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Transtornos Alimentares – Um Enfoque Psicanalítico

Transtornos Alimentares
– Um Enfoque Psicanalítico
Gilda Kelner
Médica. Psicanalista. Membro do Círculo Psicanalítico de Pernambuco. Professora Universitária.

Palavras-Chave: Anorexia – Bulimia – Introjeção – Incorporação – Imagem corporal

Faz revisão da literatura sobre anorexia e bulimia, discorrendo sobre várias teorias de
interpretação desses distúrbios, centrando sua discussão sobre Freud, Klein e Ferenczi.
Salienta alguns casos clínicos atendidos em hospital geral.
 

A compreensão e a interpretação identificação com o objeto como a


dos transtornos que afetam o com- forma de vinculação das mais antigas,
portamento alimentar e a vida nutricio- mas diferenciou-a da relação objetal. O
nal não podem prescindir de uma pai da Psicanálise deu mais relevo ao
referência à Psicanálise. aspecto auto-erótico do que ao alo-
A obesidade traz à cena não apenas erótico da vida primitiva infantil.
uma referência estética e psicossocial da Para Melanie Klein, a atitude da
imagem do corpo, como também um criança em relação a seus objetos é
complexo de identificações positivas e inteiramente determinada por suas
negativas se compreendendo genealo- necessidades físicas, seus impulsos e
gicamente. São processos muito arcai- fantasias. É por intermédio de suas
cos, cujo desvendamento psicopatoló- sensações que a criança tem experiência
gico está centrado nos investimentos de seus objetos: e a experiência sen-
primitivos do intercâmbio alimentar, na sorial constitui a matriz tanto da
relação objetal. fantasia inconsciente como da per-
Freud sublinhou o significado cepção consciente. Apesar de sua
marcante das experiências libidinais fragilidade extrema, o bebê assume uma
infantis, no contato da criança com o atitude onipotente em relação a seus
seio materno, seu primeiro objeto, mas objetos, imaginando-os como fazendo
não aprofundou a análise de seu parte dele, vivendo apenas através dele
conteúdo, as emoções e fantasias e para ele.
envolvidas nessas primeiras experiên- Ainda para Klein, com a pre-
cias. Freud não pensava que a criança dominância dos instintos orais, nesta
formasse relações objetais em seus fase precoce de desenvolvimento
primeiros tempos de vida. Descreveu a libidinal, um bom objeto, para o bebê,
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é o que tem bom sabor e dá prazer à uma solicitação de alimento, e a


boca. Depois de deglutido, sacia a fome administração desse alimento é sentida
e aplaca as sensações de desconforto. como algo que ela recebe, mas não é o
O mau objeto é o que frustra, tem um que ela precisa e demandou, os sentidos
mau sabor e não é bem aproveitado. De ficando, desde então, muito confusos.
acordo com as idéias kleinianas, haveria No meu entender, Ferenczi, no seu
tendências para a criança usurpar o artigo de 1909, “Transferência e Intro-
“ bom objeto”, incorporando suas jeção”, introduz questões fundamentais
qualidades, e projetar as qualidades para o assunto ora relatado. O autor
do “mau objeto”, ou seja, introjetar inicia lembrando os avanços da teoria
o que é agradável e projetar o que é psicanalítica relativos à transferência e
desagradável. à histeria. Ao escrever sobre a trans-
Vale aqui lembrar a idéia de Paula ferência em relação ao médico, ele opõe
Heimann, de que “frustração e gratifi- a problemática do neurótico à do
cação podem ser definidas em termos demente precoce e do paranóico. O
de separação e união. O mais simples demente retiraria totalmente seu
padrão de gratificação é representado interesse do mundo externo. O paranó-
pela entidade ‘ boca faminta/seio ico, ao contrário, rejeitando esse
nutriente’ ,um padrão de experiência interesse fora de seu ego, projetaria no
que não conduz a uma nítida diferen- mundo exterior seus desejos e tendên-
ciação entre sujeito e objeto”. Dentro cias. Por fim, o neurótico, de maneira
desta linha de raciocínio, o objeto oral oposta, procuraria incluir em sua esfera
não é apenas mantido na boca, mas de interesse uma parte tão grande
também incorporado, introjetado, quanto possível do mundo externo, por
projetado, e os mecanismos de intro- meio de um processo, inverso ao da
jeção e projeção se desenharão ligados projeção, que Ferenczi propõe chamar
a fantasias do bebê, do que se poderia de introjeção.
inferir que o objeto do bebê poderia No início, segundo ele, o recém-
estar dentro ou fora de seu corpo e, nascido experimenta todas as coisas de
mesmo estando fora, seria uma parte um modo monista, quer se trate de um
dele, sendo, ainda, indistintas as estímulo externo, quer se trate de um
fronteiras do corpo. processo psíquico. Mais adiante, ele
Sandor Ferenczi e a escola húngara distingue entre as coisas submetidas ou
reconheceram a existência de relações rebeldes ao seu desejo, o monismo se
objetais infantis. Como bem disse transformando em dualismo, aparecen-
Jurandir Freire, o adulto e a criança do o mundo externo e a oposição ego/
ferenczianos são sujeitos psicanalíticos, mundo externo. Surgem as tentativas
são sujeitos divididos e não sujeitos de expulsar os afetos desagradáveis, que
racionais, idênticos a si mesmos. Para nem sempre são facilmente expulsos,
Ferenczi, há uma independência lógica pois o mundo externo não se deixa tão
de sentido no que diz respeito à facilmente expulsar. “O ego cede a este
identidade do objeto que serve de desafio, reabsorve uma parte do mundo
referência, ou seja, não existe uma externo e nele espalha seu interesse:
relação necessária entre palavras e assim constitui-se a primeira introje-
coisas. É por esta razão que uma mãe ção”, segundo Ferenczi. Desta forma, o
árida, oca, operatória, pode interpretar primeiro amor e o primeiro ódio
qualquer choro da criança como sendo realizam-se graças à transferência, as
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primeiras sensações de prazer/desprazer, cias fundamentais de ruptura e de falta,


