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TELA TOTAL

JEAN BAUDRILLARD

TELA TOTAL
mito-ironias do virtual e da imagem

4ª EDIÇÃO

ORGANIZAÇÃO E TRADUÇÃO DE
JUREMIR MACHADO DA SILVA
© de Jean Baudrillard, 1997

Capa: Eduardo Miotto


Revisão: Gabriela Koza
Projeto gráfico e editoração: ComTexto Editoração Eletrônica

Editor: Luis Gomes

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação ( CIP )


Bibliotecária Responsável: Ginamara Lima J. Pinto CRB 10/1204

B342t Baudrillard, Jean

Tela total : mito-ironias da era do virtual e da imagem /


Jean Baudrillard; tradução de Juremir Machado da Silva.
4. ed. – Porto Alegre : Sulina, 2005.
158p.

ISBN 85-205-0139-7

CDU 30

Todos os direitos desta edição reservados


à EDITORA MERIDIONAL LTDA.

Av. Osvaldo Aranha, 440 cj. 101


Cep: 90035-190 – Porto Alegre – RS
Tel.: (51) 3311-4082
Fax: (51) 3264-4194
www.editorasulina.com.br
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Maio/2005
IMPRESSO NO BRASIL/PRINTED IN BRAZIL
Sumário

Introdução: Jean Baudrillard ou o niilismo irônico ................... 7


1 Nada de piedade de Sarajevo .................................................. 11
2 A impotência do virtual ........................................................... 17
3 Servilização ocidental................................................................ 21
4 Quando o Ocidente toma o lugar do morto ..................... 25
5 A grande faxina .......................................................................... 29
6 Às lágrimas, cidadãos! ............................................................... 35
7 Os hilotas e as elites .................................................................. 39
8 A informação no estágio meteorológico ............................. 45
9 O continente negro da infância ............................................. 51
1 0 A dupla exterminação .............................................................. 57
1 1 Perdidos de vista e realmente desaparecidos ...................... 63
1 2 A sexualidade como doença transmissível .......................... 69
1 3 A soberania da greve ................................................................. 75
1 4 Terra do Fogo – Nova York ou o fantasma do fim
do mundo ..................................................................................... 81
1 5 Dívida mundial e universo paralelo...................................... 87
1 6 A sombra do comandante ....................................................... 93
1 7 O espelho da corrupção .......................................................... 99
1 8 Disneyworld Company......................................................... 105
1 9 O mundial e o universal ........................................................ 111
20 Deep Blue ou a melancolia do computador .................... 117
2 1 Ruminações para encéfalos esponjosos ............................ 123
22 Tela total .................................................................................... 129
23 O complô da arte ..................................................................... 135
24 Fantasmas televisuais .............................................................. 141
25 Certo, Chirac é uma nulidade .............................................. 147
26 História de clones – o original e seu duplo ...................... 153

6 – JEAN BAUDRILLARD
Introdução
Jean Baudrillard ou o niilismo irônico

Apresentar Jean Baudrillard? Desnecessário. Explicar Baudrillard?


Impossível. Ele nunca está nos lugares onde pretendem encontrá-
lo os funcionários da classificação sociológica. Tomar o texto de
Baudrillard como pretexto para um discurso escolar? Tampouco.
Navegar com o pensador nas águas do desaparecimento da falsa
realidade construída pela modernidade? Eis uma aventura intelec-
tualmente excitante. Baudrillard é um outro. Como Rimbaud, não
cessa de escapar de si mesmo para contemplar, com olhos irônicos,
o formidável avanço da banalidade, encarnada, neste fim de século,
na espetacularização do vazio. História universal da extinção.
Desaparecimento do sentido, do sexo, da Verdade, do
sonho, da política, da utopia, da infância, da morte, da reali-
dade, etc. Tudo desapareceu. E tudo está preservado, salvo,
catalogado, guardado para um futuro extinto. Não vale a pena
chorar. A nostalgia também foi eliminada, mas, paradoxalmen-
te, subsiste, embalsamada, no coração dos otimistas. Baudrillard,
em todo caso, não é profeta nem anjo do apocalipse. Aquém e
além do pessimismo e do otimismo, desestabiliza em perma-
nência a eterna vontade intelectual de introduzir certezas nas
células de sociedades consumidas pelo vírus do aleatório.
Conhecimento e verdade parecem evoluir em direções
opostas. Quanto maior o conhecimento, bem ilustrado na

