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Tobias Peucer: Progenitor da Teoria do Jornalismo

Jorge Pedro Sousa∗

Índice 1 Introdução
1 Introdução . . . . . . . . . . . . . 1 Quando, em 1690, o alemão Tobias Peucer,
2 As fontes de Peucer . . . . . . . . 4 um erudito de Görlitz que tinha estudado te-
3 Tobias Peucer, o precursor da Teo- ologia e medicina, apresentou, na Universi-
ria do Jornalismo contemporânea . 5 dade de Leipzig, Alemanha, a sua tese dou-
4 Tobias Peucer: o autor do primeiro toral sobre as relações e relatos de novida-
manual de jornalismo . . . . . . . 10 des1 , diríamos hoje sobre jornais e notícias,
5 Conclusões . . . . . . . . . . . . 12 ou seja, sobre jornalismo, o tempo era de
6 Bibliografia . . . . . . . . . . . . 12 mudança política e social. A Reforma Pro-
testante tinha abalado a autoridade da Igreja
Católica e exigia aos crentes um desenvol-
Resumo vimento pessoal centrado na educação, pro-
Este texto pretende situar o papel de Tobias pondo também uma nova ética para os ne-
Peucer enquanto progenitor da Teoria do Jor- gócios e a política, para o relacionamento
nalismo, destacando a forma como esse pes- interpessoal, para o relacionamento entre as
quisador alemão, na sua tese doutoral, apre- pessoas e as instituições e ainda para a in-
sentada em 1690 à Universidade de Leipzig, tervenção nos assuntos públicos. A burgue-
na Alemanha, apontou caminhos para a pes- sia comercial em ascensão, cada vez mais
quisa e reflexão que outros autores só come- enriquecida, reivindicava protagonismo na
çaram a seguir dois séculos mais tarde. Peu- gestão da “coisa pública”, adivinhando-se a
cer reflecte sobre ética “jornalística”, rela- crise do Absolutismo Régio. O “espaço pú-
ções entre “jornalismo” e história, critérios blico”, na versão de Habermas (1989), co-
de noticiabilidade, o papel do mercado na meçava a criar-se com as discussões racio-
configuração da informação e mesmo sobre nais sobre negócios e política nos clubes de
agendamento, temas centrais da Teoria do cavalheiros e cafés, em cidades como Lon-
Jornalismo contemporânea. 1
Peucer denominou a sua tese “De Relationibus
∗ Novellis”, podendo a terminologia referir-se quer aos
Jorge Pedro Sousa é professor associado e pes-
periódicos da época no seu conjunto quer às notícias
quisador da Universidade Fernando Pessoa, Porto,
em si, os relatos (“relationes”) de "novas comunica-
Portugal. É doutor em Ciências da Informação pela
ções"(“novellae”), ou seja, de novidades ou notícias.
Universidade de Santiago de Compostela, Espanha.
2 Jorge Pedro Sousa

dres e Paris. Intelectuais como John Locke2 mais fiável do que o pergaminho ou o papiro
defendiam o direito à revolta contra ditado- para a indústria tipográfica;
res e tiranos, avançando com a ideia de que c) A vontade de alguns negociantes, mui-
governantes e governados devem estabelecer tos deles proprietários de tipografias, que co-
um contrato em que os segundos consentem meçaram a ver nas notícias uma mercadoria
livremente em ser governados pelos primei- capaz de gerar lucro;
ros, em favor do bem comum, que deve ser e) A necessidade de informações econó-
perseguido pelos governantes. A sociedade micas que alimentassem os negócios numa
ocidental dava os primeiros passos em direc- sociedade capitalista em expansão;
ção ao liberalismo político. O período era f) O aumento dos fluxos de informação,
também de pré-Revolução Industrial, apare- a nível nacional e internacional, que retro-
cendo novos inventos a velocidade crescente. alimenta o processo (as publicações acele-
Ora, quando mais uma sociedade está su- ram os fluxos de informação e estes, por sua
jeita à instabilidade e à mudança, mais as vez, estimulam o aparecimento de novas pu-
pessoas necessitam da comunicação social blicações).
para satisfazerem necessidades informativas, A imprensa existente no século XVII, ob-
compreenderem o mundo e compreenderem- jecto de estudo de Tobias Peucer, não era ho-
se a elas mesmas e obterem orientação (Ball- mogénea e as suas raízes directas remontam
Rokeach e De Fleur, 1986). O século XVII à Idade Média. Coexistiam vários tipos de
foi, assim, um período de florescimento dos publicações, podendo todas elas ser conside-
antepassados dos jornais contemporâneos. radas antepassadas dos jornais contemporâ-
Estas publicações, porém, não tiveram su- neos3 . As relações de novidades (relações
cesso unicamente por causa do significado de notícias4 ) configuravam-se como uma es-
da reforma protestante para o desenvolvi- pécie de “compêndios noticiosos”, por vezes
mento educacional de cada pessoa ou so- volumosos, que reuniam notícias sobre pes-
mente devido ao desejo de intervenção sobre soas importantes, normalmente reis e aristo-
os negócios públicos de burgueses enrique- cratas, batalhas, acontecimentos das cortes,
cidos e intelectuais. Na realidade, o floresci- catástrofes e batalhas, mas também sobre as-
mento da imprensa no século XVII deve-se à sassínios e assuntos insólitos e surpreenden-
feliz confluência de vários factores além dos tes (milagres, feitiçaria, nascimento de ani-
atrás referidos, entre os quais os seguintes: mais estranhos, etc.). Muitas das “notícias”
a) O desenvolvimento da tipografia gu- publicadas eram descarada e totalmente fal-
temberguiana, surgida no século XVI, por 3
Interessa-nos observar as publicações existen-
volta de 1540; tes no último quartel do século XVI e não antepassa-
b) A expansão da indústria do papel, que das remotas dessas publicações, como, por exemplo,
satisfaz a procura crescente de um suporte as Efemérides gregas, as Actas Diurnas romanas ou
ainda as crónicas e folhas volantes medievais.
2
Jonn Locke publicou no mesmo ano em que To- 4
Por vezes adquirem outras denominações, como
bias Peucer apresentou a sua tese, 1690, o livro Two “gazetas”, “mercúrios” ou mesmo “avisos”, embora
Treatises on Government. esta última designação seja mais frequente nas cha-
madas “folhas volantes”.