inicialmente auto-eróticas, deslocam- tais como a separação do nascimento,
se para os objetos que as suscitaram. O o desmame, o afastamento da mãe e a
bebê, inicialmente, gosta da sensação castração, que vão dar possibilidades ao
de saciedade, depois passa a gostar do sujeito de elaborar sua subjetividade.
objeto que lhe proporciona a saciedade. Ela será articulada através do espaço
No artigo seguinte sobre este vazio deixado pela perda do objeto
tema, de 1912, Ferenczi redefine suas primordial. A carência dessa interiori-
posições: dade tem por conseqüência nociva, por
Descrevi a introjeção como a vezes até mortífera, a exclusão da
extensão para o mundo externo do atividade libidinal da cadeia simbólica.
interesse, originalmente auto-erótico, A relação com a mãe torna-se uma
por meio da introdução dos objetos relação ‘tranqüilizante’, sendo um
externos na esfera do ego. Considero facilitador para a compulsão, numa
qualquer amor objetal ou qualquer tentativa de suplência da falta”.
transferência como uma extensão de Tanto em anoréticos, como em
ego ou introjeção. Em ultima análise, bulímicos, coloca-se o problema da
o homem pode amar apenas e uni- imagem do corpo. Schilder, em 1935,
camente a si mesmo: amar a um outro concebeu a imagem do corpo como
equivale a integrar este outro a seu algo mais que um modelo postural,
ego. É esta união entre os objetos surgindo de mudanças de posição, mas
amados e nós mesmos, esta fusão dos representando um modelo integrado de
objetos com o nosso ego, que chamei todas as experiências orgânicas e
de introjeção e, repito, estimo que o psíquicas. O autor destacou a importân-
mecanismo dinâmico de qualquer amor cia da variante mobilidade neste
objetal e de qualquer transferência conceito – através dos movimentos
sobre um objeto é uma extensão de ego, variados, se percebe a imagem do
uma introjeção. corpo. É de notar a inatividade, tão
É importante diferenciar os termos característica do obeso, relacionada à
introjeção e identificação em Ferenczi. grave perturbação de seu conceito
A introjeção é um processo e a identifi- corporal.
cação é um mecanismo, um mecanismo Alperovich publicou um trabalho,
de assimilação e englobamento de uma na Revista Argentina de Psicanálise, com
parte do objeto (a mãe) no narcisismo um título curioso: “Gênesis y perpe-
primário do sujeito. Nos transtornos tuatión de la obesidad o Come y
alimentares estamos nos deparando quedate quieto”. Ele assinala que o
fundamentalmente com estas questões. obeso sedentário de hoje foi o filho
Segundo Lacan, a castração envol- imobilizado de ontem.
ve ambas as figuras parentais, sendo que Na Odisséia, Homero refere que
inicialmente ocorre uma castração Circe converte os tripulantes em
materna, que se sucede de uma castra- veados, alegorias da obesidade. Para tal,
ção paterna. A ineficiência desta os encerra com bastante comida e
segunda etapa deixaria o indivíduo bebida. Euríloco, representante pater-
submetido à devoração pela mãe. Para no, entregou os tripulantes a Circe,
Justus1, “são exatamente essas experiên- representante materna, que, passiva-

