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FILOSOFIA E HISTÓRIA DA CULTURA

MÁRIO FERREIRA DOS SANTOS

FILOSOFIA
COLEÇÃO DOS GRANDES TEMAS SOCIAIS
Fazem parte desta coleção as seguintes obras de Mário Ferreira dos Santos: 1) 2) 3) 4) 5) 6) 7) 8) 9) Tratado de Economia I vol. Tratado de Economia II vol. Filosofia e História da Cultura I vol. Filosofia e História da Cultura I I vol. Filosofia e História da Cultura m vol. Análise de Temas Sociais I vcl. Análise de Temas Sociais II vol. Análise de Temas Sociais m vol. O Problema Social

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HISTÓRIA DA CULTURA
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LIVRARIA E EDITORA LOGOS LTDA. Rua 15 de Novembro, 137 — 8.° andar — Telefone: 35-6080 SAO PAULO — BRASIL

l. a edição — Março de 1962

Enciclopédia de Ciências Filosóficas e Sociais
de Mário Ferreira dos Santos

VOLUMES PUBLICADOS: ADVERTÊNCIA AO LEITOR Sem dúvida, para a Filosofia, o vocabulário é de máxima importância e, sobretudo, o elemento etimoló­ gico da composição dos termos. Como, na ortografia atual, são dispensadas certas consoantes (mudas, en­ tretanto, na linguagem de hoje), nós as conservamos apenas quando contribuem para apontar étimos que facilitem a melhor compreensão da formação histó­ rica do termo empregado, e apenas quando julgamos conveniente chamar a atenção do leitor para eles. Fazemos esta observação somente para evitar a es­ tranheza que possa causar a conservação de tal grafia. MÁRIO FERREIRA DOS SANTOS 1) 2) 3) 4) 5) 6) 7) 8) 9) 10) 11) 12) 13) 14) 15) 16i 17) 18) 19) 20) 21) 22) 23) 24) 25) 26) 27) 28) 29 i Filosofia e Cosmovisão Lógica e Dialéctica Psicologia Teoria do Conhecimento Ontologia e Cosmologia Tratado de Simbólica Filosofia da Crise (Temática) O Homem perante o Infinito (Teologia) Noologia Geral Filosofia Concreta I vol. Filosofia Concreta I I vol. Filosofia Concreta III vol. Filosofia Concreta dos Valores Sociologia Fundamental e Ética Fundamental Pitágoras e o Tema do Número (Temática) Aristóteles e as Mutações (Temática) O Um e o Múltiplo em Platão (Temática) Métodos Lógicos e Dialécticos I vol. Métodos Lógicos e Dialécticos II vol. Métodos Lógicos e Dialécticos III vol. Filosofias da Afirmação e da Negação (Temática Dialéctica) Tratado de Economia I vol. Filosofia e História da Cultura I vol. Filosofia e História da Cultura II vol. Filosofia e História da Cultura H l vol. Análise de Temas Sociais I vol. Análise de Temas Sociais II vol. Análise de Temas Sociais III vol. O Problema Social

TODOS OS DIREITOS RESERVADOS

NO PRELO: 30) Tratado de Esquematologia 31) As Três Críticas de Kant 32) Problemática da Filosofia Concreta

— «Vida não é Argumento» — «A Casa das Paredes Geladas» — «Escutai em Silêncio» — «A Verdade e o Símbolo» — «A Arte e a Vida» — «A Luta dos Contrários» — 2» ed. — «Convite à Estética» — «Convite à Psicologia Prática» — «Convite à Filosofia» — — — — — — — — — — A PUBLICAR: «Hegel e a Dialéctica» «Dicionário de Símbolos e Sinais» «Discursos e Conferências» «Obras Completas de Platão» — comentadas — 12 vols. — «Assim Deus falou aos Homens» — 2» ed.» — Com o pseudónimo de Dan Andersen — Esgotada — «Realidade do Homem» —.. Dicionário de Filosofia e Ciências Culturais II vol. Teoria Geral das Tensões II vol. com análise simbólica — 3» ed. Os volumes subsequentes serão oportunamente anunciados. Globo — Esgotada — «Curso de Oratória e Retórica» — 8» ed. «Obras Completas de Aristóteles» — comentadas — 10 vols. de Amiel «Saudação ao Mundo». — «O Homem que Nasceu Póstumo» — (Temas nietzscheanos) — — «Assim Falava Zaratustra» — Texto de Nietzsche. Dicionário de Filosofia e Ciências Culturais TV vol. Metafísica. Sociologia A História A Ética Influência da Esquemática Primitiva no Homem Civilizado . Dicionário de Filosofia e Ciências Culturais IH vol.A SAIR: 331 341 35) 36) 37) 38) 39) 40) 41) Temática e Problemática da Cosmologia Especulativa Teoria Geral das Tensões I vol. Análise Ontológica do Histórico O Acto Humano e os Ciclos Culturais O Acto Humano e a Economia Exame da Economia O Acto e o Facto Económico em Face da Ética Considerações em Torno do Acto Humano A Tensão Cultural 13 15 21 35 45 49 51 63 75 83 93 103 111 117 131 141 153 161 165 181 193 . de Walt Whitman Introdução O Conceito da História A História e a Filosofia da História Filosofia da Cultura Classificação da História Mundo O Advento e o Valor do Homem Diferença Essencial entre o Homem e o Animal A Biologia e a Física A Física. TRADUÇÕES: «Vontade de Potência». . de Nietzsche «Aurora». de Nietzsche «Diário Intimo». Í N D I C E OUTRAS OBRAS DO MESMO AUTOR: — «O Homem que Foi um Campo de Batalha» — Prólogo de «Von­ tade de Potência». de Nietzsche. — «Se a esfinge falasse. — «Práticas de Oratória» — 2» ed. de Nietzsche «Além do Bem e do Mal». Dicionário de Filosofia e Ciências Culturais V vol. Temática e Problemática da Criteriologia Dicionário de Filosofia e Ciências Culturais I vol.Com o pseudónimo de Dan Andersen — Esgotada — «Análise Dialéctica do Marxismo» — Esgotada — «Curso de Integração Pessoal» — (Estudos caracterológicos) — 3» ed.. a Matemática e a Religião Filosofia. — «Técnica do Discurso Moderno» — 4» ed. ed. — «Certas Subtilezas Humanas» — 2» ed.

e aproveitá-las para que servissem de introducção ao estudo que empreendemos nesta obra. que ainda não estancaram as possíveis consequências desastrosas que podem oferecer. no intuito de permitir captar-se o significado dos factos. grandes brutalidades nestes dois últimos séculos. onde ainda resta uma esperança criadora para a humanidade. possam surgir aquelas ideias que reúnam os homens numa . mas servirão pelo menos de revisão de cultura. concluímos que deveríamos dá-las à publicidade. nossa aluna então. que se dedica. Revendo essas aulas. Para os que já têm fundamentos filosóficos serão elas um pouco simples. cuja principal intenção foi a de preparar os ou­ vintes ao estudo da História. um curso de Filosofia e História da Cultura. Constitui ela um dos ele­ mentos componentes desta colecção. Para os que não estão devidamente preparados. Sônia Prestes. que hoje a LOGOS es­ tampa com o intuito de contribuir a uma visão mais constructiva e concreta da História e também para poder oferecer bases pafa se desfazer o conjunto de sombras e obscuridades. e não apenas ater-se à descripção dos acontecimentos. ao estudo da História. que fo­ ram taquigrafadas pela srta. São estas as razões que nos levaram a aproveitar estas lições. especifica­ mente. fornecerão materiais importantíssimos para os estudos que se seguirão e hão de contribuir para uma visão mais nítida e mais constructiva da História. Que de nosso país. matéria que é de tanto inte­ resse nos nossos dias atribulados e de expectativas das mais acabrunhardes.INTRODUCÇÃO Fizemos em 1950. Primava esse curso pela exposição simples e clara dos elementos indispensáveis para um estudo siste­ mático e cuidadoso da História. criadoras de tão. com risco para o destino da própria humanidade. que poluem hoje de modo tenebroso o pensa­ mento social.

é preciso que saibamos distinguir bem o que é um facto histórico enquanto histórico. penetrando na direção do seu destino. discursivo. Quando um facto ultrapassa ao campo do indivíduo e do grupo. o saber de duas espécies: um saber teórico e um saber prático. em que a personalidade humana seja devidamente respei­ tada e liberta de uma vez para sempre da ameaça dos fal­ sos messias. inevitavel­ mente. No entanto. E seguindo essas pegadas. ou mostram seu aspecto historial. que nessa perspectiva o é todo acontecer. numa teoria. envolviam. numa visão particular dos mesmos. de o facto histórico. de dis­ correr. suas origens. e tem sua influência. e descobrindo seu nexo causal. * Para os gregos. O saber prático é o saber que é dado pela experiência. Podemos chamar de aspecto historial o conjunto de fastos acontecidos. comparando uns factos com outros. é um saber especulativo. MÁRIO FERREIRA DOS SANTOS O CONCEITO DA HISTÓRIA Podemos considerar os factos como históricos. posterior­ mente. devido à falta de um sentir em profundidade do tempo. como um produzir-se. num ímpeto só. . que os inclua conexionadamente. é a contemplação. confundiam com os mitos criados sobre a sua origem e sobre as épocas preté­ ritas (dos antepassados). desde que tenhamos uma perspectiva tal que nos permita ver o Cosmos como um acontecer. os opressores de amanhã e fautores das grandes e cruéis brutalidades que têm ensanguentado as páginas da História. E. de correr daqui para ali. para os gregos. O teórico vem de teoria. que. Consideravam os gregos. para. quer sobre ou para outros grupos sociais maiores. que se tornam. chamamo-lo de his­ tórico. construímos um esquema geral das ciências históricas. e incorporando-os. nesse sentido. realizar o supremo desejo de todos: uma humanidade de paz e de bem estar. a história era concebida como o relato dos factos importantes. significação ou condiciona­ mento. tais factos formam o historial. dos falsos guias.14 MÁRIO FERREIRA DOS SANTOS visão ecuménica. já vimos. é o saber que o espírito constrói. no sen­ tido que o dão os historiadores. que eles. que têm ou tive^ ram certa significação ou influência sobre uma colectividade humana.

perdendo até a segurança cronológica dos acon­ tecimentos pretéritos. Dessa forma. que as condições que geram um Bonaparte. as datas de suas dinastias e os períodos certos dos reinados de seus diversos faraós. Em primeiro lugar. dinâmicas como factos. sobretudo em nossos dias. o bonapartismo. para descortinarmos o nexo que os liga? Podemos. todo o existir seria de uma diferença absoluta. comparando-os com os do presen­ te. ^3e dizemos que algo tem tantos metros de comprido. é irrepetível. do contrá­ rio. porque o minuto que passa. sob certos aspectos. Mas. mas também dos animais e das coisas. as possibilidades de ulteriores desenvolvimentos. num espelhar os factos do passado. através das imagens que deles guardamos. a Filosofia. em si. a História é apenas dos homens. foram exigidos esfor­ ços sôbre-humanos dos estudiosos. Como a perspectiva e a visão do tempo varia de cul­ tura para cultura. já vimos. Cada facto. À proporção que se tiver uma visão em profundidade do tempo. temos uma visão histórica do mundo. Para os gregos. etc. é o tempo o campo dos factos his­ tóricos. mas sabemos. teremos que salientar que o facto histórico se dá no tempo. são saberes teóricos. dá-se a irreversibilidade. Não podemos reverter o tempo. e passa. já verificamos que a His­ tória é concebida. cada facto também repete algo dos factos passados. o que não se dava com os gregos. como tempo. de todos os seres que se dão no tempo e no espaço. como já vêm dando. para os gregos. com Bacon. A teoria é. Mas. que se dá. mas estati- . mas sabemos das realidades dos mais simples personagens dos primórdios das dinastias egípcias. em vista de o espírito humano ter essa capacidade de re­ verter os factos do passado. se não se dá a re­ versibilidade? Como poderíamos comparar um facto com outro. no entanto. construímos um saber. Mas o facto histórico. tinham. Conhecemos porque há as­ pectos que se repetem. se repetem. que já encerravam. Todos os factos são irreversíveis. uma construcção do espírito feita sobre os factos dados pela prática. por não terem uma visão em profundidade do tempo. Êle é sucedido. em suas combinações com a Sociologia. com uma exactidão pasmosa. na cultura fáustica. Essas já não são vivas. para reconstruí-la. não apenas como do campo antropológico. A Matemática. de cujo ângulo visua^ lizamos apenas o aspecto irrepetível dos factos. pois medimos da direita para a esquerda. os gregos nos deixaram tamanhas dúvidas sobre os fastos da sua história. teremos uma visão em profundidade da História. porque a perspectiva histórica é consequência da posição que tomamos. Se assim é. O histórico não se repete. não retorna. Não procuravam eles uma teoria sobre a História. tal se verificou no desenrolar dos estudos históricos. Mas. no estado actual dos nossos conhecimentos sobre a História. e que lhe darão. logo se vê que o conceito que tivermos do tempo influirá naturalmente sobre a perspectiva que te­ remos dos factos históricos. e não nos permitiria o conhecimento. tiveram também uma vi­ são superficial da História. tanto pode ser considerado da direita como da esquerda. nestes como naqueles. Mas. êle se dá. como o produzir-se do acon­ tecer cósmico e dos fastos importantes da vida humana. o que não era observado entre os gregos. uma nova fisionomia. também. uma vi­ são em profundidade da História. Como os egípcios tinham uma visão em profundidade do tempo. Em toda natureza. no entanto podemos reverter o espaço. e essa irreversibilida­ de é dada pelo tempo. Analisemos. é novo e único em si mesmo. não retorna. porque. confundindo o passado com os seus mitos. e é sobre o repetível que construímos a ciência. é um saber prático. que. não podemos tornar presente o passado. que. Enquanto os egípcios nos oferecem. Não revertemos os factos. apesar de pas­ sagens de certos autores onde encontramos certas compara­ ções e a apreensão de analogias. mas o tempo não! O tempo é irreversível. para descobrir. mas apenas superficial. Ora os factos históricos são irreversíveis. então. porque aqueles se dão nele. agora. Sabemos que Napoleão Bonaparte não será repetido. como da esquer­ da para a direita. a Física.]6 MÁRIO FERREIRA DOS SANTOS FILOSOPIA E HISTORIA DA CULTURA 17 Toda teoria se funda numa especulação. varia também sua perspectiva da Histó- ria. é sucedido. Não sabemos se a figu­ ra de um Licurgo foi real ou apenas mítica. Portanto. podemos apontar a essência da História? Dizem alguns que a essência da História está em sua irrepetibilidade. como seria possível o conhecer. mas apenas as imagens. quais as características fundamen­ tais da História. Mas a História. o nexo que os liga. assim. como seria possível a ciência. é substituído. nem descobrir o nexo dos factos. quando ela passa a adquirir novos métodos e novos instrumentos de trabalho.

já vimos. Dessa forma. Não procuravam eles uma teoria sobre a História. Conhecemos porque há as­ pectos que se repetem. Para os gregos. logo se vê que o conceito que tivermos do tempo influirá naturalmente sobre a perspectiva que te­ remos dos factos históricos. cada facto também repete algo dos factos passados. com uma exactidão pasmosa. nestes como naqueles. Essas já não são vivas. é novo e único em si mesmo. Mas a História. e que lhe darão. mas também dos animais e das coisas. no estado actual dos nossos conhecimentos sobre a História. como o produzir-se do acon­ tecer cósmico e dos fastos importantes da vida humana. assim. Mas. mas apenas superficial. é um saber prático. são saberes teóricos. Não sabemos se a figu­ ra de um Licurgo foi real ou apenas mítica. uma vi­ são em profundidade da História. mas sabemos. os gregos nos deixaram tamanhas dúvidas sobre os fastos da sua história. Mas. podemos apontar a essência da História? Dizem alguns que a essência da História está em sua irrepetibilidade. todo o existir seria de uma diferença absoluta. para descobrir. o que não se dava com os gregos. Em toda natureza. que. como já vêm dando. que. uma construcção do espírito feita sobre os factos dados pela prática. que se dá. apesar de pas­ sagens de certos autores onde encontramos certas compara­ ções e a apreensão de analogias. a Física. nem descobrir o nexo dos factos. com Bacon. Portanto. foram exigidos esfor­ ços sôbre-humanos dos estudiosos. etc. mas o tempo não! O tempo é irreversível. o nexo que os liga. não podemos tornar presente o passado. Não podemos reverter o tempo. e não nos permitiria o conhecimento. como seria possível a ciência. em si. também. em vista de o espírito humano ter essa capacidade de re­ verter os factos do passado. Enquanto os egípcios nos oferecem. num espelhar os factos do passado. não apenas como do campo antropológico. Êle é sucedido. como seria possível o conhecer. Como os egípcios tinham uma visão em profundidade do tempo. dá-se a irreversibilidade. uma nova fisionomia. Não revertemos os factos. as datas de suas dinastias e os períodos certos dos reinados de seus diversos faraós. porque a perspectiva histórica é consequência da posição que tomamos. sobretudo em nossos dias. para descortinarmos o nexo que os liga? Podemos. Se assim é. tal se verificou no desenrolar dos estudos históricos. e essa irreversibilida­ de é dada pelo tempo. mas estati- . comparando-os com os do presen­ te. mas apenas as imagens. Como a perspectiva e a visão do tempo varia de cul­ tura para cultura. Analisemos. a Filosofia. então. já verificamos que a His­ tória é concebida. que já encerravam. as possibilidades de ulteriores desenvolvimentos. é substituído. confundindo o passado com os seus mitos. e passa. de todos os seres que se dão no tempo e no espaço. A Matemática. teremos uma visão em profundidade da História. é sucedido. o que não era observado entre os gregos. através das imagens que deles guardamos. perdendo até a segurança cronológica dos acon­ tecimentos pretéritos. À proporção que se tiver uma visão em profundidade do tempo. é irrepetível. O histórico não se repete. de cujo ângulo visua­ lizamos apenas o aspecto irrepetível dos factos. Ora os factos históricos são irreversíveis. Todos os factos são irreversíveis. Mas o facto histórico. temos uma visão histórica do mundo. tiveram também uma vi­ são superficial da História. varia também sua perspectiva da Histó- ria. quais as características fundamen­ tais da História. por não terem uma visão em profundidade do tempo. o bonapartismo. dinâmicas como factos. em suas combinações com a Sociologia. no entanto. na cultura fáustica. que as condições que geram um Bonaparte. A teoria é. quando ela passa a adquirir novos métodos e novos instrumentos de trabalho. tinham. a História é apenas dos homens. do contrá­ rio. tanto pode ser considerado da direita como da esquerda. Cada facto. mas sabemos das realidades dos mais simples personagens dos primórdios das dinastias egípcias. porque o minuto que passa. agora. Mas. *Se dizemos que algo tem tantos metros de comprido. Mas. teremos que salientar que o facto histórico se dá no tempo. êle se dá. não retorna. porque. não retorna. para reconstruí-la. porque aqueles se dão nele. sob certos aspectos. como da esquer­ da para a direita. Sabemos que Napoleão Bonaparte não será repetido. construímos um saber. Em primeiro lugar. se repetem. é o tempo o campo dos factos his­ tóricos.]G MÁRIO FERREIRA DOS SANTOS PILOSOPIA E HISTORIA DA CULTURA 17 Toda teoria se funda numa especulação. no entanto podemos reverter o espaço. se não se dá a re­ versibilidade? Como poderíamos comparar um facto com outro. e é sobre o repetível que construímos a ciência. pois medimos da direita para a esquerda. como tempo. para os gregos.

o pro­ duzir-se. Mas direis: Não se dão os factos his­ tóricos apenas no tempo. ou ambas. olhamos mais o lado sociológico que propria­ mente o histórico.18 MÁRIO FERREIRA DOS SANTOS FILOSOFIA E HISTORIA DA CULTURA 19 zadas. assim. porém. Entretanto. que é sempre viva. não é tornar outra vez um produzir-se da História. Quando dizemos que a História se repete. o que nos levaria a uma compreensão meramente abstracta. não pode afastar-se de uma concepção que englobe ambos aspectos. o que pertence ao estudo da His­ tória. recordar. é não deixar-se arrastar por valorizações apenas unilaterais. as obras feitas. como raramente é aproveitável todo o meio termo teó­ rico. A inteligência é a função de esco­ lher entre. captar algo daquele produzir-se. o facto histórico. as quais servem para indicar um novo caminho capaz de permitir o vislumbrar dos aspectos sociológicos. dinâmicas com aqueles. com as realizações. para ser um estudo proveitoso. não o facto em sua unicidade. e da História em particular. no espaço. O estudo da História. mas apenas cópias da­ queles. com eles. monumentos. à descrição dos factos. reverter o passado. que significa escolher). conexionando os aspectos meramente históricos. pela constatação das diferenças. em que consistem essas ima­ gens? Ora. temos aqui os meios para bem distinguir a His­ tória da Sociologia. ou. dão-se também em um local. como objec­ tivação do producto. temos genuinamente a História. para pô-los um em face do outro e tornarem-se. o que ficou. como histórico. que é a função que escolhe entre (de inter. que é a sua essência. Mas. tende a ver mecanicamente os factos históricos. Então. e ao mesmo tempo sis­ temática. apenas actualiza as irrepetíveis. realmente se dão também no espa­ ço. para uma visão filosófica e histórica da cultura humana em ge­ ral. pela nossa inteligência. a actualizar uma causalidade rígida. não se pense que aconse­ lhamos uma posição intermédia. e o radical lec. Assim. como se fosse uma estructura biológica. de seleccionar entre muitos aspectos captáveis os que o espírito pode captar e. Como intensidade. é irreversível. mas apenas apontar o seu producto. A me­ mória não é uma repetição. inteleccionadas pelo nosso espírito. actualizamos apenas as notas que retornam. actualizando apenas o lado tempo­ ral. não vivo e dinâmico. capaz daí. é ter dela uma visão viva. à semelhança de Spengler: extensidade (objectivação do producto) Mecânica Causalidade Especialização Sistemática como sistemática (experiência cien­ tífica) MORFOLOGIA DA HISTÓRIA intensidade Orgânico como fisionómica Direção. vector (experiência com (objectivação do produzir-se) -destino vida). mas apenas notas. mas reversível como producto. O que resta da História. Quem a vê apenas como um produzir-se. a sistemati­ zar o acontecido. actualizando o lado extensista ou o intensista. Assim. no espaço. Temporalização Quem vê a História apenas extensivamente. vivas. da História. aponta-lhe a direção. mas o debruçar do espírito so­ bre o passado. porque é dinâmica. Não são. considerar a morfologia da História pelos dois lados. que os reproduzem. por uma concepção superior analogante. é tempo. é o producto e não o produzir-se. obras em geral. Sim. e de frutos benéficos. O que produziu. mas irreversível como intensidade. arte realizada. mas como algo que sucedeu no tempo. notas. Tal não seria aproveitá­ vel. os quais nos permitem. productivos de algo su­ perior. como extensidade. para usarmos da nossa linguagem. temos o que traz marca histórica. é tempo. e ver a História em sua unidade. É preciso distinguir os extremos. elas não são os factos. e não uma posição concreta. em latim entre. mas sim certos aspec­ tos. como irrepetíveis. mas como producto. que se antagonizam. paradas por nós. como se fosse uma vida. Va­ mos a exemplos que esclarecem melhor: . através deles. A Sociologia actualiza as notas que se repetem dos factos. os nexos que permitem concluir muito em be­ nefício do homem. não como produzir-se. são o producto. podemos formar o seguinte esquema. Assim a História é irreversível como produzir-se. portanto. de poder captar. orgânica. Não é. que permita a formação de uma visão concreta. à historiografia. mas estático. A História é o produzir-se. portanto. Se actua­ lizarmos uma dessas maneiras de ver a História. Então podemos dizer que a característica fundamental da História é o irrepetível. é reversível como extensidade. ou pela superação dos extremos. Não são eles que retornam. enquanto a História.

"Queremos um mundo melhor". estaríamos apenas actualizando o producto. Cada um de nós perdeu muito em dignidade. ante a técnica que nos apequena. de uma forma viva. ter uma vivên­ cia dela. essa frônesis. o que eles produziram. e. se assim procedêssemos. de que já falamos. na realidade fáctica. isto é. Ora. algo que permitiu que se produzisse tudo isso que está catalogado nos manuais. O pessimismo aflora em todos os lá­ bios. Sentimos que não há mais um querer que impulsione os homens a transcenderem o campo de suas actividades. sentir o mundo como eles sentiam em todos os seus aspectos. mas podemos. Que revela tudo isso senão a consciência de uma insatisfação geral? Quando vemos os homens baralharem números astro­ nómicos e se esquecerem do que têm de mais alto. não poderemos compreender o seu produzir-se. observando as obras realizadas. sentir e compreender. que penetram no terreno da História. Que valemos ante as coisas. Mas deixaríamos de saber outro lado importante. observando as notas características dos seus estilos. A HISTÓRIA E A FILOSOFIA DA HISTÓRIA Estamos atravessando uma época sem crença e sem fé. bem nitidamente. Assim sendo. mas algo que se deu dinamicamente. deixaríamos de compreender. descobrindo-lhes a verdadeira posição cronoló­ gica. medindo-lhes os tem­ plos. ao lado de um saber páthico. procurando ver até onde irradiou a sua influência. presa de uma completa incompreensão dos meios e dos fins? ' Não valorizamos uns para desapreciar outros. afirmam outros. in­ variantes sociológicos. ao estu­ dar a História. voltou-se tanto para as coisas. Assim necessitamos. diremos apenas que há constantes sociológicas. Por isso sem penetrarmos nela. e taquigrafada pela srta. apenas por uma cataloga­ ção de suas obras. a construcção de uma ciência da História só pode ser feita com o auxílio da Sociologia. Temos um ideal para o amanhã? Não vivemos. isto é. (Aula proferida por Mário Ferreira dos Santos em 14/8/50. a alma grega. pela interpenetração dos âmbitos de estudo. que poderíamos chamar Socio-historiologia ou Histo-sociologia. vivê-la. então. de que nos temos referido. "os fins são justificados pelos meios". porque já encheu de fel todos os corações. compreendê-la como um producto e um pro­ duzir-se. e sabendo muito sobre os gregos. Quanto à finalidade. Essa é a dolorosa afirmação contestada por muitos. afectivo. muito e muito. Algo que criou. ante as ciclópicas cidades que nos redu­ zem a vermes que somente se arrastam? . quanto às leis. como o malabarismo das discussões sobre Estética. para que possamos ter dela esse saber intelectual. apenas por uma sistematização cronoló­ gica das suas diversas épocas. afirmam uns. tornando ambos campos ciência da História. não afir­ mamos sempre para negar ? Não nos voltai íos tanto para as coisas a ponto de esquecermos o homem V É o homem uma coisa entre coisas. Nunca o homem extroverteu-se tanto. pondo-os em ordem. "Os fins justificam os meios". vêm-nos logo uma réplica: o homem perdeu em dignidade. Natu­ ralmente que não poderemos ser gregos. podemos dizer que muitos aceitam uma teleologia na História.20 MÁRIO FERREIRA DOS SANTOS Se estudássemos os gregos. Sônia Prestes). Vemos uma filosofia agonizar por entre o ma­ labarismo de formas decadentes. ante o acúmulo imenso delas. afirmam quase todos. ou uma pessoa entre coisas ou uma pessoa entre pes«oas? Vale mais o ter ou o serl Discutem-se os fins e os meios. penetrar nessa alma. a alma grega não é algo estático. registrando factos. que os factos históricos obe­ decem a uma finalidade. É natural que. tendem a uma meta.

porque há espírito. Não foi aquele em que se viu apenas o benefício. que exigem que seja o homem tratado como homem. Mas se pen­ sarmos que com elas nos completaremos. nem delas fugir. exigirá bons meios e atin­ girá bons fins. como evitaremos a degenerescência dos meios e o des­ virtuamento dos fins? Mas o homem de hoje — e essa é a dolorosa realidade — não percebe o princípio nem os fins. São tantas as carências. Discutiram sempre sobre os meios e os fins. que nada mais é que a efectivação dos meios e do imediato. Não nos causa mágoas pro­ fundas vermos essa crescente utilização do homem? Não nos comove o espectáculo dos homens-máquinas. O que é. das lágrimas e do suor do homem. Se é bruxoleante e crepuscular esta fé. nesta sala. a vantagem que surge desde logo. toda debruçada para as coisas. É procurar responder as grandes e eternas perguntas e não temê-las. E o imediato são as coisas. não era a mão de um mercador. que ante o rei etrusco. ao perceber todos aqui reuni­ dos. Por isso. dos homens-pedestal. E esse espírito palpita em tudo quanto o homem criou. e dá-lhe um resquício de fé em si mes­ mo. enchermos uma parte desse vazio. Se condescendermos com o nocivo no prin­ cípio. que julgamos poder encher apenas com coisas os grandes e abissais vazios que sentimos dentro de nós. E o imediato é o utilitário. mo­ delou e configurou. e apenas balbucia um fim. cultivar em nós o campo. esse princípio é tudo e sempre foi tudo. Não foram os imediatistas e utilitários que criaram o que há de maior para a humanidade. o conveniente. dos homens-instrumentos. que compreendamos que não é um meio. Elas servem para. e plantar a semente da superação humana. O que tem um bom princípio. vê apenas o imediato. Como se prende aos meios. muitos se es­ forçam em aumentar-lhe o esplendor como um fanal a ilu­ minar os corações e a projectar uma luz firme sobre o futuro da humanidade. Para realizar o homem. o lucro. do trabalho forçado. pela sua rea­ lização. quer colectivamente. não fins. que poderemos realmente fazer em benefício da dignidade humana se nos prendermos apenas ao estudo dos meios e dos fins? Não é mais importante pensarmos no princípio. Os momentos mais elevados que o homem atingiu não foram aqueles em que apenas se pen­ sou no útil e na utilização. o agradável. As coisas são meios. Não pode haver meios nem fins sem o princípio. E é por isso que esse homem não tem crença nem fé. dos homens-escala.22 MÁRIO FERREIRA DOS SANTOS FILOSOFIA E HISTÓRIA DA CULTURA 23 No entanto é resultante da obra humana: é soma do sangue. da inteligência. enquanto o fim seria a eleva­ ção do homem. dos homens-pedras sobre os quais são construídas as obras de uma civilização? Não vemos hoje o espetáculo dos campos de concentra­ ção. queimou-se na pira para* afirmar sua fidelidade aos companhei­ ros. mas esque­ cem do mais importante: o princípio. da exploração de milhões trans­ formados apenas em utensílios? Elevam-se vozes que pro­ testam. mas um fim. mas apenas se preocupa pelos meios. como não era a mão de um mercador a de Pasteur quando buscou em seus labo­ ratórios um bem real para o homem. nossa era está toda vertida. Mas. devemos antes realizar cada um de nós. Um fim e não um meio. tais as ausências que gritam dentro de todos. É êle que não lhe permite a vitória de um pessimismo total. apro­ veitando as coisas? Pois bem. no que devemos previamente fazer para construir o homem. o apenas utilitário. sequiosos de empreender comigo uma longa viagem pelo campo da cultura — o campo das realizações humanas — e comigo empreender a colocação dos grandes problemas e . quer individual. fazendo de si. O homem só se completará por si mesmo. Pensar no princípio — pois sem êle nada podemos cons­ truir de grande — é entregar-se com afã ao estudo do pró­ prio homem. o que está às mãos. A mão daquele romano. não é ape­ nas uma decepção do que se acalentou. por meio delas. um fim. Todo o realizado foi um dia sonhado. E é agora. o próximo. trágica será a con­ sequência desse nosso engano.

que fizeram os homens de negócio? Logo viram que maravilhosa fonte de publicidade seria as das primeiras no­ tícias sobre o primeiro americano morto na guerra da Ásia. E os pais do primeiro tom­ bado. Não foram os primeiros a saber da notícia. um nome que pronunciam tantas mães. desinte­ ressado dos meros interesses utilitários. porém. cinegrafistas. transidos de dor. em que muitos jovens — esperanças acalentadas dos pais e amigos — tombariam nas areias da costa europeia. E jornalistas. e vasculharam tudo. quando vizinhos acorreram à porta. exclamar: "Johnny morreu!" * J o h n n y . habilmente — contrataram com as estações de rádio a exclusividade daquela hora para propaganda de suas mercadorias. gente humilde. mas levado ao grau mais tremendamente ínfimo. o dia da vitória? Onde seria aberta a segunda frente? Onde começariam a invadir a fortaleza do hitlerismo as tropas das Nações Unidas? Tão grande era a ansiedade que homens de negócios — hábeis homens de negócios — logo se preocuparam em aproveitar para seu benefício esse instante. Relatemos um facto que aconteceu em nossos dias. À ir­ radiação daquelas notícias estariam a postos todos os ouvi­ dos do mundo. para um deles. as ondas hertzianas levaram para o ar a notícia de que um jovem. dos sonhos que construíra sobre o futuro do filho. Mas esse facto não é o único. . Nem tudo está perdido quando há quem. mas um acto gratuito. na hora meridiana. radialistas. foram fotografados de todos os mo­ dos. Mas falemos agora do que representa o contrário de tudo isto. que havia morrido. houve um instante em que todas as atenções estiveram ansiosamente voltadas para a abertura da segunda frente. mas também para saber quem é êle. como se ainda recordasse cenas que vivera ao lado de seu Johnny. Aquele facto era um sinal. ante a possibilidade de que seu filho fosse o primeiro? Pois bem. um daqueles ingénuos e simples jovens americanos. logo no umbral. invadiram a residência pobre daquela família. Não é um acto utilitário. E eis que um dia. moradora de uma pequena cidade perdida no interior americano. E como esse princípio traz em si a chama da gratuidade. Quando os americanos seguiram para a Coreia para resistir às tropas nortistas. A mãe desmaiou. um exército de fotógrafos. numa violentação do que sempre o homem respeitou e até os animais: a morte. fotógrafos estavam a postos para acorrer à cidade da família do primeiro mor­ to. cautelosamente. Naquele dia V todos estariam atentos aos rádios para ouvir as irradiações dos primeiros desembarques. Estavam à mesa de refeições. e fizeram as mais indiscretas perguntas. não. Os correspondentes de guerra no fronte estavam ansiosos e expectantes. abandonando os prazeres fáceis. Era Johnny. não tememos os meios nem os fins. um nome que se repete incessantemente nos Estados Unidos. trementes de pavor. Repetiu-se nos dias que correm. Precisavam saber tudo sobre Johnny. Aviões estavam aprestados. Esse facto talvez tenha passado despercebido para mui­ tos. onde está e para onde vai. enfrentar as grandes perguntas e não temer opor-lhes respostas. de onde veio. O acto meramente utilitário. radialistas. que me congratulo por este momento para mim tão feliz. reúne-se numa sala para ouvir falar de cultura.24 MÁRIO FERREIRA DOS SANTOS FILOSOFIA E HISTORIA DA CULTURA 25 envidar todos os esforços para resolvê-los. não tinham rádio. e as estações de rádio prontas para o momento culminante. É um querer fun­ dar bem solidamente esse princípio e dele partir através dos meios para alcançar os fins. E por que não aproveitá-la para propagan­ da dos productos? E os homens de negócio — friamente. do desinteresse. havia uma interrogação em todos: quem seria o primeiro americano a tombar em batalha? Quantos corações temerosos. Queriam que os milhões de ouvintes soubessem tudo sobre o jovem que caíra no campo de batalha. . uma indicação clara da utilização de um momento de angús- tia de todas as mães e de todos os pais daqueles que haviam seguido para os campos de batalha. havia tombado para sempre. em que os homens reúnem-se à volta de uma mesa para a sua refeição principal. para saber que fêz o homem e o que poderá fazer. Quando seria o dia V. enquanto o pai perdia o olhar na distância. para todos. porque nobres hão de ser os meios e elevados os fins. . Algumas horas depois. Durante a segunda guerra mundial. cine­ grafistas. Seus pais.

tende-se para fora (ex. das lendas e das fá­ bulas. examinar as obras hu­ manas. É retesando nossos músculos. em potência ainda. que vos convido para comigo penetrarmos no terreno cia História. Mas. intensidade e extensidade. aproveitar o que nos ensina a Filosofia para examiná-la. de Psicologia. E por que nos interessa tanto a História? É apenas por ser ela o relato da vida dos que nos antecederam? Não. realizou. mas também o nexo que as liga. magoar o vosso silêncio. Não poderei dizer-vos tudo quanto desejaria. como histórico. o sentido que elas tomam. a História foi propriamente descritiva. É um natural desejo humano. em suma. Não nos contentamos se não nos sentirmos mais fortes. Queremos prognosticar. Se o soltardes. Cabe-nos apenas isso. galvanizando nossos ner­ vos que podemos prosseguir. atravessar os períodos de sangue e de sonhos por que passou a humanidade até os dias de hoje. já se buscam analogias. isto é. Para#isso tudo. perscrutar aquele pobre homem primitivo por entre os perigos da floresta. tudo que toma uma direção. as Hegel. Então. filho da curiosidade e da esperança.26 MÁRIO FERREIRA DOS SANTOS FILOSOFIA E HISTORIA DA CULTURA 27 Outros "Johnnies" caíram e tornarão a cair. traduzir as significações. Os factos da História não são apenas uma sucessão de acontecimentos que se superpõem uns aos outros. e que são imprescindíveis para ter­ mos uma perspectiva mais segura dos factos. Que pretendemos então fazer neste curso? Pretende­ mos fazer um estudo dinâmico. nhã. Mas se esperardes pela resposta. em suma. E é animados com um amor mais alto. interpretá-la. Faço um silêncio. ou podemos interpretar esses factos como sinais de algo que se esconde atrás deles e que podemos revelar? Surgiu. Procuraremos examinar as estructuras sociais. um amor ao homem. o movi­ mento. Pois bem. usando instrumentos hábeis que nos permitam investigar o futuro. tão cheios de angústias. Há entre eles certas semelhanças que nos permi­ tem investigar se têm um nexo. É que desejamos saber alguma coisa sobre o amanhã. Várias vezes me ouvireis empregar estes termos: inten­ sivo e extensivo. é necessário que estudemos al­ guns conceitos que iremos empregar. Imaginai um arco tenso. nem de leve. bem como a coexistência dessas estructuras. desaparecem. de todo saber do homem. e por isso orgânico e dialéc­ tico da História. para que possais ouvir a vós mesmos. É natural que queiram saber o que é. a direção. e nada mais. Nosso estudo consistirá portanto. de Economia. em nosso estudo. o arco estende-se. muitas e constantes vezes. penetrar destemerosamente pelo mundo dos símbolos e dos mitos. mas o que vos disser será suficiente para o vosso estudo. * * * Até Leopoldo von Ranke. Veremos tação que se tentativas de toricistas até a tentativa de Santo Agostinho. Não quero. Apenas um relato mais ou menos obediente à cronologia dos factos principais. procurar a parte empírica das formas e das maneiras de ser das culturas. História. nada perdereis. a interpre­ processou durante a Revolução Francesa. mas do que o homem. de Filosofia. estende-se. qual a coerência que as mantém ou por que elas se modificam. porque aqui cabe um grande e pro­ fundo silêncio. adivinhar as possibilidades do ama- . deixai-me dizer que iremos estudar a História. uma dimensão. prestes a deflagrar sua força de expansão. com Ranke. em latim). por­ que lá chegaremos depois de palmilhar outros setores que nos darão instrumentos necessários e imprescindíveis para invadir tão grande e tão extraordinário terreno. envelhecem. Apenas serão comunicados aos ouvin­ tes e leitores dentro do abstraccionismo dos números. várias vezes o desejo de interpretar a História. Não apenas da História. porque esses dois termos pertencem à Filosofia. Mas es­ ses já são números. então. essa ex­ pansão se manifesta. a sucessão de todas as correntes hisos nossos dias mais próximos. em um pouco de So­ ciologia.

Um momento vem e substitui outro. dureza. não con­ cebemos que há tantos metros de espaço e que ajuntamos mais um. concebemo-lo como algo que é dado. Êle foi substituído pelo novo momento e este por outro. Mas se considerarmos o branco do papel. O momento que passou não está aqui com o momento que passa. Digamos que ela tem 30 cm de altura por 20 de largo. As coisas não são apenas o que elas são agora. à proporção que vos mostre exemplos concretos. concebemos o espaço como algo já produzido. para si mesma. mas intensistamente (qualitativamente) é igual. Assim como podemos medir com uma das suas partes o extenso. e a intensidade e o tempo. Ninguém dirá dois metros de verde. o centímetro quadrado é muito menor que o papel. aceitamo-lo sempre coexistente consigo mesmo. Ela não é apenas esta semente. Podemos dizer que o resto é 599 vezes maior. Mas. e apresentam qua­ lidades. na temperatura de 20 graus. incluo nos dez metros. terá 600 cm quadrados. mais ou menos (mais ou menos verde). com que vou acender o meu charuto. Temos aqui. não na extensão. e diremos que é a seiscentésima parte da área dessa folha. Não tenho uma unidade para medir o branco. ao sofrer um atrito. não é apenas um fósforo como o vemos. por exemplo. Não concebemos o espaço como algo que está sendo feito. que apresenta ape­ nas graus. * * * Se prestardes bem atenção. e podemos me­ di-lo. como o que sobrevêm.28 MÁRIO FERREIRA DOS SANTOS FILOSOFIA E HISTÓRIA DA CULTURA 29 E esse aspecto de qualquer facto que se estende. o meu charuto. e não extensista. E para encerrar essa explicação basta que pensemos no seguinte: Estamos agora com uma temperatura de 20 graus. Tomemos esta folha de papel que temos nas mãos. é verde em si mesmo. tanto o pri­ meiro. e por quê? Pela simples ra­ zão que não posso considerá-la senão como um todo em si. Por outro lado. actualmente. peso. No entanto. pois os dez metros incluem todos os seus componentes. haja uma soma de 20 temperaturas de 1 grau (que seria frio) nem 10 de 2 graus. Podemos tomar apenas um centímetro. podemos di­ zer que eles são também intensistas. posso usá-lo como unidade de medida. para dentro) é toda a direção inversa à ae expansão. Assim. porque qualquer um deles representa um estado in­ tensista. . No entanto o tempo. mas o tempo. mas apenas verde. flexibilidade. não podemos medir o intenso. O es­ paço. e assim sucessivamente. e não posso admitir que. e dizer que branco é composto de tantas unidades de tal coisa. reconhecemos que o branco de um centímetro é igual ao branco de todo o pa­ pel. É tomada para dentro. Este fósforo. é fácil ver que as coisas não são apenas o que elas nos mostram agora. isto é. mas o que podem vir a ser. como cores. Nesse caso. extensivamente (quanti­ tativamente). uma semente de laranjeira. Reconheço que êle é uma parte do papel (quan­ titativamente considerado). Não. Mas também posso* dizer-vos que esses conceitos ainda se tornarão mais claros. Não concebo os vinte graus como soma dos outros graus. ou que o centímetro quadrado é apenas 1 sobre 600. e daqui há pouco produz-se mais outro. Então poderíamos dizer que. mas a possibilidade de. As direções que toma um corpo no es­ paço mostram o lado extensista do corpo. In-tensa (in. inflamar-se. O verde. está dado. Elas são também o que virão-a-ser. produzir uma combustão e acender. o que sucede. já o mesmo não se dá com o branco. é o lado extensista do mesmo. mas com êle posso medir o pa­ pel e dizer que êle contém — sempre quantitativamente — 600 daqueles centímetros quadrados. mas também a possibilidade de tornar-se uma laranjeira. algo que está aí. como o segundo e o terceiro metro de fazenda. o que transcorre. No entanto. Essa temperatura é intensista. se digo: tenho aqui 10 metros de fazenda. sentimos como algo que sucede. assim como todos os corpos não são apenas extensões. Se compreenderdes bem o que expus até aqui. posso transformar esse centímetro qua­ drado em medida do papel. Obser­ vem agora a semelhança que há entre a extensidade e o es­ paço. que sejam par­ tes do branco. exemplifiquemos. O espaço concebemo-lo como extensista. muitos elementos tereis para compreender os exames que faremos. assim.

sen­ tir. logo vemos que há variações. quanto às realizações huma­ nas. Temos. há algo que não é diferente das outras. Sim. não nos será difícil con­ cluir que tudo o que compõe o nosso mundo está em devir. Tudo isso é importante. Temos assim. então. Não são esses os únicos ins­ trumentos que necessitamos para penetrar no nosso estudo. o saber humano teórico. uma maneira de ver e de sentir as coisas. Se assim não fosse. Também se disséssemos: Esse objecto é um quadro. há o que não varia também. Os homens se interessaram. Se verificarmos ainda mais. que significa sofrer. quando disse­ mos que o artista havia revelado muito da sua subjectivida­ de. Estávamos atribuindo ao objecto um predicado: o ser quadro. em plena realização. ti­ nha uma possibilidade de ser. porque num juízo de valor re­ velamos uma apreciação. A passagem da potência para o acto é o devir. dando-lhe um valor. Por exemplo. construir cidades. E nesses juízos de valor se revelam as afectividades humanas. poderíeis dizer: há muitas coisas que não estão em devir. também estaríamos formulando um juízo de existência. que oferecem uma indicação do invariante. o afectivo dos homens. para nós. Apenas afirmamos um facto. e a História nos revela. todos vós sentis que o espaço não varia. extravasou em sinais. que marcam. aproveitada. no quadro de que acima nos referimos. por isso ou por aquilo. isto é. palavra grega. mais do que muitos pensam. Para dizer esse vir-a-ser temos uma palavra devir. que os homens foram sempre movidos por juízos de valor. Pois esses dois conceitos muito nos servirão para compreender a História e as realizações humanas. a existência de um facto aqui. conhe­ cimento). É também aquela força que produz. que o espaço não é ora mais espaço. fizemos um juízo de existência (Aqui está um quadro). acabado. em potência. por es­ sa afectividade se revela o subjectivo. o que está em acto. é. E o que repete tem um carácter de invariante. Mas quando dizemos que é um belo e mara­ vilhoso quadro. Temos assim dois termos que muito usaremos: Potên­ cia e acto. Assim. Mas. como construiríamos a ciência. Mas essa força perde-se cada instante e não é aproveitada. ora menos espaço.30 MÁRIO FERREIRA DOS SANTOS FILOSOFIA E HISTÓRIA DA CULTURA 31 Uma queda dágua. que no-los indica. positiva ou opositivamente. Em face de uma obra humana. isto é. reconhecemos que muito da sua afectividade e também da sua psicologia. como há aspectos que se repetem. num constante vir-a-ser. Por que uma cultura dá mais valor a isto ou aquilo? Por que uma era se desinteressa por um tema. No entanto essa força tem a possibilidade. e o que está em potência. logo po­ deríamos dizer algumas frases como esta: Aqui está um quadro. então. mas que. produzido. Toda a vez que aprecia­ mos alguma coisa. de. E com o decorrer do nosso estudo. o pathos. . em breve vereis quão úteis nos serão esses dois conceitos. digamos um quadro que ora estejamos admirando. E se examinarmos o que conhecemos. não é apenas o tombar majestoso e imenso de massas dágua. permite-nos saber que há possibilidade de vir-a-ser ou isto ou aquilo. o saber culto? Realmente. isto é. movimentar máquinas. muitos cavalos de força. porque podia ser. muitas coisas obscuras tornam-se depois luminosamente fáceis e compreensíveis. digamos a cachoeira do Iguaçu. um juízo de valor. enquanto outra o considera como principal? Esses aspectos páthÀcOs são importantes e merecem ser analisados. que repete o que já se deu. do que lhe é subjectivo. porque. maravilhoso quadro! Como tam­ bém: essa obra revela a subjetividade do seu autor! Na primeira frase. o que pode realizar-se. no quadro. E esse interesse revelou o pathico. Dizemos. porque o sentis como algo homogéneo e já feito. que Iguaçu tem. Sim. Ou: Que belo. há um variante e um invariante. podemos for­ mar um juízo de valor. realizar grandes obras. há o que muda e o que não muda. Assim tudo o que é. Em todas as coisas que se transformam. O acto revela-nos gnosiològicamente (de gnosis. no decurso de sua vida. toma o sentido claro de afectividade. já estamos apreciando. Precisamos ainda de outros. Para que nos serve isso? Serve-nos para compreendermos muito da História e também da realização rias possibilidades humanas e das possibilidades de um povo e de uma era. por meio deles.

pelo que o homem se interessa. E são im­ portantes esses dois conceitos. é que nesse interesse revelamos uma afectividade. E estudaremos as respostas que foram dadas. é o que nos per­ mitirá a dialéctica que empregaremos. porque veremos que todos gostam de usar e de abusar das virtualizações e das atualizações. inibe-os. portanto. pathos. porque a dialéctica marxista apenas vê alguns aspectos dos factos. E o dizemos logo. Entre elas. um nexo em tudo quanto o homem faz. E procurar ver as actualizações.32 MÁRIO FERREIRA DOS SANTOS FILOSOFIA E HISTÓRIA DA CULTURA 33 Então. estaríamos apenas nos interessando pelo objecti­ vo do quadro. . Eis aí mais dois termos que usaremos e que já vedes que têm sentido claro. não devemos esquecer esses elementos: juízos de valor. e deixa de lado outros que ela não considera. Êle não faz isso ou aquilo ao acaso. Mas. um ser diferente na natureza? Se é diferente dos animais. no decorrer dos pontos sucessivos. ela actualiza (considera como actual. como realizando-se agora) alguns aspectos e virtualiza ou­ tros (isto é. que escapam à vontade humana. Isto é. como tam­ bém as realizações do homem no mundo da cultura. como se não existissem. Também esses conceitos. porque. subjectivi­ dade e. juízos de existência. porque. quando dei­ xamos de considerar o subjectivo. que poderemos obter respostas sobre as magnas perguntas: Quem somos? On­ de estamos? De onde vimos? Para onde vamos? (Aula taquigrafada pela Srta. e logo denunciar as virtualizações. Mas um número imenso de perguntas devem estar agi­ tando a todos vós. actualiza-o. um carácter pathico. Assim poderíamos continuar observando aquele quadro e nos interessando apenas com juízos de existência. pela sua objectividade. Há. afectividade. mas motivado por um in­ teresse. que nada tem que ver com a dialéctica marxista. como poderiam alguns pensar. Sônia Prestes e pronunciada em 17/8/50). E desde já fazemos questão de frisar: é uma dialéctica nossa. para onde vai? E todas essas perguntas são importantes e merecem respostas. eis que nos res­ salta logo algo importante. Descobrir o nexo desse interesse em relação com os factos. objectividade. — instrumentos agora para nós — serão melhor compreendidos quando penetremos nos campos do nosso estudo. Nesse caso. despreza-os). e virtualiza os outros. será a nossa maior preocupação no estudo que vamos empreender. Quando alguém apenas considera um aspecto. E será pelo estudo da natureza. em que se diferencia e por -que se diferencia? De onde veio. um anjo decaído. o que é Cultura? O que é História? Que é Filosofia da Cultura? Que é o homem? Um animal. olhamos apenas ao que é objectivo. consequentemente. revela êle o que realmente é como sub­ jectividade.

uma cadeira. um conceito. por este. .r'' FILOSOFIA DA CULTURA Vamos continuar hoje a examinar outros instrumentos que nos são necessários para empreender a investigação que desejamos realizar. realiza-se por inter­ médio dos sentidos. sem meios.. já praticamos uma acção mais completa. já não procedemos imediatamente (isto é. ir dentro) a imagem que têm meus olhos dos que estão aqui presentes. que é mediata. simplificadamente. mediata e imediatamente. portanto). Assim é uma intuição (de intus. por meio d e . . Então poderíamos. estabelecer um esquema: Intuição sensível — aquela que nos é dada pelos sen­ tidos. de im. ire. e não seria justo que não delimitásse­ mos o seu significado. . Já com­ paramos um objecto com uma ideia. no nosso caso. Mas quando di­ zemos que este objecto. e temos a in­ tuição. porque tem as notas essenciais do conceito de ca­ deira. mediatamente. Mas a intuição sensível. de todos os objec­ tos aqui presentes. já procedemos racional­ mente. Pode tê-la também um animal. Todos nós empregamos constantemen­ te o termo intuição. Aqui já procedemos mais complexamente. do qual temos uma visão (uma in­ tuição. é. inclusive do próprio sujeito. É intuição a apreensão psíquica de qualquer natureza que seja. Já comparamos a intuição do objecto com o que consideramos cadeira (temos aqui um conceito: o con­ ceito de cadeira). meio) mas mediatamen­ te. e temos uma operação racional. e médium.: a visão que tenho desta cadeira como simples objecto. prefixo negativo. Vemos que nosso espírito funciona ao captar o que se dá. Realmente. Imediatamente. com o qual comparamos esta cadeira). e podemos dizer que esse objecto é uma cadeira. Ex. quando vemos alguma coi- .