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Tobias Peucer 3

sas, abusando da credulidade de uma popula- sunto. Havia folhas volantes de dois tipos.
ção pouco instruída, supersticiosa e profun- Um primeiro tipo, mais “sério”, configurou-
damente religiosa. Às vezes, os relatos no- se como antepassado do jornalismo econó-
ticiosos eram enquadrados pela moral cristã mico, já que abordava essencialmente infor-
ou mesmo sob o prisma do contentamento mação comercial e por vezes quase publici-
ou descontentamento divino. A Gazeta Em tária (por exemplo, informações bancárias,
que Se Relatam as Novas Todas, Que Houve criação de fundos para seguros entre arma-
Nesta Corte, e que Vieram de Várias Partes dores, enumeração dos navios que chegavam
no Mês de Novembro de 1641, antepassado a um porto e da carga que transportavam
dos jornais portugueses, é um bom exemplo ou informação sobre a aceitação de merca-
das relações de notícias do século XVII. dorias para transporte marítimo...). As fo-
Algumas dessas relações de notícias ti- lhas volantes do segundo tipo falavam dos
nham periodicidade relativamente definida, mesmos assuntos que as relações de notí-
outras não. Em alguns casos, a periodicidade cias (reis, rainhas e outras celebridades; as-
das publicações variava, de acordo com a in- sassínios e assassinos; catástrofes; batalhas;
formação disponível sobre os acontecimen- trocas comerciais; milagres, feitiçaria, bi-
tos relevantes. As primeiras relações eram zarrias da natureza e outros assuntos insó-
anuais ou bienais, passando depois a men- litos, etc.), mas nem sempre com um pro-
sais, quinzenais, semanais até chegarem à pósito predominantemente informativo. Nas
periodicidade diária5 . Para os contemporâ- folhas volantes, acontecia, frequentemente,
neos de Peucer, a intensificação dos fluxos que a informação servia de pretexto à prega-
de informação certamente pareceria ser ver- ção moralista, ao regozijo ou ao queixume,
tiginosa, um pouco como sucede agora con- às vezes sob a forma de poesia e de can-
nosco, ao observarmos o impacto da Internet ções. De qualquer maneira, pode afirmar-se
e dos novos suportes e dos novos meios de que a imprensa nascente tinha um cariz es-
comunicação na sociedade e nas pessoas. sencialmente informativo, embora por vezes
As folhas volantes, herdeiras directas das enquadrasse os factos pelo prisma da moral
folhas volantes manuscritas da Idade Média cristã. Os jornais do século XVII mostram,
e dos avisos italianos e alemães, constituíam afinal, que, ao contrário do que por vezes se
um segundo modelo de publicações. As fo- lê, a imprensa noticiosa não é uma inven-
lhas volantes, de periodicidade mais indefi- ção norte-americana do século XIX, mas sim
nida, normalmente falavam de um único as- uma invenção europeia dos séculos XVI e
5 XVII, que recupera uma tradição noticiosa
Não há acordo sobre a data em que aparece o pri-
meiro diário, mas alguns historiadores da imprensa, (nunca perdida) iniciada com as Efemérides
como Costella (1984), dizem que foi o Daily Courant, gregas e as Actas Diurnas romanas.
surgido em 1702, em Inglaterra. Outros autores, como Este texto tem a pretensão de evidenciar os
Casasús e Ladevéze (1991), concedem essa honra ao dotes de pesquisador de Tobias Peucer, um
Leipziger Zeitung, cuja publicação se terá iniciado em
1660, em Leipzig, na mesma cidade onde trinta anos
observador sagaz da diversificada imprensa
após Tobias Peucer apresentou a primeira tese douto- informativa da época em que viveu, que ele-
ral sobre “jornalismo”. vou à condição de objecto de estudo, pro-
pondo uma primeira “teoria do jornalismo”