1
No seu artigo “Anorexia, uma tenacidade cega”, disponível no site Estados Gerais da Psicanálise

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mente, se entregaram à submissão, da exercício será modulado por seu investi-


mesma forma que são enjaulados os mento narcísico sobre o bebê, o que vai
animais para a engorda, depois de influenciar decisivamente o desem-
castrá-los. penho das funções de para-excitação ,
O grupo de estudos peri-natais em descritas por Fain (1971) e de cuja
Buenos Ayres, liderado por Rascovsky, eficiência (ou ineficiência) haverá a
descreveu a situação pós-natal mais modificação do sofrimento psíquico e
precoce facilitadora da fixação oral. físico do bebê.
Eles destacam que esta ocorre quando, Aulagnier argumenta que mesmo
na sexta semana de puerpério, em plena que a mãe seja a porta-voz, a palavra se
fase de amamentação, não se reinicia, interpõe entre ela e seu bebê como uma
ou se reinicia mal a vida genital dos terceira pessoa. E a voz da mãe é
pais, do que resulta uma excessiva acompanhada de sua própria cor-
erotização da amamentação, que facilita poralidade. Com a voz, tanto podemos
a futura orientação com predomínio acariciar como ferir, tanto se pode abrir
oral do filho, fenômenos que o autor horizontes, como aprisionar trajetórias.
denomina genitalização da oralidade. À voz materna, somam-se outras
Assim, do amplo espectro de inter- percepções dos sentidos, o odor, o tato,
câmbio possível entre a mãe e o filho, etc. O que importa é nos darmos conta
ela exerce, quase com exclusividade, o de que não se trata de sensações em si,
caminho da alimentação. E o pai, iner- mas de seu registro, do modo como são
te, não ocupa seu espaço, não exerce representadas psiquicamente.
seu papel na interdição da “overdose” As mães dos obesos não compre-
materna. endem seus apelos e, diante de qual-
McDougall ressalta que o lactente quer demanda, respondem com alimen-
não faz a menor distinção entre dor tação. Tal atitude não habilita a criança
física e dor afetiva. Por lhe faltar capaci- a discriminar a fome de outras sensações
dade de representar simbolicamente de desconforto. Desta forma, o adulto
suas vivências, o bebê não pode pensar bulímico procurará, no alimento, o pre-
o próprio corpo e as sensações que dele enchimento deste imenso vazio interior.
emanam, nem reconhecer os próprios Do ponto de vista fisiológico, a
sentimentos dolorosos como seus. A mulher tem maior quantidade de tecido
autora se coloca uma questão funda- adiposo que o homem e este, maior
mental: como o corpo bio-lógico se quantidade de tecido muscular que a
torna um corpo psico-lógico, ou seja, a mulher. Assim, na criança obesa, o
representação psíquica de um corpo excesso de gordura poderia significar
nominável, unificado e erógeno? Como excesso de mãe, e a imobilidade, por
o soma e a psique se comunicam? hipotonia muscular, uma falta de pai.
Aulagnier afirma que a passagem O obeso, internalizando sua peculiar
do estado de infans para o de criança se trama de interação familiar e reeditando
acompanha de uma primeira diferen- vínculos análogos, que contribuem para
ciação, a troca de mensagens entre a a perpetuação da obesidade, costuma
psique e o soma não se faz mais em cir- viver uma estreita monotonia oral, em
cuito fechado: um destinatário externo detrimento do amplo espectro de
passa a fazer parte dele. E este des- alternativas de vida.
tinatário externo é a mãe, em suas Colette Chiland publicou um
funções maternas primárias, cujo trabalho cujo título é muito sugestivo;
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“A Realização do ideal hermafrodita. Segundo Fedida, a consumação