TELA TOTAL –7
atualidade pela revolução da informática, menor a compreensão
da existência. Salvo engano. Apenas o erro está garantido.
À sombra do iluminismo quase defunto, Baudrillard ironiza,
ri, desconcerta, relativiza, zomba e estraga os esquemas
explicativos do prêt-à-porter teórico.
Traduzir Baudrillard? Sim e não. A tradução faz-se neces-
sária embora nunca se livre da imprecisão. O texto de Baudrillard
oferece-se à conversão, mas guarda zonas de sombra, ambigüi-
dades irredutíveis, falsas opacidades. Intraduzível enquanto es-
critor singular, Jean Baudrillard permite ao tradutor a descoberta,
o prazer da palavra volátil, o gozo da frase em perpétua evolu-
ção. Num passeio irreverente pelos territórios das ciências hu-
manas, o autor usa e abusa das metáforas e dos termos empres-
tados às mais diversas especialidades. Fantasmas de demiurgo?
Vertigem poética do discurso.
Fantasma, palavra-conceito do domínio “psi”, de uso colo-
quial na cultura francesa, merece tradução literal, apesar de ul-
trapassar a utilização corrente, fora do campo especializado, do
vocábulo no Brasil, pois condensa a versatilidade da prosa de
Baudrillard, tecida no ponto de encontro entre o erudito, o
midiático e o popular; prosa feita de fragmentos que se
complementam e contradizem em permanência. Prosa
fantasmática. Apenas um exemplo dessa operação complexa que
é a argumentação de Jean Baudrillard. Na contramão da
homogeneidade, da padronização, cada vez que uma expressão
se repete surge nova possibilidade de interpretação. Camadas
sucessivas de sentido nuançadas pelo contexto numa incessante
deriva na direção do silêncio ruidoso da perplexidade.
Cada leitor continuará a traduzir Baudrillard ad infinitum. A força
da sua sociologia encontra-se na violência retórica, na abertura cons-
ciente ao indizível, ao que só a arte consegue, em parte, tocar.
Baudrillard procura ultrapassar o limiar do dito para buscar no não-

8 – JEAN BAUDRILLARD
dito algo mais do que o senso comum. Conotativo por excelên-
cia, o discurso baudrillardiano explora o grau superior da virtualidade.
A realidade resume-se a um índice, um vetor, um ponto de par-
tida para o sonho; feroz ironia do homem que se recusa a fazer o
jogo da lógica binária.
Tela Total reúne pela primeira vez (antes mesmo de uma
edição francesa) a íntegra dos artigos/ensaios publicados por Jean
Baudrillard, no diário parisiense Libération, entre 1993 e 1997. A maio-
ria dos textos apareceu entre junho de 1995 e maio de 1996, época
em que o jornal contou com a colaboração oficial do teórico, na
primeira segunda-feira de cada mês; depois, quinzenalmente. Criado
em 1974, com a participação de Jean-Paul Sartre, Libération
representou durante muito tempo, sob a direção de Serge July, o es-
paço da irreverência máxima do jornalismo francês, global mas
intelectualizado. Nada mais justo, portanto, na fase de tentativa de
um terceiro salto qualitativo do veículo, que abrigar a reflexão
impiedosa de Baudrillard.
Perpassados do início ao fim pela sofisticada ironia do soció-
logo/escritor, os 25 artigos figuram como verdadeiras lições (cur-
sos) sobre a era da imagem, do virtual, da extinção das “verdades”
ideológicas, da crise dos paradigmas modernos, etc. A unidade analí-
tica alcança o estatuto de unidade temática, apesar da variedade de
assuntos (guerra da Bósnia, corrupção, mídia, novas tecnologias...),
pois por trás de cada tópico circunstancial aparece uma maneira de
olhar, metodologia libertária e implacável, que permite ao leitor per-
ceber o jogo de simulacros, o desaparecimento do Outro, o vazio das
posturas pessimistas ou otimistas, a implosão das ilusões, a falácia
das apologias da técnica, o império virtual da imagem, etc.
Caçador inspirado do absurdo travestido de novidade ou de
promessa do paraíso terrestre, Jean Baudrillard desconcerta e provo-
ca indignação por não fazer concessões às utopias desejáveis mas
nem por isso realizáveis. Embora muitos intelectuais, entre os quais

TELA TOTAL –9
Paul Virilio, atuem no mesmo registro – o exame radical das
condições de possibilidade da autonomia sob o signo da mídia –,
nenhum apresenta o conjunto de características de Baudrillard:
o niilismo irônico associado à qualidade literária original do texto
e à invenção de instrumentos inéditos de interpretação.
A lógica comunicacional moderna deveria produzir sentido.
Às ciências humanas, holofotes da razão, caberia descobrir o
Sentido da História. Ora, Jean Baudrillard, em seu delírio filosó-
fico iconoclasta, aponta para a entrada na era da irrealidade, es-
tágio viral da circulação sígnica, no qual “o valor irradia em todas
as direções, em todos os interstícios, sem referência ao que quer que
seja, por pura contigüidade”*. Não é apenas a referência do signo
que se perde, mas também a capacidade última de decifração do
objeto pelas ciências. A certeza cede lugar à incerteza e pode-se
“substituer enfin à l’éternelle théorie critique une théorie
ironique” **. Em Tela Total, todo o arsenal típico da reflexão
baudrillardiana está presente. O mundo contemporâneo, instá-
vel e inquietante, surge como uma gargalhada sarcástica. Brilhante.

