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ÁGUA TEM

DONO?
Ficha técnica
Coordenação de projeto: SANDRA QUINTELA Elenco:
Coordenação de produção: RENATA LINS
Coordenação de comunicação: MÁRCIA DANIELLI
Marina: TAMISA MARQUES
Joãozinho: CAIO DA SILVA SOARES
Pra começo de conversa
Roteiro: FLÁVIA CASTRO Avô de Marina: ZÓZIMO BULBUL
Direção: EMMANUEL SANTOS Mãe de Marina: DIDA D’BOVI
“Como é que se pode comprar ou vender o céu, o calor da terra? Essa
Produção: BOB SIQUEIRA E EMMANUEL SANTOS Vizinha 1: BYA GEMAL
idéia nos parece estranha. Se não possuímos o frescor do ar e o brilho
Fotografia: PAULO RODRIGUES Vizinha 2: GLÓRIA VARELA
da água, como é possível comprá-los?”
Assistente de Fotografia: RAIMUNDO BANDEIRA DE MELLO Vizinha 3: FÁTIMA MACHADO
Figurino: MAYZA JACOBINA Amiga: CLARA MACHADO MAIA
Assistente de Figurino: JÚLIA JACOBINA E RÔ BARBOSA Homem da cia. de água: HUGO MORENO
A questão da água, como tantas outras em época de neoliberalismo, tem a ver com lucro. Quem ganha,
Locação: ANA MACHADO Garoto no muro: JULINHO
quem perde. Também tem a ver com poder. Quem é dono é quem tem poder. Já era assim quando os
Projeto gráfico: RENATA FIGUEIREDO Crianças na cachoeira: TAMISA, CAIO, CLARA,
senhores de terra aqui no Brasil libertaram os escravos sem fazer nenhuma reforma agrária: os recém-
Revisão: MÁRCIA DANIELLI MARINA, CORA, ANDRÉ, ALÍCIA E RONI
libertos não mudavam de condição social. Apenas, além de trabalhar, agora teriam que pagar pelo seu

O que é o PACS
próprio sustento.

A água é fonte de vida, como enfatizou a campanha da CNBB de 2004. O acesso à água é, portanto, o
O PACS é uma organização sem fins lucrativos, dedicada ao desenvolvimento solidário, que trabalha com pes-
direito mais fundamental a ser defendido por quem acredita na possibilidade de uma sociedade mais
quisa socioeconômica e educação e tem sede no Rio de Janeiro. A proposta do Pacs é colocar o trabalho e a
justa. Sem água, não há saúde, não há higiene. Não há lazer para as crianças nos rios poluídos. Nem
criatividade de sua equipe a serviço dos movimentos sociais, das entidades eclesiais, dos governos populares,
peixes. Sem água encanada, as mulheres têm que andar sob o sol, sob o peso da lata na cabeça. Sem
dos grupos de produção associada (cooperativas, empresas autogestionárias, associações, grupos informais
esgoto, aumenta a possibilidade de doenças que dizimam velhos e crianças.
e escola de trabalhadores), das escolas públicas e de outras organizações de desenvolvimento solidário, pen-
sando a economia de forma diferente e dando um outro rumo ao nosso sistema sócio-econômico.
Em países como os EUA, França e Suíça, a água da torneira é potável: chega às casas das pessoas
pronta para ser bebida. Mas no Brasil e em outros países da América Latina, a má qualidade da água
Foi fundado em 1986 como a parte brasileira do PRIES - Programa Regional de Investigações Econômicas e Sociais
está levando ao consumo crescente de água mineral, que em bares e restaurantes chega a custar mais
para o Cone Sul da América Latina -, iniciativa de um grupo de economistas comprometidos com processos de trans-
caro do que a gasolina.
formação social, que retornavam do exílio aos seus países de origem: Argentina, Brasil, Chile e Uruguai.
A nova fotonovela do PACS trata deste tema essencial, iluminando os vários aspectos da luta pela
O Pacs produz pesquisas, análises e reflexões críticas sob a forma de publicações impressas e audiovisuais,
posse de algo que não deveria ser de ninguém, e levantando a questão: Água tem dono?
além de fazer políticas alternativas, projetos de desenvolvimento, assessorias e atividades educativas.

