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1. Determinantes Políticos, Econômicos e Sociais durante 1250-1500.

Toda pesquisa de caráter científico se debrusça em um determinado objeto, desde


seu conceito até o seu funcionamento. Entretanto, um dos maiores pecados na epistemologia
da pesquisa é isolar o objeto fora do contexto no qual ele se encontra. O resultado disso é uma
falta de ligação entre o objeto e o problema da pesquisa, que norteia todo o desenvolvimento
do texto. Esse pecado se destaca em trabalhos que buscam a razão de algo dentro de eventos
passados, e mais ainda no campo das Ciências Sociais onde o impacto do ser humano como
agente social é diretamente responsável pelo conceito e funcionamento do objeto de pesquisa.

Aplicando essas informações no que se refere a este trabalho, entender a


dualidade das partidas dobradas se torna mais natural quando compreendemos o contexto no
qual a formulação e consolidação deste método ocorreu, isto é, uma época que compreende os
anos de 1250 à 1500. Dentro das Ciências Sociais encontramos determinantes que afetam o
produto deste campo. Estudaremos três determinantes em questão: os políticos, econômicos e
sociais.

Esses três campos oferecem um embasamento consistente sobre o estilo de vida


das grandes cidades do período. Além disso, nos aponta para o desenvolvimento das cidades-
estado que se formaram na Europa nestes anos. Entretanto, novamente, não podemos
vislumbrar esses três campos separadamente e muito dos fatos ocorridos no período são uma
consequência do relacionamento destes determinantes. Isso está de acordo com a Teroria dos
Sistemas, algo crescente na Ciência como um todo e, mais particularmente, na Ciência
Contábil.

Catelli (2010, p. 36, apud Lodi 1987:199) nos mostra apresenta uma visão geral
desta teoria quando cita:

“(...) elabora princípios gerais, sejam físicos, biológicos ou sociológicos, e modelos


gerais para qualquer das ciências envolvidas (...) Ela também veio a preencher o vazio entre
elas, pois há sistemas que não podem ser entendidos pela investigação separada e
disciplinar de cada uma de suas partes. Só o todo possibilita uma explicação. Por isso
também se diz que a Teoria de Sistemas é uma ciência da Totalidade.”

Compreende-se que as conexões existentes entre as ‘peças’ é mais relevante que o


estudo de todas elas em separado. O que nos leva a definição de Sinergia, a visão do todo
supera a soma de suas partes. Portanto, entender todas os determinantes bem como estudar a
dualidade das partidas é fundamental para um resultado relevante dentro da pesquisa.

Vale salientar ainda, uma teoria que apresenta a importância no estudo do


contexto social, político e econômico. A Teoria do Caos nos ensina que sistemas complexos
podem sofrer grandes influências em fatos simples, isto é, uma pequena variação nas
condições em determinado ponto de um sistema dinâmico pode ter consquências de
proporções inimagináveis. Trazendo isso ao campo da Ciência Contábil, pequenos fatos
econômicos, políticos e sociais podem ter resultados relevantes ao objeto de pesquisa.
Como precursor dessa idéia, temos Guilherme de Occam, indíviduo no qual é
descrito na Nova Enciclopédia Barsa (2001):

Nesses textos, em grande parte reunidos no volume conhecido como Ordinatio,


expôs a essência de seu pensamento, que parte do pressuposto de que todo conhecimento
racional tem base na lógica, de acordo com os dados proporcionados pelos sentidos. Como
estes só conhecem indivíduos concretos (por exemplo, “árvores”), os conceitos universais
não passam de meios linguísticos para expressar uma idéia e carecem de realidade física.

Essa base lógica gera uma simplicidade descrita na lei econômica desenvolvida
pelo mesmo Guilherme de Occam denominada “navalha de Occam”. Sobre essa lei,
observamos a seguinte sentença: “Estabelece que ‘as entidades não devem ser multiplicadas
além do necessário’, pois a natureza é por si econômica e não se multiplica em vão.” Este
que é considerado o último grande filósofo medieval, Guilherme de Occam, viveu no período
entre 1285 à 1349 na Inglaterra. Desta forma, a ciência passou a utilizar um método lógico e
simples para chegar aos resultados científicos.

