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artigo de revisão / review article / discusión crítica

Medicina psicossomática e a política de humanização do SUS:


desconforto na contemporaneidade
Psychosomatic medicine and the policy of humanization of sus:
discomfort in the contemporary world
Medicina psicosomática y la política de humanización del SUS:
desagrado en la contemporaneidad

Melissa Rossatti Duval*


Silene de Lima Oliveira**

Resumo: O presente artigo apresenta uma reflexão e revisão teórica sobre a política de humanização, presente na Política Nacional de
Humanização (PNH-HumanizaSUS) e traz a contribuição da medicina psicossomática , através de seus conceitos teóricos, para a discussão
e a atuação terapêutica na relação entre profissionais e usuários no sistema de saúde. Também aborda de forma concisa a estrutura e
o momento atual do sistema de saúde, traçando um breve histórico crítico sobre o conceito de humanização e sua interrelação com o
sujeito e seu coletivo nos serviços de saúde, em que existe uma complementação entre o gerir e o cuidar. Questiona a importância de
um modelo de gestão que possibilite uma expansão das redes sociais presentes no sistema de saúde, onde ocorram transformações no
modo de cuidar, com o protagonismo do sujeito, contribuindo para uma efetividade no processo saúde-doença na contemporaneidade.
Palavras-chave: Humanização da assistência. Politica de saúde. Medicina Psicossomática.
Abstract: This article presents a reflection and a theoretical revision about the policy of humanization proposed by the Brazilian Na-
tional Policy of Humanization (PNH-HumanizaSUS) and brings the contribution of psychosomatic medicine, by means of its theoretical
concepts, for the discussion and therapeutic action in the relationship between professionals and users of the health system. The article
also briefly approaches the structure and the present moment of the system of health, delineating a brief historical critic for discussing
the concept of humanization and its interrelations with human subject and their communities in health services, in which there is a
complementing between managing and taking care. The importance of a model of management that allows for an expansion of the
present social networks in the health system – a system in which transformations may happen in the way one takes care, with a proactive
attitude of human subject – is questioned, contributing for an effectiveness in the process health-disease in the contemporary world.
Keywords: Humanization of assistance.Health policy.Psychosomatic medicine.
Resumen: Este artículo presenta una reflexión y revisión teórica acerca de la política de humanización, presente en la Política Nacio-
nal de Humanización (PNH-HumanizaSUS) y trae el aporte de la medicina psicosomática, por medio de sus conceptos teóricos, para
la discusión y actuación terapéutica en la relación entre profesionales y usuarios del sistema de salud. El artículo también aborda de
manera concisa la estructura y el momento actual del sistema de salud, delineando un breve histórico crítico a cerca del concepto de
humanización y su interrelación con el sujeto y su comunidad en los servicios de salud, en los que hay una complementación entre el
gestionar y el cuidar. Se cuestiona la importancia de un modelo de gestión que permita una expansión de las redes sociales presentes
en el sistema de salud – un sistema en lo que se produzcan transformaciones en la manera de cuidar, con el protagonismo del sujeto,
contribuyendo para una efectividad en el proceso salud-enfermedad en la contemporaneidad.
Palabras-llave: Humanización de la asistencia. Política de Salud. Medicina Psicosomática.

* Psicóloga. Especialista em Saúde Pública pelo Centro Universitário São Camilo – SP, Especialista em Psicossomática Psicanalítica pelo Instituto SEDES Sapientiae – SP.
** Enfermeira. Terapeuta. Professora da Faculdade de Jaguariúna. Doutoranda do Programa de Pós-Graduação em Saúde Coletiva da FCM- UNICAMP. Mestre pela
EEUSP-SP, Especialista em Psicossomática Psicanalítica pelo Instituto SEDES Sapientiae-SP.

