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Í N D I C E

NOTA DO .............................................................................................................................

AUTOR ..13

CAPÍTULO I Reacionários e renovadores Valôres que se perdem. Valôres que se ganham. Inquietação de conservadores. Acusação à escola. Análise sumária do libelo. Escola tradicional e pseudo-escola nova. Identidade doutrinária de uma e outra. A teoria da escola nova ou, melhor, progressiva. Reacionários e renovadores têm o mesmo ideal ............................................................................................................................. ..........17

CAPÍTULO II A transformação da escola A) Escola nova ou escola progressiva ? B) Fundamentos sociais da transformação escolar. Natureza da civilização moderna. Tendências ou diretrizes essenciais. Uma nova filosofia da vida. Industrialismo ou idade da máquina. Democracia, Autoritarismo e liberdade. Novos deveres da escola. A escola tradicional e os seus pressupostos. A transformação que se impõe. C) Fundamentos psicológicos da transformação escolar. Nova psicologia da aprendizagem. "Leis" da aprendizagem. Transformação que ainda se impõe. A escola progressiva: escola de vida e experiência; alunos ativos; mestres renovados .................................................................................. 25

CAPÍTULO III Diretrizes da educação e elementos de sua técnica A) A criança - centro da escola. Respeito pela personalidade infantil. Tendência a se extremar do movimento de reconstrução escolar. Visita a uma escola experimental. Equilíbrio recomendável. B) Reconstrução dos programas escolares. Teoria de educação que a fundamenta. O processo educativo, no seu todo. Os programas - parte ou fator nesse processo total. Teoria da aprendizagem. lntegração e isolamento da aprendizagem. Atividades "intrínsecas´ e "ex -trínsecas". Vida presente da criança e experiência da espécie. Atividade infantil e "textos" e "compêndios". Parte dos programas que pode ser prèviamente traçada. Programas "mínimos". Função do professor na elaboração dos programas. A objeção da ausência de sistematização do ensino. C) Organização psicológica das "matérias" escolares. Matérias escolares ou matérias de estudo. Conceito clássico. Conceito moderno. Matérias de estudo para o "especialista": organização lógica. Matéria de estudo para a "criança": organização psicológica. Análise da idéia

quanto a uma das matérias escolares. Dificuldade do ensino pela organizaçâo puramente lógica. Os programas escolares para uso do professor. O ensino por meio de "projetos". A organização dos conhecimentos do aluno. Conclusão ............................................................................................................................. ...............52 CAPÍTULO IV A educação e a sociedade A) A educação e a sociedade, vistas como dois processos fundamentais da vida humana. Mobilidade e continuidade. "Uniformidades" naturais. "Organismos" e vida. Nível bioiógico. Nível mental. Agir, sentir e saber. Educação e inteligência. Educação: a natureza que se faz arte. B) A educação, como fenômeno individual. A educação como fenômeno social. A inteligência e sua função própria. Tentativas de contrôle da ação da inteligência. Autoritarismo, idealismo objetivo. Um problema mal colocado. Liberdade individual e direção social. Sociedades conservadoras e sociedades progressivas. C) A sociedade, a educação e a escola. O processo social e o processo educativo, confundidos no seio das sociedades. A escola, instituição consciente de educação. Função primitiva: preservar certos conhecimentos e valôres. Função atual: acompanhar, corrigir e harmonizar a educação integral do indivíduo. Essa função é literalmente imposta pelas circunstâncias. A escola e o verdadeiro progresso social. A reconstrução escolar .................................................................................................................... ............................ 84