A intuição sensível é aquele saber. Que dizemos então? Dizemos que a maçã tem uma coerên­ cia na sua estructura. somos auxiliados pelos olhos. aqui. aí. não*fica naquela uma parte da maçã. e essas relações não estão nos objec­ tos. sabemos que estamos tristes. não são os olhos que vêem. Mas. Essa operação é uma comparação (de par. pôr um ao lado do outro) de uma imagem com uma ideia. desvir­ tuar o seu sentido mais profundo e também mais exacto. e da mão a retiramos para pô-la sobre a mesa. Quando comparamos este objecto com o conceito de cadeira. porque. emparelhar. Todas as estructuras têm uma ten­ são. uma unidade de agrega­ ção. que ela forma um todo. Não apreendemos esse estado por intermédio dos sentidos. Que quer dizer isto? Quer dizer que nós captamos também relações intuitivamente. toma apenas alguns. separados. A inteligência humana procede sempre assim. ou melhor. Não temos. etc. Se a tomamos na mão. Oferecem elas uma resistência ao exterior. e varia até nelas mesmas. O homem. isto é. e que nós empregaremos sempre no sentido específico de afectividade. tudo seria uma massa amorfa. sensível. Esses objectos podem ser ideias. Se tal não se desse.) os aspectos que lhe interessam. e o radical lec. Eles apenas servem de veículos de transmissão dos estímulos exteriores. escolhendo entre as diversas notas de um objecto (real. . que é formado do prefixo inter. Enquanto o monte de areia consideramos apenas um amontoado de pequenas partículas. que conservamos. (a que nos oferece uma obra de arte ou a emo­ ção que algo belo nos provoca) e a mística (que nos permite integrarmo-nos no que chamamos oculto. Então vamos chamar tensão essa coerência dos ele­ mentos estructurais. mais próximo ou mais afastado de nós. que lhe é peculiar então.. é o da coerência que notamos em todas as estructuras ou processos estructurais. quando estamos tristes. o qual faremos para transmiti-lo em termos claros. porém. que consolida. que é o termo verbal com que assinalamos o conceito. Ela vai toda para a mesa. etc. sem no entanto. o que se cha­ ma uma intuição páthica. uma intuição sensível apenas. que em latim quer dizer entre. para vermos se êle realmente pode ser chamado com tal termo. por exemplo. fundir-nos mais ou menos no oculto). ao instante. Ela forma um todo. etc. já realizamos uma operação mera­ mente mental. Mas. propriamente dita. colocadas umas em face de outras. como se fosse um punhado de areia. aquele tomar conta imediato. quando dados num único acto intuitivo. indica uma função da intuição que entre inúmeros aspectos possíveis de serem apreendi­ dos. A essa intuição específica (que não deixa de ser sem­ pre intuição) se dá o nome de intuição intelectual. e passa a chamar-se. na realidade. por intelecção. escolhe entre muitos. o que nos é indiferente. permite que haja objectos diferen­ tes. isto próprio. termo grego. São tensões mais fortes ou menos for­ tes. formando unidades. Assim intuímos também diferenças e semelhanças. alma para outros. sentimo-lo em nós como sendo o estado de nós mesmos quando estamos tristes. Dentro da intuição páthica. com o mundo dos objectos com o auxílio dos sen­ tidos. que sig­ nifica sofrer. que tem uma côr mais intensa do que a do outro comparado. que quer dizer escolher. por escolher entre. E se diz intelectual porque o termo intelectual. Um outro aspecto também importante. uma unidade. Temos. al­ guns. O facto de se darem tensões diversas. Toda a nossa inteligên­ cia funciona entre o semelhante e o diferente. que lhe dá uma unidade. Já vimos o que é intuição Quando oferece diferenciações. isto é. Tomemos uma maçã. intuição se qualifica. podemos alcançar diversas outras intuições como a estética. que guardamos conosco. conjugada com as outras ou não. toma um carácter determinado. a é. forma uma tensão. páthica. que dá solidez ao seu todo. mas consistem no que diz respeito a um objecto em face de outro. Mas essa tensão varia de umas para outras. intelectual. Nós também observamos que um objecto corpóreo é maior ou menor que o outro. a nossa mente. mas essa unidade nos revela uma coerência que liga..3G MÁRIO FERREIRA DOS SANTOS FILOSOFIA E HISTORIA DA CULTURA 37 sa. Contudo. ou ideal. comparamos a imagem obtida pela intuição sensível com o conceito do qual temos memória. mas quem vê é o nos­ so cérebro. de pathos. uma unida­ de.

Pode ser re­ duzida à alternativa ou. o mundo da Cul­ tura. ■ . povos. modos de proceder. é natural. E esta tem suas qualidades próprias. formam um novo corpo com quali­ dades específicas. podemos verificar. já pouco tem que ver . podemos dizer que não tem 20 cm. exterior. Assim. e o outro. que um é dado como producto. isto é. . Por meios matemáticos. apresentam a sua. poderemos dizer que tem 20 centímetros de comprimento ou não. Cada cul­ tura tem peculiaridades. A cultura tem uma própria. ela toma variadas for­ mas. Entre pai e mãe.. Também percebemos. porque se dá no tempo). que tem exactamente 20 cm*. indicar. mas apenas aproximativa. num lar. então. ou não é. Quando puxa a perna. Há ten­ sões de classe. As tensões têm suas possibilidades. os quais têm suas tensões e qualidades próprias. formando. de tensão diferente. combinam-se com ela para permitirem novas possibilidades e até novas ten­ sões. Isto nos indica que. etc. Façamos agora uma simples observação. Essas tensões são tão diversas quantas pessoas existi­ rem e o seu número é o das suas combinações possíveis. E se também tiver um centímetro menos. veremos que as culturas. quando combinados com outros. Assim. como veremos. porque toda ela é extensiva e intensiva. uma certa tensão que pode ser perturbada pela aproximação de uma pessoa que nela penetra. culturais. ela tem seguramente. outra entre êle e os filhos e as filhas separadamente. aqueles aspectos que são neces­ sários para auxiliar-nos num estudo claro da cultura huma­ na.ou. de realizar-se. Assim também cada cultura tem uma soma de possi­ bilidades que podem actualizar-se ou não. o espaço nos permite medir exactamente. e que são aqueles bens objectivos. impregnados do espírito do homem que os modelou. ou é . medível. Mas. E só podemos medir a intensidade quando a reduzimos à extensidade.38 MÁRIO FERREIRA DOS SANTOS FILOSOFIA E HISTÓRIA DA CULTURA 39 Locomove-se inteiro para cá e para lá.. Quando se trata da intensidade já o mesmo não se dá. 20 cm ou não. numa roda de amigos. uma nova. espe­ cificamente diferentes. diferentes. aqui. Já não temos essa alternativa. . ou não. porque não perten­ cem à matéria que ora ministramos. dando-lhes formas daquele. e não leva somente a parte que lhe aprouver. isto é. objectivo. mas de mar­ cantes consequências. tem a sua tensão própria. e sucessivamente. Se a medirmos. dos filhos varões entre si e desses com as irmãs. quando se trata de espaço. há uma tensão que é diferente da que se forma entre o pai e os filhos. podemos dizer que não os tem. ficamos numa alter­ nativa ou. Toda a tensão tem suas qualidades. Há tensões que ultrapassam o âmbito da família. como vimos. a espaço. mas a penetração de elementos estranhos. mas iremos. e com possibilidades diferentes dos ele­ mentos componentes. agrupamentos esportivos. tem caracteres próprios. por enquanto. Numa família. bairros. no qual está a esfera da História (a qual é um pro­ duzir-se. Assim ele­ mentos químicos elementares. Ora. o tempo. para compreendermos as realiza­ ções humanas. . da mãe com os filhos e com as filhas. em nua fase primitiva. leva todo o corpo. Assim a Natureza é mensurável. Se dissermos que tem mais ou menos vinte centímetros. concluímos logo que a nossa afirmação não é exacta.. de todas as realizações do homem. No entanto. As tensões são diversas e procedem diferente­ mente. Se tiver um milímetro menos. Essas podem ou não actualizar-se.ou. Mas essas tensões não se formam apenas nas coisas do mundo real... medimos o mensurável da Natureza. * * * Se olharmos para o espaço e para o tempo (temas que terão importância depois. enquanto são o que elas são. porque estas estão impregnadas do espírito desses dois conceitos tão profundos do homem). uma tensão pode também transformar-se em outra ou fundir-se com outra.. Formam-se também no mundo das relações humanas. pois podemos dizer que é um objecto mais azul ou menos azul. Mas. marcar. uma família. exactamente. Aí já se admitem graus. casta. assim. cada tensão formada tem uma série de possibilidades de realização. como um produzir-se. E essa soma de possibilidades forma o fundo de sua alma e o modo de actualizar-se mostra-nos o seu espírito. Não iremos estudá-las. Temos uma folha de papel. e dizemos.

e posteriormente decai em relação ao producto. As realizações humanas (e nelas incluímos tudo quan­ to o homem modelou com o seu espírito. que é verde. as cidades. em decadência. então. que é um verde que não é total e exactamente verde. Então. que é a da Lógica Formal. expressão do seu Princípio de Identidade. ela apanha o geral. chamemos cultura (aceitando a compreensão de Goethe e a de Spengler) a esse realizar-se de uma alma. mas um mais ou me­ nos verde. um producto da cul­ tura. temos o conhecimento de uma individualidade. e das combinações que possa realizar com os bens produzidos. quando se trata do tempo e tam­ bém das intensidades. inclusive as coisas do mundo real) podem ser consideradas em seu momento de realização. diz Spengler. e civilização como o realizado. porque serão consolidados com exemplos concretos. se considerarmos pelos graus da intensidade. o heterogéneo. Munidos agora de todos esses elementos. concomi­ tantemente. precisaremos com exemplos concretos êssea dois modos de visualizar a História humana. no início. depois se equi­ libra. cada qualidade é dife­ rente de outra. e reduzimos. Neste caso. Este acaba por dominar. com a Cultura. . espacializamos o tempo. preferentemente o que foi produzido pela cultura. o realizar-se. então. Se considerarmos tudo dentro da alternativa espacial. Mas quando concluímos que é uma cadeira. Podemos conceber o tempo como homogé­ neo. que apenas vê os aspectos formais (gerais) dos factos. A cidade já é. o que é extensivo (espacializado) está condicionado à alternativa o u . . A civiliza­ ção só a alcançamos no estágio da civitas. enquan­ to a Razão apanha o geral. em que se actualiza. Mas a cultura também pode ser considerada como mcipiente ou como superior. o que é uma Cultura e também o que é Civilização. o heterogéneo.40 MÁRIO FERREIRA DOS SANTOS FILOSOFIA E HISTÓRIA DA CULTURA 41 com a Matemática. No entanto. alta cultura. . O que é intensivo (qualitativo) está condicionado a uma escala de graus. Em conclusão. o criar. e como já o realizado. o geral. E quando isso se dá. em processo. cada instante é diferente do outro. precisa­ mos então de uma dialéctica intensista. o universal. a civilização vive apenas do criado. mas aí ela reduz o intuitivo ao ra­ cional. é o modelar as coisas com o espírito. Vejamos outro aspecto: concebemos o espaço como algo homogéneo. palavra latina que quer dizer cidade.ou. no sentido em que é comumente consi­ derada. Aqui a Matemática (como a concebemos em geral. para considerá-lo apenas como espacializado. que considere os factos em sua heterogeneidade. A Intuição apreende as singularidades. Assim quando intuímos esta cadeira. No futuro. que com o de­ correr do tempo tornar-se-ão mais precisos em seu conteú­ do. o produzido. e a Razão conhece o ho­ mogéneo. em si. o que se repete. No período de cultura plenamente em desenvolvimento. o homogéneo. veremos apenas as generalidades. quando dizemos que um minuto é igual a outro minuto como duração. o que se repete. como um realizar-se. a sua indi­ vidualidade ao conceito geral de cadeira.. algo que é o mesmo em todas as suas partes. embora em linhas gerais. estamos comparando uma das notas da sua individualidade com os conceitos que temos. que é algo que não é totalmente algo. o que é espacial. Mas a razão pode racionalizar o que nos é dado pela intuição? Pode. e. Mas aí despojamos o minuto de todos os aspectos heterogéneos que possui. concebemos este como heterogéneo. porque todos sentem que um minuto na História é hetero­ géneo. procederemos com a Lógica For­ mal. Já pertence à fase das grandes aglo­ merações humanas. então. de verde. intuímos um objecto singular. em que a criação diminui. hoje) quase nada tem que ver com a História. Na cidade. Não concebemos que uma parte de espaço seja diferente de outra parte. que a alma dessa cultura esgotou suas possibilidades criadoras. do produzido. Assim podemos dizer que a Intuição (e aqui a estamos tomando como uma função peculiar do nosso espírito) co­ nhece o individual. já podemos precisar. etc. diferente quanto aos outros minutos. conhece o individual. e. ainda há criação. porque tem graus. que nos permite dizer que é mais ou menos. bem como ou­ tras maneiras de concebê-la. Mas. Está. Por ora. o que se repete no singular.

incompreensível. A natureza é o nascido. dois mundos: o mundo da natureza ou na­ tural. aquelas que não foram movidas pelo interesse daquela. Essa luta não ter­ mina nem em nós. e o mundo da cultura. Mas. discutiu-se essa diferença. nem na vida social. era por isso puramente artificial. mas. as obras desinteressadas. mas apenas temer. Precisava ceder. Ao belo. * * * Sempre se notou uma diferença entre o mundo da cul­ tura e o mundo da natureza. criou aos poucos o maior desenvolvimento do seu es­ pírito. Mas pode considerar também o bem como próprio de uma divindade boa. Não as pode amar. O homem. E com essa criação gerou os momentos mais elevados. quem pede a sua salvação do mal e sua in­ corporação no bem. todas as realizações religiosas (que pertencem naturalmente ao campo da cultura). e o ho­ mem ama o bem. e acaba por atribuir o mal a si. nem sempre podia vencer. Não que­ remos dizer que não aceitem elas um ser supremo. Nessa fase. e as afirmativas de que o homem só é homem quando se funde com a na­ tureza ou nela vive. assim. então. Sempre veremos. Lutamos. com os sofistas. Se olharmos para o homem em suas fases mais primá­ rias. ou uma forma. vemos que êle mantém uma luta constante contra o mal. através dessa constante luta contra o demo­ níaco. contrários. enquanto os positivos são os divinos. não as pode desejar. Assim. se podia lutar. Finalmente. na História. contornar o demoníaco. Essa luta contra o demoníaco. ainda a temos dentro de nós. Mas. como quem implora. ao Bem corresponde inversamente o Mal. criou mais profundidade em sua alma. em nós. por isso a ama e a teme. ao benéfico o maléfico. então. pode conceber o realizar-se do mun­ do como uma eterna luta entre o Bem e o Mal. nessa fase. A luta do homem primitivo era contra o demoníaco. e entregue ao seu próprio crescimento. E aqui pode compreender a divindade como capaz de lhe dar o bem c o mal. . Mas. própria do mundo obs­ curo de luta do homem primitivo. porque con­ trariava a natureza. alcança o bem. vemos que corresponde a cada valor um valor contrário. que precisa conjurar. e a superioridade de um sobre o outro. ao divino o profano. gratuitas. Temos. para viver se­ gundo a razão universal (o Logos). mas admitem que o homem está envolvido por forças do Mal. só quando o homem construiu o bem sufi­ ciente para enfrentar o demoníaco e vencê-lo. Os valores opositivos são considerados o demo­ níaco da existência.42 MÁRIO BARREIRA DOS SANTOS FILOSOFIA B HISTÓRIA DA CULTURA 43 Se considerarmos os valores. oriun­ do de si. aquelas de que já falamos. na primeira fase. manifesta-se através das coisas. mas teme o mal. É ela a geradora de tantas formas na arte. Os valo­ res são polarizados: um positivo e um opositivo (ou como muitos chamam de negativo). Há. Foram estas que constituíram o que o homem tem e teve de mais elevado. Então o homem o adora em forma de deuses cruéis. e não quando se "artificializa" pela cultura até alcançar a civilização. sobretudo. entre um deus que encarne o bem e um que encarne o mal. Já na cultura grega. os deuses são tantos quantas as manifesta­ ções exteriores do bem e do mal. Mas as grandes obras humanas não foram apenas aquelas que surgiram dessa luta. Quando o homem criou para vencer o mal. de forças terríveis e devastadoras. e o homem deixava de ser homem. devia viver segundo a natureza. Acostumado a criar na luta. Como trava uma luta constante pelo bem contra o mal. a con­ jurá-lo a seu favor. o horrí­ vel. e o mal de outra divindade má. * Afirmavam os estóicos que o homem. Ama e teme. um valor oposto. porém. esse homem se vê constrangido a adorar o demoníaco. criou também fora da luta. e do gesto in­ teressado para o gesto desinteressado. O bem. como no campo da Sociologia e da Política. estão impregnadas do terror. contra tudo quanto o prejudica. concebe um deus do bem. contra o mal. numa atitude humilde mas heróica até certo ponto. o passo foi grande. apenas do bem. a fase do temor e. contra tudo quanto se lhe opõe. A cultura era considerada pelos gregos como as cbras realizadas (a civilização). não. que êle teme. essa valorização da natureza sobre a cultura. quando na natureza é incorporado um valor.

Pois bem. que actualizava mais o mundo como um presente. vence o demoníaco em grande parte. a espiritualidade objectivada. e vice-versa. salva-se do domínio absoluto do demoníaco. e não apenas as investigações. dando-lhes um valor. cria a cultura. um realizar-se. quando examinamos a criação e a transformação dos bens culturais. ou como produzido. temos uma visão histórica mais desenvolvida. a configuração dada aos bens. A cultura é o mundo próprio do homem. (Aula proferida em 22/8/50. Podemos dividi-la em duas esferas de estudo: o mundo da natureza e o mundo da cultura. viveremos o mundo como História e no segundo. é o espírito subjectivo. pode-se dizer que a cultura é tam­ bém um meio de salvação. as alterações deste último pela acção daquele. as rela­ ções entre o espírito subjectivo e o objectivo. um sa­ ber teórico. punctiforme. Conhecedores mais do passado do que o foram os ho­ mens. de outras épocas. sendo-lhe o passado mais ou menos perten­ cente ao mito. como um devir (vir-a-ser. ao contrário do homem greco-romano. 0 espírito humano que modela. transcen­ de a natureza. já realizado. Sônia Prestes) CLASSIFICAÇÃO DA HISTÓRIA Mostramos que podemos ver o mundo como um produzir-se ou como um producto. O homem vive na natureza e é natureza. forma o espírito objectivo. mas. Os objectos da cultura são aqueles que o espírito transformou. o que não pode faltar-lhe para ser homem. Hoje somos genuinamente históricos. Por isso. afirmem que o humano é pre­ cisamente o histórico. temos. e o resultado dessa sua actividade. O . no histórico. a Filosofia da Cultura. podemos considerar o mundo como um devir. com o qual confundiam os factos históricos. o existir. Com as criações que realiza. É esta que o humaniza. o homem conhece superações. ter consciência também do nosso carácter histórico. que ao procurarem tantos filósofos o que o homem tem de essencial. Ser humano é ser histórico. taquigrafada pela srta. E muitos chegam até a aceitar que a consistência do homem está precisamente no tempo. porque vemos o mundo como um produzir-se. Por isso a Filosofia da Cultura é também a filosofia da exis­ tência humana. histórico portanto. as transfor­ mações e as transfigurações observadas na vida social. (como já a fundamos). se olharmos o mundo como história. porém. No estudo da cultura. portanto. como Natureza. Esta. não é a única razão de sermos genuinamente históricos. e a história dessa humanização é a história da cultura. pelo espírito. quando analisamos seu estilo e estructura. Não é de adminar. e o perviver das for­ mas. em seu sentido lato. o conjunto das obras humanas. Consideremos a ciência que tome o mundo como devir. tornar-se). na sua historicidade. e o nexo que liga todos esses aspectos. No primeiro modo. então. e sobre êle fundarmos uma ciência. que incorpora valores.44 MÁRIO FERREIRA DOS SANTOS ei-la que se torna cultural. mas as outras razões só oportuna­ mente poderemos examiná-las.

para a realização das possibilidades previamente dispostas. e como estilização ou modelação do produzido (época civilizada). a primeira. uma interpretação verdadeiramente sistemática. rea­ liza a ligação entre o mundo da natureza e o da cultura. Temos a História Correlacionada ou Analógica. cujo objecto já está claro ante o que dissemos. a Antropologia. isto é. embora cada um seja um facto novo. Constituem. considerado como histórico. porque nos permitem descobrir o seu nexo. Se nos preocupamos com as semelhanças. Jacob Burckhardt e outros. como por ex. confundindo-se em grande parte. E temos. como mera­ mente descritiva su cronológica. e entre estas temos as que formam a Cultura e as que formam propriamente a Civilização. embora cada facto seja sempre novo. que a dirige para uma realização. signo). com a orientação interpretativa da História. A História pode ser interpretativa. a analogia entre Alexandre Magno. temos as Ciências do espírito e as Ciências da natureza. que procura cbservá-la como significativa. a Etnologia. para um estudo analítico. cujos exemplos mais famosos teremos ocasião de examinar no futuro.46 MÁRIO FERREIRA DOS SANTOS FILOSOFIA E HISTORIA DA CULTURA 47 mundo da natureza. procurando naquela a exe­ cução ou o realizar-se de um fatum (fado. imanente a êle (dentro dele) e não transcendente a êle (dirigindo-se para outros campos). nos ofere­ ce a História Natural. e tornaremos a examinar melhor. e suas disciplinas afins. destino.. que formam propriamente o terreno da ciência. o que se repete e o que não se repete. e a Fisio-historiologia. com outras disciplinas. A História ainda pode ser objecto de um estudo siste~ mático ou também construetivista. temos a História propriamente dita. os quais procura­ ram visualizar as analogias patentes nos factos históricos. a qual estudaria a vida hu­ mana apenas como história em seu desenvolver. Vamos agora ao mundo da Cultura. César e Napoleão. também. . Mas o mundo da natureza pode ser considerado pelo lado orgânico e pele inorgânico. e a segunda como o produzido pela primeira. há uma repetição. em todo devir. porque aquela estudaria o devir físico historicamente também. se o actualizar­ mos. Temos ainda a Biologia. Na Fisio-historiologia. e Sóciologia. Há ainda uma Metafísica da História. Ora. temos a História Humana. que poderíamos cha­ mar de Antropo-historiologia. parte da História. Neste. a Zoologia. propriamente dita. que. esta­ belecendo um nexo teórico sobre o desenrolar dos aconteci­ mentos. que teve como representantes Leopold von Ranke. naturalmente. que actualiza o repetível. Então. A História também se apresenta (e é a forma predo­ minante como ainda é exposta nas escolas). a Etnografia e as ciências afins. a His~ toriologia em geral. outro. oferece tam­ bém semelhanças. no primeiro caso. Se considerarmos o irrepetível. construindo com os factos. essas duas subdivisões se correlacionam. temos a Bio-historiologia. que será a ciência que tem como objecto o devir biológico. isto é. como mera narra­ ção dos factos desenrolados no passado. a Fisiologia e todas as ciências afin3. Todos os factos encerram seme­ lhanças com os factos anteriores. grandes realizações culturais. como o pretende realizar c historicismo. quanto aos grupos sociais historicamente considerados. e a segunda. e assim como manifesta diferenças. temos a Filosofia da História. temos uma correlação com a Fisico-química e as ciências afins. ciência genérica. como ciência do homem em geral. Podería­ mos nela actualizar. se considerarmos o orgânico historicamente. sujeito a uma concreção posterior. que terá como objecto o devir físico. Temos ainda a Economia. as realizações humanas. Como interpretativa. a Ecologia. temos as seguintes: a Economia. cuja descrição obe­ dece a certo rigor quanto à autenticidade dos mesmos. cujas carac­ terísticas gerais já examinamos. pois. então. e nalgumas tentativas es­ peciais. mas inibindo-se totalmente de qualquer interpretação ou de dar qualquer significado aos factos decorridos. a primeira como o produzir-se dessas realizações em sua fase criadora. No terreno da Cultura. e analisar também as diversas tentativas de in­ terpretação. sem sair desse campo. isto é.

Finalmente. etc. mas suficientemente clara. F1S10-HISTORIOLOGIA BIO-HISTORIOLOGIA r ^ \ IRREPETÍVEL A BIOLOGIA ZOOLOGIA BOTÂNICA FISIOLOGIA E CIÊNCIAS AFINS A INTERPRETATIVA ANALÓGICA (Com Ranke) METAFÍSICA IDEA­ LISTA (Hegel) SISTEMÁTICA ou CONSTRUCTIVISTA (Historicismo) DESCRITIVA (Crono­ logia Histórica) REALIZAÇÕES HUMANAS / CULTURA CIVILIZAÇÃO ECOLOGIA ETNOLOGIA e CIÊNCIAS AFINS Correlacionadas com a Fisio-historiologia A ÉTICA ECONOMIA ÉTICAS SOCIOLOGIA REAL SOCIOLOGIA . É como um retorno às classifica­ ções anteriores.48 MÁRIO F E R R E I R A DOS S A N T O S FILOSOFIA E HISTÓRIA D A C U L T U R A 49 ■que permitem uma reversão sobre o homem e o mundo em todo o seu desenvolver. podemos unir a Sociologia com a Culturologia e História da Cultura. objectivando um estudo dialéctico das realizações humanas.ÕGÍÃ| I Antropo-sociologia Antropologia r » A CIÊNCIAS DO ESPÍRITO CIÊNCIAS DA NATUREZA E AFINS \ . que seria uma ciência englo­ bante do irrepetível histórico. como a Física. como objecto. E os te­ mas e os problemas dessa ciência já foram expostos e pas­ sarão a ser matéria de exame nos próximos estudos.Antropo-historiologia (História do Devir Humano ou a Vida Hu­ mana como História) HISTÓRIA NATURAL Cosmologia A. como Devir) /" MUNDO DA CULTURA MUNDO J)A NATURA ■ \ "X A HISTÓRIA HUMANA —. pois todas elas estão incluídas dentro da •ciência. embora sucinta. um estudar. MUNDO (Como Histórico. É como um observar a si mesmo. que constituem as chamadas Ciências do espí­ rito. por meio da Socio­ logia da Cultura. podemos unir a Antropologia com a Sociologia real e. Essas ciências apresentam subdivisões. a si mesma. da matéria que pretendemos tratar daqui por diante. etc. a Química. como a Filosofia. conexionadas pelo espírito dos campos da natura e da cultura. a Metafísica. CULTUROLOGIA E HISTÓRIA DA CULTURA "V V ■V" SOCIOLOGIA CULTURAL L. Por intermédio da Antropo-sociologia. Cremos ter assim oferecido a todos os que nos ouvem uma génese. e as Ciências da natureza. ten­ do. a Filosofia da Cultura nos permitiria reu­ nir o repetível com o irrepetível histórico. .

como uma sucessão tória. e maiores d* W * ™ ájÀ^fT ° ' fe sem Es sa e aracao fa bém os factos a b s t V óW^f . . Os //? fí iente > daí o s graves erros d i z e r qu e e t e a m 0 s e m Ao examinam^ /M « J + diversas que nos ^ B w J k \ ^ concreta do universo.. vemos opiniões das mais í^itradições profundas.. V t o d V / & humanas. . e efeitoa A^ V ' o c *" J ™* ° necessana entre de causa que é c fJ natureza que não t V n o f > F O ADVEN^ o que aceita.rri "l\ • IÍOR DO HOMEM . O princípio 1) Nexo caus% lemo? n .°. ^ f ™ r V /L iuosoios procuraram dar condição de const. o quap^k ^tro do princípio de causa A0 "! . ^ / t a m ._ E poderíamos dido assim. O Cientisuma visão d e n t í f i ^ t r a ^ f / / / á s < > ^ 0 . ^ L "™& / ^J^perimfintavel.. a r a g s i m . na r e a l i d > K Í ° "ã ^ente). conhecemos\>l£jff°O Í S S ™ w " 0 f e r e O e a l i Z ^ V a existência desse nexo S £ o Í + h f T C 0 Ssem* ? elas ú'É ?AP de duas maneiras: descontrolada. ví^nte. l s t o e ' s e ~os autónomo. da Hiszemo-la apenas m e . „ n a d a g e d á n a Q nexo causal ' *) N ^ / M p o s uma causa eficiente". « P ' e ™™S uma abstracSã*™dmmnãA f r a n d a P°* t e t™ °l? P rc o cm íe pela raente um ^ . >$>% /Kmund. Hoje ninguém v * cao > P na História.° ?ís ra. p r o c e d e ^ > e ^ > | . ds ' „aJ n/pàenx Cã$ Hy_ Ji/Ae direção. . e efeito. Através. c o n t u X S e p a l í/^exo o u n a o . ' f u ^ n d o a ^ d a rfa" Círculo de Viena.•° C i e ^ s m o 7e 1 Vemos a s tentativNi^ < . embora muitosV S e a £ f <í ue tomamos separadamenc s r m C O C O m o se dades. v J da natureza. jffr Ça aa e efeito. factos são o b s e r v a i < t ^ ^ S S ^ r o c u í a í a m S que se perpetuam. isto e realimo.<. ^d a v 4 ^ ? . d° ° o se desse. por Wftjj > / \ípio.T t ^ P . que é a c J ^ . encontra dificulV rq tem os factos apenas c<J t*&M ^Tt°^ ° "\ °^ã ção com o m e t a f í s i S ^ ! í (Abstraímos.

continuamos considerando o abstraído como autónomo. ou não. separadamente. Os factos são observados abstractamente. onde alguns filósofos procuraram dar uma visão científica concreta do mundo. uma relação necessária entre . isto é. e maiores do que as dos filósofos. reali­ zamos uma abstracção. Tal não quer dizer que estejamos em condição de construir uma visão concreta do universo. que é aceito no reino da natureza. toda vez que tomamos separadamen­ te pela mente um aspecto do acontecer cósmico. o que aceita. Hoje ninguém mais pode negar a existência desse nexo na História. se os factos históricos se dão casualmente. com o inexperimentável. Vemos as tentativas através do cientismo. Q nexo causal é colocado dentro do princípio de causa e efeito. 2) Nexo de direção. sem direção. O Cientis­ mo. na realidade. (Abstraímos. embora muitos pensem que é solução. como uma sucessão descontrolada. isto é. daí os graves erros que se perpetuam. Essa separação fa­ zemo-la apenas mentalmente. O Cientismo vê os factos apenas como se apresentam. como se êle se desse. E poderíamos perguntar se oferecem elas um nexo ou não. formado pelo Círculo de Viena. porque olha tam­ bém os factos abstractamente. o qual podemos considerar de duas maneiras: 1) Nexo causal.ii":! O ADVENTO E O VALOR DO HOMEM Ao examinarmos a História. encontra dificul­ dades. Quando após termos proce­ dido assim. Através da His­ tória. O princípio de causa e efeito podemos anunciar assim: "nada se dá na natureza que não tenha pelo menos uma causa eficiente". vemos opiniões das mais diversas que nos mostram contradições profundas. fugindo a toda rela­ ção com o metafísico. procedemos abstractistamente). por princípio. conhecemos as realizações humanas.

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o efeito e a sua ou suas causas, a qual não se pode romper. O nexo causal vê a História sistematicamente, tanto o mundo da cultura como o da natureza. É esta a tendência da escola Materialista, objectivando apenas o producto, considerando a História apenas como producto, porque, da­ das tais causas, virão fatalmente tais efeitos, o que é falso, porque há sempre uma margem de frustrabilidade em tudo quanto se refira ao homem. Através do nexo de direção, a História é tomada por sua fisionomia e não mais sistematicamente, objectivando o "produzir-se". Este é o modo pelo qual a História é considerada pela concepção metafísica idealista, pela analógica, etc. Estas duas maneiras, entretanto, são abstractas e uni­ laterais. Há o que constitui o Mundo da História, uma parte que pode ser olhada pelo princípio da Causalidade, enquan­ to outra é direcional. No mundo da Natura, o homem está sujeito ao princípio de causa e efeito, ou melhor: é na Na­ tura, um efeito. E no mundo da Cultura, êle passa a actuar, passa a ser causa, porque é criador. É necessário, portanto, procurarmos um outro nexo, que ligue os dois examinados. É o que faremos no futuro. Advento e valor do Homem — Em toda história do homem, este interrogou, procurando respostas aos "por­ quês" que surgiam, e estas perguntas podem ser reduzidas às quatro clássicas: Quem sou? Onde estou? De onde vim? Para onde vou? Estas foram sempre propostas em todo desenvolvimen­ to da História e receberam respostas variadas. Quem sou? — É o sentido do ser mais profundo: É o homem um animal? Um deus? É apenas um producto da Terra? E, com esta pergunta, o homem já está afirmando que sabe que não sabe, mas quer saber. Onde estou? — Este mundo é o único? Haverá algo além dele? O que é esse algo mais? Qual a nossa posição diante de tudo isto? De onde vim? — é a pergunta do advento. Como surgiu o homem?

Para onde vou? — constitui o problema máximo e está presente em todas as épocas: o problema da morte como limite que aponta algo mais além. Este problema é fundamental para a compreensão da arte e da cultura. Houve épocas em que o homem viveu preparando-se para a morte. Para responder a essas inter­ rogações, surgiram as doutrinas religiosas. O homem é o único ser que diz "não" à natureza. Esses problemas le­ varam a muitas respostas, que podem ser coordenadas em duas grandes concepções: a Cosmológica e a Antropológica. Cosmológica é toda ideia ordenada do universo. (A Cos­ mologia estuda o Cosmos, sua origem, formação, finalida­ de, e t c ) . A Antropologia estuda o homem, é a ciência do homem. Pode tomar diversas formas, como já vimos. Para a Cosmologia, o círculo da Antropologia está in­ cluído dentro dela. O homem é tomado e estimado como parte, embora para a Cosmologia, em sentido filosófico, o homem é tomado como o ser mais elevado, mas, assim mes­ mo, tomado como parte. Mesmo cientificamente, o homem é avaliado por juízos de valor. Na Cosmologia, sob o pon­ to de vista sistemático, o homem é considerado como parte do universo. A Antropologia toma o homem como centro do univer­ so, e esta posição analógica acaba transformando-se em antropocêntrica, e daí as formas derivadas como o antropo­ centrismo, que degenera em antropomorfismo. Este procura modelar o mundo pelo homem, e este é que dá forma ao mundo, como se observa, principalmente, nos homens pri­ mitivos. Ciências especiais, como a Antropologia e as di­ versas cosmologias, procuram estudar a essência e a estructura do homem e, naturalmente, as suas relações com o mundo da Natura. Passa a ser o homem um problema para si mesmo, o que o obriga a construir ciências sobre si mesmo. O homem foi considerado como "uma coisa en­ tre coisas", e também considerado como "pessoa entre coisas". Procurando resolver ou responder às perguntas que eram feitas, para saber em que consistem as coisas, tam­ bém se respondia à pergunta em que consiste o homem. Sócrates é um dos exemplos de quem observou os homens como pessoas entre coisas. O homem é uma coisa que diz

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o que as outras coisas são, e o contrário não se dá. Há também a tendência de considerar a Antropologia como dissolvida na Cosmologia. Temos, então, os panteístas, para os quais tudo é Deus. Grande é a diversidade de opiniões. Tornou-se, por isso, necessário fazer uma síntese que incluísse em linhas gerais os princípios fundamentais das diversas doutrinas. Aproveitamos a oferecida por Scheler. A mais antiga é a ideia deísta, que é a resposta clás­ sica dos judeus e cristãos: Deus e a matéria. Deus é o criador do homem. O homem é, no cristianismo, um cida­ dão de dois mundos: do mundo do infinito, e do mundo finito. Do mundo infinito recebe a alma, e do mundo fi­ nito, o corpo. O homem é um espírito inferior ao espírito de Deus, mas tem, em si, uma possibilidade de se divinizar ou de perder-se. É um composto de alma e corpo. Entre­ tanto, há, nas ideias deístas, diversas interpretações, e en­ tre elas a de que o homem é um anjo decaído, nostálgico do céu, e daí a sua angústia. A segunda concepção é a grega — que diviniza tudo. Todos os deuses tinham carácter pessoal. Olhavam os gre­ gos o mundo como divino, como vivo. Para os cristãos, o homem é animal pelo corpo. Para os primeiros, existia uma outra separação: o homem é também animal, mas tem um dom que é o Logos, a razão, que é algo semelhante à alma, e permite-lhe a formação da inteligência. A razão é um poder, uma força. (Para o cristão, a alma não é força, porque é espiritual). O logos permite ao homem uma consciência sobre a natureza, e conhecer-se tal como é, e também como as coisas são em si. Assim pensavam os gregos. Na concepção grega, há quatro pontos fundamentais: 1) O homem é producto de um agente directo, a razão; 2) essa razão permite que êle conheça a si mesmo, e as coisas como elas são; 3) esse agente (Logos) tem um po­ der, uma força; 4) esse poder é dado a todos os homens, e não apenas a um número determinado deles. Entre os principais representantes desta escola, pode­ mos destacar Anaxágoras, Platão, Aristóteles, cujas concep­ ções influíram no mundo ocidental, em Tomás de Aquino, Spinoza, Kant, Leibnitz, etc. Essa concepção é a do "homo

sapiens". A inteligência não se produz, já é producto, está na natureza, mas só o homem é capaz de captá-la e retê-la. Vemos também as explicações que podem parecer ingénuas, mostrando que a maior prova do homem ser inteligente es­ tava na sua verticalidade, porque assim êle se aproximava mais do céu, e também pela conformação do cérebro, que é mais redondo, assemelhando-se à forma do universo. Procuravam explicar os fenómenos por analogias. Esta é a concepção que passaremos a chamar de Apolínea. Há, na Grécia, um movimento, que é contrário a essa concepção: a concepção Dionisíaca, cujo movimento corresponde, por analogia, ao movimento renascentista no ocidente. A terceira teoria, que é das mais conhecidas, pode ser englobada como a dos naturalistas, positivistas e pragmatistas. Estes procuram reduzir o homem à natureza. São os que valorizam o nexo causal. Para estes, o homem não é o homo sapiens, mas o homem que produz, que fabrica ins­ trumentos para poder viver (homo faber), tais como o idioma e os instrumentos de trabalho para a vida económi­ ca. O homem é apenas constructor, e por construir é que se tornou inteligente. A inteligência estructura-se no decor­ rer do tempo. Só posteriormente êle se transforma em homo sapiens. Estas concepções se fundamentam nestas notas: 1) não admitem nenhuma diferença essencial entre o homem e o animal; as diferenças são accidentais; 2) não admitem nenhum princípio espiritual no homem. São as posiçqes materialistas. O espírito, para eles, é apenas instinto e sensações que vão se derivando até se tornarem propriamente espírito. Os fenómenos psíquicos, para os deístas, são, dessa forma, controlados pela alma. Para os gregos, a inteligência é o Logos, e para os natura­ listas é produzida pelas transformações qualitativas dos fe­ nómenos fisiológicos, ou apenas epifenômenos; isto é, se dão juntos com o fenómeno fisiológico, e não isoladamente, pois são apenas reflexos. As ideias são sinais dos impulsos, e o homem é apenas: a) animal que cria idiomas; b) animal que cria instrumen­ tos para as actividades económicas; c) animal cerebral, porque o homem, comparado com os outros animais, con­ some maior soma de energias no trabalho cerebral. Os de­ fensores são: Demócrito, Epicuro, Comte, Spengler, Dar­ win, Laplace, etc.

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A quwta teoria oferece uma valorização do instinto. Há os que valorizam o instinto de reproducção, de poderio ou de poder, e a intuição. Quanto ao poderio, temos a Von­ tade de Potência de Krause. Quanto aos que actualizam esses instintos de reproducção, poderio e intuição, temos: 1) a concepção económica na História, que procura explicar os factos como causados pelo factor económico: como Karl Marx. Aceita também a influência de ordem natural, mas se inclui nas anterio­ res, de que o homem é apenas o producto da natureza. Temos ainda os racistas, que estabelecem serem os cho­ ques de raças valorizadores do homem. Finalmente, den­ tro desta concepção, temos ainda a do poder político, no sentido de Maquiavel, e a Vontade de Potência de Adler e Nietzsche. A quinta teoria é uma Ideia terrível, como a chama Scheler. Procura estudar o advento do homem, a sua po­ sição e o seu valor na História. É muito pouco compreen­ dida por estar esparsa em muitas obras. É contrária a todas as outras. O tema principal é a decadência. Afirma: o homem é um desertor da vida, o homem vive de sucedâneos, etc, enfim, é um ser desarmado ante o mun­ do, por isso necessita de instrumentos que são os conceitos, os idiomas, etc. A razão, que para a posição grega é di­ vina, portanto, elevada, para esta concepção é uma negação da vida, ou como Nietzsche diz "um órgão coxo", sem o va­ lor que lhe deram os gregos e os cristãos. Para esta teoria, o homem é uma enfermidade, um verme ridículo e preten­ sioso, que se auto-critica nas horas de depressão. O ho­ mem pensa porque não pode e não sabe para onde ir, e es­ colhe racionalmente, porque não sabe agir instintivamente. É astuto, porque é fraco e débil biologicamente. Por isso é um animal ávido de morte, porque nasceu para sofrer. Conclusão: o homo sapiens não é um momento alto, mas um momento de declínio. Apoiam esta teoria: Schopenhauer, Nietzsche, em parte, Klages e Dacqué. Dacqué foi propriamente um dos primeiros que construíram esta teoria, com certos fundamentos de ordem científica. Resta saber se o homem tem alguma coisa além da natureza.

