Vous êtes sur la page 1sur 17

*

GAMIL FÖPPEL EL HIRECHE

A FALÊNCIA DA PENA DE
PRISÃO

I Congresso das Américas de Ciências Criminais*

Recife-2000

*
Este texto obteve o primeiro lugar no Concurso, concedido pel a banca “a”, que
lhe atribuiu média nove.
1
SUMÁRIO

1.

Introdução..............................................................................................

2. A finalidade da

pena................................................................................5

3.Problemas relacionados ao Direito Penal

....................................................8

4. Possibilidades de

progresso....................................................................12

4.1.

Teorias..........................................................................................12

4.2. As penas alternativas e o papel da

comunidade..................................14

5. Tendências da legislação penal

brasileira.................................................18

6.

Conclusões...........................................................................................21

7. Referências

bibliográficas.......................................................................23

2
1. INTRODUÇÃO

O escopo magno do Direito é organizar a vida em sociedade. Ele atua como

instrumento que compõe conflitos e resolve lides, protegendo o indivíduo da sanha da

sociedade e esta da daquele. Há brocardos latinos que exemplificam esta realidade “ubi

societas, ibi jus” ou “ubi homo, ibi jus”. O Direito tem, destarte, um papel de controle social.

Para o exercício deste comando, criam-se normas. Estas, quando infringidas,

engendram uma sanção. Vale lembrar, como acentua Damásio de Jesus, que, entre os

ilícitos penais e civis, inexiste diferença ontológica. Por uma questão de política legislativa,

elevam-se à categoria de crime os fatos que possuem uma reprovabilidade social maior. O

agir através de conduta tipificada como delito resultará na imposição de uma pena.1 Já se

afirmou que “a história da pena é a história de sua constante abolição”2 . Talvez fosse mais

correto afirmar-se que, em lugar de estar sendo abolida, a pena vem sofrendo uma

evolução. A pena mais comum hodiernamente é a privativa de liberdade, “menos desumana”

que a corporal. As penas alternativas, malgrado sejam menos dolorosas que o

encarceramento, são pouco utilizadas.

1
Damásio de Jesus ensina que, até o tempo de Binding, pensava-se que cometia crime quem violava uma norma penal.
Depois deste pensamento, ficou claro que o crime é a realização da conduta descrita pela lei penal O que se viola é um
mandamento superior.
3
Sucede, todavia, que a pena privativa de liberdade vem sofrendo muitos

questionamentos, derivados dos seus seriíssimos problemas. O cárcere, dentre muitos

outros aspectos negativos, embrutece e desumaniza. O objetivo deste trabalho é evidenciar

o descrédito da prisão, sua inidoneidade para reins erir alguém no convívio social. Pretende-

se, além disso, apresentar críticas ao paradoxal modelo legislativo pátrio, bem como sugerir

propostas alternativas à privação da liberdade. Não se pode olvidar, contudo, que é

imperioso manter o espírito de inovação. Conservar-se inerte é concordar com a atual

conjuntura.

2. A FINALIDADE DA PENA

Antes de se apontar quais são os problemas inerentes à pena privativa de

liberdade, mister se faz que se procure justificativas para a pena a fim de averiguar se os

objetivos pretendidos estão sendo alcançados.

A primeira teoria que se propõe a apresentar o sentido da pena é a

retribucionista ou absoluta. Por esta interpretação, a sanção seria um fim em si mesma. Não

existiria um porquê para a sua aplicação. Seria um imperativo de justiça : aplicar-se ia a pena

em razão de o indivíduo ter cometido um ilícito penal. Segundo Sérgio Salomão Shecaira3 ,

as demais conseqüências, como intimidação e correção, para os adeptos desta teoria, não

estariam ligadas à natureza da pena. Os maiores expoentes desta corrente são Kant e

Hegel. A primeira crítica feita a esta teoria é que não restringe os limites da pena,

representando, para Roxin4 , um verdadeiro “cheque em branco” para o legislador. Além

disto, para se justificar a teoria absoluta, precisa-se de um ato de fé, pois seria a forma de

pagar por um mal com outro mal.

