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V.
Autopoiese e ciência

3 • Nº 8 •
JUL-SET
Renato Sampaio de Azambuja1

• 2004 • P. 4-5 • CULTURA HOMEOPÁTICA
Unitermos Keywords
Autopoiese Autopoiesis
Autopoiese e ciência Autopoiesis and science
Clausura operacional Operational enclosure
Determinismo estrutural Structural determinism

Resumo Summary
Procuraremos neste artigo apresentar uma síntese do This article will try to find out a synthesis of Humberto
pensamento de Humberto Maturana e demonstrar a Maturana’s thinking and demonstrate the importance
importância e diversidade de aplicações que podem and diversity of the applications that come from the
decorrer da Teoria da Autopoiese. Autopoiesis Theory.

Introdução alcance que a proposta da Autopoiese proporciona para
O que somos? Qual a organização dos seres vivos? a compreensão dos seres vivos.
Como ocorre o processo cognitivo dos seres vivos? Essas Em um meio científico, no qual o conhecimento dos
indagações permearam por longos anos as matérias da organismos vivos se reduz a uma análise de seus
filosofia e da ciência, permanecendo vivas desde os componentes celulares e moleculares, como explicati-
primórdios da civilização ocidental. vos do viver em seus fenômenos observáveis, a proposta
Sem objetivar resolver definitivamente tais ques- autopoiética realmente se apresenta, como veremos em
tões, esse artigo visa apresentar sumariamente a síntese, como uma revolução paradigmática na biologia,
proposta de Humberto Maturana e Francisco Varela, com aplicações nos diversos campos do conhecimento
batizada de Autopoiese, que fornece um modelo científico, social e cultural ainda inusitados.
operacional explicativo dos seres vivos.
“As propriedades dos componentes [de um Desenvolvimento
organismo] não determinam por si só a O que distingue os seres vivos do meio onde vivem
organização de um sistema, tampouco as é sua capacidade perceptiva e seu modo operacional
propriedades de um sistema como um autônomo. Essa é a conclusão de Humberto Maturana,
conjunto.”1 neurobiólogo chileno que, no estudo da percepção da
“O central para esse entendimento [da cor pela retina, viu-se obrigado a fazer uma virada
natureza cognitiva humana] é a autonomia epistemológica e a construir uma teoria do ato cognitivo
operacional do ser vivo individual.”2 denominada Autopoiese.
Toda essa concepção “surgiu de uma súbita e repentina Para melhor compreender a importância dessa
visão sobre a totalidade”3, “da perspectiva do operar teoria iniciaremos como Maturana iniciou um artigo seu,
completo do ser vivo”4, na qual “percepção e pensamento com seu famoso aforismo: “Tudo o que é visto, é visto
são operacionalmente o mesmo no sistema nervoso e por por um observador que pode ser ele mesmo”.6
isso não tem sentido falar de espírito versus matéria”5. Vejamos quais as conseqüências da aparência
Utilizamos essas palavras de Maturana, escritas em singela e óbvia dessa afirmação.
seu livro A Árvore do Conhecimento, cuja autoria divide A primeira grande conseqüência é que a realidade
com Francisco Varela, para dimensionar inicialmente o observada, em qualquer ato perceptivo e cognitivo de

1. Médico pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) em 1985, residência em Cirurgia Geral 1985-1988,
especialista em Homeopatia desde 1998, médico homeopata no Hospital Nossa Senhora Conceição de Porto Alegre -
vinculado ao SUS, professor adjunto do Curso de Formação em Homeopatia da Fundação Centro Gaúcho de Estudos e
Pesquisa em Homeopatia (CEGEPH) vinculado à SGH-AMHB.