Juremir Machado da Silva

*
BAUDRILLARD, Jean. A transparência do mal - ensaio sobre os fenômenos extremos.
Campinas, Papirus, 1990, p.11.
**
___ Les stratégies fatales. Paris, Grasset, 1983, p.101.

10 – JEAN BAUDRILLARD
1
Nada de piedade de Sarajevo

No programa da Arte , em duplex de Estrasburgo e Sarajevo,


*

O corredor para a palavra (19 de dezembro de 1992), surpreen-


dente era a superioridade absoluta, o estatuto excepcional con-
ferido pela infelicidade, pela aflição e pela desilusão total – a
mesma que permitia aos habitantes de Sarajevo tratar os “euro-
peus” com desprezo, ou ao menos com um ar de liberdade sar-
cástico, em contraste com o remorso e a contrição hipócrita dos
seus interlocutores. Não eram os primeiros que tinham necessida-
de de compaixão; eram eles que se tornavam compreensivos em
relação ao nosso destino miserável. “Eu cuspo sobre a Europa”,
dizia um deles. Ninguém é mais livre, efetivamente, mais sobera-
no do que no desprezo justificado, nem mesmo contra o inimi-
go, mas contra todos aqueles que bronzeiam sua boa consciên-
cia ao sol da solidariedade.
E eles viram desfilar desses bons amigos. Ultimamente ainda
Susan Sontag, vinda para fazer representar Esperando Godot, em
Sarajevo. Por que não Bouvard e Pécuchet, na Somália ou no Afeganistão?
O pior não está no suplemento de alma cultural, mas na con-
descendência e no erro de julgamento sobre a força e a fraqueza.

*
Arte – emissora de televisão pública franco-alemã especializada em assuntos
culturais (N.T.).

TELA TOTAL – 11
Eles são fortes; somos nós os fracos e que vamos procurar lá a
regeneração de nossa fraqueza e de nossa perda de realidade.
Nossa realidade, eis o problema. Só temos uma realidade,
e é preciso salvá-la, mesmo com o pior dos slogans: “É necessá-
rio fazer alguma coisa. Não se pode ficar sem fazer nada”. Ora,
fazer o que quer que seja pela única razão de que não se pode
deixar de fazê-lo nunca constituiu um princípio de ação nem de
liberdade. Isso não passa de uma forma de absolvição da própria
impotência e de compaixão com a própria sorte.
Os habitantes de Sarajevo não precisam se questionar dessa
forma, pois estão na necessidade absoluta de fazer o que fazem, de
fazer o que é preciso. Sem ilusões sobre o fim, sem compaixão
consigo mesmos. É isso, ser reais, é isso, estar no real, que nada
tem a ver com a realidade “objetiva” da infelicidade deles, aquela
que não deveria existir e da qual sentimos piedade, mas a que
existe tal qual ela é – a realidade de uma ação e de um destino.
É por isso que eles estão vivos, e nós é que estamos mor-
tos. É por isso que precisamos, antes de tudo aos nossos próprios
olhos, salvar a realidade da guerra e impor de algum jeito esta
realidade (compassiva) aos que sofrem mas, mesmo no coração
da guerra e da aflição, não crêem verdadeiramente nisso.
Nos seus comentários, Susan Sontag confessa que os bósnios
não crêem de fato na aflição que os cerca. Terminam por considerar
a situação irreal, insensata, ininteligível. É um inferno, mas um infer-
no, de qualquer maneira, hiper-real, tornado mais hiper-real ainda
pelo esgotamento provocado pela mídia e o humanitário, dado que
este torna ainda mais incompreensível a atitude do mundo inteiro
com respeito ao problema. Vivem assim numa espécie de espectra-
lidade da guerra – felizmente, de resto, ou não poderiam jamais o
suportar. Não sou eu, mas eles que o dizem.
Mas Susan Sontag, que vem de Nova York, deve saber melhor do
que eles o que é a realidade, visto que ela os designou para encarná-la.