Coma, meu filho, tu serás gordo, tu solitária e escondida de guloseimas pode
serás homem e mulher”. Este trabalho ser também interpretada como uma
teve como objetivo fornecer algumas compulsão de compressão interior de
ilustrações clínicas de uma fórmula objetos, a fim de evitar que apareça um
defensiva, dentre outras, aquela de uma vazio. A semiologia do fantasma é aqui
tentativa de realizar uma transformação extremamente simbólica e variada. Ela
do corpo, para adquirir algum atributo coloca em jogo, na cura, a problemática
do outro sexo, conservando os seus axial da incorporação, assegurando, ao
próprios. Não se trata de transsexualis- conteúdo alimentar, a ambivalência de
mo mas da realização do que Joyce um efeito reparador e destruidor, ou
McDougall, com muita propriedade, ainda, gratificante e persecutório. É
chamou de ideal hermafrodita. Chiland bem isso que se ouve na conversa do
enfatiza que não pretende generalizar obeso, onde se misturam a angústia, a
a psicopatologia da obesidade de culpabilidade e a auto-agressividade: a
garotos no período de latência. Relata compulsão se entende, segundo esta
as suas observações através da análise bipolaridade, de uma falta interior a
desses meninos e percebe uma tentativa preencher ou a reparar e de uma
de realização do ideal hermafrodita, em representação de desejo a anular ou a
se colocando atributos corporais femi- destruir. Talvez a bulimia seja, parado-
ninos (seios, ancas, ventre e escon- xalmente, o meio do qual o obeso se
dendo o pênis na gordura suprapúbica) serve para destruir, por asfixia, por
e conservando os seus próprios, do sexo sufocação, a criança que, nele, reclama
masculino. As mães desses garotos e exige o amor único ao qual ele
esperavam uma menina e se depararam pretende com exclusividade.
com uma criança do sexo masculino. Descrevendo uma crise bulímica da
No curso de um tratamento ana- véspera, uma solteirona de cincoenta
lítico, o problema da obesidade é e três anos comenta: “Eu fazia de tudo
colocado de forma variável. Com para chamar a atenção de meu pai.
efeito, se a palavra tem, em Psicanálise, Cuidava de tudo, da casa, de meus
o lugar que se conhece, é que ela traz a irmãos. Ele não via nada disso. Só tinha
marca de sua oralidade. O elo entre o olhos para minha irmã. Ele foi à
comer e o falar não é simplesmente formatura dela e não foi à minha.
analógico, é fundador de uma com- Quando penso em tudo isso, choro e
preensão do que se encontra em jogo só tenho vontade de comer, sem parar”.
numa psicanálise, esta “zona inter- Há que se chamar a atenção tam-
mediária” da qual falava Winnicott, bém para a agressividade verbal neces-
para designar o espaço primordial de sária para não vomitar, em certos
troca entre boca e seio. No curso de pacientes. Ao invés de alimentos,
uma psicanálise ou de uma psicoterapia, vomitam palavras, cujo significado é
as flutuações dinâmicas do compor- muito significativo em relação à sua
tamento oral alimentar, freqüen- angústia. Não é rara a verborréia nas
temente as inversões súbitas ano- obesas.
rexiabulimia, podem, com certeza, ser É freqüente que se mostrem com
globalmente percebidas como ex- pênis, em sonhos, as obesas em tra-
pressões singulares de defesa contra a tamento psicanalítico. Groddeck já
angústia. interpretava a obesidade do homem
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como um desejo de identificação à apesar de serem estes achados muito


mulher, na representação inconsciente escutados nas pacientes obesas, não são
de estar grávida. As mulheres desejam exclusivos delas, nem esta é sempre a
freqüentemente um pênis, para preen- sua fala.
cher seu vazio interior. O que está em No tratamento psicanalítico, a
jogo é a completa insatisfação consigo atualização dos processos primários
próprios, tanto do homem quanto da exalta o lugar da oralidade alimentar e
mulher obesos, que segui em trata- da imagem da obesidade. É a cons-
mento analítico. E de sua mais extrema tituição de um espaço interior que,
solidão. Posso lembrar da vida miserável finalmente, vem assegurar as condições
de uma pobre mulher gorda que, desde de uma nova imagem narcísica e é a
criança, era ridicularizada no colégio, partir daí que o paciente pode encon-
pela imagem e, quando adulta, era trar seu regime alimentar equilibrado e
motivo de comentários de todos na as atividades físicas e esportivas que lhe
pequena cidade do interior onde convêm, sem atribuir ao exterior a
morava. Ela se fechou mais e mais, solução de todas as suas dificuldades
reivindicava o direito de ser ignorada, psíquicas.
recolheu-se à solidão.
Segundo Igoin, no seu trabalho Anorexia
“Les Amatrides”, a mulher gorda que
se isola é obcecada pela crença de A anorexia nervosa se tornou uma
reencontrar a humilhação do aban- entidade clínica independente através
dono. Este termo procura descrever o dos trabalhos concomitantes de Gull,
fosso entre os desejos e não mais a na Inglaterra, e de Lasègue, na França,
realidade, mas o corpo. A solidão é há mais de cem anos. Com seu quadro
invocada como parada defensiva face clínico exuberante e dramático, foi
às rejeições que a corpulência suscita. chamada de “consumação nervosa” e se
Solidão e corpulência – qual esconde a lhe atribuiu, desde o início, uma ligação
outra? com a histeria, sobretudo por sua
A literatura psicanalítica e as predominância no sexo feminino.
próprias pacientes obesas atribuem à Posteriormente, outras organizações
obesidade uma posição de defesa contra patológicas foram adicionalmente
a sedução. A abundância de carnes identificadas.
poderia representar uma dessexuali- O saber médico só prevaleceu
zação. Diante do desafio impossível do sobre as crendices populares quando se
Édipo, como refere Mc Dougall, a caracterizou as jejuadoras ou anoréticas
mulher gorda se refugiaria no arcaico como doentes e não como bruxas,
carregado pela oralidade. Não se possuídas pelo demônio e candidatas ao
contam mais as numerosas interpre- exorcismo. Não se pretende, no mo-
tações pré-genitais através das quais se mento, analisar a posição exorcista do
tende inexoravelmente, às vezes de clero opressor, representante das forças
forma estereotipada: regressão simbió- divinas, mas há que se pensar no poder
tica, regressão ao estágio oral, a incor- que ele se atribuiu e quanto essas
poração da mãe para tornar-se parte pacientes lhe serviram aos propósitos.
integrante dela, o objeto transicional Santa Clara de Assis caminhava
destinado a aplacar a angústia de se- descalça, dormia no chão e fazia jejum
paração, etc. É importante lembrar que, sistemático, assim como São Francisco
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de Assis. Outras jovens religiosas cooperar com os médicos nestes proce-