Quando pesquisamos sobre a Contabilidade e o período de 1250 à 1500 se destaca


o domínio francês na Itália e o poder papal frente os diversos imperados europeus. É notável
também, o destaque das cidades-estado na Itália onde marcou o apogeu da época. As cidades-
estado Florença, Veneza e Gênova são o foco no desenvolvimento deste texto acerca do
contexto histórico da Contabilidade no período mencionado.

Sobre isso, temos a afirmação de Pinsky (2003, p. 100):

As antigas comunas italianas, cujas dimensões não ultrapassavam em geral o espaço


delimitado pelos muros que circundavam essas cidades, foram aos poucos substituídas por
senhorias que englobavam diversos burgos e cidades, No auge desse fenômenos de
agrupamento, no século XV, encontramos ainda um certo número de comunas autônoma e
pequenos principados, ao lado de verdadeiros estados regionais que caracterizarão a
fisionomia política da Península Itálica até a sua tardia unificação, no século XIX: Nápoles,
os estados pontifícios, Florença, Veneza, Milão. (...) Assim quando a historiografia refere-
se à política do Renascimento, faz referência a essas cidades-estado do norte da Itália...”

Além disso, Schimidt (2008, p. 14) atesta:

Três principais eventos causaram o desenvolvimento econômico do norte da Itália


depois do ano 1100. Um foi o aumento rápido e generalizado da população. Isto aconteceu
até metade do século XIV, quando uma praga reduziu a população para um terço. O
segundo evento foram as oportunidades econômica oferecidas pelas Cruzadas. A invasão
dos turcos à Jerusalém, em 1075, e os conflitos com exércitos euroeus por duzentos anos,
criaram um caminho fértil de comércio entre a Europa e o Oriente Médio. As cidades de
Gênova, Veneza e Florença foram, ao longo da história, pontos de contato de negócios com
o Oriente Médio. Essas três cidades cresceram, prosperaram e se tornaram um local
importante de comércio com todo o norte da Europa. Essa posição central no comércio
mundial exercido por essas cidades resultou em um aumento por todo tipo de serviço
especializado, entre os quais se inseriram os sistemas contábeis.

Visualizaremos cidade por cidade, mas entendendo que elas eram


interdependentes, e tirando alguns fatores sociais, eram muito semelhantes entre si. Elas
foram um marco para a ciência, a economia (principalmente o capitalismo) e a forma do ser
humano ver o mundo a partir de então. Invenções como a roda d’água, o óculos, o relógio
mecânico, a imprensa e a pólvora trouxeram impactos irreversíveis na sociedade e,
consequentemente, nas Ciências que estudam essas mudanças.

Não podemos desconsiderar outras cidades importantíssimas para o


desenvolvimento econômico, político e social, como Barcelona, por exemplo. Londres e
Paris, também tiveram destaque nesse período. Entretanto, Luca Pacioli publicou sua obra em
Veneza, nasceu e morreu na Itália. Ou seja, mesmo que outras cidades tivessem destaque,
buscamos entender as mais diretas em relação a Veneza, logo, as outras cidades mercantis da
Itália, elas competiam claramente entre si, até mesmo se enfrentando em batalhas.

Apesar dessa disputa, de uma forma mais crítica, essa competitividade estimulava
o desenvolvimento, sendo benéfico posteriormente a oligarquia econômica formada por
algumas regiões. Normalmente, de forma generalista, não é mencionado grandes avanços
neste período, mas basta uma pesquisa mais densa para termos certeza da importância destes
anos para a humanidade.

1.1. Gênova

Gênova se destaca no período do século XII ao XIV como principal porto


marítimo da época. Pode-se compreender que os meios de transportes fortaleciam e muito o
poder econômico de uma determinada cidade. Até então, o meio marítimo era o melhor
transporte de mercadorias, devido a sua velocidade, capacidade de carga, e, de certa forma,
segurança.

Entretanto, seu destaque é proveniente de fatos antecedentes a esse período como


a criação da Campagna em 1099, a associação de comerciantes para a defesa da cidade. Isso
demonstra o desenvolvimento econômico que a cidade atingiu tendo o apoio dos comerciantes
e da Igreja já que a cidade interviu nas cruzadas. Ou seja, o apoio econômico e papal (vale
lembrar que na época, boa parte da educação e pesquisa da ciência estava sob controle da
Igreja) surtiu efeitos muito benéficos para Gênova.