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num tempo em que ainda nem sequer se fa- deçam ou denigram os factos e muito menos
lava de jornalismo, mas em que, paradoxal- em invenções, como muitas vezes sucedia.
mente, o campo jornalístico se começava a Peucer, como se disse, contactou tam-
consolidar. bém com diversos escritos de autores seus
contemporâneos que desenvolveram pesqui-
sas e reflexões sobre o papel das relações
2 As fontes de Peucer
de notícias, ou seja, sobre o papel dos jor-
Em favor da verdade histórica, é preciso sa- nais. Poderá mesmo falar-se de uma Escola
lientar que Tobias Peucer não foi o primeiro Alemã de pensamento comunicacional, que
estudioso do século XVII a debruçar-se so- teria sido a primeira escola de pensamento
bre os fenómenos pré-jornalísticos desse comunicacional a surgir, mais de dois sé-
tempo e muito menos o primeiro autor a con- culos antes da Escola de Chicago e de ou-
tribuir para o entendimento do jornalismo. tras escolas alemãs, como a Escola de Frank-
Na realidade, quando Peucer escreveu a sua furt e a Escola da Periodística, também cha-
tese, existiam já referentes teóricos da retó- mada Escola Publicística (onde pontificou
rica, da filosofia, da história, da jurisprudên- Otto Groth).
cia, da ética e da moral que se podiam aplicar São três os autores do século XVII cita-
ao jornalismo emergente. Alguns dos auto- dos por Peucer: Christian Weise (uma cita-
res de que Peucer se serviu eram seus con- ção); Ahasver Fritsch (duas citações) e Ch-
temporâneos, mas outros remontavam à an- ristophorus Besoldus (uma citação).
tiguidade grega e romana. Christian Weise publicou, em 1685, a pri-
No campo da retórica, Peucer socorreu- meira reflexão sobre jornais baseada numa
se dos antigos filósofos e retóricos gregos análise de conteúdo. O trabalho intitulava-se
e romanos, como Fábio Quintiliano ou Cí- "Nucleus Novellarum ab Anno 1660 Usque
cero, que, entre outros contributos para os 1676” e surgiu como apêndice do livro Sche-
estudos jornalísticos, há mais dois mil anos diasma Curiosum de Lectione Novellarum.
foram fixando para a posteridade a fórmula Nesse trabalho, Weise manifesta-se crente
dos elementa narrationis para contar novida- no valor formativo, informativo e utilitário
des (circunstâncias de sujeito, objecto, lugar, dos jornais.
tempo, causa e maneira, ou seja, “quem? ”, No pólo oposto ao de Weise, o jurista
“o quê? ”, “onde? ”, “quando? ”, “porquê? ” Ahasver Fritsch aborda a problemática do
e “como? ”), tantas vezes atribuída erronea- uso e abuso das notícias, na obra Discursus
mente aos americanos do século XIX. Peucer de Novellarum Quas Vocant Neue Zeitung
lançou também mão de outros textos clássi- Hodierno Usu et Abusu, publicada em 1676,
cos, como os de Luciano de Samosata, autor tendo adoptado um tom eminentemente crí-
do século II, sobre historiografia. Este autor, tico e negativo, aconselhando as pessoas a
que Peucer subscreve, escreveu a obra Como não crer em tudo o que liam.
se Deve Escrever a História, onde adopta um Christophorus Besoldus não fez uma refle-
tom positivista, prescrevendo que a historio- xão exclusiva sobre jornais e notícias, mas é
grafia se deve basear em factos e não em in- na sua obra Thesaurus Practicus, editada em
terpretações (enquadramentos) que engran- 1629, na qual colateralmente fala das notí-

