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Monumento à saúde

A
A trajetória da Faculdade rnaldo Vieira de Carvalho (1867-1920),
cirurgião e ginecologista, e Enéas de Car-
de Medicina da Universidade valho Aguiar (1902-1958), administrador
hospitalar, morreram prematuramente,
de São Paulo (USP), ambos na casa dos 50 anos de idade, e
um dos mais vigorosos puderam vislumbrar apenas o nasci-
mento das instituições que fundaram:
pólos de assistência à saúde respectivamente, a Faculdade de Me-
dicina da Universidade de São Pau-
e de pesquisa científica lo (FMUSP), criada em 1913, e seu
do país, inaugura braço hospitalar, o Hospital das Clínicas de São Paulo (HC),
inaugurado em 1944. A memória desses dois médicos é lembra-
a série de reportagens da todos os dias, até mesmo por pessoas que mal sabem quem
eles foram. Dr. Arnaldo e dr. Enéas são os nomes de duas mo-
que Pesquisa FAPESP vimentadas avenidas paralelas, na Zona Oeste de São Paulo, que
publicará a respeito dos 70 comportam o quadrilátero formado pela FMUSP, o HC e seus
diversos institutos. Trata-se do mais famoso e produtivo ende-
anos de fundação dessa reço de atendimento de saúde, ensino e pesquisa aplicados à
medicina do Brasil.
universidade. As próximas Paulistas e paulistanos buscam o atendimento do Hospital
edições apresentarão das Clínicas em casos de emergência e também em aflições
corriqueiras, atraídos pela eficiência de seus médicos, um por-
outros núcleos e atividades to seguro em meio às deficiências da saúde pública. Brasileiros
de todos os cantos do país, portadores de doenças raras ou tra-
representativas tadas com ferramentas experimentais, acostumaram-se a via-
jar milhares de quilômetros para se tratar no HC – muitos des-
da história da USP confiam da idéia de que existem centros de excelência em
quase todas as regiões. Maior complexo hospitalar da América
Latina, o HC fez, só no ano passado, 1,5 milhão de atendimen-
F ABRÍCIO M ARQUES tos ambulatoriais e 550 mil de emergência. Seus 2.492 leitos re-
ceberam 60 mil pacientes. Foram realizadas 45 mil cirurgias,
entre as quais 500 transplantes e 6 milhões de exames labora-
toriais. Como faculdade e hospital formam uma teia complexa
e indistinta, o acompanhamento da notável diversidade de pa-
cientes faz a diferença na formação de novos médicos e pesqui-
sadores. Atualmente, a FMUSP abriga 1.422 estudantes de gra-
duação (nota A no Provão) e 2.055 de mestrado e doutorado
(70% dos programas de pós-graduação da FMUSP foram
muito bem avaliados pela Coordenação de Aperfeiçoamento de
Pessoal de Nível Superior (Capes).
No prédio da FMUSP, A tradição de grande escola de medicina remonta as décadas de
hoje tombado pelo 1940 e 1950 – quando um professor catedrático era tão respeitado
MIGUEL BOYAYAN

Patrimônio Histórico, quanto o governador do Estado e os alunos, submetidos a discipli-


emergiram gerações dos na férrea, iam às aulas de terno e gravata. Hoje, o perfil dos 344
melhores médicos brasileiros docentes da FMUSP mudou bastante.“O campo de conhecimen-

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to da medicina expandiu-se e já não cabe naquelas antigas batê-las. Recentemente, uma pesquisa anteviu a eclosão
cadeiras dos catedráticos. Os médicos se especializam cada de febre amarela numa região do interior paulista fusti-
vez mais cedo”, diz Ricardo Brentani, presidente da Comis- gada pela dengue e povoada pelo mosquito que espalha
são de Pesquisa da faculdade. Outra mudança, essa mais as duas doenças – o que aconteceu em seguida.
recente, é a dedicação cada vez maior à pesquisa científica.
Nos últimos dez anos, cresceu progressivamente a pro- Células-tronco - Um exemplo da expansão da atividade
dutividade dos 62 Laboratórios de Investigação Médica de pesquisa é o Laboratório de Genética e Cardiologia
(LIM), os braços de pesquisa da FMUSP. Tome-se como Molecular, que ocupa o 10º andar do novo edifício do
referência os trabalhos originais publicados em revistas Instituto do Coração, o Incor. Com um projeto arquite-
indexadas na base do Institute for Scientific Information tônico inspirado em laboratórios da Universidade Har-
(ISI). Em 1993, constam 72 trabalhos dos LIM na base vard, a instituição lidera, desde a primeira metade dos
ISI. Em 2002, esse número saltou para 338. Em termos anos 1990, uma pesquisa de mapeamento de regiões cro-
relativos, o avanço também é significativo. Os LIM eram mossômicas ligadas à hipertensão. Outra linha de pes-
responsáveis por 1,6% de todas as publicações brasileiras quisa busca entender como fatores genéticos e ambien-
na base ISI em 1993. Em 2002, essa fatia alcançou 3%. tais interagem para o aumento do risco cardiovascular –
e demonstrou que a hipertrofia no coração de camu-

E
ssa mudança foi provocada por um con- dongos é tão mais grave quanto maior for o número de
junto de medidas que estimularam a cópias do gene responsável pela produção da enzima
atividade de pesquisa. Uma fração de conversora de angiotensina I (ECA). A alteração genética,
2% do dinheiro que o HC recebe do Sis- é certo, não é causa direta do problema, mas desponta
tema Único de Saúde (SUS), o equiva- quando um outro gatilho sobrecarrega o coração. O La-
lente a R$ 2,6 milhões em 2002, passou boratório, que se integrou ao esforço para mapear a bac-
a ser destinada aos LIM – e distribuída téria Xylella fastidiosa, hoje abriga uma vasta coleção de
segundo critérios de produtividade, como a publicação pesquisas, que vão desde a genética envolvida na resis-
de trabalhos em revistas científicas de impacto e a capa- tência das veias safena usadas como pontes no coração
cidade de atrair recursos externos para pesquisa. Os la- até a aplicação de células-tronco para reconstituir regiões
boratórios são avaliados anualmente. Conforme a nota do músculo cardíaco afetadas por enfartes. Especula-se
dada, cada LIM recebe um quinhão maior ou menor. que a pesquisa de células-tronco possa ter um efeito mo-
Esse dinheiro é gasto com autonomia, na compra, por bilizador da opinião pública semelhante ao advento dos
exemplo, de material ou de passagens aéreas para pes- transplantes cardíacos no final dos anos 1960. Dez pa-
quisadores participarem de congressos. Os 126 docentes cientes enfartados já receberam injeções dessas células,
com dedicação exclusiva à faculdade também conquista- capazes de se transformar em qualquer tecido. Reagiram
ram o direito a uma suplementação salarial variável. São bem. A pesquisa agora vai seguir com mais 60 pacientes
avaliados com notas de A a D. Os de nota A chegam a re- para avaliar a eficácia desse procedimento na capacidade
ceber R$ 3 mil extras no contracheque. Os de nota D não de reconstituir vasos e tecidos. “São imensas as oportu-
ganham nada. “A avaliação leva em conta várias ativida- nidades de novos tratamentos relacionados à terapia ce-
des do professor, mas, sobretudo, a dedicação à pesqui- lular e à terapia gênica”, diz o professor José Eduardo
sa”, diz José Eluf Neto, diretor-executivo dos LIM. Krieger, responsável pelo laboratório.
As agências de fomento também tiveram um papel O laboratório do Incor nem de longe é exemplo iso-
importante nesse novo perfil.“O raciocínio é simples”, diz lado. Recentemente, a pesquisadora Ana Claudia Latro-
Maria Mitzi Brentani, professora associada da disciplina nico, da Unidade de Endocrinologia do Desenvolvimento
de Oncologia. “Com as verbas de agências, os laboratórios do Hospital das Clínicas, ganhou o Prêmio Richard E.
equiparam-se para fazer pesquisa, desonerando o orça- Weitzman, concedido em junho pela Sociedade Ameri-
mento da faculdade e do HC, que pode ser gasto com sa- cana de Endocrinologia, pela participação em estudos
lários e atendimento ao público”, diz. Em 2002, essas ver- pioneiros que descrevem novas mutações genéticas cau-
bas alcançaram R$ 15,6 milhões.As principais fontes foram sadoras de doenças hormonais. A equipe chefiada pela
a FAPESP, com R$ 8,6 milhões, e o Conselho Nacional de professora de oncologia Maria Mitzi Brentani, no Insti-
Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), com tuto de Radiologia, participa de pesquisas como a pro-
R$ 1,8 milhão. “No contexto da pesquisa biomédica, a cura de marcadores moleculares relacionados à resposta
FMUSP toma parte de todos os grandes programas da à quimioterapia dos pacientes de câncer de mama. A
FAPESP. Participou de todos os genomas. E muitos dos equipe apresentou recentemente num congresso as ca-
professores têm programas temáticos com a instituição”, racterísticas genéticas que, supostamente, fazem pacien-
diz Eduardo Massad, professor de Informática Médica. tes até com tumores avançados reagirem bem à do-
Massad coordena um LIM que se notabilizou pela elabo- xorrubicina, droga quimioterápica. A descoberta, agora
ração de modelos matemáticos capazes de avaliar a disse- submetida a estudos mais amplos, pode ter um papel
minação de doenças e pela criação de estratégias para com- importante na escolha do tratamento para cada pacien-

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MIGUEL BOYAYAN
Ensino e pesquisa são indissociáveis na FMUSP,
mas o gigante HC reforçou o caráter assistencial

te, de acordo com as peculiaridades de seu DNA. “Nos- nos irreversíveis nos pulmões”, diz Marcelo Amato. O
so objetivo de longo prazo é encontrar um largo espec- equipamento consiste numa cinta atada ao tórax, repleta
tro de marcadores de tumores”, diz a professora Maria de eletrodos, que emitem pulsos na direcão do pulmão
Mitzi Brentani. Outra linha de pesquisa investiga a rela- em freqüências imperceptíveis ao corpo humano. Em um
ção entre os baixos níveis de vitamina D no sangue e a monitor, os pulsos se transformam em imagens que reve-
eclosão do câncer de mama em mulheres com mais de lam os movimentos do pulmão – o ar que entra e sai é
65 anos. Uma hipótese é que a baixa exposição ao sol e a um isolante elétrico. O aparelho será avaliado na UTI do
alimentação pobre tenham um papel na deficiência da Hospital das Clínicas.
vitamina D e no conseqüente surgimento da doença. Ensino e pesquisa são indissociáveis na trajetória da
FMUSP, mas a balança historicamente pendeu para a

N
o Laboratório de Pneumologia, o formação profissionalizante. A faculdade começou a fun-
professor-assistente Marcelo Ama- cionar em 1913 e ganhou sua sede atual, um conjunto ar-
to desenvolveu um equipamento quitetônico em frente ao Cemitério do Araçá, dezoito
capaz de produzir imagens, através anos mais tarde. O prédio foi tombado pelo Patrimô-
da emissão de pulsos elétricos, das nio Histórico em 1981, por encarnar um conceito de es-
condições pulmonares de pacientes cola médica modelar para a época – dois grandes depar-
de UTIs submetidos a respiração tamentos (o laboratório e o clínico) instalados num
artificial. É comum que a ventilação forçada cause danos bloco só, num “hospital de ensino”. Como os professo-
ao pulmão e os médicos têm ferramentas pouco acura- res deveriam dedicar todo seu tempo à faculdade, a con-
das para detectar esses problemas. Certas manobras, trapartida arquitetônica foi a criação de gabinetes para os
como a fisioterapia e a calibragem dos equipamentos, docentes e seus assistentes. O conjunto foi construído
podem ajudar a prevenir o efeito colateral. Em 1998, o com dinheiro da Fundação Rockefeller e reproduzia o
grupo da Pneumologia publicou na revista científica The ensino médico praticado nos Estados Unidos, forte-
New England Journal of Medicine um estudo mostrando mente vinculado à pesquisa. Mas a medicina que se pra-
os danos da ventilação mecânica. “Um caso famoso é o ticava no Brasil, naquela época, tinha sotaque francês –
do presidente Tancredo Neves, que, depois de várias se- um modelo mais empírico e menos investigativo. Até
manas internado e respirando artificialmente, sofreu da- a Segunda Guerra, quando os professores da FMUSP

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FOTOS MIGUEL BOYAYAN / ACERVO MUSEU HISTÓRICO PROF. CARLOS DA SILVA LACAZ
USP
queriam se reciclar, cos-
tumavam ir a Paris.

Segunda mão - Em 1934,


com a fundação da USP,
a Faculdade de Medici-
na integrou-se, oficial-
mente, ao corpo da Uni-
versidade. A criação do
Hospital das Clínicas, em
1944, e o gigantismo que
logo adquiriu moldaram
o caráter assistencial e
formador de bons médi-
cos da faculdade. A pes-
quisa acabou ficando em
segundo plano. “Se você
analisar a biografia dos
grandes professores da
faculdade naquela época, A construção do prédio, no final dos anos 20,
verá que eram grandes foi financiada pela Fundação Rockefeller
clínicos ou cirurgiões,
grandes professores, mas
hoje seriam vistos como pesquisadores pouco produti- funcionários e a complementação salarial de empregados
vos”, diz o professor Eduardo Massad. A pesquisa que do HC. Exige-se que os médicos trabalhem em tempo
por muito tempo se fez na FMUSP, e ainda ocupa espa- integral – podendo até mesmo atender pacientes particu-
ço lá dentro, foi a que aproveita a diversidade de pacien- lares em consultórios na instituição. O exemplo do Incor
tes e seus diagnósticos para testar remédios. “Mas é um inspirou a criação, nos anos 1980, da Fundação Faculdade
tipo de pesquisa de segunda mão. As drogas não são de- de Medicina da USP, que também busca levantar recursos
senvolvidas aqui dentro”, completa Massad. A reforma privados para a instituição, mas não tem tanta flexibilida-
universitária de 1969 representou um golpe nas ativi- de quanto a Fundação Zerbini.
dades da pesquisa. Com a transferência das cadeiras bá-

‘‘
C
sicas da FMUSP para a Cidade Universitária, a faculdade riamos um ambiente em que médicos
ressentiu-se com a perda de pesquisadores e laboratórios. e funcionários trabalham motivados e
A reação veio em 1975, com a criação dos Laboratórios de a rotatividade é muito baixa, de 3%
Investigação Médica, os LIM, protagonistas da atual es- dos funcionários ao ano”, diz o profes-
calada de pesquisas. sor Sérgio Almeida de Oliveira, dire-
Também remonta aos anos 1970 uma experiência de tor da Divisão de Cirurgia Torácica e
gestão que teria impacto na instituição. Lastreado pelo Cardiovascular. A Fundação Zerbini
prestígio popular que conquistou ao realizar o primeiro reserva verbas para que os médicos do hospital submetam
transplante cardíaco do Brasil, o cirurgião Euryclides Zer- suas pesquisas a revistas internacionais e participem de
bini (1912-1993) conseguiu apoio e dinheiro para criar congressos. Em 2002 havia 463 projetos de pesquisa em
um apêndice do Hospital das Clínicas ligado à sua es- andamento. O fôlego financeiro da instituição, contudo,
pecialidade, o Instituto do Coração (Incor). Do governo vem do atendimento aos pacientes. O segundo prédio
estadual, conseguiu a cessão de um terreno na avenida do Incor, recém-inaugurado, foi idealizado para abrigar
dr. Enéas, à época um barranco nos fundos do Instituto apenas atividades de pesquisa. Mas, quando a Fundação
Emílio Ribas. Além da competência de seus clínicos e ci- Zerbini colocou o projeto na ponta do lápis, viu-se que
rurgiões, o Incor foi inovador no modelo de gestão. O era necessário ampliar o atendimento para arrecadar
instituto é gerenciado pela Fundação Zerbini, uma en- mais dinheiro do SUS e de convênios. Decidiu-se, então,
tidade de direito privado, que instituiu um modelo para reservar o 6º, 7º e 8º andares para internações. Hoje, o
captar recursos privados, reservando 20% dos leitos do hospital tem 510 leitos.
Incor para convênios médicos e pacientes particulares. Um paradoxo permeia a história da FMUSP. Não há
Os 80% demais são vagas do SUS. O modelo gerou um professor, aluno ou funcionário que não reclame da su-
equilíbrio financeiro que garantiu a continuidade de perlotação do HC e de seu impacto perturbador no
projetos de pesquisa nos anos 1980, quando a economia ambiente de ensino e na pesquisa. Mas é a demanda da
do país estagnou. A fundação promove a contratação de população que abastece o complexo com uma diversida-

