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HISTÓRIA DA MATEMÁTICA

Unidade II
3 MATEMÁTICA: DO SÉCULO XVI AO XVIII

No período histórico compreendido nesta unidade, a


matemática se transformou enormemente. No século XVI
houve a gênese dos números complexos, que são fundamentais
no eletromagnetismo. No século XVII os logaritmos foram
5 inventados e a geometria analítica, desenvolvida por Descartes
e Fermat, determinou os fundamentos da teoria dos números; a
teoria das probabilidades se desenvolveu e o cálculo infinitesimal
e o integral foram construídos por Newton e Leibniz, entre
outros. Finalizando, analisaremos as enormes contribuições de
10 Euler, no século XVIII.

3.1 Números complexos

Os trabalhos de Scipione del Ferro, Tartaglia, Cardano e


Bombelli levam ao desenvolvimento dos números complexos,
que surgem, inicialmente, para auxiliar na resolução de equações
de terceiro grau. Os matemáticos queriam achar uma fórmula
15 genérica para resolvê-las, assim como a que existia para as de 2º
grau. Nesse campo, vale ressaltar as contribuições especiais de
dois matemáticos: Nicolo Fontana e Girolamo Cardano.

Nicolo Fontana (1499-1557)

Nicolo Fontana ou Tartaglia, como era seu apelido, nasceu


20 em Bréscia na Itália. Seu apelido, Tartaglia, significa gago, porque
quando criança ele foi ferido na boca durante a invasão da cidade
pelos franceses, e não mais conseguiu falar adequadamente. Era

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Unidade II

pobre, só aprendeu a ler e a escrever aos catorze anos e foi um


grande professor de matemática.

Ele se envolveu numa disputa com Fiore, um outro


matemático da época, sobre a resolução de equações cúbicas
5 do tipo x3+px=q. Na disputa havia trinta questões, e Tartaglia
ganhou de Fiore por 30 a 0, o que o tornou famoso. Contudo,
Tartaglia decidiu não publicar a solução das cúbicas, contando
apenas ao amigo Cardano e solicitando segredo quanto à
resolução das equações, mas Cardano, ao publicar o livro Ars
10 Magna, revela o segredo.

A fórmula de Tartaglia para a equação x3+px=q foi assim


explicada pelo autor:

Quando o cubo com a coisa em apreço


Se igualam a qualquer número discreto
15 Acha dois outros diferentes nisso
Depois terás isso por consenso
Que seu produto seja sempre igual
Ao cubo do terço da coisa certa
Depois, o resíduo geral
20 Das raízes cúbicas subtraídas
Será tua coisa principal
Na segunda destas operações,
Quando o cubo estiver sozinho
Observarás estas outras reduções
25 Do número farás dois, de tal forma
Que um e outro produzam exatamente
O cubo da terça parte da coisa.
Depois, por um preceito comum
Toma o lado dos cubos juntos
30 E tal soma será seu conceito.
Depois, a terceira destas nossas contas
Se resolve como a segunda, se observas bem
Que suas naturezas são quase idênticas.

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Isto eu achei, e não com passo tardo no mil


quinhentos e trinta e quatro
Com fundamentos bem firmes e rigorosos
Na cidade cingida pelo mar.

5 O que equivale a:

2 3 2 3
q  p  q  3 q q  p 
x=3   +  +  − − +   + 
2 3 2 2 2 3

Girolamo Cardano (1501-1576)

Gênio matemático e médico, nascido em Milão. Tinha muita


habilidade em matemática e chegou a assessorar Leonardo da
10 Vinci em questões geométricas.

É o autor de um dos mais importantes livros de matemática: o


Ars Magna (Arte maior), escrito em latim e dedicado à álgebra.

No capítulo 11 ele inicia o tratamento das equações cúbicas,


estudando treze diferentes tipos, todas com coeficientes
15 positivos, a saber:

x3 + cx = d
x3 = bx2 + d
x3 + bx2 + cx = d
20 x3 = bx2 + cx + d
x3 = cx + d
x3 + bx2 = d
x3 + d = bx2 + cx
x3 + bx2 + d = cx
25 x3 + d = cx
x3 + d = bx2
x3 + bx2 = cx + d
x3 + cx + d = bx2

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Unidade II

Ao estudar as equações, Cardano se deparou com um


coeficiente negativo. Ele vislumbrou os números complexos,
mas não conseguiu identificá-los. Ao aplicar seu método para
resolver a equação x3 = 15x + 4, ele se deparou com a raiz de um
5 número negativo, contudo ele sabia que uma possível solução
para a equação é x = 4, e passou, então, a procurar as outras
duas, mas a interpretação adequada só veio depois de treze anos
com Gauss.

O problema em questão foi o seguinte:

10 Construir um paralelepípedo tendo área da base 15 cm2 e


altura igual à aresta do cubo cujo volume é 4 cm3 a mais que o
volume do paralelepípedo.

Considerando que seja x a aresta do cubo, então:


Vcubo = x3; Vparalelepípedo = 15x, portanto,
15 Vcubo = Vparalelepípedo + 4 cm3 Isto é, x3 = 15x + 4.
Ao aplicar a fórmula, chega-se à seguinte resposta:
x = 3 2 + −121 + 3 2 − −121 . Como interpretar esse
resultado, se não existe −121 ? O mérito de Cardano foi chamar
a atenção para esse fato; no caso, ele não percebeu a importância
20 dessas raízes e se referia a elas como “sutis e inúteis”.

Em 1560, Raphaelli Bombelli (1530-1579)


percebe que a diferença entre as raízes cúbicas era
do tipo: x = 3 (a + b −1)3 + 3 (a − b −1)3 e, então:
x = a + b −1 + a − b −1 = 2a . Era sabido, como já
25 mencionamos, que uma raiz possível é x = 4, substituindo-se x por
2a obtém-se a = 2. O cálculo de b pode ser obtido fazendo-se:

(2 + b −1)3 = 2 + −121
8 + 12b −1 − 6b 2 + b 3 −1 = 2 + 121. −1
(8 − 6b 2 ) + (12 − b 3 ) −1 = 2 + 11 −1
30 ∴8 − 6b 2 = 2 ⇒ −6b 2 = −6 ⇒ b 2 = 1 ⇒ b = ±1
12 − b 3 = 11 ⇒ −b 3 = −1 ⇒ b 3 = 1 ⇒ b = 1

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Sobre o desenvolvimento dos complexos vale ressaltar que o


símbolo −1 foi proposto por Albert Girard em 1629, usado pela
primeira vez por Euler, em 1777, e disseminado por Gauss, em 1801,
que denominou esses novos números de complexos; os termos real
5 e imaginário foram empregados inicialmente por Descartes em
1637.

Entre os feitos matemáticos no século XVI, além do estudo das


equações cúbicas e quárticas, estão a expansão da álgebra simbólica,
o cálculo com numerais indo-arábicos e o uso das frações decimais.
10 Nesse sentido, grande contribuição foi dada por Viète.

3.2 François Viète e a álgebra

Na França o maior matemático do século XVI foi um


advogado, membro do parlamento bretão. Viète (1540-1603)
foi conselheiro do rei Henrique III e depois de Henrique IV e
dedicava-se à matemática nas horas vagas. Sua obra inclui
15 trabalhos de trigonometria, álgebra e geometria. Escreveu, em
1579 Canon mathematicus seu ad triangula, livro no qual estuda
triângulos planos e esféricos, aplicando álgebra à trigonometria
e à geometria. Foi um dos matemáticos que muito contribuiu
com o desenvolvimento da simbologia algébrica. Quando servia
20 a D. Henrique de Navarra, durante a guerra, sempre decifrava
as mensagens em códigos dos inimigos, tanto que os espanhóis
diziam que ele tinha um pacto com o demônio.

Uma de suas mais importantes contribuições foi no campo


da álgebra. Viéte denominou a incógnita, que chamava de “a
25 coisa”, por símbolo literal, em geral uma vogal para representar
a quantidade desconhecida e uma consoante para representar
grandeza ou número conhecido. Ele distinguia claramente
parâmetro de incógnita. Na aritmética, defendia o uso de frações
decimais em vez de sexagesimais.

30 Viéte sugeriu novas formas de resolução das cúbicas. Seu


método consistia em reduzi-las à forma padrão x3 + 3ax = b, e

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introduzir uma quantidade desconhecida y relacionada com x


pela equação y²+xy=a, transformando a cúbica em x em uma
equação quadrática em y2. Viète estudou algumas das relações
entre raízes e coeficiente de uma equação e chegou perto de
5 estabelecê-las, o que, no entanto, coube apenas a Girard, em
1629.
A partir daí, estava pronto o cenário para o grande
desenvolvimento matemático ocorrido entre os séculos
XVII e XIX.
3.3 A invenção dos logaritmos

10 No século XVII há um deslocamento da atividade matemática


da Itália para a França e para a Inglaterra. O desenvolvimento
da astronomia, da navegação, do comércio e da engenharia
demandou cálculos matemáticos; assim, a pesquisa passou a ser
intensamente incentivada. Descobrir um método de simplificação
15 de cálculos rápido e eficiente era preocupação central. Nesse
sentido, os matemáticos usavam tabelas que transformavam
produtos em somas. Nesse contexto, destacou-se Napier, que
tentou de início simplificar multiplicações de senos. Estudemos
um pouco sobre ele.

20 John Napier (1550-1617)

Napier era escocês, descendente de uma família nobre


das proximidades de Edimburgo. Teve aulas particulares com
importantes professores escoceses, e aos treze anos ingressou
na Universidade de St. Andrews. Durante parte de sua vida
25 dedicou-se a combater o catolicismo. Além da matemática,
era um grande inventor, tendo criado diversas máquinas de
guerra.

O legado de Napier à matemática inclui: os logaritmos,


fórmulas para resolução de triângulos esféricos e a criação de
30 um instrumento usado para multiplicações, divisões e extração
de raízes quadradas.

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HISTÓRIA DA MATEMÁTICA

Em 1590 ele descobriu os logaritmos que simplificam os


cálculos usando expoentes. Essa descoberta ocorreu quando
Napier procurava uma relação de correspondência entre as
progressões aritméticas e as progressões geométricas, com o
5 objetivo de simplificar cálculos envolvendo multiplicações e
divisões, transformando-as em adições e subtrações. No livro
Mirifi Logarithmorum Canonis Descriptio, Napier apresentou
sua descoberta, que compara os termos de uma progressão
aritmética e uma geométrica.
10 Na verdade, ideias semelhantes às de Napier foram
desenvolvidas por Jobst Burgi, na Suíça, mas este só publicou
suas descobertas vários anos depois. Os princípios fundamentais
eram os mesmos, havendo apenas diferenças de nomenclatura.
A primeira tábua de logaritmos foi publicada por Napier
15 em 1614. Para ilustrar o funcionamento da tábua utilizaremos
como exemplo um logaritmo de base 2, mas o método se aplica
a qualquer base.
Consideremos a tabela abaixo. Na primeira linha, temos uma
progressão geométrica da base 2 e, na segunda linha, temos
20 as potências correspondentes que formam uma progressão
geométrica.
1 2 4 8 16 32 64 128 256 312 1024 2048 4096 8192
0 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 12 13

Observemos que: 20=1, 21=2, 22=4, 22=8, 24=16, 25=32 etc.


