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TEORIA DO JORNALISMO – CRITÉRIOS DE ESCOLHA DE NOTÍCIAS NOS JORNAIS AMAPAENSES

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TEORIA DO JORNALISMO – CRITÉRIOS DE ESCOLHA DE NOTÍCIAS NOS JORNAIS AMAPAENSES

TEORIATEORIATEORIATEORIA DODODODO JORNALISMOJORNALISMOJORNALISMOJORNALISMO

CRITÉRIOS DE ESCOLHA DE NOTÍCIAS NOS JORNAIS AMAPAENSES

IVAN CARLO ANDRADE

DE OLIVEIRA (coordenador)

CAROLINNE DE ASSIS SOUZA (edição final)

Pesquisadores

Márcia Corrêa - Hanne Capiberibe - Ana Girlene Elainne Juarez - Alyne Kaiser - Carla Rejane Gilfer Lopes - Jorai Gurjão - Marilã Coutinho Marcelle Corrêa - Simone Nunes - Miriam Narjara Andréia Roseliz - Indiara Patrícia - Jamille Mira Maralene Araújo - Mary Lima - Michele Lobo Raimundo Reis de Lima - Nádia picanço - Lorena Kubota Ângelo Fernandes - Eliazar Bezerra - Jacinta Carvalho Jorge Cesar - Pedro David - Ana karina Sarmento leite Carolinne de Assis Souza - Dione Matos Amaral Alcicleia Cruz - Clarice Costa - João Augosto Flexa Pereira Odenice Serra - Ronelli Aragão - Cristiane Nascimento Lena Marinho - Marcione Rocha - Pérola Pedrosa Priscila Silva - Robenize Jucá - Romildo Souza

MACAPÁ JANEIRO DE 2003

TEORIA DO JORNALISMO – CRITÉRIOS DE ESCOLHA DE NOTÍCIAS NOS JORNAIS AMAPAENSES

INTRODUÇÃO , 7

SITE CORRÊA NETO, 15

FOLHA DO AMAPÁ, 27

DIÁRIO DO AMAPÁ, 35

DIÁRIO DO AMAPÁ, 45

TV AMAZÔNIA - BAND, 57

TRIBUNA DO AMAPÁ, 69

AMAPÁ NOTÍCIAS, 79

CONCLUSÃO, 87

SUMÁRIO

TEORIA DO JORNALISMO – CRITÉRIOS DE ESCOLHA DE NOTÍCIAS NOS JORNAIS AMAPAENSES

RESUMO

Entre as teorias que procuraram responder porque as notícias são como são, três se destacam. A teoria do espelho diz que a matéria jornalística é apenas um retrato fiel dos fatos. O jornalista é visto como um observador desinteressado e totalmente objetivo. A teoria gatekeeper argumenta que a subjetividade está na escolha dos fatos. Para essa teoria a reflete a subjetividade do jornalista. Para a teoria organizacional, as pressões da organização são mais importantes na escolha das notícias do que a vontade pessoal do jornalista. Este livro é resultado de uma pesquisa em jornais amapaenses, realizada por alunos de jornalismo da Faculdade Seama, tendo como base as três teorias acima. Objetividade, subjetividade, escolhas pessoais e pressões organizacionais se juntam em um livro essencial para entender o jornalismo amapaense.

TEORIA DO JORNALISMO – CRITÉRIOS DE ESCOLHA DE NOTÍCIAS NOS JORNAIS AMAPAENSES

INTRODUÇÃO

Ivan Carlo Andrade de Oliveira Coordenador da pesquisa

A questão central do jornalismo é porque as notícias são como são.

Dentre as várias teorias que tentaram responder a essa pergunta, três se destacam: a teoria do espelho, a teoria do gatekeeper e a teoria organizacional.

A teoria do espelho diz que as notícias são como são porque a realidade

assim o determina (Traquina, 2001, p. 65). Esse ponto de vista surge influenciado pela invenção da fotografia. O jornalista deveria ser como um fotógrafo: simplesmente relatar a realidade da maneira como ela se apresenta, sem qualquer intervenção subjetiva. Essa visão ganhou seu bordão com uma declaração de um correspondente da Associated Press, em 1856: “O meu trabalho é comunicar os fatos: as minhas instruções não permitem qualquer tipo de comentário sobre os fatos, sejam eles quais forem” (Read citado por Traquina, 2001, p. 66). Era a idéia-chave da separação entre as opiniões e os fatos. Ou, como diziam os ingleses, “a opinião é livre, mas os fatos são sagrados”. A teoria do espelho surge em um momento de vitória do paradigma positivista, que pretendia expurgar a subjetividade da ciência, criando metodologias totalmente racionais. Essa preocupação positivista se refletiu no jornalismo na forma de contraposição ao jornalismo literário, em que o jornalista era o porta-voz de uma ideologia (no caso, a ideologia burguesa, em um período em que essa classe ainda lutava para se firmar no poder). Também foi uma reação contra os excessos do chamado jornalismo sensacionalista. Segundo José Marques de Melo, no final do século XIX o jornalismo norte- americano havia deixado de ser um serviço para tornar-se um negócio altamente lucrativo: “Impôs-se o sensacionalismo como diretriz norteadora do funcionamento dos grandes jornais, que competiam entre si na conquista dos leitores. Os princípios éticos mais elementares, prescrevendo a conduta dos cidadãos numa sociedade puritana como a norte-americana, foram deixados de lado. Ocorreu então que, do ponto de vista jornalístico, a fidedignidade dos fatos deixou de ser o referencial para a difusão de notícias. Acontecimentos passaram a ser forjados ou artificialmente gerados, para criar reportagens sensacionais” (MELO, 1986, p. 99).

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Na teoria do espelho, o bom jornalista é um observador desinteressado,

que relata com honestidade e equilíbrio tudo que vê, cauteloso em não emitir opiniões pessoais.

A teoria do espelho é a bússola norteadora dos manuais de redação e das

regras de conduta dos jornais. Partia-se do princípio de que seguir as regras do bom jornalismo (escrever a matéria de forma impessoal, ouvir os dois lados da questão etc) era garantia de se ter um retrato fiel da realidade. De todas as teorias que se ocuparam da notícia, essa é talvez a mais criticada. Para começo, suas bases são frágeis. A analogia com a fotografia só demonstra a abertura para a subjetividade, pois mesmo a fotografia pode ser veículo de subjetividade. Roland Barthes já demonstrou que “o estatuto puramente ‘denotante’ da fotografia, a perfeição e plenitude de sua analogia, numa palavra, sua ‘objetividade’, tudo isso se arrisca a ser mítico (são os caracteres que o

sentido comum atribui à fotografia): pois, de fato, há uma forte probabilidade ( ) para que a mensagem fotográfica (ao menos a mensagem impressa) seja também ela conotada” (Barthes in: Lima, 2002, p. 328). Processos de conotação, como a trucagem, a pose, os objetos, a fotogenia e o estetismo, podem transformar a fotografia, dando-lhe um sentido puramente conotado e, portanto, subjetivo. Ademais, teorias cognitivas demonstram que o ser humano não consegue captar a realidade em toda as suas facetas e a escolha dos fatos que serão memorizados obedece a padrões subjetivos. Por outro lado, o filão de investigação que concebe as notícias como construção rejeita as notícias como espelho por diversas razões. Em primeiro lugar, argumenta que “é impossível estabelecer uma distinção radical entre a realidade e os mídia noticiosos, que devem refletir a realidade porque as notícias ajudam a construir a realidade. Em segundo lugar, defende a posição de que a própria linguagem não pode funcionar como transmissora direta de significado inerente aos acontecimentos, porque a linguagem neutra é impossível” (Traquina, 2001, p. 60). Embora o fato seja fator fundamental do jornalismo, sem o qual o mesmo não existe, há uma certa subjetividade e essa subjetividade se encontra na escolha dos fatos. Na escolha das notícias. Duas outras teorias vão tratar desse processo de escolha de notícias.

A teoria do gatekeeper, originalmente surgida no campo da psicologia e

adaptada à análise comunicacional por David Manning White nos anos 50, dá ênfase à ação pessoal. White acompanhou durante uma semana o processo de escolha de notícias por parte de um jornalista de meia-idade de um jornal médio

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norte-americano. A cada escolha, o jornalista, denominado Mr. Gates, deveria anotar as razões pelas quais aceitava ou não uma notícia vinda de uma agência. White concluiu que o processo de seleção é arbitrário e subjetivo. Assim, de acordo com a teoria resultante do estudo, o jornalista é um gatekeeper, um porteiro, que abre e fecha a porta para as notícias. Aquelas que parecem mais interessante para o jornalista são publicadas, as restantes são esquecidas:

É somente quando analisamos as razões apresentadas por “Mr. Gates para rejeição de quase nove décimos das notícias (na sua procura do décimo para o qual tem espaço) que começamos a compreender como a comunicação de “notícias” é extremamente subjetiva e dependente de juízos de valor baseados na experiência, atitudes e expectativas do gatekeeper. (White citado por Traquina, 2001, p. 69) Generalizando, pode-se dizer que todo jornalista, a todo momento, é um gatekeeper, pois, além das escolhas das pautas que mais interessam, cabe também a escolha dos detalhes que serão publicados. Um profissional pode abrir o portão para determinada informação em uma notícia e fechar para outros. Além disso, há profissionais, como os editores, que têm como função abrir ou fechar o portão para os fatos que serão divulgados, configurando verdadeiros gatekeepers. A teoria gatekeeper foi duramente criticada por apresentar uma explicação puramente psicológica para a questão das escolhas das notícias e esquecer aspectos sociais. O enfoque sobre a ação social seria dado pela teoria organizacional. Criada por Warren Breed, essa teoria insere o jornalista no seu contexto mais imediato: a organização para a qual trabalha. Breed dá destaque para os constrangimentos organizacionais pelos quais passam os jornalistas e considera que estes obedecem muito mais às normas e a política editorial/política da empresa, do que seus impulsos pessoais na hora da escolha das notícias. Como exemplo disso, em estudo realizado em Portugal por José Luís Garcia, 90,6% dos jornalistas daquele país revelaram já ter sofrido algum tipo de pressão no exercício de sua profissão. Essas pressões eram de origem externa e interna. Entre as pressões externas, a maioria provinha de grupos de interesse político-partidário (85,8%), seguidos por grupos empresariais e governamentais. As pressões internas eram na sua maioria advindas da administração, seguida pela direção de informações e pelas chefias (Sousa, 2002, p. 460). Essa pressão, entretanto, não é direta. Ao jornalista inexperiente não é informado o que ele deve ou não deve fazer. Ele o aprende aos poucos, através de um sucessão sutil de recompensas e punições. Assim, o jornalista “aprende a antever aquilo que se espera dele, a fim de obter recompensas e evitar penalidades” (Breed citado por Traquina, 2001, p. 72).

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São raros os jornalistas que se colocam contra a linha política/editorial da empresa. A maioria se conforma com ela em decorrência de vários fatores. Entre eles: as punições e recompensas; o sentimento de estima para com os superiores e o medo de magoá-los; a vontade de crescer profissionalmente (jornalistas que se adequam à linha política/editorial da empresa têm mais chance de chegar a

cargos de chefia); o prazer da atividade (os jornalistas, apesar de não perceberem altos salários, estão geralmente satisfeitos com sua atividade e sentem que estão contribuindo de alguma maneira para a melhoria da sociedade). Um outro tipo de pressão é o tempo. Quanto menor for o tempo de escolha

do

jornalista, quanto mais próximo ele estiver do deadline, maior será a influência

da

organização sobre ele. Segundo Jorge Pedro Sousa, “as horas do fecho forçam

o

jornalista a parar a recolha de informação e a apresentar a história,

classificando, hierarquizando, selecionando e integrando apenas as informações recolhidas até esses limites horários” (Sousa, 2002, p. 470). O fator tempo, portanto, transcende a ação pessoal do jornalista e pode ser inserido nos constrangimentos organizacionais que assimilam o jornalista à política organizacional da empresa. O presente livro é resultado de uma pesquisa, realizada na disciplina Teoria do Jornalismo, usando como bases as três teorias vistas anteriormente. Estudantes do quarto semestre de bacharelado em jornalismo de duas turmas da Faculdade Seama, sob orientação, pesquisaram, nos meses de outubro e novembro de 2002, os critérios de escolha de notícias nos órgãos de notícias mais importantes do Amapá. O objetivo era escolher para publicação apenas três textos de cada turma, mas isso se tornou praticamente impossível, pois a qualidade do que foi apresentado superou em muito o que se poderia esperar de estudantes de graduação. Em alguns casos a escolha se tornou ainda mais difícil em decorrência de dois grupos terem feitos trabalhos igualmente importantes sobre o mesmo jornal (como ocorreu com o Diário do Amapá). Na impossibilidade de escolher, optou-se por publicar os dois resultados, por entende-los complementares. A presente publicação, inédita no estado, pode ajudar a compreender melhor o funcionamento não só da imprensa amapaense, mas de toda a Amazônia, pois, apesar de algumas diferenças regionais, muitas conclusões podem ser aplicadas a jornais de toda a Região Norte.

Ivan Carlo Andrade de Oliveira é mestre em comunicação científica e tecnológica pela Universidade Metodista de São Paulo.

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Referências

BARTHES, R. A Mensagem fotográfica. In: LIMA, L. C. Teoria da Cultura de Massa. São Paulo: Paz e Terra, 2000. SOUSA, J. P. Teorias da notícia e do jornalismo. Chapecó: Argos, 2002.

TRAQUINA, N. O estudo do jornalismo no século XX. São Leopoldo: Unisinos,

2001.

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SITE CORRÊA NETO

Márcia Corrêa Hanne Capiberibe Ana Girlene Elainne Juarez

Introdução

Em 1964, quando o Brasil foi tomado pelos militares, passando a ser governado

por uma ditadura que durou 21 anos, um jovem jornalista, então com 26 anos, conheceu

de perto a censura e a opressão impostas pelo golpe de 64. Antônio Gonçalves Corrêa

Neto era radialista em Bragança, interior do Pará, quando foi obrigado a se manter escondido no mato por três meses e depois fugir para Manaus, escapando dos generais

no

poder.