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Medicina psicossomática e a política de humanização do SUS: desconforto na contemporaneidade

Medicina Psicossomática ideia de unidade entre mente-corpo, normalmente, apresentam um


somato-psíquico, estando mais vol- empobrecimento na vida onírica
Nas últimas décadas tem si- tado para a dinâmica biopsíquica e na capacidade de representação
do frequente a produção de tra- mais ampla e não somente para o simbólica, uma limitação nas trocas
balhos na saúde que enfoquem modelo biomédico. interpessoais – também chamada
o sofrimento e a dor do paciente, A doença psicossomática carac- de relação branca – com tendência
expressados por outras vias que teriza as doenças orgânicas através a vínculos afetivos pouco signifi-
não a verbal. Junto a isso, se torna de sua origem e evolução, expli- cativos e relacionamentos super-
cada vez mais comum a presença cita uma participação psicológica, ficiais. Marty6 também considera
de sujeitos nos serviços de saúde em que a estrutura e o funciona- que o sujeito se encontra em um
transitando, por meio de diver- mento psíquico exercem um papel estado de carência em sua função
sas especialidades, com queixas e mental de significação da experiên-
importante e predominante na
marcas corporais sem uma possi-
organização e nas defesas contra cia traumática ou da não-represen-
bilidade de resubilidade, sujeitos
a desorganização psicossomática². tação de um conflito, uma falta ou
“poli-queixosos”, de difícil diagnós-
Ao pesquisar a origem dos con- falha identificado como processo
tico. A consulta de pacientes com
flitos e suas repercussões podemos de mentalização. Aborda a men-
queixas somáticas e sem explicação
compreender a manifestação psí- talização como o que diz respeito
clínica definida é bastante frequen-
quica ou somática como uma cris- à quantidade e à qualidade de re-
te na atenção primária, sendo que
talização do sofrimento humano. presentações psíquicas, das ima-
alguns sujeitos acabam se caracte-
Na psicanálise encontramos os sin- gens psíquicas do indivíduo onde o
rizando com queixas crônicas, se
tomas corporais vistos como uma aparelho psíquico procura regular
tornando persistentes na busca pe-
transposição do conflito psíquico as energias instintivas e pulsionais,
la atenção médica na contempora-
para o somático³. sendo assim a criatividade, os so-
neidade. Isso nos leva a questionar
O aparelho psíquico adota um nhos e a fantasia se tornam primor-
e pensar sobre a Medicina psicosso-
papel protetor contra os excessos diais no equilíbrio psicossomático.
mática dentro da saúde.
Pensando no significado da de excitação por meio das repre- As tendências à dificuldade
Medicina Psicossomática e dos sentações; representa a função de vínculos afetivos, ao distan-
transtornos somatoformes, consi- pri­mordial para o equilíbrio psi- ciamento interpessoal e à manu-
deramos importante destacar suas cossomático do indivíduo. É por tenção de relações brancas, estão
definições para expor posterior- meio da ligação das representações associadas às identificações esque-
mente o motivo da escolha pelo e do afeto vivenciado que se dá esse máticas que estes sujeitos estabe-
descritor de saúde em Medicina equilíbrio. Quando isso não ocorre, lecem devido a escassez de seus
Psicossomática. Junto aos descri- deixa uma quantidade de excita- investimentos libidinais7.
tores de saúde da Biblioteca Virtual ção elevada circulando livremente Marty6 levanta a proposição de
em Saúde – BIREME – encontra- dentro do organismo, constituindo um funcionamento chamado de
mos a Medicina Psicossomática uma experiência traumática. Em “pensamento operatório”, desta-
com descrição de “um sistema da Volich4 vemos que “o efeito trau- ca que o desenvolvimento de suas
medicina que almeja descobrir a mático depende da combinatória ideias parte do princípio de que a
natureza exata da relação entre as entre os recursos do sujeito e a in- atividade de representatividade
emoções e as funções corporais, tensidade de reação à experiência: simbólica e fantasmática torna
afirmando o princípio de que a um sujeito com poucos recursos possível o escoamento das excita-
mente e o corpo são uma unida- para enfrentar uma mudança apa- ções, integrando as demandas pul-
de”; já os Transtornos Somatofor- rentemente sem importância de sionais e subsidiando a formação
mes são “transtornos em que há a sua vida pode viver essa mudança de sintomas – geralmente mentais,
presença de sintomas físicos que como traumática, assim como uma mas ocasionalmente físicos – rever-
sugerem uma condição médica ge- pessoa bem estruturada pode su- síveis. Trata-se de uma modalidade
ral, mas que não são completamen- portar acontecimentos intensos e de funcionamento operatório dian-
te explicados por uma condição ser capaz de reorganizar-se e supe- te de situações de desorganização.
médica geral, pelos efeitos diretos rar rapidamente suas consequên- Em Kreisler² encontramos que “a
de uma substância ou por qual- cias” (p. 72)4. carga ligada às pulsões libidinais
quer outro transtorno mental”¹. Dentro da psicossomática psica- e agressivas, malveiculadas e não
O conceito da medicina psicos- nalítica, Marty e M’Uzan5 apontam elaboradas pelas proteções mentais,
somática traz em sua descrição uma que os pacientes psicossomáticos adentra rapidamente a via somáti-