Para calcular o produto de, por exemplo, 32 por 64,
escrevemos esses números em potências de base 2, a seguir
25 somamos os expoentes e procuramos o resultado na segunda
linha da tabela; o produto procurado está logo acima, na
primeira linha. No exemplo temos: 25=32 e 25=64, cuja soma
de expoentes é 11, que corresponde na tabela a 2048, que é o
resultado do produto.

30 A ideia genial de transformar produto em somas faz com


que os logaritmos tenham aplicações para a simplificação de
cálculos na física e na astronomia.

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Definição: log b a ⇒ b x = a , sendo a>0; b>0 e b ≠ 1.

Algumas bases se tornaram de uso mais frequente; são elas


a base decimal e a base natural. A base decimal se desenvolve
por estudos conjuntos de Napier e Henry Briggs, um professor
5 inglês, por isso são muitas vezes referidos como logaritmos de
Briggs. A base denominada natural foi desenvolvida por Euler
e tem a seguinte definição: loge x = ln x, sendo o número
e = 2,789. Ela é muito utilizada na biologia.

3.4 O racionalismo e a geometria analítica

A Europa moderna, na época de Descartes, estava envolvida


10 em guerras que destruíam as cidades e empobreciam as
sociedades, modificando a forma de viver e pensar, levando
à consolidação do Estado moderno. É nesse contexto, que
Descartes concebeu o racionalismo.

René Descartes (1596-1650) era de família nobre, estudou


15 com os jesuítas e depois cursou direito. Dedicou-se inicialmente
à carreira militar, servindo sob as ordens de Maurício de Nassau,
o qual muito auxiliou com seu conhecimento matemático.
Somente após o abandono da vida militar é que ele passou a se
dedicar totalmente à filosofia e à matemática.

20 A obra que o tornou mais conhecido foi o Discours de


la Méthode (Discurso do método), no qual discorre como
conduzir bem a razão para procurar a verdade das ciências.
Nessa obra ele lançou as bases do racionalismo. Esse discurso
na verdade era uma introdução ao seu livro dividido em três
25 partes: La dioptrique, Les météores e La geometrie, versando,
respectivamente, sobre óptica, fenômenos atmosféricos e um
novo campo na geometria.
No campo da matemática, sua Geometrie foi a grande
contribuição: ele aplica álgebra à geometria, criando a geometria
30 analítica. O método desenvolvido por ele consiste em atribuir
coordenadas a cada ponto do plano (e depois do espaço) a partir

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de referenciais, ou seja, as coordenadas cartesianas, e atribuir a


retas, planos e demais figuras, sentenças algébricas.
O próximo expoente do século foi Blaise Pascal.
3.5 Teoria das probabilidades: Blaise Pascal e
Fermat
Blaise Pascal (1623-1662) nasceu em Clermont-Ferrand,
5 na França, e morreu em Paris. Nesse curto espaço de tempo
escreveu seu nome na História da Matemática. Desde jovem,
seu gênio para a matemática foi percebido. Ainda criança, uma
vez seu pai notou que ele estava desenhando, no piso, com
carvão, algumas figuras geométricas e observou que ali se
10 encontravam várias das proposições de Euclides que o menino
recriara.
Na física, Pascal contribuiu no campo da hidrostática em
sua obra Princípio da hidrodinâmica de Pascal, no qual estuda
a pressão dos fluidos e desenvolve estudos sobre a pressão
15 atmosférica.
Aos 17 anos, descobriu e publicou uma série de teoremas
em geometria projetiva, que era um campo novo e fundamental
para a aviação. Aos 19, inventou o que pode ser considerada a
primeira máquina de calcular, a pascalina de 1642.
20 A partir de 1647, Pascal dedicou-se apenas à aritmética. Ele
desenvolveu em parceria com Fermat a teoria das probabilidades,
a fórmula de geometria do acaso e o tratado sobre as potências
numéricas. Atualmente, seu nome está ligado ao Triângulo de
Pascal, embora se saiba que Tartaglia e outros matemáticos
25 trabalharam anteriormente com tal triângulo.

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Unidade II

O triângulo de Pascal

Fermat: geometria analítica e probabilidades

Pierre de Fermat (1601-1665) era francês, graduado em


direito, e a matemática era seu hobby. Fermat foi responsável pelo
5 desenvolvimento dos fundamentos da geometria analítica, junto
com Descartes. No caso, a ideia central era associar equações
a curvas e superfícies, e Fermat estudava o lugar geométrico
de uma curva e sua correspondente equação. Contudo, a
geometria analítica de hoje apresenta pequenas semelhanças
10 com a proposta por Fermat e Descartes. Por exemplo, apenas
Fermat usou um par de eixos ortogonais.

Fermat não se preocupava em publicar seus trabalhos, mas


costumava desafiar outros matemáticos à resolução de problemas,
o que fez com que se envolvesse em disputas e criasse inimizades.

15 Uma de suas maiores contribuições foi no campo das


probabilidades. Fermat correspondeu-se com Blaise Pascal,

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que escreveu ao amigo contando-lhe sobre um problema. Tal


questão, proposta por um amigo de Pascal que, frequentemente,
apostava em jogos de azar, era a seguinte:

Jogando um par de dados 24 vezes sucessivas, é vantajoso


5 apostar que em nenhuma das 24 vezes sairá 6 nos dois
dados ou é melhor apostar que isto não ocorre, ou seja,
pelo menos uma vez sairá 6 nos dois dados?

Pascal interessou-se e escreveu a Fermat sobre esse tipo


de problema. Foi, então, que da correspondência desses dois
10 matemáticos originou-se a teoria das probabilidades.

Outro problema que foi discutido na correspondência entre


os dois matemáticos foi o seguinte:

Dois jogadores com igual perícia, aos quais faltam a e


b pontos, respectivamente, são interrompidos durante
15 um jogo de azar que envolve uma quantia de dinheiro
apostada. Dada a pontuação do jogo naquela altura, como
deve ser dividido o dinheiro apostado?

Pascal resolveu da seguinte forma:

Suponhamos que dois jogadores tenham apostado 32


20 moedas cada um em um jogo de dados. O total seria ganho pelo
jogador que primeiro obtivesse três vezes, seguidas ou não, o
número em que apostou. Suponhamos, também, que o primeiro
jogador tenha vencido duas rodadas e o segundo jogador tenha
vencido apenas uma. A rodada que se segue determina que se
25 a vitória for do primeiro jogador, este levará todo o dinheiro
em jogo, a saber, 64 moedas. Mas, se a vitória for do segundo
jogador, os dois ficam empatados e, por consequência, se tiverem
que encerrar o jogo, cada um receberá o que apostou, ou seja,
32 moedas. Portanto, se o jogo tiver que ser interrompido antes
30 dessa rodada, o primeiro jogador deverá ficar com 48 moedas e
o segundo jogador com 16 moedas.

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Unidade II

Dando sequência às possibilidades em relação ao mesmo


jogo, imaginemos que o primeiro jogador tenha vencido duas
rodadas e o segundo jogador não tenha conseguido vencer
nenhuma rodada. Repetindo o raciocínio anterior, teríamos a
5 seguinte conclusão: se o primeiro jogador vencer a próxima
rodada, receberá 64 moedas, mas, se perder, e o jogo vier a ser
interrompido, ele receberá 48 moedas. Desta forma, o primeiro
jogador terá, nesse momento, 48 moedas asseguradas, devendo
ser divididas as 16 moedas restantes, isto é, o primeiro jogador
poderia ganhar 56 moedas.
10
Na situação em que o primeiro jogador venceu uma
única rodada e o segundo jogador não tenha conseguido
vitória nenhuma, no caso de interrupção, o primeiro jogador
deverá receber 44 moedas, pois se perdesse a próxima rodada
15 receberia 32 moedas, mas se a vencesse receberia 56 moedas.
Tendo, portanto, o primeiro jogador 32 moedas asseguradas
e o segundo jogador 8 moedas asseguradas, devendo ser
divididas apenas as 24 moedas restantes.

Fermat resolve de uma outra maneira, que foi a seguinte:

20 Suponhamos que o primeiro jogador venceu uma partida e o


segundo jogador nenhuma, sabemos que depois de mais quatro
partidas o jogo seria concluído, pois obrigatoriamente um dos
dois terá os três pontos necessários.

Indicando por a uma partida vencida pelo primeiro e por


25 b a partida vencida pelo segundo, poderia ocorrer uma das
seguintes situações:

1- a aaaa 9- a baaa
2- a aaab 10- a baab
3- a aaba 11- a baba
4- a aabb 12- a babb
5- a abaa 13- a bbaa
6- a abab 14- a bbab
7- a abba 15- a bbba
8- a abbb 16- a bbbb

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HISTÓRIA DA MATEMÁTICA

Observamos que existem 11 situações que são favoráveis para


o primeiro jogador e apenas cinco que favorecem o segundo
jogador, do total de 16 possíveis. Assim 11 .64 = 44.
16
Observamos que ambos os matemáticos chegam à mesma
5 conclusão por diferentes soluções.

Numa das cartas, Pascal relata a Fermat a fórmula da


probabilidade de um evento A:
total de casos favoráveis
P(A) = ____________________
total de casos possíveis
Pascal denomina a probabilidade de “Geometria do Acaso”.
10 Depois desses primeiros passos, a teoria das probabilidades
começa a envolver outros campos, não apenas o dos jogos de
azar. Matemáticos como Huygens (1629 - 1695), com a noção de
esperança matemática, Jacques Bernoulli (1654 - 1705), com a visão
frequentista e Thomas Bayes (1702 - 1761), que introduziu a hipótese
15 de equiprobabilidade e estudou a probabilidade condicional,
contribuíram para o desenvolvimento dessa nova teoria, que não é,
de imediato, reconhecida como parte da matemática.

Somente com os estudos de Mendel, em 1850, sobre


as características hereditárias que surgiam no cruzamento
20 de ervilhas, no qual percebeu o caráter probabilístico da
hereditariedade, é que se incorpora a teoria das probabilidades
à matemática. Até então os cientistas não acreditavam que
cálculos probabilísticos pudessem ser aplicados de forma
científica.