seguiam as mesmas práticas. Aguirre2 se dimentos, se sentirá diante de um
pergunta que diferença haveria entre a seríssimo problema ético.
identificação dessas jovens de então e Recentemente, uma paciente cir-
as de hoje... em relação a modelos. E culava pela enfermaria do alto do seu
prossegue com seus questionamentos: metro e setenta de altura, pesando 32
“Parece que estes sintomas não são kg, sem nenhuma forma feminina.
próprios da pós-modernidade, foram Desapareceram os seios, as ancas, sem
descritos e identificados em tempos vestígios de qualquer curva, e achando-
distintos da história. Santas, histéricas, se gorda. Seu avô médico se desca-
anoréticas, parecem ser alguns nomes belava pelo hospital, procurando as
dados a estas mulheres problemáticas razões para o que ele chamava de tanta
que não se ajustam ao discurso da sandice, mas quando aprofundou as
época”. E homens também. O artista conversas com a equipe, saiu de mansi-
da fome descrito por Kafka confessa ao nho e não mais quis procurar expli-
inspetor, à beira da morte, por inani- cações para nada. Principalmente
ção, que não pôde evitar o jejum por- depois que não pôde circunscrever a
que não havia comida que lhe agra- causa da doença da neta à omissão da
dasse. “Se a tivesse encontrado, podes figura paterna, no caso, seu genro.
acreditá-lo, me teria fartado como tu e Parece que se assustou.
como todos”. Nada lhe interessava. Quanto à mãe, não se ausentava
À maneira dos paranóicos, o ego do hospital para nada e estava invasi-
das anoréticas parece contraído, de vamente atenta às discussões clínicas,
acordo com as idéias de Ferenczi, inclusive quando era convidada a
rejeitando alimentos, cuidados, tudo retirar-se. Preenchia todas as caracterís-
lhe parecendo persecutório e destruidor, ticas descritas para a figura materna
rejeitando também possivelmente a dessas pacientes, possessivas, castra-
feminilidade. Quando recusam o ali- doras, dominadoras, invasivas, enfim,
mento e chegam à inanição, qualquer insuportáveis. Sabendo-se da omissão
tentativa de alimentá-las no hospital é desse pai, essa filha foi o chamado prato
peremptoriamente recusada. Ás vezes, cheio para o engolimento e a devoração
a equipe médica, diante da desnutrição pela mãe. Há que se atentar para o
e desidratação severas, introduzem grande perigo das generalizações. Isso
sondas nasogástricas para hidratá-las, não quer dizer que todas as mães de
que são freqüentemente retiradas por anoréticas sejam assim, apenas grande
elas. O psicanalista se depara com uma parte delas.
situação dificílima, pois que precisa Vale salientar que estamos falando
defender sua paciente do que ela sente de pacientes anoréticas gravíssimas,
como “abuso” e é pressionado pelos com estrutura psíquica fronteiriça,
médicos, que não querem ser cúmplices beirando a psicose, mas não podemos
de um suicídio exibido e exibicionista. esquecer do enorme número de pacien-
Afinal, “somos seres olhados no espetá- tes anoréticas, principalmente adoles-
culo do mundo”, de parte a parte. Por centes (10% da população teen ameri-
mais que ele compreenda que não deve cana feminina), pressionadas pelo

