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1 ± DESVIO DE CONDUTA DO PM

Este artigo mostra que o desvio de conduta praticado por agente policial se faz presente e que também existem mecanismos de
controle instituídos para diminuir a probabilidade de ocorrência destas ações. Foram apontados seis
itens que permitirão aprimorar o serviço desempenhado pela ouvidoria e corregedorias de polícia, destacando que tanto o controle
interno quanto o externo devem ser fortalecidos conjuntamente. A polícia é uma forma do controle social formal, ou seja, realizado
pelo Estado como uma reação à desordem e ao crime. A sua função é manter a paz dentro da sociedade, atuando na prevenção,
proteção e serviço ao público, sendo concedido a ela o uso da força contra os indivíduos do grupo a que pertence para que se faça
cumprir suas atribuições. Todavia, a confiança da população nestas instituições exige que suas atuações sejam fundadas nos
princípios éticos legalmente estabelecidos, sem que ocorram comportamentos desviantes de seus membros.

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O crime sempre existiu e vai continuar a existir em todos os lugares, da mesma forma que as ações ilícitas cometidas por policiais,
sejam eles civis ou militares. A questão é como conseguir que a incidência deste tipo de irregularidade não atinja patamares
elevados, quebrando a confiança social nestas instituições. A maneira de garantir isto se dá pelo fortalecimento dos mecanismos de
controle da atividade policial. É impossível esperar que os atos irregulares ou ilegais cometidos por polici ais civis ou militares sejam
totalmente erradicados, contudo a incidência destas ações devem se estabelecer dentro de patamares toleráveis pela sociedade. A
forma, portanto, para controlar estes níveis é fortalecer os mecanismos instituídos para tal. Quando se vê um policial militar fardado,
trabalhando, as pessoas, imediatistas que são, dificilmente observam que ele é fruto de um processo. Para que o militar estiv esse ali,
foi necessário o cumprimento de algumas etapas que a sociedade, às vezes, desconhece. Pensando nisto, se verifica que o Sal de
Cozinha, esse mesmo: o cloreto de sódio, tão conhecido por todos, detém, até a sua fase final, etapas que se assemelham às do
Policial Militar. O Sal de Cozinha e o Policial Militar são semelhantes porquê:

   
     
 


 Inicialmente encontramos o Sal dissolvido no mar. Não é possível
visualizá-lo porque está dissolvido na água. Assim, antes de serem policiais-militares, todos os candidatos que se inscrevem no
concurso são futuros servidores que ainda dissolvido estão na sociedade, não sendo possível, pois visualizá-los. Não possuem
nenhuma vantagem um com relação ao outro, porque são agentes públicos ainda invisíveis. O certame não tem como os enxergar,
nem lhes fazer distinção. Os princípios constitucionais da imparcialidade e moralidade não permitem que a Administração Pública
se remeta ao que ocorria na gestão patrimonialista do serviço público há tempos atrás.

 

Tanto na cultura ocidental quanto no oriente, luz (ou claridade) sempre foi associado ao saber, ao conhecer.
Note que, quando queremos entender se a informação foi entendida, perguntamos: "está claro?" Assim, como diz Vera Luz, "todo
conhecimento é luz que ilumina a alma". Ao ser colhido do mar, as porções de água salgada são expostas ao sol para que haja a
evaporação e o sal fique depositado no fundo. Esse é o processo de dessalinização. Assim como o sal é exposto à luz, o candidato,
que agora já foi aprovado no concurso publico, é então exposto à luz. À luz da informação, do conhecimento. Os Cursos de
Formação correspondem à etapa em que conceitos e técnicas imprescindíveis ao serviço policial são apresentados aos neófitos
agentes públicos e adicionados ao seu perfil profissiográfico. É no Curso que se aprendem os valores institucionais da Polícia
Militar e a sua base: hierarquia e disciplina. Nesta fase o servidor é treinado e conscientizado da responsabilidade penal, civil e
administrativa em decorrência de suas atitudes.

  

 São dois os processos de separação por que passa o Sal. Depois de exposto à luz, o sal é separado de outras
substâncias químicas que com ele se depositam após a evaporação. De igual modo, a primeira coisa que acontece com o Policial
Militar, quando convocado, é ser separado do seio de sua família. E essa convocação visa ainda a separar dele outras coisas: alguns
comportamentos que, apesar de serem aceitos no mundo civil, são condutas que devem ser moldadas no âmbito militar. Quem se
decide na missão militar de servir à sociedade, deve entender que é um servidor diferenciado.

  
O Sal também passa por um processo de refinamento. Os cristais de Sal se tornam homogêneos, lapidados, para
que possam ter a aparência do sal de conzinha que conhecemos. De igual forma, o militar, após receber a luz do conhecimento, é
refinado. Ele é amoldado ao objetivo de sua missão que é atender ao interesse público e preservar vidas. Observe que os cristais de
NaCl, apesar de diferentes um dos outros, aparentam-se uniformes para quem os vê. Isso porque foram refinado. E para o público
externo, mesmo em trajes civis, o policial militar é muitas vezes reconhecido pela sua postura e compostura, seu modo de falar etc
que são fruto do estímulo que recebeu em sua Instituição. A refinação também custa caro para uma empresa dessalinizadora.
Refinação do militar também não é barato para o Estado que objetiva a boa formação de seus discentes.

 

 

    Não se compra sal encardido. Sal é branco. Cor que representa pureza, limpeza. Por isso
médicos costumam usar o branco. O Sal, que fora separado de outras substâncias químicas, também foi dissociado de muitas
impurezas que também se depositaram quando da evaporação. Semelhantemente, a luz e o refinamento recebidos pelo PM
objetivam trazer-lhe a consciência de andar conforme o Direito. Um Policial militar é alguém que não deve se contaminar com as
mazelas sociais. Deve ser um exemplo. "Policial é uma coisa, ladrão é outra", é o que a gente costuma ouvir por aí. Quem policia
deve antes se policiar. Qualquer grão externo de outra cor que caia no saleiro, é visualmente identificado, no contraste com o branco
do Sal. A conduta indisciplinar de um policial será sempre reprovada na sociedade por ser considerada incompatível com a sua
condição de servidor público.

 !   Para que chegue às famílias, é preciso que o sal leva o nome de uma marca para ser vendido nos
supermercados. Com o servidor acontece também assim. Ele recebe um nome: Policial -militar. Aquele cidadão que era
insignificante em sua rua, depois que ostenta a farda, passa a ser observado pelos vizinhos. Por onde for, as pessoas que o conhecem
certamente o chamará, mesmo na sua folga, para resolver ocorrências. Mesmo à paisana, os amigos e parentes ao vê-lo pensará: ³ele
é um Policial-militar´. E o próprio Direito o obriga e o legitima caso intervenha em ocorrências de flagrante delito, mesmo fora de
serviço, na sua folga, atuando no dever jurídico de agir, cometendo inclusive ³crime militar´ caso se exceda na sua missão, mesmo
de folga. O PM é Policial Militar em qualquer lugar que esteja.

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O Sal é identificado visualmente pela embalagem na qual é envolto. A cor que a embalagem
leva, a logomarca impressa, as informações contidas, a fonte das letras, a textura do plástico, tudo isso é a representação física da
marca, do nome. Ninguém quer comprar Sal com a embalagem furada ou com as impressões desbotadas ou encardidas. Assim
também, a ostensividade é deveras o elemento mais importante do serviço do PM. Ele será sempre identificado pela farda, viaturas,
armamento etc. Assim como a embalagem do Sal representa sua marca, a ostensividade do Policial traduz o nome da Polícia Milit ar.
O cidadão não se sente satisfeito sendo atendido por um PM com sua farda rasgada ou suja. É por isso que a apresentação pessoal é
tão valorizada no meio castrense.

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O Sal já foi usado como pagamento, por isso o termo
³salário´. Sal era dinheiro vivo e teve sempre seu lugar nas famílias brasileiras. E hoje, não se consegue mais dissociar o sal da
alimentação das pessoas. Mas apesar de sua importância, ele está no lugar menos estratégico nas prateleiras dos supermercados.
Geralmente em baixo, no local mais simples. Não raro, dona-de-casa se esquece de comprá-lo. Mas quando falta, faz falta. Assim
acontece com o Policial Militar. Apesar da importância de seu serviço, o PM ainda não é reconhecido pelos Governos e por muitos
integrantes da sociedade. Segurança Pública ainda não é prioridade no Brasil, essa é a realidade.

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  Sabe-se que há uma diferença muito grande entre a verdade e a falsidade. O
que não acontece entre o verdadeiro e o falso. São semelhantes. Só se diferencia o Sal de outras substâncias como bicarbonato de
sódio, açúcar, giz branco, cocaína, talco, cal, leite em pó etc, se a verificação for feita de perto. Assim também, só se ide ntifica o
mal policial quando ele é observado à curta distância. Dessa forma, as nossas Corporações devem dispor de um sistema disciplinar
eficiente. É por isso que os estatutos e regulamentos das Polícias Militares são mais rígidos com relação aos outros órgãos do
Estado. A Administração deve ter institutos eficazes para alcançar os desvios, pois é um problema ter um servidor dessa natureza
com uma conduta desviante.

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Uma comida bem temperada é uma comida agradável. O sal é o responsável direto
por essa temperança. E há comidas que sem sal é estranho ao nosso paladar. Assim também, há casos em que parecem só se
resolverem com a presença da Polícia. As ações policiais visam à preservação da ordem. Ao atender a uma ocorrência, o Policial
não pode criar outro problema, antes, se espera que a ordem seja estabelecida, que a situação seja temperada, com vistas à paz
social. O perfil emocional de um PM deve ser o de equilíbrio. Nem insípido, nem salgado demais.

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 O sal preserva alimentos. Que alimento saboroso é a carne-de-sol! Fica vários dias fora da geladeira, em muitos
centros de abastecimentos e açougues fica pendurada, preservada pelo sal. Preservação da Ordem Pública é a missão constitucional
da Polícia Militar. O PM não é escalado nas ruas para resolver todos os problemas da sociedade, todos os crimes. Ele não está ali
para combater o crime de violação de correspondência, por exemplo. Mas para proporcionar uma segurança urbana satisfatória, para
garantir a sensação de segurança indispensável para a convivência harmoniosa e segura.

            


 Todas as vezes em que o corpo humano é submetido a um esforço físico
além do momento de repouso, ou é exposto a calor excessivo, elimina pela pele sais minerais, dentre eles o NaCl. Ou seja, o Sal
sempre está presente em momentos de dificuldade do corpo. De modo semelhante, é o PM que a sociedade chama no momento de
algum problema. É a Polícia Militar que aparece. Ela é o tentáculo do da Administração mais presente porque atua em todas as
cidades.

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 O sal provoca sede. Faça um teste que você vai ver... A estabilidade financeira, a vida pessoal e profissional
dum Policial Militar pode servir de exemplo para muitas pessoas. Já vi muitas pessoas, em época de formatura militar, desejarem
estar envergando a mesma farda dos militares. E realmente solenidades militares causam essa emoção nos espectadores. É bonito
ver um cidadão com sede de ser um Policial Militar.

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 Os sais minerais jamais se acabarão. Tudo está em transformação na natureza, já dizia Lavoisier. Enquanto
houver mar, haverá sal. A Polícia Militar e seus agentes também são perenes. Anos passam, as pessoas se vão, mas a Corporação
fica. Naturalmente que muitas mudanças devem acontecer na instituição para o acompanhamento da dinâmica social. Mas sempre
teremos uma Força permanente, com missão definida da Constituição Federal e dos Estados, é o que eu acredito. Admitamos até,
como disse o próprio Lavoisier, que a instituição passe por uma transformação profunda. Mas jamais poderá deixar de ter seus
pilares baseados na hierarquia e disciplina. Enquanto houver sociedade, haverá pelo menos um policial militar no mundo. O Sal de
Cozinha, um ingrediente tão simples, foi capaz de proporcionar esta metáfora que traz lições acerca da vida profissional de um PM.
Comparar o PM com o Sal é, sobretudo, uma missão curiosa e nobre, visto que o Cristo já o fizera com relação aos seus discípulos
quando disse há mais de dois mil anos: ³Vós sois o sal da Terra´, Mat 5:13.

2 ± USO POLÍTICO DA CORPORAÇÃO

Fala-se muito nas UPPs, as Unidades de Polícia Pacificadora. Os meios de comunicação estão cheios de referências às melhorias no
controle do crime, especialmente do crime violento ligado ao tráfico de drogas ilícitas, e ao que seria uma aprovação maciça da
população, moradora ou não das localidades onde as UPPs estão instaladas. De fato, não se trata de uma euforia inteiramente
infundada, pois há evidência consistente de que: a) as UPPs constituem, de fato, uma forma inovadora de repressão ao crime; b)
onde estão atuando, de um modo geral elas têm apresentado bons resultados, medidos por indicadores locais razoavelmente
confiáveis; c) ainda que longe de ser eliminadas, a arbitrariedade e a violência policial são menores onde as UPPs estão oper ando; d)
a presença delas tem melhorado muito significativamente o sentimento de segurança entre os moradores diretamente afetados; e) a
insistente divulgação pela mídia da atuação das UPPs tem ampliado as expectativas positivas quanto à segurança a toda a população
da cidade, incluindo boa parte dos moradores nas localidades alvo de sua implantação no futuro e até mesmo os segmentos mais
abastados, que não precisam (nem querem) UPPs onde vivem.
Tudo isso é positivo e faz das UPPs uma aposta que pode vir a se consolidar e continuar rendendo bons frutos, que a mídia tem se
encarregado de propalar aos quatro ventos. No entanto, não é prudente avaliar políticas públicas por meio de uma síntese binária, do
tipo ³bom´ x ³ruim´ ± e esta afirmação é verdadeira em particular para as mais inovadoras. O que sustenta o entusiasmo acrítico
com as UPPs é a esperança de uma cidade calma e serena, que é o outro lado do medo do vizinho que há décadas nos assola a todos.
Infelizmente, esta expectativa é um mito inatingível que pode por a perder a própria experiência das UPPs. Estas, na vida real,
constituem a expressão de uma política pública muito recente que ainda carrega o peso de sua própria origem e, como qualquer nova
iniciativa, precisa ser acompanhada, criticada e orientada para se estabilizar como uma forma de intervenção pública democrática,
eficiente e eficaz. Vale a pena, portanto, uma avaliação menos eufórica, e é a ela que eu me dedico daqui em diante. Destaco os
pontos que me parecem mais distantes do debate coletivo.
Comecemos pela origem, que se denuncia no próprio título, ³unidade de polícia pacificadora´. Os primeiros tempos do governo
Sérgio Cabral foram marcados por declarações enfáticas de guerra às facções criminosas (inclusive da parte do próprio governador),
que transformavam o que até então era uma metáfora ± a ³guerra ao crime´ ± em política pública, oficial. A repercussão, embora,
digamos, cautelosa e pouco vocal, não foi boa, e o governo rapidamente mudou o discurso. Em resumo, as UPPs nascem como
resultado invertido da truculência retórica, que exagerava no reconhecimento explícito do que secularmente acontece nos bastidores
do controle das ³classes perigosas´, que sempre se realizou através da violência. Inverteram-se os termos: a guerra ± isto é, as
famigeradas ³operações´, que estão longe de ter acabado ± prepara a pacificação; a guerra deve ser intensa, mas é curta; já a
pacificação pode ser lenta, mas é de longo prazo. (Há casos em que as duas etapas se superpõem, misturando as ênfases na atuação
da polícia, como na Cidade de Deus. É exemplar o episódio do ônibus incendiado como retaliação à prisão de um criminoso, mesmo
com a presença de uma UPP, e a resposta de aumentar em 100 agentes o efetivo, para 376 no total, conforme matéria de O Globo,
07-03-2010, pg.16A.)
Faça-se um pequeno intervalo no raciocínio para deixar claro que há, sem dúvida, uma louvável mudança de procedimento na
orientação oficial (não tanto na substância da política de segurança), cujo principal ponto é a tentativa de incutir nos contingentes
que operam as UPPs disposições de uma relação civilizada com a população moradora do local. Na prática, em parte, ela permanece
no plano das intenções. No longo prazo, porém, aquela orientação, que tem sido amplamente divulgada, pode contribuir para uma
mudança na cultura policial, que todos sabemos ser autoritária, violenta e um tantinho paranóica quanto à moral nos territórios da
pobreza ± exceto, é claro, a dos pobres tornados policiais.
Em termos mais amplos, da substância da política de segurança da qual as UPPs são apenas um braço, temos um tremendo nó a
desatar, que depende da progressiva transparência, dos graus de liberdade e das relações de confiança pessoal e institucional que
vierem a ser estabelecidas no debate público como um todo. O nó é complicadíssimo de resolver, mas facílimo de descrever. As
UPPs, idealmente, devem se generalizar, mas não se propõe universalizá-las para toda a cidade. Evidentemente, só é preciso uma
³polícia pacificadora´ nas áreas onde não há paz. Embora os critérios para defini-las não sejam divulgados, é mais ou menos
consensual que se trata dos territórios da pobreza. (A ironia é que estes territórios são chamados, inclusive pelos próprios moradores,
de ³comunidades´...) O resultado é que as UPPs contem, na prática, uma dimensão de reforço à secular dualização da cidade, que
deu margem ao título do conhecido livro de Zuenir Ventura, ³Cidade Partida´. Em outras palavras, pelo menos em parte as UPPs
são o oposto do que pretendem ser. Por outro lado, é inegável que, se os aspectos virtuosos do projeto vingarem mesmo, o que é
cedo para saber, poderá haverá uma significativa redução da desigualdade embutida nos procedimentos de manutenção da ordem
pública ou, para sermos ainda mais politicamente corretos, uma promoção da cidadania dos subalternos.
De qualquer maneira, a fragmentação e dualização da ordem urbana é um problema muito mais amplo, que ultrapassa o horizonte de
atuação das UPPs. Deixemos os grandes temas de lado, e olhemos mais de perto a questão. É evidente que ninguém em sã
consciência pode imaginar que, em futuro discernível, haverá uma unidade em cada localidade que, na visão das autoridades,
necessitaria de pacificação. Mesmo admitindo que a coincidência dessas localidades com os territórios da pobreza não seja
completa, seria necessário um contingente policial gigantesco a um custo inviável para assegurar ³a retomada definitiva para a
cidadania das comunidades antes subjugadas pelo crime´, mencionada pelo editorial de O Globo do dia 28 de fevereiro deste ano.
Quantas e quais são as ³comunidades´ é uma incógnita, creio que até mesmo para os formuladores da política. No entanto, a julgar
pelo sub-texto do discurso oficial, seriam as favelas ± cerca de 800, deixando de lado as muito pequenas. (As escassas menções das
autoridades responsáveis pelas UPPs às milícias, que parecem se instalar preferencialmente nos loteamentos clandestinos das
periferias e não nas favelas ± salvo as exceções de praxe, como Rio das Pedras ± são um alvo muito secundário. Que eu saiba, dos
territórios controlados por elas, foi instalada apenas a UPP do Batan.)
Entretanto, pensando bem, talvez não sejam mesmo necessárias tantas UPPs. É bom lembrar que não estamos lidando apenas com
os fatos relacionados ao crime, mas também com sua percepção coletiva e os sentimentos que ela provoca. Há um importante
elemento de visibilidade envolvido (o qual, por sinal, explica em boa parte a escolha dos locais onde têm sido implantadas as UPPs:
as favelas da zona sul, próximas da região turística e por onde circulam os ³formadores de opinião´, ou a Cidade de Deus, que se
tornou internacionalmente famosa). É muito provável que a presença maciça de policiais recémingressados e, portanto, ainda não
envolvidos com as redes internas de poder da instituição e pouco socializados na cultura corporativa, venha a inibir fortemente o
porte ostensivo de armas, talvez o mais contundente fator de medo e insegurança. Pode-se mencionar, por exemplo, os freqüentes
comentários da mídia sobre a procura do plano inclinado do morro de Santa Marta por turistas e moradores de outras regiões do Rio
que se seguiu à implantação de uma UPP na localidade. Mesmo que haja exagero propagandístico nas dimensões deste movimento,
ele pode indicar o esboço de uma nova tendência. É claro que isso envolve um tipo de curiosidade social que beira a folclorização da
pobreza, mas este é outro assunto.
É também evidente que, na presença das UPPs, os custos de oportunidade do crime tendem a subir consideravelmente, de modo que
as respectivas taxas nas áreas por elas cobertas se reduzem. Aqui, porém, entramos em problemas de mensuração sobre os quais os
criminólogos se debruçam há muito tempo. Basta dizer que os pontos de concentração de atividades criminais, os ³hotspots´, não
são fixos, de modo que o aguçamento do controle repressivo em certas áreas pode provocar migração e/ou pulverização da atividade
e não necessariamente sua redução. Tem havido muito boato de que é isto que está ocorrendo com a implantação das UPPs, porém
não há comprovação empírica, o que, aliás, é tecnicamente muito complicado. Mas pode-se mencionar o constrangimento
provocado por um coronel da Polícia Militar que, durante entrevista a uma rede de televisão, dirigiu-se diretamente aos criminosos
de uma localidade, alertando-os para deixar a área, pois a polícia a ocuparia em tal dia. O próprio governador também sugeriu, em
entrevista, que os traficantes da Ladeira dos Tabajaras (onde, à época, estava programada para breve a implantação de uma nova
UPP) aproveitassem para abandonar o local enquanto a polícia estava envolvida com a criação da UPP do Morro do Cantagalo.
De qualquer maneira, e sem adotar uma postura cínica, considero possível que o simples deslocamento das atividades criminais para
regiões mais recônditas da cidade, associado à discrição no uso de armas pelos criminosos que permanecerem atuando nas áreas
nobres, venha a reduzir o sentimento generalizado de medo e insegurança. Afinal de contas, altas taxas de crime e violência
(criminal e policial) estão longe de ser uma novidade no Rio de Janeiro; o que é recente de duas ou três décadas é que isso deixou de
ser intersticial, passando a atingir regiões nobres, tornando-se uma verdadeira obsessão nas conversas cotidianas e um tópico do
debate público. E a simples diminuição do medo pode alterar significativamente o quadro das relações sociais e políticas,
desanuviando o ambiente, recuperando ao menos parte da confiança nas instituições, etc. Não se pode negar que, trazidos à cena
pública, os bastidores da Cidade Maravilhosa têm penalizado duplamente as camadas populares: além da endêmica violência
cotidiana na qual continuam imersas, suas reivindicações por melhoria das condições de vida que, historicamente, vinham ganhando
força, voltaram a tornar-se objeto de profunda desconfiança.
Chegou o momento de mencionar o que me parece o grande risco das UPPs enquanto política de segurança. Para comentá-lo,
recorro uma vez mais ao mencionado editorial de O Globo:
³De fato, é fundamental que o poder público tenha uma política que assegure a retomada definitiva para a cidadania das
comunidades antes subjugadas pelo crime. Para tanto, é essencial que o Estado se mostre presente com programas perenes de
inclusão social, e não apenas com seu braço coercitivo. As UPPs têm a função pontual de sufocar o tráfico de drogas e acabar com a
venda de µproteção¶ aos moradores, mas a elas deve se seguir a implantação de serviços públicos ± tudo como uma política de
Estado e não apenas como projetos conjunturais de governo´.
Por enquanto, é fora de dúvida que as UPPs constituem meros ³projetos conjunturais de governo´, e são uma parte menor ± muito
menor ± de uma política repressiva de manutenção da ordem pública. Já tive oportunidade de mencionar, no início deste artigo, sua
origem. Por outro lado, ³programas perenes de inclusão social´, dos quais as UPPs seriam apenas uma parte, não caem do céu nem
são obra unilateral de algum governante mais esclarecido. A história mostra com toda a clareza que eles resultam do debate político
e sua natureza, amplitude e profundidade dependem, de um lado, da força relativa de imposição dos interesses dos participantes e,
de outro, da cultura cívica que fornece os recursos simbólicos operados pelos diferentes grupos na disputa. Acresce que, se
considerarmos que a expressão ³inclusão social´ tem como horizonte os valores de igualdade, os respectivos programas precisariam
mesmo ser perenes. Salvo, talvez, em momentos de crise revolucionária, o debate político e a cultura cívica não podem deixar de
adequar-se ao processo de acumulação capitalista, que é desigual por definição, de forma que sempre será necessário ³incluir´ os
subalternos, não importa se os apresentamos como ³dominados´ ou ³explorados´.
Desse modo, não é possível pensar em políticas de inclusão social sem, imediatamente, focalizar reivindicações ou, pelo menos,
expectativas, que são reivindicações implícitas e/ou inorgânicas: seus conteúdos, suas condições de possibilidade, seus agentes, etc.
Quando se pensa na população que mora nas localidades onde estão implantadas as UPPs ou são potenciais alvos delas, podemos
dizer sem medo de errar que, atualmente, sua capacidade reivindicativa é muito limitada. A simples idéia de que estas áreas
precisam ser pacificadas indica que os moradores, em conjunto, são vistos com extrema desconfiança, seja pelo restante da
população urbana, seja pelas instituições de manutenção da ordem pública. (Guerra e paz são referências binárias que tipificam
amigos/inimigos, presença/ausência de perigo, sem maiores refinamentos classificatórios.
Assim, pouco importa que os moradores dessas áreas estejam longe de ser todos pobres e miseráveis, e que constituam, na realidade,
uma população bastante heterogênea, que abriga apenas uma ínfima minoria de criminosos.)
Nestas condições, sua aceitação como participantes legítimos no debate público não pode deixar de ser muito limitada. Ora, quanto
mais frágil a posição de um grupo social, mais curto é seu horizonte político. Não é de admirar, portanto, que o menor aceno à
melhoria de suas condições de vida ± ou seja, à possibilidade de ³inclusão social´ ± mobilize grande parte dos moradores, em
particular quando o objetivo de redução da criminalidade vem acompanhado da promessa de um controle repressivo menos violento,
³pacífico´. Além do mais, o discurso em torno das UPPs tem sistematicamente mencionado que não se trata de uma política isolada,
embora a possibilidade de redução das ameaças à integridade física, vindas de grupos criminosos ou de agentes policiais, seja um
item decisivo em sua eventual aprovação. As autoridades reiteram com insistência que elas serão acompanhadas de políticas sociais
e oferta de serviços públicos de melhor qualidade, o que justifica a expectativa do editorial de O Globo de que elas venham a se
tornar uma política ³perene´, de Estado. O controle ³pacífico´ do crime é apresentado como condição para a ampliação dos demais
bens de cidadania.
A tudo isso se deve acrescentar que a cultura brasileira como um todo ± o que inclui o mundo popular, sublinhe-se ± não tem nada
de ³pacífica´. Pode-se dizer que a violência é uma parte central, pervasiva e renitente, de nossa formação histórica. Não pretendo
desenvolver uma tese sobre a cultura brasileira ou sobre nosso caráter nacional. Não tenho competência nem gosto para isso. Quero
apenas indicar que a violência privada, interpessoal e cotidiana, tem convivido com o fortalecimento do monopólio da violência
legítima pelo Estado por mais tensa que seja, na prática, esta unidade, e por mais problemática que seja para a teoria democrática.
No caso da atividade policial, que é o ponto que nos interessa, estou convencido de que não é a truculência extralegal em si mesma
que é questionada, mas sim seu caráter arbitrário e indiscriminado. A violência repressiva seria admitida e até mesmo defendida,
desde que dirigida a alvos ³merecedores´.
Neste ponto, vale um comentário lateral. Não creio que os linchamentos, que às vezes são mencionados para indicar a inclinação à
violência das camadas populares, sejam um bom exemplo. Primeiro porque, comparativamente, parece haver poucos linchamentos
no Rio de Janeiro. Segundo porque é um exemplo preconceituoso, que cola nos subalternos a imagem de uma horda de bárbaros.
Mas, principalmente, porque tudo leva a crer que sua irrupção depende de micro-histórias internas muito variadas que dificilmente
podem ser generalizadas. Considero mais pertinente mencionar a dificuldade de parentes de vítimas de violência policial, inclusive
quando estão envolvidos em movimentos coletivos, de denunciar o uso excessivo da força quando ele se exerce sobre criminosos
reconhecidos. É claro que, em parte ± mas só em parte ±, isso se deve a uma tentativa de evitar que a reivindicação por justiça seja
contaminada pela conivência com o crime. Este é, de fato, um cuidado necessário. Como já comentei, a associação entre crime e
pobreza no imaginário social obriga os subalternos a um intenso e doloroso trabalho de ³limpeza simbólica´. Não basta que suas
demandas sejam legítimas, elas precisam parecer legítimas, isto é, ser vocalizadas por pessoas reconhecidamente honestas que não
usam de subterfúgios para defender os interesses do crime.
Mas voltemos ao assunto. Há notícias de que os policiais ligados às UPPs, em particular ao nível da chefia, têm sido muito
procurados na condição de autoridade, tanto para resolver pequenos problemas cotidianos que fazem parte da atividade diária de
qualquer instituição policial, porém não compõe o núcleo da função, quanto para funcionar como mediação para o acesso a outras
instituições e serviços públicos. Ainda estamos em um estágio muito inicial, mas já é possível perceber que as UPPs começam a
desempenhar o papel de mediador político-administrativo que, por um longo período, foi desempenhado pelas associações de
moradores. Estas vêm perdendo força e legitimidade, tanto interna quanto externamente. De um lado, frente ao poder armado dos
bandos de criminosos elas pouco podem fazer além de evitá-los e/ou negociar algum nível de autonomia (quando a direção não é
simplesmente destituída e a associação ocupada pelos próprios criminosos ou seus prepostos). De outro lado, a criminalização da
pobreza e a desconfiança generalizada a respeito das ³verdadeiras intenções´ das reivindicações coletivas tem restringido a
participação orgânica das associações de moradores no debate público. Desautorizadas internamente e enfraquecidas externamente,
elas têm seu espaço de atuação cada vez mais limitado, fazendo-as beirar a irrelevância, que muitas vezes elas tentam evitar
transformando-se em núcleos de ³projetos´ e ³parcerias´ sobre cujo funcionamento não costumam ter muito controle.
Em resumo, a função de mediação político-administrativa entre as populações moradoras dos territórios da pobreza e o mundo
público, que representou a força (e a fraqueza, pois esta posição é como um copo d¶água, ao mesmo tempo meio cheio e meio vazio)
das associações de moradores tem sido esvaziada por uma série de circunstâncias. Durante algum tempo ela pareceu fragmentar-se,
distribuindo-se entre diversas organizações, locais e supra-locais, públicas e privadas. Mas vejo indicações ± que lamento e temo ±
de que a função pode estar se reunificando e passando a mãos insuspeitadas: as UPPs. Internamente, elas ganham força e
legitimidade ± ainda que espúria, do ponto de vista da democracia ± por meio de um combate à atividade criminal menos truculento
e imprevisível, combinado à promessa de melhoria dos serviços disponíveis; externamente, têm confiabilidade suficiente junto à
opinião pública e proximidade político-administrativa com outros órgãos de governo para expressar com sucesso ao menos relativo
as demandas locais, uma vez que estariam representando o lado honesto e moral das ³comunidades´. Ou seja, a mera redução da
truculência policial, que não altera a substância repressiva da política de manutenção da ordem pública, parece conferir expressivo
poder político às UPPs. Aí está contido, parece-me, o principal risco da experiência das UPPs, que deve ser refletido, questionado e
evitado: o de ³policializar´ a atividade político-administrativa nos territórios da pobreza. Transformar um braço da repressão ao
crime em organização política é tudo que o processo de democratização não precisa.
De qualquer maneira, esta lua de mel das UPPs com a mídia e a parte mais vocal da opinião pública, cujos riscos procurei alertar,
está longe de ser um completo céu de brigadeiro. Há resistências e desconfianças, fortes e bem fundamentadas, com as quais
pretendo terminar este artigo.
A tradicional convivência do mundo popular com a inconstância das políticas públicas que o tomam mais como objeto do que do
que como sujeito está na raiz de uma desconfiança generalizada quanto à permanência das UPPs no longo prazo. Dentre a população
afetada, mesmo os mais ferrenhos defensores não parecem estar inteiramente seguros de sua continuidade. ³E se os criminosos
voltarem a exercer o antigo domínio?´ ³E se a polícia voltar a atuar sem freios ± a µbarbarizar¶ ±, como antes?´ ³E se os confrontos
se intensificarem de novo?´ Dúvidas razoáveis e historicamente bem fundamentadas como estas não estimulam uma adesão
incondicional nem um repúdio muito explícito. Ao contrário, favorecem a ambiguidade, essa mistura de amor e ódio, subserviência
e autonomia, que tradicionalmente caracteriza as relações das camadas populares com as instituições estatais. As UPPs, é claro,
situam-se neste terreno movediço: fazendo dos alvos a serem ³pacificados´ um objeto de intervenção, estimulam como resposta um
engajamento cívico que é mais instrumental que substantivo. Esta tem sido, creio, uma dimensão crucial do drama da
democratização à brasileira.
Mas há uma modalidade mais afirmativa de resistência, que me parece muito associada aos segmentos mais esclarecidos das
camadas populares. Ela diz respeito a uma crítica de fundo, focada no significado que pode ter a noção de ³ordem pública´ que
nortearia não apenas a prática, mas a própria filosofia que organiza o programa das UPPs. É uma reação que denuncia o caráter
unilateral da definição e os critérios de sua implementação pelos policiais. Repudia o que considera, até certo ponto com razão,
implícito na atuação concreta das UPPs: a tentativa de regular a vida cotidiana local segundo padrões de conduta fortemente
invasivos da privacidade dos moradores, verdadeiros substitutos das garantias dos direitos civis que se espera dos responsáveis
diretos pela ordem pública. Há, mesmo, quem aproxime as UPPs dos Parques Proletários criados durante o governo Vargas, que
tinham como uma de suas características a opressiva regulamentação unilateral de todos os aspectos da vida em seu interior. Nesta
perspectiva, mais do que uma forma de controlar o crime nas localidades escolhidas, as UPPs seriam instrumento de infantilização e
domesticação de seus habitantes, de modo que o combate ao crime não passaria de mais um pretexto para a exclusão social e a
submissão cultural e política das camadas populares.
Lamento o final anticlimático, mas gostaria de terminar este artigo sugerindo que, como acontece com boa parte das políticas
públicas, no limite estamos diante de uma ³escolha de Sofia´: civilizar a polícia ou civilizar populações que devem ser
³pacificadas´? Como a vida social não tem mães, nela a tragédia é o próprio impasse, não a escolha. De minha parte, prefiro e vitar a
radicalização e apostar em pequenas mudanças cotidianas que nos afastem da exceção e desfaçam margens.

