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A História Política do Dinheiro na BM&FBOVESPA

Coleção Spinola – Nomus Brasiliana

De 28 de abril a 26 de agosto de 2011

Política do Dinheiro na BM&FBOVESPA Coleção Spinola – Nomus Brasiliana De 28 de abril a 26
Política do Dinheiro na BM&FBOVESPA Coleção Spinola – Nomus Brasiliana De 28 de abril a 26
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A História Política do Dinheiro na BM&FBOVESPA

Coleção Spinola – Nomus Brasiliana

De 28 de abril a 26 de agosto de 2011

Política do Dinheiro na BM&FBOVESPA Coleção Spinola – Nomus Brasiliana De 28 de abril a 26
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COLEçãO SPINOLA – NOMUS BRASILIANA

A HISTóRIA POLíTICA DO DINHEIRO NA BM&FBOVESPA

A HISTóRIA POLíTICA DO

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F oi a partir de uma coleção herdada do pai, dono de um armazém de café, que o jornalista

e escritor Noenio Spinola se tornou um colecionador particular de moedas. Noenio foi

editor e correspondente internacional do Jornal do Brasil em Washington, Moscou, Lon-

dres e Bruxelas e do jornal O Estado de S. Paulo em Moscou. Trabalhou como diretor de Relações Institucionais na Bovespa e diretor de Imprensa e Mídia na BM&F.

O primeiro passo já havia sido dado. Era preciso, então, continuar esse caminho repleto de

tradições e descobertas. O acervo ficou adormecido certo tempo. Mas quando precisou cobrir a guerra Irã-Iraque, antiga Mesopotâmia, Noenio se viu diante do lugar exato onde os meios de

pagamento começaram, há milhares de anos, com a civilização babilônica. Era o sinal de que precisava para abrir o baú, e, dali, tirar inesquecíveis histórias. As escolhas para rechear seu acer-

vo particular foram dosadas de instinto, faro jornalístico e, muitas vezes, pelo intrigante desafio

de reconhecer a história por meio de deuses, lendas, símbolos e valores prensados no puro metal. O resultado dessa experiência são quase 30 anos de aventuras, estudos e uma paixão

desenfreada para entender a mente humana ao longo de mais de 2.500 anos. É imensamente prazeroso para o Espaço Cultural BM&FBOVESPA abrir suas portas para mostrar esta generosa coleção de moedas na exposição A História Política do Dinheiro na BM&FBOVESPA Coleção Spinola-Nomus Brasiliana. Na ocasião, brindamos também o lançamento oficial do livro Dinhei- ro, Deuses & Poder (2010), em que Noenio detalha o caminho da desmaterialização do dinheiro no século XXI. O livro se junta a outras obras já publicadas pelo autor como O Futuro do Futuro (1998), Os Pactos Sociais na Espanha (1986), Mariana Adeus (1998) e Dante Alighieri Visita a Co- média Paulistana (2000).

Entender como o pensamento humano exposto ao dinheiro como valor de troca evoluiu em quase 3.000 anos é a história que não estava escrita. Noenio percebeu que era, então, preciso fazê-la. Usando sua coleção de moedas como esqueleto, a numismática como ciência, a antro- pologia e a semiótica como guias, o livro que inspira esta exposição detalha por meio de fatos, mitos e símbolos como a mente humana aprendeu a transformar valores presentes em ativos futuros. Mas ainda, mostra como o dinheiro tem, ao longo dos séculos, um valor profano, mas também um valor sagrado e um valor que corresponde ao imaginário social de cada época. Percebe-se, portanto, que a mente humana não mudou nada do ponto de vista lógico; o que mudou mesmo foi o valor dado às coisas. Século a século, símbolo a partir de símbolo, as histó- rias vão sendo costuradas por meio dessas moedas expostas na mostra, um recorte minucioso feito do livro.

Tudo começa a partir de um Croesus ou Kroisos, moeda de prata datada de 561-546 a.C., batida no reino de Croesus, na Lídia, há mais de 2.500 anos. Ao exibir esse duelo entre um leão e um

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DINHEIRO NA BM&FBOVESPA

touro, animais mitológicos, o livro procura pontuar, de maneira detalhada e multidisciplinar,

a linha do tempo dos dinheiros até chegar ao brasileiríssimo real. O autor destaca a figura do touro presente desde o tempo das cavernas até tornar-se ícone do mercado de ações em Wall

Street, sendo, inclusive, associado ao símbolo da ganância após a crise do subprime americano. “O homem comum e os comerciantes da Lídia intuitivamente atribuíam valores de troca a pe- daços de prata e ouro, que viravam meios de pagamento. Reis perceberam que alguém podia ganhar dinheiro com dinheiro: martelaram símbolos no metal, padronizaram a relação ouro/ prata (ratio) e cobraram pela senhoriagem. Nasce a moeda.”, descreve Noenio para nos mostrar

o pontapé inicial do jogo que vamos assistir.

Não podemos deixar de destacar, nesta coleção compacta e transportável, a presença de um Morabetino Alfonsi, em ouro, de 1242 da era de Sáfar ou da Espanha (1211 d.C.) em que a cruz aparece rodeada por legendas escritas em árabe, num momento em que a população nativa de Portugal e Espanha recuperava os territórios invadidos pelos exércitos dos califas e o Islã. Moeda intrigantemente histórica e eterna.

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Ao longo da narrativa, Noenio nos faz refletir sobre como a mente humana está aprendendo

a lidar com um fenômeno que não existia: a desmaterialização do dinheiro e a arquitetura

financeira que sempre nos cercou. Longe de tomar partido, mesmo diante de crises globais, vemos a defesa da constância com que o mercado arbitra o valor entre as coisas em todos os séculos. Da lógica da matemática aos jogos do poder, os símbolos aqui resgatados revelam um pedaço que ficou escondido por tanto tempo da história com a qual foram criados e servem de estopim para os hábitos, costumes e rituais de um mundo sem muros nem separações.

A BM&FBOVESPA sente-se honrada em ser palco desse movimento que alicerça, nestas pági-

nas, a origem do dinheiro na humanidade. E orgulhosamente, mais uma vez, parabeniza seu eterno diretor e atualmente motoqueiro apaixonado, Noenio Spinola, pela iniciativa. A história desta Bolsa pode ser contada como a própria história do desenvolvimento do mercado bra- sileiro. Por outro lado, sempre foi um traço forte da personalidade desta instituição o esforço educacional para expandir os conhecimentos relacionados aos mercados de ações, derivativos e, por que não, na criação de uma cultura de investimento no País. O nosso desejo é que os visitantes desta exposição e os leitores do livro possam, cada um deles, utilizar largamente tudo o que aqui aprenderam. E, quem sabe, multiplicar esse conhecimento. Já que é esta a arte humana: aprender sempre para poder ensinar constantemente.

Edemir Pinto | Diretor Presidente

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COLEçãO SPINOLA -

D esde a antiguidade, o homem procurou registrar seu cotidiano e preservar a memória das suas tradições e de seu povo de forma bastante peculiar. Pinturas em cavernas e entalhes em pedras contavam histórias que foram passadas de gerações a gerações.

No século VII a.C., a história das relações comerciais entre povos se materializou em pequenos discos de metais preciosos que circulavam de mão em mão e revelavam muito mais do que a cifra que carregavam para obtenção de bens ou serviços.

Produzidas, em sua maioria, por artistas incógnitos, as moedas resistiram à ação do tempo e chegaram às nossas mãos repletas de informações que retratam, de forma pujante, a história da humanidade.

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Circulando por todos os povos do planeta, a moeda tornou-se um dos principais meios de comunicação da antiguidade, perpetuando de forma contundente o símbolo do poder aliado à face de seus governantes.

As moedas são como livros que contam as histórias de nossos antepassados e do nosso pre- sente para gerações futuras. Nelas, estão estampadas imagens de reis, rainhas, deuses e seres mitológicos. Registram fatos históricos e imagens que representam o melhor de seus povos e de suas épocas e são indicadores da economia, da cultura e da tecnologia e sempre foram alvo da cobiça pelo poder.

A Coleção Spinola – Nomus Brasiliana concentra o que há de mais importante dessa mani-

festação do dinheiro e das relações comerciais entre os povos, com uma exibição inédita de

exemplares raríssimos e de incrível beleza artística.

Percorrendo uma linha do tempo, o visitante poderá conhecer as primeiras experiências do uso da moeda na Ásia Menor e a consequente difusão por todos os cantos do planeta.

