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FACULDADE DE MEDICINA DO ABC

DEIVISON MENDES FAUSTINO

A PERCEPÇÃO DO MOVIMENTO NEGRO DO ABC PAULISTA SOBRE A

SAÚDE DA POPULAÇÃO NEGRA: AGENDAS, AÇÕES E PARCERIAS

Dissertação de mestrado apresentada à Faculdade de Medicina do ABC para a obtenção do título de Mestre em Ciências da Saúde

Orientador: Marco Akerman

Contato do autor:

SANTO ANDRÉ

2010

1

Dissertação elaborada ao departamento de Saúde da Coletividade da Faculdade de Medicina do ABC, junto ao programa de pós-graduação em Ciências da Saúde da Faculdade de Medicina do ABC recomendado pelo Conselho Técnico Científico CAPES

Área de Concentração: Epidemiologia

Orientador: Marco Akerman

DEDICATÓRIA

Aos que me antecederam, lutando arduamente para que esta conquista fosse

possível;

Aos que estão, e aos que virão!!

3

AGRADECIMENTOS

Serei eternamente grato a todos aqueles em que cruzei na caminhada e

acabaram por transformar a minha vida, em especial:

À família nada “nuclear” Dona Maria e Seu Pipoca, Shirlei e Renata pela força;

À Tia Marilene pela inspiração;

Aos trutas de batalha: Fião, Aninho, Guto, Fávio, Geo, Shaw, Devil, Emerson,

DJ Marques e Ny pelas noites de Rap e rebeldia;

Aos irmãos Carlos, L. Áfro, Elenira Onijá, Beto (Unegro), Andréia, Robson Dio,

Preto Bá, Iara, Lian, Rogério e Helen pelo despertar da minha africanidade;

Às parceiras de trabalho e de luta Spiassi e Rebecca;

Aos Mestres Miltão, Deise Benedito, Regina, Donizete, Coquinho;

À Naiza pelas rigorosas contribuições;

À Professora Olinda, Professora Ana Voloscho e o Professor José Ricardo

Ayres;

Ao Professor Marco pela atenção e paciência;

Ao Grupo KILOMBAGEM;

Ao Kairú Nkosi e o Victor Mendes Messias Continuidade!

4

EPÍGRAFE

"Até que os leões contem suas histórias

os contos de caça glorificarão sempre o caçador."

5

Provérbio africano

SUMARIO

DEDICATÓRIA

 

3

AGRADECIMENTOS

4

EPÍGRAFE

 

5

SUMARIO

6

RESUMO

8

ABSTRACT

9

1

INTRODUÇÃO

 

10

 

1.1 PREÂMBULO

10

1.2 RACISMO, SAÚDE E O MOVIMENTO

NEGRO

15

1.2.1

Raça e racismo no debate contemporâneo

15

 

1.2.1.2 A atualidade do racismo brasileiro

23

1.2.1.3 A dimensão racial da situação de pobreza em São Paulo

30

 

1.2.2

Os impactos do racismo na saúde da população negra

32

 

1.2.3.1 A saúde da população negra

 

35

1.2.2.2 Saúde mental e racismo

36

1.2.2.3 Racismo institucional

38

 

1.2.3

O movimento negro

40

 

1.2.3.1 A atuação afirmativa do movimento negro

40

1.2.3.2 A diversidade do movimento social negro

43

1.2.3.3 O protesto negro e a cultura

 

45

1.2.3.4 O movimento negro na África e na diáspora

48

1.2.3.5 Breve histórico do movimento negro no Brasil

51

 

Resistência no período escravista

52

Entre a Abolição e o surgimento do Movimento Negro Unificado Contra a Discriminação Racial - MNUCDR

53

O feminismo negro

60

Religiosidade de Matriz Africana e Saúde

61

Dos Bailes Blacks ao Hip Hop

62

 

1.2.4

O movimento negro e a saúde da população negra

68

2

- OBJETIVOS E HIPÓTESES

 

72

 

2.1.

OBJETIVO

GERAL

72

2.2.

OBJETIVOS ESPECÍFICOS

72

2.3

HIPÓTESES

72

3

METODOLOGIA

73

 

3.1

O INSTRUMENTO DE COLETA

75

3.1.1

Terminologias

77

3.2

DEPURAÇÃO DOS DADOS

 

77

3.3.ANÁLISE DO DISCURSO

78

4

RESULTADOS

E DISCUSSÃO

80

 

4.1 AGENDAS PRIORITÁRIAS DO MOVIMENTO NEGRO DO ABC PAULISTA

80

4.2 A PERCEPÇÃO DO MOVIMENTO NEGRO EM RELAÇÃO À SAÚDE DA POPULAÇÃO NEGRA

84

4.2.1 A saúde na agenda do movimento negro

84

4.2.2 O racismo como fator de vulnerabilidade

89

 

A

percepção de vulnerabilidade

90

O

Racismo institucional

91

4.3 AÇÕES DE PROMOÇÃO À SAÚDE

6

93

4.3.1

Afirmação da Identidade, auto-estima e saúde

93

4.3.2

Cultura negra e promoção à saúde

95

4.4

O POTENCIAL DE ADESÃO ÁS AÇÕES E PARCERIAS COM O SETOR SAÚDE

98

4.4.1

O movimento negro como interlocutor da população negra

98

4.4.1.1 Atuação sobre os determinantes sociais da saúde

99

4.4.1.2 Atuar diretamente em ações de prevenção:

100

4.4.1.3 Controle social e prevenção de DSTs/AIDS

101

4.4.1.4 A cultura negra como facilitadora das ações de prevenção

103

4.4.2 Condições necessárias para interlocução

105

4.4.2.1 Representatividade e poder político

105

4.2.2.2 Qualificação técnica

107

4.4.2.3 Apoio financeiro

108

4.5 INDICAÇÕES SOBRE POTENCIAIS POLÍTICAS PÚBLICAS BASEADAS NA AVALIAÇÃO REALIZADA

PELAS ENTIDADES DO MOVIMENTO NEGRO:

110

CONCLUSÃO

113

BIBLIOGRAFIA

CITADA

116

BIBLIOGRAFIA

DE APOIO

130

ANEXOS

133

CONSENTIMENTO LIVRE INFORMADO

134

QUESTIONARIO: I RODADA DELPHICA

140

QUESTIONÁRIO II

RODADA

DELPHICA

142

7

RESUMO

Esta dissertação discute as relações entre o movimento negro da Região do ABC Paulista e à saúde da população negra. A percepção do movimento negro sobre a saúde da população negra, as suas agendas prioritárias e o potencial de adesão das organizações deste movimento social às ações de saúde são analisadas sob a ótica de representantes do próprio movimento negro, entendido aqui como interlocutor privilegiado de diálogo entre as demandas de saúde da população negra e o setor saúde. A hipótese de que o movimento negro do ABC Paulista tem pouco ou nenhum acesso a literatura produzida referente à saúde da população negra foi confirmada, bem como a hipótese de que algumas entidades já realizavam ações voltadas à saúde, e outras não o fazem por dispor de outros temas prioritários em suas agendas. Ao relacionar a importância do movimento negro como importante sujeito de promoção á saúde da população negra, o autor discute algumas especificidades deste movimento social, concluindo que o mesmo, apesar de sua diversidade programática, apresenta grande potencial de adesão a ações de parcerias com o setor saúde. A diversidade programática observada nas diferentes organizações do movimento negro se expressa em potencialidades diversas e complementares de abordagem em relação temática saúde, a saber:

a atuação sobe os determinantes sociais; a atuação comunitária de sensibilização e multiplicação de informação e as ações voltadas ao controle social das políticas públicas de saúde. A concretização de possíveis parcerias entre o movimento negro e o setor saúde fica condicionada a dois fatores relevantes: o reconhecimento e enfrentamento do racismo e do racismo institucional presente no setor saúde; oferta por parte do setor saúde de formação e qualificação das organizações do movimento para atuarem nas ações de saúde.

8

ABSTRACT

This dissertation aims to discuss the perception of the black movement from ABC Paulista regarding the health of black population. The perception of this movement about the health of black population, their primordial schedule, the potential support from the organizations in this social movement to the actions of health, are being analyzed under the representatives of the black movement‟s view, known here as a privileged speaker of the dialog between the health demands of black population and the health sector. The hypothesis that the black movement from ABC Paulista has little or none access to the produced literature concerning the health of black population has been confirmed, as well as the hypothesis that some institutions have already started actions in health area while other institutions aren‟t willing to arrange it‟s prior in their schedule. Relating the importance of the black movement as an important mean of promoting health to the black population, the author discusses

9

1 INTRODUÇÃO

1.1 Preâmbulo

Este mestrado começou assim: aos 12 anos de idade, cursando a sexta

série ginasial na escola Paulo Emílio Salles Gomes, na região do Sítio dos

Vianas em Santo André, fui transferido para o período escolar noturno para

trabalhar durante o dia. Foram noites de intensas descobertas. Entre elas: o

Rap.

No intervalo das aulas e na hora da saída, o que ligava era encontrar alguns

trutas (principalmente o meu amigo Fião) para cantar as musicas novas dos

grupos de rap: Racionais MCs, Consciência Humana e Comando DMC‟s. Entre

uma rima e outra, improvisávamos algumas músicas próprias. Este fato

aparentemente inocente me chamava à atenção para um mundo desigual,

cindido em raças e classes, ao mesmo tempo em que me despertava o

interesse pelos estudos de história e geografia, graças ao teor crítico destas

músicas.

O ápice deste despertar ocorreu no dia em que matamos aula para assistir

ao show dos grupos Racionais MCs no Centro da Cidade. No caminho,

tomamos

mais

uma

geral

(mais

uma

entre

tantas),

mas

felizmente

ou

infelizmente, esta seria diferente. Estávamos num grupo de sete jovens, 3

brancos e 4 pretos; quando os policiais

nos separaram; mandaram nossos

amigos brancos seguirem o caminho enquanto nos revistavam e humilhavam

Nossos amigos brancos não foram revistados.

10

Aquela teria sido apenas mais uma geral se em seguida, eu não tivesse

escutado o discurso, ora cantado, ora falado do Mano Brown. Embora não

recorde exatamente as palavras, lembro de ter ouvido algo como: “Aê, Mano!

Nosso povo construiu este país com suor e sangue

e em troca o sistema nos

deixa a pobreza, as drogas e a polícia; quem aqui já foi vitima de violência

policial? Quem aqui já passou perreio pela falta do que comer?”

“Porque é a

nossa destruição que eles querem, física e mentalmente o mais que puderam”

“mas o que eles não esperavam é que agora a juventude negra agora tem a

voz ativa!!! (pode crê)”

Daí em diante a minha participação em um grupo de Rap e o envolvimento

em trabalhos comunitários foi inevitável. Nestes espaços, pelo menos entre as

pessoas que me acompanhavam, tornou-se ritual obrigatório a busca de uma

explicação para a nossa realidade cotidiana através de letras de rap, graffites

ou Breaks, e principalmente em estudo de livros como a Auto Biografia de

Malconlm X, O Manifesto do Partido Comunista e a Sociologia do Negro

Brasileiro. Apesar de indigesta a muitos de nós na época, a leitura destas obras

era considerada ritual obrigatório de aceitação no grupo, ao qual me submeti

convictamente.