3 ± CORPORATIVISMO ÉTICO

Por ética entende-se: "parte da filosofia que estuda os valores morais e os princípios ideais da conduta humana e o conjunto de
princípios morais que se devem observar no exercício de uma profissão". Por corporativismo: "um sistema político-econômico
baseado no agrupamento das classes produtoras em corporações, sob a fiscalização do Estado". Vez que outra, tais palavras se
fundem e confundem o leigo, a ponto deste não identificar onde começa uma e termina a outra. A ética já foi usada por
inescrupulosos com o objetivo de proteger um colega ou interesses corporativos, justamente das duras penas da lei. Quando classe,
entidade ou grupo se une, evidentemente que pretende com tal associação defender interesses em comum. Até aí, nada demais. Mas
quando tais interesses se sobrepõem à lei e ao bem comum, o corporativismo deve ser combatido sempre, sob pena de vermos o
princípio de que todos são iguais perante a lei, profundamente ameaçado, adulterado. Há casos de firmeza de caráter e ética acima
dos interesses pessoais, que deveriam servir-nos de farol na escuridão dos tempos a todos àqueles que acham que o mundo está
perdido, que as pessoas aderiram ao consumismo desenfreado e que por nada mais vale a pena lutar. Toda regra tem sua exceção.
Caso clássico o de Heráclito Fontoura Sobral Pinto, jovem advogado e cristão fervoroso, que no Rio de Janeiro de 1937, durante o
regime de Getúlio Vargas, por sua própria conta e risco decidiu defender, diante do Tribunal de Segurança Nacional, dois
comunistas praticantes, Luis Carlos Prestes e Arthur Ewert, presos como líderes do movimento denominado Intentona Comunista,
em 1935. Apesar de rechaçado pelo capitão Prestes, Sobral Pinto (anticomunista ferrenho), que anos depois se tornaria lenda viva da
advocacia brasileira, insiste, com apoio a sua causa da mãe de Prestes. Dizia ele: "odiar o pecado e amar o pecador". Dobrada a
relutância do filho, após o pedido de dona Leocádia, Sobral Pinto usou de artifício legal, que entrou para os anais jurídicos, quando
denunciou o tratamento desumano aplicado ao alemão Ewert na prisão. Em sua defesa, visto que os direitos e garantias individuais
estavam "mascarados", usou recorte de jornal de 1937, em que mostra notícia de que Mansur Karan, em Curitiba, fora condenado à
prisão por ter espancado um cavalo até a morte. Sobral utilizou a decisão judicial e argüiu em defesa do réu o artigo da :   
  
  
 , onde dizia que "todos os animais existentes no país são tutelados do Estado". E, segundo suas palavras, "já
que a lei dos homens era insuficiente para impedir o flagelo do alemão, pelo menos que fosse protegido como um animal para que as
torturas cessassem". O episódio encontra-se descrito no livro Olga, de Fernando Morais. Convicções opostas não deveriam impedir
as pessoas de lutarem pelo bem comum, ainda que de forma individual. Se o desprendimento de Sobral Pinto fosse regra e não
exceção, defendendo adversário ideológico - ateu e comunista, apesar dele, católico praticante e conservador, num regime
centralizador e autoritário -, imaginem as situações que poderiam ter sido reescritas na História do Brasil, se todos fossem éticos e
cristãos, na acepção mais universal do termo. Quantas injustiças evitadas através de leis editadas e nunca cumpridas, quantos
estatutos, regulamentos, toneladas de papel jogado (ano após ano) no lixo reciclável, pois muitos teimam ler, entender e cumprir
apenas o que não lhe aperta o calo. Muitos lutam pelos direitos individuais de seu coletivo. Poucos cerram fileiras em defesa dos
direitos de sua comunidade.
Ser ético é ter disciplina espartana, não aceitando favores nem pleiteando regalias, discordar de perseguições, não tolerar hipocrisia,
intolerância ou incoerência, defender o ponto de vista do adversário quando estiver co?a razão. Ética e Política deveriam ser como
irmãs siamesas, jamais separadas, sob pena de distantes nenhuma das duas sobreviver.

4 ± CORPORATIVISMO AÉTICO

Quando vc se utiliza do corporativismo para apoiar atitudes não muito legais de seus companheiros, exemplo não denunciar quando
algum colega pratica algum ato de corrupção.

5 ± SISTEMA PRISIONAL E RESSOCIALIZAÇÃO

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6 ± AS UPPs

Foi inaugurada, no dia 19 de dezembro de 2008, a primeira Unidade de Polícia Pacificadora (UPP) do município do Rio de Janeiro,
na favela Santa Marta, na Zona Sul da cidade. A unidade conta com um batalhão e um efetivo de 123 policiais chefiados pela capitã
Priscila de Oliveira Azevedo. A ativação desta primeira UPP marca uma nova fase no combate empreendido pelo Governo do
Estado contra a territorialização de áreas segregadas pela criminalidade violenta, acrescentando à política de confrontação (³guerra
ao tráfico´) a ocupação permanente de favelas ³liberadas´. Apesar das desconfianças suscitadas quanto à continuidade e o alcance
espacial desta estratégia de política de segurança, cada nova UPP implementada tem sido recebida com entusiasmo pela grande
mídia e, principalmente, pelos moradores dos entornos das favelas. Ilustra tal entusiasmo, por parte da grande mídia, o dossiê
temático criado pelo jornal O Globo, em sua versão na Internet, intitulado ³Democracia nas favelas´ HI, dossiê que conta com
fotogalerias, vídeos e mapas de localização de quatro das sete ³comunidades´ contempladas com UPPs até o presente.
Há de se admitir que, em uma conjuntura na qual até mesmo setores (auto)considerados críticos do status quo passaram a defender
abertamente o recurso a expedientes como veículos blindados (o ³Caveirão´) pela polícia em incursoӁs às favelas, alegando a
necessidade de proteção daqueles que combatem a tirania imposta aos seus moradores pelos narcotraficantes HI, a ocupação
permanente de favelas pelas referidas Unidades de Polícia Pacificadora parece representar um avanço rumo à consolidação de certos
valores ³democráticos´, como o monopólio legal da violência pelo ³Estado de direito´ e o fomento de atividades comerciais e
negócios ditos formais. Mas, e aos críticos do status quo efetivamente comprometidos com valores democráticos mais fundamentais
do que estes ± como a capacidade de autodeterminação, o respeito dos direitos constitucionais e a justiça social ±, de que maneira se
pode interpretar as UPPs? Quais impactos elas trazem às favelas ocupadas? Que papel elas desempenham na produção do espaço
urbano carioca e, finalmente, quais implicações trazem para a práxis dos ativismos urbanos? O texto que segue busca apenas trazer
alguns elementos para a tentativa de resposta a estas questões, tendo em vista, em primeiro lugar, que a política de segurança em
questão apenas ganha os seus primeiros contornos, e, sobretudo, por uma razão a qual o autor considera preponderante: a
impossibilidade, até o presente momento, de ter ouvido, de maneira sistemática e ampla, aqueles atores mais diretamente impli cados
com as unidades de ³pacificação´, os moradores das favelas ocupadas, com exceção de um ou outro relato crítico proveniente de
indivíduos ou grupos militantes.

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Para definir, no plano descritivo, o que são as UPPs, nada melhor do que recorrer ao discurso oficial a respeito. No site criado pela
própria Polícia Militar do Estado do Rio de Janeiro (PMERJ), encontramos a seguinte definição:
³A Unidade de Policiamento Pacificadora é um novo modelo de Segurança Pública e de policiamento que promove a aproximação
entre a população e a polícia, aliada ao fortalecimento de políticas sociais nas comunidades. Ao recuperar territórios ocupados há
décadas por traficantes e, recentemente, por milicianos, as UPPs levam a paz às comunidades do Morro Santa Marta (Botafogo ±
Zona Sul); Cidade de Deus (Jacarepaguá ± Zona Oeste), Jardim Batam (Realengo ± Zona Oeste) e Morro da Babilônia e Chapéu
Mangueira (Leme ± Zona Sul). («) [Atualmente, as favelas dos Tabajaras e dos Cabritos, em Laranjeiras, do Pavão-Pavãozinho e
do Cantagalo, em Copacabana, além da favela da Providência, no Centro, já foram contempladas com UPPs]. Criadas pela atual
gestão da secretaria de Estado de Segurança, as UPPs trabalham com os princípios da Polícia Comunitária. A Polícia Comunitári a é
um conceito e uma estratégia fundamentada na parceria entre a população e as instituições da área de segurança pública.(«) Até o
fim de 2010, 3,5 mil novos policiais serão destinados às Unidades Pacificadoras.´ HI
A partir desta definição, e pelas iniciativas adotadas pelos responsáveis das UPPs relatadas pelos órgãos de comunicação da PMERJ
e de importantes veículos da imprensa, as referidas unidades revestem, efetivamente, uma novidade na política de segurança do
Governo do Estado, não pela ocupação permanente das favelas pela polícia ± o que já vinha sendo feito pelo Grupamento de
Policiamento de Áreas Especiais em algumas localidades ±, mas pela intenção de se levar a cabo um pretendido policiamento
comunitário, cujo princípio constitutivo é, em linhas gerais, o contato direto e, em certa medida, solidário, entre os policiais e os
moradores para a identificação conjunta dos anseios e dos problemas da comunidade, de maneira a delinear os procedimentos de
segurança mais apropriados. Para tanto, a PMERJ tem mobilizado para as UPPs um efetivo de policiais recém-formados, e em cuja
instrução foram capacitados para este tipo de policiamento. Como nos informam os veículos de comunicação mencionados acima,
antecedem a ativação de uma nova UPP audiências em que o comando do Batalhão de Operações Especiais da PM (BOPE) explica
aos moradores o que são as unidades, e quais serão os procedimentos para a sua implementação. No morro da Providência, no
Centro, tal audiência contou com apenas 50 moradores HI, número muito inferior àquela realizada na favela do Borel, na Tijuca
(Zona Norte), em que participaram 300 moradores HI, favela que receberá uma UPP em breve.
Uma vez ativada a UPP, os policiais esforçam-se por oferecer atividades solidárias que beneficiem os moradores e os auxiliem a
desfazer a desconfiança que eles guardam (e não sem motivos«) pela PM ± como as aulas de violão ministradas por um policial da
UPP Babilônia/Chapéu Mangueira; aulas de natação, capoeira e taekwondo, para as crianças, e hidroginástica para os idosos da
favela do Batam (com direito a eventuais distribuições de presentinhos, como as camisas do Botafogo ofertadas pelo capitão
Ribeiro, em seguida ao título carioca de 2010 conquistado por este time); escolhinha de futsal na UPP do Cantagalo, e de percursão,
oferecida pelo capitão da unidade, entre outras atividades apresentadas em destaque no site oficial das UPPs. Contudo, os moradores
das favelas ocupadas pelas UPPs não são beneficiados, em serviços, apenas pelo voluntarismo e a criatividade dos policiais. É
objetivo explícito desta política que, depois da polícia, siga uma ³invasão de serviços´ H I, como, por exemplo, a prevista
implementação de 3,2 mil pontos de luz na favela da Cidade de Deus. Desta ³invasão de serviços´, consta ainda a previsão de
dragagens de rios, recapeamento de ruas e uma série de outros serviços que alegadamente careciam nas favelas por obra dos
impedimentos impostos pelos narcotraficantes.
Outra benece das UPPs propagandeada pelo Governo do Estado, pela PMERJ e pelos grandes meios de comunicação é o sucesso na
redução dos indicadores de violência, indício flagrante da ³pacificação´. O Secretário Estadual de Segurança do Rio de Janeiro, José
Mariano Beltrame, declarou que ³[t]odos os indicadores são animadores´H•I. O governador Sérgio Cabral, por sua vez, quando da
inauguração da UPP da Providência, chamou a atenção para a redução dos índices de criminalidade de Copacabana, que, segundo
ele, o bairro não tinha há décadas, e vaticinou o mesmo destino para o Centro da cidade com a ativação da mais nova unidade H#I. ?
 Online é o único a apresentar números aos tais índices, informando que, após a implementação da UPP da Cidade de Deus, o
número de homicídios diminuiu em 82% nesta favela, e que os casos de roubo de carro caíram em 83% no mesmo período.
Infelizmente, nem o referido jornal, nem as autoridades evocadas acima indicaram a fonte dos seus dados.
Finalmente, a ³pacificação´ das comunidades, além de permitir a ³invasão de serviços´ públicos ± outrora impedidos de serem
prestados alegadamente pela ferrenha determinação dos narcotraficantes ±, pavimenta o caminho para uma outra invasão, a de
serviços privados (ou, ao menos, a sua regularização). Para isso, já foi criado, por iniciativa da Associação Comercial do Rio de
Janeiro, um Conselho Empresarial de Parcerias Pró-Formalidade, integrado por representantes da Secretaria da Fazenda (do estado e
do município), Secretaria de Segurança e de Ordem Pública, do Instituto Municipal de Urbanismo Pereira Passos, do Serviço
Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (SEBRAE), das empresas Light (de energia elétrica), CEDAE (de águas e
esgotos), do Vivacred (empresa de microcrédito da ONG Viva Rio), da NET (televisão a cabo), além do Sindicato Nacional das
Empresas Distribuidoras de Gás Liquefeito de Petróleo (SINDIGAS), do Sindicato Nacional da Indústria do Cimento, entre outros
membros de peso. Com tamanho empenho, os efeitos benéficos das UPPs para a regularização dos serviços prestados nas favelas
³pacificadas´ já se faz notar: segundo o presidente da Associação Comercial do Rio de Janeiro (que também é o presidente da
Light), o furto de energia elétrica na favela Santa Marta foi reduzido de 70% para 1% H'I. O Conselho se encarregará também da
realização de um censo, a ser iniciado na Cidade de Deus, para identificar a vocação empresarial dos moradores da favela. Em
seguida, serão criadas as Agências do futuro, onde os empreendedores em potencial receberão orientações para os negócios H)I.
Policiamento comunitário marcado pelo diálogo entre os policiais e os moradores das favelas ³pacificadas´, voluntariado da parte
dos policiais, redução drástica dos índices de violência, ³invasão de serviços´, combate à informalidade e incentivo ao
micro(nano?)-empreendedorismo. Eis o quadro pintado pelos veículos oficiais de comunicação do Governo do Estado e da Polícia
Militar e da grande mídia entusiasta. Mas, se ouvirmos os testemunhos de alguns dos moradores das favelas ocupadas pelas UPPs,
as análises de observadores críticos e mesmo algumas notícias de relevo na grande mídia, pode-se contrastar a imagem de sucesso
acachapante propagandeada até aqui, demonstrando alguns importantes atritos entre as comunidades e os policiais, e contestando,
igualmente, o fim da violência nestas áreas.
A Associação dos Profissionais e Amigos do Funk (APAFUNK), que tem se dedicado a valorizar a dimensão da cultura popular
constituída através do funk, a lutar contra a sua criminalização e a retomar a ligação entre este gênero cultural e a crítica do status
quo, traz em seu site uma série de denúncias contra os abusos cometidos por policiais das UPPs e outras consequências negativas
trazidas pela sua implementação. Segundo a referida associação, os conflitos entre moradores e policiais têm como sintoma imediato
o aumento do número registrado de desacatos contra os policiais, em que os moradores acusados têm como acusadores o próprio
policial militar supostamente desacatado, mas que, em todos os casos, a testemunha de acusação é um outro policial HI. À falta de
testemunhas de defesa, casos de violência e humilhações sofridas por moradores de favelas ocupadas por UPPs pelas mãos de
policiais ³comunitários´, reportados, inclusive, pela grande mídia, dão-nos argumentos para acreditar que o (mau) hábito de
autoritarismo e abusos da polícia perpetrados contra os moradores de favelas está longe de ser interrompido com o ³policiamento
comunitário´ das UPPs. Trazemos alguns exemplos: apostando na impunidade e na subalternidade da população favelada, um
soldado da UPP da Cidade de Deus teria, na noite do dia 15 de maio do presente ano, obrigado o cidadão Rodrigo Felha, de 30 anos,
a ficar de cuecas na entrada da sua comunidade, sem mesmo pedir-lhe que se identificasse. Para a infelicidade do soldado, calhou do
tal cidadão ser diretor de cinema, realizador de um filme que foi exibido no Festival de Cannes este ano, o filme ³Cinco veze s favela
± agora por nós mesmos´, notoriedade que levou a sua queixa prestada em uma delegacia a ser noticiada pela grande mídia.
Conhecendo o histórico de violência arbitrária da polícia, moradores do morro Santa Marta, junto a entidades como a Anistia
Internacional, a Comissão de Direitos Humanos da Assembléia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro, entre outras, produziram a
³Cartilha popular do Santa Marta: Abordagem policial´, contendo orientações sobre os direitos e deveres do cidadão no contato com
a polícia. A cartilha, porém, não evitou que o Rapper Fiell, que participou da sua elaboração, fosse vítima da violência dos policiais
da UPP quando da organização de um evento em um bar, que também é um centro cultural, na sua comunidade, a favela Santa
Marta. Segundo o rapper, os policiais adentraram o local abruptamente, à 01:55 do sábado, dia 22 de maio, desligando o aparelho de
som, que, segundo o autor da denúncia, já estava em volume baixo para não incomodar a vizinhança ± a qual, diga-se de passagem,
nunca antes havia reclamado. Após protestar contra o abuso dos policiais, o rapper recebeu voz de prisão por desacato, e, ao ser
dirigido à viatura da polícia, foi agredido por diversos policiais, que lhe provocavam perguntando onde estava a cartilha de
abordagem policial para lhe proteger. Ao sair da delegacia, o rapper fez exame de corpo delito no Instituto Médico Legal para, em
seguida, prestar queixa por abuso de autoridade, violência física e constrangimentoHI.
Além dos conflitos entre policiais e moradores, a APAFUNK joga luz sobre a assimetria entre a exigência de deveres e a efetivação
de direitos, alegando que, de um lado, o custo de vida dos moradores aumentou em consequência da cobrança de serviços antes
obtidos informalmente; mas, por outro lado, os postos de saúde, creches e outros serviços prometidos quando da instalação das
UPPs ainda não foram implementados. Na favela da Babilônia, por exemplo, mesmo após um ano de ativação da UPP, há problemas
de abastecimento de água por falta de um reservatório, e ainda não há coleta de lixo dentro da favela, o que mostra que a ³invasão´
dos serviços privados é bem mais veloz que aquela dos serviços públicos, deixada na retaguarda.
Ainda no site da APAFUNK, a pesquisadora Ana Paula Miranda põe em suspeição as afirmações do poder público referentes à
redução dos índices de criminalidade. A coordenadora do Curso de Especialização em Políticas Públicas de Justiça Criminal e
Segurança Pública, da Universidade Federal Fluminense, aponta para o aumento do número de homicídios na Área Integrada de
Segurança Pública que abarca a favela Santa Marta, no período entre 2008 e 2009, que teria aumentado de 18 para 29 em
comparação com o período entre 2007 e 2008. No entanto, desconfiança ainda maior sobre a ³pacificação´ das favelas, sobretudo no
que diz respeito à expulsão definitiva dos traficantes de drogas, é despertada pelo incidente ocorrido no dia 3 de março deste ano na
Cidade de Deus (isto é, mais de um ano após a abertura da UPP na favela), em que traficantes atearam fogo em um ônibus HI.
No entanto, as críticas e acusações dirigidas às UPPs, sobretudo as denúncias de abusos perpetrados pelos policiais lotados nestas
unidades ± o que põe em xeque um dos elementos fundamentais para a configuração de um verdadeiro policiamento comunitário ±,
embora possam depor sobre a continuidade da violação dos direitos civis nas favelas, não devem nos levar a encarar a política de
³pacificação´ como uma mera continuação da política de combate à criminalidade violenta nas áreas segregadas vigente durante as
últimas décadas no Estado do Rio de Janeiro. Na escala das favelas ocupadas, dois novos elementos surgem de maneira destacada
com a implementação das UPPs: 1) a permanência, nessas favelas, de uma fração da Polícia Militar com objetivos e estratégias que
ultrapassam a confrontação e estabelecem vínculos mais perenes com os moradores (por mais conflitivos que sejam eles), e 2) o fim
da presença ostensiva da criminalidade armada nos espaços ocupados. Evidentemente, ainda é cedo para tirar conclusões mais
definitivas, mas, a manter-se este quadro, as condições de vida da população destes espaços terão mudado significativamente, e
terão mudado também as condições de luta pela autodeterminação sobre os seus espaços e de mobilização política de maneira geral.
Antes, porém, de refletir a esse respeito, é importante determo-nos sobre dois aspectos fundamentais da política de ³pacificação´:
como ela se insere na dinâmica da valorização capitalista do espaço urbano e quais são os seus limites espaciais.

7 ± AS ³MILÍCIAS´

As  6 
são grupos criminosos formados por policiais e bombeiros, fora de serviço ou na ativa, que controlam por meio de
contribuições dezenas de favelas da cidade do Rio de Janeiro, principalmente na zona oeste carioca. Estes grupos parapoliciais
atuam em conjunto com a Guarda Municipal, o Sindicato dos Guardadores de Veículos e o respaldo de políticos e lideranças
comunitárias locais.
Mais de 200 favelas estariam sob o controle de milícias, que oferecem segurança aos moradores dessas comunidades. Entretanto, os
seus residentes denunciaram o uso extensivo de violência e a extorsão de pagamentos em troca de proteção. Algumas comunidades
relataram ter sofrido retaliações violentas das facções do tráfico de drogas - as milícias enfrentam traficantes pelo controle do
território e dodinheiro - depois que as milícias se retiraram dos seus bairros. Há relatos de emprego de violência e intimidações
contra aqueles que denunciam suas atividades ilegais.
Além da cobrança de tributos de moradores, os milicianos controlam o fornecimento de muitos serviços aos moradores, geralmente
a preços mais altos, incluindo a venda de gás, eletricidade e outros sistemas de transporte privado, além da instalação de ligações
clandestinas de televisão a cabo.
( 1