12 – JEAN BAUDRILLARD
Ou talvez simplesmente porque é disso que ela, e todo o Ocidente,
mais sintam falta. É preciso ir reapropriar-se de uma realidade ali onde
ela sangra. Todos esses “corredores” que abrimos para lhes enviar
nossos víveres e nossa cultura são na realidade corredores de aflição
por onde importamos as forças vivas e a energia da infelicidade dos
outros. Troca ainda uma vez desigual. E aqueles que encontram na
desilusão radical do real (inclusive do princípio de realidade política
que nos governa, parte do princípio de realidade européia) uma espé-
cie de coragem extra, de sobreviver ao que não tem sentido – Susan
Sontag vem convencê-los da “realidade” de seus sofrimentos,
aculturando-a, claro, teatralizando-a para que possa servir de referência
ao teatro dos valores ocidentais, dos quais a solidariedade faz parte.
Mas Susan Sontag não está em questão. Ilustra simples-
mente uma situação mundana doravante geral, na qual os inte-
lectuais inofensivos e impotentes trocam a própria miséria pela
dos miseráveis, cada um suportando o outro numa espécie de
contrato perverso – tanto quanto a classe política e a sociedade
civil trocam hoje as suas misérias respectivas, uma oferecendo o
seu pasto, sua corrupção e os seus escândalos; a outra, suas con-
vulsões artificiais e sua inércia. Pôde-se ver assim, não faz muito
tempo, Pierre Bourdieu e o abade Pierre se oferecerem em
holocausto televisual, intercambiando a linguagem patética e a
metalinguagem sociológica da miséria.
Nossa sociedade engaja-se assim na via da “comiseração”,
no sentido literal, sob a cobertura do patos ecumênico. É um
pouco como se, num momento de imenso arrependimento, en-
tre os intelectuais e os políticos, ligado ao pânico da história e ao
crepúsculo dos valores, fosse preciso realimentar o viveiro do
valor, o viveiro referencial, invocando o menor denominador que
é a miséria do mundo, realimentar em presas artificiais o território
de caça. “Na atualidade é tacitamente impossível, nos programas
de informação, mostrar, na televisão, outros espetáculos que não

TELA TOTAL – 13
o do sofrimento” (Daniel Schneidermann). Sociedade vitimal.
Suponho que não exprime com isso nada além de sua própria
decepção e o remorso da impossível violência contra si mesma.
Por toda parte, a Nova Ordem intelectual segue as vias
traçadas pela Nova Ordem mundial. Por toda parte, a infelicida-
de, a miséria, o sofrimento dos outros tornaram-se a matéria-
prima e a gênese. Vitimalidade saída dos direitos do homem so-
mente como ideologia fúnebre. Aqueles que não a exploram di-
retamente ou em seu próprio nome fazem-no por procuração –
não faltam mediadores para tirar sua mais-valia financeira ou sim-
bólica de passagem. O déficit e a infelicidade, como a dívida in-
ternacional, negociam-se e revendem-se no mercado especulativo
– no caso, o mercado político-intelectual, que vale bem o com-
plexo militar-industrial de sinistra memória.
Toda comiseração está na lógica da infelicidade. Referir-se à
infelicidade, mesmo para combatê-la, significa dar-lhe uma base de
reprodução objetiva indefinida. Em todo caso, para combater o que
quer que seja, precisa-se partir do mal, e jamais da infelicidade.
E é verdade que está em Sarajevo o teatro da transparência do
mal. O cancro reprimido que apodrece todo o resto, o vírus cuja
paralisia européia é desde já o sintoma. Os móveis da Europa salvos
nas negociações do GATT são queimados em Sarajevo. Num senti-
do, trata-se de uma coisa boa. A Europa falsa, a Europa perdida, a
Europa remendada nas convulsões mais hipócritas, instala-se em
Sarajevo. E, nesse sentido, os sérvios seriam quase o instrumento da
desmistificação, o mecanismo de análise selvagem desta Europa fan-
tasma, dos políticos tecnodemocráticos tão triunfalistas nos seus dis-
cursos quanto deliqüescentes nos fatos. Pois se vê bem que a Europa
se degrada na medida que o discurso sobre a Europa desabrocha
(assim como os direitos do homem se degradam à medida que
prolifera o discurso dos direitos do homem). Mas, com efeito,
não é sequer a última palavra da história. Esta encontra-se no