Procurando suprir as deficiências da corrente absoluta, aparecem as teorias

relativas, utilitárias ou utilitaristas, compostas de duas formas de prevenção : a geral e a

2
Von Ihering, apud SHECAIRA, Sérgio; CORRÊA Júnior. Pena e Constituição , p. 18.
3
ob. cit. pg. 38.
4
ROXIN, Claus. Problemas fundamentais de direito penal, p. 18
4
especial . Esta, cujo maior teórico é Von Liszt, visa a impedir o cometimento de um outro

delito por parte de um indivíduo; aquela, que tem em Feuerbach seu maior nome, coibir os

impulsos violentos dos outros membros da sociedade. Estas correntes, entretanto,

padecem de defeitos que diminuem a sua veracidade. Vale gizar que em ambas inexiste um

limite, caracterizando o mesmo cheque em branco explicado alhures. Além disso, se o

objetivo da prevenção especial é ressocializar o indivíduo infrator, a própria existência da

reincidência faz ruir a teoria. Roxin também questiona qual seria a autoridade de uma

sociedade para ressocializar 5 alguém. No que tange à prevenção geral, o argumento

contrário é parecido : se o escopo da pena é impor à sociedade um sentimento de que, em

havendo crime, existirá punição, a existência do delito anula a própria teoria.

Assim, vê-se que as teorias contêm defeitos insanáveis. Há, por outro lado,

teses ecléticas, porém a mera junção revelará um acúmulo de problemas. O Neodefesismo

Social de Filippo Grammatica e Marc Ancel é marcado pela concepção de ressocializar a

pessoa, afastando a tese da retribuição.

Ocorre, ainda, uma idéia conservadora: os movimentos de lei e de ordem.

Retorna-se ao velho maniqueísmo. Há homens bons e, em oposição, homens maus que6 ,

ao cometerem delitos, devem sofrer uma sanção retributiva. Tratar-se-á disto mais tarde,

mas o pensamento é de que, aumentando-se as penas, previnem-se os crimes.

Em última análise, parece melhor a teoria unificadora dialética, de Roxin. Em

relação a esta, auto-explicativo é o texto deste professor:

“Resumindo, pode dizer-se acerca da segunda fase de eficácia do direito

penal, que a aplicação da pena serve para a proteção subsidiária e preventiva,

tanto geral como individual, de bens jurídicos e de prestações estatais,

5
Em relação à etimologia, Romeu Falconi prefere chamar este processo de reinserção em lugar de ressocialização.
6
Esquece-se que todos são passíveis de cometer delitos. O estudante que tira cópia de determinada obra está, ainda que
não saiba, cometendo uma infração penal.
5
através de um processo que salvaguarda a autonomia da personalidade e que,

ao impor a pena, esteja limitado pela medida de culpa.”7

Aparece, neste momento, para justificar as penas, o caráter subsidiário (este

será estudado posteriormente), aliado à prevenção e limitado pela culpabilidade.

3. PROBLEMAS RELACIONADOS AO DIREITO PENAL

Muitas são as críticas feitas ao sistema penal e, particularmente, à pena

privativa de liberdade. Deve-se analisar algumas delas:

A) O cárcere não educa - O encarceramento das pessoas, ao contrário do que

deveria fazer, embrutece, dessocializa. Não há aprendizado, exercício de atividade

laborativa8 , enfim, não há um processo gradual de reinserção no grupo social. Presos,

milhares de internos amontoam-se em condições subumanas, lembrando um inferno

dantesco. Ao sair do presídio, na maioria das vezes, ou o indivíduo sai demente,

impossibilitado de retornar à normalidade, ou sai revoltado, disposto a “retribuir” à sociedade

os seus anos de martírio. Sobre este assunto, leciona Louk Hulsman:

“(...) As regras de vida na prisão fazem prevalecer relações de passividade-

agressividade e de dependência-dominação, que praticamente não deixam

qualquer espaço para a iniciativa e o diálogo; são regras que alimentam o

desprezo pela pessoa e que são infantilizantes. O fato de que, durante o

enclausuramento, as pulsões sexuais só possam se exprimir sob a forma de

sucedâneos fantasiosos - masturbação ou homossexualidade - aumenta o

isolamento interior. O clima de opressão onipresente desvaloriza a

autoestima, faz desaprender a comunicação autêntica com o outro, impede a

construção de atitudes e comportamentos socialmente aceitáveis para

7
ROXIN, Claus. ob. cit. p.40.
8
Neste sentido, importante lição de MIRABETE. Quando o preso não puder trabalhar e isto decorrer das limitações do
sistema penitenciário, dever-s e-á conceder a remição de pena, porque o d etento não pode ser prejudicado pela ausência de
condições do lugar onde cumpre pena.
6
quando chegar o dia da libertação. Na prisão, os homens são

despersonalizados e dessocializados”.9

Esta situação decorre do fato de haver muitos presos, e pouca verba para

sustentar um sistema penitenciário. A professora Julita Lemgruber revela, através de dados

governamentais, que o custo médio mensal por preso é de cinco salários mínimos.1 0 Este é

outro agravante;

B) Custo de manutenção de presídios - Com o que se gasta para sancionar

condutas, poder-se-ia investir na formação das pessoas e evitar que esta enveredassem

pelo mundo da marginalidade. Nils Christie afirma, ainda, que há uma verdadeira indústria

de controle do crime. É um negócio lucrativo, para particulares, a manutenção do presídio;

C) Seletividade - O sistema penal seleciona suas vítimas nas classes mais

humildes da sociedade. Estas, originariamente, possuem problemas familiares, financeiros e ,

ainda que se afastando o determinismo mesológico de Hipolit Taine, estão mais propensas a

delinqüir. Além disso, há a notícia de que noventa e sete por cento dos presos não puderam

arcar com honorários advocatícios. Neste sentido, leciona Paulo Queiroz:1 1

“Por último, representa um sistema perversamente e inevitavelmente

seletivo, que recruta sua clientela entre as classes mais fragilizadas e

vulneráveis; entre os miseráveis, enfim. Os cárceres de toda parte, e do Brasil,

em especial, não desmentem semelhante constatação. E não se deve pensar

que tal seja algo facilmente superável: ainda que o próprio Deus ditasse as leis,

ainda que os juízes fossem santos, ..., ainda assim o direi to- e o direito penal

em particular - seria um instrumento de desigualdade. Porque a igualdade

formal ou jurídica não anula a desigualdade material que lhe subjaz. O direito

penal, em especial, sob a ilusória aparência da igualdade é, por excelência, um

9
HULSMAN, Louk; CELIS, Jacqueline. Penas Perdidas, p.63.
10
LEMGRUBER, Lúcia. Os riscos do uso indiscriminado da pena privativa de liberdade. Revista do conselho nacional de
política criminal e penitenciária. Nª 7. p.19. A mesma professora mostra exemplos de flagrante insensatez ocorridos no Rio
de Janeiro : à pessoa que furtou dois pacotes de fraldas foi imposta uma pena de reclusão de três anos; a quem furtou um
galo de b riga, quatro anos.
7
veículo de afirmação e reprodução de desigualdades sociais reais, pois a ficção

da igualdade rui ante a desigualdade substancial.”.