O

motivo, suas idéias transmitidas através de um programa patrocinado pela Igreja

Católica, através do Movimento de Educação de Base, o MEB. Corrêa Neto defendia a reforma agrária e orientava os trabalhadores do campo a reivindicar seus direitos trabalhistas e a lutar pela terra. Em 1970, Corrêa Neto se mudou com a família para o Amapá, a convite do pai,

um comerciante português, onde se estabeleceu como profissional de imprensa, construindo uma carreira sólida e respeitada. A marca de sua caneta é a idéia e a opinião. Foi assessor de imprensa de governos, dono de jornais e hoje concilia sua permanência

no rádio com um site jornalístico na internet que leva seu nome, www.correaneto.com.br.

A trajetória desse jornalista desde então compõe uma história rica de atividade

profissional e política na Amazônia, passando pelo rádio, jornais, TV e internet.

O objeto de nossa pesquisa, realizada no período de 11 a 24 de novembro, é o

site organizado pelo jornalista, entretanto, não poderíamos deixar de aprofundar nossas investigações sobre a própria história desse profissional, que aos 64 anos investe seus conhecimentos e acredita na internet como a mais moderna e eficaz forma de comunicação do planeta.

Biografia

Corrêa Neto diz que sua primeira experiência com meios de comunicação “foi um desastre”. Em 1954, com 16 anos, fez um teste para a PRC-5 Rádio Clube do Pará, “a voz que fala e canta para a planície” - slogan da emissora. Durante o estágio, lendo notas no intervalo de apresentação do programa de Cláudio Benedito, Corrêa leu o nome

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Matarazzo com dois erres e foi demitido por telefone. “Não cheguei a ganhar nem o primeiro dinheirinho”, lembra. No mesmo ano entrou para a Folha do Norte, em Belém , como revisor, onde ficou até 1956, quando foi selecionado para a Marinha do Brasil. Só voltou ao jornalismo em 1962 através do Movimento de Educação de Base, ligado à Igreja Católica. O MEB distribuía aparelhos de rádio cativos, ou seja, com sintonia única nas emissoras do movimento. No MEB Corrêa Neto fazia supervisão de ensino, acompanhando as escolas radiofônicas, escrevia peças de rádio-teatro e noticiário geral. Suas atividades no MEB em Bragança, interior do Pará, foram interrompidas em 1964, com o Golpe Militar. “Todo o movimento era considerado suspeito pela ditadura. Nós orientávamos os trabalhadores do campo sobre reforma agrária, sobre os direitos constitucionais da pessoa humana, o direito à escola, à saúde, à reação contra a grilagens de terras, acontecimentos comuns naquela região”, conta o jornalista. Naquele ano Corrêa havia escrito uma peça de rádio dramaturgia sobre a história de um posseiro que morava há 40 anos numa área devoluta, que estava perdendo tudo para um grileiro rico. Na peça, um padre aconselhava o posseiro a procurar todos os caminhos legais para resolver sua situação, mas, no final dava o seguinte conselho: “se no final nenhum caminho legal lhe for suficiente, pegue uma arma e defenda seu trabalho e sua família contra quem tentar invadir suas terras”. A peça foi ao ar e provocou a reação dos militares. “Fui avisado por um cidadão de 74 anos, Lupércio de Araújo Montenegro, considerado comunista porque administrava sua fazenda, no Cacoal do Peritoró, em parceria com os trabalhadores levados à condição de sócios. Toda a produção da fazenda era vendida, dalí retiradas as despesas e o restante era dividido entre os trabalhadores e o dono da fazenda. Ele acabou preso por isso”. Havia um plano para matar Lupércio e Corrêa Neto. O fazendeiro conseguiu fugir dos militares e avisar o jornalista, os dois fugiram. Lupércio seguiu para Pernambuco e Corrêa permaneceu três meses numa localidade chamada Maquiné, protegido por agricultores. O MEB providenciou sua transferência para Manaus a fim de acalmar a situação. Em fevereiro de 1965 o jornalista entrou no O Jornal, em Manaus, e casou por correspondência com a professora Vera de Jesus Pinheiro, também do MEB, que ficara em Bragança. Durante os cinco anos que passou em Manaus, a família cresceu, nasceram os dois primeiros filhos e Corrêa Neto passou pela Fundação Cultural do Amazonas, como diretor do Teatro Amazonas e acompanhou a organização da TV Educativa do Amazonas. Na política, foi coordenador de comunicação do MDB na campanha eleitoral. “O que mais me marcou desse período foi a presença dos censores nas redações dos jornais e os conflitos com esses censores. No rádio o censor ficava sentado ao lado do operador de áudio. A gente estimulava os candidatos a baixar o pau na Ditadura para que o censor

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fizesse o corte brusco e a população percebesse. Eram jogadas ensaiadas e os censores caíam”, conta. “Como jornalista vi coisas marcantes. Participei de uma busca de 11 dias a um avião da FAB, um Douglas DC-3, que caiu com cerca de 50 soldados numa região chamada Jubará, que fica no alto Japurá, município de Tefé. Escaparam alguns vivos da tragédia. Outro fato foi a passagem por Manaus dos sequestradores do embaixador americano, que deu origem ao livro “O que é isso companheiro”, de Fernando Gabeira. Peguei a máquina do Candango, fotógrafo do jornal, me arrastei até próximo da pista cercada pelos militares e consegui a única foto daquele dia, o boeing da VASP pousado e uma das presas políticas, uma freira, descendo segurando a mão de uma criança”. O episódio continuou no saguão do aeroporto. Corrêa trocou a máquina com Candango porque havia observado a aproximação de um soldado do exército. Abordado pelo militar, seguiu com os braços propositalmente levantados pelo saguão até uma sala restrita, o que despertou a atenção das pessoas e dos flashes de outros jornalistas. Na sala foi obrigado a entregar o filme, mas o verdadeiro estava seguro e a foto saiu na primeira página do O Jornal. Em 1970 Corrêa Neto atendeu a um convite de seu pai, um comerciante português radicado em Macapá, Francisco Gonçalves Corrêa, e veio com a família morar na capital do Amapá. “Vim por questões sentimentais, por saudade da família”, revela ele. No começo, em Macapá, trabalhou como correspondente de O Liberal, do Pará, e no jornal O Flash. Nos anos seguintes trabalhou nos jornais Marco Zero, Folha da Manhã e Jornal do Povo. Mas, esse início não foi fácil. Durante um ano, sem aceitar ajuda financeira do pai, enfrentou dificuldades com a família até conseguir se estabelecer na imprensa local. Em 1971 foi convidado para reformular o Jornal do Amapá, veículo oficial do governo, que foi transformado em Novo Amapá. Através desse veículo realizou uma pesquisa de opinião pública, que detectou a necessidade da instalação da televisão no Amapá. Foi então que Corrêa Neto recomendou ao então governador do Território Federal do Amapá, José Lisboa Freire, que fizesse contato com a direção da Rede Amazônica de Televisão em Manaus, para que fosse atendido o anseio da população. Em 1972 o governador começou os entendimentos com o jornalista Phellippe Daou, da Rede Amazônica, mas o projeto só foi concretizado em 1974 pelo governador Arthur Henning. Em caráter provisório, os equipamentos da televisão foram instalados no palco da Rádio Difusora. Nesse mesmo ano a população do Amapá assistiu aos jogos da Copa do Mundo através de vídeo tapes trazidos de Belém por aviões do governo. No dia 25 de janeiro de 1975 foi inaugurada a TV Amapá, canal 6, integrante da Rede Amazônica de Televisão, com Corrêa Neto na direção de jornalismo. “Fiquei na televisão durante 18 anos. Nesse período fui correspondente do jornal O Globo, fundei o O Jornal, o primeiro veículo de minha propriedade”, conta o jornalista.

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Em 1988 Corrêa Neto se afastou temporariamente da TV Amapá, onde apresentava o Bom Dia Amapá, para ser candidato a prefeito pelo Partido dos Trabalhadores: “Eu era um romântico. Me afastei antes do tempo por uma questão ética. Os demais candidatos não tinham a vitrine que eu tinha como apresentador de televisão e eu não achava justo permanecer”, explica. Perdeu a eleição para João Alberto Capiberibe, do PSB. No início dos anos 90 o jornalista pediu demissão da TV Amapá. No período entre 90 e 93 estreou o programa Espaço Livre na Rádio Antena 1 e participou da fundação do jornal Folha do Amapá, a convite do jornalista Elson Martins. O programa de rádio se consolidou como líder no horário das 14 horas e em 1995, com a ascensão de Capiberibe ao governo do Estado foi transferido para a Rádio Difusora de Macapá, onde está até hoje, com a parceria do jornalista Paulo Silva. O jornal Folha do Amapá se mantém ainda hoje, tendo passado por diversas fases de ausência e retorno às bancas. Durante o ano de 98 Corrêa dedicou-se a mais uma experiência como dono de jornal, fundou e editou o Feira Maluca, que por falta de dinheiro teve vida curta. “Mas, foi uma das experiências mais agradáveis. Trabalhei com liberdade, colaboração de pessoas talentosas. A proposta era um jornalismo mais leve, brincalhão, com humor e criatividade. Usávamos muita charge, foto-legenda, textos literários e fazíamos uma diagramação com fotos bem abertas, desenhos e ilustrações”, conta. A partir de dezembro de 2001, Corrêa Neto decidiu investir profissionalmente em uma nova paixão, a internet. Habituado às salas de bate-papo encomendou ao sobrinho, Cláudio Corrêa, um lay-out para um site de jornalismo. Ficou pronto e ele decidiu colocar no ar em caráter experimental. Em janeiro de 2002 o site já contava com atualização diária. Hoje conta com dois colunistas fixos, Márcia Corrêa e Jorge Coimbra, que estreou no dia 25 de novembro escrevendo sobre cinema, além de colaboradores eventuais.

Histórico do site

Em menos de um ano no ar, o site www.correaneto.com.br teve 13.700 visitas até o dia 25 de novembro. Nasceu em dezembro de 2001 da iniciativa do próprio jornalista. “Tenho a preocupação de não deixar o site com cara de política. Quero fazer algo bem diversificado, com notícias gerais e acho que estou conseguindo”, diz o jornlaista. Entretanto, sua forte inclinação editorialista está presente em artigos com farto conteúdo político. Nas matérias, porém, a preocupação de Corrêa vem se concretizando com a diversidade de assuntos. Ao longo de mais de 40 anos de profissão, Corrêa Neto consolidou uma considerável relação de fontes jornalísticas, que não revela nem aos mais íntimos. Dessas fontes vem a maior parte de suas informações. Conta também com releases de

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órgãos públicos e instituições da sociedade civil, além do acompanhamento do noticiário de rádio e TV para definir suas pautas. Impossibilitado de manter uma atividade física que lhe permita “correr atrás” da notícia como antes – em função do diabetes caminha com auxílio de bota ortopédica e sua vista tem limitações – o jornalista acorda por volta das sete da manhã, participa como comentarista do programa Revista Matinal, da Rádio Difusora, apresentado por Humberto Moreira e Paulo Silva. Às oito está pronto para começar seus contatos. Passa boa parte da manhã entre o telefone e o computador preparando o roteiro de seu programa de rádio e as notícias do site. “Um ajuda o outro. O que vai para o rádio muitas vezes rende notícia no site”, explica ele. O aparato de trabalho é montado em seu quarto, na casa onde mora há 25 anos no bairro do Pacoval. No menu principal, o site apresenta as seguintes janelas: opinião, cultura, curiosidades, lugares, contos, crônicas, poesias, artigos, meio ambiente, lendas, Macapá, notícias anteriores, livro de visitas, classificado (em construção), colunas e contatos. No centro da página inicial estão as chamadas para as principais notícias e na lateral direita notas curtas com fotografias. Ainda na pagina inicial a coluna Geléia Geral, atualizada diariamente. “Ali estão as quentinhas”, diz ele. Não há uma manchete principal, os assuntos têm o mesmo peso no lay-out da página. No dia 25 de novembro a notícia que abre a página trata da possibilidade do fim do serviço de moto-táxi. Segundo o texto, o STF considerou inconstitucional a decisão de legalizar o serviço, inicialmente tomada no estado de Santa Catarina. O jornal Folha do Amapá do mesmo dia não trata do assunto, o Jornal do Dia e o Diário do Amapá também não abordam o tema nas edições da mesma data. Além do material jornalístico, Corrêa Neto quer fazer do site uma porta de entrada para a cultura amazônica. Nesse sentido mantêm espaço para crônica, contos, poesias, curiosidades e um glossário com termos regionais comuns no linguajar popular, mas difíceis de ser compreendidos por pessoas de outras regiões. “O site é visto inclusive fora do Brasil, então a gente pode mostrar as belezas do Amapá através de fotografias e textos criativos. Mostras também o talento dos artistas e a produção cultural”, planeja. “Ainda não dá para viver do site. Mas, estou investindo meu trabalho para que futuramente possa trabalhar nele como principal atividade profissional”, declara o jornalista. Hoje o site é feito exclusivamente por ele como repórter e editor, além da atualização feita por Cláudio Corrêa. Os colaboradores não são remunerados e as fotografias são cedidas por assessorias de imprensa, pelos próprios fotografados ou de arquivos por colegas de imprensa.

