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PAIXÃO POR UMA BONECA: A INQUIETANTE ESTRANHEZA DE UM

AUTÔMATO.

Henrique Moura Monteiro1


André Maurício Lima Barretto2
Maurício Rodrigues de Souza3

As obras de arte exercem sobre mim um poderoso efeito [...]


Isso me levou a passar longo tempo contemplando-as,
tentando apreendê-las a minha própria maneira, isto é,
explicar a mim mesmo a que se deve seu efeito.
S. Freud, 1914

Breve interlocução entre psicanálise e literatura

O universo literário, tal qual o da ficção de maneira geral, é um campo

primordial para a reflexão sobre o valor mediático da construção imaginária. O leitor se

aproxima dos personagens através da dinâmica ficcional e confere sentido a trama. Esta

relação está fundada na fantasia, privilegiando aspectos inconscientes (DROGUETT,

2004).

Ao postular que a vida psíquica está edificada sobre o inconsciente, Freud

([1900]1996) evidencia um sujeito governado por seus desejos e fantasias. Através da

teoria dos sonhos, o pai da psicanálise abre espaço à outra cena, onde o indivíduo é

destituído de sua manta de racionalidade e passa a estar envolto em um mistério

possível, pois cindido e submetido à ordem do inconsciente.

1
Bacharel em Psicologia e aluno do curso de Formação de Psicólogo da Universidade Federal do Pará. E-
mail: henriquemmonteiro@hotmail.com
2
Doutor em Psicologia Clínica pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, Pós-Doutor em
Sociologia na Université René Descartes, Paris V e professor na Faculdade de Psicologia da Universidade
Federal do Pará. E-mail: andrebar@amazon.com.br
3
Doutor em Psicologia pela Universidade de São Paulo e Professor Adjunto na Faculdade de Psicologia e
na Pós-Graduação em Psicologia da Universidade Federal do Pará. E-mail: souza.mr@oi.com.br
A referência a idéias, personagens e situações presentes na literatura acabou por

se revelar importante na construção da psicanálise. Freud recorre a este subsídio em

várias de suas obras, desde os primeiros exames literários em A interpretação dos

sonhos (1900) até textos diretamente voltados a análises de obras literárias e artísticas

como em Delírios e sonhos na Gradiva de Jensen (1907), Leonardo da Vinci e uma

lembrança da sua infância (1910) e O Moisés de Michelangelo (1914).

Considerando-se que a psicanálise envereda pelo entendimento do homem e da

cultura, a literatura, enquanto produto desta relação, também merece espaço em sua

pesquisa. O movimento pulsional e os fenômenos culturais não podem ser encarados

através de uma oposição simples, pois a psicanálise “é capaz de ler, nas maiúsculas da

cultura, coisas que podem ter validade também nas minúsculas da vida psíquica

individual” (MEZAN, 2002, p.319).

Segundo Naomi Kon (1996), não foi à toa que Freud caracterizou como seu

duplo um escritor (Arthur Schnitzler4), deixando margem para pensarmos a literatura

como uma espécie de duplo da psicanálise. Porém, com a ressalva de vislumbrar nesta

relação um espaço de criação e de multiplicidade de sentido.

O modelo mais utilizado para a apreensão de um texto literário sob a ótica

psicanalítica provém do paradigma do sonho5, pois em ambos os casos a leitura revela a

relação entre uma parte aparente e outra oculta. O enredo corresponderia à parte

manifesta que é em si distorcida justamente por camuflar o conteúdo latente. Desta

forma, o processo interpretativo percorre as dissonâncias da superfície, mostrando-se

uma via de acesso ao conteúdo latente (MEZAN, 2002).

4
Arthur Schnitzler (1862-1931) foi um famoso e polêmico escritor austríaco contemporâneo de Freud.
5
Renato Mezan (2002, p.375) pondera que “talvez o melhor modelo não seja o sonho, mas, como sugeriu
Ernest Gombrich, o chiste, feito para ser comunicado e no qual, portanto, a forma é mais determinante na
constituição do conteúdo do que no ambiente do sonho. Em qualquer dos casos, porém, a análise sempre
parte da percepção de uma nota dissonante, que chama a atenção do analista”.