As milícias existem no Rio de Janeiro desde a década de 1970, controlando algumas favelas da cidade. Um dos primeiros casos
conhecidos é o da favela de Rio das Pedras, na região de Jacarepaguá, onde comerciantes locais se organizaram para pagar policiais
para que não permitissem que a comunidade fosse tomada por traficantes ou outros tipos de criminosos, em 1979.
No início do século XXI, estes grupos para policiais começaram a competir pelas áreas controladas pelas facções do tráfico de
drogas. Em dezembro de 2006, segundo relatos, as milícias controlavam 92 das mais de 1000 favelas cariocas.
Os primeiros relatos sobre a expansão recente e repentina das forças milicianas descreviam a milícia como uma forma de segurança
alternativa, por oferecer às favelas a oportunidade de se livrar da dominação das facções do tráfico. A ação das milícias começou a
ser relatada na imprensa brasileira em 2005, quando o jornal O Globo denunciou grupos que cobravam pela segurança, marcando
símbolos de trevos de quatro folhas, pinheiros, entre outros, nas casas dos clientes, de forma a demonstrar quais destas moradias
estariam protegidas por cada grupo. Ainda hoje, este tipo de marcação ocorre nas favelas controladas por milicianos.
De início, algumas pessoas das favelas, comentaristas dos meios de comunicação, políticos e até o então prefeito da cidade, César
Maia, deram seu apoio aos grupos de milícias. César inclusive chegou a chamá-las de s
 
 
s e um s
 
   s. Entretanto, não tardaria para que emergissem histórias nas favelas que contradiziam essa imagem positiva. As
milícias tomavam conta dos lugares com violência e depois sustentavam sua presença através da exigência de pagamentos semanais
dos moradores para manter a segurança. Além disso, como as facções do tráfico, os milicianos impunham toques de recolher e
regras rígidas nas comunidades, sob pena de castigos violentos em caso de descumprimento - inclusive atuando como grupo de
extermínio.
Entre 27 e 31 de dezembro de 2006, facções do tráfico lançaram uma série de ataques contra alvos da polícia, civis e até do governo
em toda a cidade, em represália ao avanço das milícias. As quadrilhas incendiaram ônibus e jogaram bombas em edifícios públicos.
Dezenove pessoas foram mortas, inclusive dez civis, dois policiais e sete criminosos. Em um incidente, traficantes mataram sete
pessoas quando incendiaram o ônibus em que viajavam. Dois passageiros morreram mais tarde no hospital devido à gravidade de
suas queimaduras e outros 14 ficaram seriamente feridos. A polícia prendeu três homens e confiscou armas de fogo, granadas e
munições. A polícia fluminense reagiu da mesma forma, matando mais de cem s    s pelos ataques. A partir de então, o
governo estadual empossado em 1º de janeiro de 2007 pelo governador Sérgio Cabral, reconheceu a ameaça das milícias. O
secretário de Segurança Pública do Estado, José Mariano Beltrame, e o chefe da Polícia Militar confirmaram sua existência e
iniciaram investigações dos policiais suspeitos de envolvimento em atividades ilegais ligadas a essas milícias. O governador Cabral
declarava em fevereiro daquele ano que reprimiria a atuação de milícias na capital fluminense. O governo anterior, de Rosinha
Matheus, não reconhecia a existência dos grupos parapoliciais.
Contudo, a polícia e o Ministério Público dizem que a filiação a uma milícia não constitui delito criminal de acordo com a lei
brasileira, o que torna muito mais difícil processar as milícias como um grupo. Em conseqüência, sua disseminação ocorre
livremente, constituindo uma grave ameaça para a estabilidade e segurança de centenas de milhares de brasileiros que já vivem de
forma muito precária nas favelas do Rio de Janeiro. Entretanto existe no Código Penal brasileiro o crime de Formação de Quadrilha;
além disso, segundo a Constituição Brasileira, o Poder Público é o responsável pelo território nacional, sendo vedado o controle de
áreas de controle público por pessoas ou grupos particulares.
Em janeiro de 2007, milicianos travaram uma guerra com traficantes na favela Cidade Alta, em Cordovil, ocorrendo até denúncias
que o grupo paramilitar recebeu apoio de um caveirão da PM para invadir a comunidade. Em 4 de fevereiro, os milicianos chegaram
a ocupar a favela, mas três dias depois é retormado pelos traficantes do Comando Vermelho, liderado pelo Mineiro da Cidade Alta.
Entre dezembro de 2007 e março de 2008, a mílicia matou 5 traficantes no Morro do Dezoito, entre Quintino Bocaiúva e Água
Santa, ao tentar invadir a favela. Um cinegrafista amador mandou imagens para a TV Globo de um grupo de homens vestidos de
preto, supostamente milicianos, de vigília no Cruzeiro de Água Santa, no alto da favela, logo após a ameaça de que traficantes
tentariam retomar o controle da favela. Desde então, diversos confrontos ocorreram na favela, que está sendo disputada entre os
milicianos e traficantes do Comando Vermelho. Neste mesmo período famílias chegaram a ser expulsas de casa e espancadas na
favela da Palmeirinha, em Guadalupe, onde milicianos mataram pelo menos quatro pessoas.
Em maio de 2008, num dos episódios mais violentos, milicianos que controlam a favela do Batan, em Realengo, sequestraram e
torturam um grupo de jornalistas do jornal ? 
que estavam na favela fazendo uma reportagem sobre a atuação desse grupo
paramilitar. Os jornalistas ficaram duas semanas sob o poder dos milicianos, mas foram libertados com vida, somente após
prometerem que não contariam o ocorrido.
Também em maio de 2008, milicianos travam uma guerra com traficantes da favela Kelson's, na Penha, que já resultou em quase 10
mortos. Até moradores da favela foram ameaçados, tendo o presidente da associação de moradores da comunidade sido sequestrado
no ano passado e nunca mais sido visto novamente. Neste mesmo mês foi morto o delegado titular na investigação da ação das
milícias na favela Kelson. Ele teria sido seguido até um supermercado no Recreio dos Bandeirantes, bairro onde morava, onde
desceu do carro para tomar um café e foi morto com um tiro na nuca na entrada do estabelecimento.
Em 20 de agosto de 2008, ocorreu o massacre na Carobinha, onde morreram inúmeros inocentes, foi atribuído a milicianos, que
estariam tentando culpar traficante e assim fortalecer politicamente a candidatura da filha do vereador Jerominho.
Em 5 de outubro, uns dos líderes do Comando Vermelho, Mineiro da Cidade Alta, líder tráfico de drogas na favela da Cidade Alta,
no bairro Clodovil, acusado de inúmeros assassinatos de milicianos, é finalmente morto.
O ano de 2009 é o ano da Liga da Justiça a ser notícia, liderado pelo policial Jeroninho, cujo o símbolo é o personagem Batman,
com prisões de membros e avanços da milícia na zona sul do Rio de Janeiro.
Diversos políticos do Rio de Janeiro são notórios milicianos, embora nenhum deles tenha ainda sido julgado e condenado.
Dois vereadorescariocas chegaram a ser presos em 2007 e 2008 por ligações com os grupos paramilitares: Nadinho de Rio das
Pedras e Jerominho. Além disso, o irmão de Jerominho, o deputado estadual Natalino, também acusado de integrar uma milícia, foi
preso em flagrante após trocar tiros com policiais em sua casa, na Zona Oeste do Rio. Sua prisão foi mantida pela Assembleia
Legislativa do Rio de Janeiro. O parlamentar renunciou no fim do ano de 2008 para escapar de um processo de cassação que levaria
à perda de seus direitos políticos.
Em 2008, foi instalada a CPI das Milícias na Assembleia Legislativa fluminense, presidida pelo deputado estadual Marcelo Freixo.
Diversos políticos foram intimados a depor diante desta CPI, sendo acusados de envolvimento com milicianos, entre os quais os
vereadores/candidatos a vereador Nadinho de Rio das Pedras, Cristiano Girão, Deco e Doen, além da deputada Marina Maggessi e
do deputado e ex-secretário de segurança Marcelo Itagiba.
A filha de Jerominho, Carminha Jerominho, do PT do B, após ter sido presa e levada para um presído de segurança máxima, acabou
libertada pela justiça e pôde assumir a vaga de vereadora. Carminha foi eleita com 22.049 votos, apesar de a imprensa e as
investigações acusarem ela de ser uma das envolvidas.
Assim como o tráfico, as milícias também possuem suas facções. A mais conhecida delas é a chamada "Liga da Justiça", que tem
como símbolo o escudo do Batman. Pertenceriam a essa milícia, segundo investigações oficiais, os políticos Jerominho e Natalino.
Havia poucos registros de guerras entre milícias, sendo o caso de maior repercussão até então o assassinato do chefe da milícia de
Rio das Pedras, o inspetor Félix Tostes. Este caso foi apontado apenas uma disputa interna de poder entre membros de uma das
facções milicianas. Até que em janeiro de 2009 foi iniciada uma série de assassinatos entre líderes de facções distintas. Tal guerra
entre facções havia sido anteriormente prevista em agosto de 2008 pela polícia, que teria descoberto um plano de milicianos da Liga
da Justiça para matar seus rivais da milícia de Rio das Pedras. No dia 5 de janeiro, Carlos Alexandre Silva Cavalcante, o
"Gaguinho", indiciado pela CPI das Milícias, foi morto a tiros, possivelmente por membros da Liga da Justiça, uma vez que,
atuando como policial, participou da prisão de Natalino. Horas depois, Alexandre Silva Cavalcanti, apontado como membro da Liga
da Justiça, também foi morto a tiros [

8 ± AS AÇÕES DO NARCOTRÁFICO X PM

De fato, nunca pensei que tamanha ousadia fosse acontecer aqui em Minas Gerais. Bandidos impondo terror de maneira tão
explícita, marcando toque de recolher com data de início e término, população obedecendo fielmente ao poder paralelo, mesmo com
a presença maciça da polícia. É algo sobre o qual devemos refletir. Como o tráfico chegou a ter tal poder em nosso Estado? Como
podemos evitar fatos semelhantes? Vou aqui dar minha opinião sobre esses acontecimentos, fazendo uma associação com o poder
do narcotráfico. Começo meu posicionamento com uma pergunta: Verdade ou mentira que, neste exato momento, está acontecendo
um crime, a polícia sabe, mas mesmo assim não se faz presente no local? Ora, tráfico de drogas é crime, previsto no artigo 33 da Lei
nº 11.343/06. Sabendo do fato delituoso, a polícia deve comparecer ao local e prender o infrator, concordam comigo? Então,
companheiro policial, faço-lhe outra pergunta: Quantos pontos de tráfico de drogas que você conhece que neste exato momento não
estão sendo efetivamente policiados? Quantas viaturas estão neste momento no centro comercial de cidade X e quantas estão em
cada um dos pontos de venda de drogas dessa cidade hipotética? Já falei aqui neste blog que, na minha opinião, a polícia deve estar
onde está acontecendo o crime, da mesma forma que o artista deve estar onde o povo está. Polícia para quem precisa de polícia, já
diz a música. Então, companheiro, eu não vejo lógica em ver uma viatura fazendo ponto-base ou patrulhamento na área comercial e
bancária de uma cidade sabendo que em determinado local perto ou distante dali está acontecendo um crime naquele exato
momento. Se o criminoso não é preso, ele vai se fortalecendo, se fortalecendo... e vira    . O tráfico de drogas
especialmente, porque ele precisa de um território seguro para comercializar seu veneno. Precisa de espaço para espalhar os olheiros
no terreno a fim de monitorar a chegada da polícia, para controlar quem entra e quem sai, para guardar o "produto" com segurança,
etc. O tráfico se instala aos poucos; aos poucos ele vai amedrontando ou cooptando os moradores locais, aos poucos a polícia vai
prendendo, aos poucos os traficantes e associados vão sendo soltos em virtudes de lei cegas e, de pouco em pouco, o tráfico vira
um 
 , ponto no qual a população perde a confiança na polícia e no Estado de maneira geral, ponto no qual mesmo uma
megaoperação não é capaz de restabelecer a tranquilidade e a paz social. Como dizem os moradores, um dia todo esse aparato vai
embora, e aí?
E aí é que, enquanto não existirem leis eficientes, rigorosas, enquanto a polícia for a única culpada pela criminalidade, tudo
continuará da mesma forma que está, com tendência a piorar. A droga está tomando conta, por todo lado, até em cidades pequenas e
zonas rurais. M    . O que fazer? Aos políticos cabem fazer uma reforma profunda nas leis penais, à Polícia Militar cabe
estar onde o crime está acontecendo, à Polícia Civil cabe investigar e colher provas da ação delituosa, ao Poder Judiciário cabe punir
com rigor e ao Sistema Prisional cabe aplicar a pena e, na medida do possível, ressocializar o condenado.

9 ± VIOLÊNCIA URBANA CONTEMPORÂNEA :

Criminalidade e violência, entretanto, configuram-se como comportamentos inerentes à natureza humana. O que faz com que tais
formas de conduta assumam um caráter de patologia social são suas elevadas taxas de ocorrência. É o que constata Durkheim (1895)
ao afirmar que a existência do crime é fato social normal, embora sempre abominável e, logo, punível seu autor.
A repressão, isoladamente, não é eficaz no controle do crime. Para isso, ela deve atuar juntamente com os métodos preventivos da
criminalidade. Torna-se urgente, no cenário atual em que vivemos, a aplicação de medidas de profilaxia criminal que venham a
minimizar a onda crescente de violência.

"   7   
Preliminarmente, indagamos acerca da relação existente entre o crime e as condições de vida em sociedade, do quem vem a
impulsionar o aumento da violência nas grandes cidades fazendo com que estas possuam um alto índice de criminalidade.
Não há que se cogitar que a violência nos centros urbanos provém tão somente das desigualdades sociais existentes. Com isso,
estaríamos afirmando que os pobres, de maneira geral, teriam uma tendência a se tornarem criminosos. Essa associação entre
miséria e violência não é absoluta, servindo apenas para desviar a atenção da opinião pública da real situação existente, além de
criminalizar a pobreza.
De acordo com Felix (1996, p.61), a falta de progresso pessoal de maneira isolada não estimula o crime. Ocorre que, a miséria de
alguns em contraste com o progresso de outros, estimularia o crime em busca de um re-equilíbrio daqueles que se sentem
inferiorizados. Assim, o crime seria uma solução de emergência dos que se percebem mais pobres frente às desigualdades sociais,
sendo o meio urbano um cenário propício, visto que os desiguais convivem próximos.
No entanto, outras atenuantes devem ser levadas em consideração por fomentar a criminalidade no meio urbano, tais como: o
processo de segregação espacial presente na vida urbana, o qual ocasiona uma expansão urbana desigual com a criação de bairros
sem condições de proporcionar vida digna aos seus moradores; a desintegração dos laços sociais provocada pelo egocentrismo
inerente de uma sociedade competitiva, pela instabilidade proporcionada pela vida moderna, pela agressividade e pela indiferença
afetiva própria da ausência de raízes sociais (CASTRO, 1983. p. 208).
É a confluência dos referidos fatores a responsável pelo estímulo à criminalidade no meio urbano e não a atuação isolada de cada
um deles. Isso faz com que as manifestações mais extremadas do crime ocorram em sociedades que já possuem uma tradição
cultural de violência e acentuada divisões étnicas, sociais e econômicas, como é o caso do Brasil.
"  
    $

O Estado, em busca de combater a criminalidade, tem dado prioridade às seguintes formas de ataque: aumentar penas e reaparelhar a
polícia. Além da construção de novas penitenciárias visando suprir a demanda de detentos.
No entanto, não adianta super-aparelhar a segurança pública, como também criar penalidades mais rigorosas se a raiz causadora do
problema permanecer intacta. O delito é "fenômeno social complexo que não se deixa vencer totalmente por armas exclusivamente
jurídico-penal" (Toledo, 1994).
A adoção de referidas políticas conservadoras e/ou autoritárias para combater as questões relativas à segurança pública pode ser
mais um motivo de preocupação, haja vista que violência desnecessária pode e, freqüentemente, gera mais violência. Por isso é
preciso um esforço conjunto dos mais variados ramos do Estado.
A sociedade, por sua vez, deve se conscientizar de que é co-responsável na redução dos problemas criminais. Devendo combatê-la
juntamente com o Estado, pois a origem dos males encontra também sua parcela de contribuição na família, nas escolas, nas igrejas,
nos meios de comunicação, na sociedade civil, como um todo.
Será da ação conjunta entre Estado e sociedade que surgirão soluções mais eficazes e legítimas. E enquanto essa segurança pública
não é promovida e a sociedade não se mobiliza, vivemos em um cenário de pavor, onde se procura ³fazer justiça com as próprias
mãos´, conforme podemos analisar pelo discurso de um indivíduo considerado um dos líderes da organização denominada PCC
(Primeiro Comando da Capital):
 1
   "
Em virtude da constatação do aumento da criminalidade e das deficiências do sistema punitivo, torna-se crucial repensar o modo de
enfrentar o delito em busca se soluções mais eficientes.
Como vimos, somente a repressão não atinge a raiz patológica do conflito. Conquanto indispensável, a punição constitui-se apenas
como um elemento paliativo. E disto já percebera Beccaria (1775, p. 77) quando proclamou ser "mais fácil, mais útil, prevenir que
reprimir".
É preciso, pois, que a origem do problema seja atacada. E o meio adequado para se atingir tal objetivo se dá através da prevenção.
Esta, por sua vez, procura evitar a incidência da violência e, caso esta venha a incidir, procura evitar a sua reincidência.
Podemos, desse modo, destacar três tipos distintos de prevenção:
I. Prevenção primária: Tem como objetivo principal o combate aos fatores indutores da criminalidade antes que eles incidam no
indivíduo. Atua na a raiz do delito, neutralizando o problema antes que ele apareça. Para isso, busca suprir as carências
fundamentais da sociedade, tais como: saúde, educação, moradia, etc.
II. Prevenção secundária: Consiste em medidas voltadas aos indivíduos predispostos a praticar um delito.
Tal forma de prevenção opera a curto e médio prazo, uma vez em que age quando e onde ocorre o crime. A função primordial da
prevenção secundária, portanto, é agir sobre os grupos de risco, erradicando seu caráter potencializador do delito.
III. Prevenção terciária: É voltada para a população encarcerada, procurando evitar a sua reincidência. Opera, pois, no âmbito
penitenciário através de programas de reabilitação e ressocialização, buscando a reinserção social e o amparo à família do preso.
V 

Diante do exposto, observa-se que, frente à crescente onda de violência, a sociedade exige que o Estado se utilize da repressão como
se fosse a melhor solução dos conflitos. Isso ocasiona um emaranhado de normas penais visivelmente ineficazes, fruto de uma clara
predileção vingativa adotada por nosso ordenamento proveniente desde épocas remotas.
Dessa forma, a criminalidade continuará aumentando, porque está ligada a uma estrutura social profundamente injusta e desigual.
Caso não se atue nesse ponto, será inútil punir e continuará sendo um engano a idéia de que se pode corrigir castigando.
Torna-se urgente, portanto, um aprimoramento da política de segurança pública, pois enquanto a sociedade não se conscientizar da
importância da prevenção, será muito difícil implantar uma atuação correta em resposta à criminalidade.

10 ± DIREITOS HUMANOS X CRIMINALIDADE

A atual falência do sistema prisional quanto aos objetivos da pena (art. 1º LEP c.c. art. 91, I CP e art. 144 CF) força aos
profissionais do direito a ter e exigir das autoridades públicas a responsabilidade social ante o ³discurso da verdade´; porque ³o
melhor sistema penitenciário é o que não existe´ (Aniyar de Castro, Lola - Venezuela -: in ³Notas para um Sistema penitenciário
Alternativo´ Rev. Jurisprudência Brasileira Criminal vol 35, Ed. Juruá, Curitiba, 1995, trad. Maia Neto, Cândido Furtado), o cárcere
não serve para o que diz servir ± ressocialização ou reintegração social -, se não para outras coisas, sua função é reproduzir
delinqüentes, sendo mais de 70% dos presos reincidentes. O direito penal é composto de mitos, falsidades, demagogias e acima de
tudo, hipocresia oficial, nada de concreto ou de cientificidade nas estórias e histerias universais (Maia Neto, Cândido Furtado: in
³Promotor de Justiça e Direitos Humanos´, Ed Juruá, Curitiba, 2007), na contra-mão da história, da boa política e especialmente em
choque com a verdade e com a ciência, ademais de atropelar os postulados da criminologia e da vitimologia moderna. Devemos
fazer valer os direitos humanos das vítimas de delito e implementar o modelo de justiça reparadora ou restauradora (Beristain,
Antonio: in ³Nova Criminologia à luz do direito penal e da vitimologia´; Ed UNB, Brasília-DF, 2000, trad. Maia Neto, Cândido
Furtado), para a solução do problema crime, oportunizando responsabilidades e obrigações a todos e olhar para o futuro e não
somente ao passado, como faz e pretende o direito penal atual com seu modelo retributivo inócuo. Como exemplo, a lei nº 7.492/86,
é pura demagogia e verdadeiro ³aberratio iuris´, por se apresentar falsamente e dar aparência de legislação eficiente para a repressão
da criminalidade de alto nível no combate aos desfalques financeiros. Segundo o quantum da pena cominada para cada delito, na
pior das hipóteses, ou seja de condenação do réu, a privativa de liberdade não será aplicado acima de 4 (quatro) anos, portanto, o
defraudador dos cofres públicos, poderá continuar em liberdade, sendo a sanção, mesmo que de prisão, cumprida no regime aberto,
nos termos do artigo 33, § 1º ³c´ e ³§ 2º ³c´ do código penal. De outro lado, quanto a condenação a pena de multa, a lei não remete
o cálculo de aplicação para a parte geral do código penal (lei nº 7.209/84), pelo contrário, faz menção ao § 1º do art. 49 do Decreto-
lei nº 2.848/40, já revogado em janeiro de 1985 (art. 33 da lei nº 7.492/86), este dispositivo não trata da pena de multa como quer a
norma dos crimes contra o sistema financeiro; portanto, torna-se inaplicável por impossibilidade legal, para o magistrado sentenciar
em base a norma que não diz respeito ao assunto, inexistente ou revogada, impedindo desta forma a condenação em multa aos
autores de delitos contra a ordem financeira nacional, restando mais uma vez, a impunidade para todos os causadores de ³quebras de
bancos´ ou desvios de verbas públicas ou privadas. Indagamos:
1- Será erro de digitação ou de impressão ? Na lei devidamente publicada vale o que está escrito - princípio da taxatividade e da
interpretação restritiva -, qualquer falha legislativa erro deve ser necessariamente sanada com outra publicação, e até agora isto não
foi feito pelo Poder Legislativo.
2- Será incompetência, amadorismo ou falta de atenção dos vários órgãos governamentais, dentre eles cito: as assessorias jurídicas e
comissões da câmara dos deputados federais e do senado, o ministério da justiça, a secretaria nacional de assuntos legislativos, o
conselho nac. de política criminal e penitenciária, a consultoria-geral da república, etc.. Nenhum destes órgãos fez a revisão do texto
legal ?; ou
3- Será ação premeditada para dar cobertura aos criminosos do ³colarinho branco´ (jeitinho brasileiro para a impunidade e cobertura
para o tráfico de influências) ?
A legislação penal brasileira necessita de atenção e destaque; a saber:

I - As autoridades policiais e judiciais estão proibidas de prender e autuar em flagrante delito (leis ns. 9.099/95 e 10.249/02), a
prática dos crimes de:

- uso de tóxico proibido (art. 28 lei nº 11.343/06);- lesão corporal simples (art. 129 CP), - omissão de socorro (art. 135 CP), -
abandono de recém-nascido (art. 134 CP),- maus-tratos (art. 136 CP), - crimes contra a honra (calúnia, difamação e injúria, arts. 138,
139 e 140 CP), - atentado ao pudor (art. 216 CP), - prevaricação (art. 319 CP), - resistência (art. 329 CP), - desobediência (art. 330
CP), - desacato (art. 331 CP), - crimes contra a economia popular (Lei nº 1.521/51),- todos os crimes de sonegação fiscal (Lei nº
4.729/65), - todos crimes contidos no Código de Defesa do Consumidor (Lei nº 8.078/90), e- todas as Contravenções Penais (Dec-
Lei nº 3.688/41).II - Permite-se a liberdade provisória mediante fiança para os autores dos delitos de:- aborto (art. 124 CP),- lesão
corporal grave (art. 129 CP),- furto (art. 155 CP),- apropriação indébita (art 168 CP),- estelionato (art 171 CP),- fraude para
recebimento de indenização ou valor de seguro (art. 171, parágf. 2º, v CP),- fraude no pagamento por meio de cheque (art. 171,
parágf. 2.º vi CP),- receptação (art. 180 CP),
- atentado violento ao pudor (art. 214 CP),- sedução (art. 217 CP),- ato obsceno (art. 233 CP), - incêndio (art. 250 CP), e- todos os
crimes de trânsito, inclusive de direção perigosa e condução de veículo automotor sob efeito de bebidas alcoólicas (Lei nº 9.503/97).

Liberdade provisória mediante fiança a todos os acusados e autores se crimes cuja pena - em perspectiva ± não ultrapasse a 4 anos
de prisão. A interpretação racional e lógica do artigo 323, inciso I do Código de Processo Penal, para atender o princípio da
necessidade de congruência do sistema criminal pátrio, ou seja, conexão entre o direito substantivo, adjetivo e executivo, com
relação ao artigo 44 do código penal.

III - De acordo com o artigo 44, inciso I, II e III da lei n.º 9.714/98, a condenação não superior a 4 anos de prisão será executa em
regime aberto (art. 33, paráf. 1.º, letra ³a´ , paráf. 2.º letra ³c´ e art. 36 da lei n.º 7.209/84), substitui-se a prisão por medidas
alternativas: restritivas de direitos: prestação pecuniária, perda de bens e valores, prestação de serviços à comunidade ou a entidades
públicas, interdições temporárias de direitos, limitações de fim de semana. Por exemplo, para o crime de:
- porte ilegal de arma de fogo (art. 14 Lei nº 10.826/03).Nestes dois casos item II e III - liberdade provisória e regime aberto - a
exceção se dá aos delitos praticados com violência ou grave ameaça à pessoa.

IV - Suspende-se a execução da pena de prisão (sentença penal condenatória - sursis), para os seguintes crimes:- homicídio
privilegiado tentado (art. 121 § 1º CP),- induzimento, instigação ou auxílio ao suicídio (art. 122 CP),- infanticídio (art. 123 CP),-
aborto provocado pela gestante ou consentido à terceira pessoa (art. 124 CP),- lesão corporal grave (resulta: perigo de vida,
debilidade permanente de membro, sentido ou função, por mais de 30 dias - art. 129, § 1º CP),- furto em todas as formas (art. 155
CP),- roubo simples tentado (art. 157 CP),- apropriação indébita (art. 148 CP), e- estelionato (art. 171 CP).

V - Os apenados até 8 anos de reclusão podem ser beneficiados ao regime semi-aberto, e cumprir a sanção em uma colônia agrícola
ou industrial, nos crimes de:
- homicídio simples (art. 121 CP),- homicídio qualificado tentado (art. 121, § 2º CP)- lesão corporal grave (art. 129 § § 1º e 2º CP),-
furto qualificado (art. 155 § 4º CP),- roubo qualificado (art. 157, § 2º), - extorsão mediante seqüestro (art. 150 caput CP), e- crimes
contra o sistema financeiro (Lei n. 7.492/86).

VI ± Só condenados com pena superior a 8 anos de reclusão cumprem a pena privativa de liberdade em penitenciária, com direito ao
benefício do livramento condicional e progressão de regime, do fechado para o semi-aberto e aberto.

VII - Na hipótese do réu exercer alguma tarefa no cárcere, poderá ser aplicada a remissão descontando-se 3 dias de trabalho por um
de pena (art. 126 LEP); diminuindo assim ainda mais o tempo do encarceramento.

VIII - Também podem os condenados à pena privativa de liberdade serem beneficiados com autorizações legais do juiz ou do chefe
do presídio, como:
- permissões de saídas temporárias (arts. 120/125 LEP)- transferências do regime mais grave para o mais ameno, isto é, do sistema
fechado ao semi-aberto e aberto (art. 112 LEP)

IX - Não devemos olvidar da possibilidade de clemência presidencial (art. 84, xii CF), através do indulto coletivo ou individual-
graça (art. 187, usque LEP e art. 734 usque CPP), concedido pelo Chefe Supremo da Nação, sem nenhuma espécie de recurso ante o
Poder Judiciário.

X - Se faz interessante ressaltar as chamadas imunidades que gozam algumas autoridades públicas através de prerrogativas
funcionais e prisão especial (MAIA NETO, Cândido Furtado, in ³Direitos Humanos do Preso´, ed. Forense, RJ, 1998). Contra o
presidente da república não é permitido prisão, nem mesmo em caso de flagrante delito (art. 86, paráf. 3º CF), porque detêm
imunidade processual penal máxima, com direito a julgamento ante o Supremo Tribunal Federal (arts 86 ³caput´e paráf. 4º CF).

XI - Existe a extinção da punibilidade por lapso temporal, ainda que a Constituição federal expresse que o processo deve ser célere,
segundo o princípio da razoabilidade (EC. Nº 45/2004, art. 5º inc. LXXVIII), a saber:
- homicídio (121 caput CP) prescreve em 20 anos; - aborto (art. 124 CP) prescreve em 8 anos;- lesão corporal grave (art.129 CP)
prescreve em 12 anos;- crimes contra a honra (arts. 138/139/140 CP) prescreve em 4 anos;- ameaça (art. 147 CP) prescreve em 1
ano;- seqüestro e cárcere privado (art. 148 CP) prescreve em 8 anos;- furto (art. 155 CP) prescreve em 12 anos;- roubo (art.157 CP)
prescreve em 16 anos;- extorsão mediante seqüestro (art. 159 CP) prescreve em 20 anos;- dano (art.163 CP) prescreve em 2 anos;-
apropriação indébita (art. 168 CP) prescreve em 8 anos;- estelionato (art. 171 caput CP) prescreve em 12 anos;- receptação (art. 180
CP) prescreve em 8 anos;- estupro (art. 213 CP) prescreve em 16 anos; e- corrupção (art. 317 e 333 CP) prescreve em 12 anos.

Se na data do fato ou da sentença o agente era menor de 21 anos e maior de 70 anos de idade (art. 115 CP), o tempo da prescrição é
reduzido pela metade; sem falarmos da espécie de prescrição retroativa e/ou em perspectiva amplamente aceita e adotada pela
jurisprudência pátria.

XII ± A reincidência criminal somente caracteriza quando entre a primeira e a segunda condenação, o tempo for inferior a 5 anos
(art. 63/64 CP). Por sua vez, a reabilitação criminal, assegura ao condenado sigilo dos registros de seus antecedentes, quando
requerido e decorrido mais de dois anos após o término do cumprimento da pena (art. 93/95 CP). Diante de todas as hipóteses legais
é difícil prender ou manter alguém na cadeia, as autoridades de segurança pública, o Ministério Público e o Poder Judiciário
precisam unir esforços, muito mais do que em ³força tarefa´, é preciso acima de tudo ³ser mágico´. A incapacidade da
administração pública - sistema prisional - para encarcerar diz respeito as vontades políticas, de um lado o ³tráfico de influências´
de outro, o ³retiro de cobertura´, conforme os interesses maiores corporativistas e oportunistas manejado pelas agências legislativas
e executivas detentoras do Poder. Com todos esses benefícios legais ainda e mesmo assim nos deparamos com uma superpopulação
carcerária no Brasil, próxima a 400 mil presos, mais 500 mil mandados de prisão com ordens judiciais não cumpridas pelas polí cias,
e o custo mensal de R$ 1.200,00 (mil e duzentos reais) para os cofres públicos, por preso. Estes dados estatísticos oficiais são de
fato alarmantes ! A prisão deve ser a última ratio das medidas sancionatórias ± princípio da excepcionalidade do encarceramento -
ante as conseqüências negativas produzidas pelo processo prisionalização, comprovadas mazelas e inoperância do sistema penal
penitenciário.
Ressocializado ou não o condenado, no término da pena receberá obrigatoriamente alvará de soltura, retornando ao mundo extra
murus e logo provavelmente ao seu adaptado mundo intra murus (prisão). Este ³vai e volta´, ³ping-pong´ ou esta ³bola de neve´
aumenta e se reproduzir assustadoramente porque a repressão penal não se encontra adequada e muito menos conectada com as
políticas educacionais, sociais e econômicas. No País das Maravilhas se ³fecham os olhos´ e se tenta ³tampar o sol com a peneira´,
como se tudo estivesse em prefeita ordem, funcionando e nada acontecendo de muito grave.
Se faz urgente uma reforma legislativa ampla aos moldes do que ocorreu nos anos de 1932, com a Consolidação das leis penais, hoje
a proposta se repete para uma revisão global do código penal e de todas normas criminais, ou então, brevemente estaremos diante do
verdadeiro e maior caos da insegurança pública que se poderá imaginar, provocando o aumento do ³direito penal subterrâneo´ e da
justiça pelas próprias mãos, onde se instalará o Estado Paralelo que suplantará o regime democrático e o Estado de Direito, com
grande risco às instituições e a ordem jurídica nacional vigente.
Segurança pública é dever do Estado - das autoridades - e responsabilidade de todos - da cidadania -, em busca da justiça perdida
dos Direitos Humanos das vítimas de crime.
Se o País das Maravilhas continuar inerte, conivente e facilitador da impunidade, a interferência dos órgãos das Nações Unidas para
fazer valer o Estado Democrático de Direito, e respeitar os Tratados e Convenções internacionais de combate aos crimes de
homicídios, tráfico de drogas, seqüestros, roubos..., não estará descartada, no futuro. Ainda é tempo de esperança para que as
autoridades públicas tomem medidas imediatas de curtíssimo prazo; do contrário, o Brasil lastimavelmente será o campeão mundi al
e mais importante do planeta, com certeza e infelizmente, da criminalidade organizada e violenta, fazendo sofrer as atuais e novas
gerações, no sentido material e espiritual.

