Vous êtes sur la page 1sur 26

Vulnerabilidades e riscos:

entre geografia e demografia*

Eduardo Marandola Jr.**


Daniel Joseph Hogan***

Entre as diferentes tendências de estudo dos riscos, temos inúmeras ciências


que se utilizam da mesma categoria de diversas formas, ligadas a seus próprios
pressupostos ontológicos, mas que pouco se comunicam. Este estudo objetiva
aproximar duas dessas áreas disciplinares, que têm demonstrado preocupações
semelhantes e que podem enriquecer-se mutuamente: Geografia e Demografia.
A primeira, uma das mais antigas a tomar o risco em sua dimensão ambiental,
tem larga experiência no esforço de focar as dinâmicas sociais e naturais
simultaneamente. A segunda enfrenta maiores dificuldades, por ter incorporado
a dimensão ambiental a seu escopo científico bem mais recentemente. Além
disso, ambas têm trazido, em seu arcabouço conceitual, a vulnerabilidade como
conceito complementar ao de risco. Os geógrafos a entendem de modo mais
simbiótico, a relação sociedade-natureza. Os demógrafos conferem a ela um
forte componente socioeconômico. Nesse sentido, a discussão conceitual
acerca dos riscos e vulnerabilidades, procurando aproximar os dois campos, é
uma forma de avançar conceitualmente e de enriquecer as várias perspectivas
de trabalhos empíricos.

Palavras-chave: Riscos. Perigos naturais. Vulnerabilidade sociodemográfica.


População e ambiente.

Contexto da pesquisa sociodemográficas das metrópoles do


interior e litoral paulista (Campinas e
Este trabalho faz parte de um esforço Santos). Ao tomar o termo vulnerabilidade
conceitual que temos perseguido no como mote principal, o projeto estribou-se,
contexto de um projeto que envolve a priori, na bibliografia desenvolvida sobre-
pesquisadores do Núcleo de Estudos de tudo por pesquisadores latino-americanos
População (Nepo) e do Núcleo de Econo- que têm enfocado a dimensão social e
mia Social, Urbana e Regional (Nesur), demográfica da vulnerabilidade.
ambos da Universidade Estadual de Nosso interesse particular, no entanto,
Campinas (Unicamp). Tal projeto tem como vai além dessas questões, ressaltando
objetivo estudar as vulnerabilidades prioritariamente a dimensão ambiental da

*
Uma primeira versão deste artigo foi apresentada no XIV Encontro Nacional de Estudos Populacionais da Abep, realizado em
Caxambu/MG – Brasil, de 20-24 de setembro de 2004. Esta versão foi revisada e ampliada.
**
Geógrafo, doutorando em geografia pelo Instituto de Geociências (IG) e colaborador do Núcleo de Estudos de População
(Nepo), ambos da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).
***
Demógrafo e sociólogo, professor do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH) e pesquisador do Núcleo de Estudos de
População (Nepo), ambos da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).

R. bras. Est. Pop., São Paulo, v. 22, n. 1, p. 29-53, jan./jun. 2005


Marandola Jr., E. e Hogan, D.J. Vulnerabilidades e riscos: entre geografia e demografia

vulnerabilidade, a partir da relação popula- orientação teórica, o seu objetivo final é o


ção-ambiente. É nesse contexto que se quadro metodológico que ainda se dese-
insere o esforço conceitual de mapear e nha à nossa frente. Em vista disso, temas
compreender as formas e os sentidos de como os trabalhos dos geógrafos sobre os
como os diferentes pesquisadores empre- natural hazards (perigos naturais) – talvez
gam tal idéia, enfocando várias dimensões entre os primeiros a estudar esses concei-
da vulnerabilidade a partir de seus quadros tos –, os diferentes enfoques historicamente
teórico-metodológicos e ontológicos. utilizados no estudo do risco (percepção do
Localizar e entender o termo vulnerabili- risco, risco e cultura, análise de risco, even-
dade nas diversas abordagens científicas é tos e sistemas ambientais) em perspectiva
um empreendimento que não pode ser com as discussões recentes acerca da
realizado sem se considerar, simultanea- Sociedade de Risco e os dois principais
mente, o conceito de risco. Isso se deve ao horizontes de estudo da vulnerabilidade
fato de a vulnerabilidade aparecer no contex- hoje (pobreza e desigualdade, de um lado,
to dos estudos sobre risco em sua dimensão e a sua dimensão ambiental nas várias
ambiental, num primeiro momento, e só mais escalas, de outro) (Marandola Jr. e Hogan,
tarde no contexto socioeconômico. 2004c) foram abordados de um ponto de
Na realidade, os primeiros estudos vista teórico-conceitual, com foco em seus
científicos envolvendo o conceito de risco significados epistemológicos e ontológicos,
possuíam uma forte orientação objetivista bem como os pontos mais significativos das
(empiricista-realista), tendo como pressu- diversas abordagens.
posto o entendimento da realidade como Por outro lado, há outras tradições de
um dado, ou seja, passível de mensuração. estudo do risco no contexto das ciências
Essa noção de risco ainda possui grande sociais, como as contribuições de Niklas
eco em diferentes tradições de estudos. No Luhmann, Mary Douglas, Deborah Lupton e
entanto, com o tempo surgiram não apenas Caroline Moser, que ainda não foram
posições contrárias – como a subjetivista consideradas (nem serão neste momento,
(idealista), que entendia que o risco existe em virtude do recorte teórico-metodológico),
apenas a partir da linguagem –, mas outras e merecerão nossa atenção (Luhmann,
posturas que procuravam mesclar esses 1993; Douglas, 1966, 1992; Douglas e
dois extremos. Wildavsky, 1982; Lupton, 1999; Moser, 1998,
Entretanto, um marco crucial no desen- 2004).
volvimento desses estudos é a discussão Agora, portanto, nosso foco se dire-
da Sociedade de Risco, inaugurada pela ciona aos geógrafos, que foram os primeiros
sociologia em meados da década de 80. a trazer a vulnerabilidade para o debate
Esses estudiosos deslocaram o debate de ambiental no contexto dos estudos sobre
um local circunscrito no tempo e no espaço os riscos. Eles, como mencionado, têm
para o âmbito das macrotransformações colocado em relevo essas categorias no
sociais. Contudo, permanece um hiato entre contexto de uma linha de investigação que
essa análise contemporânea e os estudos se ocupa do estudo dos natural hazards
anteriores, com algumas exceções impor- (Marandola Jr. e Hogan, 2004a).
tantes e esforços preliminares de conjunção. O interesse dos geógrafos e dos
Esse texto se inscreve, portanto, num demógrafos tem confluído, principalmente,
esforço continuado de “cartografar” as com preocupações mais recentes destes últi-
tendências e abordagens de estudo dos mos sobre as populações em situações de
riscos e vulnerabilidades, com o intuito de risco. Ambos passam a ocupar-se de estu-
compor um quadro teórico-metodológico dos sobre enchentes e deslizamentos, entre
para embasar nossas pesquisas empíricas outras situações em que o ambiente, conju-
(do projeto maior, como um todo, e dos gado a fatores socioeconômicos, expõe as
subprojetos inseridos em seu contexto, em populações a riscos, sobretudo nas cidades.
particular). Isso significa dizer que, embora É nesse contexto que vemos a pertinên-
esse esforço tenha, a princípio, uma nítida cia de propor uma aproximação conceitual

30 R. bras. Est. Pop., São Paulo, v. 22, n. 1, p. 29-53, jan./jun. 2005


Marandola Jr., E. e Hogan, D.J. Vulnerabilidades e riscos: entre geografia e demografia

entre estes dois campos: geografia e pesquisadores preocupados com fenôme-


demografia. A primeira é uma das pioneiras nos naturais que, em situações extremas,
em trabalhar os riscos e as vulnerabilidades causavam danos e expunham as popula-
em sua dimensão ambiental, com um ções ao perigo. Os natural hazards, ou peri-
espesso edifício conceitual e uma larga gos naturais,2 têm exigido grande esforço e
tradição de trabalhos empíricos. A segunda apreensão por parte de pesquisadores
só recentemente incorporou em uma parte envolvidos com ações de planejamento e
de suas preocupações a dimensão ambien- gestão e com a relação do homem com seu
tal, mas, no entanto, tem contribuído com ambiente.
estudos empíricos e preocupações conflu- Entre esses perigos estão as enchen-
entes em um universo teórico distinto dos tes, deslizamentos, tornados, erupções
geógrafos e ainda por ser mais bem dese- vulcânicas, furacões, vendavais, granizo,
nhado. E ambas alinham-se às abordagens geadas, nevascas, desertificação, terremo-
com forte orientação empírica, com preocu- tos e assim por diante. São considerados
pações diretas sobre espaços-tempos perigos no momento em que causam dano
específicos e problemáticas relacionadas às populações (Burton, Kates e White, 1978;
ao planejamento e à gestão. Aneas de Castro, 2000).
Faremos uma breve revisão de como o Como o estudo desses perigos sempre
debate acerca dos riscos e das vulnerabi- esteve num contexto de planejamento, em
lidades se desenvolveu e evoluiu entre os que havia áreas específicas em foco e
geógrafos, passando depois aos demó- perdas humanas, materiais e econômicas
grafos. Tal abordagem incidirá sobre os iminentes, o estudo sempre esteve imbuído
estudos dos natural hazards, a principal linha da preocupação de não apenas entender a
de investigação entre os geógrafos que têm extensão e o dano que os perigos causariam
trabalhado os conceitos de risco e vulne- àquelas populações. O prognóstico da
rabilidade. Esse recorte é tanto circunstan- probabilidade daqueles fenômenos ocorre-
cial, em razão da dimensão deste texto, rem era fundamental naquele contexto.
quanto metodológico, pois esta é a área de Nesse sentido, os geógrafos desenvol-
principal contato entre geografia e demo- veram largamente o que chamavam de risk
grafia neste campo, bem como é a base assessment (avaliação do risco): avaliação
teórico-metodológica da qual muitos demó- do risco de ocorrer um perigo em determi-
grafos têm se servido para ajudar a orientar nado local.
seus trabalhos.1 No final, relacionamos os É evidente que a avaliação do risco não
dois campos, procurando tecer um quadro era algo exclusivo dos geógrafos. No
comum para discussão dos conceitos e para entanto, eles desenvolveram metodologias
operacionalizar nossas pesquisas, tendo específicas, abordando tanto as variáveis
como preocupação de fundo a relação ambientais quanto as respostas coletivas e
população-ambiente. individuais das populações em risco. Nesse
aspecto, destacam-se os trabalhos de
Natural hazards: uma tradição Robert W. Kates, Risk assessment of
geográfica environmental hazards (Kates, 1978) e de
Anne White e Ian Burton, Environmental risk
Os estudos geográficos sobre risco assessment (White e Burton, 1980), ambos
receberam tratamento especial dos no contexto do Scientific Committee on

1
Este recorte visa dar uma unidade de referência aos diferentes entendimentos, bem como permitir uma melhor compreensão
da evolução dos conceitos. Contudo, atualmente há outros geógrafos, não diretamente vinculados aos estudos dos
natural hazards, que têm avançado na discussão da vulnerabilidade. Incorporar a discussão desses pesquisadores é um esforço
complementar a este, que desenvolvemos em outro trabalho (Marandola Jr. e Hogan, 2004c).
2
Há uma questão importante que se refere à melhor tradução para hazard. Em trabalho anterior, argumentamos e optamos por
utilizar perigo em vez de risco, acidente, azar ou acaso, como ocorre alternadamente na literatura nacional (Marandola Jr. e
Hogan, 2004a).