A tecnologia empregada na abertura dos cunhos impressiona. Considerando a escassez de

recursos em suas respectivas épocas, os artistas driblaram as dificuldades com exímio talento, produzindo verdadeiras obras de arte em minúsculos discos metálicos.

Mas não é só da beleza artística das moedas que essa exposição se propõe. O dinheiro revela bastidores da política internacional e registra de forma indelével a formação de impérios e do poder de seus governantes.

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Uma verdadeira galeria de líderes, heróis e eventos. A exposição é composta por nove mó- dulos e uma linha do tempo onde o visitante visualiza e identifica com facilidade os diversos momentos da história política do dinheiro com seus respectivos destaques e personalidades que marcaram época.

Os totens transparentes garantem uma visão completa das moedas (frente e verso) revelando detalhes do bordo (lateral) e de suas respectivas espessuras.

Os modernos recursos de multimídia proporcionam ao visitante o acesso a todos os detalhes essenciais das peças com imagens ampliadas e fichário com as principais características para melhor compreensão dos fatos.

Todas as moedas expostas são originais e certificadas pelas principais autoridades internacionais.

O primeiro módulo trata do período que antecede o nascimento da moeda e dos templos

bíblicos de Abraão. Nele destacam-se as primeiras emissões da Lídia, na Ásia Menor, da famosa coruja eternizada na moeda de Ática-Athenas e da emissão de Corinto representado pela deu-

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sa

Athena e do lendário cavalo alado Pégaso.

O

segundo módulo apresenta a vasta emissão de moedas das cidades-estado gregas, a com-

plexa tecnologia empregada na produção das mais belas séries da antiguidade, com ênfase para a representação deificada de Alexandre III, o Grande da Macedônia e das primeiras emis- sões de Roma com destaque ao grande AE AS Grave com a face do deus Janus bifronte.

O terceiro módulo demonstra o poder da moeda como mídia, promovendo de forma con-

tundente deuses e mitos do passado e representações impressionantes das várias faces de Cleópatra, da história do antigo Egito e das emissões na Judeia que antecedem o apogeu do império romano.

O quarto módulo registra a “face oculta da moeda”. Quem era César no tempo de Cristo? Des-

taque para as moedas bíblicas: tribute penny e trinta dinheiros.

O quinto módulo registra o poderio militar estampado nas moedas e o auge da expansão terri-

torial de Roma. Os doze Césares, a glória, o poder e dos primeiros registros da inflação.

No sexto módulo, o colapso do Império Romano é registrado pelas emissões inflacionadas, com metais impuros e baixa qualidade da arte monetária. Trata das invasões bárbaras e da se-

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miótica a serviço da numismática revelando o poder dos símbolos religiosos estampados nas moedas do Império Bizantino e das Cruzadas.

O sétimo módulo trata das moedas da época dos descobrimentos. Do resgate da arte mone-

tária no Renascimento ao apogeu das novas economias. Mais uma vez, a moeda como mídia entre em cena, propagando o poderio militar europeu no novo mundo.

E, finalmente, nos dois últimos módulos, a exposição revela o DNA da moeda brasileira e apre-

senta o apogeu do ouro nas Américas com destaque à produção aurífera de Vila Rica, com

a emissão da maior e mais pesada moeda em ouro, o dobrão de 20.000 réis. Trata ainda da evolução do dinheiro como conhecemos hoje: do táler ao dólar e da cunhagem do patacão brasileiro ao Plano Real.

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Cada moeda descrita reserva, em sua essência, uma gama de informações sobre a história da

humanidade. São as moedas coadjuvantes silenciosas que preservam informações preciosas do conhecimento humano, avanços científicos e crises globais criando uma estreita ligação entre o passado e o presente, revelando a importância de sua compreensão para o estudo da economia, na atualidade. Exemplares criados por verdadeiros artistas e, alguns nem tanto assim, essas pequenas obras de arte registraram os costumes, as religiões, as tecnologias e a economia dos povos, em momentos que alternavam alegria e tristeza, prosperidade e caos.

Num mundo onde a tecnologia faz parte do dia a dia das pessoas com transações cada vez mais virtuais, a exposição remete o visitante a um resgate da materialização do dinheiro como instrumento de poder de compra.

A mostra se completa com o lançamento concomitante de uma obra que pretende transmitir

aos mais jovens uma nova visão sobre o estudo da matemática financeira e do mercado de capitais, propondo um novo paradigma para o ensino sobre o tema no Brasil.

Claudio Marcos Angelini | Curador

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VIAGEM AOS JARDINS DO PARAíSO

D esenhe um triângulo entre Jerusalém, a cidade iraquiana de Basrah perto do Golfo Pér- sico e a antiga refinaria de Abadan, no Irã. Não muito distante de Basrah, a Petrobras descobriu petróleo antes da primeira guerra do Golfo. Nessa região da Mesopotâmia,

ficam as ruínas de Ur e Uruk, onde floresceram a Babilônia e a cultura sumeriana. Ali, a espécie humana começou a usar prata como meio de pagamento. O Éden citado na Torá e na Bíblia cristã pode ter existido em algum lugar dentro desse triângulo.

Uma viagem pelo chão transformado em deserto com a missão de fotografar e escrever sobre

a frente de batalha da primeira guerra do Golfo puxou o gatilho que resultou nesta exposição:

valia a pena ir além de uma reportagem sobre como o paraíso terrestre foi transformado em inferno pela espécie humana. Escrever reportagens sobre guerras é fácil, desde que se saia vivo. Mergulhar na antropologia, na arqueologia, na numismática, na matemática financeira e transportar a história antiga para o espelho do presente não é tão simples.

O motor da história transformada em livro é a coleção de moedas desta mostra, montada ao longo de vários anos, pacientemente. Stateres, shekels, dracmas, denários, libras, táleres, COBs, reales – tudo transporta lendas, fatos e mitos relacionados com os jogos do poder e o preço que cada um quer pagar para ser feliz. Sábios, loucos e tiranos começaram a martelar moedas há mais de 2.500 anos. É pelo menos curioso observar como muitos deuses, deusas e anjos invocados para dividir o espaço no verso ou reverso simplesmente sumiram. Outros tantos passaram por epifanias singulares, como o touro das moedas de Croesus que era pintado em cavernas, foi adorado em Serapias e condenado como bezerro de ouro na Bíblia.

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Muitas vezes as fronteiras entre o sagrado e o profano foram ignoradas pelas moedas. As que sobreviveram foram aquelas cujo valor real de mercado nunca foi violentado pelos governan- tes. Aparentemente, os deuses não protegem o dinheiro que usa seus santos nomes em vão. Nem perdoam aqueles que desprezam a ratio arbitrada nas relações normais de troca, atrope- lando a poupança e o valor real da moeda no tempo.

Através do diretor presidente, Edemir Pinto, o autor dessa visita ao passado remoto das moedas agradece à BM&FBOVESPA e a seus profissionais pela cessão do Espaço Cultural para a mostra.

A coleção, assim como o livro que dela nasceu, é apenas uma contribuição para uma antropo-

logia dos mercados do século XXI e a rede escolar brasileira. Oxalá seja útil para os pesquisado- res nesses tempos em que a moeda cada vez mais se desmaterializa. Talvez o mundo virtual dê mais frutos se for solidamente ancorado no mundo real.

Noenio Spinola

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A INVENçãO DA MOEDA

LíDIA/ÁSIA MENOR E GRÉCIA UMA HISTóRIA DE 2.600 ANOS

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LíDIA/ÁSIA MENOR E GRÉCIA UMA HISTóRIA DE 2.600 ANOS 10 Larissa, ninfa das águas da Tessália,

Larissa, ninfa das águas da Tessália, em dracma de 365 a.C.

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A HISTóRIA POLíTICA DO DINHEIRO NA BM&FBOVESPA Shekel de pedra Unidade de peso – Século VII/VIII

Shekel de pedra Unidade de peso – Século VII/VIII a.C.

Shekel de pedra Unidade de peso – Século VII/VIII a.C. Meio-stater AR/Siglos Moeda dos reis da

Meio-stater AR/Siglos Moeda dos reis da Lídia, Croesus – Século VI a.C.

Desde os tempos mais remotos, a mente humana descobriu a utilidade da padronização dos meios de pagamento. O Gênesis (Torá-23:16) registra uma transação de compra de terra paga por Abraão com 400 shekels de prata pelo preço de mercado.

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Entre 4.000 e 3.200 aos contados desde o tempo presente, período em que viveu Abraão, pe- daços de prata eram usados para facilitar o comércio. Bolas de pedra (shekels) eram usadas na Mesopotâmia como unidade de peso de metais preciosos negociados a preços de mercado.