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ca”; segundo Volich4, as falhas no com sua queixa e o médico normalmente gera um estanque,
desenvolvimento ou experiências com seu sofrimento. Compar- um silêncio, e junto a ele vem a
de vida traumáticas, comprome- tilham apenas uma incômo- impossibilidade de significação
tem a estrutura e o funcionamento da solidão, indizível”(p. 9)8. e de representação da experiên-
psíquico. Essas deficiências levam o Com a característica de difícil cia vivida; muitas vezes frente ao
organismo a utilizar recursos mais diagnóstico ou resolubilidade, de silêncio, o corpo se disponibiliza
rudimentares, motores ou até mes- perseveração ou deslocamento como palco da expressão desta dor
mo as reações orgânicas no intuito dos sintomas e até mesmo do sur- e a terapêutica se constrói a partir
de um reequilíbrio do organismo. gimento de novas patologias, estes da escuta centrada na história do
A doença é um excesso, um trau- sujeitos acabam sendo de grande sujeito, para que o corpo possa dar
ma, uma expressão de busca de ônus para todo o sistema de saúde trégua à expressão e a fala (voz)
restabelecimento do organismo. e risco de complicações iatrogêni- possa ganhar corpo na articulação
Sujeitos com este perfil pos- cas, além de despertarem um sen- do adoecimento.
suem a característica de um vínculo timento de impotência, frustração
com a doença que acaba sendo e até mesmo desconforto no cuida- Um breve histórico crítico
refletido nas inúmeras consultas dor ou profissional da saúde, já que sobre o conceito de
médicas que realizam em busca da a insistência destes pacientes so- humanização do SUS10
resolubilidade de suas dores. Trata- mada ao não alívio de suas queixas
-se de uma via muito mais regredi- acabam causando um viés de anti- Entre 2000 a 2002, o Programa
da de expressão, utilizando-se de patia na relação paciente-cuidador. Nacional de Humanização da Aten-
recursos primitivos, como o corpo, Caímos no campo da comu- ção Hospitalar (PNHAH) iniciou
para dar forma e, muitas vezes voz, nicação, a dificuldade de com- ações em hospitais com o intuito
à experiência humana. Esses sujei- preensão entre cuidador-paciente de criar comitês de humanização
tos buscam nos serviços de saúde, explicita o quanto cuidar de sujei- voltados para a melhoria na quali-
uma forma de ver seus sofrimentos tos com o perfil psicossomático, dade da atenção ao usuário e, mais
amenizados ou resolvidos, através pode passar pela falha nas rela- tarde, ao trabalhador11.
de suas dores ou doenças corporais, ções humanas. Além disso, como A proposta da PNH foi a de se
caminham entre especialidades e já abordado, esses pacientes pos- constituir como política que atra-
unidades diversas, em busca de suem uma tendência a bloquear a vessa os diferentes setores e progra-
alguém ou algum meio que lhes significação de seus sentimentos, mas do Ministério da Saúde (MS),
traga sentido ao seu sofrimento. podendo gerar uma forma de rela- buscando traçar um plano comum
Aos poucos vai se configurando cionamento interpessoal bastante e transversal por meio da valoriza-
um andarilho em meio ao serviço comprometido. ção da dimensão humana das prá-
de saúde, explicitando por meio de Esses sujeitos possuem um ticas de saúde11.
suas queixas orgânicas, a angústia perfil que se faz necessário uso de O artigo crítico redigido por
de não conseguir dar sentido ao instrumentos terapêuticos outros Benevides e Passos 12 contextua-
seu sofrimento; por outro lado, o que não os da clínica tradicional. liza a política de Humanização do
médico ou o cuidador, se esvai nas Muitos autores na área da Psicos- SUS, bem como coloca em análise
tentativas de elucidar, traduzir, os somática trazem a ideia do quanto o conceito-sintoma e o conceito-
sintomas expostos pelo corpo do o sofrimento somático está atrela- -experiência contido neste mo-
paciente: do às experiências, à dinâmica e à vimento. Advertem que o tema
“Em uma cacofonia de sinto- história de vida do paciente, come- humanização passou a se insinu-
mas e métodos terapêuticos, çando a se configurar a necessida- ar como uma preocupação para a
médicos e pacientes vivem de de um espaço terapêutico que agenda política do SUS desde o ano
a dificuldade crescente de se possibilite dar voz à subjetividade 2000, por ocasião da XI Conferên-
compreenderem. Uns não do sujeito. Os traumas sofridos pe- cia de Saúde-CNS, cujo título era
se sentem escutados, outros lo sujeito devem ser considerados “Acesso, qualidade e humanização
não reconhecidos. Circulam dentro do ambiente biopsicossocial na atenção à saúde com controle
os sintomas ao sabor de uma que está inserido9, abrindo um es- social”.
ciranda cada vez maior de paço de escuta e de possibilidade Estes autores revelam que os
profissionais. Ao longo de con- para permitir a circulação e possí- discursos apontavam “para a ur-
sultas e intervenções, muitas vel articulação da violência, da dor gência de se encontrar outras res-
vezes permanece o paciente e do sofrimento vivido; o trauma postas à crise da saúde, identificada