Dacqué assim considera: há uma decadência em toda na­ tureza e o homem também decai. No início do universo, o homem foi o maior de todos os bens, mas decaiu. Nós somos apenas alguns homens que estão demorando a decair, e outros irmãos nossos já decaíram, e são os animais. Dacqué, portanto, inverte a teoria clássica, partindo do mais complexo para o mais simples. O homem passa a ser o ponto de partida para a decadência actual. A opinião optimista de Nietzsche estabeleceu que o homem é decaden­ te, mas é apenas uma ponte, que pode e deve por isso ser superado. Reexaminando as teorias já vistas, notamos que a na­ turalista (positivista, pragmatista, e t c ) , é de carácter ma­ terialista. Para ela não há diferença essencial entre o ho­ mem e os animais. Apenas modificações posteriores dis­ tinguiram aquele destes. Vemos que a Ideia Terrível é a concepção da decadência do homem. Esta teoria coloca-se, como vimos, sob o ponto de vista que o homem é um animal decadente, que foi per­ dendo, a pouco e pouco, os seus instintos, os quais não fo­ ram suficientes para ajudá-lo na vida. Os seus meios naturais de defesa eram muito fracos, e teve, por isso, de desenvolver a inteligência, que revela a capacidade de distinguir as diferenças e as semelhanças, distinguir o parecido do diferente. Consiste ela em veri­ ficar, entre as coisas, o que nelas se repete, e o que elas têm de diferente umas das outras. A inteligência, realmente, não sai deste campo. Tal afirmativa é paradoxal. O Pathos é a esfera da afectividade; Logos é a esfera da inteligência. (Intelegir vem de inter e lec; inter signi­ fica entre, e lec é um radical que significa escolher. As­ sim intelegir é escolher entre diversas notas. A inteligên­ cia é a função do espírito humano, que consiste em escolher certas notas dentre diversas outras.) A afectividade também nos oferece um saber de mui­ tas coisas, mas o seu estudo pertence ao campo da Filoso­ fia. Verificamos que a afectividade é confundida muitas vezes com a sensibilidade, que está presente em todos os seres vivos, enquanto a afectividade já não está. Ela se desenvolve até chegar ao homem, que é o animal de maior

este não consiste ape­ nas em inteligibilidade. embora todas afirmem que a decadência é inevitável. Cada vez perde mais as forças. uma manifestação de de­ cadência maior. E à propor­ ção que cria mais. A mente. Mesmo assim. O animal não contraria os seus instintos. e não aceitam nenhum momento de superação. despertando até os próprios instintos que. portanto. Para Nietzsche. enquanto o homem diz não à natureza. E as excepções a essa teoria são as dos autores que pregam o retorno do homem aos meios naturais: nudistas. se vê obrigado a amparar-se em seus semelhantes. Para essa teoria terrível. que são de efeito mais rápido e. Em suma. êle trabalha contra si próprio. com isso. en­ quanto a da decadência não aceita esta interpretação. prepara comidas condimentadas que pos­ sam despertá-lo. mas prefere to­ mar remédios. mas perdura ao lado dela. a inteligibilidade já não se verifica. Para êle. e cada vez se vê obri­ gado a criar mais instrumentos para a vida. por necessidade. se viu obrigado a viver em sociedade. Se esta apenas pertence ao espírito humano. Verificamos que em todos os seres vivos há sensibilidade.58 MÁRIO FERREIRA DOS SANTOS FILOSOFIA E HISTORIA DA CULTURA 59 afectividade. Êle não enfrenta as intempéries. o homem mais primitivo procurava a fêmea para satisfazer as suas necessidades. que é o do progresso. Nietzsche afirma que o homem. se­ gundo eles. e expõe a sua interpretação quanto ao valor do homem e o seu papel na sociedade e na história. admitimos que havia sociedade entre mãe e filhos. e ela é que fi­ cava cuidando dos rebentos. a formarem uma sociedade. naturalistas. Não existe sociedade onde existe apenas um ser humano. . forçou-os a se reunirem. o homem é um animal sociável que. então. forçado pela necessidade. Para o autor. as necessidades do apoio mútuo. formando o esboço da fa­ mília. para eles. para exe­ cução de um fim comum). o que au­ menta o enfraquecimento. Grande parte dos filósofos confunde inteligência com espírito. A razão passa a ser. o homem é um ser social. torna-se mais fraco. A sua alimentação é cada vez mais cozida. Nietzsche. encerra a inteligibilidade. Há sociabilidade sempre que há sócios (em latim significa reunião entre duas pessoas. os instrumen­ tos. O homem não está em progresso. as lutas entre eles. e se vê obrigado a construir elementos que compensem a sua insuficiência. Substitui a ausência de instintos por instrumentos. o abuso dos medicamentos. Social é considerado no sentido eti­ mológico. desde que existiram animais bissexuados. À proporção que o homem se torna mais inteligente. o perigo de ataques. o homem está dentro também da concep­ ção naturalista que admite o homo-faber. en­ traves. Não procura evitar as dores por meios naturais. por atrofiar as defesas naturais. o espírito. o homem vivia anteriormente aos pares: macho e fêmefi. ter perdido a força dos ins­ tintos (decadência do homem). pelo aumento dos grupos. Nesse livro. no sentido eti­ mológico. Mas sucede que as concepções naturalistas sofrem a influência do mito do século XIX. dificuldades para as realizações de seus instintos. O homem pode usar a inteligência tanto para o bem como para o mal. sempre existiu sociedade. A má consciência é consequência de um ressentimento. porque seu organismo não está preparado para elas. censuras. não é suficiente para criar-se a si próprio. Provocados os homens por uma série de modifica­ ções havidas. na "Genealogia da Moral". êle precipita a sua queda. E quando não tem apetite. estão apenas adormecidos e não completamente aniquilados. O homem. É o espírito que diferencia o homem dos animais. os órgãos funcionam menos. os instintos estão completa­ mente aniquilados e não poderão retornar ao ponto inicial. O homem não procura apenas a fê­ mea. como exemplo. estuda o nascimento das ideias morais. Cria inibições. mas sim em cons­ tante decadência. Entre os defensores desta posição. Mas. no mínimo. Neste caso. por ser frágil. enfraquece o organismo. Temos. Daí surgem algumas opiniões que se desviam um pouco desta. tema da psicologia moderna para o qual Nietzsche chamou tanto a atenção. isso não é propriamente uma sociedade. e naturalmente os rebentos que daí decorressem. cria.

maior fixação dos va­ lores baixos. que vivem nas épocas de civilização. decadente. Na concepção de Nietzsche. etc. ao criar o chefe. Todo progresso humano. í . está estabelecida a luta que. surgiu o Hominídeo (de forma pa­ recida à do homem). é producto da fraqueza. colocam assim: Antropóide Pitecântropo Antropóide. teria fatalmente que compensá-los. na afectividade. o homem realizou tam­ bém algo de grande. Homo sapiens ^ ^ Pitecântropos. per­ deu-se mesmo a capacidade de sofrer. que não podia fazer nada pela força. Neste caso. Na Economia. (não descendência!) com o gorila. Foi em épocas cruéis que sur­ giram Buda. t . mas não nos deixemos arrastar pelo espírito de deca­ dência. finalmente. perdem a afectividade mais do que o que vive em pequenos agrupa­ mentos. e. causar admiração). Assim se julgou a prin­ cípio : Homem Podemos dizer que realmente o homem é. e permite ao homem elevar-se acima das suas fraquezas. ha­ verá decadência? Estaremos perdendo em afectividade? Os homens. (hominídeo) V comum Elo Desse elo comum. com o tempo. Os animais são indiferentes. não é decadência a inteligência. O homem era um fim como homem. Perdeu-se muito da simpatia huma­ na. Esses homens sacri­ ficavam o corpo para impressionar os outros: são os asce­ tas.í Hoje. uma espécie de sedimentação que se separa da sociedade. incluindo a razão. para êle. Os mais fracos. Devido às grandes acumulações nas metrópoles. mas um início como super-homem. A Técnica é um recurso e está conjugada com o espírito. e principalmente com o chim­ panzé. Nas grandes concentrações humanas. A inteligência. Se êle progride tanto na técnica. Com a in­ teligibilidade. os homens se aproximam fisicamente e afastam-se afectivamente. surgiu a teoria naturalista que procurava explicar o homem como tendo parentesco. Hoje o homem ama as coisas. e são apoiados sempre pelo asceta. cria a divisão de classes. Os chefes for­ mam.60 MÁRIO FERREIRA DOS SANTOS FILOSOFIA E HISTORIA DA CULTURA 61 Quanto maior o ressentimento. Hoje o homem vale pelas coisas. Por verificar-se que existe grande semelhança entre o homem e alguns antropóides. Por que os outros ani­ mais não criam também instrumentos? Porque não têm o que lhes permitiria criar instrumen­ tos. Tiveram eles um elo comum. não pode ser consi­ derada propriamente como um mal. as formas superiores. O espírito de nossa época é que é espírito de decadência. o homem conhece o progresso. fazia grandes sacrifícios. Os chefes nascem das guerras e lutas entre os grupos. O asceta é o tau­ maturgo (palavra que vem de um verbo grego que signi­ fica admirar. os sacerdotes futuros. Sendo um animal que perdeu a intensidade dos instintos. Cristo. * * * mais nos separamos. Quanto mais nos aproximamos uns dos outros. Portanto. Mas. que encontra nele a força que o ampara. enquanto os homens são insatisfeitos. Mas há excepções que permitiram que a História não fosse apenas um pesadelo. ver­ dadeiras demonstrações de ascetismo. procuraram recursos supremos que são a audácia e a inteligência: o homem fraco. não realizará nada de grande com o coração? É natural que actualizemos a decadência porque a vive­ mos. e isso permi­ tiu o desenvolvimento da Técnica. o homem era apenas o ponto mais alto de uma evolução. que se viram forçados a viver no ambiente fechado. como animal. mas como um recurso.

etc. assume formas viciosas. Spinoza. Aceitam alguns cientistas que houve uma era em que as condições ecológicas do universo eram totalmente dife­ rentes das actuais. cujo estudo pertence à Antropologia. construída a "more geométrico". posteriormente. mas sim contemporanei­ dade entre os dois sectores. A quantidade de gás carbónico existente na atmosfera era em relação à quantidade de oxigénio de proporção muito . Não há propriamente relação de causa e efeito entre as modificações de carácter fisiológico e as modificações de carácter psíquico. deísta. Pode-se dizer que. como a grega. porque sabemos que os outros tipos de homem o são. observam-se desvios das verda­ des fundamentais. que um dia desce e esparrama-se pelas planícies. Este ani­ mal modifica o seu modo de proceder e sofre. consiste nos primeiros axiomas. um animal arborícola. não estão refutadas nem o serão. diversas transformações de carácter fisiológico. o homem não é apenas espírito. mas perfeitamente consequentes. as concepções. mas também animal. ou a inteligência a causa das transforma­ ções fisiológicas. Em outras doutrinas. (Aula proferida em 29/8/50). O seu erro. desviando-se do axioma estabele­ cido no início. passou a ser grande pro­ blema para a Filosofia e para as ciências em geral. Há uma teoria que procura ex­ plicar o elo comum. Para o naturalismo. Cientificamente. também se deram modificações de carácter psíquico.62 MÁRIO FERREIRA DOS SANTOS como o homem de Neandertal. entretanto. É ainda problema de Filoso­ fia o problema do espírito. podemos dizer que em todas elas há um princípio que. O elo comum tem que ser um animal que não seja faber. consequente­ mente. simultanea­ mente às modificações de carácter fisiológico. por exemplo. Daí decorre toda a sua doutrina. Resta. A descida da árvore permitiu o advento da inteligência. DIFERENÇA ESSENCIAL ENTRE E O ANIMAL O HOMEM Recordando as concepções estudadas. o de Cro-Magnon. distanciando-se do animal. Os seus pensamentos não são meras analogias. que admitem a passagem do homem das selvas. entretanto. aceitando que foi um hominídeo. A interpretação tem base em mitos e lendas religiosas. mantém uma regularidade pensamental. saber se as trans­ formações fisiológicas foram a causa do desenvolvimento da inteligência. O psiquismo hu­ mano.

membros preensíveis. Nes­ ta época. não conseguem. viram-se forçados a procurar o ali­ mento e empreenderam a descida da árvore. Ve­ mos também nas lendas a presença da árvore. mares de sarga­ ços. devido às condições que lhes permitiam permanecessem nas árvores. enquanto os tra­ seiros já eram preensíveis. dos quais ainda conhecemos um entre a América e a Europa. O símio superior só emi­ te sons por inspiração. ou melhor. na terra. usando a pos­ tura vertical. O ho­ minídeo. que vivia nas árvores. Esse desenvolvimento exagera­ do da parte dianteira não favorecia a posição de quadrúmano. e são nómades. que desse elo comum. que é típica no ser hu­ mano. mas os símios. diferente da dos outros animais. permitindo o desenvolvimento da parte frontal. pelo facto de afastar as narinas do chão. Qual a causa dessa transforma­ ção? Se observarmos as diferenças entre os símios e o ho­ mem. Os hominídeos. enquanto a parte mais primitiva está localizada na parte posterior. Por viverem nas árvores. ter os focos tão acentuados como o homem. tornando-se cada vez menor a quantidade de gás carbónico e. Esses hominídeos. Deixou de ser o que era para ser outro. de algas. decorre das modificações fisiológicas sofridas. A insatisfação. revela maior hipermetropia. nas árvores. desenvolveram exageradamente os membros anteriores. compa­ rado com um homem culto. tinham que ter visão de continuidade frontal. Os mares eram repletos de vegetais. atrofiou grandemente o olfato. e passou a viver. alimentavam-se uni­ camente de frutos e folhas tenras. Os animais. não se modifi­ caram tanto quanto os hominídeos. e a mastigação. os símios superiores. que quer dizer bosque. Os símios superiores constroem nas árvores a moradia somente para uma noite. Por isso deu-se algo de espantoso. assim expõe: o homem fixa os dois olhos sobre um objecto e pode variar a convergência. então. enquanto o homem os emite por expiração. na parte norte. vemos que elas são imensamente grandes. portanto. seus olhos são mais hipermetrópicos. Depois das modifica­ ções ecológicas havidas.64 MÁRIO FERREIRA DOS SANTOS FILOSOFIA E HISTORIA DA CULTURA 65 maior. que é lateral. Como se explica. como sabemos. é de se admitir que o hominídeo viveu. uma parte seguiu uma direção e outra seguiu outra? Vejamos: a visão humana é binocular e oferece con­ vergências. A hipermetropia diminuiu no homem. nos vegetais. a vida animal pôde desenvolver-se. deu-se novo desequilíbrio. que cada vez mais se fixou. depois de um longo período de milénios. foi profunda. porque estes se trans­ formaram completamente. na primeira fase. A transformação da visão. em bases científicas. dá-se o con­ trário: respiram o gás carbónico e expelem o oxigénio. em con- . como tam­ bém são grandes as semelhanças. da imaginação e da vontade. mas já se haviam diferenciado. diminuindo a de gás carbónico. no início. desenvolveu-lhe também os nervos. o hominídeo. parte das associações. que se assemelha à dos símios. Portanto. enquanto. A concepção mais segura. e a procurar alimentos. Um selvagem. Nesta fase era totalmente impossível esta vida animal. e percebe melhor os objectos mais afastados que os próximos. respiram oxigénio e ex­ pelem gás carbónico. A própria palavra sagrada vem de sacer. Os mares e oceanos de então não tinham a conformação que conhecemos hoje. O mesmo não se dá quanto aos outros animais. e deviam ter vindo da mesma fonte. anteriores ao pitecântropo. não podem fixar os objectos muito próximos. Assim. e só nessa época seria possível o surgimento do ho­ mem. a quantidade de oxigénio na­ turalmente aumentou. que lhe trouxe grandes modificações fisioló­ gicas. Posteriormente. Na terceira fase. e é absolutamente inavegável. pelo facto dos vegetais absorverem gás car­ bónico e expelirem oxigénio. Os símios têm também essa mobi­ lidade. o que predispunha à erecção. o músculo que lhe sustenta a cabeça perdeu sua função e a nova posição do cérebro exigiu novo equilí­ brio. mas apenas de algumas espécies. Esses animais. A erecção desses ani­ mais era possível. os vegetais já não tinham as grandes dimensões anteriores e passaram a ser parecidos aos de hoje. de seu antecessor. As árvores diminuíram de ta­ manho. então. Na terceira fase. Esta zona existe ainda hoje. porém. eram di­ ferentes dos antropóides que hoje conhecemos. A transformação desse animal. já se tornava possível o surgimento da vida ani­ mal. Viu-se o ho­ minídeo obrigado a modificar a sua posição.

e o homem é pensamento. Mas per­ guntam quem pode provar que os animais não têm consciên­ cia de si? Essa diferença. enquanto os símios o podem. Os ho­ mens podem escolher. portanto. nos homens aplica-se a valores. e responde. que permitiram que sua inteligên­ cia se desenvolvesse e desse um salto qualitativo. Este segundo átomo. Às modificações do homem. Quanto ao conheci­ mento da morte. e vão investigar. Se observarmos os animais. animais. sofreu também modificações qualitativas. enquanto nos animais. e os animais não. não podem ser aceitos porque os animais também interrogam. quando sentem a morte aproximar-se. que vão completar o pri­ meiro átomo. que também tomaram formas completamente dife­ rentes das dos símios ainda arborícolas. quando sofreu essas modificações. Como exemplo. Só o homem diz não à natureza. compreendemos que o hominídeo. vão se dando transformações no modo de proceder dos animais. Quanto à centralização cerebral. como já foi verificado por experiências. À proporção que se formam as três fases de cen­ tralização. Também vemos que a água tem características completamente diferentes das dos elementos que a compõem. Mas estes aspectos. que não o aceitam. para êle. di­ zem. é combatido por Darwin e outros. Na fase primitiva. entre possíveis futuros. tro­ pismos e reflexos — incitações e excitações superiores). de estructura mais fraca. que são apresentados como diferenciadores. Este ponto de vista. não há autonomia. O homem alcança com a visão mais ou menos 120 graus. pode escolher entre valores. Quanto à consciência de si. Ainda assim permanece a pergunta: por que este ani­ mal tomou uma direção diferente dos outros antropóides? Um pastor protestante explica que o hominídeo foi es­ colhido por Deus para ser o homem feito à sua imagem. vemos que se dá neles um predomínio da coluna vertebral sobre o cérebro. ainda provaremos que é real e válida. no homem. O homem é um animal que interroga. Tanto no homem como nos animais. os animais não mani­ festam escolha de valores porque não têm a concepção de valor. uma ten­ são. Portanto. contudo. é o acto inútil. O animal é dirigi­ do mais pelos estímulos exteriores. Se aceitarmos que uma modificação estructural modifica também a tensão da estructura. Essas modificações permitiram a transformação completa do funcionamento do cérebro. entretanto. te­ mos o caso dos elefantes que. Os primeiros são apenas reactivos. desenvolveu-lhe os ma­ xilares. (Irritações. não têm consciência de si mesmos. já teria uma forma di­ ferente. não seria suficiente. dá-se o con­ trário. e conhece a morte. então. o que explica por que o homem se distinguiu completamente dos. que ainda pertencem à natureza. Um áto­ mo. admitir a centralização na par­ te frontal. mas não fixa sua atenção senão ao que é . enquanto. A diferença do cére­ bro sobre a espinha-dorsal acompanha o aumento. Quando começou a desenvolver-se em sua estruc­ tura. Se se aproxima dele outro átomo. não. Acham que não há propriamen­ te a escolha de valores. O homem. Realmente. houve também modificações de ordem tensional. tem uma coerência. Realmente. dizem que o homem a tem. Podíamos. Os outros animais não têm essa possibilidade de fixação. há uma completa modificação deste no modo de proceder em relação aos antropóides. enquanto os homens a têm. retiram-se para lugares desertos para aí morre­ rem absolutamente sozinhos. mas. A liberdade humana é fictícia. mas existem escolhas que revelam uma comparação de aspectos valorativos. O acto mais humano. Contudo. e podem mesmo sentir quando ela se aproxima. e não é mais escravo da estrita utilidade. É verdade que há casos considerados misteriosos. podendo convergir os olhos dentro desse campo. os animais manifestam conhecê-la. esses elementos ainda não são suficientes. há predominância do cérebro sobre a coluna vertebral. formado de um núcleo e de seus eléctrons. este pode perder eléctrons. Mas tal não é propriamente um opor-se. podemos também aplicar nesta teoria. isto é. porque estes têm tam­ bém percepções. com capaci­ dade de acquisição de eléctrons. Lecomte de Nouy diz que o animal é essencialmente acção. há escolha. entretanto. esta apresenta uma forma evolutiva. Enquanto os animais só escolhem dentro de certo limite. mas um entregar-se aos impul­ sos de morte. consciência. Houve exemplos de suicídios colectivos de baleias e de elefantes.66 MÁRIO FERREIRA DOS SANTOS FILOSOFIA E HISTORIA DA CULTURA 67 sequência das mudanças de alimento. O animal pensa. em que os animais se opõem à natureza. Nenhum homem consegue viver sem a parte fron­ tal. mas ainda não encontramos a diferença essen­ cial entre o homem e os animais.

é o que se chama espírito. provocando profundas modificações. A erecção do liominídeo era uma exigência da própria descida da árvore. Os animais não rompem os limites. como o prova­ remos. em que os instintos perderam sua força. Há. para êle. Consequentemente. também. Quando alguém promete é porque admi­ te: a possibilidade de cumprir. O homem é sempre sequioso do novo. veremos que nem sempre o homem foi as­ sim. nos recolhemos em nós mes­ mos. para apreender um maior espaço visual. Já vimos quais os motivos que levaram o hominídeo à descida das árvores. Em suma. não se apoiam na palma das mãos. conheceu a insatisfação. por exemplo. O homem pode imprimir o seu espírito nas coisas. o animal cúpido das coisas novas. As categorias são gé­ neros superiores. Finalmente. o homi­ nídeo não pôde mais voltar à posição quadrúmana. Quer queiram quer não. Outro aspecto característico do homem. porque eles. Esta modificação. e o hominídeo foi obrigado a procurar fora dele a alimentação. O homem constrói conhecimentos categoriais. Mas acaso o animal não conhece possibilidades? Isto também não podemos negar. por isso podemos contemplar nosso psiquismo em suas actividades. Essa possibilidade caracteriza tipicamente o ho­ mem. nos concentramos em nós mesmos. lendas sobre a vida arborícola do homem. vertidos para a terra. Podemos identificar-nos com o nosso próprio ser. Entretanto. O psíquico dá-se no tem­ po. Poderíamos dizer que a promessa é consequência da possi­ bilidade. Em prome­ ter está a diferença essencial entre o homem e os animais. e o homem pode criar. necessidade de distinguir o espírito do psíquico. O habitat não fornece mais o alimento. as plantas foram diminuin­ do. é a racionalidade que o distingue. desenvolvendo-se a parte frontal. Há uma afirmação profunda oferecida por Nietzsche: o homem é um animal que promete. se pro­ cessaram através de muitos milénios. O homem tem um espírito a mente. Porque an­ teriormente era a árvore o seu habitat normal e oferecia um asilo seguro. As gramíneas al­ tas exigiam dele a posição erecta. voltada para o chão. o homem cria conceitos e categorias. mas que po­ dem ser diferentes. retornando à visão res­ trita dos animais. somos afectividade apenas. porque este compreende as possibilidades. e nos consideramos como objecto. insatisfeito como era. Toda promessa coloca no futuro uma realização qualquer. que. com a redução daquele. quando caminham. Além disso. é a bestia cupidisshna rerum novarum. com o decorrer do tem­ po. que so­ freram as plantas. Os animais dizem sim à vida. e hoje as maiores ficam nas zonas tropicais. como também alimentação abundante. O homem é livre. o cérebro tomou novo equilíbrio. de seus impulsos. é a forma de linguagem que não há nos animais. Onde o homem se distingue dos animais é no co­ nhecer as possibilidades e desenvolver sobre elas uma série de outras possibilidades diferentes. O animal. ideá-las também. Obser­ vamos momentos estáticos das culturas. O homem é um repulsor de seus instintos. segundo a teoria exposta. não é capaz de acto inútil. canalizador de energias para o espírito. Ainda vemos. são calosos. . enquanto o animal não o pode fazer. Os chim­ panzés. por isso mesmo. levou a um deslocamento total dos órgãos. enquanto os homens o fazem. Mas. é uma possibilidade reco­ nhecida. que implica naturalmente a consciência contemporânea de uma situação melhor. mas sim nos nós dos dedos. mas o homem tem consciência da possibilidade das possibilidades. capaz de reali­ zar actos racionais e criadores. têm já uma propensão para a erecção. Quando o hominídeo atingiu a fase que o dife­ renciou do animal. O desequilíbrio dinâmico e as transformações. em certas crenças religiosas. Êle vê que as coisas não são apenas como se apresentam. foram naturalmente decrescendo.68 MÁRIO FERREIRA DOS SANTOS FILOSOFIA E HISTÓRIA DA CULTURA 69 sensível e imediato. e quando nos observamos. As plantas do período em que havia excesso de gás carbónico eram de proporções monumentais. alegam. Há momentos em que o homem quer parar. Essas modificações. Não podia o hominídeo usar a forma quadrúmana. e essa capacidade de desrealização da realidade não se dá nos animais.

que eles possuem. A memória dos animais é demasiadamente selectiva. O ani­ mal não a realiza. prolongou e aumentou suas possibilidades. porque insatisfeito. Os animais estão sujeitos a actos de loucura por ter­ ror. de uma doença. aceitando. é confirmada ou não pela experiência. com elas. O homem constrói possibili­ dades ideais. Então. este ultrapassa esse âmbito. e esta se torna liberdade. por ideias. Êle compara o que tem com o objecto ideal possível que êle de­ sejaria. A comparação chama-se. o que lhe permitiu de­ senvolver uma memória coordenada. não. e temos. que é a apre­ ciação por meio da comparação. Êle esta­ belece uma meta a ser alcançada. os pássaros. A imaginação. a possibilidade de ser mais eficiente. As imagens são possibilidades. que a visão do homem permite uma fixação de diversos planos. Essa afirmação do papel das imagens. etc. a criação de imagens. portanto. Mas essa memória é só num campo. o ho­ mem teve o conhecimento da possibilidade. mas o homem tem percepção. O homem. A memória cos superiores. há memória. julga que pode ser superado. parábola. O funcionamento cerebral do homem é cada vez mais separado do sistema sensitivo motor. são indiferentes aos factos da natureza. Também os animais têm um certo conhecimento das possibilidades. Assim tudo quanto o homem realiza. e esta da insatisfação. Ao admitir que venha a dar-se uma satisfação. como fase anterior à inteligência (racional). mas o sentir uma insatisfação implica a acei­ tação de uma satisfação. Ela sur­ ge da própria possibilidade. teriam conhe­ cido uma hipertrofia da imaginação. desejou fosse êle melhor. e o animal não conhece fins. Por isso. que lhe permitiram a cons­ trução da Técnica. porém. Os animais não manifestam insatis­ fação. E o facto de o homem considerar sempre que algo poderia ser melhor. êle não realiza apenas uma comparação. O homem é insatisfeito. que encontram seus ni­ nhos com relativa facilidade. Há aumento de autonomia no homem. pelos estímulos e na percepção está presente em todos os actos psicológi­ O animal sente. é res­ trita. c que não sucede com os animais. um pedaço de madeira. que se diferenciaram. mas isso não se deu porque não lhe restava mais tempo suficiente. como nos mostra a Psicologia. conhecendo.. Os animais dirigem-se a si próprios. O homem primitivo^ que usou o primeiro instrumento de­ pois da pedra. mas dentro de certo âmbito. Teria de criar novos instintos com o decorrer do tempo. e a sua mente tomou um sentido dife­ rente da dos animais. tornou-se insatisfeito. assim. por se ter mudado fisiologicamente. direção). lei. tem sensação provocada exteriores. pela acção com­ parativa entre o ficcional e o real. e por isso criou os pri­ meiros instrumentos de trabalho. Com esses instrumentos. este homem. também. conhece graus. quais as confirmadas pelos factos e as que não o são. como vemos através da psicologia de profundidade. como preformadora da inteligência. tem grandes defensores. o que não acontece com o homem. (Autonomia — a palavra é composta de autos — si mesmo. O homem é o único animal que pode adoecer por ideias. como exemplo.70 MÁRIO FERREIRA DOS SANTOS FILOSOFIA E HISTORIA DA CULTURA 71 Esses hominídeos. em grego. apesar de estarem deles mui­ to distanciados. o que não se dá naqueles. novas possibilidades. segundo a opinião de alguns autores. como conse­ quência. sem admitirmos que há lugar pa­ ra satisfações. porque não é insatisfeito. e permitiu. das quais o hominídeo conclui quais as de ordem real e as de ordem não real. porque sempre considera uma possibilidade. que vem do grego tímesis. Sem essa tímesis parabó­ lica não compreenderíamos o progresso humano. O desenvolvimento da parte frontal é uma decorrência. isto é. enquanto a memória do homem é mais complexa. O homem estabelece um fim. com o decorrer do tempo. Vimos. . porque não podia mais guiar-se pelos ins­ tintos como anteriormente. nele se desenvolve a vontade. Nes­ sa parábola. pois não podemos ter consciência de que somos insatisfeitos. depois. a constituição da função racional. de nomos. e nomia. Êle faz uma estima. mas essa autono­ mia. e temos a tímesis parabólica. mas faz também uma apreciação. teve a necessidade de distinguir melhor o diferen­ te do semelhante. que o animal não constrói.

Como animal. por isso é que pode opor-se à natureza. assim. À proporção que avança­ mos no estudo. Deu um salto qualitativo. Êle estabelece categorias. O espaço. por construir ideias. Toda a vida é selectiva e até na química verificamos que há selecções nas combinações. ou não? Há duas respostas: 1) a dos que dizem que não há essa diferença es­ sencial . é êle que realiza a mobi­ lização das forças inibitórias para enfrentar os impulsos. Este espírito. não poderia dizer não à natureza. verificamos que a selecção é crescente. No segundo. aquele que realiza um papel na vida. como já vimos. já se dava no homem. portanto. Se o homem não fosse dife­ rente do animal. Outros admitem que o homem. A teoria negativista leva à concepção mecânica da vida. O homem. É o espírito quem verifica a repressão dos impulsos. mas quanto à afirmação de ter êle uma essência di­ ferente dos animais já nos levaria a penetrar no campo da Metafísica. e este não acentua o espírito. com o tempo. uma diferença essencial entre os homens e animais. diferenciou-se completamente dos animais. e que tem consciên­ cia de que o representa. um princí­ pio fundamental que dirige os seres no universo. para êle. enquanto para os animais o espaço é sempre cheio de realidade.72 MÁRIO FERREIRA DOS SANTOS FILOSOFIA E HISTÓRIA DA CULTURA 73 permitiu-lhe. constrói um super-ego. Em toda mudança estructural. Schopenhauer. Buda. não meditam sobre ela. e que o homem é o animal mais selectivo que existe. proferida em 11/9/50). Vimos no co­ nhecimento da possibilidade. Não são capazes. tinha êle uma série de possibilidades que se transformaram quando êle se tornou erecto. O nosso espírito é genuinamente selectivo. Defensores da teoria negati­ vista são Freud. passa a ser compreendido como vazio. . etc. a personalidade. e ultrapassarmos. Os últimos admitem que o homem é portador da algo diferente dos outros animais. então. por isso. Vimos que a promessa decorre da possibilidade. Nenhum animal é capaz de idear. por desenvolvimento fi­ siológico. tornando-o um objecto de conhecimento. torna-se uma pessoa. Vimos que. Essas transformações são tensionais. Pode transformar-se em obstáculo contra a natureza. que é o espírito. formar uma noção clara do bem e do mal. outra pergunta: como sobrevive esse animal fra­ co e enfermo. em suas relações sociais. e posterior­ mente. O co­ nhecimento é a máxima selecção realizada. de meditar sobre a morte. a diferença entre o homem e os animais. do quantitativo. Adler. É negativo o espírito e nasceu êle desse não. que é o homem? Dizem que consegue sobre­ viver justamente por dizer não à natureza. 2) a dos que a aceitam. cria abstracções. E sur­ ge. O homem é um constante desrealizador. O homem é um processo tensional qualitativamente diferente dos ani­ mais. criam-se novas possibilidades. O espírito é de outra natureza que a material. surge a pergunta: é o não que cria o espírito ou serve para aprovisionar o espírito de energia? Há três respostas: 1) o espírito é força. teve de criar o espírito. mas também o domínio dessa possibilidade. antes do não. e das possibilidades das pos­ sibilidades. como as do espaço. etc. Esta a razão por que não podemos aqui examinar a terceira resposta. enquanto os animais se fundem com o mundo exterior. O homem diz não à natureza — e. passou a projectar-se de outra manei­ ra. não há apenas o conhecimento da possibilidade. o não dá energia ao espírito. é justamente o contrário: porque disse não à natu­ reza. 2) 3) Há. O homem criou inibições para si e guia-se a si mesmo. (Aula taquigrafada. portanto. separa-se do mundo ex­ terior. do qualita­ tivo. no homem. a doutrina clássica leva a aceitar uma teleologia. E é pessoa No primeiro caso. então. os limites da matéria que ora tratamos. Eles a notam. Com isso ve­ mos que as doutrinas querem explicar tudo com o que pre­ cisam antes explicar.

Vemos que um mesmo agente praticou actos diversos e cada um deles pode pertencer ao campo de uma ciência. desejou adquirir jornais para estar a par de algumas notícias. Admita­ mos alguns pormenores que certamente não foram vividos por êle. reconhecia cada vez mais a responsabilidade daquele momento. viu que todos es­ peravam as suas palavras. passou os olhos pelos qua­ dros que relatavam momentos da História alemã. Possivelmente. Alguns segundos de silêncio pe­ sado. Ao chegar à Chance­ laria. com os secretários. diversas foram as reacções. O Estado Maior havia estudado a pos­ sibilidade da invasão da Polónia. formam um único conjunto em torno de um agente. mas a ordem de invasão partiria de Hitler. Levantou-se de madrugada. preocupado com a responsabilidade que lhe cabia. e êle disse: "Ataquemos a Polónia". a invasão localizasse uma guerra no orjiente europeu. Pôs-se a lê-los. actos psicológicos. é de presumir-se que teve grande dificuldade em conciliar o sono. . possivelmente vivido. porque dele dependia a paz ou a guerra. Ao sair. praticou uma série de actos. vemos que Hitler. Na saída. Examinando esse pequeno relato.A BIOLOGIA E A FÍSICA Imaginemos que ainda estamos em 1939 e que Hitler medita sobre o desenrolar dos acontecimentos. entretanto. que cada um deles pertence a objectos de diversas ciências: actos fisiológicos. actos também históricos. mas também poderia forçar a França e a Inglaterra a tomarem uma atitude. actos econó­ micos. tomou sua pri­ meira refeição e resolveu dirigir-se para a sala de despa­ chos da Chancelaria. Na véspera. como o momento decisivo em que tomou a deliberação de desencadear a guerra. Entre aqueles homens. no decorrer desse dia. Todos eles. Reunido.

construímos uma ciência especial. Damos no­ mes aos factos. O trabalho do nosso espírito é circular. que é o saber mais alto. considerando-os autónomos. Dentro de todos esses factos. sobre os quais construímos as diversas disciplinas. Este é um ser vivo. É necessário procurar um nexo em tudo quanto se diferencia. Verificou que. depois. para que. e. em sua coerência. se os tomamos abstractamente para estudo. quando perguntaram a Pitágoras o que êle era: "sou um amante do saber". daí a Psicolo­ gia. em meio de outras que eram dife­ rentes. existentes de per-si. e deve evitar perder-se nas abstracções. assim como a cultura é uma realização do homem. possamos analisar melhor os factos históricos. Deu a essas tensões outro nome. como se se desse isolada­ mente. o acontecer cósmico. para colocá-los dentro do campo da ciência a que pertencem. cujo nome surge. Sociologia. damos-lhe nomes diversos. à psique. então estaremos praticando uma abstracção viciosa. e têm coerência. ligada à Biologia. Esse saber total é a Filosofia. com esses elementos. dentro da cultura. nessa concepção arbitrária que consiste em consi­ derá-lo como factor único de qualquer acontecimento histó­ rico. O erro tem tido. analisar os diversos fac­ tos e os aspectos que eles apresentam. e que se assemelhavam entre si. Todo o pro­ gresso na ciência consistiu nessa diferenciação do primeiro objecto que era o todo. caindo. Quando as filosofias clássicas pro­ curam encontrar a essência das coisas. havia ten­ sões que eram parecidas. e dela surgiu a matemática. teríamos evitado tantos males que serviram para torturar a humanidade. Foi pensando assim que o marxismo construiu a sua concepção económica da História. porque representa uma nova "possi­ bilidade" pensamental. chegamos a essa es­ sência. cujo estu­ do pertence à Antropologia. que quer dizer o que ama o saber. (philo e sophia). na esfera do saber (sophia). nunca se deve conside­ rá-los como separados do conjunto em que eles estão conti­ dos. que o homem construiu. êle deu-lhe o nome de sophia. consideremos os factos que se dão em nosso cosmos como algo sintético. são estas abstracções culpadas dos grandes erros. e que tanto in­ fluiu na ciência: a tendência inversa à marcha para a dife­ renciação. Mas ainda a física (physikê) encerrava. fa­ talmente. mas já com o conhecimento do ob­ jecto. ao descobrirmos uma coesão. para a pluralidade de objectos. Quando o homem grego construiu um saber (teórico ou empírico). Por exemplo. previamente. mas em sentido dinâmico. todo o sa­ ber. O espírito deve considerar-se em si. Procurou-se reduzir os . que é a Filosofia viciada. as outras ciências como a Ética. Desde o homem primitivo. era uma região do sa­ ber total. na História. que distinguem o mais coerente do menos coeren­ te. A Biologia é a ciência da vida. e concrecionar todos. Dentro da Física e da Filosofia davam-se -tensões diferentes das outras. para depois os anali­ sarmos. que têm sempre sentido estático. com a Biologia. Há um certo número de ciências ligadas à vida cultural e não pode­ mos deixar de ter sobre elas uma visão clara e suscinta. têm. A teoria das tensõeis oferece grandes possibilidades. que assinalamos por uma palavra. logo nos surge a necessidade de lhe dar um nome. então realizamos uma abstracção viciosa. e entre essas ciências devemos preocupar-nos. retornar para si mesmo. Estética. Para realizarmos uma obra genuinamente sábia. Se obser­ varmos algo. Física. como o de considerar o acto económico como autónomo. não só o saber teórico. por meio das tensões. Antes dese­ jamos chamar a atenção para um dos mais graves defeitos do filosofismo. Precisamos fazer esse trabalho. uma grande força e tem conseguido perdurar. mas também um saber especializado. que sentimos possuir certa coerência. constituíram a mathesis. que naturalmente se diferencia das outras. como objec­ to. quando neles sentimos uma coesão. novamente. An­ tropologia. vivo. para tentar-se a reducção de um objecto a outro objecto. Se depois imagi­ namos que esse acto é autónomo. à alma.76 MÁRIO FERREIRA DOS SANTOS FILOSOFIA E HISTORIA DA CULTURA 77 As ciências. daí o nome filósofo. factos semelhantes e. E daí. apenas daquilo que se nos apresenta com certa tensão (coerência). entretanto. Factos psicológicos são factos que se dão dentro de uma tensão. a physiJcê era o estudo teórico dos factos físicos da natureza. Química. como conjunto de conhecimentos com certa coesão. Se consideramos apenas o acto económico. e depois verter-se sobre o objecto e. Costumamos formar um concei­ to. E por serem os mais altos. etc. que é a Economia. incluindo nele. verificou-se que alguns diziam respei­ to apenas à mente humana. Se assim fosse. segundo a lenda.

que é o imanente. mas qualitativamen­ te diferente do de outro corpo. o cientismo e outros ismos. e forma. o psicologismo. Podemos aplicar a mesma ideia de campo para a ciên­ cia. Todas as ciências. que os campos têm uma tensão própria e se distinguem especificamente uns dos outros. Há ciências que têm relação com a cultura e nos fornecem elementos para a análise dos factos culturais. Aceitava a ciência no século XIX a impenetrabilidade da matéria. a Filosofia da Matemática. etc. enquanto a Ciência está sempre no do imanente.78 MÁRIO FERREIRA DOS SANTOS FILOSOFIA E HISTORIA DA CULTURA 79 factos da Biologia a apenas manifestações físico-químicas. está ultrapassando a Ciên­ cia. Isso se dá porque todo homem que estuda uma ciência e que a aceita como verdadeira. Quan­ do a Matemática quer entrar na essência dos números. sen­ te que só encontra exactidão e rigor em alguma interpreta­ ção quando consegue explicá-la dentro do âmbito da sua dis­ ciplina. Assim. E quando pro­ curamos reduzir um ao outro. En­ tre elas temos. por sua vez. Essas modificações permitiram pu­ desse a Ciência penetrar em novas esferas. e muitas outras que ainda não conhecemos. mas são qualitativamente diferentes e irreductíveis. temos a Física. A Filosofia passa para o campo do transcenden­ te. não são autónomos. mas .. isto é. Para o es­ tudo dos corpos orgânicos. Essas posições e tentativas viciosas de querer reduzir uma ciência a outra. A Biologia tem problemas que transcendem o seu cam­ po e um deles é o da vida. que pertence ao campo da Metafísica. Não percebemos. etc. em primeiro lugar. e quando os factos não podem ser explicados por ela. A Física moderna nos deu uma grande ideia. a Biologia. mas eles se interpe­ netram. É. para os inorgânicos. O biólogo. e o que vai muito além desse campo ultrapassa as possibilidades da Biologia. Antropologia. A Biologia estuda os corpos orgânicos e as suas manifestações vitais. Mas. são consideradas falsas e duvidosas as outras explicações. Essa ideia permitiu que se modificasse o que se pensava da constituição da maté­ ria. já está entrando no terreno da Filosofia. ondas hertzianas emi­ tidas em todas as direções. quer considerar a Biologia como a ciência mathesis. Esses defeitos são naturais. que é a ciência do geral. É justamente neste ponto que a Biologia tem contacto com a Filosofia. em face dos conhe­ cimentos actuais. como pa­ recia possível no século passado. com novos pro­ blemas. ela passa a ser problema da Filosofia e não apenas da Biologia. está fazendo Filosofia e não Ciência. verificamos porque somos obrigados a virtualizar certos aspectos e actualizar apenas os aspectos que interessam. A transcendência. nesta sala. Uma das grandes conquistas da boa Filosofia foi mos­ trar que cada uma dessas ciências tem um campo de acção qualitativamente diferente do das outras. temos a Biologia. Observemos os médicos: todo especialista vê nos doentes o sintoma da sua especialidade. Temos. a ideia de campo. então. um não pode ser explicado pelo outro. Vemos também matemáticos que desejavam reduzir os fac­ tos físico-químicos à Matemática. Mas as descobertas de ondas magnéticas dife­ rentes permitiram se construísse a teoria do campo. e são diferentes. o economismo. que se separaram da Filosofia não perderam seus contactos com ela. A Biologia não se separou dela. estão passando através dos nossos corpos. então. Cada campo tem a sua tensão. Tudo que está dentro do campo da ciência. porque vivemos intensamente a ciência. a Fisiologia. Também recordamos que as ciências têm relações en­ tre si. consi­ derando os factos psicológicos como apenas epifenômenos dos biológicos. portanto. esta possibilidade está expulsa do campo da verdadeira Ciência. se interpenetram. que se agrupam num mes­ mo espaço. e podemos falar em Filosofia da Biolo­ gia. E quan­ do um cientista penetra no campo da transcendência. de fértil valor para nós. Como não se pode explicar a vida dentro da Físico-química. O campo electro-magnético de um corpo pode dar-se no mesmo espaço. etc. o biologismo. uma ciência engloban­ te ou genérica. e também com os fenómenos em geral. constituem o matematismo. que tem método experimen­ tal até certo limite. Os psicólogos também quiseram fazer da Psicologia uma ciência mater. então. o mecani­ cismo. o campo da Filosofia biológica. da totalidade. Temos o exemplo das ondas hertzianas. Podemos considerar a natureza como composta de duas ordens de corpos: corpos orgânicos e corpos inorgânicos. o socio­ logismo. Botânica. e em parte a Quí­ mica. porque dentro dela há especializações: Zo­ ologia. Os fenómenos físico-químicos estão no mesmo cam­ po dos fenómenos biológicos. não é campo de outra ciência.

Mui­ tas vezes. desde um ponto de partida. A Física de 1880 era. De­ pois. há vida mais intensa ou menos intensa. como se ela fosse algo pontual. um pedaço de madeira. para êle. mas algo especificamente diferente do processo tensional da Fí­ sico-química. que também têm o seu progresso e tam­ bém decaem. vontade e defeitos. a unidade não se pode dividir em partes. existente na natureza.80 MÁRIO FERREIRA DOS SANTOS FILOSOFIA E HISTÓRIA DA CULTURA 81 sim da Filosofia. em absoluto. porém. Julgam muitos que a Fí­ sica tem uma história. para os que defendem esta posi­ ção. nas suas respectivas culturas. porque. Hoje há uma grande polémica entre vitalistas e naturalistas dentro da Biologia. um professor de Física seguia à margem do Sena. dm chinês. matéria. porque nos dá explicações que esclarecem o aspecto filosófico. Desse modo. é uma pergunta ainda em pé para ela." Respondeu o professor que realmente só cabia à nova geração continuar melhorando o que havia sido feito. não po­ deremos fugir da unidade. desejos. vemos que o deísta explica a vida como algo dado por Deus. nesta. e assim sucessivamente. Os próprios deuses são seres vivos. o facto físico é visualizado diferentemente por um hindu. Se recuarmos para as doutrinas já estudadas. um árabe. Conta-se que. Para outros. cresce. e outra que encontramos. toda existência é viva. nos discursos dos políticos. sem receio. mas nos tirou o prazer de novas descobertas. Se analisarmos matematicamente a Biologia. e quais os que funcionam para dar a perspectiva vitalista. para compreender certos factos filosóficos. Para os gregos de então. pode-se tomar uma posição que compreen­ da as duas: a naturalista e a vitalista. que empregam mal a palavra. tem progresso. em que con­ siste. E toda concepção finalista cai no defeito dos na­ turalistas. por que e quais os elementos que funcionam para dar essa perspectiva naturalista. e sendo a Mate­ mática a ciência mais ligada à Físico-química. totalmente diferente de a moderna. O grande problema da Biologia é dizer o que é a vida. Ao estudarmos o tema do advento do homem. que é um relato progressivo das des­ cobertas. mas de uma intensidade de vida maior e. vêm outras. com muito de casual. Ro- . A teoria naturalista aceita a ideia de que a vida é uma manifestação físico-química. o mecanicismo. com um discípulo. Contudo. que os biólogos mais representativos es­ tão entre os vitalistas. por exemplo. aceitamos uma finalidade. A vi­ da não é só manifestação de fenómenos físico-químicos. i« A anterior satisfazia aos físicos de então. como os físi­ cos actuais se satisfazem com a actual. e o que sobrou para a nossa geração é uma herança grandiosa. porque. Se aceitarmos um princípio fun­ damental. vimos que os factos de ordem fisiológi­ ca podem influir nos factos de ordem psicológica. o grego. Poder-se-ia con­ cluir que a Física actual. daí o carácter hilozoísta (de hylê. Chamam-se vitalistas as doutrinas que aceitam um prin­ cípio vital. com as mesmas condições humanas: forma. mas o que é a vida. que lhe dizia: "A vossa geração foi feliz. Estamos aqui tratando dos vitalistas na Biologia e não na Filosofia. não os explica. poderemos dividi-lo em partes. Então a vida dirige o corpo. Aqui se dá algo de diferente do que se dá na Físico-química. O termo transcendência pode ser aplica­ do de duas maneiras: uma de carácter filosófico. no século passado. e que se integra na ma- teria inorgânica. Os senhores conseguiram expli­ car todos os fenómenos da Física. Auxilia no esclarecimento. num crescendo. animal) da filosofia pré-socrática. não se deve fazer tais confusões. por­ que então seria válida a opinião de que as ciências são reductíveis totalmente umas às outras. no sentido quantitativo. tirando delas ape­ nas o que é mais exacto. Veremos também. Entretanto. Realmente os fenómenos biológicos não podem ser explicados matematicamente. tornando-a orgânica. já a concebe de outra maneira. e decai. Vemos os fenómenos vivos. no sentido de algo mais elevado. e pode dizer-se. que é a verdadeira transcendência. A Biologia fornece à Filosofia muitos elementos. na análise das culturas. deverá ser substi­ tuída por outra. porque se estudarmos. e zoo. são imortais. há físicas coor­ denadas: uma surge. por exem­ plo. por isso. Alguns chamam de vitalistas os existencialistas. Mas uma simples experiência. não podemos reduzir os fenómenos biológicos aos físico-químicos. influindo no próprio arcabouço da Física. mo­ dificou tudo. ne­ cessitamos do auxílio daquela. com o tempo.

e os psicoló­ gicos. e aquela se interessava apenas pelos fenómenos ma­ teriais. por casualidade. necessariamente sente a exigência de lhe dar um nome. sobretudo no século passado. porque a primeira era a Fi­ losofia. e sentimos hoje. Tais tentativas de reducção dos factos malogrou. com esse conjunto de notas. E assim continuará sempre. e novas revisões. reduzir. tensionalmente forte. Na palavra physika. isto é reduzindo-os a epifenômenos. Vieram novas descobertas. constrói com elas um conceito. que indica.. (Aula taquigrafada. e. Mas a physika já marchava para esse campo. dizer que o facto biológico é apenas uma manifesta­ ção físico-química. Aristóteles dizia que ela era ciência secundária. e eis o termo. Assim podemos dizer que. não poderemos. a que consiste em querer reduzir.. virtualizar. uma coerência entre factos. de intitulá-lo. Tivemos ocasião de assinalar como uma tendência manifestada. os fac­ tos biológicos a meros factos físico-químicos. quando levou a mão sobre a lâmpada. repetíveis em outras tensões e. *"ue lhe parecem repetidas. êle separa mentalmente as ca­ racterísticas gerais. e desprezar. por ter uma tensão diferente. ou seja. temos tantos elementos físico-químicos. mas agora é mais delimitada. a outro. que podia enxergar os ossos da mão. o lado formal. Para explicá-lo. no en­ tanto. Aquele raio misterioso recebeu o nome de raio X. os factos de uma ciên­ cia que lhe é períectivamente inferior. Formado este.. Os homens primitivos têm pouca conceituação. com grande espanto. A MATEMÁTICA E A RELIGIÃO É o homem um constante criador de conceitos. que o apresentam como uma tensão quantitativa e qualitativamente delineada. e passou a ser uma nova e grande interrogação para os cien­ tistas. que o assinala.82 MÁRIO FERREIRA DOS SANTOS entgen tentou reproduzir uma experiência feita por Crookes. o filosofismo procurou explicar. que não é possível reduzir um facto de umi esfera geral do conhecimento. neste século sobre­ tudo. num ser biológico. indispensáveis para caracterizar a ten­ são. . era preciso penetrar no arcabouço da Física. Assim. explica/r por. a meros factos biológicos. porque êle é qualitativa e especifica­ mente diferente. e que são inseparáveis. observando apenas os factos físicos mensuráveis no acontecer cósmico. Quan­ do êle percebe uma certa consistência. por­ que toda reducção seria considerar apenas o lado material quantitativo. proferida em 14|9|50) A FÍSICA. porque estão mais fundidos com as coisas e delas muito pou­ co se separam. viu. vimos que o significado abrangia o conhecimento geral dos factos do cosmos.

a tomar concretamente os factos. Por isso. a Anatomia. embora cada objecto seja tomado pelo homem como separado do facto existencial. como um todo. a Citologia são ciências particulares da esfera da Biologia. Exemplifiquemos: A Fisiologia. pode ser tomada sob um ponto de vista es­ pacial (já abstracto) e temos a morfologia do extenso ou. Só a molécula o pode. inibindo. Para a Física. Temos. dizia-se que a Física estudava os factos físicos moleculares. em que era concebida como ciência da natureza. desprezando. Posteriormente. os factos físicos atómicos. como as naturalistas. as seguin­ tes: a esfera da Físicoquímica — a fisicosfe­ r a . e compreender todas elas como manifestações viciosas de uma tomada abs­ tracta dos factos. Cada uma dessas esferas. separadas. que é importante. A Física. A palavra física vem de physika. Embora tenha às vezes relações com a Biologia. em que os átomos de um mesmo elemento químico se juntam a átomos do mesmo elemento). nas diversas culturas. que são regiões de existir tempo-espacial. é tomá-lo abstracta­ mente. qualitativa­ mente diferente. seria persistir na abstracção e cair no abstractismo. era o saber teórico. embora quantitativamente igual quanto aos elementos físico-químicos que o compõem. como se na realidade se dessem apenas como separadas. e compreender o papel vicioso de todas as concepções. então. portanto. esfera da Biologia. portanto). A Filosofia estuda os entes. Hoje a Física se interessa apenas pelos factos da esfe­ ra do inorgânico. tentar reduzi-lo ao facto meramente físico-químico. Dessa forma. por estudar nos factos biológicos as manifestações . a es­ fera social — aí Sociosfera. a esfera da Psicolo­ gia — a Psicosfera. o aspecto qua­ litativo. distinguiu-se a natu­ reza viva (orgânica) da natureza morta (inorgânica). A Física é um tema presente em todas as culturas com características peculiares. São abstracções necessárias para que se possa efectuar a análise. forma viciosa daquela. pois se juntam átomos de elementos diversos para formarem novos com­ postos. mais profunda. da qual podemos vi­ sualizar obliquamente. fazendo-o retornar ao facto existencial. materialistas. à esfera da Física. virtualizando. Tem duas fases: a aristotélica. Assim a Me­ cânica é da esfera da Física. que indica já o sentido do verdadeiro progresso. o acontecer cósmico. imediatamente. e temos a morfologia do intenso. por si só. espiritualistas. natureza. é realizar um retorno em espiral. necessitando de combinar-se com outras ten­ sões. A colocação desses temas sob essa perspectiva nos per­ mite conquistar uma posição superior. como esferas das ciências. é a da irreductibilidade do objecto de uma ciência de tensão nítida ao objec­ to de outra. quer em sua ima­ nência (em si mesmos) quer em sua transcendên­ cia (no que ultrapassa o terreno do mero aconte­ cer cósmico). e que revela uma posição concreta. Essa a razão por que não se po­ dem reduzir os factos de uma esfera. de actualizá-la. Todas as esferas são tensionalmente diferentes umas das outras. como a biosfera.84 MÁRIO FERREIRA DOS SANTOS FILOSOFIA E HISTÓRIA DA CULTURA 85 No século passado. Conexionar o que foi abstraído. a fisicosfera. (Isto nos corpos homo­ géneos. a Histologia. positivistas. Nossa posição actual. que por sua vez vem de physis. e a Química. Nos heterogé­ neos. porque há maneiras diversas de visualizá-la. para formar novas tensões. é tomá-lo ape­ nas pelo lado quantitativo. porém. eles são qualitativamente diferentes. o átomo é "obri­ gado" a combinar-se com outros. sob o ponto de vista histórico (também abstracto). não perdura. e dessas combinações forçadas decorrem todos os factos maiores do mundo físico. mas apenas afirma uma heterogeneidade qualitativa. para os gregos até Aristóteles. sem que isso implique a negação de uma ho­ mogeneidade quantitativa do existir. O facto biológico tem sua tensão própria. É assim o átomo uma tensão que. Deixá-las. que tinha como objecto to­ dos os factos do acontecer cósmico (sensíveis. grego. e considerá-las au­ tonomamente. o átomo não pode perdurar isolado na natureza.

veremos que sofreu modernamente uma completa transformação. . entretanto. são abandonadas as hipóteses antigas.. hoje. Aceita-se hoje que o núcleo está em constante vibração. de aporias. mais inaccessível.gg MÁRIO FERREIRA DOS SANTOS FILOSOFIA E HISTORIA DA CULTURA 87 físico-químicas. Do Renascimento. está em uma si­ tuação difícil. porque não consegue dar uma solução ao pro- blema do movimento. que se faz do átomo. E quanto mais especializada. É característica da cultura fáustica a separação cons­ tante entre a ciência e o conhecimento empírico. tal não quer dizer que os factos biológicos sejam apenas factos físico-químicos. problema que ultrapassa até o campo da própria Física e penetra no da Filosofia e da Metafísica. Outrora se dizia que a Física mudava de fisionomia de cinco em cinco anos. Por isso. por exemplo. e que teriam relação entre si. já não é substância. Chegou ao ponto de esgotamento de suas possibilidades e não pode mais trabalhar com realidades positivas no sentido restricto do positivismo. Há até muitas obras que não se interessam em ofere­ cer explicações de carácter teórico quanto aos factos físico-químicos. e entre aquela e o homem vulgar. Não é possível até para o físico acompanhar tudo o que se realiza dentro da sua ciência. chegou-se à situação actual. interessando-se apenas pelo domínio técnico dos factos físico-químicos. não é êle conhecido estereomètricamente. nem das revistas. como a de um "ser que é e não é"). muitas vezes construídas apressadamente. Se examinarmos a história da física. de quem cada vez mais se dis­ tancia. que Spengler chamou de fáustica. Na nossa cultura. na realidade. daí a relação entre a Físico-química e a Matemática. que lhe é uma impossibilidade (porque ante a alternativa o u .ou. sobretudo. O átomo. e através de respostas. O gráfico. nos séculos XVIII e XIX. . a situação já não satisfazia. diminuiu o interesse pelo porquê. já em sentido não meramente quantitativo. como o princípio de identidade e o de não-contradição. na escolástica. de dificuldades teoréticas. A Física está retornando. o que levou#a muitos físicos a abandonarem as ten­ tativas de explicação. em certo aspecto metodológico. ela vai tornando-se cada vez mais afastada e mais difícil. e o homem pensou que podia explicar os porquês. a Física se refere apenas aos aspectos quantitativos da Natu­ reza. julgou-se que se punha sobre a mesa a validez formal da lei de causalidade. . para dirigir-se ao como se davam. todos compreendiam e sentiam o que era Estética. dizer o em que consiste a mecânica ondulatória. A filosofia clássica parecia abalada em seus axiomas fundamentais. muitos físicos se interessam pelo "como se dão" os factos físicos. Por isso é impossível. passou a ser construída nos laboratórios. A ciência antiga. e sur­ gem novas. e se vê forçada a trabalhar com números. . Hoje esse tema pertence a especialistas. hoje. e grandes físico-químicos são justamente je­ suítas. à posição verificada no Renascimen­ to. por­ que os instrumentos do mundo quotidiano tornam-se inábeis.. Quando surge um facto novo. Aristóteles procurava o porquê dos factos físicos e. pela acção do movi­ mento jesuíta. Não é possível mais a ninguém hoje acompanhar o que se produz no mundo da Ciência. porque surge. por exemplo. cercado de forças também em vibração. com Galileu. é para nos dar uma "ideia". razão por que se tor­ na muito difícil a divulgação de qualquer conhecimento. continuou-se a estudá-los dentro da Filosofia. pode-se dizer que muda de ano em ano e até menos. O átomo não é propriamente o que é expressado atra­ vés dos livros de divulgação. Com os estudos de Heisenberg. Esse aspecto é importante. Quanto maior o esforço em tornar a ciência accessível a todos. A Física. nem temos meios suficientes para descre­ vê-lo. Mas. que exclui uma terceira posição. Mas a Físico-química tem a tendência para a expansão e procura construir uma consistência do todo. na físico-química. repugna-lhe uma terceira posição. No tempo dos gregos. posteriormente. com maior ou menor intensida­ de. porque. que se especializa cada vez mais. construída através de locubrações.

porque. nesta. de consequências imprevistas. que são fundamentais da Lógica Formal. e a física clássica. o conceito rígido de lei. há um erro vulgar quando julgam que não é ela aplicável à ciência actual. por deficiências dos nossos meios de observação. tal facto se dará. Hoje. nem todos os conceitos opostos são contraditórios. dentro do instante de tempo que dispomos. teríamos de acompanhar o movimento de todos os átomos. é ingenuidade pensar que qualquer dos prin­ cípios ontológicos. Ela tem seu maior de­ sabrochar precisamente em regiões onde predominam os vales dos grandes rios. dessa parte. não quer dizer que sejam o que são e ao mesmo tempo. tam­ bém. como nem todos os contrários são con­ traditórios. mas tal não quer dizer que. E é natural que o sejam. pois aquela estuda os factos contingentes. ela prefere os factos. Há uma subordinação formal entre o efeito e a causa. para a Física moderna. ape­ nas a relação de anterioridade e de posterioridade. E se os físicos se encon­ tram ante conceitos opostos. tam­ bém. As leis da ciência são para eles. e o tempo revela o produzir-se. a indeterminação de Heisenberg apenas afirma a nossa impossibilidade de acompanhar com rigor e exactidão o movimento dos átomos. tal que seja corpúsculo a ne­ gação. O princípio de não-contradição não foi refutado pelos factos. ingenuidade julgar que aquela disciplina seja apenas o que consta dos manuais. nesse conceito. sob o mesmo aspecto. Confundir uma incapacida­ de nossa de observação como lei universal é metafisicismo do mais barato e primário. Só mesmo autores modernos podem concluir que pombas gerem tigres. substituído agora pelo conceito de invariante. ou que tigres gerem pombas. O conceito de causa-efeito não é o que Hume e os mo­ dernos julgavam e julgam ser. Não é mister acompanhar o movimento de todos os átomos para saber de antemão que uma macieira dará maçãs e não pêras. as filosofias clássicas construí­ ram a ciência clássica. regem leis necessárias. Ademais. Mas. E para podermos saber rigorosamente que. probabilísticas e esta­ tísticas. não significa. já teriam eles mudado. Não há.88 MÁRIO FERREIRA DOS SANTOS FILOSOFIA E HISTORIA DA CULTURA 89 Com a Lógica Formal. As pombas jamais gerarão tigres. quase todas as afirmações tinham de ser rejeitadas. dentro da micro-física. pouco se aproveitará. de índole absolutista. Ademais. o grande matemá- . Se o ho­ mem define o átomo como corpúsculo ou como vibração si­ multaneamente. a Lógica antecedia aos factos. Antes. como o Eufrates e o Tigre. mas sim o de dependência real do efeito à causa. e não apenas um nexo de sucessão. como ainda tere­ mos ocasião de verificar. a privação^ da vibração. Assim. tornou-se mais maleável. quanto à Lógica Formal. como os marxistas. os méto­ dos da Lógica Formal não são mais absolutos. estejam desmentidos ou refutados pela Física. Por não saberem se os átomos são corpúsculos ou ondas. na Natureza. Para muitos. no sentido aris­ totélico. rege a lei da indeterminação. Por outro lado. ~fi. com flagrante desconhecimento da lei de causa e efeito. e isso seria impossível. quando os factos desmentem a Lógica. como os estuda toda ciência experimen­ tal. como se vê na Lógica Maior. Na contingência. na Lógica Demonstrati­ va. quando chegássemos a conhecer as suas condições. rege a contingência. dada tal condição. Contudo. não sejam o que são. mas. pois tem ela possibilidades muito am­ plas. Desde quando a ignorância é argumento? * * * Vejamos agora a matemática. A Física construiu uma outra lógica a posteriori. permanecendo em pé a parte meramente filosó­ fica. que a violência organizada gere a liberdade. Atreveram-se alguns a dizer que. Realmente as leis da Física são probabilísticas e esta­ tísticas. E en­ tre os grandes matemáticos do mundo. afirmam esses. É que a ideia de tempo penetrou na Ciência mo­ derna vitoriosamente. pois admitem. todas essas afirmações são improcedentes e revelam o grau de ignorância que há entre os cientistas mo­ dernos em torno das realizações filosóficas do passado.