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países, vemos que é pos-
sível melhorar”, diz.
É difícil mensurar o
impacto que o movimen-
to exagerado do HC tem
na formação dos estu-
dantes. “Nossos alunos
são tão bons que supe-
ram quaisquer deficiên-
cias da instituição”, diz
o professor Paulo Saldi-
va, coordenador do La-
boratório de Poluição
Atmosférica da FMUSP,
um dos mais produtivos
da instituição, com mais
de 20 pesquisas publica-
das por ano em revistas
internacionais. O vesti-
bular da FMUSP é con-
corridíssimo e seleciona
a elite dos candidatos – a
nota de corte do curso de
medicina é a mais alta en-
tre todas as carreiras. De-
pois vem a disputa pelas
vagas na residência médi-
ca, que atrai os melhores
alunos do país. Igualmen-
te, é concorrido o ingresso
nos programas de pós-
graduação. “Podemos nos
dar ao luxo de não absor-
ver os pesquisadores que
formamos, porque no
Dr. Arnaldo, cirurgião ano que vem virá uma
pioneiro (acima e à turma tão boa quanto a
dir.), fundou a FMUSP atual”, diz Saldiva.
em 1913, mas não viveu Os pesquisadores da
para ver a inauguração FMUSP gostariam que a
da sede, em 1931 (alto) instituição investisse mais
nos laboratórios de in-
vestigação médica. Lem-
de de diagnósticos e tratamentos que são uma matéria- bram que o SUS remunera o Hospital das Clínicas se-
prima fundamental para o ensino e a pesquisa. O pres- gundo uma tabela especial, pagando até 46% a mais a
tígio da instituição vem de sua capacidade de fazer cada procedimento porque se trata de um instituição
medicina de ponta, que é indissociável da pesquisa. Re- dedicada à pesquisa. “O hospital recebe do SUS 46% a
centemente, a direção do hospital anunciou a decisão de mais por fazer pesquisa, mas reverte à pesquisa apenas
rejeitar o atendimento de casos simples para investir na 2%. Pode-se dizer que é pouco”, diz o professor Eduardo
vocação original da instituição, que são os casos comple- Massad. Mas mesmo a concessão dos atuais incentivos à
xos. A medida, a rigor, já era realidade. O HC tem um te- pesquisa teve alguma oposição dos docentes que cul-
lefone para marcar consultas, criado para evitar as filas. tuam a tradição profissionalizante da instituição. Essa
Na prática, funciona como uma peneira. Recebe 20 mil tensão é saudável. Ninguém duvida de que a grande vo-
ligações por dia e agenda 200 consultas. “Sem dispersar cação da FMUSP continuará sendo a de grande escola
esforços com casos sem gravidade, seremos capazes de médica e a do HC, de importante pólo de assistência à
fazer pesquisas de mais qualidade e melhorar o ensino”, população. Mas o prestígio do quadrilátero das avenidas
afirma Giovanni Cerri, atual diretor da FMUSP. “A facul- dr. Arnaldo e dr. Enéas tem a muito a ver com a pesquisa
dade está muito bem quando é comparada a escolas do produzida ali, com a capacidade que a instituição man-
Brasil, mas, diante do desempenho de escolas de outros tém de empurrar as fronteiras da medicina. •
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Terra produtiva

S
Na série de reportagens ão européias as raízes da centenária Esco-
la Superior de Agricultura Luiz de Queiroz
sobre os 70 anos (Esalq), unidade da Universidade de São
Paulo (USP) que se tornou a principal refe-
da Universidade de rência em ensino de Ciências Agrárias no
São Paulo, país. O conceito acadêmico, com prédios de
arquitetura refinada entremeados por cam-
Pesquisa FAPESP pos experimentais, foi inspirado nas esco-
las agrícolas de Grignon, na França, e de Zu-
mostra a trajetória rique, na Suíça, freqüentadas na segunda
da centenária Escola metade do século 19 por Luiz de Queiroz (1849-1898), riquís-
simo herdeiro paulista. De volta ao Brasil formado em Agro-
Superior de Agricultura nomia, ele decidiu fundar uma escola seguindo os moldes eu-
ropeus. Comprou uma fazenda para erguê-la, nos arredores do
Luiz de Queiroz, a Esalq, município de Constituição, hoje Piracicaba, e pediu ajuda ao
que mudou hábitos governo republicano para construir os prédios. A subvenção,
porém, foi negada. Para não deixar a idéia morrer, Luiz de Quei-
alimentares dos brasileiros roz decidiu doar a fazenda ao governo com a condição de que a
escola, pública, surgisse ali. Ela seria fundada como escola práti-
e hoje lidera pesquisas ca de nível médio, em 1901, já depois da morte do idealizador,
em biotecnologia mas respeitou o sonho europeu. Em 1907, a fazenda transfor-
mou-se em parque, raro exemplo do estilo inglês de paisagismo
no Brasil. Os grandes gramados, alamedas de linhas curvas e
maciços de árvores em pontos estratégicos são hoje uma jóia
do ambiente urbano de Piracicaba. É assinado pelo belga Ar-
sênio Puttemans, também criador dos jardins do Museu do
Ipiranga, em São Paulo.
Transformada em escola superior e integrada à estrutura da
USP quando a instituição foi fundada há 70 anos, a Esalq seguiu
F ABRÍCIO M ARQUES bebendo da fonte européia. Seu patriarca acadêmico é o geneti-
cista Friedrich Gustav Brieger, judeu alemão que migrou para o
Brasil na leva de pesquisadores estrangeiros que fundaram a
USP. Pois foi nesse cenário de país temperado que se consolidou
um panteão científico da agricultura tropical. Sobretudo nos
primeiros 60 anos de atividade, a Esalq liderou pesquisas que
mudaram os hábitos alimentares dos brasileiros. Muitas horta-
liças, por serem de variedades européias, produziam bem no in-
verno, mas eram escassas e caras no verão. O brasileiro passou
a comer salada o ano inteiro graças a pesquisas de melhora-
mento genético de alface, repolho, brócolis, couve-flor, cebola e
berinjela feitas na Esalq. A instituição teve papel-chave no de-
senvolvimento de variedades de milho mais nutritivas e ricas
em aminoácidos. E também na pesquisa de propriedades do
solo e nutrição de plantas que transformou o cerrado brasilei-
ro, antes imprestável para o plantio, em celeiro de 30% da pro-

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FOTOS EDUARDO CESAR
Ceres, deusa
da agricultura,
orna a sala
da diretoria dução de grãos. Não dá para escapar do clichê: a Esalq muitas
da Esalq, em vezes foi a salvação da lavoura para os agricultores. Certa vez,
pintura de 1916 no final dos anos 1950, um grupo de produtores do cinturão
verde de Mogi das Cruzes, de origem nipônica, levou ao então
governador Jânio Quadros um pedido inusitado. Queriam que
o governo concedesse o regime de tempo integral – e o respec-
tivo salário maior – ao professor Marcílio de Souza Dias, artífi-
ce de pesquisas de melhoramento genético. Figura lendária,
Marcílio foi escolhido o Pesquisador do Centenário da Esalq, em
2001. Avesso aos trâmites normais da carreira acadêmica, vivia
nos campos, fazendo cruzamentos de plantas e avaliando os re-
sultados. Com produção científica escassa, nem sequer tinha
doutoramento. Jânio promoveu o professor.
O perfil da escola mudou nas últimas décadas. O ensino, é
certo, continua de boa qualidade. Os seis cursos de graduação
oferecidos (Agronomia, Engenharia Florestal, Ciências Eco-
nômicas, Ciências Biológicas, Ciências dos Alimentos e Gestão
Ambiental) são freqüentados por 1.830 alunos. No último Pro-
vão, Éverton Yoshiaki Hiraoka, da Esalq, recebeu a nota mais
alta entre todos estudantes de Engenharia Agronômica do país.
Mas a escola já não é um celeiro isolado de bons profissionais,
como chegou a acontecer no passado. Divide o topo da gra-
duação com instituições como a Universidade Federal de Vi-
çosa (UFV) ou as unidades da Universidade Estadual Paulista
(Unesp) em Botucatu e Jaboticabal. Aquele tipo de trabalho de
campo em que se destacava o professor Marcílio de Souza Dias
passou a ser liderado pela Empresa Brasileira de Pesquisa Agro-
pecuária, a Embrapa (onde, aliás, centenas de ex-alunos da
Esalq atuam como pesquisadores). A pesquisa aplicada da Esalq

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FOTOS EDUARDO CESAR


USP

O Departamento de Genética conseguiu


desenvolver eucaliptos transgênicos, que
prometem mais celulose por árvore

tem espaço agora em áreas emergentes como controle vice-diretor da Esalq e presidente da Comissão de Pes-
biológico de pragas. A escola desenvolveu uma armadi- quisa. Apoiados no Núcleo de Apoio à Pesquisa em Bio-
lha natural para capturar mariposas conhecidas como logia Celular e Molecular na Agropecuária, os pesquisa-
bicho-furão, que na fase de lagarta ataca frutas cítri- dores participaram dos projetos Genoma da Xylella, da
cas. A armadilha revela o grau de infestação dos cítricos cana-de-açúcar, da Xanthomonas, do câncer, do café e do
e aponta a hora adequada de aplicar inseticidas. Esta eucalipto, entre outros.
pesquisa foi desenvolvida por José Roberto Postali Par- Há dez anos, a Esalq foi pioneira na pesquisa de bio-
ra, atual diretor da escola, e José Maurício Simões Ben- tecnologia aplicada a animais. Hoje, o Departamento de
to, em colaboração com a UFV e a Universidade da Ca- Zootecnia está integrado a dois grandes projetos de se-
lifórnia, Davis. qüenciamento genético. Um deles é o Genoma Frango,
em parceria com a Embrapa Suínos e Aves. O projeto

A
escola passou a investir fortemente em começou há três anos e já identificou diversos genes re-
outra vocação: a pós-graduação, que já lacionados ao desenvolvimento muscular do frango. O
conferiu 5.300 títulos de mestrado e objetivo é encontrar a raiz genética que leva frangos a
doutorado desde 1964, quando foi cria- acumular mais proteína do que gordura, a fim de me-
da. Seus 16 programas, atualmente fre- lhorar a qualidade da carne. O outro projeto é o Geno-
qüentados por 1.117 alunos, foram ma Funcional do Boi, realizado em colaboração com a
responsáveis pela formação de 70% Unesp de Botucatu, financiado pela FAPESP e a Cen-
dos doutores brasileiros em Ciências Agrárias. No cam- tral Bela Vista Genética Bovina, empresa que comercia-
pus de Piracicaba, surgiria nos anos 1960 outra institui- liza sêmen e embriões bovinos. O projeto está concluindo
ção de pesquisa e pós-graduação, o Centro de Energia a fase de seqüenciamento e sairá em busca da identifica-
Nuclear na Agricultura (Cena), também vinculado à ção de genes relacionados à resistência a parasitas, à efi-
USP, mas com administração própria. O resultado dessa ciência reprodutiva e à qualidade do couro.
nova estratégia na Esalq foi a expansão de laboratórios e O único laboratório de biotecnologia animal a par-
o investimento em fronteiras do conhecimento que nem ticipar da rede que seqüenciou o genoma da Xylella
sempre geram aplicações imediatas. O exemplo mais elo- fastidiosa, a praga do amarelinho nos laranjais, foi a Zo-
qüente é o da área de biotecnologia. “No início dos anos otecnia da Esalq. “A oportunidade de participar do
1990, tivemos a sensibilidade de atrair um grupo de projeto em parceria com outras instituições nos ajudou
jovens doutores que voltavam do exterior e, com eles, a criar competência na área genômica, que agora com-
avançamos em biotecnologia”, diz Raul Machado Neto, partilhamos com outras instituições”, diz Luiz Leh-

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PESQUISA FAPESP 98
O vitral no prédio principal virou
logomarca da Esalq e pôsteres
com a imagem espalham-se pela instituição

mann Coutinho, professor-associado da


Esalq e responsável pelo laboratório, refe-
rindo-se a professores, pesquisadores e es-
tudantes de pós-graduação de várias insti-
tuições que passam pela Esalq. Lehmann é
um dos pesquisadores que chegaram à
escola no início dos anos 1990, depois de
fazer mestrado e doutorado em Zootecnia
na Universidade de Michigan e pós-dou-
toramento em genética molecular. Nem só
de pesquisa básica vive o laboratório. São
oferecidos a produtores diversos testes ge-
néticos antes disponíveis apenas no exteri-
or. Suinocultores enviam à Esalq amostras
de pêlo ou sangue de seus animais, para
pesquisar a incidência de um gene rela-
cionado à má qualidade da carne e outro
ligado à capacidade de gerar mais filho-
tes em cada gestação. O resultado dos tes-
tes determina a escolha dos porcos para
reprodução. O laboratório também faz
exames de DNA em bois. Para quê? Para
garantir que um boi é mesmo o filho de
animais reconhecidamente superiores, pois
isso tem alto valor comercial. O erro no
diagnóstico de paternidade chega a 30%
nas fazendas de corte.