Agradecimentos Realização
Esperamos que você mergulhe na leitura e que com ela reflita sobre os problemas locais e globais da
água, estimulando outras pessoas à mesma reflexão. Na vida real, assim como na fotonovela, é assim
Aos moradores de Peroba (Itaboraí/Rio de Janeiro), que construímos histórias com finais felizes!
Lycia Ribeiro, Clovis Nascimento, Alain Simon, Maria Instituto Políticas Alternativas para o Cone Sul – PACS
do Carmo (Chocolate), Maria Eduarda Quiroga, Marta Av. Rio Branco, 277 / 1609 :: Centro :: Rio de Janeiro
Antunes, Celso Marcato. Agradecimento especial a Luiz RJ :: CEP: 20040-009 :: Telefax: (21) 2210-2124
Fernando Novoa pelo texto sobre a gestão da água no www.pacs.org.br | pacs@pacs.org.br Nossa fotonovela foi realizada na localidade de Perobas, distrito rural do município de Itaboraí (RJ).
Brasil. comunicacao@pacs.org.br A região vem sofrendo há décadas com problemas relativos à degradação ambiental e o próprio rio
Perobas, cenário de uma de nossas seqüências, está ameaçado de desaparecer, vítima do desmata-
mento indiscriminado e da extração ilegal de areia.

Gostaríamos de destacar a participação especial no nosso elenco do ator e diretor Zózimo Bulbul,
militante da cultura nacional e da causa negra, no papel do Avô.

1 Carta do Chefe Seattle em resposta a um pedido de venda de terras do presidente dos EUA em 1854. Em
http://www.cetesb.sp.gov.br/Ambiente/carta.asp
Pra começo de conversa

“Como é que se pode comprar ou vender o céu, o calor da terra? Essa


idéia nos parece estranha. Se não possuímos o frescor do ar e o brilho
da água, como é possível comprá-los?”

A questão da água, como tantas outras em época de neoliberalismo, tem a ver com lucro. Quem ganha,
quem perde. Também tem a ver com poder. Quem é dono é quem tem poder. Já era assim quando os
senhores de terra aqui no Brasil libertaram os escravos sem fazer nenhuma reforma agrária: os recém-
libertos não mudavam de condição social. Apenas, além de trabalhar, agora teriam que pagar pelo seu
próprio sustento.

A água é fonte de vida, como enfatizou a campanha da CNBB de 2004. O acesso à água é, portanto, o
direito mais fundamental a ser defendido por quem acredita na possibilidade de uma sociedade mais
justa. Sem água, não há saúde, não há higiene. Não há lazer para as crianças nos rios poluídos. Nem
peixes. Sem água encanada, as mulheres têm que andar sob o sol, sob o peso da lata na cabeça. Sem
esgoto, aumenta a possibilidade de doenças que dizimam idosos e crianças.

Em países como os EUA, França e Suíça, a água da torneira é potável: chega às casas das pessoas
pronta para ser bebida. Mas no Brasil e em outros países da América Latina, a má qualidade da água
está levando ao consumo crescente de água mineral, que em bares e restaurantes chega a custar mais
caro do que a gasolina.

A nova fotonovela do PACS trata deste tema essencial, iluminando os vários aspectos da luta pela
posse de algo que não deveria ser de ninguém, e levantando a questão: Água tem dono?

Esperamos que você mergulhe na leitura e que com ela reflita sobre os problemas locais e globais da
água, estimulando outras pessoas à mesma reflexão. Na vida real, assim como na fotonovela, é assim
que construímos histórias com finais felizes!

Nossa fotonovela foi realizada na localidade de Perobas, distrito rural do município de Itaboraí (RJ).
A região vem sofrendo há décadas com problemas relativos à degradação ambiental e o próprio rio
Perobas, cenário de uma de nossas seqüências, está ameaçado de desaparecer, vítima do desmata-
mento indiscriminado e da extração ilegal de areia.

Gostaríamos de destacar a participação especial no nosso elenco do ator e diretor Zózimo Bulbul,
militante da cultura nacional e da causa negra, no papel do Avô.

1 Carta do Chefe Seattle, em resposta a um pedido de venda de terras do presidente dos EUA, em 1854.
Em http://www.cetesb.sp.gov.br/Ambiente/carta.asp

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Vô, de onde vem
toda essa água?

Do mar vêm as nuvens que se


transformam em chuva...
E da chuva nascem os rios, e
dos rios, nasce o mar...

3
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Começ
que el
mam

peguei!!!