D) As cifras ocultas - Este pensamento revela que, de todos os ilícitos

cometidos, poucos chegam a ser sancionados. Há muitos inquéritos que não seguem

adiante, muitas denúncias que não são oferecidas e muitas sentenças absolutórias. Os

poucos condenados seriam os “escolhidos” ?;

E) Estigmatizante - O egresso carregará, para o resto de sua vida, as marcas

de ter sido preso. Sua vivência social será sempre prejudicada;

F) Violação dos direitos humanos - Em nome do direito penal, tortura-se,

humilha-se, mata-se. Os exemplos mais concretos deste quadro são Vigário Geral,

Carandiru e Candelária. Talvez tenham até sido olvidados;

G) Conseqüencialidade - O Direito penal age nas conseqüências e não nas

causas do problema. No Brasil, v.g., vigora a “técnica legislativa casuística”. Acontece um

crime que mobiliza a opinião pública e, demagogicamente, exasperam-se as penas. A lei

8.072/90, “hedionda lei de crimes hediondos”, representa bem este aspecto 1 2;

H) A teoria do etiquetamento ou “Labelling Aproach” - É o Direito penal que cria

o crime, através de verdadeiros rótulos. A este respeito ensina Nils Christie:

“Atos não são, eles se tornam alguma coisa. O mesmo acontece com o

crime. O crime não existe. É criado. Primeiro, existem atos. Segue-se depois

um longo processo de atribuir significado a estes atos. A distância social tem

uma importância particular. A distância aumenta a tendência de atribuir a

certos atos o significado de crimes, e às pessoas o simples atributo de

criminosas. Em outros ambientes - e a vida familiar é apenas um de muitos

11
QUEIROZ, Paulo. Do caráter subsidiário, p.30.
12
Atualmente, depois dos ataques dos cães pit bull, já se pensou em punir penalmente quem andar com este cachorro sem
proteções. Como a lei só se aplica a esta raça, as outras continuam liberadas. Só os pit -bulls atacam ou é mais uma
manifestação casuística legislativa?
8
exemplos - as condições sociais são tais que criam resistências a identificar os

atos como crimes e as pessoas como criminosas.”1 3

É o Direito Penal, assim, que cria o delito. Muitas vezes, não há razão

ontológica para punir determinada conduta. O poder de criar e sancionar é, assim, do direito

Penal.

Todas estas críticas revelam que, caso se queira que o direito penal continue

sendo respeitado, é imprescindível que aconteçam modificações.

4. POSSIBILIDADES DE PROGRESSO

4.1. Teorias

Diante de tantos problemas, aparecem pensamentos que visam a solucioná-

los. Ganham relevo o Abolicionismo e o Minimalismo Penal.

O minimalismo propõe a contração, a diminuição da quantidade de tipos penais.

Só deveria ser crime o fato que contém uma carga maior de reprovabilidade social. Não se

deve punir uma bagatela, uma insignificância. Viu-se que não é o fato de haver leis que

impede a ocorrência do delito. Também não tem relevância exasperar as penas. Lembre-se

o magistério de Miguel Reale Júnior:

“O criminoso não faz, evidentemente, um cálculo de custo benefício; ele

conta com a impunidade, não por causa da lei, mas por causa da sorte. Se se

disser a um agente, que pretenda praticar um delito, que passará um mês na

prisão, com certeza ele deixará de praticá-lo.”

Em suma, entendem os minimalistas que, para que o sistema penal seja

eficiente, é preciso que apenas poucas condutas sejam tidas como crime. Há, antes dele,

outras formas de controle como a religião, a comunidade local, a escola. O Direito Penal seria

13
CHRISTIE, Nils. A indústria do controle do crime, p.30.
9
a última ratio, a última forma de socorro. Seria, pois, subsidiário.1 4 Ocorre, entretanto, que,

ao invés de estar ocorrendo uma descriminalização, passou-se a criminalizar a vida civil.

Veja-se o caso de, v.g., não prestar pensão alimentícia. Retorna-se à idéia de que, criando-

se crimes, exasperando-se penas, haverá uma redução da criminalidade. Isto , como se viu,

não é verdadeiro.1 5

Numa outra óptica, ainda mais revolucionária, a solução seria acabar com o

Direito Penal, aboli-lo. Para o abolicionismo, o sistema penal é um sofrimento desnecessário.