O
utro projeto de des-
taque é o desenvolvi-
mento de eucaliptos
modificados geneti-
camente. Uma equi-
pe do Departamento
de Genética da Esalq
conseguiu introduzir no eucalipto, maté-
ria-prima da celulose, um gene de ervilha
ligado à fotossíntese. O objetivo é melho-
rar a captação de luz solar, aumentar a bio-
massa da árvore e produzir mais celulose.
A Companhia Suzano de Papel e Celulose,
que tem interesse nessa investigação, doou
R$ 585 mil para reforma e compra de equi-
pamentos do Laboratório de Genética de
Plantas (rebatizado como Max Feffer, pio-
neiro no uso do eucalipto para produção
de celulose e filho do fundador da Suzano,
Leon Feffer). “A produtividade do euca-
lipto pode aumentar em 2% a 3 % e será
possível obter mais celulose com menos
processos químicos e custo reduzido”, diz
Carlos Alberto Labate, professor do Depar-
tamento de Genética e coordenador do la-
boratório. As primeiras avaliações sobre a
eficiência do processo devem despontar

PESQUISA FAPESP 98 ■
ABRIL DE 2004 ■
65
USP 70
em 2005. A Esalq aguarda autorização
da Comissão Técnica Nacional de Bios-
segurança (CTNBio) para levar as mudas
transgênicas a campos experimentais. O
laboratório tem objetivos de longo pra-
zo: buscar genes envolvidos na formação
e na qualidade da madeira. Não é novi-
dade o interesse da iniciativa privada na
massa crítica gerada pela Esalq. Mas as
parcerias, que se concentravam na área
de assistência técnica, andam cada vez
mais sofisticadas. Na pesquisa do euca-
lipto, busca-se um produto – a madeira
com mais celulose. E, para chegar a ele,
desenvolve-se pesquisa básica e aplicada.
“As coisas andam juntas”, diz Labate.
“Para alcançar a aplicação é preciso fazer
pesquisa básica e a empresa que nos pa-
trocina sabe disso. Nossos alunos de ini-
ciação científica e de doutorado enrique- A Esalq participa do Genoma Funcional do Boi
cem sua formação nesse ambiente.” e sairá à procura de genes envolvidos na
qualidade do couro e na resistência a parasitas

A
escola tem outras parcerias
célebres. A Bolsa de Mer-
cadorias & Futuros fi-
nanciou a construção
do prédio do Centro
de Estudos Avança-
dos em Economia Aplicada (Cepea), tência individualizada. Essa formação generalista, hoje,
da Esalq, com a qual mantém um acordo para produção está longe de ser suficiente. De um lado, a proliferação
de indicadores agrícolas. Outro trabalho importante é o de escolas de agronomia tornou a competição entre os
monitoramento de microbacias hidrográficas, coor- profissionais mais acirrada. De outro, a agricultura mu-
denado pelo professor Walter de Paula Lima, do De- dou numa velocidade enorme, ganhou produtividade e
partamento de Ciências Florestais, em convênio com escala econômica, e se tornou mais dependente de tec-
o Instituto de Pesquisas e Estudos Florestais (Ipef). Esse nologia. Isso exige do profissional uma especialização
programa teve início em 1987 e já estabeleceu estações muito maior. A Esalq começa a apostar, por exemplo, na
em vários estados, a pedido de empresas florestais, como agricultura de precisão, conceito que balança alicerces
a Votorantim Celulose e Papel, Aracruz, Eucatex e Cope- da pesquisa agronômica. A agricultura de precisão pon-
brás. O objetivo é acompanhar o impacto da exploração tifica que cada região de uma área de plantio carece de
nas bacias atingidas e obter indicadores para subsidiar o quantidades peculiares de adubos e corretivos. Essa
manejo sustentável das florestas. Esse trabalho, que per- idéia, que já existe há muito tempo, tomou forma na Eu-
mite às empresas corrigir agressões ao ambiente, tam- ropa, em especial na Dinamarca, devido a uma limitação
bém produz conhecimento científico. Com informações legal da aplicação de fertilizantes. Avaliam-se essas ne-
colhidas numa área explorada pela Votorantim Celulose cessidades medindo a produtividade de cada pedaço do
e Papel, os pesquisadores da Esalq e do Ipef concluíram terreno. Depois, aplica-se mais adubo nas partes que
que a falta de cálcio numa área de reflorestamento de renderam mais (pois elas tiraram mais nutrientes do
eucaliptos podia ser resolvida com uma medida simples: solo). Colheitadeiras ligadas a um sistema de geoproces-
deixando-se a casca das árvores, que é rica em cálcio, no samento por satélite, o GPS, marcam os locais em que a
solo, em vez de levar embora as árvores com casca.“Nos- produção é maior e registram esse desempenho num
so trabalho permite às empresas calibrar seus indicado- mapa, que servirá de guia para a aplicação do adubo.
res ambientais”, diz o professor Walter de Paula Lima. A agricultura de precisão já produziu economia de até
A mudança no perfil da Escola Luiz de Queiroz refle- 30% em insumos e vem ganhando espaço nos Estados
te, de certo modo, a transformação do mercado de tra- Unidos e na Europa. Mas desafia, de certo modo, toda a
balho das Ciências Agrárias. Até 20 anos atrás, os agrôno- pesquisa agronômica, pois ela tira conclusões partindo
mos formados pela escola tinham o clássico perfil do do pressuposto de que um terreno contínuo tem neces-
extensionista, aquele que visita propriedades e dá assis- sidades uniformes de nutrientes.

66 ■
ABRIL DE 2004 ■
PESQUISA FAPESP 98
eram acompanhados

AGÊNCIA NATIVA DO MEIO RURAL


por meio de tabelas de
sindicatos patronais e
de caminhoneiros. Os
valores tornaram-se a
principal referência em
modelos matemáticos
para racionalizar rotei-
ros de cargas agrícolas.
O levantamento é pu-
blicado gratuitamente
num pequeno jornal e
disponibilizado no site
do Esalq-Log, no ende-
reço eletrônico http://
log.esalq.usp.br. O gru-
po trabalha em outras
frentes. Um caso exem-

EDUARDO CESAR
plar foi o modelo cria-
do para uma empresa
produtora de lírios em
Holambra, interior pau-
lista. A logística do ne-
gócio envolvia a melhor
No Genoma Frango, busca-se a hora de importar os
raiz genética que produz carne bulbos da Holanda e
mais proteica e menos gordurosa cultivá-los em estufa em
quantidade maior para
a demanda atípica das
datas comemorativas.
O modelo matemático,
com 120 mil variáveis e

J
osé Paulo Molin, professor do Departamento 400 mil restrições, gerou um mapa diário com ordens de
de Engenharia Rural, lidera a pesquisa em importação e de produção que levou a um aumento
agricultura de precisão na Esalq, que, com a de faturamento de 26% na empresa, sem novos inves-
ajuda de outros departamentos e instituições, timentos. “Nosso desafio é mostrar aos profissionais
busca desenvolver uma tecnologia mais barata de Ciências Agrárias que eles podem gerar ganhos até
e adaptada à realidade nacional. Uma das al- com modelos matemáticos muito simples”, afirma Cai-
ternativas é delimitar pedaços do terreno e xeta Filho.
avaliar a quantidade de nutrientes em cada Aposentado há 20 anos, o professor de Genética Er-
um deles, sem a necessidade do GPS. Com base nas in- nesto Paterniani, hoje ouvidor do campus Luiz de Que-
formações, criam-se mapas para lançar adubo. “A agri- roz, que congrega a Esalq e o Cena, lembra com certa
cultura de precisão teve altos e baixos nos Estados Unidos, nostalgia dos tempos em que pesquisa se fazia nos cam-
devido ao excesso de promessas. Não é uma panacéia, pos experimentais, não nos laboratórios ou na frente de
mas não se pode fechar os olhos para ela”, diz Molin, que computadores. “Corríamos um risco maior”, brinca ele.
participa da organização do 1º Congresso Brasileiro de “Quando apresentávamos uma novidade a ser aplicada
Agricultura de Precisão, programado para maio. a um legume ou hortaliça, ela era testada imediatamen-
O interesse pela Matemática e Estatística, inaugura- te por milhares de agricultores e, se estivéssemos erra-
do na Esalq pelo geneticista Friedrich Gustav Brieger dos, as reclamações vinham de todo lado.” Paterniani
nos anos 1930 e difundida por Francisco Pimentel Go- teme que o futuro da pesquisa agrícola brasileira esteja
mes, hoje produz ferramentas na área de Logística. Pro- ameaçado, devido à limitação de recursos da Embrapa e
fessores e alunos do Grupo de Pesquisa e Extensão em à escalada de restrições legais aos produtos biotecnoló-
Logística Agroindustrial (Esalq-Log) dedicam-se a criar gicos. Acha que a Esalq deveria calibrar melhor seus es-
sistemas de informação e modelos matemáticos que au- forços de pesquisa para impedir que isso aconteça. “Se a
xiliem na gestão dos agronegócios. Liderado por José Vi- pesquisa no Brasil parasse hoje, isso só seria sentido em
cente Caixeta Filho, a equipe desenvolveu, em meados alguns anos, quando viesse uma praga nova ou a produ-
dos anos 1990, o pioneiro Sistema de Informações sobre tividade de outros países aumentasse”, afirma ele. Caso o
Fretes (Sifreca), disponibilizando os preços de fretes de cenário se confirme, os agricultores sabem onde procu-
50 produtos agrícolas praticados em mais de 5 mil rotas. rar ajuda, como os hortelões japoneses que foram bater
Até o advento do Sifreca, os preços de frete no Brasil à porta do governador Jânio Quadros. •
PESQUISA FAPESP 98 ■
ABRIL DE 2004 ■
67
USP 70
Na série de
reportagens sobre
os 70 anos da
Universidade de São
Paulo, Pesquisa
FAPESP mostra as
soluções tecnológicas
criadas pela Escola
Politécnica da USP,
celeiro de
profissionais que
ajudaram a
modernizar o país

Usina de engenhos
F ABRÍCIO M ARQUES

O
s 111 anos de história da das quando São Paulo insurgiu-se contra Getúlio Var-
Escola Politécnica da Uni- gas em 1932. A Escola, que se incorporou à Universi-
versidade de São Paulo dade de São Paulo em 1934, logo ganharia fama de
(Poli-USP) resumem a celeiro de homens públicos – um punhado de gover-
trajetória de um país que nadores paulistas passaram por ela.
soube se modernizar a Entre as décadas de 1950 e 1970, aquela fase em
passos velozes. São Paulo que a economia brasileira cresceu a taxas de tigre
ganhou ares cosmopoli- asiático e carecia de soluções tecnológicas para las-
tas graças, em boa medi- trear o desenvolvimento, o engenheiro politécnico
da, à contribuição de pio- viveu talvez a sua fase de ouro. “A gente ia de ônibus
neiros como o engenheiro Antonio Francisco de Paula para a faculdade carregando aquela enorme régua T
Souza (1843-1917) ou o construtor de edifícios e pa- e chamava atenção. Muito futuro engenheiro arru-
lacetes Francisco de Paula Ramos de Azevedo (1851- mou namorada assim”, lembra o professor Moacyr
1928), ambos fundadores da Escola Politécnica de São Martucci Júnior, presidente da Comissão de Pesqui-
Paulo, em 1893. No final dos anos 1920, quando go- sa da Poli-USP. O advento da informática provocou
vernar virou sinônimo de construir estradas, a institui- um terremoto na engenharia, que explodiu em no-
ção forneceu quadros para riscar um primeiro rascu- vas especialidades. Da engenharia elétrica, brotou a
nho da malha rodoviária que, décadas mais tarde, engenharia de computação. Das engenharias elétri-
substituiria de vez as ferrovias. Engenheiros politécni- ca e mecânica surgiu a mecatrônica. Os computa-
cos aventuraram-se até a produzir blindados e grana- dores levaram a régua T a uma merecida aposenta-

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JUNHO DE 2004 ■
PESQUISA FAPESP 100
FOTOS EDUARDO CESAR
A Caverna Digital
simula ambientes
interativos para
pesquisas em
diversas áreas da
engenharia

doria e estabeleceram novas bases para o ensino e a USP destacaram-se na criação de softwares e na segu-
pesquisa da instituição, onde trabalham hoje 495 do- rança de redes.
centes e estudam 4,3 mil alunos de graduação e 4 mil O Laboratório de Arquitetura e Redes de Computa-
de pós-graduação. dores da Escola é referência mundial em códigos de crip-
A Poli-USP metamorfoseou-se para manter seu papel tografia. Paulo Barreto, pesquisador da Poli e criptolo-
modernizador e continuou criando engenhos capazes de gista-chefe da empresa brasileira Scopus, participou da
melhorar o bem-estar da sociedade. É possível citar con- criação dos algoritmos adotados para assinatura digital
tribuições marcantes de pesquisadores e profissionais da Comunidade Européia e do governo norte-america-
formados da instituição em inúmeras áreas. Nos anos no, depois de vencer concursos internacionais que defi-
1960, o planejamento na área de transportes no país, niram os padrões de segurança. O Laboratório também
que transformou a engenharia de tráfego em ciência e criou ambientes seguros para páginas de diversos bancos
foi aplicado na construção das linhas de metrô, também na Internet e desenvolveu um sistema de segurança na
despontou graças ao trabalho de professores da Poli, arrecadação do Imposto sobre Propriedade de Veículos
como Íon de Freitas e Antonio Galvão Novaes. Entre Automotores (IPVA), que acabou com as fraudes prati-
1990 e 1994, a Escola Politécnica da USP foi dirigida cadas nos computadores do Detran de São Paulo.
pelo professor Francisco Romeu Landi, diretor-presi-
dente do Conselho Técnico-Administrativo da FAPESP, Tanque numérico - No campo das telecomunicações,
que morreu em abril aos 71 anos. professores da Poli-USP foram contratados no início
Se o Brasil hoje dispõe de uma indústria de micro- dos anos 1970 pela Telebrás para ajudar a modernizar
eletrônica e expertise na área de telecomunicações, deve as centrais telefônicas brasileiras, que eram analógicas.
isso à capacidade da Escola Politécnica em fazer pesqui- A digitalização das centrais ampliou o acesso dos bra-
sa e formar mão-de-obra nessas áreas nos últimos 30 sileiros ao telefone e integrou o território nacional. Esse
anos. A Escola reivindica a criação do primeiro compu- grupo também desenvolveu, em 1976, o protótipo que
tador brasileiro. Batizado de “Patinho Feio”, foi obra de propiciou as ligações de discagem direta internacional.
pesquisadores da área de engenharia elétrica, em 1972. Parte desses pesquisadores acabou desgarrando-se da
Passados 30 anos, essa semente produziu uma árvore de Escola para fundar o Centro de Pesquisas e Desenvol-
frutos carregados. Embora o Brasil, como vários outros vimento da Telebrás (CPqD), um dos principais dína-
países, não tenha conseguido desenvolver uma indústria mos da pesquisa brasileira em telecomunicações.
de computadores competitiva como planejado inicial- A indústria naval brasileira ganhou consistência a
mente, os pesquisadores da área de informática da Poli- partir de 1956, depois de um estratégico convênio cele-

PESQUISA FAPESP 100 ■


JUNHO DE 2004 ■
109
USP 70

Nos primórdios da Escola Politécnica, um dos laboratórios


reunia modelos arquitetônicos de escadas e pórticos

brado entre a Marinha e a Poli, que deu origem ao De- mas Integráveis de Politécnica abriga, desde 2000, a Ca-
partamento de Engenharia Naval e Oceânica. O depar- verna Digital, um complexo para realidade virtual, que
tamento continua ativo, mas encontrou novas vocações. cria um ambiente interativo por meio de projeções de
Nos últimos quinze anos, fortaleceu os laços com a Pe- imagens múltiplas. Até seis pessoas podem entrar na ca-
trobras numa linha de pesquisa que culminou com a verna ao mesmo tempo e interagir com o mundo simu-
criação, em 2001, de um tanque de provas numérico. lado por computador. Além das aplicações nos ramos da
Trata-se de um simulador, dotado de um cluster de 120 engenharia, a caverna também pode ser usada na medi-
microcomputadores pessoais, capaz de projetar modelos cina, na astronomia, na produção de jogos interativos.
tridimensionais de qualquer coisa: aviões, carros, navios. O elo entre as vocações do passado e as do presente
“Num tanque numérico, o processamento de informa- torna-se mais palpável em alguns departamentos da
ções é muito mais rápido e é possível realizar simula- Poli-USP, como o de Engenharia de Energia e Automa-
ções de sistemas bastante complexos”, diz o professor ção Elétricas. Sob o comando do professor José Rober-
Hélio Mitio Morishita, chefe do departamento. No caso to Cardoso, o Laboratório de Eletromagnetismo Aplica-
da Petrobras, o principal interesse é o desenvolvimento do segue trabalhando com a pesquisa em tração elétrica
de sistemas oceânicos, como plataformas de petróleo, de ferrovias e de metrôs. “Como participamos da im-
complexos demais para serem testados num tanque de plantação da primeira linha do metrô de São Paulo, o
provas de verdade. conhecimento ficou acumulado”, diz Cardoso. Não há
muito trabalho a fazer em relação a ferrovias, que cada

