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Susan Sontag

A IMAGINAÇÃO PORNOGRÁFICA

Publicada originalmente em: A Vontade


Radical – Estilos. São Paulo: Cia das Letras,
1987. Págs. 41-76.

Ninguém deveria iniciar uma discussão sobre pornografia antes de


reconhecer a existência das pornografias (há pelo menos três) e antes de se
empenhar em considerá-las uma a uma. Há muito a se ganhar em exatidão se a
pornografia, como um item na história social, for tratada de modo totalmente
separado da pornografia enquanto fenômeno psicológico (segundo a visão
comum, sintomático de deficiência ou deformidade sexual, tanto nos
produtores como nos consumidores) e se, em seguida, se distinguir dessas
duas uma outra pornografia: modalidade ou uso menor, mas interessante, no
interior das artes.

É a última das três pornografias que desejo focalizar. Mais


especificamente, o gênero literário para o qual, na falta de um nome melhor,
estou disposta a aceitar (na privacidade do debate intelectual autêntico, não
nos tribunais) o duvidoso rótulo de pornografia. Por gênero literário pretendo
dizer um corpo de obras pertencentes à literatura considerada como uma arte,
e ao qual concernem padrões inerentes de excelência artística. Do ponto de
vista dos fenômenos sociais e psicológicos, todos os textos pornográficos têm
o mesmo status – são documentos. Porém, do ponto de vista da arte, alguns
desses textos podem se tornar alguma coisa além disso. Não apenas obras
como Trois Filles de leur Mère, de Pierre Louys, Histoire de l’Oeil e Madame
Edwarda, de George Bataille, e as pseudônimas História de O e A Imagem
pertencem à literatura, mas é possível esclarecer por que esses livros, todos os
cinco, ocupam um grau mais elevado enquanto literatura do que, por exemplo,
Candy e Teleny, de Oscar Wilde, ou Sodom, do Conde de Rochester, ou O
Hospodar Devasso, de Apollinaire, ou Fanny Hill, de Cleland. A avalancha de
obras artísticas comerciais vendidas ilegalmente por dois séculos e, agora,
cada vez mais, fora de mercado, não impugna a condição de literatura do
primeiro grupo de livros pornográficos, na mesma medida em que a
proliferação de livros como The Carpetbaggers e O Vale das Bonecas não
coloca em questão as credenciais de Ana Karenina e de O Grande Gatsby, ou
de The Man Who Loved Children. A proporção de literatura autêntica em
relação ao refugo, na pornografia, talvez seja um pouco menor que a
proporção de romances de genuíno mérito literário face a todo o volume de
ficção subliterária produzida para o gosto popular. Contudo é provável que
não seja menor, por exemplo, que a de outro subgênero de reputação um
pouco duvidosa com poucos livros de primeira linha a seu crédito: a ficção
científica. (Enquanto formas literárias, a pornografia e a ficção científica
assemelham-se uma à outra de várias e interessantes maneiras.) De toda
forma, a medida quantitativa fornece um padrão trivial Por relativamente
incomuns que possam ser, existem textos que nos parece razoável chamar de
pornográficos – considerando que o rótulo batido tenha algum uso –, aos
quais, ao mesmo tempo, não se pode recusar o crédito de literatura séria.

A afirmação pode parecer óbvia. No entanto, a primeira vista, não é isso


o que acontece. Pelo menos na Inglaterra e nos Estados Unidos, a avaliação e
o exame racionais da pornografia são efetuados firmemente no interior dos
limites do discurso empregado pelos psicólogos, sociólogos, historiadores,
juristas, moralistas profissionais e críticos sociais. A pornografia é uma
doença a ser diagnosticada e uma ocasião para julgamento. É alguma coisa
frente à qual se é contra ou a favor. E a tomada de posição sobre a pornografia
dificilmente é o mesmo como ser contra ou a favor da música aleatória ou da
arte Pop, mas é um pouco como se posicionar sobre o aborto legalizado ou a
ajuda federal às escolas paroquiais. Com efeito, a mesma abordagem
fundamental do tema é partilhada por eloqüentes defensores recentes do
direito e da obrigação da sociedade em censurar livros sujos (como George P.
Elliott e George Steiner) e por aqueles (como Paul Goodman) que antevêem as
conseqüências perniciosas de uma política de censura, muito piores que
qualquer dano causado pelos próprios livros. Tanto os libertários como os
presumidos censores concordam em reduzir a pornografia a um sintoma

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patológico e a uma mercadoria social problemática. Existe um consenso quase
unânime sobre o que a pornografia é – sendo identificada com noções sobre as
fontes do impulso de produção e consumo desses curiosos bens. Quando
enfocada como um tema para análise psicológica, a pornografia raramente é
vista como mais interessante que textos que ilustram uma interrupção
deplorável no desenvolvimento sexual do adulto normal. Nesta visão, tudo o
que a pornografia significa é a representação das fantasias da vida sexual
infantil, editadas pela consciência mais treinada, menos inocente, do
adolescente masturbador, para ser comprada pelos chamados adultos.
Enquanto fenômeno social (por exemplo, o surto na produção de pornografia
nas sociedades da Europa e nos Estados Unidos a partir do século XVIII), a
abordagem não é menos inequívoca e clínica: a pornografia torna-se uma
patologia de grupo, a doença de toda uma cultura, sobre cujas causas existe
uma concordância geral. A crescente produção de livros “sujos” é atribuída a
um legado maligno da repressão sexual cristã e à mera ignorância psicológica
– essas antigas deficiências unindo-se agora a eventos históricos mais
próximos: o impacto dos drásticos deslocamentos nos modos tradicionais da
família e da ordem política, e a mudança anárquica nos papéis sexuais. (O
problema da pornografia é um “dos dilemas de uma sociedade em transição”,
disse Goodman, em um ensaio, alguns anos atrás.) Assim, há uma
considerável harmonia quanto ao diagnóstico da pornografia. As
discordâncias surgem somente na avaliação das conseqüências psicológicas e
sociais de sua disseminação e, portanto, na formulação tática e política.

Os arquitetos mais esclarecidos da política moral estão


indubitavelmente preparados para admitir que existe algo que pode ser
chamado de “imaginação pornográfica”, embora somente no sentido de que as
obras pornográficas são comprovações de uma falência ou deformação radical
da imaginação. E eles podem garantir, como sugeriram Goodman, Wayland
Young e outros, que também existe uma “sociedade pornográfica”: que, na
verdade, a nossa sociedade constitui um florescente exemplo dela, tão
hipócrita e repressivamente construída que precisa produzir uma efusão de
pornografia, tanto com sua expressão lógica quanto com seu subversivo e
vulgar antídoto. Porém em nenhum ponto da comunidade de letras anglo-
americana encontrei qualquer indicação de que alguns livros pornográficos
são obras de arte de interesse e importância. Enquanto a pornografia for
tratada apenas como um fenômeno social e psicológico e um foco de
preocupação moral, como pode tal argumento ser apresentado?

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Há uma outra razão, à parte essa classificação da pornografia como um


tópico de análise, que explica por que a questão de saber se as obras de
pornografia podem ou não ser literatura nunca foi genuinamente debatida.
Trata-se da própria visão de literatura mantida pela maioria dos críticos
ingleses e norte-americanos – uma visão que, ao excluir os escritos
pornográficos, por definição, dos recintos da literatura, exclui muito mais
além disso.

Por certo, ninguém nega que a pornografia constitui um ramo da


literatura no sentido de que aparece na forma de livros impressos de ficção.
Entretanto, afora essa relação trivial, nada mais se permite. O modo como a
maioria dos críticos constrói a natureza da literatura em prosa (na mesma
medida que sua visão da natureza da pornografia) inevitavelmente coloca a
pornografia em oposição à literatura. Esse é um argumento estanque, pois, se
um livro pornográfico é definido como não pertencendo à literatura (e vice-
versa), não há razão para examinar as obras individuais.

A maioria das definições entre si excludentes de pornografia e de


literatura baseia-se em quatro razões diversas. A primeira é a de que a maneira
completamente unívoca em que os livros de pornografia se dirigem ao leitor,
propondo-se a excitá-lo sexualmente, é antitética à complexa função da
literatura. Alega-se que o propósito da pornografia, a indução da excitação
sexual, está em conflito com o tranqüilo e desapaixonado envolvimento que
evoca a genuína arte. Mas essa mudança do argumento parece particularmente
não-convincente, considerando-se o reverenciado apelo aos sentimentos
morais do leitor tentado pela escrita “realista”, para não mencionar o fato de
que algumas obras-primas indiscutíveis (de Chaucer a Lawrence) contêm
passagens que rematadamente excitam os leitores. É mais plausível apenas
enfatizar que a pornografia ainda possui somente uma “intenção”, ao passo
que a obra de literatura de real valor contém muitas.

Outra razão, adiantada por Adorno entre outros, é a de que nas obras de
pornografia falta a forma de começo-meio-e-fim característica da literatura.
Uma peça de ficção pornográfica mal inventa uma indisfarçada desculpa para
um início e, uma vez tendo começado, avança às cegas e termina nenhures.

O argumento seguinte: o texto pornográfico não é capaz de evidenciar


nenhum cuidado com seu meio de expressão enquanto tal (a preocupação da
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literatura), uma vez que o propósito da pornografia é inspirar uma série de
fantasias não-verbais em que a linguagem desempenha um papel secundário,
meramente instrumental. A última e mais importante alegação defende que o
tema da literatura é a relação dos seres humanos uns com os outros, seus
complexos sentimentos e emoções; a pornografia, em contraste, desdenha as
pessoas plenamente formadas (a psicologia e o retrato social), é desatenta à
questão dos motivos e de sua credibilidade, e narra apenas as transações
infatigáveis e imotivadas de órgãos despersonalizados.

A simples extrapolação, a partir do conceito de literatura mantido


atualmente pela maior parte dos críticos ingleses e norte-americanos, levaria à
conclusão de que o valor literário da pornografia é nulo. Mas esses padrões
não resistem, por si sós, a uma análise mais cuidadosa, tampouco se ajustam a
seu objeto. Tome-se, por exemplo, História de O. Ainda que o romance seja
nitidamente obsceno pelos padrões usuais, e mais eficiente que qualquer outro
no despertar sexualmente o leitor, a excitação não parece ser a única função
das situações retratadas. A narrativa tem, com efeito, um começo, um meio e
um fim definidos. É raro a elegância da escrita deixar a impressão de que o
autor considere a linguagem uma necessidade aborrecida. Além disso, as
personagens possuem de fato emoções intensas, embora obsessivas e, na
verdade, bastante associais; e têm motivações, sem que sejam psiquiátrica ou
socialmente “normais”. Em História de O, os protagonistas são dotados de
uma espécie de “psicologia”, derivada da psicologia da luxúria. E, embora
aquilo que possa ser apreendido das personagens no interior das situações em
que são colocadas seja severamente limitado – a maneira da concentração
sexual e de comportamento sexual explicitamente apresentado –, O e seus
parceiros não são mais reduzidos ou esboçados que as personagens de muitas
obras não-pornográficas da ficção contemporânea.