2
Esta investigação é viabilizada na medida em que se entende a literatura

enquanto “representação exacerbada da experiência humana” (OTTE apud

PORTUGAL, 2006, p.14) e o fenômeno onírico como uma espécie de “texto do

inconsciente” (DROGETT, 2004, p.68). Assim, entendemos o texto literário enquanto

uma obra autônoma e aberta a novas significações.

É importante reforçar que este texto “significante” também traz consigo a

perspectiva do “outro”, do significado atribuído pelo leitor, ou seja, do intercâmbio

simbólico compartilhado a partir da assimilação da obra de arte. Assim, “o percebido é

sempre ou a sombra ou o duplo, ou a réplica em espelho de um objeto ausente que

assim se faz presente pelo significante” (GUIMARÃES, 2006).

A partir disso, um ensaio de Freud passa a ser emblemático para nossa

discussão, pois em O Inquietante6 (Das Unheimliche, [1919]1996), o pai da psicanálise

discorre sobre o desassossego advindo do borrar de fronteiras entre o Eu e o “outro”,

entre a fantasia e a realidade, principalmente através de exemplos retirados da literatura.

Seguindo o Unheimliche freudiano

Freud discute em O Inquietante uma perspectiva que vai de encontro aos valores

da estética vigente. Neste trabalho, ele rompe com o paradigma do belo e leva em

consideração o angustiante e aterrorizante. Ao abordar as “qualidades do sentir” o

fundador da psicanálise chama atenção à realidade psíquica, remetendo-se a um sujeito

que, atravessado pelo inconsciente, vai se chocar, se estranhar com o que lhe parece

6
Utilizaremos aqui a opção de tradução do “Das Unheimliche” como “O Inquietante” seguindo as
argumentações de Luiz A. Hanns (1996), em detrimento de “O Estranho”, usual tradução para o
português, encontrada na Edição Standard Brasileira. Ver HANNS, 1996, p.231-239.

3
mais íntimo e familiar: ele próprio. Esta inquietante estranheza parte de uma perspectiva

da alteridade que remete ao próprio sujeito, ou seja, o tema do “outro” é significado a

partir do estranhamento de si (SOUZA, 2007).

Através de um estudo semântico do termo alemão – unheimlich – e de um

aglomerado de exemplos das mais diversas fontes, Freud nos conduz ao estranhamente

familiar, destrinçando a ameaça de algo que se mostra íntimo e seguro. Assim, a

apreensão consciente de temas como a morte ou a repetição incontrolável – preceitos

fundadores da “segunda tópica” no que se refere à pulsão de morte e compulsão a

repetição – pode ser permeada pelo inquietante. Segundo o pai da psicanálise, esta

impressão do sinistro, do inominável estaria atrelada a um estágio infantil do psiquismo

onde o eu encontra-se indiferenciado do outro, onde o mundo interno e o externo estão

enleados (SOUZA, 2007).

O inquietante seria então “aquela categoria do assustador que remete ao que é

conhecido, de velho, e há muito familiar” (FREUD, [1919]1996, p.258). De maneira

geral, podemos compreender tal conceito enquanto um fenômeno mental resultante de

complexos infantis recalcados, reanimados por uma impressão exterior ou convicções

primitivas aparentemente superadas que parecem encontrar uma nova confirmação.

A partir disso, o Unheimliche pode ser encarado como um elemento

potencialmente presente na vida de todos, pois as manifestações do inconsciente (como

sonhos, atos falhos, chistes e sintomas) são o palco cotidiano para o enlaçamento entre o

estranho e o familiar, terreno desconhecido e estrangeiro à consciência.

Segundo Freud ([1919]1996, p.267), é na literatura fantástica que estão os

exemplos mais “inquietantes”, pois o escritor pode conduzir o leitor através de um

mundo de incertezas, deixando-o aturdido e oscilante no que tange a crença de estar

4
diante de relatos verídicos (ou próximos da realidade) ou diante de um conto de fadas.

Assim, se a percepção da situação segue a linha das leis que regem a realidade, “tudo o

que teria um efeito estranho na realidade, o tem na sua história”.