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por muitos como falência do mode- tência, permitindo a retomada o protagonismo dos sujeitos e co-
lo SUS. A fala era de esgotamento.” do instituído pela prática do SUS, letivos11.
Uma vez que os usuários reivindi- em sua concretude, ou seja, é um
cavam o que é de direito: atenção conceito-sintoma por ser também
um conceito-experiência, “que,
O acolhimento como
com acolhimento e de modo reso-
lutivo; os profissionais, lutavam ao mesmo tempo, descreve, inter- estratégia de humanização
por melhores condições de tra- vem e produz a realidade nos con- Dentro do serviço público de
balho. Já “os críticos às propostas vocando para mantermos vivo o saúde, nos encontramos em um
humanizantes no campo da saúde movimento a partir do qual o SUS momento de muitas implemen-
denunciavam que as iniciativas se consolida como política pública,
tações, avaliações e revisões acer-
em curso se reduziam, grande par- política de todos, política para qual-
ca da garantia e da efetividade do
te das vezes, a alterações que não quer um, política comum” 12. Neste
processo saúde-doença. Acontece
chegavam efetivamente a colocar sentido afirma-se que “a constru-
que estes pacientes psicossomáti-
em questão os modelos de atenção ção de um sentido possível para a
expressão Humanização da Saúde cos, que circulam pelo sistema de
e de gestão instituídos”. saúde, ainda se mostram como
Benevides e Passos12 ressaltam se expressa na PNH em um novo
posicionamento que afirma um grandes desafios para este processo.
que “entre os anos 1999 e 2002,
homem comum (com artigo in- Estes andarilhos do indizível ainda
além do PNHAH, algumas outras
definido), um ser humano na sua não encontraram uma resubilidade
ações e Programas foram propos-
existência concreta, na sua diver- eficaz para suas doenças, o Sistema
tos pelo Ministério da Saúde como:
sidade normativa e nas mudanças Único de Saúde possui ferramentas
a instauração do procedimento de
que experimenta nos movimentos que seriam eficazes na relação des-
Carta ao Usuário (1999), Programa
coletivos”11 . tes sujeitos com o serviço, porém
Nacional de Avaliação dos Serviços
Ao completar cinco anos da estas ferramentas ainda não são ex-
Hospitalares – PNASH (1999); Pro-
PNH, em 2008, os autores Heckert, ploradas em seu melhor formato.
grama de Acreditação Hospitalar
Passos e Barros 11refletem sobre o Podemos encontrar na Política de
(2001); Programa Centros Colabora-
fato desta ter sido concebida como Humanização da Saúde algumas
dores para a Qualidade e Assistência
uma política de governo neces- ferramentas, que serviriam a favor
Hospitalar (2000); Programa de Mo-
sitando ganhar lugar de política desta dinâmica, já implantadas nas
dernização Gerencial dos Grandes
pública. Neste sentido, buscou-se gestões atuais; um olhar a partir da
Estabelecimentos de Saúde (1999);
capilarizar os princípios, as dire- psicossomática poderia ser um con-
Programa de Humanização no Pré-
trizes e os dispositivos da Política, tribuinte para aprimorar as ferra-
-Natal e Nascimento (2000); Norma
com vistas a “encarnar um modo mentas dos dispositivos propostos
de Atenção Humanizada de Recém-
de fazer, uma atitude de corres- dentro da política de saúde.
-Nascido de Baixo Peso – Método
ponsabilidade, de protagonismo e O acolhimento é um dispositi-
Canguru (2000), dentre outros”. de autonomia na realidade concre-
Humanização como conceito- vo da Política Nacional de Huma-
ta dos trabalhadores e usuários de nização (PNH) na saúde pública no
-sintoma, enunciado por Benevi- saúde”.
des e Passos12, aglutina “a noção Brasil e vem sendo utilizado como
Na elaboração da Constituição
que paralisa e reproduz um sentido ferramenta para viabilização dos
Federal em 1988, a saúde se afir-
já dado, presentes “em práticas de princípios e resultados desta Polí-
mou “como direito e dever, como
atenção: a) segmentadas por áreas tica 13. No glossário HumanizaSUS,
valor universal e distribuído equa-
(saúde da mulher, saúde da crian- nimente, como sentido integral”. encontrado no Documento Base
ça, saúde do idoso) e por níveis de O SUS “pode e deve servir como para Gestores e Trabalhadores do
atenção (assistência hospitalar); b) causa comum: o comum que nos SUS, como definição de acolhi-
identificadas ao exercício de certas permite a comunicação, a comuni- mento temos:
profissões (assistente social, psicó- dade de interesses e compromissos “Recepção do usuário, desde
logo) e a características de gênero e a comunhão de sentidos”. Nessa sua chegada, responsabilizan-
(mulher); c) orientadas por exigên- perspectiva, são princípios meto- do-se integralmente por ele,
cias de mercado que devem “focar dológicos da PNH: 1) a transversali- ouvindo sua queixa, permitindo
o cliente” e “garantir qualidade to- dade, entendida como aumento do que ele expresse suas preocu-
tal nos serviços”. grau de abertura comunicacional pações, angústias, e, ao mesmo
Este modelo denuncia sua es- intra e intergrupos; 2) a insepara- tempo, colocando os limites ne-
tereotipia, mas também sua po- bilidade entre atenção e gestão; 3) cessários, garantindo atenção