25 Atualmente, a teoria das probabilidades se relaciona com


a estatística e tem aplicações nos mais diversos ramos do
conhecimento.

Fermat é lembrado, também, por seu trabalho em teoria dos


números, em especial pelo “Último Teorema de Fermat”. Este
30 teorema diz que:

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Unidade II

A equação: xn + yn = zn não tem solução inteira não nula


para x, y e z quando n>2.

Fermat escreveu na margem de um livreto sobre aritmética


diofantina:

5 Descobri uma demonstração realmente memorável, mas


esta margem é muito pequena para contê-la.

Essa declaração instigou matemáticos por mais de 300


anos a investigações que produziram avanços matemáticos,
como, por exemplo, o desenvolvimento da teoria dos anéis
10 comutativos. Em 1995, foi aceita a demonstração do professor
de Princeton, Andrew Wiles, depois de 356 anos do aparecimento
do teorema.

3.6 Descoberta e desenvolvimento do cálculo:


Newton e Leibniz

Isaac Newton e Gottfried Wilhenm Leibniz foram duas figuras


centrais no desenvolvimento do cálculo e na sistematização
15 do estudo das derivadas e integrais. Contudo o nome “cálculo
integral” não foi dado por nenhum dos dois, mas idealizado por
Johann Bernoulli.

Estudemos um pouco sobre Sir Isaac Newton (1643


–1727).

20 Sua vida pode ser dividida em três períodos bastante


distintos: o primeiro compreende desde o nascimento em
1643, em Lincolnshire, Inglaterra, em uma família de pequenos
proprietários rurais, até sua graduação em 1669, no Trinity
College, em Cambridge.

25 O segundo período, de 1669 a 1687, compreende a fase em


que trabalhou em Cambridge. Torna-se catedrático com apenas
27 anos, produzindo intensamente.

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HISTÓRIA DA MATEMÁTICA

O terceiro período compreende a última fase de sua


vida, na qual ele se tornou um funcionário governamental
altamente qualificado em Londres, com pouco interesse pela
matemática.

5 O gênio científico de Newton emergiu quando uma


epidemia de peste fechou a universidade durante o verão de
1665 e ele retornou a Lincolnshire. Lá, em menos de dois anos,
fez descobertas que revolucionariam as ciências. Uma de suas
conclusões foi que a luz branca não é uma entidade simples,
10 como se acreditava na época. Ao observar um feixe fino de
luz solar passando por um prisma, Newton verificou que um
espectro de cores era formado. Ele conjeturou que a luz branca
era uma mistura de várias cores que podem ser refratadas em
ângulos ligeiramente diferentes. Ele também desenvolveu o
15 cálculo diferencial e integral, com um método que chamava de
“método dos fluxos” no qual a integração de uma função faz-se
pelo inverso da diferenciação.

Na mecânica, suas ideias, desenvolvidas a partir de 1665,


culminaram na Teoria da Gravitação Universal. É dele a descoberta
20 de que um corpo em movimento circular sofre a ação de uma
força centrífuga.

Em 1687, Newton publicou o Philosophiae Naturalis Principia


Mathematica, um tratado com novos conceitos em física e
astronomia, reconhecido como o maior livro científico escrito,
25 no qual demonstrou que os planetas sofrem a ação de uma
força de atração do Sol que varia com o inverso da distância.
Esse conceito generalizou-se para todos os corpos celestes no
princípio da gravitação universal.

Em 1693, após um colapso, aposenta-se da pesquisa e vai para


30 Londres exercer um cargo público. Em 1703, foi eleito presidente
da Royal Society e reeleito até sua morte. Em 1708, Newton foi
condecorado pela rainha Anne, tornando-se o primeiro cientista
a ser agraciado com esse título.

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Unidade II

O outro grande expoente do cálculo foi Gottfried


Wilhenm Leibniz (1646 – 1716).

O alemão Leibniz foi um dos destaques do século XVII.


Extremamente culto e rico, com apenas quinze anos já estava na
5 universidade. Fez muitas publicações, sempre se preocupando em
comunicar suas descobertas. Ele contribuiu com o desenvolvimento
do cálculo diferencial, criou notações e demonstrou o que ficou
conhecido como o teorema fundamental do cálculo. Para simbolizar
a integral ele criou o símbolo que hoje usamos: ∫ , com a primeira
10 letra da palavra Summa, que significa soma.

Ele dedicou-se também à filosofia e à política.

3.7 Século XVIII – as contribuições de Euler

Leonhard Euler (1707-1783) foi um dos matemáticos que


mais produziu, escrevendo textos tanto sobre matemática pura,
quanto aplicada e abarcando todo o conhecimento matemático
15 da época. Ele escreveu ainda sobre ciência natural, hidráulica,
engenharia naval e artilharia.

Euler estudou teologia na Universidade de Basiléia, na Suíça,


e lá aprendeu matemática com um dos mais famosos professores
de sua época: Jean Bernoulli. Além de matemática, estudou
20 línguas, medicina, física e astronomia.

Conheceu os dois filhos de seu professor Jean Bernoulli:


Nicolaus e Daniel Bernoulli, que foram fundamentais em sua
existência. Eles o indicaram para trabalhar na Academia da São
Petersburgo, sob Catarina I. Infelizmente a imperatriz morreu e,
25 com a mudança política na época, não havia mais espaço para
Euler, que ingressou na marinha russa para só depois de um
tempo assumir a cadeira de física.

Euler deixou a Rússia em 1741 para assumir um cargo


de professor na Academia de Berlim, a convite de Frederico,

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o Grande. Lá permaneceu por vinte e cinco anos e depois


retornou novamente à Rússia, para a Academia de São
Petersburgo.

Euler passou os últimos dezessete anos de vida em total


5 cegueira, mas isso não o impediu de continuar produzindo até
o final de sua vida. Era prodigiosa a sua capacidade calculatória,
assim como sua capacidade de escrever, tanto que, após a sua
morte, a Academia de Ciências de São Petersburgo ainda pôde,
durante cinquenta anos, publicar trabalhos novos creditados a
10 Euler.

Euler contribuiu para a unificação da simbologia em


matemática com os seguintes símbolos: f(x) para uma função
e para base do logaritmo natural; i para raiz quadrada de -1; ∑
para somatória; dn y para derivadas de grau n etc.

15 Ele foi o primeiro matemático a dar um tratamento funcional


ao seno e cosseno, fazendo a passagem da trigonometria
no triângulo retângulo para a trigonometria do ciclo. Ele
também contribuiu enormemente para o desenvolvimento dos
logaritmos, do cálculo e da análise; sobre ele se dizia que era a
20 “análise encarnada”.

São devidas a Euler as fórmulas:

eix = cosx + isenx,

a identidade eix + 1=0;

a expansão:
f n (0)x n ∞ x n

x x2 x3
25 e =∑
x
= ∑ = 1 + + + + ...
n =0 n ! n =0 n ! 1! 2! 3!
entre outras.

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Unidade II

A seguir, alguns exercícios elaborados pela


professora Julia Yoko Harada para melhor
compreensão do tema

1. Os números complexos surgiram, inicialmente, para auxiliar


na resolução de equações de terceiro grau. Os matemáticos
queriam deduzir uma fórmula genérica para resolvê-las,
assim como a que existe para as equações do segundo grau.
5 Nesse campo apresentaram contribuições fundamentais dois
matemáticos. São eles:

a. Tartaglia e Newton.
b. Cardano e Leibniz.
c. Tartaglia e Cardano.
10 d. Newton e Leibniz.
e. Napier e Cardano.

2. O aparecimento dos logaritmos ocorreu a partir da


necessidade que havia de simplificação dos cálculos. Eles
impulsionaram fortemente o desenvolvimento da matemática e
15 um dos principais responsáveis por essa criação foi:

a. Cardano.
b. John Napier.
c. Isaac Newton.
d. Fermat.
20 e. Euclides.

3. Matemático francês que ficou conhecido como o pai da


álgebra moderna por ter introduzido letras para representarem
variáveis e incógnitas:

a. Descartes;
25 b. Fermat;
c. De Morgan;
d. Blaise Pascal;
e. Viète.

84
HISTÓRIA DA MATEMÁTICA

4. Matemáticos que são os principais expoentes do


desenvolvimento da geometria analítica:

a. Newton e Leibniz.
b. Descartes e Fermat.
5 c. Descartes e Napier.
d. Newton e Blaise Pascal.
e. Blaise Pascal e Napier.

5. Os livros Ars Magna e Principia Mathematica estão entre


as publicações de maior relevância na história da matemática.
10 Os autores dessas obras são respectivamente:

a. Newton e Cardano.
b. Euclides e Newton.
c. Cardano e John Napier.
d. Cardano e Newton.
15 e. John Napier e Cardano.

6. A obra que o tornou mais conhecido foi o Discours de


la Méthode (Discurso do método), no qual ele lançou as bases
do Racionalismo Francês. Esse discurso está na introdução de
seu livro, o qual é dividido em três partes: La dioptrique, Les
20 météores e La geometrie. É ele:

a. Isaac Newton.
b. Pierre de Fermat.
c. René Descartes.
d. Blaise Pascal.
25 e. Gaspar Monge.

7. Seu nome, atualmente, está ligado ao triângulo abaixo,


embora se saiba que Tartaglia e outros matemáticos trabalharam
anteriormente nesse triângulo.

85
Unidade II

 0
 0

1  1
 0 1

 2  2  2
 0 1   2

 3  3  3  3
 0 1   2  3

 4  4  4  4  4
 0 1   2   3  4

 5  5  5  5  5   5
5  0 1   2  3  4  5

 6   6  6  6  6   6  6
 0 1   2  3  4  5  6

Trata-se do matemático:

a. Nicolo Fontana.
b. Girolamo Cardano.
10 c. Raphaelli Bombelli.
d. John Napier.
e. Blaise Pascal.

8. Uma das maiores contribuições de Blaise Pascal para o


desenvolvimento da matemática foi no campo das probabilidades,
15 que surgiu a partir da correspondência que ele manteve com o
matemático:

a. Pierre de Fermat.
b. René Descartes.
c. François Viète.
20 d. Girolamo Cardano.
e. Isaac Newton.

9. O teorema que ficou conhecido como “Último Teorema de


Fermat” diz que: a equação xn + yn = zn não tem solução inteira

86
HISTÓRIA DA MATEMÁTICA

não nula para x, y e z quando n é um número natural maior do


que 2. Esse teorema só foi demonstrado:

a. No século XVIII por Thomas Bayes.


b. Trinta anos depois, por Jacques Bernoulli.
5 c. Um século depois, por Mendel.
d. Por Pierre de Fermat, seu parceiro e correspondente.
e. No século XX por Andrew Wiles.