R. bras. Est. Pop., São Paulo, v. 22, n. 1, p. 29-53, jan./jun. 2005 31


Marandola Jr., E. e Hogan, D.J. Vulnerabilidades e riscos: entre geografia e demografia

Problems of the Environment (Scope), adaptações ocorrem hoje em pequena


importante organização científica que escala, embora a cultural possa ser
contribuiu muito nos estudos sobre as relacionada às mudanças de compor-
relações do homem com seu ambiente, tamento e valores, promovidas principal-
principalmente nos anos 70 e 80. Tais mente pelos novos riscos vividos nas
metodologias orientaram diversos traba- cidades. No entanto, os ajustamentos é que
lhos de análise do risco no mundo todo. são mais interessantes, pois envolvem as
Nesses trabalhos seminais, os concei- ações e escolhas, coletivas e individuais,
tos principais eram risco e perigo. O perigo que têm como conseqüência a diminuição
era o fenômeno estudado e o risco, a pers- do desajuste existente entre as populações
pectiva em que se colocava a abordagem e esses eventos da natureza (Burton, Kates
do problema. Em vez de se utilizar o impacto e White, 1978).
como abordagem, imperava uma preocupa- Eles podem ser tanto incidentais (ati-
ção prognóstica que reclamava a minimi- tudes que não têm o perigo em perspectiva,
zação da incerteza, ou seja, a mensuração mas produzem em conseqüência a dimi-
das probabilidades de os perigos acon- nuição de seu dano ou risco) quanto frutos
tecerem era fundamental para diminuir a de decisão consciente, individual ou cole-
ocorrência e a intensidade dos desastres. tiva. “Adjustments may be separated into
Nesses primeiros estudos, a vulnera- those that are purposefully adopted and
bilidade não aparece como conceito, mas other activities and characteristics of
como idéia subjacente à noção de capa- individual behavior that sometimes are not
cidade de resposta. Tal idéia é central nas primarily hazard-related but have the effect
metodologias propostas, sendo parte of reducing potential losses” (Burton, Kates
integrante das pesquisas. e White, 1978, p. 40). É nesse quadro que
Na importante obra avaliativa dessa se coloca a ampla gama de propostas de
linha de investigação, Ian Burton, Robert W. intervenção, planejamento e gestão, bem
Kates e Gilbert F. White dão destaque a essa como as políticas públicas que têm como
questão. Para os autores, a resposta ao objetivo diminuir as perdas (materiais e hu-
perigo é a capacidade de diminuir as perdas manas) e aumentar a segurança. São igual-
e salvar vidas. “Response to hazards is mente importantes aqui as ações coletivas
related both to perception of the phenomena e individuais no âmbito das comunidades,
themselves and to awareness of opportunities da família e de outros círculos não-governa-
to make adjustments” (Burton, Kates e White mentais, mas que também agem para
1978, p. 35). Os autores levantam assim a aumentar o ajuste ao perigo, diminuindo
questão da percepção do risco como funda- assim o risco e sua própria vulnerabilidade.
mental na resposta que as populações Um outro conceito significativo neste
darão ao perigo. As respostas podem ser contexto é a capacidade de absorção
de curto, médio ou longo prazo. Assim, entre (absorptive capacity). Segundo os autores,
elas, os autores listam as ações de como os perigos são eventos naturais que
emergência, de evacuação de áreas e de atingem diretamente os sistemas de uso
prestação de auxílio às pessoas atingidas, humanos, as respostas têm de envolver
a adaptação biológica e a adaptação aspectos tanto da vida econômica e social
cultural, assim como a capacidade de quanto dos sistemas naturais. E apesar do
absorção dos perigos e os ajustamentos. foco primário se dar sobre ajustamentos
O enfoque incide sobre as de médio e decididos, os autores destacam o papel dos
longo prazos, e entre estas as que são ajustamentos incidentais, da adaptação
intencionais, ou seja, fruto de planejamento cultural, que cria um nível de capacidade
e decisão (escolhas). As adaptações bioló- individual, e dos sistemas sociais para
gica e cultural estão numa escala temporal absorver os efeitos das flutuações
anterior, em que as sociedades humanas, ambientais extremas. Tal capacidade de
através da história, têm se adaptado absorção está, portanto, ligada diretamente
aos diferentes perigos naturais. Essas aos ajustamentos, sendo fundamental para

32 R. bras. Est. Pop., São Paulo, v. 22, n. 1, p. 29-53, jan./jun. 2005


Marandola Jr., E. e Hogan, D.J. Vulnerabilidades e riscos: entre geografia e demografia

que, mesmo sofrendo as perdas, a socie- definido pelas condicionantes ambientais


dade, as pessoas e o sistema ambiental (biofísicas – naturais) ou pelos recursos
sejam capazes de absorver este impacto e socioeconômicos, que conferem maior
se recuperar.3 capacidade de resposta diante dos perigos?
Portanto, embora a vulnerabilidade já Segundo Susan Cutter, importante
tivesse lugar nesses primeiros estudos,4 ela sistematizadora das diferentes abordagens
ganhará maior atenção no fim da década sobre vulnerabilidade,5 essa riqueza se dá
de 80 e nos anos 90. Isso ocorre quando as em virtude da própria diversidade de temas
pesquisas deixam de se ocupar apenas abordados, dos muitos espaços estudados
com os perigos naturais, passando a (países em várias situações de desenvolvi-
enfocar também os perigos sociais e mento), bem como da própria orientação
os tecnológicos. Além disso, os “naturais” epistemológica (ecologia política, ecologia
passam a ser vistos como ambientais, humana, ciência física, análise espacial) e
implicando que os perigos só podem ser suas conseqüentes práticas metodológicas.
compreendidos levando-se em conta o Essas diferenças resultarão, segundo a
contexto natural e as formas pelas quais a autora, em três posturas principais (Cutter,
sociedade tem se apropriado da natureza, 1996, p. 530):
produzindo perigos (Jones, 1993). 1. uma que se foca na probabilidade de
Embora os geógrafos sempre tenham exposição (biofísica ou tecnológica);
enfocado a dimensão humana simultanea-
2. outra que se ocupa da probabilidade
mente à física (os perigos só existiam a partir
de conseqüências adversas (vulne-
do momento que houvesse populações
rabilidade social);
atingidas), essas novas preocupações
davam uma atenção mais direta a pro- 3. e uma última que combina as duas
cessos socioeconômicos e a problemas anteriores.
eminentemente sociais. A vulnerabilidade Essas três posições são representadas
aparece agora em três contextos – social, por três tendências denominadas pela
tecnológico e ambiental – e sua importância autora de (1) vulnerabilidade como condi-
vai crescendo gradativamente. ção preexistente; (2) vulnerabilidade como
Em vista disso, uma discussão que se resposta controlada (tempered response);
torna relevante, em relação ao debate e (3) vulnerabilidade como perigo do lugar
acerca da vulnerabilidade, é sua natureza (hazard of place).
ou, em outras palavras, suas causas e Na primeira, Cutter afirma que os
elementos constitutivos, pois, enquanto estudos se caracterizam por focar a
tinha seu foco nos fenômenos biofísicos, a distribuição da condição perigosa, a
vulnerabilidade poderia ser facilmente ocupação humana em zonas perigosas
relacionada aos ecossistemas ou aos (áreas costeiras, zonas sísmicas, planícies
ambientes. No entanto, com a ampliação inundáveis) e o grau de perdas (de vida e
das perspectivas de estudo, coloca-se a propriedade) associado com a ocorrência
questão: a vulnerabilidade é um atributo de um evento particular (inundação, fura-

3
Esta é, de fato, a idéia de resiliência, conceito original da Física, que passa à ecologia e hoje está presente em uma vasta
bibliografia sobre questões ambientais. Os autores fazem pontualmente essa menção, embora não trabalhem de forma mais
específica esse conceito, cuja associação mais direta com os estudos sobre vulnerabilidade é uma perspectiva promissora.
4
Na obra de Burton, Kates e White, apesar da vulnerabilidade aparecer de maneira difusa no texto, ela recebe destaque no sumário
das idéias, apontando para a importância que esta receberia nos anos seguintes. “Nature, technology, and society interact to
generate vulnerability and resilience vis-à-vis disaster. In the short run the global toll in damage will continue to rise, while loss of life
will be reduced substantially. The long-term thrust of development in nations is toward reducing the social cost of hazard to society
– but in periods of rapid transition societies become peculiarly vulnerable to hazard. A central task for international cooperation
should be to ease these transitions. – Hazard vulnerability varies among nations, emphasizing loss of life in the developing, and
catastrophic damage in the highly industrialized” (Burton, Kates e White, 1978, p. 223, grifos nossos).
5
Esta geógrafa, pesquisadora do Hazards Research Lab., da Universidade da Carolina do Sul, EUA, tem realizado importantes
avaliações conceituais e retrospectivas sobre o que chama de Vulnerability Science, na perspectiva dos estudos sobre environmental
risks and hazards (Cutter, 1994, 1996, 2003).

R. bras. Est. Pop., São Paulo, v. 22, n. 1, p. 29-53, jan./jun. 2005 33


Marandola Jr., E. e Hogan, D.J. Vulnerabilidades e riscos: entre geografia e demografia

cão, terremoto). Na aferição da vulnerabi- where vulnerable people and places are
located, or social space, who in those places
lidade nesses estudos, são consideradas
are most vulnerable. (Cutter, 1996, p. 533)
magnitude, duração, impacto, freqüência e
as características biofísicas gerais e da Incorporam-se à mesma discussão a
exposição ao fenômeno. mensuração do risco biofísico (ambiental),
Muitos dos primeiros estudos sobre a produção social do risco e as capacidades
vulnerabilidade e perigos naturais estavam de resposta, tanto da sociedade (grupos
centrados nessa perspectiva, como o de sociais) quanto dos indivíduos. Nessa
Hewitt e Burton (1971) e os trabalhos abordagem, encontraremos vários
reunidos na seminal coletânea de Gilbert F. geógrafos trabalhando diferentes perigos.
White (um dos mais destacados pioneiros Keith Smith, por exemplo, em obra
e difusores dessa linha de investigação), sobre Environmental hazards: assessing risk
como resultado dos trabalhos da Comissão e reducing disaster, define seu conceito de
sobre o Homem e o Ambiente, da União vulnerabilidade, baseado em Timmerman
Geográfica Internacional (UGI), com (1981):
colaboração de pesquisadores de vários The learning benefits of experience for future
países (White, 1974). hazard reduction strategy will be nullified if
O segundo grupo de estudos sobre the level of human vulnerability to disaster
vulnerabilidade, afirma Cutter, está ocupa- continues to rise faster than the degree of
do com as respostas da sociedade, incluin- protection which can be offered. The
concept of vulnerability implies a measure
do a resistência e resiliência social para com of risk combined with the level of social and
os perigos. “The nature of the hazardous economic ability to cope with the resulting
event or condition is usually taken as a event in order to resist major disruption or
given, or at the very minimum viewed as a loss (Timmerman, 1981). In other words,
social construct not a biophysical condition” vulnerability is the liability of a community to
suffer stress, or the consequence of the
(Cutter, 1996, p.532-533). Esta tendência failure of any protective devices, and may
se concentra, portanto, na construção social be defined as ‘the degree to which a system,
da vulnerabilidade e em seus fatores cultu- or part of a system, may react adversely to
rais, econômicos, políticos e sociais, condi- the occurrence of a hazardous event’ (Smith,
cionantes das respostas individuais e 1992, p. 22).
coletivas. O autor deixa claro assim que a vulne-
Tal propensão é a mais próxima dos rabilidade, olhada por esse ângulo, não
trabalhos mais fecundos dos demógrafos, pode ser auferida apenas através de
conforme veremos à frente. Mas é também avaliações das dinâmicas naturais dos
nessa perspectiva que alguns geógrafos perigos em evidência, muito menos apenas
ocupados de perigos sociais têm trabalhado pelo estudo dos recursos sociais para lidar
(Watts e Bohle, 1993; Oppong, 1998), além com o perigo. Antes, é fundamental
de alguns pesquisadores latino-ameri- compreender a relação existente entre
canos que têm tratado a vulnerabilidade esses condicionantes, para evitar os dois
sobretudo em sua dimensão social (García, enganos: supervalorizar os fatores
2003; Schmoisman e Márquez-Azúa, ambientais ou a dinâmica social.
2003). Harold Brookfield externou essa
Por fim, Cutter destaca sua tendência preocupação. Segundo ele, enquanto
de escolha, que é de fato a predominante alguns fenômenos têm suas causas
atualmente. Vulnerabilidade como perigo facilmente identificadas (como as bombas
do lugar é uma perspectiva mais conjuntiva atômicas – oriundas da ação humana),
que é, na avaliação da autora, a mais geo- outros são mais complexos, tendo-se de
graficamente centrada. Em tal perspectiva, atribuir pesos iguais às causas naturais e
[...] vulnerability is conceived as both a humanas. Brookfield (1999) afirma ainda
biophysical risk as well as a social response, que é freqüente a aferição de causas de
but within a specific area or geographic maneira apressada, estabelecendo-se
domain. This can be geographic space, relações de causa e efeito de forma