Se todos cuidas-
sem do que é de
todos...
Vô, água tem dono?

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É bom levar a
Começou depois A febre tá alta... Pai, Laurinha lá no
que ela tomou a o que você acha? Posto...
mamadeira...

Isso é um absurdo! Já
Já levei, eles me dis- que é o governo quem
seram que devia ser a fornece a água, ele deve-
água, que várias crian- ria controlar melhor a
ças do bairro estão qualidade!
com diarréia... Mãe, água pode
fazer mal???

A falta de água limpa ou de saneamento mata mi­lhões


esquistossomose e outras verminoses.
de pessoas por ano no mundo de doenças como
No Brasil, segundo a Organização Mundial de
cólera e malária. A grande maioria é de crianças.
Saúde, a falta de saneamento é responsável por
80% das doenças e por 65% das internações
Os riscos relacionados ao consumo de água
hospitalares.
contaminada vão desde doenças mais simples até
doenças muito graves: diarréias, cólera, tracoma,
Se 90% da população do Brasil tem acesso
hepatites, conjuntivites, poliomielite, leptospirose,
à água potável, apenas 20% dos esgotos têm
infecções por rotavirus, escabioses, febre tifóide,
tratamento: o resto é lançado na água.

5
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Será que aquela lata
de óleo estragou a
água?

E aí, Marina, me
arranja um
copo d’água?

ÁGUA ????? Tá
maluco? Você quer
morrer, é?

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alguns dias depois...

Isto é um medidor de
água. Assim, cada cidadão interessante...
tem certeza que só vai
pagar pelo que consome.

Moço, mas e essa


água aí, não vai
dar dor de bar-
riga, não?

Não, nunca!

Custo mí-ni-mo,
qualidade máxima...
Com a privatização... Não há possibilidade Alta tecnologia...
alguma de
contaminação...

Conto da caro-
chinha, isso sim... Na África do Sul, após a privatização realizada sob a benção
do Banco Mundial, 10 milhões de domicílios deixaram de pagar
pelo serviço de água, e passaram a usar água não-potável. O
resultado foi um dos maiores surtos de cólera que o país já
conheceu, atingindo 100.000 pessoas.

Mesmo nos países ditos desenvolvidos, como a Inglaterra, a


privatização da água já fez seus estragos. Em Birmingham, após
a instalação de medidores pré-pagos, as pessoas que não po-
diam pagar o uso das descargas passaram a usar penicos, que
esvaziavam pela janela. Os medidores foram declarados ilegais
em 1998, com o argumento de que impediam o acesso da popu-
lação de baixa renda a seu recurso mais importante.

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Peixe morto?
Que é isso, só Águ
porque você achou bem
uma lata enferru-
jada, tá imaginando
Eu combinei com coisa...
o pessoal de ir
tomar banho de No rio? Eu
rio no sábado, não! Aquilo lá
vambora? virou cemitério
de peixe...

Meu avô foi pescar e


viu. Ele me disse que
foram os agrotóxicos
daquela plantação lá
perto que contamina-
ram o rio...
Ahan...sei...
Então valeu.
Tchau... Ele não acreditou
em mim...

Ouça
cada
fazem

A Marina tá tão
esquisita, cismou
com essa história
de água ruim...

mãe...

Segundo o IBGE, o uso de agrotóxicos


A ação dos agrotóxicos sobre o orga­
e fertilizantes já é a segunda causa de
nismo humano pode provocar desde en-
contaminação da água no Brasil. 150 mil
jôos e dores de cabeça até lesões nos
toneladas de agrotóxicos são utilizados
rins e no fígado, câncer e alterações
por ano na lavoura. Este veneno contamina
genéticas. Esses efeitos podem surgir logo
rios e lagoas.
após o contato com o produto, mas tam-
bém podem demorar semanas e até anos
para serem identificados.

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Pois é, já que o
Água limpa, governo não faz a
bem tratada... E mais barata ! coisa direito, tem
mais é que privatizar
mesmo!

Sim. Prático,
não é? Quando Mas você vive Que cabecinha
Mas é que nem acaba é só re-
celular de dizendo que é dura...
carregar... caro...
cartão?

Ô xente, é
mesmo...
Ô marina, tele-
fone é supérfluo.
Água, não!
Ouçam! Aqui diz que a
cada dois meses eles
fazem análises comple- Ué, quando acaba um,
tas na água... é que tá na hora de
comprar outro !