Apenas quando os críticos ingleses e norte-americanos desenvolverem


uma visão mais sofisticada de literatura, um debate interessante poderá ser
desencadeado. (Afinal, tal debate seria não só sobre a pornografia, mas sobre
todo o corpo da literatura contemporânea insistentemente centrado em
situações e comportamentos extremos.) A dificuldade surge porque inúmeros
críticos continuam a identificar com a própria literatura em prosa as
convenções literárias particulares do “realismo” (daquilo que se poderia
toscamente associar à tradição principal do romance do século XIX). Para
exemplos de modos literários alternativos não estamos confinados apenas à
maior parte dos grandes textos do século XX (de Ulisses, um livro que não
trata de personagens mas dos meios de intercâmbio transpessoal, de tudo o
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que liga a psicologia individual externa e a necessidade pessoal; ao
surrealismo francês e seu produto mais recente, o Novo Romance; à ficção
“expressionista” alemã; ao pós-romance russo representado por São
Petersburgo, de Biely, e por Nabokov; ou às narrativas não-lineares e sem
tensão, de Stein e Burroughs). Uma definição de literatura que culpa uma obra
por ser enraizada na “fantasia”, e não na apresentação realista de como
pessoas vivem umas com as outras em situações comuns, não pode sequer dar
conta de convenções veneráveis como a pastoral, que narra relações entre
pessoas de forma certamente redutiva, insípida e não-convincente.

A eliminação de alguns desses clichês persistentes é uma tarefa já há


muito em atraso: ela promoveria uma leitura judiciosa da literatura do
passado, ao mesmo tempo que colocaria os críticos e os leitores em contato
com a literatura contemporânea, que inclui áreas de escrita que
estruturalmente se assemelham à pornografia. Parece fácil, e virtualmente sem
sentido, exigir que a literatura se apegue ao “humano”. O que está em jogo
não é o “humano” em contraposição ao “inumano” (onde a opção pelo
“humano” garante instantânea auto-congratulação moral tanto ao autor como
ao leitor), mas um registro infinitamente variado de formas e tonalidades para
transpor a voz humana para a narrativa em prosa. Aos olhos do crítico, a
questão em pauta não é a relação entre o livro e “o mundo” ou a “realidade”
(em que cada romance é avaliado como se fosse um item único, e onde o
mundo é visto como um lugar muito menos complexo do que é), mas as
complexidades do próprio conhecimento, como meio através do qual um
mundo afinal existe e é constituído, bem como uma abordagem de livros de
ficção específicos que não desconsidera o fato de que eles existem em diálogo
uns com os outros. Desse ponto de vista, a decisão dos velhos romancistas, de
retratar o desenvolvimento dos destinos de “personagens” agudamente
individualizadas, em situações familiares e socialmente densas, no quadro da
notação convencional de seqüência cronológica, é apenas uma das muitas
decisões possíveis, não possuindo nenhum apelo inerentemente superior à
fidelidade dos leitores sérios. Nada existe de mais “humano” quanto a esses
procedimentos. A presença de personagens realistas não é, em si, alguma coisa
benéfica, uma matéria-prima mais nutritiva para a sensibilidade moral.

A única verdade segura sobre as personagens da ficção em prosa é que


constituem, na expressão de Henry James, “um recurso de composição”. A
presença de figuras humanas na arte literária pode servir a muitos propósitos.
A tensão dramática ou a tridimensionalidade na apresentação das relações
pessoais e sociais, com freqüência, não é um objetivo do escritor e, nesse
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caso, pouco auxílio traz insistir nisso como um padrão genérico. Explorar
idéias é um propósito igualmente autêntico da prosa de ficção, ainda que pelos
padrões do realismo no romance esse objetivo limite em muito a apresentação
de personagens reais. A construção ou a representação de algo inanimado, ou
de uma parcela do mundo da natureza, é também um empreendimento válido,
e compreende uma regraduação apropriada da figura humana. (A forma da
pastoral envolve ambos os propósitos: a representação de idéias e da natureza.
As pessoas são utilizadas somente na extensão em que constituem um certo
tipo de paisagem, que é, de uma parte, estilização da natureza “real” e, de
outra, paisagem de idéias neoplatônicas.) E são igualmente válidos, como
tema para a narrativa em prosa, os estados extremos da consciência e dos
sentimentos humanos, aqueles tão peremptórios que excluem o fluxo mundano
de sentimentos e se ligam apenas por contingência a pessoas concretas – é o
que ocorre com a pornografia.

Não se deve imaginar, a partir dos pronunciamentos confiantes sobre a


natureza da literatura feitos pela maior parte dos críticos norte-americanos e
ingleses, que um intenso debate sobre esse tema vem se desenvolvendo por
várias gerações. “Parece-me”, escreveu Jacques Rivière na Nouvelle Revue
Française em 1924, “que estamos presenciando uma crise muito grave na
concepção do que é a literatura”. Uma das diversas respostas ao “problema da
possibilidade e dos limites da literatura”, notou Rivière, é a acentuada
tendência da “arte (se ainda é possível manter o termo) a se tornar uma
atividade completamente não-humana, uma função supersensorial, se posso
usar a expressão, uma espécie de astronomia criativa”. Cito Rivière não
porque seu ensaio, “Questionando o Conceito de Literatura”, seja
particularmente original, definitivo ou sutil, mas simplesmente para lembrar
um conjunto de noções radicais sobre a literatura que constituíam quase
obviedades críticas, quarenta anos atrás, nas revistas literárias européias.

Até o momento, no entanto, esse fermento permanece alheio, não-


assimilado e persistentemente mal compreendido no mundo das letras inglesas
e norte-americanas: suspeito de provir de uma coletiva falência cultural de
energia; freqüentemente desconsiderado como pura perversidade,
obscurantismo ou esterilidade criativa. Os melhores críticos de língua inglesa,
entretanto, dificilmente poderiam deixar de notar quanto da grande literatura
do século XX subverte essas idéias, recebidas de alguns dos mais importantes
romancistas do século XIX, sobre a natureza da literatura, que continuam a
ecoar até hoje, em 1967. Mas a percepção de uma literatura genuína e nova foi
geralmente oferecida pelos críticos em um espírito muito semelhante ao dos
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rabinos, no século anterior ao principio da era cristã, os quais, reconhecendo
humildemente a inferioridade espiritual de sua própria época frente à era dos
grandes profetas, não obstante encerraram resolutamente o cânone dos livros
proféticos e declararam (com mais alívio que pesar, segundo se suspeita) que a
era da profecia terminara. Assim a época daquilo que na crítica anglo-
americana ainda é denominado, de forma bastante surpreendente, literatura
“experimental” ou “de vanguarda”, tem sido repetidamente declarada
concluída. A celebração ritual do solapamento operado por cada um dos
gênios contemporâneos nas velhas noções de literatura foi sempre
acompanhada pela insistência nervosa em que a escrita vinda à luz era, com
pesar, a última de sua nobre e estéril linhagem. Ora, os resultados dessa
maneira intrincada e unilateral de examinar a literatura foram várias décadas
de interesse e brilho sem paralelos na crítica inglesa e norte-americana –
particularmente nesta última. No entanto trata-se de um brilho e um interesse
erigidos sobre uma falência do gosto e algo próximo de uma fundamental
desonestidade de método. A retrógrada percepção dos críticos face às novas e
impressionantes reivindicações demarcadas pela literatura moderna, aliada a
seu despeito por aquilo que é comumente designado como “a rejeição da
realidade” e “a falência do eu”, endêmicas nessa literatura, indica o ponto
preciso em que a crítica literária anglo-americana mais talentosa abandona a
consideração das estruturas da literatura e se transpõe para a crítica da cultura.

Não pretendo repetir aqui os argumentos que adiantei em outros lugares,


a favor de uma abordagem crítica diferente. Todavia alguma alusão a tal
abordagem é necessária. Mesmo a discussão de uma obra específica, da
natureza radical de Histoire de l’Oeil, levanta a questão da própria literatura,
da narrativa em prosa considerada como uma forma artística. E livros como os
de Bataille não poderiam ter sido escritos se não fosse pela reapreciação
angustiada da natureza da literatura, que tem preocupado a Europa literária por
mais de meio século; mas, faltando-lhes aquele contexto, necessariamente se
mostram quase inassimiláveis aos leitores ingleses e norte-americanos –
exceto como “mera” pornografia, como lixo de inexplicável extravagância. Se
ainda é necessário levantar a questão de saber se a pornografia e a literatura
são ou não antitéticas, se é totalmente necessário afirmar que as obras de
pornografia podem pertencer à literatura, então a afirmativa deve implicar uma
visão global do que é a arte.

Para colocar a questão de forma mais geral: a arte (e fazer arte) é uma
forma de consciência; seus materiais são a variedade de formas de
consciência. Nenhum princípio estético pode fazer com que essa noção da
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matéria-prima da arte seja construída excluindo-se mesmo as formas mais
extremas de consciência, que transcendem a personalidade social ou a
individualidade psicológica.

Na vida cotidiana, sem dúvida, podemos reconhecer uma obrigação


moral de inibir tais estados de consciência em nós próprios. O que parece
pragmaticamente justo, não apenas para manter a ordem social no sentido
mais amplo, como para permitir que o indivíduo estabeleça e permaneça em
contato humano com outras pessoas (embora se possa renunciar a isso por
períodos mais ou menos longos). É bem conhecido que, quando as pessoas se
aventuram em regiões longínquas da consciência, fazem-no com o risco de sua
sanidade, isto é, de sua humanidade. Mas a “escala humana”, ou o padrão
humanístico próprio à vida e à conduta normais, parece mal colocada quando
se aplica à arte. Ela supersimplifica. Se durante o último século a arte
concebida como uma atividade autônoma chegou a ser investida de uma
estatura sem precedentes – a coisa mais próxima a uma atividade humana
sacramental reconhecida pela sociedade secular – isso se deve a uma das
tarefas que a arte assumiu: a de efetuar incursões e conquistar posições nas
fronteiras da consciência (em geral muito perigosas ao artista como pessoa),
para relatar o que lá encontrou. Sendo um livre explorador dos perigos
espirituais, o artista ganha uma certa permissão para se comportar
diferentemente de outras pessoas; ao igualar a singularidade de sua vocação,
ele pode ou não ser adornado com um estilo de vida de conveniente
excentricidade. Seu ofício é inventar troféus de suas experiências – objetos e
gestos que fascinam e encantam, não meramente edificam e entretêm (como
recomendavam as velhas noções do artista). Seu principal meio de fascinação
é avançar mais um passo na dialética do ultraje. Busca tornar sua obra
repulsiva, obscura, inacessível; em suma, oferecer o que é, ou parece ser, não
desejado. Entretanto, por mais violentos que possam ser os ultrajes que o
artista perpetre a seu público,. suas credenciais e sua autoridade espiritual
dependem, em última instância, da consciência do público (seja algo
conhecido ou inferido) sobre os ultrajes que ele comete contra si mesmo. O
artista moderno exemplar é um corretor da loucura.