14 – JEAN BAUDRILLARD
fato de que os sérvios, enquanto vetores da purificação étnica,
são a extremidade sensível da Europa em construção. Pois a Eu-
ropa “real” está em construção, a Europa branca, a Europa lava-
da, integrada e purificada, moral, econômica ou etnicamente. Está
em construção vitoriosamente em Sarajevo, e nesse sentido, o
que aí ocorre não é de jeito nenhum um acidente no percurso de
uma Europa inexistente, piedosa e democrática; é a fase lógica e
ascendente da Nova Ordem européia, filial da Nova Ordem mun-
dial, que se caracteriza por toda parte pelo integrismo “branco”,
o protecionismo, a discriminação e o controle. Dizemos: se nada
fizermos em Sarajevo, sobrará para nós na seqüência. Mas já
estamos nisso. Todos os países europeus estão em vias de puri-
ficação étnica. Tal é a verdadeira Europa, que se faz lentamente
à sombra dos parlamentos, e sua ponta de lança é a Sérvia. Inútil
invocar uma passividade qualquer, uma impotência qualquer a
reagir, visto que se trata de um programa em via de execução
lógica, do qual a Bósnia é apenas a nova fronteira.
Por que Le Pen desapareceu do cenário político? Porque a subs-
tância das suas idéias infiltrou-se por tudo na classe política, sob a
forma de exceção francesa, de união sagrada, de reflexo eurona-
cionalista, de protecionismo. Não há mais necessidade de Le Pen,
pois ele ganhou, não politicamente, mas viralmente, nas mentalida-
des. Por que esperar que o conflito cesse em Sarajevo, dado que a
mesma coisa está em jogo? Nenhuma solidariedade mudará nada ali;
o desfecho chegará miraculosamente no dia em que a exterminação
tiver terminado, o dia em que a linha de demarcação da Europa “bran-
ca” será traçada. É como se a Europa, todas as nacionalidades reuni-
das, todas as políticas confundidas, tivesse assinado um “contrato”,
contrato de assassinos, com os sérvios, convertidos em executores
do trabalho sujo europeu – como o Ocidente tinha antes um acordo
com Saddam contra o Irã. Simplesmente, quando o matador exage-
ra, precisa-se, por vezes, liquidá-lo também. As operações contra o

TELA TOTAL – 15
Iraque e a Somália foram fracassos relativos do ponto de vista da
Nova Ordem mundial. Já a operação na Bósnia parece fadada ao
sucesso do ponto de vista da Nova Ordem européia.
Os bósnios sabem disso. Sabem que estão condenados pela
ordem “democrática” internacional, e não por qualquer vestígio ou
excrescência monstruosa chamada fascismo. Sabem que estão fada-
dos à exterminação, a ser relegados, ou à exclusão como todos
os elementos heterogêneos e refratários do mundo – sem apela-
ção, porque, apesar de poder desagradar a má consciência hipó-
crita dos democratas e humanitários ocidentais, essa é a via
inexorável do progresso. A Europa moderna pagar-se-á pela
erradicação dos muçulmanos e dos árabes, como já o faz por
toda parte, nem que seja a título de escravos imigrados. E a maior
objeção à ofensiva da má consciência, tal qual ela se desenvolve
nos happenings como o de Estrasburgo, é que, perpetuando a
imagem da pretendida impotência dos políticos europeus e a da
consciência ocidental, pretensamente estraçalhada por sua pró-
pria impotência, cobre-se toda a operação real, assegurando-lhe
o benefício da dúvida espiritual.
Alguns dos habitantes de Sarajevo, na tela da Arte, tinham
o ar de estar sem ilusão e sem esperança, mas não o ar de márti-
res potenciais, bem ao contrário. Possuíam por eles a própria
infelicidade objetiva; mas a verdadeira miséria, a dos falsos após-
tolos e dos mártires voluntários, estava do outro lado. Ora, como
se disse com muita justiça: “O martírio voluntário não será
tomado em consideração no além”.

(7 de janeiro de 1993)

16 – JEAN BAUDRILLARD
2
A impotência do virtual

Episódio recente: os estudantes, em manifestação, bloqueiam o


TGV* na estação de Angoulême. O fluxo escoa dos dois lados do
trem, ao longo dos passageiros imóveis atrás dos vidros fumés.
Alguns gritos, slogans e vociferações – mas contra quem? Era como
se latissem para um satélite artificial. Pois com o TGV é a realidade
virtual que passa, a realidade virtual que atravessa a França in vitro
– encarnação do dinheiro da velocidade de tudo que circula – con-
frontada ao mundo bem real de desempregados potenciais dos ma-
nifestantes. Confronto surrealista da flecha do tempo e de uma juven-
tude já ultrapassada. Tudo o que eles podem arrancar à transparência
dos ricos são dez minutos de imobilidade, de congelamento em ima-
gem, de toda maneira, no espetáculo televisual do qual são vítimas.
Simples episódio em miniatura do clash entre o real e o
virtual e de suas conseqüências fantásticas na escala planetária:
separação entre um espaço virtual de altíssima freqüência e um
espaço real de freqüência nula. Nada mais de comum entre eles,
nem de comunicação: a extensão incondicional do virtual (que
não inclui somente as novas imagens ou a simulação a distância,
mas todo o cyberespaço da geofinança (Ignacio Ramonet) e o da
multimídia e das auto-estradas da informação) determina a
desertificação sem precedentes do espaço real e de tudo o que

*
TGV – Trem de Grande Velocidade (N.T.).