Credita-se aos lídios e ao reino de Croesus, na Ásia Menor, a descoberta das vantagens de pa- dronizar e colocar marcas em pequenas moedas produzidas com o metal de uma liga de prata e ouro chamada electrum. Assim nasceu o electrum stater de Croesus, o rei mais rico do mundo em sua época. É surpreendente como, num período tão distante da história, os moedeiros já sabiam calcular a relação (ratio) entre ouro e prata, com fórmulas que continuam a ser usadas atualmente.

O duelo do touro com o leão é a primeira imagem consagrada em moeda. A simbologia mis- turava elementos sagrados e profanos e funcionava como uma espécie de marca registrada do reino garantidor do peso e da qualidade do metal.

Com a conquista da Lídia pelos persas, siglos com a figura de um arqueiro ajoelhado substi- tuíram os electrum-staters de Croesus. Pouco depois, a cultura grega voltou a dominar o Me- diterrâneo, deixando gravadas na prata e no ouro imagens de inigualável beleza estética, que resistiram à ação do tempo. A figura da ninfa das águas, Larissa, foi batida numa dracma por volta do ano 365 a.C.

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COLEçãO SPINOLA – NOMUS BRASILIANA O touro que aparece nas moedas de Croesus passou por muitas

O touro que aparece nas moedas de Croesus passou por muitas metamorfoses, ou epifanias,

geradas no imaginário social de diferentes povos e culturas. Em uma das suas mais populares ressurreições, o touro pode ser visto nas proximidades de Wall Street, onde opera como símbo-

lo do mercado de ações em alta.

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12 A HISTóRIA POLíTICA DO DINHEIRO NA BM&FBOVESPA Lídia, reino de Alyattes/Croesus (ou Kroisos) entre 600

Lídia, reino de Alyattes/Croesus (ou Kroisos) entre 600 e 580 a.C. El Trite (1/3 de electrum-stater c/54% de ouro) – 14mm, 4,6g. Cabeça de leão para direita, sol com cinco raios por trás da base da testa, característica do tipo 16 da Lídia. Alguns numismatas dizem que o Trite valia tanto quanto dez cabras; outros, que cobria um mês de susbsistência. Como o ouro podia cair para 30% da liga sem perda de valor, a cunhagem em si era um bom negócio. Historiadores usam a dinastia Mermnádia como referência para o momento provável do começo do uso prático de moedas. Heródoto reserva para Gyges (716- 678 a.C.) um lugar central nas fábulas em que ele conquista o poder depois de matar Candaules e fundar a dinastia que continua com Ardys II (678-629), Sadyattes (629-617), Alyattes II (617-560) e Croesus

(560-546).

Ar Stater (22mm, 8.96g) – Ilhas da Trácia, Thasos. Batida cerca de 500-463 a.C. Sátiro itifálico avança da esquerda para a direita, sequestrando ninfa. A imagem refletia a celebração natural da fertilidade, com uma visão do mundo e da vida que ignorava os conceitos de pecado criados, mais tarde, por outras culturas.

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Attica, Atenas. Batida entre 449 e 404 a.C. – AR tetradrachma (22mm, 16,99g, 9h). Cabeça de Atena virada para a direita, usando capacete (ou elmo) ático cristado/Coruja virada para a direita, cabeça em posição frontal; ramo de oliveira e lua crescente atrás, todo o conjunto dentro de quadrado incuso.

crescente atrás, todo o conjunto dentro de quadrado incuso. Pérsia, Aquemênida - Arqueiro – 420 a.C.
crescente atrás, todo o conjunto dentro de quadrado incuso. Pérsia, Aquemênida - Arqueiro – 420 a.C.

Pérsia, Aquemênida - Arqueiro – 420 a.C. – AR Siglos (15mm, 5,47g). Exércitos persas conquistaram a Lídia em 547 a.C., iniciando um período de hegemonia no Mediterrâneo. Arqueiros em moedas de prata e ouro circularam amplamente nessa época e aparecem em registros da Torá. Judeus exilados na Babilônia podem ter usado moedas semelhantes na volta para Jerusalém. Em 330 a.C., Alexandre, o Grande, conquista a Pérsia. Nasce o Império Grego.

China – Æ, moeda enxada Ming Dao – 475/221 a.C.

Alexandre, o Grande, conquista a Pérsia. Nasce o Império Grego. China – Æ, moeda enxada Ming

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GLóRIA E FIM DO IMPÉRIO DE ALEXANDRE, O GRANDE

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GLóRIA E FIM DO IMPÉRIO DE ALEXANDRE, O GRANDE 14 Atena usando elmo cristado corintiano em

Atena usando elmo cristado corintiano em stater de ouro dedicado a Alexandre, o Grande.

No início do século VI a.C., os traders gregos, no rastro dos fenícios, criaram, no Mediterrâneo, uma rede de comercialização de azeite, cerâmica, vinhos, ouro, prata. As ágoras gregas flores- ceram e a concorrência pelo controle dos meios de pagamento também. Os persas ganharam o primeiro tempo da disputa desses mercados, quando conquistaram a Lídia (atual Turquia), em 547 a.C., e a Babilônia. Em 330 a.C., Alexandre, o Grande reverteu o pêndulo do poder para o lado ocidental do mundo e a cultura monetária grega. Deuses e deusas como Atena, Zeus, Hér- cules, Nike e outros dividiram o espaço das moedas com imagens que evocavam Alexandre. A fragmentação do mundo helenístico entre os generais herdeiros de Alexandre abriu espaços para a emergência de novos atores e outro império: o romano.

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A HISTóRIA POLíTICA DO DINHEIRO NA BM&FBOVESPA Æ AS grave, As romano (pós 211 a.C.). A

Æ AS grave, As romano (pós 211 a.C.). A cabeça de Janus olha para o passado e o futuro na moeda que precede o denário. A cosmogonia romana atribuiu a Janus o papel de deus dos começos e transições. O nome foi emprestado ao primeiro mês do ano e, assim, janeiro perpetuou a memória de um mito romano nos calendários. A proa de uma galera celebra, no reverso, as armas navais e os feitos dos legionários que dominaram Mediterrâneo, Egito e norte da África.

que dominaram Mediterrâneo, Egito e norte da África. Tridrachma de Cartago, II Guerra Púnica (cerca de

Tridrachma de Cartago, II Guerra Púnica (cerca de 210-201 a.C.). A disputa pelo acesso a matérias- primas, comércio e controle da navegação gerou guerras entre um lado e outro do Mediterrâneo, que terminaram com a vitória esmagadora de Roma.

Alexandre III, o Grande (336-323 a.C.). Dracma de prata batida na Trácia no reino de Lisímaco (305-281 a.C.). A tiara com o chifre de Amon que segura o cabelo transporta simbologia destinada a mitificar e deificar a imagem. O chifre de Amon contém proporções preciosas para a antiga geometria sagrada. Curvas semelhantes derivam da vesica

pisces (área de interseção de duas circunferências) e remete

a

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Nomos da Calábria (280-272 a.C.). O mundo grego inspirou a moedagem romana, mas mitos locais, como o de Phalanto cavalgando golfinhos, conquistaram seu próprio espaço. Anverso: jovem nu montado em cavalo marchando para a direita.

cavalgando golfinhos, conquistaram seu próprio espaço. Anverso: jovem nu montado em cavalo marchando para a direita.

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CLEóPATRA E MARCO ANTONIO O LADO REAL DOS MITOS

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Cleópatra VII Thea Neotera (51-30 a.C.) – Reis ptolemaicos do Egito

VII Thea Neotera (51-30 a.C.) – Reis ptolemaicos do Egito Marco Antonio (40 a.C.) – AR

Marco Antonio (40 a.C.) – AR Denarius

Ptolomeu I, fundador da dinastia ptolemaica, aparece com Berenike no reverso de uma tetra- drachma de ouro batida em Alexandria, no reino de Ptolomeu II. Zeus Amon e uma águia pou- sada em raios dominam o verso e reverso da hemidrachma de bronze de Ptolomeu III. O bron- ze chegou a circular com boa aceitação no Egito, funcionando como moeda fiduciária numa época de prosperidade. Os ptolomeus conseguiram misturar deuses gregos com egípcios em relativa harmonia. As moedas de bronze da época refletem o equilíbrio dessa cosmogonia. Dois séculos depois, Cleópatra também aparece na face de moedas de bronze, mas a inflação e o desequilíbrio do tesouro dos herdeiros da dinastia ptolemaica destruíram a confiança na mo- eda de liga fraca. Em outras palavras, a moeda fraca expulsou a moeda forte da circulação. As pessoas entesouravam ouro e prata e tentavam passar o bronze adiante nas relações de troca.