* * * . por sua vez. que sig­ nifica relegar pela veneração. Assim. nós nos devemos preparar para a morte. era. neles. em que o homem já não tem o mesmo respeito pela morte. Os naturalmente amam a sua maté­ no que podem explicar matemati­ Vejamos agora a Religião — A palavra é formada. embora viva a morte. que é constante em toda cultura: toda reli- A matemática. Então. já as incluía Pitágoras na sua concepção. Temos um cutro aspecto. convicções humanas. O nume­ re servia para medir e para calcular. para o geral. para que eles. como veremos. do verbo latino religare. os gregos já tinham um verbo de sentido bem claro. como abstracção da quantidade. e re-alegeyn. Tema presen­ te. é sempre deduetiva. A matemática estabelece axiomas e deles deduz coro­ lários. consiste em se explica matematicamente. Ela afirma que "o homem é um ser que nasce só. auxi­ liem os vivos. Quando partimos de elemen­ tos particulares.90 MÁRIO FERREIRA DOS SANTOS FILOSOFIA E HISTORIA DA CULTURA 91 tico do ocidente foi Pitágoras. estabelece um princípio geral e dele tira regras particulares. era tensão. Posteriormente. Mesmo dentro de um ci­ clo cultural. Depois surgiu como relação. A ciência moderna é pitagórica em grande parte. para termos uma boa morte. sobrevivência individual. Há várias maneiras de conceber o número. alegeyn. afir­ mando a integração do homem no Nirvana. era também valor. Mas. e morre só". Tivemos a concepção euclidiana do número. Toda religião presta sempre uma homenagem aos mortos. que significa religar. é desprovido de sua intensidade nas épocas de civilização metropolitana. O terror à morte con­ diciona as primeiras manifestações religiosas superiores. * O budismo é uma homenagem à morte. através de uma veneração. Tal não se dava na matemática grega. e também função. que encontramos em todas as culturas. estabelecendo previamente os seus prin­ cípios. A matemática tem que ultrapassar o cam­ po do quantitativo. porque. O homem de hoje não sente a morte. se­ gundo Cícero. daí Pitágoras concluir que a essên­ cia do ser finito estava no número. mesmo as que se podem classificar de "materialistas". As religiões se formam através da veneração que os homens prestam aos antepassados. portanto. actual sempre em todas as culturas. Esse passado é representado pelos mor­ tos. de­ vemos ter uma boa vida. deixando de ser meramente quantitativo para transformar-se em con­ fronto de quantidades. e é para a morte que servem as religiões. podemos pedir aos mortos que nos auxiliem e daí surge a oração. Uma das mais caras dar rigor a tudo quanto estudiosos da Matemática ria. umas em face das outras. A matemática apresenta-se nos diversos ciclos cultu­ rais com fisionomias diferentes. e lhes prestam assistência. numa mútua assistência. Não era só a quantidade tomada abstractamente. na verdade. singulares. Foi a primeira influência que dominou na matemática ocidental. A re­ lação de uma relação é o número como função. É o que Uga o homem ao mundo superior. A vida devia ser coerente com a morte. nós induzimos. que significa venerar. Os homens em todos os tempos se preparam para a morte. Não há religião que não se ligue a essa veneração. que é sempre um pedido. e só encontram rigor camente. que não aceita. mas Pitágoras já assim o compreendera. também processo. A física moderna marcha para êle. . mas já Pitágoras o fazia. os ho­ mens expressam a sua afectividade para com os mortos. co­ mo o budismo. Mas. surge-nos como relação de relações. A religião procura ligar o homem ao passado. esquema. e se move no campo pitagórico. A arte desenvolve-se nos túmulos. a Matemática apresenta heterogeneidades no modo de concebê-la. li­ gadas às venerações prestadas nos túmulos. essência. O grego não usava o número como relação. Todas as concepções de número.

METAFÍSICA. ao construírem. Como poderíamos estudar tantos aspectos estranhos e diferentes. mas aceitam que os mortos. procurando. Toda religião oferece. O homem surgiu plenamente quando se separou do mundo ambiente. como os árabes o conseguiram. é um constante interrogador. no início. por conhecer as mais agudas insatisfações. em face da natureza. quando se distinguiu como sujeito. no céu. No entanto. por ser insatisfeito. nexos já descobertos? Não podemos deixar de reconhecer. que lhe permite construir um mundo consequente com a sua visão. surgiu. em face do que não era êle. Fará que nos servem tais factos? Servem-nos para confir­ mar. se não tivéssemos à mão apropriados instrumen­ tos de trabalho. sem efeitos e sem os males. Não chegaram a construir um direito de pes­ soas jurídicas abstractas. não foram capazes de construir teorias so­ bre abstracções. si­ multânea e contemporaneamente. as ausências da terra. não têm ainda uma ideia divina. Sabemos todos que os Ro­ manos foram os grandes constructores do direito. que o homem. Em face do espaço. mais uma vez. como sozinho em face da natureza.92 MÁRIO FERREIRA DOS SANTOS gião é transcendental. a consciência de que êle era um eu. O céu. conseguem atingir um mundo onde essas dificuldades são menores e até nulas. SOCIOLOGIA Podemos dizer que uma das características mais ex­ pressivas da cultura fáustica é a sua capacidade para for­ mar abstracções de abstracções. devotados estudiosos do facto jurídico. FILOSOFIA. da própria terra. em geral. depois das suas longas caminhadas. em regra geral. . regras. como a da imputabilidade. é sempre uma cópia. por­ que. sua pers­ pectiva. a da prescriptibilidade. Ela visa ao além. normas. proferida em 14/9/50). assim. compensar as insatisfações humanas. que apresenta cada cultura suas pró­ prias características e sua visão geral do mundo. a ve­ neração aos mortos. (Aula taquigrafada. E o ter cons­ ciência de si provocou-lhe o saber de que não era eterno. As religiões. quando transformou este em seu objecto. que teria um fim: a morte. etc. como já o vimos. Um terror apossou-se desse pobre ser ao sentir-se como isolado. atribuem àqueles mortos as mesmas di­ ficuldades que aos vivos. porque liga o mundo dos vivos com o mundo dos mortos.

segurar. Tudo quanto morre deve ter um princípio. des­ cobrir um nexo. em grego contemplação). embora seja mais normal que o actualize no oriente. por entre elas. Realmente assim é. Digamos melhor: mui­ tos aspectos podiam ser comparados. o homem explicava os factos do seu acontecer (de ex-plicare. A Filosofia abrange todo conhe­ cimento. myô. comprova haver um certo nexo. do todo. sem base real de qualquer espécie. portanto. conhecê-los. guardar silêncio. porque o homem pode actualizar seu misticismo. porque ela é o saber do todo. A esse saber em geral chamavam os gregos de sophia (saber) e os que o sabiam. através de experiências e erros. porém. de pôr para fora o que está dobrado. um saber empírico. portanto também o que hoje chamamos de Ciência e. daí prega. uma repetição. afectivo. no ocidente. ao qual chamamos de frônese. factos com factos. Sendo a Filosofia compreendida assim. To­ das as possibilidades criadas pela fantasia bifurcaram-se com o decorrer do tempo em duas grandes ordens de possi­ bilidades: as em que a emtpiria. aos poucos. um aspecto que era presente entre eles. Mas desse saber empírico. e o princípio é o nascimento. onde as condições são mais propícias. tomar com. como veremos. tão próprio dos orientais. mas um saber que res­ ponda aos porquês. e que não encontram soluções imanentes. um implicar de uns em outros. Pois bem. para. dobrar. O místico não vê os factos do acontecer cósmico superficialmente como aparecem. teve. o que permitia descobrir um nexo. entre essas. Trabalhou a sua imaginação. Não se pense que os ocidentais também não procurem um saber páthico. o que não se revela. E nesse trabalho. pertencem ao cam- . às interrogações do homem. e esse afã é valioso. toda passagem humana. em que êle comparava um facto com outro facto. embrulhado. O prefixo ex nos dá a ideia de fora. uma parte podia ser comparada entre si. dominar). O terror cósmico do animal ante o espaço que não conhece e não domina. fechar os olhos. ver demoradamente. e por um saber de ordem páthico tam­ bém. (de theoria. embrulhar. ou Ciências da Natureza. que queiramos explicar os místi­ cos ocidentais como influídos pelo misticismo oriental. que significa: plicar. que tinha base real. contemplar os factos ou as representações que deles formava. procuravam esse saber páthico. do grego phronesis. um repetir entre eles. Não se creia. cujo objecto é o campo da cultura. E assim. e as Ciências Culturais. é um saber especial. um saber es­ peculativo (de speculum. que lhe servisse para dominá-los. quer ocidental. Aqueles aspectos. mas por um saber teórico. que significa fechar a boca. Os místicos. construiu o homem o saber teórico. os filósofos são esses homens que se afanam por saber. espelho). no homem. Mistério é o que está oculto. especulativo (no Oci­ dente sobretudo). Preferi­ mos esse enunciado geral porque nos permite. Com as primeiras. um variante. e as que permaneciam apenas no ter­ reno das fantasias. Mas. A palavra místico vem de uma palavra grega. o que guarda silêncio.S4 MÁRIO FERREIRA DOS SANTOS FILOSOFIA E HISTORIA DA CULTURA 95 Seus primeiros profundos pensamentos dirigiram-se naturalmente para o tema da morte. com-preendê-los (de cwn-prekenãere. toda caminhada. as ciências que estudam a natureza. fantasias e fantasmas. O misticismo também surge no ocidente. uma actividade. que o elevou a um sentir mais tremendo: o terror cósmico ante a morte. como meros phenómenos (de phaenomenon. quer oriental. com­ preendermos a Filosofia. um verbo. um desvio. que ultra­ passam o campo restricto dos objetos das diversas ciências. Entre o princípio e o fim. uma regra. a experiência. observar. de erros e experiências. próprio desse todo. tornar visível o que estava oculto). inclui ela todo o saber teórico. em grego. Com esse saber. os perigos que guarda. Mas. Assim ex­ plicar é desembrulhar. de sophos. provocou-lhe per­ guntas e mais perguntas. através de marchas e contra-marchas. para alcançar um saber. foi o homem construindo um saber provado. esse instante cheio de mistério é o começo de uma marcha para um fim. Absolutamente não. com êle. solidificado pela experiência. precisava espelhar. o que aparece). ante os obstáculos que oferece. Criou com as imagens do seu mundo. podemos dizer que a Filo­ sofia é um afanasse. já que chegamos aqui. a sua fantasia.

° grau das ciências. liberdade. esse sentido. Presume-se que muitas de suas obras eram apostilas das aulas que êle dava. por­ que não há Filosofia sem Metafísica. cada grupo de factos. e daí se formou a palavra latina metaphysica e a nossa metafísica. que tem. a Estética. o estudo teórico da Religião. libertando-a dos preconceitos daquela. no entanto. o tema de uma finalidade no universo. mas esta restrição. inclui-se no campo da Filosofia. A Ciência es­ tuda o imanente. Esta restrição foi benéfica. para aceitar ou para repudiar. Isto é. A Metafísica chegou mesmo a ponto de ficar completamente desmoralizada no século XIX. pois deu margem a que se estabelecesse a distinção entre Metafisicis­ mo e Metafísica. Com o desenvolvimento dos conhecimentos. pondo-lhe à disposição um grande número de sábios. que eles não se davam sem certa ordem e coerência. Assim. não se pode dizer com rigor que seja exclusivamente seu. colocando-a no devido lugar. Verificaram que entre os pensamentos existia um certo nexo. aqueles seres que não eram passíveis de captação pela experiência sensível. Este. porque houve um certo exagero no seu emprego. A descoberta dessas ordens. e a Ciência em geral. quando dominou a Grécia. enquanto outras eram por eles ne­ gadas. fora da mente hu­ mana. A Filosofia estuda a transcendência. que lhe são próprios. Os problemas metafísicos não fo­ ram sempre os mesmos nas diversas culturas. destacaram-se a Psicolo­ gia. podemos dizer que os homens foram verificando que muitas das fantasias tinham uma certa con­ firmação com os factos. O que para nós pertence ao terreno da Física. veio em benefício da Me­ tafísica. de Aristóte­ les. uma obra que se pode estabelecer como exclusivamente sua. tais como Deus.96 MÁRIO FERREIRA DOS SANTOS FILOSOFIA E HISTORIA DA CULTURA 97 po da Filosofia. a qual estuda o pen­ samento em seu desenvolvimento. Com o tempo. da filosofia. Nessa diferença está especificado um aspecto que não deve ser confundido. podemos viver a religião pàthicamente. Dessa forma. como também as abstracções de 3. a Filosofia incluía todo o saber. o determinismo. como objecto. No tempo dos gregos. então. a alma. pu­ blicada depois de sua morte. o que penetra muito le­ vemente no terreno da Metafísica. a Metafísica. para outras culturas são temas meramente metafísicos. Nos manuscritos trazia a seguinte indicação: ta meta tá physika. Toda história do saber humano é o descortinar clêsses novos objectos e a formação dos saberes. que consiste em dar realidade extra-mentis. Na concepção aristotélica. que lhe fos­ se próprio. o número das disciplinas cresce cons­ tantemente. e saber sobre a religião. Chamamos de trans­ cendente o que ultrapassa o que é imanente. Não se pode construir a Filosofia sem Metafísica. a Religião. Aristóteles deixou. Nos séculos XVII e XVIII. Não há Filosofia que não procure invadir o terreno das perguntas máximas e não penetre no terreno da transcendência. Sabe-se que Aristóteles foi preceptor de Alexandre Magno. que procura res­ ponder aos porquês que ultrapassam as possibilidades da ex­ periência sensível. deu-lhe todo apoio. com a finalidade de organizar uma súmula de todo o conhecimen­ to. de então. . o campo se restringiu. a Ética. Com os positivistas o metafisicismo tomou uma posi­ ção tão contrafeita que os próprios metafísicos receavam confessar que o eram. que tomou o nome de metafisidsmo. e permitiu a construcção de um saber específico. com suas subdivisões posteriores. O que se conhece propriamente. e também a Religião propriamente como pátrica. a Metafísica é a parte da Filosofia que estuda as primeiras causas dos seres que ultrapassam o terreno da experiência sensível. regras do pensamento. constituiu um objecto. o transcendente. que se dá na cultura ocidental. que é a Lógica. Por isso. nem por esta directa­ mente revelados. com sua tensão específica. Quanto à Lógica. permitiu a fundação da disciplina. tornando-se a parte da Filosofia. E a palavra metafísica tomou. a Lógica. devido ao excesso vicioso. ao que apenas tem realidade nesta. tornou-se esta um meio de falsi­ ficação perigosa. Tu­ do que transcende à imanência pertence ao campo da Filo­ sofia. O que Aristóteles nela estudava eram as conexões que ultrapassavam as possibilidades de um co­ nhecimento sensível.

cunha as notas características de cada cultura e de cada alma correspondente. dentro do campo da sensibilidade. Mas ainda não se havia perfei­ tamente distinguido a sensibilidade da afectividade. Consequentemente. daí Moral. a ciência ca sensibilidade em geral. que antigamente estava ligada apenas aos sentidos. Aproveitando-se do termo la­ tino socius. conexioná-los. a Sociologia e a Economia tornam-se as ciências mais importantes e de maior interesse na actua­ lidade. sua objecti- . pelo menos. porque. ou na Metafísica dos valores. Mas quem deu a esses factos um carácter específico. dos latinos. por meio desses estudos. passou a ter um carácter páthico. A Ética. afectivo. cujo ideal de beleza era o sensível. por não po­ derem ser considerados como meramente objectivos. apesar das suas ligações estreitas com a Sociologia. A Estética era. que era a Cosmologia. páthico. Para a alma fáustica. e o estudo do facto estético. como o mor. pertence à Psicologia. tornando-se uma ciência de objecto auto­ nomamente considerado. tomou um sentido específico como ciência do facto estético.98 MÁRIO FERREIRA DOS SANTOS FILOSOFIA E HISTORIA DA CULTURA 99 A Matemática pertenceu também à Filosofia. e a Antropologia. mas que já possui um cabedal de conheci­ mentos que ultrapassam a de muitas outras. na filosofia clássica. que formam as disciplinas que lhe são afins. É a Socio­ logia. moris. foi Augusto Comte. incluía-se. antes de examinarmos a Ética e a Estética. Assim a Estesia. a Psicologia. portanto. que significa costume. em sua origem. matéria importante para nós. que. Isso não quer dizer que não houvesse antes dele quem estudara factos sociais com certo rigor científico. e quis conjurá-los através de um nexo. Tinha que surgir. como não as distinguem ainda hoje. sua tensão. que falemos de uma nova ciência. sua essência. no Ocidente. quando estudemos essa cultura. Desta forma. Quem primeiramente percebeu que o facto social tinha uma tensão própria e. ou o que ela inclui. O verbo grego aisthonomai significa perceber através dos sentidos. a be­ leza não é apenas sensível. que tem um sentido muito claro e muito expres- Do século XV em diante. afectivo. que significa sensação. Pode a Ética ser estudada à parte da Filosofia. não se pode construir uma boa concepção dos va­ lores sem que se penetre nela. estabelecer uma verdadeira ciência do facto social. foi Auguste Comte. isto é. tem sua origem na palavra grega aistkesis. Convém. * * * vidade e subjectividade e o seu papel passou a constituir uma ciência específica. uma concepção diferente da Estética. porque está presente em todas as culturas. por lhe ser afim. e marca. O estudo da sensibilidade (que seria o da Estesia) in­ cluía o da Estética que. ape­ nas centenária. com Baumgarten. o qual é genuina­ mente. não po­ diam ser considerados capazes de mera captação sensível. para usarmos de nossa linguagem. se actualizou em outros objectos. fixa. que. Ela participa tanto do mundo da natureza como do mundo do espírito. predominante no Ocidente. que tem também o mesmo significado. o que estava perfeita­ mente de acordo com a alma grega. Já teremos ocasião de penetrar na Estética. o campo da afectividade. da qual também trataremos oportunamente. embora hoje se coloque como ciência independente. mas sempre esteve incluída na esfera propriamente filosófica. do belo. e veremos quanto é mais. . pelos sentidos. Ela. Sobre este ponto voltaremos a seu tempo. pois não é possível compreender-se a cultura sem estarmos munidos de certo conhecimento geral daquela. por­ tanto. ciência do facto ético. É ela a ciência de ligação entre as do espírito e as da natureza. com a Psicologia. a Estética teria de alargar o seu campo limitado e penetrar em terrenos que pertencem ao da Metafísica. ou em nossas palavras. sua coesão. incluindo-se nele os valores estéticos. Também a Física pertencia ao campo da filosofia clássica. dando ao seu estudo um método próprio para investigá-los e. é formada da palavra grega ethos. a Física separou-se cada vez mais da Filosofia. É mais. com objecto próprio: a Estética. procurar sua coerência. merecia a construcção de uma disciplina específica. A Estética. — com seus problemas sobre o belo. isto é. Assim a captação da beleza. na realidade. por sua vez.

A Sociologia da religião é. O A religião é um saber de salvação. saber tem que ser estudado dentro da Sociologia. Até o século XVIII. essas constantes. como já vimos. e há o saber de domínio. apenas nas ciências naturais. pois um saber culto. a verificar que aí não se davam leis. dis­ tinção entre Religião e Ciência. Vemos que um mesmo agen­ te pode realizar uma série de actos que podem ser conside­ rados como constituintes de diversos objectos. se inicia no século passado. o histórico. era a ciência mais positiva. por­ tanto. deu-lhe uma só lei suficiente para regular tudo. Falava-se em leis da Lógica. na própria Biologia. mas nós. A ideia do cosmos encerra sempre a ideia de uma or­ dem universal. etc. julgava-se possível descobrir as leis que regem todo o objecto do saber humano. o que já examinamos. o homem começa a construir a Filoso­ fia. Vemos que o acontecer cósmico é um grande e único facto. o social. etc. formou a palavra Sociologia. somos levados a analisar.Wuníífpais tia Mo Data. é por isso que não podem existir leis da parte. a "separar" dos factos. e para que esta ordem prossiga deve haver um nexo invariável. Foi êle um grande adversário da Metafísica._ 100 MÁRIO FERREIRA DOS SANTOS FILOSOFIA E HISTÓRIA DA CULTURA / 101 / sivo. era meramente Metafísica. desses factos. com rigor científico. se unem. por exemplo. o es­ tudo. finalmente. Já no século passado os factos não vinham confirmar totalmente essa concepção e se admitiu. Na segunda fase. que permita que ela se perpetue. como o políti­ co. que. que nas Ciên­ cias da Natureza existia esse nexo rígido. para êle. nas do espí­ rito. portanto. para Comte. porque. Nas primeiras fases humanas predomina a religião. porque toda a nossa vida de relação está dentro do seu campo. invariantes. Não há. Construímos com certos aspectos um nexo. ou se ajuntam para a rea­ lização de um acto comum. o positivo. mas sim cons­ tantes. e se existir alguma lei será ela do todo. no entanto. sem con­ tudo representar p seu verdadeiro papel. mas só no sentido de constante. depois. com um fim comum. No século XVIII. de invariante. pelo menos. permite estabelecer que nela não há leis em sentido rígido. precisamente com a Sociologia. Aceitavam-se. Há. que ligava todos os acontecimentos de um determinado objecto de uma ciência. há constantes estatísticas. por economia do espírito. que. E considerava-se lei o nexo invariável. esse velho sentido de lei foi expulso da ciência. mas. da Psicologia. então. e indica a união passageira ou estável de duas ou mais pessoas que se coligam. que há uma probabilidade. e o que já se conhece. Scheler divide a Sociologia em duas parte: a real e a cultural. é um aspecto apenas do acontecer hu- mano. já não se admitia o sentido rígido de lei. então. Nietzsche já afirmava mais: não havia leis de forma alguma. Muito po­ de ser útil esse conhecimento para a organização da socie­ dade. o económico. com excepção da Ontologia. Essas probabili­ dades têm graus. ela exerce um grande papel. certos aspectos. que é o da ciência em geral com aspecto sociológico. não tem leis. Hoje. que seria a ciência desses factos. Nesta. acreditava-se que havia uma lei rígida que regulava todo objecto de saber. já se concebe. na Física. dizem. Comte postulava que a humanidade havia passado por três estados. Temos a ciência positiva em geral. em­ bora não dispusesse dos meios experimentais que têm à mão os sociólogos modernos. Surge. e a filosofia tam­ bém é assim considerada. que também per­ tence à Sociologia. A Sociologia. Comte afirmara que esses estados marca­ vam a predominância de um ou de outro. Na verdade. porque não pode dela afastar-se pelos aspectos sociológicos que apresenta. A Sociologia. a parte que estuda os aspectos sociológicos dos factos religiosos. A Sociologia real é * . A Sociologia é uma ciência importante. e chegou-se. Já em épocas recuadas havia pensa­ dores que diziam não haver leis. a Sociologia do saber é todo o saber humano. então. e com eles construir. uma ciência. Hoje ouvimos falar nas constantes biológicas da conserva­ ção da espécie e do indivíduo. O facto social não se dá isoladamente. que é o tecnológico. Se um Deus organizou o mundo.

penetran­ do na direção do seu destino. o que veremos quando examinemos a His­ tória. de correr daqui para ali. veremos que existe para Scheler dois fac­ tores importantes. Consideravam o saber de duas espécies: um saber teó­ rico e um saber prático. desde que tenhamos uma perspectiva tal que nos permita ver o cosmos como um acontecer. que têm ou tiveram certa significação ou influência sobre uma colectividade humana. (Aula taquigrafada. Quando ela actualiza mais o produzido. Quando um facto ultrapassa ao campo do indivíduo e do grupo. para os gregos. palavras que possam distinguir bem as diferenças en­ tre esses dois conceitos de histórico. que eles. devido à falta de um sen­ tir em profundidade do tempo. significação. No entanto. Não temos. O saber prático é o saber que é dado pela experiência. E. a História era concebida como o relato dos factos importantes. no início. como as palavras geschichtHch ou geschichtmassig do historisch. envolviam. e os factores ideais. é um saber espe­ culativo. no sentido de vida. Para os gregos. ou actuação. já vimos. nesse sentido. de o fac­ to histórico. Os reais formam e constituem a infra-estructura social. como o tem a língua ale­ mã. estamos na ci­ vilização. confundiam com os mitos criados sobre a sua origem e sobre as épocas pre­ téritas. No futuro. que pertence à História. se­ guindo essas pegadas. e tem sua influência.102 MÁRIO FERREIRA DOS SANTOS formada pela infra-estructura da sociedade. E. dos antepassados. como conjunto de factos aconteci­ dos. tais factos formam o historial. a cul­ tura. Outro aspecto importante se­ rá para nós mostrar a diferença entre o facto sociológico e o facto histórico. O teórico vem da teoria. e civilização como a organização do producto. Esta distinção nos permite compreender o aspecto so­ cial e histórico nesse sentido. que. chamamo-lo de histórico. como um produzir-se. construímos. quer sobre ou para outros grupos sociais maiores. é preciso que saibamos distinguir bem o que é um facto histórico como histórico. é a contemplação. discursivo. que nessa perspectiva o é todo acontecer. então. como as for­ mas de producção. proferida em 19/9/50). temos. a Economia sobretudo. Dizemos cultura no sentido de produzir-se. . do produzido. podemos chamar âe aspecto historial ao aspecto histórico. para o estudo dos factos sociológicos. a parte cultural. um esquema geral das ciências históricas. no sentido que o dão os historiadores. ou mostram seu aspecto historial. A HISTÓRIA Podemos considerar os factos como históricos. Quando predomina o produzir-se. No entanto. de discorrer. O marxismo admite que a super-estructura é um epifenômeno da infra-estructura. que são os factores ideais e os factores reais.

sobretudo já em nossos dias quando aquela passa a adquirir novos métodos e novos instrumentos de traba­ lho. na cultura fáustica. num espelhar os factos do passado. dá-se. de todos os seres que se dão no tempo e no espaço. no entanto podemos reverter o espaço. são saberes teóricos. é um saber prático. A Matemática. a Física. podemos apontar a essência da História? É da essência do histórico e não a sua essência. como da esquer­ da para a direita. os factos históricos são irreversíveis. o nexo que os liga. confundindo o passado com os seus mitos. À proporção que se tiver uma visão em profundidade do tempo. assim. posteriormente. como vimos. Êle sucede. não podemos tornar presente o passado. Mas a História. Portanto. é novo e único em si mesmo. apesar das passagens de certos autores on­ de encontramos comparações e a apreensão de analogias. etc. uma visão em profundidade da História. mas sabemos. que. Em primeiro lugar. como tempo. nestes como naqueles. e passa. todo o existir teria uma di­ ferença absoluta e não nos permitiria o conhecimento. mas apenas superficial. já vimos. Toda teoria se funda numa especulação. é o tempo o campo dos factos históricos. tiveram uma visão também superficial. não! O tempo é irreversível. comparando uns factos com outros e descobrindo seu nexo causal. varia também sua perspectiva da His­ tória. perdendo até a segurança cronológica dos acon­ tecimentos pretéritos. para reconstituí-la. teremos que salien­ tar que o facto histórico se dá no tempo. podemos medir da direita para a esquerda. teremos uma visão em profun­ didade da História. Não sabemos se a figura de um Licurgo foi real ou apenas mítica. porque há aspectos que se repetem. tanto pode ser considerado da direita como da esquerda. quais as características fundamen­ tais da História. a História é apenas dos homens. Para os gregos. é substituído. é irrepetível. Sa­ bemos que Napoleão Bonaparte não será repetido. suas origens e incorporando-os. . do contrário. mas o tempo. por não a terem. em combinação com a Sociologia. Cada facto. verificados no desenrolar dos estudos his­ tóricos. como produzir-se do acontecer cósmico. dá-se a irre(1) Oportunamente. Não procuravam eles uma teoria sobre ela. tinham. o que não se dava com os gregos. A teoria é. com Bacon. já verificamos que eia é concebida não apenas pertencente ao campo antropológico. Não podemos reverter o tempo. porque o minuto que passa flão retorna. Co­ nhecemos. uma construcção do espírito feita dos factos dados pela prática. Enquanto os egípcios nos oferecem. Ora. Como os egípcios tinham uma visão em profundidade do tempo. porque a perspectiva histórica é consequência da posição que tomamos. logo se vê que o conceito que tivermos do tem­ po influirá naturalmente sobre a perspectiva que teremos dos factos históricos. a Filosofia. e como dos factos importantes da vida humana. no entanto. com uma exactidão pasmosa. mas também ao dos animais e das coisas. Como a perspectiva e a visão do tempo variam de cul­ tura para cultura. Se dizemos que algo tem tantos metros de comprido. é sucedido. também. comparando-os com os factos do pre­ sente. as datas de suas dinastias e os períodos certos dos remados de seus diversos faraós. nem descobrir o nexo dos factos. em si. mas sabemos da rea- lidade das mais simples personagens das primeiras dinas­ tias egípcias. O histórico não se repete. Mas. para os gregos. que as condições que geram um bonaparte sob certos aspectos. no estado actual dos nossos conhecimentos sobre a História. Mas cada facto também repete os factos passados porque. estudaremos a História do ângulo ontológico. teremos uma visão histórica do mundo. não re­ torna. as possibilidades de ulteriores desenvolvimentos. Se assim é. construímos um saber. porque os factos históricos se dão no tempo. porque o negativo não pode ser essência de coi­ sa alguma) a irrepetibilidade. se repetem (1). Em toda natureza. de cujo ângulo visualizamos apenas o aspecto irre­ petível dos factos. numa visão par­ ticular dos mesmos que os inclua conexionadamente. numa teoria. e essa irreversi­ bilidade é dada pelo tempo. Mas. agora. e é sobre o repetível que construímos a ciência. que se dá. Mas o facto histórico. foram exigidos esforços sôbre-humanos dos estudiosos. os gre­ gos nos deixaram tamanhas dúvidas sobre os factos da sua História que.104 MÁRIO FERREIRA DOS SANTOS FILOSOFIA E HISTORIA DA CULTURA 105 é o saber que o espírito constrói. Analisemos. Desta forma. para descobrir. Estas já encerravam.

para uma visão filosófica e histórica da cultura humana em geral. o produzir-se. no espaço. da Historio­ grafia. e ao mesmo tempo sistemática. que os reproduzem. Não são. arte realizada. para ser proveitoso e de fru­ tos benéficos. as quais servem para indicar um novo caminho capaz de per­ mitir o vislumbrar dos aspectos sociológicos. É ter dela uma visão viva. dinâmicas como os factos. podemos formar o seguinte esquema. porém. não é tornar outra vez um produzir-se da História. portanto. conexionando os aspectos meramente históri­ cos. que permita a formação de uma vi­ são concreta. pela nossa inte­ ligência. mas reversível como producto. como seria possível co­ nhecer se não se dá a reversibilidade? Como poderíamos comparar um facto com outro para descortinarmos o nexo que os liga? Podemos. notas. mas irreversível como intensida­ de. como se fosse uma estructura biológica. através deles. A Sociologia actualiza dos factos as notas que se repetem. realmente se dão também no espaço. Mas. actualizando apenas o lado tem­ poral. que se opõem. Quem o vê apenas como um produzir-se. o que ficou: monumentos. que nos permitem.106 MÁRIO FERREIRA DOS SANTOS FILOSOFIA E HISTORIA DA CULTURA 107 versibilidade. compediando Spengler: 2 'Si extensidade (objectivação do producto) intensidade (objectivação do produzir-se) Mecânica Espacialização Causalidade Orgânico Direcção. não vivo e dinâmico. actualizando o lado extensista ou o intensista (o que nos levaria a uma compreensão meramente abstracta) e. enquanto a História. como ob­ jectivação do producto. A inteligência é a função de escolher entre. mas ape­ nas notas inteleccionadas pelo nosso espírito. mas estatizadas. tende a ver mecanicamente os factos históricos e a actualizar uma causalidade rígida. daí. Dão-se também em um local. de seleccionar entre muitos aspectos captáveis os que o espí­ rito pode captar (inteligíveis para êle) e com eles recordar. Assim considerar a morfologia da His­ tória pelos dois lados. não como produzir-se. Sim. Se actualizarmos uma dessas duas maneiras de ver a História ou ambas. Assim o histórico é irreversível como produzir-se. a uma posição concreta. e da His­ tória em particular. Mas em que consistem essas imagens? Ora. como histórico. Mas direis: Não se dão os factos históricos apenas no tempo. reverter o passado. da História. A História é o pro­ duzir-se. Então podemos dizer que é uma característica funda­ mental o irrepetível. temos o que traz a marca histórica.2 Quem vê a História apenas extensivamente. elas não são os fac­ tos. actualizamos apenas as notas que se repetem. obras em geral. Essas já não são vivas. com as realizações. capaz. como extensidade. . as obras feitas. Não revertemos os factos. mas estático. olhamos mais o lado sociológico que propria­ mente o histórico. mas apenas cópias dos factos. Todos os factos são irreversíveis. fado Temporalização como sistemática (experiência científica) como fisionómica (experiência como vida) . aponta-lhe a direção como se fosse uma vida. mas como algo que sucedeu no espaço. apenas actualiza as irrepetíveis. vector destino. captar algo daquele produzir-se. mas apenas as imagens. Assim o facto histórico. não pode afastar-se de uma concepção que en­ globe ambos aspectos. porque é dinâmica. vivas. é tempo. pois em sua unidade. como irrepetíveis. o que pertence ao estudo da História. temos aqui os meios para bem distinguir a So­ ciologia de a História. Quando dizemos que a História se repete. a sistemati­ zar o acontecido. como seria possível a ciência. é vê-la. mas como producto. são o producto. en­ tão. mas o debruçar do espírito sobre o passado. de poder captar. para usarmos da nossa linguagem. O que resta da História. não o facto em sua unicidade. temos genuinamente a História que é sempre viva. ou. Não é. porque o espírito humano tem essa capaci­ dade de reverter os factos do passado através das imagens que deles guardamos. mas certos aspectos. Como intensidade. paradas por nós. é tempo. é irreversível. os nexos que permitem concluir muito em benefício do homem. da descrição dos factos. O que produziu. é não deixar-se arrastar por valorizações apenas unilaterais. orgânica. A memória não é uma repetição. Então. sim. mas apenas apontar o seu producto. O estudo da História. di­ nâmicas como factos. é re­ versível como extensidade. pela memória. portanto. é o producto e não o produzir-se. Não são os factos que retornam. no espa­ ço.

se assim procedêsse­ mos. penetrar nela como um producto e um produzir-se. e tornarem-se assim productivos de algo superior pela constatação das di­ ferenças. repete aspectos. Nesses aspectos particulares. Todo facto sociológico é também histórico. que aceita uma finalidade que será encerrada como vinda do juízo final. Algo que criou. afectivo. como processo estructural. Tal não seria aproveitável. como da Real. apenas por uma sistematização cronológica das suas diversas épocas. senti-la. Então. um em face do outro. penetrar nessa alma. a História é vista intensivamente como um processo tensional. ao estudar a História. deixaríamos de compreender bem nitidamen­ te a alma grega. a frônese. e só com o tempo poderão ser examinados. mas podemos. para pô-los. Tais temas exigiriam outros estudos. mas na qual o producto e as notas corlespondentes. a alma grega não é algo estático. que os factos históricos obedecem a uma finalidade. Já dissemos que não há ciência do particular nem ciên­ cia sem o repetível. Assim se pode afirmar que é possível a constituição de uma ciência da História. medindo-lhes os templos. Ora. ter uma vivência dela e. como a cristã. e sabendo muito sobre os gregos. muito e muito. pondo-os em ordem. algo que permitiu que se produzisse tudo isso que está catalogado nos manuais. Há na história constantes. ela é uma estructura coerente de estructuras. nem como a de Hegel. para compreender essa maneira de ver a História. tornando ambos campos como componentes de um mesmo objecto. de que já falamos. Quanto à finalidade. Vamos a exemplos que esclareçam melhor. en­ tão. sentir e compreender o que eles produziram. isto é. Não uma ciência do campo do meramente repetível. quanto às leis. Sem penetrarmos nessa alma. invariantes. que vê na História a realização do espírito universal. proferida em 20|9|50). para que possa­ mos captar esse saber intelectual. Se estudássemos os gregos. Não seria possível examinar aqui as diversas opiniões. em que terminará o nosso tempo. perguntaríeis: Há leis na His­ tória? Há nela uma finalidade? Já vos expusemos em que sentido se pode tomar a lei. então. invariantes sociológicos. não se pense que aconselhamos uma posição intermédia. Assim sendo. É preciso saber viver os extremos. poderíamos ape­ nas dizer que muitos aceitam uma certa teleologia. observando as notas características dos seus estilos. como também só depois de estudarmos o Cristianismo. . vivê-la. a construcção de uma ciência da História só pode ser feita com o auxílio da Sociologia. estaremos em condição de compreender a sua ideia do advento do juízo final. procurando ver até onde irradiaram a sua influência. É natural que. bem como os elementos da Sociologia Cultu­ ral. apenas por uma catalogação de suas obras. que penetram no terreno da História. tendem a uma meta. Mas deixaríamos de saber outro la­ do importante. não poderemos com­ preender o seu produzir-se. que tem uma tensão que se desenvolve. mas algo que se deu dinamicamente. descobrindo-lhes a verdadeira posição cronológica. há repetições de notas e são elas que nos permitem constituir a ciência.108 MÁRIO FERREIRA DOS SANTOS FILOSOFIA E HISTORIA DA CULTURA 109 Entretanto. sobretudo depois que estudemos as diversas culturas e nos encontremos. Ora. registrando factos. como raramente é aproveitável qualquer meio termo. ao la­ do de um saber páthico. observando as obras realizadas. Assim necessitamos. dizemos que há constan­ tes sociológicos. nos permitam estabelecer um estudo coe- rente da História. na época de Hegel. Mas essa tensão repete notas. estaríamos apenas actualizando o producto. A tensão é uma unidade de tensões unitárias por sua vez. sentir perfeitamente o mundo como eles sen­ tiam em todos os seus aspectos. Naturalmente que não podere­ mos ser gregos. * (Aula taquigrafada.

e como? Se não há. se respondida positivamente. E as disciplinas. como objec­ to. Os homens mantêm relações entre si. A Ética é a ciência que engloba. uma com a outra. no entanto. provocaria logo outra: se há regras invarian­ tes. como disciplina específica. uma pri­ meira pergunta: há. Muitas vezes confundidas. as normas que as orientam. em latim) são a Ética e a Moral. quem as estabeleceu. leis e costumes. que as distingamos. Assim a Ética é a ciência da Moral. é óbvio que surgisse. os usos e costumes dos diversos povos (ethos. descriptivamente. os diversos costumes estabelecidos entre os povos. no tempo e no espaço. para os estudiosos de tema tão vasto. Referia-se a primeira ao cum­ primento do dever pela vontade. transformações. He­ gel distingue a moralidade subjectiva (Moralitat) e a mo­ ral objectiva (Sttlichkeit). regras invariantes. e a segunda. modificações. através das eras. ao espírito objectivo na forma da moralidade. que estudam essas relações. tais como: quem estabelece essas normas ? São impostas ou livremente aceitas? Para que tende' a Moral? . pois estuda. suas varia­ ções. são apenas produetos de convenções humanas? E logo surgem outras perguntas. os princípios que os regem. que maior atenção merecem dos es­ tudiosos. os meios que utiliza e os fins a que se destinam. A Moral tem um campo mais amplo. que são diferentes segundo os diferentes agrupamentos. cons­ tantes. é construída a Ética. na moral. moris. ou apenas variáveis? Essa pergunta. é a Ética. e segundo até a estruetura social. em grego e mor. que são os mores. a qual procura o nexo que os liga. e os correlaciona com o corpo da Filoso­ fia Geral. Em face das variações que se observam nos costumes. Tomando como objec­ to esses costumes.A ÉTICA Uma das disciplinas. esses costumes. merecem. à fixação das normas.

cumprem fielmente as condições da espécie a que pertencem. Só o homem pode ser moral ou anti-moral. Os imanentistas afirmam que as normas morais. São amorais. Dessa forma. e o homem o percebeu. os que buscam um princípio universalmente válido invariante. não podemos afastar-nos dos temas éticos. temos a moral autónoma (de autos. concrecionadas nos dez mandamenrtos. sabemos que êle se distin­ gue dos animais. regra). para formar sua coerência. frustra. ser estabelecida autonomamente. aceito por lodos os povos. capta ou domina. Em face dessa situação. indepen­ dentes das condições históricas. se­ gundo variem as condições gerais. em casos especiais. Não há agrupamento humano que não tenha normas que regula­ rizem suas relações. se observarmos bem o ho­ mem. podemos desde logo estabelecer que a Ética pode ser visualizada de duas formas: invariante — aceita normas constantes. Já vimos que cada agrupamento social forma uma es11 uctura e essa estructura é mais sólida. si mesmo). mas apenas permanecer no terreno do descriptivo. deduz. em grego. nem a favor desta. alguns éticos a posição tramscendentalista. presentes em to­ das as ocasiões na História. Forma uma tensão. Quando a moral é estabelecida peíos próprios agentes que a praticam. seguindo seus instintos. cheia dos defeitos e das fraquezas natufais do homem. é natural desde logo. Desta forma.. etc. um deus. diz-se que ela é heterônoma (de heteros. ou não. induz. mas sempre obedecendo às normas dadas heterônomamente. transformados em leis morais. com­ para. suficientemente. pensa. às quais os homens obedecem em suas relações. lei. aquele imperativo categórico de validez universal. Ética Colocando o problema da Ética neste pé. por ter espírito. que se queremos estudar a cultura em suas diversas manifestações. o notou. Mas poderia. Quan­ do a moral é estabelecida por outrem. quão grande é o campo de actividade dos estudos éticos. Negam esses a origem transcenden­ tal da moral. variante — aceita que os costumes variam. o visualizou. invariante. conservando suas relações. os quais afirmam que uma divindade. estabeleceu as normas sob cuja obediência deveriam viver os homens. Es­ tas nascem de convenções. O homem tem normas que variam através dos tempos. poderia ainda surgir essa nova per­ gunta: que valor tem para nosso estudo o conhecimento da Ética? Iniciando a respondê-las. que dirige o homem na aceitação de normas que regularizam as relações huma­ nas? Tais perguntas já nos mostram. fundados e con­ sagrados pela prática. julga. ou em outras palavras. normas que regulam suas relações. outro. que buscam todos os que defendem uma posição invariante na Ética. porque a daqui não é a dali. -I geográficas. pecarem. Ora. portanto. aqui. Se há um . que aceita ter dado Deus ao homem suas leis morais. Há uma outra posição. Desta forma. porque não tomam uma ati­ tude contra a moral. de hábitos. deve ter sido êle estabelecido por alguém. E cer­ cando essas perguntas. Nenhuma di­ vindade estabeleceu normas para as relações humanas. depois de devidamente estabelecidos. Mas outros pensam de modo diferente. não se dá para os que aceitam invariantes na moral sejam todos transcendcntalistas. e impregnar com o seu es­ pírito os bens que êle cria. Os animais não têm moral. mas por Deus. a moral não pode constituir-se num ciência. movimentam-se. têm sua orir. convivem entre si. Portanto. Te­ mos aqui a posição religiosa. após os estudos já feitos. que são a síntese dos princípios éticos. Essa tensão exige dos elementos que a compõem.112 MÁRIO FERREIRA DOS SANTOS FILOSOFIA E HISTORIA DA CULTURA 113 Qual a sua finalidade? Que orienta. e nomos. Portanto.em fundamental na própria estructura social criada. isto é. a ética não é estabelecida pelo homem. em todas as eras e condições. que é a dos imanenlistas. Ela é de origem humana. Os que actualizam ape­ nas essa variabilidade das normas concluem que a moral é relativa. logo se torna fácil ver que as perguntas surgem exigentes. começaríamos pelo fim. norma. Tomam. E isso por quê? Porque o homem escolhe. Salvo casos excepcionais de de­ generação. a moral seria heterônoma. e já veremos por que. que é mais coerente ou não. étnicas. Assim a norma moral tem sua origem em outro que a impõe. Os animais vivem. na formação de comu­ nidades específicas. medita. sob pena de ofenderem essa mesma divindade. Mas outros não pensam assim.