A
Marinha usou os serviços do tanque nu- vez mais perdem importância como meio de transpor-
mérico da Poli-USP antes de fazer as te. Mas como várias capitais brasileiras estão construin-
adaptações no porta-aviões São Paulo, do seus metrôs, o laboratório tem sido convocado a aju-
que pertencia à França. Havia dúvidas dar, fazendo simulações das composições caminhando
se a enorme embarcação caberia no na linha em várias velocidades, além da quantidade de
dique seco do arsenal da Marinha, no energia necessária para fazer todo o sistema funcionar.
Rio, onde seria reformada. Com O laboratório também se dedica à pesquisa sobre
base em imagens e medidas tiradas do porta-aviões e do interferências eletromagnéticas. Ajudou, por exemplo,
dique, o tanque mostrou que era possível, sim, estacio- fabricantes de eletrodomésticos a controlar as emissões
nar o porta-aviões lá dentro – tirando uma fina, é verda- eletromagnéticas de seus produtos nos níveis exigidos
de. Só depois da simulação é que a reforma começou. internacionalmente. Também auxiliou a Marinha a fa-
Ferramentas de realidade virtual são cada vez mais usa- zer um estudo de compatibilidade eletromagnética do
das em escolas de engenharia. O Laboratório de Siste- projeto de submarino de propulsão nuclear que está

110 ■
JUNHO DE 2004 ■
PESQUISA FAPESP 100
Ramos de Azevedo Na Revolução de 32,
ajudou a moldar a os engenheiros
arquitetura paulista fizeram blindados

sendo desenvolvido no acadêmica da Escola, de-


complexo de Aramar, no senvolveu um método ca-
interior paulista. Trata-se paz de reciclar a poeira
de um estudo sofistica- de minério de ferro que
díssimo, dada a profusão era descartada e poluía o
de fios e circuitos previs- ambiente. Essa poeira,
tos para o gigantesco pro- obtida em grande quan-
tótipo. Mas a vida do la- tidade no processo de de-
boratório não se resume gradação do minério, en-
a dar suporte para quem tupia os fornos e era
precisa. A pedido da Pe- considerada imprestável.
trobras, foi desenvolvido Num trabalho sobre o
um motor tubular linear para extração de petróleo que comportamento térmico de materiais, os pesquisado-
vai substituir os equipamentos mecânicos conhecidos res da Poli constataram que, ao misturar a poeira de
como cavalos-de-pau instalados em 9 mil poços terres- minério de ferro com carvão, produziam-se pelotas ou
tres no país. O motor elétrico tem o dom de aumentar pequenos tijolos que, após um processo de cura, fi-
a vazão dos poços e sofre um desgaste menor, pois, ao cavam duríssimos e podiam ser armazenados. O des-
contrário do cavalo-de-pau, não produz atrito com as perdício e a poluição acabaram. Hoje as pelotas são
paredes do poço. usadas nos fornos como matéria-prima de aço. “A pes-
A Escola envolve-se em pesquisas de caráter teórico quisa teve grande importância na busca de processos
com a mesma disposição com que busca soluções para limpos e não poluentes na metalurgia”, diz o professor
problemas prosaicos. No Departamento de Engenharia José Deodoro Trani Capocchi, chefe do Departamento
de Transportes, testa-se o emprego de um pavimento de Engenharia Metalúrgica e de Materiais. São 400 tra-
composto em que placas de concreto de cimento traba- balhos científicos publicados em revistas indexadas a
lham de forma aderida ao concreto asfáltico. A técnica, cada ano. Seus pesquisadores às vezes ajudam a resol-
trazida nos Estados Unidos, cria uma superfície mais ver crimes. A pedido da Polícia Científica de São Pau-
resistente e ajuda na manutenção de pavimentos com lo, fazem pareceres sobre a deformação de projéteis ou
deficiências estruturais. O Departamento de Engenha- o desgaste de outros materiais, capazes de elucidar as
ria Metalúrgica e de Materiais, o de maior produção circunstâncias de homicídios ou acidentes.

PESQUISA FAPESP 100 ■


JUNHO DE 2004 ■
111
USP 70

O motor tubular elétrico, desenvolvido a pedido da Petrobras,


vai substituir bombas mecânicas de 9 mil poços de petróleo

Dentro da Politécnica, também funciona o Centro In- Como na maioria das carreiras, o campo de conhe-
ternacional de Referência em Reuso da Água (Cirra), vin- cimento da engenharia expandiu-se muito nas últimas
culado ao Departamento de Engenharia Hidráulica e Sa- décadas e a Escola Politécnica esforçou-se em abarcar
nitária. O grupo de pesquisadores da instituição trabalha todos os desdobramentos, criando novos departamen-
em várias frentes, do desenvolvimento de sistemas hi- tos e especializações. Mas as mudanças e oscilações do
dráulicos que economizem água (como uma caixa de des- mercado de trabalho andam tão abruptas que um
carga para vaso sanitário com apenas 3 litros de água) ao ramo da engenharia muito disputado num vestibular
teste de estratégias de reaproveitamento de recursos hídri- pode ter seu interesse reduzido poucos anos mais tar-
cos, como o uso de água não tratada na agricultura, em de, quando o estudante estiver se formando. Isso já
sistemas de refrigeração de indústrias ou na irrigação de aconteceu várias vezes. A tradicional engenharia civil,
áreas verdes urbanas. Também ajuda a Agência Nacional por exemplo, perdeu força nos anos 1980, a década
de Águas a formular novas políticas contra o desperdício. perdida em que o Brasil parou de fazer hidrelétricas e
estradas, frustrando uma geração de jovens profissio-

N
o rol das aplicações práticas, um nais. Hoje a procura pela engenharia civil melhorou.
pesquisador do Cirra desenhou Apesar do jejum de grandes obras, abriu-se espaço
um sistema de reaproveitamento para os engenheiros, por exemplo, na expansão da
de água que servirá ao terceiro construção civil e da infra-estrutura de saneamento. A
terminal no Aeroporto de Cumbi- engenharia de telecomunicações viveu o apogeu e a
ca, em Guarulhos, a ser construí- queda num curtíssimo espaço de tempo. Com as priva-
do nos próximos anos. Hoje toda tizações, em meados dos anos 1990, a concorrência no
a água usada nos dois terminais do aeroporto, que rece- vestibular explodiu, mas houve uma severa retração
be 14 milhões de passageiros por ano, é retirada de seu em 2000 e 2001, que espantou o interesse dos candida-
subsolo. A construção de um terceiro terminal vai re- tos. “Nem a euforia nem a ressaca se justificavam”, diz
querer uma nova solução, pois o manancial está à beira Paul Jean Etienne Jeszensky, professor do Departamen-
do esgotamento e não terá água suficiente. A proposta é to de Engenharia de Telecomunicações e Controle.
submeter a água servida a um tratamento parcial, utili- “Hoje caminha-se para um equilíbrio no mercado de
zando-a de novo para lavar a pista e resfriar o sistema trabalho, um cenário que não é tão bom nem tão ruim
de ar condicionado do aeroporto, para citar dois exem- como já se imaginou”, afirma.
plos. “É possível estabelecer um uso mais parcimonioso Tais oscilações são naturais e, exceto pela decepção
da água a partir de múltiplas estratégias”, diz o profes- que geram nos recém-formados, não trazem conse-
sor Ivanildo Hespanhol, diretor do Cirra. qüências profundas. Acontece que o engenheiro politéc-

112 ■
JUNHO DE 2004 ■
PESQUISA FAPESP 100
O Centro de Referência em Reuso de Água busca
soluções para combater o desperdício

conta o impacto ecológico que a obra causaria.


Construída no início dos anos 1980, a usina de
Balbina, que abastece Manaus, capital do Ama-
zonas, é um exemplo de belíssima obra de en-
genharia que perpetrou um crime ecológico,
criando um gigantesco lago raso em que espé-
cies de árvores apodrecem até hoje. “A forma-
ção excessivamente técnica às vezes faz com
que o engenheiro raciocine sem levar em con-
ta que há gente no processo”, diz o professor
Hélio Morishita, cujo departamento, o de En-
genharia Naval e Oceânica, alterou seu currí-
culo e hoje exige que seus estudantes façam 24
disciplinas optativas em outras unidades da
Universidade de São Paulo.

A

escolha dessas disciplinas cabe
ao estudante. O melhor é que
eles tenham contato com a
sociologia, a comunicação, a
filosofia. Alguns resistem e
vão fazer as disciplinas na
Faculdade de Economia
e Administração, que tem mais afinidades
nico é formado, antes de tudo, para se adaptar a novas com a engenharia”, diz Morishita. O Departamento de
situações, para estar pronto a solucionar problemas que Engenharia Elétrica promoveu uma alteração seme-
sequer podem ser imaginados hoje. “A Escola fornece lhante no currículo. A humanização na formação dos
uma excelente base. A bagagem é do aluno”, diz Jes- alunos é um dos objetivos do Poli 2015, um programa
zensky. “Preparamos profissionais para a tomada de de- para ajustar a Escola, até o ano de 2015, aos desafios
cisões, profissionais que estão sempre prontos a apren- desse início de século. Entre as metas declaradas do Po-
der coisas novas”, diz Moacyr Martucci, presidente da li 2015, destacam-se “a competência no relacionamento
Comissão de Pesquisa. Assim como os engenheiros civis humano e na comunicação, a postura ética e o compro-
frustrados dos anos 1980 fizeram carreiras reluzentes metimento cultural e social com o Brasil”. Sem abrir
dentro e fora da engenharia – o mercado financeiro, por mão, é claro, da excelência do ensino.
exemplo, abasteceu-se fartamente desses profissionais –, O futuro da Poli-USP também é virtual. A educa-
a turma das telecomunicações será absorvida. Mas tam- ção a distância já é uma realidade. As aulas de 105 dis-
bém existem cursos que não conhecem crise. O de ciplinas são gravadas em vídeo e disponibilizadas na
engenharia de computação oferece duas turmas de 40 Internet, assim como o material didático utilizado pelo
alunos a cada vestibular. Uma dessas turmas faz um professor. Quem faltou à aula pode assisti-la em casa,
curso nos moldes tradicionais. A outra tem uma grade na tela do computador. Caso o estudante virtual não
curricular diferente, em que teoria e prática têm o mes- entenda a explanação, pode interagir entrando num
mo peso. Os módulos se alternam a cada quadrimestre chat e fazendo perguntas. Se for uma dúvida que outro
– ora o estudante dedica-se a disciplinas teóricas, ora aluno já teve antes (80% delas são recorrentes), a res-
faz um estágio numa empresa, que a própria Escola se posta está armazenada e vem na hora. Senão, o professor
encarrega de arrumar para os alunos. “O engenheiro sai responde mais tarde, por e-mail. Os cursos e seu mate-
formado com uma base teórica forte e também com rial didático agora começam a ser franqueados a qual-
uma notável experiência profissional”, diz o professor quer pessoa que tenha computador em casa. “A idéia é
Wilson Vicente Ruggiero, do Departamento de Enge- disseminar o conhecimento depositado na Poli para
nharia de Computação e Sistemas Digitais. outras faculdades e estudantes de engenharia, é devol-
A Escola ensaia uma mudança conceitual na forma- ver à sociedade, da forma mais ampla possível, o inves-
ção de seus alunos. Existe uma demanda do mercado de timento que ela fez nessa escola”, diz o professor Wilson
trabalho por profissionais com uma bagagem mais hu- Vicente Ruggiero. Se der certo, a escola que nasceu vin-
manística. O engenheiro de hoje precisa levar em conta culada à elite – os fundadores Ramos de Azevedo e
variáveis que eram relegadas antigamente. Já vai longe o Paula Souza tiveram de ir à Europa para se formar –
tempo em que se projetava uma hidrelétrica sem levar em terá feito um belo acerto de contas com o passado. •

PESQUISA FAPESP 100 ■


JUNHO DE 2004 ■
113
USP 70
Omolde da
excelência
acadêmica
Na série de reportagens sobre
os 70 anos da Universidade
de São Paulo, a trajetória da
Faculdade de Filosofia, Letras
e Ciências Humanas,
laboratório de idéias que
transformou o ensino superior

F ABRÍCIO M ARQUES

A
Universidade de São Paulo (USP)
tornou-se o grande paradigma bra-
sileiro em excelência acadêmica
graças a um modelo semeado
pioneiramente na Faculdade de
Filosofia, Letras e Ciências Hu-
manas (FFLCH). A USP foi
criada em 1934, incorpo-
rando notáveis escolas su-
periores que já formavam
profissionais da elite paulista brasileira, como a Fa-
culdade de Medicina, a de Direito do largo de São
Francisco e a Politécnica. Mas na Faculdade de Filo-
sofia, nascida em conjunto com a universidade para
servir de amálgama interdisciplinar entre as unidades
já existentes, aplicaram-se conceitos que moldariam
o ensino superior nacional, como a indissociabili-
dade do ensino e da pesquisa, o rigor científico como
método e o investimento na pesquisa básica, aquele
conhecimento desinteressado que empurra as fron-
teiras do saber e produz contribuições surpreenden-
tes. Até a criação da USP, os catedráticos da Faculda-
de de Medicina, por exemplo, eram grandes clínicos e

58 ■
JULHO DE 2004 ■
PESQUISA FAPESP 101
SDI-SERVIÇO DE DIVULGAÇÃO / FFLCH

Estudantes no prédio
da Geografia e da
História, departamentos
que permaneceram
na faculdade após
a reforma universitária

PESQUISA FAPESP 101 ■


JULHO DE 2004 ■
59
70

FOTOS ARGUS DOCUMENTAÇÃO / CCS / USP


USP

cirurgiões que, na maior parte do tempo, salvavam vi-


das. Só alguns poucos faziam pesquisa de qualidade. A
Politécnica e a Faculdade de Direito abasteciam o país de
engenheiros e advogados, mas seus professores dividi-
am-se entre a formação dos alunos e suas atividades
profissionais particulares. Com honrosas exceções, des-
tacavam-se mais por transmitir um saber tecnológico do
que por produzir conhecimentos básicos. “Até o adven-
to da Faculdade de Filosofia e da USP, não era muito cla-
ro o limite entre o cientista e o erudito, entre o pesqui-
sador e o diletante”, diz o professor de sociologia Sedi
Hirano, atual diretor da FFLCH. ”Até mesmo a idéia de
que a atividade científica é uma vocação, uma profissão
com dedicação exclusiva, só se consolidou no país a par-
tir da experiência da Filosofia”, afirma.

H
oje a FFLCH tem 10.235 estudantes
de graduação e 2.117 de pós-gra-
duação e congrega 11 departamen-
tos da área de Humanidades: Letras
Clássicas, Letras Modernas, Letras
Orientais, Lingüística, Teoria Lite-
rária, Filosofia, História, Geografia,
Antropologia, Sociologia e Ciência Política. Mas, em seus
primórdios, praticamente todo o conhecimento cabia
dentro da instituição. Ela surgiu em 1934 com um nome
abrangente, Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras
(FFCL), reunindo também os núcleos de Ciências Natu-
rais, Química, Física e Matemática. Era uma “universi-
dade em miniatura”, como definiu o sociólogo Florestan
Fernandes (1920-1995) no livro A questão da USP (1984).
Sob os auspícios da oligarquia paulista, a nascente Facul-
dade de Filosofia foi beber diretamente da fonte européia.
O primeiro diretor da instituição, Theodoro Augusto Ra-
mos, matemático da Escola Politécnica, foi encarregado nizadora, mas a realidade era mais complexa que as apa-
de contratar dezenas de professores da França, da Itália, rências. O fato é que a sociedade e a comunidade acadê-
da Alemanha e de Portugal. As missões estrangeiras mica de São Paulo mostraram-se maduras para absorver
trouxeram hábitos que marcariam a cultura universitá- a contribuição européia. O escritor modernista Mário
ria do país, como a renovação anual dos cursos e o pla- de Andrade, por exemplo, associou-se a Claude Lévi-
nejamento rigoroso das aulas. Havia professores já con- Strauss na fundação da Sociedade de Etnografia e Fol-
sagrados e jovens talentos que construíram reluzentes clore. Logo os mestres europeus estariam cercados de
carreiras acadêmicas nas décadas seguintes. discípulos brasileiros, como o professor francês de geo-
A maioria veio da França, como o antropólogo Clau- grafia humana Pierre Monbeig e o estudante Caio Pra-
de Lévi-Strauss, o historiador econômico Fernand Brau- do Júnior, ou o físico ítalo-russo Gleb Wataghin e os jo-
del, o sociólogo Roger Bastide ou os professores de fi- vens Mário Schenberg e Marcelo Damy. Alguns mestres
losofia Martial Guéroult e Jean Maugüé, um grande europeus passaram poucos anos no Brasil, outros per-
influenciador do estudo da psicologia. A Itália mandou, maneceriam até meados dos anos 1960 – inaugurando
entre outros, seu grande poeta Giuseppe Ungaretti e o fí- uma tradição de intercâmbio internacional de professo-
sico Gleb Wataghin, russo de nascimento, um dos res- res e estudantes que é forte até hoje (a faculdade man-
ponsáveis pelo estabelecimento da física experimental tém 40 convênios com instituições no exterior). Mas,
como atividade científica no Brasil. A Alemanha compar- como estava previsto, os docentes estrangeiros cederiam
tilhou com o Brasil sua base teórica em química, envian- espaço paulatinamente para os brasileiros que ajudaram
do professores como Heinrich Rheinboldt. O português a formar, caso do físico Oscar Sala, do geneticista Crodo-
era idioma raríssimo nas salas de aulas, ministradas, em waldo Pavan, do sociólogo Florestan Fernandes ou do
geral, em francês ou italiano. Parecia uma missão colo- geógrafo Aziz Ab’Saber.