Hulsman e Christie partilham destas idéias. Aquele escreve:

“É preciso abolir o sistema penal. Isto significa romper os laços que, de

maneira controlada e irresponsável, em detrimento de poucas pessoas

diretamente envolvidas, sob uma ideologia de outra era e se apoiando em um

falso consenso, unem os órgãos de uma máquina cega cujo objeto mesmo é

a produção de um sofrimento estéril.”16

Os críticos ao abolicionismo alegam, principalmente, ser utópica a maneira de

pensar. Porém é igualmente utópico crer-se num molde de sistema penal que já se mostrou

falido. Tome-se como exemplo o artigo 88 da Lei de Execuções Penais. Positivou-se que a

unidade celular seria individual e dotada de salubridade, aeração, insolação e disposta em

uma área mínima de seis metros quadrados. Isto, comparado à realidade que assola os

presídios do país, mostra-se surreal. É uma grave dificuldade existente há tempos e

justificada com argumentos românticos.

Parece que, num primeiro momento, o abolicionismo seria traumático, porque

revolucionário ao extremo. Seria de bom alvitre, contudo, reduzir o núcleo do sistema penal

ao que fosse absolutamente necessário, em consonância com as idéias minimalistas.

4.2. As penas alternativas e o papel da comunidade

14
QUEIROZ, Paulo de Souza. Ob. cit., passim.
15
Interessante é a passagem de Jeffery: “ (...) mais leis, mais penas, mais policiais, mais juízes, mais prisões significa mais presos,
mas não necessariamente menos delitos. ”Apud QUEIROZ, Paulo, ob. cit., p.29.
10
Uma solução viável para as amarguras do cárcere é a aplicação de penas

alternativas. Houve, recentemente, a ampliação do rol destas penas, através da Lei 9714, de

25.11.98. Conquanto tenha evoluído, é preciso que a comunidade - magistrados, advogados

e a população - as aplique. Luiz Flávio Gomes, em prefácio ao livro de Nils Chris tie,1 7 traz a

notícia de que, no Brasil, apenas 2% dos condenados cumprem penas alternativas. Tecendo

uma análise comparada, vê-se que Alemanha, Cuba e Japão as aplicam em 85% das

hipóteses; os EUA, em 68% 1 8; a Inglaterra, em 50%.

Não aplicar as penas alternativas hipertrofia os presídios, mas, muitas vezes,

tais penas não são utilizadas porquanto há uma idéia errônea de que esta forma de

execução é, mutatis mutandis, uma maneira de impunidade. Não o é. É cumprimento de

pena real e, além do mais, possibilita melhorias sociais em diversos aspectos. Vê-se, por

exemplo, que o índice de reincidência é muito menor - 25%, enquanto na privativa de

liberdade gira em torno dos 85% - ainda segundo o professor Luiz Flávio Gomes. A

economia também é notada, vez que o cárcere demanda muito mais verbas que as penas

alternativas. Não fossem estes dois argumentos suficientes, resta o fato de, v.g., a

prestação de serviços à comunidade ser mais interessante para todos que a prisão.1 9

É importante, desta maneira, que as penas alternativas saiam do

esquecimento. O papel de mudança caberá à toda sociedade. Importante lição dá Hulsman:

“Quando você se contenta com as idéias que são transmitidas sobre o

sistema penal e as prisões, quando você dá de ombros para certas notícias

que, de todo modo, eventualmente aparecem nos jornais - notícias

assombrosas sobre as penitenciárias, como encarceramento de adolescentes

em celas de isolamento, suicídio de jovens, mortes entre os presos; quando

16
HULSMAN, Louk. Ob. cit. p. 91.
17
CHRISTIE, Nils. Ob.cit. p. XVI
18
Apesar disso, esta nação ainda possui a ma ior população carcerária do mundo. Isto mostra que é necessário ir além das
penas alternativas.