Em 1990, 51 milhões de pes-


soas no mundo dependiam
do setor privado para ter
água. Hoje esse número
mãe... subiu para 460 milhões,
por conta das políticas de
privatização recomendadas
pelo Banco Mundial e pelo
FMI . O fornecimento pelo
setor privado eleva o custo
da água, e quem não pode
pagar o novo preço fica
...Mas e quando o sem água.
cartão acaba, cortam a
água, como o celular?

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Pô, olha essa
E aí, tudo bem? água toda escor-
Tudo, tudo. rendo aí... O que é
que tem?

Lá vem
elA...

De quem é essa
carroça velha?
Maior
desperdício...
Do Seu Carlos,
ele tá me pagando
para lavar...

Calma João,
Pô, se você não calma. Não
fechar essa responde...
torneira quando
estiver ensabo-
ando, vai acabar
com a água do
seu Carlos, exa­
tamente como
essas
empresas que I
desperdiçam
água à beça e
não tão nem aí
pros outros... CHEGA,
NÃO AGüENTO MAIS
ESSE SEU PAPO,
E se todo mundo ÁGUA é áGUA, por Foi mal, não fica
fizer igual a você, é que você complica nervoso...
a água do planeta in- tudo???
teiro que vai acabar...

Se é verdade que devemos fazer cada Para: Gastam-se:


um a nossa parte, não se pode es- 1 tonelada de aço 15.000 litros de água
quecer que o maior gasto de água vem 1 kg de frango 2.000 litros de água
mesmo da produção e das grandes
1 kg de arroz 1.500 litros de água
empresas. O Brasil, por exemplo, é um
1 kg de pão 1000 litros de água
dos maiores exportadores de água do
planeta: É a chamada “água virtual”.
1 carro 6.000 litros de água

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Pois é,
cortaram mesmo, nem
avisaram. Horrível. Muito
pior que antes...

que foi,
mãe?

á vem
elA...

Seu Avô é que tinha


razão, Essa privatização
é um roubo! Agora, eles
cobram o que querem, e
ainda cortam a água! Água é um direito
e um bem de todos, não
pode ter um dono! Isso não
pode ficar assim...

O vovô já
sabia disso...

Na casa do Joa-
quim ninguém pode
tomar banho todo
dia...
Trecho de carta de Dom Frei Luiz Flavio Cappio ao povo do Nordeste,
Isso não vai quando fez greve de fome para impedir a transposição do rio São
ficar assim! Francisco:
Ah, não vai “Meu gesto é o último recurso que me resta para fazer o Gover-
mesmo!!! no Federal desistir desta obra insana e mentirosa, que é a transposição.
Minha luta é também pelo sagrado direito de vocês a ter água boa e vida
digna. Não é de maneira nenhuma um gesto contra vocês.
Há muito tempo os poderosos querem fazer vocês acreditarem
que só a água do Rio São Francisco pode resolver os problemas que
vos afligem todos os anos no período da seca. Não é verdade. Estes
mesmos problemas são vividos a pouca distância do Rio São Francisco. Ter
água passando próxima não é a solução, se não houver a justa distri-
buição da água disponível. E temos, perto e longe do rio, muitas fontes de
água: da chuva, dos rios e riachos temporários, do solo e do subsolo.
O que está faltando é o aproveitamento e a administração competente e
democrática dessas águas, de modo a torná-las acessíveis a todos, com
prioridade para os pobres.
Não lhes contam toda a verdade sobre este projeto da trans-
posição. Ele não vai levar água a quem mais precisa, pois ela vai em direção
aos açudes e barragens existentes e a maior parte, mais de 70%, é para
irrigação, produção de camarão e indústria. Isso consta no projeto es-
crito. Além disso, vai encarecer o custo da água disponível e estabe­lecer
a cobrança pela água além do que já pagam. Vocês não são os reais
be­neficiários deste projeto. Pior, vocês vão pagar pelo seu alto custo e
pelo benefício dos privilegiados de sempre.
Não estivesse o Rio São Francisco à beira da morte e suas águas
fossem a melhor solução para a sede de vocês, eu não me oporia e lu-
taria com vocês por isso. Tenho certeza que o generoso povo do São
Francisco faria o mesmo.”

