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O Impostor

Maicon Tenfen

Trevas Azuis
Roberto pensou que a maior anormalidade da noite fosse aquele pneu furado, infortúnio
estúpido em sua rotina estúpida.
Triste engano.
Chegou ao condomínio com dois calos de sangue na mão esquerda (há quanto tempo não
pegava numa chave de rodas?) e deparou com o desagrado: sua vaga, na garagem, estava
ocupada. Procurou o porteiro a fim de uma explicação, o que aquela calheira ridícula fazia
no local destinado a si, residente tão antigo? Mas nada do funcionário. Ora, pro inferno!
Voltou e trancou com seu carro a saída do abelhudo. No dia seguinte tomaria satisfações.
Nisso, o susto. Percebeu que o automóvel que ocupava a vaga era um FIAT idêntico ao seu.
O mesmo modelo, a mesma cor, a mesma placa. Sonho? Só podia. Tornou a procurar o
porteiro: foi ao seu quartinho, bateu, chamou irritado. Evaporara o homem? Tsc! Tsc! Essa
gente só quer saber de salário. Trabalhar, que é bom, nada!
De volta à garagem, tentando acalmar-se, comparou novamente os veículos. Mesmo
estofamento e mesmos acessórios, até os adesivos do pára-brisas eram iguais. Isso não
poderia estar acontecendo, alguma explicação lógica existia para a coisa.
Subiu.
Tentou introduzir a chave na fechadura do 609. Inútil. Havia outra chave no lado de dentro,
alguém estava no seu apartamento. Ladrão? Assaltante? Não... possuía apenas a chave
reserva, há muito que extraviara a original. Bandidos teriam arrombado a porta. Voltou ao
elevador e conferiu o número do andar. O mesmo fez com o do apartamento.
— Tem alguém aí? — esmurrou a porta. — Vou chamar a polícia, hein?
Silêncio.
Era o que faltava! Primeiro o FIAT gêmeo, agora o buraco da fechadura bloqueado por uma
chave supostamente igual à que tinha em mãos. A raiva mastigou seu medo. Esqueceu a
polícia, enfiou a chave no buraco da fechadura e começou a remexer. Aquela era sua casa,
entraria de qualquer jeito.
Depois de uns minutos conseguiu derrubar a chave charlatã e penetrar na sala bagunçada.
Normal a desordem de seus livros, CDs e almofadas. Já a cozinha deixava em dia. Naquela
noite, porém, encontrou-a pelo avesso. Mas o que chamou atenção foram as embalagens de
leite e biscoitos sobre a mesa suja. Notou que o leite fora preparado a seu gosto, muito
açúcar e bastante pó de chocolate. Ao perceber a luz do banheiro acesa, armou-se com a
panela grande de aço inoxidável.
Invadiu-o estrategicamente, pronto a combater o assaltante. Vazio. O vapor do chuveiro
desenhava suposições intrigantes pelo ar. Alguém acabara de tomar banho.
O quarto! Se realmente havia um invasor, estava na escuridão do quarto. Silencioso, ainda
com a panela firme nas mãos, cruzou a sala. Um detalhe que lhe escapara anteriormente:
uma jaqueta no encosto do sofá, a sua jaqueta de couro. Mas como ela poderia estar no sofá
se ao mesmo tempo a vestia? Aquela jaqueta era única, presente materno, reconhecê-la-ia
em qualquer lugar e em qualquer circunstância. Exatamente idêntica, como o FIAT. Céus, o
que estava acontecendo? Uma mesma peça de roupa e um mesmo veículo não podem
ocupar dois lugares ao mesmo tempo. Podem?
Receando ser atacado, suspendeu os pensamentos para continuar a busca, depois acharia
uma explicação para as semelhanças. Lentamente abriu a porta do quarto. Trevas. Alguém
dormia em sua cama, tinha certeza, apesar de não enxergar nada além do escuro. Mas que