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Tobias Peucer 5

cias sob o ponto de vista jurídico, que pela a) O conceito de notícia em Peucer
primeira vez se usa a expressão "Neue Zei-
tungen” para referir os jornais, que tendiam A definição peuceriana de “notícia” é es-
já para uma periodicidade diária (Casasús e sencialmente descritiva, mas também actual
Ladevéze, 1991: 52). e universal. Para o autor, os jornais “contêm
a notificação de coisas diversas acontecidas
recentemente em qualquer lugar que seja (...)
3 Tobias Peucer, o precursor da
como acontece na vida diária” (cap. IV), coi-
Teoria do Jornalismo sas essas que são “novas” (cap. XIX), têm
contemporânea “certa utilidade e actualidade” (cap. XXIV)
e satisfazem a “curiosidade” humana (cap.
A tese doutoral de Peucer tem 29 capítu-
VIII; XIV e seguintes). Com esta descrição
los interligados, todos de pequena dimensão
dos jornais, Peucer evidencia cinco caracte-
(um, dois ou três parágrafos). A profundi-
rísticas das notícias: 1) pode haver notícias
dade e a dimensão da obra não se equipa-
sobre tudo; 2) as notícias referem-se a acon-
ram a uma tese doutoral actual. No entanto,
tecimentos actuais; 3) as notícias trazem no-
há um tom de contemporaneidade no enten-
vidades, são mesmo sinónimo de novidades
dimento peuceriano do jornalismo. Peucer
(novellae), são relatos de novidades; 4) as
valoriza e aborda essencialmente a vertente
notícias são úteis; e 5) muitas notícias têm
informativa dos jornais que relatam aconte-
sucesso porque satisfazem a curiosidade hu-
cimentos, contam novidades, em suma, dão
mana.
notícias, percepcionando, claramente, que a
Para Peucer, as notícias são ainda rela-
comunicação jornalística, embora possa ter
tos “precipitados” (cap. VI), ou seja, su-
outras finalidades, serve essencialmente para
jeitos à pressão do tempo, que se limitam
informar. Esta percepção das qualidades do
“somente a uma simples exposição, unica-
trabalho de Peucer é, de resto, corroborada
mente a bem do reconhecimento dos factos
por Casasús e Ladevéze (1991: 47).
históricos mais importantes” (cap. IV), onde
Por outro lado, e esta é a tese que pro-
se põe “por escrito a memória dos aconte-
curaremos demonstrar, em vários excertos
cimentos”. Falam ainda de “coisas singu-
da tese de Peucer notam-se as preocupações
lares” (cap. XV) e como as possibilidades
do autor com algumas das questões centrais
de escolha de notícias são quase infinitas é
em torno das quais se tenta construir actual-
preciso “estabelecer uma selecção de modo
mente uma teoria da notícia e do jornalismo:
a que seja dada preferência aos (...) [factos]
os conceitos de notícia e de jornais; as
que merecem ser recordados ou conhecidos”
relações entre “jornalismo” e história; o
(cap. XV).
contributo da retórica e da evolução histórica
Em suma, as notícias, segundo Peucer, são
para a estrutura das notícias; os critérios
relatos:
de noticiabilidade; os constrangimentos à
– expositivos e escritos (o que implica o
produção de informação, etc.
recurso à linguagem);
– sobre singularidades (o que implica a re-

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moção artificial dos acontecimentos do todo (cap. VI). Nos capítulos III e seguintes, Peu-
real); cer diz, inclusivamente, que há duas formas
– seleccionados entre vários relatos possí- de história: a que se apresenta “como um
veis segundo a sua importância (o que põe fio contínuo, conservando a sucessão precisa
em relevo a actividade de gatekeeping e a dos factos históricos (...) [sendo] denomi-
existência de critérios de noticiabilidade que nada universal”; e a que se apresenta sob a
enquadram o que é e não é importante); forma de “coisas esparsas” (Peucer cita Aris-
– condicionados por factores como o tógenes), “histórias sem ordem” (Peucer cita
tempo e contidos (o que evidencia os vários Fest, citado por Lactâncio), “miscelânea (...),
constrangimentos, nomeadamente os tempo- história variada ou multiforme (...) [,] coisas
rais, na produção das notícias); desordenadas” (Peucer cita Aristóteles, ci-
– que se orientam para os acontecimentos tado por Laércio). Os jornais são, para Peu-
(e não para as problemáticas); cer, um exemplo desta última forma de es-
– e que são novos, isto é, oferecem novi- crever história. Por outras palavras, os jor-
dades, o que satisfaz a curiosidade humana. nais são uma história desordenada, consti-
Esta noção global de notícia avançada por tuída por uma miscelânea de assuntos.
Peucer é cheia de actualidade, levantando Essa “história desordenada” que os jor-
aspectos centrais da teoria da notícia con- nais apresentam é, segundo Peucer, feita por
temporânea. pessoas que “se encontram quase desprovi-
dos daquilo que é necessário para estabe-
b) As relações entre jornalismo e histó- lecer a história escrita (...) [como] conhe-
ria cimento dos factos, competência, juízo ele-
vado, documentos autênticos obtidos em ar-
Para Peucer, o “jornalista” é responsável quivos não suspeitos (...) e a linguagem e
pela inclusão ou exclusão de alguns acon- o estilo adequados à história” (cap. XXVI).
tecimentos na história, questão central para Peucer é, assim, bastante crítico para a forma
autores contemporâneos como Nora (1977; como se fazia “jornalismo” na sua época,
1983). Aliás, no trabalho de Peucer não é no que se aproxima dos críticos contempo-
totalmente visível uma diferenciação entre râneos da imprensa (também nisto as vari-
“jornalismo” e história. “Jornalismo” e his- ações foram poucas!). Mas mesmo não fa-
tória seriam, de certa forma, sinónimos e a zendo uma história erudita e não sendo feitos
redacção da história é o grande referente de por pessoas “doutas e insignes”, os jornais,
que Peucer se serve para aconselhar os “jor- segundo Peucer, têm “utilidade pública”, so-
nalistas” na sua actividade emergente. São bretudo para as pessoas (em especial os eru-
vários os excertos onde se evidencia a per- ditos) conhecerem os actos e os agentes do
cepção de Peucer. Para ele, fazer “jorna- poder (cap. XXVI).
lismo” é essencialmente construir a histó- Apesar desse enquadramento, Peucer ex-
ria da vida diária, fazer uma historiografia plica também que os jornais, por força de
dos acontecimentos relevantes, dos “factos constrangimentos como o desejo de lucro
históricos mais importantes” (cap. IV), pôr dos seus proprietários (cap. VIII), procu-
“por escrito a memória dos acontecimentos” ram, antes de mais, satisfazer a curiosidade