Ptolomeu III Euguertes : Æ Hemidrachma (34mm, 35,24g, 12h), moeda de bronze batida em Alexandria,

Ptolomeu III Euguertes: Æ Hemidrachma (34mm, 35,24g, 12h), moeda de bronze batida em Alexandria, cerca de 245-222 a.C.

moeda de bronze batida em Alexandria, cerca de 245-222 a.C. Ptolomeu II com Arsinoe : tetradrachma

Ptolomeu II com Arsinoe: tetradrachma de ouro, batida em Alexandria entre 265 e 246 a.C.

17 A HISTóRIA POLíTICA DO DINHEIRO NA BM&FBOVESPA COLEçãO SPINOLA – NOMUS BRASILIANA
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A HISTóRIA POLíTICA DO DINHEIRO NA BM&FBOVESPA
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Cleópatra VII Thea Neotera com Ptolomeu XV (Caesarion). 51-30 a.C. – Reis ptolemaicos do Egito – Cleópatra como Afrodite para direita com capacete, segurando Caesarion como Eros nos braços.

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A HISTóRIA POLíTICA DO DINHEIRO NA BM&FBOVESPA 18 Antioco IV, rei selêucida da Síria, acreditava que

Antioco IV, rei selêucida da Síria, acreditava que era uma reencarnação divina, ou epifania. A lenda em torno da águia do Æ de bronze trata Antíoco como Theo Epifanoi (deus epifânio). Entre 167 e 164 a.C., Antíoco profanou o templo de Jerusalém, provocando uma guerra vencida pelos hasmoneus, liderados por Judah Macabeu.

Os macabeus inauguraram um período curto e brilhante de independência judaica em Jerusalém. As festas da Chanukah e os símbolos como o candelabro de sete pontas (menorá) vêm dessa época. A moeda com a âncora e a estrela é uma Æ Prutah, batida dos tempos de Alexandre Jannaeus (103/7 a.C.). As pequenas são prutot (plural de prutah) da mesma época.

As pequenas são prutot (plural de prutah) da mesma época. O dinheiro da viúva David Hendin,
As pequenas são prutot (plural de prutah) da mesma época. O dinheiro da viúva David Hendin,

O dinheiro da viúva David Hendin, perito em moedas bíblicas, diz que as pequenas prutot talvez sejam sobreviventes da moeda citado na Bíblia por Marcos (12:41) – Jesus viu uma viúva pobre contribuindo para o templo com uma moedinha e discutiu com os discípulos a sinceridade dos gestos humanos.

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DAI A CÉSAR O QUE É DE CÉSAR

QUEM ERA CÉSAR?

BRASILIANA DAI A CÉSAR O QUE É DE CÉSAR QUEM ERA CÉSAR? Julio César com véu

Julio César com véu / Vênus. (44 a.C.) AR Denario (17mm, 3,81g)

Júlio César com véu e legenda de ditador perpétuo em denário de prata. Vênus aparece no reverso com a figura da vitória pousada na mão direita. Moeda batida em Roma no ano 44 a.C., pouco antes dos idos de março. O nome era uma referência ao calendário lunar, mas entrou na história ligado à data do assassinato de César, tramado por Brutus.

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Tiberio César – Tribute Penny – Livia, Pax. (18/35 d.C.) AR Denario (18mm, 3,73g)

A HISTóRIA POLíTICA DO DINHEIRO NA BM&FBOVESPA
A HISTóRIA POLíTICA DO DINHEIRO NA BM&FBOVESPA

O DINHEIRO DO IMPOSTO

Tibério César em denário consagrado como dinheiro do imposto. Tibério reinou durante o período de vida de Cristo. Moeda semelhante pode ter inspirado a frase bíblica que Mateus atribuiu a Cristo na Parábola dos Convidados à Boda (22:16): ‘Dai a César o que é de César’.

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A HISTóRIA POLíTICA DO DINHEIRO NA BM&FBOVESPA Augusto (Divus)/Touro . (15/13 a.C.) AR Denario (18mm,

Augusto (Divus)/Touro. (15/13 a.C.) AR Denario (18mm, 3,77g)

As moedas em circulação no período de vida de Cristo geraram mais versões do que fatos provados. A frase da Parábola tanto pode se referir a Júlio César quanto a Tibério César ou Au- gusto. Júlio morreu meio século antes de Cristo. Tibério governou como sucessor de Augusto, que aparece no denário com um touro no reverso. Tibério, portanto, era o César que o cidadão comum relacionava à cobrança escorchante de taxas pelos romanos na época de Cristo.

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AE Tessera (tamanho real: 21mm, 4,56g 3h). Período de Tibério César (14-37 tempo de Cristo) – Descrita como cena heterossexual erótica. V na face oposta dentro de laurel. A letra V no reverso da Tessera dos tempos de Tibério pode indicar o que essas fichas compravam em bordéis. Se é verdade o que diz Suetônio na biografia clássica dos doze Césares, Tibério foi um dos mais depravados imperadores romanos. Procuradores como Pôncio Pilatus, que operavam na Judeia dominada pelos legionários, rezavam segundo a mesma cartilha.

Rosa Urbana | 2010 madeira recortada coberta de tela, pintada e desenhada com inclusão de
Rosa Urbana | 2010
madeira recortada coberta de
tela, pintada e desenhada com
inclusão de objetos
90 x 90 x 20cm
Coleção do artista
inclusão de objetos 90 x 90 x 20cm Coleção do artista Fenícia, Tyre (Tiro) . (126-5

Fenícia, Tyre (Tiro). (126-5 a.C.- 65-6 d.C.) AR Shekel (26mm, 14,16g, 1h). Datado de 96 CY (31/0 a.C.). Busto laureado de Melkart voltado para a direita. / ΤΥΡΟΥ ΙΕΡΑΣ ΚΑΙΑ ΣΥΛΟΥ (tal como aparece); águia de pé para a esquerda em proa; palma sobre asa direita; para a esquerda data sobre bastão; monograma para a direita, ‘B’ fenício entre pernas.

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TRINTA DINHEIROS

Touros e águias proliferavam em cultos politeístas e sacrifícios sangrentos. A religião judaica rejeita o politeísmo e o templo de Jerusalém não permitia a colocação de imagens, comuns nos rituais romanos. A águia era o símbolo dos dinheiros de Tyre. As moedas eram aceitas porque circulavam como uma espécie de dólar regional. O teor de prata, o peso e a qualidade facilitavam a circulação na Judeia. Por isso, os shekels de Tyre geraram outro mito bíblico: o dos trinta dinheiros. Dúvidas e incertezas cercaram essas moedas até o século passado. Modelos parecidos foram divulgados por autores de textos religiosos sem fundamentos arqueológicos ou numismáticos, amplamente copiados.

arqueológicos ou numismáticos, amplamente copiados. Báculo em Æ Prutah de Pôncio Pilatos , batido em

Báculo em Æ Prutah de Pôncio Pilatos, batido em Jerusalém (26/36 d.C.)

David Sear, em Greek Coins and Their Values, vol. II, traz uma tabela que facilita a compreensão das datas das shekels de Tyre. O detalhe gera controvérsias entre numismatas sobre se deter- minadas moedas, mesmo confirmadamente batidas em Tyre, podem ter circulado no perío- do que deu origem ao episódio dos trinta dinheiros. Na edição de maio de 2006, a National Geographic Society publicou um longo artigo de capa sobre o Evangelho de Judas. A inter- pretação do evangelho atribuído a Judas provocou mais controvérsias ainda sobre os fatos que cercam a morte de Cristo. Nada se fazia em Jerusalém sem que os procuradores roma- nos soubessem ou quisessem, diz Joseph Telushkin num best-seller sobre a cultura judaica.