Através da análise do conto de E.T.A. Hoffmann, “O homem de areia” (Der

Sandmann), Freud ([1919]1996) assinala que a incerteza provocada pela aparente

vivacidade da boneca Olímpia, assim como o clima ambíguo criado quanto à veracidade

dos fatos no conto, contribuem para a percepção estranha da trama de maneira geral,

mas o elemento principal responsável pelo efeito inquietante seria o “homem de areia”,

uma vez que este seria o responsável por roubar os olhos das crianças.

A figura que dá nome ao conto estaria associada à morte do pai, ao advogado

Coppelius e, posteriormente, ao vendedor de lunetas chamado Coppola. Estas figuras

são as responsáveis por assombrar Natanael com insígnia do “homem de areia”. A perda

dos olhos, considerada enquanto terror em estado bruto, faria referência ao complexo de

castração, provocando a emersão de derivados de conteúdos inconscientes (FREUD,

[1919]1996).

Driblando a pouca ênfase dada por Freud, mas ainda baseando-se em suas

argumentações, podemos pensar a vivacidade aparente da boneca menos relacionada à

incerteza intelectual do que a própria referência ao típico pensamento animista

percebido em momentos em que conteúdos infantis estejam em evidência. Assim, a

paixão por Olímpia pode ser vista como representação do amor narcísico projetado por

Natanael, que, consequentemente, leva a trajetória de identificação do personagem

como um retorno a certas fases da história evolutiva do Eu (RODRÍGUEZ, 2007).

Outro aspecto ressaltado enquanto possível gerador de desassossego e caro à

nossa investigação é o tema do duplo. Para Otto Rank (apud FREUD, [1919]1996,

5
p.252), o duplo se constituiria enquanto “segurança contra a morte” e agiria no sentido

de não permitir a destruição do Eu, assegurando a “imortalidade da alma”. Porém, esta

noção do duplo estaria mais presente no pensamento infantil ou primitivo, passando por

uma transformação quando se tratasse de um indivíduo adulto. Esta noção provoca

reflexão no sentido de pensar o duplo enquanto uma “ânsia de defesa que levou o ego a

projetar para fora aquele material, como algo estranho a si mesmo”.

Para Freud ([1919]1996, p. 252-53), esta noção mantém clara relação com as

causas infantis. O duplo remontaria à fragilização dos limites do Eu, momento em que o

sujeito regride a um estágio narcísico primitivo onde se encontra indistinto do mundo

exterior e do outro. Tal percepção também seria responsável por uma confusão de

identidades, seja através da duplicação, da divisão ou do intercâmbio do eu.

Tratando-se desta problemática, é comum o estreitamento entre os limites do

real e do fantástico, pois a natureza do duplo é, em si, geradora de angústia. O Eu

concebe esta duplicação como algo de fora, estranho, mas de fato, não sendo nada de

novo ou desconhecido. Esta divisão revela o inconsciente sempre pronto a ressurgir e a

provocar uma sensação de inquietante estranheza, uma vez que aparentemente reside

fora, mas essencialmente emerge de dentro (FREUD, [1919]1996). O duplo configura-

se em uma ambigüidade peculiar, pois “no momento mesmo em que se encontra

presente, revela-se como pertencente a um além inacessível”. Este é o lugar da

Unheimliche, da “da estranheza ‘e’ dessa relação de limite entre o mesmo e o diferente”

(BARTUCCI, 2001, p.377).

Nas histórias escritas por Voltaire de Souza, pseudônimo do ensaísta e crítico

Marcelo Coelho, esta estranheza tem presença marcante, pois em seus textos os

personagens são surpreendidos por seus impulsos e vêem-se reféns de um desconhecido

6
íntimo, de um inexplicável familiar. A proximidade com situações perturbadoras que

ameaçam a concepção de racionalidade inabalável do homem é o palco do

estranhamento (SOUZA, 1995).