Outro fator marcante em minha caminhada foi a criação da Assessoria da

Juventude (Prefeitura de Santo André 1997) e o empenho pessoal de Eloa

Katia Coelho, que depois de intensas e calorosas discussões dado a minha

resistência, conseguiu me convencer a prestar vestibular. Escolhi o Curso de

Ciências Sociais na Fundação Santo André. Acertada decisão!

11

Eu não teria conseguido enfrentar os primeiros anos de estudo sem a ajuda

da Shirlei Mendes Faustino, minha irmã. Mas o fato é que daí em diante, um

novo ciclo se abre (multiplicando-se ao anterior).

Nesta época, a posse que eu freqüentava (o Núcleo ROTAÇÃO

Resistência Organizada de Trabalho e Ação) decidiu participar regularmente

das reuniões do Fórum de Entidades Negras de Santo André Seria a nossa

inserção oficial no movimento negro.

O movimento negro de Santo André nos recebeu com muito respeito. Ao

mesmo tempo em que trazíamos nosso “fôlego juvenil” (e alguma experiência

acumulada com o hip hop) aprendíamos muitas coisas importantes, entre elas,

a valorização da nossa ancestralidade.

Dois anos depois eu ingressava na área da saúde trabalhando como arte-

educador num projeto de prevenção e promoção da saúde que integrava o

Rap, Graffit, capoeira, teatro às discussões de sexualidade e prevenção às

DST/Aids,

o

projeto

Atitudes

e

Conscientização

coordenado

pela

Junny

Kraicshizck

e Marcia Furquim (grandes professoras e parceiras), e desde

então, sigo atuando nesta área.

Posteriormente passei a compor a equipe do núcleo de prevenção, do

programa de Aids da Prefeitura de Santo André, onde desenvolvi e participei de

ações e estudos em saúde que me possibilitaram grande amadurecimento.

Durante este percurso, com todas as dificuldades, inclusive a de conciliar as

diversas

atividades,

mantive-me

estudando,

12

trabalhando,

atuando

no

movimento negro (de quem sou fruto e também um dos seus sujeitos), e

principalmente cantando RAP. Faltava juntar tudo isto.

E

esta

oportunidade

surgiu

com

a

minha

participação

na

Pesquisa

“Conhecer Para Incluir: Sensibilidade e potencialidades das organizações do

movimento negro para a promoção da saúde e prevenção às DST/Aids”

realizada pelo Centro de Estudos em Saúde Coletiva CESCO-FMABC em

2006-2007.

Para além do amadurecimento intelectual que propiciou, esta pesquisa

possibilitou a síntese de diversas trajetórias. Em primeiro lugar, dos diversos

caminhos que transitei, e em segundo, e não menos importante, a troca intensa

com outros pesquisadores e trabalhadores da saúde ao qual destaco a Ana

Lúcia Spiassi, que muito me ensinou.

Outro sujeito importante nesta caminhada foi o Prof. Dr. Marco Akerman,

que

não

poupou

esforços

ao

incentivar

meu

ingresso

no

mestrado

da

Faculdade de Medicina do ABC, aceitando posteriormente a tarefa de orientar

este trabalho.

Posso dizer que esta dissertação mistura um pouco de tudo isto: conquista

pessoal, missão política e inserção no mundo acadêmico.

Esta dissertação tem origem na pesquisa “Sensibilidade e potencialidades

das organizações do movimento negro para a promoção da saúde e prevenção

às DST/Aids” financiada pela Coordenação Nacional de DST/Aids durante a

chamada para seleção de pesquisas nº 4/2005.

13

Em 2005, o Ministério da Saúde, através da Coordenação Nacional de

DST/AIDS, lançou os editais de pesquisa 02 e 04/2005, concretizando uma

antiga

reivindicação

do

Movimento

Negro

para

acumulassem

informações

sócio-epidemiológicas

que,

rapidamente,

se

sobre

as

vivências

experimentadas pela população negra brasileira em relação às DST/AIDS.

Esta convocatória visava apoiar pesquisas que se referem à relação entre

condições de vulnerabilidade à infecção pelo HIV e adoecimento por Aids na

população negra. O Centro de Estudos em Saúde Coletiva, da Faculdade de

Medicina do ABC juntamente com o Programa de Aids do Município de Santo

André tomaram para si a tarefa de discutir junto ao movimento negro do ABC

Paulista as possíveis intersecções entre a agenda do movimento e a prevenção

das DST/AIDS. O projeto foi extensivo aos sete municípios da região do ABC

paulista:

Santo

André,

São

Bernardo

do

Campo,

São

Caetano

do

Sul,

Diadema, Ribeirão Pires, Rio Grande da Serra e Mauá, que reúnem 655.886

habitantes pardos e pretos [1], os quais representam 32,8% do total da

população da região.

A pesquisa foi realizada entre agosto de 2006 e dezembro 2007 quando

contamos com a generosa contribuição lideranças e gestores da região, com

as quais seremos eternamente gratos.

Esta dissertação discute estes resultados reunindo-os sob quatro temáticas

que o movimento negro do ABC paulista debateu entre si e conosco: e que,

esperamos, contribua para pensarmos entre todos, nos distintos espaços de

reflexão, formulação de política e fornecimento de serviços, as alternativas que

superem as iniqüidades em saúde vivenciadas pela população negra brasileira.

14

1.2 Racismo, saúde e o movimento negro

A trajetória deste trabalho exigiu uma reflexão sobre as desigualdades

sociais vivenciadas pela população negra em relação à saúde, pois vários

indicadores epidemiológicos indicam piores condições de acesso à prevenção

e recuperação da saúde.

Ao constatarmos que os piores indicadores de saúde para a população

negra mostram relação com os piores indicadores sócio-econômicos, como

veremos abaixo, surgiu a necessidade de retomar alguns aspectos sócio-

históricos para fundamentar a noção estruturante deste trabalho: a pobreza

neste caso não é o conceito fundamental para entendermos a correlação com a

falta de saúde da população negra, mas sim o racismo entranhado no tecido

social brasileiro.

O racismo será discutido como importante determinante social de saúde e

fator de vulnerabilidade da população negra ao reproduzir os ciclos de pobreza

e discriminação, para relacionar em seguida, a relevância do movimento negro

em relação ao processo de saúde da população negra, na medida em que é

expressão de sua auto-organização em busca da melhora das suas condições

de vida.

1.2.1 Raça e racismo no debate contemporâneo

15

A inexistência biológica de marcadores genéticos significativos entre

grupos populacionais fenotipicamente distintos não evitou em nossa sociedade

a

constituição

histórica

de

processos

de

reificação

e

dominação

social

pautados nas diferenças visuais mais evidentes, como cor da pele, tipo de

cabelo, e formato do corpo.

Este

processo

de

opressão é freqüentemente

referido

como

fruto

do

moderno conceito de raça. Pelo contrário, como veremos com Moore [2] a

existência do racismo como critério de classificação fenotípico em escala

planetária, antecede a formulação moderna do conceito de raça e foi quem

tornou

possível

na

sociedade

européia

uma

compreensão

hierarquizada da diversidade humana.

racializada

e

O termo raça, embora não represente em sua origem uma demarcação

biológica [3], só pôde ser utilizado como critério de classificação reificador e

inferiorizador devido à pré-existência desse processo real de reificação.

O que importa ressaltar aqui é que para nós, a utilização do termo raça

está vinculada ao reconhecimento, não de diferenças biológicas entre brancos

e negros, mas da existência de um processo historicamente constituído de

diferenciação fenotípica definidora de espaços e posições na ordem social.

Estas diferenças sociais reais têm ignoráveis implicações no que tange o viver,

adoecer e morrer das populações submetidas a esta lógica [4].

Outros autores num caminho semelhante indicam a origem histórico-social

do termo raça destituída de um sentido biológico. Encontrado historicamente no

latim medieval, o termo designava descendência ou linhagem [3-5].

16

Nogueira [6] organiza esta discussão a partir de dois conceitos: marca e

origem. O primeiro mais ligado à soma das condições sócio-econômicas que

associadas à aparência, particularmente, a cor da pele, concretizam o potencial

dos sujeitos definirem-se e serem definidos socialmente, em contraste com o

conceito de origem, que, sendo inflexível, limita o potencial de trânsito social

dos indivíduos, situação própria à sociedade norte-americana.

Wagley [7] usa o conceito de raça social, reafirmando a incompatibilidade da

aplicação

de

conceitos

biológicos

à

análise

das

relações

sócio-raciais.

Nogueira [6] utilizará o termo aparência social.

É nesta perspectiva que ao final do século XX o movimento negro brasileiro

assume o conceito de raça fixando-o como conceito de contraposição e

afirmação social. Desta forma o conceito:

a constituir um traço identitário voluntariamente assumido e

ativamente construído; no lugar de um conceito opressor e negativamente discriminatório, um conceito voltado para a emancipação e para a afirmação positiva de resistência à iniqüidade

[8].

passou

Nos últimos anos algumas correntes políticas, muitas vezes à revelia de

boas intenções, têm advogado no país uma pretensa “unidade nacional

pautada pela “inexistência de diferenças raciais”, retomando argumentos já

derrubados pelo movimento negro brasileiro que remetem ao mito da igualdade

racial brasileira. Para estas correntes, as reivindicações do movimento negro e

as

políticas

públicas

direcionadas

à

população

negra

poderiam

ser

responsáveis pela “criação das raças no Brasil” [9-10]. Nesta perspectiva as

reivindicações

do

movimento

negro

são

17

apresentadas

como

ameaça

à

“unidade nacional” do “povo brasileiro”, como se as desigualdades raciais já

não tivessem criado de fato as “raças” em nossa sociedade.

Estes

autores

defendem

a

abolição

do

conceito

raça,

dada

a

sua

inexistência como fator biológico. Estas afirmações, que se embasam nas

recentes pesquisas genômicas só ganharam eco nos últimos anos (não com a

descoberta biológica da inexistência de marcadores genéticos relevantes entre

os diferentes grupos humanos, mas sim) frente à pressão do movimento negro

pela criação de políticas sociais de ações afirmativas direcionadas à população

negra [2].

Num outro pólo, concordamos com o geneticista Sergio Pena quando deixa

nítido que a insignificância da “raça” como fator biológico não se converte

mecanicamente em relações sociais igualitárias:

Independente dos clamores da genética moderna de que a cor do indivíduo é estabelecida por apenas um punhado de genes totalmente desprovidos de influência sobre a inteligência, talento artístico ou habilidades sociais, a pigmentação da pele ainda parece ser um elemento predominante da avaliação social de um indivíduo e talvez a principal fonte de preconceito [11].

A afirmação discursiva em torno da inexistência da raça não significou o

enfraquecimento

do

racismo

na

sociedade.

Na

verdade,

as

vozes

mais

preocupadas em declarar a extinção da idéia de raça atualmente estão, na

maioria das vezes, consciente ou inconscientemente mais próximas, não da

defesa

da

igualdade

de

direitos

sociais

entre

os

diferentes

grupos

populacionais que compõe a “raça humana”, mas próximos sim da defesa dos

privilégios historicamente instituídos pelos grupos “racialmente” dominantes.

18

Ou seja, no momento em que o protesto negro amplia os seus campos de

atuação

ameaçando

mesmo

que

de

forma

insipiente

alguns

privilégios

historicamente constituídos no país, é que se observa por parte de alguns

políticos e acadêmicos a defesa da inexistência das diferenças raciais.

O que se constata na prática é que nem a miscigenação brasileira nem as

recentes

afirmações

destes

setores

em

torno

de

um

“povo

brasileiro

homogêneo” puderam garantir a igualdade real de oportunidades entre os

diversos grupos que compõe a nossa sociedade.