10. Matemáticos que são os principais expoentes do


desenvolvimento do Cálculo Diferencial e Integral:

10 a. Newton e Leibniz.
b. René Descartes e Blaise Pascal.
c. René Descartes e Leonard Euler.
d. Newton e Blaise Pascal.
e. Leibniz e John Napier.

15 Resposta dos exercícios

1. c
2. b
3. e
4. d
20 5. d
6. c
7. e
8. a
9. e
25 10. a

87
Unidade II

4 MATEMÁTICA: DO SÉCULO XIX AO XX

No final do século XVIII ocorreu a Revolução Francesa, que foi


fundamental para as mudanças que ocorreram na matemática,
sobretudo no início do século XIX. Esse pode ser considerado
o “século de ouro” da matemática, que nele se transformou
5 enormemente. Um dos fatos marcantes foi o desenvolvimento
da geometria projetiva, por volta de 1822, com Desargues,
Monge, Carnot e, em seguida, Poncelet.

4.1 Geometria projetiva: de Monge a Poncelet

A geometria projetiva surgiu na tentativa de representar


objetos tridimensionais, em telas de pintura ou no papel,
10 que têm, na verdade, apenas duas dimensões. Essa foi uma
preocupação humana registrada desde a Pré-História, podendo
ser observada pelos desenhos preservados nas cavernas e
também pelos desenhos registrados nas civilizações egípcia,
babilônica e romana. A maneira de provocar a noção de
15 profundidade na representação em duas dimensões de uma
realidade tridimensional era uma das técnicas mais pesquisadas
e muitas vezes guardada em segredo. Os métodos de traçado
das plantas arquitetônicas advinham da experiência prática dos
construtores que não os queriam divulgados. No século XVIII,
20 no esplendor do Barroco, desenvolveu-se a perspectiva, sendo
então publicados diversos tratados, e os objetos representados
nas pinturas se aproximavam cada vez mais da realidade, a
perspectiva oblíqua representava os objetos a partir de dois ou
três pontos de vista.

25 Desde o Renascimento, artistas e pintores preocuparam-se


com novas formas de representação que privilegiassem a
profundidade, matemáticos como Girard e Desargues (1591-
1661) fizeram várias contribuições na área. Mas foi somente no
final do séc. XVIII e início do XIX que se desenvolveu o método

88
HISTÓRIA DA MATEMÁTICA

da geometria descritiva e a representação técnica projetiva,


principalmente por causa da demanda da engenharia militar.

Uma das figuras fundamentais no desenvolvimento da


geometria descritiva foi Gaspar Monge, sobre quem discorreremos
5 a seguir.

Gaspar Monge (1746-1818), um dos principais matemáticos


da época das revoluções, viveu durante a Revolução Francesa.

Monge era de família humilde, mas, brilhante em matemática


desde a infância, foi encaminhado à Ecole Militaire de Mézières
10 por um tenente-coronel que o conhecia. Aos dezesseis anos já
havia se tornado professor de Física dessa escola e sua carreira
como desenhista teve início ao fazer uma planta notável de sua
cidade natal, Beaune, para a qual precisou inventar métodos da
observação dos terrenos e construir instrumentos. Monge foi, então,
15 recomendado para desenhista da escola militar de Mézières, onde
iniciou o desenvolvimento dos métodos da geometria descritiva,
propondo inovações que foram divulgadas entre os engenheiros
militares e mantidas em segredo militar absoluto.

Monge desenvolveu uma carreira de professor de


20 matemática e depois de física em escolas militares. Em 1780
foi para o Liceu de Paris, como professor de hidráulica, e foi
o responsável, em 1795, juntamente com Fourcroy, pela
fundação da famosa “École Polytechnique”, que foi o modelo
das escolas de engenharia do mundo ocidental. Nela lecionaram
25 os melhores professores e os de maior prestígio da época, tais
como Lagrange, Fourrier, Poisson, entre outros. Monge também
foi professor da “École Polytechnique”, que mantinha o curso
básico de engenharia, encaminhando depois os alunos para
escolas de cada especialidade da engenharia. Esse modelo de
30 currículo foi copiado em todo o mundo ocidental.

Gaspar Monge generalizou seu sistema de projeções


ortogonais no tratado Géomètrie Descriptive, de 1795. Seus dois

89
Unidade II

livros, este e o Application de L’Analise a la Géomètrie, que é um


tratado de geometria diferencial1, são importantes marcos na
história da geometria.

Agora cabe discutir, afinal, o que vem a ser a geometria


5 descritiva.

A ideia genial de Monge foi a de projetar em dois planos


perpendiculares entre si as figuras que se encontram no espaço
tridimensional e estudá-las a partir dessas “vistas” ou projeções.
Assim, os objetos espaciais passam a ser representados por
10 pontos, retas e planos nos planos de projeção, e a partir disso
é possível, com os conhecimentos de geometria plana, resolver
problemas envolvendo figuras tridimensionais.

A geometria descritiva tem os seguintes princípios básicos:

Considerar, para um observador situado no espaço,


15 dois planos de projeção: um horizontal, que pode
ser hipoteticamente o chão e um outro vertical, que
pode ser imaginado como, por exemplo, uma parede
frontal. Com esses dois planos, o espaço fica dividido
em quatro partes, cada uma delas denominada diedro.
20 Os dois planos se interceptam dando origem a uma
reta denominada linha de terra.
Plano vertical

l.t.

Plano horizontal

Linha de terra

1
A geometria diferencial estuda as propriedades de curvas e de
superfícies por meio do cálculo.

90
HISTÓRIA DA MATEMÁTICA

Se considerarmos uma figura tridimensional situada no


espaço, a ela corresponderão duas projeções: uma frontal,
situada na “parede” e uma horizontal, situada no “chão”. Temos
então duas “vistas” correspondentes à figura.

5 A seguir, é feito um rebatimento do plano horizontal no sentido


horário sobre o vertical, de forma a se obter a representação
da figura no plano por suas projeções. Tais representações são
figuras planas; a projeção horizontal será indicada sempre com
uma simbologia acompanhada de índice 1 e a projeção frontal,
10 com o índice 2. Após o rebatimento obtemos uma representação
denominada épura. As projeções de cada ponto no espaço estão
em uma mesma perpendicular em relação à linha de terra. A
referida perpendicular é designada linha de chamada, a distância
do ponto ao plano horizontal (P.H.) é a cota do ponto e a distância
15 do ponto ao plano vertical (P.V.) é o afastamento do ponto.

Nas figuras abaixo estão exemplos explicativos. Na última


delas, correspondente à épura, a distância AoA2 é a cota do ponto
A e a distância AoA1 é o afastamento de A.

Plano vertical Plano


vertical
l.t.

Plano l.t.
horizontal

Linha de terra
Plano
horizontal

Épura
A2

A2
A
P.H.
l.t.
A1 A0

P.V.
A1

91
Unidade II

Monge também desenvolveu o campo da geometria


diferencial, como já mencionamos, e seus discípulos da École
Polytechnique, tais como Cauchy, acrescentaram importantes
contribuições a ela. Numa fase posterior, Gauss desenvolveu
5 novos métodos de parametrização em geometria diferencial e
Riemann a estendeu para o espaço n-dimensional.

Quanto à geometria projetiva, Monge, Desargues e Carnot


iniciaram seu estudo, mas foi Poncelet que a desenvolveu
acrescentando princípios fundamentais.

10 Jean Victor Poncelet (1788-1867)

Nasceu em Metz, na França, foi aluno de Gaspar Monge na


École Polytecnique e depois estudou na academia militar de sua
cidade natal. Serviu como tenente de engenharia sob Napoleão
na campanha da Rússia, foi considerado morto e abandonado no
15 campo de batalha pelos seus compatriotas. Enquanto prisioneiro
dos russos ele escreveu um tratado de geometria analítica:
Applications d’analyse et de géomètrie, tomando por base seus
estudos na École Polytecnique, livro só publicado cinquenta
anos depois, e iniciou o seu Traité des Proprietés Projetives des
20 Figures, que depois finalizou quando foi libertado e retornou a
Metz.

O seu Traité des Proprietés Projetives des Figures é visto como


um importante marco da geometria projetiva e nesse tratado
Poncelet coloca os princípios básicos da geometria projetiva:
25 o princípio de dualidade e o da continuidade. Em particular,
o princípio da dualidade foi usado em vários outros campos
da matemática, como por exemplo, na álgebra booleana e no
cálculo proposicional.

O princípio da continuidade ou princípio da permanência


30 das relações matemáticas estabelece que, se uma proposição
pode ser considerada válida para uma projeção real, ela pode ser
estendida para o caso de uma projeção imaginária. Isto é:

92
HISTÓRIA DA MATEMÁTICA

As propriedades métricas descobertas para uma figura


primitiva permanecem aplicáveis, sem modificações além
de mudança de sinal, a todas as figuras correlatas que
podem ser consideradas como provindas da primeira.
5 (Boyer, 1996, p. 370)

Poncelet utilizou conceitos desenvolvidos por Desargues


sobre projeções centrais e pontos no infinito, criando a noção
de plano projetivo complexo e iniciou a geometria sintética.
Poncelet foi militar durante toda a sua vida e escreveu sobre
10 mecânica, hidráulica, séries infinitas e geometria. Diversas de
suas ideias foram retomadas e desenvolvidas por matemáticos
posteriores, tais como Steiner, Gergonne, Brianchon e Chasles,
entre outros.

4.2 Século XIX: Gauss e Cauchy

O século XIX foi extremamente profícuo em matemática,


15 nele ocorreu a Revolução Industrial que provocou uma enorme
mudança no modo de produção e na vida econômica e social.
Na matemática, mudaram-se os próprios fundamentos e
desenvolveu-se o conceito de rigor matemático. Gauss forneceu
uma explicação geométrica para os números complexos e
20 contribuiu em, praticamente, todos os ramos da matemática,
especialmente na teoria dos números. O campo da análise
matemática se desenvolveu enormemente com Cauchy.

Surgiu também no século XIX, a geometria diferencial.


Abel demonstrou que é impossível determinar uma fórmula
25 genérica para a resolução de equações de quinto grau e
foram desenvolvidos os quatérnios por Hamilton. No campo
da geometria ocorreu uma verdadeira revolução com o
desenvolvimento das geometrias não euclidianas, tais como a
hiperbólica e a elíptica. No final do século apareceu a teoria dos
30 conjuntos com Cantor, Dedekind e Bolzano, e o desenvolvimento
dessa teoria provocou novas reformulações na matemática,
principalmente, a partir das contribuições de De Morgan, Peano e

93
Unidade II

Jonh Venn. Boole construiu uma lógica matemática estruturada


em conjuntos e isso levou a uma evolução também no campo
da teoria das probabilidades.