Em relação ao período estudado a Nova Enciclopédia Barsa (2001) afirma:

A conquista da ilha de Córsega, em 1284, deu a Gênova poderio marítimo e


econômico. Do século XII ao XIV, a cidade foi o centro de transações comerciais e
transporte de mercadorias entre a Europa e o Oriente. Além disso, o surgimento de novas
formas de contratos comerciais, como o da commenda, e o desenvolvimento extraordinário
de seu sistema bancário situaram Gênova entre os principais núcleos financeiros da Europa.

Com base nessa afirmação, temos diversas informações a cerca do assunto.


Inicialmente, entendemos que o período foi de batalhas e conflitos que estimula e muito a
economia local. Além disso, com um grande número de transações comerciais se vê
necessário uma contabilidade que firmasse estas trocas. Isso é confirmado por Schimidt
(2008, p. 15) que confirma que “a data precisa de quando foram introduzidos os primeiros
sistemas contábeis não é conhecida, mas umas das primeiras manifestações de uso
empresarial foi por volta de 1340, na cidade de Gênova”.
Mais ainda, observa-se que o período foi de pesquisas e inovações como o da
commenda e o sistema bancário. O contrato de commenda se assemelha ao de um empréstimo
à risco, ou seja, os fornecedores de capital entregavam seu dinheiro aos capitães de navios,
para estes o utilizassem no seu comércio por sua própria conta e risco, sendo obrigado ao fim
de sua jornada, dividir os lucros ou prejuízos.

Não pode-se dizer que este tipo de relação comercial era algo novo, pois o próprio
livro de Mateus, datado do ano de 44, nas mais variadas traduções relata que Jesus Cristo trata
de algo semelhante na sua ilustração sobre os talentos de ouro. Ali, um homem confia a seus
escravos uma certa quantia monetária onde se espera que haja um rendimento neste valor
inicial. Entretanto, a inovação trata da parte jurídica, e aponta o desenvolvimento das
empresas na forma de sociedades por quotas de paticipação.

Vale salientar, as transações entre Europa e Oriente. É sabido que já havia, na


Índia antiga, uma organização contábil que consistia em orçamento público, normas de
tributação e auditoria. Desta forma, pode-se compreender a relação não apenas de troca de
mercadorias, mas de conhecimentos contábeis, já que essas transações precisavam de um
acordo monetário que fosse compatível aos dois, e levando em conta, que era uma relação
comercial contínua, era necessário um registro padrão tanto para a Europa como para o
Oriente.

Outra informação que é útil para se entender o contexto da época é o sistema


bancário ali desenvolvido. A formação da Campagna deu lugar a República de São Jorge,
liderada por algumas familías de comerciantes, que criaram o Banco de São Jorge, uma
instituição financeira fundada em 1407. É considerado um dos bancos mais antigos da Europa
(em 1401 foi fundada a Taula de Canvi, em Barcelona, dedicada ao “depósito e giro”) e
conhecido como o Banco do Depósito e Giro de Gênova.

Como banco comercial compreende-se as funções de realizar empréstimos e a


custódia de depósitos. E, novamente, se mostra necessário um sistema contábil que
privilegiasse todas estas transações. Dentro da dualidade das partidas, os bancos precisavam
manter o registro do que tinham e deviam, ou seja, o HAVER e o DEVER. Novamente, não
se pode afirmar que a criação dos bancos se deu nesse período já que nas civilizações mais
antigas, essas instituições financeiras já eram conhecidas, entretanto, com o aumento das rotas
marítimas e o volume de transações foi uma evolução considerável em Gênova a capacidade
do banco em controlar empréstimos e depósitos.