A noção da arte como um produto custosamente adquirido através de


um imenso risco espiritual, cujo preço aumenta com o ingresso e a
participação de cada novo jogador na partida, convida a um conjunto revisado
de modelos críticos. A arte produzida sob a égide de tal concepção não é – e
não pode ser – “realista”. Mas expressões como “fantasia” ou “surrealismo”,
que somente invertem a pauta do realismo, pouco esclarecem. A fantasia decai
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demasiado facilmente em “simples” fantasia; o argumento definitivo é o
adjetivo “infantil”. Onde termina a fantasia (condenada por padrões
psiquiátricos e não-artísticos) e onde começa a imaginação?

Como parece pouco provável que os críticos contemporâneos desejem


seriamente excluir as narrativas em prosa de caráter irrealista do domínio da
literatura, somos levados a suspeitar que um padrão especial está sendo
aplicado aos temas sexuais. Isso se torna mais claro quando se pensa em outro
tipo de obra, em outra espécie de “fantasia”. A paisagem irreal e a-histórica
onde a ação é situada, o tempo peculiarmente congelado em que os atos são
desempenhados – esses traços ocorrem com a mesma freqüência na ficção
científica e na pornografia. Não há nada de conclusivo no fato bem conhecido
de que a maioria dos homens e das mulheres não é capaz das proezas sexuais
que as pessoas aparentam desempenhar na pornografia; que o tamanho dos
órgãos, o número e a duração de orgasmos, a variedade e a praticabilidade dos
poderes sexuais, bem como o total de energia sexual são grosseiramente
exagerados. É correto, da mesma maneira, que as naves espaciais e os
incontáveis planetas retratados nos romances de ficção científica também não
existem. O fato de que o espaço da narrativa é um topos ideal não desqualifica
nem a pornografia. nem a ficção científica de sua condição de literatura. Tais
negações do tempo social, do espaço e da personalidade reais, concretos e
tridimensionais (assim como as ampliações “fantásticas” da energia humana)
são precisamente os ingredientes de um outro gênero de literatura, fundado
num modo diverso de consciência.

Os materiais das obras pornográficas tidas como literatura são,


precisamente, uma das formas extremas de consciência humana. Sem dúvida,
muitas pessoas concordariam que a consciência sexualmente obcecada pode,
em princípio, ingressar na literatura como forma de arte. Literatura sobre a
luxúria? Por que não? Mas, em seguida, elas comumente acrescentam uma
cláusula ao acordo, que na prática acaba por anulá-lo. Exigem que o autor
tenha a adequada “distância” de suas obsessões para que possam considerá-las
literatura. Tal padrão é mera hipocrisia, revelando, mais uma vez, que os
valores usualmente aplicados à pornografia são, afinal, os pertencentes à
psiquiatria e aos estudos sociais, mais que à arte. (Desde que a cristandade
elevou a parada e se concentrou no comportamento sexual como a raiz da
virtude, tudo aquilo que pertença a sexo tem sido um “caso especial” em nossa
cultura, provocando atitudes peculiarmente inconsistentes.) As pinturas de
Van Gogh preservam sua condição de obra de arte, embora aparentemente sua
maneira de pintar se devesse menos a uma escolha consciente de meios
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representativos do que a seu ar desordenado, o qual realmente via o mundo da
forma como o pintava. Do mesmo modo, Histoire de l’Oeil não se transforma
num estudo de caso, mas em arte, porque, como revela Bataille no
extraordinário ensaio autobiográfico acrescentado à narrativa, as obsessões do
livro são na verdade as suas próprias.

O que faz de uma obra de pornografia parte da história da arte, ao invés


de pura escória, não é a distância, a superposição de uma consciência mais
conformável à da realidade comum sobre a “consciência desordenada” do
eroticamente obcecado. Em vez disso, é a originalidade, a integridade, a
autenticidade e o poder dessa própria consciência insana, enquanto
corporificada em uma obra. Do ponto de vista da arte, a exclusividade da
consciência incorporada nos livros pornográficos não é, em si mesma, nem
anômala, nem antiliterária.

Tampouco o pretenso objetivo ou resultado, intencional ou não, dessas


obras (excitar o leitor sexualmente) chega a ser um defeito. Somente uma
noção empobrecida e mecanicista de sexo poderia levar alguém a pensar que
ser sexualmente estimulado por um livro como Madame Edwarda é uma
questão simples. A unilateralidade de intenção, com freqüência condenada
pelos críticos, compõe-se, quando a obra merece o tratamento de arte, de
muitas ressonâncias. As sensações físicas involuntariamente produzidas em
alguém que leia a obra carregam consigo algo que se refere ao conjunto das
experiências que o leitor tem de sua humanidade – e de seus limites como
personalidade e como corpo. A singularidade da intenção pornográfica é, na
realidade, espúria. Mas a agressividade da intenção não o é. Aquilo que parece
um fim é, na mesma medida, um meio, assustadora e opressivamente
concreto. O fim, entretanto, é menos concreto. A pornografia é um dos ramos
da literatura – ao lado da ficção científica – voltados para a desorientação e o
deslocamento psíquico.

Em certos aspectos, o uso de obsessões sexuais como tema da literatura


assemelha-se ao uso de um tema literário cuja validade bem poucas pessoas
contestariam: as obsessões religiosas. Assim comparado, o fato conhecido do
impacto definido e agressivo da pornografia sobre seus leitores apresenta-se
um pouco diferente. A sua intenção notória de estimular sexualmente os
leitores é na verdade uma espécie de proselitismo. A pornografia que é
autêntica literatura visa “excitar” da mesma forma que os livros que revelam
uma forma extrema de experiência religiosa têm como propósito “converter”.

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Duas obras francesas recentemente traduzidas para o inglês, História de


(*)
O e A Imagem, ilustram convenientemente alguns aspectos envolvidos neste
tópico, mal investigado na crítica anglo-americana, da pornografia como
literatura.

História de O, de autoria de “Pauline Réage”, surgiu em 1954 e tornou-


se imediatamente famosa, em parte devido ao patrocínio de Jean Paulhan, que
redigiu o prefácio. Passou a ser crença comum que o próprio Paulhan
escrevera a obra – talvez devido ao precedente estabelecido por Bataille, que
contribuíra com um ensaio (assinado com seu verdadeiro nome) ao seu
Madame Edwarda, quando este fora publicado pela primeira vez em 1937, sob
o pseudônimo de “Pierre Angelique”; e também porque o nome Pauline
sugeria Paulhan. Mas ele sempre negou que tivesse escrito História de O,
insistindo que o livro fora na realidade escrito por uma mulher, que nunca
publicara antes e vivia em outra parte da França, preferindo permanecer
desconhecida. Embora a história de Paulhan não tenha eliminado as
especulações, a certeza de que ele era o autor acabou por se desvanecer. Com
o passar dos anos, diversas hipóteses mais engenhosas, que atribuíam a autoria
do livro a outros notáveis do cenário político de Paris, ganharam credibilidade
e logo foram abandonadas. A identidade real de “Pauline Réage” persiste
como um dos raros segredos bem guardados das letras contemporâneas.

A Imagem foi publicado dois anos depois, em 1956, também sob um


pseudônimo, “Jean de Berg”. Para compor o mistério, foi dedicado a “Pauline
Réage” e teve o prefácio escrito por ela, de quem desde então nada se soube.
(O prefácio de “Réage” é conciso e dispensável; o de Paulhan é extenso e
muito interessante.) Mas os comentários nos círculos literários de Paris sobre a
identidade de “Jean de Berg” são mais conclusivos que o trabalho de
investigação sobre “Pauline Réage”. Apenas houve um boato que apontava
para a mulher de um influente jovem romancista e que ganhou ampla
repercussão.

Não é difícil entender por que aqueles com suficiente curiosidade para
especular sobre os dois pseudônimos tiveram de se inclinar para algum nome
da comunidade das letras estabelecida da França. Era pouco concebível que
qualquer dos dois livros fosse o filho único de um amador. Por diferentes que
sejam um do outro, História de O e A Imagem comprovam uma qualidade que
(*)
Trad. bras. de Maria de Lourdes Nogueira Porto, Brasiliense, 1985. (N.T.)
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não pode ser atribuída simplesmente a uma abundância dos dotes literários
comuns da sensibilidade, da energia e da inteligência. Tais dons, bastante em
evidência, foram processados, por sua vez, através de um diálogo de artifícios.
A sóbria autoconsciência das narrativas dificilmente poderia estar mais longe
da ausência de controle e habilidade normalmente consideradas como
expressão da luxúria obsessiva. Intoxicantes como seu tema (caso o leitor não
se desligue e o ache apenas engraçado ou sinistro), as duas narrativas estão
mais preocupadas com o “uso” da matéria-prima erótica do que com a
“expressão” dela. E a sua utilização é preeminentemente – não há outra
palavra para defini-Ia – literária. A imaginação em busca de seus prazeres
ultrajantes em História de O e em A Imagem permanece solidamente ancorada
a certas noções de consumo formal de sentimentos intensos, de procedimentos
para esgotar uma experiência, que se ligam tanto à literatura e à história
literária recente como ao domínio a-histórico de Eros. E por que não? As
experiências não são pornográficas, só as imagens e as representações
(estruturas da imaginação) o são. É esse o motivo por que um livro
pornográfico com freqüência pode fazer o leitor pensar, basicamente, em
outros livros pornográficos, e não no sexo não-mediado – e isso não
necessariamente em detrimento de sua excitação erótica.