absurdo! Se era ladrão, ou vagabundo, ou outra espécie qualquer de facínora, então por que
não roubou os eletrodomésticos e deu o fora? Por qual motivo alguém invade um
apartamento, come biscoitos com leite, toma um banho quente e deita na cama do
proprietário? Ninguém agiria assim se não fosse maluco.
Roberto sonhava. Pelo menos tentou acreditar nisso. Mas se era sonho, ou pesadelo, por
que ainda não acordou todo encharcado de suor, ali mesmo, naquele quarto? Claro, faltava
o espanto. Precisava acender a luz e descobrir uma besta gosmenta sob o cobertor. O
monstro pularia em seu pescoço e o estrangularia. Aí sim, sufocado, Roberto despertaria.
Segurou a panela com a mão direita, esticou a esquerda ao interruptor. Quem será que está
ali deitado? Quem? Bateu a chave, fez luz.
Mas não, não pode ser... Meu Deus!... isso é impossível...
Nãããããooooo...!!!...
*****
Seu primeiro intento foi correr. Mas ficou paralisado — não acredito, não acredito! E
mesmo não dava para acreditar.
Quem estava na cama era o próprio Roberto. Figurava em dois lugares ao mesmo tempo,
assim como o automóvel e a jaqueta de couro.
O Roberto da cama, o outro, também permaneceu inerte, as pálpebras descansadas. Mesmo
com o grito, não acordou.
Melhor assim, pensou Roberto, o da porta. Aceitou que aquilo podia ser tudo menos sonho.
Se fosse sonho, já teria acordado, no mínimo aos berros. Então morri — concluiu.
Certamente atropelado quando trocava o pneu do carro, liberei meu espírito ao correr do
tempo, à noite anterior, para reavaliar minha últimas e bem dormidas horas nesta vida (...)
Besteira! Como um espírito vai estacionar carros e abrir portas à chave, acender luzes e
empunhar panelas de aço inoxidável? Roberto encontrava-se com a mais indômita
realidade. Encontrava-se consigo mesmo.
Não soube por quantos minutos ou horas ficou ali, imóvel. Engraçado como viu no ser
deitado defeitos perniciosos que antes nunca descobrira diante do espelho. Aquele começo
de ruga perto do nariz, as costeletas fora de moda, a maneira irritante de roncar, o sorriso
cínico durante o sono... Contemplava-se o dobro mais horrível do que era. Ou do que
aceitava ser, vá lá.
Sequer se aproximou do leito para tentar acordar o outro. Já não queria saber de nada, nada
queria perguntar. Mesmo? Voltou à sala e redefiniu a situação: temia abordar o impostor,
esta a verdade, mesmo que sentisse vergonha de pensá-la.
Passou a noite no sofá, entre as trevas azuis do apartamento, velando o sono do intruso. A
explicação lógica para o que acontecia, antes tão almejada, transformou-se em algo
fantasioso e impossível. Explicar dois automóveis e duas jaquetas é uma coisa. Agora,
explicar dois eus...
Manhã.
Escutou o outro calar o despertador a socos, exatamente como fazia ao acordar. Depois o
viu passar nu pela sala, sem perceber que era observado, a caminho do banheiro. Roberto
permaneceu em silêncio, agachado atrás do sofá, a respiração suspensa, um medo hediondo
de ser descoberto. Mas por que medo se a casa era sua, se o intruso ali era o outro? Deixa
pra lá, por enquanto é melhor espreitá-lo ao interrogar o como e o porquê de sua presença.
O outro vestiu-se e desceu.
Então Roberto se achou por covarde. Como conseguia manter tamanha paciência diante da
situação? Como deixara de agarrar o pescoço do impostor e lhe tomar algumas satisfações?
Satisfações...
Lembrou do seu carro, na garagem, trancando a saída do dele. Sua chance de intimidá-lo,