Objetivamos através deste estudo um exercício interpretativo que parte da

análise dos personagens até aspectos que apontem para o que pode se mostrar

inquietante na leitura da crônica “Paixão por uma boneca” de Voltaire de Souza. Assim,

este trabalho se constitui mais propriamente de nossas inquietações e da elaboração de

questões do que propriamente de respostas últimas para os dramas suscitados pelo texto.

Com isso, buscamos plantar nosso olhar de modo que alimentem questionamentos e

dúvidas que atraiam mais olhares, germinando o movimento interpretativo e sua

constante inquietude.

Interpretações e inquietações

Antes de nos debruçarmos sob o texto escolhido, é interessante pontuar que,

mesmo não sendo a relação entre autor e sua obra o alvo deste estudo, a discussão

poderia iniciar já pela divisão promovida pelo pseudônimo, pois o inquietante da

heteronomia7 permite que seja pensada a duplicação do Eu e sua pluralidade de sentido.

Além de nos atermos às situações da trama especificamente, surgirão ao longo

da discussão algumas inquietações que contemplam a apreensão do leitor de uma

maneira geral. Desta forma, vamos ao texto em questão.

7
Silva Junior (2001) realizou um estudo profícuo sobre este assunto ao discutir a heteronímia de
Fernando Pessoa.

7
PAIXÃO POR UMA BONECA

1 Norberto vivia muito sozinho.


2 Até que ele resolveu comprar uma boneca inflável.
3 Essas que quebram um galho quando não se tem uma mulher.
4 Norberto levava a sério aquela boneca.
5 - Amorzinho. Vem.
6 Ele comprava roupas pra ela.
7 Ela tinha até um nome.
8 Greice.
9 - Greice. Telefone pra você.
10 Norberto imaginava tudo.
11 De noite, depois do amor, eles tinham longas conversas.
12 - É uma pena, Greice. Que meus pais nunca aceitaram você.
13 - Não faz mal, Norberto. Eu te amo.
14 - Eu também Greice.
15 E ele fazia um carinho no rosto da boneca de plástico.
16 Para Norberto, aquela boneca tinha vida própria.
17 - Ela adivinha os meus pensamentos.
18 Mas um dia, veio a tragédia.
19 - Ela tem outro. Eu sei. Ela está me traindo.
20 Norberto tremia. Babava. Os olhos vermelhos.
21 - Ela me odeia. Percebo o jeito dela olhar.
22 Ninguém nunca sabe direito o que aconteceu.
23 Mas Norberto foi encontrado morto no banheiro.
24 Com um tiro na nuca.
25 Da misteriosa boneca de plástico, nem sinal.

Na leitura da crônica percebemos indícios do típico clima da literatura fantástica,

no qual somos conduzidos pela fronteira insidiosa entre a realidade material e o mundo

místico da realidade psíquica. Esta característica somada à estrutura concisa do texto

destaca um espaço onde o “mostrar” dá lugar ao “sugerir”.

Diríamos, então, que o leitor, após ser golpeado com sentenças curtas e vagas, se

sinta estonteado diante a trama. Esta, inicialmente de cores e tons absurdos, mas

cuidadosamente costurada com a carga de fantasia que ronda os acontecimentos.

Então, procurando um suporte para diminuir a tontura, voltamos aos

personagens, tentando escutar o que eles teriam a dizer. Inicialmente, sabemos que

Norberto vivia solitário até encontrar o amor plástico de Greice. E esta, vívida na

imaginação do amado, correspondia cegamente à paixão.

8
Tal como na análise de “O homem de areia” feita por Freud ([1919]1996), alia-

se à percepção do clima ambíguo da crônica, a incerteza quanto ao animismo da boneca,

configurando o palco do inquietante8.

Este objeto inanimado, alvo do investimento afetivo de Norberto, ao receber um

nome e ser concebido como algo capaz de corresponder afetivamente passa então a

habitar a noção do duplo. Através da imaginação, ele acredita que Greice pode ler seus

pensamentos e abdica da realidade para se proteger da solidão. Neste caso, um exemplo

de uma experiência onde a duplicação do Eu serve de suporte para a revivência de

complexos infantis recalcados.