11
aqueles que acionam a máquina e conhecem seu horror se dizem impotentes

diante do mal causado e continuam em seus postos; você e ele estão

consentindo na prisão e no sistema penal que a criou. Você realmente aceita

estar comprometido com as atividades concretas que levaram a tais

situações?”20

Além de ser um imperativo lógico, a participação comunitária é prevista pela lei

de execuções penais , ao dispor sobre o Conselho da Comunidade - artigos 80 e 81 -, o

Patronato - artigos 78 e 79 - e no número 26 da exposição geral de motivos. Um exemplo a

ser seguido é o da Associação de Proteção e Assistência aos Condenados, APAC, de São

José dos Campos, no interior de São Paulo. Esta associação já está se expandindo a nível

internacional.

As pessoas precisam entender que é um benefício para todos a aplicação das

penas alternativas. Existe, no entanto, uma consciência popular de que o criminoso deve ser

tratado de forma bárbara, cruel, infamante. Se a existência de crimes é inexorável, dever-

se-ia procurar a melhor forma de tratá-lo. Pertinente é a explicação de Manoel Pedro

Pimentel:

“Em eras passadas, o louco era punido como se fosse capaz de assimilar o

castigo. A Ciência veio provar inútil o encarceramento do insano mental,

ditando o tratamento adequado. Já é tempo de admitirmos que o criminoso

também deve ser olhado como alguém que precisa de tratamento e não de

castigo.” 21

Este deveria ser o papel da sociedade : colaborar para o fiel cumprimento das

penas. Todavia perdura uma marca nefasta da vingança privada, como ocorrem em

linchamentos tais qual o de Seabra, no interior da Bahia. A primeira mudança precisa ser,

assim, no espírito de todos. Não bastasse este problema na consciência popular, os meios

19
O próprio legislador reconheceu esta necessidade, ao determinar, no número 26 da exposição geral de motivos, a restrição
da pena privativa de liberdade aos c asos de reconhecida necessidade.
20
HULSMAN, Louk; CELIS, Jacqueline Bernat. Ob. cit., p.63.
12
de comunicação insistem em divulgar a mesma forma de pensar : “Foi errado, é caso de

polícia”, instigando os ânimos de todos. Recorde-se o fato ocorrido na Escola Base, de São

Paulo. A multidão revoltada destruiu o patrimônio de uma família contra a qual, até hoje,

nada se comprovou. Muitos ainda entendem que o remédio para os delitos é o aumento da

penas. Isto é reflexo da imagem vendida pelos meios de comunicação. Involuntariamente, o

cidadão comum incorpora a maneira de pensar dos adeptos do movimento de lei e de

ordem. Maria Lúcia Karam assim se expressa:

“... a crença na reação punitiva, a legitimar o crescente poder do Estado de

punir, aprofunda a irracionalidade do modelo penal, produzido às pressas, sem

o mínimo caráter técnico, centrado no caráter publicitário intensificador da

venda do sistema penal como um produto destinado a fornecer a

tranqüilidade e a segurança almejadas”.

A mudança de mentalidade é o primeiro pressuposto desta evolução. Deve-se

acabar com a concepção que a perda da liberdade é a solução para todos os males.

5. AS TENDÊNCIAS DA LEGISLAÇÃO PENAL BRASILEIRA

Diante de uma primeira análise, a legislação penal brasileira parece estar

evoluindo. Houve as inovações introduzidas pela lei 9714/98. Antes, só cabia uma pena

alternativa se a sanção aplicada fosse inferior a dois anos. Agora, este limite máximo é de

quatro anos. Importantíssima também é a lei 9099/95, que regulamentou os juizados

especiais e criou a possibilidade de haver, além da composição e da transação penal, a

suspensão condicional do processo2 2. Representam, indubitavelmente, um avanço.