No século XIX houve também grandes mudanças no


5 campo da aritmética e da álgebra. A resolução de equações
algébricas de grau maior ou igual a quatro por fórmulas com
radicais era um dos problemas que ocupava os matemáticos
na época. O problema surgiu porque já se sabia que esse tipo
de solução era aplicado para equações algébricas de segundo
10 e terceiro graus. Lagrange (1736 - 1813) e Vandermonde
(1735-1796) haviam iniciado estudos tentando determinar
soluções com radicais para as equações algébricas de quarto
grau, mas nada conseguiram. Coube a um jovem matemático,
Niels Henrik Abel (1802-1829), junto com Evariste de Galois
15 (1811-1832), liquidar com o problema ao provar que é
impossível resolver equações de grau maior ou igual a quatro
por radicais.

A partir daí surgiu a teoria dos grupos que impulsionou a


teoria dos números e originou a álgebra moderna. O próprio
20 conceito de álgebra mudou, surgiu então a álgebra não
comutativa e estabeleceu-se uma distinção entre a álgebra
linear (dos espaços vetoriais e transformações lineares) e a
álgebra dos conjuntos (das estruturas, tais como os grupos,
anéis e corpos).

25 No final do século, Peano apresentou contribuições na


aritmetização da análise, que havia sido iniciada por Cauchy e
Bolzano, axiomatizando a maior parte da matemática.

Muito seria possível discorrer sobre o século XIX. Considere


que este texto é apenas uma introdução à História da
30 Matemática no período. Optamos por discutir, na sequência,
dois matemáticos considerados como as grandes personalidades
do século: Gauss e Cauchy.

94
HISTÓRIA DA MATEMÁTICA

Carl Friedrich Gauss (1777-1855)

O alemão Gauss é considerado um dos maiores matemáticos


de todos os tempos, apelidado de “o príncipe da matemática”,
foi um menino prodígio, especial, desde muito jovem.

5 Seu pai era pedreiro e conta-se que, uma vez, quando Gauss
tinha dois ou três anos de idade, ao ouvir seu pai calculando o
pagamento de funcionários, percebeu que havia um erro nas
contas e alertou-o.

Outra história que é contada sobre Gauss é a de que quando,


10 com oito anos de idade, frequentando a escola primária, o seu
professor passou como tarefa determinar a soma dos cem
primeiros números naturais, Gauss, apenas algum tempo de
raciocínio depois, escreveu em sua pequena lousa o resultado:
5050 e a entregou ao professor. Não havia nenhum cálculo
15 auxiliar e o resultado estava correto.

Como poderia o garoto ter chegado à solução tão


rapidamente?

Se observarmos com atenção o cálculo:


1+2+3+.....+98+99+100 perceberemos que 1+100 = 101; 2+99
20 = 101; 3+98 = 101 e assim por diante, isto é, se somarmos
parcelas que são equidistantes dos extremos a soma será sempre
101, uma vez que aumenta 1 na primeira parcela, mas diminui
1 da última, de modo que a soma das duas é sempre 101. Assim
sendo, é possível agruparmos as parcelas em cinquenta pares
25 todos com soma 101. Logo o resultado total é: 50.101 = 5050.
Ali estavam as primeiras ideias para o estudo de sequências, em
particular as aritméticas e geométricas.

Gauss foi encaminhado por seus professores ao Duque de


Brunswick que financiou seus estudos e pesquisas. Em 1795
30 ingressou na universidade e logo fez uma incrível descoberta: como
construir, usando apenas régua e compasso, um polígono regular

95
Unidade II

de dezessete lados. Isto significa dizer que ele conseguiu dividir a


circunferência em dezessete partes iguais, para nela inscrever o
polígono regular, feito esse que era tentado pelos matemáticos
desde a Grécia. Isso foi realmente notável, ele resolvera um
5 problema que se manteve aberto ao longo de 2000 anos.

A partir dessa época de estudante, Gauss manteve um diário


no qual registrou por dezoito anos suas descobertas, entre
elas estão vários teoremas já demonstrados por matemáticos
anteriores, como Euler e Lagrange, os quais ele redescobriu,
10 e ainda outros teoremas acompanhados de demonstrações
completamente novas, tais como o teorema da reciprocidade
quadrática da teoria dos números; nele está, também, o
desenvolvimento do método de determinação dos mínimos
quadrados, outra importante descoberta que o tornou famoso.
15 Esse diário só se tornou público em 1898, após sua morte,
quando a Sociedade Real da cidade de Göttingem o recebeu
emprestado de um dos netos de Gauss; o diário contém 146
registros de descobertas e cálculos.

Com apenas vinte e dois anos ele defendeu sua tese


20 de doutorado, apresentando a primeira prova completa do
conhecido teorema fundamental da álgebra2. Sua tese, de 1799,
tem por título: Nova demonstração do teorema que toda função
algébrica racional inteira de uma variável pode ser decomposta
em fatores reais de primeiro e segundo grau. Na verdade, o título
25 da tese está incorreto, pois o que Gauss apresenta não é uma
nova demonstração, mas sim a primeira demonstração completa
e correta do teorema. Ele analisa as demonstrações anteriores
indicando as falhas apresentadas em cada uma. Durante sua
carreira Gauss ainda apresentou mais três diferentes provas
30 desse teorema3.

Com vinte e quatro anos ele publicou sua obra-prima,


Disquisitiones Arithmeticae, um marco da atual teoria dos
2
O teorema fundamental da álgebra diz que uma equação
polinomial, com coeficientes complexos e de grau n>0, tem pelo menos
uma raiz complexa. Isso significa dizer que o corpo dos números complexos
é algebricamente fechado e a equação p(x)=0, de grau n>0 tem n soluções,
não necessariamente distintas.
3
Para maiores informações consultar: FINE, B. and Rosenberger, G.,
The fundamental theorem of algebra, pringer-Verlag, New York, 1997

96
HISTÓRIA DA MATEMÁTICA

números. O livro Disquisitiones é organizado em sete seções,


sendo que nas quatro primeiras ele reformula a teoria dos
números do século XVIII, discutindo os conceitos de congruência
e de classes de restos. Na quinta seção, escreve sobre a teoria
5 da composição de formas e as equações quadráticas binárias.
Nas duas últimas seções apresenta diversas aplicações práticas
e resolve a equação ciclotômica geral de grau primo. Gauss
coloca, ainda, no Disquisitiones a prova rigorosa do teorema
fundamental da aritmética que diz que todo número inteiro
10 positivo pode ser representado de forma única (a menos da
ordem) como um produto de números primos.

Naturalmente a grandeza do Disquisitiones Arithmeticae


não foi reconhecida imediatamente. Só a partir de 1820, com
os estudos de Jacobi e Dirichlet, é que a obra passou a ser
15 reconhecida como de importância central para a matemática.

Gauss não produziu apenas na juventude, já na idade adulta


ele descobriu o método de triangulação para resolução de
sistemas lineares, a lei da propagação de erros (Lei de Gauss) e
auxiliou no desenvolvimento da geometria diferencial.

20 Além da matemática foi também um grande estudioso de


física e astronomia, escrevendo sobre a teoria dos movimentos dos
corpos celestiais e sobre eletromagnetismo. Ele calculou a órbita
do planeta Ceres, que havia sido recentemente descoberto, e que,
por ser um planeta longínquo e pequeno, os astrônomos não
25 conseguiam localizar exatamente. Para tanto, ele aplicou novos
métodos numéricos e sua teoria de órbitas. Com a determinação
da órbita de Ceres, Gauss ficou famoso e foi reconhecido como
grande cientista. Na década posterior, ele publicou a sua Theoria
motus corporum coelestium in sectionibus conicis Solem
30 ambientium com o seu método de cálculo de órbitas, incluindo a
teoria e o uso do método dos mínimos quadrados.

Gauss foi diretor do observatório de Göttingen e se


dedicou muito aos estudos do campo magnético da Terra.

97
Unidade II

Como astrônomo ele teve um importante colaborador, o


físico Wilhelm Weber; desse trabalho conjunto surgiram obras
sobre fluidos e capilaridade, acústica, óptica e cristalografia.
Em 1830, na obra que publicam sobre fluidos estão aplicações de
5 integrais duplas e de condições de contorno. Ainda da parceria
com Weber são frutos: a antecipação das leis de Kirchoff e diversas
conclusões em eletricidade e estática. As últimas publicações
de Gauss foram, em sua maioria, relativas à astronomia, em
particular referentes aos planetas recém-descobertos na
10 ocasião, tais como Netuno. Infelizmente, diversas descobertas
foram consideradas elementares pela dupla Gauss-Weber
e, assim, não dignas de serem publicadas. Uma das últimas
publicações conjuntas foi o Geomagnetic Results, de 1840, no
qual expõem as descobertas no campo do geomagnetismo.

15 Gauss resolveu diversas questões pendentes na matemática,


dirimiu dúvidas e questionamentos diversos e o seu trabalho
guiou os matemáticos do século posterior. Pelos escritos
de Gauss sabe-se que ele antecipou as geometrias não
euclidianas e poderia ter lançado suas bases trinta anos antes
20 de Lobachevsky ou Bolyai. Ele também descobriu, com quatorze
anos de antecipação, o teorema fundamental da análise, hoje
creditado a Cauchy; estudou os quatérnios antes de Hamilton
e também muito do que foi estudado por Legendre, Abel e
Jacobi.

25 A matemática poderia ter avançado meio século se Gauss


tivesse realmente publicado tudo o que descobriu e estudou.

4.3 Cauchy, a análise matemática e o rigor

No século XVIII surgiram, na matemática, sobretudo no


estudo de séries infinitas, métodos que produziam resultados
contraditórios ou absurdos. Isso fez com que se incorporasse
30 nos matemáticos do século XIX uma atitude crítica em relação
aos conceitos matemáticos básicos. A revisão crítica dos
fundamentos da matemática, iniciada por Gauss e Lagrange,

98
HISTÓRIA DA MATEMÁTICA

teve como consequência o desenvolvimento do rigor


matemático, uma das características marcantes da matemática
no século XIX e, nessa questão, uma das figuras principais foi
o francês Cauchy.

5 Augustin-Louis Cauchy (1789 - 1857)

Cauchy nasceu no ano da Revolução Francesa, pertencia


a uma família culta, estudou na École Polytecnique de Paris e
inicialmente trabalhou como engenheiro civil, mas com vinte e
quatro anos já havia desenvolvido diversos estudos no campo
10 da geometria e dos determinantes.

Ele foi, então, persuadido por seus amigos Lagrange e


Laplace, que muito o admiravam, a abandonar a engenharia e
aceitar um cargo de professor na École Polytecnique. Lá Cauchy
se tornou famoso como um excelente professor, sendo seus
15 cursos extremamente concorridos.

