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Estudo das Forças Centrais

Marcio André Lopes Capri∗ †

1 Introdução
Uma dada força é dita central se esta depender somente da distância entre a partı́cula que sofre a força e a fonte
geradora desta força, e sua direção for radial, ou seja, na direção da linha que liga a partı́cula ao centro de força.
Matematicamente, escrevemos

⃗r √
F⃗ = F (r) r̂ , r̂ = , r= xi xi , i = 1, 2, 3 . (1)
r
As forças centrais são de importante interesse em fı́sica, pois as interações fundamentais da natureza podem, em geral,
ser descritas por forças desse tipo. Isto se deve em parte ao princı́pio de isotropia do espaço, que diz que não deve
existir uma lei fundamental da natureza que privilegie uma dada direção do espaço, e à simetria esférica de uma
partı́cula, que é idealizada como um ponto material sem dimensão. O exemplo mais importante e mais conhecido de
uma força central é o caso de uma força que é proporcional ao inverso do quadrado da distância,
K
F (r) = , (2)
r2
que corresponde à lei de gravitação universal quando

K = −GmM , (3)

sendo G a constante universal de gravitação e m e M as massas das partı́culas que estão em interação; ou à Lei de
Coulomb, que determina a força eletroestática entre duas cargas que estão a uma distância r uma da outra. Neste
caso, K, que pode ser positivo ou negativo dependendo do valor das cargas elétricas, é dado por
qQ
K= , (4)
4πϵ
onde ϵ é a permissividade elétrica do meio, e q e Q são as cargas elétricas das partı́culas interagentes. Quando K > 0 a
força eletroestática tem o mesmo sentido de r̂ e é portanto repulsiva. Ao contrário, quando K < 0, a força é atrativa,
como é o caso da gravitação. Outras interações de interesse fı́sico também podem ser descritas através de forças
centrais. Um exemplo tı́pico é o da força de Yukawa entre núcleons (prótons e nêutrons), responsável por manter a
coesão do núcleo atômico. Esta força é dada por

e−mr e−mr
F (r) = −g − mg , (5)
r2 r

que se origina de um potencial, F⃗ (r) = −∇V


⃗ (r), dado por

e−mr
V (r) = − , (6)
r
onde g é uma constante positiva de proporcionalidade (constante de acoplamento) e m é a massa de uma partı́cula
conhecida como méson π. Ao contrário das interações gravitacional e eletromagnética o alcance desta interação não é
infinito. De fato, o termo de massa faz com que a interação seja restrita à distâncias da ordem dos raios nucleares.
∗ Professor adjunto da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro.
† capri@ufrrj.br

1
2 Potenciais centrais e conservação do momento angular
As forças centrais são conservativas e portanto, se originam de um potencial. Para mostrar que uma força central é
conservativa devemos mostrar que o rotacional da força é igual a zero. Assim, dada uma força central F⃗ = F (r)r̂
devemos mostrar que

⃗ × F⃗ = 0 . (7)
Para mostrar isto, escrevemos o seguinte:
F (r)
F⃗ = F (r)r̂ = ⃗r , (8)
r
que vem da relação r̂ = ⃗r/r. Assim, a componente i de F⃗ é:

F (r)
Fi = xi , (9)
r
lembrado que
⃗r = xi êi = xê1 + yê2 + zê3 . (10)
Agora, vamos calcular a derivada parcial de Fi com relação a uma das coordenadas xj :
( )
F (r) F (r)
∂j Fi = ∂j xi + xi ∂j
r r
( )
F (r) d F (r) ∂r
= δij + xi , (11)
r dr r ∂xj

onde introduzimos a notação



∂i ≡ . (12)
∂xi

A derivada parcial de r = xi xi com relação a xj é feita da seguinte maneira:

∂r ∂ √
= xi xi
∂xj ∂xj
1 1 ∂
= √ xi xi
2 xl xl ∂xj
11
= 2δij xj
2r
xj
= . (13)
r
Substituindo este resultado em (11) temos
( )
F (r) xi xj d F (r)
∂j Fi = δij + . (14)
r r dr r

A partir a relação a cima podemos calcular o rotacional de F⃗ :


⃗ × F⃗ = εijk ∂i Fj êk
( )
F (r) xi xj d F (r)
= εijk δij êk + εijk êk
r r dr r
= 0. (15)

Este último resultado vem das propriedades de simetria de δij e de antissimetria de εijk , como segue:

εijk δij = εiik = ε11k + ε22k + ε33k = 0 , (16)


|{z} |{z} |{z}
=0 =0 =0

εijk xi xj = εjik xj xi = −εijk xj xi = −εijk xi xj = 0 . (17)


Com isto, podemos afirmar que uma força central F⃗ pode ser escrita como

F⃗ = −∇V
⃗ . (18)

2
⃗ , que é a taxa de variação com o tempo do momento
Antes de determinar o potencial V (⃗r) vamos calcular o torque N
⃗ de uma força central:
angular L,


⃗ = dL
N = ⃗r × F⃗
dt
= (rr̂) × (F (r)r̂)
= rF (r)(r̂ × r̂)
= 0. (19)

Como N ⃗ = 0, o momento angular L ⃗ é conservado. Sendo L ⃗ um vetor constante (em módulo, direção e sentido) o
problema envolvendo forças centrais pode ser reduzido a duas dimensões, ou seja, o movimento de dá num plano.
Além disso, como as forças centrais têm direção radial, é conveniente adotar coordenadas polares. A transformação
de uma base vetorial cartesiana bidimensional fixa, para uma base vetorial ortonormal, que é rodada de um ângulo θ
com relação a base cartesiana fixa, é feita aplicando-se a matriz de rotação à base fixa:
( ) ( )( )
r̂ cos θ sin θ ê1
= . (20)
θ̂ − sin θ cos θ ê2