Nunca é demais recorrer a Marx quando diz que para se compreender o

mundo real não se deve partir

daquilo que os homens dizem, imaginam ou representam, e tampouco dos homens pensados, imaginados e representados para, a partir daí, chegar aos homens em carne e osso; parte-se dos homens realmente ativos e, a partir de seu processo de vida real, expõe-se também o desenvolvimento dos reflexos ideológicos e dos ecos desse processo de vida [12] .

Neste

contexto,

estas

posições

reducionistas

contribuem

-

insistimos,

mesmo que à revelia de boas intenções - por um lado, para a legitimação e

consolidação das posições privilegiadas dos grupos racialmente dominantes

em nossa sociedade, e por outro, para a deslegitimação das crescentes lutas

reivindicatórias das populações alvo do racismo [2].

Divisões raciais, portanto, apesar de não disporem de base biológica efetiva,

existem objetivamente na realidade social, construídas e amparadas por um

19

processo

histórico

de

diferenciação

humanos o racismo.

e

inferiorização

fenotípica

dos

seres

Em extensa sistematização da existência do racismo ao longo da história

da

humanidade,

Moore

[2]

traça

alguns

pontos

que

contribuem

para

compreender a formação e constituição das desigualdades raciais no planeta

descrevendo três características dinâmicas que convergem de forma geral no

processo de gênese do racismo:

Em todas as circunstancias nas quais podemos identificar o surgimento do racismo, encontramos três dinâmicas convergentes de um mesmo processo: a) a fenotipização de diferenças civilizatórias e culturais; b) a simbologização da ordem fenotipizada por meio da transferência do conflito concreto para a esfera do fantasmático (isso implica fenômenos como a demonização das características iconotípicas do vencido em detrimento da exaltação das características do segmento populacional vencedor); e c) o estabelecimento de uma ordem social baseada numa hierarquização raciológica, mediante a subordinação política e socioeconômica permanente do mundo populacional conquistado [2].

Este processo de reificação das características civilizatórias do grupo

dominado: a demonização e mobilização de uma consciência grupal para a

rejeição das construções simbólicas; e a elaboração de estruturas normativas

que regulem a atuação ao mesmo tempo em que inculcam um sentimento de

inferioridade no povo subalternizado, atuariam como barreiras imobilizadoras

que

organizam

a

sociedade

de

tal

forma

que

garanta

uma

gestão

monopolizada dos recursos por parte dos grupos racialmente dominantes [2].

Tais estruturas normativas foram apresentadas por Fanon [13] a partir de

um recorte tempo-espacial mais específico a colonização do continente

africano pela Europa capitalista. Fanon associa estas estratégias de negação

20

da dimensão humana do povo dominado como práticas sistemáticas da

situação colonial. :

O racismo, vimo-lo, não é mais do que um elemento de um

Na

realidade, as nações que empreendem uma guerra colonial, não se preocupam com o confronto das culturas. A guerra é um negócio comercial gigantesco e toda a perspectiva deve ter isto em conta. A primeira necessidade é a escravização, no sentido mais rigoroso, da população autóctone. Para isso, é preciso destruir os seus sistemas de referência. A expropriação, o despojamento, a razia, o assassínio objetivo, desdobram-se numa pilhagem dos esquemas culturais ou,

conjunto mais vasto: a opressão sistematizada de um povo. (

)

pelo menos, condicionam essa pilhagem. O panorama social é desestruturado, os valores ridicularizados, esmagados, esvaziados.

Desmoronadas, as linhas de força já não ordenam. Frente a elas, um novo conjunto, imposto, não proposto mas afirmado, com todo o seu peso de canhões e de sabres [13].

Em ambos, o racismo é tratado numa dimensão estrutural da sociedade,

atrelado a interesses de classe e concentração do poder.

O

mundo

“concreto

é concreto

porque

é síntese

de

múltiplas

determinações” [14] e o racismo configura-se como um dos fatores objetivos

constituintes de nossa realidade social. Embora a existência do racismo

anteceda o advento da sociedade capitalista [2] foi apropriado socialmente

como estratégia de dominação colonial mercantil de acumulação primitiva de

capital

no

período

da

chamada

acumulação

primitiva

de

capital

[15]

e

reorganizado durante o processo de formação do capital monopolista como

elemento definidor das relações de produção e divisão internacional e racial do

trabalho [16-17]. Contudo, permanece vivo como uma das determinações

concretas da produção e reprodução capitalista contemporânea. Para Moore:

Na contemporaneidade, o racismo está arraigado em todas as instâncias de funcionamento do mundo, tanto na economia como na política cultural e na militar [2].

21

Essas conseqüências podem ser facilmente observadas ao analisarmos a

situação dos negros em qualquer parte do mundo, tanto nos países em que

são maioria (e geralmente estes países amargam a parte mais fraca da divisão

internacional do trabalho) quanto nos países em que são minoria (que mesmo

sendo países centrais, são os negros destes países os mais oprimidos pelo

sistema econômico/social).

Alguns exemplos deste árduo legado são as barragens migratórias à

pessoas (principalmente trabalhadores) dos países de origem não branca, a

marginalização dos imigrantes árabes e africanos nos países centrais (ao

contrario da situação dos imigrantes e descendentes europeus nos países

pobres), a pobreza na África (bombas, guerras, miséria, fome, doenças), fruto

de uma sucessão quase milenar de saques e raptos de recursos minerais e

vegetais, sobretudo pessoas, no que configura os maiores seqüestros coletivos

da história.

O grupo racialmente dominante, não apenas se sente superior, mas vive na

prática uma superioridade de condições e oportunidades [2].

Pode-se afirmar, portanto, que o racismo é um processo historicamente

constituído de diferenciação fenotípica definidora de espaços e posições na

ordem social. Neste sentido, não se abalaria apenas com repúdios morais ou

rearranjos no âmbito das relações interpessoais, mas pelo contrario com a

apropriação radical dos recursos produtivo pelos diferentes povos do planeta.

Nas palavras de Moore:

22

O seu desmantelamento (o racismo) estrutural e sua erradicação nas consciências coletivas implicam a determinação de se proceder a uma desracialização completa da sociedade. Ora, esse objetivo está subordinado a uma precondição: a saber, que a sociedade proceda à gestão e a repartição dos recursos vitais de uma maneira racialmente equitativa [2].

1.2.1.2 A atualidade do racismo brasileiro

A particularidade constituinte do capitalismo brasileiro é caracterizada pela

forma como a acumulação e os processos produtivos se deram sem serem

antecedidos “

por uma época de ilusões humanistas e de tentativas, mesmo

utópicas, de realizar na prática o „cidadão‟ e a comunidade democrática

” [18].

Longe de ser apenas uma imposição de valores, o racismo neste contexto

era parte dinâmica de um processo de exploração apoiado no trabalho escravo,

próprio da formação hiper-tardia do capitalismo no Brasil [18].

uma profunda relação entre a organização do trabalho do sistema

colonial brasileiro baseado na escravidão e a atual sobre-representação da

população negra brasileira nas camadas sociais mais pobres, mas como nos

explica Hasenbalg [19] temos que qualificar essa relação que passou por

transformações ao longo da história e não deve ser entendida de maneira

linear.

À época da legislação finalizadora do regime escravista em 1888, 90% da

população negra e mulata era composta por sujeitos livres e alforriados,

temos, pois, que

a tenacidade da estratificação racial e as novas fontes de

discriminação após o fim do escravismo devem ser procurados nos

23

variados interesses dos grupos brancos que obtêm vantagens da estratificação racial [19].

Com o fim do sistema escravista e posterior queda do Império, a burguesia

brasileira (ou pelo menos das regiões dinamizadas pela economia cafeeira),

financiado pelo capital internacional, inicia uma série de políticas e ações que

visavam uma modernização do país, atrasado frente a outras economias

mundiais.

A escravidão, identificada com o atraso, era posta de lado para dar lugar a uma

economia moderna e mais dinâmica que a anterior. Neste período, o negro,

diretamente associado à escravidão, é considerado portador de uma herança

escravista que o impediria de contribuir aos novos interesses (modernos). Não

estando apto, portanto, deveria ser substituído por uma força de trabalho mais

qualificada e adaptada ao ritmo da indústria.

Neste período, importante para a compreensão deste problema, observa-se na

Região Sul e Sudeste, a criação intencional de diversas barragens à inserção

do negro na “sociedade de classes” brasileira [20]. Não existe exploração

capitalista sem trabalhador e, portanto, estas barragens foram acompanhadas

por

uma

intensa

campanha

de

incentivo

à

imigração

de

trabalhadores

europeus, sendo estes identificados ao moderno e dinâmico desenvolvimento

dos centros capitalistas.

Observam-se

aqui

dois

movimentos

complementares:

de

um

lado

a

identificação do negro (ex-escravo) com o atraso (escravidão) e o trabalhador

imigrante (Branco) com a os desejos de modernização do país e do outro lado

a criação de barragens reais a inserção do negro em postos de trabalhos tidos

24

como modernizadores, tendo como conseqüência direta principalmente no Sul

e Sudeste, uma organização (divisão) racial da força de trabalho neste período.

Nas

outras

regiões,

segundo

Mora

[21],

mantiveram-se

as

antigas

e

complementares atividades econômicas, não demandando nova mão de obra,

incorporando, portanto,

a força de trabalho do ex-escravo (livre) como

mercadoria necessária a sua manutenção.

Moura [21] mostra ainda em seu estudo que apesar do preconceito

associado ao ex-escravo, o mesmo já desempenhava funções de todas as

especialidades na nascente indústria brasileira desde a segunda metade do

século XIX. Por outro lado, o trabalhador imigrante europeu era em sua maioria

oriundo

de

regiões

agrárias,

dispondo,

portanto,

de

pouca

habilidade

e

familiaridade

com

a

maquinaria

necessária,

provocando

muito

descontentamento em diversos empregadores [21].

A conseqüência deste processo foi a sua inserção precária na sociedade de

classes [20], acompanhada e influenciada pelo estigma da escravidão. A

herança

escravista

apontada

pela

elite

da

época

(e

ainda

por

muitos

intelectuais atualmente) não estaria necessariamente presente no ex-escravo,

mas nas próprias elites que impregnadas da tradição escravista, regada às

teorias racistas européias do século XIX [22] desenvolvem ações econômicas e

políticas

para

embranquecer

o

país,

“elevando-o”

de

sua

condição

de

inferioridade.

 

Segundo Buonicore [22] duas tendências racistas dominaram o país

no

período pós-abolicionista: uma que rejeitava totalmente a miscigenação racial e

25

outra que via nesta a possibilidade de resolver o “problema do negro”, através

de um embranquecimento progressivo da população brasileira.

As elites nacionais, representadas neste debate por intelectuais, médicos e

advogados,

inspirados

em

autores

como

Goubineau

(1816-1882),

Ratzel

(1844-1904) e Lombroso (1835-1909) aderiram às teses eugênicas européias

de “aprimoramento” da raça brasileira. Este pensamento, difundido no Brasil

através do médico Nina Rodrigues e do advogado Oliveira Viana [22] deixou

marcas profundas na inteligentsia brasileira, influenciando o projeto de nação

que se almejava.

A população liberta da escravidão era vista como sendo composta por

negros

“preguiçosos,

indisciplinados,

doentes,

ébrios

e

em

permanente

vagabundagem” e mestiços oriundos de “cruzamentos promíscuos

que

produziram “

povos

degenerados, instáveis, incapazes de desenvolvimento

progressivo” [23].