Por exemplo, o que ressoa por toda a História de O é um volumoso


corpo, em sua maior parte sem valor, de literatura pornográfica ou “libertina”,
tanto inglesa como francesa, que remonta ao século XVIII. A referência mais
óbvia é a Sade. Mas aqui não devemos pensar apenas nos escritos do próprio
Sade, mas na sua reinterpretação pelos intelectuais literários franceses após a
Segunda Guerra Mundial, um movimento crítico talvez comparável (em sua
importância e influência sobre o gosto literário educado e a direção real da
ficção séria na França) à revalorização de James lançada pouco antes da
Segunda Guerra nos Estados Unidos, exceto pelo fato de que a revalorização
francesa durou mais tempo e parece ter plantado raízes mais profundas. (Sade,
evidentemente, nunca foi esquecido. Foi lido com entusiasmo por Flaubert,
Baudelaire e pela maioria dos outros gênios radicais da literatura francesa de
fins do século XIX. Um dos santos padroeiros do movimento surrealista, Sade
figura com destaque no pensamento de Breton. No entanto seria a discussão
sobre ele, após 1945, que realmente consolidaria sua posição como um
inesgotável ponto de partida para o pensamento radical sobre a condição
humana. O conhecido ensaio de Beauvoir, a extensa biografia erudita
empreendida por Gilbert Lely e escritos ainda hoje não traduzidos de
Blanchot, Paulhan, Bataille, Klossowski e Leiris são os documentos mais

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Susan Sontag – A Imaginação Pornográfica
eminentes da revalorização do pós-guerra, que assegurou essa modificação
surpreendentemente vigorosa da sensibilidade literária francesa. A qualidade e
a densidade teórica do interesse francês por Sade permanece virtualmente
incompreensível para os intelectuais ingleses e norte-americanos, para os
quais Sade é talvez uma figura exemplar na história da psicopatologia, tanto
individual como social, porém é-lhes inconcebível levá-lo a sério como
“pensador”.)

Mas o que está por trás de História de O não é somente Sade, os


problemas que levantou e os que foram suscitados em seu nome. O livro
também lança raízes nas convenções dos livretos “libertinos” escritos na
França do século XIX, tipicamente situados em uma Inglaterra fantasiosa,
habitada por aristocratas brutais com enormes equipamentos sexuais e gostos
violentos, a ser saciados ao longo do eixo do sadomasoquismo. O nome do
segundo amante-proprietário de O, Sir Stephen, presta clara homenagem à
fantasia desse período, assim como a figura de Sir Edmond de Histoire de
l’Oeil. Além disso, deve-se acrescentar que a alusão a um tipo banal de
escória pornográfica situa-se, enquanto referência literária, exatamente no
mesmo nível que o cenário anacrônico da ação principal, que é buscada
diretamente do teatro sexual de Sade. A narrativa abre-se em Paris (O vai ao
encontro de seu amante René, em uma carruagem, e é levada a um passeio),
mas a maior parte da ação subseqüente transfere-se a um terreno mais
familiar, se bem que menos plausível: o castelo convenientemente isolado,
com suntuosa mobília e profusão de serviçais, onde um grupo de homens ricos
se reúne e para onde são trazidas mulheres virtualmente escravas a fim de se
tornarem os objetos, partilhados em comum, da lascívia brutal e inventiva do
grupo. Há chicotes e correntes, máscaras vestidas pelos homens quando as
mulheres são admitidas em sua presença, achas queimando na lareira,
indignidades sexuais indizíveis, chicoteamentos e formas mais engenhosas de
mutilação física, diversas cenas de lesbianismo quando a excitação das orgias
parece esmorecer. Em resumo, o livro se apresenta munido de alguns dos itens
mais frágeis do repertório da pornografia.

Até onde é possível considerá-lo seriamente? Um simples inventário do


enredo poderia dar a impressão de que História de O não é tanto pornografia
mas meta-pornografia, uma paródia brilhante. Algo parecido foi alegado em
defesa de Candy quando este foi publicado aqui vários anos atrás, após um
período de modesta existência em Paris como um livro “sujo” mais ou menos
oficial. Candy não era pornografia, argumentou-se, mas uma brincadeira, uma
espirituosa caricatura dos usos da narrativa pornográfica barata. Em minha
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Susan Sontag – A Imaginação Pornográfica
própria visão, Candy pode ser engraçado, contudo ainda é pornografia, pois
esta é uma forma capaz de parodiar a si mesma. É da natureza da imaginação
pornográfica preferir convenções acabadas de personagens, cenário e ação. A
pornografia é um teatro de tipos, não de indivíduos. Uma paródia da
pornografia, na medida em que tenha real competência, continua a ser
pornografia. Na verdade, ela é uma forma comum dos textos pornográficos.
Sade a utilizou, com freqüência, invertendo as ficções moralistas de
Richardson, em que a virtude feminina sempre triunfa sobre a lubricidade
masculina (seja dizendo “não” ou morrendo em seguida). No caso de História
de O, seria mais preciso falar de uma “utilização” que de uma paródia de
Sade.

O próprio tom de História de O indica que qualquer elemento no livro


que possa ser lido como paródia ou gosto por antiguidades (uma pornografia
da mandarins?) é apenas um entre vários elementos que formam a narrativa.
(Embora sejam graficamente escritas situações sexuais que abrangem todas as
variações previsíveis de luxúria, o estilo narrativo é bastante formal, o nível de
linguagem digno e quase casto.) Traços da encenação sadeana são usados para
aguçar a ação, mas a linha básica da narrativa difere no fundamental de tudo o
que Sade escreveu. Em primeiro lugar, a obra de Sade apresenta uma
ilimitabilidade ou princípio de insaciabilidade inerentes. Seu Os 120 Dias de
Sodoma, provavelmente o livro pornográfico mais ambicioso até hoje
concebido (em termos de escala) é uma espécie de suma da imaginação
pornográfica; impressionante e desconcertante, mesmo na forma truncada, em
parte narrativa e em parte cenário, em que sobreviveu. (O manuscrito foi, por
acaso, resgatado da Bastilha após Sade ter sido forçado a deixá-lo para trás,
quando o transferiram em 1798 para Charenton; todavia ele acreditou, até a
morte, que sua obra-prima se perdera quando a prisão foi destruída.) O trem
expresso das imagens sadeanas voa sobre um trilho interminável mas
horizontal. Suas descrições são demasiado esquemáticas para serem sensuais.
Em vez disso, as ações ficcionais são ilustrações de suas idéias
incansavelmente repetidas. Entretanto essas próprias idéias polêmicas, num
exame refletido, sugerem mais princípios de uma dramaturgia do que uma
teoria substantiva. As idéias de Sade (da pessoa como “coisa” ou “objeto”, do
corpo como máquina e da orgia como um inventário das possibilidades
esperançosas e infinitas de várias máquinas em colaboração umas com as
outras) parecem, no básico, destinadas à tornar possível um gênero infindável
e jamais culminante de atividade extremamente desprovida de afeto. Em
contraste, História de O tem um movimento definido, uma lógica de

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Susan Sontag – A Imaginação Pornográfica
acontecimentos, em contraposição ao princípio sadeano estático do catálogo
ou da enciclopédia. Tal movimento da trama é favorecido em muito pelo fato
de que, na maior parte da narrativa, o autor tolera pelo menos um vestígio do
“casal” (O e Renê, O e Sir Stephen) – uma unidade em geral repudiada na
literatura pornográfica.

E, sem dúvida, a figura de O é, ela mesma, diferente. Seus sentimentos,


por mais que se voltem para um tema, apresentam alguma modulação e são
descritos com minúcia. Embora passiva, O dificilmente se assemelha àquelas
nulidades das histórias de Sade, que são detidas em castelos remotos para
serem atormentadas por nobres impiedosos e padres satânicos. Além disso, O
é também mostrada como ativa: literalmente ativa, como na sedução de
Jacqueline, e mais importante, profundamente ativa em sua própria
passividade. Ela se parece com seus protótipos sadeanos apenas na superfície.
Não existe consciência pessoal, exceto a do autor, nos livros de Sade. Mas O
de fato possui uma consciência, de cujo ponto de observação sua história é
narrada. (Mesmo escrita na terceira pessoa, a narrativa nunca se afasta do
ponto de vista de O ou sabe mais do que ela.) Sade visa neutralizar a
sexualidade de todas as suas associações pessoais, representar uma espécie de
encontro sexual impessoal – ou puro. Mas o relato de “Pauline Réage” mostra
O agindo de formas bastante diferentes (inclusive no amor) com

diferentes pessoas, notadamente com Renê, Sir Stephen, Jacqueline e


Anne-Marie.

Sade parece mais representativo dos principais usos da escritura


pornográfica. Na medida em que a imaginação pornográfica tende a tornar
cada pessoa intercambiável com outra e todas as pes soas intercambiáveis com
coisas, não é funcional descrever uma pessoa da forma como O é descrita –
em termos de um certo estado de sua vontade (da qual ela está tentando se
descartar) e de seu entendimento. A pornografia é principalmente habitada por
criaturas como a Justine de Sade, desprovidas de vontade e de inteligência e
mesmo, aparentemente, de memória. Justine vive em um perpétuo estado de
estupefação, jamais aprendendo alguma coisa das violações admiravelmente
repetidas de sua inocência. Depois de cada nova traição, ela permanece a
postos para um outro round, tão pouco instruída por sua experiência como
sempre, pronta a confiar no próximo libertino dominador e a ter sua confiança
recompensada por uma renovada perda de liberdade, pelas mesmas
indignidades e pelos mesmos sermões blasfemos em louvor do vício.