11 ± EXPECTATIVAS DO CADETE FACE À REALIDADADE PROFISSIONAL QUE O AGUARDA


A expectativa é de muito sufoco, dificuldade e decepção, mas também a sensação de dever cumprido, de fazer o que gosta
honestamente e a esperança de um ambiente melhor na nossa cidade. A expectativa TEM que ser otimista!! o cadete só vai ver oq é
a polícia mesmo dpois que se formar... acho que se ele entrar com uma expectativa de que vai estar num ambiente hostil e que não
pode fazer nada pra mudar isso... derrepente o cara nem se forma...
Outra coisa também é que a polícia é uma corporação que sofre pelo efeito multiplicador que a mídia tem... que, ao focar no lado
ruim da polícia e noticiá-lo constantemente... acaba generalizando na sociedade a opinião ruim sobre o policial militar. O cadete e o
candidato tem que focar na missão do policial, que é servir e proteger... e o kara tem que gostar desse trabalho acima de qualquer
ambiente hostil ou quantitativo de policiais corruptos... e eu acho que a polícia tá mudando... pra melhor... aos poucos acho que a
mentalidade ta mudando. Ao mesmo tempo acho que a corrupção pode diminuir mas acabar nunca... essa é a minha opinião... o
setor público em geral, é um reflexo da sociedade... e a sociedade brasileira tem uma cultura histórica de corrupção...

12 ± A CRISE MORAL DO HOMEM CONTEMPORÂNEO

Parece ser senso comum a opinião de que o homem contemporâneo passa por uma significativa e profunda crise. O primeiro aspecto
que identificamos na composição da crise da sociedade contemporânea refere-se às perdas percebidas pelos indivíduos integrantes
dessas sociedades, de diferentes formas. No tocante à perda de certezas os indivíduos parecem se ressentir do estreitamento das
perspectivas de futuro para suas vidas, tanto quanto aos seus projetos familiares como aos profissionais, principalmente. A incerteza
advinda das instabilidades econômicas provoca as mais diferentes reações, refletindo-se no comportamento individual e social, pela
total impossibilidade de se preverem os movimentos de uma complexa economia mundial globalizada e interligada. Mas não é só a
perda das certezas que atinge tão significativamente os indivíduos. A crescente perda de referenciais de toda ordem vem
contribuindo para essa deterioração da sociedade. Os próprios referenciais econômicos que, durante tantos séculos, vêm norteando a
condução de políticas e a estrutura de valoração na sociedade, parecem ter encontrado uma crise sem precedentes, com os riscos da
perda de e condição social determinados por variações externas e independentes da vontade do indivíduo. A impossibilidade de se
auto-determinar nesses assuntos vem colaborando para um crescente adoecimento, principalmente da classe média, como função
dessa perda. Uma das principais conseqüências dessas perdas parece ser uma tendência a valorizar as conquistas mais imediatas,
sejam elas financeiras, de prazer etc. A essa característica chamaremos de imediatismo. O papel tradicionalmente ocupado pelas
religiões de um modo geral ² como mantenedoras de padrões de conduta e comportamento ² também parece ter sofrido um
crescente desgaste, nas relações sociais contemporâneas, principalmente aquele que acompanha o movimento materialista de nosso
século2 . Por um lado, a busca de um grande número de indivíduos por soluções milagrosas para suas dificuldades, com
conseqüente frustração pessoal; por outro, a dificuldade da maioria dessas religiões em poder explicar ou consolar em relação às
grandes vicissitudes e diferenças sociais acabou por promover o que estamos chamando de perda de referenciais religiosos.
Entretanto, talvez o aspecto que mais se destaque nessa crise, em termos dos efeitos sobre as relações sociais entre os indivíduos da
sociedade contemporânea, seja o da perda dos referenciais de valores. De um modo geral, temos assistido a uma desenfreada
mudança dos valores da sociedade em diferentes nuances. Os valores ético-morais vêm sofrendo alterações profundas ao longo das
décadas mais recentes chegando a apresentar padrões significativos em certas classes ou grupos sociais, que acabaram
desenvolvendo códigos próprios de regulamentação da vida social. Assim, por exemplo, podemos identificar os códigos de leis
próprias impostos por determinadas categorias marginais vinculadas ao tráfico de drogas, sobre uma comunidade popular urbana
inteira, sem que as instituições competentes se aventurem a uma intervenção que restaure a organização original da comunidade
urbana mais ampla. A integridade da vida humana parece passar por dias de reduzida valorização passando-se da vulgarização dos
motivos de homicídio aos descasos no trato das populações que vivem no, ou além, do limite da miséria. Essa conduta, generalizada,
tende a influenciar e até determinar as orientações das políticas governamentais no campo social e de saúde pública,
desconsiderando a triste realidade de uma grande parte da população que não possui condições básicas de manutenção da vida.
Outra gama de valores que estão em pleno processo de deterioração refere-se aos casos de prostituição infantil, tráfico humano,
trabalho escravo infantil etc. que, apesar de trazerem uma longa história de ocorrências na humanidade, parecem contrariar padrões
básicos de uma civilização que se diz moderna, tecnológica. Após o aspecto das perdas, o segundo que pretendemos destacar dessa
crise, se confunde em dois termos que analisaremos em conjunto: o isolamento e a fragmentação. O isolamento dos indivíduos
parece decorrer em boa parte de uma fragmentação das relações e estruturas sociais. Ainda com referência às relações de trabalho,
podemos identificar que esta tendência à redução dos quadros funcionais disponíveis tem promovido uma acirrada disputa pela
manutenção ou obtenção das vagas existentes, ampliando o clima de desconfiança e distanciamento entre as pessoas, justamente no,
ou em função do local profissional onde passam mais de 2/3 de sua existência. Outra forma de isolamento e fragmentação
característica dessa sociedade é o que chamaremos arquitetônica. Englobamos aqui o claro distanciamento provocado pelas formas
de ocupação habitacional da população urbana. Apesar da proximidade física, em estruturas de edifícios gigantescos que abrigam
dezenas de unidades familiares, o nível de relação interpessoal existente é completamente paradoxal.
Servindo basicamente como dormitórios, essas unidades não têm favorecido o intercâmbio entre as pessoas. Em função de aspectos
da violência urbana como assaltos, seqüestros etc., maior é o número daqueles que irão se isolar atrás das grades dos condomínios
fechados, sejam os de luxo ou até nas vias públicas que são cercadas de cancelas e seguranças, dificultando a interação e
relacionamento entre os indivíduos. Mesmo nas comunidades carentes ² como as favelas, por exemplo ² são freqüentes as
ocorrências de ³toques de recolher´ impostos por
grupos ligados ao crime organizado, restringindo a possibilidade de uma maior interação social. O significativo descrédito nas
instituições parece ser outro tópico importante dessa crise que estamos caracterizando. As instituições governamentais em todos os
níveis, federal, estadual e municipal, tais como a polícia, o sistema de
saúde, educação etc. não conseguem obter graus significativos de aprovação pela população usuária dos seus serviços favorecendo a
instabilidade e o enfraquecimento dos sistemas de representação política.

13 ± O PAPEL DA INSTITUIÇÃO FAMÍLIA NA SOCIALIZAÇÃO BÁSICA DO SER HUMANO

Como foi observado, é na relação familiar, com base no processo de comunicação, que o ser humano interioriza os elementos sócio-
culturais do seu meio, através do processo de socialização, e os integra na estrutura da sua personalidade, face às experiências
vividas na e com a família e se adapta ao meio social (Rocher, 1989: 126).
Ora, do ponto de vista sociológico, a principal consequência da socialização é, com efeito, a adaptação da pessoa ao seu meio social,
adaptação que lhe permitirá partilhar pontos de vista, aspirações e necessidades, uma vez que, mentalmente, se assemelha aos
outros. Neste processo interactivo de adaptação, o indivíduo reconhece-se nos outros e é a partir deles que constrói a sua identidade
psíquica e social (Gurvitch, s/d: 243-258).
Numa visão alargada desta problemática, podemos dizer que a adaptação social do ser humano se produz a três níveis: psicomotor,
afectivo e mental.
Ao nível psicomotor, porque o ser humano desenvolve necessidades fisiológicas, gostos e atitudes corporais, que são condicionados
pelos sistemas social e cultural. Ao nível afectivo, porque a expressão dos sentimentos é veiculada pelas modalidades, pelas
restrições e pelas sanções que constituem os sistemas social e cultural. Ao nível mental, porque o processo de socialização fornece
ao indivíduo as tipificações, as representações, as imagens, os conhecimentos, os preconceitos e os estereótipos que estruturam os
sistemas de conhecimento (Dias, 2001a).
Numa alusão à Teoria Geral da Acção Humana, sobre este mesmo problema, o sociólogo Talcott Parsons (1969: 52-53) propõem-
nos quatro subsistemas ciberneticamente hierarquizados, mas interactivos, que concorrem para a adaptação do ser humano:
orgânico, psíquico, social e cultural (ou simbólico). A cada subsistema corresponde uma função, que contribuirá para a integração
do indivíduo e para o equilíbrio global do sistema de acção.
Ao subsistema orgânico corresponde a função de adaptação do sujeito. Ao subsistema personalidade corresponde a função de
prosseguimento de fins da pessoa. Ao subsistema social corresponde a função de integração do indivíduo. Ao subsistema cultural
corresponde a função de estabilidade normativa.
Adoptando a presente perspectiva à família, e socorrendo-nos ainda do pensamento de Parsons, podemos dizer que a função de
adaptação diz respeito aos meios a que o sistema familiar recorre para prosseguimento dos seus fins, dependendo estes das
condições proporcionadas pela estrutura económica.
Por sua vez, a função de prosseguimento de fins refere-se à definição e obtenção de finalidades para o próprio sistema familiar ou
para os elementos que o constituem, dependendo aquelas das condições implicadas na estrutura política.
A função de integração consiste em assegurar a coordenação entre os elementos do sistema familiar, por forma a ultrapassar as
contradições originadas no seu interior e entre este e a sociedade, dependendo aquela das condições que corporizam as normas e as
regras que condicionam a interacção humana.
Por último, a função de estabilidade normativa procura assegurar que os valores da sociedade sejam conhecidos e aceites pelos
elementos que compõem o sistema familiar, dependendo aquela de valores e do modo como os diferentes agentes os transmitem ao
ser humano no decurso do processo de socialização.
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2  
A família desempenha assim o papel de estabilizador, através do processo de socialização, o qual procura produzir nos indivíduos
conformidade nas maneiras de pensar, de sentir e de agir, por forma a que estes se adaptem ao sistema familiar e nele se integrem,
permitindo-lhes, por consequência, manterem-se e prosseguir tanto os seus próprios fins como os do sistema a que pertencem.
Como estes fins só são possíveis de atingir mediante processos de comunicação, a relação familiar acaba por constituir parte da
natureza da pessoa, pois o ser humano modela-se naquilo que o campo interaccional lhe proporciona. Construindo-se na relação
comunicativa, o indivíduo torna-se um ser relacionado e comunicacional, ou, parafraseando Rogers (1985) o   
 
 
.
Dado, no entanto, que ao nascer o indivíduo é progressivamente integrado nos padrões de funcionamento familiar já existentes, os
modos de pensar, de sentir e de agir não deixam de ser constrangidos pela relação aí desenvolvida. O sistema familiar constit ui nesta
perspectiva o garante do isomorfismo dos padrões sócio-culturais, sem os quais não é possível estabelecer a relação entre o
individual e o social.
Como a família é a primeira instituição a facultar ao ser humano a sua auto-organização no seio da relação que a expressa, o modo
como nela se desenvolvem os processos de comunicação determinará o maior ou menor sucesso do seu desenvolvimento pessoal e
social e, por consequência, da sua integração na sociedade (Dias, 2002: 15-42).

2  V  " 7  
Sendo o sistema familiar o meio por excelência onde os seus membros podem comunicar uns com os outros sem entraves, e onde é
possível encontrar as condições para o seu desenvolvimento e equilíbrio psico-sócio-afectivo, nem sempre isso se verifica.
Carl Rogers, psicólogo americano da corrente humanista, apresenta-nos a sua concepção das relações humanas, baseada na atitude
de
 
 entre as pessoas e num modelo de comunicação 

 e de   
. A sua proposta é expressa
em diversas obras que publicou no decurso da sua vida, sendo 
  
(Rogers, 1985) aquela que, de uma forma simples e
enfática, contribuiu para uma perspectiva original do ser humano e da família.
Rogers parte de três premissas fundamentais para a compreensão do seu modelo de comunicação.
A primeira é a de que o núcleo da personalidade do ser humano é de
 
 
 
   
, sendo a base do homem
positiva, racional e realista.
A Segunda refere-se à 


   
  , ou de crescimento de todo o indivíduo. Esta tendência inata de o indivíduo
desenvolver as suas capacidades assenta em duas ideias fundamentais: por um lado, a   



 do organismo em
busca dos fins que lhe são próprios; por outro, a pessoa é vista como um   

 , auto-regulável, que avalia a sua experiência
e resultados em função das finalidades procuradas, corrigindo posteriormente a sua experiência.
A terceira diz respeito à possível

   . Quando assim acontece, o desenvolvimento da pessoa é bloqueado
face às finalidades que lhe são propostas no processo de socialização. Como o é produto das experiências que ela própria viveu
e da interiorização da valorização que os outros fazem de si, a pessoa tende a deixar-se conduzir pelas apreciações dos outros,
especialmente dos familiares. É que, no sistema familiar, acontece frequentemente a criança valorizar mais as apreciações que os
outros fazem de si do que a sua experiência pessoal. Como a criança depende das condições que a família lhe proporciona para
atingir os seus fins, a sua percepção acaba por ser moldada e dirigida por vontades que lhe são alheias.
Para contrariar os bloqueios ao processo de comunicação, e por consequência a relação desequilibrada, Rogers propõe que, para a
comunicação ser autêntica a mesma deve efectuar-se entre pessoas. Ora, o conceito de  
em Rogers exclui a clivagem do ser
humano em orgânico, psíquico, social ou cultural; é uma visão sistémica e holista. O ser humano é um todo sistémico, mas que
integra subsistemas diferenciados; é independente, mas simultaneamente relacional, pelo que, para o autor, é necessário reduzir ao
máximo os bloqueios à experiência subjectiva, visto que é através dela que o ser humano encontra um campo de partilha com os
outros, constituindo desta forma um meio ambiente de intersubjectividade, no qual se constrói e se desenvolve.
Assim, e sem que os pais se demitam da sua responsabilidade de educadores e orientadores, para que no sistema familiar haja uma
relação equilibrada, através da comunicação autêntica, Rogers propõe três atitudes comunicacionais básicas.
A primeira diz respeito à necessidade de os pais serem    e    nas relações com os filhos, ou seja: serem eles
mesmos,
  , transparentes, procurando estar abertos, sem defesas no que concerne aos seus próprios sentimentos.
A segunda refere-se à imperiosidade de
 
  
   
 dos filhos, o que significa aceitar as suas manifestações
sem julgamentos prévios.
A terceira reporta-se à   
do ponto de vista interno dos filhos, ou seja, perceber o seu quadro de referência
interno com a exactidão possível, o que inclui também os aspectos emocionais e as significações a eles atribuídos, como se os pais
fossem os filhos, sem no entanto deixarem de ser eles próprios.
Na presente perspectiva, a adopção destas atitudes pelo sistema familiar poderá contribuir para um maior desenvolvimento pessoal e
social dos seus elementos, para relações mais equilibradas e para uma sociedade menos punitiva e mais solidária. É que, como refere
o sociólogo Raymond Boudon (1990: 37),   
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A comunicação, ao contrário da unilateralidade da informação, produz mudança nos seus intervenientes, o que nos leva a afirmar
que relações familiares assentes em processos de comunicação autêntica permitem a todos a oportunidade de nelas participar de
forma eficaz e equilibrada.
Mas este processo pode sofrer diversos bloqueios, uma vez que os elementos em interacção são vários. E como o ser humano é um
sistema aberto, e por isso vive permanentemente exposto às influências do meio que o rodeia, está sujeito a orientar-se em função
dos julgamentos e apreciações dos outros, em especial da família e dos pais.
Encarando a família como um sistema, ela permite aos elementos que a constituem, através do processo de socialização, interiorizar
os valores e as normas sociais para a sua formação e desenvolvimento, mas também estabelecer uma ligação entre eles e a
sociedade, contribuindo desta forma para o equilíbrio social.
O processo de comunicação é o mecanismo social básico sem o qual não é possível haver relação. Se a comunicação no sistema
familiar se basear nas atitudes propostas por Rogers, a congruência, a aceitação positiva e incondicional e a compreensão empática,
mais possibilidades haverá de um desenvolvimento pessoal e de relações familiares equilibradas.
Havendo relações familiares equilibradas os processos sociais não deixarão de ser o seu reflexo natural.

14 ± A DESIGUAL DISTRIBUIÇÃO DE RIQUEZAS E OS IMPACTOS NA SOCIEDADE

Amartya Sen enfatizou a tese de que a desigualdade possui muitas faces e que,dependendo das circunstâncias, algumas dessas faces
tornam-se motivosparticularmente importantes de inquietação e atenção para os formuladores de políticas. (Ver Sen, 1998).
Portanto, o foco da atenção pública pode ser dirigido, em determinados períodos, ao aspecto da desigualdade que mais se apresenta
como prejudicial ou ofensivo à concepção de justiça em voga. Este pode ser a pobreza extrema, a riqueza exagerada, o status de
determinados grupos, ou simplesmente uma distribuição de renda muito desequilibrada. Independente da forma que adquire, a
desigualdade é geralmente determinada pela inter relação de diversos fatores. Deixando de lado os impactos, geralmente
temporários de catástrofes naturais ou causadas pelo homem sobre os indivíduos ou sobre grupos específicos, os principais fatores
  que determinam as desigualdades são as instituições e normas sociais, as grandes transformações econômicas, e o papel
do governo. Em determinados períodos, cada um desses fatores podem vir a desempenhar o papel principal que determina um
aspecto da desigualdade, ou que dá forma à distribuição da renda e da riqueza de um país. A globalização e as grandes
transformações econômicas provavelmente irão modificar as normas sociais, afetando assim as desigualdades existentes. O papel do
governo está condicionado ao nível de desenvolvimento econômico e institucional. Há um círculo vicioso, no sentido de que quando
mais se necessita do governo (porque o mercado precisa de correções, ou quando a distribuição de renda e de riqueza são
consideradas social e politicamente inaceitáveis), é freqüentemente quando o governo é mais incapaz de realizar, de modo efic iente,
as medidas corretivas necessárias. Os países industriais avançados, com bons mercados, tendem a ter governos muito maiores, se
medidos pela participação do gasto público em relação ao PIB, do que os países em desenvolvimento, não porque os países
desenvolvidos precisem de uma presença maior do governo, mas porque eles podem recolher mais impostos. Sem condições de
aumentar os impostos, os governos dos países mais pobres tendem a promover os seus objetivos por meio de instrumentos menos
eficientes, como as regulações e atividades semi fiscais. No processo, o papel do governo torna-se mais distorcido. (Ver Tanzi, 1998
a). Os governos desses países pobres encontram muito mais dificuldades em promover políticas dirigidas à redução das
desigualdades, à exceção, talvez de uma reforma agrária. Até mesmo um governo altamente preocupado com a desigualdade deverá
promover, antes de tudo, a estabilidade macroeconômica, que é um requisito necessário para o crescimento. E o crescimento não é
apenas um bom gerador de empregos, mas também um forte provedor dos recursos públicos que são necessários para financiar os
programas sociais que podem vir a reduzir a pobreza e a desigualdade.(Ver Aninat, 1998). Aninat mostra que a estabilidade e o
crescimento geraram um volume crescente de recursos para o governo chileno, permitindo a implementação de seus objetivos
sociais. A experiência do Brasil demonstra que uma redução da taxa de inflação é um importante gerador de crescimento da renda
dos indivíduos situados na porção inferior extrema da distribuição de renda. (Ver Clement, 1997). As pessoas pobres têm muito
menos capacidade do que os ricos, de se protegerem contra os efeitos da inflação. Se a estabilidade produz ao mesmo tempo
crescimento e preços estáveis, os seus efeitos positivos sobre os grupos mais pobres podem ser potencialmente importantes.
Permanece duvidoso, todavia, o fato de se isto também reduzirá a desigualdade global, isto é, se isto produzirá coeficientes de Gini
mais baixos.

15 ± FOME + MISÉRIA + PROSTITUIÇÃO = CRIMINALIDADE. CASO DE POLÍCIA?

O grande vencedor do Oscar 2009 tem como principal mérito o fato de ter escolhido um favelado como protagonista. Afinal, mais
de um bilhão de pessoas são favelados hoje no mundo. Vivemos no ³Planeta favela´, título de um livro de Mike Davis que descreve
a estarrecedora realidade dessa porção nada desprezível da população humana. A favela é o retrato acabado do fracasso da
civilização capitalista. Desemprego, subemprego, trabalho informal, biscates, mendicância, prostituição, doenças, fome, violência,
crime; são a realidade social dessa população. Esgoto a céu aberto, lixo, fezes, cadáveres em decomposição, ratos e moscas são a
realidade material. Um bilhão de pessoas vive literalmente na merda (há uma cena em que o protagonista do filme em questão
ilustra graficamente o que quer dizer ³viver na merda´).
Pouco acima dessa camada de favelados, temos as também numerosas camadas dos pobres, dos remediados, dos trabalhadores
explorados formalmente, que compõem a imensa maioria da humanidade, para quem a simples sobrevivência é um desafio
cotidiano. Isso é um grotesco absurdo em face da abundância de recursos e de capacidade produtiva disponível no planeta. O
sistema funciona de fato apenas para uma restrita minoria. Nada pode ser mais eloqüente do que essa realidade para demonstrar o
fracasso estrepitoso do capitalismo, do livre mercado, da globalização, do progresso, do desenvolvimento, do crescimento, etc. Pedir
a cada um desses 1 bilhão de pessoas que continue suportando a vida no inferno por mais um dia sequer, apenas para que a
minúscula elite internacional dos banqueiros, executivos, especuladores, aventureiros e rapinantes de toda espécie que controlam a
economia mundial possam seguir desfrutando do luxo obsceno em que se refestelam; é dar mostras de um sadismo verdadeiramente
hediondo.
Entretanto, é exatamente isso que fazem os gestores do sistema, os tecnocratas e ideólogos mercenários encarregados de reciclar
cotidianamente as promessas furadas da viabilidade do capitalismo e propagá-las maciçamente por todos os canais e meios de
comunicação que intoxicam diariamente a consciência coletiva. Por esse motivo, os méritos de um filme que tem a coragem de
expor as entranhas de uma sociedade periférica como a da Índia devem ser sempre destacados. Trata-se de uma abordagem
diametralmente oposta à do ³Caminho das Índias´ da rede Globo, que optou por mostrar a Índia dos nababos e marajás.
Por falar em Globo e em Brasil, ³Planeta Favela´ registra o fato de que nosso país tem 51,7 milhões de favelados, e a Índia 158,4
milhões, o que corresponde a 36,6 e 55,5 por cento da população urbana dos dois países respectivamente. Mas nem tudo na nossa
indústria cultural é pura mistificação. Por vezes a realidade também aparece. ³Quem quer ser um milionário´ tem um predecessor
importante no seu gênero, o brasileiro ³Cidade de Deus´, do qual recebe nítidas influências. Além do cenário de miséria, semelhante
em Bombaim (cidade que os inventores de modismos resolveram rebatizar com o insosso nome de ³Mumbai´) e no Rio de Janeiro,
temos um protagonista que tenta fazer seu caminho sem se envolver com o crime, embora esse tenha sido o meio em que cresceu.
No que se refere à narrativa, temos também o recurso à linhas temporais intercaladas que compõem o quebra-cabeças da vida dos
personagens. Finalmente, no aspecto puramente estético, temos o estilo de edição, o ritmo acelerado, as cores fortes.
Ao escolher um favelado como protagonista, ³Quem quer ser um milionário´ tem a oportunidade de retratar as diversas formas de
opressão de que essa população é vítima. A opressão se manifesta não apenas na condição material, mas também nas diversas
formas de preconceito, discriminação e violência, não apenas física, mas também psicológica.
O título do filme se refere a um programa de televisão do tipo de perguntas e respostas. No Brasil tivemos há alguns anos o ³Show
do Milhão´, apresentado pelo grotesco Silvio Santos (que aliás fez sua fortuna explorando a credulidade dos pobres), imitação de
um modelo internacionalmente difundido, prova de que na indústria do espetáculo nada se cria, tudo se copia. No filme, o programa
é inesperadamente vencido por um concorrente que vive na favela. Jamal Malik é um típico representante do emergente capitalismo
indiano: trabalha servindo chá aos operadores de telemarketing. Ele é o subalterno entre os subalternos da classe trabalhadora, parte
da gigantesca massa humana anônima triturada nas engrenagens implacáveis do superlucro globalizado.
Ninguém na televisão, dos produtores ao público, acredita que Jamal tem a mínima chance de acertar as perguntas do programa.
Mas ele acerta uma após a outra, e seu prêmio em dinheiro vai aumentando rodada após rodada. Antes que ele chegue à pergunta
final, os produtores do programa tentam descartar-se dele nos bastidores e o acusam de ser um fraudador. Um favelado jamais
poderia ter acertado as perguntas sem algum tipo de expediente ilícito. Favelado não é gente, não pode vencer nunca. Está fora do
script.
Os órgãos da repressão, por outro lado, cumprem fielmente o roteiro que deles se espera. O favelado é torturado para confessar o
crime que não cometeu. Lá como aqui, a polícia bate primeiro e pergunta depois. Ninguém sequer cogita na possibilidade de o
vencedor do concurso ter realmente acertado as perguntas, até que a tortura se prove ineficaz e o infeliz tenha a oportunidade de
falar. Para explicar para a polícia como acertou as perguntas do programa, Jamal tem que narrar uma série de incidentes de sua vida,
pois cada resposta tinha relação com algo que aprendeu por ter sofrido na pele. Desdobra-se então a narrativa de sua vida, desde a
infância até o momento em que chega ao programa de TV.
Além do ³crime´ de ser favelado, Jamal deve pagar pela ousadia de tentar transgredir as normas e mudar sua realidade. O favelado
só pode conseguir algo depois de apanhar muito e ganhar traumas e cicatrizes. Depois da tortura policial e de apresentar as
justificativas para cada uma das respostas que acertou, ele terá a chance de voltar ao programa e arriscar a sorte na pergunta final. O
detalhe é que a tortura e o interrogatório transcorrem longe dos olhares do público. O inferno vivido por Jamal não pode ser
televisionado. O favelado não pode ser humanizado, seu sofrimento não pode ser partilhado pelo espectador. A televisão suprime a
brutalidade do real e a dissolve na superficialidade do estereótipo. O público do programa inevitavelmente desenvolve uma empatia
por Jamal e torce por ele, mas nem sequer desconfia dos horrores pelos quais ele passou para chegar até ali, desde sua infância
distante até a tortura policial ali mesmo, às vésperas da pergunta final.
O mundo do espetáculo é um mundo asséptico, higienista, forjado, embalado para presente e emoldurado pelo sorriso artificial e
monstruoso dos apresentadores de TV. Um mundo de fantasia que dissimula por meio da hipocrisia profissional a verdadeira
realidade dos seres humanos. A demanda por ³reality shows´ expressa justamente isso, a necessidade do público de torcer por
personagens com os quais possa se identificar. Os ³reality shows´ fornecem tais personagens, mas não modificam a dramaturgia
básica do espetáculo, apenas substituem os atores profissionais que encenam o conto de fadas por amadores com os quais o público
se considera mais parecido. Nenhum reality show mergulha na realidade de um ser humano com a mesma profundidade de que
somente a verdadeira arte, a literatura, o teatro, e alguns raros filmes são capazes.
Um dos méritos de ³Quem quer ser um milionário´ é humanizar seus personagens, valorizando sua trajetória de vida. Jamal adqui riu
uma diversificada (e terrível) experiência de vida na favela, nas ruas, na mendicância, no trabalho. Vivenciou a barbárie dos
conflitos religiosos, o trauma da orfandade, a precariedade da mendicância, o horror da exploração do trabalho infantil, enquanto as
pessoas mais próximas dele resvalavam para o crime e a prostituição. Conheceu a inveja, o autoritarismo e por fim a traição da parte
do próprio irmão. Mas ele conheceu também a amizade e o companheirismo que unificam os miseráveis e as pessoas que
atravessam situações extremas. Conheceu até mesmo o amor, que foi o fio de esperança que o manteve firme e vivo enquanto era
massacrado pela vida e levado pela correnteza dos acontecimentos.
Depois de passar por esse purgatório, Jamal faz jus ao prêmio milionário do programa de TV. Chegamos então ao ponto limite do
filme. ³Quem quer ser um milionário´ nos mostra a realidade do favelado, humaniza sua trajetória, cria no espectador a empatia
pelo personagem, nos faz torcer por ele e vibrar por sua vitória; tudo isso é bastante louvável e excepcional no cinema, mas é feito
no bojo de uma solução narrativa também artificial, que termina por endossar o mecanismo básico do espetáculo e seus pressupostos
ideológicos.
O problema começa na forma como Jamal vence o prêmio. Ele acerta a pergunta final no chute, sem realmente saber a resposta.
Com isso fica referendada a concepção de que o conhecimento, no seu aspecto acadêmico, formal, livresco, é algo supérfluo, e se
pode ³vencer na vida´ sem ele. A cultura nesse caso aparece como algo que não é de fato necessário, que não enriquece a vida, que
não recompensa aquele que se esforça para adquirí-la; enfim, algo que não é preciso conquistar e se pode viver muito bem sem tê-la.
O segundo problema está no próprio conceito do que significa ³vencer na vida´, ou seja, ficar milionário. Reforça-se um ideal de
realização em que o indivíduo não pode simplesmente ser o que ele é, ele precisa ser como os ³vencedores´. Ou o indivíduo é parte
da massa miserável, ou é parte da elite privilegiada. O favelado é festejado, mas apenas pelo fato de que ele ³vence´ e deixa de ser
favelado para se tornar milionário.
O terceiro problema, resultante do anterior, é que se acaba referendando assim o culto ao dinheiro e aos bens materiais. É evidente
que a miséria material é um mal, mas isso não torna automaticamente um bem a abundância de bens materiais. Especialmente
quando tal abundância é resultante das mesmas relações sociais que produzem a miséria, o modo de produção capitalista.
O quarto problema está na idealização do amor romântico. Como numa novela da Globo, em que o final feliz é sempre um
casamento (ou pior, vários casamentos), o filme indiano termina numa festa em que o casal de protagonistas fica junto. Ao con trário
do que a indústria do romantismo para consumo popular insiste em dizer, o casamento não é onde os problemas terminam, é onde
eles começam.
O quinto problema está na frase que encerra o filme, quando aparece a alternativa que responde à pergunta colocada ao espectador
logo no começo: ³estava escrito´. Isso quer dizer que o destino dos personagens já estava traçado. Com isso, reforça-se a idéia
nefasta de que não é o homem que faz sua história, é alguma força sobrenatural que determina o curso dos acontecimentos. Sendo
assim, não é preciso se esforçar para modificar a vida, basta se deixar levar. Nesse ponto, ³Quem quer ser um milionário´ coincide
um pouco com outro concorrente do Oscar, ³O curioso caso de Benjamin Button´, em que o destino e o roteiro determinam a vida
do personagem, sem que ele tenha muita interferência e aprenda algo significativo através da luta.
Por último, e também mais grave, está o fato de que a solução para o problema do favelado é puramente individual. Com toda a
ruptura que representa por conta da escolha de seu tema e do retrato humano que faz do personagem, o filme permanece prisioneiro
da lógica do espetáculo. As narrativas da indústria cultural reforçam a crença de que ³qualquer um pode chegar lá´ e impedem o
indivíduo de pensar em sua própria vida ao contemplar a vida dos ³vencedores´ que protagonizam o espetáculo.
Jamal fica milionário, mas a favela continua lá, com o esgoto a céu aberto, lixo, fezes, cadáveres em decomposição, ratos e mos cas.
Os favelados assistem pela TV e comemoram em toda Índia a vitória de um dos seus, mas continuam favelados. Aceitam assim a
permanência de um sistema em que um em 1 bilhão pode ficar milionário, mas os restantes permanecem miseráveis. Um sistema em
que um afro-descendente pode chegar a presidente dos Estados Unidos, mas os africanos sucumbem na barbárie das guerras tribais
legadas pelo saque do continente realizado pelo imperialismo.
É tudo uma questão de sorte, de destino, de acertar um palpite. Se você for um pré-destinado, parabéns, pois se tornará um
milionário. Quanto a nós todos, continuaremos na merda.