Como exemplo de produto concreto desse posicionamento ideológico,

manifesta-se nesta época a preocupação com a situação de saúde dos pobres

sendo que “o grupo que mais inquietava os médicos, os especialistas em

saneamento

e

os

reformadores

brasileiros

eram,

em

sua

maior

parte,

constituídos por negros e mulatos.” Estes profissionais presumiam “

que os

pobres

eram

pobres

porque

eram

anti-higiênicos,

sujos,

hereditariamente inadequados” [23].

ignorantes

e

Se encontrávamos em autores dos primeiros anos do século XX a idéia de

inferioridade biológica dos negros, em Gilberto Freyre [24] que encontramos a

26

crença na mestiçagem e nas relações interpessoais entre brancos e negros

(principalmente as mulheres negras) como amalgamento racial e cultural

brasileiro:

Na ternura, na mímica excessiva, no catolicismo em que se deliciam os nossos sentidos, na música, no andar, na fala, no canto de ninar menino pequeno, em tudo que é expressão sincera de vida, trazemos quase todos a marca da influencia negra. Da escrava ou sinhá que nos embalou. Que nos deu de mamar. Que nos deu de comer, ela própria amolengando na mão o bolão de comida. Da negra velha que nos contou as primeiras historias de bicho e mal- assombrado. Da mulata que nos tirou o primeiro bicho-de-pé de uma coceira tão boa. De que nos iniciou no amor físico e nos transmitiu, ao ranger de cama-de-vento, a primeira sensação completa de ser homem. Do moleque que foi nosso primeiro companheiro de brinquedo

[25].

As relações inter-raciais brasileiras resumidas às suas expressões sexuais

(sempre entre o senhor branco e a escrava negra) e interpessoais preservam

naturalizadas as desigualdades de raça, classe e gênero.

Estas

leituras

contribuíram

para

a

mistificação

das

relações

raciais

desenvolvidas no Brasil, francamente desvantajosas para os negros e pardos

brasileiros, pois tendo defendida a existência de uma pretensa harmonia social,

seria

inútil

buscar

desvelamentos

sobre

os

componentes

racistas

que

permeiam a composição social brasileira [26].

A índia e a negra-mina a princípio, depois a mulata, a cabrocha, a quadrarona, a oitavona, tornando-se caseiras, concubinas e até esposas legítimas dos senhores brancos, agiram poderosamente no sentido da democratização social no Brasil. Entre os filhos mestiços, legítimos e mesmo ilegítimos, havidos delas pelos senhores brancos, subdividiu-se parte considerável das grandes propriedades, quebrando-se assim a força das sesmarias feudais e dos latifúndios do tamanho de reinos [24].

Entretanto, por mais que se reconheça a presença africana na formação

social brasileira, o negro não será considerado na mesma categoria humano-

27

social do branco, já que ainda é visto aos olhos do senhor da casa grande

como objeto estranho e ao mesmo tempo desejado por suas características

exóticas [27].

Para Bilden [28], Frazier [29], Herskovits [30], Park [31] essas contradições

passavam ao largo em comparação com a segregação institucionalizada norte-

americana e nosso país seria, portanto, um exemplo a ser seguido pelo mundo

por resolver de forma harmônica os conflitos raciais. Assim, se articula uma das

maiores bases de sustentação ideológica do racismo brasileiro a partir da

segunda metade do século XX: o mito da democracia racial [32].

O fato é que essa afirmação discursiva não significou a existência e nem a

pressuposição da igualdade real de condições, direitos e oportunidades entre

brancos e negros, mas configurou-se como um dos maiores entraves a sua

efetivação, pois com a negação (discursiva) do racismo ou mesmo das

diferenças reais externadas nas condições de vida de brancos e negros, a luta

contra o racismo ou pela igualdade perde seu sentido [20-22].

A dinâmica de transição do período colonial à república e a predominância da

economia urbano-industrial sobre a agro-exportadora foi levada a cabo através

de

conciliações

e

concessões,

que

não

alteraram

estruturalmente

o

posicionamento e correlação de forças das classes em conflito nos dois

períodos [18]. Para os brasileiros de ascendência africana essa conformação

social significou um longo período de imobilidade social [21-33].

O resultado deste processo é a concentração de brasileiros negros e

mulatos nas camadas mais pobres da população dentro dos setores menos

28

qualificados da classe operária e nas posições mais subalternas do sistema de

estratificação social, fatores de identificação entre raça e classe [19-20-22-34-

35-].

Esta

constatação

é relevante

se

quisermos

enfrentar

seriamente

os

impactos do racismo na saúde da população negra brasileira.

Aqui chegamos a um ponto importante para o objetivo deste trabalho sobre

a relação entre o movimento negro e a saúde da população negra: todo este

arcabouço de institucionalização do racismo na sociedade brasileira não

precisou basear-se num sistema jurídico que legalizasse a relação, ela se

construiu no tempo e consolidou-se no cotidiano das relações sociais a partir

da demanda do grupo branco dominante [19].

O racismo não existe no Direito, mas dá-se de fato, sem um conjunto pré-

definido de ações e determinações legais, mas que deixam claro o lugar

subalternizado do negro na sociedade brasileira, o que confundia e dissolvia a

significado do protesto negro, pois,

Após o fim da escravidão, o mito da democracia racial e as

imagens vigentes de harmonia racial permitiram a substituição de medidas redistributivas em favor dos não-brancos por sanções

ideológicas positivas e

subordinados

racialmente

integração

simbólica

dos

[deixando] “os negros politicamente isolados

para

lutarem pela redução das desigualdades raciais [19].

À guisa de síntese, Pinho e Figueiredo [36] propõem pensarmos o racismo

brasileiro sob três aspectos:

1. o sócio-histórico, tendo a escravidão como base para o entendimento

da constituição social brasileira;

29

2. o contradição em relação ao universalismo moderno, produzindo uma

violência de origem e;

3.

o

conseqüente

cotidiano.

resultado

de

práticas

e

vivências

de

racismo

no

1.2.1.3 A dimensão racial da situação de pobreza em São

Paulo

Há uma forte dimensão racial na situação de pobreza no Brasil, dado que a

representação de brasileiros negros entre os pobres é

muito superior à sua

proporção na população em geral. Entre os negros encontramos 47% de

pobres e 22% em extrema pobreza e entre os brancos temos 22% e 8% nas

mesmas condições [37].

Fixando os estudos para a Região Metropolitana de São Paulo com o

recorte proposto pela Fundação de Seade. Pudemos contar com a inestimável

fonte de informações obtidas através dos dados da Pesquisa Nacional por

Amostragem Domiciliar [38] apresentados desagregados nos Indicadores de

Desigualdade Racial - IDR 2004.

Estes indicam que o mercado de trabalho

reflete uma dimensão racial quando observamos o item desemprego: 9,7%

para o total de brancos; 14,6% para o total de negros; 7,7%

para os homens

brancos; 11,6% para os homens negros; 12,4% para as mulheres brancas e

18,6% para as mulheres negras.

Na Região Metropolitana de São Paulo, os patamares das taxas de

desemprego são mais altos (12,5%, 16,6%, 10,4%, 13,9, 15,1% e 19,9%,

30

respectivamente), mas as diferenças entre negros e brancos são menores,

indicando que no interior do Estado há uma barreira maior para os negros

obterem colocações.

Em relação à segmentação ocupacional por gênero e raça observamos

um

padrão

mulheres e

persistente

dos

negros

que

de

continua

confinando

a

grande

ambos

os sexos em trabalhos

maioria

das

e

atividades

econômicas mal remuneradas, eventuais e instáveis.

Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística [37] a proporção de

negros

(65,3%)

é 29%

superior

à proporção

de

brancos

em

ocupações

precárias e informais (50,4%). No caso das mulheres negras, a proporção é de

71%,

sendo

que

41%

se

concentram

nas

ocupações

mais

precárias

e

desprotegidas do mercado de trabalho: 18% são trabalhadoras familiares sem

remuneração 4 e 23% são trabalhadoras domésticas.

Negros e brancos com a mesma escolaridade têm rendimentos diferentes:

os negros recebem sempre 30% a menos que os brancos por hora trabalhada.

Na faixa superior de escolaridade (15 anos e mais), as mulheres negras

recebem menos da metade (46%) do que recebem homens brancos por hora

trabalhada [37-38].

Um dado essencial para verificação das condições de saúde está ligado à

moradia, que são classificadas pelo IBGE como adequadas ou não-adequadas,

de acordo com alguns indicadores: presença ou não de rede de água e esgoto,

uso de materiais não duráveis em paredes ou teto, adensamento de moradores

e condição de posse. Nesta categoria verificamos que as moradias mais

31

adequadas estão concentradas entre os responsáveis pela casa de raça/cor

branca, seja do sexo masculino (80%) seja do feminino (82,3%) [37].

Entre os domicílios cujo chefe é de raça/cor negra, esses porcentuais

mostram-se inferiores: 61,6% naqueles onde o responsável é homem e 60,5%

entre aqueles com mulheres negras.

No município de Santo André, importante município da região circunscrita

em nosso estudo, a população negra encontra-se concentrada “nas áreas mais

periféricas, de extrema precariedade, seja do ponto de vista habitacional como

social” [39].

1.2.2 Os impactos do racismo na saúde da população negra

O racismo, entendido em suas dimensões estruturais, atua como definidor

de espaços sociais e oportunidades [2] influenciando diretamente no nascer,

viver, adoecer e morrer das populações submetidas a seu crivo. [4]

Esta dimensão propriamente social do processo de saúde/doença acaba por

escapar a diversos estudos epidemiológicos clássicos vinculados a modelos

matemáticos e biomédicos de explicação científica [40].

A abordagem de risco, pautada “na explicação do processo saúde-doença,

a partir de um conjunto de eventos estatísticos probabilísticos, atribuíveis ou

relativos à base populacional e que geram modelos de intervenção preventiva

de origem cognitiva com enfoque na percepção individual de risco” [41], tem

encontrado limites. Neste cenário buscou-se um aprimoramento na reflexão e

32

na prática da saúde a partir da escolha de metodologias e construção de

serviços mais aproximados das demandas sociais.

Este é um ponto

importante de

risco

é

uma

abstração

intrínsecos e fundamentais

que

não

do vital

nossa reflexão, pois “

a

se

alimenta

de

inúmeros

”[42].

medida

do

elementos

A história recente da epidemia de Aids é o exemplo paradigmático desta

inflexão. O efeito prático produzido pela apropriação deslocada do conceito de

risco

teve

uma

reação

direta

sobre

a

homofobia

e

o

conservadorismo

enraizados no tecido social. Ao serem associados a grupos de risco, como os

Gays e usuários de drogas injetáveis vivenciaram estigmas sociais que em

nada contribuíram para o confronto da epidemia. Assistiu-se o confronto a

estes grupos.

É por isso que todas as tentativas de produzir sistemas de

explicação histórica nitidamente fechados e encerrados em si,

) (

resultam

em alguma redução arbitrária da complexidade das ações

humana

[43]

Esta redução arbitrária, que assumiu um papel intensamente regulatório na

vida cotidiana e que caracterizou os primeiros anos da Aids (quem vê cara, não

vê Aids!) é uma referência para que não se repita com a população negra, em

sua vulnerabilidade específica, a reprodução da noção de “grupo de risco” [44],

potencialmente negativo no contexto da discussão sobre a racialização da

epidemia [9] numa sociedade como a nossa, impregnada de diversas práticas

discriminatórias.