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Susan Sontag – A Imaginação Pornográfica
Em sua maior parte, as figuras que desempenham o papel de objetos
sexuais na pornografia são feitas da mesma massa que um “cômico” principal
de uma comédia. Justine é como Cândido, que

é também uma nulidade, um zero, um eterno inocente incapaz de


aprender qualquer coisa de suas atrozes provações. A estrutura usual da
comédia, que apresenta uma personagem como um centro imóvel em meio ao
ultraje (Buster Keaton é A Imagem clássica), brota repetidamente na
pornografia. Suas personagens, como as da comédia, são vistas somente do
exterior, a partir de seu comportamento. Por definição, não podem ser
observadas em profundidade, de modo tão verídico que envolva os
sentimentos do público. Na maioria das comédias, a graça reside precisamente
na disparidade entre o sentimento atenuado ou anestesiado e um
acontecimento ultrajante. A pornografia opera de uma maneira semelhante. O
resultado produzido por um tom inexpressivo, pelo que aparece ao leitor em
um estado mental comum como a inacreditável sub-reação dos agentes
eróticos às situações em que são situados, não é a liberação da risada. Em vez
disso, é a liberação da reação sexual, originalmente voyeurista, mas que, é
provável, necessita ser assegurada por uma identificação direta subjacente
com um dos partici

pantes do ato sexual. A insipidez emocional da pornografia não


constitui, portanto, nem uma falência de talento artístico, nem um indicio de
desumanidade básica. O estímulo de uma resposta sexual no leitor exige isso.
Apenas na ausência de emoções diretamente afirmadas pode o leitor de
pornografia encontrar espaço.para suas próprias respostas. Quando o fato
narrado já vem revestido com os sentimentos explicitamente declarados do
autor, pelos quais o leitor pode ser despertado, torna-se então mais difícil ser
estimulado pelo próprio fato.(*)

Isso fica muito claro no caso das obras de Genet, que, apesar do caráter
(*)

explicito das experiências sexuais relatadas, não são sexualmente excitantes,


para a maior parte dos leitores. O que o leitor percebe (e Genet o afirmou em
várias ocasiões) é que o próprio autor estava sexualmente excitado enquanto
escrevia O Milagre da Rosa, Nossa Senhora das Flores etc. O leitor mantém
um contato intenso e perturbador com a excitação erótica de Genet, que é a
força motriz dessas narrativas eivadas de metáforas; mas, ao mesmo tempo, a
excitação do autor impede a do leitor. Genet está perfeitamente certo quando
afirma que seus livros não são pornográficos.
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Susan Sontag – A Imaginação Pornográfica
A comédia do cinema mudo oferece muitos exemplos de como o
princípio formal da agitação constante ou do moto-contínuo (as comédias-
pastelão) e o do sujeito inexpressivo convergem realmente para o mesmo fim
– um amortecimento, uma neutralização ou um distanciamento das emoções
do público, de sua capacidade de se identificar em uma forma “humana” e de
efetuar juízos morais sobre situações de violência. O mesmo princípio está em
operação em toda pornografia. Isso não significa que as personagens na
pornografia não possam de forma concebível possuir quaisquer emoções. Elas
podem. Mas os princípios de sub-reação e de agitação frenética tornam o
clima emocional auto-anulador, de modo que o tom básico da pornografia é a
ausência de sentimentos e de emoções.

Entretanto, é possível distinguir alguns graus dessa falta de sentimentos.


Justine é o estereótipo do objeto sexual (invariavelmente feminino, uma vez
que a maior parte da pornografia é escrita por homens, ou a partir do ponto de
vista masculino estereotipado): uma vítima perplexa cuja consciência
permanece inalterada por suas experiências. Porém O é uma conhecedora; seja
qual for o preço, a dor e o medo, é grata pela oportunidade de ser iniciada no

mistério, que é a perda do eu. O aprende, sofre, modifica-se. Passo a


passo, torna-se cada vez mais o que é, um processo idêntico ao esvaziamento
de si própria. Na visão de mundo apresentada por História de O, o bem mais
elevado é a transcendência da personalidade. O movimento da trama não é
horizontal, mas uma espécie de ascensão através da degradação. O não
somente passa a ser idêntica a sua disponibilidade sexual, como deseja atingir
a perfeição de se transformar num objeto. Sua condição, se pode ser
caracterizada como de desumanização, não deve ser entendida como um
subproduto de sua escravidão a Renê, a Sir Stephen e ao outro homem em
Roissy, mas como o ponto principal de sua situação, algo que ela busca e por
fim alcança. A Imagem final de sua realização aparece na última cena do livro:
O é levada a uma festa, mutilada, acorrentada, irreconhecível, fantasiada
(como uma coruja) – tão convincentemente desumanizada, que nenhum dos
convidados pensa em se dirigir a ela de modo direto.

A busca de O resume-se, com concisão, na expressiva letra que lhe


serve de nome. “O” sugere uma caricatura de seu sexo, não de seu sexo
individual mas simplesmente da mulher, e também equivale a nada. Contudo o
que História de O revela é um paradoxo espiritual, o do vazio preenchido e da

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Susan Sontag – A Imaginação Pornográfica
vacuidade que é também um plenum. A força do livro repousa exatamente na
angústia despertada pela presença contínua desse paradoxo. “Pauline Réage”
levanta, de um modo muito mais orgânico e sofisticado que o realizado por
Sade, com suas desgraciosas exposições e discursos, o problema da condição
da própria personalidade humana. Todavia, enquanto Sade interessa-se pela
eliminação da personalidade – do ponto de vista do poder e da liberdade –, o
autor de História de O preocupa-se com a eliminação da personalidade – do
ponto de vista da felicidade. (A afirmação mais próxima desse tema na
literatura inglesa: certas passagens de The Lost Girl, de Lawrence.)

Entretanto, para que o paradoxo ganhe real significado, o leitor deve


compartilhar de uma certa visão de sexo, diferente da que é sustentada pelos
membros mais iluminados da comunidade. A vi são dominante – um
amálgama de idéias rousseaunianas, freudianas e do pensamento social liberal
– enfoca o fenômeno do sexo como uma fonte perfeitamente inteligível,
embora de grande valor, para o prazer físico e emocional. As dificuldades que
possam advir originam-se da longa deformação dos impulsos sexuais
administra da pela cristandade ocidental, cujos danos mais graves quase todos,
nessa cultura, carregam. Em primeiro lugar, a culpa e a ansiedade. Em
seguida, a redução das capacidades sexuais – conduzindo, se não à virtual
impotência ou à frigidez, pelo menos à exaustão da energia erótica e à
repressão de muitos elementos naturais do apetite sexual (as “perversões”).
Além disso, o transbordamento nas indiscrições públicas, em que as pessoas
tendem a responder a notícias sobre os prazeres sexuais de outros com inveja,
fascinação, repulsa e indignação rancorosa. É dessa contaminação da saúde
sexual da cultura que se origina um fenômeno como a pornografia.

Não pretendo polemizar com o diagnóstico histórico contido nesse


relato das deformações da sexualidade ocidental. Não obstante, o que me
parece decisivo no complexo de visões sustentado pela maioria dos membros
educados da comunidade é um pressuposto mais questionável: o de que o
apetite sexual humano é, quando não-pervertido, uma função natural
agradável; e o de que “o obsceno” é uma convenção, a ficção imposta sobre a
natureza por uma sociedade convicta de que há algo de vil nas funções sexuais
e, por extensão, no prazer sexual. São justamente tais pressupostos que são
questionados pela tradição francesa representada por Sade, Lautréamont,
Bataille e os autores de História de O e A Imagem. Seus trabalhos sugerem
que “o obsceno” é uma noção primal do conhecimento humano, algo muito
mais profundo que a repercussão de uma aversão doentia da sociedade ao
corpo. A sexualidade humana é, à parte as expressões cristãs, um fenômeno
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Susan Sontag – A Imaginação Pornográfica
altamente controverso e pertence, ao menos em potencial, mais às
experiências humanas extremas que às comuns. Por domesticada que possa
ser, a sexualidade permanece como uma das forças demoníacas na consciência
do homem – impelindo-nos, de quando em quando, para perto de proibições e
desejos perigosos, que abrangem do impulso de cometer uma súbita violência
arbitrária contra outra pessoa ao anseio voluptuoso de extinção da consciência,
à ânsia da própria morte. Mesmo no nível das simples sensação e disposição
físicas, o ato sexual com certeza assemelha-se a ter um ataque epilético, pelo
menos na mesma medida, se não mais, que comer uma refeição ou conversar
com uma pessoa. Todo indivíduo sentiu (no mínimo na imaginação) o fascínio
erótico da crueldade física e uma atração erótica em coisas vis e repulsivas.
Tais fenômenos fazem parte do espectro genuíno da sexualidade, e, se não
devem ser descritos como meras aberrações neuróticas, o retrato parece
diferente do que é incentivado pela opinião pública esclarecida, bem como
menos simples.

Seria possível defender plausivelmente que são razões bastante


saudáveis as quais fazem a capacidade total para o êxtase no sexo ser
inacessível para á maioria das pessoas – pois a sexualidade parece ser algo,
como a energia nuclear, que se pode provar passível de domesticação para, em
seguida, revelar o contrário. O fato de que poucas pessoas tenham
regularmente, ou tenham alguma vez, experimentado suas capacidades sexuais
a esse nível perturbador não significa que o extremo não é autêntico ou que a
possibilidade jamais as assediou. (Depois do sexo, é provável que a religião
seja o segundo recurso mais antigo disponível aos seres humanos para ampliar
sua consciência. Todavia, entre as multidões de fiéis, o número dos que se
aventuraram muito longe através desse estado de mente também deve ser
consideravelmente limitado.) Existe, e pode-se demonstrar, alguma coisa
esboçada com imperfeição e com potencial desorientador na capacidade
sexual humana – pelo menos no que diz respeito à civilização. O homem,
animal doentio, traz consigo um apetite que pode levá-lo à loucura. Essa é a
compreensão de sexualidade (como algo além do bem e do mal, do amor, da
sanidade; como um recurso para a provação e o rompimento dos limites da
consciência) que informa o cânone da literatura francesa que venho
analisando.

História de O, com seu projeto de transcender por completo a


personalidade, pressupõe integralmente essa visão negra e complexa da
sexualidade, tão afastada da visão esperançosa esposada pelo freudianismo
americano e pela cultura liberal. A mulher a quem não é dado outro nome que
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Susan Sontag – A Imaginação Pornográfica
O progride simultaneamente rumo a sua própria extinção como ser humano e à
sua satisfação como ser sexual. É difícil imaginar como alguém poderia
afirmar se existe ou não, de modo real ou empírico, qualquer coisa na
“natureza” ou na consciência humana que suporte essa divisão. Mas parece
compreensível que a possibilidade sempre perseguiu o homem, por mais
acostumado que esteja a execrar tal cisão.

O projeto de O sanciona, em outra escala, aquele que se personifica na


existência da própria literatura pornográfica. O que a literatura pornográfica
faz é justamente estabelecer uma cunha entre a existência de uma pessoa
enquanto ser humano completo e sua existência como ser sexual – enquanto
na vida comum uma pessoa saudável é aquela que impede que tal lacuna se
amplie. É normal nós não experimentarmos, pelo menos não querermos
experimentar, nossa satisfação sexual como distinta de, ou oposta a, nossa
satisfação pessoal. Mas talvez em parte elas sejam distintas, quer queiramos
ou não. Na medida em que o sentimento sexual poderoso efetivamente
envolve um grau obsessivo de atenção, ele inclui experiências nas quais uma
pessoa pode sentir que está perdendo seu “eu”. A literatura que vai de Sade a
essas obras recentes, passando pelo surrealismo, capitaliza esse mistério, isola-
o e faz o leitor percebê-lo, convidando-o a participar dele.