TELA TOTAL – 17
nos cerca. Isso valerá para as auto-estradas da informação e tam-
bém para as de circulação. Anulação da paisagem, desertificação
do território, abolição das distinções reais. O que até agora se
limita ao físico e ao geográfico, no caso de nossas auto-estradas,
tomará toda a sua dimensão no campo eletrônico com a aboli-
ção das distâncias mentais e a compressão absoluta do tempo.
Os curtos-circuitos (e a instauração desse cyberespaço planetá-
rio equivale a um imenso curto-circuito) geram eletrochoques.
O que entrevemos não é mais somente o deserto do trabalho, o
deserto do corpo que a informação engendrará em razão de sua
própria concentração. Espécie de big crunch contemporâneo do
big bang dos mercados financeiros e das redes de informação.
Estamos apenas na aurora do processo, mas os dejetos e os de-
sertos já crescem muito mais rápido do que a própria informática.
Os dois universos, mesmo literalmente separados entre eles, são
igualmente exponenciais. Tal distorção não cria, porém, nova
situação política de verdadeira crise, pois a memória apaga-se ao
mesmo tempo que o real. Ela é apenas virtualmente catastrófica.
Outra perspectiva catastrófica, nem sequer entrevista pelos
campeões do virtual de todas as categorias (sejam as estratégias
ocultas das finanças mundiais ou os defensores da democracia
universal da informação), é o fenômeno da massa crítica. Conhe-
cemos os dados no plano cosmológico: se a massa do universo é
inferior a certo limite, este permanece em expansão e o big bang
prolonga-se ao infinito. Se o limite é ultrapassado, o universo
implode e contrai-se: big crunch aí também. Ora, guardadas todas
as proporções, a esfera da informação (entendendo-se ainda uma
vez aí a circulação orbital em tempo real tanto do dinheiro quan-
to das imagens ou das mensagens) corre o risco, na perspectiva do
desenvolvimento infinito de conexão universal de todas as redes
que nos prometem, de conhecer uma reversão brutal do mesmo
gênero. Com as auto-estradas da informação, parece que estamos

18 – JEAN BAUDRILLARD
fazendo tudo para ultrapassar o limiar crítico. Onde os bons após-
tolos só vêem a maravilhosa expansão centrífuga, não estaríamos
nos dirigindo para tal saturação e densidade que daí resultaria a
deflação e o desabamento automático? Essa eventualidade não é
mais a da distorção entre uma esfera ultra-sofisticada,
ultraconectada e o resto do mundo desertificado (o quarto mun-
do informático), mas uma catástrofe intrínseca ao universo vir-
tual de ponta, implosão por ultrapassagem da massa crítica.
Podemos nos perguntar de resto se já não ultrapassamos
esse limiar e se a catástrofe da informação já não ocorreu, na me-
dida que a profusão multimidiática de dados se auto-anula e que o
balanço em termos de substância objetiva da informação já é ne-
gativo. Há um precedente com o social: o patamar da massa social
crítica já está amplamente ultrapassado com a expansão
populacional, das redes de controle, de socialização, de comuni-
cação, de interatividade, com a extrapolação do social-total – pro-
vocando desde agora a implosão da esfera real do social e de seu
conceito. Quando tudo é social, súbito nada mais o é.
Talvez, no entanto, por trás desse otimismo tecnológico
delirante, por trás desse encantamento messiânico do virtual,
sonhamos justamente com o limite crítico e com essa inversão
de fase da esfera da informação – na impossibilidade de viver
esse acontecimento considerável, essa implosão geral em nível
do universo, teremos o gozo experimental em nível de
micromodelo. Dada a aceleração do processo, o intercâmbio
pode estar bastante próximo. É preciso, portanto, encorajar
vivamente essa superfusão da informação e da comunicação.
Em todo caso, resta uma hipótese alternativa: trata-se do
quadro que nos apresentam da potência das tecnologias do vir-
tual, da promoção irresistível da realidade virtual até a potência
incontrolável dos novos donos do mundo (le Monde diplomatique
de maio de 1995) que são os senhores da Microsoft e do