Mas existem leis inexplicáveis. Tome-se como exemplo a famigerada e

unanimemente criticada lei de crimes hediondos. Depois de ocorrerem inúmeros seqüestros,

21
PIMENTEL, Manoel Pedro. Estudos e Pareceres de Direito Penal, p.1
22
Não se pretende, aqui, entrar em detalhes, mas esta idéia pode ser, inclusive, mais interessante que a aplicação de medidas
alternativas.
13
exasperaram-se as penas e acabou-se com o regime progressivo. Veio o assassinato da

atriz Daniela Perez e juntou-se à lei o homicídio qualificado. Posteriormente, aconteceu o

escândalo de remédios falsificados e esta conduta também passou a ser hedionda. Vê-se

aqui a clara demonstração de que a lei é elaborada de forma casuística2 3. Há uma comoção

que sucede a um determinado delito e, demagogicamente, há um aumento na rigor para

acalmar os ânimos do povo. Disfarçadamente, o sistema penal continua a se agigantar.

Pense-se num outro ato de liberalidade : o indulto. O presidente da república,

através do decreto 2838/98, excluiu, no artigo 7º, II, os condenados por crimes hediondos

do benefício. Ora, os crimes como extorsão mediante seqüestro, atentado violento ao pudor

e estupro não eram tidos como hediondos até 1990. Não conceder o benefício a quem

cometeu estes delitos antes da vigência da lei é uma afronta ao princípio da anterioridade.

Entretanto tal não é o entendimento do Supremo Tribunal Federal. Em voto emitido em 04

de outubro de 1994, o Dr. Ministro Sidney Sanches indeferiu um habeas corpus

fundamentando que o chefe do Poder Executivo excluiu da concessão determinados delitos,

pouco importando se foram cometidos antes ou depois da norma que assim os definiu.

Curioso é ver-se que tal acórdão refere-se ao decreto 668/92. O decreto de 1998 continuou

conservando a denominação de crimes hediondos ao invés de elencar os delitos que assim

são considerados, e a motivação para o indeferimento ainda é a mesma.

Esta atitude marcada por antíteses reflete o modelo adotado pelo Brasil : a

relegitimação do sistema penal. As evoluções são podadas por constantes alterações de

cunho retrógrado. Lembre-se, figurativamente, dos anos que antecederam a abolição da

escravatura. Várias foram as leis (como, v.g., a lei Saraiva Cotegipe e a Lei do Ventre Livre)

benéficas de efeito protelatório. Os avanços atuais também encobrem as amarras de um

instrumento de dominação. Vulgarmente, poder-se-ia dizer que se acelera e,

concomitantemente, põe- se o pé no freio. Quando, por exemplo, foi conservado o delito de

23
Espere-se, agora, a exasperação das penas previstas para o crime de extorsão mediante seqüestro. Imagina-se que isto fará
diminuir as taxas de incidência deste delito. A fim de comparar, deve-se ver se a lei 9426/96 trouxe algum resultado prático.
14
sedução no anteprojeto da parte especial do código penal, entendeu-se ser eficiente este

modelo macro , que a nada atende.

Necessário se faz, para que o Direito Penal não se torne esclerosado, que se

reveja a postura ao se legislar. É através das leis que podemos mudar este sistema

perverso. É um imperativo da razoabilidade. Um modelo mínimo faria com que o sistema

penal fosse mais respeitado e produzisse melhores resultados.

6. CONCLUSÕES

Pode-se ver, assim, que a pena privativa de liberdade está falida. Ela perdeu o

sentido, pois qualquer bagatela é punida com a reclusão ou detenção. Dever-se-ia aplicá-la

somente em situações extremas. A superpopulação carcerária inviabiliza qualquer projeto

de reinserção social. Simboliza a perversidade de um sistema penal gigantesco, marcado por

inúmeros problemas. Mudar esta realidade está na ordem do dia. É necessário que a

privação da liberdade seja o último recurso. A prisão, como se apresenta hoje, precisa

acabar.