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Moedas de Herodes I, o Grande, circularam na Judeia sem a independência das moedas dos Macabeus. A desesperada resistência dos judeus ao domínio romano culminou com a des- truição do templo de Jerusalém no ano 70 d.C., com a mortandade em massa dos que não conseguiram escapar dos legionários.

em massa dos que não conseguiram escapar dos legionários. Judea, Herodes I, o Grande (a/capacete/estrela -

Judea, Herodes I, o Grande (a/capacete/estrela - r/Tripod). (40/04 a.C.) Æ 8 Prutoh (26mm, 8,79g)

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DOZE CÉSARES ROMANOS E A SAGA DE SEUS DINHEIROS

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DOZE CÉSARES ROMANOS E A SAGA DE SEUS DINHEIROS 22 Quintus Servilius Caepio – Marcus Junius

Quintus Servilius Caepio – Marcus Junius

Brutus – (54 a.C.) AR Denarius (19mm, 3.80g, 3h)

– Moedeiro de Roma. No reverso desta moeda, o

cônsul Lucius Junius Brutus caminha entre dois lictores, precedido por um assessor (accensus).

“A moeda rememora a expulsão de Tarquinius Superbus, último rei de Roma, por Lucius Junius

Brutus (

(Fonte: CNG)

)

que em 509 a.C. foi eleito primeiro cônsul da nova República constituída em Roma.”

Marcus Junius Brutus entrou na história pelo assassinato político mais famoso de todos os tempos, o de César, seu pai adotivo.

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FACES DOS DOZE CÉSARES ROMANOS GRAVADAS NA PRATA

Um livro clássico de Suetônio, escrito por volta do ano 70 d.C., conta com palavras às vezes implacáveis, a história de doze césares. Os doze de Suetônio viraram um corte obrigatório na linha do tempo do dinheiro.

viraram um corte obrigatório na linha do tempo do dinheiro. César (49-44 a.C.) Cláudio (41-54 d.C.)

César (49-44 a.C.)

na linha do tempo do dinheiro. César (49-44 a.C.) Cláudio (41-54 d.C.) Vitelius (69 d.C.) Augusto

Cláudio (41-54 d.C.)

tempo do dinheiro. César (49-44 a.C.) Cláudio (41-54 d.C.) Vitelius (69 d.C.) Augusto (27 a.C. -14

Vitelius (69 d.C.)

César (49-44 a.C.) Cláudio (41-54 d.C.) Vitelius (69 d.C.) Augusto (27 a.C. -14 d.C.) Nero (54-68

Augusto (27 a.C. -14 d.C.)

(41-54 d.C.) Vitelius (69 d.C.) Augusto (27 a.C. -14 d.C.) Nero (54-68 d.C.) Vespasiano (69-79 d.C.)

Nero (54-68 d.C.)

(69 d.C.) Augusto (27 a.C. -14 d.C.) Nero (54-68 d.C.) Vespasiano (69-79 d.C.) Tibério (14/37 d.C.)

Vespasiano (69-79 d.C.)

(27 a.C. -14 d.C.) Nero (54-68 d.C.) Vespasiano (69-79 d.C.) Tibério (14/37 d.C.) Galba (68-69 d.C.)

Tibério (14/37 d.C.)

(54-68 d.C.) Vespasiano (69-79 d.C.) Tibério (14/37 d.C.) Galba (68-69 d.C.) Tito (79-81 d.C.) Calígula (37/41

Galba (68-69 d.C.)

(69-79 d.C.) Tibério (14/37 d.C.) Galba (68-69 d.C.) Tito (79-81 d.C.) Calígula (37/41 d.C.) Oto (69

Tito (79-81 d.C.)

Tibério (14/37 d.C.) Galba (68-69 d.C.) Tito (79-81 d.C.) Calígula (37/41 d.C.) Oto (69 d.C.) Domiciano

Calígula (37/41 d.C.)

Tibério (14/37 d.C.) Galba (68-69 d.C.) Tito (79-81 d.C.) Calígula (37/41 d.C.) Oto (69 d.C.) Domiciano

Oto (69 d.C.)

Tibério (14/37 d.C.) Galba (68-69 d.C.) Tito (79-81 d.C.) Calígula (37/41 d.C.) Oto (69 d.C.) Domiciano

Domiciano (81-96 d.C.)

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COLEçãO SPINOLA – NOMUS BRASILIANA 24 Augustus ( 27 a.C.-14d.C.) AR Denarius (18mm ,3,91g, 6h). Batida

Augustus (27 a.C.-14d.C.) AR Denarius (18mm ,3,91g, 6h). Batida em casa de moeda incerta localizada na Espanha, talvez em Tarrco, por volta de 19 a.C. Cabeça nua voltada para a direita - / OB/CIVIS/SERVATOS em três linhas, dentro de laurel de carvalho com as pontas de duas fitas para cima.

OB CIVIS SERVATOS: A HISTóRIA DA COROA CíVICA

A origem do uso da coroa cívica como laurel para fins militares ou políticos é atribuído aos gregos pelos historiadores, sem muita precisão ou certeza. Romanos disseram que a coroa é uma herança grega. Os registros mais confiáveis sugerem que o uso de coroas foi popularizado pelos jogos olímpicos. Daí, passou para o circo romano e, finalmente, foi transformada em lau- rel para agraciar grandes feitos militares. A coroa com a inscrição Ob Civis Servatos ganhou fama porque foi concedida a Augusto pelo Senado. Teoricamente, só podia ser concedida a quem, numa guerra ou situação de extremo perigo, servisse aos cidadãos salvando suas vidas. A co- roa não podia ser reivindicada: tinha de ser concedida de baixo para cima, dos salvos para os salvadores. Ironicamente, imperadores que nunca se arriscaram para salvar a vida de ninguém, como Calígula, se apropriaram da legenda para uso no reverso de suas moedas.

POR QUE O CRIADOR DE SHERLOCK HOLMES COLECIONAVA MOEDAS? A HISTóRIA POLíTICA DO DINHEIRO NA
POR QUE O CRIADOR DE SHERLOCK HOLMES COLECIONAVA
MOEDAS?
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Claudius. (41-54 d.C.) Æ Quadrans (17mm, 3.49g, 6h) cunhado em Roma por volta de 41d.C. Modius com três pernas, grande SC no reverso. Ao lado, modius da coleção de Conan Doyle adquirida para o acervo do livro Deuses, Dinheiro e Poder.

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A TRAIçãO DE MONETA

DO DINHEIRO NA BM&FBOVESPA A TRAIçãO DE MONETA FOLLIS DE DIOCLECIANO Diocleciano com Moneta (301 d.C.).

FOLLIS DE DIOCLECIANO

Diocleciano com Moneta (301 d.C.). Æ Follis (27mm, 9,40g)

Diocleciano (284-395 d.C.) fez várias reformas para tentar manter o Império Romano e recu- perar espaços perdidos nas fronteiras com árabes e tribos europeias. O follis, onde a deusa Moneta aparece com uma balança na mão direita e cornucópia na esquerda, mostra a face real do dinheiro do dia a dia: aos poucos, a mão humana raspou o banho enganador de prata, que tingia a superfície da moeda.

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ARGêNTEO

O argênteo do ano 294 mostra os tetrarcas que dividiam o poder com Diocleciano comemo- rando vitórias. O argênteo de prata não resistiu à ação do tempo, pois a relação de preços e valores com outras moedas, como o aureus e o nummus, ignoraram as leis do mercado. As moedas fracas simplesmente expulsam as moedas fortes da circulação: as fortes são entesou- radas e as fracas são passadas adiante. Moneta, com a balança na mão, parece mandar uma mensagem secular a quem interessar possa.

Diocleciano / Rev: tetrarcas sacrificando (294 d.C.). AR Argenteo (3,32g)

uma mensagem secular a quem interessar possa. Diocleciano / Rev: tetrarcas sacrificando (294 d.C.). AR Argenteo

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A HISTóRIA POLíTICA DO DINHEIRO NA BM&FBOVESPA Constantino I olhando para o céu – VOT XXX

Constantino I olhando para o céu – VOT XXX (Votos feitos a divindades) (325/6 d.C.) Æ Follis (20mm, 3,70g)

feitos a divindades) (325/6 d.C.) Æ Follis (20mm, 3,70g) Magnentius – Chi Rho (Centenionalis duplo) (353

Magnentius – Chi Rho (Centenionalis duplo) (353 d.C.) Æ Duplo Centen (27mm, 7,98g)

A guerra da sucessão de Diocleciano foi vencida por Constantino, o Grande. Versões cristãs dizem que Constantino sonhou com as iniciais de Cristo em grego (XP) e venceu batalhas. O símbolo foi usurpado por um concorrente (Magnentius).

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O símbolo foi usurpado por um concorrente (Magnentius). 26 Constantius II / Lábaro no reverso. (337/61

Constantius II / Lábaro no reverso. (337/61 d.C.) Æ Centenionalis (21mm, 4,01g)

Sucessores de Constantino conseguiram recuperar o XP. O símbolo foi inscrito num lábaro carregado pelos legionários de Constantius. Daí vem a legenda que domina antigas moedas brasileiras: In Hoc Signo Vinces (Com este sinal vencerás).