Portanto. E poderíamos dizer: toda tensão formada. dão aos seus actos um fim. que aceitam a possibilidade de uma ordem natural entre os homens. não pratica um acto em si bom ou mau. e estas serão tantas quantas as variadas composições estructurais. tem a sua norma ética. a ética é quase sempre de fundo religioso. porque. é punido. toda a ética está fundada nelas e nos interesses por elas criados. e é moral fazê-lo. como a de um grupo. uma tensão frágil. A acção não é boa nem é má. independentemente das classes e das condições so­ ciais. como se vê na formação das sociedades de qualquer espécie. atra­ vés dos princípios fundamentais de suas normas estatutá­ rias. que formam uma fraca estructura. naturalmente. na realidade. em Ética dos bens e Ética dos valores. que em todas as eras. logo sabem deduzir de sua organiza­ ção as regras e princípios justos (ajustados). Em todas as colectividades. Logo se vê que. se dá. que se repetem invariavelmente em todos os povos. e que procuram conservar-se. sob pe­ na de ser rompida. Os elementos. É a ética imanente o fundamento das doutrinas li­ bertárias. e esta necessita manter suas forças para defender-se dos adversários. a indignação crescerá contra quem perturbar a tensão formada. A Ética dos bens compreende todas as doutrinas que. Nas épocas de religiosidade. quando se reúnem para um fim comum. todo acto. é intrínseco ao bom êxito da caçada. que ponha em risco a mesma. formará. Por isso os homens. chegar até à indignação que pro­ vocaria quem matasse um membro de uma colectividade. . salvo os casos teratológicos. Assim se vê que os defensores de uma ética imanente têm suas bases bem sólidas. portanto. não como uma necessidade apenas. porque é considerado imoral. É fácil daí. consi­ derará imoral o acto daquele que perturbe essa tensão. Uma mosca. que deposita seus ovos no nosso alimento. Ela apenas exis­ te. Essas normas são invariantes. por­ que sabe escolher. em que se congregam pessoas que devem. prazer) ou na consecução da felicidade (eudemonistas). seguido. poste­ riormente. deixa de dar assistência ao filho. Mas se fôr uma tensão já formada numa sala de projeção de um cinema. transeunte. essa indignação ao perturbador também será fraca. fundadas no hedonismo (de hedonê. transcendente. sua ética. que se reúne em torno de um "camelot". que apregoa as vantagens das bugigangas que oferece. e a defendeu foi Proudhon. Vê-se. mas porque o homem sabe desco­ brir o que lhe convém para ordenar as suas relações. os homens obedecem a um número determinado de princípios. Digamos que um grupo de caçadores reúne-se para caçar. rápida e não perdurável. quem a perturbe será repelido. considerará como intensivamente imoral todo o acto que perturbe a sua conservação. da melhor forma. durante uma missa. Nesse caso. E se estivermos numa igreja. Os que defendem a Ética dos valores declaram que os actos são éticos porque se fundam em valores éticos. moral ou imoral. É natural. Modernamente. facilmente. em grego. fundada nas tensões que formam. podem ser indiferentemente cifmpridas ou não. em certos aspectos.114 MÁRIO FERREIRA DOS SANTOS FILOSOFIA E HISTÓRIA DA CULTURA 115 um respeito a certas normas ou até certas atitudes. o fim a que visam. e por Kropotkine. os princípios éticos são julgados como impostos pela divinda­ de para que os homens se dirijam e todo atentado aos mes­ mos é uma afronta à própria divindade. tem a sua moral. por Nietzsche. pelo menos. Se um caçador espantar a caça prejudicaria aos ou­ tros e até a si mesmo. Ao contrário. são im­ perativos categóricos e não podem ser desobedecidos. Quem sobretudo estudou essa ética imanente. os que empreendem tais análises divi­ dem a Ética. Vejamos alguns: nenhuma mãe. isto é. que cada um trabalhe em benefício do fim alme­ jado. que permi­ tam conquistar. é imanente a ela a necessidade da obediência a cer­ tas regras. crer piamente na sua religião e no seu culto. já com maior indignação. numa caçada em con­ junto. sob pena de não alcançar o fim desejado. Cada estructura. que se forma. e não permita que se ouçam as palavras do "camelot". Essas normas não são facultativas. ten­ são passageira. em si. por graus. Mas como é uma tensão fraca. se a sociedade fôr organizada sob bases sim­ ples e naturais. à proporção que fôr mais forte em sua estructura. pois verifica-se que a tensão aumenta na pro­ porção também da tensão contrária que a ameaça.

por­ que estão num estágio em que a fantasia. não raciocinando sobre os conceitos nem os juízos para notar se estão incluídos em outros. que se estabelecem nas di­ versas relações humanas. sabem da sua existência. sobre os quais teceremos alguns comentários. e . que são verdadeiras aderências primitivas. . É comum. se não tivéssemos presentes todos esses temas tão importantes (1). ou povos pré-alfabetos. Esses povos. como o faz. de apreciá-la varia no decorrer dos tempos. segundo a filosofia concreta. . Barnes e Becker. A ética está nos valores que emprestamos ou damos a essa acção. e . se implicam outros. bem como os costumes. (Aula taquigrafada.116 MÁRIO FERREIRA DOS SANTOS Não há ética propriamente em nenhuma acção humana. isto é. . dois sociólogos americanos. É de no­ tar. por acumulação. que os entrelace. de considerá-la. porque o modo de visuahzá-la. da Oceania. os povos pré-lógicos fazerem a de­ corrência lógica d o s pensamentos por meio da ligação e . que embora n ã o o usem. onde fazemos restrições a essa concepção. por contacto com povos alfabetizados. etc. e outros povos da Ásia. INFLUÊNCIA IDA ESQUEMÁTICA PRIMITIVA NO HOMEM CIVILIZADO Não poderemos analisar as altas culturas se não con­ siderarmos alguns aspectos gerais dos povos chamados pré-lógicos. . . e que a simples aná­ lise dos seus aspectos gerais nos mostrará de sobejo. como certos esquemas. que os ajuste. as divagações meramente fantásticas se misturam com comprovações. . por não terem achado perfeitamente o nexo que os ligue. É a ética matéria importante. e r. q u e recebem o nome de primitivos. sobretudo. muitos a i n d a existentes. (1) O estudo de Ética. da África.ão manejam ainda com o máximo rigor os pensamentos. são povos analfa­ betos. Não poderíamos estudar a cultura. que ainda não construíram uma alta cultura. é por nós realizado em «Sociologia Fundamental e Ética Fundamental». não fionhecem o alfabeto. . e fixare­ mos os aspectos fundamentais. proferida em 21/9/50). tiveram oportunidade de f a z e r uma síntese dos principais caracte­ res. Chamam esses autores a esses povos de pré-lógicos. afirmam. a influência que ainda exerce o pensamento desses povos sobre a s altas-culturas. a Lógica. como os nossos índios. por exemplo. .

disseminados. a idealidade (que é o nexo das ideias). não se deve esquecer que toda essa esquemática primitiva surge à tona em momento propício. sem que saibamos por que. simpáticas. nos povos pré-lógicos. em que o povo permanece imóvel quanto às suas ideias. Por isso é fácil ver-se nos povos pré-históricos. como arte e como ciência. a característica maior do lógico. havendo maior ou menor aproximação em ambos casos. com aproximação aní- mica. pois vemos povos já formando cidades e man­ tendo uma resistência obstinada às inovações. 2) Imobilidade mental — Essa imobilidade mental não é absoluta. julgou que êle era a causa do malogro que ti­ vera na caçada e a puniu. então. enquanto nos civilizados há aproximação geográfica. Suas comunidades mantêm raros contactos com as outras. Mas os povos pré-lógicos não as tiram com esse rigorismo. povos lógicos e civiliza­ dos. sem que isso queira dizer que são desprovidos de lógica. em muitos casos. já alfabetos. mantêm mais firme sua tensão individual. con­ servando separações. com um conservadorismo obstinado. eminentemente proveitosas: 1) Afastamento vicinal — Vivem os povos pré-lógicos mais ou menos afastados. com separação anímica.118 MÁRIO FERREIRA DOS SANTOS FILOSOFIA E HISTÓRIA DA CULTURA H9 Vemos tais processos na poesia e na conversação das crianças. e mesmo dentro de­ las. teríamos negado o homem. Tais distinções. e os homens se alegraram com os dias melhores que sobreveriam". como notas características dos povos pré-lógicos. e os elementos que iremos analisar. embora possuam muito desenvolvido o espírito de comunidade (o espírito tri­ bal). argumentar muitas vezes. nos ofere­ cem elementos para verificar que entre nós há desses mo­ mentos e muito numerosos. enquanto há povos ainda pré-lógicos que oferecem certa predisposição para aceitar inovações. a separação é geográfica. graus. mas os que as compõem. conhecem-se verdadeiras estatizações. salientadas por aqueles sociólogos. Assim. e eternamente sofrerás. Ora. tanto nas horas de dificuldades colec­ tivas como nas individuais. para tais autores. E esse espírito de comunidade é mais eloquente e expressivo do que entre os povos civilizados. as festas são maiores. mais profundas que as dos lógicos. que serão. entretanto. mais observadores. conhecem. usando como argumento fundamental nossas disposições afectivas. Há. Ou: "Os maus não agradam ao Senhor e serão punidos e castigados. Por outro lado. paradas prolongadas. embora muitos não o aceitem. apesar de estarem muito mais próximos uns dos outros. e cada um de nós costuma realizar actos. . Não se julgue que entre nós. como já vimos. enquanto nos civilizados. mantêm maiores separações. Assim é frequente num homem primitivo julgar que um facto posterior possa ser causa de um facto ante­ rior. Tal não impede que o homem pré-lógico seja o criador das formas de cultura. Mas vejamos as notas características." A Lógica. só se desenvolvem na formação das cidades. porque as altas culturas. porque. Contudo. do objecto. inerte para tudo quanto possa apresentar qualquer transformação. com delírios e pai­ xões manifestadas. nos quais não transparece ilações no sentido do formalismo lógico. não conheçamos também momentos de primitivismo. como o do primitivo que ao ver uma criança praticar um tal acto. Basta examinemos o facto da simpatia. que ora apresen­ tamos como polares. dos embriões. qualquer melho­ ra. há mais ale­ gria. para sobre elas tecermos diversos co­ mentários. Se examinarmos bem. mantêm constantes afastamentos. tira ilações rigo­ rosas. Se maus foram os teus actos. como nos pré-lógicos. Assim: "O vento soprou forte e a chuva caiu e alagou os campos e as flores e as plantas reverdesceram. e as multidões civiliza­ das retornam às mesmas manifestações primárias. como o exem­ plo de Esparta. gran­ des serão os castigos e as penas. manifestações de misticismo e de êxtase mais acentuado. no entanto. habitantes das cidades que. que só o homem civi­ lizado poderá desenvolver. quando de suas cerimónias. mais frios. a Lógica procura a ligação racional de uma ideia com outra. Essa imobilidade mental dos povos pré-lógicos é uma decorrência do afastamento vicinal. excepções. sem obe­ diência a essas razões. consiste no domínio da objectividade. porque. mais entusiasmo nas festas colectivas em que todos tomam parte e nelas se fundem. Esse afastamento vicinal não impede maior solidarie­ dade e apoio mútuo. mais objectivos. os afectivos em geral. Essa imobilidade é manifestada por um tempo mais prolongado no processo das formas evolutivas ou. segundo os exemplos singulares. não se fundindo em grau tão elevado. Gostamos de al­ guém ou não gostamos. mais ruído.

tem uma coesão muito forte. 4) A gerontocracia — O controle administrativo dos povos pré-lógicos é sempre fundada nos mais velhos. po­ dem ser maiores com quem viveu menos tempo. por terem vivido mais. tidos e havidos como inimigos.120 MÁRIO FERREIRA DOS SANTOS FILOSOFIA E HISTORIA DA CULTURA 121 3) Predominância. por isso são as famílias mais solida­ mente constituídas no campo do que propriamente nas ci­ dades. a autoridade é atri- buída. Hoje. têm uma autoridade imanente. queiram implantar inovações. travadas pelas populações primitivas. ao retornarem. o ini­ migo são muitas vezes associados num único sentido. enquanto na cidade. Já nas formas citadinas. a aversão aos es­ tranhos. No Brasil. Os anciãos. Estes. Não é raro a expulsão da colectividade daqueles que procuram apresentar inovações. onde a coesão é menor. máximas. vemos duas espécies de autoridade: uma fun­ cional. que é mantida sob uma base de grande res­ peito. têm mais experiência. bem como servirem de guia. As colectividades primitivas são muito coeren­ tes. nas Américas. Outra característica dos povos pré-lógicos é a relação entre jovens e adultos. Por isso também se observa entre os povos pré-lógicos certa oposição às viagens. Nas sociedades primitivas é o homem adulto respeita­ do. mas apren­ deu mais. que lhes é própria. do parentesco como base de formosção social — É o parentesco o meio de tecer laços profun­ dos entre os homens. porque tomam dos factos isolados os aspectos que se repe­ tem. po­ demos facilmente ver que o estranho. o que mais experimentou. A palavra tem um sentido claro e indica a capacidade de alguém como autor em qualquer especialidade ou disciplina. através das sociedades se­ cretas. aplicarem o saber empírico adquirido e conservado através de suas sábias máximas. que podem quebrar a tensão conservadora dos povos. para. pelo receio de que os que as empreen­ dam. em latim. É comum vermos homens adul­ tos subordinados ainda a seus pais. prefe­ rentemente nos anciães. fundada nas longas experiências dos antepas­ sados. ao conhecimento de outras formas de vida. a ancianidade não é mais uma garantia da expe­ riência e de saber. funcional. 5) Aversão aos estranhos — É uma das característi­ cas das sociedades primitivas. a que a pessoa tem por sua própria competência. lutas constantes. observando-se exem­ plos de aversão aos elementos estranhos. e convenientes para guiarem os novos em seu desen­ volvimento. e até poderíamos dizer que uma das características da nossa época é a des­ valorização da ancianidade. Convém aqui esclarecer bem o sentido de autoridade. portanto. e a atribuída. há uma valorização exagerada da juventude.^ e as inovações são aceitas com prazer e até com certa ânsia. e a veneração se destina mais para o ancião. É muito natural que ainda em certas fases pré-lógicas das so­ ciedades de nossos dias e certa revivescência nas actuais. por seu mérito. a tensão naturalmente é menor. Este tema voltará a ser tratado com outros porme­ nores quando penetremos nos volumes de análise social. mais. Por outro lado. que que­ brem a tensão ou S modifiquem. o estrangeiro. em latim cidade). em que o pré-lógico ainda permanece. Se considerarmos o longo passado de rivalidades e de lutas entre os povos nas diversas fases de sua vida. o mais velho). após os 16 anos. ditados. por exemplo. 6) O combate às inovações — Essa característica muito comum e constante nos povos pré-lógicos condiciona a anterior. a própria prática. como a política. a cada um quando necessite saber o que deve fazer em certas circunstâncias. sabem. São de uma objectividade concreta. e a eles deve caber o papel administrativo. como elementos que tra­ zem novidades. porque o estudo. Já nas civilizações (civitas. sobretudo. há também uma grande base de respeito entre os sexos. Nos regimes de representação. pas­ sam por processos de iniciações. . Os jovens. o que mais conhece. formam uma tensão rígi­ da. para ascenderem hierarquicamente. Não têm esses povos o abstractismo dos homens das cidades. Quanto à educação dos filhos nos campos é mais demorada do que na cidade. No entanto. pré-lógicas. por exemplo. como cristalização da experiência e do conhecimento e do saber empírico dos povos pré-lógicos. 7) Pensamento social — Caracteriza-se o pensamento social pelo fundamento nos provérbios. Nós temos uma revivescência dessa forma nos senados dos diversos povos {sénior. sobre eles. Revelam uma sabe­ doria popular. o jovem já procura dirigir-se por si mesmo. como inovadores. o que cria impedimentos às inovações. 40 por cento da po­ pulação é composta de jovens de 14 a 22 anos. por associação. a de que uma pessoa é investida. na gerontocra­ cia. porque este representa o que mais viveu.

bairristas. das ale­ grias e dos dissabores.122 MÁRIO FERREIRA DOS SANTOS FILOSOFIA E HISTORIA DA CULTURA 123 8) 0 Etnocentrismo — Outras das características desses povos é o etnocentrismo. que o eleva acima dos outros. como sejam os de mem­ bros de uma colectividade pré-alfabeta. tão facilmente assinaláveis. só surgem acentuadamente nas cidades. 12) Outra característica dos povos pré-lógicos é o de­ senvolvimento embrionário do direito. como o sente o homem da ci­ dade. encontra-se mais facilmente uma certa igualdade. vazia de sentimento. Vemos isso em diversos povos que se con­ sideram superiores aos outros. os esquimós. que aproveita a sua superioridade física para impor-se sobre a mulher. como os adoravam e respeitavam os povos pré-lógicos. que é regulado pelos costumes e normas tradicionais. 11) O mito — Os povos pré-lógicos têm uma inter­ pretação mítica de seu desenvolvimento histórico e perdem. O chefe não é apenas um homem. e por isso errando muito mais do que elas. Está ligada à magia. naturalmente. observa-se certo desprezo pela mulher. entre nós. Temos uma revivescência do carismático no liderismo ideo­ lógico e político. São raros os exemplos em contrário. em sua fase mais avançada. quando o homem vive nas concentrações citadinas. que a inferiorizam fisicamente ante o ho­ mem. quando em confronto com este. como vemos nas civiliza­ ções já plenamente desenvolvidas. não duvida das verdades aceitas pela colectividade. nos fiihrer. Atribuem o seu passado a fórmulas míticas. da raça. Esses as­ pectos serão oportunamente melhor estudados em outras passagens. racistas e nas regionais. Só nas fases já civiliza­ das. Nos povos agricultores. Por isso não pode ter êle uma noção nítida da História. 14) Ausência de cepticismo — O cepticismo. 10) Liderismo carismático — Nas sociedades pré-lógicas observa-se a apreciação nos chefes de um certo poder sobrenatural (Khárisma. etc. co­ mo os judeus. esta supera-o intuitivamente. em sua profundidade. as condições bioló­ gicas da mulher. tratando-a com distinção. devido aos excessos abstractistas que realizam mais facilmente. etc. o direito se torna estrito e rígido. 15) Concepção do tempo e do espaço — O tempo e o espaço. nos dud. Todos os povos pré-lógicos consideram-se superiores aos outros e ainda hoje. reduzindo a história de sua formação e de seus antepassados a mitos. 9) A discriminação dos sexos — Há entre os sexos grande separação. e ainda não se tornou apenas culto. que tende sempre a considerar os chefes como portadores de um influxo superior. que tem origens meramente afectivas e simbólicas. A História está ligada ao alfabeto. Uma variante desse etnocen­ trismo temos nas manifestações nacionalistas. mas um homem que recebeu o dom. porque os vêem como são. em que se lhes atribui um poder carismático. intuitivamente. não queren­ do tal dizer que sem êle não teríamos documentos rigorosos . o influxo da divindade. ou que é considerado como portador de poderes sôbre-humanos. nos povos pré-lógicos. apreciando apenas os aspectos gerais. e que em alguns casos surgem entre povos ainda pré-lógicos. enquanto os homens os ge­ neralizam. 13) A religião — A religião. Se c homem. quanto à capacidade lógica. Mas até nessas circunstâncias. a adorá-los e a res­ peitá-los. porém. Vemos tais exemplos nos caudilhos. é profundamente mítica e afectiva. Êle crê. nos guias imortais do proletariado. as vantagens da mulher são relativas. Nos povos criadores e pastores. essas revivescências se observam entre povos "eleitos". etc. e não espe­ cula filosoficamente sobre os seus principais temas. que ponham em dú­ vida as revelações de sua religião. que a His­ tória regista. Exemplos do carisma também temos no poder que se atribui a alguns reis de poderem realizar curas. que lhes per­ mite realizar façanhas assombrosas. supera a mulher. O homem pré-lógico repele o cepticismo. ou santificados por seus actos. Eis por que as mulheres vêem melhor que as homens os factos da vida prática. a fim de compensar sua na­ tural fraqueza. como o que vemos nos reis da Inglaterra. a dú­ vida metódica e a não confiança numa certeza definitiva. o excesso de valorização do cthnos. a kháris. em grego). e dos santos. respeitando-se. os quais se consideram superiores a todos os outros. em que a mulher trabalha ao lado do homem. com êle partilha das dificuldades. não é o mesmo para o homem pré-lógico. todo sentido realista do homem citadino. e eleva a mu­ lher. a qual em geral está em situação secundária entre os povos pré-alfabetos e pré-lógi­ cos. Só nas épocas de exaltação e de delicadeza de sentimentos é que o homem supera essa inferioridade biológica.

a valorização exagerada da criação ilógica e a luta renitente contra a segurança ló­ gica. como vemos nos gregos de Winckelmann e em toda essa literatura (numerosa literatura). em torno dos homens das diversas culturas e dos ciclos cultu­ rais. e que acorda em dados momen­ tos exigente de seus desejos e de suas imposições. ansioso de regressos. porque somos primitivos em muitos momen­ tos. mas cientistas e até filósofos de certa envergadu­ ra. em que Spengler é um símbolo. e que ainda actuam em nos­ sos dias. não se deve cair no exagero de pensar que os primtivos sejam totalmente infensos à Lógica. uma orgia de ideias. Essa maneira de considerar a Lógica revela o desconhecimento de sua ori- É inegável a presença. realizar essa análise. Na rea­ lidade. e em que as formas pictográficas não são suficientemente rigorosas para alcançar o fim desejado. abrindo diástemas exagerados. para deixar à solta a sua fantasia. chama­ dos pré-lógicos por aqueles sociólogos americanos. É quando procura relatá-la de maneira mais rigorosa. E se não procedemos em acto. desejoso de romper todo encadeamento lógico. nada mais faríamos que construir páginas* inúteis. dos esquematismos dos homens primitivos. ra intelectual. e todos nós. a criação desses diástemas exagerados. nem tampouco que os modernos civilizados estejam plenamente assenho­ reados dela. Ademais. sobretudo limitadas pelas instituições jurídicas e pelo poder estabelecido. Uma simples análise que o leitor faça dos aspectos sa­ lientados como peculiares ao homem das culturas primitivas. da qual a huma­ nidade seria um género. que levaram. Se alinhássemos aqui exemplos. assim. pois facilmente actualizaríamos actos primários e bru­ tais se não fossem as nossas inibições. de que a Lógica nada tem que ver com a vida. não só literatos. logo lhe permitirá notar a presença dos mesmos nos povos chamados civilizados. como se Pitágoras. uma bebedeira literária. sátrapas e di­ tadores da antiguidade. Há ainda pré-lógicos entre nós. Deste modo se descreve o homem medieval e o antigo. bem como pela esque­ mática adquirida por ideias religiosas e ideológicas. absolutamente distintas do homem moderno. de julgar que o homem primitivo e o homem antigo eram outras "espécies" humanas. há um erro muito comum. Basta que atentemos para os ímpetos irracionalistas que acordam subitamente no homem moderno. Tais exageros provocaram muitos dos excessos românticos do século passado. e imposta aos homens para presidir aprioriticamente à sua existência e às suas pesquisas. e que os demagogos de hoje fossem de outra espécie que os demago­ gos que infelicitaram a vida dos povos antigos. Na verdade. que actuam para modificar as nossas reacções e as nossas prá­ ticas. em quase três quartas partes de nossa vida. e dominante até nos círculos mais cultos. como se tivesse sido ela criada num acto arbitrário. encontrando. mas porque só surge a necessidade do alfabeto quando o homem sente a necessidade de con­ servar a memória do passado. que constroem uma visão totalmente abissal entre os homens. para que desde logo notemos que o primitivo não de­ sapareceu de dentro de nós. e os opres­ sores de hoje tivessem outros sentimentos e outro respeito à dignidade humana distintos que os tiranos.124 MÁRIO FERREIRA DOS SANTOS FILOSOFIA E HISTÓRIA DA CULTURA 125 dos factos desenrolados. pro­ cedemos como procedia o homem das culturas primitivas. naturalmente com modificações intensistas e extensistas. no homem civilizado das altas culturas. foi uma grande far- . e construindo uma estima excessiva das diferenças entre os diversos tipos de homem. Sócrates. para a fantasia embriagar-se e para a quimera endoidecida instalar-se no trono da Scientia. ou como se não houvesse hoje entre nós multidões iguais às multidões romanas. em muitos momentos. ou grupos uivantes que fossem diametralmente opostos aos grupos uivantes dos gregos exacerbados pela demagogia desenfreada. um campo imenso para a imaginação desenvolver-se. a ponto quase de construir a ideia de espécies humanas. procedemos em pensamentos e em palavras. como algo tão estranho ao homem de hoje. como se as paixões e os sentimentos dos homens da antiguidade fossem totalmente outros que os do homem moderno. Absolutamente não. por si mesma. Platão e Aristóteles não tivessem a consciência aguda das vigilâncias que a tem o homem ge­ nuinamente cristão. a julgarem que as distinções entre os homens eram mais profundas e mais vastas do que realmente são. quando qualquer pessoa é sufi­ cientemente capaz de. como se pertencessem quase a outras espécies.

pode servir-nos de ponto de partida para o exame por ora elementar do fenómeno religioso. surge. mas descober­ tas. o agricultor vive com a família. Todas estas fases têm graus. porém quando a população é transeunte. obstaculizada pela ignorância vencível e invencível. seria impossível compreendê-la sem examinarmos o terror cósmico. O animal sofre o terror do que o cerca. mas do que se lhe aponta além. na Rússia. O homem não se prende apenas ao nascimento e à morte. Sobre estes dois pólos. liberta dos excessos românticos que ainda actuam sobre os estudiosos actuais. e distingue um mundo do outro. O nascimento e a morte são finitos. Esta divisão é feita geograficamente. extraindo os exageros românticos. fun­ da-se toda a religiosidade. O acto humano só. 3) cidade. expressão moderna. Contudo. em 3 fases: 1) dispersão. temos uma cidade. não se jul­ gue que ela nasceu de uma disposição apriorística. sente que há algo que o precede e o sucede. esta explicação não é suficien­ te. com suas raízes profundamente encravadas na sensibilidade. pelo temperamento. e reveladas pelo nexo das próprias ideias. surge nele a consciência da morte. passa por diversas fases. como se estructura numa individualidade. Há religiosidade porque êle procura penetrar fora destes li­ mites. Suas leis não foram criadas arbitrariamente. poderemos dividir a sociedade. como o demonstramos em "Métodos Lógicos e Dialécticos" (3 volumes. quando o saber é livre e quando a liberdade é sapiente. Terror cósmico Nascimento * ■ -• — ■" X * terror do espaço morte infinito » ♦ finito ■■♦ infinito Ante o finito sente o homem a possibilidade de colocar um infinito antes e um depois. para exemplificar. surge nele uma forma nova do terror ao espaço. a mais hedionda forma de opressão contra a liberdade humana.a edição. enquanto o animal vigia. êle permanece entre estes dois pólos — o nascimento e a morte. em relação ao espaço. na parte afectiva do homem. certo terror cósmico. pelas paixões. Recordando. em virtude do meio ambiente que o estimula. mas ao reconhecer o limite. Quando a população não é transeunte. O primeiro é irracional. enquanto a segunda esplende no pensamento livre. A se­ gunda é a da aldeia. como foi a primeira fase grega. na formação da sociedade humana. 2. à propor­ ção que examinemos todos os elementos fundamentais e im­ prescindíveis para a construcção de uma visão concreta da História. para sentir­ mos melhor a religiosidade. A Religião funda-se mais no Pathos. e como a mente hu­ mana não permanece no exame apenas desses limites. esplende quando a cognição se alia à liberdade. graus qualitativos e não ape­ nas quantitativamente. ao formar sua realidade. na realização do acto humano. desveladas. às vezes com grande população. na verdade é uma aldeia. * * * Há em nós uma constante oposição entre o Pathos (a afectividade) e o Logos (a intelectualidade). a religiosidade. 1962). Como não morre o que não tem nascimento. A cidade. porque têm limites. 2) concentra­ ção (aldeia) . Nela. Naturalmente. O ho- mem. na qual. precisa ter seus sentidos dispostos ante o mun­ do. A primeira é também chamada fase atomística. Certas obras artísticas procuram dar uma vivência do infinito através dp finito. o pro­ cesso de sedimentação. reconhece que não é eterno. na esquemática psico-somática do ser huma­ no. A Ló­ gica é o producto de uma observação continuada e rigorosa da vida intelectual e do exame do nexo e conexões das ideias. Se podemos actuar a priori com a Lógica. então. que são: . Este será tema de futuras aná­ lises e de magna importância para a nítida compreensão de tudo quanto o homem realizou em sua marcha ascensio­ nal ao domínio de si mesmo e à liberdade. pelas emoções. pelos esquematismos preconceituais e pela opressão do kratos político. O homem.126 MÁRIO FERREIRA DOS SANTOS FILOSOFIA E HISTORIA DA CULTURA 127 gem. como se via na cidade de Gorski. Este tema está presente em todas as religiões. Sobre tais temas volveremos oportunamente. O vegetal permanece em perene dormir. depois de atingir um grau qualitativamente alto.

que todo o ci­ clo cultural institui-se. como São Paulo. A religiosidade caracteriza-se nas duas primeiras pelo culto. a que domina no campo das opiniões. através de um culto meramente exterior. e é mis­ ter um constante apelo ao irracional para arrancar do cep­ ticismo morno os que não crêem mais. fase prima­ veril. e é como uma criança cansada de todos os brin­ quedos. a cidade cria o estilo. dos quadros de Watteau. há uma melan­ colia do fim. Não se podem negar as grandes contribuições de Spengler e dos modernos dedicados ao estudo das culturas. cedendo. temos Rio de Janei­ ro. cair na descrença de toda a cosmovisão do seu ciclo cultural. que na cidade se torna decorativa. 3) Tircmópolis — a que dirige autoritariamente. e enquanto a sociedade vai en­ trando no seu inverno é que surge a arte das porcelanas. mas onde um novo pathos surge e busca expressar-se. a arte se desassocia. Tudo o mais é província. Este é um tema que merecerá de nós mais ampla aná­ lise em passagens futuras. a coluna dórica era de madeira. é lógica. na Rússia. nas salas de palestra da cultura egíp­ cia. na cidade. começa a duvi­ dar. ela dá a marca do espí­ rito intelectualmente consciente. o homem crê. ainda o homem a reverencia em seu culto. Há. cujo término é a necrópolis. os templos recebem uma arte ornamental. São Paulo. in­ clusas no âmbito da primeira. Na aldeia. na cidade. Londres. e nessa fase há ímpetos de retorno. todas. co­ mo Berlim no nazismo. não há mais a profunda meditação so­ bre a morte. New York. Com a cosmópolis começa o crepúsculo. Veremos. que en­ cerra inúmeras possibilidades. A cultura se artificializa. Moscou. Na metrópole. O estilo é substituído pela moda. que quer dizer a que está previa­ mente vencida (pro-vincere). uma fase ascendente. que quebram as proporções do paralelo. É o que notamos nas catacumbas romanas. na metrópole. O mórbido avassala. e inicia-se. que se atualizarão ou não. como Babiló­ nia. Chegaremos lá quando fôr o So­ cialismo tema de nossa análise. de renascimen­ tos de formas do passado. Realmente estas apresentam uma fase juvenil. mas também diferenças. como Cartago. il grande finale. A religião é pathica e o culto é prático. Paris. e não há mais a possibilidade de unir os homens através de ideias racionais. o lugar a outras. por sua vez. a arte da quinta dinastia egípcia. um requinte. Na aldeia. como o Cristianismo ao surgir na decadência do Império Romano. com a decoração de relevos. é o Socialismo em nossa cultura o correspon- dente ao Cristianismo no Império Romano. então. que perdeu o sentido do ma­ ravilhoso. não. Para muitos. A religiosidade na aldeia é prática. etc. cujos símbolos são as obras de Miguel Ângelo. a confusão de ideias penetra por todos os ângulos. 4) Necrópolis — quando já está morta. os delirantes invadem to­ dos os sectores. Nas aldeias. na cidade ela se torna pedra. É no grande final das Tiranópolis que as populações. nostálgica do nada. depois. a transitividade é universal. o homem da cidade pratica-a. abrem-se esperançosas a uma nova crença. como a do gó­ tico. a decadência de uma cultura. já cansadas de todas as promes­ sas. O homem de aldeia vive a religião. contudo. da música de Mozart. sem dúvida. Na aldeia. construindo uma cosmovisão. atinge o cepticismo. finalmente. então. A cidade não cria ingenuamente com o pathos puro do homem do campo. é mister traumati­ zar a sensibilidades a mente para conseguir interessar um espectador quase indiferente. para. onde há carência de equilíbrio.128 MÁRIO FERREIRA DOS SANTOS FILOSOFIA E HISTORIA DA CULTURA 129 1) Metrópole — a cidade-cabeça de uma região é a capital que dirige. para quem todas as surpresas não têm mais sentido. tudo entra em mutação. nada permanece. 2) Cosmópolis — quando sua população é composta de elementos de várias partes do mundo. Assim. Realmente há analogias imensas. um outono que surge nas grandes cidades. . Segue-se.

pois se fosse um puro nada seria nada de acontecer. está contido no prometeico de alguma coisa. Tudo quanto acontece é um possível de ser e. a uma forma esquemática. o não aniquilamento da Invencible Armada. O ser histórico apresenta as seguintes características: 1) em todo facto que acontece. (O prometeico é o que se refere ao possível vir-a-ser das coisas. 5) O ser histórico implica uma problemática comple­ xa em relação à sua existencialidade. como tal. que não é um mero nada e é objecto da disci­ plina que lhe é correspondente: a História in latu sensu. Uma possibilidade não existe. Os possíveis históricos actualizáveis e suas con­ sequências podem ser tema de ficção. que nossa mente pode construir. O ser que existe é o ser no pleno exercício de si mesmo. 3) É o ser histórico algo que é real. O que caracteriza o ser históri- . 2) O acontecer é real.ANÁLISE ONTOLÓGICA DO HISTÓRICO Podemos agora estabelecer a fundamentação ontológica do histórico. e t c ) . mas uma possibilidade pode ser histórica. tem uma enti­ dade e não puro nada. 4) O ser histórico de um facto permite a sua reducção a um eidos. há a presença do pas­ sado. bem como a análise correspondente. já que nenhum acontecimento vem do nada absoluto. a sobrevivência por muitos mais anos de Alexandre. que acontece ou aconteceu. com base em reais possibilidades (assim a possível victória epimeteicamente actualizável de Napoleão em Waterloo. ou de mui­ tas. e epimeteico ao que já foi). en­ quanto tem ela um fundamento em algo que realmente aconteceu. ou seja é res.

um aspecto figurativo. que participem da mesma eideticidade. como vimos. que influem na História. que é o da Matemática. Neste caso. que tem uma unidade. A História é uma disciplina ética. 14) Seignobos afirma que o facto histórico é um facto posicionai. 11) Aceita a distinção entre o facto histórico e o fac­ to ético. que examina­ remos oportunamente. O eidos pode ser al­ cançado pelo processo abstractivo. até o terceiro grau. este é repetível em outros que dele participem. mas que já foi presente e que. tudo quanto é. ou não? Se o facto histórico é apenas o facto humano. pode-se construir uma Metafísica da História. ou seja. portanto. 9) O facto histórico. mas em ser presente. tem um eidos. o ser histórico é ser accidental e extrínseco. e em que ela consiste. é algo que conhecemos como passado. debeo). Já mostramos a historicidade de tudo quanto acontece. não haveria História. o ser passado não é da consistência do ser histórico. Mas o facto ético é aquele que revela um dever-ser (sollen). E como toda existência é singular. 17) O facto histórico é um facto existencial. não há fac­ tos históricos. En­ quanto descripto é o que chamamos historial. um eidos. Se há factos históricos não frustráveis. em sua materialidade. Daí poder-se falar numa Morfologia da História. mas o ser possível de outros aspectos que passaremos em breve a exa­ minar. tem uma "estructu­ r a " existencial. 16) Para Seignobos. como tal. Então. para tal autor. Outros aspec­ tos virão oportunamente. vê-se desde logo que o em que con­ siste o facto histórico era algo que não era passado. . sempre um acto ético? Eis outros problemas. não sendo intrinsecamente histórico. à Meteorologia. logo no tempo.332 MÁRIO FERREIRA DOS SANTOS FILOSOFIA E HISTORIA DA CULTURA 133 co não é. Ora. equivalente à novela real. são irrepetíveis (como sin­ gularidades). quando tenhamos pre­ cisado melhor a Ontologia do ser histórico. pode-se falar de uma Onticidaãe dos factos históricos. à Geografia. a sua existencialidade efectiva. Por­ tanto. mas apenas extrinsecamente. 8) Consequentemente. pois são reductíveis eidèticamente. 10) Tem o facto histórico uma certa morfologia. e revelam a presença de uma lei de proporcionalidade intrínseca. segundo o modo de ser considerado ou de ser conhecido. teremos de admitir que há alguma positividade no historicismo. Mas há fac­ tos que pertencem à Física. e não um metafisicismo da História. como facto. 7) O facto histórico ao ser comparado com o facto ético permite uma distinção. e a novela fictícia uma res ficta. a História seria apenas um modo de conhecimento. já examinado na Filo­ sofia. não consistia em ser passado. é possível cons­ truir uma Fenomenologia da História. uma repetibilidade por parte de outros factos históricos. Sem o tempo. Foi a erupção do Vesúvio um facto histórico em relação a Pompeia e Herculanum. é êíe. 6) Os factos históricos têm uma estructura ontológi­ ca. Consequentemente. mas apenas do seu fluir. como decorrência da problemá­ tica acima. Retornaremos então à problemática da existencia­ lidade do ser histórico. uma forma extrínseca. ou podemos dis­ tinguir factos históricos frustráveis de os não frustráveis. que se opõe à novela fictícia. 18) Constitui o ser histórico "o que deixou de exis­ tir". sem dúvida. é mister apontar a especificidade distinta daquele em relação a este. portanto. mas o que deixou de existir é algo que já foi exis­ tente. pois. 13) Se o facto histórico tem um eidos. Neste caso. é o facto que se actualiza segundo a imperiosidade de um ter-de-ser de habeo. uma forma. dos quais trataremos mais adiante. o que permite construir uma Ontologia da História. que intrinsecamente não é histórico. Se os factos his­ tóricos. tal afirma a singularidade do facto histórico. Não há o histórico quoad se (quanto a si mesmo) e só apenas quoad nos (quanto a nós) ? 15) O histórico dá-se na sucessão. como tam­ bém há frustrabilidade nos factos históricos. é o facto histórico frustrável. Por­ tanto. seria apenas quoad nos (nós é que lhe em­ prestamos a historicidade). É o facto ético frustrável por natureza. O facto histórico é algo que flui. sem que tal afir­ mação negue uma eideticidade e. e têm necessariamente um eidos. conse­ quentemente. mas apenas um conhecimento histórico dos factos. 12) O facto histórico permite uma descripção. O facto his­ tórico é uma res facta.

que insiste. 29) Assim. 20) O ser histórico é afirmação de uma entidade. e pe­ netra no presente (vinculação histórica). porque se afirma que é êle presente e também que é algo passado. 21) Se o ser histórico não fosse objectivo não teria valor nenhum o seu conhecimento.134 MÁRIO FERREIRA DOS SANTOS FILOSOFIA E HISTÓRIA DA CULTURA 135 não é. aos exames que ainda se im­ põem. dos quais pende realmente (suas causas) e o que já foi não é um mero nada. tudo quanto tem a capacidade de poder ser no pleno exercício de seu ser. Mas a contradição é aparen­ te. mas algo entrosado com outros (coexistência histórica). O histórico do históri­ co é a historicidade daquele. há ainda o histórico. ser é aptidão para existir. como substantivo e como adjectivo na linguagem gramatical. mas também o ser potencial. o que nele esta para ser. e o facto histórico é alguma coisa real. que têm certa persistência ontoló­ gica no presente. senti-lo como algo histórico. Se se diz que o que já aconteceu nada mais é. antes de esboçarmos a teoria ontológica do ser his­ tórico. porque o passado é o sido de algo. já que é tema de grande sugestão. algo que não tem mais uma existência actual. como o sentiu Lindner. o que contradiz a tese de Seignobos. 32) Está deste modo esboçada a problemática do ser histórico. ao deixar de ser o que é sendo. o facto histórico tem duas actuali­ dades: a que constitui o seu presente e a sua permanência no futuro. O histórico tem. Pode ademais alguém que assiste a um facto. e aniquilar-se-ia. pois. um ser de existência virtual.m et etiam ipsarum formarum (a actualidade de todas as coisas e inclusive das próprias formas). a sua excepcionalidade. porque quando se diz passado. enquanto o histórico é o presente do que já é passado. embora sendo outro que o que já foi. tornar-se-ia nada. O passado históri­ co é uma certa presencialidade do que já foi. 19) Seignobos afirma que há contradição na expres­ são ser histórico. . ou seja. dir-se-ia que o que é sendo. pois ser mera fluência seria não ser nada. mas é esse epimeteico quando ainda presente de certo modo. 23) Consequentemente. não se deve confundir o his­ tórico com o passado. diz-se passado. 28) Deste modo. 25) O facto histórico não é algo que se dá solto. 27) A persistência do facto histórico no presente re­ vela que não é êle totalmente passado. é algo que é outro que outro (aliud ad aliud). 26) Pouco se dedicaram os filósofos ao estudo onto­ lógico do facto histórico. ou do que o constitui. No histórico. que persiste. sobre a qual falaremos mais adiante. uma objectividade contra a po­ sição de Seignobos. afirma a sua exclusividade. mas algo que se dá no fluir das coisas. ou seja. sem uma existência entitativa. Pelo his­ tórico o passado pervive no presente. Mas o ter-sido de algo. diz-se presente. O acto é o "ser-já". No facto histórico. Mas passado e presente não são entidades em si mesmas. a História estuda os factos passados que pervivem no presente. mera fluência. que é sen­ do. assim. e potência" o que ainda não é e pode vir-a-ser" e isso é dis­ tinto do "ser que já foi. Passemos. o facto histórico não é apenas o epimeteico de algo. e quando se diz presente. a) Os medievalistas entendiam por ser a actualitas vmnium rerv. no instante do pleno exercício de si mesmo. mas uma existência virtuaj que permanece. mas algo que já foi sendo do que é agora-sendo. porém. dentro da sua espe­ cificidade ou como elemento de um outro ser com outra in­ formação. 24) O histórico. 22) O ser não é apenas o ser actual. Deste modo. Para •Suarez. portanto. 30) Por isso não se pode reduzir o histórico ao mero acto e potência. além de sua singularidade. mas ainda é" ou do "não-ser-já que de certo modo é ainda". o que é de lamentar. é uma contínua ligação do que é com seus anteceden­ tes. há a historicidade. porque o ultrapassa. 31) O ser histórico é. é mister distinguir o que é substancial­ mente histórico do que é especificamente histórico.

Como decorrência. que contém. como todo. ou seja. movimentos. pois. fases. f) O histórico está. e o que é-já teria vindo do nada. no histórico. como a matéria não é causa eficiente. como alguns historiadores o fazem. como. Assim. i) Os factos históricos são inconfundíveis. n) O histórico permanece na sucessão.. A historicidade interliga assim os factos que se dão sucessivamente. nas rea­ lidades étnicas. há a per­ manência virtual do que já foi. nenhum é accidente de outro que fosse sua substância. mas algo que está prenhe do que já foi. com formas que permitem classificá-las. como o químico). por­ que. e também a causa final. c) O presente não é. que revelam a pervivência. etc. pois. especificamente distintos. embora com sua historicidade própria. porque nenhum facto é sujeito de outro. que já exa­ minamos. Essa pervivência encontramo-la na Técnica. do que já foi e que ainda é. logo há um suporte. e lhe é necessário. que se dão fora daquele. O histórico é um testemunho da perdurabilidade do ser. temos a irreiterabilidade. e não são determinados por este. como todo. e) No mixton (no misto. é parte de outro todo. Esses factos só podem ser matéria PX qua. matéria in qua = substância composta (matéria pri­ ma e forma). não aniquilado como tal). factores que não são propriamen­ te históricos. que têm suficien­ te fundamentação: . pervive o passado. h) A História é um fluir sem ser um simples fluir. o facto histórico não é causa eficiente da História. im­ plica. Decorre daí uma série de postulados. k) Não é o facto histórico tudo na História. O facto his­ tórico é a substância primeira (matéria) da História. na água. no Direito. no mixton há uma interactuação (modificações mú­ tuas dos elementos componentes. Mas a matéria pode ser considerada de dois modos: matéria ex qua = matéria prima. Ora. pois apresenta períodos. há a parte actual e a parte histórica: o histórico está prenhe de historicidade. no presente. a presença da existência virtual do passado conservado no presente. ciclos. algo que apenas sobrevêm. pois sem êle o presente não-pode-ser. não permanecem em toda a sua intensidade específica. mas que ainda é de certo modo e não totalmente o que já foi. portanto. o que a nossa Filosofia Concreta já demonstrou que é ab­ surdo absoluto. Esta ê um todo e. Este passado condiciona o presente. há uma continuidade histórica. assim. sobretudo da humana. d) O passado é algo que deixou de ser presente. estágios. haveria um hiato. O facto histórico não é matéria in qua. É um complexo de actualidade e virtualidade existencial (historicidade) no acontecer do que é. j) Onde há uma continuidade. o histórico é formalmente virtualidade do passado que tem uma nova actualidade tensional. É. na Religião etc. é a matéria pressupositiva do histórico.136 MÁRIO FERREIRA DOS SANTOS FILOSOFIA E HISTORIA DA CULTURA 137 b) É inegável que. embora apresentem correspondências e analogias. é distinta tensionalmente das formas que o compõem (aliud aã aliud). o que revela a sua funcionalidade. A matéria é matéria de. formal e virtualmente no presente. um abismo separando o que foi do que é-já. no facto histórico. 1) Há. se há nelas uma meta. há um suporte. supõe e é constituído do que de certo modo já-foi. pois. e. O histórico revela. deve evitar-se a hvpostasiação do facto histórico. Como decorrência. m) É inegável a unicidade do histórico. ou seja partici­ pações. uma síntese do passado pervivendo no presente e construindo o futuro. g) O facto histórico é um todo tensional. como se fosse uma entidade subsistente in se. que permanecem virtualizados. pois constituem elementos do composto histórico e de­ terminam de certo modo o presente. nas realizações humanas. do contrário. Cabe ao verdadeiro historia­ dor procurar a causa eficiente da História. o hidrogé­ nio está virtualizado enquanto tal. A parte é a matéria do todo. Há algo que permanece. Consequentemente. Como já vimos. na esquemática ge­ ral.

O histórico é mais rico que o facto cronológi­ co tomado abstractamente. são irrever­ síveis. contudo não é. Não são entes em movimento. porque o presen­ te já preexistia de certo modo nele. O futuro não se identifica com o não-ser-ainda. Não há contradição na expressão "ser futuro". a ideia do futuro é negativa. sem que tal implique uma plenitude absoluta. por que o presente sucede ao passado. do contrário permanece sendo o que apenas pode ser. É o que ainda não é presente. enquanto. pois o presente está prenhe de pas­ sado e de futuro. O passado é o futuro do presente. há uma limitação da irreversibilidade histórica. nos históricos. Só é futuro. Não há diácrises propriamente entre o passado-futuro-presente. a não ser que se aniquilasse a temporalidade. salvo se se alude ao seu ser ulterior. pergunta-se: há.138 MÁRIO FERREIRA DOS SANTOS B^ILOSOPIA E HISTÓRIA DA CULTURA 139 I) Não é o fluir histórico um verdadeiro fieri (devir). a ordena­ ção é extrínseca. Mas o futuro tem de deixar de ser futuro. Contudo. a estructura ontológi­ ca do histórico seria a regressividade. A ne­ cessidade existencial do futuro não impede a contingência. O futuro indica que há contingentes que serão actualizados. Parece outro paradoxo. Salientava Tomás de Aqui­ no que o histórico não se dá de um termo. mas de um termo que se abandona para al­ cançar outro (aliud). O presente é o passado do futuro. uma determi- . pois do contrário não seria passado. deixa de ser futuro. Há mudança dos factos e não nos factos. VI) A Sociologia não atenta para os valores históricos. Contudo. Parece um paradoxo o que afirmamos. porque os factos não mudam. pois quando o fu­ turo é-já deixa de ser futuro. e não o é porque é mais rico que os outros* já que contém todas as possibilidades. É já um ainda não ser presente. do contrário não será futuro. o futuro não é o presente do passado. há a copresença mútua das partes componentes. Nesse caso. A liberdade é a capacidade de dispor do futuro. por­ que há nele um não-ser. as que se actualizarão e as que não se actualizarão. sem deixar de ser. que são existenciais na temporalidade. onde se presencializam. uma presença ontológica do passado do qual decorra a pro­ babilidade de um determinado futuro ? Não há futuros ne­ cessários? Não há a disposição prévia de certos factores que determinarão um advento determinado. Nesse postulado. Impõe-se afastar da ideia do futuro a de por ou de porque. contudo não exige propriamente que seja este ou aquele. que é via ou meio. quando se presencializa. adquirin­ do onticidade. VIII) O passado não é puro passado. Não é um puro ente de ra­ zão nem um mero possível. a marcha histórica seria uma marcha do futu­ ro através do presente. V) O pretérito influi no presente. no presente. sem que se possa dizer que é não ser puro. exige uma causa eficiente. pois afirma. Também por isso se pode dizer que o presente é um futuro-sido. pois. eles apenas acontecem. O presente afirma a presencialização de um poder-ser e não de um puro-ser que se existencializou. que são distintos dos valores sociológicos. O passado e o futuro se identificam na ordenação do presente. O histórico não é apenas o passado. O presen­ te pode deixar de ser presente. E é o futuro do passado. porque tudo quanto é futuro é de certo modo contingente. A contingência não significa irrealizabilidade total. São como foram. porque há acrescentamento. para outro. apenas no sentido de que o passado de certo modo perdura no presente. VII) A distinção entre os factos cronológicos e os históricos é a seguinte: nos factos cronológicos. III) Os ciclos históricos estão justificados. há de haver um futuro que nunca deixará de ser futuro. o que pode dei­ xar de ser tal. a ordenação é intrínseca. II) Os factos históricos. mas apenas relativa. O carácter ontológico do futuro é o deixar de ser tal para ser já. porque só há o pre­ sente quando o futuro deixou de ser tal. pois o futuro é já futuro ou seja é já o que pode ainda ser. mas o passado que tinha de ser-sido que ainda-é. No entanto não é. Contudo. pois o futuro é o que tem de vir-a-ser. que fora futuro. O passado não pode deixar de ser passado. mas ape­ nas ausência de necessidade absoluta. IV) Na História. quando começa a ser. na actualidade entitativa do passado. Contingente é o ser que. E tanto é assim que o futuro. há algo regressivo sem dúvida. e também não há identidade entre não-ser e ser-passado. pois. do contrário. para ser. No entanto. assim como passado tinha de ser-sido. De certo modo. enquanto tais.