60 ■
JULHO DE 2004 ■
PESQUISA FAPESP 101
No dia 3 de outubro
de 1968, a batalha entre
estudantes da Faculdade
de Filosofia e adeptos
do Comando de Caça
aos Comunistas instalados
na Universidade Mackenzie
deixou um aluno morto
e causou a depredação
do prédio da
rua Maria Antônia

Ousado e grandiloqüente, o projeto da Faculdade de salário de docente enquanto estudavam, artifício conhe-
Filosofia sofreu, é certo, turbulências na decolagem. Nos cido como comissionamento. Dessa forma, a faculdade
idos de 1936 e 1937, chegou-se a discutir o fechamento encheu-se de ex-normalistas para formar bons professo-
da instituição, uma vez que os aspirantes a uma vaga na res secundários. “Foi graças a esse decreto que eu pude
USP continuavam tomando o caminho da Faculdade de me formar”, recorda-se o historiador José Sebastião Wit-
Medicina, da Escola Politécnica e da Faculdade de Direi- ter, professor-emérito da FFLCH. Em 1953, Witter for-
to, provavelmente assustados com a exótica experiência mara-se numa Escola Normal de Mogi das Cruzes e, de-
em curso na Faculdade de Filosofia. Nos dois primeiros pois de trabalhar cinco anos como professor primário,
anos de existência da instituição, era moda entre a elite ingressou na Faculdade de Filosofia em 1958. “A situa-
paulistana freqüentar as aulas da Filosofia, para melho- ção do ensino era completamente diferente. As escolas
rar o quórum das salas. Deve-se à engenhosidade do normais davam uma excelente formação e tinham mes-
educador, sociólogo e historiador Fernando de Azevedo, tres competentíssimos”, diz Witter. A vocação de formar
que fora diretor da Instrução Pública de São Paulo e vi- professores mantém-se até hoje, sobretudo em carreiras
ria a comandar a faculdade nos anos 1940, a solução que como letras, história e geografia, embora a figura do co-
resgatou a instituição das dificuldades iniciais. Em vez missionamento tenha sido abandonada.
de formar a elite, como faziam as unidades da USP mais As décadas de 1950 e 60 foram a época de ouro da
antigas, a nova faculdade voltou-se para a classe média. Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras, convertida no
Um decreto determinou que professores de escolas pri- centro do pensamento brasileiro. Em 1941, a efervescên-
márias que passassem no vestibular dos cursos da Filo- cia ganhou um endereço: a Faculdade de Filosofia, que
sofia e tivessem sempre nota superior a 7 poderiam afas- vagara por diversos prédios, alguns emprestados, fixou-
tar-se das salas de aulas e continuariam a receber o se no lendário edifício da rua Maria Antônia. Nos corre-

PESQUISA FAPESP 101 ■


JULHO DE 2004 ■
61
USP 70
dores, cruzavam-se as grandes referências acadêmicas
como Antonio Candido, que se tornaria o patrono da
teoria literária no Brasil, o sociólogo Florestan Fernan-
des, além de Sérgio Buarque de Holanda, o historiador
que criou o conceito do homem cordial e se incorporou
à faculdade no final dos anos 1950. Orbitavam ao redor
de dona Floripes, funcionária que anotava recados para
todos na portaria da Maria Antônia. A época é marcada
pelos trabalhos sobre relações raciais no Brasil, liderados Em 17 de março de 2004, a comemoracão
por Florestan, Octavio Ianni e Fernando Henrique Car- dos 70 anos da FFLCH reuniu os mestres
doso, que refutaram a idéia do paraíso racial brasileiro, Octavio Ianni (que morreria três meses
ou do livro Os parceiros do Rio Bonito, de Antonio Can- depois), Alfredo Bosi, Antonio Candido,
dido, um clássico da sociologia brasileira a respeito dos Sedi Hirano e Marilena Chauí
caipiras marginalizados do interior paulista.

T
ambém foi nessa fase que a faculda-
de transformou-se num caldeirão de
efervescência política. Vicejava entre clinação esquerdista, um aguerrido foco de desafio à di-
professores e alunos o que ficaria co- tadura. “A faculdade se distanciou muito daquilo que as
nhecido como “pensamento radical”, oligarquias pensaram para ela”, disse, num recente dis-
com base no qual os intelectuais, na curso nas comemorações dos 70 anos da faculdade, o
maioria de orientação marxista, viam- professor Antonio Candido. “Em 1964, todas as congre-
se numa esfera à parte dos políticos e do povo e reivin- gações da USP apoiaram o golpe militar, menos a Facul-
dicavam para si a missão de comandar as mudanças da dade de Filosofia. E não porque era de esquerda, mas
sociedade. O primeiro grande movimento ocorreu entre porque era contra a opressão.”
1955 e 1962, quando a Faculdade de Filosofia foi o prin- O resultado desse embate entrou para os livros de
cipal pólo de debates e críticas à privatista reforma do história: no dia 3 de outubro de 1968, uma batalha cam-
ensino proposta pelo político Carlos Lacerda. O bastião pal entre lideranças estudantis da Faculdade de Filosofia
em defesa da escola pública era o prédio da rua Maria e seguidores da organização direitista Comando de Caça
Antônia, Florestan Fernandes à frente. Após a deposição aos Comunistas instalados na vizinha Universidade Ma-
de João Goulart, os militares encontraram na Faculdade ckenzie terminou com a morte de um estudante secun-
de Filosofia, com seus professores e alunos com forte in- darista, três universitários baleados, dezenas de feridos e

AE
Os professores
europeus
que fundaram a
faculdade (ao lado) e
a primeira turma de
alunos, formada em
1936 (página ao lado).
Nos primeiros anos, a
instituição não atraiu
um contingente
expressivo de alunos.
A solução foi
oferecer vantagens
para que professores
primários fizessem
curso superior

62 ■
JULHO DE 2004 ■
PESQUISA FAPESP 101
SDI-SERVIÇO DE DIVULGAÇÃO / FFLCH
sima linha e seguiu como um pólo importante do pensa-
mento acadêmico.
Recentemente, foram aprovados vários projetos te-
máticos da FAPESP, sob coordenação dos professores da
Faculdade de Filosofia, tratando de temas como a filoso-
fia do século 17, filosofia e história da ciência e moral, po-
lítica e direito. A faculdade que se notabilizou pela efer-
vescência política dos anos 1960 forneceu quadros para o
poder após a redemocratização. Nos anos 1990, com a
ascensão do professor de sociologia cassado pelo AI-5, Fer-
nando Henrique Cardoso, à Presidência da República,
egressos da FFLCH ocuparam cargos importantes, des-
de o Ministério da Cultura (Francisco Weffort) à formu-
lação de políticas de educação. A circunstância se repete,
com outros nomes, naturalmente, no governo Lula – do
porta-voz André Singer ao presidente do Instituto de
Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA), Glauco Arbix.
A produção dos mais de 300 alunos de graduação
com projetos de iniciação científica abastece uma co-
leção de livros, batizada de Primeiros Estudos, edita-
da pela própria faculdade. “São trabalhos de qualida-
de, que orgulham a faculdade”, diz o presidente da
a depredação da sede da FFLCH. Mas o maior golpe vi- Comissão de Pesquisa, Moacyr Novaes. O primeiro vo-
ria em seguida, com a aposentadoria compulsória, com lume, publicado em 2001, reúne uma coleção de tex-
base no Ato Institucional 5, das vozes mais prestigiadas tos sobre as políticas de industrialização em São Paulo
da faculdade, como José Arthur Giannotti, Emília Viotti nos anos 1990, coordenado pelo professor de socio-
da Costa, Octavio Ianni, Florestan Fernandes, Fernando logia Glauco Arbix. O segundo, lançado em 2003, dis-
Henrique Cardoso, entre outros. A FFLCH sofreu uma corre sobre o pensamento de Jean-Paul Sartre. Dos 24
mudança de perfil. Com a reforma universitária, perdeu programas de pós-graduação, 16 têm ótimo conceito,
os últimos departamentos ainda ligados à área de ciên- sendo que três têm a nota máxima da avaliação da
cias, fixando-se nas humanidades. Também foi expulsa Coordenação de Aperfeiçoamento de Pesssoal de Nível
do ambiente integrador da Maria Antônia para disper- Superior (Capes): Literatura Brasileira, Semiótica e
sar alunos e professores num conjunto de prédios com Lingüística Geral, e Sociologia. O rigor metodológico
41 mil metros quadrados na Cidade Universitária. Des- e a curiosidade científica semeados pelas missões eu-
tituída de suas cabeças mais famosas e distante do mo- ropéias, como se vê, não perderam o fôlego ao longo
delo original, a FFLCH mostrou, nos anos 1970 e 80, que dos 70 anos de existência da Faculdade de Filosofia,
continuava capaz de produzir massa crítica de primeirís- Letras e Ciências Humanas da USP. •

AE

PESQUISA FAPESP 101 ■


JULHO DE 2004 ■
63
USP 70
O Brasil que
as Arcadas
vislumbraram
Na série de reportagens sobre
os 70 anos da Universidade
de São Paulo, a marca
da Faculdade de Direito
do largo de São Francisco,
formadora das elites
no Império e na República

F ABRÍCIO M ARQUES

A
Faculdade de Direito do largo de São
Francisco, a mais antiga das unida-
des que há sete décadas deram ori-
gem à Universidade de São Paulo
(USP), preserva os sinais de vigor
que a transformaram em para-
digma do ensino superior já
nos tempos em que o Brasil
era um império dos trópi-
cos e a cidade de São Pau-
lo não passava de burgo bucólico e provinciano. No
último ranking do Provão, a faculdade aparecia em
primeiro lugar, seguida por escolas jurídicas de Minas
Gerais, do Paraná, do Espírito Santo, da Bahia, do Rio
de Janeiro, de Brasília e da cidade paulista de Franca.
Pode-se afirmar que todas essas escolas alcançaram ex-
celência mirando-se no exemplo da instituição paulis-
tana. Também é certo que elas aliviaram de responsabi-
lidades históricas a “velha e sempre nova” Academia,
como gostam de tratá-la seus bacharéis.
Aberta em 1828 nas instalações de um antigo con-
vento franciscano no centro de São Paulo, a faculda-
de por muito tempo representou uma das escassas

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AGOSTO DE 2004 ■
PESQUISA FAPESP 102
MIGUEL BOYAYAN
USP 70

REPRODUÇÕES: ARCADAS - HISTÓRIA DA FACULDADE DE DIREITO DO LARGO DE SÃO FRANCISCO

O poeta Castro Alves, num jornal Ruy Barbosa (o segundo da dir. para a esq.),
abolicionista que circulou na Academia na foto de Militão de Azevedo, em 1879

opções da oligarquia nacional para ilustrar seus filhos. frutos fartos e duradouros. Até pelo menos a Segunda
Alunos de toda parte aportavam em São Paulo. Dos 33 Guerra Mundial, a Academia foi o principal pólo de for-
inscritos na primeira turma, só nove moravam na capi- mação de quadros para a política, a Justiça e o jornalis-
tal; oito vieram do rico interior agrícola da província, mo no país. Em março de 1868, o vapor Santa Maria de-
dez do Rio, quatro de Minas Gerais e dois da Bahia. Es- sembarcou no porto de Santos trazendo dois estudantes
sas levas pioneiras de estudantes seriam as primeiras a baianos mal saídos da adolescência que marcariam a tra-
acalentar o sonho cosmopolita da futura metrópole. A jetória da faculdade e a história do Brasil. Um deles era
cidade fora escolhida para acolher o curso jurídico com Ruy Barbosa, o jurista que moldaria a Constituição repu-
o argumento de que não oferecia diversões a distrair os blicana, o poliglota que representaria o Brasil na Confe-
estudantes e o custo de vida era baixo. Isso não durou rência de Haia. O outro era o poeta Castro Alves – que
muito tempo. Entre as décadas de 1830 e 1870 – antes morreria de tuberculose três anos mais tarde, mas for-
que a riqueza do café e o advento das ferrovias transfor- mou o trio de poetas românticos com os colegas Fagun-
massem a cidade – São Paulo foi um território de estu- des Varella e Álvares de Azevedo. O jovem fluminense
dantes e a presença deles estimulou a construção dos Juca Paranhos também estudou lá. Filho de um ministro
primeiros hotéis, teatros e casas de diversão. do Império, o aluno Juca, o lendário barão do Rio Bran-
co, seguiria carreira política e diplomática e teria um pa-

A
faculdade foi criada, pouco mais de cinco pel na delimitação das fronteiras brasileiras no sul, no
anos após a proclamação da Indepen- extremo norte e no extremo oeste do país. No final do
dência, com a missão de forjar uma elite de século 19, estima-se que sete em cada dez deputados
homens públicos capaz de gerir a nação brasileiros haviam passado pelas Arcadas – outro apeli-
– a Universidade de Coimbra passara do da faculdade, referência aos sustentáculos da cons-
a hostilizar os aspirantes a bacharéis trução de taipa do convento franciscano, reconstituídos
oriundos da colônia desgarrada. Se a no novo prédio, erguido na década de 1930.
meta era preparar os “homens hábeis” que comanda- A República Velha (1889-1930) foi, antes de tudo,
riam o país, se a intenção era conferir base intelectual à uma República de bacharéis do largo de São Francisco.
elite governante, pode-se dizer que o objetivo rendeu Oito presidentes dessa fase formaram-se nas Arcadas:

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PESQUISA FAPESP 102
Prudente de Moraes, Cam-
pos Salles, Afonso Pena,
Rodrigues Alves, Delfim
Moreira, Venceslau Brás,
Arthur Bernardes e Wash-
ington Luís. Também sai-
riam da instituição 45 go-
vernadores da Província e
do Estado de São Paulo.
No início do século 20, a
Academia passaria a divi-
dir com outras institui-
ções, como a Faculdade de
Medicina e a Escola Poli-
técnica, a primazia de for-
mar a elite de São Paulo.
Igualmente, os bacharéis
foram cedendo espaço na
gestão pública para a tec-
nocracia (as demandas do
país tornavam-se mais com-
plexas) e para os militares
(seus antagonistas, que cha-
mavam os políticos de “ca-
sacas”). Curiosamente, a
Estudantes das Arcadas visitam, em 1908, faculdade só voltou a pro-
o barão do Rio Branco (ao centro), ex-aluno duzir outro chefe da nação
– mesmo assim, em expe-
riência fugaz – nos anos
1960: foi na militância es-
tudantil das Arcadas que Jânio Quadros ensaiou sua
retórica. A massificação do ensino superior não ofus-
cou a importância da faculdade, que continuou a atrair
a elite dos candidatos no vestibular e é um raríssimo
exemplo de aprovação maciça nos exames da seção
paulista da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB). O
país hoje tem mais de 700 escolas de direito e 400 mil
advogados.
A efervescência do largo de São Francisco deixou
marcas até onde menos se imagina. O sanduíche bauru
ganhou esse nome porque era o preferido do estudante
de direito Casemiro Pinto Neto no restaurante Ponto
Chic, centro de São Paulo. Casemiro, conhecido como
Bauru – a cidade paulista onde nasceu –, cedeu o apelido
ao sanduíche. O bordão “é pique, é pique, é hora, é hora,
é hora, rá-tim-bum”, incorporado no Brasil ao Parabéns
a você, é uma colagem de bordões dos pândegos estu-
dantes das Arcadas da década de 1930.“É pique, é pique”
era uma saudação ao estudante Ubirajara Martins, co-
nhecido como “pic-pic” porque vivia com uma tesouri-
nha aparando a barba e o bigode pontiagudo. “É hora, é
hora” era um grito de guerra de botequim. Nos bares, os
estudantes eram obrigados a aguardar meia hora por
uma nova rodada de cerveja – era o tempo necessário
O novo prédio, erguido nos anos 1930, para a bebida refrigerar em barras de gelo. Quando dava
refez as arcadas do velho convento o tempo, eles gritavam: “É meia hora, é hora, é hora, é

PESQUISA FAPESP 102 ■


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USP 70

FOTOS: RÔMULO FIALDINI/ ARCADAS - HISTÓRIA DA FACULDADE DE DIREITO DO LARGO DE SÃO FRANCISCO
hora”. “Rá-tim-bum” , por
incrível que pareça, refere-
se a um rajá indiano cha-
mado Timbum, ou coisa
parecida, que visitou a fa-
culdade – e cativou os es-
tudantes com a sonoridade
de seu nome. O amontoa-
do de bordões ecoava nas
mesas do restaurante Pon-
to Chic, com um formato
um pouco diferente do que
se conhece hoje: “Pic-pic,
pic-pic; meia hora, é hora,
é hora, é hora; rá, já, tim,
bum”. Como isso foi parar
no Parabéns a você? “Os es-
tudantes costumavam ser
convidados a animar e pres-
tigiar festas de aniversário.
E desfiavam seus hinos”,
conta o atual diretor da fa-
culdade, Eduardo Marchi,
de 44 anos, que relembrou
a curiosidade em seu dis-
curso de posse, dois anos No vitral das escadarias, alegoria
atrás. Em 1934, a faculdade inspirada em pintura de Rafael
deixou de ser uma escola
federal, foi incorporada à
Universidade de São Paulo
– mas manteve-se ciosa das tradições. As tentativas de Na história recente, bacharéis do largo de São Fran-
transferir a sede para a Cidade Universitária foram re- cisco tiveram papel importante na redemocratização do
chaçadas – os alunos chegaram a arrancar a pedra fun- país – Ulysses Guimarães, o artífice da Constituição de
damental do que seria o novo prédio. 1988, e o ex-senador e governador André Franco Monto-
ro são egressos da instituição. O corpo docente também

A
defesa do ideal da liberdade é uma marca teve nomes como Goffredo da Silva Telles, que, em 1977,
da instituição – e também a origem de um ousou exigir a volta do Estado de direito na comemora-
paradoxo histórico. Os estudantes do ção dos 150 anos dos cursos jurídicos do país. Mas al-
largo de São Francisco e seu combativo guns professores emprestaram seu brilho acadêmico a
Centro Acadêmico 11 de Agosto enga- causas liberticidas, caso dos ex-diretores da faculdade
jaram-se em boa parte das lutas de- Luiz Antonio da Gama e Silva, ministro da Justiça do
mocráticas, do abolicionismo à marechal Costa e Silva e redator do Ato Institucional 5,
Revolução Constitucionalista de 1932, da liberdade de e Alfredo Buzaid, que sucedeu Gama e Silva no gover-
imprensa ao movimento pelos direitos humanos, da no do general Emílio Médici, o mais opressivo do pe-
oposição ao Estado Novo à campanha pelas eleições di- ríodo militar. Independentemente das divergências
retas e pela Constituinte com participação popular, nos doutrinárias ou ideológicas, os professores sempre culti-
anos 1980. O alemão Julio Frank e o italiano Líbero Ba- varam os civilizados preceitos do respeito e da tolerân-
daró, ativistas liberais e professores do curso preparató- cia. “Há muito se diz que a congregação da faculdade é
rio para a faculdade no Primeiro Reinado, tornaram-se o lugar onde se aprende a divergir polidamente”, diz o
ícones das primeiras gerações de alunos. “Mas a origem professor aposentado e ex-diretor da faculdade Dalmo
elitista transformava boa parte dos alunos inflamados de Abreu Dallari, ativista dos direitos humanos desde os
em ardentes defensores da ordem quando alçavam car- anos 1970.
reira na política e na magistratura”, diz a historiadora Ana A presença de alunos e mestres da faculdade no ce-
Luiza Martins, autora do livro Arcadas – História da Fa- nário jurídico sempre foi marcante – Clóvis Bevilacqua,
culdade de Direito do largo de São Francisco, em parceria João Mendes Júnior, Teixeira de Freitas e Vicente Rao
com a também historiadora Heloisa Barbuy. são exemplos. O Código Civil brasileiro, criado em 1916

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PESQUISA FAPESP 102
O que também atrapa-
lha a pesquisa é a pouca
adesão dos docentes da Fa-
culdade de Direito ao regi-
me de dedicação exclusiva.
Apenas 10% dos 130 pro-
fessores trabalham em
tempo integral. A tradição
brasileira é a dos docentes
com pés fincados no mer-
cado de trabalho – juízes,
promotores, donos de es-
critórios de advocacia –,
capazes de mostrar a reali-
dade da profissão aos estu-
dantes. A dupla militância
é uma realidade desde que
a faculdade foi fundada.
Na década de 1860, apenas
dois terços dos 17 professo-
res encontravam-se sempre
em São Paulo – magistra-
dos ou políticos, vários de-
les estavam desempenhan-
do funções de ministro do
O vermelho do Salão Nobre homenageia d. Pedro II, Império ou de governador
referência ao papel da faculdade durante o Império de províncias. Em países
como os Estados Unidos e
a Alemanha, um dos ali-
cerces mais importantes da
sob a presidência de um aluno das Arcadas, Venceslau pesquisa jurídica é a dedicação integral dos docentes.
Brás, foi reformado sob a coordenação de um jurista for- É certo que as Arcadas estão empenhadas em trans-
jado na instituição, Miguel Reale. Na década de 1970, formar progressivamente esse panorama. Cresce o núme-
com a criação dos cursos de pós-graduação, a faculdade ro de convênios com instituições estrangeiras, como a
assumiu a missão de produzir pesquisa. Não é uma tare- Università degli Studi di Roma “La Sapienza” e Univers-
fa simples – e nessa dificuldade a instituição tem a com- tà Statale di Milano, na Itália; Université de Lyon II, na
panhia dos demais cursos do país. França; Universidade de Lagos, na Nigéria; University of
Texas, Austin, nos EUA, entre outras. Até dez anos atrás,


B
oa parte da pesquisa em direito no praticamente não havia estudantes de graduação reali-
Brasil e na faculdade ainda se debru- zando projetos de iniciação científica. Hoje 2% dos alu-
ça sobre a análise de doutrinas e de nos já têm bolsas.
questões de jurisprudência, sem uma A partir de 2005, os estudantes de graduação serão
pesquisa de campo ou base filosó- obrigados a produzir uma tese para obter o grau de
fica ou sociológica”, diz o professor bacharel. A idéia da chamada Tese de Láurea, inspirada
Antonio Luis Chaves Camargo, pre- no ensino superior italiano, busca, entre outras finali-
sidente da Comissão de Pesquisa da faculdade. Eduardo dades, combater um efeito nocivo que o mercado de
Bittar, professor associado do Departamento de Filoso- trabalho tenta impor à faculdade. Os estudantes hoje
fia e Teoria Geral do Direito – e um estudioso da questão são convidados a cumprir estágios em escritórios de ad-
da pesquisa jurídica –, complementa: “As pesquisas em- vocacia cada vez mais precocemente, alguns até no se-
píricas, os estudos de caso, as pesquisas documentais, as gundo ano de curso – comprometendo o tempo de
análises sociológicas ainda são esteios negligenciados estudo. A obrigação de fazer a tese vai reforçar o vín-
pela cultura jurídica nacional”. Não deixa de ser curioso, culo dos alunos com a instituição, tornando a forma-
pois o direito compreende uma forte atividade intelec- ção menos prática e mais reflexiva. Continua valendo
tual, como se pode perceber no vigoroso mercado de li- uma máxima que todos os dirigentes das Arcadas repe-
vros jurídicos (muitos deles escritos por docentes do lar- tiram orgulhosamente: o objetivo da Faculdade de Di-
go de São Francisco). reito da USP é formar juristas, não bacharéis. •
PESQUISA FAPESP 102 ■
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USP 70
A receita da
qualidade
Na série de reportagens
sobre os 70 anos da
Universidade de São Paulo,
a movimentada trajetória
da Faculdade de Ciências
Farmacêuticas,
que soube superar crises
e consolidou-se como
endereço de pesquisa

F ABRÍCIO M ARQUES

A faculdade hoje: laboratórios


renovados e 96% dos professores
com dedicação integral
FOTOS EDUARDO CESAR

PESQUISA FAPESP 103 ■


SETEMBRO DE 2004 ■
53
USP 70

FOTOS ARQUIVO FACULDADE DE CIÊNCIAS FARMACÊUTICAS DA USP


O prédio da rua Três Rios, na bucólica São Paulo de
1927: uma crise por pouco não fechou a escola

J
ustiça se faça à Faculdade de Ciências Far- se Escola de Pharmacia, Odontologia e Obstetrícia. As
macêuticas da Universidade de São Paulo: duas novas carreiras se desmembrariam ao longo do
em quase 106 anos de existência, a institui- tempo – a Obstetrícia desgarrou-se em 1911 e a Odon-
ção exibiu uma inesgotável capacidade de tologia em 1962.
superar dificuldades e responder a desa- A excelência da Faculdade de Ciências Farmacêuti-
fios. Fundada em 12 de outubro de 1898 cas se explica, de certo modo, por sua capacidade de se
como Escola Livre de Pharmacia de São reinventar. Por muito pouco, o curso não fechou as
Paulo, manteve-se de pé em seus primór- portas na década de 1920. A concorrência com outras
dios graças à abnegação dos fundadores. escolas de farmácia e um escândalo que cassou o cre-
Médicos ou membros da Sociedade Phar- denciamento federal da faculdade fizeram com que os
macêutica Paulista, eles davam aulas de alunos debandassem e professores pedissem demissão,
graça – ou recebendo quantias simbólicas desinteressados de trabalhar numa instituição sem li-
– até que o orçamento da instituição saísse do verme- cença para funcionar. Os bens da escola foram seqües-
lho. A criação da escola estava prevista havia mais de 20 trados, e, em 1932, o médico e anatomista Benedicto
anos, mas foi graças ao grupo, liderado pelo médico Montenegro foi designado interventor. No ano seguin-
fluminense Bráulio Gomes e o farmacêutico Pedro te, o governo federal restabeleceu o credenciamento.
Baptista de Andrade, que a idéia vicejou, fazendo sur- Montenegro foi personagem-chave na reabilitação da
gir o quarto curso de farmácia do país e o primeiro de faculdade. Colocou-a para funcionar e, algum tempo
São Paulo. Logo apareceram novas demandas. O gover- depois, convenceu o governo paulista a incorporá-la ao
no da província delegou à escola a tarefa de submeter projeto da Universidade de São Paulo. Em 1934, a Fa-
a exames aspirantes a dentistas e parteiras “enquanto culdade de Pharmacia e Odontologia de São Paulo dei-
não existissem no estado cursos especiais de arte den- xou de existir. Em seu lugar foi criada a Faculdade de
tária e de partos”. Pois em 1902 a instituição chamou Pharmacia e Odontologia da Universidade de São Pau-
para si a tarefa de formar esses profissionais, tornando- lo. Na prática, alunos e professores integraram-se aos

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Aula com o professor Henrique Tastaldi, na década
de 1950: vinculada à USP, a faculdade floresceu

quadros da USP, assim como o prédio na rua Três Rios, Miritello Santoro, presidente da Comissão de Pesquisa
no bairro do Bom Retiro, centro de São Paulo, foi de- da faculdade.
sapropriado e incorporado ao patrimônio da universi- Os quatro departamentos dedicam-se a linhas de
dade. Garantia-se a continuidade do projeto acalenta- pesquisa inovadoras no país, cuja relevância também
do pela Sociedade Pharmacêutica Paulista de formar pode ser medida pela aplicação prática que terão na
“moços capazes de trabalhar em química, habilitados vida e na saúde dos brasileiros. A equipe do professor
para a indústria e com coragem e conhecimentos bas- Jorge Mancini Filho, do Departamento de Alimentos e
tantes para se enfrentarem com as dificuldades de aná- Nutrição Experimental, estuda desde o final dos anos
lises sérias e importantes”, como propôs um editorial 1980 substâncias antioxidantes naturais encontradas
de maio de 1895 da Revista Pharmacêutica, órgão ofici- em alimentos como o dendê, a castanha do caju, a cas-
al da entidade. tanha-do-pará, o alecrim ou o orégano. O objetivo, a
Nos últimos 70 anos, período em que sua trajetória princípio, era testar a utilização dessa matéria-prima
vinculou-se a à USP, a Faculdade de Ciências Farma- em substituição a antioxidantes sintéticos, usados para
cêuticas não se limitou a formar mão-de-obra. Conso- conservar alimentos e suspeitos de fazer mal à saúde
lidou-se como referência nacional em ensino, pesquisa humana. A pesquisa foi ganhando importância ao lon-
e pós-graduação. Com 800 alunos de graduação, 250 go dos anos 1990, enquanto acumulavam-se evidências
de mestrado e 200 de doutorado, a instituição conta de que os antioxidantes podem ajudar a prevenir doen-
hoje com 80 docentes – 98% doutores e 96% em regi- ças. Mostrou-se, por exemplo, que é possível enriquecer
me de dedicação integral à docência e à pesquisa. Em alimentos, como o pescado, com substâncias antioxi-
2003 teve uma produção de 102 artigos em periódicos dantes – dependendo da dieta que se dê ao peixe. Com
publicados no país e 91 no exterior. “O objetivo é pu- isso, a carne é enriquecida nutricionalmente e demora
blicar cada vez mais e formar recursos humanos. Mui- mais para deteriorar.
tos dos nossos mestres e doutores vão lecionar em ou- O professor Franco Lajolo, estudioso dos alimentos
tras universidades”, diz a professora Maria Inês Rocha funcionais, aqueles que têm propriedades terapêuticas

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70

FOTOS ARQUIVO FACULDADE DE CIÊNCIAS FARMACÊUTICAS DA USP


USP
e preventivas, produziu contribui-
ções importantes, por exemplo, pa-
ra a compreensão do metabolismo
das frutas depois de colhidas e aju-
dou a desvendar os processos bio-
químicos que as tornam doces e
macias. A professora Silvia Cozzo-
lino lidera pesquisas sobre a dispo-
nibilidade de ferro em alimentos e
seu uso nutricional. Uma delas foi
um estudo sobre ingestão média
diária de alguns minerais em die-
tas brasileiras, conforme região, fai-
xa etária e condição social. Os me-
nores valores de ingestão de ferro
estavam nas dietas de idosos de ca-
sas de repouso de São Paulo, com
5,4 miligramas por dia (mg/dia), e
na dieta de uma população de bai-
xa renda de Santa Catarina, com
6,4 mg/dia. O ideal é o consumo
diário por adulto de 15 mg/dia.