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Tobias Peucer 7

humana e serem úteis, não fazer história: leceram as bases (...) da história escrita”;
“os relatos jornalísticos não costumam es- os correios (troca de cartas com novidades)
crever tendo em vista a posteridade, senão instituídas pelo imperador Augusto; o
tendo em vista a curiosidade humana” (cap. ensino da história na Alemanha, introduzido
XXIII). Por isso tivemos o cuidado de dizer na época do imperador Carlos Magno; “a
acima que apesar de a escrita da história ser relação dos factos históricos” nas crónicas
o grande referente de Peucer, não há. nos es- medievais; os “homens sérios e doutos” que
critos deste autor, uma coincidência total en- se aplicaram no “ressurgimento da história”
tre a história e o jornalismo, nomeadamente a partir do início do século XV; e finalmente
se por história se entender o que Peucer de- o aparecimento dos primeiros pré-jornais,
nomina de história universal. No entanto, denominados por “mercúrios” em honra de
Peucer repisa que a ambição do “jornalista” Mercúrio, deus das comunicações.
deve ser escrever história universal e que o
“jornalismo” é responsável pela inclusão de c) Condições e constrangimentos da
alguns acontecimentos nessa mesma histó- produção de informação
ria. Veja-se o seguinte excerto do texto de
Peucer: “se acontece que a partir deles [jor- A moderna teoria do jornalismo relembra
nais] as coisas narradas passam também à que a produção de informação se faz num
história propriamente dita, há de se compre- campo onde intervêm várias forças, sofrendo
ender que nem todos, mas somente de uns vários constrangimentos (Sousa, 2000; Tra-
poucos, os que foram registados com uma quina, 2002), que levam, inclusivamente, a
certa acurácia e aplicação é que passam à his- que por vezes se tenham notícias que nin-
tória” (cap. XXIII). Peucer pede, ainda, cui- guém quer e não se tenham notícias que to-
dado aos historiadores do futuro que viessem dos querem.
a consultar os jornais do seu tempo, pois to- As condições pessoais são um dos ele-
mar os jornais por “documentos confiáveis” mentos formatadores das notícias intuídos
pode “obscurecer a memória da posteridade” por Peucer. Por exemplo, no capítulo XVII
(cap. XXIII). da sua tese, o autor chama a atenção para
Peucer também chama a atenção para o o facto de factores como o ódio ou o apoio
facto de as “notícias” serem historicamente aos “jornalistas” aos governantes ou ainda
conformadas, um tema repetido no campo a necessidade de adulação dos “jornalistas”
da teoria do jornalismo por autores como condicionarem os enquadramentos das notí-
Schudson (1978; 1988; 1996) ou Sousa cias. A capacidade de julgamento noticioso
(2000). Para o provar, Peucer relembra, nos (news judgement), também uma qualidade
capítulos VI e VII da sua tese, o processo pessoal do “jornalista”, é igualmente equa-
histórico que permitiu o aparecimento dos cionada por Peucer como um factor forma-
jornais do século XVII. Antes de mais, o tador das notícias no capítulo XI da sua tese
autor critica a “negligência dos antigos” que (“faz falta o juízo”6 , clama o autor!) e no
não davam atenção à história. Relembra, 6
Ver abaixo uma citação mais completa, no item
depois, “os escritores insignes, tanto gregos sobre a ética “jornalística” peuceriana.
como latinos, que, de uma só vez, estabe-

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capítulo XVI (onde critica explicitamente a lhe mandar ao degredo” - cap. XVII) e na
“falta de capacidade de julgamento”). censura prévia, comum no tempo de Peucer
O factor tempo é um dos factores de cons- (cap. XXVIII).
trangimento à produção de informação (Sch-
lesinger, 1977) para o qual Peucer chama d) A noticiabilidade
indirectamente a atenção, quando relembra
que as “notícias” são “relatos (...) precipi- A noticiabilidade é uma das áreas centrais
tados” (cap. VI), elaborados “precipitada- da teoria do jornalismo, pois, em última ins-
mente” (cap. XIX), muitas vezes em situa- tância, permite a resposta à questão “por que
ções de incerteza. O pesquisador reforça es- é que temos determinadas notícias e outras
sas ideias relembrando também que os pe- não?”. Na realidade, o carácter noticiável de
riódicos são “impressos com intempestiva um facto não o promove automaticamente a
frequência hoje em dia” (cap. VII). notícia, já que há muitos outros factores a ter
Outro constrangimento intuído por Peucer em conta (ver, por exemplo: Sousa, 2000;
é a força do mercado. Peucer intuiu a sua im- Traquina, 2002), mas se um facto for enqua-
portância para o jornalismo, explicando que drado e percepcionado como sendo notável
“a busca de lucro tanto da parte dos que con- e potencialmente noticiável devido à obedi-
feccionam os periódicos, como da parte da- ência a um ou vários critérios de noticiabi-
queles que os comerciam” foi uma das ra- lidade, então poderá mais facilmente vir a
zões que levou ao aparecimento dos jornais tornar-se notícia.
(cap. VIII). A ideia da existência de critérios de noti-
Peucer evidencia também que a dependên- ciabilidade, critérios susceptíveis de permi-
cia das fontes, quando o “jornalista” não pre- tir a atribuição de valor noticioso a factos e
sencia o acontecimento, pode tornar-se um notícias que se sobrepõem à subjectividade
factor de constrangimento, já que é “merece- jornalística, é de Galtung e Ruge (1965),
dor de mais credibilidade o testemunho pes- que pela primeira vez apresentaram uma lista
soal” (cap. X). Por isso, no capítulo XIV da desses critérios. Mas essa dádiva à teoria do
tese, de certa forma Peucer aconselha a con- jornalismo está indiciada em escritos muito
trastação de fontes para assegurar a veraci- anteriores, entre os quais a tese de Tobias
dade e credibilidade das notícias, pois todas Peucer. Obviamente, Peucer não falou de
as fontes tendem a ser inevitavelmente dis- critérios de noticiabilidade, nem de valores-
sonantes em relação à realidade, já que mis- notícia, mas tece várias considerações onde
turam “coisas falsas com coisas verdadeiras intui a sua existência e, mais do que isso,
sem culpa sua”. Também aconselha cautela procura fazer uma lista do que deve e não
na consulta de documentos para fazer notí- deve ser noticiado (caps. XV e XVI), na qual
cias, que devem ser “autênticos, obtidos de se detecta a existência desses critérios. As-
arquivos não suspeitos” (cap. XXVI). sim, para ele as notícias devem versar:
Dois derradeiros factores de constrangi- – “coisas (...) acontecidas recentemente”
mento à acção jornalística consistem nas (cap. IV), o que destaca o critério da actua-
sanções e ameaças de sanções (“é coisa lidade;
perigosa escrever sobre aquilo que pode – “factos históricos mais importantes”