2
No trabalho “Patologías Actuales”, disponível no site dos Estados Gerais da Psicanálise

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protótipo das modelos, magríssimas, uma defesa, uma saída patológica. A


esqueléticas, neste mundo do espetá- Medicina quer corrigir a anorexia e a
culo de Dabord. Qual é o ideal de desnutrição, “impedindo” a morte. A
nossos dias se não obedecer a padrões? Psicanálise quer compreender o que
Sua estrutura é bem diferente da significam.
paciente citada acima e seu prognóstico Na mesma enfermaria estavam
bem menos grave. Essas mocinhas se internadas a anorética e uma paciente
alternam entre jejuar e comer compul- hepatopata, testemunha de Jeová.
sivamente, provocando vômitos logo Qual seria a relação entre a recusa à
em seguida. É interessante notar que as hemotransfusão das testemunhas de
crises bulímicas ocorrem nas caladas da Jeová e a recusa do alimento pela
noite, quando ninguém as olha, pois paciente anorética? A paciente teste-
elas se afiguram como fortes, poderosas munha de Jeová estava muito anêmica
e respeitáveis enquanto jejuadoras. por causa de sangramentos digestivos
Comer, só escondido, e com enorme re- repetidos e a família recusava a trans-
morso, procurando imediatamente uma fusão. O pastor já havia comparecido
reparação, que é o vômito provocado, ao hospital e pretendeu assinar um
para expulsar o demônio do corpo. termo de responsabilidade. A paciente
A mídia exibe exaustivamente o também confirmava a recusa, mas não
padrão atual de beleza. As longilíneas de forma tão enfática. Afinal de contas,
modigliânicas substituíram definitiva- era ela que estava com risco de vida...
mente as rechonchudas de Renoir. E “a No dia seguinte, ao ser novamente
imagem tem o extraordinário poder de abordada pelo médico residente, ela
captar as angústias e desejos (dos disse uma frase interessante: “Doutor,
indivíduos), de controlar-lhes a inten- receber transfusão é pecado do mesmo
sidade e SUSPENDER-LHES (grifo jeito que sexo fora do casamento, mas
meu) o sentido... A vida psíquica do se a mulher é estuprada, ela não é
homem moderno situa-se entre os pecadora e sim o homem que a estu-
sintomas somáticos (doenças, hospital) prou!” Ocorre uma erotização do
e a transformação dos desejos em sangue e a hemotransfusão, nestes
imagens (devaneio diante da televi- moldes, seria um “estupro consentido”?
são). Em tal situação, ela se bloqueia, Seria a recusa ao alimento um “ estupro
inibe-se, morre” (Julia Kristeva). recusado”? Até porque o estupro
Segundo Kafka “a esquelética caracteriza, neste contexto, pelo menos
magreza do jejuador provinha de seu dois pares: Vilão/vítima e masculino/
descontentamento consigo mesmo....”. feminino. E a recusa à feminilidade é
O jejuador, contraposto à sua neces- um marco divisor entre estas duas
sidade de jejuar, sem parar, se articula à pacientes, entre estas duas espécies de
única forma possível de satisfação. recusa. Até onde o residente aceitou o
Jejuar e exibir o jejum e suas conse- papel de estuprador simbólico que o
qüências, “fanaticamente enamorado analista rejeita, na enfermaria?
da fome. A interrupção do jejum Segundo a história, os Lapiths
através da introdução da sonda naso- eram uma tribo guerreira, cujo chefe,
gástrica seria excluir a paciente de sua Kaineus, era impiedoso. Depois de
glória... o que ela não admitiria jamais”. muitas conquistas, chegou a vez de uma
A Medicina trata o sintoma... A derrota em que o chefe morreu. Veri-
Psicanálise interpreta o sintoma como ficou-se que Kaineus era uma mulher
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que havia sido estuprada e, como Renegação da sedução: desencanto e