ASCENSãO E QUEDA DE CONSTANTINOPLA

Constantinopla se transformou em Império Bizantino depois do colapso do Império Romano (~475 d.C.). As moedas bizantinas concorreram bravamente com as moedas islâmicas. Árabes dominaram a Península Ibérica até o século XII, quando portugueses e espanhóis reconquis- taram seus territórios. Constantinopla foi dominada por otomanos em 1453 e passou a se cha- mar Istambul. As moedas batidas entre os séculos V e XII depois de Cristo mostram a ascensão da cruz como símbolo central do dinheiro bizantino e do Sacro Império Romano, que emerge na Europa com o Império Carolíngio (Carlos Magno, ou Charlemagne). Sólidus, follis, hexagra- mas e outras moedas ancoradas no símbolo da cruz concorreram sem tréguas com as dracmas árabe-sassânidas e islâmicas em geral.

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COLEçãO SPINOLA – NOMUS BRASILIANA Solidus de ouro de Justiniano com anjo no reverso (527 d.C.)

Solidus de ouro de Justiniano com anjo no reverso (527 d.C.)

de ouro de Justiniano com anjo no reverso (527 d.C.) Dracma concorrente , tipo árabe/Sassânida de

Dracma concorrente, tipo árabe/Sassânida de 699 a.C

d.C.) Dracma concorrente , tipo árabe/Sassânida de 699 a.C Hexagrama bizantino de Heráclio com cruz potente

Hexagrama bizantino de Heráclio com cruz potente sobre globo e legenda Devs Adivta Romani (615 d.C.)

sobre globo e legenda Devs Adivta Romani (615 d.C.) Cruzadas – BI Denier do Reino Latino

Cruzadas – BI Denier do Reino Latino de Jerusalém no período de Balduíno III (1143-1163)

Cristo entronizado em histamenon nomisma de ouro, cunhado em Constantinopla no ano 1028.

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A HISTóRIA POLíTICA DO DINHEIRO NA BM&FBOVESPA
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27 A HISTóRIA POLíTICA DO DINHEIRO NA BM&FBOVESPA Morabetino Alfonsi (1211) – Esse raríssimo morabetino de

Morabetino Alfonsi (1211) – Esse raríssimo morabetino de ouro cunhado por portugueses e espanhóis para financiar a reconquista da Península Ibérica reflete um trecho importante na evolução cultural e religiosa da época. A cruz cristã é rodeada por legenda escrita em árabe. A reconquista acontece depois de uma razoável convivência entre árabes, judeus e cristãos. O período foi interrompido pelos Tribunais da Inquisição e o crescimento do radicalismo religioso leste/oeste.

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DO DIREITO DIVINO DOS REIS AOS JOGOS DO PODER COLONIAL

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DO DIREITO DIVINO DOS REIS AOS JOGOS DO PODER COLONIAL 28 Penny de William I, o

Penny de William I, o Conquistador, batido em Winchester (1066/1087). Normandos que conquistaram a Inglaterra no século XII mandaram cortar a mão e mutilar moedeiros do reino porque se descuidaram do valor do penny.

moedeiros do reino porque se descuidaram do valor do penny. Nobre de ouro de Eduardo III

Nobre de ouro de Eduardo III Plantageneta batido em Londres (1361)

ouro de Eduardo III Plantageneta batido em Londres (1361) Grosso de prata do Papa Alexandre VI

Grosso de prata do Papa Alexandre VI (1492/1503) do período do Tratado de Tordesilhas

VI (1492/1503) do período do Tratado de Tordesilhas Reales de prata dos reis católicos da Espanha

Reales de prata dos reis católicos da Espanha Fernando e Isabel (1474-1504)

Nessa época, o direito internacional baseado em decisões e bulas dos papas começou a ser questionado. As fronteiras do sagrado e do que era profano balançaram. O reino de Eduardo III fez acordos dinásticos com Portugal. Felipa de Lencastre, neta de Eduardo III e filha de João de Gaunt, personagem do drama de Ricardo II de Shakespeare, casou com o fundador da Dinastia de Aviz, D. João I. Parte dessa engenharia familiar e financeira entra na história do desenvolvi- mento da tecnologia naval e descobertas portuguesas.

Dobrão de ouro de 20$000 (vinte mil réis) de D. João V cunhado em Minas em 1727

(vinte mil réis) de D. João V cunhado em Minas em 1727 Enquanto peregrinam ao longo

Enquanto peregrinam ao longo de séculos e milênios, formas e símbolos sagrados se infiltram no dinheiro, nas arenas e nos jogos do poder. O símbolo central do dobrão, a Cruz de Cristo, lembra elementos que, no passado remoto, eram tidos como parte de uma geometria sagrada.

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A HISTóRIA POLíTICA DO DINHEIRO NA BM&FBOVESPA ANJOS DE OURO E NARIZ DE LATãO Henry VIII

ANJOS DE OURO E NARIZ DE LATãO

Henry VIII (1491-1547), Rei da Inglaterra – (1509-1547).

– Anjo, AV – 7s. 6d., i.é: 7 shillings e 6 pences (em 6d a letra

d deriva de denário). Peso: 5,18g (5,16g atual). - São Miguel matando dragão no anverso e legenda em gótico: henric VIII D G R Agl z F-France (Henrique VIII pela graça de Deus rei da Inglaterra e da França). Reverso: brasão real em mastro sobre navio singrando p/ direita de quem olha para a moeda. Legenda do reverso: PER xx CRVCE x TUA x SALVA x nOS x XPE

x RED (Por tua Cruz Salva-nos Oh Cristo Redentor). Brasão

alinhado sobre o mastro, em quartos, com três flores-de-lis douradas e três leões passando em guarda. Rosa (cinquefoil) e h flanqueando Cruz.

Guilherme VI (1627-1663), Alemanha, Hessen-Kassel

– AR Taler (42mm, 28,95g, 9h). Mestre moedeiro Georg

Kruckenberger. Datado de 1637. Leão coroado rampante para a esquerda no anverso. Reverso: salgueiro açoitado por sopro de vento, à esquerda. Raio vindo de nuvens logo acima. Sol raiando na posição de 13hs com inscrição em hebraico ‘Jeová’ e legenda em latim Iehova Volente Humilis Levabor.

O nome táler, ou thaler, evoluiu para dólar. Essa emissão de

Kassel reflete a turbulência da época. Na cultura judaica mais profunda não se deve usar em vão, ou sequer escrever com

todas as letras o santo nome de D’us.

sequer escrever com todas as letras o santo nome de D’us. 29 A história do dinheiro

29

A história do dinheiro inglês registra poucos casos de desrespeito dos reis à moeda. Uma das exceções acontece no reino de Henrique VIII, que ganhou dos contemporâneos o apelido “na- riz de latão’” (old copper nose – literalmente: nariz de cobre velho). Com o passar do tempo e os dedos polindo o metal, algumas moedas mostravam, através do nariz liso, a cor real do cobre por baixo do banho de prata. Os anjos de ouro não foram capazes de salvar a reputação de Henrique VIII. Os comentaristas de Spink são mais indulgentes. Eles lembram os esforços feitos pelo rei em 1526 para evitar a drenagem do ouro inglês para a Europa e a concorrência com moedas francesas, como o Ecu Au Soleil. A Inglaterra não tinha ainda, nessa época, conquista- do a hegemonia que viria depois da derrota da armada espanhola, do progressivo declínio da França e Espanha e da acumulação de riqueza com a Revolução Industrial.