Logo, um elemento de linha orientado d⃗r poderá ser escrito como

d⃗r = d(rr̂) = dr r̂ + rdr̂


= dr r̂ + r(− sin θ dθ ê1 + cos θ dθ ê2 )
= dr r̂ + rdθ(− sin θ ê1 + cos θ ê2 )
= dr r̂ + rdθ θ̂ . (21)

Note-se que aqui r = x2 + y 2 , pois reduzimos o problema para duas dimensões. A partir da expressão do elemento
de linha d⃗r em coordenadas polares, podemos calcular o potencial devido a uma força central:
∫ ⃗
r
V (⃗r) = − F⃗ (⃗r ′ ) · d⃗r ′

rs
∫ ⃗
r
= − (F (r′ )r̂) · (dr′ r̂ + r′ dθ θ̂)

r
∫ sr
= − F (r′ )dr′ . (22)
rs

Adotando a notação V (⃗r) = V (r), que significa que o potencial depende só do módulo do raio vetor posição ⃗r, podemos
finalmente escrever: ∫ r
V (r) = − F (r′ )dr′ . (23)
rs

Além disso, como o potencial só depende de r, o gradiente de V (r) fica

⃗ = r̂ d V (r) = −F (r)r̂
∇V (24)
dr
segue então que
d
F (r) = − V (r) . (25)
dr

3 Equações de movimento
Pela segunda lei de Newton temos:
m⃗r¨ = F⃗ . (26)
Pelas transformações (20) podemos obter que

˙
r̂˙ = θ̇ θ̂ , θ̂ = −θ̇ r̂ . (27)

3
Logo,

⃗r = r r̂ ,
⃗r˙ = ṙ r̂ + rθ̇ θ̂ ,
⃗r¨ = (r̈ − rθ̇2 )r̂ + (rθ̈ + 2ṙθ̇)θ̂ . (28)

Então, a segunda lei de Newton em coordenadas polares fica

m⃗r¨ = (mr̈ − mrθ̇2 )r̂ + (mrθ̈ + 2mṙθ̇)θ̂ = F (r)r̂ , (29)

o que leva ao seguinte sistema de equações diferenciais

mr̈ − mrθ̇2 = F (r)


mrθ̈ + 2mṙθ̇ = 0. (30)

que corresponde às equações de movimento de uma partı́cula sob a ação de uma força central.

4 O potencial efetivo
Vamos escrever o momento angular, que sabemos que é conservado, em coordenadas polares:
⃗ = ⃗r × p⃗ = m ⃗r × ⃗r˙
L
= m(r r̂) × (ṙ r̂ + rθ̇ θ̂)
= mr2 θ̇ (r̂ × θ̂)
= mr2 θ̇ k̂ , (31)

⃗ que é também constante,


onde k̂ é um vetor unitário ortogonal ao plano definido por r̂ e θ̂. Portanto, o módulo de L,
é escrito como
|L|
⃗ = L = mr2 θ̇ ≡ cte . (32)
Assim, obtemos a seguinte relação:
L
θ̇ = . (33)
mr2
Vamos guardar esta relação por enquando e vamos nos concentrar agora em escrever a energia mecânica total da
partı́cula sob a ação de uma força central:

E = T + V (r)
m 2
= v + V (r)
2
m ˙ ˙
= (⃗r · ⃗r) + V (r)
2
m
= (ṙ r̂ + rθ̇ θ̂) · (ṙ r̂ + rθ̇ θ̂) + V (r)
2
m 2 mr2 θ̇2
= ṙ + + V (r) . (34)
2 2
Podemos eliminar a variável θ̇ através da equação (33) e obter a seguinte expressão:

m 2 mr2 L2
E = ṙ + + V (r)
2 2 m2 r 4
m 2 L2
= ṙ + + V (r)
2 2mr2
m 2
= ṙ + Vef (r) , (35)
2
onde Vef (r) é o chamado potencial efetivo:

L2
Vef (r) = V (r) + . (36)
2mr2

4
Figura 1: Potencial efetivo

A energia da partı́cula escrita com em (35) é idêntica a energia de uma partı́cula que se move em uma única dimensão
com energia potencial (36). Isto só é possı́vel por causa da relação de θ̇ com o momento angular conservado. Tomando-
se então o gradiente deste potencial efetivo, com o sinal trocado, temos:
2
( )
−∇V⃗ ef = −∇V ⃗ − L d 1

2m dr r2
( )
L2
= F (r) + r̂ . (37)
mr3

O termo L2 /mr3 , que tem o sentido de r̂, corresponde a uma “força”centrı́fuga. Esta força não corresponde a uma
interação, mas sim ao fato da partı́cula ter um momento angular não nulo. É esta força centrı́fuga, que é repulsiva,
que impede, por exemplo, que a Lua caia sobre a Terra 1 . Um comportamento tı́pico do potencial efetivo é dado
pela figura 1. Dependendo do valor da energia, a partı́cula poderá estar confinada num vale de potencial entre um
valor mı́nimo e um valor máximo de r, e sua trajetória será então limitada, podendo a partı́cula descrever uma órbita
fechada ou não, tal como na figura 2. Em particular, se o nı́vel de energia for exatamente igual ao valor mı́nimo de
Vef (r), a partı́cula irá descrever uma órbita circular cujo raio é o valor de r que leva Vef (r) a seu menor valor.

5 Equação de órbita e Teorema de Bertrand


Vamos tomar novamente a equação da energia mecânica da partı́cula sob ação de uma força central:
m 2
E= ṙ + Vef (r) . (38)
2
Podemos, então, a partir desta equação, obter a velocidade radial ṙ:

2
ṙ = (E − Vef (r))1/2 . (39)
m
Bastaria então integrar esta última e obterı́amos r = r(t). Porém, faremos uma coisa ligeiramente diferente. No
presente caso, é mais interessante saber o tipo trajetória da partı́cula do que propriamente sua dependência com o
1 Na verdade, o sistema Terra-Lua não é fechado e sofre a interação de outros astros, como, por exemplo, o Sol, e o que ocorre de fato é

que ao longo dos anos a Lua está se afastando da Terra.