O determinismo rígido ne­ garia o futuro. no conceito des­ te. suas causas. Ademais. que é portador dela. Realmente. portanto. Se há uma causa eficiente superior e causas eficientes secundárias. tudo quanto acontece. intervir na frustração de um facto posterior. Logo. portanto. é finito. então. provinda de uma causa eficien­ te superior. porque. O futuro é apenas hipoteticamente necessário e não ab­ solutamente necessário. e ne­ garia. porque é aquele um ser contingente. que nada mais seria que o presente esten­ dido. que não teria em outros sua razão de ser. mas um ser absoluto. da sua liberdade. O determinismo rígido afirmaria o simplesmente necessário. é contingente e. nega um determinismo rígido à História Humana. Neste caso. sua presencialização não é absolutamente necessária. já que seu ser consiste em ser o que ainda não é. o futuro contingente admite uma probabilidade de frustração por uma causa eficiente superior. extra^naturaw. ou a necessidade absoluta do fu­ turo determinado. consequentemente. é intrinsecamente ca­ paz de futuro. Como não é desse modo. E a razão é simples: o futuro é pos­ sível e os possíveis implicam simultaneamente a contradi­ ção. Mas o que surge é um ser contingente e. IX) A liberdade implica a eleição entre possíveis e afirma que o ser. . Neste caso.140 MÁRIO FERREIRA DOS SANTOS nação análoga à mecânica? Realmente há. examinado reversivamente. deve dar-se o que dela depende realmente. o futuro já não seria futuro. por exi­ gir o contingente uma causa eficiente. poderia ela. está incluso o de poder ser. que poderia não ser. o que é absurdo. É assim hipoteticamente necessário. o possível. Mas tudo quanto é futuro. o determinismo rígido negaria o histórico. e a que decorre da vontade hu­ mana. Pa­ ra que o futuro fosse absolutamente necessário não poderia ser êle outra espécie de ser que o que é de per si (com perseidade). X) A frustrabilidade. cuja razão de ser estaria em si mesmo. e o que é finito é contingente. Essa possi­ bilidade é que fundamenta a concepção da providência di­ vina na História. O determinismo rígido negaria o possível de não ser. afirma a dependência real de antecedentes. dada esta. como conseqíiência apodítica. pois o possível de ser é também o possível de não-ser. Mas. subordinadas àquela. a aceitação de um determinismo rígido seria a negação da História.

Alguma distinção pos­ sível de ser feita não o fora e tomara-se como universal e essencial o que era apenas accidental. em favor apenas da ciência experimental. como se somente esta fosse o caminho. colocando. que só podem estribar-se na expe­ riência. em face dos exageros do racionalismo. que. cuja não validez é demons­ trada por aquela. Ao verificar-se pela experiência a negação de um postula­ do geral. . por sua vez. Contudo. Por sua vez. do idealismo. tão desejada por seus cultores. deste modç. que se apoia sobre factos (singulares. Realmente. mas apenas a conclusões prováveis.Um dos argumentos mais manejados para combater a análise lógica dos conceitos e dos juízos. uma terceira posição pode ser tomada aqui. ou melhor o único método capaz de alcançar resultados seguros. verifica-se a incidência constante de erros. toda a ciência dentro do campo do probabilismo. outros. o de validez ontológica. que a crítica lógica pode ofe­ recer. considerara-se co­ mo simplesmente necessário o que apenas era hipotetica­ mente necessário. portanto) negam-lhe a possibilidade de suas leis alcança­ rem a universalidade. perde seu grande valor de convicção e. fundando-se no carácter contingen­ te da experiência. pode-se notar. só esta é o critério seguro que pode dar a necessária validez final ao que é postulado. sobre­ tudo. e de muitas especulações meramente lógicas. anteriormente aceita. ou seja. e também a capa­ cidade de alcançar a verdade. é a acusação comum da falibilidade da mente huma­ na em tais especulações. com cuidado se se fizer a análise dialéctica e lógica do mesmo postulado. dadas as condições variantes em que se processa. a cujo crédito resta apenas o valor estatísti­ co. cuja contumácia forneceu argumentos aos adversários da Lógica e da Dia­ léctica. que a invali­ dade já estava inclusa no mesmo.

que são comuns aos que se dedicam ao estudo mais sério da Filosofia. o que lhe retiraria a absolutuidade que muitos de- . que servia de ridículo para Molière. os estudos daquele sobre a circulação do sangue e o fun­ cionamento do coração. Reduzir todo o universo a nós e às coisas meramente sensíveis. mas que seja ela realizável de modo a ser cap­ tada experimentalmente. no entanto afir­ mada por cientistas experimentais. cuja realidade captamos através dos sentidos. que significa o que sabe pela prova. Não que os escolás­ ticos de maior vulto combatessem a scientia experimentalis. são acresci­ das ainda a outras de grande importância. Mas por que se poderá afirmar que o inexperimentável é falso. outro que não a experiência. e também combatida. não é a experiência o único critério da ver­ dade. que são ob-jectos aos nossos sentidos. Para que uma coisa seja experimentável não é mister que ela se realize. Ademais. E como prová-lo senão por uma petitio principii? Pois. fora de nós. cuja prova não fora feita e que favorece a conclusão preci­ pitada. visível. ao que não se ob-jecta aos mesmos. virtualmente. Apenas lhe davam o âmbito de validez que a mesma tem. que seja experimentável. pois. é o mundo objectivo. porque. É o que se deu com o flogísUco. que sua experimentabilidade seja fundada rigorosamen­ te nos conhecimentos que já dispomos. não podemos negar realidade ao que ultrapassa o sensível. experiência é o saber provado do que nos fica fora. Neste caso. muito antes de Copérni­ co. do que se jecta ob a nós. um juízo intermédio. sob pena de erro. só admitem o que é tocável. do contrário. podemos. seria mister um termo médio. ape­ sar da oposição de alguns escolásticos. como o fazem muitos. aceita por Tomás de Aquino. Basta. Se tomamos expe­ riência em sentido restrito. sem necessidade de cons- truir uma figura geométrica com mil ângulos para compro­ var. de modo bem elementar. é uma maneira primaríssima de compre­ ender a realidade. que estava no sémen. tem mais fundamen­ to do que a validez oferecida pela experiência. apenas. que aparentemente se alicerça na experiência cien­ tifica. defenderam-na com energia. do ob­ jecto. O termo latino perior. pela perícia. Poderíamos ainda citar as doutrinas sobre a esfericidade da Terra. em seu delírio. sua teoria do homúnculo. ou as chamadas vvrtutes. apenas determinaram o âmbito de validez de suas afirmativas e de seus postulados. defendida pelos plató­ nicos. Ora. ou seja. é causa de muitos dos erros que costumamos encontrar na obra de famosos cientistas. fora da expe­ riência. a virtus dormitiva. os que realizou sobre a luz. mas que incluem. que surge em nossos dias. o conceito de experiência. o que a ultrapassa é o inexperimentável. baseados apenas nesse conheci­ mento. embora seja o experimentável também um critério para as coisas da nossa experiência. Essa ma­ neira primária de considerar a experiência tem sido a razão de muitos erros. afir­ mar com segurança o miriágono. como a tomamos. só pode­ mos considerar como experimentável o que se enquadra na maneira e no âmbito em que se admite a experiência. pelos escolásticos de melhor cepa. sobretudo. Al­ guns. ■a aparente validez de ilações julgadas imediatas à experiên­ cia. o que fica fora de nós. consequentemente. que cientistas defendiam com tanto ardor. ou se­ ja. exposta desde os pitagóricos. E dão ao conceito de ex­ periência o sentido mais comum como seja o de constituir-se apenas no que é captável pelas intuições sensíveis. ampliados ou não por instrumentos sensíveis. Não é mister que se façam tais ou quais experiências para se comprovar a experimentabilidade de algo. que se têm perpetrado nas ciências. como exemplos de que os escolásticos andavam muito mais seguros que os defensores da scientia experimentalis. Experimentável é. sem necessidade de experimentar. em certo sentido substancial. já que o seu objecto principal é contingente. Nunca o fizeram. e.144 MÁRIO FERREIRA DOS SANTOS FILOSOFIA K HISTORIA DA CULTURA 145 Estas constantes observações. o experimentado. das coisas. experimentalmente. sobre os erros do atomismo adinâmico e das possibilidades do atomismo dinâmico. fundada aquela apenas em razões de ordem lógica e dialéctica. Ora. e não apenas o que se pode realizar e se realiza. o princípio elemen­ tar do fogo. o que é passível de ob-jectar-se aos nossos sentidos. é o único critério de verdade. subir além da chinela. ao contrário. pouco usado. que não deveriam. do homenzinho microscópico. pesável. tais como a ve­ rificação de que muitas vezes uma argumentação escolástica em oposição a uma tese científica. é mister provar que esta. é erro se se baseiam num conceito restrito de experiên­ cia. quando este já havia sido estudado com tanta proficência por Tomás de Aquino. tomado nesse sentido tão restrito. a realidade do mesmo. Nes­ te caso. deu peritus. os limites naturais que ela sofre. Jamais negaram nem proibiram que ela se desenvolvesse. Assim.

do peso (do que é tàctilmente experimentável) nem do tamanho. há uma experiência. estaríamos imersos no realismo exagerado. racionais. E essa tese será perfeitamente válida por vários motivos: muitos filósofos. como para os gregos em geral. um ser . e não pode. no sentido restrito que tomamos tal ter­ mo. c) a acção de afectar. não possuem outra realidade que não a experimentável. A experiência mostra-se apenas capaz de realizar o que realiza. e na­ da mais que ela mesma. por que não se pode falar de vivências intelectuais. teremos: é exmerimentável tudo quanto um ser pode sofrer por acção de outro. se­ ria uma singularidade. Estas mesmas. ou seja probationes diversas. apresentar o nosso enunciado. Neste caso. A afectividade oferece uma experimentação outra que a sen­ sibilidade. porque realiza algo. Façamos. b) nós. pois seria apenas ela mesma. sem aque­ las coordenadas experimentais. uma experimentalidade outra que a sensível. e sofre uma modi­ ficação qualquer (afecção). existentes. por contradictio in adjectis. Nes­ sa concepção de experiência. Para Aristóteles. Onde há um existir que se dê com a rela­ ção acto e potência. finalmente. Algo em acto actua sobre algo potencialmente colocado ob ao primeiro. admitir uma experiência do universal. Na Filosofia Concreta. Se alguém disser que encontrou dois quilos de amor. só têm ser­ vido para levar ao erro. por si. Poderá negar que é experimentável. se acaso afirmar que é experimentável o que não é experimentável. necessariamente. só se pode dizer que é experimentável. pois. vivências afectivas. afectivas. que afirmaria a existência de universais como formas separadas. como afectados pelo objecto. os quais. o existir é ape­ nas singular. E assim como se pode falar de vivências sensí­ veis. Essa modificação sofrida é chamada de experiência. Mas. era constituída pela acção dos corpos exteriores sobre os órgãos sensoriais. como o pode. e única. um rápido apanhado filosófico do con­ ceito de experiência. vê-se que o Ser Supremo é inafectável por outro. da racionalidade humana? Há. ou seja. E êle não poderá sofrer experiências dentro dos limites da afecção. Não pode provar o não experimentável. Tal objecto é natural­ mente singular. para justificar o mé­ todo que presidirá a esta obra. Desde logo se vê que a conceituação restricta de experiência não deve ser aceita. Existir é singularizar-se. e se este existisse. mente. passariam a ser singulares. tais coisas não são experimentáveis. Então. Serve de cri­ tério para o experimentável. sob muitos aspec­ tos. e experiência a acção em que se realiza essa afecção. Um conceito ainda mais amplo de experiência enun­ ciá-lo-ia assim: acção que afecta singularmente um ser exis­ tente. cha­ mado por muitos de platónico. a experiência é sem­ pre de alguma coisa singular. da quantidacie contínua. antes. há o afectar de um sobre outro. Poderá dizer que é improce­ dente a afirmação de realidade experimentável ao que não a tem. Portanto. Por outro lado. uma experiência delas. é capaz de probationes peritiális outros objectos que não são sensíveis. a experiência (empeiria). experimentável pasisou a significar tudo quanto fora de nós afecta singularmente a nossa existência. exercida pelo objecto sobre nós. o que é passível de tornar-se objecto de uma experiên­ cia. É impossível. ou um quilómetro de saudade. mais adiante. não admitem uma exis­ tência que não seja singular. a experimentação está sempre contida dentro da singularidade. que servirá. da medida métrica. E podem dizer que o amor e a saudade não são experimentáveis (não permitem a prova pericial. conse­ quentemente. O termo conservou sempre esse sentido. ou seja. pois se a triangularidade existisse como forma separada. Êle tem uma probatio de tais coisas. porque um ser não singular é um ser universal. dos que são usados. afirmá-lo nem negá-lo suficientemente. Tal experimentabilidade não há em tais coisas. no desenvolvimento do pensa­ mento humano. Mas um ser humano experimenta amor e saudade com graus intensistas diversos. portanto está isento de experimen­ tações. para. como são os objectos da racionalidade. E como assegurar que tais coisas. e a acção que possa exercer sobre nós é também singular.146 MÁRIO FERREIRA DOS SANTOS FILOSOFIA E HISTORIA DA CULTURA 147 pejam dar-lhe. a experiência poderia desdobrar-se na polaridade acto e potência. no sentido restrito que se tomou? O experimentável apenas prova o experimentá­ vel. distinto. incluem-se os seguintes ele­ mentos : a) um objecto fora de nós. se se quer afirmá-la num sentido mais lato e mais seguro. por não serem experimentáveis. mas outras. a nosso ver. E o que não é passível de tornar-se tal? Ora. como Aristó­ teles e os escolásticos em geral. probatio periUalis.

o simples assen­ timento da mente sem receio de errar. Chegamos a determinadas teses que a experiência futura Jamais destruirá. Em nenhum âmbito essas teses serão desmentidas. pela visão imediata. é experimental. pois. e sem a capacidade de teorização intelectual. . Podem os cientistas. São teses demonstradas e. que nós procuramos descobrir e resolver. com o cunho de necessidade requerida. que nos permitem construir um saber culto. A experiência é. de certo modo. E para que justifiquemos a nossa posição. O acontecer cósmico obedece a leis ontológicas rigorosas. Seria impossível a ciência e todo sa­ ber do homem sem a experimentação. sabemos que a teorização do conhecimento prático consiste na conexão dos factos experimentados a regras. poderiam ser válidos. sem uma base teó­ rica fundamental. empírico. Neste caso. en­ quanto não fundar-se na maneira concreta de teorizar. Mas é uma grande ingenuidade pensar que o conhecimento humano tem de pairar apenas no campo do experimentável. E fizeram muito bem. estejamos nos afastando da verdade. em nenhuma experiência. e jamais. sem dú­ vida tal conhecimento provém da experiência. mas apenas fun­ dados em possibilidades. como se toda a vez que dele saiamos. que é propriamente a fé. num ente qualquer. Todo conheci­ mento. Será sempre formado de acto e potência. às quais aqueles se reduzam e também os expliquem. do conhecimento culto. fundado na experiência. por que são concretamente verdadeiras. o que nos permite afirmar que tais seres têm em comum tal aspecto. o caminho da ciência. composto de acto e potência. a normas. como o homem de parcas luzea mentais experimenta e não é capaz de teorizar com crité­ rio os conhecimentos que a experiência lhe fornece. a presença de algo em comum com outros. porém. classificadas segun­ do esquemas diversos. mas. que pode ser afectado por outro. a experiência está em to­ da a esfera criatural. seria uma ingenuidade pensar-se que o universo ape­ nas pudesse ser teorizado na classificação dos diversos mo­ dos de realizarem-se tais experiências. justificar. em examinar as modalidades da experiência. porém. Os animais experimentam e não constroem uma ciência. e não realizará por si mesmo nada despro­ porcionado à mesma. que nenhuma experiência poderá desmentir. co­ mo a concebemos. São verdades da filo­ sofia concreta. toda a vez que somos capazes de notar. Se a experiência se cinge ao campo da afecção possí­ vel de um ser existente por outro. nenhum efeito será supe­ rior às suas causas e nenhum ser finito criará nada que sub­ jectivamente não exista ainda. Desse modo. nem poderá ser cau?a de si mesmo. Actuará limitadamente à sua natureza. etc. basta examinar o que vem a seguir. serão refutadas. pre­ sente ou futura poderá desmentir. me­ di-la. produzir. Carecia-se desse trabalho. ou estabelecer unidades para numerá-las. Para a nossa posição filosófica. que somos capazes de concrecionar o conhecimento sob rigorosos juízos apodíticos (válidos para todos). depen­ derá de outro para ser. A teorização já exige uma capacidade de correlacionamentos segundo esquemas estabelecidos. Neste caso. empregando-o apenas como médium. não. e es­ taríamos no milagre. porque havia teori­ zações não fundadas em juízos apodíticos com base ontoló­ gica. ver­ dadeiras no âmbito ontológico e. como os requer a filosofia concreta. bastava para assegurar a validez de tais proposições. E por quê? Porque os factos do acon­ tecer cósmico não se dão sem um nexo. e eram considerados tais por que sa­ tisfaziam a mente humana. demonstramos apoditicamente. nenhuma disciplina es­ tá apoiada devidamente em bases teóricas rigorosas. Ademais. em honiens de mente forte e confiantes no poder de investigação do espírito humano. ser criatural. uma praxis. que impli­ cam uma inteligência. salvo se admitirmos um poder maior que actui por êle. as leis ontológicas.148 MÁRIO FERREIRA DOS SANTOS FILOSOFIA E HISTORIA DA CULTURA 149 finito. não. desde Galileu para cá. há três centenas e um milhar de corolários. tomado esquematicamente. Na Filosofia Concreta. sem dúvida. Ora. em qualquer ou­ tro. esse conhecimento é prático. e é proporcionada à determinabilidade (capacidade de determinação) dos entes. inevitavelmente. terem-se interessado apenas em saber como se dão os fenómenos. Tal temor é admissível em espíritos timoratos e deficientes. por outro. Nenhum ser finito tem a razão de ser em si mesmo. que nenhuma experiência passada. sem qualquer procura de outros mo­ dos de ser que não apenas os que se dão na relação acto po­ tência x afecção. como essas. e que pode ser determinado. Eram juízos que não contradi­ ziam. Ora. E como o homem exerce uma acção para realizá-lo. e jamais será acto puro. e esta se dá na relação de actualização das possibilidades provenientes da acção ex­ terior. mas também revela algo que a ultrapassa: a capacidade de teorização que a experiência pode fundamentar. portanto. não criará do nada.

E não foram as experiências futuras que lhes tiraram i. porque Kant nem smS sofou com segurança e lógica. A Filosofia é uma coisa séria. necessariamente. como o meca­ nicismo de Descartes e a sua afirmativa de que a alma es­ tava na glândula pineal. porque de uma vez por \S monstramos na Filosofia Concreta que se pode e ^ fazer filosofia com bases ontológicas sólidas E \ nham argumentar com a miséria filosófica do hòi suas agnósticas conclusões. as suas apreciações que se modificara modificam as modas. afinal. Não se argumente com o cepticismo\ contra essa possibilidade. frutos da fraqueza.150 MÁRIO FERREIRA DOS SANTOS FILOSOPIA E HISTÓRIA DA CULTURA Mas esses postulados. Elas não foram criadoras da verdade. pois apenas a sua inocuidade era proporcional à in­ capacidade de notar os defeitos de que estavam eivados. ou outras do mesmo estilo. mais famoso êle é. É escandaloso observar-se que quanto maior o número de erros que um filósofo espalha pelo mun­ do. sem sofrerem a influência mal sã de todas as mentiras engalonadas de verdade. na História. A verdade descoberta j á exis­ tia independentemente de nós. se não feriam de imediato as leis on­ tológicas. de mui­ tos outros filósofos. o que permitirá que a análise tW» seja feita sobre fundamentos mais rigorosos. a messe rigorosamente concreta. e demonstram & sua postulação com a apoditicidade exigida. Sempre foram incensados pelos medíocres de todos os tempos e pelos fari-seus da cultura. que é a que estabelece as razões não apenas possíveis. tornam-se de menor irm. é mister que outras. os moedeiros falsos de todas as eras. o modismo das suas opiniões S pontos de vista. mas apenas de novas convicções. men­ tes fortes e seguras. \ E estaremos seguindo um caminho também sei>.1» descobertas refiram-se realmente à verdade ontológH o critério para alcançar a este ponto é o que nos fQví pela Filosofia Concreta. Depois da busca da Ciência pelos campos da experimen­ tação. e contribuíram mais valentemen­ te. cia os dados estatísticos e as experiências poiqi3 pretendemos encontrar não é a sua manifestação „'* mas os seus genuínos fundamentos teóricos e ontop sobre os quais. validez. Este é o único papel digno que cabe à Filosofia. da debilidade e do nl\ so não é Filosofia.( tica. não poderiam sustentar-se por muito tempo. só na Filosofia. desde o momento que sejamos'capazes ?'■ truir a filosofia concreta de cada uma dessas disnf desde o momento que dermos aos esquematismos A a base filosófica cqncreta. e não percebiam muitos que na verdade eles as feriam.'. o laivo amargo do agnosticismo. a apoditicidade necessár?' alcançarmos tais pontos. 'i monstramos em "As Três Críticas de Kant" e e í* m fia Concreta" também. Mas esta não tem culpa de seus maus adeptos. e os houve em todos os tempos. que jamais poderá desmentir as leis descobertas1" o essencial é que tais leis sejam realmente leis. tais ciências passam a n J í em bases seguras. os que mais esplenderam para os fariseus intelectuais. como vimos naquela oV'' . fundarnentar-se-á í. e não o mero esforçar-se estético em torno de possibilidades pensamentais. para perturbar a inteligência da juventude. isso é arremedo de Filosofia iss„H da falsa. quando não o extremo do nihilismo mais desesperado. das suas perspectivas de rã. Essas experiências apenas fizeram despertar os olhos adormecidos de muitos que não viam o erro palmar em que caíam. como na Ética. aque­ les que lançaram maior número de absurdidades. filosofar. Em todas as épocas. que provocam em muitos o desva­ lor da Filosofia. A teorização precipitada de muitos filósofos pôs em descrédito a própria Filosofia. mas as que necessariamente têm de ser. busca que deve prosseguir.. grave' re<\ É a busca incontida dos fundamentos seguros das h ontológicas. q. mas para apresentar o palavreado das \ \ inconsistentes. como não se sus­ tentaram. corrompê-la em seus mais altos ideais. e cometeu erros palrnA desculpáveis num filósofo de sua envergadura cor. na Soei?* na Economia. que pe- lil íietram sub-repticiamente no caminho da Filosofia „. i Alcançados estes pontos. tão ao gosto dos trânsfugas da Estética. maior so­ ma de proposições falsas. a apoditicidade ontológica ^ revelada através da análise. aprestem-se para realizar a messe concreta. como \ \ sofia fosse o campo de batalha de opiniões àezrS convicções ou de meras dúvidas ou titubeios'teórico?1 K cilações. foram precisamente aqueles que mais er­ ros perpetraram e mais erros difundiram. para deixar.

e cometeu erros palmares. fundamentar-se-á a prá­ tica. Sempre foram incensados pelos medíocres de todos os tempos e pelos fari-seus da cultura. Is­ so não é Filosofia. ou outras do mesmo estilo. como o de­ monstramos em "As Três Críticas de Kant" e em "Filoso­ fia Concreta" também. E não foram as experiências futuras que lhes tiraram Í\ validez. in­ desculpáveis num filósofo de sua envergadura. dos seus pontos de vista. e os houve em todos os tempos. sem sofrerem a influência malsã de todas as mentiras engalonadas de verdade. Em todas as épocas. mas os seus genuínos fundamentos teóricos e ontológicos. Não se argumente com o cepticismo comum contra essa possibilidade. A verdade descoberta já exis­ tia independentemente de nós. a apoditicidade ontológica. e demonstram a sua postulação com a apoditicidade exigida. o modismo das suas opiniões. os que mais esplenderam para os fariseus intelectuais. ou va­ cilações.150 MÁRIO FERREIRA DOS SANTOS FILOSOFIA E HISTÓRIA DA CULTURA 151 Mas esses postulados. afinal. desde o momento que dermos aos esquematismos próprios a base filosófica concreta. Ao alcançarmos tais pontos. men­ tes fortes e seguras. da debilidade e do medo. maior so­ ma de proposições falsas. é mister que outras. isso é arremedo de Filosofia. não para filosofar. Mas o essencial é que tais leis sejam realmente leis. Mas esta não tem culpa de seus maus adeptos. a apoditicidade necessária. porque o que pretendemos encontrar não é a sua manifestação prática. Este é o único papel digno que cabe à Filosofia. e não percebiam muitos que na verdade eles as feriam. que é revelada através da análise. Essas experiências apenas fizeram despertar os olhos adormecidos de muitos que não viam o erro palmar em que caíam. que tais descobertas refiram-se realmente à verdade ontológica. os moedeiros falsos de todas as eras. de crenças. as suas apreciações que se modificam como se modificam as modas. que é a que estabelece as razões não apenas possíveis. É a busca incontida dos fundamentos seguros. porque de uma vez por todas de­ monstramos na Filosofia Concreta que se pode e se deve fazer filosofia com bases ontológicas sólidas. quando não o extremo do nihilismo mais desesperado. pois apenas a sua inocuidade era proporcional à in­ capacidade de notar os defeitos de que estavam eivados. que jamais poderá desmentir as leis descobertas. como o meca­ nicismo de Descartes e a sua afirmativa de que a alma es­ tava na glândula pineal. busca que deve prosseguir. frutos da fraqueza. de mui­ tos outros filósofos. das verdades ontológicas. mas apenas de novas convicções. e não o mero esforçar-se estético em torno de possibilidades pensamentais. foram precisamente aqueles que mais er­ ros perpetraram e mais erros difundiram. o que permitirá que a análise dos factos seja feita sobre fundamentos mais rigorosos. aque­ les que lançaram maior número de absurdidades. o laivo amargo do agnosticismo. de convicções ou de meras dúvidas ou titubeios teóricos. Elas não foram criadoras da verdade. mas as que necessariamente têm de ser. que provocam em muitos o desva­ lor da Filosofia. isso é moe­ da falsa. . na Sociologia e na Economia. não poderiam sustentar-se por muito tempo. É escandaloso observar-se que quanto maior o número de erros que um filósofo espalha pelo mun­ do. das suas perspectivas de rã. na História. para deixar. tornam-se de menor importân­ cia os dados estatísticos e as experiências. aprestem-se para realizar a messe concreta. desde o momento que sejamos capazes de cons­ truir a filosofia concreta de cada uma dessas disciplinas. a messe rigorosamente concreta. Depois da busca da Ciência pelos campos da experimen­ tação. mais famoso êle é. como vimos naquela obra. como não se sus­ tentaram. se não feriam. mas para apresentar o palavreado das suas teses inconsistentes. E não ve­ nham argumentar com a miséria filosófica do kantismo e suas agnósticas conclusões. como na Ética. necessariamente. A teorização precipitada de muitos filósofos pôs em descrédito a própria Filosofia. e contribuíram mais valentemen­ te para perturbar a inteligência da juventude. grave. tais ciências passam a manter-se em bases seguras. E estaremos seguindo um caminho também seguro não só na Filosofia. que pe- iietram sub-repticiamente no caminho da Filosofia. sobre os quais. E o critério para alcançar a este ponto é o que nos foi dado pela Filosofia Concreta. A Filosofia é uma coisa séria. Alcançados estes pontos. como se a Filo­ sofia fosse o campo de batalha de opiniões. respeitável. porque Kant nem sempre filo­ sofou com segurança e lógica. tão ao gosto dos trânsfugas da Estética. de imediato as leis on­ tológicas. corrompê-la em seus mais altos ideais.

da Fisiologia e da Botâ­ nica. o ser humano distingue-se essencialmente dos animais. ou seja a do ser humano em sociedade. constante universal cósmica. de certo modo. tinha a máxima va­ lidez. Possui aquele uma inteligên­ cia que o leva a realizar actos que os animais não são capa­ zes de fazê-lo. que pode ser encontrada na Físico-química. a economia humana. ser consi­ derado fora do âmbito antropológico. consideram-se como factos econó­ micos todos os factos cósmicos que podem ser incluídos no âmbito da Economia. como o germinar de plantas que darão frutos. e como pode ser aplicada em todas as esferas das coisas cósmicas é uma lei universal. O facto económico pode. de modo decisivo. na verdade. cuja validez. o que com­ prova. como na económica. o germinar das plantas e da­ rem frutos são factos da Biologia. Des­ te modo. na Biologia e também na esfera psicológica. sociológica. como ainda veremos. a que se refere à consecução com o menor esforço possível de bens aptos a satisfazer plenamente. A racionalidade.O ACTO HUMANO E A ECONOMIA A lei do "maior proveito com menor esforço" é uma. como ciência ética. Mas se o acto da colheita pelo homem é um acto económico. Mas a economia que nos interessa examinar é a social. no sentido clássico do têr-. . no entanto. também chamada política por muitos. o estudo dos actos humanos torna-se fundamental para a compreensão fundamental da Economia. Mas. que se referem ao homem em função da producção e da satisfação das necessidades. ou seja. as necessidades hu­ manas. Para alguns é cha­ mada de "lei da economia". e cada vez mais. da Economia na Ética. e outros em suas atitudes põe-nos em dúvida. pelos antigos. poderíamos procurar. Embora muitos não gostem de aceitá-lo. embora não o façamos imediatamente. que a inclusão. ética.

ora re­ flexa.154 MÁRIO FERREIRA DOS SANTOS FILOSOFIA E HISTÓRIA DA CULTURA 155 TOO. que é a nota da cognição prévia do que é deliberado pelo intelecto. tendo como objecto material os actos humanos. para ser tal. a cognição e a liberdade. E tal se dá. É importante. e a liberdade. a voluntariedade. portanto. como ainda vere­ mos. no acto humano. a Fisiologia. uma deliberação sobre a conveniência ou desconveniência da sua realização. distingue essencialmente o homem de os animais. porque o objecto desejado deve ser formalmente co­ nhecido. deve ser judicativa. Constituem-no. é mister que seja delibe­ rado pela vontade. a capacidade de escolha e de resolução. E essa deliberação consiste na escolha fundada numa cognição. e a represa para seu benefício. que pode ser ora formal. Essa cognição deve ser formal. Para que possamos alcançar a meta desejada. e só e apenas se pode chamar de acto humano aquele que não é animal. o elemento cognoscitiva. valo­ rações de várias espécies. reflexa (reflectir). como o acto de um ébrio. como os actos fisiológicos em geral e o acto incapaz de delibera­ ção por parte do homem. Não vemos o hidrogénio ora proceder deste modo. a deliberação.*é essencial uma cognição prática ante­ cedente. porque o agente é cônscio da sua acção. que são as naturais. e que é de magna importância para todas as disciplinas éti­ cas. deve­ mos prosseguir nas análises imprescindíveis para a boa compreensão da matéria que abordamos. necessariamente. o que também caracteriza o acto ético é a frustrabili­ dade. a capa­ cidade de pôr ou não em execução o acto. mas a construcção de uma barragem num rio. o saber sobre a matéria do acto. se procede do ho­ mem agente com a cognição correspondente. o poder. Este tema de magna im­ portância nos permitirá achar o ponto de encontro entre a liberdade e a necessidade na Economia. O acto humano. Na judicação. Deve-se distinguir o acto humano. Quando um animal opõe uma barreira à água que cor­ re. Não há frustrabilidade nos factos na Físico-química. pois estas. É na Técnica. do acto não deliberante. por lhe faltar c que é essencial. os há nos factos éticos. ora judicativa. A cognição dá-lhe as notas. a Biologia. como o demonstramos na "Ética Fun­ damental". Caracteriza o acto propriamente humano a cognição que voluntariamente realiza ou não um acto frustrável. Há frustrabi­ lidade onde o homem se realiza como homem. Se observarmos os factos físico-químicos neles não encontramos frustrabilidade espontânea nos mesmos. realiza um acto instin­ tivo e animal. pedir para) racional. onde a frustrabilidade encontra-se com a infrustrabilidade no campo da Economia. pela sua vontade. e as ciências da infrustrabilidade. nesta. a ordem de exe­ cutá-lo. No acto humano. porque o acto humano é o que de­ corre do apetite (petere ad. ora daquele. realizado pelo homem. sem o qual o referido acto não é completo. A frustrabilidade permite-nos até construir uma divisão das ciências: aquelas em que há frustrabilida­ de. etc. Ora. a vontade hu­ mana actua. e sabe que escolhe realizar o que está sob o domínio da sua vontade. como foi definido acima. porque. do contrário não se distingue do acto irracional. quando as condições circunstanciais são as mesmas. próprio dos animais. A frustrabilidade é um aspecto de máxima importância. pelo qual se inquire qual o acto que deve ser proposto e finalmente o império. que é a atenção da mente à coisa. o erguimento de um arranha-céu são actos de vontade e testemunham a vontade. Estamos apenas tangendo o tema que nos interessa. como a Físico-química. Mas. a construcção de uma catedral. imperfeito. . e implica. o que é próprio das ciências culturais. Diz-se que um acto humano da vontade é perfeito. acompanhada da disposição da vontade. a vontade. E há um ponto importante. tal é evidente. Ora. A vontade pode delibe­ rar realizá-lo ou permiti-lo. quando falta a plena deliberação da vontade ou do conhecimento da coisa. impedir a actualização de possibili­ dades. incluem-na. porque pode êle. pondo a infrustrabilidade física a proceder de modo a atingir determinados fins. porque deve ser julgada a con­ veniência ou desconveniência da prática do referido acto. há também apreciação de valores. íncluem-se a advertência. Chama-se na Ética de acto elícito aquele que se realiza imediatamente pela vontade como sua causa. No elemento cognoscitivo.

por um acto deliberativo e de vontade. Esta é uma definição clássica. uma privação de ciência. invencivelmente. a ignorância pode ser vencível ou invencível. mas apenas a capacidade. de outro que não o agente. como nos mostram os actuais estudos da Caracterologia. por exemplo. em relação à sua idade e capacidade. suficientes razões para ambas resoluções.156 MÁRIO FERREIRA DOS SANTOS FILOSOFIA E HISTORIA DA CULTURA 157 Para que o acto humano se realize plenamente. ainda. Também os hábito® exercem uma influência importante na realização dos actos humanos. o obstáculo à execução do acto humano. que é a desordenada habitualidade do apetite humano dirigido ao acto contra a razão. Há. como encontraríamos. encontra-se toda a conexão de causa e efeito. sob o conhecimento intelectual do fim. estudan­ do mais tarde. que dela padece. ainda. E estes decorrem de determinadas causas. É a coacção que impede a realização da vontade. encontra­ remos. por sua vez. Liberdade não signi­ fica desvinculamento total. se não é de origem intrínseca. podendo aumentar ou diminuir a vontade. também. ignora. a ignorância. o acto seria cego e não huma­ no. uma razão. Examinemos. Uma cognição confusa. O exercício da vio­ lência pode ser vário e também a sua acção pode sofrer graus. aquela que o pode ser no determinado estado em que é considerado o sujeito. o acto humano pode sofrer restricções pela violência. que nunca compreenderam devidamen­ te os estudos realizados pelos grandes filósofos do passado sobre matéria de tanta importância. positiva ou negativamente. Mas. A liberdade está em poder êle deliberar de um ou de outro modo. pelo sopesamento de razões que o le­ vou a seguir este e não aquele caminho. um porquê. ou de agir de outro modo de o que age. também relativamente. de de­ terminação. Temos. que é a moção procedente de prin­ cípio extrínseco que sustém a vontade. ou para distrair-se. tais como os que oferecem o carácter e o temperamento de uma pessoa. que. não impe­ de uma deliberação perfeita da vontade. Mas. exerce uma modificação no poder desviador do acto humano. como também uma atenção meramente virtual não impede o acto humano. gradativamente. cuja jus­ tificação é a seguinte: ela procede de algum modo. que é o defei­ to habitual da ciência no sujeito capaz. em quem actua. com poder de não agir o que age. e pode ser indirecta. Liber­ dade não significa absoluta espontaneidade de acção. Voluntário é o que procede de algum modo de princípio intrínseco. motivos causais. porque são eles uma constante inclinação para determinados actos. As paixões podem exer­ cer um papel muito grande na vontade humana. A pri­ meira ainda pode ser absoluta ou relativamente invencível. a concupiscência. Contudo. ou uma ciência não devida. Mas. Por causas extrínsecas. em seus motivos. que pode aumentar o poder executi­ vo do acto ou não. por sua vez. Influi. que tendem par« o maléfico. também. se disséssemos que para ser livre um acto é mis­ ter que não tenha uma causa. que dá a ne­ cessidade hipotética ao acto realizado. pois a criança. como o expusemos. ou de agir de modo outro que o que se realiza. diminuindo o seu poder de deliberação. o acto só é humano quando livre. não ê mister que haja um conhecimento perfeito da coisa. enquanto tal. do mal. e tam­ bém a necessidade do consequente determinado previamente. Essa maneira de considerar a liberdade é própria de autores modernos. o acto humano pode estar sujeito a defeitos. mas essa ignorância é vencível pelo adulto. decidindo-se a fazer isto em vez daquilo. imediata e formalmente ou mediata. a po­ tência de indiferentemente agir ou não agir. que é a trepida­ ção do ânimo ante o que lhe sucede de mal ou possa suceder. seria extrínseca. pois. que delibera agora apro­ veitar seu tempo para estudar. pois de um conhecimento confuso pode-se realizar um acto humano perfeito. que influem na cognição. pois este homem. na volição humana. e denominativa. na vontade. Temos. ao agir como se age. Diz-se vencí­ vel. permite que encontremos. ou adversativos. Assim. influindo. os elementos essenciais deste acto: 1) o elemento voluntário. que são os movimentos apetitivos da virtude em busca do bem. em sua causação. Temos ainda o medo. as paixões. os motivos causais de tal acção. que podem aminorar ou exaltar o impulso da . que é vencível. as razões que julgou deveriam predominar. é mister que seja conhe­ cido e seja realizado pelo intento próprio do agente. um motivo. de aceitar. sem a cognição intelectual do fim. Diz-se que o acto de vontade é livre quando esta é de­ terminada sob a razão indiferente. uma simples nesciência. se o seu acto fosse outro. Para que algo seja voluntário.

concretamente considerada. a concupiscência. não se pode excluí-la da Ética. para diminuir as indemnizações. quer de ordem física. que podemos apontar no decorrer deste século. e sob mui­ tos aspectos funciona dentro das normas eticamente estabe­ lecidas . a providência de um governo. por razões também semelhantes. . a neurastenia. que tivemos oportunidade de salientar. da Filosofia. bem como também a razão de outros. 4) em suma. e t c . considerando-se a par­ te mecânica. se feito apenas dentro das normas meramente mecânicas da Economia. que deve ser cumprido por razões de conveniência em bases jus­ tas. não pode se-parar-se: 1) da Ética. a ignorância. ou só um ser inteligente e livre. Em suma. que nos explicaria devidamente o que se deu. como ve­ remos oportunamente. predominante na acção económica. outros obstáculos de ordem patoló­ gica. porque implica os actos humanos frus­ tráveis. a psicológica.158 MÁRIO FERREIRA DOS SANTOS FILOSOFIA E HISTÓRIA DA CULTURA I59. porém. etc. que decorrem de uma anómala disposição da natureza liumana. 2) da Psicologia (individual e social). os elementos patológicos. a von­ tade. não nos poria em condições de reconhecer que tais factos foram consequências inevitáveis de factores sobretudo an­ tropológicos e psicológicos. que levou à oferta des­ medida de acções de que eram portadores franceses. da Técnica e da História. mas também invadem o campo da vontade humana. Mas. aumentando o custo de determinado elemento importante para a vida eco­ nómica. que compõem a Economia. Contudo. é um acto humano. co­ mo o histerismo. O ter uma visão abstracta e não concreta da Economia tem sido a causa de graves erros. 5) consequentemente. criando condições favoráveis às aplicações de capitais na França. ademais. não. Assim. pode ser calculado em dados percentuais. e sobretudo da filosofia concreta. propriamente nos âmbitos an­ tropológicos da mesma. sob pena de uma visão apenas par­ cial oferecer uma perspectiva muito limitada e não evitar os erros que daí decorrem inevitavelmente. exige esta disciplina um método de estudo diferente. se se considerar a atitude do governo Poincaré. poderíamos apenas dizer que o estudo de tal fac­ to. o temperamento. a epilepsia. como in­ fluindo de determinado modo em toda a contextura econó­ mica. nas. porque não fo­ ram considerados os elementos volitivos e as condições e covariantes. a fim de evitar cairmos no empirismo mais rudi­ mentar ou não ultrapassaremos o campo estatístico. 3) da Sociologia. apesar de sua imensa base material e seus poderosos fundamentos na parte somática do homem. é uma ciência ética. Ora. nos Estados Unidos. a deliberação. inevitáveis. a sociológi­ ca. não se considera­ ram os elementos extra-econômicos. vencível e invencível. Só o homem. Não pode haver um acto moral sem que seja ele um acto humano. vontade. porque o acto. Esta é a razão por que muitas vezes as repercussões das medidas económicas não se limitam ao campo apenas do facto meramente económico. a física. Para darmos um rápido panorama da grande "crack"1 de 1929. como vimos. pelas mesmas razões. Se se meditar pelo interesse que tinha o governo alemão em desvalorizar o marco. que devem ser feitos ou não devem ser realizados. e so­ brevêm reacções inesperadas no âmbito meramente mecâni­ co da Economia. o acto intelectual. e do governo francês em evitar a constante desvalorização* do franco. que influem sobre o mesmo. com sua repercussão no mun­ do inteiro. segundo as determi­ nadas condições de um povo. a biológica. Como a Economia. acto frustrável pela vontade humana como realizável por ela. o carácter. o acto ético. a técnica e a histórica. pode ter uma vida moral. tais como a cognição. porque é uma disciplina ética. a repercussão transborda tais limites. cuja repercussão excedeu aos cálculos matemáticos realizados. que reage segundo todas as condições e limitações que acima tivemos oportunidade de ver. Há. A Economia. uma coor­ denação dos métodos científicos com os métodos filosóficos. É o que se verificou entre nós quando da implantação da instrucção 204. implica os fac­ tores psicológicos. humano. e t c . implica uma multiplicidade de métodos no seu estudo. quer de ordem psíquica. a psicastenia.

uma boa organização económica da sociedade exi­ ge. frustrável). a textura da Economia com as outras disciplinas filosóficas e culturais. como consequência. Mas esses factores eram. a distribuição e o consumo dos bens (ou da rique­ za). dos graves e terríveis erros que. para que ela se dê: a) a existência. de bens para satisfação das necessidades legítimas dos associados.360 MÁRIO FERREIRA DOS SANTOS bolsas dos Estados Unidos. não só de agru­ pamentos humanos. se têm perpetrado para desgraça. poder-se-á ter uma visão mais concreta daquele aconteci­ mento evitável (note-se bem. da má deliberação feita sobre cognições imper­ feitas dos factos económicos. o que daria. a cir­ culação. consequentemente. mas como decorrência da ignorância vencível da realidade económica. EXAME DA ECONOMIA Ê inegável que a boa ordem económica de uma socie­ dade influi. que considere o que há de real nas conexões de todos os âmbitos em que ela actua. em quantidade suficiente. permite e favorece a boa ordem de todas as outras mani­ festações da vida social. é mis­ ter a circulação. sobretudo. distribuição e consumo são os quatro grandes factos que constituem a Economia. notavelmente. evitável. históricos e éticos. Producção. controláveis. também a. por sua vez. mas da própria humanidade. dos grandes erros teóricos e das previsões desmen­ tidas e. que passaram. . temerosos de maiores prejuízos. que se refere às mais elementares necessidades humanas. enfim. se se considerarem todos esses factores psicoló­ gicos. é mister a producção bem orientada e bem calculada. onde eram cferecidas condições excepcionais. que determinam previamente uma consequência. e são o objecto da Economia Política. que não sucedeu como uma decorrência imperiosa e inevitável de factores. a consequente repercussão que teve a baixa oferta por parte dos franceses sobre os portadores americanos. Penetramos aqui num tema de máxima importância para o destino da própria Economia. Enquanto a Economia (como também a História) per­ manecer como uma ciência abstracta. a Economia continuará sendo apenas o campo dos profetas do passado. como condições indispensáveis. não considerando as ressonâncias que ela tem com o âmbito de outras discipli1 nas. Ora. A abundância de bens requeridos para a satisfação das necessidades humanas. por sua vez. em no­ me dela. A boa ordem fundamental. a sua normal circulação e distribui­ ção são uma garantia da segurança e da boa ordem social. no modo de proceder dos elemen­ tos componentes da mesma. a melhor solução dos proble­ mas outros que possam surgir. no exame dos factos eco­ nómicos. circulação. procurando a obtenção do má­ ximo de numerário para aplicação na França. que também poderia ser con­ cebida como a ciência da ordem social da riqueza. e facilitam. enquanto não se considerar. para obter-se o segundo. oferecer as acções que possuíam. Para obter-se o primeiro. ou a ciência que estuda a producção. como a definiu Cossa. a decorrência inevitá­ vel dos factores dispostos. a im­ possibilidade de acontecer o que aconteceu. b) a justa e conveniente aplicação desses mesmos bens à necessidade de cada um. além dos meramente económicos. a distribuição e o consumo bem ordenados dos bens disponíveis. enquanto não se aplicar a seu estudo um método dialéctico concreto.

Segundo os economistas da escola liberal. sem que se­ jam por este produzidos. onde o exercício da vontade livre exerce uma grande influência. que. bem como do que demos no início. rico de sa­ ber. a questão social é uma questão de estômago. mesmo quando a ela se opõe com todo vigor. as quais consideram os fenómenos económicos independentes da moral. o conceito económico de rique­ za não deve ser muito distinto de o que é usado comumente. sob as bases sólidas de uma filosofia fundada em demonstrações rigorosas. como o conjunto dos bens disponíveis (aproveitáveis) para satisfação das necessidades humanas abrange todos os sentidos e melhor corresponde ao que se pretende dizer com tal termo. não quer dizer outra coisa senão o conjunto dos bens disponíveis para satisfação das necessi­ dades normais. que o conceito de riqueza não pertence apenas a esta disciplina. conceito que tam­ bém é seguido pela escola socialista. O nome de economia política foi usado primeiramente por Antoine Montchrétien (1615). A tomada de posição abstracta da Economia foi a causa dos graves erros e da impossibilidade dos economistas te­ rem provido melhor de conselhos a producção e a distribui­ ção da riqueza. Para eles. e adotado. No exame que fizemos dos temas éticos. e não os que a natureza dispõe. tivemos opor­ tunidade de demonstrar que os factos económicos incluem-se também no âmbito dos factos sociais. e pode ser empregado em outras. Diz-se que um homem é rico quando dispõe êle de bens necessários à satisfação das neces­ sidades em abundância superior às das mesmas necessidades. sem o devido funda­ mento. o ser humano fica apenas considerado do ponto de vista de um productor económico. a Economia nada tem que ver com as leis éticas e as morais. que não se referem à verdade so­ cial. pois deve-se considerar o que é da Economia na Economia. etc. de certo modo prevista pelos próprios autores liberais. ter­ minou por se confundir com a Política. como para os socialistas. Pode-se dizer que em sentido eco­ nómico tal distinção é justa. posteriormen­ te. É que o se­ gundo apenas relata o estudo ordenado dos factos económi­ cos fundamentais. do que pela ordem que o conhecimento seguro de­ termina e impõe.162 MÁRIO FERREIRA DOS SANTOS FILOSOFIA E HISTORIA DA CULTURA 163 Mas esse segundo enunciado difere fundamentalmente do primeiro. em vez de procurar o caminho seguro que a verdadeira ciência deve seguir. Neste sentido. costuma-se dizer rico de dinheiro. segue a escola liberal. consequentemente. tudo nos leva a admitir que um conceito mais amplo de riqueza. considerando que o facto económi­ co é também ético. Utilidade é a aptidão de um objecto qualquer a satis­ fazer mediata ou imediatamente uma necessidade. como em quase todos. no âmbito da Ética. consideram distintos ramos da Econo­ mia. de um agente de producção e de consumo. pela escola mercomtilista. como também pela fisiocrática de Quesnay e a industrial de Smith. e na Economia nada mais representa do que um movimento de oposição a certas teses liberais. neste ponto. impede que a Economia se transforme apenas num estudo mecânico de factos frios. geraram por sua vez uma sequência de opiniões. Ora. obscuros e mal elaborados. tais como Say. propuseram chamá-la de Economia So­ cial. Não obstante. e isto porque. nos éti­ cos. enquanto o primeiro fala da ordem social da riqueza. consequentemente nada tem que ver com o dever-ser humano. porque o homem. porém. Guyot. vive dentro do âmbito da Ética. e cair no terreno do opinativo. na verdade. e visualizam a economia política como o campo dos fe­ nómenos económicos. que se regem segundo leis matemáti­ cas. Vê-se. com­ pletamente confundidos. deste modo. Neste caso. de qualquer modo. leis que surgem do natural anelo do ser humano à felicidade e ao bem estar. Alguns economistas. Alguns economistas consideram que são riqueza apenas aqueles bens produzidos pelo homem. Separar a Economia da Ética foi um dos graves erros dos economistas. Uma série de conceitos económicos. Vejamos certos conceitos. e a economia social. não representando nenhum avanço na Economia Política. o que gerou bastantes aborrecimentos para a Humanidade. mas da mesma natureza que o liberalismo. mas apenas uma possibilidade desta. A regulação da Economia. Outros. ou não é exclusivo desta. portanto. A uti- . segundo as leis da Ética. que legitimam as aspirações quando justas e a ordenação quando humanamente honesta. nco de saúde. e a Economia. e ser mais dirigida pelas paixões e pelas opiniões humanas. apropriáveis por êle. o que faz incluir a Economia no âmbito das re­ lações humanas e. etc.

o acto económico é um acto humano quando é cons­ ciente. o ser hu­ mano goza de uma relativa liberdade. Na "Ética Fundamental". Naturalmente que o câm­ bio implica. o ser humano deseja a felicidade perfeita. deliberado pela vontade. onde há um acto humano. não era de admirar que muitos economistas procurassem separar a Economia da Ética. não existiria o câmbio. Mas. Na verdade. está no campo da Ética. enquanto considerada numa relação com o entendimento que a estima ou avalia. já que a avaliação é por natureza um acto intelectual. Em "Análise de Temas Sociais" discutiremos. que haja o valor de uso na coisa.seus aspectos. salientamos algumas teses apoditicamente demonstradas. bem é o objecto revestido de utilidade. Por ser racional. direções para os mesmos. Ora. que constituem a maté­ ria fundamental das ideias políticas e económicas. mas exige que se estabeleça um valor de troca. e toda vez que o ser humano julga. A coisa deve ser útil. Assim. capaz de satisfazer uma necessidade. este tema que tem sido considerado por muitos econo­ mistas como o mais terrível e o mais difícil dos problemas económicos. pois há outros que se subordinam a outras ciências. E é do campo desta que se pode e se deve examinar a ques­ tão social e as normas políticas. E como os factos económicos são dependentes dos factos naturais. a que exige um esforço humano para obtê-la. Os bens apropriáveis são a riqueza. analisa os factos económicos e busca determinar leis. é importante: Por ser racional. como examina­ mos no "Tratado de Economia". da sua justiça ou não. No entanto. e julga da sua conveniência ou não. avaliada por um entendimento. enfim. que é o agente económico por essência. com cognição do fim. na Economia.164 MÁRIO FERREIRA DOS SANTOS lidade pode ser gratuita (como a que é dada pela nature­ za). onde estudamos o valor. da sua aplica­ ção ou não. sem essa avaliação. o ser humano escolhe com liberdade (pode escolher com liberdade). todos os temas e problemas. Mas a utilidade de uma coisa é estimada. filosoficamen­ te. para tal. Sem esse apreço. ou seja. e onerosa. é verdade qfle. no campo da Economia. E essa distinção impõe-se em face do homem. Há acto voluntário quando há cognição do fim. é o que se chama valor. estamos no cam­ po da Ética. O homem tende naturalmente para o bem. cuja aplicação. cuja aplicação é desejada. não podemos considerar aquela como uma disciplina subordinada à Ética sob todos os. Pois a utilidade. A frustração depende da vontade humana. . O ACTO E O FACTO ECONÓMICO EM FACE DA ÉTICA É mister distinguir o acto económico e o facto econó­ mico.