A expansão de Gênova foi algo espantoso e temos embasamentos para afirmar


que as famílias que tratavam dos comércios em Gênova de alguma forma colaboraram para a
formação das Ciências Contábeis. Entretanto, é apontado pela Nova Enciclopédia Barsa
(2001) um período decadente após estes acontecimentos:

Durante o século XIV, a cidade sofreu um lento processo de decadência, devido às


lutas entre as poderoas famílias genovesas e em consequência da perda da liderança
marítima em favor de Veneza, além da ocupação de suas colônias do Oriente pelos turcos.
Nos séculos XV e XVI, as intervenções francesa e espanhola nos assuntos políticos da
cidade e a dura concorrência com os portos do norte da Europa, aceleraram a decadência
econômica de Genova, que, no entanto, continuou a desempenhar papel preponderante nas
finanças européias.

A política e a economia eram dependentes em Gênova (assim como em outras


cidades-estado) e, por conta disso, qualquer impacto na política local resultava em graves
consequências para a economia. Os tempos eram instáveis no que diz respeito a conflitos,
mesmo que as cidades estivessem ‘seguras’ em relação a sua administração, qualquer
alteração no ambiente externo poderia decair uma cidade, e isso que ocorreu em Gênova. Esta
cidade, com o tempo, deu lugar a outra importante cidade para o desenvolvimento econômico,
político e social da época, a cidade de Veneza.

1.2. Veneza

A cidade de Veneza foi formada por pescadores que se diferenciou das outras
cidades graças a frota marítima que possuia, servindo como meio para suas transações
comerciais, que chegaram a Inglaterra, Índia e China. Apesar da rivalidade com Gênova e
suas inúmeras batalhas entre si, o foco das duas eram diferentes, em certo sentido.

Veneza desde o ínicio atraia visitantes por seu estilo de vida de diversão e luxo,
ou seja, ela centralizava seu comércio (apesar da frota marítima, ela o utilizava como meio
para trazer as mercadorias que necessitava para a cidade). Gênova espalhava o comércio e
difundia a economia, utilizava seu transporte marítimo para realizar trocas e não apenas para
trazer produtos. Além disso, o Banco de São Jorge sustentava as familias comerciantes de
Gênova. Veneza, por outro lado, se fortalecia economicamente, através da taxação de
especiarias do Oriente.

Portanto, nota-se uma diferença social entre as duas cidades. A população de


Veneza era mais abastada e como consequência se tornava mais atraente para a venda de
mercadorias por parte dos Orientais. Além disso, a nobreza era mais influente no apoio papal.
Gênova, por sua vez, possuia familias que tomavam a dianteira na cidade e no banco, mas
sem o mesmo luxo oferecido por sua rival.

Em relação a forma política de Veneza o escritor Wolff (1965, p. 226) descreve os


fatos:

Gobiernos urbanos hay que ponen todo su afán em trabar minuciosamente el


desarrollo del capitalismo, em crear o controlar las empresas más importantes. (...) El
ejemplo más notable es el proporcionado por Venecia, donde el Estado se identifica com
los intereses de uma oligarquía de mercaderes. Venecia reduce su coporaciones de
artesanos a función únicamente técnica y caritativa. Pero, atención a los mercaderes de
tejidos de seda, prohibiéndoles dar trabajo a tejedores sederos no agrupados em
corporácion, vedándoles todo préstamo de dinero a los que sí lo están para tenerles a su
merced.

Compreende-se desta citação, um estado que modelava a economia de acordo


com as teorias capitalistas mais modernas para a época. Isso demonstrava uma forte produção
em massa e uma relação de administração direta por parte dos que tomavam a dianteira na
cidade.
Outro ponto importante no aspecto político da cidade de Veneza era sua relação
com os mais diversos povos. Veneza era conhecida por ter tratos com todos, aumentando o
nível de comércio no local. Isso gerou uma variação cultural que em nenhum lugar se
encontrava. Essa troca de informações nos diferentes locais com diferentes povos nos remete
a mesma necessidade que Gênova, um sistema contábil que pudesse servir não só dentro da
cidade, mas fora dela.

Conhecida como Sereníssima República de Veneza, a cidade de Veneza teve sob


seu controle diversas ilhas e pontos comerciais que a tornou lider em rotas marítimas e
consequentemente, uma pontência mercantil.