Análise

TEORIA DO JORNALISMO – CRITÉRIOS DE ESCOLHA DE NOTÍCIAS NOS JORNAIS AMAPAENSES

Em grande parte o site www.correaneto.com.br corresponde à expectativa do editor. Tem diversidade nos assuntos abordados. A forte tendência editorialista está presente nos artigos e editoriais escritos por Corrêa Neto, com espaço específico na página. No geral, o noticiário cumpre a função de informar. O site consegue acompanhar os principais temas abordados pelos veículos convencionais de comunicação, entretanto, a pequena estrutura de pessoal e equipamentos de apoio impossibilita que o site faça uma cobertura mais completa dos fatos do cotidiano, o que poderia ser feito com uma equipe própria. Nesse sentido as informações estão mais fundadas em temas mais amplos, de interesse coletivo, como a política, a economia, etc. O dia-a-dia tratato em geral pela tv e pelo rádio, ainda não está com a mesma velocidade no site, apesar da agilidade que a internet permite. “É uma questão de tempo”, acredita Corrêa Neto. O jornalista tem planos para contratar um profissional da área comercial, que faça o site crescer em faturamento, assim podendo crescer também no seu objetivo fim, o jornalismo. Para Corrêa Neto, a realidade abordada nas notícias tem necessariamente um conteúdo interpretativo. “A gente escreve aquilo que a gente vê. Há um processo de interpretação no trabalho jornalístico”, explica ele. Segundo o jornalista, deve haver uma preocupação com a essência da notícia, “com o núcleo, aquilo que gera o assunto”. “Esse núcleo deve se aproximar ao máximo da realidade, as interpretações completam a notícia”, explica. Essa característica pode ser observada em cada texto de Corrêa Neto. Sua preocupação em não revelar as fontes ou dar pistas delas também está clara. Em seus textos não há referências que possam levantar suspeitas da origem das notícias, a não ser quando autorizado. “Todo jornalista precisa de fontes confiáveis e que confiem nele”, explica.

Conclusão

Corrêa Neto é jornalista 24 horas por dia. Curioso, está sempre fazendo perguntas, mesmo quando é entrevistado. Aos 64 anos, têm características de rebeldia juvenil em sua personalidade. Quando fala revela intensidade nas coisas que acredita e está sempre pronto a expressar opiniões sobre os demais diversos assuntos. Essa rebeldia também está presente em sua atuação no rádio, onde é mais forte o conteúdo opinativo. Quando se excede nas opiniões é capaz de pedir desculpas em seguida com a mesma intensidade. É um gate keeper assumido. “Meu trabalho é a interpretação que faço dos fatos e nessa interpretação está contido todo o acúmulo de experiências que tenho”, explica. Com estilo criado e consolidado, Corrêa Neto é o novo nome do jornalismo virtual no Amapá.

TEORIA DO JORNALISMO – CRITÉRIOS DE ESCOLHA DE NOTÍCIAS NOS JORNAIS AMAPAENSES

Em sua trajetória marcada pela opinião e por um jornalismo muitas vezes caracterizado como de esquerda, em alguns momentos, hoje sintetiza suas experiências em um site mais amplo, diversificado, mais leve e preocupado com a informação. “Tenho a preocupação de ajudar a melhorar o mundo, nem que seja um pouquinho. Se meu trabalho for esse caminho, tanto melhor”, declara.

TEORIA DO JORNALISMO – CRITÉRIOS DE ESCOLHA DE NOTÍCIAS NOS JORNAIS AMAPAENSES

FOLHA DO AMAPÁ

Alyne Kaiser

Carla Rejane

Gilfer Lopes

Jorai Gurjão

Marilã Coutinho

Marcelle Corrêa

Simone Nunes

Miriam Narjara

Introdução

O Trabalho que será apresentado tem como objetivo específico analisar o critério

de escolha das notícias pelos meios de comunicação local. O Jornal Folha do Amapá foi

o órgão de comunicação escolhido pelo grupo em razão de um dos componentes já ter

estagiado na mesmo que fez com que o trabalho fluísse sem nenhuma problemática. Nos dias 13 e 14 de outubro de 2002 o grupo realizou entrevistas com três profissionais que participam efetivamente da construção do Jornal, são eles: O Diretor Geral e Fundador do Jornal Elson Martins, O Editor chefe Osmar Trindade (que trabalhou em meios de comunicação importantes nacionalmente como a revista Veja), e o repórter Jailson Santos estudante de jornalismo da Faculdade Seama.

Jornal

O Jornal Folha do Amapá foi inaugurado com objetivo de informar a sociedade

amapaense, em janeiro de 1991, quando o Sr. Elson Martins, 63 anos, jornalista de profissão, foi convidado pelo seu amigo e ex-Governador do Estado do Amapá, na oportunidade da inauguração do Jornal, Prefeito de Macapá, para instalar-se em Macapá com um só objetivo: fundar um jornal que apoiasse as propostas políticas do prefeito, uma vez que a capital estava sendo comandada por um partido político considerado de esquerda -PSB- e que por isso não era apoiado pelas classes mais conservadoras detentoras na época dos meios de comunicação pioneiros do estado. O Jornal durante quase 10 anos tinha suas edições publicadas semanalmente - 1991 a 2001- (neste período por inúmeros problemas teve algumas paralisações) quando

sentiu-se a necessidade de passar a ser diário, em face da grande demanda de notícias e

a aquisição de máquinas oportunizando assim a impressão na própria gráfica do Jornal.

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A equipe de trabalho é composta por um diretor geral, um editor chefe, um editor

assistente, um chefe de reportagem, três editores (variedades, polícia e esportes), quatro repórteres, dois fotógrafos, dois formatadores e um revisor. No jornal não há a figura do pauteiro. O jornal funciona como uma escolinha para jornalistas, pois são contratados estagiários regularmente. Já passaram por ali figuras importantíssimas do cenário jornalístico amapaense como Humberto Moreira, Seles Nafes e Márcia Andréia, entre

outros.

Entrevistas

A história de fundação do Jornal foi contada pelo diretor e fundador do jornal,

Elson Martins que afirma que o jornal assim que se instalou em Macapá tinha um principal

objetivo que era de apoiar a política local do prefeito da capital, uma vez que os meios de comunicação que aqui existiam tinham uma tendência forte de criticar o governo. “O jornal manteve a sua postura de apoiar o governo de CAPI até o mês de abril, quando este deixou o seu cargo para disputar o Senado Federal e conseqüentemente a Folha passou

a trabalhar com seus recursos próprios com muita dificuldade”, ressaltando que por três

vezes teve que paralisar o jornal (durante os onze anos de existência) por falta de capital

e outros problemas.

A linha editorial do jornal tem forte tendência para apoiar o governo mesmo porque

um governo tem que explicitar a população suas obras e benfeitorias. “Não se pode censurar qualquer apoio do governo, pois o jornal não vive com recursos próprios tem que fazer contratos de publicidade também”. Elson garante que “A Folha do Amapá” é um jornal coerente, ou seja, defende o índio, o negro e caboclo, e devido a isto nem sempre a capa do jornal vem com matérias que explicitem somente a política ou polícia e diversificam com chamadas para o meio

ambiente e ecologia. Élson confirmou o que disse o editor geral Osmar e o repórter Jailson, a reunião de pauta é feita diariamente e tem participação dos Editores, Redatores

e repórteres setorizados.

“O repórter quando sai para cobrir alguma matéria tem a liberdade de deixar de cumprir a mesma, se no caminho deparar-se com um acontecimento importante que não estava na pauta do dia, pode realizar a matéria e voltar para a redação” afirma Élson Martins. Ele declara que o critério para escolha da matéria de capa passa por Editorias, ressaltando que Política e Polícia sempre são as preferidas, mas de vez em quando coloca na capa uma matéria ambiental para diferenciar-se de outros jornais diários ressaltando sempre que a fotografia tem uma importância vital para a escolha da matéria principal e que todo bom jornalista deve saber fotografar.

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O repórter Jailson Santos declara que o jornal proporciona para os repórteres uma

liberdade de sugerir algumas pautas, e o repórter se vai cobrir algum evento este pode buscar qualquer fonte possível, e se no caso de não conseguir realizar a matéria por qualquer que seja o motivo este tem que procurar outra, não podendo voltar para a redação sem matéria. “O repórter setorizado pode dar palpite para escolha da matéria que será publicado, não cabendo apenas para o editor esta função”. Jailson declara que a matéria de capa é escolhida por nível de importância, sendo a policial e política as

prediletas e quando perguntado se o jornalista sofre algum tipo de pressão ele diz que não por só cobrir as pautas que lhe são incumbidas para realização da matéria. Em sua entrevista, o editor chefe Osmar Trindade, colocou questões que foram respondidas identicamente com os outros entrevistados, que a pauta é definida por qualquer pessoa, mesmo pelo motorista que tenha visto alguma coisa interessante até releases que chegam por fax. Uma contradição existente é a de que há reunião de pauta diariamente, não procede a informação, pois, nos dois dias que a equipe visitou o local não houve reunião de pauta. Trindade (como gosta de ser chamado) ressalta a idéia de que o jornalista pode expressar sua opinião, podendo até mesmo colocar uma nota abaixo da matéria, mas isto não acontece, pois em pesquisas nas edições passadas realizadas pelo grupo notou-se a não veiculação de notas dos repórteres.

Fechamento

No dia do fechamento do jornal, as matérias são entregues pelos repórteres no decorrer do dia, a pauta é dada pela manhã e nenhuma matéria deixa de sair no jornal, exceto se outra extraordinária tiver que ser publicada, portanto sai uma matéria casual, do dia-a-dia. No fechamento somente fica o Paginador, a Chefe de reportagem e os Editores geral e assistente. Cada página já e definida e não há critério de importância para publicação das matérias. As matérias de capa são escolhidas de acordo com a sua importância não havendo escolha de assunto. Quem define qual matéria importante é o editor chefe em conjunto com o seu assistente e a chefe de reportagem. Algumas vezes o diretor geral também pode indicar uma boa matéria.

Análise das edições 367, 372 e 374

A edição de nº 367 estampava em sua capa uma matéria policial, reportagem com

os dois suspeitos da morte da jovem Eliseuda Freitas ocorrido em março d 1999. As duas versões para o mesmo crime, a do professor que está preso e a do mais novo suspeito Jackson Rodrigues que diz que conheceu a vítima no dia do crime. Notícias do presidente

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da república, entrevista com o senador eleito Papaléo Paes e mais notícias sobre o caso da moça rica que matou os próprios pais com a ajuda de seu namorado e do irmão dele (matéria nacional). O jornal tem seis folhas de notícias de chegam das agências de notícias, matérias do brasil e do mundo e outras nove que tratam especificamente sobre o Amapá. Nesta edição notou-se que as matérias de domingo são, na maioria das vezes notícias “frias”, como diriam os jornalistas. Na edição do dia 17 de novembro, também um domingo, a matéria de capa mostra detalhes sobre um seminário de assistência à mulher vítima de violência sexual e doméstica, como disse Elson Martins, saindo um pouco da mesmice de polícia e política. Nota-se que o jornal diário tem muitas notícias nacionais como o caso de Pedrinho, o garoto seqüestrado pela mãe adotiva que também aparece na edição nº 374. De Acordo com a ex-estagiária do jornal, Alyne Kaiser, antigamente no tempo de jornal semanário não havia muitas notícias nacionais mostrava-se mais variedades e as belezas do nosso estado.

Na edição de nº 374 a manchete principal era o caso da deputada eleita Francisca Favacho, mas o jornal não enfocava a matéria sobre o IV Encontro dos Tambores, que só tinha uma foto e uma chamada pequena. Esta edição foi conjunta devido o dia 20 ser feriado para o funcionalismo público.

Conclusão

Nas entrevistas todos tentaram passar para a equipe a idéia de que o jornal seguia a teoria do espelho e gatepeeker, pois ao mesmo tempo em que informavam que o jornalista acima de tudo teria que sempre escrever o retrato fiel da realidade também propõe que sugerindo as pautas ao sair para cobrir uma matéria ele poderia escolher além do que lhe foi imposto pelo chefe de reportagem. Neste trabalho verificamos as potencialidades dos meios de comunicação da cidade e pesquisamos o Jornal Folha do Amapá. Neste veículo de comunicação impera a Teoria Organizacional porque mesmo que o jornalista possa sugerir matérias este tem que seguir as pressões da política editorial do jornal.

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DIÁRIO DO AMAPÁ

Andréia Roseliz Indiara Patrícia Jamille Mira Maralene Araújo Mary Lima Michele Lobo Raimundo Reis de Lima

O projeto que apresentamos tem como principal referencial o jornal impresso “Diário do Amapá”, que possui como diretor superintendente o Sr. Luíz Melo e Editor Chefe o jornalista Douglas Lima. Foram observados e analisados aspectos importantes através das várias visitas feitas na redação do jornal, nas quais o processo de escolha das notícias e o fechamento do jornal tiveram grande relevância. Foram entrevistados: o Editor chefe Douglas Lima, o Editor de Política Carlos Bezerra, o Diretor técnico Marlio Melo, o Colunista Ronaldo Picanço e o Diretor Superintendente Luiz Melo, nos respectivos dias 02/ 04/ 11/ 14 e 21 de novembro. As entrevistas foram realizadas na redação do jornal, exceto a concedida pelo editor chefe que foi realizada no “Bar do Sarney”.

Histórico do jornal

O jornal Diário do Amapá, tem sua origem ligada ao jornal Fronteira, uma sociedade entre os empresários Luís Melo e Ezequias Assis, na época, situado no bairro Buritizal. Posteriormente a sociedade se desfez com a morte de Ezequias Assis. Nasce o jornal Diário do Amapá em 1º de janeiro de 1993, por iniciativa do jornalista Luís Melo, o atual Proprietário. O jornal passou a circular inicialmente durante as terças, quartas, quintas e sextas feiras, com uma tiragem de 1000 (mil) exemplares. Em setembro de 1995, ele passou a

Observação Duas equipes optaram por analisar o jornal Diário do Amapá. Pretendia-se escolher a melhor pesquisa para constar nesta publicação. Entretanto, os dois grupos produziram pesquisas essenciais para compreender esse que atualmente é um dos órgãos de comunicação mais importantes do estado do Amapá. Em vista da qualidade da pesquisa, e, diante da compreensão de que os dois textos são complementares, e não redundantes, optou-se pela publicação dos dois trabalhos.