de surgir aos berros, de fazê-lo explicar tudo e depois mandá-lo pra sabe-se lá de onde saiu.
Tomou o elevador, saltou na garagem.
Dos dois automóveis restava um, o que estava estacionado na vaga. Imediatamente Roberto
voltou a crer na feliz hipótese do sonho. Putz, ia enlouquecendo... Não existiam dois carros
iguais, nem duas jaquetas, muito menos dois Robertos.
Ufa! Tudo não passou de um pesadelo, um longo e lancinante pesadelo...
*****
Quando em apuros, o homem adentra pela evasiva de se agarrar às melhores suposições,
não lhe é custoso distorcer a situação e, por mera covardia, enganar-se a si mesmo. Tal
proceder redobra seus sofrimentos, uma vez que, a seguir, ao deparar novamente com a
verdade crua dos fatos, constata o logro de ter fingido que tudo estava bem.
Assim foi com Roberto. Quando chegou ao trabalho, percebeu a inutilidade de se refugiar
na hipótese do sonho. Viu o impostor deixando a redação do jornal, saindo apressado com o
FIAT.
— Mas como, droga, como esse desgraçado conseguiu sair se o meu carro barrava a sua
passagem?
Não foi preciso muito raciocínio para entender que o outro tomara o seu veículo e deixara o
dele na vaga, as chaves eram iguais. O que aquele demônio queria, meu Deus? O quê?
Impedido de segui-lo, Roberto invadiu o prédio onde trabalhava.
— Esqueceu alguma coisa? — Era a voz de Anabel, moça albina e esquálida, óculos
garrafais.
— Onde ele foi?
— Ele quem?
— O impostor. Está com meu carro, minhas roupas. Está com um corpo igual ao meu...
— Xi... Qual é a piada, hein?
A atenção dos colegas acabou magnetizada. Soltavam risinhos bobos e indiscretos,
conheciam o humor de Roberto.
— Não tem piada, não. Pra onde ele... Ou melhor, pra onde eu fui?
— Desculpa, mas não tem graça! — Anabel voltou ao trabalho.
Os demais assumiram a gargalhada.
Sem ligar para eles, Roberto vasculhou sua escrivaninha e descobriu o destino do outro
através de um bilhetinho.
Acidente de trânsito
Francisco Riffel, esquina com Anna Groh
Correu para lá.
*****
Em menos de dez minutos chegou ao local do desastre. Policiais, viaturas, enfermeiros,
ambulâncias, bloqueios. Roberto desbravou o bloco humano e se colocou a par do quadro:
dois automóveis completamente destruídos, dos quais brotavam alguns pedaços de mão e
outros tantos de couro cabeludo. Da moto identificou apenas o cano da descarga fumegando
sobre resíduos encefálicos. Dois homens de branco carregavam um terceiro, vermelho,
enquanto bombeiros chafurdavam nas ferragens com pés-de-cabra e serras elétricas. E o
impostor lá, no cantinho estratégico, anotando tudo com aquele sorriso de nojo triunfal.
Sujo! Roberto não se conteve, livrou-se do temor e finalmente o intimou:
— Precisamos conversar.
O outro se voltou irritado, borrou o rascunho por causa do empurrão.
— Quem é você? — disse, sem o menor abalo.
— Como assim quem é você? Eu é que devo fazer essa pergunta.
— Dá licença, vai. Preciso trabalhar.
— O que você quer? Está tentando roubar o meu lugar?
O outro parou um instante com as anotações:
— Ora, meu caro... Este lugar nunca te pertenceu...
Roberto novamente em pânico. Desvencilhou-se do olhar do impostor, da multidão, e fugiu
para casa.
Parou no caminho. Comprou um revólver.
*****
Depois das dez e meia, o outro chegou. Trancou a porta com demasiada cautela e passou à
sala. Trazia a jaqueta de couro nos braços. Preparava-se para arremessá-la sobre o sofá
quando avistou a arma.
— Você de novo? — riu-se. — Saia daqui ou chamo a polícia.