Outro ponto de destaque, foi a criação de uma moeda própria chamada DUCADO.
A criação de uma moeda gera uma série de impactos na economia, como a necessidade de
câmbio e diferenças nas precificações geradas pelo custo de vida. Por exemplo, pelo fato de
Veneza ser uma potência econômica na época, ela acabou pressionando outros lugares a
adotar essa moeda sendo referência em transações internacionais. Ainda referente a este
impacto, havia a pressão também na cidade de Gênova na forma como ela iria se relacionar
com essa moeda e como o banco de Gênova agiria em relação a isso. Observa-se mais uma
vez um impasse para os registros contábeis que mostra a necessidade de chegar a um
denominador monetário comum.

Veneza foi o lugar que Luca Pacioli escolheu para lançar sua “Summa de
Arithmetica, Geometria proportioni et propornalità”. Aparentemente esta escolha se deu pela
grande repercussão que o livro teria no coração econômico da Europa. Além disso, Veneza
era a cidade que importava e exportava produtos mais rapidamente, ou seja, sua difusão seria
muito maior. Como mencionado anteriormente, Veneza sobrevivia das taxações sobre seus
produtos, outro uso extensivo para a obra de Pacioli. Mais uma vez, vemos a formação de
uma Contabilidade Fiscal ser mais importante que informações gerenciais. A cidade possuia
um sistema complexo de tributos não apenas naquela época mas desde sua formação, algo que
provavelmente impulsionou e muito o estudo sobre Contabilidade.

Para entender o contexto, Lopes de Sá (2004, p. 22) nos dá um embasamento:

Nos anos 400, dois terços da arrecadação tributária era a do Imposto de Consumo. A
República teve rendas extraordinárias, insuficientes, todavia, para as suas reais
necessidades. “Camâras” fiscais estiveram incumbidas da arrecadação e complexo foi o
sistema de controle da Receita e da Despesa (...) Nessa época, a cidade possuiu um
Conselho denominado “dos Dez”, Um Senado, mantendo a República uma Contabilidade
Orçamentária elaborando Balanços Múltiplos relativos a cada uma das caixas.

É possível enxergar uma cidade com uma contabilidade e registros


aperfeiçoados, técnicas rebuscadas. O fato de Pacioli não ter inventado o método das partidas
dobradas é algo com forte embasamento teórico, pois seria difícil enxergar uma cidade tão
avançada sem a utilização deste método nos seus registros. Mas pensar em uma grande
quantidade de pessoas que administravam as receitas, despesas, orçamentos, tributos,
arrecadações, mostra necessário uma literatura que cobrisse os diversos aspectos da
Contabilidade. “El modo de Vinegia”, assim também chamado o método das partidas
dobradas, deixa claro a origem da técnica, e fortalece mais uma vez o indício de que ele era
usado muito antes de 1494 (ano de publicação do livro de Luca Pacioli).

Outro ponto bastante discutido é o avanço científico que o período estabelecia. As


cidades se renovavam com forças mais industriais e criações que afetavam a vida das pessoas.
Dentre essas criações em especial, a imprensa foi de maior importância para Pacioli.

Sobre este ponto temos referências como de Wolff (1965, p. 211-212) que afima:

Los talleres de copistas profesionales que surgieron al amparo de las Universidades


no han dejado de perfeccionar desde el siglo XII sus métodos, como no han cesado en su
progreso racionalizador de los mismos. Multiplicaban el número de copias, las cuales eran
relativamente correctas, y no las hacían valíendose de unas para las otras, lo que hubiera
acarreado uma repetición em serie de los errores, sino que todas ellas se fundaban em el
mismo ejemplar de base, dividido en cuadernillos, para que varios amanuenses pudieran
copial al mismo tiempo (...) esta produccíon em serie salía cara y seguía dejando sin cubrir
las necesidades crecientes (...) La respuesta al problema así planteado será la imprenta,
aunque su realizacíon no puede materializarse más después de largos tanteos, que
atestiguan hasta la saciedad la interaccíon existente entre los diversos ámbitos del progreso.

Portanto, se observa a demanda por livros e a falta de recursos tecnológicos


para sua produção. A imprensa reinventou o mundo científico e literário por difundir essas
informações em grande quantidade. O custo de produção era altíssimo para um extenso
período de escrita até sua publicação, correndo o risco de perdas de informação de uma cópia
para outra. Apenas na Europa este instrumento teve seu espaço, na China, seu lugar de
origem, a ferramenta não obteve a mesma popularidade. Na Índia, ocorreu uma resistência
maciça devido aos princípios religiosos. Desta maneira, a Europa saia na frente em termos de
conhecimento e disseminação de informação.