5
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e f g h 1 m t
i j k l 2 m t
m n o p 3 m t
q r s t 4 m t
u v w x 5 m t
a a a a a m t
t t t t t t t
y y y y y y y
Figura 2: Trajetória limitada porém aberta

tempo. Assim, estamos mais interessados em determinar r = r(θ), que daria o tipo de curva que a partı́cula descreve.
Para fazer isto notemos o seguinte:
dr dr dθ dr dr L
ṙ = = = θ̇ = , (40)
dt dθ dt dθ dθ mr2
onde θ̇ foi eliminado através da equação (33). Levando este resultado em (39) temos

dr L 2
2
= (E − Vef (r))1/2 ,
dθ mr m

m L dr
dθ = √ ,
2 mr2 E − Vef (r)
∫ r
L dr′
∆θ = √ √ . (41)
2m r0 r′2 E − Vef (r′ )

Uma vez que se resolva a integral em r′ teremos θ = θ0 + f (r, r0 ) e ao inverter esta relação teremos, finalmente,
r = r(θ), que é a equação da órbita. Claro está que, dependendo da forma do potencial, a integral (41) pode ser muito
complicada de se resolver. Podemos entretanto, tentar responder a seguinte pergunta: Quais potencias irão gerar uma
órbita fechada? Vimos, na seção anterior, que, de um modo geral, uma órbita pode ser limitada entre uma distância
mı́nima, rmin , e uma distância máxima, rmax , porém, nada garante que essas órbitas serão fechadas (ver figura (2)).
Dessa forma, a pergunta sobre quais potenciais podem gerar órbitas fechadas é uma questão importante. Além do
mais, a primeira lei de Kepler sobre movimentos planetários diz que a órbita dos planetas ao redor do Sol são elipses
com o Sol em um dos focos, ou seja, órbitas fechadas.

• Órbita circular:

Quando o nı́vel de energia é o mı́nimo possı́vel e portanto coincide com o único valor possı́vel do potencial efe-
tivo, que é no ponto de mı́nimo, a órbita necessariamente é circular e assim sendo, é uma órbita fechada. Seja então
r0 o raio da órbita circular e E0 o valor da energia. Podemos neste caso escrever

L2
Vef (r0 ) = E0 = V (r0 ) + . (42)
2mr02

O valor da derivada de Vef (r) em r0 é igual a zero, por se tratar de um ponto de mı́nimo:
( )
dVef L2
Vef′ (r0 ) = = V ′
(r) − = 0, (43)
dr r=r0 mr3 r=r0

então,
L2
V ′ (r0 ) = . (44)
mr03

6
A derivada segunda do potencial efetivo em r0 deve ser maior do que zero:
( )
′′ d2 Vef ′′ 3L2
Vef (r0 ) = = V (r) + > 0. (45)
dr2 r=r0 mr4 r=r0

Segue então que


3 L2
Vef′′ (r0 ) = V ′′ (r0 ) + , (46)
r0 mr03
ou ainda,
3 ′
Vef′′ (r0 ) = V ′′ (r0 ) + V (r0 ) . (47)
r0
Vamos guardar este resultado por enquando e vamos analisar as órbitas com E > E0 .

• Órbitas com E > E0 :

Neste caso, temos primeiro que definir a variável ϕ que é o deslocamento angular durante uma oscilação radial
completa, i.e., de rmin até rmax e de volta a rmin . Se a órbita for fechada, significa que depois de um número inteiro
de oscilações radiais completas o deslocamento angular total deve ser um múltiplo inteiro de 2π. Assim, podemos
escrever
pϕ = 2πq , (48)
ou seja,
q
ϕ = 2π , (49)
p
sendo p e q números inteiros. Em outras palavras, ϕ deve ser um múltiplo racional de 2π. Por outro lado, podemos
extrair o valor de ϕ através da equação de órbita (41):

L ∫ rmax L ∫ rmin
dr dr
ϕ = √ √ + √ √
2m rmin r2 E − Vef (r) 2m rmax r2 E − Vef (r)
∫ rmax
2L dr
= √ √ . (50)
2m rmin r E − Vef (r)
2

Introduzindo a variável
1
u= , (51)
r
então,
1
du = − dr (52)
r2
e
1 1
umax = , umin = . (53)
rmin rmax
Logo, ∫ ∫
umin umax
2L du 2L du
ϕ = −√ √ =√ √ , (54)
2m umax E − W (u) 2m umin E − W (u)
onde
L2 u2
W (u) = Vef (1/u) = V (1/u) + . (55)
2m
Agora, vamos considerar um nı́vel de energia que seja apenas um pouco maior que a energia E0 da órbita circular, ou
seja, vamos considerar a energia de órbitas vizinhas à órbita circular de raio r0 :

E = E0 + ∆E , (56)

com ∆E ≈ 0. Então, podemos fazer uma expansão em torno de r0 :


( )
′ 1 ′′
E − W (u) ≈ E0 + ∆E− W (u0 ) + W (u0 )(u − u0 ) + W (u0 )(u − u0 ) .
2
(57)
2
Os termos W (u0 ), W ′ (u0 ) e W ′′ (u0 ) podem ser obtidos da seguinte maneira:

W (u0 ) = Vef (r0 ) = E0 , (58)

7
( )
dr L2
W ′ (u0 ) = V ′ (r) + u
du m u0 =1/r0
L2
= −r02 V ′ (r0 ) +
mr0
2 2
L L
= −r02 +
mr03 mr0
= 0, (59)

