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A CAMISA DE PAGÃO - VISUALIDADE E SENTIDOS

Sejana de Pina Jayme


sejana@gmail.com
Universidade Federal de Goiás (UFG)

Marcelo Mari
arte1960@yahoo.com
Universidade Federal de Goiás (UFG)

Este artigo lida com as dimensões material e simbólica da Camisa de


Pagão, traje usado por bebês durante os primeiros meses de vida. que tem
no próprio nome a explicação de seu uso: dentro das tradições católicas,
ainda muito influentes até parte do século XX, as crianças eram chamadas
pagãs antes de passarem pela cerimônia de batismo1, que ocorria nos
primeiros meses de vida. A roupa usada nesse período acaba denominada,
então, camisa de pagão e a investigaremos em seus aspectos materiais e
simbólicos. A peça escolhida para descrição neste artigo é parte de um
enxoval produzido em Pirenópolis, em 1981,
O modelo comum de camisa de pagão que conhecemos possui um
corte que remete às túnicas usadas pelos povos da antiguidade.
Entendemos, então, que a camisa de pagão possui um modelo ou corte que
se assemelha às túnicas e camisas bastante usadas em diferentes variações
desde a antiguidade, não obstante, as características estéticas dos bordados
são prováveis influências francesas, indicadas pelos ramos e arabescos
florais e pela difusão do artesanato francês no Brasil.
A partir do final do século XIX, os bordados eram largamente
encontrados não somente em certas peças de roupas, como também em
diversos artigos têxteis para o lar. Normalmente executados pelas próprias
donas, encomendados a bordadeiras ou comprados em casas comerciais
especializadas, esses artefatos estavam bastante ao que ligados ao zelo que
deveria ser dispensado à casa. Assim como os cuidados com o lar
evidenciavam a imagem de boa esposa e dona-de-casa, a construção do
enxoval do bebê tornava-se parte da elaboração da maternidade, como um
valor de representação para a sociedade e para si mesma do amor e atenção
dedicados ao filho.
A camisa de pagão já foi peça fundamental na composição de um
primoroso enxoval do bebê, que deveria contar ainda com cueiros, mantas,
vira-mantas, babadores, sapatinhos de lã, fraldas com rendas ou bicos de
crochê e as tradicionais touquinhas ou carapuças bordadas. Muitas dessas
peças entraram em desuso nas últimas década
Mesmo sendo este tipo de veste bastante antiga – segundo os relatos
e dados levantados, ao menos desde o século XIX – ainda hoje são
produzidas peças assim, com o mesmo tipo de apresentação, utilizadas
independentemente do sexo da criança – tanto meninos como meninas as
usavam nesses primeiros meses de vida, sem muita diferenciação nos cortes
e bordados. A descrição das vestes que portavam as crianças da Roda dos
Expostos2 no tempo da Revolução Farroupilha é uma das poucas referências
a enxovais infantis desse período que encontramos:

O enxoval das crianças, pelo que elucida sobre a vida feminina no


século passado quando o coser e o bordar eram tidos como
atividade própria da mulher, constituía um dos poucos vínculos do
menor com o mundo exterior, servindo de meio de identificação em
caso de eventual procura por parte de familiares. (...) O registro da
roupa que a criança vestia, ou eventualmente trazia consigo, consta
nos livros de registro da Casa da Roda (...) Os tecidos mais usuais
nos enxovais das crianças eram: baeta (lã grosseira, de fabricação
nacional), baetilha (mais fina que a anterior), cambraia e cambrainha,
cassa (tecido transparente de linho ou algodão), chita, musselina
(chita leve e trabalhada), morim, riscado, seda, tafetá... Nos enxovais
melhores, o uso de rendas, crochê, fitas e outros adornos eram
freqüentes, indicando o abandono da criança por razões sociais e
não econômicas. (...) As peças mais usuais que as crianças
abandonadas vestiam eram camisa (de cambraia ou morim), timão
(casaco), coeiro e mantilha (...). (FLORES, 1989, p. 122 - 123)

A importância da identificação e descrição dessas peças vai, então,


além das questões que tangem os problemas sociais e econômicos. O traje
que portava o bebê era, muitas vezes, a única forma de identidade que lhe
restava da vida que não conhecera, de uma mãe e uma família que lhe foram
negadas. As roupas usadas no dia do abandono, tivessem sido elas
guardadas e não somente descritas, configurar-se-iam como objetos
biográficos na medida em que são parte material e simbólica da história de
vida da criança. Amorim diz que

Objetos biográficos são construções do mundo exterior sobre os


quais são projetadas experiências de vida do seu possuidor. Como
fonte de descobertas, o objeto biográfico ancora memórias que
estimulam as narrativas e representações (...). O significado
biográfico dado ao objeto é efetivado na presença constante deste
elemento material da vida de seus proprietários. (AMORIM)

E, como objeto biográfico, a camisa de pagão possui função não


somente de vestimenta mas de suporte para a memória, tanto aquela
individual, ligada às histórias de vida, quanto à memória coletiva no momento
em que é indício do tempo e de outros modos de produção e uso que
determinam, bem como reproduzem, ainda hoje, concepções de vida e
comportamentos.
Por fim, é como objeto biográfico e como materialidade que simboliza
a passagem do tempo que nos chegam nas instalações Livre Pecador (2005)
e Neonata-Rifatta (2006), de Mili Genestreti. A apropriação da camisa de
pagão pela arte contemporânea atualiza as discussões e sugere novas
questões a serem pensadas sobre a guarda de objetos pessoais e sua
significação.

1
O Batizado é uma cerimônia religiosa, cujo ritual baseia-se em uma imersão da pessoa ou
parte dela em água. Para os católicos, é o primeiro sacramento e a purificação do pecado
original.

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