16 ± O PROJETO ³FICHA LIMPA´ PARA OS CANDIDATOS A CARGOS POLÍTICOS

Os ³ativistas da causa ética´ têm hoje uma nova bandeira: o projeto Ficha Limpa. Segundo este, que está em tramitação no
Congresso Nacional e é pauta dos noticiários quase todas as noites, aquele que estiver condenado (dependendo da versão, seja em
primeira instância, seja por um órgão colegiado) por determinadas condutas fica impedido de participar das eleições como
candidato, independente do trânsito em julgado.
O tal projeto se transformou num tema borbulhante na sociedade atual. Está nos noticiários, está nos jornais, está no Twitter, está
nos blogs, está na boca do povo: todo mundo que ³é sério´ quer o Projeto Ficha Limpa aprovado e convertido em norma cogente.
Vou aqui me sujeitar às vaias que fatalmente virão para dizer que este projeto é uma tremenda bobagem. Mais que isso, é um
dispêndio de esforços políticos com um foco absolutamente equivocado.
A minha preocupação com o projeto ocorre tanto na esfera técnica quanto no âmbito da concepção do nosso Estado Democrático de
Direito.
Sob o prisma técnico-jurídico, não faz sentido algum que alguém sofra os ônus de uma condenação se esta não está transitada em
julgado e é passível de reforma. Se a condenação tem eficácia de, por exemplo, evitar que o cidadão se c andidate, é
constitucionalmente necessário exaurir todas as instâncias recursais existentes antes de retirar este direito tão sagrado que é
participar da vida política.
Sob o enfoque democrático e, diria eu, de forma mais importante, esse projeto retira do povo o poder de decidir. Observe o recado
claramente elitista do movimento: ³3      
 
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³. Ora, se pessoas com a ³ficha suja´ ± e sem condições morais de governar ±
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    o problema maior não é que conseguiram concorrer; aliás, o que assusta é que
conseguem ganhar. E é aí que mora a miopia do Movimento que apoio o projeto Ficha Limpa: Seus defensores estão atacando o
efeito, mas não a verdadeira causa.
Em outros países, alguém que tem ³ficha suja´ simplesmente não consegue se eleger. Não é que ele não consiga se candidatar, a
candidatura é juridicamente possível. O problema é que existe um ambiente político que não lhe permite ser eleito. A ficha suja, o
passado sombrio, a falta de condições morais é impedimento eleitoral que se reflete nas urnas e não um impedimento jurídico à
candidatura.
Qual o motivo que enseja a eleição de tais sujeitos em nosso país? A resposta é simples: o voto obrigatório. Graças a essa perversão
constitucional, que transforma o exercício da cidadania numa imposição legal, quem escolhe os nossos representantes é uma massa
de anafalbetos políticos. O voto obrigatório no Brasil é uma gigantesca mazela.
Sou advogado eleitoral, estou nas ruas em todos os dias de eleição e já presenciei mais de uma dezena de vezes a seguinte cena: o
cidadão chega em frente à zona eleitoral apenas para cumprir a obrigação de votar e balbucia: ³eu não sei em quem vou votar«´.
Ato contínuo, vê um santinho jogado no chão, abaixa, pega o santinho e diz: ³« pronto, vou votar nesse aqui.´
Como esse cidadão, uma grande proporção dos eleitores não faz absolutamente qualquer análise crítica dos candidatos.
Comparecem ao local de votação e apertam os números naquela caixinha apenas porque são obrigados a fazê-lo.
O que os ativistas do Projeto Ficha Limpa precisam entender é que, ao ditar às massas: ³vocês não podem votar nestes candidatos
porque achamos que não são bons, podem votar somente nos candidatos que nós achamos capacitados´ estão tirando o poder
democrático do povo e nem assim estão resolvendo o problema, pois esta incapacidade da população de enxergar as qualificações
técnicas dos candidatos vai persistir.
O que o Brasil deveria ter a coragem de fazer ± e só não faz porque os políticos que hoje aí estão dependem disso ± é acabar com a
figura do voto obrigatório. Se o voto não fosse obrigatório, grande parcela daqueles que comparecem às zonas eleitorais como
autômatos não o fariam. Tirariam o dia para nadar no igarapé, jogar futebol ou passear na Ponta Negra. No entanto, aqueles que
acham que é importante ter um papel ativo na vida política do Estado não faltariam. Eu, por exemplo, faria questão de votar em
todos os certames, assim como o faria o líder comunitário da Zona Leste, o aluno engajado de escola pública e a dona de casa que lê
diariamente a seção de política dos jornais. Além disso, esses votos não seriam diluídos com a manifestação forçada do cidadão que
acha que político é tudo igual, da senhora que só assiste novela e que só lê revista Caras, e do filhinho de papai que, com 20 anos de
idade, ainda está na oitava série e não faz ideia da diferença entre um vereador e um senador da república.
Enquanto o voto for obrigatório continuaremos sujeitos às escolhas inexplicáveis de quem não é sequer capaz de explicar as suas
escolhas nas urnas. Aliás, o Ficha Limpa vai apenas criar critérios objetivos visando ³melhorar´ a qualidade dos elegíveis. Mas
convenhamos: eventualmente algum candidato apto e preparado para o cargo pode ter ± por um equivoco da justiça ± uma dessas
vedações em seu currículo, da mesma forma que muitas pessoas que deveriam ser impedidas (pelo voto popular) de até mesmo
passar perto de um mandato público têm a ³ficha´ pristina de acordo com os critério objetivos do Ficha Limpa.
O que precisamos não é limitar o acesso às candidaturas, mas sim melhorar a qualidade dos eleitores. Precisamos focar na causa e
não nos seus efeitos.
Por outro lado, a ladainha de dizer que o Brasil precisa do voto obrigatório pois não estaria ³preparado´ para a alternativa é
simplesmente um discurso de quem precisa desse mecanismo como pressuposto para conseguir se eleger.
Minha recomendação: esqueçam o Projeto Ficha Limpa. Do ponto de vista técnico, do ponto de vista jurídico, do ponto de vista
constitucional é óbvio que só a condenação transitada em julgado pode afastar alguém de se lançar candidato a cargo público.
Esqueçam-no, entretanto, apliquem os esforços políticos que hoje estão mobilizados para que o voto deixe de ser obrigatório e passe
a ser não um dever, mas um exercício de cidadania daqueles que se interessam o suficiente para decidir o futuro de sua nação.

17 ± A RELAÇÃO MÍDIA X PM

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É fato que a população em geral não toma conhecimento dos bons serviços prestados pelas nossas polícias estaduais (Civil e
Militar); porém qualquer fato que venha a denegrir a imagem dessas instituições, vira manchete dos jornais, como temos visto
ultimamente.
Conheci ótimos policiais, destemidos, atuantes, com o currículo cheio de prisões de perigosos bandidos, tendo abatido outros
tantos em resistência a tiros nas respectivas prisões, que só viraram notícias de jornal quando caíram em desgraça; ora se
envolvendo em morte de inocentes nas incursões, ora saindo ferido gravemente, ora indo a óbito, ora sendo acusado de desvio de
conduta muitas vezes injustamente, por pura vingança de bandidos ou de seus parentes. Esses fatos narrados criam freio e receio
na maioria, que muitas vezes prefere errar por omissão do que se expor nessa árdua missão de fazer polícia.
De vez em quando lemos nos jornais, a quantidade de policiais mortos ou expulsos durante o ano tal, mas jamais vimos a
quantidaade de bandidos presos por essa mesma polícia e olha que são dezenas de milhares. Jamais lemos a quantidade de partos
feitos no interior das viaturas policiais. Quantos bebês abandonados nas lixeiras foram resgatados por esses heróis anônimos?
Não sabemos, não vale a pena publicar esses fatos.
Cel Larangeira, estamos diante de mais um fato que merece reflexão por todos os segmentos da sociedade. Ou se noticia tudo, ou
não se noticia nada.

18 ± A CRISE NO STF ( ³BATE BOCA´ ENTRE MINISTROS E ASSUNTOS VAZADOS)

BRASÍLIA - A troca pública de ofensas entre o presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), Gilmar Mendes, e o ministro
Joaquim Barbosa criou uma crise interna na Corte, levando à suspensão da sessão de julgamentos marcada para ontem. O clima no
tribunal está pesadíssimo, é de impasse, e há total imprevisibilidade se o STF conseguirá concluir outros processos polêmicos em
sua pauta, como a votação da Lei de Imprensa prevista para a semana que vem.
A situação poderia estar mais grave caso fosse aprovada uma nota de advertência nominal a Barbosa, na noite de anteontem, durante
reunião reservada dos ministros com Gilmar Mendes, para analisar o ocorrido na sessão. A nota foi proposta pelo ministro Carlos
Alberto Menezes Direito. A ideia chegou a ser endossada por outros ministros num primeiro momento por causa do tom pesado de
Barbosa, que afirmou que Mendes estaria " destruindo a Justiça " no Brasil. O ministro Cezar Peluso chegou a apoiar essa nota mais
dura citando Barbosa. Essa seria uma tentativa de corrigir os destemperos do colega de Corte que já teve embates e fez grosserias
com quase a metade dos ministros do STF. Porém, outros ministros que estiveram na reunião defenderam a retirada do nome de
Barbosa da nota. Eles avaliaram que isso significaria não apenas uma advertência ao colega, capaz de levá-lo ao isolamento total na
Corte. Essa citação poderia ensejar um problema considerado mais grave: o início de um processo formal contra um ministro do
STF.
Os ministros se preocuparam com o fato de que uma advertência nominal contra Barbosa poderia ser utilizada formalmente por
qualquer pessoa para pedir no Senado a abertura de um processo de impeachment - algo inusitado e inédito na história do STF.
Segundo assessores do STF, os ministros Marco Aurélio Mello, Carlos Ayres Britto e Cármen Lúcia Antunes Rocha defenderam de
maneira mais intensa a retirada de qualquer menção a Barbosa na nota. Mello fez a advertência de que a citação poderia ser utilizada
formalmente num eventual processo. Segundo ele, seria um fato indesejado para o STF que levaria a uma crise ainda maior.
Britto e Cármen Lúcia disseram que o tribunal poderia buscar outra solução. Os ministros Celso de Mello, Ricardo Lewandowski e
Eros Grau concordaram com essa ponderação. Foi neste contexto que os ministros do STF divulgaram uma nota de apoio a Mendes,
reafirmando a " confiança e o respeito " a ele, e deixaram de mencionar Barbosa.
Ontem, Britto convidou Barbosa para almoçar e levou Lewandowski ao encontro. A ida de Lewandowski foi importante na tentativa
interna do STF de superar a crise, pois ele é próximo de Direito - ministro que defendeu, num primeiro momento, uma advertência
mais dura contra Barbosa. A avaliação é que ficaria até constrangedor, se apenas um ministro (no caso Britto) procurasse Barbosa
no dia seguinte aos insultos que fez ao presidente da Corte.
Os três foram ao restaurante Universal, um local moderno e de boa comida. No almoço, Barbosa afirmou aos colegas que não se
sentiu responsável pelo ocorrido e, por isso, não pretendia se desculpar com Mendes. Ele disse que foi provocado e apenas
respondeu. Britto e Lewandowski insistiram para que fosse mantida, ao menos, a tradicional cordialidade da Corte entre ele e
Mendes. Barbosa deu a entender que isso também depende de Mendes.
O presidente do STF informou os seus assessores que não pretende ingressar com qualquer ação contra Barbosa. Formalmente, ele
poderia ingressar com uma queixa-crime, mas descartou essa hipótese por considerar que ela seria um fardo para todo o STF.
Mendes e Barbosa são contemporâneos. Ambos têm origem humilde, fizeram a mesma faculdade de Direito (na Universidade de
Brasília), prestaram o mesmo concurso público (para o Ministério Público) e nunca se entenderam. Mendes acha Barbosa fraco para
o STF, o que deixa esse último indignado.
O bate-boca se deu após Mendes fazer uma provocação litúrgica a Barbosa. Os ministros debatiam um tema novo no tribunal: se é
possível modular os efeitos de uma decisão num tipo de recurso específico chamado " embargos de declaração " . A técnica de
modulação dos efeitos faz parte das inovações recentes do STF. Por ela, o tribunal diz a partir de qual momento a decisão será
aplicada. Os embargos de declaração são utilizados quando alguém recorre ao STF para que o tribunal esclareça supostas
obscuridades ou omissões em suas decisões. Na ocasião, os ministros julgavam embargos do governo do Paraná contra lei que trata
da previdência estadual.
A divergência teve início porque Mendes concluiu que o STF pode modular os efeitos de uma determinada decisão, mesmo após
verificar que não houve omissão. Já Barbosa alegou que não se pode modular decisões em embargos, pois isso criaria instabilidade
com relação às decisões da Corte. São posições antagônicas entre os ministros que já levaram a outro bate-boca. Em setembro de
2007, Mendes quis modular os efeitos num processo em que Barbosa fora o relator e que já estava decidido. Naquela ocasião,
Barbosa disse que Mendes estaria usando um " jeitinho " para ressuscitar uma causa já decidida. " Precisamos acabar com isso " ,
falou Barbosa, suscitando a ira do colega. Ao fim, os demais ministros concordaram em fazer a modulação, após duras discussões.
Neste novo embate, Mendes começou ironizando o fato de Barbosa não estar no início do julgamento do caso do Paraná. Barbosa
respondeu que estava sob licença médica devido a dores constantes nas costas. Em seguida, ele fez acusações a Mendes,
consideradas graves pelos demais ministros. Falou que Mendes estaria destruindo a credibilidade da Justiça e disse que não era um "
capanga do Mato Grosso " , uma alusão ao Estado natal do presidente do STF. Mendes preferiu por fim à discussão e encerrou a
sessão.
Barbosa já se desentendeu com Mello e Eros Grau no STF e com os ministros Felix Fischer e Arnaldo Versiani no Tribunal
Superior Eleitoral (TSE). Ele não recebe advogados em seu gabinete, o que, de certa forma, o isolou na classe jurídica. Barbosa
chegou a taxar de " tráfico de influência " alguns pedidos de advogados para que ele os receba antes de determinados julgamentos,
como é comum em todos os tribunais.
Ontem, Mendes completou um ano na presidência do STF e o embate com um ministro da Corte apagou uma conquista recente do
Supremo que, desde a presidência de Nelson Jobim, vem se expondo mais nos julgamentos, com a prática do chamado ativismo
jurídico. Neste período de um ano, os ministros receberam 41% a menos processos - um recorde, pois o número vinha aumentando
aos milhares ano a ano, o que estava tornando inviável a realização dos julgamentos. Questionado sobre o episódio, Mendes disse
que não há crise no STF. " Não há crise. Não há arranhão. O tribunal tem trabalhado muito bem. "
A ministra Ellen Grace, que antecedeu Mendes na presidência do Supremo, evitou comentários. Ela está em Genebra fazendo
campanha para o Órgão de Apelação da OMC, espécie de corte suprema do comércio internacional. Ela evitou jornalistas, tanto para
não falar sobre o Supremo, como para não causar ruídos na campanha na OMC.
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva, em Buenos Aires, disse que está longe de ser uma crise institucional. " Se esse tipo briga
ajuda a democracia, muito bem. Mas acho que quando ocupamos determinadas funções, é preciso que digamos (o que temos a dizer)
dentro dos autos do processo, não pela imprensa " .

19 ± A CRISE MORAL NO SENADO FEDERAL

Vergonhosa, imoral e eticamente dantesca a crise hoje vivenciada no Senado Federal! Chega a ser humilhante para os eleitores
brasileiros verem-se espelhados politicamente naqueles que escolheram (e que não escolheram) para representarem os seus
interesses na esfera legislativa federal. Não que as outras instâncias do Estado Nacional estejam muito melhores, mas as
enfermidades morais crônicas instaladas em escala permanente (os atos secretos são a prova maior disso) no reduto maior e mais
veterano da política nacional representam um foco de contaminação permanente. E o mais grave, por vírus imorais resistentes aos
antibióticos democráticos pelo contato longevo com as práticas políticas tradicionais e vergonhosas da nossa história: senadores
decrépitos física e moralmente, blindados por uma ética própria e que se impõe de forma cínica à nação a cada momento e da
forma mais aberta e desavergonhada. O cinismo chegou a tal ponto que mesmo os senadores que comprovada e assumidamente
quebraram o decoro parlamentar (caso do pitbull Artur Virgílio) diz isso de público e se arvora a acusador do presidente da casa
(que não assume mas está implicado nos fatos). O ex-presidente do Senado (Renam Calheiros), que não perdeu o mandato por
renunciar a ele, acusando um outro pitbull (Tasso Jereissati) comprometido e que se dá ao direito de falar em ³dedos sujos´. E
para completar o lamentável surrealismo (ou realismo fantástico?) da situação, vemos um dos poucos senadores que se salva da
lama geral (Eduardo Suplicy), caducando em plenário e em inglês, cantando em plena crise uma musiquinha para os seus pares
sobre o Dia dos Pais. Ele deveria ter ampliado o tragicômico show musical para homenagear também os netos, filhos e similares.
E principalmente as mães de figuras tão lamentáveis«
Bem, pelo menos, em meio a este cenário de pocilga (completado pela mídia também comprometida com o sensacionalismo e
com as suas inserções ideológicas específicas), surgiu uma proposta pertinente, vinda da Ordem dos Advogados do Brasil. De
uma corporação que abriga boa parte de tudo aquilo de pior que há na vida nacional, já que uma imensa parcela dos políticos são
advogados, já que os grandes criminosos deste país (de gravata ou de sandália) são defendidos e libertos das cadeias por
advogados contratados a peso de ouro, já que os juízes que libertam e até vendem sentenças a esses criminosos, são oriundos dos
seus quadros. Apesar disso tudo, pelo pouco de bom que lá ainda existe, de lá saiu a proposta de renúncia geral dos senadores,
para recomeçar do zero, através de novas eleições imediatas. No meu ponto de vista, isso seria ótimo, pois os eleitores votariam
sob o impacto recente das informações cabulosas e reais, sem dar tempo a estes dinossauros morais (sem querer ofender aos
dinossauros!) para maquiarem a vergonhosa realidade.
O presidente nacional da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), Cezar Britto, sugeriu hoje, em nota divulgada à imprensa, a
renúncia imediata dos 81 parlamentares que compõem o Senado Federal e a convocação de novas eleições legislativas. Na
opinião de Britto, essa seria a ³solução ideal´ para que a Casa recuperasse a credibilidade perdida por conta dos recentes
escândalos que têm como pivô o presidente do Senado, o parlamentar José Sarney (PMDB-AP).
O Senado está em estado de calamidade institucional. O ideal seria a renúncia dos senadores´, sugere. Ainda na manifestação,
Britto critica os atuais bate-bocas entre membros da base governista e da oposição no plenário da Casa, como a troca de farpas
entre os senadores Tasso Jereissati (PSDB-CE) e Renan Calheiros (PMDB -AL). ³A quebra de decoro parlamentar, protagonizada
pelas lideranças ± com acusações recíprocas de espantosa gravidade e em baixo calão -, configura quadro que envergonha a
nação´, afirma o presidente da OAB.
Apesar de reconhecer que o presidente José Sarney esteja no olho do furacão da crise por que passa a Casa, Britto diz que ³a crise
não se resume ao presidente da Casa, embora o ponha em destaque. Ela é de toda instituição´. De acordo com o presidente da
instituição, todos os senadores têm contribuído com a crise, ³que se dissemina como metástase junto às bancadas´. O presidente
da OAB ainda ressalta que a extinção da Casa não seria a solução ideal, uma vez que os responsáveis por sua situação atual são
os senadores que foram eleitos para compô-la. ³O Senado não pode ser confundido com os que mancham o seu nome´.
A nota ainda propõe uma eficaz reforma política, que elimine os cargos de suplência e crie o dispositivo de ³recall´, instrumento
de revogação de mandato aplicado pela sociedade. ³O voto pertence ao eleitor, não ao eleito, que é apenas seu delegado. Traindo-
o, o parlamentar deve perder o mandato´, diz.

20 ± PARTIDOS POLÍTICOS: IMPORTÂNCIA PARA OS REGIMES DEMOCRÁTICOS X REALIDADE BRASILEIRA

Este artigo aborda o papel instrumental dos partidos políticos em relação ao regime democrático. Parte-se da constatação de que os
partidos são instrumentos imprescindíveis para o funcionamento da democracia de massas, porém o desvirtuamento de sua atuação
pode transformá-los em instrumentos de ataque ao regime democrático. Mais do que diferenças organizacionais internas, importa
destacar a diferença em termos da importância dos partidos para o funcionamento do sistema político como um todo. Se o Estado
liberal clássico podia dispensar os partidos, o Estado social não mais. No plano das instituições, o mecanismo proposto foi a
evolução do modelo da tripartição de poderes rumo a uma tetrapartição, onde o Governo separa-se claramente da Chefia de Estado ±
que passa a ter funções de arbitragem das disputas entre os demais órgãos políticos ± e integra-se ao Parlamento14. Desse modo, o
Governo é entregue a um gabinete formado pela maioria parlamentar, com a função de executar as políticas constantes no programa
partidário ao abrigo do qual esta maioria foi eleita. Vê-se que o funcionamento regular do sistema supõe a presença de partidos
capazes de aglutinar os interesses dispersos da sociedade em torno de programas políticos e ideológicos mais ou menos bem
definidos, em livre competição pela preferência dos eleitores. O partido assume, pois, a função de mecanismo de transmissão da
opinião das massas para as instituições encarregadas da decisão e da execução políticas. Enquanto instrumentos de mobilização das
massas, os partidos são, em si mesmos, neutros, podendo tanto servir à realização do ideal democrático quanto à sua destruição. As
experiências totalitárias do século XX demonstraram que os partidos políticos, embora indispensáveis para o funcionamento das
democracias contemporâneas, podem também apresentar-se como fator de risco para a sobrevivência dos regimes democráticos,
sempre que sua organização é utilizada por grupos que pretendem atacar este regime e substituí-lo por regimes autoritários ou
totalitários. De fato, no período entre as duas guerras mundiais, as normas de início favoráveis à presença dos partidos no cenário
político foram cedendo lugar às restrições à sua ação, conforme os malefícios da atuação partidária desenfreada iam fazendo-se
sentir19. Colhendo o fruto das experiências do entre-guerras e de suas conseqüências, várias constituições surgidas na Europa após o
final da Segunda Guerra Mundial preocuparam-se em atribuir ³status´ constitucional aos partidos políticos20, reconhecendo- os
juridicamente como parte integrante da organização constitucional democrática, disciplinando porém suas atividades, de modo a
evitar que se transformassem em instrumentos de destruição do regime a que deveriam servir. A emergência da democracia de
massas e, conseqüentemente, dos partidos políticos como meio de viabilizar a participação dos cidadãos no processo decisório e,
portanto, no Governo de suas sociedades foi um dos mais importantes eventos presenciados pela história política. As experiências
negativas, ainda que traumáticas, foram vistas, porém, como oportunidade de aperfeiçoar o modelo da democracia pelos partidos, o
qual, renovado, dotado de instrumentos para defesa de sua integridade e implantado em sociedades nas quais majoritariamente se
aceita a democracia como o melhor regime de governo, tem conseguido demonstrar suas virtudes para muito além do que os críticos
julgariam-no capaz.

21 ± A POLÍTICA: CIÊNCIA, ARTE OU ARTICULAÇÃO DE INTERESSES GRUPAIS?

22 ± RELIGIÕES: DOS DOGMAS, DA FÉ E DA MANIPULAÇÃO FINANCEIRA

Se tem alguma coisa que tem chocado a todos nós brasileiros, são as notícias diárias de desrespeito total à vida do semelhante.
Criança arrastada até a morte por carro em assalto, pais acusados de jogarem filha de apartamento, mortos friamente em assaltos
mesmo sem terem reagido, pai que mata e estupra a própria filha, execuções sumárias de desafetos com requintes de crueldade,
enfim, fatos que nos remetem á época da pré-civilização. Não sou nenhum cientista social, mas como médico, observador atento das
atitudes da sociedade, me pus a pensar e cheguei a algumas conclusões que gostaria de repartir com vocês que me dão a honra de
freqüentar esse blog. Nascemos, quase todos nós brasileiros, cristãos, como tal somos moldados nos ensinamentos legados por Jesus
Cristo, se mais tarde nos decepcionamos com os caminhos que a Igreja tem tomado, é motivo para outras considerações, que não é o
objetivo deste texto. Voltemos aos ensinamentos, dentre eles talvez o mais importante seja ³ a vida nos foi dada por Deus e só Ele
tem o direito de tira-la´ sob pena de pecado mortal e o inferno como destino de nossa alma. Evidentemente que isso cria um freio
religioso e que persiste em nosso subconsciente por toda a vida e em momentos de fúria, de desavenças, de discórdias, de
humilhações extremas, certamente nos faz refletir e nossa consciência cristã impede que cometamos o pecado imperdoável.Outro
freio é o que a Justiça nos impõe. Perda da liberdade, do convívio familiar e da sociedade para os que tirarem a vida de outrem.
Resguardando as prerrogativas de legitima defesa da vida, da honra , outras situações previstas no Código Penal e em situações de
guerra , também nos impede de atentar contra a vida dos semelhantes. As orientações de família, os ensinamentos e exemplos dos
pais para os filhos, o amor, a cumplicidade, o respeito à lei e à ordem, aos mais idosos, aos diferentes, à necessidade do trabalho
para o sustento honesto, moldam nossa personalidade e nos acompanha também na fase adulta, condicionando-nos a transmitir os
mesmos valores a nosso descendentes. O que está errado então? E aqui tenho certeza, alguém com mais capacidade poderia escrever
um compêndio, mas vou ousar algumas explicações que pelo menos a mim, parecem pertinentes. A Igreja, com seus próprios
escândalos, padres, bispos e pastores envolvidos em pedofilia, homossexualismo, adultérios , filhos naturais, na maioria das vezes
usando posição na estrutura religiosa para seduzir e corromper. A exploração financeira de fies em proveito próprio, o envolvimento
demasiado na política partidária e ostentação de luxos inacessíveis a grande maioria dos fiéis aliados ao conhecimento científico,
agora a disposição também da população mais carente, e que contradiz a versão religiosa, certamente contribui para que esse freio
religioso, tão importante se perca. Medo do pecado, de ir par o inferno, já não impede que se tire a vida de alguém.A Justiça, com
prerrogativas, artifícios jurídicos habilmente introduzidos por bons advogados, leis que protegem muito mais quem matou do que a
família do assassinado, vide pensão dada pelo Estado a assassinos, confinamento em regime domiciliar ou semi-aberto, diminuição
de penas e proteção a pretensos Direitos Humanos, passa à sociedade a impressão de que só pobre vai para a cadeia, quando vai,
permanece por pouco tempo, faz com que perca-se o medo da privação da liberdade. Exemplos de magistrados, policiais,
advogados, servidores públicos e até Presidentes de Tribunais de Justiça envolvidos em corrupção , induz impunidades e
corporativismo. Tudo isso faz com que percamos o segundo freio importante, tornando insignificante o respeito às leis como motivo
de se poupar a vida de alguém. Restaria então o freio familiar, mas a necessidade imposta pela necessidade de sobrevivência faz
com que pais e mães tenham que trabalhar, deixando filhos aos cuidados de irmãos mais velhos , a vizinhos ou em creches e a falta
de tempo para atenção devida ao comportamento dos mesmos, identificando e corrigindo possíveis desvios. Falta de tempo para o
amor e o carinho, fragiliza-os fazendo com que sejam alvo fáceis de traficantes e contraventores, requisitando-os com freqüência
para o exército do crime. Degradação do casamento, com brigas, agressões, desrespeitos, separações precoces, interferem
diretamente na formação de suas personalidades, tornando-os adultos forjados em ambiente que com raras exceções os levaram a
não ter também respeito à vida. Para completar esta triste realidade, tvs, hoje presentes em todos os lares, transmitem diariamente os
desmandos e roubos do dinheiro público por políticos e autoridades, sendo dinheiro nas meias, na cueca, nas malas, mensalões para
todos os gostos, motivos de comentários e piadas em todos os lares e botequins, passando mensagem de total descaso e desrespeito
com as leis, por quem deveria ser por autorização dos eleitores, os fiéis defensores da moral , bons costumes e do Estado de
Direito.Bem amigos, triste não? Mas esta é a d oença Diagnóstico mais preciso, tratamento e prognóstico é assunto para ser discutido
por toda a sociedade e por aqueles que se dispõem a solicitar nosso voto para comandar e tentar mudar a total anarquia que aí está.
Voltaremos ao assunto em futuros artigos.