[ ( )]
′′ d V ′ (1/u) L2 u
W (u0 ) = − +
du u2 m u=u0
L2 V ′ (1/u0 ) V ′′ (1/u0 )
= +2 +
m u30 u40
L2
= + 2r03 V ′ (r0 ) + r04 V ′′ (r0 )
m( )
3 L2 ′ ′′
= r0 +2V (r0 ) + r0 V (r0 )
mr3
| {z0}
=V ′ (r0 )
( )
3 ′ ′′
= r04 V (r0 ) + V (r0 )
r0
| {z }
′′ (r ) (pela eq.(47))
=Vef 0

= r04 Vef′′ (r0 ) . (60)

Então,
1
E − W (u) ≈ ∆E − W ′′ (u0 )(u − u0 )2 , (61)
2
e
∫ umax
2L du
ϕ = √ √
2m umin ∆E − 12 W ′′ (u0 )(u − u0 )2
∫ umax
2L 1 du
= √ √ ( )1/2
2m umin 1 ′′ 2∆E
2 W (u0 ) −(u − u0 )2
W ′′ (u0 )
| {z }
=a2
∫ umax
2L du
= √ √ . (62)
mW ′′ (u0 ) umin a2 − (u − u0 )2

Para resolver esta integral temos que fazer primeiro uma mudança de variáveis

u − u0 = s , (63)

que leva a ∫ smax


2L ds
ϕ= √ √ , (64)
mW ′′ (u0 ) smin a2− s2
onde
smin = umin − u0 , smax = umax − u0 . (65)
Em seguida, devemos fazer uma substituição trigonométrica

s = a sin ψ , (66)

que acarreta em √

ds = a cos ψ dψ , a − s = a 1 − sin2 ψ = a cos ψ .
2 2 (67)

8
Além disso, smin deverá corresponder ao valor mı́nimo de a sin ψ, ou seja, quando ψ = −π/2. Equivalentemente, smax
ocorrerá para ψ = π/2, que corresponde ao valor máximo de a sin ψ. Dito isto, podemos escrever:
∫ π/2
2L a cos ψ dψ
ϕ = √
mW ′′ (u0 ) −π/2 a cos ψ
∫ π/2
2L
= √ dψ
mW ′′ (u0 ) −π/2
2πL
= √
mW ′′ (u0 )
2πL
= √ 4 ′′
mr0 V (r0 )
√ ef
L2 /mr03
= 2π
r0 Vef′′ (r0 )

V ′ (r0 )
= 2π , (68)
3V ′ (r0 ) + r0 V ′′ (r0 )

onde utilizamos as relações (60), (44) e (47). Pela relação (33), podemos concluir que o raio da órbita circular poder
ser escrito como √
L
r0 = , (69)

sendo ω a velocidade angular. Esta expressão mostra que o raio da órbita circular pode variar continuamente de
acordo com o valor do momento angular, podendo assumir qualquer valor r e consequentemente, a raiz quadrada que
aparece em (68) também poderá, em princı́pio, assumir qualquer valor. No entanto, o valor de ϕ deve ser um múltiplo
racional de 2π. Logo, devemos eliminar a dependência em r de (68) tomando

3V ′ (r) + rV ′′ (r) = αV ′ (r) , (70)

com α sendo uma constante positiva. Isto leva ao seguinte resultado:



ϕ= √ . (71)
α
Agora, temos que achar as soluções possı́veis da equação diferencial

(3 − α)V ′ (r) + rV ′′ (r) = 0 . (72)

É fácil verificar que uma solução pode ser dada por2

V1 (r) = rβ , (73)

e a outra por
V2 (r) = k ln r . (74)
Vamos então investigar cada uma das soluções. A primeira solução fornece a seguinte equação:

((3 − α)β + β(β − 1))rβ−1 = 0 , (75)

ou
β(β − α + 2) = 0 , (76)
que tem como soluções β = 0, ou β = α − 2. Já a segunda solução fornece a equação

k(2 − α) = 0 , (77)

cujas soluções são k = 0, ou α = 2. A segunda solução não serve pois levaria ao resultado ϕ = 2π/ 2, que não é um
múltiplo racional de 2π. No entanto, de acordo com a primeira solução

ϕ= √ . (78)
β+2
2 Verifica-se também que V (r) = eγr não pode ser uma solução.

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Figura 3: Trajetória para um potencial tipo lei de Hooke

Note-se que, neste caso, podemos fazer, por exemplo, β = 2 que corresponde a ϕ = π e que leva ao potencial da lei de
Hooke. Uma outra escolha possı́vel seria β = −1 que leva ϕ = 2π que dá o potencial newtoniano, ou seja, inversamente
proporcional a distância. Outros valores de β poderiam, em princı́pio, ser escolhidos (por exemplo, β = 7). Porém,
devemos lembrar que estamos considerando órbitas vizinhas à órbita circular (E ≈ E0 ). Para demonstrar que apenas
as soluções β = 2 e β = −1 são válidas, devemos tomar os limites E → 0 e E → ∞ em (50). Este cálculo é apresentado
em [1] e é conhecido como teorema de Bertrand, que fez esta demonstração pela primeira vez em 1873.

Ficamos então dois potenciais possı́veis:

k 2 k′
V (r) = r , V (r) = . (79)
2 r
Devemos fixar as constantes k e k ′ de maneira que a força seja atrativa:

 −kr , k > 0 (lei de Hooke) ,
dV (r) 
F (r) = − = ′ (80)
dr 
+ k , k ′ < 0 (lei de Newton) .
r2

É importante notar que, na lei de Hooke, ϕ = π, o que significa que é preciso de duas voltas para fechar a órbita. No
caso da lei de Newton, ϕ = 2π e a órbita se fecha com uma volta. A trajetória da partı́cula nos dois casos pode ser
vista nas figuras 3 e 4.