— Saia você! — respondeu Roberto. — Este apartamento é meu, o emprego no jornal é
meu, a vida é minha...
— Tem certeza?
— Você é um impostor.
— Alguém trocou as bolas, camarada. Se há um impostor aqui, eu é que não sou.
— Por que não me deixa em paz? O que você quer de mim?
— O mesmo que você quer de mim...
— Vá embora! Saia antes que eu atire.
— Percebe como o impostor é você, Roberto? Impostores nunca têm argumentos,
costumam apelar para a violência.
A resposta de Roberto foi engatilhar o revólver.
— Tudo bem, tudo bem! — disse o outro. — Se você quer atirar, vá em frente. Faça fogo,
suicide-se.
— Co-como?
— Se você me matar, você morre.
— Besteira!
— Me dá essa coisa...
— Pra trás!
— Vamos, entregue a arma. Você não tem peito para atirar em ninguém. Ainda mais em
você mesmo.
— Pra trás, tô avisando...
Com um tapa seco e certeiro, o outro arrancou o revólver de Roberto. Partiram para a luta.
Foi quando Roberto entendeu como é complicado combater a si mesmo. Em segundos foi
atirado contra o solo. Dominado.
— Viu agora quem é o impostor? Viu?
Sangrando, roxo, semidestruído, Roberto acabou encarcerado no banheiro. Tentou alcançar
a pia e beber um pouco d’água. Desmaiou.
No lado de lá da porta, distante, uma ruidosa gargalhada.
Tudo escuro. Roberto, sempre no chão, não conseguia concentrar forças para fugir.
Umidade, angústia, febre, ódio, medo. Quanto tempo ficou nisso? Três horas? Três dias?
Três anos?
Quando enfim a porta do calabouço se abriu, ergueu-se diferente. Estava murcho, enrugado,
os cabelos na altura dos ombros, a barba montecristal. Saiu para a cozinha e apanhou uma
faca.
Do quarto fugia um lastro de luz. Viu o outro deitado, roncando, nu como da primeira vez
em que apareceu. Lentamente caminhou ao catre, levantou a faca, desejava o sangue do
miserável borbotando, o grito derradeiro.
Mas o outro arregalou os olhos:
— Tem certeza que vai conseguir se livrar de mim?
Roberto largou a faca, apavorado, e correu pelas escadarias do prédio. Pedia socorro, que
alguém o acudisse pelo amor de Deus! Os corredores estavam em penumbra, único lume no
quartinho do porteiro. Derrubou a porta com os ombros. O homem assistia à televisão, as
costas voltadas para Roberto.
— Me ajude, por favor, me ajude! Tem um demônio no meu apartamento... ele é um
impostor... acho que quer me enlouquecer...
O porteiro virou-se bruscamente. Não pôde ajudar porque também era como o outro. A
mesma face esnobe e ridícula, as mesmas sobrancelhas plúmbeas, os mesmos ares
diabólicos.
Não pode ser...
Roberto fugiu pelo deserto das avenidas. Alguém me ajude, alguém me ajude! Poucos
quarteirões e chegava à casa de Anabel. Ela abriu a janela para ver o que... Minha nossa! ...
Ela... ela... também estava igual ao outro. Roberto reconheceu seu rosto pálido e macerado
por detrás dos óculos garrafais.
Voltou a correr.
Exausto, alcançou a rodoviária. Passageiros, motoristas, cobradores, faxineiras, cães,
mendigos, fiscais, engraxates, prostitutas... todos eram como ele, exatamente como ele. E
olharam-no a um só tempo:
— Tem certeza que conseguirá se livrar de si mesmo, Roberto?
Na direção oposta a da rodoviária existe uma velha ponte. Onde ela dá? Não se sabe ao
certo. E pouco importa, na verdade. Roberto vai atravessá-la, mergulhará na magnífica
escuridão azul que o espera. Precisa fugir para longe, muito longe.
O mais longe possível de si.
.
O Impostor de Maicon Tenfen