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Medicina psicossomática e a política de humanização do SUS: desconforto na contemporaneidade

resolutiva e a articulação com fissionais, que se encontram envol- rência que altera tanto as práticas
os outros serviços de saúde para vidos no processo de promoção de de cuidado, quanto modifica os
a continuidade da assistência, saúde, mostrando a importância de modelos de gestão, impondo aí a
quando necessário”14. estarem abertos ao encontro com o atitude analítica e de cuidado com
Percebe-se a importância da outro, valorizando a escuta atenta os sujeitos implicados no trabalho
escuta clínica dos profissionais de com compromisso, como vemos: em saúde: trabalhadores e usuá-
saúde quando utilizam o dispo- “Como diretriz, podemos ins- rios dos serviços de saúde. Gerir e
sitivo do acolhimento de forma crever o acolhimento como cuidar tornam-se, assim, aspectos
correta. A tentativa de se fazer en- uma tecnologia do encontro, complementares.
tender acaba tendo lugar quando um regime de afetabilidade O sofrimento borbulha do de-
o paciente psicossomático entra construído a cada encontro e sassossego, manifestando a incoe-
em contato com o acolhimento no mediante os encontros, portan- rência latente da tensão entre o que
sistema de saúde. Através do en- to como construção de redes de se é, essência pretendida-ideal, e o
contro com o outro, e este outro conversações afirmadoras de modo que se vive, realidade possí-
capacitado para uma escuta clínica relações de potência nos pro- vel. “O sofrimento é da ordem do
atenta e centrada na pessoa, surge a cessos de produção de saúde”13. desejo. Não se trata de carência e
possibilidade de se criar um espaço Através deste protagonismo nem de excesso. Sofre-se porque
apto a compartilhar e dar signifi- entre os profissionais de saúde e os se vive e viver nos convoca à am-
cação àquilo que outrora estaria usuários, a Humanização na saúde pliação das formas postas ao nos
renegado à expressão somática. acaba exercendo caráter de promo- defrontarmos com imprevisibilida-
Assim se abre a possibilidade ção da autonomia e da subjetivação des nas nossas relações no mundo.
de uma rede de autonomia, como do sujeito na sociedade. Sofre-se porque se experimenta
percebemos através da cartilha de uma perturbação que nos convoca
PNH – Acolhimento nas Práticas de à atividade. Contudo essa atividade
Produção de Saúde: Desconforto na diz respeito a um movimento que
“O acolhimento na porta de Contemporaneidade: o não distingue andar ou estar para-
entrada só ganha sentido se o sujeito e o coletivo no do. Pode-se permanecer sentado
entendemos como uma pas- HumanizaSUS e, entretanto, estar em meio a um
sagem para o acolhimento nos turbilhão de processos em curso”17.
processos de produção de saúde. “Ampliar a clínica envolve Retomando a ideia de Volich,
A reversão desse processo nos afirmar que ela é constituída pela Ferraz e Ranña8, o andarilho incô-
convoca à construção de alianças tensão entre forças que compõem modo que trafega nos corredores