Esta situação aponta para o ressurgimento da vivência do desamparo que, na

tenra infância, era minimizada pela dependência absoluta. “Esta ansiedade originária

persiste ao longo da vida, estourando em situações tais como a solidão, o silêncio e o

escuro, passiveis de provocar impressões assustadoras” (CESAROTTO, 1996, p.123).

A emergência do desamparo, por sua vez, faz surgir a necessidade de recorrer a

gratificações alucinatórias. Assim, o autômato que simula animação é o duplo narcísico

com quem Norberto pode entrar em simbiose, ao mesmo tempo em que se configura

enquanto um objeto externo, descortinando o estranhamente familiar.

O vínculo imaginário com a boneca – o que envolve ao mesmo tempo uma

recusa da realidade e a necessidade de um “outro” que supra suas necessidades – soa

então como uma espécie de pedido de socorro, uma tentativa de substituir a realidade

não desejada, por uma que congregue seus desejos. Possibilidade ofertada pelo mundo

da fantasia, no qual o indivíduo retira o material que necessita para suas novas

configurações do desejo – geralmente pela via da regressão. Uma tentativa de restaurar

8
Com a ressalva de que Norberto, diferentemente de Natanael, inicia seu relacionamento com a boneca
consciente de que esta é desprovida de vida, ou seja, a dúvida se instala a partir da relação com o objeto
inerte.

9
fantasiosamente a simbiose materna, onde não há espaço para nada além do amor

próprio – um retorno ao narcisismo primário – “Não faz mal, Norberto. Eu te amo”

(FREUD, [1924]2007).

No entanto, neste ponto em que a falta é obturada e o desejo se circunscreve por

completo, se faz pertinente uma indagação proposta por Cesarotto (1996, p.123-26).

Afinal, como pode haver o desejo, se o objeto preenche esse espaço da falta? Segundo

ele, se faltasse a falta a satisfação seria penosa e mortificante, pois “se a exaltação

narcísica se aproximar muito da sua culminação, impondo seu ensejo, a obscena

admoestação do supereu se encarrega de estragar o prazer”.

A emergência deste sentimento mais antigo – referente ao complexo de

castração – não tarda a aparecer na trama. O inquietante se mostra na “tragédia” que

acomete a história de Norberto, pois se interpõe entre ele e sua amada a presença

(aparentemente também fantasiada) de um rival, um “outro” que ameaça a relação.

Neste caso, em termos edipianos, a convicção de estar sendo traído é a marca da

interdição simbólica do pai, estrangeiro e castrador por excelência. É a partir desta

referência ao pai e da marca ambivalente que este carrega que o objeto passa a adquirir

uma conotação hostil. “Com efeito, a dura verdade que o agir do supereu revela é a

divisão da personalidade, apesar de si e contra si mesma” (CESAROTTO, 1996, p.138).

Após isso, a crônica inunda o leitor na incerteza sobre a morte de Norberto. Aqui

abrimos um parêntese para comentar o que entendemos ser uma possível inquietação do

leitor. Quando o autor escreve “nunca ninguém sabe direito...” antecedendo a morte do

nosso protagonista, este abre uma lacuna no texto e implica o leitor às suas próprias

conclusões. Como se já não bastasse a atmosfera fantástica da crônica, o tema da morte

10
e sua falta de representação no psiquismo humano sobressaem como pano de fundo para

este momento de diálogo entre o leitor e o texto (FREUD, [1919]1996).

Diante disso, o leitor, mais do que simplesmente responde a sua curiosidade

perante o mistério pronunciado, mas também executa um movimento racionalista de

tamponar, de preencher o vazio no qual foi lançado. Assim, incorporando o investigador

criminalista para minimamente dar conta deste vácuo, anima a questão: “Quem matou

Norberto”? Permitimo-nos, brevemente, esta investigação.

Devido a já pautada ambigüidade que reveste a crônica, pode-se arrolar

enquanto suspeitos: Greice, o próprio Norberto ou o “outro” que motivou a tragédia.

Considerando que a autonomia de Greice é apenas imaginada por Norberto, assim como

a presença do rival, resta a possibilidade do suicídio. Mas ainda persiste o misterioso

desaparecimento de Greice. Considerando a ira de Norberto, o desfecho está dado:

Norberto enfurecido com a possibilidade da traição “mata” Greice e, posteriormente,

pela falta da amada, reflexo de seu próprio narcisismo, põe fim a própria existência.