34 R. bras. Est. Pop., São Paulo, v. 22, n. 1, p. 29-53, jan./jun. 2005


Marandola Jr., E. e Hogan, D.J. Vulnerabilidades e riscos: entre geografia e demografia

simplista, não raro subvalorizando os fatores Hodgson, 1993; Kolars, 1982; Ayoade,
ambientais. 1998; Liverman, 1990).
O autor entende a vulnerabilidade rela- Cutter (1996) elabora melhor essa
cionada tanto à geografia de onde se en- abordagem através de uma figura, em que
contra a comunidade estudada, quanto à aparece claramente sua idéia do que seria
sua situação econômica e política. Para ele, o estudo da vulnerabilidade por uma
“[...] there are both geophysical and human perspectiva conjuntiva centrada no lugar
forces at work in the production of vulnerability (Figura 1). Esse modelo mostra as relações
to damage and of damage itself” (Brookfield, existentes entre o risco, as ações de
1999, p. 7). O autor propõe assim que o mitigação (respostas e ajustamentos) e a
estudo sobre a vulnerabilidade seja focado vulnerabilidade do lugar, havendo a
na resistência e sensibilidade do ambiente definição destes elementos nos termos da
e não partindo da causa social da vulne- relação estabelecida entre eles. Ou seja, o
rabilidade, pois uma abordagem assim, em aumento das ações mitigadoras poderá
sua opinião, pode acabar mascarando as significar a diminuição do risco e, conse-
causas naturais envolvidas no processo. qüentemente, implicará a redução da
Todo o esforço do autor é para recolocar a vulnerabilidade do lugar. Por outro lado, o
importância dos estudos das causas risco poderá aumentar se houver alterações
biofísicas dos perigos. Ele afirma que há no contexto geográfico ou na produção
muito mais causas físicas em mais casos social, que poderão incorrer no aumento
do que se imagina. da vulnerabilidade biofísica e social
Essa preocupação é mais do que (respectivamente) e da vulnerabilidade do
legítima, na medida em que, envolvidos lugar. Tal processo poderá ser iniciado
num sistema com um modo de produção também pelo aumento do perigo potencial,
amplamente controlador, com implicações que tanto pode ser resultado quanto
diretas e indiretas em todas as facetas de condicionante do aumento ou da dimi-
nossa vida, as ciências sociais em geral (e nuição da vulnerabilidade.
nelas se inclui a geografia) vivem uma ten- Na parte de baixo da figura, Cutter deixa
dência de minimizar fatores que não sejam claro que propõe centrar os estudos sobre
socioeconômicos ou políticos. Embora não vulnerabilidade em um local circunscrito no
desejemos incentivar um esvaziamento espaço, mas sem desprezar a evolução
político da discussão sobre vulnerabilidade, temporal que imprime mudanças nos ele-
centrando-a nas discussões de suas mentos desse esquema. Assim, a alteração
determinantes ambientais, não podemos dos termos da relação entre os elementos
reduzi-la a elementos sociais. deve ser ponderada numa escala temporal
O alerta de Brookfield torna-se tanto satisfatória para que possam ser avaliadas
mais relevante num cenário interdisciplinar as mudanças e colocadas em perspectiva.
e num esforço como esse de firmar um Não se pode considerar a situação como
diálogo entre geografia e demografia. estática, congelada no tempo. As intera-
Contudo, os termos desse diálogo estão, ções espaciais e sociais são ininterruptas
em grande parte, nos termos da discussão e apenas aumentam a complexidade de
da terceira tendência apontada por Cutter, nossa tarefa como pesquisadores de tentar
que busca não priorizar nenhum dos dois compreendê-las e dar respostas às
pólos. Muitos exemplos poderiam ser dados inquietações e problemáticas enfrentadas
de estudos empíricos que têm utilizado essa pela sociedade.
orientação, procurando tanto considerar as De fato, buscar encontrar tais caminhos
implicações e condicionantes sociais na passa pela aplicação de modelos mais
resposta a perigos, como enfatizar a natu- conjuntivos que aliem os conhecimentos
reza e a relevância desses fenômenos na das dinâmicas sociais e naturais. A vulne-
capacidade de resposta dos diferentes rabilidade, como a têm entendido esses
grupos sociais (Gardner, 2002; Paulson, geógrafos, é uma característica intrínseca
1993; Naughton-Treves, 1997; Palm e dos lugares definidos por esse conjunto de

R. bras. Est. Pop., São Paulo, v. 22, n. 1, p. 29-53, jan./jun. 2005 35


Marandola Jr., E. e Hogan, D.J. Vulnerabilidades e riscos: entre geografia e demografia

FIGURA 1
Modelo “perigos do lugar” da vulnerabilidade (hazards of place model of vulnerability)
Os vários elementos que constituem a vulnerabilidade interagem para produzir a vulnerabilidade de lugares específicos e dos
habitantes desses lugares (parte superior). Essa vulnerabilidade pode mudar ao longo do tempo (parte inferior) com mudanças
no risco, mitigação e contextos dentro dos quais perigos ambientais ocorrem.

Fonte: Cutter (1996, p. 536).

36 R. bras. Est. Pop., São Paulo, v. 22, n. 1, p. 29-53, jan./jun. 2005


Marandola Jr., E. e Hogan, D.J. Vulnerabilidades e riscos: entre geografia e demografia

condicionantes ambientais e sociais, que the risk of dying is. The numerical value
devem ser estudados caso a caso para que measuring this degree is also called a
‘mortality rate’ (Barclay, 1958, p. 100).
se possa auferir onde um ou outro elemento
tem maior relevância, e onde ambos agem O risco é, portanto, uma fração matemá-
simultaneamente e com a mesma intensi- tica expressa por um índice, que varia de
dade na exposição das populações a riscos 0,0 (impossibilidade de ocorrência) a 1,0
e perigos e na sua conseqüente vulnera- (absoluta certeza de ocorrência). Essa
bilidade. diferença ou gradação refere-se ao grau de
Elemento crucial nesse sentido é a certeza que se consegue inferir de que de-
noção da capacidade de resposta, tão terminada pessoa (ou grupo populacional),
associada à vulnerabilidade, bem como os em determinadas circunstâncias, irá contrair
ajustamentos e a capacidade de absorção. certa doença ou ter certo comportamento de
Todos esses são conceitos trabalhados natalidade/mortalidade. Barclay destaca,
mais ou menos pelos demógrafos, não entre alguns dos passos para delimitação
apenas por aqueles ocupados da dimensão desses cálculos, a definição do universo, da
ambiental, mas também pelos focados na faixa etária e do total de pessoas que têm
vulnerabilidade sociodemográfica. possibilidade de morrer durante o intervalo.
Procuraremos agora traçar a evolução Assim, o universo é definido no número má-
do uso e entendimento dos conceitos de ximo possível de mortes, calculando-se com
risco e vulnerabilidade na demografia, es- base nos fatores relevantes para aquela
forçando-nos em apontar a especificidade dinâmica o universo de oportunidades que
do uso que os demógrafos fazem deles, bem podem matar durante aquele intervalo de
como os pontos de contato com a linha de tempo.
estudo dos geógrafos. No entanto, o autor mostra que há
outras utilizações da noção de risco, como
Riscos e vulnerabilidades: trajetória o risco de se casar, risco de ter filhos, risco
demográfica de entrar em alguma atividade econômica,
risco de ter algum tipo de doença mental.
O risco na análise demográfica tradicional No entanto, destacando o caráter demográ-
fico, Barclay enfatiza que o cálculo do risco
Tradicionalmente, a demografia utiliza- a qualquer ocorrência deve ter seu universo
se da noção de risco associada às proba- bem delimitado, pois o risco de ter um filho,
bilidades de ocorrerem certos eventos da por exemplo, é bem diferente entre deter-
dinâmica demográfica. Esse risco é fruto de minados grupos demográficos, como os
um cálculo matemático, que tem seus ele- abaixo de 10 anos, os de 20 a 40 e os de
mentos definidos de acordo com a natureza mais de 60 anos.
de tal fenômeno. Calculam-se, principal- O risco, nesse entendimento, é um
mente, o risco de morte e o risco de contrair elemento probabilístico estritamente neutro,
uma determinada doença. não carregando uma carga negativa em si,
Geoge W. Barclay, em sua obra clássica, como ocorre nos estudos dos geógrafos e
Techniques of population analysis, assim como é encarado o risco, em geral, desde a
explica este uso tradicional de risco na entrada da modernidade (Giddens, 1991).
análise demográfica: Assim, fundamentais nessa tradição de
Both expressions [proportions dying and
estudos são a delimitação e o conhecimen-
probability of dying] refer to the notion of to dos fatores de risco. De fato, essa é uma
the ‘risk’ of death, which is a way of saying tendência ainda presente e significativa dos
that people live continually exposed to some estudos demográficos, principalmente os
chance of dying, a chance that is precisely ligados à saúde. Vários estudos dedicados
measurable. Everyone of course dies some
a compreender a relação da dinâmica e do
time, but the prospect is uncertain at any
given moment. The risk is the degree of comportamento demográfico com determi-
uncertainty. The ‘proportion dying’ and the nadas doenças têm se utilizado largamente
‘probability of death’ both indicate how great dessa linha tradicional para identificar

R. bras. Est. Pop., São Paulo, v. 22, n. 1, p. 29-53, jan./jun. 2005 37


Marandola Jr., E. e Hogan, D.J. Vulnerabilidades e riscos: entre geografia e demografia

grupos demográficos de risco. Além disso, Nesse sentido, a epidemiologia, aliada


aumenta hoje a importância dada aos à demografia, tem contribuído e trazido enri-
grupos de comportamento de risco, quecimentos à discussão de saúde, incorpo-
buscando-se ampliar a discussão e fugir de rando o conceito de vulnerabilidade –
um certo “determinismo”. E também há uma mesmo que de forma ainda imprecisa – como
maior atenção às diferentes percepções um passo além em relação ao conceito de
dos grupos acerca do risco, bem como de comportamento de risco, conforme mostram
sua inserção cultural, material e simbólica Ayres et al. (1999). Tendo em perspectiva o
na sociedade, o que influi diretamente em caso específico da Aids, mas podendo
seus comportamentos e na adoção ou não ampliar o quadro para a epidemiologia em
de atitudes preventivas (Monteiro, 2002; geral, esses autores se esforçaram em,
Connors, 1992; Paicheler, 1992). acompanhando movimentos internacionais,
No entanto, algumas correlações são traçar as possibilidades e enriquecimentos
bastante claras e com ampla comprovação do conceito, apontando que um dos maiores
de estudos variados. Estes ganham maior desafios é ultrapassar a dimensão compor-
legitimidade à medida que incorporam tamental para a social, que leva em conta
entre seus fatores não apenas elementos elementos sociais e demográficos.
como natalidade, gênero e família, mas O conceito de vulnerabilidade não visa
também as condições socioeconômicas distinguir a probabilidade de um indivíduo
dos pais e as dimensões da escolaridade, qualquer se expor à Aids, mas busca
entre outros comportamentos e situações fornecer elementos para avaliar objetiva-
que não são diretamente fatores mente as diferentes chances que cada
indivíduo ou grupo populacional particular
demográficos (Cruz e Leite, 2002; Saad e tem de se contaminar, dado o conjunto
Potter, 1994; Barbosa e Andrade, 2000). formado por certas características indivi-
Nesses estudos, portanto, procura-se duais e sociais de seu cotidiano, julgadas
a correlação entre os diversos fatores, por relevantes para a maior exposição ou menor
meio de técnicas diferenciadas de estatística chance de proteção diante do problema
(Ayres et al., 1999, p. 65).
para determinar quais deles constituem fato-
res de risco e quais podem ser descartados Assim, Ayres et al. avançam do conceito
como irrelevantes. Ser um fator de risco de risco objetivo, quantitativo e compor-
significa, portanto, influir diretamente na tamental, para uma análise “quanti-quali”,
probabilidade de ocorrência de determi- que incorpora elementos quantitativos obje-
nado fenômeno. Ou seja, há uma correlação tivos a conjunturas sociodemográficas e
positiva. programáticas. Um dos principais enriqueci-
Grande parte desses estudos se mentos conceituais é a biface vulnera-
prende a uma noção da realidade es- bilidade-empowerment6 como duas faces
tritamente objetivista, entendida como um do mesmo processo, que interagem na
dado passível não apenas de mensuração, equação do risco e da saúde. Outro ponto
mas também de identificação de relações fundamental é a ênfase nos processos
causais, mesmo que multifocais e mul- coletivos, sociais e demográficos, e na face
tivariadas. política da doença e do risco, influenciando
Além disso, tais estudos nem sempre a capacidade das pessoas e grupos de se
incorporavam, de uma maneira mais inten- protegerem e/ou se tratarem. No entanto, a
sa, a capacidade que as pessoas e os grupos conceituação de vulnerabilidade ainda
demográficos possuíam ou poderiam possuir continua em construção, amplamente
para minimizar o risco a que estavam ex- utilizada embora pouco precisada na maior
postos, ou mesmo se eles teriam alguma parte desses estudos.
chance de “escapar” da probabilidade Quanto ao espectro maior dos traba-
imposta pelo coeficiente dos fatores de risco. lhos, a vulnerabilidade ainda não se tornou