A força −kr foi a primeira propósta, feita por Hooke, de qual seria a força que mantem os planetas em órbita ao redor
do Sol. De fato, Hooke, ao propor isto, não estava pensando simplesmente em conhecer a força restauradora que uma
mola exerce ao ser deformada. Além disso, dizem que Hooke teria acusado Newton de ter roubado a solução −|k ′ |/r2 ,
alegando tê-la obtido primeiro.

6 Estudo do potencial proporcinal a 1/r


6.1 Seções (ou secções) cônicas
As curvas ou seções cônicas representam a região de interseção entre um plano e um cone, tal como mostra a figura 5.
Formalmente, podemos definir as curvas cônicas como: Uma curva gerada por um ponto que se move de tal modo que
a razão de sua distância a um ponto fixo, chamado foco, pela distância a uma linha reta (que não contem o foco),
chamada diretriz, é constante. Esta razão constante é chamada de excentricidade (ε) da curva e dependendo de seu
valor, esta curva pode ser classificada como sendo uma elipse (0 ≤ ε < 1), uma parábola (ε = 1), ou uma hipérbole
(ε > 1). O cı́rculo é um caso particular de uma elipse de excentricidade igual a zero.

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Figura 4: Trajetória para um potencial newtoniano

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Figura 5: Seções cônicas

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Figura 6: Elipse

Vamos então tomar a elipse como nosso exemplo padrão e tentar obter uma equação para esta curva em termos
de sua excentricidade, de maneira que o resultado seja válido para as demais seções cônicas, bastando para isto tomar
o valor adequado de ε. Consideremos a elipse da figura 6. Sendo P um ponto da curva, F o foco e H a diretriz,
então, de acordo com a definição de uma curva cônica, a excentricidade da curva será a razão entre o segmento P F e
o segmento P Q, ou seja,
PF
ε := . (81)
PQ
Denotando por r a distância do foco a um ponto P da curva, e por d o segmento F D, que é a distância do foco à
diretriz, podemos dizer que P Q = r/ε e, de acordo com a figura 6, podemos escrever:

d = P Q + P F cos θ
r
= + r cos θ
ε
r
= (1 + ε cos θ) , (82)
ε
ou ainda,
εd
= 1 + ε cos θ . (83)
r
As distâncias r1 e r2 , que são as distâncias ao foco dos pontos A e A′ da curva, podem ser obtidas tomando-se,
respectivamente, θ = 0 e θ = π em (83):

εd εd
r1 = , r2 = . (84)
1+ε 1−ε
Futuramente, pode ser útil ter a equação da elipse em termos destes parâmetros r1 e r2 , que nada mais são do que as
distâncias de mı́nima e máxima aproximação ao foco, respectivamente. Note-se que:
( ) ( )
1 1 1 1 1 1 1 1
+ = , − = , (85)
2 r1 r2 εd 2 r1 r2 d

logo,
1 1 1
= + cos θ
r εd( d ) ( )
1 1 1 1 1 1
= + + − cos θ . (86)
2 r1 r2 2 r1 r2

A excentricidade da elipse em termos de r1 e r2 pode também ser facilmente determinada:


( )−1 ( )( )−1
εd 1 1 1 1 1 1 r2 − r1
ε= = = − + = . (87)
d εd d r1 r2 r1 r2 r1 + r2

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Figura 7: Semi-eixo menor da elipse

As relações (86) e (87) formam obtidas para o caso de um curva eliptica, pois os parâmetros r1 e r2 são caracterı́sticos
da elipse. Entretanto, essas relações valem para as outras cônicas contanto que façamos algumas considerações sobre
r1 e r2 . No caso da parábola (ε = 1): r1 = d/2 e r2 → ∞; e no caso da hipérbole (ε > 1): r2 < 0.

Além disso, podemos também obter uma expressão para o semi-eixo maior da elipse, denotado por a na figura (6),
( )
r1 + r2 1 εd εd εd
a= = + = . (88)
2 2 1+ε 1−ε 1 − ε2
Para obter uma expressão para o semi-eixo menor b devemos notar primeiro que a soma da distância de um ponto
da curva ao foco F ′ mais a distância deste mesmo ponto a F é constante. Assim, se tomarmos, por exemplo, o ponto
A da curva, teremos:
F ′ A + F A = r2 + r1 , (89)
pois, pela simetria da curva, vemos que F ′ A = F A′ = r2 . Então, o semi-eixo menor b é obtido pela seguinte relação
(ver figura (7)):
( )2
r1 + r2
b 2
= − (a − r1 )2
2
( )2 ( )2
r1 + r2 r1 − r2
= −
2 2
= r1 r2
ε2 d2
=
1 − ε2
= (1 − ε2 )a2

b = a 1 − ε2 . (90)

Para reobter a familiar equação cartesiana da elipse com o centro na origem do eixo cartesino, notemos que o ponto
P da curva tem coordenadas:
x = r cos θ + (a − r1 ) , y = r sin θ . (91)
A coordenada x pode ainda ser reescrita da seguite maneira:

x = r cos θ + (a − r1 )
( )
εd
= r cos θ + a −
1+ε
= r cos θ + (a − a(1 − ε))
= r cos θ + aε , (92)

que nos leva a seguinte relação:


r2 = (x − aε)2 + y 2 . (93)
Reescreverndo (83) como:
r = εd − ε(r cos θ) = εd − ε(x − aε) , (94)

13
e elevando esta equação ao quadrado,

r2 = (x − aε)2 + y 2 = ε2 d2 − 2ε2 d(x − aε) + ε2 (x − aε)2 , (95)

podemos obter que

ε2 d2 = (1 − ε2 )(x − aε)2 + 2ε2 d(x − aε) + y 2


2 2
ε d 2ε2 d y2
= (x − aε)2 + (x − aε) +
1 − ε2 1 − ε2 1 − ε2
( 2
)2 ( 2 )2
ε d ε d y2
(1 − ε2 )a2 = (x − aε) + − +
1 − ε2 1 − ε2 1 − ε2
y2
= ((x − aε) + aε)2 − ε2 a2 +
1 − ε2
2
y
= x2 + − ε2 a2
1 − ε2
y2
(1 − ε2 )a2 + ε2 a2 = x2 +
1 − ε2
y2
a2 = x2 + , (96)
1 − ε2
logo,
x2 y2 x2 y2
+ = + = 1. (97)
a2 a2 (1 − ε2 ) a2 b2
Com isto, encerramos esta discussão sobre as curvas cônicas. Mais detalhes podem ser obtidos em [2] e [3].