Novos paradigmas têm sido buscados, particularmente no campo da saúde

coletiva, exatamente para sugerir abordagens que abranjam situações em que

33

o conceito de risco e seus instrumentais explicativos precisem ser substituídos

ou complementados. As discussões da promoção da saúde, os instrumentos

da humanização da saúde e o referencial de Determinantes Sociais da Saúde 1

buscam ampliar nossos modos de abordar e vivenciar a saúde com os outros

[45-46].

O que não é construído com as pessoas nos seus contextos, não atende

à demanda de ser emancipador, para apoiarmo-nos nas lições inesquecíveis

de Paulo Freire.

Entre as grandes contribuições do instrumental de reconhecimento dos

processos de vulnerabilização de coletivos e dos sujeitos, está o estreitamento

das

relações

entre saúde e direitos humanos em nossas estratégias de

prevenção e cuidado

”[47].

Em um artigo publicado em 2005 na Revista de Saúde Pública, Lopes [48]

chama a atenção para um fato relevante ao considerarmos os impactos das

desigualdades raciais em saúde. O racismo, como processo histórico de

hierarquização de definição de acesso, nem sempre pode ser apreendido de

forma

explícita

e

mensurável.

As

análises

de

diferença

numéricas

com

significância

estatística,

embora

fundamentais

sejam

insuficientes

para

compreender os impactos do racismo na saúde da população negra, quando

ignoradas as experiências de vida, condições sociais e acesso a serviços e

bens sociais etc.

1 Determinantes sociais da saúde (DSS) são, segundo a OMS, “circunstâncias sociais e

econômicas desfavoráveis que afetam a saúde ao longo da vida.” (AKERMAN, 2005:79). Nessa condição, as pessoas pertencentes às classes sociais mais exploradas ou totalmente excluídas na ordem social produtiva capitalista têm o dobro de chances de adoecer gravemente e morrer prematuramente, pois

“ seus efeitos se acumulam durante toda a vida” (idem).

34

1.2.3.1 A saúde da população negra

Encontramos uma importante bibliografia oriunda de pesquisas acadêmicas,

em relatórios que apresentam dados desagregados utilizando o quesito raça ou

etnia, produzidos pelas instituições responsáveis por sistemas de informação

gerais

ou

em

saúde,

como

o

Ministério

da

Saúde,

a

Organização

Panamericana da Saúde (OPAS), o IBGE, Fundação SEADE, bem como

autores que reuniram estes dados e os apresentam sob a ótica da discussão

da superação das desigualdades e da formulação de políticas públicas como

em Lopes [48], Batista e Kalckmann [49] e Chor e Lima [50], para citarmos

apenas algumas referências.

O “Caderno de Textos Básicos” [51] do Seminário Nacional da População

Negra, realizado em agosto de 2004, promovido em parceria entre a Secretaria

Especial de Políticas de Promoção da Igualdade Racial (SEPPIR) e o Ministério

da Saúde e o Seminário Saúde da População Negra, reunido no livro “Temas

em Saúde Coletiva 3” [49] produzido pelo Instituto de Saúde da Secretaria

Estadual de Saúde de São Paulo apresentam uma inestimável fonte de

informações sobre as disparidades nas condições de acesso à saúde de

negros e não-negros:

-68% dos negros atendidos em hospitais e 26% dos negros atendidos em

unidades de saúde referem sentir-se discriminados [4].

-a expectativa de vida ao nascer dos brasileiros é de 73,99 anos para os

brancos e 67,87 anos para os negros [4].

35

-a redução das taxas de mortalidade infantil vivenciada no país nas últimas

décadas foi menor entre os negros (25%) do que entre os brancos (43%). Em

vinte anos (1980 a 2000) a diferença relativa entre os níveis de mortalidade

infantil dos dois grupos praticamente dobrou. [4]

- outro campo clássico da saúde pública, a saúde da gestante, apresenta

importantes indicadores de disparidade: na cidade do Rio de Janeiro, no

período de 1999 a 2000, 31,8% das gestantes negras relataram dificuldade de

obter atendimento pré-natal, enquanto entre as brancas esta dificuldade se deu

em 18,5% das vezes [4].

-as doenças infecciosas e parasitárias, doenças endócrinas e metabólicas,

transtornos mentais, doenças do aparelho circulatório e causas externas são a

maior causa de mortalidade entre os homens pretos [49] sendo que 69,5% dos

óbitos dos homens negros ocorrem até 54 anos, para uma proporção de 45,1%

entre homens brancos [52].

-destaca-se que os óbitos por doenças mentais e comportamentais entre os

homens negros estão concentrados nas faixas mais pobres da população e

afetam intensamente os trabalhadores desempregados e/ou subempregados

[4].

-a taxa de mortalidade por Aids no Brasil, no ano 2000, foi de 10,61/100 mil

para mulheres brancas, 21,49/100 mil para as pretas, 22,77/100 mil para os

homens brancos e 41,75/100 mil para os homens negros [4].

1.2.2.2 Saúde mental e racismo

36

Ser negro é estar envolto em um conjunto de situações e vivências sutis ou

deliberadamente hostis em que a acomodação ou reação envolvem conflitos

com impactos diretos e indiretos sobre o processo saúde/doença. Nas palavras

de Aimé Cesaire [53], conhecido como o poeta da negritude, ao se propor agir

no sentido da transformação das condições que cercam o ser negro, há que se

levar em conta esses determinantes: “falo de milhões de homens a quem

sabiamente inculcaram o medo, o complexo de inferioridade, o temor, a

genuflexão, o desespero, o servilismo.”

Fanon [13], ao analisar a situação dos africanos na França, ressalta a

impossibilidade de uma vivência saudável dada às suas péssimas condições

de vida causadas pelo racismo.

Para Eldridge Cleaver [54] o racismo tem reflexos inclusive na saúde sexual

de homens e mulheres negras. O autor desenvolve uma análise profunda na

abordagem de temas como sexualidade, feminilidade e masculinidade negra e

miscigenação, apontando os complexos psíquicos inculcados no negro como

principal

desafio

a

ser

autodeterminação.

enfrentado

pelo

mesmo

na

sua

emancipação

e

Para ele o ser humano dotado de infinitas potencialidades criativas, mas

cindido em arquétipos masculino/feminino nas sociedades de classe em que a

racialização atua como definidora de espaços sociais, é também perpassado

pela cisão preto/branco [54].

Esta reificação destina ao homem negro um estereótipo físico, destituído de

capacidades intelectuais: “O vigor, a força bruta, a robustez, a virilidade e a

37

beleza física estão associadas ao corpo [

]

às classes sociais mais baixas, aos

criados supermasculinos” [54].

Às mulheres negras fica destinado o papel da trabalhadora doméstica,

extensivo ao papel exótico de servidora sexual, como vemos em Freyre “

Da

mulata que nos tirou o primeiro bicho de pé

e

que

nos iniciou no amor físico

e nos transmitiu, ao ranger da cama-de-vento, a primeira sensação completa

de ser homem

[24].

Sobre a condição psíquica da mulher negra, encontramos em Firestone [55],

Roland [56], Santos [57] a reflexão sobre os impactos na saúde mental

produzidos pela epidermização do racismo, assim sintetizado por Carneiro[58]:

para além da problemática da violência doméstica e sexual que atingem as mulheres de todos os grupos raciais e classes sociais, há uma forma específica de violência que constrange o direito à imagem ou a uma representação positiva, limita as possibilidades de encontro no mercado afetivo, inibe ou compromete o pleno exercício da sexualidade pelo peso dos estigmas seculares, cerceia o acesso ao trabalho, arrefece as aspirações e rebaixa a auto-estima.

As relações de vida, o meio, as ocupações e preocupações, a sexualidade,

as tensões interiores, o sentimento de segurança e insegurança, a evolução e

história de vida trazem sofrimentos e impactos diretos sobre a auto-estima dos

que estão submetidos ao racismo [59-54-57-60-61] refletindo sobre sua saúde,

principalmente a saúde mental, “por interiorização, ou melhor, epidermização

dessa inferioridade” [62].

1.2.2.3 Racismo institucional

A operacionalização do conceito de vulnerabilidade veio possibilitar uma

compreensão

do

processo

saúde-doença

38

relacionado

com

os

aspectos

individuais, intrinsecamente ligados às condições materiais de existência, bem

como a capacidade das instituições, especialmente da saúde de oferecer

condições para a equidade [40].

Este último aspecto é importante quando se pensa a saúde da população

negra no Brasil, pois seria ingenuidade acreditar que o racismo, impregnado

em todos os poros do tecido social, estaria ausente nas reflexões e práticas de

saúde

Lopes

[48]

fala

da

cegueira

institucional

produzida

no

contexto

de

invisibilização das desigualdades raciais. Num país em que se enraizou o mito

da democracia racial, impera “o preconceito de ter preconceito” [33] onde os

profissionais, mesmo quando repudiam moralmente qualquer forma

de

discriminação contribuem para a sua manutenção ou reprodução quando não

se posicionam abertamente no sentido de enfrentar as desigualdades:

Assim, embora não seja ético orientar sua ação de modo a discriminar, o profissional tende a não perceber as desigualdades ou a insistir em sua inexistência, contribuindo para a inércia do sistema frente às mesmas e, por conseqüência, para a sua manutenção [4].

Os dados acima descritos apontando as desigualdades raciais em saúde

são frutos do racismo sobre o nascer, viver, adoecer e morrer da população

negra, mas por outro lado, não faria sentido desconsiderar o setor saúde desta

cadeia complexa de produção e reprodução social de desigualdades.

Para refletir e atuar sobre esta problemática, criou-se o conceito de racismo

institucional:

O racismo institucional pode ser definido como o fracasso coletivo das organizações e instituições em promover um serviço profissional e

39

adequado às pessoas devido a sua cor, cultura, origem racial ou étnica(PNUD, 2005). Ancorada em um esquema interpretativo que reconhece a existência de fenômenos sociais irredutíveis ao indivíduo, e apontando a reprodução de práticas discriminatórias que se assentam não apenas em atitudes inspiradas em preconceitos individuais, mas na própria operação das instituições e do sistema social, o enfoque do racismo institucional oferece uma nova abordagem analítica e uma nova proposta de ação pública [ 63].

Estas práticas reproduzem ou intensificam as desvantagens no acesso aos

benefícios gerados pelas instituições e organizações.

Uma sondagem de opinião sobre este tema realizada no segundo Seminário

de Saúde da População Negra do Estado de São Paulo (2005) por Kalckmann,

Santos e Batista [49] evidenciou a discriminação sofrida pela população negra

nos

serviços

de

saúde.

De

acordo

com

o

estudo,

a

ampliação

da

vulnerabilidade da populaça negra é expressa quando:

existem restrições de acesso aos serviços e atendimentos de saúde;da vulnerabilidade da populaça negra é expressa quando: qualidade diferenciada no atendimento ao pré-natal e parto;

qualidade diferenciada no atendimento ao pré-natal e parto;de acesso aos serviços e atendimentos de saúde; qualidade ruim no atendimento à anemia falciforme; e

qualidade ruim no atendimento à anemia falciforme;qualidade diferenciada no atendimento ao pré-natal e parto; e na relação estigmatizada entre os profissionais de

e na relação estigmatizada entre os profissionais de saúde de diferentese parto; qualidade ruim no atendimento à anemia falciforme; origens étnico raciais. Estes aspectos são relevantes

origens étnico raciais.