23 ± ALTA OPERACIONALIDADE E ALTA EXPRESSIVIDADE SONHO E REALIDADE NA PM

24 ± A EXPLORAÇÃO DO PETRÓLEO BRASILEIRO , O PRÉ-SAL E A RELAÇÃO SOCIOECONÔMICA ENTRE UNIÃO E


ESTADOS

Na área do pré-sal, os principais desafios tecnológicos podem ser classificados por áreas de conhecimento5. Na área de reservatório,
destacam-se os seguintes desafios: ҟҏdefinição de variação dos caracteres litológicos ou paleontológicos (fácies) a partir de dados
sísmicos; ҟҏcaracterização interna do reservatório, com foco nas heterogeneidades; ҟҏviabilidade técnica de mecanismos de recuperação
secundária; ҟҏaspectos geomecânicos das rochas e possíveis danos. Outro fator determinante na exploração do petróleo da camada pré-
sal é a questão ambiental. Daqui a algumas décadas, o petróleo e outros combustíveis fósseis podem perder valor no mercado, em
razão de questões climáticas, decorrentes, principalmente, do agravamento do efeito estufa. Sendo assim, é fundamental que os
países produtores de petróleo possam aumentar o ritmo da extração para aproveitar o cenário ainda favorável dos próximos anos ou
incentivem o desenvolvimento de tecnologias que mitiguem os impactos ambientais provocados pelo consumo de seus produtos, de
modo a mantê-los atrativos. O Brasil deve estabelecer um ritmo de extração do petróleo da camada pré-sal de modo a permitir que
haja uma grande participação interna na produção de bens e serviços. Com o pré-sal, surge a oportunidade de que o país se torne um
grande exportador de combustíveis e de produtos petroquímicos. O Brasil pode, então, firmar -se como importante centro de bens e
serviços no Atlântico Sul no setor petrolífero. Em razão do grande potencial da plataforma continental brasileira e da plataforma
continental africana, o Atlântico Sul deverá ser a região com maior crescimento de produção de petróleo e gás natural.

25 ± PEDOFILIA: PATOLOGIA? DEFORMAÇÃO DE CARÁTER? MODISMO? CRIME HEDIONDO?

A pedofilia, atualmente, é definida simultaneamente como doença, distúrbio psicológico e desvio sexual (ou parafilia) pela
Organização Mundial de Saúde. Nos manuais de classificação dos transtornos mentais e de comportamento encontramos essa
categoria diagnóstica. Caracteriza-se pela atração sexual de adultos ou adolescentes por crianças. O simples desejo sexual,
independente da realização do ato sexual , já caracteriza a pedofilia. Não é preciso, portanto que ocorram relações sexuais para
haver pedofilia.O fato de ser considerada um transtorno, não reduz a necessidade de campanhas de esclarecimento visando a
proteção de nossas crianças e adolescentes e nem tira a responsabilidade do pedófilo pela transgressão das barreiras geracionais.
$
       R Não existe um crime intitulado ³pedofilia´ na legislação brasileira. As conseqüências do
comportamento de um pedófilo é que podem ser consideradas crime.E

 

 
  < 
R
”‘         Prática de atos libidinosos cometidos mediante violência ou grave ameaça. São
considerados atos libidinosos aqueles que impliquem em contato da boca com o pênis, com a vagina, com os seios, com o
ânus, ou a manipulação erótica destes órgãos com a mão ou dedo. Também atos que impliquem na introdução do pênis no
ânus, no contato do pênis com o seio ou na masturbação mútua.
”‘ $
 Constranger criança ou adolescente à conjunção carnal ou ato libidinoso ( redação dada pela lei 12.015
de agosto de 2009) mediante violência ou grave ameaça.
”‘ ,  1 >    Apresentar, produzir, vender, fornecer, divulgar ou publicar, por qualquer meio de
comunicação, inclusive rede mundial de computadores ou internet, fotografias, imagens com pornografia ou cenas de sexo
explícito envolvendo crianças e pré-adolescentes.

26 ± CRIME, CRIMINOSO E CRIMINALIDADE: SOCIEDADE E POLÍCIA


A    1  é um conjunto de conhecimentos que se ocupa do crime, da criminalidade e suas causas, da vítima, do controle
social do ato criminoso, bem como da personalidade do criminoso e da maneira de ressocializá-lo. Etmologicamente o termo deriva
do latim  (crime) e do grego  (tratado ou estudo), seria portanto o "estudo do crime". [1] É uma ciência empírica e
interdisciplinar. É empírica, pois baseia-se na experiência da observação, nos fatos e na prática, mais que em opiniões e argumentos.
É interdisciplinar e portanto formada pelo diálogo de uma série de ciências e disciplinas, tais como a biologia, a psicopatologia,
a sociologia, política, a antropologia, o direito, afilosofia e outros. A criminologia é ciência moderna, sendo um modo específico e
qualificado de conhecimento e uma sistematização do saber de várias disciplinas. A partir da experimentação desse saber
multidisciplinar surgem teorias (um corpo de conceitos sistematizados que permitem conhecer um dado domínio da realidade).
Enquanto ciência, a criminologia possui objeto próprio e um rigor metodológico (método) que inclui a necessidade de
experimentação, a possibilidade de refutação de suas teorias e a consciência da transitoriedade de seus postulados. Ainda que
interdisciplinar é também ciência autônoma, não se confundindo com nenhuma das áreas que contribuem para a sua formação e sem
deixar considerar o jogo dialético da realidade social como um todo.
Objeto da criminologia é o crime, o criminoso (que é o sujeito que se envolve numa situação criminógena de onde deriva o crime),
os mecanismos de controle social (formais e informais) que atuam sobre o crime; e, a vítima (que às vezes pode ter inclusive certa
culpa no evento).
A relevância da criminologia reside no fato de que não existe sociedade sem crime. Ela contribui para o crescimento do
conhecimento científico com uma abordagem adequada do fenômeno criminal. O fato de ser ciência não significa que ela esteja
alheia a sua função na sociedade. Muito pelo contrário, ela filia-se ao princípio de justiça social.
Os estudos em criminologia têm como finalidade, entre outros aspectos, determinar a etiologia do crime, fazer uma análise da
personalidade e conduta do criminoso para que se possa puni-lo de forma justa (que é uma preocupação da criminologia e não
do Direito Penal), identificar as causas determinantes do fenômeno criminógeno, auxiliar na prevenção da criminalidade; e permitir
a ressocialização do delinquente.
Os estudos em criminologia se dividem em dois ramos que não são independentes, mas sim interdependentes. Temos de um lado
aCriminologia Clínica (bioantropológica) - esta utiliza-se do método individual, (particular, análise de casos, biológico,
experimental), que envolve a indução. De outro lado vemos a Criminologia Geral (sociológica), esta utiliza-se do método estatístico
(de grupo, estatístico, sociológico, histórico) que enfatiza o procedimento de dedução.
A interdisciplinaridade é uma perspectiva de abordagem científica envolvendo diversos continentes do saber. Ela é uma visão
importante para qualquer ciência social. Em seus estudos, a criminologia se engaja em diálogo tanto com disciplinas das Ciências
Sociais ou humanas quanto das Ciências Físicas ou naturais.
Entre as áreas de estudo mais próximas da Criminologia temos:
¿‘ Direito penal: o principal ponto de contato da criminologia com o Direito Penal está no fato de que este delimita o campo
de estudo da criminologia, na medida em que tipifica (define juridicamente) a conduta delituosa; O direito penal é sancional por
excelência; Ele caracteriza os delitos e, através de normas rígidas, prescreve penas que objetivam levar os indivíduos a evitar
essas condutas.
¿‘ Direito Processual Penal: a Criminologia fornece os elementos necessários para que se estipule o adequado tratamento do
réu no âmbito jurisdicional. Também indica qual a personalidade e o contexto social do acusado e do crime, auxiliando os
juristas para que a sentença seja mais justa. A criminologia oferece os critérios valorativos da conduta criminosa. Ela pesqu isa a
eficácia das normas do Direito Penal, bem como estuda e desenvolve métodos de prevenção e ressocialização do criminoso.
¿‘ Direito Penitenciário: os dados criminológicos são importantes no Direito Penitenciário para permitir o correto e eficaz
tratamento e ressocialização do apenado. A criminologia ajuda a tornar a pena mais humana, buscando o objetivo de punir sem
castigar.
¿‘ Psicologia Criminal: é ciência que demonstra a dimensão individual do ato criminoso; estuda a personalidade do criminoso,
orientando a Criminologia.
¿‘ Psiquiatria Criminal: é ramo do saber que identifica as diversas patologias que afetam o criminoso e envolve o estudo da
sanidade mental.
¿‘ Antropologia Criminal: abrange o fenômeno criminológico em sua dimensão holística, ou seja, biopsicosocial. É o Estudo
do homem na sua história, em sua totalidade (homem como fator presente no todo);
¿‘ Sociologia Criminal: demonstra que a personalidade criminosa é resultante de influências psicológicas e do meio social;
¿‘ Ciências Biológicas: fornecem os elementos naturais e orgânicos que influenciam ou determinam a conduta do criminoso;
¿‘ Vitimologia: estuda a vítima e sua relação com o crime e o criminoso (estuda a proteção e tratamento da vítima, bem como
sua possível influência para a ocorrência do crime);
¿‘ Criminalística: é o ramo do conhecimento que cuida da dinâmica de um crime. Estuda os fatores técnicos de como o crime
aconteceu. Há um setor especializado da polícia destinado a essa área.
¿‘ Ciências Econômicas: estuda o crime a partir do intrumental analítico racionalista. O crime é visto como um mercado e sua
oferta é determinada por fatores como o ganho esperado da atividade criminosa, probabilidade de sucesso e intensidade da
punição em caso de falha.

27 ± ECOLOGIA: O USO DE ENERGIA RENOVÁVEIS

$ 1 
! / 

$ 1 $< A Energia Eólica é considerada a energia mais limpa e renovável existente, pois não libera gases tóxicos nem se
esgota. O vento existente no planeta é o suficiente para suprir o consumo de energia em até quatro vezes o nível atual. Uma usina
eólica funciona basicamente com a instalação de diversos moinhos de vento. Ao atingir os moinhos, o vento movimenta uma hélice
que gira um eixo que impulsiona o gerador de eletricidade.No Brasil, o mercado de usinas eólicas ainda está em crescimento. No
mundo, já existem mais de trinta mil em operação, movimentando bilhões de dólares. Alemanha, Dinamarca, Estados Unidos, Índia
e Espanha estão entre os campeões de uso dos ventos.
$ 1  Abundante e limpa, a energia solar é renovável a cada dia, podendo ser aproveitada como fonte de calor ou fonte de
luz. Uma das alternativas para aproveitamento e utilização dessa energia é a instalação de coletores solares térmicos, que podem
aquecer a água e o ar para casas e instalações industriais. Países em desenvolvimento já instalaram mais de um milhão de sistemas
domésticos de energia solar.
$ 1  B 

A Biomassa é um tipo de energia criada a partir do aproveitamento do lixo orgânico, restos agrícolas, aparas
de madeira, bagaços de cana e óleos vegetais. Cerca de 30% das necessidades energéticas no Brasil são supridas pela biomassa
através de:- Carvão vegetal,- Lenha para queima nas padarias e cerâmicas,- Carvão mineral,- Bagaço de cana para geração de vapor
e eletricidade nas usinas de açúcar e álcool
$ 1  
, 
D  + 
As usinas hidroelétricas de pequena escala geram eletricidade com o uso do fluxo natural da
água dos rios através de pequenas turbinas, sem causar impactos ao meio ambiente. No Vietnã, essa prática já é utilizada por mais
de cem mil famílias. A idéia também está em desenvolvimento na China, com um projeto de geração de energia para mais de 50
milhões de pessoas.

28 ± ECOLOGIA: AS PRINCIPAIS RIQUEZAS DO BRASIL E O FUTURO DA NAÇÃO

B 
 
Como é sabido o Brasil é considerado o país de maior diversidade de vida do planeta, o que o torna alvo de cobiça e infindáveis
discussões sobre a forma de sua utilização econômica.
A importância da biodiversidade foi compreendida há poucos anos, com o desenvolvimento da biotecnologia, começando-se a
observar que quanto mais diversidade de vida possui um país mais e variados produtos poderia desenvolver, principalmente em
termos farmacológicos.
Pois bem, biodiversidade é definida como a variabilidade de organismos vivos de todas as origens, compreendendo, dentre outros os
ecossistemas terrestres, marinhos e outros aquáticos e os complexos ecológicos de que fazem parte; compreendendo ainda a
diversidade dentro de espécies, entre espécies e de ecossistemas, conforme art.7º da Convenção sobre a Diversidade Biológica,
celebrada na Conferência sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento, a Rio-92. Portanto, a biodiversidade engloba todos os recursos
vivos da terra e ante a sua importância para o ser humano pode ser considerada como um conjunto de riquezas, sendo um patrimônio
natural de uma nação.
Com o desenvolvimento da biotecnologia começou-se a observar a importância da diversidade de vida para o desenvolvimento dos
mais variados produtos, principalmente os farmacológicos. A biodiversidade tomou notória importância com os estudos do biólogo
Edward O. Wilson (  
  
. Editora Companhia das Letras.1994 e(  
 . Ed. Nova Fronteira.1997). Por sua
vez, o descobrimento do potencial real de nossa enorme biodiversidade, a grande extensão territorial brasileira, a falta de recursos
para fiscaliza-los, a escassez de recursos naturais no restante do mundo, aliados à falta de conscientização de sua importância
científico-econômica estão facilitando a biopirataria que é o comércio ilegal de nossa biodiversidade.
O descobrimento do potencial real de nossa enorme biodiversidade, a grande extensão territorial brasileira, a falta de recursos para
fiscaliza-los, a escassez de recursos naturais no restante do mundo, aliados à falta de conscientização de sua importância científico-
econômica estão facilitando a biopirataria que é o comércio ilegal de nossa biodiversidade. Aliás, a retirada de nossas riquezas
naturais já vem desde o descobrimento, quando então iniciou-se a evasão do nosso patrimônio.
O ser humano sempre utilizou os recursos naturais em prol de seu desenvolvimento e mesmo para sua subsistência, mas a explosão
demográfica e o desenvolvimento tecnológico havidos nas últimas décadas principalmente o uso dos recursos biológicos
aumentaram sensivelmente chegando a comprometer muitos dos ecossistemas da terra, levando-os praticamente à destruição, com
conseqüências desastrosas para a humanidade.
Por sua vez a crescente demanda por produtos químicos e fármacos aumentaram o interesse sobre a biodiversidade existente nas
áreas silvestres pouco ou ainda não exploradas como no caso da Amazônia. A industria farmacêutica recentemente retomou o
entendimento de que a cura de milhares de enfermidades humanas pode estar nos produtos extraídos dos recursos naturais
biológicos das florestas tropicais, o que está fazendo com que suas atenções voltem então para o nosso país.
B 
"   "
Segundo vários estatísticas e estudos amplamente publicados na imprensa em geral, cerca de 25% dos medicamentos existentes
foram elaborados com ingredientes ativos extraídos de plantas, devendo ser registrada a relação de 119 substâncias químicas usadas
regularmente na medicina em todo o mundo referida por Farnsworth (1997), o que mostra a importância do uso da variedade da
flora. Na agricultura a biotecnologia tem se destacado cada vez mais, conseguindo excelentes sucessos na reprodução tanto de
plantas quanto na melhoria de produção animal, com importantíssima colaboração de genes de plantas e animais etc.
Dessa forma, a matéria prima, no caso a diversidade de vida, passou a ter maior valor de mercado e consequentemente mais atenção
dos países detentores, o que aliado a crescente consciência da valoração da biodiversidade fez com que se buscassem regras para a
sua exploração. Assim, surgiu em âmbito planetária uma nova forma de exploração de produtos, a exploração dos recursos naturais
biológicos, ou seja a exploração da biodiversidade, surgindo então a bioprospecção. Na Costa Rica, pequeno país da América
Central, desenvolve-se por exemplo um projeto piloto de bioprospecção em convênio do Instituto Nacional de Biodiversidade
(INBIO) com a Merck & Co., Ltda, com interessantes resultados, conforme relatado por REID et all (1993).
Assim , bioprospecção pode ser definida como o método ou forma de localizar, avaliar e explorar sistemática e legalmente a
diversidade de vida existente em determinado local, tem como objetivo principal a busca de recursos genéticos e bioquímicos para
fins comerciais.
>
 
  "
Para a realização e efetivação da bioprospecção é necessário que o Poder Público, as entidades particulares não governamentais
(ONGs), as universidades públicas e particulares, as empresas químicas e farmacêuticas entre outras, as comunidades e a
coletividade em geral participem concretamente através de convênios, contratos de concessão, permissão e parcerias em geral. Só
assim, poderão ser postos em prática os atos do processo de prospecção da biodiversidade.
Também deverão ser elaborados e executados programas com regras bem definidas onde as partes assumem responsabilidades
claras, nunca se esquecendo das normas legais vigentes no país, assim como os institutos de direito como o de patente, direito
autoral etc. Por sua vez, os contratos devem ter a publicidade necessária que exige o trato com os bens de propriedade do povo como
são os que integram a biodiversidade, bem como os aspectos jurídicos internacionais devem ser observados para que o Brasil não
venha a ser prejudicado futuramente, lembrando que em muitos casos estarão sendo tratado assuntos que envolvem milhões ou até
bilhões de dólares.
, 6
  
"
A bioprospecção como nova atividade humana necessita ser regulamentada em termos mundiais para que possa seguir normas ou
princípios garantidores de sua execução.
Primeiramente é necessário definir o que é bioprospecção, o que podemos dizer que é o método ou forma de localizar, avaliar e
explorar sistemática e legalmente a diversidade de vida existente em determinado local.
Seu objetivo principal é a busca de recursos genéticos e bioquímicos para fins comerciais. Porém, o processo de bioprospecção deve
observar princípios para que tenha credibilidade científica, política e econômica, os quais podemos elencar como sendo os
seguintes: princípio da prevenção, ou seja na dúvida quanto a danos irreparáveis não deve iniciar-se ou prosseguir; princípio da
preservação pois deve ter sempre como objetivo intrínseco a preservação para que não se esgote o recurso; princípio da equidade
distributiva é aquele pelo qual os benefícios devem ser partilhados a todos os que participam, notadamente o país proprietário da
biodiversidade explorada; princípio da participação pública no qual deverá ser garantida a participação mais ampla possível da
população envolvida em todos os seus segmentos através de entidades públicas ou particulares e mesmo o cidadão sozinho;
princípio da publicidade pelo qual os atos desta atividade devem ter total transparência e com caráter público, mormente porque está
sendo tratado bem de uso comum do povo, ou seja bem de todos da nação, bem difuso; princípio do controle público e privado ou
seja o processo deve ser controlado pelos órgãos de fiscalização assim como pelas entidades particulares; e ainda o princípio da
compensação onde deverá ser observado que a comunidade ou a pessoa fornecedora da matéria prima ou do conhecimento (como
por exemplo os pajés) devem receber compensações em dinheiro ou em bens.
"?
 

/ 

Além dos princípios aqui elencados, é necessário também que sejam tomadas ações concretas no sentido de incrementar o processo
de bioprospecção, as quais entendemos ser as seguintes: fazer o inventário da biodiversidade formando uma base de dados concreta
para que se conheça o que se tem e assim fornecer subsídios para se conhecer seu potencial; fomentar a conscientização da
importância da biodiversidade para a sobrevivência dos ecossistemas e das próprias espécies em geral, por meio da educação
ambiental a ser desenvolvida em entidades públicas e privadas, assim como através dos meios de comunicação; definir
detalhadamente as atividades e as finalidades relacionadas a cada elemento pesquisado; rever a legislação adequando-a as
necessidades de preservação e exploração econômica dos bens naturais em questão disciplinando a sua alienação, utilização, sigilo,
patente etc.; estruturar e colocar em prática uma política de prospecção tendo entre seus parâmetros a preservação da soberania
nacional e o cuidado para que o povo não seja prejudicado pela má distribuição dos benefícios advindos desta forma de exploração;
pautar sempre pela publicidade dos atos do processo de bioprospecção; fomentar a investigação científica desenvolvendo meios
modernos, assim como dar condições de aprendizado e aperfeiçoamento ao cientista brasileiro; garantir a partição dos benefícios às
comunidades envolvidas, respeitando o direito de propriedade da medicina natural dos indígenas, tanto coletiva quanto individual
(curandeiro); incentivar o desenvolvimento das relações formais e informais entre a comunidade científica, as ONGs, os grupos
indígenas e a coletividade em geral.
Somente colocando em prática estas ações e outras que fatalmente surgirão como necessárias no caminho, conseguiremos garantir o
mínimo de segurança a todos no desenvolvimento dos trabalhos.
M 1

A utilização dos recursos naturais, principalmente os não renováveis, é sempre danosa ao ambiente da terra, mas estamos cientes de
que não há outra alternativa a humanidade; temos que usar os recursos que se nos apresentam, mas com as cautelas necessárias para
que os danos sejam o menor possível.
Apesar do processo de bioprospecção ser relativamente novo, podemos desde já destacar algumas de suas vantagens que seriam:
propicia conhecimento da biodiversidade e seu potencial; fornece substâncias importantes ao homem; favorece o crescimento
econômico; é um fator gerador de empregos; proporciona fundo para a conservação; gera impostos; melhora o nível científico do
país e poderá melhorar o nível de vida no planeta com a utilização correta dos recursos naturais.
, " 96   
   

  
"
A Convenção sobre Diversidade Biológica teve a finalidade, entre outras, de chamar a atenção dos países signatários e também do
mundo em geral, sobre a importância da biodiversidade, dos valôres ecológicos, social, econômico, científico, cultural, bem como
reafirmou que os Estados são responsáveis pela sua conservação para a obtenção de um desenvolvimento sustentável. Considerou
também que é de importância vital a conservação da biodiversidade para atender as necessidades da população mundial. A referida
convenção foi aprovada no Brasil pelo Dec.Leg. nº 2, de 1994.
A nossa Constituição Federal (1988), também protege a diversidade quando diz que todos têm direito ao meio ambiente
ecologicamente equilibrado(art.225), o que se pode interpretar que todos têm direito a que nenhuma espécie pereça ou se extinga.
Quanto a preservação dos ecossistemas brasileiros e sua diversidade, o § 4º do referido artigo protege a Floresta Amazônica, a Mata
Atlântica, a Serra do Mar, o Pantanal Mato-Grossense e a Zona Costeira, considerando-os patrimônio nacional. Por sua vez, a Lei
6.938, de 31/08/81, (Política Nacional do Meio Ambiente) tem como princípios a manutenção do equilíbrio ecológico (art.2º,I) e a
proteção dos ecossistemas (art.º, IV), mostrando que a preservação da biodiversidade é essencial.
As leis de preservação florestal (Lei 4.771/65, Cód. Florestal) e dos Crimes Ambientais (Lei 9.605/98), bem como a criação das
unidades de conservação também protegem a diversidade, pois tentam manter os ecossistemas.
Quanto a proteção da diversidade do patrimônio genético vemos que está expressa no inciso II do referido art.225 constitucional,
observando a existência da Lei 8.974, de 5/01/95 (Lei da Biossegurança), que regulamenta os incisos II e V do parágrafo 1º do
citado artigo, estabelecendo normas de segurança, fiscalização e comercialização etc. Há ainda a Lei nº 9.456, de 28/04/97 (Lei de
Cultivares) que disciplina o direito de propriedade sobre a multiplicação e produção de cultivares e sementes de vegetais.
Portanto, a biodiversidade com os seus elementos e componentes integra assim o meio ambiente, de forma que se constitui em um
bem de uso comum do povo, conforme o art.225 da Constituição Federal brasileira, devendo ser protegida e fiscalizada por todos.
Dessa maneira, a Lei 7.347/85 que disciplina a ação civil pública de responsabilidade por danos causados ao meio ambiente,
possibilita, entre outros, sejam impedidos também atos degradatórios à biodiversidade. Por esta lei está capacitado o Ministério
Público e as demais pessoas jurídicas elencadas em seu art.5º a defender o processo de bioprospecção, uma vez que este trata de
exploração de elementos da biodiversidade que possuem caráter difuso, como visto.
V &     
O "conhecimento tradicional" constitui-se de práticas, conhecimentos empíricos e costumes passados de pais para filhos e crenças
das comunidades tradicionais que vivem em contato direto com a natureza; ou seja é o resultado de um processo cumulativo,
informal e de longo tempo de formação.
Constitui-se, assim, patrimônio comum do grupo social e tem caráter difuso, pois não pertence a este ou aquele indivíduo mas toda a
comunidade, de maneira que toda a comunidade envolvida deve receber os benefícios de sua exploração. Porém, não é dessa
maneira que tem sido explorada esta riqueza comunitária através da bioprospecção.
Muitos destes recursos acabam sendo obtidos através da exploração justamente dos conhecimentos tradicionais, os quais servem
como indicadores de material apropriado à pesquisa, encurtando a procura dos pesquisadores.
Todavia este método ou processo deve observar princípios para que tenha credibilidade científica, política e econômica,
notadamente no que diz respeito aos destinos dos benefícios auferidos, notadamente o princípio da equidade distributiva, que é
aquele pelo qual os benefícios devem ser partilhados a todos os que participam, principalmente o país proprietário da biodiversidade
explorada, o princípio da participação pública o qual garante a participação mais ampla possível da população envolvida em todos
os seus segmentos e o princípio da compensação pelo qual a comunidade fornecedora da matéria prima ou do conhecimento deve
receber compensações em dinheiro ou em bens.
Ademais, a Convenção sobre a Diversidade Biológica, aprovada pelo Decreto Legislativo nº2,de 1994, traz em seu Preâmbulo, entre
outras coisas, que as Partes Contratantes devem reconhecer a estreita e tradicional dependência de recursos biológicos de muitas
comunidades locais e populações indígenas com estilo de vida tradicionais, e que é desejável repartir equitativamente os benefícios
da utilização do conhecimento tradicional. Ou seja, as comunidades locais (ribeirinhos, seringueiros etc) e as populações indígenas
que fornecerem seus "conhecimentos tradicionais" relevantes para a conservação e exploração da biodiversidade devem receber
benefícios, os quais devem ser distribuídos equitativamente.
Isto nos leva a concluir que como aderente da citada Convenção, o país que tiver acesso a exploração dos elementos de nossa
biodiversidade através da utilização do "conhecimento tradicional" destas comunidades tradicionais e dos povos indígenas, deve
proceder a bioprospecção observando os princípios supra elencados, em especial o princípio da repartição de benefícios, o que
deverá estar inclusive previsto em lei.
É importante lembrar ainda que a Convenção sobre Diversidade Biológica determina que os países contratantes criem mecanismos
de proteção e acesso aos recursos genéticos, o que está sendo tentado através de projetos que estão no Congresso Nacional, que
deverão dispor sobre o controle ao acesso e esses recursos, importante para a proteção de nosso esplendido patrimônio ambiental e
em especial o "conhecimento tradicional" de nossos indígenas e comunidades tradicionais.
(   
Sem a preservação da biodiversidade e um processo consciente e sustentável de bioprospecção, não haverá garantia de
sobrevivência da grande maioria das espécies de animais e vegetais, ante a interdependência, e sem ela a humanidade perderá fontes
vitais de recursos para a sua sustentação, de forma que devemos desenvolver métodos e ações concretas para a sua preservação.
Então o que fazer para isto?
Respondendo cientificamente estas questões o Museu de História Natural de Nova York inaugurou o Hall da Biodiversidade, fruto
de estudos de anos e investimentos de milhões de dólares, o qual traz as últimas informações e conclusões científicas sobre o tema.
A exposição apresenta os principais ecossistemas do globo com representantes de sua fauna apresentados em painéis riquíssimos
com informações científicas de altíssimo nível técnico ao mesmo tempo que de fácil acesso ao público em geral, onde as ameaças à
vida na Terra pela exploração excessiva dos recursos naturais também são mostradas. Uma impressionante tecnologia
computadorizada coloca a disposição do visitante maiores detalhes sobre o que se expõe.
Só para se ter uma idéia da exuberância dos trabalhos apresentados, a vitrine denominada "Espectro da vida" expõe uma variedade
enorme das espécies animais ± 1.500, representando os grupos desde micróbios a mamíferos em nove ecossistemas principais da
Terra.
A exposição inclui também o impressionante diorama representando a floresta tropical de Dzanga-Sangha, uma reserva na
República Central da África, que segundo consta do folheto informativo é o maior diorama do mundo. Com 2,500 pés de área
emprega um sistema de alta tecnologia de imagens e sons reproduzindo o comportamento de animais movendo-se assim como os
efeitos de iluminação mostram as diferentes horas do dia na floresta. Toda a vegetação foi reproduzida detalhadamente folha por
folha, galho por galho, dando impressão de se tratar de uma floresta verdadeira, aliás há inclusive a sensação de umidade, calor e
cheiro.
Há ainda acesso por computadores ao BioBulletin com informações sobre eventos mundiais sobre biodiversidade e explanação
sobre os processos de extinção das espécies. O painel "Resource Center" mostra as desastrosas atividades humanas, assim como as
formas, métodos, diretrizes e caminhos para se tentar evitar a degradação da biodiversidade.
Em suma, a humanidade percebendo as consequências danosas de suas ações e conhecendo a importância da biodiversidade para o
futuro da vida, começa uma caminhada contra o tempo e exposições como o Hall da Biodiversidade do Museu Americano de
História Natural, que revelam o esplendor da diversidade da Terra e como preservá-la, devem ser divulgadas e principalmente
visitadas para que possamos realmente refletir sobre o nosso futuro e das demais formas de vida do nosso belo planeta azul, sem
sombra de dúvidas "a última Arca de Noé".
V 

Ante o exposto, podemos concluir que a biodiversidade representa um patrimônio imensurável e que a bioprospecção como forma e
processo de conhecimento e exploração da vida no nosso planeta Terra é importantíssima e se caracteriza como um dos
acontecimentos sócio-científico-econômico mais evoluídos e essenciais dos últimos séculos. Além disso, poderá trazer inúmeras
vantagens como, por exemplo: propiciar o conhecimento da biodiversidade e seu potencial; fornecer substâncias importantes ao
homem; favorecer o crescimento econômico; tornar-se um fator gerador de empregos; proporcionar fundo para a conservação; gerar
impostos; melhorar o nível científico do país e também o nível de vida no planeta com a utilização correta dos recursos naturais.
Portanto, devemos nos esforçarmos para que esta nova forma de utilização dos bens naturais percorra o caminho correto, sob pena
de se tornar um caminho sem volta com drásticas conseqüências para todos os seres vivos e principalmente para o ser humano, o
qual depende primordialmente da diversidade de vidas para sobreviver.
Nos caminhos do desenvolvimento sustentável preconizado principalmente após a Conferência da ONU sobre Meio Ambiente e
Desenvolvimento, a Rio-92, como a mais evoluída forma de utilização dos recursos da terra para o desenvolvimento humano, a
bioprospecção passou a ser fundamental ante a sua ampla esfera de atuação, como demonstrado.
Ademais, não podemos esquecer que a biodiversidade que é a causa e alicerça a bioprospecção não forma um recurso sem dono, ao
contrário pertence ao país onde existe e é de uso comum do povo, sendo assim considerado como um bem de caráter difuso, isto é
de cada um e consequentemente de todos, de forma que deve ser defendido por todos, principalmente através da ação civil pública.
Caso não consigamos explorar nossos recursos naturais, quer renováveis ou não, de forma sustentável, em breve estará exaurido
todo o potencial utilizável da Terra, o que comprometerá o futuro da vida.
Como sabiamente escrito por Wilson (1994) "só será possível salvar a diversidade biológica através de uma hábil mistura de ci ência,
investimento de capital e política governamentais... " . Ao que acrescentamos os aspectos jurídicos, como dito. Entretanto, para que
isto aconteça é primordial a participação de todos no processo de conhecimento e exploração de nossa esplêndida biodiversidade.