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ter circulação diária, exceto às segundas-feiras. Já em 1º de dezembro de 1996, o jornal

surgiu com uma nova proposta visual, em que o projeto gráfico foi reformulado, passando

a ser parcialmente colorido, e em 1997 ele tornou-se totalmente colorido. O formato inicial era tablóide e passou para standard. Segundo Marlio Melo, diretor técnico do jornal, a partir de 1997, a tiragem do jornal passou a ser de 2500 (dois mil e quinhentos) exemplares diários, com 28 páginas no geral

e em cores, distribuída em 5 (cinco) cadernos, sendo primeiro o caderno de capa,

caderno de cidades, em seguida o caderno de esportes, caderno nota 10 e finalmente o caderno de classificados. “Atualmente o jornal está com 16 páginas”, explica ele.

O jornal Diário do Amapá tem circulação apenas no Estado, especificamente nos

municípios de Macapá e Santana. Entretanto, o jornal pode ser visto de qualquer lugar

do país, visitando-se a página www.diariodoamapa.com.br. “ A referida página teve seu início em 1998, sendo visitada por aproximadamente 20 mil pessoas por mês”.

Um posicionamento crítico e opositor

O editor chefe do jornal do Diário do Amapá, Douglas Lima, esclarece que o jornal

nem sempre reflete a realidade, porém procura aproximar-se dela. Segundo ele, a forma de escolha das pautas depende da quantidade de notícias existentes e principalmente do grau de importância de cada uma, não havendo, portanto, um critério, já que “a notícia não marca hora e nem local.” Entretanto, cada empresa possui uma linha editorial, e as pautas devem estar embasadas nela, podendo ser um critério. Para a escolha das manchetes do jornal é selecionado o fato de maior repercussão, “por exemplo, se o jornal já está no ponto da impressão, a manchete é a morte do Neguinho, e for divulgado em última hora o resultado das eleições, fato considerado mais importante, a reportagem de capa é modificada”, explica Douglas Lima Segundo o editor chefe, o jornalista sofre “pressão”, pois, tem que se adequar à linha editorial da empresa em que trabalha, uma vez que o produto vendido, a notícia, geralmente esta ligada a grupos políticos e empresariais podendo ser punido o jornalista que não seguir a filosofia do jornal. Um outro entrevistado foi o editor de política Carlos Bezerra, que disse “o jornalista possui total liberdade e responsabilidade na confecção da matéria, devendo respeitar fundamentalmente a linha política editorial do jornal”. Segundo o colunista Ronaldo Picanço, o futuro dos novos jornalistas depende das relações entre o poder público e as empresas, pois o Amapá, ainda é um estado pequeno em que tudo gira em torno do poder público, sendo que as empresas de comunicação sempre mantém vínculos políticos, tornando-se impossível desfazer estas ligações. Enfatiza que a imprensa amapaense ainda precisa de muitos estímulos para que possa

absorver todos esses profissionais que estão chegando no mercado de trabalho, pois “o

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governo passado investiu e valorizou a imprensa de outros estados, não dando, portanto oportunidade para a imprensa amapaense. O jornal Folha do Amapá e a Rádio Difusora foram os únicos órgãos de comunicação privilegiados pelo ex-governador, João Alberto Capiberibe”.

O diretor superintendente do jornal Diário do Amapá, Luiz Melo, afirma que “não

existe empresa 100% independente, o que prevalece é um interesse comercial para gerar o jornal, como exemplo a gráfica, que necessita de recursos financeiros”. Ele diz ainda

que “nem toda verdade é revelada, às vezes temos que deixar de lado alguma coisa para não prejudicar a empresa”. Segundo Luiz Melo, a oposição ao ex-governador, João Alberto Capiberibe, surgiu por uma questão ideológica, por não concordar com a postura radical, autoritária e egoísta desse governo, depois passou a ser pessoal. “Chegamos a receber inúmeras propostas para recuarmos, no entanto permanecemos firmes em nossa posição ( )

quando um jornal assume se opor ao governo vigente ele pode sofrer danos, pois o governo tem o poder de fechar as portas, principalmente de vários grupos empresariais, tornando-se quase impossível um jornal se manter sozinho, porém, não foi o caso do jornal Diário do Amapá. Esta é grande diferença entre eles e nós, pois os governos passam e o jornal permanece”.

A respeito do governador eleito, Waldez Góes, Luiz Melo diz que só a partir da

prática poderá ser feita uma análise. “ele parece ser uma pessoa bem intencionada, mas sempre quem vai assumir tem boas intenções. O Waldez parece ser uma pessoa de boa

índole, não sei se isso vai mudar”,explica ele. Ressalta que gosta do marketing do prefeito João Henrique, “a prefeitura não tem um orçamento fantástico para realizar obras, mas está fazendo projetos diferentes, o que resta saber é se ele vai conseguir preservá-las, só assim poderemos finalmente considerá-lo um bom administrador ou não”. Analisando o conteúdo das matérias divulgadas no Jornal Diário do Amapá no período de 02 à 14 de novembro, pode-se perceber que este veículo de comunicação assume uma postura política bastante evidente como é possível observar na página 02 da edição publicada no dia 06 de novembro, que tem como título “Bye, bye palhaços”, editada na coluna From, de Luíz Melo, dizendo que “Capiberibe mais uma vez deu rasteira na justiça. Precatório enviado a ele para que tome conhecimento oficial das acusações que lhe são imputadas no TRE não foram entregues. Esforço, bem que houve. Mas, espertinho como ele só, partiu em direção àquele país bilíngue que fica na Norte América. Do avião, jogou beijinhos ao judiciário”. Outro exemplo é a matéria que também foi divulgada no Diário do Amapá no dia 06 de novembro, situada na página 05 no caderno de política, na qual o senador Gilvan

Borges afirma: “Capiberibe está fugindo da justiça (

A mentira contida na Folha do

Amapá para dar suporte ao álibi da ausência e confundir a opinião pública e o judiciário não se sustentará, pois a mentira só procede quando a verdade não chega”.

)

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O apoio que será dado ao futuro governo pelo jornal Diário do Amapá é

perceptível na matéria do dia 05 de novembro intitulada “Cada um na sua”, publicada também na coluna From, “Dalva e Waldez sentaram-se a sós no Setentrião para discutir a transição. Ele, como manda o figurino, vestindo um “modelito” azul-vitória. Ela, na contrapartida, envergava , orgulhosa, um vermelho-perdi. Mas parte da conversa ficou debaixo de sete véus. Será que vamos assistir, no futuro, um processo de osmose entre o azul e o vermelho?”.

No caderno de política a matéria revela “governantes se reúnem para discutir

O secretário de planejamento Antônio Sérgio Monteiro

Filocreão, foi nomeado na semana passada pela governadora Dalva Figueiredo para coordenar a equipe de transição que trabalhará pelo lado do atual governo, para transmitir ao novo governante um quadro geral da situação econômica, administrativa e financeira do estado”. O jornal Diário do Amapá, procura mostrar a real situação da capital em seu caderno de cidades, defendendo sempre o interesse maior dos munícipes, assumindo assim, uma posição popular na sociedade, fato observado na matéria do dia 06 de novembro, com o título “Ação de marginais deixa moradores sem ônibus”, nela é

os coletivos foram retirados devido a falta de segurança no local e

também porque a via principal que dá acesso ao conjunto, Exército da Redenção, está

tomada de buracos Fatos curiosos acontecem no dia-a-dia de um jornal impresso, o editor chefe, Douglas Lima, informou que “certa vez toda a tiragem do jornal, com cerca de 3 mil exemplares, foi antecipadamente comprada por um político local, em razão do jornal conter matéria que o comprometia, porém, um outro político que faz oposição a este, procurou nossa redação para que uma nova tiragem, agora com 5 mil exemplares, fosse

novamente impressa, uma vez que a divulgação daquela matéria era de seu interesse”.

As notícias nacionais são escolhidas através da Internet, especificamente a Folha

on-line, sendo selecionadas as que apresentam uma relação com o Amapá ou que são de interesse geral, como a matéria intitulada “Sarney pressiona Temer por apoio do PMDB ao PT”, segundo o editor chefe, esta matéria foi escolhida, porque Sarney é senador do Amapá. Observou-se ainda que estas notícias são retiradas na íntegra, cabendo ao editor-chefe a responsabilidade pelo fechamento do jornal. O jornal diário do Amapá não possui revisor, cada jornalista é responsável pela correção de suas matérias, mas, Douglas Lima afirma que quando é possível ele faz uma breve revisão, se constatar que a matéria não está objetiva e clara, ela é repassada para outro jornalista que será responsável pelo texto final, não deixando de dar crédito também à quem fez a reportagem.Para Luiz Melo “o redator tem que escrever o texto corretamente e enxugá-lo, analfabeto não faz jornal, por isso decidimos retirar a função de revisor”.

evidenciado que “

transição administrativa (

)

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As notícias nem sempre são fáceis de serem encontradas, pois às vezes os fatos são considerados irrelevantes, o que proporciona escassez na quantidade de matérias a serem produzidas, exigindo maior desempenho profissional dos repórteres. Isso ocasiona um atraso na produção final do jornal.

A organização como prioridade

Analisando as três teorias mais importantes que trabalham as escolhas da notícia no jornalismo (Teoria do Espelho, Organizacional e Gatekeeper), podemos perceber que o jornal “Diário do Amapá” usa como elemento fundamental para a escolha e divulgação de suas notícias a teoria Organizacional. De acordo com o conceito da referida teoria, formulada por Warren Breed, as notícias são o resultado da interação da escolha pessoal do jornalista com a política editorial do jornal. Warren Breed afirma que “o jornalista conforma-se mais com as normas editoriais da política editorial da organização do que com quaisquer crenças pessoais que ele ou ela tivessem trazido consigo”. A teoria organizacional enfatiza o processo de socialização organizacional em que é sublinhada a importância de uma cultura organizacional, e não uma cultura profissional.

A presença marcante desta teoria é evidenciada na entrevista concedida pelo

editor chefe Douglas Lima, o qual deixou bem claro que a linha editorial do jornal deve

sempre prevalecer, apesar do jornalista ter autonomia no processo de escolha das notícias.

O proprietário do jornal, Luiz Melo reafirmou que os interesses da empresa devem

ser priorizados, sendo que o jornal mantém uma ligação muito forte com o setor político e

empresarial local, os quais são responsáveis pelo financiamento da produção e das despesas financeiras do jornal. As notícias divulgadas pelo jornal, na maioria das vezes, têm um cunho político, demonstrando que a empresa jornalística “Diário do Amapá” segue uma linha embasada na Teoria Organizacional.

Bibliografia

TRAQUINA, Nelson. O Estudo do Jornalismo no século XX.São Leopoldo: Unisinos, 2001. SOUZA, João Pedro. Teorias da Notícia e do Jornalismo.Chapecó: Argos, 2002.

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DIÁRIO DO AMAPÁ

Nádia picanço Lorena Kubota Ana karina Sarmento leite Carolinne de Assis Souza Dione Matos Amaral Waldir Junior Nery

Introdução

Este trabalho tem como objetivos atender a necessidade de se compreender o jornalismo local, fomentar o estudo das teorias do jornalismo e apresentar novas linhas de pesquisas na área. O leitor irá encontrar aqui um conjunto de análises sobre a cobertura jornalística do Diário do Amapá sobre eventos e problemáticas do contexto amapaense. Para realizar este trabalho, o grupo efetuou um estudo dividido em três fases: as entrevistas, a analise de conteúdo e a observação na redação do jornal. Neste aspecto gostaríamos de agradecer a colaboração da equipe do Diário do Amapá que esteve disposta a nos receber bem em todas as vezes que os procuramos. E, é importante

ressaltar que o reduzido espaço referente ao histórico da empresa foi escrita graças ao relato falado dos jornalistas que ali trabalham, uma vez que não há material bibliográfico ou pesquisas disponíveis sobre este tópico.

O Jornal Diário do Amapá foi fundado, pelo jornalista Luiz Melo, em primeiro de

Janeiro de 1993, com uma tiragem inicial de mil exemplares. No início era produzido em Macapá e impresso no estado do Pará.

O diretor superintendente, Luís Melo, explica que sua equipe é praticamente a

mesma desde o surgimento da organização. A linha editorial deste veículo de

comunicação sempre teve tendência oposicionista com relação “a linha de pensamento” do então governador da época, João Alberto Capiberibe, hoje senador eleito. E essa tendência não foi negada em nenhum momento da pesquisa com o jornal.

A missão de classificar o jornal dentro de uma das teorias da notícia não foi tão

simples como imaginávamos. Isso se explica pelo fato de que os estudos e análises neste campo são poucos e a bibliografia também tem suas limitações, por isso, é muito comum termos a impressão de que os autores escrevem sempre as mesmas coisas sobre o assunto. Nelson Traquina admite que a utilização do termo “teoria” é discutível e que em sua obra elas podem significar apenas uma explicação interessante e plausível e não um conjunto elaborado e interligado de princípios e proposições. E ainda afirma que as

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teorias (teoria do espelho, gatekeeper e organizacional) não se excluem mutuamente; não são puras ou necessariamente independentes umas das outras. (Traquina, 2001). Durante o desenvolvimento deste trabalho fomos obrigados a concordar com o autor, pois analisando o Diário do Amapá e também outros veículos da imprensa local percebemos que a utilização das teorias do gatekeeper e organizacional acaba por confundi-las e integra-las mutuamente e ainda observamos a constante utilização da teoria do espelho como máscara da ação jornalística. Tudo isso só veio confirmar o que já dissemos, o estudo sobre as teorias do jornalismo é um campo que necessita de pesquisas mais complexas para se chegar a um entendimento sobre os fatores que influenciam a produção deste bem tão importante que é a informação.