6
Freqüentemente traduzido como empoderamento, no sentido estrito de “dar poder”, empoderar.

38 R. bras. Est. Pop., São Paulo, v. 22, n. 1, p. 29-53, jan./jun. 2005


Marandola Jr., E. e Hogan, D.J. Vulnerabilidades e riscos: entre geografia e demografia

o conceito-chave, embora haja tendências O autor chama a atenção para traba-


importantes nesse sentido. E, apesar das lhos que têm contribuído para a ampliação
críticas à persistência do uso de conceitos do entendimento dessa abordagem e que
como fatores de risco ou até de grupos e consideram os fatores biofísicos dos
comportamento de risco,7 ela persiste como ambientes e sua inter-relação com a
significativa linha de investigação muito dinâmica demográfica. Exemplos disso são
ligada à epidemiologia, que tem avançado populações que ocupam várzeas de rios e
no refinamento estatístico e na ampliação áreas sujeitas a inundações em favelas, ou
de suas bases teórico-metodológicas, populações sujeitas a desastres naturais.
enriquecendo os quadros que tem dese- Hogan procura aliar nessa abordagem,
nhado para a análise dos dados e das portanto, os elementos físicos dos ambi-
problemáticas colocadas em foco. entes onde as populações habitam com sua
situação socioeconômica, quando relevantes.
Populações em situações de risco: um Haroldo da G. Torres, em A demografia
avanço conceitual do risco ambiental, faz as perguntas que
estiveram na pauta do grupo: o que são
Talvez esses sejam os caminhos inici- riscos ambientais? Que tipo de população
ais, a partir da demografia, que conduziram reside nas áreas de risco, como mensurá-
as inquietações do Grupo de Trabalho sobre la e como estudá-la? Percebemos, de
População e Meio Ambiente, da Associação imediato, um acréscimo importante à tradi-
Brasileira de Estudos Populacionais (Abep), cional preocupação dos demógrafos, que
principalmente nos anos 90. Esse grupo é o componente ambiental. Ou seja, uma
tem papel fundamental no avanço preocupação latente do grupo era superar
conceitual e metodológico, no contexto da a limitação que os componentes da
demografia, nos estudos sobre risco. dinâmica demográfica apresentam para
Um dos conceitos centrais que foram compreender certos fenômenos, que têm
discutidos entre esses pesquisadores foi o uma carga do ambiente físico muito forte
de populações em situação de risco. De fato, como “fatores de risco”.
após alguns anos de discussões e Torres (2000) não apenas discute
pesquisas, o grupo publicou uma importante teoricamente o conceito de risco ambiental,
obra na qual podemos verificar o como também propõe e reflete sobre os
amadurecimento desse debate e como o embates existentes na sua operacionali-
grupo, de maneira geral, encarava tal zação. O autor busca sair do lugar comum
conceito e lhe concedeu operacionalidade.8 das discussões sobre risco, procurando
Daniel J. Hogan, fazendo uma ampla elaborar um plano lógico para seu enfrenta-
avaliação sobre o tema população e mento. Ele aponta quatro dificuldades e
meio ambiente, identifica as populações em cinco passos desse plano. As dificuldades
situações de risco entre as perspectivas podem ser assim resumidas:
para pesquisa em demografia nessa
1. há substâncias conhecidas e não-
temática. Segundo o autor, é uma abor-
conhecidas que podem ter exposto
dagem promissora, pois:
ou estar expondo as populações a
Como as conseqüências da deterioração riscos, conhecidos e não-conhe-
ambiental não são sentidas de forma igual cidos. Há riscos que apenas serão
entre grupos sociais nem uniformemente
através do território, as categorias usuais
conhecidos quando seus efeitos
para a análise demográfica nem sempre são negativos já tiverem afetado muitas
capazes de revelar estas conseqüências pessoas, às vezes com processos
(Hogan, 2000, p. 41). irreversíveis;

7
Ayres et al (1999) assinalam as limitações destes conceitos para os estudos ligados à saúde.
8
Este livro, organizado por Haroldo da G. Torres e Heloísa S. M. da Costa, selecionou textos do Grupo de Trabalho, produzidos ao
longo da década de 90, que representavam a sua trajetória conceitual e temática (Torres e Costa, 2000).

R. bras. Est. Pop., São Paulo, v. 22, n. 1, p. 29-53, jan./jun. 2005 39


Marandola Jr., E. e Hogan, D.J. Vulnerabilidades e riscos: entre geografia e demografia

2. a noção do que é arriscado é definida Elemento fundamental intrínseco


historicamente, podendo transfor- nesses passos é a característica que o
mar-se ao longo do tempo; estudo dos riscos adquire nessa perspectiva,
3. a percepção dos indivíduos e das qual seja, de se concentrar em uma área
famílias acerca do risco pode ser específica, em geral menos ampla do que
bastante diferente, por diversos aquela que a demografia está comumente
fatores, mesmo que o risco seja acostumada a trabalhar. “Para observar as
relativamente conhecido; características da população em situação de
risco, [...] a demografia é chamada a pensar
4. a capacidade dos indivíduos ou
também na escala intra-urbana, em
grupos sociais de se proteger é
pequenos setores censitários, ou naquilo
afetada pelo nível de renda.
que em algum momento passou a chamar
Esses pontos que registram a dificul- de demografia das pequenas áreas” (Torres,
dade de lidar com os riscos têm, segundo o 2000, p. 63).
autor, forte influência espacial. Ou seja, a Vemos assim que tais pesquisadores
escala de análise, os recortes espaciais e a deram um grande passo em relação aos
distribuição espacial dos fenômenos têm estudos tradicionais sobre o risco, apesar
influência direta em como poderemos lidar de observarmos nesse debate inicial um
com eles, bem como melhor compreendê- uso mais livre do termo “risco”, às vezes
los em sua relação com a sociedade empregando a palavra para se referir a
(Marandola Jr., 2004). “perigo” ou a “vulnerabilidade”, além de
Além disso, talvez a maior dificuldade, “risco” per si. Ao observar, porém, essas
segundo Torres (2000, p. 64), seja a “[...] cinco etapas, a demografia em seu sentido
identificação dos grupos sociais mais tradicional atentaria apenas para a primeira,
afetados por um determinado fenômeno talvez incidindo sobre a quarta, mas apenas
ambiental que se queira estudar”. Ciente em virtude dos resultados demográficos da
dessa dificuldade inerente, o autor propõe aplicação de seus modelos.
os principais passos lógicos envolvidos na Torres (2000, p. 67) reconhece, nessas
definição do que são as populações sujei- cinco etapas, a necessidade de uma
tas a riscos ambientais: atividade interdisciplinar em que espe-
1. identificação de uma fonte/fator cialistas de outras áreas seriam cruciais,
potencialmente gerador de riscos principalmente nas três primeiras. No
ambientais; entanto, a atividade dos demógrafos
2. construção de uma curva de riscos vinculados ao Grupo de Trabalho demonstra
(real ou imaginária); que eles têm aceitado este desafio, conforme
observamos nas demais contribuições do
3. definição de um parâmetro de livro (Taschner, 2000; Porto e Freitas, 2000),
aceitabilidade do risco; bem como em outros trabalhos mais
4. identificação da população sujeita a recentes (Hogan et al., 2001; Hogan e
riscos; Carmo, 2001; Torres e Marques; 2001).9
5. identificação de graus de vulnera- Por fim, Torres (2000, p. 69) lembra um
bilidade. elemento de fundamental importância, que

9
Nos últimos encontros da Abep temos visto uma ênfase crescente na temática dentro do Grupo de Trabalho (GT) População e
Meio Ambiente. Em 2002, por exemplo, das cinco sessões do GT, três tiveram essas temáticas em evidência, além de referências
a ela nas demais sessões: “Políticas Públicas e População: vulnerabilidade, adensamento e condições de habitabilidade”; “Políticas
Públicas e Populações em Situação de Risco/Vulnerabilidade Socioambiental” e “Políticas Públicas e Populações em Situação
de Risco/Vulnerabilidade Socioambiental – II”. Em 2004, a temática geral da chamada de trabalhos do GT contemplou a questão
da vulnerabilidade e dos riscos no contexto da justiça socioambiental, resultando em uma sessão específica em que o assunto foi
tratado diretamente: “Justiça socioambiental, conflitos de uso e populações em situação de risco/vulnerabilidade”. Ver trabalhos
em <http://www.abep.org.br>.

40 R. bras. Est. Pop., São Paulo, v. 22, n. 1, p. 29-53, jan./jun. 2005


Marandola Jr., E. e Hogan, D.J. Vulnerabilidades e riscos: entre geografia e demografia