6.2 Equação da órbita


Primeiro vamos introduzir uma variável u = 1/r. Dessa forma,
1
du = − dr . (98)
r
A equação de órbita (41) em termos da variável u fica

L du
∆θ = − √ √ , (99)
2m E − Vef

onde omitimos os limites de integração. O potencial efetivo com V (r) = K/r (podendo K ser positivo ou negativo) é

K L2
Vef = + , (100)
r 2mr2
cujo comportamento é descrito na figura 1 para K < 0. Em termos da a variável u temos

L2 2
Vef = Ku + u , (101)
2m
e a equação de órbita fica √ ∫
L2 du
∆θ = − √ . (102)
2m E − Ku − L2 2
2m u

Para resolver esta equação devemos primeiro reescrever Vef como um quadrado perfeito mais um termo independente
de u: (√ )2
L2 2 L2
Ku + u = u+C − C2 . (103)
2m 2m
Resolvendo esta equação encontramos √
K 2m
C= , (104)
2 L2

14
e a integral que temos que solucinar fica:
∫ [ (√ √ )]−1/2
L mK 2 L2 K 2m
∆θ = − √ du E + − u+ . (105)
2m 2L2 2m 2 L2

Fazendo,
mK 2
α2 = E + , (106)
2L2
e √ √ √
L2 K 2m L2
s= u+ , ds = du , (107)
2m 2 L2 2m
obtemos ∫
ds
∆θ = − √ , (108)
α2 − s2
que pode ser resovida fazendo uma substituição trigonométrica:

s = α cos ψ , ds = −α sin ψ dψ , α2 − s2 = α cos ψ , (109)

o que dá
θ = ψ + θ0 . (110)
Escolhendo θ0 = 0 e voltando para a variável u, temos
√ √
2m mK 2 mK
u= E + cos θ − 2 . (111)
L2 2L2 L
Como u = 1/r, também podemos escrever
√ √
1 2m mK 2 mK
= E+ cos θ − 2 . (112)
r L2 2L2 L

Agora, vamos considerar o caso de um potencial atrativo, ou seja, K = −|K|, para um dado valor da energia E < 0
em que a partı́cula sujeita a força central fique confinada num vale de potencial. Os pontos de retorno serão obtidos
da equação:
L2 2
u − |K| u − E = 0 . (113)
2m
As soluções desta equação são: √ √
m|K| 2m mK 2
u= ± E + . (114)
L2 L2 2L2
Portanto, temos
√ √
1 m|K| 2m mK 2
umax = = 2
+ 2
E+ ,
rmin L L 2L2
√ √
1 m|K| 2m mK 2
umin = = − E + . (115)
rmax L2 L2 2L2
Podemos escrever ainda que
( ) ( ) √ √
1 1 1 m|K| 1 1 1 2m mK 2
+ = , − = E+ . (116)
2 rmin rmax L2 2 rmin rmax L2 2L2

Podemos então reescrever a equação de órbita (112) como


( ) ( )
1 1 1 1 1 1 1
= + + − cos θ , (117)
r 2 rmin rmax 2 rmin rmax

que é idêntica a equação da elipse (86) com r1 = rmin e r2 = rmax . Portanto, podemos concluir que a órbita de uma
partı́cula sob a ação de um potencial ∼ −1/r é de fato uma curva cônica. Neste caso, onde a partı́cula está confinada

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Figura 8: Trajetórias

num vale de potencial, sua órbita é uma elipse. Para obter as outras curvas, podemos determinar uma expressão para
a excentricidade ε da curva em termos da energia e o momento angular. De acordo com a expressão (87) temos
√ √
2m 2 √
E + mK
rmin − rmax
1 1
L2 2L2 2EL2
ε= 1 1 = = 1 + . (118)
rmin + rmax
m|K|
2
mK 2
L

Então, a partir desta expressão podemos inferir que a órbita é uma elipse se E < 0, uma parábola se E = 0, e uma
hipérbole se E > 0. A figura 8 ilustra esta situação. Nela, uma partı́cula é lançada horizontalmente do ponto A
com velocidade v0 a uma distância h da superfı́cie da Terra e a uma distância h + R do centro da Terra, sendo R o
raio da Terra. Note-se que algumas órbitas elipticas não podem se fechar porque a partı́cula atinge a superfı́cie da Terra.

Ainda no caso de órbitas elipticas, vamos agora obter certas relações interessantes entre o semi-eixo maior da elipse a
e o momento angular, a = a(L), e a energia, a = a(E). Para isso, partimos da definição de a:
rmin + rmax
a =
 2 
1 1 1 
=  √ √ + √ √ 
2 m|K| + 2m E + mK m|K|
L2 −
2 2m mK 2
L2 L2 2L2 L2 E+ 2L2
 
L2  1 1 
= √ + √
2m|K| 1 + 1 + 2EL2 1− 1+ 2EL2
mK 2 mK 2
2
L 1
= ( ). (119)
m|K| 1 − 1 + 2EL2
mK 2

Desta última podemos obter duas expressões:

|K| L2 1
a = a(E) = − , a = a(L, ε) = . (120)
2E m|K| 1 − ε2

A primeira diz que quanto mais próximo do nı́vel zero, lembre-se que E < 0, maior será o semi-eixo principal da elipse,
tendendo a infinito quando E = 0 (quando a órbita vira uma parábola). Para o menor valor possı́vel de E, a é igual
ao raio da órbita circular. A segunda expressão se refere a como a varia de acordo com o momento angular tendo a
energia fixa. De fato, pode-se inverter esta relação e obter uma expressão de ε em função de L:

L2
ε2 = 1 − , (121)
m|K|a

de modo que podemos, para um valor fixo da energia, ter órbitas com excentricidades diferentes dependendo apenas
do momento angular, como na figura (9).
Cabe aqui uma última observação a respeito do caso onde K > 0 e a força é repulsiva. Neste caso, a equação de órbita
(112) tem um sinal “−”que difere da equação das cônicas (83) que apresentamos na seção anterior. Na verdade, esta
equação também é uma equação de cônica, porém, com a reta diretriz colocada à esquerda do foco. Esta demonstração
é feita em detalhes em [2]. A diferença que ocorre aqui é devido ao fato do potencial ser repulsivo e a curva que se

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Figura 9: Elipses com mesmo valor de a, mas com excentricidades diferentes

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Figura 10: Os dois ramos da hipérbole

obtem é a de uma hipérbole (neste caso E > 0 sempre). No entanto, é sabido que a hipérbole possui dois ramos e
neste caso, o ramo que se obtem é o ramo oposto ao do caso atrativo. A figura 10 ilustra esse fato. Nela, o ponto C
representa o centro de força e vemos duas trajetórias distintas: uma delas, que é o ramo da esquerda, representa a
trajetória de uma partı́cula de massa m sob a ação de uma força repulsiva, enquanto que a outra, o ramo da direita,
representa a trajetória da partı́cula sob ação de uma força atrativa quando E > 0.

7 As Leis de Kepler
As leis de Kepler são as seguintes:
1. Os planetas movem-se em elipses sendo o Sol um dos focos;
2. O raio vetor do Sol ao planeta varre áreas iguais em tempos iguais;
3. O quadrado do perı́odo de revolução é proporcional ao cubo do semi-eixo maior.
A primeira lei é provada dizendo que a força que atua sobre o planeta devida ao Sol é
Mm
F⃗ = −G 2 r̂ , (122)
r
que se origina do potencial,
Mm
V = −G , (123)
r
que como vimos, gera órbitas elipticas com o centro de força num dos focos.

A segunda lei decorre da conservação do momento angular. Para prová-la vamos calcular a área do pequeno triângulo
que aparece na figura 11:
1
dS = r2 dθ . (124)
2
Dividindo ambos os lados por dt temos:
dS 1 dθ 1 1 L L
= r2 = r2 θ̇ = r2 = = cte . (125)
dt 2 dt 2 2 mr2 2m

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Figura 11: Elemento de área

Integrando em ambos os lados concluimos que


L
∆S = ∆t , (126)
2m
ou seja, o raio vetor ⃗r varre áreas iguais em tempos iguais3 .

Para demonstrar a terceira lei, tomemos o perı́odo τ no qual o raio vetor ⃗r varre a área total da elipse, ou seja, o
perı́odo de uma revolução completa do planeta4 :
2m
τ = ∆S
L
2m
= πab
L
2mπ 2 √
= a 1 − ε2
L √
2mπ 2 L2
= a
L m|K|a

m 3/2
= 2π a . (127)
|K|

Elevando esta equação ao quadrado e fazendo |K| = GM m, sendo M a massa do Sol, temos:


τ2 = √ a3 , (128)
GM

que é a terceira lei de Kepler. Note-se ainda que este resultado é independente da massa do planeta.

8 Aprendendo através de exercı́cios


8.1 Análise qualitativa
Problema: Descreva qualitativamente o movimento de uma partı́cula de massa m e momento angular L que sofre a
ação de uma força
F⃗ = −kr r̂ , k > 0. (129)

Para resolver este problema vamos enumerar os passos necessários:


1. Determinar um potencial V (r), tal que F⃗ = −∇V
⃗ (r);

L2
2. Escrever o potencial efetivo Vef (r) = V (r) + 2mr 2 ;

3. Obter o comportamento de Vef (r) através do cálculo de lim Vef (r), lim Vef (r) e obter os valores de r quando:
r→0 r→∞
Vef′ (r) = 0 (pontos crı́ticos), Vef (r) = 0 (se houver), e Vef (r) < 0 (se houver);
3 Note-se que a integração só é possı́vel devido a conservação do momento angular.
4 Lembre-se que a área da elipse é πab.

18
4. Esboçar o gráfico de Vef (r);
5. Descrever o tipo de movimento de acordo com o nı́vel de energia.
Então vamos seguir estes cinco passos:

1o passo: Para esta força é fácil verificar que


k 2
V (r) = r (130)
2
é o potencial desejado;

2o passo: O potencial efetivo é:


k 2 L2
Vef (r) = r + ; (131)
2 2mr2
3o passo:
lim Vef (r) = +∞ , lim Vef (r) = +∞ , Vef (r) > 0 ∀ r ,
r→0 r→∞
( 2 )1/4 √
L k
Vef′ (r0 ) = 0 , r0 = , Vef (r0 ) = E0 = L; (132)
mk m
4o passo: Com o resultado do passo anterior podemos esboçar o gráfico de Vef (r):

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5o passo: Pelo esboço do gráfico podemos ver que quando a energia da partı́cula for

k
E0 = L (133)
m
descreverá uma circunferência de raio ( )1/4
L2
r0 = . (134)
mk
Para este tipo de potencial só existem estados ligados e quando a energia for maior que E0 , a partı́cula descreverá
uma órbita limitada entre duas distâncias:
rmin < r0 < rmax . (135)
Neste caso, a trajetória é, como vimos, dada pela figura 3, porém, num caso qualquer poderia ser como na figura 2.