Teoria do espelho: Uma ideologia dominante no campo jornalístico

A teoria do espelho foi concebida como o primeiro conjunto de princípios

fundamentais voltados para o jornalismo, ela é uma conseqüência do surgimento da imprensa informativa e da ideologia da objetividade. Esta teoria defende que o jornalista não interfere na realidade dos fatos, sempre procurando refletir a verdade, sem emitir opiniões pessoais. Nomeando a imprensa como mediadora fiel entre os fatos e o público. Este é um discurso de fundo funcionalista, preso à ilusão positivista de objetividade e que é, ainda hoje, muito utilizado para justificar a atividade da produção da notícia.

Apesar da imprensa ser repleta de exemplos que comprovam a ineficiência da

teoria do espelho para explicar o processo de produção jornalística, a sua utilização se prende ao fato de a credibilidade dos veículos de comunicação e dos jornalistas ser relacionada à premissa social de que devem ser imparciais seguindo as normas éticas da sua profissão, e isso é o que tem perpetuado tal discurso.

A realidade amapaense também não foge desse perfil. Durante as entrevistas

feitas com os donos, editores, colaboradores e repórteres de veículos de comunicação

local, percebe-se claramente a predominância e a concordância do discurso da objetividade e do compromisso com a verdade. Foram entrevistados três dos editores do jornal Diário do Amapá, e em todas as entrevistas a presença da teoria do espelho, dentro de um discurso pragmático, foi unânime. Vamos analisar alguns trechos que comprovam está defesa. Carlos Bezerra, editor do caderno de política do jornal, foi questionado sobre o por quê do caderno direcionado à opinião do Diário do Amapá ser maior do que o “padrão” se comparado com outros jornais do estado. Carlos nos deu a seguinte resposta:

“O Diário é um veículo que ao longo dos anos adquiriu um certo grau de credibilidade o que faz com que os mais diversos setores da população, sejam as

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pessoas mais comuns ou os especialistas, fizessem questão de divulgar seus pontos de

vista. E isso é muito bom por que faz com que o jornal seja um reflexo da sociedade”.

O discurso também é percebido na entrevista de Joel Elias, editor do caderno de

cidades, na sua resposta sobre a imparcialidade do jornal: “Sempre tentamos mostrar a notícia como ela é, sem dar opinião durante a matéria sempre deixando o leitor tirar suas próprias conclusões”. A entrevista mais interessante sobre este aspecto é a de Douglas Lima, editor- chefe do veículo. Lima usa o discurso da teoria do espelho, mas admite que o jornal em certo período (8 anos) tendeu para o oposicionismo com relação ao ex-governador João Alberto Capiberibe, no entanto, ele justifica tal oposição como sendo culpa do ex- governador, uma vez que o mesmo, bem como sua assessoria, não contribuíram com o jornal que sempre esteve disposto à ouvi-los. “Tradicionalmente nós buscamos a aplicação do nosso Slogan que é ‘O compromisso com a notícia’, então nós nos preocupamos em mostrar as notícias sempre ouvindo as partes envolvidas nos fatos para termos um noticiário imparcial. No entanto, nos últimos oito anos, por questões políticas, o jornal acabou tendendo para uma linha oposicionista, porem nunca deixando de ouvir o outro lado a menos que ele não queira nos conceder entrevistas”, diz. Portanto, fica claro que a teoria do espelho acaba servindo de “escudo” e também de “arma” para manter de pé a bandeira da objetividade. Mas uma observação um pouco mais profunda foi suficiente para nos mostrar que a teoria do espelho é insuficiente para explicar e estudar a funcionalidade da produção da notícia.

Teoria do gatekeeper: Uma visão limitada do processo jornalístico

A teoria do gatekeeper é primeira das teorias da notícia na literatura acadêmica

sobre jornalismo, no entanto, somente na década de 50 foi que seu conceito foi aplicado à

prática jornalística por David Manning White. Segundo esta teoria o processo de produção da informação é concebido por uma série de escolhas onde o fluxo de notícias tem de

passar por diversos “portões”, que são as decisões do jornalista, isto é, o gatekeeper tem de escolher o que vai publicar e como vai publicar.

O gatekeeper seria uma pessoa que organiza e seleciona dentro de um grupo de

muitas informações quais são as que o receptor terá acesso. White fez uma pesquisa parecida com a nossa e observou a atividade de um jornalista de um jornal de médio porte norte-americano durante uma semana, tentando categorizar os motivos que levaram Mr.Gates a rejeitar as noticias que não usou. De acordo com as conclusões de White as escolhas de Mr.Gates foram subjetivas, arbitrárias e dependentes de valores baseados na experiência, atitudes, expectativas e conveniências do mesmo. A teoria do gatekeeper pode ser observada também no jornal Diário do Amapá. Os entrevistados afirmaram que não há reuniões de pauta no jornal e que há grande

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liberdade com relação à escolha das pautas, nesse caso, percebe-se que o indivíduo- jornalista é quem acaba decidindo que pautas irá fazer, portanto, esta será uma escolha subjetiva. No caso do caderno Cidades nos deparamos com uma situação crítica, pois no período de seis dias observamos uma média de dez matérias diárias, sendo que 90 % delas são retiradas de agências de notícias nacionais, especialmente da Folha on-line,e e as notícias locais são quase em sua totalidade releases do Governo do Estado do Amapá. Este é um bom exemplo da questão da conveniência pessoal do repórter e da idéia de que o jornalista é autor na conformação da notícia. O Editor deste caderno é além de funcionário do jornal, assessor de comunicação do Governo, isso explica, pelo menos em parte, porque no caderno Cidades, grande parte das notícias locais são oriundas de releases do Departamento Central de Notícias do Estado, e muitas vezes não são atribuídos os devidos créditos, mesmo quando passam apenas pelo processo Ctrl+C e Ctrl+v, isto é, literalmente copiados. Como assessor fica conveniente para o jornalista utilizar os releases da instituição para a qual trabalha. Além disso, deve-se lembrar que o quadro reduzido de repórteres dificulta a produção de notícias suficientes para o fechamento do caderno e, conseqüentemente, o trabalho do editor. Mais um motivo para que o mesmo recorra aos releases. Com relação a escolha das notícias nacionais, o gatekeeper é ainda mais relevante uma vez que o jornalista que lê as informações disponíveis nas agências de notícias, irá selecionar aquelas que mais considera importantes e também as imagens que achar convenientes. O caderno Opinião é constituído por um editorial, dois artigos, escritos por colaboradores. Uma coluna de frases, uma coluna de enquête e outra de cartas e ainda duas colunas de opiniões, sendo que a From é de autoria de Luiz Melo, um dos donos e fundadores do veículo. Nos espaços referentes à Opinião na comunidade e Cartas lê-se o seguinte esclarecimento: “Está sessão destina-se a conhecer o pensamento do cidadão e com isso criarmos um fórum”. Apesar disso, observa-se que ocorre um processo seletivo no qual o gatekeeper escolhe quais cartas e opiniões serão publicadas. Há evidências claras da teoria da ação pessoal, no entanto, é justamente neste caderno que devemos ter o maior cuidado na hora de relacionar as teorias gatekeeper e organizacional, isso por que os autores do caderno são os próprios donos e editores do jornal, ou seja, o próprio indivíduo-jornalista é quem edita seu texto e decide como ele será noticiado. Isto permite, principalmente nos textos de Luiz Melo, que o jornalista se torne seu único gatekeeper e com isso as emissões de opiniões e conteúdos tendenciosos ficam realmente explícitos, o que é até aceitável se levarmos em consideração que este é o caderno designado para emissão de opinião. O único problema é que, ao contrário do que disse Carlos Bezerra, não é a opinião de leitores ou colaboradores que predomina, mas sim o produto das

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intenções da empresa através de seus donos e editores, e são estes também os responsáveis por escolher os artigos que serão publicados. No livro O Estudo do Jornalismo no Século XX de Nelson Traquina considera que a teoria do gatekeeper analisa as notícias apenas a partir de quem as produz , o jornalista. Segundo ele, esta seria uma abordagem microssociológica, ao nível do indivíduo, ignorando fatores macrossociológicos como a dimensão burocrática de uma organização e outras forças sociais que influenciam a produção da notícia. Apesar de não ter dado nome à seguinte conceituação, White também afirmou em sua pesquisa que as rotinas organizacionais, ou seja, a estrutura organizacional, também tem influência sobre a maneira como as notícias são selecionadas. Da mesma maneira, sem nomear conceitos, White fala sobre o que Warren Breed mais tarde chamaria de “controle social” na redação. Ele explica que quando Mr. Gates afirma que seleciona as informações “que se enquadram na política editorial do veículo”, ele estaria sendo vítima de um controle social. Assim quando o jornalista procura adequar seus textos à linha editorial da empresa, está sob a influencia de tal controle. É ai que entra em cena a Teoria organizacional.

Teoria Organizacional : Uma visão mais abrangente

A pesquisa de White foi reavaliada por vários estudiosos e chegou-se a conclusão

de que a maioria das razões de seleção das notícias representavam normas profissionais e não subjetivas.

A Teoria organizacional avalia a produção jornalística a partir de um âmbito mais

abrangente do que a teoria do gatekeeper, e mostra que as escolhas do jornalista estão mais relacionadas com as normas da política editorial da organização para qual trabalha do que com suas crenças pessoais. Para que isso ocorra, é necessário que haja uma socialização desta política editorial. Warren Breed afirma que o ponto de vista da direção do jornal controla o trabalho dos jornalistas e que a socialização da política editorial

acontece “ao longo do tempo”, seria um processo de rotina que levaria o jornalista a se encaixar na linha seguida pela empresa. O que significa que o profissional compreende os “costumes da casa”, assim como seus direitos e obrigações .

E é a partir desta idéia que afirmamos que o Diário do Amapá se encaixa melhor

na concepção organizacional de jornalismo do que na concepção da ação pessoal. Isto ficou claro, primeiro pela concordância de discurso existente entre os jornalistas entrevistados e depois durante a análise de conteúdo, principalmente no caderno de política e também durante a observação no ambiente de trabalho. Veja o seguinte trecho da entrevista com um dos editores :

“O ideal é que haja reuniões de pauta que devem ser conduzidas pelo editor- chefe, e no Diário não é diferente, no entanto, nós, editores dos cadernos, gozamos de

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um grau de liberdade muito grande, de modo que às vezes essas reuniões se tornam desnecessárias pelo fato de cada um ter conhecimento de suas obrigações. E como os deveres são cumpridos à contento nem sempre existe a necessidade das reuniões de pauta.” (Carlos Bezerra). Através desta declaração conseguimos compreender o que Warren Breed quis dizer com “a socialização da linha editorial ao longo do tempo”. Um fator que possibilita e facilita muito isso no caso do Diário é que seu quadro de funcionários é realmente reduzido e como já foi dito é praticamente o mesmo desde o início da organização. E ainda pudemos comprovar a opinião de James Curran, um acadêmico britânico (1990). Ele diz que a autonomia do jornalista é uma autonomia consentida, isto é, a liberdade do jornalista é permitida enquanto for exercida em conformidade com os requisitos da empresa. Não podemos nos esquecer do fator financeiro. Todo jornal precisa ter recursos para pelo menos se manter funcionando, e isso depende do lucro da empresa e ainda da “colaboração” dos seus patrocinadores. Aliás, os patrocinadores são muitas vezes protegidos pelos veículos de comunicação e até mesmo o espaço reservado aos patrocinadores compete com notícias relevantes. No caso do Diário do Amapá o jornal sobrevive com poucos recursos econômicos o que reduziu o número de contratados na empresa, e ai voltamos a questão da utilização dos realeases e das informações das agências de notícias como alternativas de se superar este problema organizacional. Há uma inevitável troca de favores entre o Diário do Amapá e a atual assessoria de imprensa do Governo de Dalva Figueiredo, que assumiu o governo quando João Alberto Capiberibe renunciou para se candidatar ao senado. O órgão ajuda o jornal suprindo a carência de repórteres e o jornal divulga as matérias que veículam as ações do governo, relação que não existia durante o mandato de Capiberibe. Em Macapá a relação financeira com patrocinadores é bem complexa, pois o público assinante e leitor cotidiano dos jornais é relativamente pequeno, soma-se à isso o fator preço. O Diário do Amapá custa apenas um real, e, portanto, depende essencialmente de seus patrocinadores. Neste contexto se identifica mais uma vez a tendência política do jornal. Dessa forma, o indivíduo-jornalista conhecedor da linha política-editorial do veículo sabe que rumo deve seguir na redação, do que deseja publicar, isso é, se ele realmente deseja que aquele texto seja publicado no Diário. “Quando pegamos uma matéria que não se encaixa na linha do jornal nós tentamos adequá-la, principalmente com relação à construção do texto. Até porque o Diário preocupado com a correria do dia-a-dia procura fazer matérias pequenas pra facilitar a vida do leitor”.(Douglas Lima) Novamente é confirmada a presença de outros fatores não subjetivos que influenciam na produção da informação.

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Conclusão

Portanto, o Diário do Amapá segue uma concepção organizacional cuja linha editorial socializada se transforma em um discurso único que acaba por nos confundir sobre até onde vai a subjetividade do jornalista e onde começa a exigência editorial da empresa. Concluímos ainda que o fator que tornou a linha editorial tão fortemente compartilhada foi o número reduzido de funcionários, facilitando a dinâmica comunicacional entre os jornalistas e aumentando o grau de autonomia na estrutura hierárquica da empresa. O Diário, portanto, usa a teoria do espelho em seu discurso “O compromisso com a verdade”, mas nossa analise não chegou a este diagnóstico, e ao contrário, nos levou à certeza de que este é um veículo que sobrevive basicamente para fins políticos e para divulgação daquilo que o jornal considera relevante neste aspecto. Tudo isso só veio confirmar o que já dissemos, o estudo sobre as teorias do jornalismo é um campo que necessita de pesquisas mais complexas, para se chegar a um entendimento sobre os fatores que influenciam a produção deste bem tão importante que é a informação. O que nos leva a encarar o processo de produção da noticia como interativo em que diversos agentes sociais, políticos,econômicos e éticos exercem um papel ativo neste processo. O marroquino Mohammed El Haiji, professor do programa de pós-graduação da Eco/UFRJ, é um dos intelectuais ligados ao circulo acadêmico que levanta a bandeira de um jornalismo auto-reflexivo, que visa a necessidade jornalistíca de se desprender da ilusão positivista da objetividade e de não apenas admitir a subjetividade mas também fazer dela uma ferramenta de aproximação do real. Isso significa que o jornalista reconheceria que seu trabalho passa por uma estrutura macrossociológica que lhe impede de se manter imparcial, a partir daí, ele poderia elaborar táticas de resistência baseadas no ceticismo e na desconfiança de qualquer discurso que pretenda parecer absoluto. Neste caso, podemos considerar que a teoria do espelho é um entrave para o desenvolvimento desta auto-reflexão no jornalismo, uma vez que ela nega a subjetividade. Quanto à concepção organizacional na qual enquadramos o Diário do Amapá, é, a nosso ver, uma linha a partir da qual devemos prosseguir nos estudos relacionados as teorias do jornalismo, procurando juntar a ela as concepções de teorias também importantes como a teoria construcionista e a interacionista.