tem a ver com as “[...] características category” (Cepal, 2002a, p. 1). Mas que
socioeconômicas das populações nas perspectiva analítica?
áreas de risco”. Fatores como distribuição A maioria dos estudos está centrada na
de renda, escolaridade, raça, tipo de ocupa- discussão das desigualdades sociodemo-
ção, entre outros, segundo o autor, devem gráficas, vinculadas à pobreza e à proble-
receber atenção juntamente com as variá- mática da exclusão social. Um documento
veis demográficas clássicas. Essa relevân- da Cepal elaborado para sistematizar o
cia está na identificação de desigualdades conhecimento acerca da noção, conforme
ambientais, que revelam uma correlação vem sendo utilizada por seus pesquisa-
forte entre áreas de risco ambiental e grupos dores, “[...] aims to apply a vulnerability-
de renda mais baixa e com consideráveis oriented approach to the analysis of
níveis de dificuldades sociais. the relations between population and
Essa é uma questão fundamental que development at the community, household
emerge tanto das preocupações desse and personal levels” (Cepal, 2002a, p. 1).
grupo, quanto de outros setores da Essa orientação irá ditar, evidente-
demografia, mais ligados à sociologia. Tanto mente, o que os autores entendem por
Hogan quanto Torres mencionam a questão vulnerabilidade e sua aplicação teórico-
da vulnerabilidade, embora naquele metodológica. Nesse sentido, é dada ênfase
momento não tenham desenvolvido sufi- ao estudo e à identificação de grupos vulne-
cientemente essa noção. No entanto, em ráveis, que são aqueles que apresentam
ambos os casos, ela aparece como características específicas que os tornam
vinculada à situação socioeconômica e à suscetíveis aos riscos. A delimitação desses
capacidade de resposta (ou enfrentamento) grupos obedece aos componentes tanto da
diante dos riscos ambientais. Mas ela será dinâmica demográfica quanto da dinâmica
amplamente desenvolvida em outro contex- social.
to e com alguns elementos constitutivos um The use of the notion vulnerability to refer to
pouco distintos da abordagem enfocada specific groups of the population has a long
aqui. É sobre tal abordagem que nos history in social analysis and social policies.
It is used, firstly, to identify groups which are
deteremos a seguir. in a situation of ‘social risk’: i.e., groups made
up of individuals who, because of factors
Vulnerabilidade sociodemográfica: um typical of their domestic or community
conceito latino-americano environment, are more likely to display
anomic forms of conduct (aggressiveness,
Essa outra tendência tem lugar no delinquency, drug addiction), to suffer
different forms of harm by the action or
cenário latino-americano, ligada princi- omission of others (intra-family violence,
palmente a pesquisadores do Centro attacks in the street, malnutrition), or to
Lationamericano y Caribeño de Demografia display inadequate levels of performance in
(Celade), divisão da Comisión Económica key areas for social inclusion (such as
para América Latina y el Caribe (Cepal), com schooling, work or interpersonal relations)
(Cepal, 2002a, p. 2).
ampla repercussão internacional e um
grande número de trabalhos comparativos. A pobreza e a mobilidade social (princi-
Apesar de também utilizarem o termo palmente para baixo na pirâmide social)
vulnerabilidade, o contexto teórico-metodo- são, de fato, os motes principais que mo-
lógico desses pesquisadores é sensivel- tivam esses pesquisadores.
mente outro, o que resultará numa visão Thus, lack of assets, their loss of value or
distinta, embora relacionada, da vulnerabi- inability to manage them properly form the
lidade e dos riscos. Vejamos a origem desse distinctive sign of vulnerability to two social
debate e como tais pesquisadores têm risks of capital importance: poverty, and
tratado o termo. downward economic and social mobility
(Cepal, 2002a, p. 3).
Em primeiro lugar, a tendência é consi-
derar a vulnerabilidade “[...] more as an A esse respeito, há uma tendência de
analytical approach than as a conceptual entender a vulnerabilidade como a

R. bras. Est. Pop., São Paulo, v. 22, n. 1, p. 29-53, jan./jun. 2005 41


Marandola Jr., E. e Hogan, D.J. Vulnerabilidades e riscos: entre geografia e demografia

suscetibilidade de sofrer perdas socioeco- ya por su pretensión de recortar de un


nômicas, como no poder de compra, na fenómeno macro un subgrupo y explicarlo,
capacidade de inserção social ou mesmo sino porque pretende aproximarnos a la
explicación del fenómeno de la pobreza en
de emprego. A linha da pobreza tem sido general, contribuyendo con un tipo de causa
encarada, às vezes, como um desses limites eficiente. En definitiva, procura ofrecer un
em que haveria maior vulnerabilidade cuerpo sistemático de conceptos y
(Celade, 1999; Cepal 2002b; Torres et al., relaciones que expliquen parte de la varianza
2003). de la pobreza y del bienestar. Este modelo
apoya su eje explicativo en los recursos con
A vulnerabilidade é entendida, portanto, que cuentan los propios hogares para
a partir de três componentes: (1) a existên- enfrentar las coyunturas externas (Kaztman
cia de um evento potencialmente adverso et al., 1999, p. 2).
(risco), endógeno ou exógeno; (2) incapaci-
Essa preocupação com a pobreza é
dade de responder à situação, seja por
que leva os autores a proporem o que
causa da ineficiência de suas defesas, seja
chamam de ativos, que são uma estrutura
pela ausência de recursos que lhe dêem
profunda de recursos (capitais humano,
suporte; (3) inabilidade de se adaptar à
social e físico) distribuídos desigualmente
situação gerada pela materialização do
numa sociedade em diversos lugares. A
risco (Cepal, 2002a, p. 1).
distribuição desses ativos, as estratégias
Essas etapas colocam a dinâmica em
dos lugares para utilizá-los e as trocas que
três momentos distintos: (1) há um evento
determinam a produção dos ativos, bem
potencial que poderá causar dano; (2)
como o acesso diferenciado a eles,
diante desse risco, as pessoas procuram
constituem a base analítica para o estudo
os meios de se proteger e percebem que
da pobreza.
são incapazes de fazer isso, porque não há
A vulnerabilidade é entendida pelos
recursos ou meios para defendê-las; (3)
autores como a menor disponibilidade,
quando o evento ocorre, ou materializa-se,
acesso ou capacidade de manejo desses
as pessoas enfrentam o perigo e sofrem
ativos, componentes de uma dada estrutura
pela falta de habilidade para adaptar-se a
de oportunidades (na qual se encontram
ele, sofrendo danos e perdas.
os ativos), em que se aprofundam as
Tal perspectiva apresenta a vulnerabili-
desigualdades sociais, condicionando
dade de maneira essencialmente negativa,
muitas vezes à marginalidade e à exclusão.
num sentido extremamente inescapável e
Assim como o conceito de populações
inevitável.
em situação de risco, a vulnerabilidade
Confluente a esse esforço cepalino, nessa perspectiva necessita, segundo os
Rubén Kaztman tem sido um dos principais autores, recorrer a uma análise microssocial
pesquisadores a tratar da vulnerabilidade no nível das comunidades. Através dessa
social, juntamente com um grupo de aproximação, permite-se também ver a
pesquisadores de Montevidéu (Uruguai) e segunda maior virtude de uma relação
de Córdoba (Argentina). A contribuição vulnerabilidade/ativos, que é a possibi-
mais significativa desses autores tem sido lidade de “[...] incursionar en un aspecto
sua leitura dos ativos e da estrutura de clave, generalmente omitido, de la acción
oportunidades. Essas duas noções enri- social intencional” (Kaztman et al., 1999,
quecem um quadro operacional de estudo p. 4). Esse é um ponto-chave, pois é a
da vulnerabilidade, na mesma perspectiva perspectiva de ver a sociedade dando
da Cepal. resposta à situação adversa em que se
Em estudo comparativo entre Argentina encontra.
e Uruguai, Kaztman et al. (1999) explicitam Há, evidentemente, outras formas de
em que contexto aplicam os conceitos de contextualizar a discussão da vulnera-
vulnerabilidade e ativos, deixando mais bilidade sociodemográfica. Muitos autores
claro ainda o horizonte de pesquisa: discutem a vulnerabilidade no contexto da
[Estes conceitos] se constituye o podría cidadania e das identidades (Hopenhayn,
constituirse en teorías de alcance medio, no 2002), dos direitos civis e da cidadania em

42 R. bras. Est. Pop., São Paulo, v. 22, n. 1, p. 29-53, jan./jun. 2005


Marandola Jr., E. e Hogan, D.J. Vulnerabilidades e riscos: entre geografia e demografia

contraposição à exclusão social (Kowarick, urbanizadas também reclamaram dos


2002); ou ainda das vulnerabilidades demógrafos a consideração mais detida dos
sociais a diferentes doenças relacionadas elementos ambientais (biofísicos) que
a construções simbólicas e representações incidiam diretamente sobre determinadas
sociais (Monteiro, 2002). Há, sem dúvida, populações, ora demograficamente locali-
uma ampla gama de discussões que ainda zadas, ora espacialmente delimitadas. Tal
merecerão avaliação e debate mais situação também trouxe à tona os conceitos
detalhado. trabalhados pelos geógrafos, que possuem
No entanto, tal entendimento sociode- orientação semelhante, devido à origem
mográfico da vulnerabilidade mantém, em dos problemas estudados (Hogan e Carmo,
virtude de seu foco (a pobreza e a exclusão), 2001).
um sentido de estado e não de corres- Mas essa confluência não é exclusivi-
pondência direta a elementos que causam dade da literatura nacional. Encontramos,
riscos. A vulnerabilidade é vista de maneira na bibliografia internacional, obras e traba-
mais permanente, entendendo-a como lhos escritos sobre esse tema, convergindo
resultado das interações sociais maiores, o interesse dos demógrafos com o dos
não se estabelecendo relações causais geógrafos, sob os auspícios dos perigos
mais diretas, como é o caso dos demógrafos naturais (Blaikie et al., 1994; Satterthwaite,
(e dos geógrafos, como vimos) ocupados 1998; Ezra, 2002; Hunter, 2004).
da vulnerabilidade em sua dimensão Por outro lado, em ambos os casos, a
ambiental, conforme veremos a seguir. vulnerabilidade sociodemográfica também
esteve presente por se entender, como os
Vulnerabilidade socioambiental: geógrafos, a vulnerabilidade não apenas
aproximando-se da geografia numa perspectiva ambiental (elementos
biofísicos), mas por se relacionar à capaci-
Como apontado, já havia uma tendên- dade socioeconômica (os ativos e estrutura
cia dos pesquisadores ligados ao Grupo de de oportunidades) das respectivas popula-
Trabalho sobre População e Meio Ambiente ções em dar resposta ao perigo.
em estudar a vulnerabilidade. E podemos A noção de estrutura de oportunidades
afirmar que esse tem sido o degrau seguinte parece ter uma contribuição ainda a ser mais
que tais estudiosos galgaram desde o bem explorada nesses estudos, pois ela
amadurecimento do conceito de popu- amplia o leque, não limitando tais ativos à
lações em situações de risco. Esse avanço situação socioeconômica. Então, numa si-
tem duas matrizes principais: o estudo dos tuação de risco, entre os ativos que determi-
geógrafos sobre os perigos ambientais e o nada população poderá articular para
estudo dos demógrafos sobre a vulnera- diminuir sua vulnerabilidade, poderão estar
bilidade social. elementos do capital social que não têm
Em primeiro lugar, entre as referências vinculação com poder aquisitivo nem renda.
iniciais sobre vulnerabilidade em sua São as redes de solidariedade, os sistemas
dimensão ambiental, utilizada por esses de proteção comunitários e familiares, além
pesquisadores, está a literatura geográfica. de alternativas que não estão diretamente
Essa confluência não se dá simplesmente vinculadas à situação socioeconômica da
por coincidência, mas por sobreposição de população.
problemas de estudo. Assim como os Essa discussão não se restringe à
geógrafos, os demógrafos viram-se diante América Latina, é evidente. O Global
de problemas como as enchentes, os Science Panel on Population Environment
deslizamentos e outros riscos que expu- (GSP), numa publicação recente que objeti-
nham as populações ao perigo (Hogan et vava traçar uma avaliação do papel da
al., 2001). população nas estratégias de desenvol-
Em outros contextos, a reflexão sobre vimento sustentável, incluiu algumas
as dinâmicas de metropolização e a degra- considerações sobre as populações
dação ambiental em áreas densamente vulneráveis. O GSP focalizou segmentos