Tal literatura é ao mesmo tempo uma invocação do erótico em seu


sentido mais sombrio e, em certos casos, um exorcismo. O ânimo reverente e
solene de História de O é convenientemente invariável; por sua vez, uma obra
de estados de espírito misturados no mesmo tema, uma jornada rumo à
alienação do eu diante do próprio eu, é o filme de Bufluel, L’Age d’Or.
Enquanto forma literária, a pornografia opera com dois modelos: um
equivalente à tragédia (como em História de O), em que o sujeito-vitima
avança inexoravelmente no sentido da morte, e o outro equivalente à comédia
(como em A Imagem), no qual a busca obsessiva do exercício sexual é
recompensada por uma gratificação terminal, a união com o parceiro sexual
desejado de maneira inigualável.

Mais que qualquer outro, Bataille é o autor que apresenta um sentido


negro do erótico, de seus perigos de fascinação e humilhação. Histoire de
l’Oeil (publicado pela primeira vez em 1928) e Madame Edwarda(*)
Infelizmente, a única tradução disponível em inglês do que simula ser
(*)

Madame Edwarda, a que está incluída em The Olympia Reader (Grove Press,
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Susan Sontag – A Imaginação Pornográfica
qualificam-se como textos pornográficos até onde seu tema é uma busca
sexual exclusiva que aniquila toda consideração das pessoas estranhas a seus
papéis na dramaturgia sexual, e na medida em que tal busca é descrita
graficamente. Mas essa descrição não transmite a extraordinária qualidade
desses livros. A simples explicitação dos órgãos e atos sexuais não é
necessariamente obscena; apenas passa a sê-lo quando é realizada em um tom
particular, quando adquiriu uma certa ressonância moral. Ocorre que o número
esparso de atos sexuais e profanações semi-sexuais relatados nas novelas de
Bataille dificilmente pode competir com a interminável inventividade
mecanicista de Os 120 Dias de Sodoma. Todavia, em virtude de Bataille
possuir um sentido mais fino e profundo de transgressão, o que ele descreve
parece de certa forma mais forte e ultrajante que as mais lascivas orgias
encenadas por Sade.

Uma das razões pela qual Histoire de l’Oeil e Madame Edwarda


causam impressão tão poderosa e desconcertante é o fato de Bataille entender,
com mais clareza do que qualquer outro escritor, que o tema da pornografia
não é, em última instância, o sexo, mas a morte. Não pretendo dizer que toda
obra pornográfica fale, de forma aberta ou velada, da morte. Somente as obras
que enfrentam essa inflexão específica e mais aguda dos temas da lúxuria, do
“obsceno”, é que o fazem. É para as gratificações da morte, sucedendo e
ultrapassando as de Eros, que toda busca verdadeiramente obscena se dirige.
(Um exemplo de obra pornográfica cujo tema não é o “obsceno”: Trois Filles
de leur Mère, a alegre saga de insaciabilidade sexual de Louys. A Imagem
representa um exemplo menos nítido. Embora as transações enigmáticas entre
as três personagens sejam portadoras de um senso do obsceno – mais como
uma premonição, uma vez que o obsceno é reduzido a apenas uma parte
constituinte do voyeurismo –, o livro tem um inequívoco final feliz, com o
narrador finalmente unido a Claire. Mas História de O toma a mesma linha de
Bataille, apesar de um pequeno jogo intelectual no fim: o livro termina de
modo ambíguo, com diversas linhas destinadas a mostrar que existiam duas
versões de um último capítulo, em uma das quais O recebia a permissão de Sir
Stephen para morrer, quando ele estava prestes a descartar-se dela. Ainda que
esse duplo final repita satisfatoriamente a abertura do livro, em que duas
versões “do mesmo começo” são oferecidas, não é capaz, segundo penso, de

1965. pp; 662-72), apenas apresenta metade da obra. Somente o récit foi
traduzido. Contudo Madame Edwarda não é um récit recheado com um
prefácio também de autoria de Bataille. É uma criação em duas partes - ensaio
e récit - e cada uma delas é quase ininteligível sem a outra.
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Susan Sontag – A Imaginação Pornográfica
diminuir a sensação do leitor de que está fadada à morte, sejam quais forem as
dúvidas que o autor expresse sobre sua sina.)

Bataille compôs a maioria de seus livros, a música de câmara da


literatura pornográfica, na forma de recital (às vezes acompanhado por um
ensaio). O tema unificador é sua própria consciência, uma mente em agudo e
implacável estado de agonia; no entanto, na mesma medida em que uma
mente igualmente extraordinária em uma época anterior poderia ter escrito
uma teologia da agonia, Bataille escreveu uma erótica da agonia. Pretendendo
relatar alguma coisa sobre as fontes autobiográficas de suas narrativas, ele
acrescentou a Histoire de l’Oeil várias imagens vívidas extraídas de sua
própria infância insultuosamente terrível. (Uma lembrança: seu pai, cego,
sifilítico e demente, procurando urinar sem consegui-lo.) O tempo, explica,
neutralizou essas lembranças; depois de muitos anos, elas perderam
grandemente o poder que tinham e “somente podem vir à luz outra vez de
modo deformado, dificilmente reconhecível, tendo, no curso dessa
deformação, assumido um significado obsceno”. A obscenidade, para Bataille,
revive com simultaneidade suas experiências mais dolorosas e marca uma
vitória sobre aquela dor. O obsceno, isto é, a extremidade da experiência
erótica, é a raiz de energias vitais. Os seres humanos, diz ele no ensaio que
acompanha Madame Edwarda, vive apenas através do excesso. E o prazer
depende da “perspectiva”, ou do entregar-se a um estado de “ser aberto”,
aberto à morte bem como à alegria. A maioria das pessoas procura sobrepujar
seus próprios sentimentos; pretende ser receptiva ao prazer mantendo o
“horror” à distância. Isso é tolice, de acordo com Bataille, uma vez que o
horror reforça a “atração” e excita o desejo.

Aquilo que Bataille expõe na experiência erótica extrema é sua conexão


subterrânea com a morte. Ele não transmite essa visão urdindo atos sexuais
cujas conseqüências são mortíferas, espalhando corpos por suas narrativas.
(Na terrível Histoire de l’Oeil, por exemplo, apenas uma pessoa morre; e o
livro termina com os três aventureiros sexuais, após se entregarem à orgia em
seu caminho através da França e Espanha, adquirindo um iate em Gibraltar
para continuar suas infâmias em outras partes.) Seu método mais eficaz é
investir cada ação com um peso, uma gravidade perturbadora, que parece
autenticamente “mortal”.

Todavia, a despeito das óbvias diferenças de escala e elegância de


execução, as concepções de Sade e Bataille guardam algumas semelhanças.
Como Bataille, Sade não era tanto um sensorialista, mas alguém com um
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Susan Sontag – A Imaginação Pornográfica
projeto intelectual: explorar o âmbito da transgressão. E compartilha com
Bataille a mesma identificação última de sexo e morte. Mas Sade jamais podia
ter concordado com Bataille em que “a verdade do erotismo é trágica”. As
pessoas muitas vezes morrem nos livros de Sade, porém tais mortes sempre
parecem irreais. Elas não são mais convincentes do que as mutilações
infligidas durante as orgias noturnas, das quais as vítimas se recuperam por
completo na manhã seguinte após usarem um bálsamo milagroso. Da
perspectiva de Bataille, um leitor não pode evitar ser pego de surpresa pela
inverossimilhança de Sade sobre a morte. (Por certo, vários livros
pornográficos muito menos interessantes e acabados que os de Sade partilham
desse traço.)

Na verdade, seria possível especular que a fatigante repetitividade dos


livros de Sade é a conseqüência de sua incapacidade imaginativa para
confrontar a meta inevitável, ou o paraíso, de uma aventura realmente
sistemática da imaginação pornográfica. A morte é o único fim para a odisséia
da imaginação pornográfica quando ela se torna sistemática; vale dizer,
quando ela se centra nos prazeres da transgressão, e não no mero prazer.
Como não chega, ou não podia chegar a seu fim, Sade protela: multiplica e
aumenta sua narrativa; reduplica tediosamente as permutas e combinações
orgiásticas. E seus alter-egos ficcionais interrompem com regularidade um
turno de estupro ou sodomia para expor às vítimas suas últimas reelaborações
de extensas cantilenas sobre o significado real do “lluminismo” – sobre a
desagradável verdade quanto a Deus, à natureza, à sociedade, à
individualidade e à virtude. Bataille procura evitar qualquer coisa que se
assemelhe aos contra-idealismos, que são as blasfêmias de Sade (e que, assim,
perpetuam o banido idealismo por trás dessas fantasias); suas blasfêmias são
autônomas.

Os livros de Sade, dramas musicais wagnerianos da literatura


pornográfica, não são sutis ou compactos. Bataille atinge seus efeitos com
meios muito mais econômicos: um conjunto de câmara de personagens não-
intercambiáveis, ao invés da multiplicação operística de virtuoses sexuais e
vítimas da profissão, oferecida por Sade. Bataille apresenta suas negativas
radicais por meio da extrema concisão. O ganho, aparente em cada página,
habilita sua magra obra e seu pensamento gnômico a ir mais longe que os de
Sade. Mesmo na pornografia, menos pode ser mais.

Bataille também ofereceu soluções distintamente originais e efetivas a


um problema perene da narrativa pornográfica: a finalização. O procedimento
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Susan Sontag – A Imaginação Pornográfica
mais comum tem sido concluir de um modo que não frustre qualquer
necessidade interna. Assim, Adorno podia considerar como a marca
característica da pornografia o fato de esta não ter nem começo, nem meio,
nem fim: mas não é tudo. As narrativas pornográficas tem efetivamente um
término: sempre abrupto e, pelos padrões tradicionais do romance, imotivado.
Isso não é necessariamente digno de objeção. (A descoberta, a meio caminho,
em um romance de ficção científica, de um planeta alienígena pode ser
igualmente abrupta e desmotivada.) O caráter abrupto, uma realidade
endêmica dos encontros, bem como dos encontros renovados de maneira
crônica, não é algum defeito da narração pornográfica que se poderia desejar
remover para que as obras se qualificassem como literatura. Esses traços são
constitutivos da própria imaginação ou visão de mundo intrínseca à
pornografia, e suprem, em muitos casos, exatamente o final que é necessário.