Bibliografia:

Autonomy in Journalism: How It Is Related to Attitudes and Behavior of Media Professionals. Disponível em: http://www.scripps.ohiou.edu/wjmcr/vol02/2-4a-N.htm.

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NEVES,Teresa Cristina da Costa. Disponível em :

ROCHA,

SOUSA, J. P. Teorias da notícia e do jornalismo. Chapecó: Argos, 2002. TRAQUINA, N. O estudo do jornalismo no século XX. São Leopoldo: Unisinos,

2001.

em

Jorge.

Semiosfera

Subversiva.

Disponível

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TV AMAZÔNIA – BAND

Angelo Fernandes Eliazar Bezerra Jacinta Carvalho Jorge Cesar Pedro David

Ao estudarmos as teorias que explicam cientificamente o jornalismo, procuramos conhecer e explicar, respaldados pela ciência, a imprensa existente na cidade de Macapá-AP. O nosso alvo foi a TV Amazônia –Canal 04, afiliada da Rede Bandeirantes no Estado. Emissora esta criada em 14 de setembro de 1991, situada na avenida João Batista Coutinho, nº 1874, bairro Novo Buritizal em Macapá (AP). Segundo Osmar Barros (subgerente substituto), a emissora atinge uma população (cobertura) de aproximadamente 373.834 pessoas residentes nos municípios de Macapá, Santana e Mazagão. Nossa principal visita ao prédio da emissora, ocorreu no dia 30 de outubro de 2002, ocasião onde entrevistamos os senhores Osmar Barros e Ery Santos (repórter). Tínhamos o objetivo de conhecer para poder classificar a referida empresa em uma das teorias do jornalismo (Espelho, Gatekeeper e Organizacional). Após as entrevistas, tivemos a oportunidade de conhecer os departamentos da emissora, bem como suas funções, o que resultou numa experiência extremamente positiva para nossa equipe.

Abrindo o Jogo

Entrevistas com Osmar Barros, subgerente substituto e diretor de jornalismo da TV Amazônica - Canal 4 e com o repórter Ery Santos.

Como é elaborada a pauta? Osmar Barros - Temos nossa equipe de reportagem que recebe uma pauta composta de cinco ou oito matérias. Dessas, ela tem que trazer pelo menos quatro ou cinco, dando prioridade para algumas. Os temas são obtidos da internei, jornais locais e releases.

Vocês trabalham com denúncias da população?

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Ery Santos - A população ao ver o carro da reportagem na rua vai até nós para denunciar algum problema do bairro. Vamos até o local para ver se tem procedência. Se o assunto for relevante a matéria é feita.

E a pauta?

ES - A pauta nos é passada um dia antes. Há aquelas que são marcadas, ou seja, a assessoria do entrevistado combina dia e horário para entrevista.

Como funciona o Programa Opinião? ES - A maioria das matérias são flash, porque se fossem matérias produzidas seriam feitas no máximo duas.

O que vocês priorizam?

ES - As matérias de impacto, a reivindicação da comunidade, as questões sociais. As matérias de política não damos muita prioridade.

Como é feita a triagem das reportagens elaboradas? OB - O diretor de jornalismo e o apresentador escolhem aquelas duas que são de maior impacto. ES - Tem matéria que pode defasar se não jogar no programa de domingo próximo. Tem outras que podem passar de 15 dias guardadas.

E o que pensa o repórter sobre os cortes?

ES - Há um tempo perdido. Depois que o repórter analisa, procura, elabora a matéria, mas por ir de encontro com a situação dele (diretor de jornalismo ou apresentador do Programa Opinião) a matéria é vedada. O meu trabalho foi jogado fora. Eu até me aborreço e chego a dizer que não vou fazer tal matéria.

Mas você não segue os padrões da empresa? ES - Sigo os padrões da empresa, mas me aborreço, me chateio ao pegar assuntos interessantes que não são aproveitados aqui.

O repórter pode fazer matérias previamente?

ES - Uma vez fui fazer matéria sobre um assunto político, mas acabou sendo toda cortada. Aquilo que era de interessante da direção foi pro ar. Essas coisas sempre acontecem.

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O Programa Opinião é gravado?

ES - A gente faz um acompanhamento da edição da matéria. Depois o apresentador faz outra análise antes de gravar. Temos o recurso de fazer tais cortes porque o programa não é ao vivo.

Uma palavra pode gerar problemas? OB - Pode, como é uma emissora de conotação política, o pessoal (governo) fica de olho para achar uma brecha para processar.

Como é formada a equipe de reportagem? OB - Um cinegrafista e um repórter.

O que você (repórter) acha disso?

ES - Basicamente só temos uma equipe porque há uma carência de profissionais no Estado do Amapá, e isso é dificultoso para elaborar o jornal.

Há problemas com equipamento?

OB - Está normal para o que estamos fazendo agora. Mas quando for colocado o jornal aí seria obrigatório uma outra equipe de jornalismo.

Que tempo é dado pela emissora para o jornal local? E o programa? OB - Trinta minutos. Já Programa Opinião tem duas horas devido os comentários.

Os diretores da TV passam alguma orientação quanto a coleta de informações?

OB - Todos os sábados, ao gravar o programa, o apresentador passa alguns temas.

Qual o relacionamento da empresa com o governo? ES - O programa não é imparcial. OB - Devido o marido da proprietária ser político, tem matérias que fazemos de instituições do governo, mas sem bater, como é o caso da Polícia Militar.

Vocês então não podem divulgar os feitos da Prefeitura de Macapá? ES - Por exemplo, se a rua Amanajás está toda esburacada e o prefeito asfaltou, aí eu vou fazer uma matéria mostrando a benfeitoria, mas essa matéria não sai. É isso que eu questiono.

E com relação ao governo?

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OB - Somos oposição. Aqui no Amapá as emissoras sobrevivem pela mídia do próprio governo. No nosso caso, nem prefeitura nem governo manda mídia pra cá por causa da política. ES - Tem emissoras que o governo repassa (publicidade), mas que acaba utilizando as mesmas matérias que a gente faz (com forma de bater no governo) quando deixa de enviar. A própria TV Amapá, que se diz imparcial, se não mandar ela bate.

E como vocês se mantêm? OB - É difícil de manter só com a parte local. A nossa estrutura não é muito grande. Temos apenas uma equipe de reportagem, enquanto nas outras TV’s têm cinco, seis equipes de rua. O pouco que se arrecada com o comercial local é para manter a TV.

Quais os programas da TV Amazônica? OB - Temos apenas o Opinião, o resto são programas comprados: Janete Silva Show, Abel Braga e outros.

Esses programas com tempos comprados são acompanhados? OB - Eles têm que enviar a fita do programa com 24 horas de antecedência, segundo uma cláusula do contrato para que passe por uma revisão. Por que esses programas não são feitos ao vivo? OB - Porque nossa emissora é só RTV (retransmissora,). A Globo e outras são geradoras e podem fazer ao vivo.

Observação e Análise do conteúdo

A Rede Bandeirantes tem como afiliada no Estado do Amapá a TV Amazônia,

Canal 4. As programações nacionais são as mais exibidas na emissora. Já as locais contam com os programas de esporte, sociedade e entretenimento, que são pagos, cujas fitas a emissora recebe prontas só tendo a obrigação de transmiti-los. Segundo o diretor de jornalismo, Osmar Barros, a TV Amazônia está carente no que se refere à área jornalística. Suas programações neste gênero se limitam no Programa Opinião, exibido aos sábados e reapresentado aos domingos. O Programa Opinião conta com uma equipe de jornalismo composta de um repórter e um cinegrafista. A pauta é feita pelo diretor e pelo apresentador (ressalta-se que neste caso o apresentador é esposo da proprietária da emissora).

A pauta é entregue com bastante antecedência ao repórter (24 horas). As

sugestões variam de sete a nove temas para matérias. A seleção dos temas é retirada das notícias divulgadas na Internet, dos jornais locais, releases recebidos de diversas assessorias de imprensa e também de denúncias feitas pela população através de

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telefonemas, visitas ao prédio da emissora e abordagem à equipe de reportagem nas ruas.

O repórter Ery Santos afirma que todas as noticias são checadas antes de ser feita

a matéria. Afirma ainda que são prioridade as matérias baseadas nas denúncias valorizando temas sociais, expondo as dificuldades da comunidade em questão. As

pautas sobre política e polícia são evitadas pela emissora.

A “filtragem” das matérias ocorre da seguinte forma: o repórter produz a matéria e

entrega ao diretor de jornalismo que faz os primeiros cortes na edição. Depois o apresentador faz outros cortes que acha necessários e mais interessantes para a

empresa. “A gente faz uma análise e decide o que é que vai pro ar”, frisa Osmar Barros.

O subgerente substituto da emissora disse que o repórter tem importante

participação na elaboração das matérias. É dada liberdade para ele fazer matérias no seu estilo. No entanto, a escolha de levá-las pro ar é do diretor e do apresentador do Programa Opinião.

“O problema é o seguinte: há um tempo perdido no momento que a gente faz uma

matéria que vai de encontro com a situação que eles querem, aí o meu trabalho é jogado fora. Eu fico chateado com isso”, reclama Ery Santos.

O repórter lembra que em todas as emissoras de rádio, televisão e mídia impressa

ocorre esse tipo de discordância.

Osmar Barros diz que a exibição de matérias leva em consideração seu grau de importância. No caso dela poder ser guardada para ser exibida em outro dia, utiliza-se uma “matéria mais quente”. Então a relevância é determinante no momento de levar uma matéria ao ar.

As questões políticas apesar de serem evitadas, interferem na programação. Isto

porque a emissora tem ligação com políticos locais. Este fato acaba determinando a linha

ideológica da empresa. Mas todos os profissionais entrevistados afirmam que este fato não é singularidade da TV Amazônia. O mesmo se repete em praticamente toda a imprensa do Estado do Amapá. Por essas e outras razões particulares dos donos da emissora, a edição e cortes

feitos nas matérias levam em consideração evitar palavras que possam resultar em algum tipo de processo. Principalmente no que se relaciona à política partidária. Também se evita elogiar grupos contrários aos interesses da empresa.

O diretor de jornalismo da empresa alega que a emissora pretende retomar o

telejornal local, que está parado por falta não de recursos técnicos, mas humanos. Um dos motivos é que existe uma carência de profissionais na área jornalística no Estado, bem como a necessidade de compra de equipamentos mais sofisticados e eficazes.

Os proprietários da emissora sempre passam algumas orientações aos diretores,

mas não são de pressionar os funcionários, mesmo porque todos conhecem a linha ideológica da empresa. O repórter entrevistado narra que TV Amazônia- Canal 4 não é

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imparcial, assim como nenhuma outra emissora. O fato de receber orientação é normal, mas em seu caso é permitido questionamentos sobre certas orientações.

Contradições

A equipe analisou o Programa Opinião e chegou à conclusão de que não houve

muitas contradições no depoimento dos entrevistados. Realmente o programa não divulga ações governamentais e aproveita-se das falhas da máquina para mostrar o descaso da administração pública. Ficou também claro que a reportagem aponta irregularidades, mas não tem nenhum interesse em mostrar o problema solucionado. Os entrevistados afirmaram que não é dada prioridade às matérias de política, mas a equipe verificou que o programa tem características políticas, Uma boa parte do tempo do programa é utilizado pelo apresentador e seus convidados para mostrar os feitos realizados pela sua família no passado. Também é verificado que eles possuem alvos pré-determinados, quase todos políticos de outras legendas partidárias. Em várias décadas de estudos realizados sobre o jornalismo surgiram tendências

e teorias que pretendem justificar e responder por que as notícias são como são. Assim

nasceram as teorias: do espelho, que diz que o jornalismo é o espelho da realidade, do gatekeeper, que defende a idéia de que a objetividade do jornalismo passa pelas escolhas individuais dos jornalistas, e a organizacional, que afirma que a objetividade perpassa pela interação jornalistas e organização. No caso da empresa pesquisada, observada e analisada - TV AMAZÔNIA - Canal 4, pode ser classificada na Teoria Organizacional, isto porque a ênfase desta teoria está

num processo de socialização empresa X empregado em que e destacada a importância da cultura e ideologia da Instituição, e esta acaba rebatendo a cultura profissional, ou seja, os interesses da empresa são quem direcionam a linha editorial de sua programação, respeitando sempre a ideologia defendida pela organização. “Todos, com a exceção dos novos, sabem qual é a política editorial. Quando interrogados, respondem que a aprendem por Osmose. Em termos sociológicos, isto significa que se socializam e ‘aprendem as regras’ como um neófito numa subcultura. Basicamente, a aprendizagem da política editorial é um processo através do qual o novato descobre e interioriza os direitos e as obrigações de seu estatuto, bem como as suas normas e valores. Aprende a ante ver aquilo que se espera dele, a fim de obter recompensas e evitar penalidades “. (Breed citado por Traquina, 2001, p. 72)

A citação mostra que os pontos de vista da direção da empresa é que determinam

o caminho a ser seguido pelos jornalistas, por meio de recompensas ou punições. Desta

forma, o jornalista vai se encaixando na ideologia da empresa. Mas tudo ocorre de forma

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sutil e muitas vezes despercebida. Não existe nas empresas que segue a Teoria Organizacional, punições cruéis, como se imagina. E sim é usada uma ferramenta disciplinar conhecida como censura. Ela hoje é o principal recurso de punição e possui muita eficiência. A TV Amazônia - Canal 4, não sendo diferente da maioria da imprensa local, segue a teoria organizacional. Por essa razão os profissionais seguem as escolhas da instituição, respeitando sua linha ideológica, a fim de se enquadrar de forma positiva na empresa e garantir um bom convívio profissional. Isto não quer dizer que o jornalista concorde com tais ideologias, mas é a forma de sustentar seu espaço, ganhar destaque, para a manutenção de seu cargo.