O primeiro passo é substituir o cárcere por penas alternativas. Para tanto,

mister se faz que se entenda a importância destas sanções. À sociedade cabe exigir esta

transformação. Com este intuito, é preciso fazer uma análise de consciência e excluir as

idéias conservadoras, retrógradas. Não só as pessoas, mas as leis também precisam

mudar. Isto é fundamental. O encarceramento seria utilizado em casos extremos e, havendo

poucas pessoas nestas condições, seria viável oferecer um melhor tratamento. Não se pode

adotar uma postura contraditória que, em última análise, visa à manutenção deste quadro.

Fundamental também é dar aplicação maior ao artigo 89 da lei 9099/95 - a

suspensão condicional do processo. Este dispositivo representa a possibilidade de ocorrer

um sursis processual, muito mais econômico que qualquer outra medida. O indivíduo

15
submetido a esta situação teria de se comportar bem para evitar uma sanção mais rigorosa.

Além disso, permite que a pessoa permaneça no meio social, o que iria, sobretudo, diminuir

o número de internos do sistema penitenciário.

Talvez estas idéias pareçam heresias num primeiro momento, mas deve-se

lembrar que, atualmente, analisando-se os castigos da antigüidade, percebe-se o quanto

eram cruéis. A restrição da liberdade representa uma dor que, no futuro, pode ser sinônimo

de primitivismo. É provável que, para os povos mais evoluídos, a importância da privação da

liberdade seja equiparada aos avanços do Talião. Entende-se que, conquanto violenta, a lei

de Talião representou um avanço ao levar em consideração a proporcionalidade. Ver-se-á

que o mérito do cárcere foi, apenas, diminuir os castigos corporais.

7. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BACIGALUPO, Enrique. Manual de Derecho Penal . Madri: Temis- Ilanud, 1984.

BATISTA, Nilo. Introdução crítica ao direito penal brasileiro. Rio de Janeiro: Revan, 1996.

CRISTIE, NILS. A indústria do controle do crime: a caminho dos gulags em estilo

ocidental. Rio de Janeiro : Forense, 1998.

FALCONI, Romeu. Sistema presidial: reinserção social ?. São Paulo : Ícone, 1998.

HULSMAN, Louk; CELIS, Jacqueline Bernat. Penas perdidas: o sistema penal em questão.

2ª ed., Niterói: Luam, 1997.

JOBIM, Nélson. Penas alternativas: pontos para reflexão. Revista do Conselho Nacional de

Política Criminal e Penitenciária. Brasília: nº 7: 13-19, 1996.

JESUS, Damásio. Direito Penal . 20ª ed., São Paulo: Saraiva, 1997.

LEMGRUBER, Julita. Os riscos do uso indiscriminado da pena privativa de liberdade. Revista

do Conselho Nacional de Política Criminal e Penitenciária. Brasília: nº 7:19-29, 1996.

16
MIOTTO, Arminda Bergamini. Temas Penitenciários. São Paulo: Editora Revista dos

Tribunais, 1992.

MIRABETE, Julio Fabbrini. Manual de Direito Penal. 12ª ed., São Paulo: Atlas, 1997.

_______________________. Execução Penal. 8ª ed., São Paulo: Atlas, 1997.

PIMENTEL, Manoel Pedro. Estudos e pareceres de direito penal . São Paulo: Editora Revista

dos Tribunais, 1973.

QUEIROZ, Paulo de Souza. Do caráter subsidiário do direito penal. Lineamentos para um

Direito Penal Mínimo. Belo Horizonte: Del Rey, 1998.

ROXIN, Claus. Problemas fundamentais de Direito Penal. Lisboa: Vega.

SCHECAIRA, Sérgio Salomão; CORRÊA JÚNIOR, Alceu. Pena e constituição. São Paulo:

Editora Revista dos Tribunais, 1995.

ZAFFARONI, Eugênio Raul. Em busca das penas perdidas. A perda da legitimidade do

sistema penal . Rio de Janeiro: Revan, 1991.

17