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Aquele homem veio aqui, L
instalou os medidores, disse que a água ia ficar ame
mais barata... E agora, há mais de uma semana que águ
a maioria de nós está sem água em casa! Nós não
podemos aceitar isso!

A gente tem
Ninguém podia A privatização só é que se or-
imaginar que com fez aumentar as ganizar e ir à organiz
a privatização ia tarifas e piorar Prefeitura para até mo
ser pior! Nem os serviços. aliás, melhorar o cedeu, a
a qualidade da foi a mesma coisa serviço público! ra e a
água melhorou... com a telefonia, a
energia, o gás...

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Lá na Bolívia, uma empresa
a ficar americana aumentou a tarifa da
ana que água a tal ponto que ninguém
Nós não conseguia mais pagar...

E aí, Vô?

Na Bolívia, a luta contra a Alca está direta- governo local vendesse o serviço público de
mente vinculada à Guerra da Água. O processo água a uma empresa privada, segundo relata
de privatização foi imposto pelo Banco Mundial a militante do Movimento Boliviano de Luta
com o argumento de que a água era mal dis- contra a Alca, Elizabeth Peredo. Pouco de-
tribuída. O banco (Bird) se negou a garantir pois da privatização, as tarifas foram au-
um empréstimo de US$ 25 milhões para financiar mentadas e indexadas ao dólar. Em algumas
o fornecimento de água regiões, a água subiu até 250%, gerando uma
a Cocha­bamba, a enorme mobilização para a retomada do con-
As pessoas se menos que o trole público da água.
organizaram. Foi uma longa luta, teve
até morte... Mas no final o governo
cedeu, a empresa americana foi embo-
ra e a água voltou a ser distribuída
pelo serviço público.

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Ih, olha
quem vem aí!
Você não vai
falar com ele?

e aí?
Oi.

Vamos nadar
no rio?

Ué ? o rio
não tá
Minha mãe e suas amigas de- poluído, podre,
nunciaram à prefeitura e os contaminado?
donos do terreno tiveram
que seguir a lei... Agora Agora só falta
está limpo de novo. voltar a água
aqui do bairro...

Mas que seja


limpa e barata
Elas vão
pra todos!
conseguir!

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No Uruguai, uma emenda à constituição, votada
em referendo, assegura a gestão pública da exceção das pluviais, constituem um recurso
água. O referendo aconteceu simultaneamente único, subordinado ao interesse geral, que
às eleições presidenciais. Diz o texto da emenda forma parte do domínio público estatal como
à Constituição uruguaia: “a água é um recurso domínio público hidráulico. O serviço público
natural fundamental para a vida. O acesso à de saneamento e o serviço público de abaste­
água potável e ao saneamento constituem di- cimento de água para o consumo humano
reitos humanos fundamentais. (...) As águas de serão prestados exclusiva e diretamente por
superfície, assim como as subterrâneas, com pessoas jurídicas estatais”.

s vão
seguir!

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A gestão da água no Brasil: um rio caudaloso 2. mudanças na redemocratização
No bojo do processo de redemocratização,
nos anos 80, garante-se o preceito constitu-
cional de que a água é bem dos Estados ou da
1. o começo União, objeto de um sistema nacional e integrado de
Desde a colonização, as águas no Brasil foram consideradas gerenciamento. Em 1995, a Secretaria de Recursos Hí-
de “ninguém”. Águas, terras e populações nativas à disposição dricos ganha lugar específico na estrutura administrativa
de quem pudesse tragá-las. O país visto como estoque, federal, na esfera do Ministério do Meio Ambiente. Dois
senzala, reservatório, plataforma para elites desenraizadas. anos depois seria promulgada a Lei Nacional de Recur-
A travessia que vai do “Novo Mundo” a um mundo novo, com sos Hídricos (9433/97), prescrevendo diretrizes para um
fluxos de comércio deslocados e ampliados. E a água sempre novo marco regulatório das águas.
à disposição desses fluxos, a serviço de poucos, a reproduzir
um padrão de desenvolvimento predatório e desigual. E, du-
rante muito tempo, a água foi somente um “recurso hídrico”.