N
o Departamen-
to de Análises
Clínicas e To-
x i co l ó g i c a s ,
destacam-se
trabalhos co-
mo os da pro-
fessora Ana Campa, que, em par-
ceria com o Instituto de Química
da USP, ajudou a desenvolver uma
tecnologia para diagnósticos clíni-
cos baseados na utilização de rea-
ções que emitem luz e permitem mensurar o nível de áreas, como na de fármacos com atividade contra a doen-
várias enzimas de interesse laboratorial. A professora ça de Chagas, no diagnóstico de cisticercose, uma para-
Maria Inês Rocha Miritello Santoro, do Departamento sitose, ou em marcadores genéticos de diagnóstico.
de Farmácia, pesquisa, há mais de uma década, a sepa- “Nos últimos 15 anos, investimentos na renovação de
ração enantiomérica empregando a cromatografia lí- laboratórios, feitos pelo Banco Interamericano de
quida de alta eficiência com fase quiral. Trata-se de Desenvolvimento, a FAPESP e o CNPq, deram lastro
uma técnica de controle de qualidade de medicamen- ao salto qualitativo”, diz o professor Jorge Mancini, ex-
tos capaz de separar moléculas que apresentam os mes- diretor da faculdade.
mos grupamentos químicos como radicais de um áto- A Faculdade de Ciências Farmacêuticas foi um
mo de carbono – porém com uma configuração em que exemplo de integração à Universidade de São Paulo. Ao
uma é a imagem espelhada da outra. A distinção dos contrário de outras unidades que já existiam antes do
dois tipos de molécula é importante porque, normal- advento da USP, como as faculdades de Medicina e de
mente, apenas uma delas apresenta efeito terapêutico. Direito, trocou sem reclamações seu endereço tradicio-
Em alguns casos, a outra molécula, além de não ter nal, no bairro do Bom Retiro, por uma área de 80 mil
efeito farmacêutico, pode apresentar propriedades tó- metros quadrados na lamacenta Cidade Universitária do
xicas. Com a técnica, pode-se separar e quantificar os ano de 1966. “Apesar das dificuldades, o campus apare-
dois tipos de compostos. cia como o lugar ideal para o desenvolvimento de ativi-
Tais exemplos são apenas uma amostra das pesqui- dades, sem ruídos, contrastando com as salas de aula da
sas feitas no conjunto de blocos de concreto, situado na rua Três Rios, constantemente perturbadas pelo tráfe-
avenida Linneu Prestes (ex-diretor da instituição), na go pesado de caminhões”, registrou a professora cate-
Cidade Universitária. Há trabalhos em muitas outras drática Maria Aparecida Pourchet-Campos em seu li-

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sede também foi palco de eventos
históricos, como a premiação, com
o título de doutor honoris causa, de
Alexander Fleming, o pai da peni-
cilina, em visita ao Brasil no ano
de 1954. Os estudantes foram em
comitiva à estação de trem no
bairro do Brás recepcionar Fle-
ming e ficaram surpresos com a
concentração de populares. Mas o
pai da penicilina passou desperce-
bido – o povo aguardava a chega-
da da Seleção Brasileira de Fute-
Cenas da escola em 1908: bol, liderada pelo craque Leônidas
exame oral num anfiteatro (acima), da Silva.
aula prática de química industrial

T
(abaixo), laboratórios ambém nos anos
de odontologia e de física (à esq.). 1960, aposenta-
ram-se professores
que haviam mol-
dado a faculdade
após o ingresso na
USP. São nomes
como Carlos Alberto Liberalli,
Henrique Tastaldi, Aristóteles Orsi-
ni e Walter Leser. A transformação
da instituição seria coroada na vi-
rada para a década de 1970, com a
reforma universitária. A Faculdade
de Farmácia e Bioquímica passou a
denominar-se Faculdade de Ciên-
cias Farmacêuticas, e deflagrou-se
uma reestruturação que deu ori-
gem aos quatro atuais departa-
mentos: Farmácia, Alimentos e
Nutrição Experimental, Análises
Clínicas e Toxicológicas e Tecnolo-
gia Bioquímico-Farmacêutica. “A
reforma permitiu uma necessária
vro A vida da Faculdade de Ciências Farmacêuticas da reorganização do currículo”, diz Jorge Mancini. “A pes-
Universidade de São Paulo (1984). quisa, antes da reforma, não era intensa como hoje”,
Essa época foi um divisor de águas na trajetória da afirma o professor.
instituição. A troca de endereços teve, é certo, um im- A imagem do farmacêutico como uma espécie de
pacto simbólico. Ficou para trás o prédio erguido nas médico dos momentos de aflição tornou-se definitiva-
várzeas despovoadas do Bom Retiro no início do sécu- mente coisa do passado. Se no início do século 20 o
lo 20. A construção original continua de pé e, tombada apelo da profissão firmava-se na profusão de anúncios
pelo patrimônio histórico, abriga oficinas culturais do de remédios nos bondes – “Salvou-o o Rhum creosota-
governo do Estado de São Paulo. Os antigos alunos do” –, nos anos 1960 o mercado de trabalho expandiu-
guardam memórias prosaicas do edifício de 136 janelas. se geometricamente, com a instalação do parque de
Como a imagem solene do professor siciliano Quintino indústrias de medicamentos no país. A maioria dos
Mingoja. “Ele exigia que os alunos ficassem de pé quan- farmacêuticos-bioquímicos sai da faculdade para tra-
do entrava na sala de aula”, afirma Paulo Minami, pro- balhar em fábricas de remédios. As áreas de análises clí-
fessor aposentado do Departamento de Análises Clíni- nicas e da indústria de alimentos também atraem pro-
cas e Toxicológicas, organizador do acervo histórico da fissionais – num mercado de trabalho que continua a
faculdade. “Mingoja se aposentou e depois voltou à fa- mudar. Nos últimos quatro anos, o currículo da Facul-
culdade para dar aulas. Ficou muito magoado no pri- dade de Ciências Farmacêuticas da USP ganhou 21 no-
meiro dia de aula, quando uma turma desavisada per- vas disciplinas – temas momentosos como Alimentos
maneceu sentada quando ele entrou na sala.” No prédio Geneticamente Modificados, Medicamentos Genéricos
da rua Três Rios os universitários cortejavam as moças e Bioequivalência ou Toxicologia Forense. A institui-
do Colégio Santa Ignês, do outro lado da rua. A antiga ção, como se vê, está sempre se reinventando. •
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FOTOS EDUARDO CESAR

O mural de Carlos Magano,


feito nos anos 1950
e recém-restaurado,
é um símbolo da faculdade
USP 70
Trincheira
do ensino
público
Na série de reportagens
sobre os 70 anos
da Universidade de São Paulo,
Pesquisa FAPESP
mostra a contribuição
da Faculdade de Educação
por uma escola
de qualidade e para todos

F ABRÍCIO M ARQUES

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USP 70 emancipação da Seção de Pedagogia da Faculdade de
Filosofia, Ciências e Letras, e sua fusão com o CRPE,
que cede suas instalações e acaba extinto. Da FFCL, a
Faculdade de Educação herdou professores formados
sob a influência das missões estrangeiras que fizeram a

A
trajetória da Faculdade de Educação USP e inspirados pela Campanha em Defesa da Escola
da Universidade de São Paulo (USP) Pública, liderada pelo sociólogo Florestan Fernandes no
pode ser narrada em três etapas, e início dos anos 1960. Do CRPE, recebeu sua sede atual
todas elas são marcadas pelo com- (parcialmente demolida e reconstruída, por problemas
promisso com a construção de de movimentação de solo), educadores que formaram
uma escola pública, leiga e aces- gerações de pesquisadores, como Roque Spencer Ma-
sível a todos. O embrião sur- ciel e Laerte Ramos de Carvalho, além da Escola de Apli-
giu no início da década de cação (aquela que pertencia à Faculdade de Filosofia, la-
1930, na Escola Normal Se- boratório de experiências inovadoras, foi sumariamente
cundária da Praça da Repú- fechada pela ditadura).
blica, no centro paulistano, onde hoje funciona a Secre- “As preocupações dos criadores do Instituto de Edu-
taria de Educação do Estado de São Paulo (o prédio, cação e do CRPE ajudam a explicar a nossa tradição de
por sinal, é um símbolo do ensino leigo: foi erguido nos pesquisa, historicamente voltada para a expansão e a
primeiros anos da República com verba e terreno que o melhoria do ensino público”, diz Celso de Rui Beisiegel,
finado Império reservara à construção de uma catedral). professor de Sociologia da Educação, que começou a
Numa época em que quase a metade da população in- carreira como pesquisador do CRPE e ajudou a fundar
fantil estava fora da escola e a maioria dos professores a unidade nos anos 70. Com cerca de 800 alunos de
primários levava na bagagem apenas quatro anos de ins- pedagogia, 600 de pós-graduação, 8 mil matrículas na
trução primária, um grupo de docentes da Escola Nor- licenciatura e 107 docentes, a instituição segue como
mal da Praça começou a articular a fundação de uma pio- referência em pesquisas educacionais. Alguns exemplos
neira instituição de ensino superior de pedagogia. A de projetos apoiados pela FAPESP ilustram a diversi-
idéia dos educadores Antônio Sampaio Dória, Manuel dade temática e o espectro de preocupações que orien-
Lourenço Filho e Fernando de Azevedo também tinha tam os pesquisadores da faculdade. Um dessas linhas de
um cunho nacionalista, uma vez que era gigantesco o investigação é a formação de professores e a análise de
fosso entre o grau educacional dos brasileiros nativos e aprendizado das ciências. “Temos um grupo robusto,
o dos imigrantes europeus. Desse esforço surge, em 1933, que também produz e avalia material didático”, diz a
o Instituto de Educação, centro de nível superior vin- professora Myriam Krasilchik, pesquisadora no campo
culado à Escola Normal. Teve vida efêmera como insti- do ensino da biologia, que foi diretora da Faculdade de
tuição independente. Em 1934 incorpora-se à nascente Educação e vice-reitora da USP. Nos últimos tempos,
Universidade de São Paulo e, em 1938, transforma-se em Myriam envolveu-se num projeto de educação ambien-
Seção de Pedagogia da Faculdade de Filosofia, Ciências e tal em duas cidades do interior paulista.
Letras (FFCL), incumbido, principalmente, da tarefa de A professora Anna Maria Pessoa de Carvalho trabalha
dar formação pedagógica a professores secundários de com duas equipes de professores de colégios públicos
diversas disciplinas formados pela USP. em busca de experiências inovadoras no ensino da física
Um segundo momento importante para a história tanto nas escolas fundamental e média. Um dos objeti-
da faculdade remonta ao ano de 1956, quando o Minis- vos dos grupos é levantar os tipos de experiências que
tério da Educação e Cultura (MEC) e a USP assinam um possibilitam o aprendizado do aluno. Foram produzi-
convênio e montam, dentro da Cidade Universitária, o dos 15 vídeos com imagens de sala de aula, capazes de
Centro Regional de Pesquisas Educacionais (CRPE) de sinalizar algumas experiências didáticas que ajudam o
São Paulo. Tratava-se de um braço de um órgão do MEC, aluno a aprender. Outro resultado prático foi o guia pa-
o Instituto Nacional de Estudos Pedagógicos (Inep), vol- ra professores Termodinâmica - Um ensino por investiga-
tado para pesquisas e treinamento de professores. Seu ção, com práticas metodológi-
idealizador era o filósofo da educação Anísio Teixeira, cas desenvolvidas pelo grupo de
cujas idéias nortearam uma notável renovação pedagó- professores do ensino médio. A
gica em meados do século 20 e deram lastro ao início da grande conclusão é que o apren- Cenas dos anos 1960:
ampliação do acesso à escola aos brasileiros mais pobres. dizado de física depende de ati- professoras estagiárias
O CRPE partilhava professores com a Seção de Peda- vidades em sala de aula capazes no prédio do CRPE
gogia da FFCL, mas as instituições seguiam independen- de provocar argumentações e de (alto); mãe de aluno
tes. Cada uma delas tinha sua Escola de Aplicação: a do permitir aos alunos o levanta- ajudando em aula de
CRPE, apenas de ensino básico; a da USP, a Escola Fide- mento e o teste de hipóteses. ciências no Colégio de
lino de Figueiredo, de ensino ginasial e médio. Numa experiência sobre di- Aplicação (à esq.);
O dia 1º de janeiro de 1970 marca a terceira etapa da latação, por exemplo, os profes- professoras em
trajetória, com a fundação da Faculdade de Educação sores colocam uma bexiga no treinamento e alunos
nos moldes em que ela funciona hoje. A unidade é cria- bocal de um recipiente de vidro em aula de linguagem
da, na esteira da reforma universitária de 1968, com a e aquecem sua base. A bexiga (à dir.)

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USP 70 tora Unesp. As obras didáticas são obtidas de fontes di-
versas, como sebos e bibliotecas, com o objetivo de aju-
dar a compreender a dinâmica da educação no passa-
do. Se o livro estiver usado, com exercícios respondidos,
mais rica é essa compreensão. Numa obra antiga os pes-
infla – o que serve de ponto de partida para a discussão quisadores encontraram até fragmentos de papel com
do fenômeno. “Os alunos debatem e algum deles acaba cola para prova, combustível importante para o estudo
sugerindo que a bexiga inchou porque o ar quente, afi- dos usos e costumes das escolas.
nal, sobe. Em seguida, vira-se o recipiente de cabeça para

N
baixo e a bexiga continua inflada. O professor conduz as o acervo há raridades publicadas
discussões rumo à real explicação, que é a dilatação do no século 19, algumas delas obti-
ar, e os alunos constroem seus conhecimentos formu- das na França, onde se imprimia
lando hipóteses e colocando-as à prova”, diz a professo- boa parte dos livros usados nas es-
ra Anna. Outra iniciativa com bons efeitos é a discussão colas do Brasil Império. “Minha
de textos originais de cientistas, em que os alunos per- vida é freqüentar sebos”, diz a pro-
cebem a importância do trabalho de equipe, da curiosi- fessora Circe. “Quando os sebos
dade e da perseverança nas descobertas. “A maioria das ainda não sabem que a gente está
pessoas não se lembra de nada do que aprendeu nas au- interessada, sai barato”, ela explica. Uma limitação para a
las de física”, diz Anna. “Alguns dizem que gostavam das pesquisa é que os livros didáticos distribuídos pelo go-
atividades de laboratório, mas também não conseguem verno, hoje, têm de ser reaproveitados, inibindo a inte-
lembrar exatamente do que gostaram. É um sinal de que ração dos alunos. “Tentamos preencher essa lacuna re-
o ensino tradicional de física está falido.” O esforço em colhendo cadernos”, afirma a professora.
desenvolver uma nova metodologia esbarra sobretudo É possível citar outras contribuições da Faculdade de
na parca carga horária da disciplina nas escolas públicas. Educação, como o trabalho teórico da professora Marí-
“Com uma aula por semana, dá para fazer muito pou- lia Spósito sobre os jovens, em especial sobre políticas
co”, afirma. públicas para a juventude no Brasil nos últimos anos.
A Faculdade de Educação
tem forte tradição também no
estudo da história da educação.
Se a corrente hegemônica, até
os anos 1970, voltava-se para a
história das idéias pedagógicas
e o perfil dos teóricos, dos anos
80 para cá o foco recaiu sobre
novos protagonistas: professo-
res e alunos.“A década de 1980,
de modo geral, marca uma mu-
dança na pesquisa da faculda-
de, agora mais voltada para o
chão da escola e para a plurali-
dade de orientações teóricas”,
explica a professora Marília
Spósito, presidente da Comis-
são de Pesquisa.
Um exemplo dessa verten-
te é o esforço para levantar a
trajetória do livro didático no
Brasil. Sob a liderança da pro-
fessora Circe Bittencourt, o
Centro de Memória da Educa-
ção, vinculado à faculdade,
vem construindo um acervo
de obras didáticas, material es-
colar e depoimentos orais de
professores e alunos. Uma tese
sobre o tema defendida pela
professora Circe em 1993, “Li-
vro didático: conhecimento his-
tórico”, será publicada em livro
nos próximos meses pela Edi-