8.2 Precessão da órbita eliptica


Vimos, na seção 6, que o potencial V (r) = −|K|/r gera órbitas elipticas quando E < 0, e vimos também que este
potencial, junto com o da lei de Hooke, é o único capaz de gerar órbitas fechadas. Porém, existem certos potencias
que podem ser identificados como perturbações do potencial newtoniano. Alguns exemplos tı́picos são:
k k′
V1 (r) = − + n, n > 1, |k ′ | ≪ k ,
r r
k
V2 (r) = − + k′ rn , n ≥ 1, |k ′ | ≪ k ,
r
k
V3 (r) = − 1+δ , δ ≪ 1, (136)
r

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Figura 12: Precessão da elipse

com k > 0 e n inteiro. Para casos assim, a órbita costuma ser uma “elipse”cujo eixo principal precessa, como ilustra a
figura 12. O que ocorre de fato é que a órbita é quase uma elipse, porque o potencial é quase newtoniano, porém, na
verdade a elipse não se fecha por causa da perturbação e o resultado é que a trajetória parece uma elipse que precessa.
Um dado interessante que podemos calcular é a velocidade de precessão da elipse que pode ser calculada para órbitas
aproximadamente circulares através da diferença entre a velocidade angular da trajetória circular,
L
θ̇ = , (137)
mr02
e a frequência de pequenas oscilações radiais,

1 d2 Vef (r)
ω= , (138)
m dr2 r=r0

ou seja,
ωp = θ̇ − ω . (139)
Se θ̇ > ω, então ωp > 0 e a precessão é no mesmo sentido de θ̇. Isto significa que a “elipse”se “fecha”depois da órbita
circular não perturbada. Se, ao contrário, θ̇ < ω, então ωp < 0 e a precessão é no sentido oposto ao de θ̇, significando
que a elipse se fecha antes da órbita circular.

Vejamos então como resolver um problema que aparece em [4] (problema 49 do capı́tulo 3):

Problema: Uma distribuição uniforme de poeira de densidade ρ, em torno do Sol, resulta na soma da atração gravita-
cional desse astro sobre um planeta de massa m a uma força de atração central adicional

Fextra = −mkr , (140)

onde

k= ρG . (141)
3
Se a massa do Sol for M , determine a velocidade angular de revolução do planeta em órbita circular de raio r0 ;
determine a frequência angular para pequenas oscilações radiais. A seguir, mostre que se Fextra for muito menor que
a atração devido ao Sol. uma órbita quase circular será aproximadamente uma elipse, cujo eixo maior tem um lento
movimento de precessão e cuja velocidade angular é, em módulo,
( )1/2
r03 G
ωp = 2πρ . (142)
M
Conclua se o movimento de precessão do eixo se faz no mesmo sentido, ou em sentido oposto, à velocidade angular.

Solução: Primeiro, vamos determinar o potencial real:


M m mk 2
V (r) = −G + r , (143)
r 2

20
logo, o potencial efetivo será:
L2 M m mk 2
−G
Vef (r) = + r . (144)
2mr2 r 2
Agora, vamos encontrar o ponto de mı́nimo deste potencial, que é o raio da órbita circular:

dVef L2 GM m
= − + + mkr0 = 0, (145)
dr r0 mr03 r02

então, para encontrar r0 , temos que resolver a equação

−L2 + GM m2 r0 + m2 kr04 = 0 . (146)

Porém, como estamos interessados em θ̇ em função de r0 , podemos usar a relação θ̇ = L/mr02 eliminando L da equação
anterior:
−r04 θ̇2 + GM mr0 + kr04 = 0 , (147)
o que leva a √ √ √ ( )
GM kr03 GM kr03
θ̇ = 1+ ≈ 1+ . (148)
r03 GM r03 2GM
Para calcular a frequência de pequenas oscilações ω, temos que tomar a derivada segunda do potencial efetivo em r0 :

d2 Vef 3L2 GM m
= 4 − + mk , (149)
2
dr r0 mr0 r03

logo,

1 d2 Vef
ω =
m dr2 r0

3L2 GM
= − 3 +k
m2 r04 r0

GM
= 3θ̇2 −
+k
r03
√ ( )
GM kr03 GM
= 3 3 1+ − 3 +k
r0 GM r0

GM
= + 4k
r03
√ √ √ ( )
GM 4kr03 GM 2kr03
= 1+ ≈ 1+ . (150)
r03 GM r03 GM

A velocidade angular da precessão da órbita é então


( )√
1 kr03 GM
ωp = θ̇ − ω ≈ −2
2 GM r03

3kr03 GM
= −
2GM r03

Gr03
= −2πρ . (151)
M
Como ωp < 0 a precessão é em sentido oposto ao da órbita circular.

21
8.3 Vetor de Laplace-Runge-Lenz
Para uma partı́cula de massa m que se move num potencial gravitacional V (r) = −K/r, com K > 0, existe um vetor,
chamdo de vetor de Laplace-Runge-Lenz,
A⃗ = p⃗ × L⃗ − mK ⃗r , (152)
r
que é uma quantidade conservada, ou seja,
dA⃗
= 0. (153)
dt
Diante disto, propõe-se o seguinte: (i) Mostre que A ⃗ é uma constante de movimento, ou seja, mostre que a equação

anterior é verdadeira. (ii) Mostre que A está contido no plano da órbita. (iii) Tomando o produto escalar de A⃗ com
⃗r, deduza a equação da órbita. (iv) Mostre que excentricidade é dada por ε = A/mK, com A = |A|,⃗ e que A ⃗ aponta
ao longo do eixo maior da órbita elı́ptica.

Referências
[1] Lemos, N. A., Mecânica Analı́tica.

[2] Leithold, L., O Cálculo com Geometria Analı́tica.


[3] Alonso, M. e Finn, E. J., Fı́sica: um curso universitário. vol. 1.

[4] Symon, K. R., Mecânica. 6a ed.

22