transgredir os limites da lei, procura inconscientemente assegurar-se que a lei tem origem na diferença dos sexos e no próprio interdito do incesto

. No fundo seu desafio situa-se essencialmente no registro dialético do ser, e tem por alvo a lei do pai.Ele desafia a lei do pai com tudo o que significa de falta a simbolizar através da castração. Provocando esta lei, ele desafia a imposição que exige que a lei de seu desejo seja submetida à lei do desejo do outro. Daí porque o seu desejo é tão imperativo. É que a única lei do desejo que ele reconhece é

vimos

que

o

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a sua. O seu desejo não passa pela lei do desejo do outro.

Sua lei é a lei do gozo, que ordena buscar o gozo por todos

os

particularmente por nenhuma lei. 15

de

qualquer lei. De fato, ele não ignora o Outro da lei. Só que

o Outro existe para ele como "vontade de gozo". Ele se faz

"instrumento de gozo do Outro" (Lacan), induzindo o outro à cumplicidade na transgressão. A sua lei é a do gozo, à qual ele se submete. Transgredindo ele faz a lei. E sua lei é seu

fetiche!

O fetiche está para a perversão assim como o sintoma

está para a neurose. Nunca presente como "excluído", mas, pelo contrário, "oferecido ao uso", recebido como aquilo que

faz a lei. E na medida em que ele "faz a lei", ele realiza, não o recalque, mas o desmentido da castração e do significante do desejo. É o processo característico da perversão. 16 Digamos que desmentir é a recusa em outorgar um certo sentido a um fenômeno que objetivamente tem sentido. O fenômeno é rebaixado ao não-senso. Mas pelo desmentido o sujeito supõe o sentido que ele se recusa a reconhecer. É

exatamente isto que acontece com o fetiche. Com efeito, qual

o significado do Nome-do-Pai? A castração e o apagamento da face-objeto do significante da lei. Ora, ao fazer surgir o fetiche, o perverso recusa esse apagamento da face-objeto - aquilo que Lacan chama a

Aufhebung

no

entanto, com o fetiche o perverso faz a lei, mas isto porque, paradoxalmente, o fetiche é edificado a partir do Nome-do-Pai como significante da lei da castração. É verdade que Freud, referindo-se ao fetiche, atribuiu- lhe um sentido estritamente sexual. Mas é preciso ir mais além. Interpretar a castração como uma falta real já uma forma de desmenti-la, já que a falta real só assume seu sentido e valor de castração em referência ao Nome-do-Pai.

Qualquer fetiche remete à mesma estrutura da perversão, pois ele tem sempre uma relação essencial com o lugar do objeto primordial: a mãe. A identificação imaginária própria da perversão é a identificação com a mãe, e uma interpretação da falta como falta passível de ser suprida. Daí a função do fetiche.

O fetiche é proposto, portanto, como objeto, enquanto

significante da lei. Ele é, por assim dizer, o Nome-do-Pai

meios,

sem

se

deixar

que

deter

o

por

nenhum

limite,

fora

Isto não significa

perverso esteja

característica

do

significante fálico.

E

15 Melhor dito, o perverso tem lei, sim. O que o diferencia é a significação qu ele outorga a esta lei. Para ele a lei paterna “ni pincha, ni corta”!

16 Cf. Guy Rosolato, “Études dês perversions sexuelles à partir du fétichisme”, in P. Aulagnier-Spairani et al., Le désir et la perversion (Paris:Seuil, 1967), p. 8-52.

Estrutura e perversão

14

feito objeto, sem qualquer referência a um Outro ausente. Aí residem seu poder e sua miséria!

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