166 MÁRIO FERREIRA DOS SANTOS FILOSOFIA E HISTORIA DA CULTURA 167 À proporção. que é. que gostam de considerar tal expressão co­ mo uma inutilidade sem qualquer fundamento. etc. afirma-se a aceitação de um dever ser ético a nortear as tomadas de posição. ou seja. Neste caso. Não deveriam. para estabelecer quais os melhores métodos e os mais efi­ cientes sistemas para assegurar o bem económico de modo a atender com justiça a todos. Onde há racionalidade. pertence ao cam­ po da Biologia. os economistas proporem nada. há escolha. o que constitui a sua emergên­ cia. fala-se no homem tomado concretamente. que têm custado tanta lágrima e tanto sangue. o facto económico. também. Para que esta se separasse totalmente daquela. é racional. bastaria ape­ nas dar este: em nenhuma actividade intelectual do homem ausenta-se a Ética. sendo o que é.je Queremos fazer apenas um reparo ao emprego que fi­ zemos acima da expressão natureza humana. que salientamos os diversos temas econó­ micos. na Filosofia. por isso mesmo. causa fundamental de toda a incompreensão e das lutas e oposições humanas. há sopesamento de razões. Como último argumento. há vontade. Que o acto económico é um acto ético. da Ética na Economia. Os animais não se regem nem realizam a Economia. considerado como a producção de bens para satisfação das necessidades hu­ manas. chamaremos a atenção para o aspecto ético. mas pode nossa obra cair em mãos pouco espertas. De modo que. há eticidade. Por outro lado. Ora. Poder-se-ia argumentar que a regulamentação possível não se realiza essencialmente. julguem que natureza é outra coisa. à sua raciona­ lidade e poder ser regulado por normas éticas. Também se pode regular por normas éticas a pesquisa na Físico-química. passado do verbo nascor. * * * . é precisa­ mente ao que nasce com ela (naturus. sem que esta pertença ao âmbito daquela disciplina. pertencente ao âmbito da Ética. os estudos económicos ter-se-iam de cingir apenas à catalogação estatística dos factos. ain­ da. Se os marxistas. mostramos que o anelo humano de alcançar ao que é conveniente à natureza humana estabelece normas éticas. a coisa considerada concretamente em sua imanência. na expressão aristotélica). natura = nascida). formal-materialmente (hilemòrficamente. Quando se fala na natureza humana. Ao examinarmos os fundamentos concretos da Ética. barro. à sua vontade. em suma. marxistas. considerando-se apenas as suas naturais propensões. que constitui o que a coisa é com*sua matéria e a sua forma. enquanto tal. revela a predominância. tudo quanto pode ser regulado por normas éticas é do âmbito da Ética. a mera pesquisa científica. há intelectualidade. da Fisiologia. Assim o homem é materialmente corpo e como forma tem uma mente. e a Economia é uma reali­ zação humana e não animal. Todas as doutrinas buscam opinar sobre o modo como devera ser estabelecida a Economia. por suma ignorância. O dever-ser honesto e justo está sem­ pre presente a nortear as intenções humanas. despre­ zado tantas vezes e. em sua mecanicidade. pois. a sua emergência. no que nasce com êle. comprova-se pelo acto eco­ nómico não dizer apenas relação à parte material e corpo­ ral do homem. E bastaria que passássemos os olhos sobre a obra de todos os grandes economistas do passado e a maior parte dos actuais. porque onde há proposição de normas melhores que outras. a mostrar-nos as desvios e os erros. part. actuará segundo essa natu­ reza. Realmente. em que tais argumentações podem criar raízes. da distribuição e de consumo. mas apenas accidentalmente. A na­ tureza deste vaso de barro é a de ser uma coisa que tem a forma de vaso e a matéria que o compõe. Perdoe-nos o leitor inteligente e culto que tenhamos de fazer essa ano­ tação. a sua natureza. mas também da Psicologia e da Sociologia. e não considerando-se de modo algum o anelo de aplicação de normas asseguradoras de melhor funcionamento da producção. que costuma provocar sorrisos de superioridade em alguns "socialistas". devem debitar apenas a si mesmos tal deficiência. sji jjí . não aos outros. ou pelo menos. para verificarmos quanto predomina o aspecto éti­ co no exame dos factos económicos. mas. no que o constitui. O que se entende e sempre se entendeu por natureza. A ética é inseparável do acto humano e onde este se realiza ela está presente. a Economia reduzir-se-ia à Econometria. quando nos referimos à natureza de uma coisa.

alcançando a mais alta autonomia. neste caso ela consiste no poder do acto voluntário escolher a realização que aprouver. deste modo ou de outro que não este. velhas ideias com novas roupagens. para que pudesse. e dialècticamente bem fundada. como a vontade permitem uma gradação. Esta só é obtida pelo pleno domínio do espírito ao edificar uma visão filosoficamente superior. estabeleçam falsos limites às possibilidades cognoscitivas do homem. será a sua cog­ nição . Caracteriza o acto humano a frustrabilidade. mas entregar-se ao pleno desenvolvimento e funcio­ namento do acto humano. A justificação.168 MÁRIO FERREIRA DOS SANTOS FILOSOFIA E HISTORIA DA CULTURA 169 Nunca é demais salientar a necessidade imperiosa para c homem de nossos dias de conquistar o pleno domínio das suas funções intelectuais. sem cair nos defeitos do antropologismo. a culturalização do mundo. e a sua vontade»será determinada pelo querer. Ao estudarmos o acto humano. Contudo. com certa segurança. que um determinado acto humano terá tais ou quais características. Essa grande revolução. que notamos iniciar-se com o De Primo Principio de Duns Scot. pudessem escolher cair agora ou não. e que a coloca. que distorcionam a visão nítida e cuidadosa dos factos e que não permitem a teorização. que é o momento alto e elevado da nossa espécie. nem um nem outro dos extremos repre­ sentam o que de mais alto é o homem. num plano evolu­ tivo superior. de nós e de todas as coisas. obtendo. não é êle completo. por ser de sua essência. tem o intuito de opor-se à acção dissolvente e confusionista que certas ideias. Considerando-se esquematicamente o que examinamos. Desde os antigos gregos. que disporá facilmente dos elementos para a actuação da vontade. em todas as culturas. o excesso de desnível no acentuar dos sentimentos. para salvar-se da prisão do irracional. como lhes aprouvesse. seriam elas livres. de vez. através de demonstrações apodíticas. segundo o temperamento predominante por esse povo. Perguntar-se-ia se a liberdade também apresenta graus. estabeleceremos o esquema abaixo que nos facilita considerar o que há de mais impor- . a supervalorização das paixões e das afecções foram sempre motivos de pro­ vidências e de exercícios propostos ao ser humano para al­ cançar plenamente a humanidade. a vitória sobre todos os factores perturbadores do bom e nor­ mal funcionamento do genuíno acto humano. no inconfesso intuito de acobertar uma deficiência filosófica ou uma intenção malévola de derruir tudo quanto o homem tem criado de mais elevado e de superior. com suas valorizações axioantropológicas. e saber não vivê-los. concluímos que é funda­ mental do mesmo. Segundo o grau de cultura de um povo. que o racionalismo exagerado criou. como a mostramos pela filosofia concreta. Sem o elemento cognoscitivo. como não o é sem a vontade livre. de uma conceituação lógica. em "Filosofias da Afirmação e da Negação" e "Filosofia Concreta". mas também em poder erguer-se como espectador de sua própria vida e de s. cair aqui ou ali." mesmo. com ampla base real. Pois se a liberdade é a capacidade de fazer o que se faz ou de fazer de outro modo o que se faz. desde que note­ mos os aspectos que modificam a intensidade da cognição e da vontade. tanto quanto possível. o ím­ peto incontido dos impulsos temperamentais. para atingir uma visão teórica con­ creta do cosmos. que fizemos em "Métodos Lógicos e Dialécticos". e repete-se monotona­ mente. e podem ser obstaculizadas por de­ ficiências ou por interposições que se lhe opõem. tanto a cognição. deve ser levada avante. podemos es­ tabelecer. a cognição. de uma vez por todas. porque não é em não viver um dos extremos que êle se afirma plenamente. pela qual pode metamatematizar eidèticamente o universo. Essa al­ ternância é constante na História. De um lado o exemplo das paixões desenfreadas. livrar-se da vida mecânica. Para melhor uso desta parte. Ora. para que nos ergamos através da intelectualidade. a von­ tade e a liberdade. que surgem no pensamento mundial. Se as chuvas. mas em saber vivê-los. e tudo empreendemos por realizá-la. que caem. e nos distingue de modo definitivo e nítido dos animais. Não consiste esta apenas na plenitude biológica e fisiológica. através da claridade apolínea. homens de grande valor e saber salientaram a imperiosa necessi­ dade de vencermos os ímpetos primários e irracionais de nossas paixões. Aos excessos de um racionalismo exagerado sobrevêm uma valorização desenfreada do irracionalismo.

com o natural viciamento da deliberação. a concupiscência tremenda des­ pertada por uma série de anos de corrupção administrativa. Em face dessas possibilidades. neste caso. esperar que desde logo sejam. intrínsecas 01 W O Qt O extrínsecas A presença dos factores opositivos vicia o acto humano. que são comuns e próprias aos actos huma­ nos. nem se deu através da baixa normal e geral de preços. quando em flagrante oposição ao (1) Assim. louvada por multidões. Este é o pensamento historicista em sua máxima extensão. ou seja. embora vencível. que serão oportunamente precisados. pelo medo de quase todos. colocados ante os olhos os diversos aspectos que uma determinada medida poderá abranger. sobretudo em nossos dias. por vício de conhecimen­ to. tomam uma dessas posições gerais: a) que os actos humanos são determinados e. que. considerando os aspectos positivos e os opositivos. índia e negra do Brasil é espantosamente ignorante sobre os temas dessa matéria. que também só conseguiu agravar ainda mais a situação. coonestada por reeleições de larápios contumazes. em que nos encontramos em face do choque de ideologias. como não se dá. Portanto. desde a escola. que facilmente se advirta a nossa gente sobre temas económicos (advertência). ante as possibilidades huma­ nas. e a ignorância. conse­ quentemente. A introducção dos estudos eco- . fatalmente. a vontade e a liberdade do povo está automaticamente viciada pela concupiscência de muitos. pois. que apenas interessam a uma elite. que são. obedientes a leis inteligíveis. e merece uma resposta cuidada. ao apontar-se uma determinada medida económica. Não é de esperar. portanto. Considerando-se tudo isso. neste caso. e.170 MÁRIO FERREIRA DOS SANTOS FILOSOFIA E HISTORIA DA CULTURA 171 tante na constituição de um acto humano. como decorrência dos vícios. Consequentemente. pelo temperamento versátil e indisciplinado domi­ nante. que permite. que. determinadas reacções. poder-se-ia prever que houvesse um reajustamento. neste ponto. o império. à semelhança do que julga possível o historicismo. pois nômicos nas escolas é providência muito nova e ainda deficiente. O temperamento do nosso povo. A cognição sobre os factos económicos é de grau intensistamente mínimo em nosso povo. é descontrolada. podem-se então tomar as providências que permitam evitar os males decorrentes. atingindo ela uma grande parte da nossa indústria e do nosso comércio. de uma parte muito restrita com o conhecimento pleno de uma minoria ínfima. A acentuação de tais aspectos pode parecer à primeira vista. naturalmente. Para tanto. consequentemente. Mas esse reajustamento nunca se daria. as providências acauteladoras já poderiam ser previstas e dis­ postas de antemão. que deveriam ser consideradas como possíveis. que o homem pode conhecer. se forem bem considerados esses aspectos. porque a ignorância dos temas económicos é geral. a ordem executiva. não é possível. porque poderíamos. que seria o de reacção à implantação da nova norma. mas apenas foi tentado pelo reajustamento dos salários. ante a instrução 204. prever as possí­ veis respostas. obrigando a muitos sectores a um reajustamento da sua actividade. pelo carácter de fácil corrupção de grandes camadas. a história humana é também uma façanha da liberdade. Pode-se mesmo dizer que a popula­ ção de origem ibérica. dominando-as. não recebe nenhuma no­ ção fundamental da Economia. positivo o opositivo vencível igno­ rância invencível concupiscência medo paixões hábitos temperamento carácter (podem ser po­ sitivos os dois últimos) violências opressão do [ kratos político § formal deliberação \ judicativa cognição 1 império reflexa vontade Liberdade o «a •iH advertência princípio da liberdade. de modo a compensar a alta. que levaria à negação da liber­ dade humana. Não é esta opinião de desprezar. deveriam ser considerados os actos humanos prováveis em reacção à mesma. tornando-o deficiente e falto da plenitude desejada (1). Que o aumento imediato dos preços não poderia cingir-se à per­ centagem esperada. pela maioria da população. jamais a reacção teria o carácter percentual que fora acentuado pelo então presidente da República. como o julgam muitos. b) Os actos humanos são livres e. com dificuldade de encontrar um sector em que a corrup­ ção não domine plenamente. em face do esquema acima. prever os acontecimentos humanos futuros. ou influir. corrupção disseminada e invadindo todos os sectores administrativos e até civis. prever os acontecimentos futuros e até dirigi-los. cujas respostas não obedecem às leis da mecânica. desde logo se sabe que a cognição necessária à realização de um acto humano. dentro de certos limites. era evidente em face dos factores acima estuda­ dos. Com o decorrer do tempo. portanto. provocaria. a ignorância invencível da maioria da população. relativamente pequena. a fim de evitar os prejuízos decorrentes das reac­ ções desproporcionadas. ante a História. não se carac­ terizará senão por deficiência cognoscitiva. e julga-se que tais estudos só devem caber a especialistas.

poderá dirigir o rumo dos acontecimentos e desviar os obstáculos. mas apenas um conheci­ mento subjectivamente aceito. não suficiente para dar um co­ nhecimento objectivamente certo. não existiam ainda. e só poderiam integrar-se num novo âmbito especulativo. a ponto de podermos tornar-nos especta­ dores frios até de nós mesmos. Se tal era ainda impossível à mente humana. o juízo sintético a posteriori. virtualmente. conhecendo as possibili­ dades. através de nossos trabalhos de filosofia concre­ ta. senão através de antevisões geniais. logo às primeiras análises alcança a postulados que ela sabe que a experiência passada. que lhe daria o nexo de necessidade. em anali­ sar a epistemologia. o cuidado que punham os cientistas. Ao contrário. tornou-se quase uma obsessão para os cien- . Não podíamos permanecer na situação insatisfatória da adesão firme da mente sem re­ ceio de errar. sem causas. todo o conhecimento terá a seu favor apenas a fundamentação da convicção. irá fa­ talmente corroborar. é o afastar-se dos parâmetros axioantropológicos. esse desejo infrene de vitória sobre nós mesmos. o conhecimento das leis da História não perturbaria a mesma. Na verdade (e foi o que não percebeu Kant). Se de início fundamenta-se na comprovação que esta ofere­ ce. presente ou futura. sem motivos. como observadores e experi­ mentadores. É que as condições. porque jamais o conhecimento implica negação da liberda­ de. na norma e maneira como a prevêm os primeiros. como sucedeu com a fenomenologia de Husserl. que. c) A liberdade dos actos humanos não é uma espon­ taneidade sem razão. permitem enquadrar as novas especulações em rotei­ ros mais seguros. examinaremos a solução que se lhe pode dar do ângulo da filosofia concreta. alcançando-se uma libertação de nossa esque­ mática histórica. que poderia. esse anseio de objectividade. sofrer essa acusação. independente­ mente da convicção* Pode-se dizer sem receio: o que caracteriza realmente a única filosofia possível do homem em nossos dias. seja o ressurgir de um racionalismo ou das teses fundamentais do idealismo. através da dialéctica concreta. a corro­ boração poderosa que dão às especulações lógicas e ontoló­ gicas. uma impossibilidade vencível. A ciência natural era um exemplo dessa constante li­ bertação. era. e em pôr uma suspeita a toda influ­ ência subjectiva na pesquisa (sobretudo das valorizações). O conhecimento das leis exis­ tentes na História não implicaria a negação da liberdade. que era uma possibilidade da escolástica. não pelo afir­ mar de si mesma. que vinha marcado pelas acquisições experimentais. já trazia em si. Em momento oportuno. porque até aí permanecíamos numa firmeza meramente subjectiva. Por essa razão. e o provamos. apesar das antevisões geniais de filósofos do valor de Tomás de Aquino. pela conexão eidética. se fos­ se possível romper certas barreiras que a mera análise noológica e lógica ainda não era suficiente para realizá-lo. contudo. de certo modo.172 MÁRIO FERREIRA DOS SANTOS FILOSOFIA E HISTORIA DA CULTURA 173 muitos actos são imprevisíveis e de única deliberação do ser humano. A filosofia concreta jamais se afasta da experiência. pois enquanto a mente huma­ na permanecer apenas na contingência e nas possibilidades frustráveis. nem impediria a maior liberdade do homem. O que se realiza agora é a conexio. com resultados mais surpreendentes. que realmente merecem tal nome. nos sé­ culos anteriores. noética. Scot e Suarez. uma sequência de juízos sintéticos a priori. que só um método de análise dialéctico poderia extrair e ac­ tualizar à mente humana. o conhecimento só pode favorecer e for­ talecer a liberdade. mas pela afirmação eidética. A impossibilidade decorria apenas do estado em que se encontravam os conhecimentos adquiridos até então. como o tem sido. Não se julgue que o que se pretende organizar e reali­ zar. a que ultrapassa a natural firmeza do nosso espírito. Alcançar-se ao nexo de necessidade foi sempre o ideal filosófico. Os exames epistemológicos. o que impede uma previsão segura do futuro e a impossibilidade de estabelecer-se uma ciência da História. a fim de alcançar o que lhe é mais favorável. que foi antevista por esta e que as condições existentes. que a ciência experimental com o tempo iria oferecer para corro­ borar o trabalho de realização concreta dos esquemas noéticos. não tornava acessível realizar-se plenamen­ te. quando estudemos o problema do historicismo na época moderna. A liberda­ de é a capacidade de fazer o que se faz ou de fazer outra coisa do que a que se faz. e com a devida apoditicidade. não por uma vivência da mesma. A extraordinária corroboração que os factos da ciência moderna oferecem às possibilidades pensamentais. Era mister alcançar a ade­ são da mente.

para que fôssemos sempre aler­ tados para o que deveríamos fazer em nosso bem. como é pela racionalidade que melhor afir­ ma a diferença fundamental que o distingue dos animais. Ha­ via necessidade. fêz-nos prosseguir. e este era indubi­ tavelmente a consciência das nossas limitações. para que pudéssemos. agora é que se abrem as novas vias me­ todológicas. agora mais do que nunca. Não havia. Não buscamos a solução do desespero. é aquele que obtém a liberdade por si mesmo. Mas sem esse Qui­ xote em nós. desse modo. que não admite a possibilidade de sua libertação. E ter consciência disso já era uma promessa de libertação. Não era tal conquista uma derrota. nem à beira dos caminhos que percorremos. não alcançaria o termo do seu rotei­ ro. através da verdadeira humanidade. Jamais a filosofia concreta quer apresentar-se como o fecho de um ciclo. que realmente não merece mais este nome. conquistávamos uma vitória. tomado como ponto de re­ ferência. O homem é sempre um viandante (homo viator). que lhe impediam alcançar a mais ampla objectividade. À proporção que fôssemos capazes de vencer a subjectividade. porque jamais nos derrotamos quando vencemos nossas fraquezas e nossas condições. já era uma promessa de que poderíamos alcançar a liberda­ de desejada. sobre tudo quanto representava o axioantropologico. a liberdade que em nós desejava afirmar-se. Sem abrir essas portas. e é o homem solicitado. É em torno do acto humano. Era preciso. só poderia dar-se de um ponto de partida. conquistar para o homem a libertação de si mesmo. que actuava como deformadora do conhecimento. Mas esta seria uma vitória do espírito. temeríamos para sempre abrir as portas de par em par e seguir adiante. poderíamos então visualizar o que ficava além. que se abrissem as portas dos muros que o encerra­ vam na cidadela em que vivia. essa vitória. na Filosofia. na verdade. transforma qual­ quer de seus gestos de revolta num gesto de desespero. que conseguia libertar-se até dos limites próprios. mas era a mais alta afirmação do próprio homem. que girará o exame dos temas culturais que por ora nos interessam. Ao alcança­ das. que buscavam. O escravo. da inteligência hu­ mana. afirmando-se a si mesmo. uma superação. porque sabemos que a Dulcinéia de nossos sonhos não está na cidadela de nossos conhecimentos pas­ sados. de suspeitar da constante presença dessa esquemática em nós. das ade­ rências infantis que domina a sua esquemática adulta. A libertação do homem. a modelação do nosso conhecimen­ to pela esquemática prévia. porque a salvação do homem se faria através do homem. que nos era prometida. mas sim como o início de um novo caminho através do conhecimento. pois. con­ tudo. Assim o escravo. quem nos impeliu para além. im­ possível seria o gesto de revolta. do acto de cognição. E o sim­ ples conhecimento do em que consistiria a nossa liberdade. Era mis­ ter uma constante suspeita das nossas deficiências. Sem o conhecimento dessa possibilidade. essa vitória não era uma derrota do que é animal e primá­ rio em nós. A liberdade do homem adquiria assim uma nova afirmativa e uma nova prova. desimpedido das deficiências ine­ vitáveis. era impossível sair para a nova empresa. O que buscamos é a vi­ tória possível. não era o aniquilamento das condições humanas. Só através desse caminho verdadeiro alcançaria o ho­ mem o mais alto que poderia obter. só poderia fazer pela liberdade do seu conhecimento das condições esquemáticas primárias. ao chegar a este lanço do caminho. saber o que nos faltava e nos cabia adquirir. um caminheiro in­ cansável em busca de novos horizontes. a condicionalidade da nossa intuição pelas medidas axioantropológicas. Contudo. ou enfrentar o desconhecido sem peias e sem medo. na qual muitos caíram por não terem encontrado uma solução. cuja libertação nós mesmos realizávamos. Ao contrário. para novos empreendimentos que lhe oferecem novas promessas. não era uma negação do homem. Ela está sempre além dos nossos horizontes. Talvez tenha sido Quixote quem falou em nós. Os caminhos imprevistos aguardavam-no além do horizonte. porque o escravo. E como é pela inteligência que o homem mais se afirma como tal. de antemão. através do acto humano. Porque. que ganha a liberdade. outra solução senão permanecer na especulação do que até então lhe havia sido dado. agora é que se descortinam novos horizontes e novas possibilidades. O homem. assim. de vontade e de liberdade. E justificamos tal proceder por que é o . portanto. E que é esse Quixote senão o que de mais humano há em nós? A afirmação da nossa liberdade. alcançando. não representa o que de mais alto o homem pode alcançar.174 MÁRIO FERREIRA DOS SANTOS FILOSOFIA E HISTORIA DA CULTURA 175 tistas verdadeiros. mas uma afirmação extraordinária do que em nós ultrapassa a animalidade.

é um acto sobejamente intelectual. o poder de executar o que se delibera. ou pelos hábitos viciosos (opostos às vir­ tudes. pois. se não examinar com cuidado o que realmente é um bem para o ser humano. e pela ausência de uma . porque testemunha a sua presença em toda a sua plenitude. de preferir isto àquilo. sem consi­ derar que essa cognição será viciada pela interactuação que sofre da vontade eivada pelos factores opositivos intrínsecos e extrínsecos? Pode a pedagogia esquecer o que lhe é pri­ macial. pois da melhor colocação que faça­ mos do que implica virtual e actualmente o mesmo. Deliberar é escolher e n t r e . ou meramente passional). Mas o conhecimento está ameaçado pelos vícios que decorrem ime­ diatamente da ignorância vencível. o que é realmente conveniente à sua natureza dinamicamente considerada (o que é de seu direito e. E a decisão tomada. Verter-se para o objecto em exame (a advertência) exi­ ge uma ampla acomodação de esquemas. que im­ plicam. em sentido ético) ? Não tem de ser (este é o dever da pedagogia) orientada para esse fim? Pode a pedagogia apenas orientar-se no caminho da cog­ nição. ou pelo medo. A deliberação exige a capacidade de comparar mentalmente os aspectos formais. implica a vontade como poder que tende à realização. Aponta-nos êle uma sequência de importantes temas. exige o império. ou melhor. estamentos. . fornecerem dados toma­ dos abstractamente. uma o juízo. não um mero querer (mero ím­ peto volicional). porque exige a capacidade de seleccionar. . como vimos). que não consi­ deraram previamente o acto humano? Sem dúvida. Poder-se-ia dizer que a pe­ dagogia é a ciência que estuda e aplica os meios que permi­ tem alcançar a plenitude da realização do acto humano. que tem feito estragos inomináveis com suas inovações. a inteligência está operando mais para o mal que para o bem. que pre­ side ao estudo de tais disciplinas. que não obedeceram ao exame concreto do acto humano? Quantos males surgiram e surgem constantemente na vida humana. Que deve fa­ zer a pedagogia. não se poderia realizar com a plenitude desejada. do aumento de conhecimento do homem. em sua função normativa. muitas vezes já viciados por espúrias inten­ ções. da Economia. que permitam as mais seguras assimilações. Ora. provenientes das teorias truncadas da Pedagogia. e muito menos ainda a judicativa e a reflexa. porque a cognição é essencial àquele. viciada pela concupiscência. A vontade. Como é possível. da invencível e da nesciência. teremos uma visão mais clara da realização cultural. e outra o raciocínio. Defendemos esse enunciado pelas razões seguintes: sem a cognição segura não é possível que o acto humano alcance sua perfeição. E tudo isso provém do vício abstractista. que passaremos a examinar. viciados pelo abstractismo. Toda pedagogia deve orientar-se para uma finalidade: alcançar a plenitude desse acto. mas por razões de ordem intelectual. . que. conse­ quentemente. e deles partir para orientar a Pedago­ gia. mas como o apetite que leva a realizar o que se deliberou. o que é fundamental para o melhor padrão das relações humanas? Como podem psi­ cólogos. pois o animal não a alcan­ ça. a vontade não pode ser plena se fôr viciada pelos factores que a deturpam. sem o qual a advertência. então? Pode ela ter uma meta justificada. que é a acomo­ dação tensional dos esquemas ao objecto cognoscível. que é o apetite desmesurado pelos bens designados pelo homem para satisfação de suas necessidades e de seus apeti­ tes passionais. classes.) de que faz parte? Não é do âmbito da Pedagogia a preparação do ho­ mem para manter relações com seus semelhantes. que a Psicologia não considere. sem o detido exame concreto do acto hummio. não por uma espontanei­ dade afectiva (simpatética. da Psicologia e da Sociologia. de seu dever. ou pelas paixões. que não permitem a sua plenitude perfeccíonal. Alcançar a cogni­ ção formal é própria do homem. Guiar o ser humano pelos caminhos do conhecimento é orientá-lo a realizar o acto humano em sua plenitude. quando fornece ele­ mentos para o dever ser humano. E o pedagogo precisa saber des­ pertar o interesse. para o aperfeiçoamento das relações humanas. É mesmo proporcional a ela que êle se dará. inclusive os juízos. que é uma deficiência humana. que ela orienta o homem para conviver numa socie­ dade e ser elemento participante da história do agrupamento (ou dos agrupamentos. etc. pode ser ainda aumentada em intensi­ dade pelos apetites provenientes do temperamento e até do carácter (e este já implica a interactuação dos hábitos). como um apetite intelectual. como a concupiscên- cia. por sua vez. e outros que oferecem os objectos de conhecimento.176 MÁRIO FERREIRA DOS SANTOS FILOSOFIA E HISTÓRIA DA CULTURA 177 acto humano o que culturalmente melhor simboliza o homem.

realizá-la. do também. e o faz apoditicamente. e apenas realiza uma derrota do ho­ mem) . considerar a sua origem. Sabemos todos que a nossa época nos revela exem­ plos de quedas impressionantes no primitivismo. ou fingindo esque­ cer o que é imprescindível para que o homem alcance a sua plenitude. O que a filosofia concreta prega e justifica. pela concupiscência. para o objecto cognoscível. e este só é trilhado pela execução do acto humano pleno. embora haja ímpetos reversíveis mui­ tas vezes indomáveis. o homem tem humanidade. formando uma concreção. mas é prejudicial e inócuo. podemos considerá-lo excludentemente: ou tem humanidade ou não tem (aut. por ora. Nós a encontramos. e cada um a alcança e dela participa com mais intensidade à proporção que o seu acto é mais pleno e mais perfeito. um conceito exiensista e um intensista. como uma perfeição de que participam os se­ res que têm hominilidaãe. quando. em sua heteroge­ neidade imensa. julgando que realiza uma vitória sobre o homem. não é a soma dos seres humanos através da história da sua espécie. o aspecto formal simples. que se verte apenas para a objectividade. com postulados previamente dados. e para o destino que o homem deverá to­ mar. É a cultura tratada concretamente. na plenitu­ de de sua conceituação. que é a da filosofia concreta. dos conquistadores. No segundo. com elementos já determinados. É impossível demitir- mo-nos da humanidade. é abstracta e viciosa. assim. no conceito de humani­ dade. A humanidade é a plena realização do acto humano. se estiver aqui o melhor. colocamo-nos em definitivo no caminho da huma­ nidade. To­ da a dialéctica concreta é uma lógica concreta do etiam. Pouco importa. Está clara a nossa posição. Sim. Precisamos por isso distinguir. é uma filosofia concreta da cultura. Extensistamente. é sinal de vontade viciada pelas paixões.178 MÁRIO FERREIRA DOS SANTOS FILOSOFIA E HISTÓRIA DA CULTURA 179 Noologia dialéctica. Assim como não renunciamos mais a humanidade. É mais fácil. intensistamente êle a conquista. Es­ tamos considerando-o em sua formalidade. São essas razões que nos levam. e temos de rea­ lizá-la. Temos. que inclua no exame do acto humano tudo quanto é imprescindível para que êle alcance sua pleni­ tude. Sabemos que é difícil reunir e trabalhar com he­ terogeneidades. Jamais pode­ ríamos aprovar o que se tem feito. separados irremediavelmente da concreção ver­ dadeira (e não da falsa concreção. Mas is­ so é fraqueza. porque a humanidade. as­ sim como sabemos que ao homem não cabe mais um retor­ no ao primitivismo. caminhando apenas pelos caminhos da especialidade. nesta obra. com fórmulas aceitas. que aponta apenas a essên­ cia humana como um invariante já adquirido pelo homem. Esse não é o caminho dos fortes. esquecendo. que os denuncia sem piedade. ou que lhe foi dado. é uma conquista sem fim do homem. do contexto do conhecimento e da praxis humana. como denuncia também o fariseísmo da nossa intelectualidade (dos grupos intelectuais) abstractistas. nela se perfec­ tibiliza. a humanitas apenas. tem mais ou menos humanidade (etiam). dos denodados. além de ser homem. a conside­ rar as disciplinas culturais. No primeiro caso. e jamais separa o acto humano. A humanidade é uma meta ideal que se actualiza a pouco e pouco.. . na verdade. . Temos de jogar defini­ tivamente na mesa as nossas cartas. êle a é mais ou menos. que se opõe energicamente a todos os erros modernos. com a finalidade de alcançar a validez e a realida­ de concreta do acto humano para melhor compreensão das ? elações humanas. do que é superior. E não vamos preferir o que é fá­ cil ao que é difícil. destino que está às suas mãos. é a concreção que inclui e não a que exclui. É mais fácil funcionar apenas com clichés mentais. é covardia. pelos hábitos viciosos adquiri­ dos.aut). da humanidade como perfectibilidade. como ainda veremos. e conhece­ mos todos os pregadores desses retornos bárbaros. que o atiram no irracionalismo mais abjecto.

no sentido da sua constitui­ ção bio-psíquica. transformada em elemento de constituição da estructura física de um muro ou de um monte significativo de algo. que re­ cebe uma informação dada pela acção humana (por um acto humano). um ob­ jecto da cultura. Assim uma pedra da montanha é um objecto da natu­ reza. Este mesmo homem. O próprio homem. é um ser da natureza. então. uma intenção. pois só é objecto de tais ciências aqueles que dependem directamente da acção hu­ mana. em sua heterogeneidade. é um objecto cultural. A frustrabilidade é o caráter específico de todo objecto que pertence às chamadas ciências culturais. o que caracteriza o cultural é a acção humana que dá uma finalidade. b) o objecto cultural é o objecto da natureza. como ser biológico e fisiológico e fundamentalmente psicológico. uma significação ou uma desti­ nação extrínseca a um objecto do mundo natural. Portan­ to. que são produzidos pela acção humana. do verbo nascor. o que distingue um objecto natu­ ral de um objecto cultural é o seguinte: a) o objecto natural (de natura. cujo psiquismo é estructurado . é cultural. é um objecto natu­ ral. independentemente da acção e da vontade humana. ser nascido) é o que nasce da natureza considerada còsmicamente constituída. cultivado pelo homem. mas. é. o estudo do acto humano é fundamental para penetrar no exame de todas as ciências que se dedicam ao exame do objecto frustrável. ou seja.CONSIDERAÇÕES EM TORNO DO ACTO HUMANO Segundo a nossa posição. ou transformada num paralelepípedo. Um campo é objecto natural. Fundamentalmente.

a vontade e a liberdade. é um acto que condwz algo (pro ducere. podem alguns deles ter um papel no campo da His­ tória. É. para Pompeia. Antes de tudo. porém. Deus. No Cosmos. do contrá­ rio. interferindo. que directa ou indirec­ tamente compõe materialmente um facto cultural. também. e podem ser considerados históricos (factos históri­ cos). A natureza tem relação directa sempre com êle e por essa razão todo facto da natureza. pois. Diz-se que é acto o que é realizado. segundo uma in­ tenção. são acções que se realizam no homem. em rela­ ção a Pompeia e seus habitantes e a toda Itália. As ciências culturais não se separam abissalmente das naturais. realiza êle um acto cultural. O acto humano depende do ho­ mem. Não é um facto cultural. cuja demonstração já o fi­ zemos. que serve de guia para orientar o aviador no rumo que deve tomar. mas as ciências culturais não são estanques em relação às ciências naturais. Caracterizam-se estes. algo no pleno exer­ cício de seu ser. como vimos. O cultural está na intencio­ nalidade e na informação (de forma) dada ao facto natu­ ral. A represa ergui­ da. um acto. com o seu esforço e o seu trabalho. porém. está de certo modo incorporado a este. Sua frustrabilidade só pode dar-se pelo obstáculo ou pelo desvio que eventualmente a natu­ reza pode opor-lhe naturalmente. Se se diz que o campo da História é o campo dos actos humanos históricos. É fundamental da acção humana. Pode ser ainda objectivada. os actos económicos. é um acto. Todo acto humano. enauanto constituído pelos elementos que aci­ ma descrevemos. ou que depende de ou­ tro para ser. necessariamente. um facto humano. ou um objecto da cultura para algo. é um facto natural e não cultural. do ho­ mem. Um acto. portanto. etc. quando apenas pretende dizer algo. desde logo. actualizado. a Odisseia são culturais. o que é realizado por outrem. que se desvia obediente às leis da física. não é êle um acto humano. produzir). Mas. ou seja. uma distinção entre acto e facto. tomado aquele termo em 3eu sentido lato. não há abis­ mos absolutos. o desvio das águas para uma depressão. Todo facto. Tu­ do quanto o homem realiza com uma determinada intenção ó um objecto cultural. Quando o homem. facto o que é feito. é a isso que chamamos producção em latu sensu. dispõe as coisas de modo a obstacularizarem-nas ou desviarem-nas do curso normal. tomada em si mesma. por transformação ou por mera assimilação. Por êle o homem pro­ duz algo. educa­ da para algo. mas dentro das mesmas leis naturais. energia. Assim o Ser Supremo. considerado em seu exercício de ser. pois. no acontecer histórico. Essa ordenação pode ser apenas direccional ou informa­ tiva. o homem é um ser da natureza e o que faz de certo modo também é da natureza. ou seja. não é um facto. e se depen­ de de outro é um facto. mas natu­ rais. enquanto hu­ mano. no campo da cultura. apontar algo. e o que faz de certo modo poderia ser feito de outro modo. Um acontecer natural é infrustrável e obe­ dece às leis da natureza. pela ordenação das coisas da natureza. assinalar algo. por sua vontade poderia não ser feito. um objecto da natura. A erupção do Vesúvio. tem de ser. que é apenas destes. pois. é um acto productivo. a cog­ nição. em sua primordialidade. pois. E tais objectos estão marcados pela frustrabilidade. como uma árvore no descampado. Ora. Verifica-se. a fim de formar um lago. e todo ente cultural é um ente produzido. como a pedra transformada em paralelepí­ pedo. portanto). portanto. como a peste negra na Idade Média. Consequentemente. o tear. o pestanejar re­ flexo. Tudo quanto o homem faz por sua vontade. Assim o homem produz os actos históricos. se examinarmos os factos da natureza já acon­ tecidos. como a montanha que obstaculiza o curso dágua. como as pedras que consti- . o gesto de adeus. inclui-se nele. que não dependa (penda de) de ou­ tro. como demons­ tramos apoditicamente na Filosofia Concreta. a liberdade e a vontade revelam a frustrabilidade. são actos culturais. que é uma propriedade da essência. não se diz. ago­ ra o nome pouco importa). A direccional pode ser apenas significativa. os actos jurídicos. é um objecto cultural. ou quando es­ colhida para indicar a proximidade de alguma vila ou lu­ gar. porque não há rupturas no ser. pois. que todo acto humano. quando transformada em algo para algo. Contudo. esse outro é um acto. Impõe-se. princípio de todas as coisas e (chamem-no matéria. sem dependência de outro. há sempre producção. a erupção do Vesúvio. o espirro incontido.182 MÁRIO FERREIRA DOS SANTOS FILOSOFIA E HISTORIA DA CULTURA 183 por uma esquemática adquirida {habitual. Enquanto não se encon­ tram nesse acto essas propriedades essenciais. Assim. Ora.

ou seja o facto natural. pois a matéria. etc. é matéria cultural (da cultura). informado ou assinalado pelo homem. como intelligibilia. os aspectos opositivos e negativos que influem em sua deficiência. para o facto cultural. mas pertence também ao âmbito das ciências culturais por sua influência antropo-historológica. Consequentemente. os factos da natureza são incorporados ao âmbito da cultura. e o pre­ O que caracteriza um facto material qualquer como objecto material do âmbito desta ou daquela ciência cul­ tural é a sua capacidade lógica de receber uma predicação cultural que lhe convenha (cui convenit). no acto humano. há as ideias que cons­ truímos e as que captamos das coisas. É que eles consti­ tuem a parte material. enquanto constituem a emergência de um objec­ to cultural. sim. como são os bens pa­ ra a Ética. Neste caso. os factos psíquicos são a matéria do facto psicológico. pois este se dá em proporcionalida­ de com aqueles. pois. os factos mate­ riais constituam elementos objectivos. co­ mo causa. conse­ quentemente. do Direito. Na Lógica. como possibilidades pensáveis. neste caso. de admirar que ao âmbito da Histó­ ria. como o mostramos em Filosofia Concreta. tomada em si. é uma causa intrínseca do ser. estão incorporadas culturalmente naquele. captamos das coisas. Não. pois. mais um conceito se impõe no âmbito das ciências culturais: a maté­ ria cultural. como ciência cultural. o que lhe deu um sentido cultural? Não e sim. da sua emergência. Do mesmo modo as nossas ideias são também a matéria da Filosofia. portanto. que são meras ficções. um facto da natureza modelado. Colocando deste modo o exame dos dois grandes gru­ pos de ciências: as naturais e as culturais. Sendo co­ mo são.184 MÁRIO FERREIRA DOS SANTOS FILOSOFIA E HISTÓRIA DA CULTURA Jg5 tuem as paredes de um templo. Foi. o sujeito é tomado materialmente dicado formalmente. ciência. Este facto natural é constituinte. quando são matéria desta. pelo seu significado também. Ademais demonstra ainda que entre as ciên­ cias culturais as distinções surgem pelo aspecto formal e não pelo material. na relação de ma­ téria para a forma. pois é este que realmente marca o âmbito dessa. segundo a nossa maneira de conceber. embora seres da natureza. porque constituem elas em não serem. etc. os pensamentos das coi­ sas. Portanto. Nesciência diz-se da não- . em si. Mas o que os torna objectos das ciências culturais é a forma cultural. pelo mesmo acto. Assim a ignorância e a nesciência são ne­ gativas. que salienta o as­ pecto concreto. Esta última é formalmente indivisível e. pertence ao âmbito das ciências naturais. daquelas que o homem capta das coisas. não tem graus. O carác­ ter cultural é. Convém à erupção do Vesúvio uma predicação histó­ rica. sem deixarem de ser pedras. A erupção do Vesúvio. no sentido aristotélico. é natural. e impõe ao espírito humano a necessidade de considerar a concreção na qual estão todos os âmbitos do conhecimento. ainda. pois há mais ou menos saber. É importante esse exame para o que mais adiante pretende­ mos examinar. da Economia. e esta é dada pela presença da marca intencional humana. Mas há uma distinção entre ignorância e nes­ ciência. o que nos demonstra a incontestável pro­ cedência da divisão que os escolásticos faziam entre o objec­ to material e o objecto formal de uma ciência. Não é. como já estudamos em nossas outras obras de filosofia. Devem-se observar. que é culturalizado. além de ser um facto natural. Um facto cultural é um facto natural de certo modo informado por uma intenção ou por uma significação hu­ mana. O saber é uma perfeição gradativa. da emergência do objecto cultural. influência importante e perduradora. Dizemos também para distinguir aqui as ideias. se considerar­ mos como informado real-realmente. são da emergência deste. que lhe dava o sentido antropo-historológico. mas incorporada à vida histórica de Pompeia e seus habitantes. A erupção do Vesúvio. vê-se desde logo que há uma interpenetração entre elas. ou seja. en­ quanto têm o papel que corresponde à causa material de Aristóteles. como facto natural. Estão. ou seja: as que são meras elaborações do nosso acto de pensar e as que. como o de que ê ele feito. da Sociologia. podendo dizer-se que é um facto histórico. a ignorância é gradativa. a Economia e o Direito. na classificação aristotélica. formal. Desse modo. portanto. se o considerar­ mos como assinalativo pela influência que exerceu sobre factos culturais já existentes. ideias negativas implicam a ausência de uma positi­ vidade: saber.