sempre A esse fenômeno nomeou Determinação Estrutural. exatamente como o mundo é independente do assim. assim concebido. agregamos a cor percebida. em todas as interações que o interação aquilo que chamamos de realidade. emergindo dessa dicionais do meio. relacionando-as. Mesmo mente. A mológica nesses conceitos. produtos são eles mesmos. percebido. é ral. ocorre em sua dinâmica estrutural interna. qualquer ato cognitivo de um organismo. não Por outro lado. esse organismo se modifica conforme as especi- observador. através de nosso aparelho sensorial. junto a essa primeira observação. chamou de Autopoiese. para Maturana a realidade é um fato intima. o SNC não admite instruções incon- uma ação distintiva em um meio. acoplar-se constantemente. Para nosso autor. essa relação mútua e dinâmica entre ser vivo e meio. . mais dependente ela é do conjunto de mu. ao mesmo tempo em que sofre realidade em si e invariável. não vive isolado. Nas palavras de Maturana “nada pode existente e vivida. Tudo começou após intensas pesquisas em tentar Maturana chamou de Acoplamento Estrutural. Poderíamos dizer Concluiu que. Ou seja. Nosso cérebro teria a capacidade de perturba esse mesmo ser vivo. expressamos em uma linguagem. a realidade como dado objetivo e invariável. em especial os seres humanos. por um observador. devido à sua clausura Estamos acostumados a conceber nossa percepção operacional. é a linguagem. Se esse observador perceber uma devia-se muito mais a um estado dinâmico do conjunto regularidade ou coerência em um conjunto de condutas da estrutura cerebral do que das propriedades da onda exibidas pelo ser vivo. cabendo ao A essa condição que distingue os seres vivos de seu nosso sensório e sistema nervoso captar e decodificar as meio. processo cognitivo bem-sucedido. a realidade não pode ser caracterizada concepção de que o Sistema Nervoso Central (SNC) é e especificada se não houver um observador operando um sistema biológico operacionalmente fechado. O organismo. estado dinâmico à circunstância ambiental. Depois mudanças de estado que um organismo exibe ao acoplar- de tentar correlacionar incansavelmente e sem sucesso se com o meio. necessariamente. Mesmo se disséssemos que ela existiria se não qual os estados e a dinâmica interna de sua estrutura houvesse ninguém ali. de uma Esse meio ambiente. não é especificado pela realidade papel do observador na configuração da realidade desse meio. poderíamos chamar. pondiam àqueles previsto pela ciência normal7. Essa realidade não existe por si mesma e inde. no seu agir enquanto ser vivo. condição de sua clausura operacional. Um que considera próprio sistema”8.14 filosofia • Nº 8 • V. ao serem observadas por um observador. entre o ser e fazer. esse último não especifica o que resumo. Em SNC tem com o meio. também descobertas. independente. nando-a e distinguindo-a na dependência de sua expe. ou seja. o principal instrumento de sua depende de um input de uma realidade invariável e objetiva. an. poderemos dizer que houve um ou dos componentes isolados da estrutura cerebral. conduta. 4-5 • há sentido em falarmos de realidade se não operarmos mento operacional. Assim como o comprimento de onda não especifica Então. ao associar a mudança de danças dinâmicas de sua estrutura em totalidade. Como conseqüência teremos. a segunda conseqüência primordial daquele aforismo: o inclusive dos humanos. A conservando sua Autopoise. um conjunto de estados de atividade neu. tude e é capaz de refletir o conjunto de seus estados tes de tudo. Como humanos. pois ela é mente relacionado com aquilo que é visto. e outro que considera a reali. próprio estado interno é quem especifica o que é visto e vador. internos. 3 • 2004 qualquer ser vivo. quanto mais complexa a percepção do que houve um aprendizado ou conhecimento adquirido organismo. ficações de sua dinâmica estrutural interna e. como inputs. operacionalmente fechada. e é visto. Vive em um meio onde necessita. desig. estaríamos dizendo isso como neural constroem todas as condições e elementos JUL-SET observadores que já existimos e operamos quando nos biológicos necessários à sua própria existência. Maturana dade como um acontecer no viver do observador. governada por leis a serem modificações pela intervenção do ser vivo. ficar-se e movimentar-se. a pendente. concluiu que a cor percebida mina-se conduta. volta a interferir no meio. existem dois caminhos acontecer no sistema vivo que não seja determinado pelo explicativos para a realidade observada. no nela. riência empírica e no seu operar cognitivo. e segundo essa condição de fecha- CULTURA HOMEOPÁTICA • P. Toda essa movimentação ou. Essa perturbação do meio relacionar os estímulos configurando o que poderíamos não especifica nada o que acontece no interior do orga- chamar de uma representação do mundo real em nossa nismo. qualquer percepção cognitiva é. onde sua organização é tal que seus únicos informações do meio. adequar alguns fenômenos anômalos que não corres. inexistindo separação en- mente de quem as observa. por um lado. os comprimentos de onda luminosa com a cor percebida que pode ser o próprio organismo em questão. que demonstra incrível plasticidade e ampli- Pelo contrário. tre produtor e produto. deno- pela estrutura orgânica. especificação do que é percebido pelo organismo não Entre os humanos. ao modi- Humberto Maturana propõe uma virada episte. uma dança contínua de fluxo de estados na qual o sempre e necessariamente distinguida por um obser.