60 ■
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Acima, autoridades Ou as pesquisas da professora Tizuko Morchida Kishi-
na inauguração do CRPE, moto no Laboratório de Brinquedos e Materiais Peda-
em 1956. Abaixo, gógicos. Ao avaliar o potencial dos brinquedos em ativi-
funcionário embala publicações dades pedagógicas, o laboratório busca colher subsídios
pedagógicas para a formação de professores de educação infantil. A
para enviar a professores professora Selma Garrido Pimenta, atual diretora da
faculdade, desenvolve um trabalho que se tornou refe-
rência sobre a formação de professores em todo o país.
Um dos frutos dessa linha de pesquisa foi um projeto
que coordenou, voltado à investigação do processo de
produção do conhecimento dos professores, desenvol-
vido entre 1996 e 2000 em duas escolas públicas da pe-
riferia de São Paulo. O combustível da pesquisa foi a
reflexão dos próprios professores sobre as práticas peda-
gógicas, uma metodologia qualitativa inovadora.
Destacam-se, ainda, as pesquisas dos professores Cel-
so Beisiegel sobre políticas públicas e as conseqüências
da expansão do ensino. Sua contribuição mais recente
foi a pesquisa Construção de banco de dados sobre experiên-
cias de professores da universidade pública na administra-
ção da educação pública das últimas décadas. Orientados
por Beisiegel e pelo professor Romualdo Portela de Oli-
veira, também da faculdade, sete alunos percorreram
vários estados do Brasil coletando e registrando infor-
mações sobre as atividades de professores em universi-
dades públicas na elaboração e na execução de políticas
educacionais. Levantaram documentos, entrevistaram
educadores e promoveram seminários com a participa-
ção desses professores a fim de entender o trabalho que
desenvolviam e debater a sua importância.
A instituição é conhecida como formadora de qua-
dros. Secretária da Educação do Estado de São Paulo por
quase oito anos, a pedagoga Rose Neubauer saiu dos
quadros docentes da instituição. Outra professora, Lise-
te Arelaro, foi Secretária de Educação do Município de
Diadema. Num passado recente, a faculdade forneceu
uma vice-reitora para a USP, Myriam Krasilchik, e dois
pró-reitores de graduação, Celso Beisiegel e Sonia Penin,
ainda em exercício. “A faculdade justifica sua presença
dentro da Universidade de São Paulo”, orgulha-se o pro-
fessor Beisiegel. •
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61
70 USP

Aconquista
doLeste
Na última reportagem
da série sobre os 70 anos
da Universidade de
São Paulo, Pesquisa FAPESP
mostra o inovador
projeto pedagógico que,
a partir de 2005, terá espaço
num novo campus da
capital paulista
F ABRÍCIO M ARQUES

A
Universidade de São Paulo (USP) Universitária e um projeto acadêmico inovador, em que
sempre se preocupou em renovar os as fronteiras entre as carreiras são mais flexíveis, a insti-
compromissos de excelência acadê- tuição também é um marco na Zona Leste de São Paulo,
mica e de expansão do ensino pú- região habitada por 4,5 milhões de pessoas, escassamen-
blico estabelecidos em sua funda- te assistida pelo ensino superior público. No vestibular
ção, em 1934. No início buscou de 2005, a Escola de Artes, Ciências e Humanidades –
agrupar no campus na Zona nome ainda provisório da nova instituição – vai oferecer
Oeste de São Paulo, na antiga 1.020 vagas nos cursos de Sistemas de Informação, Ciên-
fazenda Butantan, todos os cias da Natureza (Licenciatura), Obstetrícia, Gerontolo-
seus institutos e faculdades, gia, Ciências da Atividade Física, Marketing, Lazer e Tu-
numa estratégia para assegurar a qualidade homogênea rismo, Gestão de Políticas Públicas, Gestão Ambiental e
– só as tradicionais faculdades de Medicina e de Direito, Tecnologia Têxtil. Os alunos serão divididos em turmas
que já existiam antes da fundação da USP, resistiram em de 60 pessoas, distribuídas pelos períodos matutino, ves-
seus endereços originais. Já consolidada, decidiu deitar pertino e noturno. No canteiro de obras, operários es-
raízes também em outras regiões do estado. Hoje possui tão concluindo o primeiro prédio, que abrigará os alu-
campi nos municípios de Bauru, Piracicaba, Pirassunun- nos do ciclo básico, primeiro ano comum a todas as
ga, Ribeirão Preto e São Carlos. Pois agora, aos 70 anos carreiras.“Trata-se da obra de maior repercussão duran-
de idade, a universidade dá mais um salto ambicioso. te as comemorações dos 70 anos da USP”, disse o reitor
Em março de 2005 começam as aulas da USP Leste, um da USP, Adolpho José Melfi.
novo campus que está sendo erguido às margens do rio O projeto demorou 30 meses para amadurecer e en-
Tietê e da rodovia Ayrton Senna, que liga São Paulo a Ja- volveu o trabalho de mais de uma centena de docentes,
careí. Com cursos diferentes dos oferecidos na Cidade sob a coordenação-geral de Celso de Barros Gomes, che-

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PESQUISA FAPESP 106
DIVULGAÇÃO
A concepção artística mostra como
o campus da USP Leste estará
em 2006, quando todos os prédios gam a tangenciar outras já oferecidas, mas os currículos
estiverem construídos não se chocam.
O desenvolvimento do projeto acadêmico é um dos
capítulos mais vibrantes na trajetória da futura institui-
fe de gabinete da Reitoria, e de Myriam Krasilchick, ção. Embora as carreiras pertençam a áreas distintas do
professora da Faculdade de Educação e presidente da conhecimento, todas comungarão de um mesmo ciclo
Comissão Central da USP Leste no tocante ao projeto básico, o primeiro ano comum a todos os alunos ingres-
acadêmico. O processo de escolha dos novos cursos en- santes na Escola de Artes, Ciências e Humanidades. O di-
volveu consultas a estudantes de escolas públicas e pri- álogo entre os cursos, estimulado pela ausência de uma
vadas de São Paulo. Quase seis mil alunos foram convi- rígida estrutura de departamentos, também terá espaço
dados a opinar. A consulta mostrou a preferência por na formação de núcleos de pesquisa interdisciplinares,
profissões tradicionais, como medicina e engenharia, como o Laboratório de Estudos e Pesquisas sobre Com-
mas outras carreiras puderam ser identificadas, como plexidade e Cidadania, o Observatório de Políticas Pú-
informática, marketing e esportes. A definição, contu- blicas e o Observatório de Pesquisas Integradas sobre
do, foi moldada por uma limitação jurídica. O Estatuto Meio Ambiente Urbano, para citar alguns exemplos.
da USP proíbe que haja duplicidade de cursos numa O currículo do ciclo básico gira em torno de três ei-
mesma cidade. Ou seja, nenhuma carreira na Zona xos. Parte dele compreende matérias introdutórias, mas
Oeste poderia ser oferecida na Zona Leste. Depois de com propostas interdisciplinares, como “Sociedades com-
muita discussão, em que todas as unidades da USP fo- plexas, multiculturalismo e direitos” ou “Psicologia, edu-
ram ouvidas para evitar que os cursos da Zona Leste cação e temas contemporâneos”. “Essa diversidade de-
abortassem projetos em andamento na universidade, verá ser encarada como oportunidade exemplar para a
chegou-se ao conjunto de dez carreiras. Algumas che- construção de novas fronteiras na organização do co-

PESQUISA FAPESP 106 ■


DEZEMBRO DE 2004 ■
61
USP 70
nhecimento”, diz a professora Myriam. Outro
quinhão da carga horária é específico de cada
carreira. Isso para evitar a frustração dos ca-
louros com o excesso de disciplinas genéricas
e introdutórias no primeiro ano, que é um
dos fatores responsáveis pela evasão escolar.
E um terceiro pedaço da carga horária se-
gue uma experiência inovadora. É composto
por disciplinas em que o desafio do estudan-
te é dar solução a problemas concretos. “Pro-
mover a iniciação acadêmica e científica por
meio da resolução de problemas é uma das
abordagens inovadoras surgidas nos últimos
anos, que vem ganhando espaço em algumas
das principais universidades européias e
norte-americanas”, diz a professora Myriam.
“A intenção é criar um ambiente para dar au-
tonomia intelectual aos alunos que acabam
de sair da escola média”, ela afirma.

P
rocessos acadêmicos de reso-
lução de problemas envolvem
os alunos de várias manei-
ras. Primeiro eles discutem o
problema, que não tem res-
posta simples. Depois utili-
zam seus conhecimentos e
experiências na tentativa de achar uma saída.
Levantam hipóteses, investigam-nas e, por
fim, preparam um trabalho coletivo com
possíveis soluções. “A proposta estimula o
protagonismo dos estudantes na compreen-
são da complexidade dos fenômenos e pro- No canteiro de obras, operários
move a troca e a cooperação entre docentes, concluem as instalações que,
estudantes e comunidade”, diz Valéria Amorim Arantes, em março de 2005, receberão
professora da Faculdade de Educação e coordenadora a primeira turma de 1.020 alunos
do ciclo básico, que se inspirou em modelos como o da
Universidade de Aalborg, na Dinamarca, onde esteve re-
centemente. Outra característica do projeto acadêmico é res), Ciências da Atividade Física, Gerontologia, Gestão
a utilização de recursos multimídia e da informática. Os de Políticas Públicas e Gestão Ambiental – com concor-
cursos e atividades terão como suporte um site que reu- rência entre 2,17 e 4,44 candidatos por vaga. O saldo,
nirá seus conteúdos, a exemplo de uma experiência de contudo, é considerado positivo. Projetava-se um con-
sucesso realizada pela Escola Politécnica da USP. tingente de candidatos menor, na casa dos 4 mil a 5 mil
Toda essa proposta foi submetida a um importante inscritos. Como os cursos são novos e desconhecidos, é
crivo, o das inscrições para o vestibular. Quase 6 mil can- natural que não atraiam multidões. No final da década
didatos, na imensa maioria moradores da própria Zona de 1930, logo depois de a USP ser fundada, as salas de
Leste, inscreveram-se no primeiro vestibular e vão con- aula da recém-criada Faculdade de Filosofia, Ciências e
correr às 1.020 vagas oferecidas nas dez carreiras. O cur- Letras (FFCL) ficavam literalmente às moscas, pois os
so mais concorrido é o de Sistemas de Informação (9,47 candidatos ao vestibular continuavam concorrendo às
candidatos por vaga), seguido pelos de Marketing, Lazer tradicionais Faculdade de Medicina, Escola Politécnica e
e Turismo, Obstetrícia e Tecnologia Têxtil. É certo que, Faculdade de Direito, incorporadas à estrutura da nova
entre os dez cursos menos concorridos no vestibular da universidade.
Fuvest, cinco pertencem à USP Zona Leste: Ciências da O interesse de docentes por trabalhar na nova insti-
Natureza (uma licenciatura para formação de professo- tuição é animador. Os editais dos processos seletivos

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FOTOS EDUARDO CESAR

tadas para abrigar o campus: o Parque do


Carmo, no bairro de Itaquera, e uma área na
zona do Parque Ecológico do Tietê. O Parque
do Carmo foi logo descartado por razões
ambientais. A segunda área também tinha
empecilhos ecológicos, mas eles puderam ser
contornados. O plano inicial era erguer a
unidade numa gleba de mata fechada, de 1
milhão de metros quadrados, paralela ao lei-
to do rio. O conjunto arquitetônico, ideali-
zado pelo professor Sylvio Sawaia, era ambi-
cioso. Previa a construção de quatro prédios
interligados e dispostos como lados de um
quadrado. O miolo do quadrilátero formaria
uma enorme praça. Outros prédios seriam
erguidos acompanhando o leito do Tietê e,
numa gleba próxima, de 250 mil metros qua-
drados, haveria um centro esportivo. O plano
desmoronou quando os órgãos ambientais
vetaram o uso da área de mata fechada. Para
salvar o projeto, inverteu-se a estratégia. A
gleba à beira do Tietê vai ser aproveitada co-
mo um laboratório ambiental a céu aberto. E
o conjunto de prédios foi transferido para a
segunda gleba, aquela que abrigaria o centro
esportivo, onde não há entraves ecológicos.
Trata-se de um aterro.
O projeto arquitetônico foi simplificado.
Para não perder tempo, optou-se por come-
çar as obras erguendo uma construção idên-
tica a um dos prédios do campus da USP de
São Carlos. É ali que, em março de 2005, co-
meçará a funcionar o ciclo básico. No pri-
meiro ano estarão prontos esse prédio, com
5.200 metros quadrados, uma guarita, um
posto de segurança, o centro de apoio técni-
co, de 600 metros quadrados, dotado de sa-
las para docentes e funcionários, além de
uma construção destinada ao serviço de re-
que preencherão as 69 vagas necessárias para o primei- feições. As obras continuarão em 2005, com a constru-
ro ano estão em andamento. Isso envolveu a formação ção de outro prédio com 17 mil metros quadrados, de
de 31 bancas examinadoras. Mas, antes que esse proces- uma biblioteca com 7,2 mil metros quadrados e de ins-
so fosse aberto, fez-se uma consulta a professores da talações destinadas a serviços. Em 2006 um terceiro
USP sobre o interesse de se transferirem para a Zona prédio será entregue, com 17 mil metros quadrados.
Leste. Dezoito foram pré-selecionados e, ao final do O acesso será feito pela rodovia Ayrton Senna, ou pela
processo, dez professores tiveram seus pedidos de trans- avenida Assis Ribeiro, no bairro de Ermelino Matarazzo,
ferência aceitos. “A idéia inicial era de evitar que esse que delimita o novo campus. Outro meio de acesso é
aproveitamento superasse 20% das vagas”, diz o coorde- uma linha da Companhia Paulista de Trens Metropolita-
nador-geral Celso de Barros Gomes. “É uma instituição nos (CPTM), que tem duas estações nas proximidades.
nova e é importante que tenhamos também material No futuro será construída uma nova estação de trem des-
humano novo para erguê-la.” Da mesma forma, os atuais tinada à USP Leste. A integração da nova instituição com
funcionários tiveram a chance de se candidatar aos 86 a comunidade também está prevista. De um lado, conti-
empregos que serão criados na Zona Leste, no primeiro nuará funcionando numa casa do bairro o Núcleo de
ano de funcionamento. Despontaram 208 interessados. Apoio Social, Cultural e Educacional (Nasce), um centro
O trabalho da Comissão Central é avaliar quais se en- de extensão universitária com atividades voltadas para a
caixam nos cargos para, depois, abrir concursos para população, que já vem oferecendo cursos desde abril de
preencher os que sobrarem. 2004. Também funcionarão nas imediações do campus
O plano de implantar a USP Leste começou a ser uma escola estadual de ensino fundamental e médio e
gestado em 2002. A princípio, duas áreas foram cogi- outra municipal, de educação infantil. •
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