Não pode haver uma autodeterminação (e o termo autos está a indicar por si mes­ mo. Há uma interconexão entre a psicologia e a Sociologia. económico. pois quando se determina. pelo conhecimento falho. Ora. o materialismo. Determina-se alguma coisa quando se lhe marcam os limites. o agnosticismo. porque o objecto cultural das mesmas depen­ de desse acto. não se pode falar em autodeterminação. Mas é mister que esse conhecimento não seja viciado pelos fariseus e pelos moedeiros falsos da cul­ tura. embora osten­ tando o ouropel das cátedras universitárias. e que este termo seja tomado como sinónimo daquele. por exemplo. da ausência total de ciência em determinada maté­ ria. uma determinação no acto humano implica cognição. não se deve debitar tais factos apenas à ignorância. o ficcionalismo. para viciá-los muitas vezes ir­ remediavelmente. o nihilismo. Pode-se dizer que uma pedra é nesciente. Porque não é só esta que vicia o acto humano. ac­ tuando no âmbito da cultura. diz-se que é ignorante em matemática. que se instalaram muitas vezes vito­ riosas em grandes camadas do fariseísmo intelectual e da moeda falsa da cultura. Diz-se que alguém é nesciente em matemá­ tica quando nada sabe e não sabe nada de matemática. que aponta a si mesmo como a última palavra. entre as três e a História. E naturalmente este será mais viciado quanto maior fôr a ignorância. o cinismo. é uma garantia da plenitude maior do acto humano. estético. a cultura viciada pelas más intenções (e aqui estamos no que vicia a vontade). contudo. jurídico. Fala-se. desde que o ob­ jecto material é o mesmo e o objecto formal genérico (o cultural) também o é. mas se esquecem esses pontos importantes. O aumento de saber. quando o que pode saber não sabe. Quando se fala no direito à autode­ terminação dos povos é mister reconhecer que esse direito implica o aumento de cognição para que o acto humano coríespondente não seja irremediavelmente viciado. ético. algumas das manifestações viciadas do ac­ to humano cultural. e que supera o que os anteriores haviam construído. portanto) e onde toda acção de esclarecimento é dominada apenas pelas intenções de louvar e justificar o regime. e um obstáculo imposto à sua viciação. Num povo. na livre determinação de um povo. Como as ciências culturais dependem directamente do acto humano. quando sabendo alguma coisa dessa disciplina. não o sabe muita. o idealismo. Ora. que é elementar do acto humano. sociológico. não era de admirar que se chamasse um homem sábio de homem de grande cultura. toda ciência cultural tem um âm­ bito de conhecimento em comum com as outras. que o objecto formal regional de cada ciência tenha estreitas relações com os das outras. psicológico. entre estas e a Economia. etc. que se tornam presa fácil de tais erros. é um dever criar facilidades ao conhecimento. Como o grau de conhecimento influi de tal modo. E poderíamos ainda citar outras interconexões gerais e particulares. É a falsa cultura que gera o cepticismo. as deficiências que sofre aquele na cognição influirão directamente naquelas. moral. restringindo-se com mão de ferro toda oposição ou esclareci­ mento quanto a outros regimes possíveis. com profundas consequências sobre partes sãs da sociedade. o racionalismo. Como se poderão impedir os erros económicos numa sociedade onde a maioria dos seus elementos primam pela ignorância? E não é a ignorância que gera em nossa época a doutrina avassalante da conve­ niência da intervenção tôda-poderosa do Estado no âmbito da Economia? Contudo. porque é claro. portanto também liberdade) como acto humano. estabelece-se uma negação. ou seja quando se determina o não dessas coisas. assim. etc. tanto individual como colectiva­ mente. Ora. o conhecimen­ to cheio de erros e falsidades. sem haver cognição das possibilidades determinadoras. a nesciência e a ignorância viciam a cognição. Há outros vícios da . multifàriamente.136 MÁRIO FERREIRA DOS SANTOS FILOSOFIA E HISTORIA DA CULTURA -ciência. A maior des­ graça que caiu sobre a Humanidade foi a falsa cultura. no acto hu­ mano histórico. onde pela força se instalou um regime (determinado. não se poderá dizer que é ignorante. e quanto mais pre­ dominar a nesciência. A nesciência e a ignorância influem. A pedra nada sabe e não sabe nada. para citarmos. o onde começa a ser o que não é ela. Por isso (como já o demonstramos na Ética). o que não é mister fazê-lo por ora. porque há ignorância. na sua autodeterminação. sempre à espreita em todas as esquinas do saber para pilharem os incautos em suas redes de erros. Não pode o acto económico ter a sua plenitude cognitiva sem o conhecimento pleno. tornando-o eticamente indesejável.

criando emba­ raço à propagação de ideias. como se fossem elas um motivo de glória. para viciar o acto humano. apoiada em parte na vio­ lência e também na persuasão. Arrancar dos inimigos os bens que possuem para aproveitá-los. explorando a atenção pela advertência despertada para o que lhes interessa. além de ter sido coarctada em sua acção pelos limites impostos por outros povos. para modelarem as novéis consciên­ cias para um esquematismo. a começar pelo ensino e pela educação. Todos os opressores sempre quiseram manter em suas mãos o monopólio do ensino e da educação e o con­ trole monopolista dos meios de divulgação de ideias. embora falhas e muitas vezes totalmente falsas. E não podem negar. Não é de admirar. negando a esse acto o carácter de vitupério ético que tem. 2) Perturbando a deliberação pelo temor das sancções. os que possuem o kratos social. democráticos ou césariocráticos). As formas de opressão.188 MÁRIO FERREIRA DOS SANTOS FILOSOFIA E HISTORIA DA CULTURA 189 vontade. jamais foi a ignorância e a exploração dos baixos instintos humanos das paixões e das emoções violentas. Na Histó­ ria. firmeza a doutrina que esposam. por ou­ tros regimes sociais. é um país que chegou tardiamente na História e não participou do banquete colonialista. E o pior de tudo é quando a essas intenções se aliam os conhecimentos necessários pa­ ra evitar algo e determinar algo distinto. as paixões sobretudo. tem sido um dos meios mais contumazes na História. e que melhor ga­ rantia oferece ao bem-estar e à segurança do povo. Os mesquinhos inte­ resses (que tomam o aspecto de paixões irrefreáveis normal­ mente) dominam a vontade e levam à prática de actos hu­ manos. E ainda inoculando nos seres humanos. ou que ponham à calva a realidade em que vivem. como a concupiscência. cujo vício é consciente. evitando que penetrem notícias. o afã que os impele a reagir violentamente contra tudo quanto possa libertar o acto humano dos vícios que lhes as­ segura o domínio. os que desejaram dominar seus semelhantes. que é a maneira de fomentar o apetite da pilhagem. pois todos os conhecem. a fim de saciar as necessidades imediatas das massas e enriquecer os poderosos. fazendo-a exacerbar-se pelo apetite de bens que satisfaçam as necessidades sensíveis. mas que traz proveitos a quem o faz. que nunca conseguiram competir com a sua . como aquela vicia a cognição. que analisem os defeitos das suas. que impedem que se faça o que se deveria fazer. mas sim da sua deficiência. e que se escolha fazer o que já de antemão se sabe que é um mal para muitos. E como procederam todos os dominadores? Pelo caminho do vício. aris­ tocráticos. um conjunto de ideias preformadas e a instauração de preconceitos que sustentem coo. como já o dissemos. que é um dos grandes factores da História e um dos elemen­ tos mais perturbadores da saúde do acto humano. 3) Perturbando a vontade pela exploração da con­ cupiscência. Não podem os dominadores negarem que conhecem bem o que constitui o acto humano pleno. como o hitlerismo explorou as emoções alemãs e os esque­ matismos da sua postergação na História (porque a Alema­ nha. inclusive em nossos dias. para com eles empreender as façanhas que desejam. a fim de evitar a melhor cognição dos factos por parte dos dominados e fazer com que estes aceitem suas cadeias de aço. Também daí a preocupação que os en­ volve de dominarem plenamente a cultura. pela alegação de que desapropriar os inimigos é um acto justo. Ora. porque toda a sua actividade consiste em viciá-lo de modo a servir aos seus interesses. que viciam a vontade. sempre usaram a ignorância ou mantiveram na ignorância os su­ bordinados para que aceitassem a sua forma de domínio. seguindo outros roteiros. Pela nesciência. diversas na História. e ainda quando são justificados por razões que influem sobre os prejudicados. e se conheçam factos que possam provocar interesse por outras formas de vida social. empregado pe­ los poderosos. 4) Pela exploração das emoções. que revelam o tempe­ ramento do povo e pelos esquematismos próprios do seu ca­ rácter. Não é também de admirar que os opres­ sores sempre negassem a liberdade. daí a imposição de uma doutrina. imputando-lhe os predi­ cados da desordem. em que são tão frequentes como o foram em to­ do o longo pesadelo da História humana. portanto. sob seu domínio. têm em comum entre si o cuidado de evitar o esclarecimento dos dominados. ou mostrem aos homens vantagens advindas ou alcan­ çáveis. Pela ignorância do que doutrinariamente se opõe à posição dos opressores e (sejam eles hieráticos. excluindo o dever-ser ético. 1) Perturbando a inteligência pela ignorância e até pela nesciência. Não é mister dar exemplos históricos. que aceite a autoridade opres­ sora como a que melhor convém à sociedade. factores do acto humano pleno.

pois esta tem-na até os animais. Por essa razão. dentro dos limites que não põem em risco seus interesses. tornam-na suspeita. como o pássaro solto da gaiola conhece a liberdade de exercício. o que comumente se chama livre arbítrio. Pode-se visualizar a História do ângulo do que se con­ siderou a liberdade. ou. explorados pelo nazismo. Nem a liberdade de exercido deve ser confundida com a liberdade de juízo. Não deveríamos chamá-la Uberdade. A liberdade não tem limites. 5) Explorando o medo e seus derivados. E frases como estas são argumentos que não admitem contra­ dita. essa é ilimitada. dos possuidores do kratos social). um producto determinado e condicionado por factores que o ultra­ passam o que o dominam. Na ver­ dade. podeis divertir-vos. porque desejamos que se use essa palavra sa­ grada apenas para o que realmente é. Também eles podem di­ zer aos seus dominados: sois livres. A liberdade é um pre­ conceito dos outros. os da casta vencida. dizem os opressores. Na verdade dizem: tendes liberdade para nos apoiar. limitam-na dentro das suas crenças. Sempre é odioso o po­ der quando exercido pelos outros. e para fazer tudo quanto não nos ponha em risco. somos o que é a nossa História. os empresários económicos. e co­ mer (tendes pão e circo). 7) Considerando esta ainda de um dos modos: a) que a liberdade de um ser humano é limitada pe­ la liberdade alheia. a liberdade de escolha. foi essa liberdade que vos levou à escravidão. "Foi essa liberdade que per­ mitiu que sofrêsseis as perseguições dos inimigos estran­ geiros. Essa liberdade é sempre negada e suspeitada. O escravo ao qual se quebraram as algemas e a que se diz: és livre. e por todos os limites que se lhe são naturais. somos o que é o nosso partido. dizem. consistindo apenas na li­ berdade de exercício do acto económico. ou apenas . porque o homem é apenas um facto cósmico e. Se os primeiros. 6) Instaurando a violência contra a liberdade. Essa palavra é suspeita. O animal pode estar solto de peias. não conhece ainda a liberdade de que falamos. E esta é a segunda. a que constitui o acto humano.390 MÁRIO FERREIRA DOS SANTOS FILOSOFIA E HISTÓRIA DA CULTURA 191 capacidade realizadora. somos o que são os nossos esquemas". que é um preconceito aristocrático. E temos: b) a negação da liberdade. e os cesariocratas. instaurando o terror como meio de viciar toda e qualquer manifestação volitiva. porque a sua acção é ética. "Somos o que comemos. porque ela lhes é negativa e oposta. E eles sabem dis­ so. Não há ditado mais falso que este. Cada um a acentua. a Uberdade de arbítrio. so­ mos o que é o nosso povo. somos o que são as nossas vísceras. Essa liberdade permitiu aos poderosos (os outros. então. como o foram a Inglaterra e a Fran­ ça). o lucro. a negam. induzindo aos outros que é ela apenas uma ilusão filosófica. podeis locomover-vos pelas vias públicas. somos o topos em que vivemos. Essa li­ berdade conhece limitações. mas compre­ ensíveis dentro do contexto da História. a proclamam. mas os ce­ sariocratas não a proclamam. e a ela se emprestam os mais ridículos caracteres. E que mais ainda fazem ? c) Acentuam a suspeita. Esta não se limita na de ninguém. E continuam exclamando que é sempre odiosa a exploração exercida através do kratos político pela casta que fora do­ minante e que está agora vencida. que é um preconceito dos empresários económicos (hoje batizados com o nome medievalista de burgueses). porém. Essa liberdade é limitada pe­ los interesses "sagrados" do Estado (que é de posse dos dominadores. Esta não tem limites na liberdade de outrem. é a constituinte verdadeira do acto humano. ela não existe. esquematismos que nos explicam os complexos de su­ perioridade alemã. não é algo que se limita. Por isso não é de admirar que alguns a considerem apenas uma façanha da liberdade. até que os últimos a ne­ gam totalmente. Contudo. mas a de exercício sim. se os aristocráticos a proclamam. que perderam o kratos político em favor da nova). e não promove restricções a quem quer que seja. Um acto de liberdade não deve ser confundido com um acto livre. não se pode di­ zer que conheça a liberdade humana. se os empresários económicos a procla­ mam. somos o que é a nossa raça. Os aristocratas dizem que é um pre­ conceito dos hieráticos. A liberdade de exercício até os opressores a dão. Essa liberdade é a inimiga dos poderosos. é livre. que proíbem toda divergência. podeis aplaudir-nos e bater palmas aos nossos ac­ tos. mas a segunda. Há uma escala descendente acentuada. que exercessem seu domínio e sua exploração sobre vós". consequentemente. fazem-no dentro de limites. limitam-na dentro dos seus esquemas de casta. os hieráti­ cos. Não é essa.

teria.192 MÁRIO FERREIRA DOS SANTOS os capítulos da luta entre a liberdade e a opressão. que tratamos aqui por alto. . possamos concrecionar tudo no exa­ me das realizações humanas (a cultura e a civilização em seus sentidos mais amplos). como tinha de acontecer. Encerramos aqui um exame sintético do acto humano. não passou. colocava-o no campo do profetismo. de provocar a ira de todos os que julgam que a sua nação leva o facho do progresso para a frente. A TENSÃO CULTURAL Grande foi a repercussão que teve em quase todo o mun­ do o livro de Ostwald Spengler. pois só aquela nação seria capaz de impedir que nosso ciclo cul­ tural descambasse pela via inclinada da degenerescência. já que. iniciar o exame ana­ lítico. Ao lado das palavras de aplauso e de incontido entu­ siasmo que a obra provocou. de provocar muitas controvérsias e não poucas objecções. já não dizemos algo melhor. porém. Suas primeiras palavras: Neste livro se empreende pela primeira vez o intento de predizer a História. para que. contudo. e só então os orgulhosos historiadores da França tomaram conhecimento. provocou. afinal. um tanto despectivamente. a maior até então lançada neste século. sobretudo por parte dos especialistas. principalmente daqueles que não foram capazes de fazer. "Der Untergang des Abenálands" ("A Decadência do Ocidente"). o aristocrático. publicado logo após a Grande Guerra de 1914-18. seguindo nosso método. naturalmente. Mas tudo isso já são águas passadas. o empresário utilitário e o servidor). esta matéria. grande despeito. contudo não abrangem toda a po­ sitividade da História. o que permaneceu vivo e está a desafiar a in- (1) Examinamos em «Filosofia da Crise» os quatro períodos de cada ciclo cultural. apenas após a Grande Guerra de 1939-45 foi a sua obra vertida para o francês. auda­ ciosamente. mas nem de leve algo que a ela se assemelhasse. da obra do pretencioso germânico. elevaram-se logo outras que procuravam menoscabá-la. que embora traduzido para todos os idiomas cultos. propunha novas soluções aos estudos sociais. Saudado por muitos como uma obra monumental. O livro de Spengler tinha. Con­ tudo. O que. Podemos agora. Há po­ sitividade nessas posições. e como afirmava que a derrota da Alemanha era a abertura de uma decadência inevitável. que é o tema principal desta obra (1). volverá a ser tema de estudo mais aprofundado nos volumes que se seguem. Foi tal a reacção que o livro de Spengler provocou. com os seus estamentos correspondentes (o hie­ rático.

e as contribuições posteriores de ou­ tros autores. que há uma relação de dependência real do pre­ sente para com o passado. uma ^ova síntese. e algo que. e tam­ bém no exame da História. Vamos dispensar a acusação de ter êle tratado de História. para que se aquilate a grande contribuição que ofereceu. No primeiro caso. o de que algo depende realmente para ser. ou melhor . mas hipotética. as pessoas repetem tipos. Nada melhor para precisarmos os problemas colocados. Reconhece que sempre se teve consciência. quando devera — assim o afirmam muitos — permanecer apenas no campo histórico. de Sociologia. Cbncluir-se daí que o que sucede. alçar novos passos em busca de outros. já concreta. Ao estudar Napoleão. no segundo. estaremos suficientemente dispondo de elemen­ tos para iniciarmos o estudo das "tensões culturais". e teríamos a necessidade hipotética. em saber se há essa relação de causali­ dade. E para tanto es­ tabelece o seguinte: "O meio pelo qual concebemos as for­ mas é a lei matemática. Há entre eles algo que se repete. essa necessidade inflexível deverá ser dada previamente. Qual das duas respostas é a de Spengler? Inicia êle por uma pergunta nova: é possível descobrir. e que as idades. ama­ nhã. velhice e morte. a estas mesmas horas. foi uma sequência de problemas histó­ ricos que Spengler colocou. mas predizê-la até. de Estética. as situações. as épocas. se ocorrer. poderá estar sentado ou não à mesa de trabalho. teríamos a necessidade inflexível de algo já previamente determinado. de cujo tema trataremos mais adiante. para êle. poder-se-iam encontrar as causas que o determinaram a estar sen­ tado. Mas. O ser que não depende realmente de qualquer outro para ser. de degrau em degrau. O não se ter compreendido a diferença entre a necessidade absoluta e a necessidade hi­ potética foi a causa de lamentáveis erros na Filosofia. grande parte deles já propostos por Nietzsche. Esquecem muitos que o especialismo não é uma novidade da nossa época. num requinte de perdulário. e tantas outras coisas. João. após essa análise. de Política. e é estabelecer o fa­ talismo na História. neces­ sariamente tem uma causa. Assim. A pergunta fundamental de Spengler é: há ou não uma lógica na História? A admissão de uma lógica. todo ser que não tem em si sua única razão de ser. A dependência real neces­ sária é um axioma filosófico de todos os seres finitos. maturidade. a chamada necessidade hipotética. e lançar os olhos a Alexandre. de Mate­ mática. seria a afirmativa imediata de que há um nexo dos acon­ tecimentos. sobrevenha. 4). Tudo quanto acontece na His­ tória encontra uma causação que lhe dá um nexo de necessi­ dade. depois. para que. de Economia. distinguimos a polaridade e periodicidade do mundo. na própria vida dos ciclos históricos. ou se há uma causação da His­ tória. se­ ria um ser que sempre existiu. juventude. representa uma fase analítica que deve sobrevir desde o momento em que se postulam teses sintéticas. Mas. uma sucederá inelutável e fatalmente. no genuíno sentido que se pode dar ao termo causa. somos levados a visualizar César." (Ostwald Spengler "Der Untergang des Abendlandes". sucede inevitavelmente. Deste modo. já que pretendia não só inter­ pretar a História. Mas a necessidade pode ser visualizada como algo que decorrerá necessária e inevitavelmente. não se dará o mesmo nos ciclos culturais? Não haverá neles cer­ tas protoformas biográficas universais? Estará extinguindo-se a cultura ocidental? Como po­ deremos responder a tantas perguntas sem que primeira­ mente saibamos o que seja cultura? É esse o roteiro que êle vai seguir. é a humana. O meio pelo qual compreendemos as formas vivas é a analogia.194 MÁRIO FERREIRA DOS SANTOS FILOSOFIA E HISTÓRIA DA CULTURA 195 vestigação moderna. se estiver sentado. e. de onde possa. permitindo assim que. portanto. Considerando-se que a História. a pergunta oinge-se. Ora. que lhe interessa. para afir­ marmos que inelutável e inflexivelmente êle estará sentado amanhã a estas mesmas horas. necessariamente depende realmente de outro. de Música. é afirmar que entre as possibilida­ des contraditórias (estar sentado ou não estar sentado). atinja a humanidade a alguns patamares. de Jardinagem. do que uma síntese das ideias fundamentais do famoso filósofo-historiador alemão. Após esse exame. obedecendo a mesma lei da alternância. pág. os estágios pelos quais terá de passar e encontrar neles uma ordem que não admita excep­ ção? Assim como todo ser orgânico tem um ciclo que inclui nascimento. que o núme­ ro das formas na História foi limitado.

e os grandes banqueiros do tempo de César foram comparados aos yankees. da Dramática. teve-se o senso de um certo paralelismo na His­ tória. o fim que persegue a imaginação. con­ tudo. afirma êle. Para os gregos. O próprio Pe­ trarca pensava em Cícero ao se referir a si mesmo. Para essa última espécie de consciência. Compreender o universo como história é elaborar uma oposição ao universo como natureza. da mate­ mática dos hindus. ordenando as coisas se­ gundo um plano. porque há História para todos. há a necessidade que une causa e efeito. da Técnica e até da escolha dos materiais. lembramo-nos também de quantas vezes afir­ mamos que ela se repete. e o que estabelece a experiência em suas análises práticas. e os jacobinos cha­ mavam a si mesmos de romanos. cit. da fórmula e do sistema. A Convenção francesa falava em Cartago quando se referia à Inglaterra. não há his­ tória universal. Nesta predo­ mina a lógica do espaço. A desgraça de Carlos XVI da Suécia foi levar sempre em seu bolso a Vida de Alexandre. "natureza é a forma na qual o homem rias culturas superiores dá unidade e significação às impres­ sões imediatas de seus sentidos. que conexionam todas as formas de uma cultura. Ninguém antes dele empreendera com seriedade o es­ tudo das afinidades morfológicas. Quantas vezes foram comparados os pequenos estados do Renascimento com as cidades gre­ gas? Contudo. A cultura antiga não tinha memória no sentido que a têm os ocidentais. Florença foi comparada a Atenas. comparava-se ao imperador Adriano. caindo no mítico. Não se trata mais de relatar os factos históricos como um pedaço de física disfarçada. distingue o conjunto das for­ mas do conjunto das leis.. e sentir a vida como algo completo. não existe o universo como História. e até antes dele. Para responder essa pergunta é mister anteriormente responder para quem há História. E por que tais coisas têm acontecido? Porque os que comparam têm se deixado arrastar mais pelo gosto. estamos muito longe de possuir uma técnica da comparação. ou entre a perspectiva do espaço. Cristo a Buda. nem tampouco se preocupou profundamente com o sentido da Lírica. a sua origem já se fundia com a lenda. como acontecia com os gregos. por preferências insofis­ máveis. História é a forma em que sua imaginação trata de compreender a existência viva do universo com relação à sua própria vida. escrita por Cúrcio Rufo. mas de desvelar o que através da sua aparência eles realmente significam. nesta. como se encontra na Física. E pergunta: quem sabe que existe uma profun­ da conexão formal entre o cálculo diferencial e o princípio dinástico do Estado de Luís XIV. dos gregos e dos europeus. Naquela. an­ tes de morrer. precisivo. na pintura ocidental. págs. Compreende êle que se encontra em face de uma tarefa difícil. que se estende por séculos ou milé­ nios. Quando nos lembramos dos que dizem que a História não se repete. enquanto na História predomina a lógica do tempo. Com Alexandre Magno. Distingue êle a impressão orgânica da impressão me­ cânica que o mundo nos dá. a realidade singular. Ninguém penetrou no mais pro­ fundo das significações da arte da ornamentação. Mas os ho­ mens do ocidente) têm um sentido mais profundo da His­ tória e também da distância que se desenvolve desde o nas­ cimento de Cristo. ou entre a antiga forma política da Polis (cidade grega) e a geometria euclidiana. e a superação do espaço por estradas de ferro. e tam­ bém Cecil Rhodes. porque se trata agora de construir uma filosofia do futuro. e César já se considerava descendente de Vénus. que se perde totalmente. da possibilidade geral. Essa pergunta é apa­ rentemente paradóírica. e isso é demonstrado pelas com­ parações sem nexo que se têm apresentado. dos árabes. É o homem capaz de constituir essas formas? Qual delas é a que predomina em sua consciência vigilante?" (Op. Desde os paralelos famosos de Plutarco. sem dúvida. há uma grande diferença entre viver sob a impressão contínua de que a própria vida é um elemento de um ciclo vital muito mais amplo. telefones e armamentos. Para Spengler. ou entre a música instrumental contrapontística e o sistema económico do crédito? Não se trata de encontrar na História uma relação de causa e efeito. a imagem e o símbolo. é a His- . que têm levado a comparações superficiais. 10 e 11). A ausência desse conceito da História intemporaliza a visão do passado.196 MÁRIO FERREIRA DOS SANTOS FILOSOFIA E HISTÓRIA DA CULTURA 197 repetem eles um tipo. emprestando-Ihe assim uma realidade mais profunda. há a necessidade orgânica do destino. a única que acha êle possível no terreno já exausto da metafísica ocidental.

o basalto. quando muito. pelo menos na intensidade com que outros povos a ela se dedicaram. atingiu um ponto culminante. parece-nos impossível que outrora ali vivera. cria­ ção da alma germânica. nem a dos povos mesopotâmicos. e sempre nova. não entra a História do Egito com as suas fases. antiguidades. Na verdade. Quão estranhas e distintas as preocupações do europeu em relação às do hindu. fazendo com que a personalidade. e assim é o homem. com uma piedade comovente. É o homem do ocidente que tem o sentido mais profun­ do da História. assim também cada vegetal tem suas próprias flores e seus pró­ prios frutos. coleccionava moedas. por ser um esquema mes­ quinho e carente de sentido. muitas matemá­ ticas. Os gregos pouco conheciam o calendário. em que o passado se desvanece. anteriores aos helenos. como Schliemann. atingem a juventude. como material plástico. Também é "ahistórica" a alma hindu. mas uma excepção. Atribui Spengler essa criação tripartida da História ao espírito semítico. Hoje. murcham e não revivem nunca mais. o hindu tudo esquecia. Preferiam ler Homero e não escavar as ruínas de Tróia. cresce. que êle realiza o ponto final do desenvolver do homem. o que não se verifica entre os egíp­ cios e os babilónios. o mais alto que o homem atingiu. como foram a egípcia e a grega. e nos afirmam que não são mais. diferentes umas de outras. Em oposição aos símbolos vitais egípcios. na an­ tiguidade grega. muitas músicas. não cres­ cerá continuamente. que germinada com os elementos extraídos da terra e da atmosfera. o corpo dos mortos se eternizava. ao seu apogeu. o Ka. adquirisse uma duração £em fim. uma civilização que floresceu. como esse. os gregos viviam os mitos. que ressoa noite e dia nas inúmeras torres da Europa. e vemos as margens do Nilo habitadas por um povo fellah. deixando apenas o testemunho de sua grandeza nas ruínas que nos lembram o que foram. Uma semente. sem nunca estacionarem em seu caminho. O Egito transforma-se num grande museu. manuscritos. passam pela infância. É no ocidente que se realiza o mais estupendo dos in­ ventos humanos. O primeiro con­ siderava o passado e o futuro como a totalidade do seu uni­ verso. que germinam. a maturidade. É o orgulho do euro­ peu que quer transformar a História na sua história. sua duração determinada. As culturas também são assim. Enquanto o egíp­ cio recordava tudo. Surgem culturas com suas possibilidades de expressão. no ocidente. O oci­ dental sente o mundo como algo que vai sendo. Irrompe Spengler contra a classificação de Idade Anti­ ga. teria de escolher o granito. e a múmia é o grande símbolo. e o presente era apenas o limite entre lonjuras inco­ mensuráveis. não quanto à História Universal. cada uma encerrada em si mesma. enquanto cutras crianças surgem e vivem ou não o mesmo ciclo. Não é de admirar que tenham mui­ tos a impressão de que vivemos uma ascensão. a velhice e morrem. afirmando o sentido histórico do Univer­ so. o que não se verificava entre os micenianos. como se acaso fossem de mínimo valor os grandes acontecimentos que sucederam com outros povos longínquos. assim são os animais. Assim são as árvores. enquanto o grego sentia o Kosmos como algo que é. quando olhamos as ruínas de Atenas. sua figura. Poderia valer quanto à do ociden­ te. e que repre­ sentamos agora um ponto elevado. também não há uma astronomia hindu. Nessa classificação. para depois cair e desaparecer no pó do deserto. vibrante. numa progressão sem­ pre a mesma. da direcção. o relógio. Que significação terá para o árabe o super-homem de Nietzsche? Que significariam para o hin- . pois aqueles não se dedicavam à astro­ nomia. pois. Petrarca.198 MÁRIO FERREIRA DOS SANTOS FILOSOFIA E HISTORIA DA CULTURA 199 tória como um presente puro e a sua arte é uma negação do tempo. E assim sucede com todas as coisas da vida. símbolo terrível do tempo. o costume de queimar os mortos. impedindo-nos de ter uma visão mais justa da História. temos. com uma duração limitada. Um dia chegará. em pleno desen­ volvimento. Seus documentos são talhados em pedra. tornando-se um arbusto e depois frondoso carvalho. ou as pirâmides e os restos dos templos egípcios. Os gregos queriam mitos e não história. e depois partirá para o descenso até à destrui­ ção final. por meio dela. amadure­ cem. O orgulho do europeu quer dar a entender que êle representa a fina­ lidade de toda a História. Muitas plásticas. distintas umas de outras. No entan­ to. Um povo. Todos sabemos que um organismo tem seu ritmo. muitas físicas. Idade Média e Idade Moderna. Não é êle uma regra. a humanidade não envelhece. Há sem­ pre novos seres que nascem. seu tipo de crescimento e de decadência. que sofre as influências da classificação de Daniel.

os romanos civilização. A urbe imensa. En­ quanto aquela é criadora. cit. Os gregos tinham cultura. o circo romano é civilizado. Spengler pergunta: que é civi­ lização? Civilização é o inevitável destino de toda cultura. o esporte" (op. tudo isso é património ex­ clusivo do homem cerebral das grandes urbes. Mário. "E a arte? E a Filosofia? Os ideais da época de Platão e de Kant valiam para uma humanidade superior.. Suas palavras: "a expansão é tudo". Na civilização já não se luta por ideias. portanto. em geral. com a veemência de um destino. ocidental. pág. por exemplo. considero Cecil Rhodes como o primeiro político de um futuro longínquo. o torneio. dá-lhe as intenções que êle mesmo lhe empresta. Strindgerg e Shaw. consiste numa gradual dissolução de formas já mortas. A retórica na antiguidade. não uma fase culta.. termina por dominar o campo. É um final irre­ vogável. excitações e dores. a metrópole. Qual a característica que nos indica a passagem da criação cultural para a civiliza­ ção? Uma série de escândalos e o avassalamento da cor­ rupção. Dois conceitos formam toda civilização: cidade mundial e província. com íntima ne­ cessidade (op. Assim. ao que se chega sempre de novo. à civi­ lização. da natureza. com suas fórmu­ las de luta pela vida e de selecção. pág. tão contrárias a Goethe. É uma época de falsos esti- . mas por interesses económicos. profeticamente. próximos parentes por sua origem. A civilização é o grande final. É o remate. mas é assim que Spengler o emprega. esta apenas vive dos productos que aquela realizou. Uma cidade. a civilização é representada pela cidade. mas o seu poder é representado pelo dinheiro. o conjunto dos modernos anelos. O socialismo e o darwi­ nismo. "O imperialismo é civilização pura. 41). O homem culto dirige sua energia para dentro. ex­ pressados na lírica de Baudelaire e na música de Wagner. no dórico e no gótico — como decrepitude espiritual e a urbe mundial petrificada e petrificante. O homem ocidental vê a história através dos seus óculos. nossa época civilizada está no século XIX. Mas os ideais do helenismo e da época actual só existem para o habitante da grande urbs. o periodismo na época mo­ derna representam ambos a civilização. particularmen­ te. É verdade que não é frequente empregar assim o termo civilização. A civilização abre as portas ao cesarismo. mas êle mesmo dizia. à evolução como o anquilosamento. O destino do oci­ dente condena a este a tomar o mesmo aspecto. compendia toda a vida de extensos países. Civilização é o extremo e mais artificioso estado a que pode chegar uma espécie superior de homens. e a civilização é o producto. No tempo de Spengler. en­ tre os romanos. Para o homem cerebral não há mais que possibilidades expansivas. Em todos os países processa-se essa passagem. o civilizado para fora. diversos até. tudo isto é inexistente para o sentimento do homem da aldeia e. nessa mesma construcção napoleônica. Estes dois conceitos fundamentais de toda civi­ lização colocam agora para a História um novo problema de forma. como a França é Paris. à vida como a morte. e à proporção que a cidade domina. A civilização pura. A palestra grega é culta. alemão. germânico e. ao campo e à infância das almas — que se manifesta. quando a nossa civilização principia. forma o cesarismo romano anunciado em Caio Flamínio. Por isso. A época actual é uma fase civilizada. que dia viria em que os socialistas.200 MÁRIO FERREIRA DOS SANTOS FILOSOFIA E HISTORIA DA CULTURA 201 tíu os dramas de Sófocles? E caso teriam signifiçado para o asteca os problemas que Ibsen colocava? São mundos di­ ferentes. À cultura corresponde a ginástica. como processo histórico. o já feito. Ao chegar a este ponto. as tendências impressionistas de uma sensibilidade anárqui­ ca. de espírito forte e de grande capacidade que ori­ entam a sociedade. A cultura é o produzir-se de uma alma. Para êle. su­ cede à acção criadora como o já criado. 46). assim como o século IV. a tendência mais ca­ racterística de toda civilização madura" (ibidem). um ponto. os problemas femininos e matrimoniais — também afins entre si — que se encontram em Ibsen. farão da expansão seu principal veículo. passa-se da cultura grega para a civilização. * . o certame agonal. marcou o início da sua civilização. como a cultura o é pelo campo. nos gregos. cit. encerram. de formas que se tornaram inorgânicas. o socialismo rechaçava a expan­ são. É o poder do dinheâro nas mãos de homens eficazes. A Inglaterra é Londres.

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los, de mentirosas ideias. Contudo, não podemos nos opor ao destino da História. Não há verdades eternas, e toda Filosofia é apenas a expressão do seu tempo. Não há duas épocas que tenham as nesmas intenções filosóficas, embora nas minudências académicas possam transparecer aparen­ tes repetições. Um filósofo, cuja doutrina não influi na vida, não é nunca de primeira plana. Platão dedicou-se também à po­ lítica, e Pitágoras organizou uma liga. Os pré-socráticos eram homens de negócio e políticos, e homens de Estado fo­ ram Kuantse e Confúcio. Também o foram Parmênides, Hobbes, Leibnitz, etc. Se Lau-Tseu, na China, opôs-se à po­ lítica e pregou a formação de pequenas colectividades agrá­ rias, é que êle representava já o ancien regime da China, uma excepção. Quem pode negar que estamos tão longe do romantismo do século passado? Talvez estejamos mais próximos dos romanos do cesarismo. Nossa época já volveu as costas ao romantismo. Após Platão e Aristóteles, sobrevêm uma filosofia ur­ bana, não especulativa, mas prática, irreligiosa e ético-social. "Essa filosofia, que na civilização chinesa correspon­ de às escolas do "epicureu" Yang-chu, do "socialista" Modhsi, do "pessimista" Chuang-tsi, do "positivista" Meng-tse, e na antiga aos cínicos, cirenaicos, estóicos e epicureus, come­ ça no Ocidente com Schopenhauer, que foi o primeiro que pôs no centro de seu pensamento a vontade de viver — força criadora da vida — " (cp. cit. pág. 60). A sua própria fi­ losofia considera uma concepção civilizada, válida para a sua própria época. Spengler também se coloca dentro de um relativismo histórico. É êle que expressa: "No pre­ sente livro, intentamos realizar um apanhado dessa "filoso­ fia afilosófica" do futuro, a última do ocidente europeu. O cepticismo é a expressão de uma civilização pura; decompõe a imagem do mundo que nos legou a cultura passada. To­ dos os velhos problemas se dissolvem na investigação das géneses. A convicção de que todo o real é um producto, de que todo o cognoscível, que nos parece natureza, procede de algo histórico, o mundo, enquanto realidade, de um eu en­ quanto possibilidade, que naquele se realiza; o conhecimento de que não o "que", mas também o "quando" e o "como" encerram um profundo segredo, nos conduz ao facto seguin-

te: tudo o que fôr deve ser também expressão de algo que vive. Os conhecimentos e as valorações são também actos de homens vivos. Para a anterior filosofia, a realidade ex­ terna era um producto do conhecimento e uma ocasião de valorações éticas; para a filosofia deste estágio final, a rea­ lidade é, antes de tudo, um símbolo. A morfologia aa His­ tória universal converte-se, necessariamente, numa simbó­ lica universal" (op. cit. pág. 61). Para êle, não há verdades universais e eternas. As verdades são apenas relativas a determinado tipo humano. A sua filosofia também o é. Spengler sente-se também co­ mo um producto da sua própria época. Seu pensamento es­ tá cheio de erros filosóficos fundamentais, e muitas das suas interpretações históricas ressentem-se de defeitos, en­ quanto muitas apreciações, comparações e valorações tam­ bém apresentam vícios. Contudo, não se pode negar o valor extraordinário que sua obra tem, nem o papel que ela re­ presentou no desenvolvimento do pensamento moderno. Oportunamente teceremos comentários, não só às afirma­ ções que aqui compendiamos, mas também a outras esparsas por sua obra. O que por ora nos interessa frisar é ter sido êle hábil em salientar o sentido tensional de um ciclo cultural, o ter captado certa analogia vital que uma cultura oferece, que forma ela uma totalidade, uma unidade, com suas possibili­ dades intrínsecas e QKtrínsecas, um hólos (um todo) não de mera agregação, mas com uma normal que predomina e di­ rige todos os acontecimentos, que para êle é o Sicksal, o des­ tino da cultura. Esta se realiza segundo a sua natureza. E esta revela possuir uma coerência, um determinado grau de coesão. Vive como um organismo, com seus períodos e suas fases, nasce, cresce e perece por si mesma ou por acção exterior, pela destruição efectuada por povos de outras cul­ turas. A positividade do pensamento de Spengler é esta: culturas como a grega, a egípcia, a hindu, a chinesa, a oci­ dental constituem unidades tensionais, entidades com sua natureza própria, que realizam suas possibilidades vitais, submetidas à normal imposta pela totalidade. E assim como um organismo vivo contém em si suas disposições prévias corruptivas, também as contêm as culturas. E a sua deca­ dência se processa pela acção interna desses poderes corruptivos, inevitavelmente. Uma cultura tem um conjunto de

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possibilidades que, realizadas, encerram o seu ciclo, e, con­ sequentemente, ela perece, após um período de longo entar­ decer. Essa doutrina de Spengler tem certa adequação com os factos históricos, e é comprovada por eles. E em defesa do que há de positivo em sua obra, apresentamos a seguir novos argumentos, novos factos e novas demonstrações. Contudo, não permanecemos circunscritos ao pensamento pessimista e relativista de Spengler. Há outras positividades que êle não considerou e que outros filósofos da Histó­ ria captaram. Façamos primeiramente a colheita dessas positivddades e, finalmente, mostremos que todas elas consti­ tuem aspectos da concepção concreta da História, como nós a estabelecemos, e que é uma decorrência rigorosa da filoso­ fia concreta, que nós, num país de mentalidade ainda colo­ nialista, tivemos a audácia de construir, imperdoável para os subservientes ao pensamento alheio, os catalogados nas classificações estranhas, que não toleram que alguém, nes­ ta terra, cometa o despautério de pensar com a própria ca­ beça. Mas acontece que, no nosso caso, o pensamento não é apenas exposto. É demonstrado, e o é de modo mais ri­ goroso, por meio de juízos apodíticos, necessariamente vá­ lidos, que desafiam toda controvérsia e toda oposição.
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Escreve Spengler: " . . . querer tratar a história cien­ tificamente é, em última instância, uma contradição. A au­ têntica ciência chega até onde alcança a validez dos conceitos verdadeiro e falso. Assim, a matemática; assim também a ciência preparatória da história: coleções, ordenamento, dis­ tribuição do material. Mas a visão histórica, propriamen­ te dita, começa onde termina o material e pertence ao reino das significações, onde os critérios não são já a verdade ou a falsidade, mas a profundidade ou a mesquinhez. O autên­ tico físico não é profundo, mas "sagaz". Só quando aban­ dona o terreno das hipóteses metódicas e penetra nas coisas últimas pode ser profundo — mas, então, já não é físico, mas metafísico —. A natureza deve ser tratada cientificamente; a história, poeticamente. O velho Leopoldo von Ranke disse uma vez, segundo referem, que o Qumtin Durward, de Walter Scott, representa a verdadeira historiografia. E, com efeito, assim é; uma boa obra histórica tem a vantagem de

oue o leitor pode ser seu próprio Walter Scott" (op. cit. T. 1, pág. 129). Como todo legítimo romântico, Spengler é um seductor. Êle não demonstra com o rigorismo que deseja o verdadeiro filósofo, mas revela o que pensa com o feitiço das belas frases. Não nos alinhamos ao lado dos que desejam des­ merecer a obra de Spengler, porque seria indisfarçável to­ lice, nem tampouco nos colocamos ao lado dos seus enfeiti­ çados. Negar-lhe valor seria insensato, descrer do seu gran­ de papel seria injustiça. Sabemos que muitas vezes a bele­ za estética e o achado intelectual e belo podem suavizar a aridez de uma obra de ciência, mas sabemos também que a eloquência, aqui, pode apenas disfarçar uma fraqueza. Spen­ gler, na verdade, abriu um novo roteiro para os estudos his­ tóricos, que começam agora a libertar-se da mera descrição dos factos, para buscar um sentido, uma significação, que apontará, inevitavelmente, para algo mais longínquo. Se­ ria ingenuidade pensar que já alcançamos um ponto capaz de dar aos estudos históricos a precisão que a matemática pôde dar à Mecânica. Estamos num campo heterogéneo e cheio de imprevistos e toda formulação definitiva peca por temeridade. Contudo, o que êle fêz foi abrir um novo ca­ minho que tentou seguir, convidando outros a acompanhá-lo, embora dele se afastem em busca de roteiros novos. Mas a direcção, sem dúvida, foi dada por êle. Não quer isso dizer que outros antes dele não tivessem também percebido que a História não deve ser apenas descritiva, mas o que se lhe deve conceder % o papel de ter sido o que empreendeu com maior vulto uma investigação de tais proporções. Para Spengler, o historiador verdadeiro é um virtuose, um homem de intuição profunda, o oposto ao sistemático e, sobretudo, ao abstractista tão típico das grandes urbes babélicas. "As culturas são organismos. A história universal é sua biografia" (ibidem, pág. 139). Não toma êle o termo orgânico em sentido unívoco com o das ciências naturais, mas numa analogia de atribuição bem acentuada. A cultu­ ra não é um organismo como um corpo, mas tem funções análogas às de um corpo vivo. "Distingo por uma parte a ideia de uma cultura, isto é o conjunto de suas interiores possibilidades, e, por outra, a manifestação sensível dessa cultura no quadro da história, isto é, sua realização cum-

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prida. É a mesma relação que mantém a alma com o cor­ po vivo, sua expressão no mundo luminoso de nossos olhos. A história de uma cultura é a realização progressiva de suas possibilidades. O cumprimento equivale ao término. Na mesma relação se acha a alma apolínea — que talvez alguns de nós possam sentir e viver de novo — com seu desenvol­ vimento na realidade, quer dizer, com esse conjunto que se chama "Antiguidade", cujos restos acessíveis à contempla­ ção e ao estudo inteligente investigam o arqueólogo, o filó­ sofo, o esteta, o historiador. A cultura é o protofenômeno de toda a história universal, passada e futura. Esta ideia do protofenômeno, tão profunda como mal apreciada, esta ideia que Goethe descobriu em sua "natureza vivente" e que lhe serviu de base para as suas investigações morfológicas, deve­ mos aplicá-la aqui, em seu sentido mais exacto, a todas as formações da história humana, às que chegaram à perfeita maturidade como às fenecidas em flor, às mortas no meio do desenvolvimento como às afogadas em g e r m e . . . Um protofenômeno é aquele em que se nos aparece, em toda a sua pureza, a ideia do devir. Goethe pôde contemplar cla­ ramente, com os olhos do espírito, a ideia da protoplanta na figura de uma planta qualquer, filha do acaso e até de uma planta possível... (ibidem págs. 140 e 141). E como surge, então uma cultura? "Ela nasce quando vma alma grande desperta de seu estado primário e se des­ prende do eterno infantilismo humano; quando uma forma surge do informe; quando algo limitado e efémero emerge do ilimitado e perdurável. Florece, então, sobre o solo de uma comarca, à qual permanece aderida como uma planta. Uma cultura morre, quando essa alma realizou a soma de suas possibilidades, em forma de povos, línguas, dogmas, artes, Estados, ciências, e torna a submergir-se na espiritua­ lidade primitiva" (ibidem pág. 142). Esgotadas as suas possibilidades, ela se anquilosa e morre. Contudo, ela rea­ liza um ciclo inevitável. "Toda cultura, toda época primiti­ va, todo florescimento, toda decadência, e cada uma de suas fases e períodos necessários, possui uma duração fixa, sem­ pre a mesma e que sempre se repete com a insistência de um símbolo" (ibidem, pág. 147). Pueritia, adolescentia, juventus, virilitas, senectus, esses conceitos latinos podem ser atribuídos também à cultura. É mister distinguir causalidade de destino (Schicksalsiâee ■-= ideia do destino, do fado) "A causalidade exige uma

diferenciação, quer dizer, uma destruição; o destino é uma triação. Por isso o destino se refere à vida, e causalidade à morte" (ibidem pág. 153). O destino pertence ao tempo, enquanto a causalidade pertence ao espaço. É mister dis­ tinguir a maneira sistemática de considerar a história de a maneira fisionómica. Há duas possíveis imagens do mun­ do, na história e na natureza, na fisionomia de todo o procluzir-se e no sistema de todo o produzido. Mas o produzir-se é o fundamento do producto. O destino é orgânico e não físico. O vivente é o irreversível, o indivisível, o sin­ gular. "Cada cultura tem a sua maneira de ver a nature­ za, de conhecê-la, ou o que é o mesmo: cada cultura tem sua natureza própria e peculiar, que nenhum outro tipo de ho­ mens pode possuir de igual forma. Da mesma maneira, também, cada cultura — e, nela, com diferenças de escasso valor, cada indivíduo — tem sua peculiar maneira de ver a história, em cujo quadro, em cujo estilo, intui, sente e vive imediatamente o geral e o pessoal, o interior e o exterior, •o devir histórico-universal e o devir biográfico. Assim, a tendência autobiográfica da humanidade ocidental, que já se manifesta por modo impressionante no símbolo da con­ fissão na época gótica, é estranha por completo aos antigos" (ibidem, pág. 171). Assim é impossível compreender ou­ tro homem, de outra cultura, se não tivermos conhecimento da essência da mesma. Daí os símbolos, que apontam a es­ sa alma, como o relógio, que é o grande símbolo do ocidente, como a múmia o é do Egito, e o pagode da alma chinesa, a ornamentação isiterior da alma árabe. Mas o destino e a maneira de colocar-se ante êle é distinta entre os homens das diversas culturas. O homem ocidental realiza sua história, realizando voluntariamente o seu destino, enquanto o hindu aceita o seu com resignação. Surge, assim, a necessidade de compreender-se o que seja o destino. Spengler parafraseia Santo Agostinho quan­ do se referia ao tempo :"si nemo ex me quoerat, seio; se quoerenti explicare velim, néscio" (se ninguém me pergunta, sei; se ao perguntante quero explicar, não sei). O destino não se explica; é algo que captamos em nossa profunda sensibi­ lidade; é uma kháris, uma graça, uma predestinação, uma ■sina. Entre o destino e o azar (acaso) se desenvolve a vi­ da humana. É o azar o sentido típico da tragédia de Sha­ kespeare, o trágico do azar, enquanto a tragédia grega era ■ do destino. Nos heróis gregos acontece o que está marcado a

o da constante possibilidade . Napoleão. . mas de estilo inglês. pois Aristóteles já havia precisado os conceitos destes termos. "Entrevejo um modo — especificamente ocidental — de investigar a História. como o sentiam Aristóteles e os escolásticos. no herói shakespeariano o que sucede são conjunções fortuitas de factos distintos e de origens diver­ sas. no mais alto sentido da palavra. pode uma cultura prever o roteiro que o destino escolheu para ela. tivesse servido a França. Nossa vida paira entre os dois. é mister examinar a História à luz das suas possibilidades. A História e a Natureza estão em nós contrapostas como a vida e a morte.208 MÁRIO FERREIRA DOS SANTOS FILOSOFIA E HISTORIA DA CULTURA 209 para acontecer. Os factos seguem-se uns aos outros. Vê-se que o conceito de ciência para êle é muito restricto e muito próprio do século XIX. na de Goethe e Kant: a fisionomia pura do mundo. e ter a mesma repercussão. Nós. que. a nature­ za. e sim Francisco I. Um sistema descansa sobre verdades. Na consciência vigilante lutam o produzir-se e o producto para obter a hegemonia sobre a imagem cósmica. e o sistema puro. que surgiram nessa época. mas de Paris. os ocidentais. as verdades seguem-se umas de o u t r a . cujas ideias o criaram. Calderón. afirma Spengler. um método que nunca até agora se manifestou e que permaneceu estranho. em seu curso. como César e Napoleão. termina com estas palavras. porém. porque nela é impossível estabelecer a segurança que encontramos. problema que apa­ rece prefixado por uma evolução secular de nossa alma. o que aquela desejava. Spengler se engana. O estilo eclesiástico fixado por Loyola. não teria recebido sua forma de Madrid. o único problema que ainda está reservado à senectude espiritual da cultura fáustica. Então homens como Felipe. É uma ampla fisiognomonia de toda a existência. sentimos a plenitude dessa oposição. entre o destino e o azar. Para que se compreenda o sentido do seu pensamento. tanto à alma antiga como a qualquer outra. não no sentido fatalista. e estabelecem os acontecimentos dra­ máticos. Nossa história é a história das grandes conexões. a História sobre factos. que foi o século XVI. cia da História. que permaneceram obs­ curos ou não-nascidos. que se conjugam. vista pela alma de um eterno menino. Se Colombo. realizava. "A história tem o carácter do facto singular. Os soldados de Napoleão lutavam por ideias de origem inglesa. que foi um concílio onde do­ minou o espírito dos jesuítas. Cervantes. no Concílio Tridentino. é impossível construir uma ciên1) Na verdade. Neste caso. e para a alma ocidental. . O império napoleónico é uma criação de sangue francês. Não teria surgido. Nenhuma cultura é livre para eleger o método e o conteúdo de seu pensamento. a necessidade t r á g i c a . na Inglaterra ou na Alemanha. uma morfo­ logia de todo o devir humano. fazendo-lhes a distinção que mereciam. que não podemos deixar de reproduzi-las. Aí é que está o trágico do grande corso. assim como a relatavam seus historiadores. que é o eterno producto. opondo-se à In­ glaterra. poder-se-ia ter dado em outra comarca e não na França. O destino é sempre jovem e os grandes homens. franceses. mas agora. é o problema de com- . Porque a História é o campo do destino.. enquanto a história antiga. pela primeira vez. na História. 203 a 205).. no continente. A forma suprema e mais madura dos dois grandes modos de contemplar a realidade — que só é possível nas grandes culturas — manifesta-se para a alma antiga na oposição de Platão e Aristóteles. teria tomado outro rumo. conhecido pelo intelec­ to de um eterno ancião" (ibidem págs. Na natureza domina a necessidade matemática. então. Alba. chega até às ideias mais altas e mais remotas. embora relativa. que é um producto daquela revolução. . em vez de servir a Espanha. não teria recebido a coroa imperial Carlos V. como o tempo que eternamente está produzindo-se e o espaço. não teriam obtido o renome que tiveram e sim outros. A Revolução Francesa. Velasquez. . e não o conceito clássico de um saber pelas causas e com demons­ tração. era apenas o conjunto de fac­ tos anedóticos. o século espanhol. Os gregos pouco distinguiam anankê (destino) e tykhê (azar) (1). mas no do fado. que. porque expressam claramente o seu pen­ samento e a sua grande contribuição para os estudos his­ tóricos : "E aqui vejo eu o último grande problema da filosofia ocidental. acreditavam em sua estrela. que sobreveio como uma neces­ sidade da desagregação da nobresa cortesã. embora não os mesmos nomes. como foi possível e até mais provável no início. E ao terminar o seu exame sobre o problema da História univer­ sal. nas ciências naturais.

no pensamento e nos costumes. das diversas almas culturais. as estradas de ferro e as vias romanas. é. que aparecem na face de uma cultura. págs. Aclaram-se agora muitas questões obscuras. Nada expressa melhor o romantismo de Spengler que estas suas palavras.os autorizam — a nós apenas — a matemática analítica. Já algu­ mas vezes se tentou penetrar na alma de um poeta. que uma alma representa para si mesma com significação. das causas primeiras. por igual. as artes. actualizar ambos sem excessos valorativos. o "progresso" e o nirvana. que cons­ tituem a base dos mais profundos sentimentos humanos: o terror e o anelo. é o que empreende a nossa concepção concreta da História. nas quais se manifestaram até agora gran­ des possibilidades e cuja expressão. Há uma música inaudita das esferas que quer ser ouvida e que ouvirão alguns de nossos mais profundos espíritos. cada deidade. Assim como é possível interpretar os traços de um retrato de Rembrandt ou do busto de um César. que o rodeia. para ver co­ mo é por dentro. da morte. e actualizando o que os unívoca. Todo o transitório é um símbolo". de um conquistador. de uma individualidade humana de ordem máxima. os periódicos. assim sentia Goethe. actualizando o que os distingue e os diferencia. que abre diástemas e aprofunda hiatos e até abismos entre os ho­ mens dos diversos ciclos. assim também esta nova arte consiste em intuir e compreender os grandes traços. os derviches e os darwinistas. co­ mo se a Humanidade fosse um género e os diversos homens. e para interpretá-lo é mister um conhece­ dor de homens num novo sentido da palavra. que será exposta mais adiante. considerando-o como uma unidade. na al­ ma egípcia. mas submergir-se na alma antiga. os altos fornos e os combates de gladiadores. os escravos. 205 a 207). culminados de destino. tu­ do o que existiu e existirá é um traço fisiognômico de supre­ mo simbolismo. mas de um que sinta dissolver-se o mundo sensível e palpável. as festas de ísis e Cibeles e a mifesa católica. mas de tôáas as almas. do amor. Todo o pathos romântico. Esta visão filosófica a que r. O fim não é outro que destacar sobre o tecido do acontecer univer­ sal um milénio de história cultural orgânica. questões que o afã de compreender disfar- çou com os nomes de problemas do tempo.210 MÁRIO FERREIRA DOS SANTOS FJLOSOFIA E HISTORIA DA CULTURA 211 preender o sentimento cósmico. para revivê-las com toda a sua expressão nos homens e nas situações típicas. e concebê-lo em suas mais íntimas condições espirituais. são as culturas particulares. cada grande figura. as máquinas. tudo. pressu­ põe algo muito superior ao talento do sistemático. Há aqui soluções e perspectivas que nunca foram vislumbra­ das. Spengler faz ciência co­ mo um romântico. toda valorização do irracional e do intuiti­ vo. na linguagem cósmica do passado. de um pensador. não só da própria alma. que acima reproduzimos. as cidades. Êle também é símbolo de uma época. . na religião e no Estado. as nações. Assim sentia Dante. Todo o perigo dessa ideia é o abstractismo que separa. da necessidade. Cada época. sinal e símbolo. e não de um artista qualquer. fossem suas espécies. as línguas. isto é. Poemas e batalhas. toda valorização do misterioso e do oculto e das enti­ dades heterogéneas e dos hiatos humanos vibram em suas palavras feiticeiras e seductoras. na alma árabe. no quadro da realidade. a música contrapontística e a pintura de perspectiva. Os românticos criam "homens" dentro do Homem. é uma nova espécie de "experiência da vida" que ninguém fêz até agora. o dinhei­ ro. de um profeta. A fisiognomônica do acontecer universal será a última filosofia fáustica" (ibidem. como uma pessoa. Não esquecer nem um nem outro. pressu­ põe o olhar do artista. do espaço. no estilo e nas tendências. numa profunda infinidade de misteriosas rela­ ções.

São Paulo . na Gráfica e Editora MINOX Ltda..Este livro foi composto e impresso para a Livraria e Editora LOGOS Ltda. à rua Mazzini n° 167.. em março de 1962.

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