29 ± PERFIL DO POLÍTICO BRASILEIRO

Político não tem cara. Mesmo assim, facilmente pode-se traçar um perfil escrachado deste tipinho público. Na verdade são vários
tipinhos. Tendências diversas, facções opostas, vertentes diferentes... mas são todos políticos. É claro, existem os civilizados e os
não civilizados. Os do primeiro mundo são calhordas profissionalíssimos; os do terceiro, apenas calhordas. Falta-lhes charme.
Quando estouram escândalos de políticos brasileiros, descobre-se que a tramóia rendeu-lhes apenas um carro novo e uma ridícula
casinha de praia, daquelas com caminhas de armar e cheia de borrachudos. Entre os civilizados é diferente. A cada escândalo é
arrematado metade do Golfo Pérsico, parte da América Latina e uns dois ou três bancos na Suíça. Em se tratando de escândalos
sexuais a humilhação continua. Nossos políticos atacam camareiras de hotéis, quando em campanha pelo interior; já nos Estados
Unidos, pegando um exemplo recente, escândalo sexual é de top-model pra cima. Coisa de milhões de dólares. Muito mais que meia
dúzia de verbas de merenda escolar desviadas. É triste, também acho. Político brasileiro não se dá ao respeito. Nos países sérios,
senador tem status de Santo Papa. Todo mundo beija a mão. No Brasil, nécas. A molecada atira pedra, a esposa não olha na cara,
ninguém deixa fiado e fatalmente os cachorros mijam em seu sapato. Moral baixíssima. Político é esta baba. Tanto de esquerda
quanto de direita. As diferenças estão apenas nos trejeitos, nas feições das facções. Dentro da esquerda os tipos são muitos. Tem os
que usam barbinha, os que optaram só pelo bigodinho e também aqueles que se apóiam nos óclinhos. Porém, nçao podemos
esquecer dos mais liberais. Aqueles abertos às várias tendências, que assimilam tanto barbinha, quanto bigodinho, o óclinhos e, às
vezes, arriscam até um charutinho. No caso dos carecas, ostentam uma vasta barba só para compensar. Posam diante das câmeras de
TV com ar professoral e pinta de quem está ali apenas por uma causa maior. Depois de cumprirem o mandato, voltam a dar aulinh as
no cursinho e tudo bem. E a velharia radical? Não poderia ficar de fora. Lutam há anos para que nossa juventude, no futuro, faça a
mesma revolução russa de 1917 aqui no Brasil, para desespero de todos. É a marcha do proletariado. Meia volta volver. Agora
convenhamos, se político de esquerda é esquisito, o que se pode dizer dos de direita? Têm o rosto de sua ideologia. Traços que na
certa fariam Lombroso se esporrar de alegria, se é que besta esporra. O corte de cabelo da direita ortodoxa, por exemplo, ger almente
é militar, tipo escovinha, pois para eles a caserna é um verdadeiro fetiche, que funciona muito mais que um conjunto de lingerie.
Eles aparam o bigode, têm sombrancelhas curtas e grossas e jamais olham nos olhos do eleitor e, quando isso acontece é pra
fulminar. No entanto, a direita tem se mostrado mais empenhada do que sua opositora. Ultimamente nota-se uma certa soltura no
corpo reacionário. Hoje até arrisca um requebrinho nas cadeiras. Surge uma nova geração de direitistas. Não levam jeito para
general, adoram arte de vanguarda e até fazem um new colunismo social. É a direita soft, a direita clean, a yuppie, a progressista... e
tantas outras. Enquanto a esquerda, o máximo que conseguiu foi ser de direita. Tadinha! A respeito do pessoal de centro, prefiro
nem falar. São os eunucos da política brasileira. Não fodem e nem saem de cima. Verdadeiras bostas n'água indo conforme a
correnteza. Ao contrário do que afirmam, a mais antiga das profissões não é a de publicitário, e sim a de político. Ficando a
prostituição em terceiro lugar. A publicidade nasceu pra divulgar a política. Mas a coisa deu certo, ampliaram os negócios e
começaram a trabalhar com katchup, sabão-em-pó, lingüiça e salgadinhos em geral. Alguns leitores podem achar minhas
observações um tanto vomitadas. Ora, se há vômito, há indigestão. talvez eu tenha engolido muito sapo nestes muitos anos. Assim,
fica difícil traçar um perfil profundo e analítico do político brasileiro. Isso nem é coisa para mim. É função para jornalist as. Estes
sim levam a sério os deputados e senadores. Aliás, jornalista também é um caso a parte. Merece seu próprio perfil. Em início de
carreira, posa de salvador da pátria, aquele que fará tremer as bases do poder. Depois, com o passar das carruagens, torna-se assessor
de imprensa deste mesmo poder. Não salvou a pátria mas livrou o dele. Portanto, não há mais saliva pra gastar. O pouco que sobrou
guardarei para algo mais excitante. Política não causa mais tesão. Pode vir um monte de mulheres nuas gritando "Diretas, Já!",
"Liberdade Democrática" ou "Dólares para Todos" que não adianta. Me recuso a ficar de pau duro pois fumo dois maços de cigarros
por dia e não tenho mais fôlego pra me entusiasmar com conversa de político. Sou da época da campanha "Ouro Para o Bem do
Brasil", passei pelos tempos do "Pra Frente, Brasil. Salve a Seleção", "Diga Não à Inflação" e vim desembocar bem aqui no meio da
Nova República, com os ouvidos molhados pelas babas dos políticos. Haja cotonete! Sarney diz que irá derrotar o monstro do
autoritarismo que, na realidade, ele ajudou a amamentar. Sinto que estão querendo me embromar com esse papo de transição.
Cascata! Ando tão cético com relação a este país que só tenho a dizer: Muda, Brasil ou vá pra puta que te pariu! (Angeli)

30 ± VOTO: DEVER CÍVICO OU O BRIGAÇÃO?

Num artigo anterior, afirmamos que não somos um povo livre e nos propusemos a demonstrar, com vários exemplos, a veracidade
dessa proposição. Nosso primeiro argumento-exemplo é a inexistência de liberdade de voto.
Historicamente, o voto é uma obrigação legal desde o Código Eleitoral de 1932, quando foi incluído no bojo de um pacote de
medidas (sempre!), que incluía a criação da Justiça Eleitoral, no intuito de superar a crise de ilegitimidade da República Velha.
Curiosamente, três anos depois, em 1937, as eleições democráticas foram suspensas . . . Hoje, de acordo com os incisos I e II, do §
1º, do art. 14 da Constituição Federal, o voto é obrigatório para os brasileiros maiores de 18 e menores de 70 anos. Em outras
palavras, no Brasil, o mais significante ato da vida cívica do cidadão não é um direito, mas uma obrigação.
De início, é necessário frisar algo óbvio, mas comumente ignorado. Do ponto de vista lógico-teórico, não há como compatibilizar a
existência do voto-obrigação com a noção de liberdade. O próprio conceito de obrigação legal implica necessariamente na redução
da esfera de liberdade do indivíduo. Dada a violação, haverá sanção. Por isso, se o cidadão é obrigado a votar, conseqüentemente,
não é livre. Não que seja impossível levantar argumentos a favor da obrigação de votar, tão-somente estamos frisando que tais
argumentos seriam fundamentos para a restrição à liberdade, mas ± ainda que válidos e suficientes ± manteriam intacto o fato de a
liberdade do cidadão estar sendo
 restringida.
Provar que no Brasil não gozamos da liberdade de votar (que inclui a liberdade de não votar) é, portanto, tarefa relativamente
simples. Em nosso País de tradição autoritária, as coisas funcionam da seguinte forma: as pessoas devem ser livres, ainda que
obrigadas! Não obstante, apenas afirmar que não somos livres não basta. Em um sistema de ponderação de direitos fundamentais
devemos indagar se os argumentos oferecidos em prol da restrição à liberdade de voto são válidos e suficientes.
O grande obstáculo ao voto obrigatório está no parágrafo único do art. 1º da Constituição. Se todo o poder emana do povo, o povo é
soberano. Se o povo de um país é composto por seus cidadãos, os cidadãos são soberanos. Se os cidadãos são soberanos, por que
não podem decidir não participar diretamente de determinado processo político?
A esta pergunta incômoda os defensores do voto obrigatório costumam oferecer os seguintes argumentos: (i) o voto é um poder-
dever; (ii) o voto obrigatório é tradição latino-americana; (iii) o povo brasileiro é ignorante e precisa ser treinado a votar para dar
valor ao voto; (iv) o exercício da cidadania, ainda que obrigatória, educa; (v) atual estágio da democracia brasileira não permite a
adoção de voto facultativo; (vi) o voto facultativo levaria a um déficit inaceitável de legitimação do processo político; e (vii) o voto
obrigatório representa um pequeno ônus aos cidadãos quando comparado a seus benefícios legitimadores.
O primeiro argumento, de que o voto é um poder-dever, obviamente, não é válido. Atualmente, o voto é um dever por que assim
determina a Constituição, mas a recíproca não é verdadeira. O voto poderia ser facultativo, basta uma emenda à Constituição. A
natureza obrigatória oufacultativa do voto, como de resto quase tudo em Direito, é uma opção política, não uma questão ontológica.
O segundo argumento, de que o voto obrigatório é tradição latino-americana, também não é válido. O voto obrigatório foi criado há
pouco mais de 70 anos, na década de 30 e não esteve presente em toda a história republicana. Quando combinamos este dado com o
fato histórico de termos vivido a maior parte desse período sob regimes antidemocráticos, chegamos à conclusão de que é no
mínimo questionável dizer que essa obrigação é uma tradição. O voto livre não é uma tradição no Brasil porque votar não é uma
tradição no Brasil.
De qualquer forma, do ponto de vista lógico, não é o fato de algo ser feito tradicionalmente que o torna pior ou melhor enquanto
opção. A corrupção e a falcatrua também são tradições endêmicas na vida política brasileira; essa tradição torna a defesa da
impunidade mais forte teoricamente? É claro que não. Assim, o argumento de tradição não deve ser considerado válido para efeitos
dessa discussão.
Os argumentos (iii) e (iv) podem ser resumidos da seguinte forma: o povo é ignorante e, por isso, não votará; sendo adequado que o
Estado tutele o cidadão ignorante. Ora, este tipo de argumento é claramente paternalista e autoritário. Ele pressupõe que o povo
brasileiro, mesmo depois de todas as modificações a que se submeteu nos últimos 40 anos, é completamente incapaz de
compreender a importância do voto. Este argumento apresenta falhas graves.
Primeiro, assumindo a premissa equivocada de que o cidadão é ignorante, não é o simples fato de ele ser obrigado a votar que o
educará. Se ele não compreende o valor do voto livre, também não será capaz de compreender o seu valor votando
compulsoriamente. Na realidade, a prática indica (pois não há um estudo empírico) que o ignorante passa a encarar o voto como um
peso, um dever, uma sujeição ao Estado, não como o momento supremo em que ele ordena ao Estado que o sirva. O voto
obrigatório ensina sim, mas ensina que o cidadão está abaixo do Estado e não o contrário, como deveria ser. O valor pedagógico da
obrigatoriedade para a relação servo-senhor é, portanto, de sinal trocado.
Segundo, os propositores desse tipo de argumentação não costumam estar dispostos a levá-la às últimas conseqüências. Se o eleitor
é ignorante e não sabe votar, significa que ele é publicamente incapaz. Logo, ao invés de forçado, o cidadão deveria ser proibido de
votar, pois estaríamos considerando a opinião de uma pessoa considerada
 incapaz de compreender as conseqüências de seus
atos (ignorante). O  1 7    6  seria assim uma ameaça ao bem da nação. Obviamente, este tipo de posição resulta na
obrigatoriedade do oferecimento de um critério para distinguir entre quem é e quem não é ignorante, exercício a que nenhum
defensor dessa posição parece disposto a se submeter.
Este tipo de argumentação pode parecer incomum, mas a experiência em sala de aula demonstra que mesmo juristas de alta
qualificação (e.g., alunos de mestrado) caem na tentação de adotá-la. Além de revelar uma desconfiança das classes formalmente
educadas em relação às classes iletradas, tal postura confunde o papel do Estado. Este é servo do cidadão, existe apenas enquanto
mecanismo de satisfação das necessidades coletivas, e não "pai do povo", que deve lhe dizer o que é certo ou errado até alcançar a
maioridade mental. O voto deve ser a expressão máxima da soberania popular e da responsabilidade de cada cidadão para consigo e
para com a coletividade, não uma lição pregada pelo suposto servo, mesmo porque, em uma sociedade plúrima de mais de 180
milhões de integrantes, a divergência tende a superar a convergência.
Os argumentos (v) e (vi) também podem ser analisados coletivamente, pois assumem a ausência de votação maciça
(independentemente de sua qualidade) como elemento ameaçador à democracia brasileira por déficit de legitimidade.
Se essa é a função do voto obrigatório, devemos informar que a história demonstra o fracasso miserável deste mecanismo jurídico.
Primeiro, desde 1932 já sofremos vários golpes políticos e vivemos períodos antidemocráticos, nenhum deles evitado ou coibido
pelo voto obrigatório. Segundo, a ficção do déficit de legitimação decorrente do voto facultativo pressupõe (i) a associação do voto
obrigatório a mais votos; e (ii) o desprezo da abstenção como escolha política.
De acordo com os dados disponibilizados pelo TSE, nas eleições de 2002 para Presidente, o percentual de não-escolha (incluindo
abstenção, votos brancos e nulos) foi de 28,13% no primeiro turno e 26,47% no segundo. Em outras palavras, mesmo obrigado,
aproximadamente 1 em cada 3 brasileiros não quis escolher o Presidente. Já para Senador Federal e Deputado Estadual, esse
percentual sobe para 36,68% e 36,05%, isto é, quase 2 em cada 5 brasileiros não quiseram participar do processo eleitoral. Se o voto
fosse facultativo, esses cidadãos não votariam da mesma forma e não há evidência empírica a demonstrar provável alteração
substancial nos votos emitidos. Ao contrário, é de se supor que caso o eleitor se dispusesse a votar autonomamente, seria por o voto
lhe ser mais valioso.
Por outro lado, ao contrário do sugerido, o não-comparecimento às eleições, assim como o voto branco ou nulo, representam uma
escolha política como qualquer outra. Não votar pode alterar o resultado final e, dessa forma, é participar do processo.
Por fim, a argumentação de que o voto obrigatório representa um pequeno ônus aos cidadãos quando comparado a seus benefícios
legitimadores do mesmo modo não merece melhor guarida. Este argumento também supõe que a obrigatoriedade do voto produz
alguma vantagem em termos de legitimidade, quando a realidade demonstra o exato oposto. Primeiro, como visto, mais de um terço
da população, mesmo obrigada, não vota. Segundo, dos votos válidos, não se sabe quantos foram emitidos livremente e quantos
foram emitidos (aleatoriamente ou não) apenas para satisfazer uma obrigação legal autoritária. Quão legítima é essa votação em
comparação a um resultado decorrente da livre expressão de seus cidadãos? A obrigatoriedade mascara em parte uma questão mais
profunda e inquietante, qual seja, quanto o brasileiro atribui de legitimidade ao processo político como um todo.
É uma falácia afirmar que a perda de liberdade é um pequeno ônus. O cidadão obrigado a votar não atribui a este exercício
um dever cívico, mas uma obrigação a ser cumprida. Seu efeito pedagógico é transformar um ato de soberania em ato de submissão.
Ademais, a regra em nosso sistema constitucional é a liberdade, sendo a sua restrição circunscrita a casos excepcionais. Qualquer
restrição ao direito fundamental de liberdade é relevante e prejudicial. Sem uma justificativa robusta e carente de substitutivos, esse
direito fundamental não poderia ser limitado.
Em conclusão poderíamos ainda apresentar uma série de argumentos a favor da liberdade de voto, mas cremos que estes bastam
param demonstrar cabalmente o viés autoritário que domina o cenário político-jurídico no Brasil. Dizemos que somos livres,
queremos ser livres, mas não temos a audácia de encarar as conseqüências de sermos livres. Nossa liberdade não implica em
responsabilidade. Nossa liberdade não implica em aceitarmos o diferente. Nossa liberdade é vigiada, limitada pelo Grande Irmão
que mais se assemelha ao Grande Pai. Quem sabe quando seremos maduros politicamente para, então, nos libertarmos? Seja o leitor
a favor ou contra o voto obrigatório, não poderá ele alegar que, em questão de voto, somos livres (c.q.d.).

31 ± SOLDADOS RECEM FORMADOS NO CFAP DIRETAMENTE ALOCADOS NAS UPPs? POR QUE?

Garantir o funcionamento da creche no alto da favela Dona Marta, zona sul do Rio, foi o pontapé inicial involuntário para a
principal bandeira da política de segurança do Rio. No ano e meio seguinte, a pacificação de favelas ganhou metodologia e fama.
Mas, ao mesmo tempo em que as UPPs (Unidades de Polícia Pacificadora) já contam com mais policiais do que bairros vizinhos, a
Secretaria de Segurança busca conter a euforia e limitar o poder de alcance do projeto. A ocupação inaugurou nova fase em abril.
Avança sobre conjuntos de favelas na Tijuca (zona norte) e expõe novos pesos da balança do policiamento do Rio. As seis UPPs que
a secretaria pretende instalar em favelas da Tijuca e bairros vizinhos vão absorver 1.720 soldados recém-formados (regra para
trabalhar na unidade), resultando em 26 PMs para cada mil habitantes. Isso supera o efetivo de 1.424 agentes à disposição dos dois
batalhões "do asfalto", onde a taxa é de 1,5 PM para mil moradores. Na zona sul, a balança também pende para o programa. Nas três
unidades que atendem às seis favelas de Copacabana e Leme há 404 policiais; no policiamento dos dois bairros, são 381. A
secretaria diz ter optado por um cenário "pessimista" para "garantir territorialmente a ocupação do espaço público". Vai rever o
efetivo das UPPs a cada três anos. O governo agora tenta conter o otimismo exagerado após o fim do controle criminoso em 15 das
mais de 900 favelas. No mês passado, a secretaria reuniu a cúpula da polícia para harmonizar conceitos sobre UPPs. "UPP não é
solução para tudo. O objetivo é tirar a arma de guerra. Reduzir o tráfico é consequência. Com policiamento [na favela], posso fazer
prevenção e investigação", diz o secretário José Mariano Beltrame. "Bocas de fumos ostensivas acabam. Mas a venda de droga
sempre vai existir enquanto houver consumo", afirma Roberto Alzir, superintendente de Planejamento Operacional da pasta A
ocupação da pequena favela Dona Marta, em dezembro de 2008, foi feita a pedido do governador Sérgio Cabral (PMDB). Ele queria
que uma creche, construída dois anos antes, pudesse finalmente funcionar. Na Cidade de Deus, favela com mais de 40 mil pessoas, a
ocupação foi iniciativa do comandante na área. Após o sucesso das ações, a pasta decidiu abraçar num só programa a pacificação de
favelas. Apontou como destino 92 áreas da região metropolitana -47 prioritárias, que vão demandar 12.500 PMs, aumento de 29%
do efetivo atual de 38 mil homens.
A massagista Fátima Martins, 50, saiu ansiosa de seu barraco, no pacificado morro da Babilônia, zona sul do Rio, ao ouvir os
cliques da câmera fotográfica da Folha."Estão procurando casas em área de risco? Vocês são do PAC [Programa de Aceleração do
Crescimento]?"Nascida e criada na região, Fátima aguarda obras na favela há cinco décadas. Quase um ano após a instalação da
Unidade Pacificadora, ela não aguenta mais esperar."Com a chegada da polícia, a comunidade ficou muito mais tranquila. Mas
vemos obras em vários lugares e aqui ainda não chegou."Agora, o que se vê no Babilônia são crianças brincando e moradores
subindo e descendo. "Na época antiga, eles não mexiam com a gente. Mas não ficava tranquila com os meninos andando e vendo
fuzil e granadas", diz Cristina Chagas, 27.Hoje as crianças jogam futebol sob a vista de policiais militares, que portam pistolas
escondidas no coldre.Mas a mudança na comunidade não satisfez totalmente os moradores, que agora aguardam obras de
urbanização."Só quando todas as casas caírem em cima das crianças eles vão fazer algo", reclama Isabela de Paula, 21.
Secretário de Segurança quer ocupar 47 áreas hoje sob o controle do tráfico, inclusive o Complexo do Alemão. Para ele, armas,
drogas, munição, caça-níqueis, milícias e corrupção policial são delitos que levaram desgraça ao Rio .
Sob o comando do gaúcho José Mariano Beltrame, 53, a Secretaria de Segurança do Rio revive a esperança de recuperar favelas
controladas por criminosos e assiste à queda nas taxas de homicídios. Mas a polícia superou todas as estatísticas de mortos em
supostos confrontos.Sua receita para as UPPs mescla planejamento, trabalho de inteligência e enfraquecimento das quadrilhas.
"Mas, se tivermos que repetir a dose no Complexo do Alemão [onde 19 supostos traficantes foram mortos em 2007], nós vamos.
Podemos ir e não pacificar", disse.Beltrame planeja ocupar 47 áreas hoje sob controle do tráfico até 2014, inclusive o Complexo do
Alemão, aglomerado de 13 favelas apontado como o "quartel-general" do Comando Vermelho.
þ)
  *
 
 
 
 
     
+3 ! ,

 ( 
 - O Bope não entra mais [na favela] rumo a um
determinado lugar, à casa tal, endereço tal. Ele entra capilarizando.Entrando assim, o tráfico entende que os policiais vieram para
ficar. Isso faz as pessoas fugirem.

   
 
  

  
   % þ


 
-
+Faltou planejamento para quase tudo. Não havia
nenhum plano para ocupação dessas ilhas.
? 
-
  
 .    
 %%%Demorou. As pessoas e os políticos querem respostas rápidas... Querem chegar e
acender a luz. Não sabem que tem que furar a parede, passar o fio...
þ


  
 



 
$ +Foram determinações minhas. A gente tem que combater arma, droga, munição,
máquina caça-níquel, corrupção policial e milícia, seis delitos que trouxeram a desgraça para o Rio.
/  
!  
.+É consequência. A UPP não é solução para tudo. "Ah, mas o tráfico vai permanecer".
Mas, se tiver policiamento, posso fazer prevenção e investigação.
  

  

  


    



* 0   %Será que esses caras têm esse
poderio? Não trabalham em escala, não têm reposição, treinamento, são dotados de uma total irresponsabilidade. Não vejo um
poder.Quando você vê uma pessoa com um fuzil na mão achincalhando a sociedade, choca a todos nós. Mas hoje, no Rio, não tem
lugar em que a polícia não entre.
,
   
 
 


%* % 
+Não sairemos de mil mortos para zero. Aqui tudo é
muito denso. Ao andar naquelas vielas, os fuzis quase se encontram. Em outros locais, a polícia tem facilidade para progredir . Aqui
há barricadas, óleo na pista. Mas os números vêm caindo.
*



.
 
+Até agora está afastado. Temos uma supervisão forte, a sociedade começa a conhecer as
pessoas e há um upgrade financeiro [os PMs recebem bônus de R$ 500 ao salário de R$ 1.000].Os policiais [recém-formados] vão
sem vícios. Saem da academia pensando: "Vou fazer um trabalho de polícia. Não sou um combatente".O policial do Rio é o mais
estressado do mundo. Ele está na rua, daqui a pouco o chamam para ir ao São Carlos [favela sob controle do tráfico]. Ele vai sair
daqui, vai se travestir de guerreiro e vai lá atirar, matar, se ferir. Volta e pega a saída do colégio. O policial da UPP não vive isso.

32 ± PORTA-VOZ DA CORPORAÇÃO (ATRIBUIÇÕES E DESAFIOS)

33 ± OFICIAL PM COM MANDATO LEGISLATIVO. BENEFÍCIOS À CORPORAÇÃO?

34 ± PENA DE MORTE NO BRASIL. CONTRA OU A FAVOR?