Rodrigo Oliveira
Especialista em Estudos Literários

É comum encontrar entre os jovens autores uma predileção ou tendência por


desbravar o mundo das narrativas por meio do conto. A narrativa curta parece ser a
porta de entrada ao mercado editorial para grande parte dos ficcionistas. O Impostor,
livro lançado por Maicon Tenfen em 1999 e agora reeditado pelas Edições La
Ventana, não seguiu esse padrão. Foi apenas depois da publicação de três obras de
narrativa mais extensa que Tenfen publicou seu primeiro livro de contos.

O Impostor é composto por dez contos que se alternam entre temáticas de horror e
suspense, policiais de narrativas urbanas e “causos” interioranos. O leitor é conduzido
habilmente a experimentar um apanhado de emoções diferentes — e até contraditórias
— ao passar de um conto a outro. E conduzido talvez seja realmente uma palavra
apropriada ao caso. O maior destaque do livro fica por conta das habilidades do autor
de conduzir e de envolver o leitor. Tenfen demonstra, também nessas narrativas
curtas, um hábil domínio da tessitura do texto. O Impostor é, antes de mais nada,
um conjunto de histórias contadas com maestria. Percebe-se um aprumo técnico que
suplanta com desenvoltura os desafios do espaço restrito de um conto.

O romance, enquanto gênero narrativo, ao mesmo tempo em que exige fôlego maior
do autor em sua construção, permite-lhe, em contrapartida, resgatar o leitor após
algum deslize, após um ou outro parágrafo não tão magistral. O conto, por sua vez,
ainda que exija, em princípio, um menor período de composição, é implacável com
habilidades do autor de arrebatar o leitor. Uma passagem mal desenvolvida ou um
final mal resolvido podem, em uma história curta, mostrarem-se desastrosos e pôr
todo um conto a perder.

Tenfen demonstra em O Impostor que consegue, mesmo em poucas páginas, atingir


e tocar o leitor com narrativas bem construídas, sem perder de vista a história e quem
a lê.

O Impostor presenteia o leitor com, além de narrativas bem construídas, momentos


de destacada qualidade. É o caso de Diablo. Talvez o momento de maior relevância da
obra, o conto foi vencedor do Concurso Paulo Leminski em 1997. A história traça um
retrato pungente das brigas de galo. Rinhas, treinadores, lutadores. E um galo, que dá
nome ao conto, “que tinha o direito de lutar pela vida como se fosse um homem de
verdade”.

Mais intimista e lírico, o sensível Sobre a arte de voar também merece nota. Um conto
de abordagem oposta à de Diablo, que revela versatilidade na composição de O
Impostor. Da narrativa crua, Tenfen passa, em Sobre a arte de voar, para uma
história construída sobre um viés poético. Evoca imagens oníricas e lembranças de
infância, deixando transparecer uma abordagem mais pessoal. Aqui, é a empatia que
Tenfen recruta para conquistar o leitor.

O insólito é presença marcante no volume. Em Trevas Azuis, um jornalista foge de si


mesmo em uma narrativa que nos lembra Quero ser John Malkovitch, do roteirista
Charlie Kaufman. O Casarão da Esquina, dedicado à memória do pai do romance
policial — Edgar Allan Poe — resgata os contos de suspense sobrenatural que ficaram
famosos a partir do autor americano. Estilo similar aparece em Coceira, em Os crimes
de Noé Gonçalves e em Canibal. O insólito ou o sobrenatural surgem como se
remexidos do fundo de um baú repleto do universo das revistas pulp com suas
aventuras de horror e suspense.

Merece nota ainda o conto Vergonha, que retoma uma narrativa interiorana salpicada
com notas líricas, em que o autor consegue dar nova vida a um tema já repetido — a
iniciação sexual de um menino de interior — ao redigir uma breve narrativa que mais
orbita o fato do que se concentra sobre ele.

Encerra o volume o conto que dá título ao livro. O leitor que já tenha conhecido obras
anteriores do autor irá reparar no resgate da narrativa urbana, na trama policiesca de
reviravoltas mirabolantes, nos cantos escuros, nos personagens misteriosos, na
violência da noite, lembrando passagens e estilo de Entre a brisa e a madrugada e
Um cadáver na banheira.
Se, em alguns contos, é possível o leitor encontrar uma busca por criar uma
composição mais rica de leituras, em outros encontra textos de pura fruição, onde a
riqueza se encontra não na diversidade de leituras, mas no manejo dos elementos da
narrativa. E isso, Tenfen demonstra que domina.

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