Outra invenção da época, que tem uma relação estreita com a leitura é o óculos.
Na época, poucas pessoas eram alfabetizadas e as que sabiam ler tinham, em sua visão, um
tempo de vida hábil curta para o desenvolvimento do intelecto e a continuidade de seus
trabalhos manuais. Os óculos, apesar de simplistas aumentaram em muito a capacidade das
pessoas e como consequência, o aquecimento da economia. Essa invenção também teve
destaque no desenvolvimento da indústria pois permitia que produtos pudessem ser replicados
com mais perfeição haja visto que as pessoas conseguiam vislumbrar falhas e correções com
mais facilidade.

Em relação a isso Landes (1998, p. 50-51) enfatiza:

Em meados do século XV, a Itália, especialmente Florença e Veneza, estava


produzindo milhares de óculos, ajustados para lentes côncavas e convexas, tanto para
míopes quanto para presbíopes. (...) Os óculos possibilitavam a execução de trabalhos de
grande refinamento e o uso de instrumentos de precisão. (...) Os europeus seguiram adiante
para inventar instrumentos-padrão de medição – calibradores, aferidores, micrômetros, etc.
– toda uma bateria de ferramentas ligadas à medição e ao controle de precisão. Eles criaram
assim as bases para máquinas articuladas com peças ajustáveis.

Este é um caso clássico da teoria do caos. Algo aparentemente simples que


trouxe resultados expressivos no contexto econômico e social. Tanto na produção em massa
que movimentava a economia que por sua vez alterava os registros Contábeis, como no uso
prático do instrumento de leitura, evitando as aposentadorias precoces e o acúmulo de
conhecimento por parte dos estudiosos da época.

1.3. Florença

Se Veneza ficou conhecida por invenções e avanços na economia, a cidade de


Florença não ficou muito distante disso, sendo uma referência maior na política. Personagens
como Dante Alighieri (A Divina Comédia), Michelangelo, Leonardo da Vinci, Nicolau
Maquiavel entre outros, fizeram seu trabalho em tornar a cidade conhecida pelas artes,
filosofia, literatura e ciência. Algo curioso, é a estreita relação com os Judeus no século XV
que resultou em um aumento considerável da comunidade judaica no lugar.

O destaque para a Contabilidade se dá no enfoque político da cidade, que é


considerado o berço do Renascimento. Seu governo, denominado “república florentina”
trouxe aspectos jurídicos relevantes que reviveram a idéia da cidadania romana. A estrutura
política da cidade estava dividida em três poderes: o executivo, administrativo e o legislativo.
Nos atendo ao orgão administrativo temos uma série de orgãos que tinha representavidade em
um conselho.

Isso é o que afirma Pisnky (2003, p.102) sobre o poder administrativo:

As decisões do poder administrativo, ao lado do executivo, surgiam de uma série de


conselhos: os ufficiali di parte guelfa (assembléia eleita, constituida quase exclusivamente
por membros das grandes famílias, e com funções mal definidas); os sei di mercanzia (uma
espécie de tribunal do comércio); os otto di guardia (encarregados da segurança do
Estado); os dieci di balía (responsáveis pelos assuntos militares e pelas relações
diplomáticas em tempos de guerra); os ufficiali di monte (encarregados de supervisionar o
funcionamento do orgão central das finanças florentinas); o monte (encarregado da
administração da dívida pública); os consoli delle arti (cônsules que representavam as
diferentes corporações de artesãos e comerciantes); o podestà (em geral, um forasteiro
encarregado da administração da justiça) e o podestà das cidades súditas de Florença; e o
capitano del popolo (uma espécie de tribuno, ao qual era confiada a defesa dos interesses
do povo contra o abuso dos grandes).