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A HISTóRIA POLíTICA DO DINHEIRO NA BM&FBOVESPA

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A HISTóRIA POLíTICA DO DINHEIRO NA BM&FBOVESPA 30 Macuquina cerceada. 8 reales de Felipe II ou

Macuquina cerceada. 8 reales de Felipe II ou III da Espanha. Carimbo com escudo de Portugal (1580/1640) 8 reales (39mm, 27,1g)

com escudo de Portugal (1580/1640) 8 reales (39mm, 27,1g) Standard Ten Penny Weights – Peso inglês

Standard Ten Penny Weights – Peso inglês padrão

EM BUSCA DE PADRõES

Submetida a uma balança de precisão, a medida de ten penny weights (acima) revelará que pesa 15,5g ou 0,54oz, 10dwt ou 0,49ozt. Padrões britânicos desse tipo derivam de uma cultura secular, com lições cruéis de imposição para fazer valer a lei (law enforcement). Nenhuma man- chete sobre a punição dos responsáveis por pirâmides desmoronadas no setembro negro de 2008 teve impacto comparável ao da notícia que circulou em Londres na véspera do Natal do ano 1124: os moedeiros do rei, acusados de crimes contra o penny, foram convocados ao pa- lácio e saíram de lá castrados, ou com a mão direita decepada. A crônica da época diz que não foram mortos porque o rei queria que continuassem vivos, andando pelas ruas e mostrando quanto custou caro tripudiar sobre a solidez da moeda.

quanto custou caro tripudiar sobre a solidez da moeda. Portugal – Meio tostão, carimbo de 60

Portugal – Meio tostão, carimbo de 60 (1521/77) AR 60 réis (15mm, 3,60g)

tostão, carimbo de 60 (1521/77) AR 60 réis (15mm, 3,60g) França real – Felipe VI de

França real – Felipe VI de Valois (1328-1350). AV ÉCU D’OR À LA CHAISE (26mm, 4,47g, 12h), 2ª emissão, 10/04/1343. Figura inteira frontal de Felipe VI sentado em trono gótico ornado, segurando escudo e espada, emoldurado por arcos. Reverso:

cruz florida ornada com flor de quatro pétalas no centro, barras e entrefolhas; folhas em quadrantes, cruz florida.

DNA DO DINHEIRO NAS AMÉRICAS I

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NAS AMÉRICAS I COLEçãO SPINOLA – NOMUS BRASILIANA Reales de 1767 com marca de Potosi (Bolívia)

Reales de 1767 com marca de Potosi (Bolívia) Carlos IIII - México - AR 8 reales (38mm, 26,7g) Reales espanhóis eram conhecidos nas colônias norte- americanas como pillar dollar. As colunas lembram o mar aberto além do estreito de Gibraltar. Eram conhecidas como Colunas de Hércules e evocam a conquista do oceano além do estreito que separa a Europa da África. As faixas em torno das colunas podem ter inspirado o $ (cifrão) como símbolo de dinheiro.

Fugio de Benjamin Franklin de 1787 – Um centavo. A primeira tentativa norte-americana de moeda própria traz uma palavra-chave, fugio, que lembra o valor do dinheiro no tempo. Tempo é dinheiro (time is money). A legenda mind your business (cuide de seu negócio) se identifica com o pragmatismo típico do imaginário norte-americano. Filósofos como Pierce ajudaram a aprofundar o significado do pragmatismo.

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A HISTóRIA POLíTICA DO DINHEIRO NA BM&FBOVESPA
A HISTóRIA POLíTICA DO DINHEIRO NA BM&FBOVESPA

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COLEçãO SPINOLA – NOMUS BRASILIANA O século XVIII começa com moedas de prata, ouro e cobre

O século XVIII começa com moedas de prata, ouro e cobre e termina com o papel-moeda

como meio alternativo de pagamento. No fim da era colonial, o câmbio era balizado por reales

e dobrões espanhóis, cunhados em prata e ouro. A competitividade dos reales com os táleres europeus era beneficiada pelo trabalho escravo nas minas da Bolívia, do Peru e de outras colônias. O esgotamento das minas e a independência das colônias empurrou aos poucos o mundo para novos padrões de troca. A passagem para o papel-moeda cobrou quase um século de reciclagem do relacionamento das pessoas com a moeda. Cédulas educacionais lançadas nos Estados Unidos com lastro em prata contribuíram para a mudança. Neste certificado de prata de um dólar a alegoria feminina dirige o olhar de uma criança para a Constituição.

32 Nova constellatio – Olho da Providência, raios (1785) A HISTóRIA POLíTICA DO DINHEIRO NA
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Nova constellatio – Olho
da Providência, raios (1785)
A HISTóRIA POLíTICA DO DINHEIRO NA BM&FBOVESPA
(1785) A HISTóRIA POLíTICA DO DINHEIRO NA BM&FBOVESPA Dois símbolos que mais tarde dominam as cédulas
(1785) A HISTóRIA POLíTICA DO DINHEIRO NA BM&FBOVESPA Dois símbolos que mais tarde dominam as cédulas

Dois símbolos que mais tarde dominam as cédulas do dólar surgem, ainda de forma primitiva,

nas moedas e cédulas que circularam no período da guerra da independência norte-americana.

O Olho da Providência aparece no centro da moeda de cobre que ficou conhecida como

Constellatio Nova (Constelação Nova). A pirâmide cortada (frustum) aparece em Continental

Notes (cédulas continentais) de 1778 com a palavra Perennis no alto. Depois da independência,

as notas viraram pó, mas a pirâmide cortada vingou como símbolo central na moeda norte-

americana. A crise que gerou a Guerra de Secessão foi vencida, a inflação ficou sob controle e

o dólar passou a balizar o câmbio no mundo, funcionando como moeda de reserva. O Olho da Providência foi acrescentado às cédulas do dólar.

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QUEBRA DE PADRãO DE 1799 Contribuição colonial para a cultura da transgressão inflacionária no Brasil

para a cultura da transgressão inflacionária no Brasil Maria I Brasil Colonial - XX Quebra Padrão

Maria I Brasil Colonial - XX Quebra Padrão - XX réis (36mm,14,30g)

Colonial - XX Quebra Padrão - XX réis (36mm,14,30g) Maria I Brasil Colonial - XX Quebra

Maria I Brasil Colonial - XX Quebra Padrão (Módulo Menor) - XX réis (30mm, 6,00g)

Em tempos de queda da Bastilha e crises generalizadas na Europa, as moedas de cobre em circulação no Brasil têm o peso reduzido à metade, mantendo o mesmo valor. O período é de crises nos dois lados do Atlântico. A Inconfidência Mineira (1789) coincide com o reino de D. Maria (1777-86 e 86-92). As jazidas de ouro começam a se esgotar em Minas Gerais e indústrias nascentes são destruídas no Brasil, para não violar acordos de Portugal com parceiros europeus. D. Maria enlouquece e D. João assume como regente em 1799. Em 1808, a família real vem para o Brasil com o apoio da marinha de guerra britânica, escapando da invasão das tropas de Napoleão Bonaparte.

escapando da invasão das tropas de Napoleão Bonaparte. Maria I D G Port Et Alg Regina

Maria I D G Port Et Alg Regina – Véu toucado (1796) – R 1796/AV 6.400 réis

Regina – Véu toucado (1796) – R 1796/AV 6.400 réis Ioannes D G Port Et Alg

Ioannes D G Port Et Alg Regens – 1811 (1811) AV 6.400 réis

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DNA DO DINHEIRO NAS AMÉRICAS II

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1-D. João V,1730 M, dobra de 12.800 réis. 2-D. João VI Regente, 1811 R, 6.400 réis. 3-D. Pedro I, 1824 R, 4.000 réis. 4-LXXX réis verdadeira, cobre. 5-LXXX réis falsa (tipo xem-xem), cobre. 6-Cobre com carimbo de 40, alterando o valor. 7-Cobre de 75 réis, 1830 M com golpe da lei.

8-D. Pedro II menino, 1834 R, 10.000 réis. 9-D. Pedro II papo de tucano, 1851, 20.000 réis. 10-D. Pedro II, 20 réis de bronze. 11-D. Pedro II em 20.000 de ouro de 1889, às vésperas da proclamação da República. 12-França, perfil com barrete frígio que inspira o dólar de Morgan de prata.

13-Efígie da República. 14-Moeda brasileira de ouro de 1889. 15-2.000 réis de 1906 com peso declarado:

XX grammas. 16-Real em circulação em 2011.

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O período colonial durou mais no Brasil do que na América do Norte. O ciclo do ouro be-

neficiou Portugal e o esgotamento das minas gerou crises. Invasões de Napoleão Bonaparte obrigaram a corte portuguesa a se transferir para o Rio em 1808. Carimbos de 960 réis foram aplicados em reales de prata das colônias espanholas que valiam 750 no mercado. A diferença ajudou a financiar o tesouro do reino. Ao contrário da América independente, onde as primei- ras moedas foram cunhadas lembrando que“tempo é dinheiro”, as moedas imperiais brasileiras

mantiveram boa parte da simbologia do reino colonial. A transição do Império para a Repúbli-

ca foi tortuosa. Custos de guerra e gastos da corte aceleraram a inflação. Carimbos e mudanças

de padrão impediram a formação de uma memória brasileira de valor da moeda. Seguindo a boa e velha lei de Gresham, moedas más expulsaram moedas boas de circulação. Moedas de ouro foram entesouradas: D. João V, D. João VI e D. Pedro II. Moedas de cobre foram passadas adiante, depreciadas por todos os tipos de falsificação e carimbos. O Barão de Mauá registra, em autobiografia, a vergonha causada pelo cobre. O Brasil não foi o único país vitimado pela praga do cobre falso entre os séculos XIX e XX. Nesse intervalo, a mente humana começava a trocar a moeda metálica pelo papel-moeda. Leis rigorosas foram aplicadas para acabar com o negócio em Nova York e alguns falsários passaram a operar no Brasil.