Estes aspectos são relevantes se quisermos reverter o presente quadro de

iniqüidade que perpassa a saúde da população negra.

1.2.3 O movimento negro

1.2.3.1 A atuação afirmativa do movimento negro

40

Entendemos por Movimento Negro o conjunto de indivíduos, organizações

e ou expressões culturais negras ou de matriz africana, que desempenham

teleologicamente ações de preservação da identidade negra, dos diversos

aspectos da sua cultura e/ou, principalmente, de enfrentamento ao racismo

[21].

O movimento negro constituiu-se ao longo de sua história como a principal

força social de contraposição ao racismo e busca de melhores condições de

vida da população negra no Brasil. Este aspecto é de grande relevância para

compreender a dinâmica das relações raciais na sociedade contemporânea e

os seus reflexos na saúde da população negra.

Numa extensa sistematização da literatura, Gohn [64], identifica diversas

teorias e concepções sobre a categoria movimento sociais, vinculando-as às

principais correntes teóricas das ciências sociais. Neste debate os movimentos

sociais são definidos por ela como:

ações sociopolíticas construídas por atores sociais coletivos pertencentes a diferentes classes e camadas sociais, articuladas em certos cenários da conjuntura socioeconômica e política de um país, criando um campo político de força social na sociedade civil. As ações se estruturam a partir de repertórios criados sobre temas e problemas em conflitos, litígios e disputas vivenciadas pelo grupo na sociedade. As ações desenvolvem um processo social e político-cultural que cria uma identidade coletiva para o movimento, a partir dos interesses em comum. Esta identidade é amalgamada pela força do princípio da solidariedade e construída a partir da base referencial de valores culturais e políticos compartilhados pelo grupo, em espaços coletivos não-institucionalizado [64].

Seja

na

politização

de

conflitos

reais

existentes

ou

no

impulso

à

transformações

sociais,

os

movimentos

sociais,

exercem

influência

nos

processos históricos, ao mesmo tempo em que são frutos destes mesmos

processos.

41

O movimento negro,

mesmo

sobre escassas referências

nos

estudos

e

conceituações sobre movimentos sociais no Brasil, exerceu influência em

diversos períodos e transições históricas do país [21].

Interessa aqui discutir a importância do movimento negro em relação à

saúde da população negra, na medida em que é expressão de sua auto-

organização, depositária da trajetória histórica destes brasileiros e interlocutor

da variada gama de demandas humano-societárias que daí advém.

Biko [65], ao refletir sobre o enfrentamento do racismo elabora uma

estratégia

que

articula

dialeticamente

cultura,

política,

auto-estima,

solidariedade grupal,

afirmação da identidade étnica/racial à possibilidade de

mobilização coletiva frente ao racismo.

Pode-se compreender esta dinâmica em três dimensões:

Construção de redes de solidariedade;Pode-se compreender esta dinâmica em três dimensões: Afirmaçã o da identidade negra frente a um

Afirmação da identidade negra frente a um „universalismo‟ eurocêntrico o da identidade negra frente a um „universalismo‟ eurocêntrico

inferiorizador e a preservação de conhecimento cultural ancestral;

Transformações nas condições estruturais de vida, levado a cabo pelose a preservação de conhecimento cultural ancestral; próprios negros num processo que seria impossível sem as

próprios negros num processo que seria impossível sem as dimensões

anteriores.

Estes tópicos, embora articulados na prática, evidenciam a importância do

movimento negro no processo saúde-doença da população negra, seja pelos

processos de transformação social que proporciona no âmbito estrutural das

relações de produção, influenciando diretamente nos determinantes sociais da

saúde, seja por propiciar espaços de sociabilidade pautados na valorização e

42

manifestação da identidade ancestral comum. Aspectos relevantes na melhoria

da qualidade de vida desta população.

A inter-relação com o movimento negro para a ampliação da rede de

sujeitos sociais envolvidos nas dimensões de cuidados com a saúde está

calcada na condição que este possui de trazer em si “

os elementos de

interação dialógica que complementam, no campo da saúde, o potencial da

construção

de

consensos

acerca

dos

fenômenos

legítimos sujeitos dessas vivências” [47].

saúde/doença

com

os

1.2.3.2 A diversidade do movimento social negro

A permanência do racismo atualizado por necessidades sociais que se

renovam, trouxe para os negros a demanda de desenvolverem diversos

processos de enfrentamento e auto-preservação [21].

Esta atuação vai se

reconfigurando a partir das demandas históricas que se sucedem e são

decisivas para entendermos sua conformação na atualidade.

Num processo consciente, disperso e complexo, dada sua heterogeneidade

[66], estes agentes sociais interferem diretamente na dinâmica das relações

raciais. Tendo sua gênese na necessidade de enfraquecer o sistema escravista

através das diversas expressões de lutas, revoltas e insurreições quilombistas

e permanecendo atuante através de formas de organizações políticas, culturais

e religiosas que conflitam, enfrentam ou mesmo defendem-se da opressão

racializada mantida e atualizada cotidianamente [21-67].

Para enfrentar as condições que está submetido, o negro procura:

43

e elaborar uma sub ideologia capaz de manter a

consciência e a coesão grupal em vários níveis. Numa sociedade em que os elementos do poder se julgam brancos e defendem um processo de branqueamento progressivo e ilusório, o negro somente poderá sobreviver social e culturalmente sem se marginalizar totalmente, agrupando-se como fez durante o tempo em que existiu a escravidão, para defender sua condição humana.” [21]

organizar-se

Partindo do conceito de Grupos Específicos e Diferenciados, Moura [21]

propõe uma análise que compreenda o movimento negro em sua complexidade

organizacional nos mais variados estágios de conscientização:

Essa dicotomização do conceito (em si e para si) vem possibilitar a análise da classe desde a sua formação e emergência, quando ela é apenas objeto na estrutura social, até a fase mais plena da sua afirmação na sociedade, quando adquire consciência de que existe e somente em confronto e fricção com outros que se comprimem no espaço social pode reconhecer-se como específica, isto é, com objetivos próprios e independentes [21]

Os sujeitos negros são diferenciados pela sociedade racista mediante as

determinadas marcas que carregam [68]. Estas marcas não caracterizam uma

diferenciação biológica, mas sim impressões socialmente determinadas

que

atuam como barreira real de inferiorização, negação e exclusão [21].

Somente quando este grupo, diferenciado pela sociedade de classes,

adquire

consciência

dessa

diferenciação

pode

barragens

que

vivencia,

viabilizando,

portanto,

perceber

os

motivos

das

a

elaboração

de

ações

teleológicas de preservação da identidade negada ou mesmo o enfrentamento

às condições que lhe são hostis, passando de objeto das estruturas sociais a

agentes da dinâmica social.

O grupo diferenciado tem suas diferenças aniquiladas pelos

valores da sociedade de classe, enquanto o mesmo grupo passa a ser especifico na medida em que ele próprio sente essa diferença e, a partir daí, procura criar mecanismos de defesa capazes de conservá-lo específico, ou mecanismo de integração com a sociedade [21].

) (

44

Para o autor um grupo será mais específico quanto mais desenvolvido

forem os seus mecanismos de defesa, confronto e/ou integração com a

sociedade. Há neste sentido entre as diversas organizações negras, níveis e

graus variados de consciência de sua situação.

É

notável

a

grande

variação

no

formato

de

organizações

negras,

constituídas através da história e das condições vivenciadas e mesmo de

acordo com as regiões do país e o tipo de trabalho desenvolvido [21-35].

Qualquer ação ou estudo sobre o movimento social negro deve levar este

fator em consideração, desenvolvendo análises abrangentes o suficiente para

captar formas de organização muitas vezes diversas do que se entende

tradicionalmente por luta política ou movimento social. Esta preocupação

é válida também nos casos em que este processo de especificidade sofre

ações

desagregadoras

como

é

o

caso

do

Carnaval

[21-69]

e

outras

expressões culturais como a Capoeira, o Tambor de Mina, Hip Hop etc.

1.2.3.3 O protesto negro e a cultura

A constituição do movimento negro, em suas mais diversas manifestações,

ocorre

intimamente

entrelaçada

às

dimensões

culturais

produzidas

nos

contextos em que os negros estavam inseridos, ao longo da história e das

relações sociais em mutação que o Brasil vivenciou.

As heranças culturais dos diversos povos africanos seqüestrados (talvez a

única

herança

possível

no

contexto

da

escravidão

transatlântica)

vão

relacionar-se aqui com os novos processos de vida, particularmente no que diz

45

respeito à condição de libertos, configurando parte significativa do protesto

negro.

No processo de produção da própria vida o ser humano edifica as condições

pelo qual se reproduz. A percepção do mundo está diretamente relacionada às

condições reais de existência:

A produção de idéias, de representações, da consciência, está, de inicio, diretamente entrelaçada com a atividade material e com o intercâmbio material dos homens, como a linguagem da vida real. O representar, o pensar, o intercâmbio espiritual dos homens, aparecem aqui como emanação direta do seu comportamento material. O mesmo ocorre com a produção espiritual, tal como aparece na linguagem da política, das leis, da moral, da religião, da metafísica etc. de um povo. Os homens são os produtores de suas representações, de suas idéias etc., mas os homens reais e ativos, tal como se acham condicionados por um determinado desenvolvimento de suas forças produtivas e pelo intercâmbio que a ele corresponde, até chegar as suas formações sociais mais amplas. A consciência jamais pode ser outra coisa do que o ser consciente, e o ser dos homens é o seu processo de vida real. [12] .

As expressões culturais compõem o todo da vida numa síntese de múltiplas

determinações dialéticas que explicam e conformam toda uma forma específica

de pensar e fazer o mundo, material e espiritualmente condicionadas às

possibilidades

de

produção

e

reprodução

da

vida.

A

religião,

valores,

indumentárias,

artes,

jeito

de

fazer

e

interpretar

as

necessidades

e

possibilidades colocadas pela realidade histórica e socialmente transformada

são parte da identidade dinâmica de um determinado povo, sob determinadas

condições de existência.

Durante o período escravista, o africano escravizado era estrategicamente

inibido em manifestar suas expressões culturais ideológica, religião, língua e

hábitos

tradicionais

uma

vez

que

estes

dominação e exploração.

46

obstaculizavam

o

sistema

de

O colonizado era intensivamente pressionado a abandonar seus sistemas

de referência de explicação do mundo, num processo que de um lado

respondia a necessidade escravista (onde o trabalhador era também meio de

produção) de coisificação (reificação) do africano, apesar da persistência do

negro em preservar sua cosmogonia a ponto de fazê-la penetrar no outro

sistema de referência cultural.

Partindo desta constatação, Moura [70] afirma que “as culturas africanas

transformam-se no Brasil em uma cultura de resistência” na medida em que a

sua conservação e re-significação

conformam, num

conjunto de ações de

proteção e enfrentamento a sociedade racista .

Os negros ao buscar preservar-se da ordem escravista e seus mecanismos

de contensão social elaboram estratégias defensivas. A criação de uma

linguagem comum das senzalas e

a preservação de suas religiões,

ao

possibilitar a comunicação e ao mesmo tempo a conservação da identidade

étnica

pela

via

do

mundo

religioso,

seriam

resistência à escravidão [70].

relevantes

no

processo

de

As expressões culturais de matriz africana constituem-se como elemento

intrínseco à trajetória de luta dos negros no Brasil. A preservação dessas

expressões culturais, bem como a sua importância nos dias atuais deve ser

compreendida na dinâmica desse enfrentamento, pois desempenham desde a

escravidão

aos

dias

atuais

o papel de resistência

frente

aos aparelhos

ideológicos de dominação, bem como é elemento de proteção social [70].