Desta afirmação podemos entender muitos aspectos jurídicos relacionados a


Contabilidade. Primeiramente, a formação de um Tribunal do Comércio é um avanço na
relação da Contabilidade com a lei, pois ela se torna responsável pela solução de falências,
aberturas de empresas, contratos comerciais, dentre outros. Depois, observamos uma espécie
de tribunal de contas no orgão encarregado de supervisionar o funcionamento do orgão central
das finanças florentinas, o que nos apresenta um esboço para o que seria uma controladoria.

Outro aspecto diz respeito ao orgão que administrava a dívida pública,


possivelmente dívidas internas referentes a entidades da própria cidade. A escola contábil
personalista surgiu muitos anos após esse tipo de organização, mas nota-se uma imagem do
que seria a escola toscana. Por exemplo, Schimidt (2008, p.32) afirma que “para os teóricos
do personalismo, as contas deveriam ser abertas a pessoas verdadeiras, físicas ou jurídicas,
e o dever e o haver representavam débitos e créditos das pessoas a quem as contas foram
abertas”. Essa relação jurídica foi implementada nesse período com a república florentina e
seu sistema de cidadania que diferenciava os moradores em classes distintas e direitos
diferentes.

Esse sistema político organizado em Florença não poderia ser administrado


sem o uso do sistema de partidas dobradas. É fato que muitos registros contábeis foram feitos
independentes do que era ensinado na obra de Pacioli, ou seja, a dualidade das partidas partiu
de algo lógico e inato do conhecimento ecônomico. Em Florença, particularmente, o primeiro
esboço deste método deve ter sido influenciado e muito pelos príncipios de direito baseados
em Roma. A quantidade de orgãos que controlava as finanças públicas demonstra a pesada
prestação de contas que havia na cidade, sendo necessário ter um controle das contas muito
bem administradas.

2. Considerações Finais

Como visto, muitos fatos ocorreram no período de consolidação do método das


partidas dobradas. A Contabilidade foi apenas uma dentre várias outras inovações, como as
transações marítimas e a relação Europa Oriente. Entretanto, se observa a utilidade da Ciência
Contábil na época, sem ela seria muito díficil um conglomerado de pessoas trabalhando em
suas respectivas corporações. Ainda mais, a própria vida em sociedade se torna inviável sem
as técnicas contábeis.

Luca Pacioli, de fato, não foi o inventor da dualidade das partidas dobradas,
muito pelo contrário, o sistema já havia sido encontrado até mesmo em outra cidade que não
Veneza. Porém, ele é responsável por padronizar o método o que foi essencial para a
expansão econômica. O que se torna relevante dentro da pesquisa, é a utilização do método
em lugares diferentes mas períodos próximos. Possivelmente, uma elaboração natural
decorrente da necessidade da escrituração. Ou ainda, um conhecimento realmente anterior a
esse período, no entanto, não documentado.

Seja como for, a dualidade é um sistema e como tal, foi estruturada através de
uma lógica simples, com base nas relações de direito entre os comerciantes e o estado. As
novas formas de contratos evidencia a preocupação nessas relações jurídicas e comprova seu
uso no que seria a primeira forma de sociedades por quotas de participação. A introdução de
bancos também mostra como as finanças européias se adiantavam em relação as outras
civilizações. Serviços de câmbio, depósito e giro eram necessários para uma economia sólida
e eficiente.

Portanto, a Contabilidade se mostra essencial não só naquela época como


também na atualidade. Na busca de entender o contexto em que se situava os primeiros
esboços da dualidade das partidas dobradas, encontramos informações relevantes que podem
nos apontar para a sua criação de fato.
3. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

A riqueza e a pobreza das nações: por que algumas são tão ricas e outras tão pobres,
David S. Landes, Rio de Janeiro, Elsevier, 1998.

Controladoria: uma abordagem da gestão econômica – GECON, Armando Catelli


(coordenador), 2. Ed., São Paulo, Atlas, 2010.

História da cidadania, Jaime Pinsky, Carla Bassanezi Pisnky, 2. Ed., São Paulo, Contexto,
2003

História da contabilidade: foco na evolução das escolas do pensamento contábil, Paulo


Schmidt, José Luiz dos Santos, São Paulo, Atlas, 2008.

Historia general del trabajo, Joaquín Romero, España, Grijalbo, 1965.

Nova Enciclopédia Barsa, São Paulo, Barsa Consultoria Editorial Ltda., 2001.