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TRIBUNA DO AMAPÁ

Alcicleia Cruz Clarice Costa João Augosto Flexa Pereira Odenice Serra Ronelli Aragão

Vive-se em um mundo em que o avanço da tecnologia proporcionou ao homem uma resposta imediata às suas necessidades. Neste sentido os MCS mostram-se eficazes e até bastante satisfatórios. No entanto, ao mesmo tempo em que facilitam a vida do indivíduo, são capazes de aliená-lo, uma vez que ao assistir ou ler uma notícia, por exemplo, este homem estará sujeito a reconhecer como verdade algo que de certa forma lhe foi imposto. Dentro deste contexto surgiu a necessidade de se avaliar os veículos impressos do estado, como forma de se desenvolver uma consciência crítica capaz de compreender o processo pelo qual passa a informação até chegar ao seu produto final. Este trabalho que aqui se apresenta é o resultado da análise do veículo de comunicação impressa, Tribuna do Amapá. Foi realizado através de um minucioso estudo que tomou como base determinadas teorias abordadas no conteúdo acadêmico de jornalismo. Essas teorias referem-se à forma como se dá a reconstrução do real em palavras, ou seja, como funciona a lógica dos meios de comunicação social, e o que está por traz daquilo que se chama de “a verdade dos fatos”. Apesar de se tratar de algo aparentemente simples, é importante ressaltar a dificuldade que se encontrou para levar a diante o projeto desta pesquisa, uma vez que o resultado deste trabalho dependeu, não somente do conhecimento adquirido na academia, mas principalmente da sensibilidade na observação de todo material coletado. A saber, o jornal Tribuna do Amapá foi criado em outubro de 1992. Segundo José Carlos, proprietário do veículo, a idéia surgiu pela necessidade de complementar o sistema de informações da imprensa no Estado. O jornal, que é semanal, tem um quadro de funcionários composto por três jornalistas, um editor executivo e um diagramador. O editor executivo, Aníbal Sergio, é responsável pela seleção e escolha das pautas, assim como também realiza o trabalho de repórter. As pautas entram na edição nas terças-feiras, e nas quartas e quintas são discutidas para que, já selecionadas nas sextas, estejam prontas no sábado para serem diagramadas. São então salvas em disquetes, zipadas e encaminhadas à gráfica para impressão.

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Normalmente os assuntos escolhidos para a elaboração das matérias, são releases vindos do Palácio do Governo e da Rádio Difusora. Tais releases são encaminhados para a redação do jornal onde são selecionados de acordo com os critérios da política editorial. Para os jornalistas entrevistados, entre estes critérios estariam a reprodução da “verdade”, a reprodução das versões de todas as partes envolvidas, neutralidade diante dos fatos e defesa dos interesses do leitor. O editor afirma que o clima de trabalho é tranqüilo e os jornalistas têm total liberdade em suas matérias, desde que estas estejam condizentes com “a realidade”. Por outro lado, os jornalistas, numa atitude bastante conformista, afirmam apenas cumprir seu “serviço social” de bem informar a população. Contudo, a simples observação do cotidiano do jornal demonstrou-nos que nem sempre a competência e o poder conferido a estes profissionais foi realmente colocado a serviço do povo, como anteriormente é citado. Na verdade, a questão vai mais além do que se viu, e está presa à própria evolução histórica da imprensa. O fato é que, a grande imprensa há muito tempo lançou o mito da objetividade e dos demais critérios já citados, fazendo-os de forma tão bem feita, que não há penalidades referentes à falsificação de informações, até porque a distorção é tida como fato político legítimo.(Aqueles que sofrem penalidades são os que provavelmente feriram os projetos políticos dos controladores do poder). Sendo assim, o fato sempre estará à mercê da livre interpretação do seu julgador, e esta “livre” interpretação normalmente passará por aspectos tanto individuais e internos, quanto externos, ligados à ideologia da empresa que o reproduz. Os processos internos pelos quais passa a informação são estudados pela teoria denominada Gatekeeper. Esta afirma que ao observar o mundo que o cerca, o individuo traduzirá o que viu de acordo com os conceitos e valores aprendidos por ele ao longo de sua vida. Isto lhe confere, portanto, uma forma própria e particular de perceber as coisas. Neste caso o que ele afirma ser “a verdade”, é apenas a sua versão dos fatos. “A realidade” é neste sentido, relativa. No que diz respeito aos fatores externos ao indivíduo, a teoria que tenta explicá- los é chamada de organizacional, esta parte do princípio de que tudo o que sai nos jornais, é o resultado da interação entre a organização e o profissional. Sendo que a linha editorial pesa no momento de escolher o que publicar. Uma terceira teoria, denominada Teoria do Espelho, afirma ainda que, em se tratando de jornalismo, o fato em si deve ser reconstruído em palavras. A matéria tem que ser obrigatoriamente objetiva, no sentido de não emitir opinião, do contrario o veículo cairá em descrédito. A realidade, portanto, mostra-se de forma única e absoluta. Esta teoria é a mais divulgada e defendida nos meios noticiosos, assim como também no veículo em questão.

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No entanto, há que se tomar cuidado, pois esta neutralidade é apenas aparente. De acordo com o que foi observado, o jornal tem condições de opinar desde o momento em que seleciona o que será publicado. Tomamos como exemplo a matéria abaixo, retirada do jornal Tribuna do Amapá de 26/07/ 02. Para fazer um contraponto a esta, usamos para a análise a matéria de um outro jornal, denominado Diário do Amapá, editada no mesmo período:

Definidas as ações para a criação do Parque

“Foram definidas pelo governo federal, as ações e diretrizes para implantar e subsidiar a criação do Parque Nacional das Montanhas do Tumucumaque. As ações serão implementadas pelo Grupo de Trabalho doa Parque, instituído pelo Ministério do Meio Ambiente. (MMA)”.

*Chamada de capa retirada do veículo informativo Tribuna do Amapá, no período já citado.

Nota-se na chamada acima que o jornal passa a impressão de objetividade, trata a notícia como sendo do gênero “informativo”. Entretanto, pode-se perceber uma discreta tendência por parte do veículo, ao apresentar o fato de forma aparentemente positiva para o Estado, como algo esperado por todos (basta ler o título). Ao fazer isto, omite informações, como a insatisfação de determinados segmentos da sociedade que se posicionaram contra a criação do Parque Nacional do Tumucumaque. Fato que poderá ser confirmado no texto abaixo:

Parque Nacional do Tumucumaque pode ser contestado na Justiça

“Seguimentos insatisfeitos com o anúncio da criação do Parque Nacional Montanhas do Tumucumaque, para setembro próximo, poderão apelar com busca de alternativas jurídicas para impedir a concretização do plano do presidente Fernando Henrique Cardoso. Esta possibilidade foi aventada pelo prefeito de Laranjal do Jarí, Reginaldo Miranda, secundado pelo gestor do Oiapoque, Milton Rodrigues. Laranjal do Jarí e Oiapoque estão entre os municípios que serão

atingidos Pelo Parque Nacional, no caso da criação ser formalizada”.

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Um jornal pode apresentar-se aparentemente como neutro e objetivo. Terá, contudo a sua disposição um trunfo: não informar, ou melhor, escolher o que informar. Este é o primeiro passo para o esboço de uma tendência. Outro aspecto observado pelo grupo foi o título dado às chamadas: DEFINIDAS AS AÇÕES PARA A CRIAÇÃO DO PARQUE e PARQUE NACIONAL DO TUMUCUMAQUE PODE SER CONTESTADO NA JUSTIÇA. Nota-se a subjetividade contida nos títulos quando revelam nas entrelinhas, expectativas. Enquanto o primeiro aborda o fato de maneira festiva, o segundo demonstra aversão. Emoções e sentimentos ideológicos que não condizem com a objetividade. Além da chamada de capa, o conteúdo da matéria demonstrou-se da mesma forma tendencioso. Verifiquemos os trechos abaixo, retirados destas matérias:

“A criação do Grupo de Trabalho foi o resultado da monção proposta pelo governo

amapaense a o seminário de Avaliação e Identificação de Ações Prioritárias para a Conservação, Utilização e Repartição dos Benefícios da Biodiversidade da Amazônia

proposta foi assinada

Brasileira, que aconteceu em setembro de 1999, em Macapá”

por seis Estados, que reconheceram a importância ambiental da região do Tumucumaque

e a necessidade da criação de uma unidade de conservação naquela área”.

A

* Definidas as Ações Para Criação do Parque/ Tribuna do Amapá

“Enquanto o presidente Fernando Henrique Cardoso tem por certo criar o Parque Nacional Montanhas do Tumucumaque, em setembro próximo, várias correntes nortistas se posicionaram contra a medida, podendo até apelar com busca de alternativas jurídicas para impedir a concretização do interesse presidencial.

falou pela primeira vez em justiça, mais especialmente em Ministério Público

Federal, foi o prefeito de Laranjal do Jarí, Reginaldo Miranda, secundado pelo gestor do

Oiapoque, Milton Rodrigues. Laranjal e Oiapoque estão entre os municípios que serão atingidos pelo Parque Nacional, no caso da criação ser formalizada.

acordo com o que vem sendo estudado, o parque tomará 28% do espaço geográfico

do Amapá. O prefeito de Laranjal do Jarí diz que em virtude do “sufoco territorial” a que o

Amapá vem sendo submetido, o seu município, particularmente, não tem para onde crescer em termos geográficos. Reginaldo também exige um ressarcimento de perdas. Tal ressarcimento seria na forma de ações emergenciais para suprir, por exemplo, os índices alarmantes de pobreza e miséria que grassam em laranjal, onde não existe sequer um sistema de esgoto sanitário”

Quem

De

* Ministério público poderá ser questionado no caso Tumucumaque / Diário do Amapá

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Percebe-se, ao ler os textos acima, que o primeiro, tende a registrar o acontecimento como sendo de interesse do Estado. Isto é verificável no momento em que relata que a criação do Grupo de Trabalho foi o resultado da monção proposta pelo próprio governo amapaense. Também faz questão de falar a respeito da importância da criação de um projeto como este, para tanto cita que seis estados reconheceram isto. Já no segundo texto, o autor tenta deixar claro que o tal projeto é de interesse presidencial e não dos nortistas. Basta ler, no primeiro parágrafo, a frase sublinhada. Além disso, também parece prever uma catástrofe, quando afirma que dois municípios serão “atingidos” pelo Parque. Outra questão, que merece ser observada, são os possíveis problemas que a implantação do parque causará à população.De acordo com o que foi relatado na segunda matéria, o parque tomará 28% do espaço territorial do Amapá e o município de Laranjal do Jarí não teria para onde crescer em termos geográficos. E então, o que poderíamos dizer diante de versões tão contraditórias? Quem estaria com a verdade? O leitor que tiver acesso apenas à primeira matéria compreenderá que está tudo muito bom. Assim como também aquele que ler apenas a segunda, chegará à conclusão de que uma desgraça está para acontecer. Diante de contextos tão divergentes, percebe-se que aquilo que foi definido pelos profissionais em questão como a verdade dos fatos, não ultrapassa a condição de ponto de vista, fragmentos de realidade. Versões que podem ser verdadeiras, mas que são apenas versões. E que objetividade, neutralidade e imparcialidade são qualidades inatingíveis em se tratando de jornalismo e seres humanos, já que a subjetividade está presente na escolha do que foi publicado, em qual informação foi divulgada, onde foi colocada, no destaque que lhe foi conferido, e na forma como foi abordada. Momentos em que, neste caso em particular, prevaleceu a ideologia da organização empresarial. Ideologia esta, que, ao contrário do que a empresa afirma, parece ter um certo compromisso com as categorias socioeconômicas que estabelecem as regras do jogo. O jornal estudado possui 12 páginas, sendo que a maioria do que é publicado emite o ponto de vista do governo. Vale ainda ressaltar que, os jornalistas apesar de afirmarem o contrário, segundo o que foi analisado, não parecem ter tanta liberdade assim. Seu poder é sempre limitado pela proposta ideológica da empresa. Parece-nos, portanto cabível considerar que a teoria que melhor traduz o processo pelo qual passa a informação dentro do jornal Tribuna do Amapá é a Organizacional. Contudo, o fato de o veículo (assim como toda a imprensa) “beneficiar” a sociedade, oferecendo boas porções de evidências, adequadas a sua linha editorial, não o exime da cumplicidade com que deixa de apurar numerosos acontecimentos de relevância para as classes populares, uma vez que se propõe a emitir a opinião do povo.

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Neste sentido, o veículo apenas cumpre a missão de justificar os atos do poder

local.

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AMAPÁ NOTÍCIAS

Cristiane Nascimento Lena Marinho Marcione Rocha Pérola Pedrosa Priscila Silva Robenize Jucá Romildo Souza

A presente pesquisa tem como objetivo analisar o programa jornalístico “Amapá

Notícias” da Rádio Nova 93, também conhecida como Rádio Amapá FM.