47

Do Jazz ao Samba, das Congadas às Capoeiras, do Candomblé ao Hip Hop

é possível notar a forte presença de traços africanos convertidos em expressão

de resistência e luta contra as mazelas econômicas, culturais e ideológicas que

permeiam a sociedade racista, bem como a sua importância como elemento de

aglutinação, preservação e re-significação da identidade étnica [7-21-35-61-70-

71].

Biko [65] ao definir a consciência negra como estratégia de emancipação,

faz uma relação semelhante que possibilita pensar a cultura negra como

expressão política de resistência e enfrentamento e ao mesmo tempo elevação

moral frente à reificação colonial.

Estas expressões culturais não estão congeladas, mas sim, vivas nas

manifestações grupais e costumes que se reproduziram ao longo desses

séculos, traduzindo a vida em seus vários momentos. Contexto sem o qual a

luta política revolucionária não seria possível [61].

E Biko [61] citando o revolucionário Sékou Touré nos alerta, poeticamente,

contrariando as aspirações culturalistas que:

“ para participar da revolução africana não basta escrever uma canção revolucionária, é preciso forjar a revolução junto com o povo. E se nós a forjarmos junto com o povo, as canções surgirão por si mesmas e delas mesmas” [61].

1.2.3.4 O movimento negro na África e na diáspora

Importantes autores relatam a manifestação do protesto negro no âmbito

afro-diaspórico.

O contexto da exploração colonial e o conseqüente tráfico

48

internacional de seres humanos foram confrontados nas diferentes regiões em

que se instalaram. Estes confrontos, por vezes, traziam semelhança na forma

de atuação ou mesmo articulação política e influencia estratégica entre os

sujeitos nos diferentes países envolvidos [17-67-72-73].

As ações de auto-preservação e enfrentamento ao racismo desenvolvido

pelos africanos (na África ou nas diásporas) são tão antigos quanto o próprio

racismo, conformando um histórico de lutas muito anterior às modernas

definições de movimento social.

Um exemplo apontado por Moore [2] é a “Revolução de Zanj” (869-883 d.c)

ocorrida na península arábica. O escravismo árabe, o primeiro a se utilizar de

uma forma de escravidão exclusivamente negra, viu surgir durante o Califado

Abássida (750-1258) a maior rebelião de negros escravos deste período.

A literatura se torna farta em exemplos de rebeliões e lutas anti-racistas

quando analisamos as diversas reações empreendidas no continente africano e

nas Américas durante o escravismo clássico.

Os Quilombos, surgidos no Brasil durante o período escravista também

podem ser observados em diferentes países americanos com nomes distintos.

Em Cuba e Colômbia são conhecidos como Palenques, no Mexico e Jamaica,

Cimarrones, e na Venezuela Cumbes [74].

Outro exemplo é a revolução haitiana, notada em todo o continente por seus

contemporâneos a ponto de ser comemorada pelos povos escravizados e

temida pelos senhores escravistas brasileiros [21].

49

O próprio continente africano foi palco de revoltas anti-escravagistas das

mais variadas que lembram muito algumas táticas de guerrilha utilizadas em

nosso continente. O Quilombo conhecido por nós era uma confraria guerreira

nômade do povo Ndongo (região da atual Angola) [74].

A permanência atualizada do racismo pós-escravista durante o século XX

provoca mudanças nas diversas formas de luta. Nos Estados Unidos da

América, devido ao contexto sócio político que incluía uma organização legal

de diferença e hierarquia de direitos civis e políticos à

negros e brancos, as

formas de luta variavam entre protestos políticos à organizações de guerrilhas

urbanas e rurais. Em alguns países da América Latina, nas primeiras décadas

deste

século

surgiram

organizações

políticas

organizadas

com

imprensa

própria e grande mobilização social empreendida por partidos negros como foi

o

caso da Frente Negra Brasileira (FNB), o Partido Autóctone Negro no Uruguai

e

o Partido de los Independientes de Color em Cuba.

No continente africano, o colonialismo foi confrontado também por diversas

insurreições, guerras e guerrilhas. Estas movimentações ganham força após a

ocupação imperialista no continente impulsionada pelo tratado de Berlim (1894-

5) quando explodem em todo o continente uma infinidade de reações através

de guerras, guerrilhas e enfrentamentos políticos [72-74].

Estes movimentos se desdobraram a partir da década de 50, sob a

orientação do Pan-africanismo 2 em movimentos revolucionários de libertação

nacional.

2 O pan africanismo é articulado como doutrina política a partir do início do século XX nos Estados Unidos e em seguida para os Movimentos de Libertação do continente africano. Para

50

As guerras de libertação do continente africano e seus teóricos influenciaram

diversas

lutas

negras

pelo

mundo,

principalmente

nos

EUA.

Ambos

os

processos

constituíram-se

em fontes

de

inspiração

teórica

e

política

na

reorganização do movimento negro Brasileiro da década de 70.

Muito mais amplo e complexo do que acima citado este processo de luta dos

negros

no

continente

foi

o

principal

responsável

por

sua

sobrevivência

conformando a história do que convencionamos chamar de movimento negro.

1.2.3.5 Breve histórico do movimento negro no Brasil

Como já mencionado acima, as agendas apresentadas pelas diversas

organizações e agremiações negras vão variar quanto à forma e conteúdo,

mesmo tendo em comum o fato de serem expressões da luta do povo negro

no Brasil. Ao estudarmos expressões culturais manifestas nos contextos

religiosos, artísticos e políticos de matriz africana, há de se levar em conta o

caráter complexo que estas organizações apresentam mesmo nos casos em

que as organizações e ações não trazem explicitamente em suas agendas a

temática de combate ao racismo.

Pinho [66] reproduz a visão do ordenamento dos movimentos negros em

dois momentos:

A gênese dos modernos movimentos sociais negros pode ser descrita como pertencendo a duas frentes históricas. De um lado, podemos descrever uma tradição de organização social do meio negro que remonta ao período colonial como uma trajetória ocasionalmente vista como mais ou menos independente e com identidade própria. De

Nascimento, a manifestação dos seus princípios antecedem a utilização do termo, estando presente,

portanto, na solidariedade e consciência da situação comum por parte de africanos e seus descendentes no

continente africano e na diáspora

conceito de aglutinação de diferentes forças políticas e povos africanos durante as guerras de libertação.

O pan africanismo, como corrente política-ideológica foi principal

51

outro lado, podemos ver que o movimento negro moderno, ou seja, aquele surgido no contexto do declínio do regime militar a partir dos anos 70, associa-se a um movimento mais amplo de reorganização dos movimentos sociais e de politização da sociedade e do cotidiano

[66]

Resistência no período escravista

O período escravista é amplamente estudado por Moura [21-70-75] que

entende a divisão do escravismo em dois grandes períodos - o escravismo

pleno

(1550-1850)

e

posteriormente

o

escravismo

tardio

(1840-1888)

é

determinante para compreender a dinâmica dos movimentos de resistência.

O escravismo pleno, marcado pelo tráfico intenso de escravos para suprir a

estrutura

de

produção

agrícola

baseada

na

monocultura

[18]

fez surgir

manifestações

radicais

de

contestação

à ordem

social

vigente,

sob

a

denominação de

Quilombagem [21]. Esta constituiu-se de variados tipos de

manifestação de rebeldia individuais e coletivas como guerrilhas, insurreições,

bandoleirismo de escravos fugidos, sendo que a constituição dos Quilombos,

como comunidades instaladas em territórios, tornou-se seu principal foco de

resistência [21-70].

Importante ressaltar que para o autor o desenvolvimento de um sistema

comum de comunicação e a preservação e reinvenção das religiões de matriz

africana no contexto da escravidão refletem e são ao mesmo tempo reflexo de

um processo articulado e multifacetado de reconstrução objetivo/subjetiva,

solidariedade grupal e enfrentamento ao racismo.

O período posterior classificado por Moura como escravismo tardio foi

marcado pela proibição do tráfico internacional de escravos e a ascensão da

52

indústria

cafeeira

provocou

manifestação antiescravistas.

mudanças

significativas

nas

formas

de

Neste momento observa-se uma maior movimentação em torno de lutas

abolicionistas e de integração ou proteção social ao negro livre.

Os Quilombos, Irmandades Religiosas, Congadas, Confrarias, Cabanagem,

Revolta dos Alfaiates, entre outras foram (e ainda são) parte ativa deste

processo político, sendo que estas diversas lutas contribuíram para o desgaste

do sistema escravista, sua flexibilização ao longo dos séculos representada

pelas alforrias adquiridas e concedidas e a sua conseqüente substituição pelo

trabalho livre [21-70-67].

Entre a Abolição e o surgimento do Movimento Negro Unificado

Contra a Discriminação Racial - MNUCDR

Domingues [76] ao sistematizar as manifestações do movimento negro pós-

abolicionista chama atenção para uma sub-exploração da presença ativa do

movimento negro organizado durante este período. Para o autor “o movimento

negro contemporâneo já acumula experiência de gerações, sendo herdeiro de

uma tradição de luta que atravessa praticamente todo o período republicano”.

Visando uma sistematização mais detalhada do período

fases históricas:

distingue-se três

- o movimento negro da República Velha ao Estado Novo (1889-1937);

- o movimento negro da segunda republica à ditadura militar (1945-1964);

53

- o terceiro momento data da abertura política.(a partir de 1970)

Elisa

evidencia

Larkim

Nascimento

a

importância

de

[77],

numa

sistematização

mais

detalhada

se

compreender

a

diversidade

programática

organizacional que o movimento negro se utilizou ao longo do séc. XX e início

do XXI.

Na primeira fase apontada por Domingues já se observava uma grande

diversidade organizacional:

grêmios literários, centros cívicos,

associações beneficentes, grupos “dramáticos”, jornais e entidades políticas, as quais desenvolviam atividades de caráter social, educacional, cultural e desportiva, por meio do jornalismo, teatro, música, dança e lazer ou mesmo empreendendo ações de assistência e beneficência [76].

clubes,

Estas associações que chegaram a aglutinar um número considerável de

membros culminaram no surgimento de uma imprensa alternativa voltada à

população negra. A chamada imprensa negra com jornais de grande circulação

e difusão de idéias de valorização do negro [76-77] possibilitou posteriormente

a articulação da Frente Negra Brasileira (FNB), uma organização política de

caráter nacional [70-77].

Com mais de vinte mil filiados a FNB transformou-se em partido político

para concorrer às eleições e chegou a formar uma milícia negra paramilitar

[76].

Com expressiva participação das mulheres negras a FNB espalhou-se por

todo o

país

desenvolvendo

atividades políticas, culturais,

assistenciais e

esportivas. Enfrentou algumas dissidências como a Legião Negra, que uniu-se

54

aos rebelados da chamada Revolução Constitucionalista (1932) e a Frente

Negra Socialista (1933), e o Clube Negro de Cultura Social liderado pelo

destacado militante José Correria Leite, ambos parte de uma vertente socialista

de movimento negro [77]. Mas foi dissolvida pelo governo Getúlio Vargas no

golpe militar de 1937 [70].

A segunda fase para Domingues, iniciada após a queda de Vargas (1945-

1964)

é

marcada

pela

retomada

do

protesto

negro.