TELA TOTAL – 19
telecapitalismo; esse quadro depende fortemente da intoxicação
midiática, repercutindo a auto-intoxicação desses meios (assim
todo o processo se alimenta em espiral).
De duas, uma: ou os dados estão lançados, o mundo inteiro
já está dependente desse feudalismo tecnológico que concentraria
em suas mãos toda espécie de poder real e então só resta desapare-
cer, pois nós também já estamos – nessa perspectiva – virtualmente
riscados do mapa como do território. Ou então não é nada disso e
tudo isso também é virtual. A potência do “virtual” nada mais é do
que virtual. Por isso, aliás, pode intensificar-se de maneira alucinante
e, sempre mais longe do mundo dito “real ”, perder ela mesma todo
princípio de realidade. Para que essas potências técnicas estendam
seu império sobre o mundo seria preciso que tivessem uma finali-
dade – não há potência sem finalidade da potência. Ora, elas não a
têm. Só podem transcrever-se indefinidamente nas suas próprias
redes, nos seus próprios códigos. Mesmo os capitais especulativos
não saem quase da própria órbita: amontoam-se e não sabem se-
quer onde se perder no próprio vazio especulativo. Quanto à trans-
formação dessa potência midiática e informacional em poder políti-
co, vimos bem, no caso de Berlusconi, contrariamente à tese do
golpe de Estado midiático (pela qual tomar o poder político era
somente uma formalidade para quem controlasse a economia e a
comunicação), que fracassava imediatamente. Sentimos com razão
medo de um forte crescimento do poder da mídia, enquanto é pre-
cisamente a mídia que desmaterializa todo poder – para bem ou
para mal. Fatalidade do virtual: não poderia haver estratégia do vir-
tual pois, doravante, só há estratégia virtual.
Não há, portanto, “donos do mundo”, mas somente do-
nos da transparência, e não é pelo fato de que o dinheiro, os
produtos e as idéias deles atravessam sem obstáculos as frontei-
ras do mercado mundializado que devemos nos inclinar diante
dessa supremacia do virtual, pois seria apenas nova forma de
servidão voluntária.
(6 de junho de 1995)

20 – JEAN BAUDRILLARD
3
Servilização ocidental

Ao preço de esforço sobre-humano e de três anos de massacres,


mas sobretudo após a humilhação das forças da comunidade
internacional – algo, sem dúvida, insuportável – parece que a
opinião ocidental finalmente reconheceu, a contragosto e com
todas as reservas possíveis, que os sérvios eram os agressores.
Parece que com esse reconhecimento se foi o mais longe possível
em termos de firmeza e de lucidez – o fato é que enfim se atingiu
o ponto de partida da guerra. Mesmo aqueles que desde muito
tempo, contra a doutrina oficial dos “beligerantes”, denunciam a
agressão dos sérvios, festejam essa virada de posição como uma
vitória, esperando ingenuamente que, a partir daí, não haverá
outra saída para as potências ocidentais, a não ser pôr fim à agres-
são. Nada acontecerá evidentemente, e a designação absoluta-
mente platônica dos carrascos enquanto carrascos não implica
de jeito nenhum o reconhecimento das vítimas como vítimas.
Para iludir-se com isso, é preciso todo o idealismo evangélico
dos que estimam que “o máximo do ridículo e da desonra” foi
atingido e reclamam um sobressalto das potências internacio-
nais e de uma “Europa suicida”, sem se dar conta um só instante
da inutilidade dos seus esforços, equivalente exato da hipocrisia
perpétua dos políticos. Pois a recriminação segue junto com o
crime, e os dois proliferam juntos numa orquestração intermi-
nável do acontecimento. Visto que a consciência ocidental toma

TELA TOTAL – 21
para si o luto da situação, dado que monopoliza a hipocrisia e os
bons sentimentos, não dá para ver por que o assassino não man-
teria o monopólio da arrogância e do crime.
De fato, nem a grotesca gesticulação das forças internacio-
nais nem a lamentação repugnada dos síndicos da boa causa não
conseguiriam obter real efeito, porque o passo decisivo não foi
dado, o último passo na análise da situação, passo que ninguém
ousa nem quer dar. Seria o caso de reconhecer que os sérvios
são não somente os agressores, o que escancara uma porta aber-
ta, mas que são nossos aliados objetivos nessa operação de lim-
peza da futura Europa liberada das suas minorias incomodativas
e da futura ordem mundial liberada de toda contestação radical
dos seus próprios valores – ou seja, da ditadura democrática dos
direitos do homem e da transparência dos mercados.
Nisso tudo, a consideração do mal está em questão. Com
a denúncia dos sérvios como “psicopatas perigosos”, vibramos com
a localização do mal sem duvidar um momento sequer da pure-
za de nossas intenções democráticas. Estimamos ter feito tudo
ao designar os sérvios como os maus – mas não como os inimi-
gos. Explicação: no front mundial, nós ocidentais, europeus,
combatemos exatamente o mesmo inimigo que eles: o islã, os
muçulmanos. Por toda parte, na Chechênia com os russos (mes-
ma tolerância vergonhosa e exterminadora); na Argélia, onde
denunciamos o poder militar enquanto o sustentamos
logisticamente em profundidade (lá, como por acaso, as boas
almas, que estigmatizam na Bósnia a doutrina oficial dos “belige-
rantes”, utilizam exatamente a mesma linguagem: terrorismo de
Estado contra terrorismo fundamentalista – equivalência do mal
– e nós, aí, espectadores impotentes da barbárie. Como se o ter-
rorismo de Estado não fosse nosso terrorismo, o praticamos, em
casa, em doses homeopáticas). Em resumo, podemos bombar-
dear algumas posições sérvias com obuses produtores de fumaça,