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Tobias Peucer 9

(cap. IV), o que destaca o valor da impor- cipes (...) juntamente com as deliberações,
tância; os artifícios e os costumes” (cap. XXVI).
– temas de interesse cívico (o que é útil e Sob este prisma, ao publicitarem os actos
as pessoas devem conhecer); de poder, os jornais são também úteis para
– o que é insólito; a vida cívica, entendimento liberal do papel
– o que é negativo, como as catástrofes e da imprensa.
as guerras;
– o que se passa com as pessoas ilustres (o f) A função do distanciamento social
que evidencia o valor da referência a pessoas
de elite); etc. Peucer também intuiu um efeito comu-
Os interesses e desejos da audiência tam- nicacional relevante dos jornais: a inten-
bém condicionam a noticiabilidade. Peucer sificação das diferenças de conhecimento.
intui-o em diversas passagens da sua obra. Este efeito do jornalismo, equacionado
Por exemplo, no capítulo IV ele diz que os por Tichenor, Donohue e Olien em 1970,
jornais são apelativos precisamente porque mostra que quem beneficia mais com as
propõem ao “leitor curioso (...) variedade informações dos jornais é quem já tem
de carácter ameno”. Dito de outro modo, os conhecimentos sobre os assuntos em causa
jornais têm de ser variados, tematicamente e tem igualmente condições económicas
equilibrados, um valor-notícia também para aceder à melhor informação (Tichenor,
referenciado por Galtung e Ruge (1965). Donohue e Olien, 1982). Por outras pala-
vras, embora o jornalismo potencialmente
e) A função de agendamento informe todos por igual, como a informação
é melhor aproveitada por uns do que por
As pesquisas desenvolvidas no âmbito outros, o jornalismo tende a distanciar
do agendamento (agenda-setting) têm de- as pessoas em termos de conhecimento,
monstrado que a comunicação jornalística uma forma de controlo social. Uma das
tem a capacidade de agendar temas que são passagens da tese de Peucer em que se nota
objecto de debate público, dependendo o a ideia do distanciamento social surge no
sucesso do agendamento de factores como capítulo XXVI, no qual Peucer explicita
a conversação interpessoal acerca desses que embora os jornais possam ser úteis a
temas (McCombs e Shaw, 1972). Esta todos, eles são particularmente úteis para
hipótese, que passa por ser anglófona e os “poucos” que têm “um conhecimento da
do século XX, também foi referida por geografia, dos negócios civis e sobretudo
Peucer há mais de três séculos. Ele explica, das coisas do palácio”, que assim podem
por exemplo, que as notícias relatadas nos aumentar mais os seus conhecimentos.
jornais são “propagadas pela voz pública”
(cap. IV) e que “os que [as] lêem podem g) Os usos e gratificações
satisfazer assim a sede de novidades dos
companheiros e dos grupos de amigos” (cap. O modelo dos usos e gratificações procura
XXIV) e ainda que através dos jornais se entender os usos que cada indivíduo faz da
podem conhecer “os direitos entre os prín- comunicação social para satisfazer necessi-