Baseando-se

em

Guimarães (2002:88) o autor afirma que apesar de não ter o mesmo poder de

mobilização do momento anterior, o movimento negro se rearticula porque a

discriminação se mantém tornando-se mais problemática com a consolidação

da

economia

urbano-industrial 14

convivendo

com

a

marginalização

da

população negra. Esta visão é corroborada por Hanchard [69].

É neste momento que constituída de uma extensa estrutura organizativa surge

no Rio Grande do Sul, em 1943, a União dos Homens de Cor:

Também intitulada Uagacê ou simplesmente UHC, foi fundada por João Cabral Alves, em Porto Alegre, em janeiro de 1943. Já no primeiro artigo do estatuto, a entidade declarava que sua finalidade central era “elevar o nível econômico, e intelectual das pessoas de cor em todo o território nacional, para torná-las aptas a ingressarem na vida social e administrativa do país, em todos os setores de suas atividades” [76].

Com o objetivo de atuar contra o preconceito de cor e pelo “levantamento

moral e cultural do negro”, por via, principalmente, da assistência social [78] a

partir da segunda metade da década de 1940 a organização já atingia mais de

10 estados da federação chegando, inclusive, a eleger por duas vezes um

deputado federal no Rio de Janeiro. [78]

55

Estes grupos não eram os únicos existentes nesta época, pois o período

vivenciou o surgimento de diversas organizações em todo o território nacional:

articulou-se o Conselho Nacional das Mulheres Negras, em 1950. Em Minas Gerais, foi criado o Grêmio Literário Cruz e Souza, em 1943; e a Associação José do Patrocínio, em 1951.Em São Paulo, surgiram a Associação do Negro Brasileiro, em 1945, a Frente Negra Trabalhista e a Associação Cultural do Negro, em 1954, com inserção no meio negro mais tradicional. No Rio de Janeiro, em 1944, ainda veio a lume o Comitê Democrático Afro-Brasileiro que defendeu a convocação da Assembléia Constituinte, a Anistia e o fim do preconceito racial , entre dezenas de outros grupos dispersos pelo Brasil [76].

Ainda neste período, destaca-se o surgimento de diversas organizações

como o Centro de Cultura Luíz Gama e a Cruzada Social e Cultural do Preto

Brasileiro, em São Paulo; a Turma Auriverde em Minas Gerais e o Centro

Literário de Estudos Afro-brasileiros em Porto Alegre. No Rio de Janeiro

destacavam-se o Centro de Cultura Afro-Brasileira e o Teatro Experimental do

Negro (TEN) dirigido por Abdias do Nascimento [77].

Criado em 1944, inicialmente com o objetivo de agregar atores negros em

seu bojo, o TEN acabou por se transformar num importante movimento político

cultural de orientação internacionalista.

Toda esta frutífera movimentação, produto de uma política de aliança de

vários setores sociais será desarticulada com o golpe de estado protagonizado

pelos militares em1964 [18].

Durante o golpe, algumas organizações permanecem atuando de maneira

restrita. O TEN, por exemplo, seguiu desenvolvendo ações culturais de cunho

político no país, ao mesmo tempo em que mantinha contatos de solidariedade

com os movimentos de libertação em África [77].

56

A retomada será feita nos anos 70 através do surgimento do Movimento

Negro Contra a Discriminação Racial (MNCDR) atual Movimento Negro

Unificado (MNU). Para Domingues [76] este evento marca o início de um

terceiro período.

Antecedendo a criação do MNU, o país vê surgir um grande número de

organizações negras, ao relata Nascimento:

O Grupo Palmares, de Porto Alegre; o Instituto de Pesquisa da Cultura Negra (IPCN), o Gremio Recreativo de Arte Negra e a Escola de Samba Quilombo, do Rio de Janeiro; o Centro de Cultura e Arte Negra (Cecan), o Grupo Afro-Latino de São Paulo; o Grupo Teatro Evolução, de Campinas; o Grupo Rebu/Congada, de São Carlos; o Grupo Zumbi, de Santos; o Grupo Teatro e Cultura Palmares e o Grupo dos Malês, da Bahia, onde surgiram também os blocos carnavalescos Ilê-Ayê, Olodum e Orunmilá. Em 1975 e 1976, foram promovidos três Encontros Interstaduais de Entidades negras [77]

Esta intensa movimentação foi acrescida pelo calor dos acontecimentos

internacionais vinculada e influenciada pelas lutas negras na África e na

Diáspora (principalmente nos E.U.A) .

Os

confrontos

raciais

nos

Estados

Unidos,

assim

como

os

radicais

movimentos de libertação nacional em diversos países do continente africano

influenciaram decisivamente essa nova configuração do movimento negro

brasileiro [61-69- 32] e na percepção do negro brasileiro sobre si.

Toda esta movimentação possibilitou em 1978 a criação do MNCDR. O

movimento, embora não tenha conseguido manter a estrutura organizativa que

almejava, instala-se por todo o país.

Dentre as várias reivindicações expressas na carta de fundação do MNU, a

questão da saúde já estava presente:

57

CONVENCIDOS

da existência de discriminação racial: (

)

RESOLVEMOS juntar nossas forças por: defesa do povo negro em todos os aspectos políticos, econômicos, sociais e culturais através da conquista de maiores oportunidades de emprego; melhor assistência à saúde (grifo nosso), à educação e à habitação; reavaliação do papel do negro na história do Brasil; valorização da cultura negra e combate sistemático a sua comercialização, folclorização e distorção [ ] (MOVIMENTO NEGRO UNIFICADO. Carta de princípios.)[32]

O movimento negro foi se ramificando ao diversificar suas formas de

atuação, interagindo com outros movimentos e forças políticas, de forma que

na década de 80 a discussão racial tomou novas proporções.

Um

novo

experimentada

desafio

pela

se

colocou

naquele

momento

face

participação

nas

instâncias

do

Estado:

à dualidade

conciliar

a

necessidade de posturas claras e definidas quanto aos questionamentos

históricos e reivindicações dos negros brasileiros e as posturas esperadas para

participação

em

instâncias

como

o

Conselho

de

Participação

e

Desenvolvimento da Comunidade Negra do governo do Estado de São Paulo

(1984), o Conselho Municipal da Comunidade Negra da cidade de São Paulo

(1988) e mesmo a participação no Congresso Nacional com Abdias do

Nascimento (1983-1987) e posteriormente (1987-1991) com Benedita da Silva

(PT-RJ), Paulo Paim (PT-RS) e Carlos Alberto de Oliveira/Caó (PDT-RJ); além

da

participação

destes

e

outros

Constituinte de 1988 [69-77].

na

construção

da

Assembléia

Nacional

A década de 90 vê ampliar a diversidade entre as organizações. A criação

em 1984 do Congresso Nacional Afro-Brasileiro (CNAB); a criação da Revista

Eparrei do Centro de Cultura da Mulher Negra de Santos, o boletim Ato-ire

religiões Afro-brasileiras e Saúde, do Maranhão, o Jornal Irohin, com sede em

Brasília, a criação dos Pré-vestibulares para Negros e Carentes (PVNC), no

58

Rio de Janeiro e o Educação e Cidadania de Afrodescendentes (EDUCAFRO),

o Centro de Cultura Negra (CECUNE) no Rio Grande do Sul, a Afrobras

organização

responsável

pela

consolidação

no

início

do

século

XXI

da

Universidade Zumbí dos Palmares (UniPalmares), assim como o Centro de

Estudos das Relações do Trabalho e Desigualdades (Ceert), o Instituto Padre

Batista e o Núcleo de Estudos Negros (NEM) de Florianópolis são apenas

alguns

exemplos

da

imensa

diversidade

organizacional

composta

pelas

organizações surgidas na década de 90 no país [77].

Na presente década, destaca-se a atuação do movimento negro na III.

Conferência das Nações Unidas contra o Racismo, a Discriminação Racial, a

Xenofobia e Formas Correlatas de Intolerância (Durban, África do Sul- 2001).

Este processo pressionou o Estado brasileiro a adotar algumas políticas

públicas voltadas à população negra, entre elas a criação da Secretaria

Especial de Políticas de Promoção da Igualdade Racial (SEPPIR).

Destacam-se também as atuais movimentações no ano de 2007, em torno

do Encontro Nacional de Juventude Negra (ENJUNE) com a conseqüente

articulação

do

Fórum

Nacional

de

Juventude

Negra

(FONAJUNE)

e

a

construção do Congresso Nacional de Negras e Negros do Brasil (CONNEB),

que diante à diversidade política das organizações do movimento negro,

iniciaram articulações unitárias de caráter nacional.

Relataremos mais adiante algumas tendências desta ramificação com o

advento

do

feminismo

negro

e

do

surgimento

expressivo

de

diversas

organizações de mulheres negras na década de 1980 e suas contribuições

para o campo da saúde da mulher negra (PIERUCCI, 1999), o surgimento no

59

final da década de 80 do movimento político cultural Hip Hop e a presença

marcante das religiões de matriz africanas por todo este período.

O feminismo negro

O feminismo negro pode ser identificado no protagonismo das mulheres em

todo o processo de resistência e luta contra a escravidão, assim como no

período

posterior

a

abolição,

através

de

diversos

mecanismos

de

auto-

preservacão e manutenção de suas expressões cosmogônicas, bem como no

enfrentamento direto ao racismo.

A existência de organizações de mulheres negras e/ou a participação das

mulheres na luta anti-racistas, embora pouco estudadas, remontam o histórico

do movimento negro. Através das irmandades religiosas, as mulheres negras

organizavam-se, oferecendo resistência aberta à escravidão à medida que

levantavam fundos para a compra de alforrias ou acobertavam escravos

foragidos. Ao mesmo tempo, elas tinham presença marcante em todas as lutas

e insurreições negras contra a escravidão nomes como Dandara, Aqualtume,

Anastácia, Luiza Mahin, e tantas outras, remontam parte dessa história que

também se explica pela própria dinâmica da cultura africana.

Sem condições de historiar, neste trabalho, todas as fases de atuação das

mulheres negras no movimento social 15 , faremos apenas um pequeno recorte

para situar a discussão, mas ressaltamos que sua presença foi decisiva em

todos os momentos e fases do movimento [70], muitas vezes resistindo contra

o sexismo dos militantes [79] .

60

Na década de 70, o movimento feminista se engaja por completo na luta pela

redemocratização do país, com a participação decisiva de mulheres negras.

Porém,

a

perspectiva

universalista

adotada

pelo

conjunto

do

movimento

feminista não refletia as demandas específicas das mulheres negras [79].

Diversas

incompatibilidades

internas

relacionadas

a

esses

problemas

ocasionaram, a partir de 1985, a criação dos primeiros coletivos de mulheres

negras

e

dos

encontros

nacionais

de

mulheres

negras,

pois,

mesmo

compartilhando da visão comum sobre o patriarcado, as mulheres negras

afirmavam suas especificidades no bojo do feminismo [79].

A leitura de Roland [80] introduziu esta perspectiva na nossa pesquisa ao

responder a um questionamento específico: Como a temática da saúde foi

incorporada pelo movimento?

O campo da saúde reprodutiva, trazido para a cena sob o olhar da mulher

negra

assim

como

a

participação

incisiva

em

instâncias

nacionais

e

internacionais como as conferencia de Beijing (1995) e Durban (2001) sobre as

demandas da população negra, legitimaram a especificidade da „saúde da

população negra‟ como prioridade [80-81].

Ao

mesmo

tempo,

dada

a

sua

dupla