22 – JEAN BAUDRILLARD
mas não interviremos verdadeiramente contra os sérvios, pois
fazem fundamentalmente o mesmo trabalho que nós. Antes, se
necessário, para resolver o conflito, chutaríamos os rins das víti-
mas. Estas, quando fingem se defender, são bem mais
incomodativas do que os carrascos; são os bósnio-muçulmanos
que a Força rápida de intervenção será, em breve, forçada a liqui-
dar e neutralizar – no caso de uma ofensiva muçulmana de enver-
gadura; então a força internacional se tornará de fato eficaz.
Eis a verdadeira razão pela qual a guerra é interminável. Refli-
tamos bem: sem essa profunda cumplicidade, a despeito das apa-
rências (mas as aparências, em sua ambigüidade, falam por elas mes-
mas), sem essa aliança objetiva (não pensada, contudo, ou delibera-
da), não existe razão para que a guerra já não tivesse chegado ao
fim. Exatamente o mesmo roteiro usado com Saddam Hussein: nós
o combatemos com força, amplitude midiática e tecnológica – ele
era e continua a ser nosso aliado objetivo. Insultado, denunciado,
estigmatizado em nome dos direitos do homem, mas ainda assim
nosso aliado objetivo contra o Irã, contra os curdos, contra os xiitas.
É uma das razões pelas quais, de resto, a guerra (do Golfo) jamais
existiu verdadeiramente: pois Saddam nunca foi, de verdade, nosso
inimigo. Ocorre o mesmo com os sérvios, que protegemos, colo-
cando-os, por assim dizer, no desterro da humanidade, enquanto
permitimos que façam seu trabalho.
O problema está em convencer os bósnios de que são res-
ponsáveis pela própria infelicidade. Se não o alcançarmos pela
diplomacia, como tentamos fazê-lo há dois anos, será necessário
fazê-lo pela força. Seria o caso de tentar ver o que se passa por
trás do imenso trompe-l’oeil, por trás da conversa fiada do huma-
nitário, do militar e da diplomacia. Em todo conflito, é preciso
distinguir o combatido – nível propriamente político da guerra
– e o sacrificado, de fato liquidado e varrido, o objeto de disputa
mais profundo e o objetivo final, mesmo se com freqüência não

TELA TOTAL – 23
confessado, ultrapassando os adversários de todas as guerras.
Assim, na guerra da Argélia, combatemos o exército argelino,
mas realmente sacrificada no conflito foi a revolução argelina –
e fizemos isso com o exército argelino (e continuamos a fazê-lo).
Na Bósnia, combatemos os sérvios (sem excessos), em nome da
Europa multicultural; sacrificada, na oportunidade, foi a outra
cultura, a que se opõe em valor a uma ordem mundial indiferente
e sem valores. Fazemos isso com ajuda dos sérvios.
O imperialismo mudou de rosto. O Ocidente quer impor
doravante ao mundo inteiro, sob a cobertura do universal, não os
seus valores, completamente desconjuntados, mas justamente a
sua ausência de valores. Por toda parte onde sobrevive, onde persiste
alguma singularidade, alguma minoria, algum idioma específico,
alguma paixão ou crença irredutível, e sobretudo alguma visão
de mundo antagônica, é preciso impor uma ordem indiferente –
tão indiferente quanto somos em relação aos nossos próprios
valores. Distribuímos generosamente o direito à diferença, mas,
em segredo, e desta vez de modo inexorável, trabalhamos para
construir um mundo exangue e indiferenciado.
Esse terrorismo não é fundamentalista, mas de uma cultura
sem fundamento, integrismo do vazio. Interesse que ultrapassa as
formas e as peripécias políticas. Não se trata mais de um front,
de relação de forças, e sim de uma linha de fratura transpolítica,
que passa hoje primordialmente pelo islã – mas também no
coração de cada país dito civilizado e democrático, e mesmo
certamente no fundo de cada um de nós.

(3 de julho de 1995)

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