prêmio, os deuses lhe deram a identi- ausência de sexualidade. “Se a histérica,
dade masculina, um pênis. Essa pa- na sua paródia enganadora do convite
ciente anorética também tinha algo de sexual, com sua dança aliciadora,
impiedade, massacrava sua mãe, os debate-se com a sedução e a utiliza
médicos e brincava com sua morte para como uma armadilha para submeter os
atingir essas pessoas. No caso de homens, a anorética recusa-se a isso”
Kaineus, havia uma dissociação entre (Bidau, 1998: 75).
o sujeito e seu corpo, como ocorre com Como resultado de um deficiente
a anorética. Ela se aliena de seu próprio exercício da paternidade, um dos
corpo e o admira como uma outsider, de paradigmas do mal- estar contem-
fora, silenciando seus desejos, de sede, porâneo, na anorexia, o par mãe-filha
de fome, de cuidados, de sexo, de amor. faz uma sólida união, formando como
Meng, em 1944, observou que a que uma liga, “uma cilada narcísica”
regressão, na anorexia nervosa, sobre- (Bidaud, 1998: 87).
pujava, em gravidade, aquela da neu- Numa mesma paciente, como já
rose e comparou-a à regressão na psico- referimos, a anorexia pode alternar-se
se. Propôs o termo “psicose do órgão”, com crises bulímicas.
embora admitindo que este termo Rizzuto sugere a expressão bulima-
encerrava um certo paradoxo. rexia, juntando estes sintomas aparen-
O autor destacou a deformação da temente opostos. Segundo ela, essas
estrutura do ego como sendo a essência pacientes têm um modo peculiar de se
da doença e comparou suas obser- relacionar com as palavras. Seu trato
vações com as de Federn (1934) nos com a palavra falada se dá de forma
estudos com esquizofrênicos, no que diz alienada. Gato não é gato, lebre não é
respeito à despersonalização dos pacien- lebre... Ela subverte a palavra e sua
tes e sua incapacidade para compre- função, que é dar significado às coisas.
ender os verdadeiros sentimentos. A paciente anorética retira o sentido
Paul Laurent Assoun, em Freud e a das palavras, como subtrai o sabor dos
Mulher, vê a anorexia como uma alimentos, o aroma do perfume e o
síndrome histérica que expressa enfati- sentimento da vida. Enfim, ela, destitui
camente algo de característico da todos os objetos, animados e inanima-
feminilidade. A anorética “apresenta dos, dos seus atributos, de suas funções.
um espetáculo que responde à perplexi- Nas crises bulímicas ela, ao mesmo tempo
dade de Freud, já que, em sua pretensão que procura preencher o seu vazio inte-
fantasística, ela é aquela que, por rior com selvagem voracidade, preten-
excelência, sabe o que quer”. Porém, o dendo que aquele alimento lhe traga
que ela ignora é que esse querer bem-estar, imediatamente o reconhece
determinado sustenta uma negação do como destrutivo, mau, e tenta expulsá-
desejo. Deste modo essa estrutura lo com a mesma “selvageria”.
neurótica traz um traço de perversão na A voracidade para ingeri-lo é
marca mesma de uma Verleugnung equivalente, em ódio, à necessidade
(renegação). “O querer garante a pre- de vomitá-lo, como se fosse a inter-
sunção do saber absoluto, mas esse cor- venção de uma lavagem gástrica para
po subjugado constitui uma barreira pa- eliminar um veneno mortal, antes que
ra algo que não quer se expressar, que é ele fosse absorvido pelo organismo,
o desejo pelo outro” (Assoun, 1993: 118). como uma paciente relatou.
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São célebres algumas frases que corpo da mãe, sem o instrumento