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imagem de D. Pedro II, que dominou as moedas com retratos de criança, adolescente, adulto

e

uma grande barba imperial, foi aposentada pela República em 1889. Surge a alegoria femi-

nina com o barrete frígio, inspirada pela liberdade francesa que, por sua vez, copiou o barrete romano e inspirou também outras moedas como o dólar de Morgan.

35 O IMAGINÁRIO SOCIAL QUE NãO CONSEGUIU CONTAMINAR AS MOEDAS BRASILEIRAS Sol Argentino - Províncias
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O IMAGINÁRIO SOCIAL QUE NãO CONSEGUIU CONTAMINAR AS
MOEDAS BRASILEIRAS
Sol Argentino - Províncias del Rio de La
Plata com marca de Potosi (Bolívia), AR
8 reales, 1816 (38mm, 26,60g)
A HISTóRIA POLíTICA DO DINHEIRO NA BM&FBOVESPA

Barrete frígio na ponta de bastão ou espadim no anverso, seguro por mãos entrelaçadas. A posição das mãos é comum na simbologia adotada para propagandear acordos (em geral, frágeis) de césares e comandantes de legiões romanas. Sol com raios no reverso. Legenda En union y libertad. A região onde hoje se encontram Argentina, Uruguai e Paraguai foi palco se- cular de disputas entre portugueses e espanhóis. Os reales cunhados com a prata de Potosi

e outras minas da costa leste da América do Sul atravessavam as fronteiras com facilidade. O

barrete frígio que aparece no anverso dos reales tentou, sem sucesso, entrar no dinheiro brasi- leiro. Numismatas não chegaram a um consenso sobre se moedas com esse carimbo, batizado Piratini, efetivamente circularam. Os carimbos foram amplamente falsificados.

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RAINHA VITóRIA E SHERLOCK HOLMES

NA BM&FBOVESPA RAINHA VITóRIA E SHERLOCK HOLMES Meio soberano de ouro (1894) com perfil da Rainha

Meio soberano de ouro (1894) com perfil da Rainha Vitória e São Jorge a cavalo matando o dragão

O imaginário capturado pelo romanceiro popular ajuda numismatas a decifrar o valor do dinheiro no tempo. Num livro de sir Arthur Conan Doyle, Sherlock Holmes paga meio soberano

a um personagem que atraiu para uma entrevista destinada a investigar suspeitos de um crime.

Doyle colecionava moedas. Outro escritor, Alexandre Dumas, usa o pistole francês para definir a escala de valores dos mosqueteiros D’Artagnan, Athos, Portos e Aramis.

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Entre os séculos XVIII e XIX, a linha do tempo mostra como se construiu o imaginário financeiro num período em que o Império Espanhol caiu e o Império Britânico emergiu. Portugal fez

a aliança política certa quando preferiu a Grã-Bretanha à Espanha, escapando de Napoleão.

Parte do ouro brasileiro virou moeda inglesa ao longo de décadas das alianças que ajudaram a consolidar a soberania brasileira na América do Sul entre os séculos XIX e XX.

Soberanos como o da história de Sherlock começaram a circular em 1489 sem marca de valor, com 23 quilates e 240 grãos, 15,6g ou 1/2 onça troy. Em 1816, foram recunhados para pesar 113 grãos, ou 7,32228 gramas. O meio soberano de 1894 da coleção com marcas de uso dos tempos de Sherlock, pesa 3,9 gramas (0,134041 oz ou 2.5 dwt). Durante a I Guerra, a Grã- Bretanha emitiu notas para troco por soberanos. Ninguém trocava.

emitiu notas para troco por soberanos. Ninguém trocava. República , perfil no anverso e estrela no
emitiu notas para troco por soberanos. Ninguém trocava. República , perfil no anverso e estrela no

República, perfil no anverso e estrela no reverso (1897) 2000 réis

Usadas para pagar dívidas externas, muitas moedas brasileiras com belos desenhos são raras porque foram derretidas por causa do valor da prata.

LIBERDADE COM SEIO DESNUDO: UM DESAFIO à MORAL VITORIANA DO INíCIO DO SÉCULO XX NOS ESTADOS UNIDOS

MORAL VITORIANA DO INíCIO DO SÉCULO XX NOS ESTADOS UNIDOS Liberdade com Seio Desnudo (EuA) –

Liberdade com Seio Desnudo (EuA) – In God We Trust (Standing Liberty) – 1917, 25 cents

Alguns numismatas acham que a moral vitoriana forçou a retirada dessas moedas de circula- ção,
Alguns numismatas acham que a moral vitoriana forçou a retirada dessas moedas de circula-
ção, pois o seio desnudo ofendeu as mentes mais puritanas.
Brasil, Revolução de 1932 –
Medalha: soldado/S.Paulo (1932)
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Muitas são as explicações dos historiadores para as causas verdadeiras da Revolução de 1932.
As lideranças do movimento em São Paulo emitiram medalhas, aplicaram carimbos em moe-
das correntes e emitiram papel-moeda. Medalhas capturaram uma parte do imaginário da
época, como a associação do direito com a força através da imagem de São Paulo com a es-
pada na mão.
A HISTóRIA POLíTICA DO DINHEIRO NA BM&FBOVESPA
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NA BM&FBOVESPA COLEçãO SPINOLA – NOMUS BRASILIANA Brasil , carimbos da revolução de 1932 – sobre

Brasil, carimbos da revolução de 1932 – sobre XX gramas de 1911 (1932), 2000 réis

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PAPEL-MOEDA

As crises do início da República não contribuíram para criar um escudo sólido em torno do

dinheiro brasileiro. Os réis de prata do início do século passado, a exemplo dos 2.000 réis de

XX grammas, traziam o peso escrito no exergue (parte de baixo da moeda) para convencer o

usuário de que valiam mesmo alguma coisa. O papel-moeda emitido também reflete, através

da

profusão de carimbos, a destruição da memória de valor do dinheiro. Em tempos recentes,

o real conseguiu consolidar uma memória de valor.

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só o real conseguiu consolidar uma memória de valor. 1 2 38 3 6 5 A

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A HISTóRIA POLíTICA DO DINHEIRO NA BM&FBOVESPA 9 4 7 10 8 1-Banco do Brazil –

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1-Banco do Brazil – Thesouro – 20 mil- réis. 1ª série, estampa 12ª, 1921. 2-República dos Estados unidos do Brazil – Thesouro – 1 mil-réis, 1ª série, estampa 12ª, 1921. 3-Império do Brasil – Thesouro – 1 mil- réis, 1ª série, estampa 12ª, 1921. 4-República dos Estados unidos do Brazil, 2 mil-réis, estampa 11ª, 1918.

5-República dos Estados unidos do Brazil , 20 mil-réis, com carimbo Caixa de Estabilização, 1926. 6-Casa da Moeda – 500 mil-réis, com carimbo de 500 cruzeiros, série 137A, estampa 15A, 1942. 7-Banco Central do Brasil – 1.000 cruzeiros, com carimbo de 1 cruzeiro novo, modelo série 000 ª, estampa 0ª, 1966.

8-Banco Central do Brasil – 10.000 cruzados, carimbo de 1 cruzado novo, estampa Machado de Assis, 1989. 9-Banco Central do Brasil – 100 mil

cruzeiros, carimbo de 100 cruzeiros reais, estampa de beija-flor, 1993. 10-Banco Central do Brasil –10 reais, com autógrafo de Fernando H. Cardoso,

1994.

REAlizAçãO

BM&FBOVESPA

CuRADORiA

Claudio Marcos Angelini

COlEçãO

Coleção Spinola – Nomus Brasiliana

FOtOgRAFiA

Renata Del Soldato

MOntAgEM

Manuseio Montagem e Produção Cultural

lAuDOS téCniCOS DE COnSERVAçãO

Atelier Raul Carvalho

iluMinAçãO

Mingrone Iluminação e Consultoria

COMuniCAçãO ViSuAl

Ludo Design

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