Cauchy retomou trabalhos de outros matemáticos,


especialmente os de Euler e Lagrange, acrescentando importantes
contribuições. Ele publicou muito, escrevendo tanto sobre
matemática pura quanto aplicada, além de mecânica e teoria
20 dos erros. São vários os livros e mais de setecentos artigos. No
Journal de l’École Polytecnique ele escreveu diversos e longos
ensaios, especialmente sobre a teoria das funções de variável
complexa, campo em que ele é considerado o fundador. Três de
seus livros: Cours d’Analyse de l’École Polytechnique, Résumé des
25 leçons sur le calcul infinitesimal e Leçons sur le calcul différentiel
foram fundamentais na história do cálculo elementar, pois
nesses textos Cauchy dá ao cálculo a sua forma atual.

Entre as importantíssimas contribuições de Cauchy à


matemática, além do campo da análise, com as funções de
30 variável complexa, estão os estudos sobre séries infinitas
— convergência e divergência —, probabilidades e equações
diferenciais.

99
Unidade II

Cauchy teve problemas políticos quando Carlos X foi


deposto e forçado a abandonar seu cargo, sendo excluído
do serviço público por dezoito anos. Nesse período esteve
em Turim, em Praga e em Paris, lecionando em escolas
5 religiosas.

4.4 As geometrias não euclidianas

Para discutir as “geometrias dissidentes”, que passaram


a ser desenvolvidas no século XIX, é necessário que antes
centremos o olhar sobre a geometria euclidiana, que foi aceita
sem nenhum tipo de contestação até o início do século XVIII. As
10 outras geometrias surgiram porque os matemáticos, ao longo
do tempo, tentaram provar que o quinto postulado de Euclides
era, na verdade, um teorema e, assim, seria demonstrado usando
os quatro axiomas anteriores. A partir das inúmeras tentativas
infrutíferas feitas pelos matemáticos nesse sentido germinou
15 a ideia de outros tipos de geometria que desconsiderassem o
quinto postulado. Atualmente, podemos argumentar que as
“geometrias dissidentes” demoraram tanto a se desenvolver na
História da Matemática talvez por causa da crença de que a
geometria euclidiana era a única explicação plausível para o
20 Universo.

A geometria euclidiana parte de verdades inquestionáveis


admitidas a priori, essas verdades são os postulados e os axiomas,
que são considerados evidentes. A partir deles toda teoria é
construída, ou seja, todas as proposições geométricas podem
25 ser provadas.

Enfim, o que são postulados e/ou axiomas?

Os gregos, na época de Euclides, diferenciavam postulados de


axiomas. Um axioma era considerado por eles como uma verdade
ligada ao senso comum, não exigindo qualquer comprovação
30 por ser evidente, ou seja, o axioma extrapola as questões
geométricas e matemáticas e pode ter relação com os mais

100
HISTÓRIA DA MATEMÁTICA

diversos campos. Já os postulados são evidências relacionadas


particularmente às questões geométricas. Hoje não se faz mais
qualquer distinção entre as palavras axioma e postulado, sendo
usados como sinônimos.

5 Os axiomas da geometria na Grécia antiga eram os seguintes:

1. Duas coisas iguais a uma terceira são iguais entre si.


2. Se parcelas iguais forem adicionadas a quantias iguais, os
resultados continuarão sendo iguais.
3. Se quantias iguais forem subtraídas das mesmas quantias,
10 os restos serão iguais.
4. Coisas que coincidem uma com a outra são iguais.
5. O todo é maior que as partes.

Os postulados, nos “Elementos de Euclides”, eram os


seguintes:

15 1. Uma linha reta pode ser traçada de um para outro ponto


qualquer.
2. Qualquer segmento finito de reta pode ser prolongado
indefinidamente para constituir uma reta.
3. Dados um ponto qualquer e uma distância qualquer,
20 pode-se traçar um círculo de centro naquele ponto e raio
igual à distância dada.
4. Todos os ângulos retos são iguais entre si.
5. Se uma reta cortar duas outras retas, de modo que a
soma dos dois ângulos interiores de um mesmo lado seja
25 menor que dois ângulos retos, então as duas outras retas
se cruzam, quando suficientemente prolongadas, do lado
da primeira reta em que se acham os dois ângulos.

101
Unidade II

Observe que os postulados são todos relativos às questões


geométricas.

Ao longo dos séculos o quinto postulado foi muito discutido


porque se colocou a hipótese de que ele não seria um verdadeiro
5 postulado necessário para o desenvolvimento da geometria
euclidiana, mas uma proposição (ou teorema) passível de prova.
Muitos dos matemáticos posteriores a Euclides, ao comentarem
sua obra, assim como diversos dos tradutores dos Elementos,
tentaram substituir o quinto postulado por outro mais elegante
10 ou prová-lo a partir dos outros quatro. Nessas tentativas, ou
surgia um postulado ainda mais complicado de se entender do
que o quinto ou existiam erros nas demonstrações de que ele
seria um teorema; assim, os esforços em relação à prova de que
ele dependia dos quatro postulados anteriores falhavam.

15 No século XVIII o matemático escocês John Playfair (1748-


1819) apresentou um substituto para o quinto postulado,
seguindo uma referência de Proclus no século V, que acabou
sendo adotado nos tempos modernos e é o seguinte:

Por um ponto fora de uma reta dada não há mais do que


20 uma reta paralela a essa reta.

A partir daí, o quinto postulado passou a ser conhecido como


o “Postulado das paralelas”, pois é mais simples de o entender
nessa redação dada por Playfair. De todo modo, a questão
central é que, até então, o postulado permanecia sem qualquer
25 contestação em relação à sua veracidade.

A primeira investigação que pode ser considerada como


realmente científica sobre o “Postulado das Paralelas” foi feita
pelo jesuíta italiano Girolamo Sacchieri (1667-1733). Ele tentou
provar, por meio da demonstração por absurdo – reductio ad
30 absurdum – que o quinto postulado era independente dos outros.
Assim, sua ideia foi admitir que ele não dependesse dos outros
quatro postulados e, a partir dessa hipótese, se a conclusão

102
HISTÓRIA DA MATEMÁTICA

fosse errônea, contraditória ou fosse um absurdo lógico, estaria


provado que o postulado era dependente dos outros quatro, não
sendo necessário para a construção da geometria euclidiana,
sendo na verdade uma proposição geométrica.

5 Sacchieri partiu da hipótese de que é possível prolongar um


segmento de reta indefinidamente, tornando-o tão comprido
quanto se queira, considerando verdadeiros os quatro primeiros
postulados e, falso, o quinto postulado.

Passou, então, a estudar um quadrilátero ABCD com as


10 seguintes características: os ângulos  e B̂ são retos e os
segmentos AD e BC são congruentes.

Nesse caso, traçando as diagonais AC e BD e utilizando


congruências de triângulos, prova-se que os ângulos Ĉ e D̂ são
iguais.

Se os ângulos Ĉ e D̂ são iguais, então, ou são ambos agudos, ou


15 ambos retos ou ambos obtusos. Contudo, não há possibilidade dos
ângulos Ĉ e D̂ serem retos, pois ele estabeleceu por hipótese que
o quinto postulado era falso. Eles também não podem ser obtusos,
uma vez que foi considerado por hipótese que um segmento de
reta pode ser prolongado indefinidamente. Assim, restava estudar

103
Unidade II

criteriosamente a possibilidade de que os ângulos Ĉ e D̂ fossem


agudos. Essa figura ficou conhecida como quadrilátero de Sacchieri.

Ao investigar a hipótese dos ângulos agudos, Sacchieri


demonstrou diversos teoremas, obtendo conclusões totalmente
5 estranhas e diferentes do esperado por ele, contudo sem qualquer
falha de demonstração. Naturalmente Sacchieri não conseguiu
provar que o quinto postulado era independente dos demais, mas
ele demonstrou teoremas importantíssimos para as geometrias
que negam o quinto postulado, ou que são independentes dele.
10 Felizmente, no ano de 1733 (ano de sua morte), foi publicado
seu livro Euclides ab omni naevo vindicatus4, fundamental para
que os matemáticos do século XIX pudessem ter contato com
suas ideias.

Concluindo, o quinto postulado é parte integrante dos


15 axiomas da geometria euclidiana; sem ele, ou pela sua
negação, constroem-se outras geometrias, denominadas de não
euclidianas.

Gauss redescobriu e desenvolveu uma geometria, também


negando o quinto postulado, de modo semelhante a Sacchieri,
20 contudo ele percebeu uma tendência de rejeição dessas ideias
pelos seus amigos matemáticos; assim, preferiu não se expor
e nada publicou sobre o assunto. Mesmo assim, continuou
a investigar essas geometrias e foi ele o primeiro a utilizar
a expressão “geometria não euclidiana”, quando estava
25 descrevendo a hipótese dos ângulos agudos de Sacchieri.

Curiosamente, no desenrolar do séc. XIX, três matemáticos


começaram, praticamente de forma simultânea, a perceber que
o quinto postulado realmente independia dos outros quatro, e
que, uma vez retirado do conjunto de postulados, não ocorria
30 inconsistência, como era esperado, mas era possível estabelecer
novas geometrias. Esses matemáticos foram: Gauss (1777-1855),
János Bolyai (1802–1860) e Nicolai Lobachevski (1793–1856).
Posteriormente, Riemann (1826-1866) dá o próximo passo
4
Euclides livre de toda imperfeição: um trabalho que estabelece os
princípios de uma geometria universal.

104
HISTÓRIA DA MATEMÁTICA

ao trabalhar com o caso dos ângulos obtusos no quadrilátero


de Sacchieri e as geodésias de Gauss, como relataremos na
sequência desse capítulo.

Para o desenvolvimento dessas novas geometrias, num


5 primeiro momento, foi preciso visualizar um espaço no qual se
negasse o quinto postulado e mesmo assim essas geometrias
fossem possíveis. Considerando a formulação de Playfair, (por
um ponto fora de uma reta dada não há mais do que uma
reta paralela a essa reta) podemos pensar em negar o quinto
10 postulado de duas formas. A primeira, considerando ser possível
traçar pelo menos duas paralelas à reta dada; a outra, supondo
que não seja possível traçar paralela à reta dada.

No primeiro caso, considerando que existem pelo menos duas


paralelas, tem-se uma geometria que passou a ser denominada
15 de geometria hiperbólica e, no segundo caso, admitindo que não
exista paralela, tem-se a geometria esférica, também chamada
de elíptica ou riemanniana.

Comentemos um pouco de cada uma dessas geometrias


e dos matemáticos que muito contribuíram para o seu
20 desenvolvimento.