3. A lei nacional
de recursos hídricos e a ANA
A Lei 9433/97 fornece instrumentos institucionais
para a implementação de uma política nacional de águas, mas
foi concebida nos marcos dos processos de desregulamentação e
desarticulação nos anos 90. O Estado devia renunciar a suas funções pro-
vedoras e dedicar-se apenas às funções reguladoras. A ampliação da participação
do setor privado na prestação de serviços essenciais e de infra-estrutura pres-
supõe um aumento proporcional de sua interferência na gestão desses mesmos serviços.
A implementação das políticas é delegada a Agências Reguladoras (autônomas administrativa
e financeiramente com relação ao executivo). No setor de águas, não poderia faltar a Agência
respectiva: a ANA - Agência Nacional de Águas, criada em 2000 com a missão de imple-
mentar a política nacional de recursos hídricos, instituída pela lei 9433.
4. O PNRH
Em janeiro de 2006,
é aprovado o Plano Nacio-
nal de Recursos Hídricos (PNRH), 5. Em que estágio estamos?
que pretende ser um espaço de plane- A lei 9433 e o Plano Nacional de Recursos
jamento compartilhado entre Estado e socie- Hídricos, que a regulamenta, abrem espa-
dade civil para implementar as metas e programas ços novos à participação popular no
para o que deveria ser o uso racional, eqüitativo processo de planejamento, delibera-
e sustentável das águas no Brasil até 2020. Este ção e execução, por meio de repre-
espaço ainda está em construção. sentação nos Comitês de Bacia, nos
Conselhos Estaduais de Recursos
e no Conselho Nacional de Recur-
6. Como seguimos em frente? sos Hídricos. No entanto, essa
A lei nacional de águas em um país como o Brasil, cobiçado, entre representação ainda é insuficiente
ou­tras coisas, por seu potencial agro-exportador, logístico e hidro- e distorcida. A representação
elétrico, não pode se limitar a “prevenir conflitos no uso da água”, o dos interesses dos pequenos
que nada mais é do que a cristalização da atual situação, em que usuá­rios é proporcional à dos
os mais poderosos ganham. O verdadeiro alcance grandes usuários, empreendimen-
da política nacional de águas será tos industriais e agrícolas, que têm
definido no processo efetivo de muito mais poder.
implementação do PNRH – que
definirá de fato a quem a
política de águas favorece,
7. pra não esquecer...
e a quem deixa de
Água é aprendizado coletivo embutido, lugar de poder
atender.
e autonomia social, fluxo intensificador do espaço e do tempo.
Por isso a privatização da água é uma forma definitiva de selar, represar e
condicionar o destino comum de nossa gente: a água passa a “ter dono”. Água pública
sob controle da cidadania é nossa forma de responder: cá estamos e cá vivemos. Um
basta à chantagem de uns com o que é de todos. Esse é o pacto mais elementar a se
fazer em um país a ser reconstruído pela base e para si mesmo: um pacto pela vida.