Mas isso não exclui outros tipos de finais. Um traço notável de Histoire
de l’Oeil e, em menor medida, de A Imagem, consideradas obras de arte, é seu
evidente interesse em gêneros mais sistemá ticos ou rigorosos de finais, que
ainda continuam no âmbito da imaginação pornográfica – não seduzidos pelas
soluções de uma ficção mais realista ou menos abstrata. Sua solução, tomada
de maneira genérica, é construir uma narrativa que, desde o início, apresenta
um controle mais rigoroso, tornando-se menos espontânea e prodigamente
descritiva.

Em A Imagem, a narrativa é dominada por uma metáfora única, “A


Imagem” (ainda que o leitor não se veja capaz de compreender todo o
significado do título antes do fim do romance). No início, a metáfora denota
ter uma nítida aplicação singular. “Imagem” parece significar objeto “plano”,
ou “superficie bidimensional”, ou “reflexo passivo” – tudo isso em referência
à moça Anne, a qual Claire instruiu o narrador a usar livremente para seus
propósitos sexuais, transformando-a em “uma perfeita escrava”. Mas a
narrativa é interrompida exatamente na metade (na “Parte V”, num livro
pequeno, de dez partes) por uma cena enigmática que introduz um outro
sentido de “imagem”. Claire, sozinha com o narrador, mostra-lhe uma série de
estranhas fotografias de Anne em situações obscenas; e essas são descritas de
forma a insinuar um mistério naquilo que havia sido uma situação brutal e
direta, embora sem motivação aparente. A partir dessa censura, até o final do
livro, o leitor terá de simultanemante carregar o conhecimento da situação
“obscena” ficcionalmente real sendo descrita e manter-se atento às pistas de
uma reflexão ou duplicação oblíqua daquela situação. Essa carga (as duas
perspectivas) será aliviada apenas nas últimas páginas, quando, como propõe o
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Susan Sontag – A Imaginação Pornográfica
título da parte final, “Tudo se Resolve”. O narrador descobre que Anne não é
o joguete erótico de Claire doado gratuitamente a ele, mas a “imagem” ou
“projeção” de Claire, enviada antecipadamente para ensinar-lhe como amá-la.

A estrutura de Histoire de l’Oeil é igualmente rigorosa e de alcance


mais ambicioso. Ambos os romance estão na primeira pessoa; nos dois, o
narrador é masculino e constitui um dos lados de um triângulo cujas inter-
relações sexuais configuram a história do livro. No entanto as duas narrativas
são organizadas sobre princípios muito diferentes. “Jean de Berg” descreve
como chega a ser conhecida uma coisa que até então o narrador não conhecia;
todas as partes da ação são indícios, fragmentos de evidência, e o final é uma
surpresa. Bataille está descrevendo uma ação que é na realidade intrapsíquica:
três pessoas que compartilham (sem conflitos) uma única fantasia, a
representação de uma vontade perversa coletiva. Em A Imagem, a ênfase recai
no comportamento, que é opaco, ininteligível. Em História de POed, a ênfase
está antes de tudo na fantasia e, em seguida, em sua correlação com algum ato
espontaneamente “inventado”. O desenvolvimento da narrativa segue as fases
da representação. Bataille traça os estágios da gratificação de uma obsessão
erótica que assalta inúmeros objetos comuns. Seu princípio de organização é,
portanto, espacial: uma série de coisas, arranjadas numa seqüência definida, é
capturada e explorada, em algum ato erótico convulsivo. A manipulação
obscena ou a profanação de tais objetos, e das pessoas em suas proximidades,
constitui a ação da novela. Quando o último objeto (o olho) é utilizado em
uma transgressão mais ousada que todas as precedentes, a narrativa termina.
Não pode haver nenhuma revelação ou surpresa na história, nenhum
“conhecimento” novo, apenas intensificações complementares do que já é
conhecido. Esses elementos, à primeira vista não-relacionados, estão na
verdade vinculados; na verdade, são todos versões de uma mesma coisa. O
ovo no primeiro capítulo é simplesmente a versão mais antiga do globo ocular
roubado do espanhol no último.

Cada fantasia erótica específica é também uma fantasia geral (de


desempenhar o que é “proibido”) que gera uma atmosfera excedente de
cruciante e infatigável intensidade sexual. Em certos momentos, o leitor
parece ser testemunha de uma impiedosa satisfação orgiástica; em outros,
parece apenas estar na presença da progressão sem remorsos do negativo. As
obras de Bataille, melhor que quaisquer outras que conheço, indicam as
possibilidades estéticas da pornografia como uma forma de arte: Histoire de
l’Oeil, como a mais artisticamente bem-acabada de todas as ficções

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Susan Sontag – A Imaginação Pornográfica
pornográficas em prosa que já li, e Madame Edwarda, como a mais original e
poderosa do ponto de vista intelectual.

Falar das possibilidades estéticas da pornografia como forma de arte e


uma forma de pensamento pode parecer insensato ou afetado quando se
considera que vidas marcadamente miseráveis levam as pessoas com uma
obsessão sexual especializada full-time. Contudo, eu argumentaria que a
pornografia oferece algo mais que as verdades de pesadelo individual. Por
convulsiva e repetitiva que essa forma de imaginação possa ser, gera sem
dúvida uma visão de mundo capaz de reivindicar o interesse (especulativo,
estético) de gente não-erotômana. Na verdade, tal interesse reside naquilo que
é habitualmente desconsiderado como os limites do pensamento pornográfico.

As características proeminentes de todos os produtos da imaginação


pornográfica são a sua energia e o seu absolutismo.

Os livros denominados pornográficos em geral são aqueles cuja


preocupação primária, exclusiva e tirânica é com a descrição de “intenções” e
“atividades” sexuais. Talvez também se pudesse dizer “sentimentos” sexuais,
se a palavra não parecesse redundante. Os sentimentos das personagens
apresentados pela imaginação pornográfica apresentam-se, em qualquer
momento dado, ou idênticos a seu “comportamento”, ou uma fase
preparatória, a da “intenção”, prestes a passar ao “comportamento”, a menos
que seja fisicamente frustrada. A pornografia usa um tosco e reduzido
vocabulário de sentimentos, sempre relacionado às perspectivas de ação:
sentimento que se gostaria de pôr em ação (luxúria), sentimento que não se
gostaria de pôr em ação (vergonha, medo, aversão). Não existem sentimentos
gratuitos ou não-funcionais, não há devaneios, especulativos ou imagísticos,
que sejam irrelevantes ao assunto em questão. Assim, a imaginação
pornográfica habita um universo que é, por mais repetitivos os incidentes que
ocorrem em seu interior, incomparavelmente econômico. Aplica-se o critério
de relevância mais estrito possível: tudo deve apontar para a situação erótica.

O universo proposto pela imaginação pornográfica é um universo total.


Tem o poder de ingerir, metamorforsear e traduzir todas as preocupações com
que é alimentado, convertendo tudo à única moeda negociável do imperativo
erótico. Toda ação é concebida como uma série de intercâmbios sexuais. De
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Susan Sontag – A Imaginação Pornográfica
tal modo, a razão pela qual a pornografia se recusa a fazer distinções fixas
entre os sexos, ou a permitir que qualquer gênero de preferência ou proibição
sexual permaneça, pode ser explicada “estruturalmente”. A bissexualidade, o
desrespeito pelo tabu do incesto e outros traços similares comuns às narrativas
pornográficas funcionam para multiplicar as possibilidades de troca. No plano
ideal, seria possível a toda pessoa manter relação sexual com qualquer outra.

Por certo, a imaginação pornográfica não pode ser vista como a única
forma de consciência que propõe um universo total. Uma outra é o tipo de
imaginação que gerou a moderna lógica simbólica. No universo total proposto
pela imaginação dos lógicos, todas as afirmações podem ser derrubadas ou
arrasadas a fim de tornar possível reapresentá-las na forma da linguagem
lógica; as partes da linguagem comum que não servem são simplesmente
abandonadas. Alguns dos notórios estados da imaginação religiosa, para
recorrer a outro exemplo, operam da mesma maneira canibalista, engolindo
todos os materiais disponíveis para retraduzi-los em fenômenos saturados de
polaridades religiosas (sagrado e profano etc.).

O último exemplo, por razões óbvias, toca intimamente no assunto em


questão. As metáforas religiosas aparecem em grande número numa parcela
importante da literatura erótica moderna (notadamente em Genet) e em
algumas obras da literatura pornográfica. História de O faz amplo uso de
metáforas religiosas para descrever a provação que O atravessa. O “queria
crer”. Sua drástica situação de total servidão pessoal àqueles que a utilizam
sexualmente é, repetidas vezes, descrita como um modo de salvação. Com
angústia e ansiedade, ela renuncia a si própria – e “doravante não houve mais
hiatos, nem tempo útil, ou remissão”. Embora tenha perdido inteiramente sua
liberdade, O conquistou o direito de participar daquilo que descreveu como
um rito sacramental virtual.
A palavra “aberta” e a expressão “abrir suas pernas”, nos lábios de seu
amante, vinham carregadas com tal força e desassossego, que ela jamais
podia ouvi-Ias sem experimentar uma espécie de prostração interna, uma
submissão sagrada, como se um deus, e não ele, lhe tivesse falado.

Temia o açoite e outros castigos cruéis antes de lhe ser infligidos;


“todavia, quando tudo terminava, ela estava feliz de ter passado por isso, ainda
mais feliz se tudo fora especialmente cruel e prolongado”. O açoite, a
mutilação e o ferro em brasa são descritos (do ponto de vista de sua
consciência) como ordálias rituais que testam a fé de alguém que se inicia em
uma disciplina espiritual ascética. A “perfeita submissão” que seu amante
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Susan Sontag – A Imaginação Pornográfica
original e depois Sir Stephen exigem dela faz lembrar a extinção do eu,
explicitamente requerida de um noviço jesuíta ou de um aprendiz zen. O é
“essa pessoa absorta que renunciou a sua vontade a fim de ser totalmente
refeita”, a fim de ser feita para servir uma vontade muito mais poderosa e
autoritária que a sua.

Como seria de se esperar, o caráter direto das metáforas religiosas em


História de O evocou algumas leituras correspondentemente diretas do livro.
O romancista Mandiargues, cujo prefácio precede o de Paulhan na tradução
americana, não hesita em descrever História de O como “uma obra mística” e,
portanto, “estritamente falando, não um livro erótico”. Aquilo que História de
O relata “é uma completa transformação espiritual, o que outros
denominariam uma ascesis”. Contudo a questão não é tão simples.