R. bras. Est. Pop., São Paulo, v. 22, n. 1, p. 29-53, jan./jun. 2005 43


Marandola Jr., E. e Hogan, D.J. Vulnerabilidades e riscos: entre geografia e demografia

populacionais vulneráveis e como eles se Sua noção de vulnerabilidade, em


relacionam no âmbito espacial (ambiental) razão de sua proximidade com o estudo dos
e social. O texto englobou a pobreza e a geógrafos, está centrada nos locais, ou seja,
degradação da saúde, bem como baixos pessoas em risco são pessoas vivendo em
níveis de educação, diferença de sexos, lugares vulneráveis a perigos. No entanto,
carência de acesso a recursos e serviços e não se trata de uma postura simplista.
localização geográfica desfavorável. Hunter alia, numa mesma perspectiva, a
dinâmica de eventos extremos (naturais e
Populations that are socially disadvantaged
or lack political voice are also at greater risk.
tecnológicos), a estrutura familiar (demo-
Particularly vulnerable populations include gráfica e social) e a percepção do risco
the poorest, least empowered segments, (individual), para compreender o fenômeno
especially women and children. Vulnerable migratório a fim de integrar as dinâmicas
populations have limited capacity to protect sociais (quem pode ou não escolher como
themselves from current and future
environmental hazards, such as polluted air
e para onde migrar), ambientais (os fenôme-
and water and catastrophes, and the nos e danos físicos que atingem as pessoas
adverse consequences of large-scale e as famílias) e individuais (os elementos
environmental change, such as land preceptivos e particulares que influem na
degradation, biodiversity loss, and climate vulnerabilidade e na tomada de decisão).
change (GSP, 2002, p. 3).
É uma contribuição fundamental que
A diminuição da vulnerabilidade é vista, busca uma perspectiva conjuntiva da
nesse aspecto, como crucial no aumento multidimensão da realidade (Marandola Jr.,
da sustentabilidade, acreditando-se que 2004), apontando caminhos possíveis de
dotar as populações de capacidade de um diálogo profícuo entre geografia e demo-
resposta a situações adversas a que são grafia. Tais caminhos já têm sido desbra-
expostas (riscos sociais ou ambientais) vados por outros autores, como Markos
resultará na melhoria de sua qualidade de Ezra, em seus estudos sobre a vulnera-
vida e de sua inserção social. bilidade ambiental e a migração na África
Quanto à dinâmica migratória, Lori M. (Ezra, 2002); ou mesmo estudos anteriores,
Hunter deu fundamental contribuição ao como os de Hogan (1992; 1996) sobre a
estudo da relação dos perigos naturais e relação migração, ambiente e saúde, re-
tecnológicos com os motivos das migrações velando facetas e componentes dessa dinâ-
(Hunter, 2004). Ela procura revisitar a teoria mica em conexão aos danos e degradações
migratória tradicional, incorporando a ambientais, principalmente a poluição, em
vulnerabilidade e o risco aos perigos como conjunto com os reveses sociais. Embora
fundamentais para entender o fenômeno ainda não estivessem incorporados
migratório em nossa sociedade contempo- claramente os conceitos de risco, perigo ou
rânea. A autora movimenta importante vulnerabilidade em sua análise, essas
bibliografia, apoiando-se também nos pesquisas já possuíam as preocupações e
estudos dos geógrafos sobre perigos orientações que guiariam os demógrafos
ambientais, de um lado, e nas pesquisas ocupados com a relação população e
demográficas sobre migração, de outro. ambiente nos próximos anos.
Migration as a demographic process can Assim, a demografia partiu de uma
be associated with environmental hazards noção estritamente objetivista e centrada
in several ways. On the one hand, proximate nos elementos da dinâmica demográfica e
environmental hazards might influence
evoluiu para uma perspectiva mais global,
residential decision-making by shaping the
desirability of particular locales. In this case, incorporando elementos socioeconômicos
we might consider environmental hazards e ambientais. Esse caminho é um constante
as factors shaping migration. On the other aproximar-se da geografia, da qual os
hand, migration can represent an demógrafos puderam extrair importantes
exacerbating force with regard to
environmental hazards as a result of
noções e bases conceituais. O principal
increasing population density in vulnerable ponto de encontro é a preocupação que guia
locales (Hunter, 2004, p. 4). o trabalho desses geógrafos e demógrafos:

44 R. bras. Est. Pop., São Paulo, v. 22, n. 1, p. 29-53, jan./jun. 2005


Marandola Jr., E. e Hogan, D.J. Vulnerabilidades e riscos: entre geografia e demografia

as relações entre o homem e seu meio problema das populações em situação de


(geógrafos) e das populações com seu risco, feita por Hogan (2000), apresenta as
ambiente (demógrafos). Tais relações são, mesmas indagações que moveram os
em muitos sentidos, maneiras particulares trabalhos sobre os perigos naturais. O autor
de se expressar acerca da mesma proble- afirma ser necessário um enfoque que dê
mática, e por isso iremos, a partir dela, centrar conta da amplitude dos perigos e dos riscos,
nossa análise preliminar das perspectivas e tanto em sua dimensão ambiental quanto
possibilidades de aumentar o diálogo e socioeconômica. Isso ocorre, também, em
contato entre essas duas disciplinas. virtude de os demógrafos estarem estu-
dando esses mesmos perigos, tendo como
População e ambiente: entre geografia e referência a linha de investigação específica
demografia dos geógrafos, embora não diretamente
filiados a ela.
A preocupação com a situação am- Quando Torres (2000) expõe suas
biental das populações em seus diferentes indagações, também há uma nítida refe-
contextos geográficos é um foco comum rência à geografia, principalmente pela
entre esses pesquisadores. Para os preocupação com os recortes espaciais, a
geógrafos, o interesse parte do próprio escala de análise e a distribuição espacial
espaço, que numa perspectiva holística dos fenômenos.
incluiu as pessoas. Para os demógrafos, a Portanto, se, de um lado, os demógrafos
preocupação parte das populações em si, têm importante referência no tratamento
estendendo-se ao ambiente enquanto ele espacial das dinâmicas ambientais feito
é fundamental na delimitação das condi- pelos geógrafos, de outro, estes também
ções de vida dessas pessoas. Assim, os dois têm um amplo leque de discussões socio-
campos disciplinares encontram-se demográficas que merecem sua atenção,
preocupados e ocupados dos mesmos pro- assim como ainda podem enriquecer a já
blemas, embora suas trajetórias, conforme presente abordagem da vulnerabilidade em
buscamos mostrar neste texto, tenham sido seus estudos. Pensamos especialmente
diferenciadas. nos trabalhos sobre os ativos e a estrutura
Em vista disso, que linhas podemos de oportunidades, que são conceitos com
traçar quiçá conjuntivas dessas duas ciên- muito a contribuir num cenário de entendi-
cias? Traçamos um amplo painel de suas mento amplo acerca da vulnerabilidade,
pesquisas que possuem aqui e acolá para além de sua dimensão sociodemo-
pontos de contato. Mas há um diálogo gráfica.
promissor de fato? Nesse sentido, aos ativos podemos
Em primeiro lugar, devemos reforçar o incorporar elementos do ambiente físico,
caráter multidimensional e polissêmico das que também têm lugar nesta estrutura de
categorias risco, perigo e vulnerabilidade. oportunidades que as pessoas utilizam para
As diferentes abordagens e perspectivas de lidar com os riscos, diminuindo sua vulne-
estudo, muito mais amplas e díspares do que rabilidade. Por outro lado, os riscos e as
estas que abordamos aqui, tratam os termos vulnerabilidades também são elementos
em determinados contextos teórico-metodo- que influem na mobilidade espacial da
lógicos e de abordagem analítica. Não há população. Fugir do risco (busca de segu-
uma base conceitual comum, a qual os rança) e de uma alta vulnerabilidade (procu-
diversos campos tenham utilizado como ra de proteção) são motivos que estão entre
matriz. Existem, sim, algumas posturas os principais nas decisões das pessoas de
confluentes, principalmente quando há se mudar, principalmente de uma parcela
preocupações semelhantes, como ocorre no da população que tem condições para isso.
caso da geografia e da demografia no campo Em certo sentido, esse mudar faz parte da
dos estudos ambientais. estrutura de oportunidades dessas pessoas
Notamos essa convergência em vários (e não faz da maioria), que procuram locais
pontos. Por exemplo, a exposição do de moradia onde os elementos sociais e

R. bras. Est. Pop., São Paulo, v. 22, n. 1, p. 29-53, jan./jun. 2005 45


Marandola Jr., E. e Hogan, D.J. Vulnerabilidades e riscos: entre geografia e demografia

ambientais estejam num patamar entendido abarcar um número maior de realidades


como de qualidade. espacialmente localizadas, mas que pos-
Tais exemplos mostram que necessi- suem diferenças demográficas (e também
tamos de entendimentos mais conjuntivos, espaciais) significativas. Esse enfoque nos
reunindo numa mesma perspectiva concei- apresenta quadros gerais mais bem deli-
tual os elementos sociodemográficos e os neados (olhar horizontal), perdendo em
ambientais. A proposição de Cutter (Figu- conseqüência a perspectiva do lugar verti-
ra 1) parece atender a essa demanda, calizado. Da mesma maneira, é possível
procurando estabelecer uma reciprocidade conjugar os dois enfoques, trazendo as
entre o contexto social e o espacial. informações das pessoas/famílias em
Contudo, uma questão que merece correspondência aos espaços que ocupam,
maior atenção é o enfoque metodológico bem como a relação existente entre eles na
na análise por áreas (risco/vulnerabilidade macroorganização socioespacial, seja da
de lugares/áreas) e na análise por pessoas cidade, da metrópole, seja de uma região
(risco/vulnerabilidade de pessoas/famílias). maior.
Mais do que expressar as diferentes trajetó- Em vista disso, caminhamos para uma
rias de estudo das duas disciplinas, esses perspectiva ampla da vulnerabilidade e dos
dois enfoques não são, hoje, sinônimos de riscos, que não privilegie apenas o enfoque
geografia e demografia, respectivamente. por áreas (o lugar) nem o das pessoas
Os geógrafos já há algum tempo vêm (famílias). A ambição maior é dotar os
trabalhando com abordagens culturais e riscos/vulnerabilidades de um sentido multi-
humanistas, que enfocam as relações de dimensional e transescalar (Marandola Jr.,
envolvimento, pertencimento e identidade 2004), que nos permita trabalhar com os
de pessoas e coletividades, utilizando-se dois enfoques de forma confluente. Preten-
de abordagens qualitativas e metodologias demos assim lidar com os aspectos sociais,
de certa forma próximas da antropologia ambientais e demográficos ao mesmo tempo,
(principalmente com inspiração fenomeno- que enfocamos a perspectiva da experiência
lógica). Por outro lado, os demógrafos, em – relacionada à construção sociocultural e à
especial aqueles envolvidos com a percepção do risco (Marandola Jr., 2005) – e
problemática ambiental, têm se valido muito as mudanças ambientais globais, procuran-
da análise por áreas, trabalhando inclusive do um elo que conecte processos aparente-
com análise espacial, geoestatística e mente tão distintos, mas que na sua gênese
Sistemas de Informação Geográfica (SIGs). ou orientação final possuem elos claros que
Nesse sentido, não vemos posições apontam para o sentido geral do devir de
excludentes em tal diferença de enfoque. nossa sociedade (Marandola Jr. e Hogan,
Na verdade, talvez essa seja outra faceta 2004c).
promissora do diálogo entre as disciplinas. Podemos dizer, portanto, que nossa
Buscar conjugar essas abordagens amplia tendência é antropocêntrica no sentido de
a capacidade de análise, aumentando as focarmos o risco/vulnerabilidade das pes-
dimensões da vulnerabilidade que estão soas/famílias, entendendo, porém, que para
sendo colocadas em foco. Evidentemente, esta delimitação os fatores de diferentes
adotar a abordagem da “vulnerabilidade do dimensões são fundamentais; entre eles, o
lugar”, como proposta por Cutter, está mais lugar, ou seja, o espaço (e todas as suas
afinada a trabalhos aprofundados, vertica- implicações) onde aquela pessoa/família
lizados em locais específicos. E é justamente vive.
nessas abordagens que o olhar focado nas Não se trata de definir o risco ou a
pessoas/famílias pode tornar-se mais útil e vulnerabilidade a priori, como uma condição
revelador, por permitir maior detalhamento in natura. O risco é resultado da relação
e aprofundamento da realidade vivida por perigo–vulnerabilidade, sendo cada um
aqueles que habitam determinado lugar. deles proveniente de outras equações que
Por outro lado, o enfoque nas pessoas, incluem as várias dimensões envolvidas na
numa perspectiva mais abrangente, permite geração, enfrentamento e impacto do