A pesquisa se deu a partir de uma visita à rádio no dia 6 de novembro de 2002,

quando observamos todos os procedimentos que antecedem o momento em que o jornal vai ao ar, assim como, quando estava sendo realizado. Posteriormente, iniciamos as entrevistas, sendo a primeira pessoalmente e as seguintes via telefone. Ao mesmo tempo, efetuamos a gravação dos jornais dos dias 6, 7 e 8 de novembro de 2002, para complemento das análises. A Rádio Nova 93 faz parte da Rede Amazônica de Rádio e Televisão Ltda, juntamente com a TV Amapá – Canal 6 (afiliada da Rede Globo). A Rede Amazônica tem trinta anos de fundação e abrange toda a região norte através de suas respectivas capitais, com exceção do Estado do Pará. Possui cinco emissoras de televisão: TV Amazonas, TV Rondônia, TV Roraima, TV Amapá e TV Acre; três emissoras de rádios (Amapá, Manaus e Acre). Sua sede está localizada na cidade de Manaus-AM. Inaugurada em 17 de outubro de 1990 , a rádio funciona há doze anos e está

situada no mesmo prédio da TV Amapá. Possui direção própria e programas de tradição no Estado, como exemplo o “Disque Vendas”, que vai ao ar pela manhã e possui relevante participação da comunidade.

O programa jornalístico “Amapá Notícias”, também já faz parte do cotidiano dos

amapaenses. Foi ao ar pela primeira vez no dia 03 de maio de 1999, tendo como primeiro apresentador e redator-chefe o Sr. Oscar Filho, atual secretário de comunicação do Estado, que na época contava com o apoio dos repórteres Osmar Melo e Germana Duarte. Hoje, podemos acompanhar o jornal de segunda à sexta-feira, de 7h às 8h, sob o comando da jornalista Germana Duarte e juntamente com os repórteres Ivaldo Souza e Osmar Melo. Germana Duarte, além de apresentar o jornal, também é responsável pela coleta e seleção das notícias, redação, escolha dos entrevistados, etc. Aprendeu a fazer jornalismo nas ruas, na função de repórter policial. Atua há vinte anos no jornalismo

TEORIA DO JORNALISMO – CRITÉRIOS DE ESCOLHA DE NOTÍCIAS NOS JORNAIS AMAPAENSES

amapaense, sendo que há onze está na Rede Amazônica, passando primeiro na TV Amapá e depois então foi trabalhar na rádio. Além de apresentadora, a jornalista é assessora de comunicação da Prefeitura Municipal de Macapá. Também já trabalhou em jornais impressos como O Liberal Amapá e Diário do Amapá. Toda essa experiência está resumida na seguinte frase: “ O jornalismo pra mim é tudo”, declara Germana Duarte.

Passo a passo do programa Amapá Notícias

O programa Amapá Notícias vai ao ar de segunda à sexta, no horário das sete horas às oito horas da manhã. A equipe é formada pela apresentadora e redatora-chefe Germana Duarte e pelos repórteres Ivaldo Souza e Osmar melo, os quais chegam à rádio por volta das cinco horas da manhã e cumprem o horário até às dez horas. Em seguida checam os e-mails encaminhados por suas fontes, geralmente com notícias quentes (atuais), efetuam pesquisa na Internet das notícias divulgadas pelos jornais locais, nacionais e internacionais. Os sites nacionais mais pesquisados são o

www.globo.com e o www.terra.com.br . As notícias regionais são retiradas de releases de empresas, órgãos públicos federais, estaduais e municipais e de sites dos principais jornais do Estado do Amapá. Após esse trabalho, escolhem as principais para destaque no início do programa.

O jornal conta com a participação de um entrevistado. Antes do programa ir ao ar,

a apresentadora entra em contato para certificar-se da presença do convidado, a partir

de então, divulga aos ouvintes. O entrevistado geralmente é uma figura pública e sua participação no programa é para responder sobre algo que está em evidência no momento. Em relação as notícias divulgadas, há sempre a verificação de sua veracidade. A

redatora Germana Duarte diz que se não tem certeza sobre o matéria, não pode divulgá- la, pois isto tiraria a credibilidade do jornal. “Sabe, que quem faz jornalismo sério tem que ter responsabilidade quanto a veracidade dos fatos”, diz.

A apresentadora é a responsável pelo programa, ela é quem decide o que vai ao

ar e o que não vai, não há, portanto, uma fiscalização efetiva da direção da rádio. Mas Germana diz: “tenho cuidado principalmente com os clientes da empresa, pois a rádio é uma empresa comercial que vive de lucros, por isso é necessário omitir nomes ou até mesmo não divulgar notícias que prejudiquem algum cliente”. Ela lembra que já aconteceu de veicular fato que não deveria e a direção da rádio chamou sua atenção. Caso seja algo que envolva um cliente da empresa, mas que não deveria ser omitido devido sua relevância, a apresentadora se reúne com a direção da rádio para decidir o que fazer. Germana começa o programa às sete horas em ponto, entra a vinheta de abertura

e sua saudação. Segue com os destaques do dia, informa a hora, a data e a temperatura.

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Prossegue com a narração das notícias em evidência. Em seguida inicia a participação do ouvinte, geralmente fazendo algum convite de palestras, encontros, etc. Continua a narrar notícias. No meio do programa entra a entrevista do dia. A apresentadora faz perguntas ao entrevistado. Nesse momento, os ouvintes também podem participar e tirar dúvidas com o convidado. Segue o programa com o repórter da rua, Osmar Melo, com notícias do que está acontecendo na cidade, como: acidentes, blitz, eventos e outros. Existe também, a hora dos comunicados, notícias de prestação de serviços para a comunidade, mensagens da família ou amigos sobre alguém que se encontra doente, acidentado ou perdido. Em seguida, entra o outro apresentador, Ivaldo Souza, com as notícias policiais. Germana prossegue com mais notícias. Ivaldo Souza dá as notícias sobre esporte e a apresentadora encerra o programa.

A pauta é feita após o programa, quando reúnem-se para discutir e planejar o dia

seguinte. O expediente da equipe acaba às dez horas, mas durante o resto do dia checam as informações e realizam o contato com o entrevistado do próximo programa.

Germana Duarte fala sobre o Rádiojornalismo

Para Germana, a linguagem jornalística no rádio deve ser dinâmica, direta, simples, clara e objetiva para não cansar o ouvinte. O rádio atinge todas as classes sociais. O rádio é muito importante para a notícia. É a notícia em cima da hora que atinge todas as camadas sociais. Nem todo mundo tem TV em casa ou dinheiro para comprar

jornal todo dia, porém, até pessoas de baixa renda tem acesso ao rádio. É a notícia rápida

e imediata. Segundo Germana, o programa Amapá Notícias possui uma gama de responsabilidades, cumplicidade com a comunidade de informação e dá a repercussão da informação e opinião sobre os fatos, esses três pontos classificam o programa em fazer jornalismo.

Uma nova era

O estúdio da Rádio Nova 93 FM sofreu modificações: no novo estúdio de locução,

o sistema de isolamento acústico foi substituído; houve a reforma e o aperfeiçoamento do sistema de blindagem contra interferência. Foi implantado um sistema de programação computadorizado, facilitando o trabalho de locutores e operadores. “Mas a principal modificação é a melhoria da qualidade da programação, servindo

melhor o ouvinte e atendendo aos seus informes diários”, diz Germana. Esse estúdio conta ainda com sistema de equipamentos periféricos no qual são utilizados cd´s player´s

e mini discs que permitem a utilização de qualquer fonte de áudio. A Rádio possui ainda outros estúdios: um estúdio de gravação para produção de vinhetas, chamadas e

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comercias. Desta forma, a rádio possui todo um sistema montado para que não falte programação aos seus ouvintes.

O potencial jornalístico

Ao analisarmos as notícias observamos que todo o potencial jornalístico que a rádio pode proporcionar é aproveitado pelo programa. Houve um avanço considerável na produção jornalística do programa, os textos ganharam mais análise. Os jornalistas são quem escolhem as notícias, e, na hora de redigi-las, levam em conta as peculiaridades da enunciação verbal. Evitam, por exemplo, frases longas e trabalhadas, de preferência, com uma sintaxe bem simplificada.

A oralidade radiofônica do programa,amplia o acesso a todos os indivíduos,

independente do nível de alfabetização e educação. Grandes parcelas da massa populacional, entre elas as áreas rurais, dependem da rádio para obter informações.

A escolha das notícias

Para enfrentar a competição de outros programas ao vivo, o programa apresenta as notícias menos exaustivas, sobretudo a partir de noticiários locais. O programa não mais se limita proporcionar aos ouvintes uma mera notícia; eles procuram traçar paralelos de explicações para os fatos.

A linguagem do programa

A linguagem do programa é ágil, dinâmica, sobretudo objetiva e esclarecedora, faz com que os ouvintes sintam-se interessados pelos temas, desde que bem tratados.

A apresentadora do jornal, Germana Duarte, une informação análise com

descontração, associada à naturalidade permitida pela rádio.

Uma gatekeeper a serviço da organização

De um lado a autonomia da jornalista e de outro os interesses comerciais da empresa. Essas são duas constantes no Amapá Notícias. Embora Germana Duarte, a apresentadora responsável pelo programa, tenha liberdade para escolher e dar enfoques nas matérias as quais apresenta, ela demonstra ter consciência daquilo que pode ou não divulgar conforme as regras da empresa para a qual trabalha. Portanto, a liberdade de divulgação da notícia é limitada, ou seja, parcial.

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Nota-se a existência não só de uma, mas de duas teorias: sendo a do Gatekeeper, no momento em que ela seleciona e divulga as notícias e, a Organizacional, que torna-se evidente quando Germana reúne com a diretoria e discute sobre a divulgação ou não de determinado fato jornalístico e acaba por excluí-la quando a mesma vai de encontro aos interesses da empresa. No momento em que Germana faz a seleção do que vai divulgar no programa, ela funciona como gatekeeper, ou seja ela serve como a “porteira” que autoriza a entrada das

notícias, a porta só é aberta para àquelas que acha de interesse dos ouvintes, as que não são, ficam de fora.

A teoria Organizacional sobrepõem-se à do Gatekeeper, pois a escolha do

jornalista fica vinculada ao que a empresa estabelece, e em muitos casos ao que os

clientes impõem. A realidade do programa Amapá Notícias não é diferente da dos demais meios de

comunicação. Toda empresa precisa obter lucros e muitas vivem de seus anunciantes ou patrocinadores. Os jornalistas tentam ser imparciais, objetivos e buscam sempre mostrar a realidade dos fatos, mas na prática isto é bem subjetivo, depende da escolha do jornalista ou do meio de comunicação em que a notícia é divulgada.

O reflexo exato da realidade sem intervenções, sejam estas pessoais ou da

empresa, está apenas na teoria, mais precisamente na do espelho, porque na prática não

existe e talvez nunca existirá.

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CONCLUSÃO

Ivan Carlo Andrade de Oliveira

A pesquisa realizada demonstrou que das três teorias que serviram de base para

esse trabalho, a teoria do espelho é a mais lembrada nos discursos de jornalistas, editores e donos de veículos de comunicação. A maioria argumenta estar retratando fielmente os fatos. Mas na prática a teoria do espelho se mostra falha. Em todo texto

jornalístico há algum tipo de subjetividade, seja ele de origem pessoal ou organizacional. Prova disso que um fato noticiado em um jornal acaba não sendo objeto de divulgação por parte de outro jornal. Além disso, como ficou demonstrado, dois jornais podem dar a mesma notícia de maneira completamente diferente. Embora haja uma tendência grande à ação pessoal, ao gatekeeper, a teoria organizacional é a que melhor explica as notícias como elas são. Isso se explica em parte pelo fato de que, quanto maiores os recursos necessários para transportar as informações até o receptor, maior a dependência do jornal com relação aos anunciantes. Em locais como Macapá, em que não há grandes empresas, o maior anunciante é o governo, que acaba se tornando, ele sim, um grande gatekeeper. A pesquisa demonstrou que veículos de baixo custo, como sites informativos, podem manter sua independência mais facilmente. Com menos custos operacionais e sendo produzidos por jornalistas que muitas vezes são também sócios, ou por colaboradores que nada recebem, esses órgãos de comunicação apresentam uma tendência maior a destacar a ação pessoal. Nesses veículos, as escolhas são mais pessoais que organizacionais. Interessante notar que muitos pesquisadores, ao invés de simplesmente aplicar as teorias, fizeram uma crítica a elas, mais especificamente à diferenciação entre gatekeeper

e organizacional. Gatekeeper e organizacional se confundem quando o dono e, portanto a

figura a organização, é também um jornalista. Nesses casos, as escolhas organizacionais

refletem as escolhas pessoais, e não o contrário. Em situações como essas, talvez fosse interessante criar uma terceira categoria que juntasse em si aspectos de ação pessoal e organizacional na escolha de notícias.

A crítica à teoria do espelho que permeia este trabalho não deve ser vista como

uma volta ao sensacionalismo ou ao descaso com a verdade. É antes uma percepção de que não existe uma verdade, mas várias verdades. Apenas modelos totalitários têm

privilegiado a idéia de que existe apenas uma versão verdadeira. Todo texto informativo é

a afirmação de uma versão dos fatos. Versão essa que deve ser fiel ao fatos, embora se perceba como apenas uma versão.

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A importância desta pesquisa pode ser apresentada na frase de Eduardo Meditsch: “A notícia é apresentada ao público como sendo a realidade e, mesmo que o público perceba que se trata apenas de uma versão da realidade, dificilmente terá acesso aos critérios de decisão que orientam a equipe de jornalistas para construí-la, e muito menos ao que foi relegado e omitido por estes critérios, profissionais ou não” (Meditsch,

2002).

Referências

MEDITSCH, E. Fundamentos e Pertinência da Abordagem do Jornalismo como Forma de Conhecimento.

2002.

SOUSA, J. P. Teorias da notícia e do jornalismo. Chapecó: Argos, 2002. TRAQUINA, N. O estudo do jornalismo no século XX. São Leopoldo: Unisinos, 2001.