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dades e ser gratificado e foi sendo construído notícias, Peucer salienta, num tom bastante
ao longo do século XX através do contributo actual, que, em princípio, toda a notícia deve
de vários autores, entre os quais se destacam “ater-se àquelas circunstâncias já conhecidas
Schramm, Lyle e Parker (1961). No entanto, que se costuma ter sempre em conta em uma
essa noção central sobre os efeitos dos meios acção tais como a pessoa, o objecto, a causa,
também se encontra em Peucer. Por exem- o modo, o local e o tempo” (cap. XXI),
plo, ele evidencia em várias passagens que ou seja, “quem? ”, “o quê? ”, “onde? ”,
os leitores consomem jornais para, amena- “quando? ”, “porquê? ” e “como? ”. Con-
mente, satisfazerem a sua curiosidade (cap. forme se disse, esta sugestão de Peucer, im-
IV; cap. VIII; cap. XIV; cap. XXIV; cap. portada da retórica clássica, mostra bem que
XXV) e o afã de saberem coisas novas (cap. a fórmula dominante para a construção de
XXIV). Essas razões, além da utilidade das uma notícia está muito longe de ser uma in-
notícias (cap. XXV), estão na base do su- venção anglo-saxónica do século XIX. Uma
cesso dos jornais. Em suma, as pessoas, na vez respeitado esse princípio, Peucer dá duas
época de Peucer, usavam os jornais com a sugestões para a exposição dos factos:
mesma finalidade das pessoas actuais: serem
gratificadas. A gratificação pessoal ocorre 1. A exposição cronológica, tendo em
porque ao consumirem notícias as pessoas conta “a sucessão exacta dos factos que
entretêm-se amenamente, satisfazem a sua estão inter-relacionados e suas causas”
curiosidade, recebem informação útil e co- (cap. IV), de maneira a “preservar a
nhecem as novidades. ordem com que os acontecimentos se
apresentam” (cap. XXI).

4 Tobias Peucer: o autor do 2. A exposição de acordo com uma ordem


primeiro manual de jornalismo arbitrária que respeite a natureza tema.
Por exemplo, para reconstituir o cerco
Peucer é prescritivo ao falar das qualidades e conquista militar de uma cidade, Peu-
éticas e técnicas, equiparáveis à do historia- cer aconselha a que se fale dos autores
dor, que deve ter quem escreve para jornais, (quem?), do motivo (porquê?), do local
podendo, por isso, ser considerado como o (onde?), da maneira de agir (como?) e
autor do primeiro manual de jornalismo do da acção em si mesma (o quê?), por esta
mundo. ordem.

a) A técnica jornalística e a cobertura No que respeita à expressão (lexis), Peucer


dos acontecimentos aconselha a redigir as notícias numa “lingua-
gem (...) pura” (diríamos hoje factual), de
Peucer distingue a forma ou economia (oi- maneira “clara e concisa”, num tom “nem
konomía) das notícias, da sua expressão (le- oratório nem poético”, evitando “as pala-
xis). Quer num caso quer noutro, Peucer po- vras obscuras e a confusão na ordem sin-
deria passar por um autor contemporâneo. táctica”, para conseguir “agradar” ao leitor e
No que respeita à forma ou estrutura das evitar que a notícia seja confusa (cap. XXII).
Peucer, subscrevendo Lúcia, aconselha ainda

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Tobias Peucer 11

a que não se usem “palavras (...) fora de “o juízo (...) para que, por meio dele, as coi-
uso, nem tão-pouco (...) palavras próprias sas dignas de crédito sejam separadas dos ru-
dos mercados e botecos”. Essencialmente, mores infundados (...); as leves suspeitas e as
o “jornalista”, de acordo com Peucer, tem de coisas e acções diárias sejam separadas das
cultivar “a linguagem e o estilo adequados à coisas públicas e daquelas que merecem ser
história” (cap. XXVI). Finalmente, Peucer contadas” (cap. XI). Infelizmente, para Peu-
concilia técnica e ética jornalística, pedindo cer, nem todos os que escrevem para perió-
aos “jornalistas” para não exagerar na men- dicos têm as qualidades do bom historiador,
ção a miudezas, banalidades e futilidades “de pois muitos “procuram falar de banalidades
maneira ridícula e estúpida” (cap. XVI e cap. (...) e minúcias (...) e omitem o que seria útil
XIX), nomeadamente quando não serve de de ler, envernizam (...) o que ouviram dizer
nada sabê-las (cap. XVI) por outros e, por fim, quando não têm coisas
No que respeita ao processo de recolha de exactas, fazem passar por história as suspei-
informações, Peucer pede aos “jornalistas” tas e conjecturas dos outros” (cap. XI). Nesta
para serem cautelosos quando recorrem a passagem, Peucer faz uma profissão de fé em
fontes, sejam elas pessoas ou documentos, valores éticos intemporais do jornalismo, va-
pois as fontes podem deturpar os factos, lores esses que, em última instância, lhe pro-
enganando “jornalistas” e leitores (capítulos piciam qualidade: intenção de verdade, para
X, XIV e XXV). Daí que, como vimos, não enganar os leitores, até porque os jornais
Peucer defenda que o melhor é escrever-se transmitem credibilidade (cap. XIV); e fa-
sobre os acontecimentos que se testemu- lar do que se deve, conhece e é útil e não
nham directamente (cap. X). do desconhecido e das banalidades sensaci-
onais, por vezes mentirosas ou exageradas,
b) A ética jornalística, a qualidade que as pessoas querem saber (cap. XIV; cap.
jornalística e as qualidades do jornalista XVI). A este propósito, Peucer socorre-se de
Cícero, para exigir imparcialidade aos “jor-
Para Peucer, ética e qualidade “jornalísti- nalistas” e para relembrar que é preciso ter
cas” sobrepõem-se, estando dependentes das coragem para dizer a verdade (cap. XIII),
qualidades do “jornalista”. embora, paradoxal mas avisadamente, lem-
A ética jornalística peuceriana parte do di- bre os “jornalistas” que “é perigoso escre-
agnóstico que o autor fez da imprensa da sua ver sobre aquilo que pode lhe mandar ao de-
época, à qual acusa de publicar “coisas de gredo”, como as coisas que “os príncipes não
pouco peso” (cap. XVI) e “desgraças huma- querem que sejam divulgadas”. Pede ainda
nas”(cap. XVI) e ainda de “anunciar fábulas bom-senso no julgamento noticioso, de ma-
falsas junto com histórias verdadeiras” (cap. neira a separar a informação socialmente re-
VII), em parte por causa dos defeitos huma- levante daquela que não o é, evitando a difu-
nos, como disse Séneca (citado por Peucer, são de notícias sem importância (cap. XV).
cap. VII). As notícias, no entanto, deveriam Outra opção ética de Peucer assenta na
ser “verdadeiras e úteis” (cap. IX), pelo que ideia de que não deve ser publicada informa-
quem escreve para jornais tem de ter “as qua- ção que “prejudique os bons costumes ou a
lidades do bom historiador” (cap. IX), como verdadeira religião, tais como coisas obsce-