46 R. bras. Est. Pop., São Paulo, v. 22, n. 1, p. 29-53, jan./jun. 2005


Marandola Jr., E. e Hogan, D.J. Vulnerabilidades e riscos: entre geografia e demografia

fenômeno. Nesse sentido, não é possível, rabilidade: (1) existência de um risco;


numa perspectiva abrangente, tratar de (2) incapacidade de responder ao
aspectos isolados como, por exemplo, os risco; (3) inabilidade de adaptar-se
fatores ambientais stricto sensu. ao perigo. Esta posição dos
O contexto geográfico e a produção demógrafos estabelece a vulnerabi-
social dos perigos, bem como os sistemas lidade como essencialmente negati-
de proteção e insegurança que estão na va, ou seja, colocando-a como inca-
base da configuração da vulnerabilidade, pacidade e como inabilidade. Os
são diversos e apresentam um quadro geógrafos, embora concordem com
bastante complexo de variáveis, condições essas três componentes, as encaram
e indeterminações que nos induzem a como características dos lugares (não
procurar formas de incluir os determinantes apenas das pessoas) e tendem a
sociodemográficos juntamente com os entender a vulnerabilidade como o
espaço-ambientais, numa perspectiva grau de capacidade de resposta e de
histórica e geográfica suficientemente habilidade de adaptação (ajuste). Os
ampla para abarcar a variedade dos demógrafos inclinam-se a ver a
processos envolvidos. vulnerabilidade como característica
Contudo, ainda enfrentamos várias de populações menos favorecidas
dificuldades para realizar tal conjunção. Em (menos recursos socioeconômicos),
vista disso, continuamos com a reflexão enquanto os geógrafos tendem a ter
aberta, buscando melhores condições de esta perspectiva mais marginal, por
realizar esse diálogo, à medida que enfocarem as vulnerabilidades dos
lidamos com as dificuldades inerentes ao lugares.
processo. • A resiliência e a capacidade de absor-
Assim, para finalizar, listamos os prin- ção são conceitos que aparecem
cipais pontos confluentes e de enrique- tanto na literatura dos geógrafos
cimento que acreditamos poder compor quanto dos demógrafos. Também são
uma pauta de diálogo entre essas duas promissores e apresentam excelen-
disciplinas, além dos já citados, com o tes possibilidades analíticas a serem
objetivo de construir uma base conceitual mais bem exploradas e delineadas
que permita o diálogo mais estreito e neste contexto de pesquisas. Busca-
profícuo entre os enfoques e as disciplinas. se identificar mecanismos que pro-
• Em ambas as disciplinas, o risco é movam a interconectividade e a
entendido como uma noção proba- flexibilidade, fomentando uma resi-
bilística que alerta para o perigo e liência mais robusta a impactos
reclama ação. Na demografia, inicia- externos. A abordagem permitirá
se como neutro, passando a ser análises ao nível individual, familiar,
essencialmente negativo nos estu- comunitário ou estatal.
dos ambientais e sociais, enquanto • Os ativos e estrutura de oportunida-
sempre teve um sentido negativo des são noções a serem exploradas
entre os geógrafos. e ampliadas, colocando-as no
• Perigo é um evento que provoca contexto de discussões mais amplas,
dano. Ele está intimamente relacio- para além da sua dimensão sociode-
nado ao risco e à vulnerabilidade, mográfica. A incorporação de ele-
mas não faz parte do vocabulário dos mentos do ambiente biofísico parece
demógrafos. É comumente con- promissora para uso tanto de
fundido com risco, e sua distinção geógrafos quanto de demógrafos.
enriquece o quadro conceitual e • Os debates sobre cidadania, exclusão
explicativo. social e pobreza precisam incorporar
• Os demógrafos destacam três com- também esta discussão da vulne-
ponentes constitutivos da vulne- rabilidade ambiental. Isso se deve ao

R. bras. Est. Pop., São Paulo, v. 22, n. 1, p. 29-53, jan./jun. 2005 47


Marandola Jr., E. e Hogan, D.J. Vulnerabilidades e riscos: entre geografia e demografia

fato de muitas das áreas onde • Será essencial incorporar explicita-


residem os grupos sociodemo- mente nessa discussão os perigos
graficamente vulneráveis serem de criados pelo homem, como também
alta vulnerabilidade ambi-ental. os aspectos sociais de perigos
Nesse aspecto, reforça-se a idéia de naturais. A pulverização de agrotó-
conceitos mais conjuntivos e amplos xicos, as áreas com solo contami-
para enfocar a problemática da nado por usos industriais anteriores,
desigualdade ambiental ao lado da a proximidade de linhas de transmis-
desigualdade social. são de eletricidade ou de dutos de
• O estudo das percepções e cons- gás ou petróleo, etc. são perigos
truções socioculturais em torno do espacialmente localizados, cujas
risco também é tema ainda não conseqüências são filtradas por
explorado em grande medida pelos vulnerabilidades distintas. Se o
demógrafos. Há alguns aponta- objetivo maior da pesquisa é pensar
mentos nesse sentido, mas ainda é na qualidade de vida e na susten-
uma questão não enfrentada pelos tabilidade, não caberá partir de uma
pesquisadores. Tal lacuna é im- distinção rígida entre perigos naturais
portante porque influi diretamente no e os man-made. Os estudos de
resultado de políticas públicas ou perigos naturais produziram um
esforços de prevenção, proteção e arcabouço conceitual importante,
construção de estruturas de opor- mas que hoje terá que ser integrado
tunidades. Na geografia, embora nos trabalhos que relativizam a
exista uma larga tradição de estudos noção de “naturais”.
sobre a percepção do risco e das • Paralelamente a esse esforço, será
experiências humanas em seus necessário buscar indicadores “sínte-
ambientes, ainda há que se buscar se” de perigos e vulnerabilidades. O
um maior esforço de confluência comprometimento da qualidade de
dessas abordagens de problemáticas vida (de uma população, de um
biofísicas e sociodemográficas. Sem indivíduo, de um grupo doméstico ou
dúvida, é um grande desafio para de um lugar) e da sustentabilidade
ambas as disciplinas. não poderá ser dimensionado por um
• Não há um esforço sistemático por simples somatório de perigos de
parte de ambas as disciplinas de enchente, de deslizamentos, de
relacionar os elementos estudados exposição a produtos químicos, etc.
(ambientes e grupos demográficos) Um desafio metodológico signifi-
na dinâmica da Sociedade de Risco. cativo são os índices compostos de
Torres (2000) chega a reconhecer perigo, de risco e de vulnerabilidade
esse hiato e a dificuldade de fazer (Cutter, 2003). Tal esforço não
essa ligação. Contudo, ela é de enri- eliminará a utilidade de estudos
quecimento mútuo e pode aumentar setoriais, que continuarão a orientar
o universo explicativo dos fenômenos políticas também setoriais. Mas aqui,
estudados, por estabelecer a ponte como no planejamento ambiental em
entre fenômenos circunscritos no geral, as visões inte-gradas são
espaço e dinâmicas maiores que indispensáveis, mesmo quando a
estão na própria ordem da produção intervenção necessária for setorial.
macrossocial da sociedade contem-
porânea. É uma agenda importante As vantagens dessas linhas de pes-
para ambas as disciplinas, que até quisa incluem o fato de dirigir a nossa
permitirá, provavelmente, um elo atenção a outros fatores da pobreza, stricto
teórico para o enquadramento das sensu, e à adoção de perspectivas clara-
diferentes perspectivas de estudo da mente inter e multidisciplinares, que podem
vulnerabilidade. enriquecer os quadros de análise e a

48 R. bras. Est. Pop., São Paulo, v. 22, n. 1, p. 29-53, jan./jun. 2005


Marandola Jr., E. e Hogan, D.J. Vulnerabilidades e riscos: entre geografia e demografia

compreensão destes fenômenos tão diálogo entre geografia e demografia, nosso,


latentes e candentes em nossas cidades. em particular, e do grupo de pesquisa, em
Além disso, elas apresentam questões geral. Esse é um dos desafios que,
que perpassam vários campos de inves- esperamos, possa contribuir para o estudo
tigação contemporânea em diferentes da situação ambiental das populações que
ciências, que necessitam maior atenção e têm o risco como uma sombra negra que
estudo por parte não apenas de geógrafos paira sobre suas vidas, em seus lares. O
e demógrafos, mas de outros preocupados conhecimento das diferentes vulnerabi-
com as questões sociais e ambientais de lidades dessas populações pode contribuir
maneira geral. para identificar os ativos de que estas
Contudo, são apenas algumas ques- precisam para conseguir dar respostas mais
tões e reflexões preliminares que merece- adequadas aos perigos, melhorando assim
rão refinamento ao longo do exercício deste sua perspectiva e qualidade de vida.

Referências bibliográficas

ANEAS DE CASTRO, S.D. Riesgos y BROOKFIELD, H. Environmental damage:


peligros: una visión desde la geografía. distinguishing human from geophysical
Scripta Nova: Revista Electrónica de causes. Environmental hazards: Human
Geografía y Ciencias Sociales. Barcelona, and Policy Dimensions, v.1, n.1, jun., 1999.
n. 60. Disponível em: <http://www.ub.es/
BURTON, I., KATES, R.W. e WHITE, G.F. The
geocrit/sn-60.htm>. Acesso em: 15 de mar.,
environmental as hazard. New York: Oxford
2000.
University, 1978.
AYOADE, J.O. Introdução a climatologia
CONNORS, M. Risk perception, risk taking
para os trópicos. Tradução Maria J. Z. dos
and risk management among intravenous
Santos, 5ª ed. Rio de Janeiro: Bertrand
drug users: implications for Aids prevention.
Brasil, 1998.
Social Science and Medicine, v.34, n.6,
AYRES, J.R. de C., FRANÇA JÚNIOR, I., p. 591-601, 1992.
CALAZANS, G.J. e SALETTI FILHO, H.C.
CENTRO LATIONAMERICANO Y
Vulnerabilidade e prevenção em tempos de
CARIBEÑO DE DEMOGRAFIA – CELADE.
Aids. In: BARBOSA, R.M. e PARKER, R.
Vulnerabilidad demográfica y desventajas
(Orgs.). Sexualidades pelo avesso: direitos,
sociales: el caso del Chile. Santiago del
identidades e poder. São Paulo: Ed. 34,
Chile: LC/DM/R, 1999 [Área de Población y
1999. p. 49-72.
Desarrollo].
BARBOSA, L.M. e ANDRADE, F.C.D.
COMISIÓN ECONÓMICA PARA AMÉRICA
Aplicação das técnicas dos riscos
LATINA Y EL CARIBE – CEPAL. Socio-
competitivos à mortalidade do Brasil e
demographic vulnerability: old and new
macrorregiões, 1991. ENCONTRO NA-
risks for communities, households and
CIONAL DE ESTUDOS POPULACIONAIS,
individuals. Summary and conclusions.
12, Caxambu, MG, 2000. Anais... ABEP,
Brasilia: UNA, 2002a.
2000.
______. Proposal on indicators for follow-
BARCLAY, G.W. Techniques of population
up to the goals of the International
analysis. New York: John Wiley & Sons, 1958.
Conference on Population and
BLAIKIE, P.M., CANNON, T., DAVIS, I. e Development in Latin America and the
WISNER, B. At risk: natural hazards, Caribbean. Santiago del Chile: United
people’s vulnerabillity and disasters. Nations, 2002b [Serie Población y
London: Routledge, 1994. Desarrollo].