Esta possibilidade nos leva a pensar que a renúncia as pulsões passou a

representar um ato custoso demais, o que levou Norberto a um surto agressivo que

demonstra a dificuldade de renunciar a fantasia. Tanto no conto de Hoffmann como na

crônica de Voltaire de Souza, o fim dos protagonistas coincide com a morte. Fatalidade

que vem acompanhada, nos dois casos, de uma distorção da realidade, na qual a fantasia

sobrepõe-se a própria vida. Pois quando o eu encontra-se desprovido de investimento

narcísico, surge a angustia e o desmoronamento da realidade objetiva, juntamente com a

queda do próprio eu. Segundo Chnaiderman (1997), esta suspensão do sentido está

relacionada a angustia do desamparo infantil enquanto um “representante pulsional

afetivo indeterminado”.

11
Com o intuito de ampliar a discussão, imaginemos agora a alteração de um

elemento da crônica. Suponhamos que Greice, ao invés de uma boneca, fosse uma

mulher comum, uma namorada de Norberto. Certamente o elemento inquietante seria

amortizado, mas como encararíamos a ira que constrói o cenário para a morte do

próprio personagem?

Este exemplo surgiu de uma inquietação diante a leitura da crônica, da

possibilidade de uma pessoa efetivamente ser tratada como uma “boneca”, ocupar a

“posição” de um autômato, ou, em outras palavras, colocar-se (ou ser colocado) no

lugar reflexivo de um duplo narcísico.

Seguindo o pensamento freudiano ([1921]1996) e as contribuições de Koltai

(2000) podemos pensar no quanto alguém, enquanto figura potencialmente

identificatória, pode se mostrar inquietante por romper com a expectativa de

completude do outro. Por não ser um “idêntico”, não ser “imediatamente assimilável”.

Neste sentido, o “outro” aparece enquanto ameaça de uma reatualização do desamparo

infantil, como uma “projeção externa de algo interior e constituinte em termos de

subjetividade: a própria cena do inconsciente” (SOUZA, 2007, p.110).

Com isso, talvez, possamos pensar a figura do autômato como uma possibilidade

fantasiada do “idêntico”, uma via “fantástica” para este incondicionalmente assimilável.

Em outras palavras, o autômato funcionaria como um espelho que reflete

incondicionalmente a paixão do sujeito remetendo-o a um estágio contaminado pela

possibilidade fantasiosa de realização imediata do desejo, das crenças mágicas,

animistas e da crença em forças ocultas maléficas, da qual não estamos isentos, por mais

adultos e civilizados.

12
Destarte, o autômato, tal qual um espelho, torna-se um parâmetro de

exterioridade que reflete o próprio interior, representando a atualização de um conteúdo

recalcado. E os fantasmas de outrora animam o corpo plástico apresentando como

alheio o próprio reflexo do eu (CESAROTTO, 1996).

Vem à tona, então, o inquietante, a angústia que desmorona a égide narcísica,

por trazer a baila o desejo do “outro”, o recalcado velho e familiar que toma contornos

assustadores. Quiçá, por isso, em muitas situações, as manifestações do inconsciente são

consideradas aberrações, e o trabalho de elaboração da censura destes conteúdos uma

máscara que sustenta e protege o Eu de si mesmo. Afinal, segundo a argumentação de

Julia Kristeva (1994), como pintaremos este “outro”, se não com nossos próprios

fantasmas?

Segundo Caterina Koltai (1998), a psicanálise ensina que o aparelho psíquico

funciona segundo o princípio da inadequação, em que a satisfação procurada nunca

coincide com a obtida e vice-versa. Assim, o mais próximo e íntimo é o mais longínquo

e inacessível, restando a nós tentar nos aproximar do que ocultamos, entendendo que

este material está sempre retornando e causando estranhamento, por mais que

ignoremos seus vestígios, deixando a compreensão de si mesmo entregue ao absurdo ou

nas costas de algum bode expiatório.

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15