. filosofia e É dentro desse contexto de ações coordenadas e ética associado ao desenvolvimento das sociedades coerentes que também se compreende o fator básico e humanas também com Maturana. é um dos desenvol.”10. Medicina com as pesquisas em imunologia de Nelson tencial operacional na linguagem entre humanos. 1 Maturana.W. lado. pág. Perspectiva. Também são A compreensão da linguagem como ato cognitivo esses os subsídios fundamentais da teoria para o humano na realidade que ele próprio constrói. . 3 ibidem. por outro • 2004 • P. desenvolvimentos em Inteligência Artifi- cial com Francisco Varela. pág. Diferen. gostaria de encerrar com outro grande e significativo mal9. e a JUL-SET podem ocorrer em qualquer espécie viva. Ed. cit. dificuldades humanas o desconhecimento do seu vados na vida. Para nós. págs. temente da concepção. Regularidades encadeadas e coordenadas nomia e a independência operacional. Esses são alguns exemplos de aplicações de tal mológicos suficientes para uma compreensão sistêmica conhecimento. 36. linguajar é um sistema de ações entendimento dos seres vivos enquanto unidade 3 • Nº 8 • coordenadas e coerentes. 264. 6ª edição. 44 6 Maturana. 38 4 ibidem. mas como compreensão dos processos cognitivos como expe- língua falada é exclusiva dos seres humanos e é o que riência direta dos indivíduos no ser e fazer. humanos. 1962 e 1970. 1995. 29-66. 38. conjunto das suas aplicações nas diversas áreas do ção de seu próprio estado interno. “está no cerne das nentes biológicos para especificar os fenômenos obser. A auto- Autopoiese. concluindo essa apresentação sumária. UFMG. E onde Maturana demonstra a emergência com Maturana e. pág. e dinâmica dos seres vivos em seu viver e operar. Para Maturana. pág. que propõe uma reformulação Conclusão nas concepções representacionistas atuais para uma Nesse breve resumo podemos observar que a teoria concepção conexionista do processamento da infor- da Autopoiese fornece elementos científicos e episte. aforismo de Maturana. vimentos mais inusitados e surpreendentes da teoria São exemplos disso os desenvolvimentos em ciên- de Maturana. são os sustentáculos dessa teoria. Antropologia com modulador que cumprem as emoções no viver e fazer do estudos de Georges Balandier. A Árvore do Conhecimento. cia e epistemologia com o próprio Maturana. linguagem e educação ser humano. Ontologia da Realidade. da consciência e da autoconsciência como modo exis. na percep. expressivo do estado interno do importância. Ed Psy II. 5 ibidem. dinâmico e padronizado en. Renato Sampaio de Azambuja 15 V. pois sustenta o antigo anseio da filosofia e organismo em seu movimento de manutenção de sua da ciência da unidade da vida e do indivíduo. Vaz (UFMG). 10 A Árvore do Conhecimento. 1987. no Brasil. isso tem especial tre as espécies e raças. 2 ibidem. Ed Psy II. mação. 1995. com Cristina Magro (UFMG). 39. Gaia a way of knowing. pág. por um lado. 9 vide Thomas Kuhn Op. hoje hegemônica na ciência nor. 4-5 • CULTURA HOMEOPÁTICA nos diferencia de outras espécies animais. 11-36. New York: Lindisfarne Press.1997. Enfim.In: Thompson. que se fundamenta exclusivamente nos compo. indissolúvel. pág. pág. conhecimento onde são atualmente desenvolvidas. pág. 8 Maturana. 7 concebe-se aqui ciência normal como Thomas Kuhn o fez em As Estruturas das Revoluções Científicas.I. Para ele. 60. ela fornece subsídios importantes para o próprio conhecer.