expressam os transtornos alimentares. psíquico imprescindível para tal objetivo.
“Aquilo é magro de ruim”, referin- As pacientes não vêem a anorexia
do-se a alguém que come muito e não como um problema e sim como uma
engorda. Se o fulano é ruim, ele projeta solução, o que torna dificílima qualquer
sua “ruindade” no objeto, tornando-o abordagem terapêutica.
um mau objeto, que não irá atender sua Lacan, citado por Breen, argu-
função nutridora. Mesmo assim, ele é menta que, se a identidade de uma pes-
ingerido em grandes quantidades, como soa é construída na linguagem, talvez
se a compressão interior tivesse uma a recusa em falar, tão característica das
conotação ambivalente de devorá-lo anoréticas, seja uma recusa de assumir
ou destruí-lo e de incorporá-lo. uma identidade, como feminina, e uma
Freud, em um de seus trabalhos, faz recusa de uma definição, como adulta.
um elo entre a anorexia nervosa e a Boris defende que a razão de ser
melancolia, focando a atenção para a de uma pessoa anorética é o triunfo
perda do apetite. onipotente sobre o objeto, dono de si
A escola kleiniana aponta o medo mesmo. Sua metodologia é conseguir
paranóide de ser envenenado, algumas evitar ser possuída pelo amor e seu
vezes ligado com a projeção da mãe ponto de contato é não necessitar
sobre a criança de seus próprios desejos nunca de nada, muito menos da
ou do medo depressivo de colocar em Psicanálise. Ela se apega à anorexia e
perigo os bons objetos internos. à impossibilidade de mudar, ela adere
Kestemberg e colaboradores rela- aos impedimentos e bloqueios de
tam os componentes perversos e maso- deslocamento.
quistas dos pacientes anoréticos e des- Breen revê a anorexia nervosa sob
crevem seu sentimento de estarem o enfoque do desejo e do medo da
“morrendo de prazer”. paciente em fundir-se com a mãe. Ele
Sours destaca a importância de descreve alguns sentimentos contra os
distinguir dois grupos de anoréticos. quais este estado de fusão forma uma
Um deles que, sob pressão da adoles- defesa, assim como algumas das conse-
cência, experimenta a ressurgência dos qüências, em particular a ausência de
desejos edípicos femininos, o que um espaço transicional e o que isso
conduz a soluções regressivas. O outro significa para o desenvolvimento
grupo compreende anoréticos que mental. Sugere que a anorexia seria
mostram defeitos estruturais do ego uma tentativa de aniquilar aquilo que
relacionados à falha da separação e constitui a natureza da existência
individuação precoces. humana: a desigualdade, a progressão
A gama sintomatológica da ano- do ciclo vital e a morte.
rexia nervosa engloba histéricos, A Medicina atual considera a
obsessivos, somatizantes, psicóticos, obesidade um transtorno metabólico,
fronteiriços, etc. transmitido geneticamente. Aqui não
Para Sprince, a anorética fica estamos tratando disso e sim da ingesta
comprimida entre o terror da solidão e alimentar compulsiva e da recusa
o terror do aniquilamento. Sob este alimentar absoluta, patológica.
enfoque a anorexia pode ser compre- Todas essas considerações psicopa-
endida como uma tentativa da adoles- tológicas concernentes aos transtornos
cente de ter um corpo diferente do alimentares são pertinentes e merecem
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o mais respeitoso aprofundamento, no


entanto, há que sempre lembrar a bibliografia
singularidade do paciente. Sua história
é absolutamente única, assim como sua AULAGNIER,P. La violence de l’ Intérpretation,
Paris, PUF, 1975.
relação com o analista. O paciente . (1989). O aprendiz de historiador e o
bulímico ou anorético, assim como mestre-feiticeiro: do discurso edificante ao
nenhum outro, pode ser reduzido a uma discurso delirante. Trad. Cláudia Berlinguer.
estereotipia, a um clichê. São Paulo: Escuta, 1989.
Por fim, gostaria de chamar a aten- ALPEROVICH, B. J. (1988) Genesis y Perpe-
tuación de la Obesidad o “ Comé y quedáte
ção para o cuidado especial no trata-
quieto!”. Revista de Psiconálisis, 45,5. Buenos
mento psicanalítico desses pacientes. Aires.APA
Clarice Lispector, em janeiro de ASSOUN,P.L. Freud e a Mulher, Rio de Janeiro:
1947, de Berna, escreveu a uma amiga: Jorge Zahar, 1993.
“Até cortar os próprios defeitos pode ser BORIS, H. The problem of anorexia nervosa.
perigoso – nunca se sabe qual é o defeito Int. J. Psycho-Anal., 65:315-322, 1984.
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que sustenta nosso edifício interior”. Nervosa. Int. J. Psycho-Anal., 65,435, 1984.
Atrás da problemática da irrepre- BREEN, D. B. Working with an anoretic patient
sentabilidade de que sofrem esses pa- Int.J.Psycho-Anal. (1989) 70,29.
cientes, com horror ao vazio, aos abis- BRUCH, H. Eating Disorders, Obesity, Anorexia
mos impenetráveis, às angústias de Nervosa and the Person Within. London: Routledge
and Kegan Paul, 1974.
fragmentação e, ainda, das confusões
CHILAND, C. La réalization de l’Ideal
de lugar, entre dentro e fora, self e não Hermaphrodite: Mange, Mon Fils, Tu Sera Gros,
self, real e imaginário, despende-se Tu Seras Homme et Femme. Rev. Française de
muito tempo de tratamento para que o Psichahalyse, 9, 1975.
processo psicanalítico possa transformar FEDIDA, P. Corps du vide et espace de scéance.
esses “terrores sem nome” em terrores Paris, Editions Universitaires, 1977.
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The author proceeds with a literature IGOIN, L. Les Amatrides. Nouvelle Revue de
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