éticas com a produção da vida, os processos de produção de subje- dos serviços de saúde, explicitando,
em que o compromisso singu- tividade para além do sujeito cons- por meio de suas queixas orgâni-
lar com os sujeitos, os usuários e tituído – instituição sujeito forjada cas, a angústia de não conseguir dar
os profissionais de saúde ganhe na e pela história”(p. 89)15. sentido ao seu sofrimento e, por
centralidade em nossas ações O mal estar evidencia, na tradi- outro lado, o médico ou o cuidador,
de saúde. Essas alianças com a ção ocidental, o somático, no ter- se esvaindo nas tentativas de eluci-
produção da vida implicam um reno do sintomático. “A medicina dar, traduzir os sintomas expostos
processo que estimula a co-res- fica impotente face ao corpo ruido- pelo corpo do paciente.
ponsabilização, um encarregar- so, mas silencioso, e a psiquiatria Foucault alerta para a ética do
-se do outro, seja ele usuário ou não pode regulá-lo pelos recentes cuidar de si, o que inspira a afir-
profissional de saúde, como par- instrumentos da psicofarmacolo- mação: “o objetivo do “cuidador”
te da minha vida. Trata-se, en- gia de maneira eficaz, a psicanálise, deveria ser menos cuidar e mais
tão, do incentivo à construção de centrada no campo da fala e da lin- incitar o desejo de cuidado, ou me-
redes de autonomia e comparti- guagem, em contrapartida, espe- lhor, provocar no outro o desejo de
lhamento, em que a experimen- ra sempre de maneira incerta que cuidar de si. O cuidado de si para
tação advinda da complexidade inaudível se transforme em verbo Foucault seria uma prática social.
dos encontros possibilita que “eu para que se possa consubstanciar, Potência política de expansão das
me reinvente, inventando-me então em gestos de cuidados” redes sociais por meio do exercício
com o outro”13 . (p. 55)16. ético do “cuidado de si” em sua for-
O acolhimento permite uma Superar a dicotomia clinica e ça estética de invenção de outras
participação ativa e efetiva dos pro- gestão é defender a dupla interfe- possibilidades de vida, de ampliação

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das normatividades, de transmuta- além do sintoma físico, possibili- coletividade. O exercício do cui-
ção de estados de coisa”17. Resistên- tando o despertar do sujeito, para dar passa pelo exercício do existir
cia ou “re-existência” nos modos um estado de mudança e transfor- inserido no coletivo, o referencial da
naturalizados de viver a vida. mação de seu sofrimento. Assim psicossomática pode contribuir na
A Medicina Psicossomática, como encontramos no Humaniza- humanização da saúde, visando um
dentre suas teorias, possibilita fer- Sus princípios de atuação e relação cuidado mais efetivo nas diferentes
ramentas no processo de cuidar entre gerir e cuidar, corroborando manifestações do processo saúde-
através do olhar e da escuta para para o protagonismo do sujeito na -doença na contemporaneidade.

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Recebido em 17 de maio de 2010


Aprovado em 30 de julho de 2010

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