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A gestão da água no Brasil: um rio caudaloso 2. mudanças na redemocratização
PARA SABER MAIS.....
No bojo do processo de redemocratização
nos anos 80 garante-se o preceito constitu-
cional de que a água é bem dos Estados ou da
1. o começo União, objeto de um sistema nacional e integrado de • Red Vida – Vigilância Interamericana para la Defensa y Derecho al Agua (em espanhol):
Desde a colonização, as águas no Brasil foram consideradas gerenciamento. Em 1995, a Secretaria de Recursos Hí- http://www.laredvida.org/
de “ninguém”. Águas, terras e populações nativas a disposição dricos ganha lugar específico na estrutura administrativa
de quem pudesse tragá-las. O país visto como estoque, federal, na esfera do Ministério do Meio Ambiente. Dois • Plebiscito uruguaio pela água:
senzala, reservatório, plataforma à disposição de elites de- anos depois seria promulgada, a Lei Nacional de Recur- http://www.assemae.org.br/informativo.htm
senraizadas. A travessia que vai do “Novo Mundo” a um mundo sos Hídricos (9433/97) prescrevendo diretrizes para um
novo, com fluxos de comércio deslocados e ampliados. E a novo marco regulatório das águas.
água sempre a disposição desses fluxos, a serviço de poucos,
• A guerra da água na Bolívia:
a reproduzir um padrão de desenvolvimento predatório e http://mwglobal.org/ipsbrasil.net/nota.php?idnews=2270
desigual. E, durante muito tempo, a água foi somente um “re-
curso hídrico”. • Casos de privatização (em francês):
3. A lei nacional http://www.inreallife.be/Articles/050305eauprivatisation.php
de recursos hídricos e a ANA
A Lei 9433/97 fornece instrumentos institucionais • Contaminação da água por agrotóxicos no Brasil:
para a implementação de uma política nacional de águas, mas http://ecofalante.terra.com.br/sub/noticias.php?set=462
foi concebida nos marcos dos processos de desregulamentação e
desarticulação nos anos 90. O Estado devia renunciar a suas funções pro-
• Contaminação por agrotóxicos no Piauí:
vedoras e dedicar-se apenas às funções reguladoras. A ampliação da participação
do setor privado na prestação de serviços essenciais e de infra-estrutura pres-
http://agenciacartamaior.uol.com.br/templates/materiaMostrar.cfm?materia_id=11404
supõe um aumento proporcional de sua interferência na gestão desses mesmos ser-
viços. A implementação das políticas é delegada a Agências Reguladoras (autônomas admin- • Entrevista com Carlos Vainer sobre água como bem público e privatização:
istrativa e financeiramente com relação ao executivo). No setor de águas, não poderia faltar http://www.comciencia.br/entrevistas/2005/02/entrevista2.htm
a Agência respectiva: a ANA- Agência Nacional de Águas, criada em 2000 com a missão de
implementar a política nacional de recursos hídricos instituída pela lei 9433. • Sistema pré-pago:
4. O PNRH http://www.aqua.eng.br/noticias040316.htm
Em janeiro de 2006,
é aprovado o Plano Nacio-
nal de Recursos Hídricos(PNRH), 5. Em que estágio estamos? • A crise da água (em espanhol):
que pretende ser um espaço de plane- A lei 9433 e o Plano Nacional de Recursos http://www.lainsignia.org/2006/marzo/ecol_003.htm
jamento compartilhado entre Estado e socie- Hídricos, que a regulamenta, abrem espa-
dade civil para implementar as metas e programas ços novos à participação popular no • Coca-cola e a água na Índia:
para o que deveria ser o uso racional, eqüitativo processo de planejamento, delibera- http://www.countercurrents.org/gl-thampan270405.htm
e sustentável das águas no Brasil até 2020. Este ção e execução, por meio de repre-
espaço ainda está em construção. sentação nos Comitês de Bacia, nos
• Mulheres e privatização da água (em espanhol):
Conselhos Estaduais de Recursos
e no Conselho Nacional de Recur- http://www.whrnet.org/docs/tema-agua.html
6. Como seguimos em frente? sos Hídricos. No entanto, essa
A lei de nacional de águas em um país como o Brasil, cobiçado entre representação ainda é insuficiente • Publicação “água, um direito ameaçado”:
outras coisas por seu potencial agro-exportador, logístico e hidroelé- e distorcida. A representação http://www.rebrip.org.br/_rebrip/pagina.php?id=798
trico, não pode se limitar a “prevenir conflitos no uso da água”, o que dos interesses dos pequenos
nada mais é do que a cristalização das atual situação, em que
os mais poderosos ganham. O verdadeiro alcance
usuários é proporcional à dos • Disputa pela água no mundo:
grandes usuários, empreendimen- http://www.terrazul.m2014.net/spip.php?article311
da política nacional de águas será tos industriais e agrícolas, que têm
definido no processo efetivo de muito mais poder.
implementação do PNRH – que • os donos da água:
definirá de fato a quem a http://resistir.info/agua/donos_da_agua.html
política de águas fa-
7. Última caixinha do rio...
vorece, e quem deixa de
Água é aprendizado coletivo embutido, lugar de poder • Mercosul: quem controla a água?
atender.
e autonomia social, fluxo intensificador do espaço e do tempo. http://www.mwglobal.org/ipsbrasil.net/nota.php?idnews=1972
Por isso a privatização da água é uma forma definitiva de selar, represar e
condicionar o destino comum de nossa gente: a água passa a “ter dono”. Água pública • A experiência de gestão da água em Porto Alegre
sob controle da cidadania é nossa forma de responder: cá estamos e cá vivemos. Um http://www.citizen.org/cmep/Water/cmep_Water/reports/brazil/articles.cfm?ID=10988
basta à chantagem de uns com o que é de todos. Esse é o pacto mais elementar a se
fazer em um país a ser reconstruído pela base e para si mesmo: um pacto pela vida.

Pesquisa finalizada em 15 de novembro de 2006


Instituto Políticas Alternativas para o Cone Sul