O simplismo de considerar a defesa dos direitos humanos a defesa de direitos de criminosos tem de ser desmascarado. Aqueles que
defendemos o direito à vida de todos, de todos sem exceção, não podemos ser confundidos com criminosos ou defensores de suas
posturas. O que almejamos mesmo é o fim da barbárie e do ódio.
O Estado brasileiro falha diante de seus cidadãos, do berço à sepultura. Más condições de educação e saúde, de moradia, de
sobrevida material mesmo, acabam por reduzir o ser humano à situação desesperadora de louco desviante em muitos casos. Há
muita gente desesperada por providenciar sua sobrevivência e a dos seus, ainda que para isso tenha de romper com as normas sociais
vigentes. Se o Estado brasileiro é o maior responsável pela elevação no índice de criminalidade, particularmente tendo em vista a
brutal e dificilmente equiparável, em escala planetária, concentração de renda, o Estado brasileiro carece de condições morais para
dizer "quem tem o direito à vida (assegurado na Constituição, por sinal) e quem, por seus crimes, deve ser apenado com a perda
deste direito humano básico", até porque o juízo humano é falho, a pena-de-morte é uma punição evidentemente irreversível e o
"exemplo" deve vir sempre de cima, jamais dos desesperados. Montar uma fábrica de desesperados e, para "solucionar", montar
uma máquina de extermínio de desesperados não me parece racional. É coisa parecida à "Solução Final" dos nazistas...
Como o neocolonialismo nos colocou sob a órbita de influência dos EUA, muitos apreciam citar aquela Nação como exemplo a
ser seguido. Na esfera dos direitos humanos há muito pouco a aprender com os ianques. Os EUA são a única Nação do primeiro
mundo em que este crime medieval é praticado, quando o Estado mata, com o beneplácito do aparelho judiciário. Mas a justiça
norte-americana tem se equivocado em diversos casos de apenamento com a morte. Alguém poderia contra-argumentar que o
aparelho judiciário brasileiro seria superior e não cometeria falhas. Será? Somos todos humanos, sujeitos a falhas, portanto.
Segundo a Seção Brasileira da Anistia Internacional, as argumentações contra a pena de morte podem seguir a seguinte direção:
1 - Economia: como se a vida humana pudesse ter um preço, os defensores do assassinato estatal institucionalizado, quando o
Estado mata ao invés de promover a vida, "informam" que matar um suposto autor de "crime hediondo" é mais barato que mantê-lo,
por exemplo, aprisionado por toda a vida. Falso. As custas de processos, cárcere protegido especial (para evitar linchamentos),
apelações, vigias, sacerdotes, maquinário e carrascos custam três vezes mais que um aprisionamento perpétuo do cidadão a ser
assassinado, por exemplo. Embora esteja bem claro que a prisão perpétua seja medida mais econômica que a condenação capital,
temos de pensar em algo mais humano ainda: a implantação de colônias penais agrícolas, onde o detento poderia custear seu próprio
sustento, sem onerar os cofres públicos, os contribuintes e, além do mais, trazer o ressarcimento econômico aos seus erros para c om
a sociedade. Estaria, e isso é o mais importante, vivo para que eventuais erros judiciários fossem reparados. Grupos de exter mínio,
claro, não sujeitos a todas estas formalidades, não são onerosos, nem eficientes, nem eticamente dignos de consideração numa
análise séria como esta pretende ser.
2 - Intimidação: Há quem creia que, num Estado onde exista a pena capital, o assassinato institucionalizado, o eventual criminoso
tenda a "pensar duas vezes" antes de cometer delito hediondo. Antes de mais nada, os fatos apontam na direção contrária: onde a
pena de morte é praticada os índices de criminalidade são os mais elevados. Especula-se que o eventual criminoso tenda a eliminar
potenciais testemunhas de um delito praticado em momento não refletido de sua vida. Isso, claro, quando o sujeito pára para pensar
na besteira que estaria fazendo, o que é raro acontecer. Crimes hediondos, em geral, são praticados por pessoas em estado de total
descontrole, provisório ou permanente, de suas faculdades mentais.
Vale a pena ressaltar que na França houve uma significativa diminuição nos índices de criminalidade com a abolição da
guilhotina enquanto que no Irã aqueles índices sofreram significativo aumento com a reimplantação da pena de morte após a
revolução islâmica. Especula-se neste caso que as pessoas que vivem numa Nação violenta, competente para matar ou deixar viver,
tendem a seguir-lhe o exemplo...
3 - Vingança: O mais sórdido e menos ético dos argumentos utilizados pelos defensores do assassinato institucionalizado. Descendo
ao nível moral daqueles que qualificam como criminosos, os pregadores da vingança insistem na "Lei de Talião", só possível a não-
cristãos, claro, mas que precisa ser considerada também. Ao invés de ansiar e trabalhar pela elevação dos padrões intelectuais e
morais das pessoas, aqueles que defendem a implantação da pena de morte pregam um retrocesso do Estado ao nível de barbárie em
que se encontram alguns criminosos produzidos, repita-se, por uma ordem social injusta em última análise, desigual e cruel em sua
essência. Vale lembrar aqui as palavras do Mahatma Gandhi: "Um olho por um olho acabará por deixar toda a humanidade cega!" É
vital deter a propagação do Mal, não expandi-la!
4 - Desumanidade: "O que é que merece alguém que comete um crime hediondo (assalto, estupro ou seqüestro com morte)?" ou "O
que é que você faria se algum ente querido seu fosse sordidamente seviciado e assassinado?" Ora bolas, não cabe a ninguém dizer
quem é humano e quem, pelos seus crimes, deixou de o ser e com isso perdeu seus direitos! Os nazistas, a quem a história julgou e
execrou, agiam assim: primeiro tiravam o status de humano de criminosos comuns, depois de criminosos políticos, depois de
pessoas consideradas racialmente inferiores e os iam exterminando a todos. Quanto ao que um homem transtornado por desejos
pessoais de vingança faria é um assunto. Outro assunto é o que o Estado lúcido e ponderado, na figura de seus magistrados deve
fazer.
5 - Banalidade do Mal: O defensor da pena capital, em geral, não se dá conta de seu grau de comprometimento com a medida que
propõe, pensa que, por caber a outros a execução do que propõe já nada mais tem a ver com isso. De novo o modelo nazista: o
Führer não se sentia pessoalmente responsável pelo que acontecia fora de seu gabinete acarpetado onde as penas capitais eram
decretadas, nem seus oficiais por meramente retransmitir ordens dadas, menos ainda os subalternos por cumprir aquelas ordens,
todos burocraticamente distantes uns dos outros. Aqueles que defendem o assassinato institucionalizado no Brasil contemporâneo
não querem comprometer-se, mas é preciso demonstrar, por mais chocante que isto possa parecer que cada vez que alguém comete o
simples ato de erguer a mão para votar a favor da implantação desta excrescência em nossa legislação está sendo cúmplice em
potencial de um assassinato a ser cometido pelo Estado.

35 ± POR QUE AS PENITENCIÁRIAS SÃO CONSIDERADAS ³ESCOLAS DO CRIME´?

Se somente um homem estivesse preso injustamente, já teria valido a pena o esforço, pois além de não haver como mensurar o valor
de um dia de liberdade, estar-se-ia reiterando o apreço da nação à higidez do Estado de Direito´.
Esta foi a declaração do então presidente do Supremo Tribunal Federal de Justiça, ministro Gilmar Ferreira Mendes, lembrando os
mutirões carcerários realizados pelo Conselho Nacional de Justiça que ouvi a população, analisou e corrigiu processos, apurou e
denunciou a violação de direitos humanos de presos no Brasil.
O relatório do Conselho Nacional de Justiça do Brasil sobre a inspeção nos presídios do país foi de tamanha gravidade, ao expor as
entranhas e vísceras do sistema carcerário brasileiro, que o ministro Gilmar Mendes e o corregedor Nacional de Justiça, ministro
Gilson Dipp, comandaram, pessoalmente, o mutirão carcerário nacional.
Em uma corajosa declaração, que mostrou espírito de justiça e responsabilidade social, o próprio superintendente de Polícia
Prisional do Estado do Espírito Santo, delegado Gilson dos Santos Lopes Filho, chegou a dizer, em um programa de televisão, que
20% das pessoas que estavam presas sob a acusação de tráfico de drogas não são traficantes, mas, sim, simples usuários, presos nas
³bocas de fumo´, comprando algum tipo de droga para uso próprio.
A declaração do delegado Gilson Lopes deixa claro a total incompetência (ou conveniência) da polícia para diferenciar um usuário
de um traficante de drogas. Fato que é referendado pelo Ministério Público, através da denúncia de um promotor, certamente
desinteressado em saber se realmente existem provas contra o acusado e se são forjadas ou autênticas.
Nos presídios do Brasil existem hoje 500 mil cumprindo pena ou aguardando julgamento, só que a capacidade física de todo o
sistema carcerário do País comporta, humanamente, apenas a metade dessa população.
Os presídios no Brasil são verdadeiros depósitos de restos humanos, filiais do inferno, universidades do crime, e a sua principal
vítima é a própria sociedade, que acredita e financia o Estado para dar a ela a paz e a segurança social que não existem.
No século passado, em 1935, Sobral Pinto, um advogado católico e anti-comunista, num gesto de surpreendente e singular grande
humana, invocou a Lei de Proteção dos Animais para tirar o líder comunista Luiz Carlos Prestes das garras da polícia do então
ditador Getulio Vargas, que permitiu (ou ordenou) torturas nos presídios do País.
Com 500 mil presos, o Brasil é o quarto País do mundo em população carcerária, perdendo apenas para os Estados Unidos, com 2,2
milhões; China, com 1,6 milhão; e Rússia, com 800 Mil presos. No Brasil, as leis sobre direitos humanos são apenas teóricas, e, se
praticadas, destinam-se às classes sociais privilegiadas e abastadas. Os que não têm privilégios ou não são abastados apodrecem nas
prisões como restos humanos.
Dessa forma, um condenado por homicídio, por exemplo, fica misturado com condenados por diversos outros tipos de delitos, e,
quando posto em liberdade, está qualificado e capacitado para a prática dos mais diversos tipos de crimes que a mente humana poder
conceber.
O Brasil é um sofisticado exemplo de como combater o crime pelo próprio crime. Respeitadas as devidas e honrosas exceções,
camuflados dentro dos organismos responsáveis pela prisão de suspeitos e guarda de presos no Brasil (policial militar, policial civil
e agente penitenciário) estão verdadeiros ³cânceres sociais´.
As prisões e o tratamento dado aos presos no Brasil são de tal forma degradantes e desumanos que, em ao invés de recuperá-los para
o convívio social, transforma-os em monstros revoltados em busca de vingança, tão logo saiam dos presídios. O Brasil não vai
resolver a questão da violência enquanto continuar tratando os infratores da lei como animais.
Um inocente que tenha sido preso por erro policial ou judicial, por exemplo, após cumprir a injusta pena a ele imposta, sairá da
cadeia pior que entrou, em busca de uma vingança brutal e desenfreada, não contra os responsáveis pelo erro, mas, sim, contra toda
a sociedade.
Isso se deve à falta de triagem nos presídios e de responsabilidade e justiça social das autoridades que ocupam cargos e funções no
âmbito do sistema carcerário do País, fato que tem levado condenados por pequenos e leves delitos ao convívio durante anos com
ferozes criminosos praticantes de vários outros tipos de delitos.
A criminalidade no Brasil jamais será reduzida se não houver um novo e eficiente modelo carcerário que objetive a verdadeira
recuperação social do preso. A própria arquitetura dos presídios, com suas jaulas imundas, os maus tratos físicos, mentais e morais
aos presos, é um singular exemplo do desprezo pela condição humana.
No sistema carcerário brasileiro está cínica e criminosamente estampado que, ao concebê-lo, não se levou em conta que o preso, por
maior e mais grave que tenha sido o seu crime, é um ser humano, e como tal tem o direito de ser tratado.
Em diversos estados, entre eles se destacam o Espírito Santo, Paraná e Santa Catarina, os presos, condenados ou não, são jogados
em depósitos de restos humanos, em condições degradantes, até mesmo para animais. As celas são caixas metálicas, tipo
contêineres, sem janelas e sem ventilação, criminosamente inadequadas para a sobrevivência humana.
A simples existência de jaulas metálicas já é um delito hediondo, inominável, por parte do Estado que tem o dever de zelar pela
integridade e dignidade de quem está sob a sua custódia e guarda. O Conselho Federal da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB)
disse que as prisões do Espírito Santo são um crime de lesa humanidade.
Em 2009, um dos mais importantes jornais do País, estampou manchete de capa, afirmando que ³Presos vivem como animais no
Espírito Santo´. Através de inspeção feita nos presídios do Estado, o Conselho Nacional de Justiça constatou superlotação,
insalubridade e rotineira violação de direitos humanos dos presos.
Um dos integrantes da equipe de inspeção disse que os presos ³vivem como animais, em meio a uma grande quantidade de lixo
acumulado, insetos e umidade, e vários presos doentes". Por sua vez, o ministro Gilmar Mendes levantou a voz e fez severas críticas
ao sistema carcerário, exigindo e determinando urgentes e saneadoras providências.
Às vésperas da inspeção, presos de uma unidade teriam sido dopados para evitar tumulto, e 121 jovens foram transferidos para
evitar o flagrante de superlotação. Juízes federais chegaram a exigir botas de borracha, luvas, máscaras e outros equipamentos para
continuar a inspeção. Em uma das unidades, um dos assessores dos juízes federais vomitou na hora da vistoria em uma cela para
adolescentes.
A própria Secretaria Especial dos Direitos Humanos da Presidência da República criou uma comissão especial com o objetivo de
apurar denúncias de violação dos direitos humanos no sistema penitenciário capixaba devido as denúncias de tortura e
esquartejamento de presos.
No Brasil, as irregularidades e desrespeito aos direitos humanos nos presídios do Estado do Espírito Santo constam de um relatório
elaborado pelo Conselho Nacional de Política Criminal e Penitenciária, após inspeções nas celas metálicas do presídio de Novo
Horizonte, na cidade de Serra. O Conselho chegou a pedir intervenção federal no Espírito Santo, diante dos problemas verificados
nos presídios.
O juiz federal Erivaldo Ribeiro constatou nas celas metálicas e na delegacia de Novo Horizonte ³condições estruturais gravíssimas e
sanitárias inaceitáveis´. Na delegacia estavam 369 detentos, em um espaço para apenas 70; nas jaulas metálicas 310 presos, em um
espaço para 140.
Por causa disso, o Conselho Federal da Ordem dos Advogados do Brasil pediu o enquadramento nas penas da lei, e de maneira
exemplar, dos responsáveis pela implantação do sistema e denunciou o fato à Anistia Internacional, Organização das Nações Unidas
e Corte Interamericana de Direitos Humanos, afirmando tratar-se de ³escândalo insuportável, que merece o mais veemente repúdio
da sociedade brasileira´.
Segundo o próprio ex-ministro da Justiça, o comunista Tarso Genro, ³de cada dez detentos colocados em liberdade, sete voltam à
prisão por cometer novos delitos´. Isso confirma o requintado aprendizado que o condenado tem dentro do presídio durante o
cumprimento da perna a ele imposta, muitas vezes injusta.
Criminalistas e especialistas no assunto afirmam que ³a prisão priva o homem de elementos imprescindíveis à sua existência, como
a luz, o ar e o movimento, por serem insalubres, corrompidas, superlotadas, esquecidas e desumanas´.
Em Brasília, um relatório da Comissão de Direitos Humanos da Câmara dos Deputados a pontou um quadro "fora da lei", trágico e
vergonhoso, que invariavelmente atinge gente pobre, jovem e semi-alfabetizada. No Estado do Ceará, presos se alimentavam com as
mãos, e a comida, "estragada", era distribuída em sacos plásticos que, no Estado de Pernambuco, serviam para que detentos isolados
pudessem defecar.
No Estado do Paraná, o relatório informou sobre um preso recolhido em cela de isolamento (utilizada para punição disciplinar)
havia sete anos, período que passou sem ter recebido visitas nem tomado banho de sol. No Rio Grande do Sul, constatou-se que, nas
visitas aos presos, seus familiares ³eram obrigados a ficar nus, fazer flexões e arregaçarem a vagina e o ânus para vistoria" .
Essa é a real situação do sistema prisional brasileiro, fato que l evou o Brasil a ser denunciado nas comissões de direitos humanos da
ONU, OEA e Anistia Internacional.

36 ± A CARREIRA DO OFICIAL PM : VOCAÇÃO, STATUS SOCIAL OU EMPREGO?

37 ± FUSÃO DAS POLÍCIAS MILITARES COM AS POLÍCIAS CIVIS : POLÍCIA ÚNICA?

Jm dos temas que sempre é lembrado quando o assunto é o combate à criminalidade no Brasil é o da unificação das polícias civil e
militar. O assunto merece especial atenção, principalmente nesse momento em que a sociedade vive o grande flagelo da insegurança
total. O advogado Cássio Felippo Amaral, do Escritório Pinheiro Pedro Advogados, que advoga contra a tese da unificação,
apresenta, como um de seus argumentos, a grande confusão que ocorrerá com a fusão das duas polícias, que possuem funções
distintas e complementares. Ele prevê que ³haverá um desvirtuamento das competências originalmente conferidas a cada uma
delas´.
Para o doutor Cássio a unificação, na verdade, significa a ³desmilitarização da polícia como um todo´. De acordo com o
advogado, a experiência internacional mostra que a polícia funciona melhor quando é militarizada, principalmente para aquela que
atua diretamente nas ope-rações de combate ao crime. Ele também não vê motivos para militarizar a Polícia Civil, cuja função
judiciária, de investigação e produção de provas, não necessita desse tipo de requisito.
O advogado considera falacioso o argumento de que, com a unificação, haverá melhoria no combate à criminalidade.
Ainda quanto à confusão prevista, Cássio Felippo explica que cada polícia possui sua estrutura hierárquica e, com a unificação,
isso trará grande preocupação para os policiais, com dúvidas sobre quem vai ser o quê nesta nova estrutura. Além disso, haverá
perdas para a sociedade, pois os policiais das duas instituições foram treinados para um determinado tipo de policiamento (por
exemplo, policiamento de trânsito, ambiental, etc) e, com a unificação, pode-se colocar tudo isso a perder, o que ele considera
medida pouco producente.
Já o doutor André Dahmer, Delegado de Polícia e professor de Polícia Comunitária da Academia de Polícia do Estado de São
Paulo, está convencido da necessidade da unificação, argumentando que a medida trará eficácia e eficiência às ações da polícia. A
competição entre as polícias, a redução de custos e de duplicidade de investimentos para a infra-estrutura das duas corporações são
motivos que considera relevantes para este encaminhamento.
André Dahmer, que, nos últimos dois anos, esteve em Brasília envolvido no processo de implantação da Política Nacional de
Segurança e atualmente atua no Grupo de Planejamento Estratégico da Polícia Civil do Estado de São Paulo, pondera que é preciso
muito cuidado na maneira de promover essa unificação. Afinal, existem culturas cristalizadas e isso não se muda de uma hora para
outra, sem problemas. Ele diz que é preciso pensar na ³progressão do sistema´, para evitar conflitos e, pior, ausência de
policiamento num eventual hiato da transição, com aumento da criminalidade.
Para tranqüilizar aqueles que têm dúvidas sobre a pertinência da medida, a progressão está contemplada no Projeto de Lei de
autoria da Deputada Federal Zulaiê Cobra Ribeiro (PSDB/SP), que está tramitando no Congresso Nacional.
O doutor André Dahmer não concorda, também, com o argumento de que haverá confusão hierárquica, como muitos afirmam.
Para ele, na verdade, esta é uma preocupação das Praças graduadas e Oficiais das Polícias Militares, que raciocinam ³de maneira
corporativa´.
Ele justifica a importância da unificação também pelo fato de as duas polícias possuírem muita gente na atividade meio e pouca
gente na atividade fim de cada uma delas. Na sua visão, é necessário que o ciclo completo da atividade da polícia se efetive de
maneira harmônica, sincronizada entre os diversos departamentos e sem conflitos.
Sobre a discussão da desmilitarização, Dahmer também opina de maneira diversa. Na verdade, as características militares das
polícias estão sendo suprimidas e substituídas por outras mais condizentes com as funções de uma polícia mais moderna, preventiva
e com atuação presente junto à comunidade. Isso não quer dizer que não exista a necessidade de unidades de ³choque´ para o
enfrentamento com o crime.
Para Dahmer, o País caminha para a realidade de uma polícia única. Aliás, ele informa que grande parte da Polícia Civil já possui
uma firme convicção da necessidade de se mudar o modelo atual. Na sua opinião, mesmo após a aprovação da lei, a unificação
deverá ocorrer de maneira paulatina, possibilitando que ocorram mudanças culturais fundamentais para funcionamento do novo
sistema. Não é desejável a ruptura, pois corre-se o risco de, diante de um momento de turbulência ou indefinição, ocorrer o
crescimento da criminalidade, o que seria desastroso.
Para ele, a formação dos policiais em uma única Academia de Polícia - que terá que identificar nos alunos aqueles que possuem
perfil para investigação e aqueles que estão credenciados para atuar no combate direto ao crime ±, promoverá, ao cabo de uma
década, mudanças na cultura do sistema de segurança e no próprio corpo policial, rompendo com situações cristalizadas que hoje
dificultam a ação da polícia como um todo, em prejuízo da eficácia da segurança da sociedade.
André Dahmer acha que mesmo antes da aprovação da lei da unificação algumas práticas são importantes para esse processo. Ele
lembra algumas que já ocorrem na segurança pública de São Paulo e que otimizam a ação da polícia, podendo servir como exemplo
para promover a unificação sem grandes traumas. O planejamento e execução das ações de um Distrito Policial e de um Batalhão da
Polícia Militar devem estar em sintonia e comunicação constantes e, com essas práticas, já são observados resultados positivos nos
aspectos da segurança da população e do combate ao crime.
Mesmo assim, Cássio Felippo defende que a unificação é desnecessária. Isso porque, na verdade, as duas polícias já estão sob o
comando único dos Secretários de Segurança dos Estados. Se o que está prejudicando o bom andamento dos trabalhos das polícias é
a falta de comunicação e sintonia entre os comandos, é muito mais produtivo corrigir este problema que promover uma mudança
profunda, como esta que depende da alteração de dispositivos da Constituição Federal e de toda a estrutura das polícias do País,
além de não possuir o consenso da sociedade, até porque o assunto não foi suficientemente debatido e esclarecido.
O fato é que preocupações menores, como a defesa de posições corporativas, devem estar subordinadas aos interesses maiores da
população. Nisso todos concordam. Mas os lobbies continuam a agir em prol de suas posições em Brasília. O caminho ainda é longo

38 ± PMERJ. 201 ANOS! PASSADO, PRESENTE E FUTURO.

,uitas vezes me peguei pensando a respeito deste assunto: Aonde a PMERJ quer chegar? Vejamos: Uma instituição que não goza
da admiração de grande parcela da sociedade e significante parcela do seu quadro. Não por ser um Órgão da administração pública
ineficiente ou desnecessário _A bem da verdade, a ³fama´ da PMERJ, não muito diferente de nossa coirmã Civil vem se fazendo ao
longo dos anos. Arrisco a dizer, nos últimos 201 anos.
Hoje, próximo a comemorar seus 201 anos podemos fazer a seguinte pergunta: O que a PMERJ trouxe de melhorias para a
sociedade e para seus servidores?
Em minha simplória opinião, e com a experiência dos meus longos... anos dentro da instituição, arrisco dizer que uma administração
que insiste em maltratar aqueles que são à base da sua estrutura, punindo ³uns´ com muitíssimo rigor em nome de uma ³purificação
institucional´, agindo sempre como uma ³navalha na carne, da Praça, mas que por outro lado trata com carinho e benevolência outra
classe de servidores, mesmo que estes últimos tenham cometido os crimes mais torpes existentes em nosso ordenamento. Parece não
querer purificar nada.
Hoje recebemos a notícia de mais um Oficial que recebeu pleno apoio em suas investidas, criminosas dentro da instituição, poi s ser
julgado capaz de permanecer no serviço ativo, depois de ter sido condenado pela Justiça a uma pena de oito anos de reclusão é ou
não é corporativismo?
Agora, passado o ³crivo´ do colegiado, o PAD deste condenado será enviado para o Secretário de segurança, que mais uma vez fará
³indicação´ pedindo a demissão do Oficial ao Conselho criminal (órgão colegiado do TJ que julga em última instância o Oficial da
PMERJ), que em uma decisão não muito diferente daquelas emitidas nos últimos 10 anos, decidirá pela reforma administrativa do
bandido. E nós? Continuaremos pagando o salário do sujeito...
O que a PMERJ espera com isso? A valorização e o reconhecimento da sociedade? O reconhecimento e respeito dos seus servidores
(honestos)?
Por isso farei como um antigo Coronel de Polícia, que em todas as usas reuniões obrigava a todos os presentes a bradarem um viva a
PMERJ da seguinte forma: Hip, hip HURAA!!!!! Vamos lá. Dê você também um Hurra ao que você acha de mais sensacional na
PMERJ. É fácil, vejam: Um Hip ao CEL Davi e todo o dinheiro desviado do Auxilio moradia... Hip. Hip hurra!!! Um hip ao bonde
dos primeiro tenentes que roubavam caixas eletrônicos, mas que hoje continuam por ai, inclusive como oficiais de dia... Hip. Hip
hurra!!! Um hip ao Cap Medeiros, Maj Fábio Gutman e ao Cel Dias, todos condenados por associação ao tráfico, mas, que hoje
gozam de suas aposentadorias...Hip, hip hurra!!! Um hip ao Cel Reformado Nogueira, que mesmo condenado pela justiça ainda é
coronel da PMERJ...Hip. hip Hurra!!! Viram como é fácil?

39 ± COMANDAR PELO EXEMPLO

40 ± EXISTE UMA ÉTICA PARTICULAR ENTRE OS NARCOTRAFICANTES ?

Rio de Janeiro, a cidade das Olimpíadas (porque agora o Rio não é ³só´ o Rio), tem sido o foco dos telejornais dessa semana, aliás,
as lentes não estão voltadas para a cidade, mas para dois eventos específicos: o do helicóptero da Polícia atingido por um tiro e pelas
conseqüentes incursões do Estado para tentar capturar os autores do atentado; e a da ação da polícia durante o assassinato de um
coordenador do grupo AfroReggae, morto durante um assalto.
Mas um acontecimento entre todos esses me chamou mais a atenção, foi o de um dia no qual os moradores de um daqueles morros
abandonaram suas casas e fugiram como podiam após ficarem sabendo de uma possível invasão dos ³soldados´ do morro rival.
Enquanto o combate se dava entre a polícia e os traficantes locais, a população parecia até se comportar com, na medida do possível,
alguma tranqüilidade. Não é raro vermos moradores circularem com alguma calma em meio a um tiroteio entre traficantes e políc ia.
A questão é que quando o morro é dominado por bandidos que ali nasceram e se criaram, que mantêm laços de parentesco e
amizade com os moradores, há efetivamente regras morais conhecidas por todos. Não há dúvidas de que ali existe um poder
autoritário e fascista por parte dos ³donos do morro´, mas também não tenho dúvida de que existem relações de fraternidade e
respeito por parte desses ³donos´ para com a população.
Quadro que se altera quando acontecem as invasões dos rivais, ali se desmontam as relações de vizinhança e compadrio, de
parentesco e amizade, os moradores perdem seu status de sujeitos de respeito e passam a ocupar o lugar de inimigo, que pode estar
abrigando um µsoldado¶ rival. Imagino (e só posso imaginar aqui da frente da minha TV no norte do Paraná) que nesses casos os
moradores não têm garantia nenhuma de que serão preservados de qualquer atrocidade. Não podemos saber exatamente quais são os
códigos de ética que existem numa situação dessas, mas certamente há algum. E é neste ponto que eu queria me aprofundar, sobre a
ética, a moral, o Valor.
Isso também fornece o gancho para falar do segundo caso, o do assassinato de Evandro da Silva, coordenador do AfroReggae. Na
sexta feira dia 23, a Folha de São Paulo publicou que o porta voz da polícia foi afastado pelo governador do Rio, que considerou
suas colocações sobre o caso como inapropriadas, por minimizar a ação dos policiais como simples desvio de conduta. Disse ainda
que o porta voz da polícia não pode ser um policial, deve ser um jornalista, para que não atue sempre na defesa dos colegas. Quer
dizer, em termos morais é quase impossível para um policial ³falar mal´ da corporação, pois é óbvio que existe uma ética interna
aos policiais, assim como existe uma moral própria entre os traficantes. Veja a sinuca de bico em que ficamos, temos uma
diversidade de éticas e códigos morais atuando ao mesmo tempo, e esses por vezes entram em choque.
Voltemos aos conflitos nos morros. Os policiais vão subir o morro para dar o troco do helicóptero destruído e dos policiais mortos,
porque isso é uma questão de honra, e vão conseguir, vão matar tudo quanto é bandido e não bandido. O morro vai perder seus
³soldados´ e, fragilizado, vai ser invadido pelo outro morro, assim a população vai ficar entre o fogo cruzado de bandidos que não
os conhecem e que não tem vínculo nenhum com eles, e da polícia, que está mais preocupada em preservar seus próprios indivíduos
e sua honra.
Resumo da ópera: quando a polícia invade um morro e desmantela a organização criminosa ali estabelecida, ela abre caminho para
os rivais (que sempre existem) tomarem conta daquele território, e a população que até então convivia com tiranos sobrinhos, filhos,
vizinhos, passa a ser dominada por tiranos estranhos que os consideram inimigos. Até que depois de um certo tempo, novos filhos,
vizinhos e sobrinhos passem a fazer parte da organização e certa paz volte à vizinhança, até que o Estado volte a fazer seu trabalho
de proteger a população e as deixe novamente nas mãos dos próximos inimigos. Mas uma coisa é certa, se em 2016 não ganharmos
a medalha de ouro nas provas de tiro, nunca mais iremos ganhar.

41 ± SIGNIFICADO DA ÉTICA PARA O DESEMPENHO DAS FUNÇÕES DO OFICIAL PM

Segundo o Dicionário Aurélio Buarque de Holanda, ÉTICA é "o estudo dos juízos de apreciação que se referem à conduta humana
susceptível de qualificação do ponto de vista do bem e do mal, seja relativamente à determinada sociedade, seja de modo absoluto".
Alguns diferenciam ética e moral de vários modos:
1. Ética é princípio, moral são aspectos de condutas específicas;
2. Ética é permanente, moral é temporal;
3. Ética é universal, moral é cultural;
4. Ética é regra, moral é conduta da regra;
5. Ética é teoria, moral é prática.
Etimologicamente falando, ética vem do grego " ) ", e tem seu correlato no latim "
 ", com o mesmo significado: Conduta,
ou relativo aos costumes. Podemos concluir que etimologicamente ética e moral são palavras sinônimas.
Vários pensadores em diferentes épocas abordaram especificamente assuntos sobre a ÉTICA: Os pré-socráticos, Aristóteles, os
Estóicos, os pensadores Cristãos (Patrísticos, escolásticos e nominalistas), Kant, Espinoza, Nietzsche, Paul Tillich etc.
Passo a considerar a questão da ética a partir de uma visão pessoal através do seguinte quadro comparativo:
Ética Normativa G * <1  G   

Ética Moral Ética Imoral Ética Amoral

Baseia-se em princípios e regras Baseia-se na ética dos fins: "Os fins Baseia-se nas circunstâncias. Tudo é
morais fixas justificam os meios". relativo e temporal.

Ética Profissional e Ética Religiosa: Ética Econômica: O que importa é o Ética Política: Tudo é possível, pois
As regras devem ser obedecidas. capital. em política tudo vale.

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