Nicolai Ivanovich Lobachevski (1792-1856)

O russo Lobachevski era de família de poucos recursos, mas


devido ao seu brilhantismo pôde sempre estudar com bolsas de
estudo. Ele foi acadêmico a vida toda, primeiro como professor
25 de matemática e depois como reitor.

Lobachevski foi o primeiro a publicar suas descobertas,


criando uma nova geometria que ele denominou de “geometria
imaginária”.

Essa geometria foi desenvolvida a partir da hipótese


30 dos ângulos agudos no quadrilátero de Sacchieri. Nela o

105
Unidade II

quinto postulado é negado e substituído pelo “postulado de


Lobachevski”, que diz o seguinte:


Por um ponto P qualquer forade
 uma reta AB dada, existe
mais de uma reta paralela à reta AB .

5 Suas primeiras publicações sobre essa “geometria imaginária”


foram em 1829 e 1830, mas elas não tiveram repercussão na
comunidade matemática, talvez por estarem em russo. Em
1840 ele publicou, dessa vez em alemão, o livro Geometriche
Untersuchungen Zur theorie der Parallellinien (Investigações
10 geométricas sobre a teoria das paralelas), contendo os
fundamentos de uma geometria na qual o quinto postulado
é substituído pelo postulado de Lobachevski. Mas novamente
não houve grande repercussão; afinal, suas ideias punham em
dúvida a geometria euclidiana.

15 Quase que simultaneamente a Lobachevski um jovem húngaro


desenvolveu uma ideia similar; esse matemático foi Bolyai.

János Bolyai (1802-1860)

Bolyai era um oficial do exército austríaco e foi incentivado


pelo pai, professor de matemática, a estudar os postulados
20 de Euclides. Bolyai percebeu a questão do quinto postulado e

106
HISTÓRIA DA MATEMÁTICA

publicou suas ideias no apêndice de um livro de seu pai, em


1829. Ele desenvolveu uma teoria que denominou de “ciência
absoluta do espaço” partindo da negação do quinto postulado,
isto é, admitindo que “por um ponto exterior a uma reta
5 pode-se traçar não uma, mas infinitas retas”, de modo análogo
ao pensamento de Lobachevski.

O pai de Bolyai submeteu as ideias do filho sobre a “ciência


absoluta do universo” ao amigo Gauss que, então, revelou que
ele próprio havia estudado o quinto postulado e concordava
10 com János Bolyai. Apesar dessa sincera aprovação, Gauss nada
publicou sobre as geometrias não euclidianas e nem tampouco
Bolyai. Aliás, esse último nada mais publicou além do apêndice
citado, mas deixou uma série enorme de manuscritos sobre suas
descobertas e estudos matemáticos.

15 O grande mérito da descoberta das geometrias não


euclidianas ficou então com Lobachevski, que a publicou.
Contudo, ele não viveu para ver seu trabalho reconhecido, isso
só ocorreu quando foi provada a consistência da hipótese do
ângulo agudo no quadrilátero de Sacchieri, por Beltrami, Cayley,
20 Poincaré e outros matemáticos.

A geometria que utiliza o postulado de Lobachevski é a


geometria hiperbólica, sobre a qual discorreremos a seguir.

Na geometria hiperbólica, por um ponto P fora de uma reta


dada passa mais de uma paralela a essa reta, ou seja, passam
25 pelo menos duas retas paralelas à reta.

Para visualizar um espaço de geometria não euclidiana, no


qual o postulado das paralelas não é válido e foi substituído por
outro, uma boa ideia é a criação de modelos. Três modelos surgiram
na tentativa de entender e estudar a geometria hiperbólica: a
30 pseudoesfera desenvolvida por Eugenio Beltrami(1835-1900), o
modelo de plano de Felix Klein (1849-1925) e o disco de Henry
Poincaré (1854-1912).

107
Unidade II

A figura, a seguir, é a denominada pseudoesfera.

Nela, se considerarmos um ponto P qualquer, é possível traçar


infinitas retas paralelas a uma reta r dada, se P não pertence a
essa reta. Na figura, as retas a e b são ambas paralelas à reta r
5 e se interceptam no ponto P. Podemos construir infinitas retas
que satisfazem essa condição.

No modelo da pseudoesfera de Beltrami, a soma das medidas


dos ângulos internos de um triângulo é menor do que 180º.

O outro modelo, o de Felix Klein, considera o interior de


10 um círculo do plano euclidiano e o denomina de plano de
Lobachevski.

108
HISTÓRIA DA MATEMÁTICA

Considerando esse modelo, as retas são as cordas do círculo


do plano, sem incluir os extremos, uma vez que Felix Klein tomou
apenas a região interior do círculo como sendo o plano.

Com esse modelo de plano tornou-se mais simples visualizar


5 diversas características da geometria hiperbólica.

Por um ponto P fora da reta AB da figura pode-se
 traçar

mais de uma paralela à reta AB , por exemplo, PC , PD e
outras representadas pelos pontilhados na figura.

O terceiro modelo é o disco de Poincaré, que considera o


10 interior de um círculo como sendo o plano do espaço hiperbólico.
Nesse modelo, as retas ou são arcos euclidianos ortogonais à
fronteira do círculo (que ele denominou de horizonte) ou são
uma corda aberta que passa pelo centro

Na figura são retas hiperbólicas: .

15 Observe que pelo ponto P existem duas retas que são


paralelas à reta DE (figura).

Naturalmente, apresentamos neste texto apenas um resumo


das principais ideias da geometria hiperbólica de forma superficial.

A seguir, tratamos um pouco da geometria elíptica que foi


20 desenvolvida por Riemann.

109
Unidade II

Georg Friedrich Bernhard Riemann (1826-1866)

O alemão Riemann foi aluno de Gauss e seu orientando no


doutorado, com uma tese no campo das funções de variável
complexa.

5 Ao analisar a hipótese dos ângulos obtusos nos quadriláteros


de Sacchieri, Riemann criou uma geometria distinta da de Bolyai
e Lobachevsky.

Ele negou, diferentemente de Sacchieri, que um segmento de


reta pudesse ser prolongado indefinidamente e negou também
10 o quinto postulado de Euclides. Assim, considerou a reta como
não sendo infinita e substituiu o quinto postulado pelo que ficou
conhecido como postulado de Riemann, que é o seguinte:

Duas retas quaisquer em um plano possuem um ponto de


encontro.

15 Isto equivale a dizer que: por um ponto fora de uma reta


dada, não passa nenhuma paralela a esta reta.

É interessante mencionar que ele seguiu um caminho totalmente


diverso, tendo como ponto de partida um trabalho de Gauss sobre
curvaturas, no qual foi introduzido o conceito de geodésia, que é a
20 menor distância entre dois pontos em uma superfície.

Na geometria euclidiana as retas são as geodésias, pois no


plano euclidiano a curvatura é nula. Contudo, se considerarmos
superfícies com curvaturas diferentes, as geodésias serão
diferentes das retas do plano euclidiano.

25 Riemann construiu uma geometria que ficou conhecida


como elíptica ou esférica. Um modelo para esta geometria é
uma esfera, na qual as retas são os círculos máximos. Assim,
não existem retas paralelas, pois quaisquer que sejam os círculos
máximos eles sempre se interceptam.

110
HISTÓRIA DA MATEMÁTICA

Os círculos máximos, que são as retas nessa geometria, são


as geodésias da superfície. Nela as retas são ilimitadas, mas não
são infinitas. Partindo-se de um ponto A e seguindo sempre em
linha reta retorna-se ao ponto A.

5 Na geometria elíptica, a soma das medidas dos ângulos de


um triângulo é maior que 180 graus.

Quanto à curvatura, na geometria elíptica ela é positiva; na


geometria euclidiana ela é nula; e na geometria hiperbólica ela
é negativa. Veja as figuras a seguir:

http://www.portaldoastronomo.org/tema_pag.php?id=16&pag=4

Comparando os três espaços uniformes


através de um ponto dado podemos traçar somente uma paralela a uma linha reta.
espaço
euclidiano a soma dos ângulos interiores de um triângulo é igual a dois ângulos retos.
a circunferência de um círculo é igual a π vezes o seu diâmetro.
através de um ponto dado não podemos traçar nenhuma paralela a um ponto dado.
espaço
esférico a soma dos ângulos interiores de um triângulo é maior do que dois ângulos retos.
a circunferência de um círculo é menor do que π vezes o seu diâmetro.
através de um ponto dado podemos traçar mais de uma paralela a uma linha reta.
espaço
hiperbólico a soma dos ângulos interiores de um triângulo é menor do que dois ângulos retos.
a circunferência de um círculo é maior do que π vezes o seu diâmetro.

http://www.on.br/site_edu_dist_2008/site/conteudo/modulo5/5-geometria-nao-
euclidiana/geometria-espaco-curvo.html

111
Unidade II

Novamente surgia, com o plano de Riemann, uma geometria


consistente, diferente das anteriores e negando o quinto
postulado.

Sabemos que nosso planeta pode ser considerado,


5 aproximadamente, como uma esfera; assim, a geometria
riemanniana é muito útil, principalmente para calcular grandes
distâncias na superfície terrestre como ocorre, por exemplo, na
navegação marítima. Embora exista a sensação de navegarmos
em um plano, na verdade estamos sobre uma grande esfera.
10 Nesse contexto, usando o modelo da geometria elíptica, reta
é círculo máximo, ou seja, aquele que passa pelo Equador.
Os meridianos são exemplos de reta no modelo e todos os
meridianos se encontram nos polos, logo não existem retas
paralelas.

15 As geometrias não euclidianas abriram novas possibilidades


para a ciência do século XX. Por exemplo, Einstein usou as ideias
da geometria elíptica de Riemann em sua teoria da relatividade,
pelo fato de o Universo ser curvo. Einstein considerou o
Universo como tendo não três, mas quatro dimensões, sendo
20 o tempo essa quarta. Nesse contexto, as geodésias são as retas
do espaço-tempo. Enfim, as geometrias não euclidianas são de
grande valia em diversos campos, tais como na física atômica,
óptica, ondulatória e nos estudos de grandes distâncias.

4.5 O século XX

No final do século XIX, havia um intenso intercâmbio das


25 ideias matemáticas por meio dos encontros internacionais de
matemáticos e pela fundação de sociedades matemáticas com
reuniões periódicas e publicações sistemáticas. São exemplos
dessas sociedades a London Mathematical Society, a Société
Mathématique de France e o Circolo Matematico di Palermo.
30 Essa facilidade de contato com as mais revolucionárias teorias
e descobertas ocasionou um novo impulso de desenvolvimento
matemático.