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12 Jorge Pedro Sousa

nas, crimes cometidos de modo perverso, ex- à linguagem universalmente compreendida


pressões ímpias dos homens” (cap. XVIII), das ciências, a matemática, quer porque mui-
pelo que o autor, dentro do espírito do seu tos dos pesquisadores escrevem em línguas
tempo, admite a censura prévia das notícias7 , pouco dominadas internacionalmente, como
ainda que, sobretudo, peça sobriedade e con- foi o caso de Peucer, que escreveu em latim
tenção na redacção. num tempo em que essa língua estava cres-
centemente em desuso em favor do francês,
primeiro, e depois do inglês. O seu texto só
5 Conclusões
se tornou conhecido universal e contempora-
O texto de Peucer mostra, em primeiro lugar, neamente quando foi traduzido para alemão8
que muitas das noções que se têm sobre a (1944), catalão9 e português10 , entre outras
“invenção” da imprensa informativa e da es- línguas. Mas antes tarde do que nunca, pelo
trutura clássica da notícia pelos americanos que o resgate da sua obra permite-nos agora,
do século XIX precisa de alguns ajustamen- 314 anos passados, perceber não só que mui-
tos, uma vez que, no século XVII, já existia tas das preocupações de Peucer correspon-
imprensa informativa e já se dominavam al- dem a preocupações bem actuais como tam-
guns aspectos dessa estrutura. Não são de bém que esse autor pode, com toda a justiça,
rejeitar, obviamente, as contribuições norte- ser considerado o moderno progenitor e pre-
americanas do século XIX para as mudan- cursor da Teoria do Jornalismo.
ças que se verificaram no jornalismo, pelo
contrário, mas somente mostrar que algumas
6 Bibliografia
das alegadas “inovações” não foram mais do
que a recuperação de uma tradição europeia CASASÚS, J. M. e LADEVÉZE, L. N. Es-
de contar novidades, oralmente e por escrito, tilo y Géneros Periodísticos. Barcelona:
com raízes na antiguidade clássica. A civili- Ariel, 1991.
zação ocidental é filha de Atenas e de Roma,
o que se nota também no jornalismo. GALTUNG, J. e RUGE, M. The structure of
O texto de Tobias Peucer permaneceu na foreign news. Journal of International
obscuridade demasiado tempo, o que atra- Peace Research, n.o 1, 1965.
sou a edificação de uma Teoria do Jorna- McCOMBS, M. E. e SHAW, D. L. The
lismo, pois, conforme mostrámos, esse autor agenda-setting function of mass media.
aponta nitidamente caminhos que só muito Public Opinion Quarterly, 36, 1972.
mais tarde foram trilhados. O que aconte-
8
ceu a Peucer e ao seu texto mostra também PEUCER, T. De relationibus novellis. In:
as dificuldades de universalização e acumu- KURTH, K. (Org.) Die ältesten schriften für und wi-
der die zeitung. Brünn: Rudolf M. Rohrer Verlag,
lação de conhecimento das ciências huma- 1944, p. 163-184.
nas e sociais, quer porque recorrem pouco 9
PEUCER, T. De relationibus novellis. In CASA-
7
SÚS GURI, J. M. Sobre els relats periodistics. Peri-
Isto mostra bem que não devemos julgar os nos- odística. Barcelona: Soceitar Catalana de Comunica-
sos antepassados pelos mesmos valores que analisa- ció, n.o 3, p. 31-47, 1990.
mos a sociedade actual. 10
Ver bibliografia.

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Tobias Peucer 13

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