Mandiargues parece certo ao descartar uma análise psiquiátrica do


estado mental de O que reduziria o tema do livro a, digamos, “masoquismo”.
Como diz Paulhan, “o ardor da heroína” é totalmente inexplicável em termos
do vocabulário psiquiátrico convencional. O fato de que o romance emprega
alguns dos motivos e artifícios convencionais do teatro do sadomasoquismo
merece uma explicação específica. Mas Mandiargues caiu em um erro quase
tão redutivo e apenas um pouco menos vulgar. Seguramente, a única
alternativa às reduções psiquiátricas não é o vocabulário religioso. Mas o fato
de existirem apenas duas alternativas em perspectiva, testemunha, mais uma
vez, a arraigada difamação do âmbito e da seriedade da experiência sexual,
que ainda domina nossa cultura, como toda a sua tão propagada
permissividade recente.

Em minha visão, “Pauline Réage” escreveu um livro erótico. A noção


implícita, em História de O, de que Eros é um sacramento não representa a
“verdade” por trás do sentido literal (erótico) do livro (os ritos lascivos de
escravização e degradação infligidos a O), mas, exatamente, uma metáfora
para isso. Por que dizer algo mais forte, quando a afirmativa não pode na
realidade expressar qualquer coisa mais forte? Porém, a despeito da virtual
incompreensibilidade, para a maioria das pessoas educadas, da experiência
substantiva subjacente ao vocabulário religioso, hoje em dia, há uma
persistente devoção face à imponência de emoções que cabem em tal
vocabulário. A imaginação religiosa sobrevive para a maior parte das pessoas
não apenas como o principal, mas virtualmente como o único exemplo digno
de crédito de uma imaginação operante em uma forma total.

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Susan Sontag – A Imaginação Pornográfica
Não é de se admirar, assim, que as formas novas ou radicalmente
renovadas da imaginação total, que surgiram no século passado (em especial
aquelas do artista, do erotômano, do revolucionário de esquerda e do louco),
tenham ofuscado de maneira crônica o prestígio do vocabulário religioso. E as
experiências totais, de que existem muitos tipos, tendem com freqüência a ser
apreendidas somente como revivescências ou traduções da imaginação
religiosa. A busca de um novo modo de discurso, no nível mais sério, ardente
e entusiástico, evitando a encapsulação religiosa, é uma das tarefas
primordiais do pensamento futuro. No estado em que se encontram as coisas,
onde tudo, desde a História de O até Mao, é reabsorvido na incorrigível
sobrevivência do impulso religioso, todas as opiniões e todos os sentimentos
tornam-se desvalorizados. (Hegel efetuou talvez a mais grandiosa tentativa de
criar um vocabulário pósreligioso, a partir da filosofia, que dominaria os
tesouros de paixão e de credibilidade, e de adequação emotiva, que foram
reunidos no vocabulário religioso. Mas seus seguidores mais interessantes
solaparam resolutamente a linguagem meta-religiosa abstrata a que ele legou
seu pensamento, para se concentrarem, ao contrário, nas aplicações sociais e
práticas específicas de sua forma revolucionária de metodologia, o
historicismo. O fracasso de Hegel repousa, como um casco de navio imenso e
perturbador, na paisagem intelectual. E ninguém desde então teve suficiente
grandeza, imponência ou energia para empreender a tarefa outra vez.)

E assim permanecemos, adernando em meio às nossas variadas opções


de tipos de imaginação total, de espécies de completa seriedade. Talvez o
reflexo espiritual mais profundo da carreira da pornografia em sua fase
“moderna” ocidental, que aqui consideramos (a pornografia no Oriente ou no
mundo muçulmano é algo muito diferente), seja essa gigantesca frustração da
paixão e da seriedade humanas, desde que a antiga imaginação religiosa, com
seu seguro monopólio da imaginação total, começou a ruir, no final do século
XVIII. O ridículo e a ausência de talento da maioria dos textos pornográficos
ficam evidentes para qualquer pessoa a eles exposta. O que não se tem
salientado sobre os produtos típicos da imaginação pornográfica é o seu
pathos. Quase toda a pornografia (e as obras aqui discutidas não podem ficar
de fora) aponta para algo mais amplo que o simples dano sexual. Trata-se da
traumática incapacidade da sociedade capitalista moderna de fornecer saídas
autênticas ao perene instinto humano para as obsessões visionárias inflamadas,
assim como de satisfazer o apetite de modos de concentração e de seriedade
exaltados e autotranscendentes. A necessidade dos seres humanos de
transcender “o pessoal” não é menos profunda que a de ser uma pessoa, um

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Susan Sontag – A Imaginação Pornográfica
indivíduo. No entanto, nossa sociedade atende pobremente a tal necessidade.
Ela provê sobretudo vocabulários demoníacos onde situá-la e a partir dos
quais iniciar a ação e construir ritos de comportamento. Oferece uma opção
entre vocabulários de pensamento e ação que não são meramente
autotranscendentes mas autodestrutivos.

Entretanto a imaginação pornográfica não deve ser entendida apenas


como uma forma de absolutismo psíquico – em que alguns de seus produtos
poderiam ser encarados (no papel de connoisseur, em vez de consumidor) com
mais simpatia, curiosidade intelectual ou sofisticação estética.

Em diversos pontos deste ensaio aludi à possibilidade de que a


imaginação pornográfica expresse algo digno de ser ouvido, conquanto em
uma forma degradada e, com freqüência, irreconhecível. Defendi que essa
forma espetacularmente confinada da imaginação humana tem, não obstante,
seu acesso peculiar a alguma verdade (sobre o sexo, a sensibilidade, a
personalidade individual, o desespero, os limites), que pode ser partilhada
quando projeta a si própria em arte. (Toda pessoa, ao menos nos sonhos,
habitou o mundo da imaginação pornográfica por algumas horas, ou dias, ou
mesmo por períodos ainda mais longos de sua vida; porém somente os
habitantes permanentes fabricam os fetiches, os troféus, a arte.) Esse discurso,
que se poderia chamar “a poesia da transgressão”, é também conhecimento.
Aquele que transgride não apenas quebra uma norma. Ele vai a algum lugar
onde os outros não vão; e conhece algo que eles não sabem.

A pornografia, considerada como uma forma artística ou criadora de


arte na imaginação humana, é uma expressão daquilo que William James
chamou “mentalidade mórbida”. Mas James, sem dúvida, estava correto
quando propôs, como parte de sua definição de mentalidade mórbida, que essa
abrangia “uma escala mais ampla” de experiência que a mentalidade saudável.

O que se pode dizer, contudo, às inúmeras pessoas sensíveis e


suscetíveis que acham deprimente o fato de toda uma biblioteca de material de
leitura pornográfica ter se tornado, nos últimos -anos, tão facilmente
disponível aos jovens, em forma de brochura? Apenas uma coisa, talvez: que
sua apreensão é justificada, mas quiçá exagerada. Não me refiro aos
lamuriadores costumeiros, aqueles que acham que como o sexo, acima de
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Susan Sontag – A Imaginação Pornográfica
tudo, é “sujo”, também o são os livros que se divertem com ele (“sujo”, de
uma forma que, aparentemente, um genocídio exibido todas as noites na TV
não é). Resta ainda uma minoria considerável de pessoas que se opõe ou tem
aversão à pornografia não porque ache que ela é “suja”, mas por saber que
pode ser uma muleta para o psicologicamente deformado e uma brutalidade
para o moralmente inocente. Eu também sinto uma aversão pela pornografia
por razões semelhantes e as conseqüências de sua oferta crescente me
preocupam. Entretanto tal cuidado não está de certa forma deslocado? O que
efetivamente está em jogo? Uma preocupação com os usos do próprio
conhecimento. Há um sentido em que todo conhecimento é perigoso: nem
todas as pessoas estão na mesma condição como conhecedoras, ou como
conhecedoras em potencial. Talvez a maioria das pessoas não necessite de
“uma escala mais ampla de experiência”. É possível que, sem uma preparação
psíquica sutil e extensa, qualquer ampliação de experiência e de conhecimento
seja destrutiva para a maior parte das pessoas. Então, seria preciso perguntar o
que justificaria a imprudente confiança ilimitada que depositamos na atual
disponibilidade maciça de outros gêneros de conhecimento, ou a nossa
aquiescência otimista na transformação e extensão das capacidades humanas
pela máquina. A pornografia é apenas um item dentre as muitas mercadorias
perigosas que circulam nesta sociedade e, por mais sem atrativos que seja,
uma das menos letais, a menos custosa para a comunidade em termos de
sofrimento humano. Com exceção, talvez, de um pequeno círculo de
intelectuais na França, a pornografia é um departamento inglório e, em geral,
desprezado, da imaginação. Seu status medíocre é a própria antítese do
considerável prestígio espiritual gozado por vários itens que são muito mais
nocivos.

Em última análise, o lugar que atribuímos à pornografia depende dos


propósitos que estabelecemos para nossa própria consciência, para nossa
própria experiência. Mas o objetivo que A adota para sua consciência pode
não ser aquele que ele aprecie ver B advogar, desde que julga que B não é
suficientemente qualificado, experiente, ou sutil. E B pode ficar consternado
ou mesmo enraivecido pelo fato de A adotar propósitos que ele próprio
professa; quando A os sustenta, eles se tornam presunçosos ou banais. É
provável que essa crônica desconfiança mútua das capacidades de nossos
próximos (que sugere, com efeito, uma hierarquia de competência com relação
à consciência humana) jamais se resolva de forma para todos satisfatória. Na
medida em que a qualidade da consciência humana varia tão amplamente,
coma haveria de ser diferente? Num ensaio que escreveu sobre o tema alguns

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Susan Sontag – A Imaginação Pornográfica
anos atrás, Paul Goodman afirmou: “A questão não é saber se se trata de
pornografia, mas a qualidade da pornografia”. Isso é correto e seria possível
estender bastante mais o pensamento. A questão não é saber se se trata de
consciência ou de conhecimento, mas a qualidade da consciência e do
conhecimento. E isso exige considerar a qualidade ou agudeza do problema do
homem – o modelo mais problemático de todos. Não parece incorreto dizer
que, nesta sociedade, a maioria das pessoas que não é louca ativa, é, na melhor
das hipóteses, lunática corrigida, ou potencial. Contudo é possível supor que
alguém aja de acordo com esse conhecimento, ou conviva genuinamente com
ele? Se há tantos que oscilam à beira do assassinato, da desumanização, da
deformidade e do desespero sexuais, e se devêssemos agir de acordo com esse
pensamento, então uma censura que jamais imaginaram os inimigos
indignados da pornografia pareceria adequada. Se é esse o caso, não somente a
pornografia mas todas as formas de arte e conhecimento autênticas – em
outras palavras, todas as formas de verdade – são suspeitas e perigosas.

(1967)

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