R. bras. Est. Pop., São Paulo, v. 22, n. 1, p. 29-53, jan./jun. 2005 49


Marandola Jr., E. e Hogan, D.J. Vulnerabilidades e riscos: entre geografia e demografia

CUTTER, S.L. (Ed.). Environmental risks GLOBAL SCIENCE PANEL ON


and hazards. London: Prentice-Hall, 1994. POPULATION ENVIRONMENT – GSP.
Analyses, goals, actions, realities. IUSSP;
______. Vulnerability to environmental UNU, 2002.
hazards. Progress in Human Geography,
v.20, n.4, p. 529-539, dec., 1996. HEWITT, K e BURTON, I. The
hazardousness of a place: a regional
______. The vulnerability of science and the ecology of damaging events. Toronto:
science of vulnerability. Annals of the University of Toronto Press, 1971.
Association of American Geographers,
v.93, n.1, 2003. p.1-12. HOGAN, D.J. Migração, ambiente e saúde
nas cidades brasileiras. In: HOGAN, D.J. e
CRUZ, M.C.C. da e LEITE, I. da C. Fatores VIEIRA, P.F. (Orgs.). Dilemas socioambien-
de risco para déficits estaturais no segundo tais e desenvolvimento sustentável,
ano de vida: Brasil, PNDS, 1996. Revista Campinas: Ed. da Unicamp, 1992. p. 149-
Brasileira de Estudos de População, 170.
Abep, v.19, n.1, p.131-140, jan./jun., 2002.
______. População, pobreza e poluição em
DOUGLAS, M. Purity and danger: an Cubatão, São Paulo. In: MARTINE, G. (Org.).
analysis of concepts of pollution and taboo. População, meio ambiente e desenvolvi-
London: Routledge & Kegan Paul, 1966. mento: verdades e contradições. Campi-
[Traduzido e publicado como: Pureza e nas: Ed. da Unicamp, 1996. p. 101-132.
perigo. São Paulo: Perspectiva, 1976].
______. A relação entre população e
______. Risk, acceptability according to ambiente: desafios para a demografia. In:
the social sciences. New York: Russell TORRES, H. da G. e COSTA, H. (Orgs.).
Sage Foundation, 1985. População e meio ambiente: debates e
DOUGLAS, M. e WILDAVSKY, A. Risk and desafios. São Paulo: Senac, 2000. p. 21-52.
culture: an essay on the selection of HOGAN, D.J. e CARMO, R. L. do. Distribuição
technological and environmental dangers. espacial da população e sustentabilidade:
Berlekey: University of California, 1982. alternativas de urbanização no Estado de
EZRA, M. Environmental vulnerability, rural São Paulo, Brasil. Idéias, Campinas, v. 8,
poverty, and migration in Ethiopia: a n.2, p. 151-190, 2001.
contextual analysis. Genus, Lix, n.2, HOGAN, D.J., CUNHA, J.M. P. da, CARMO,
p. 63-91, 2002. R.L. do e OLIVEIRA, A.A.B. de. Urbaniza-
GARCÍA, C.C. Construcción social del ção e vulnerabilidade sócio-ambiental:
riesgo. Vulnerabilidad y habitabilidad de la o caso de Campinas. In: HOGAN, D.J.;
vivienda de interés social en la Ciudad de BAENINGER, R., CUNHA, J.M.P. da
México. 1985-2000. ENCUENTRO DE e CARMO, R.L. do (Orgs.). Migração
GEÓGRAFOS DE AMÉRICA LATINA, 9, e ambiente nas aglomerações ur-
Mérida, México, 2003. Programa general y banas. Campinas: Nepo/Unicamp, 2001.
resúmenes. Mérida: Instituto de Geografia, p. 395-418.
UNAM, 2003. HOPENHAYN, M. A cidadania vulnera-
GARDNER, J.S. Natural hazards risk in the bilizada na América Latina. Revista
Kullu District, Himachal Pradesch, India. The Brasileira de Estudos de População. Abep,
Geographical Review, v.92, n.2, p. 282-206, v.19, n.2, p. 05-18, jul./dez., 2002.
abr., 2002. HUNTER, L.M. Migration and
GIDDENS, A. As conseqüências da environmental hazards. Bolder: Institute of
modernidade. Tradução Raul Fiker. São Behavioral Science (IBS), 2004 [Working
Paulo: Ed. Unesp, 1991. Paper].

50 R. bras. Est. Pop., São Paulo, v. 22, n. 1, p. 29-53, jan./jun. 2005


Marandola Jr., E. e Hogan, D.J. Vulnerabilidades e riscos: entre geografia e demografia

JONES, D. Environmental hazards in the ______. Vulnerabilidade: esboço para uma


1990s: problems, paradigms and prospects. discussão conceitual. In: SEMINÁRIO
Geography, v.78, n.2, p. 161-165, 1993. SOBRE QUESTÃO AMBIENTAL URBANA:
EXPERIÊNCIAS E PERSPECTIVAS, 1,
KATES, R.W. Risk assessment of
2004, Brasília. Anais... Brasília: Núcleo de
environmental hazard. London: John Wiley
Estudos Urbanos e Regionais, 2004c [CD-
& Sons, 1978 [SCOPE Report 8].
ROM].
KAZTMAN, R., BECCARIA, L., FILGUEIRA,
MONTEIRO, S. Gênero, saúde e proteção
F. ; G O L B E R T, L . e K E S S L E R , G .
entre jovens: um perfil tradicional. In:
Vulnerabilidad, activos y exclusión social BARBOSA, R.M. et al. (Orgs.). Interfaces:
en Argentina y Uruguay. Santiago de Chile: gênero, sexualidade e saúde reprodutiva.
OIT, 1999 [Documento de Trabajo, 107]. Campinas: Ed. da Unicamp, 2002. p. 23-48.
KOLARS, J. Earthquake-vulnerable MOSER, C. The asset vulnerability
populations in modern Turkey. The framework: Reassessing Urban Poverty
Geographical Review, v.72, n.1, p. 20-35, Reduction Strategies. World Development,
jan., 1982. 1998.
KOWARICK, L. Viver em risco: sobre a ______. Rights, power and poverty reduction.
vulnerabilidade no Brasil urbano. Novos
In: ALSOP, R. (Ed.). Power, rights and
Estudos Cebrap, n.63, p. 9-30, jul., 2002.
poverty: concepts and connections.
LIVERMAN, D.M. Drought impacts in Mexico: Washington: World Bank, 2004.
climate, agriculture, technology, and land
NAUGHTON-TREVES, L. Farming the forest
tenure in Sonora and Puebla. Annals of the
edge: vulnerable places and people
Association of American Geographers,
around Kibale National Park, Uganda. The
v.80, n.1, p. 49-72, mar., 1990.
Geographical Review, v.87, n.1, p. 27-46,
LUHMANN, N. Risk: a sociological theory. jan., 1997.
Tradução Rhodes Barrett. New York: Aldine
OPPONG, J.R. A vulnerability interpretation
de Gruyter, 1993. of the Geography of HIV/AIDS in Ghana,
LUPTON, D. Risk. London: Routledge, 1999. 1986-1995. Professional Geographer, v.50,
n.4, p. 437-448, 1998.
MARANDOLA JR., E. Uma ontologia geo-
gráfica dos riscos: duas escalas, três PAICHELER, G. General population and HIV
dimensões. Geografia, Rio Claro, v.29, n.3, prevention strategies: from risk to action.
set./dez., p. 315-338, 2004. Cadernos de Saúde Pública, v.15,
p. 93-105, 1999 [Suplemento 2].
______. Vulnerabilidades e riscos na metró-
pole: a perspectiva da experiência. In: PAULSON, D.D. Hurricane hazard in
ENCONTRO NACIONAL DA ASSOCIAÇÃO Western Samoa. The Geographical
NACIONAL DE PÓS-GRADUAÇÃO E Review, v.83, n.1, p. 43-53, jan., 1993.
PESQUISA EM PLANEJAMENTO URBANO PALM, R. e HODGSON, M.E. Earthquake
E REGIONAL – ANPUR, 14, 2005, Salvador. insurance: mandated disclosure and
Anais... Salvador: Anpur, 2005. [CD-ROM] homeowner response in California. Annals
Disponível em: <http://www.xienanpur. of the Association of American Geographers,
ufba.br>. v.82, n.2, p. 207-222, jun., 1992.
MARANDOLA JR., E. e HOGAN, D.J. Natural PORTO, M.F. de S. e FREITAS, C.M. de.
hazards: o estudo geográ-fico dos riscos e Indústria química brasileira, acidentes
perigos. Ambiente & Sociedade, Campinas, químicos ampliados e vulnerabilidade
v. 7, n.2, p. 95-109, jul./dez., 2004a. social. In: TORRES, H. da G. e COSTA, H.
______. O risco em perspectiva: tendências (Orgs.). População e meio ambiente:
e abordagens. Geosul, Florianópolis, v.19, debates e desafios. São Paulo: Senac,
n.38, p. 25-58, jul./dez., 2004b. 2000. p.301-326.

R. bras. Est. Pop., São Paulo, v. 22, n. 1, p. 29-53, jan./jun. 2005 51


Marandola Jr., E. e Hogan, D.J. Vulnerabilidades e riscos: entre geografia e demografia

SAAD, P.M. e POTTER, J.E. Uma análise de TORRES, H. da G. A demografia do risco


riscos competitivos sobre o uso de métodos ambiental. In: TORRES, H. da G. e COSTA,
anticonceptivos no Nordeste. In: EN- H. (Orgs.). População e meio ambiente:
CONTRO NACIONAL DE ESTUDOS debates e desafios. São Paulo: Senac,
POPULACIONAIS, 9, 1994. Anais... Abep, 2000. p. 53-73.
1994. Disponível em: <http://www.abep.
TORRES, H. da G. e COSTA, H. (Orgs.).
org.br>.
População e meio ambiente: debates e
SATTERTHWAITE, D. Rapid urbanization desafios. São Paulo: Senac, 2000.
and the environment. In: LIVI-BACCI, M.;
TORRES, H. da G. e MARQUES, E.
SANTIS, G. de (Ed.). Population and poverty
Reflexões sobre a hiperperiferia: novas
in the developing world. Oxford: Claredon,
e velhas faces da pobreza no entorno
1998. p. 189-291.
municipal. Revista Brasileira de Es-
SCHMOISMAN, M.P. e MÁRQUEZ-AZÚA, B. tudos Urbanos e Regionais, n.4, p. 49-
Vulnerabilidad y resistencia: expertos y 70, 2001.
pobladores frente al riesgo de erupción
TORRES, H. da G., MARQUES, E.,
volcánica. In: ENCUENTRO DE GEÓGRAFOS
FERREIRA, M.P. e BITAR, S. Pobreza e
DE AMÉRICA LATINA, 9, Mérida, México,
espaço: padrões de segregação em São
2003. Programa general y resúmenes.
Paulo. Estudos Avançados, IEA, v.17, n.47,
Mérida: Instituto de Geografia, Unam, 2003.
p. 97-128, jan./abr., 2003.
SMITH, K. Environmental hazards:
WATTS, M.J. e BOHLE, H.G. The space of
assessing risk reducing disaster. London:
vulnerability: the causal structure of hunger
Routledge, 1992.
and famine. Progress in Human
TASCHNER, S.P. Degradação ambiental em Geography, London, v.17, n.1, 1993.
favelas de São Paulo. In: TORRES, H. da G.
WHITE, A.V. e BURTON, I. Environmental
e COSTA, H. (Orgs.). População e meio
risk assessment. London: John Wiley e
ambiente: debates e desafios. São Paulo:
Sons, 1980 [SCOPE 15].
Senac, 2000. p. 271-297.
WHITE, G.F. (Ed.). Natural hazards: local,
TIMMERMAN, P. Vulnerability, resilience
national, global. New York: Oxford University
and the collapse of society. Toronto:
Press, 1974.
Institute for Environmental Studies,
University of Toronto, 1981 [Environmental
Monograph n.1].

Abstract

Vulnerabilities and risks: between geography and demography

Among the different trends in the study of risks, a number of different sciences use the same
category in different ways, each related to its own ontological pre-suppositions. But these
fields communicate very little with one another. This study aims at approximating two of these
areas of study that have shown similar concerns and that can mutually strengthen one another,
namely, geography and demography. Geography was one of the first disciplines to include risk
in its environmental dimension and has had broad experience in simultaneously focusing on
social and natural dynamics. Demography, on the other hand, runs up against greater difficulties
because only recently has it incorporated the environmental dimension into its scientific scope.
In addition, both have brought the concept of vulnerability into their conceptual framework as
complementary to that of risk. Geographers understand vulnerability as a more symbiotic form
of the relationship between society and nature, whereas demographers give it a strong

52 R. bras. Est. Pop., São Paulo, v. 22, n. 1, p. 29-53, jan./jun. 2005


Marandola Jr., E. e Hogan, D.J. Vulnerabilidades e riscos: entre geografia e demografia

socioeconomic component. In this regard, the conceptual discussion on risks and vulnerabilities,
in its attempt at approximating these two fields, is a way of conceptually advancing and
strengthening the different approaches to empirical work.
Key words: Risks. Natural hazards. Sociodemographic vulnerability. Population and
environment.

Recebido para publicação em 14/04/2005.


Aceito para publicação em 30/09/2005.

R. bras. Est. Pop., São Paulo, v. 22, n. 1, p. 29-53, jan./jun. 2005 53