112
HISTÓRIA DA MATEMÁTICA

No início do século XX, o alemão David Hilbert (1862-1943)


era um dos matemáticos que muito viajava em congressos,
estava ciente das questões matemáticas que ocupavam os
principais centros e conhecia o método axiomático5. Ele estava
5 impregnado pela atitude crítica e revisionista dos fundamentos
da matemática e empreendeu a tarefa de revisar Os elementos
de Euclides pelo método axiomático. Ele percebeu que existiam
falhas lógicas, além de hipóteses implícitas e definições
sem sentido na geometria de Euclides; então ele analisou
10 e reescreveu toda a geometria plana euclidiana, agregando
todas as descobertas posteriores a Euclides. Em vez dos cinco
axiomas e cinco postulados de Euclides, Hilbert formulou vinte
e um axiomas: oito deles sobre incidência, quatro sobre ordem,
cinco sobre congruência, três sobre continuidade e o último, o
15 postulado das paralelas.

Hilbert publicou, em 1901, o livro Grundlagen der Geometrie


(Fundamentos da Geometria), no qual ele apresenta essa
geometria, que representa a maior reforma da geometria
plana euclidiana, incorporando a axiomatização e a teoria dos
20 conjuntos.

Dez anos depois surgiu o Principia Mathematica de Bertrand


Russel e Alfred Whitehead, desenvolvendo de forma axiomática
os fundamentos da aritmética, lançando também as bases para
o desenvolvimento da álgebra abstrata.

25 A partir de estudos sobre o Principia Mathematica, o


austríaco Kurt Gödel demonstrou que mesmo num sistema
lógico de aritmética, como de Russel-Whitehead, existem
teoremas indemonstráveis e enunciados sobre os quais não
se pode dizer se são verdadeiros ou falsos. Por extensão, ele
30 argumentou que, na matemática, existem teoremas cuja
veracidade não se pode demonstrar e, também, cuja validade
não se pode contestar. A partir dessa declaração, Kurt Gödel
eliminou a certeza matemática e levou um novo olhar sobre a
matemática.
5
O método axiomático estuda os conjuntos de axiomas e considera
que, uma vez estabelecido um número de axiomas que caracterizam um
campo matemático, todas as conclusões sobre esse campo só podem ser
deduzidas a partir dos referidos axiomas.

113
Unidade II

Ainda nas primeiras décadas do século, desenvolveu-se


intensamente a análise funcional com as novas teorias e
a topologia, sobretudo pelas contribuições de matemáticos
americanos. O cálculo diferencial foi utilizado por Einstein
5 (1879-1955) para a resolução de suas equações gravitacionais,
o que estimulou o estudo da geometria diferencial.

A matemática no século XX tornou-se cada vez mais abstrata


e de compreensão apenas para iniciados, ultrapassando os limites
de um curso de História da Matemática para iniciantes. Pode-se
10 dizer que a física moderna passou a ser matemática aplicada,
e os computadores permitiram desenvolvimentos antes sequer
imaginados.

Depois da Segunda Guerra Mundial, são desenvolvidas a


teoria dos fractais e a teoria dos jogos. Fractal, do Latim fractus,
15 que significa fracionado ou quebrado, foi assim denominado por
Benoit Mandelbrot em 1975; contudo, tais elementos haviam
sido estudados por matemáticos anteriores, especialmente entre
1857 e 1913. Os mais conhecidos hoje são: o floco de neve de
Koch, o conjunto de Cantor, a curva de Peano, o triângulo de
20 Sierpinski, o conjunto de Julia e o conjunto de Mandelbrot.

Em 1977, o americano Robert Stetson Shaw cria a teoria do


caos.

Finalizamos o texto, alertando, novamente, para o fato de que


esse é apenas uma introdução à História da Matemática. Nele,
25 diversos dos expoentes importantes não foram contemplados
como, por exemplo, os Bernoulli, entre tantos outros. Diversos
campos da matemática também não foram discutidos, e outros,
que foram, estão apenas superficialmente analisados. Contudo,
ao longo de nosso curso teremos leituras complementares , por
30 isso esperamos que este texto introdutório tenha despertado
naqueles que o leram o desejo de conhecer mais sobre a História
da Matemática que, em nossa opinião, espelha a história do
desenvolvimento do raciocínio e da própria inteligência humana.

114
HISTÓRIA DA MATEMÁTICA

A seguir, alguns exercícios elaborados pela


professora Julia Yoko Harada para melhor
compreensão do tema

1. Em geometria projetiva, podem-se corresponder duas


projeções a uma figura espacial: uma no plano horizontal e
outra no plano vertical. Assim, têm-se duas “vistas” da figura.
Em seguida, faz-se um rebatimento do plano horizontal no
5 sentido horário sobre o vertical, para se obter a representação
da figura, num plano, por suas projeções. Essa representação
é chamada de:

a. Rebatimento.
b. Épura.
10 c. Afastamento.
d. Cota.
e. Linha de chamada.

2. É considerado o “século de ouro” da matemática que nele


se transformou enormemente. Os fundamentos mudaram e foi
15 criado o conceito de rigor matemático. O desenvolvimento da
análise, da teoria dos números, da geometria diferencial, dos
quatérnios, da álgebra não comutativa e das geometrias não
euclidianas provocou uma verdadeira revolução no conhecimento
matemático. Trata-se:

20 a. Do século XVI.
b. Do século XVII.
c. Do século XVIII.
d. Do século XIX.
e. Do século XX.

25 3. O matemático francês Jean Victor Poncelet, que foi


aluno de Gaspar Monge na École Polytecnique de Paris,
fez importantes contribuições para o desenvolvimento da
geometria projetiva. Seu Traité des Proprietés Projetives des
Figures é considerado um importante marco no campo. Nele

115
Unidade II

Poncelet coloca os princípios básicos da geometria projetiva,


que são:

a. Os princípios do terceiro excluído.


b. O princípio de dualidade e o princípio da continuidade.
5 c. Os princípios da álgebra booleana.
d. Os princípios da permanência na análise.
e. Os princípios gerais para a analítica.

4. Com apenas vinte e dois anos ele defendeu sua tese


de doutorado, apresentando a primeira prova completa do
10 conhecido teorema fundamental da álgebra. O título: “Nova
demonstração do teorema que toda função algébrica racional
inteira de uma variável pode ser decomposta em fatores reais
de primeiro e segundo grau” está, na verdade incorreto, pois
a tese apresenta não uma nova demonstração, mas sim a
15 primeira demonstração completa e correta do teorema.
Esse alemão que ficou conhecido como o “príncipe dos
matemáticos” foi:

a. Newton.
b. Leibniz.
20 c. Euler.
d. Gauss.
e. Copérnico.

5. Segundo a geometria euclidiana por um ponto fora de uma


reta só é possível construir uma paralela a essa reta passando
25 pelo ponto dado. Esse conceito era, desde 300 a.C., um dos
principais postulados. No século XIX, a partir da ideia oposta, de
que é possível construir infinitas paralelas a uma reta passando
por um ponto fora dessa reta, é criada uma nova geometria. O
principal responsável pelo desenvolvimento dessas novas ideias
30 foi o matemático:

a. Euler.
b. Lobachevsky.

116
HISTÓRIA DA MATEMÁTICA

c. Hilbert.
d. Newton.
e. Laplace.

6. Entre as geometrias não euclidianas que se desenvolveram


5 a partir do século XIX destacam-se a geometria hiperbólica, que
considera existirem pelo menos duas paralelas por um ponto
fora de uma reta dada, e a geometria esférica, que admite não
existir paralela por um ponto fora de uma reta dada.

Os principais matemáticos que desenvolveram essas


10 geometrias foram:

a. Gauss , Lobachevski e Newton.


b. Riemann, Gauss e Leibniz.
c. Bolyai , Lobachevski e Riemann.
d. Gauss , Lobachevski e Euler.
15 e. Riemann, Lobachevski e Euler.

7. A primeira investigação que pode ser considerada


como realmente científica sobre o “postulado das paralelas”
foi feita no século XVIII por um jesuíta italiano que tentou
provar que o quinto postulado de Euclides era independente
20 dos outros. Para isso o método escolhido foi a demonstração
por absurdo – reductio ad absurdum. Sua ideia foi admitir
que o quinto postulado não era dependente dos outros
quatro e a partir dessa hipótese provar, se a conclusão fosse
um absurdo lógico, que o postulado era dependente dos
25 outros, sendo na verdade uma proposição geométrica. Foi
ele:

a. Nicolo Fontana.
b. Raphaelli Bombelli.
c. Girolamo Cardano.
30 d. Girolamo Sacchieri.
e. Scipione del Ferro.

117
Unidade II

8. Para entender e estudar a geometria hiperbólica,


auxiliando na visualização de um espaço de geometria não
euclidiana, no qual o postulado das paralelas não é válido, foram
criados modelos. No apresentado abaixo, por ponto P qualquer
5 é possível traçar infinitas retas paralelas a uma reta r dada, se
P não pertence a essa reta. Na figura, as retas a e b são ambas
paralelas à reta r e se interceptam no ponto P. Podemos construir
infinitas retas que satisfazem a essa condição.

a
P

Esse modelo é:

10 a. O modelo de Lobachevski.
b. O modelo de plano de Felix Klein.
c. A pseudoesfera de Eugenio Beltrami.
d O disco de Henry Poincaré.
e. O modelo de Bolyai.

15 9. Uma das geometrias não euclidianas é a esférica ou elíptica.


Um modelo para esta geometria é uma esfera, na qual as retas
são os círculos máximos, isto é, são as geodésias da superfície.
Assim sendo, não existem retas paralelas, pois quaisquer que
sejam os círculos máximos eles sempre se interceptam. Nessa
20 geometria, a soma das medidas dos ângulos internos de um
triângulo:

a. É sempre 180 graus.


b. É sempre menor que180 graus.
c. É sempre maior que 180 graus.

118
HISTÓRIA DA MATEMÁTICA

d. Pode ser maior ou igual a 180 graus.


e. Pode ser menor ou igual a 180 graus.

10. Fractal é uma palavra que vem do latim fractus e significa


fracionado ou quebrado. Alguns dos mais conhecidos fractais de
5 hoje são o floco de neve de Koch e o conjunto de Cantor. O
termo fractal foi criado por Benoit Mandelbrot, em 1975, para
designar:

a. Fragmentos de poliedros de cristal.

b. Fragmentos de números decimais.

10 c. Figuras geométricas irregulares, autossimilares (que


apresentam detalhes em escalas grandes e pequenas)
e recursivas (que podem ser geradas por um processo
recorrente ou iterativo).

d. Fragmentos algébricos usados para resolver equações da


15 geometria diferencial.
1
e. Fragmentos com valor numérico .
π
Resposta dos exercícios

1. b
2. d
20 3. b
4. d
5. b
6. c
7. d
25 8. c
9. c
10. d

119
Unidade II

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