CAPÍTULO V A conduta humana e a educação A) Moral científica e moral tradicional. Separação da moral das atualidades presentes da vida. Moral convencional. Moral dos "homens de ação", Moral "natural". Moral "espiritual". Identidade das premissas fundamentais dêsses diferentes aspectos da "Moral Tradicional". B) Análise das três premissas basilares e de suas conseqüências. I) A natureza humana é corrompida ou bárbara. Concepção da filosofia do século XVIII. Determinisrno spenceriano do século XIX. A função do conhecimento, segundo Dewey. Concepção atual da natureza humana. Indeterminismo do progresso social ou moral. II) A atividade humana é um simples meio para se atingir o bem, que é um fim estranho ou superior a essa atividade. Vida é preparação. Diferentes aspectos dessa concepção. Êrro de fato e êrro de compreensão. Êrro de fato: o homem é, por sua natureza, passivo; a atividade é um dever. Origem geral dêsse êrro: a imperfeita organização social. Êrro de compreensão: concepção inadequada do funcionamento de meios e fins na vida humana. Desenvolvimento da teoria de John Dewey a respeito do seu verdadeiro funcionamento. Ilustração demonstrativa da inversão que se opera, com a explicação da moral tradicional, na ordem real dos fatos. Espiritualismo e materialismo, vítimas do mesmo equívoco. A organização atual da vida justifica êsse êrro. Exceções: vida infantil. vida de alguns homens. Identidade da atividade com o próprio fim da vida.

III) As regras da conduta humana fluem de princípios eternos e estranhos à experiência positiva dos homens. Princípios extra-humanos ou, puramente, ideais. Necessidade de fundamentos experimentais para os "princípios" ou "hipóteses" diretores da moral. C) Conclusão. O bem ou a felicidade está na atividade presente, dirigida inteligentemente............................................................................................................. ..................... 104

CAPÍTULO VI Filosofia e educação A) Origem da filosofia (segundo John Dewey). Necessidade de reconciliação entre o conhecimento positivo e o conhecimento tradicional e religioso. Os primeiros "filósofos" da nossa civilização. Os sofistas. Caracteres da filosofia decorrentes da sua origem. Ausência de imparcialidade e de espírito objetivo. Ambição de universalidade. Artificialidade dos seus "raciocínios". Formalismo lógico. B) Aspectos modernos da filosofia. A reconstrução da filosofia. O objetivo da filosofia não é a "verdade" no sentido estritamente cientifico do têrmo, mas os "significados", os "valôres", as "interpretações" da vida. C) Filosofia e educação. Filosofia é a teoria geral da educação. Dependência da filosofia da vida social. Filosofia e democracia. A escola e as exigências da vida democrática .......................... 133

NOTA DO AUTOR

Procurei, neste pequeno livro, publicado pela primeira vez em 1934, expor em forma simples, quase coloquial, os fundamentos da teoria da educação baseada na experiência, que dirige todo o movimento de reconstrução educacional de nosso tempo. O pensamento do autor não tem preocupações de originalidade. Filia -se ao dos educadores e, mais diretamente, ao do grupo que reconhece, como sua principal figura, a do filósofo John Dewey. A êste e a Kilpatrick confessa-se profundamente devedor, embora assuma a responsabilidade exclusiva da forma de apresentação das idéias, das lacunas e das possíveis inexatidões dêste trabalho. Quanto ao título originário - Educação Progressiva: uma introdução à f ilosofia da educação - invertemos-lhe agora a ordem, passando educação progressiva a ser o subtítulo. É que hoje a designação de progressiva perdeu, de certo modo, a razão de ser. Tôda a educação moderna adota a teoria da experiência como base de sua filos ofia, continuando o estudo e a pesquisa de suas formas de aplicação. Conservamos, entretanto, a referência à escola progressiva, como registro histórico do período inicial de implantação das novas concepções, que vêm transformando a escola (daí "ou a tran sformação da escola") e fazendo da educação, em nosso século, uma educação em mudança

permanente, em permanente reconstrução, buscando incessantemente reajustar -se ao meio dinâmico da vida moderna, pelo desenvolvimento interno de suas próprias fôrças melhor analisadas, bem como pela tendência de acompanhar a vida, em tôdas as suas manifestações. Rio, maio, 1967.

Capítulo I NO INTERESSANTE PERÍODO de transição que estamos vivendo, a cada nova crise que surge, uma nova inquietação entre os homens, preocupados com os valôres que se vão perdendo nas idas e vindas da transformação social. Dispensável será dizer que há nessas transformações mais conquistas de novos do que perda de antigos valôres. Mas o homem é um animal de hábitos. E tôdas as vêzes que lhe renovam as roupas ou os pensamentos, êle julga que perdeu qualquer coisa... E na sua necessidade de localizar os culpados dessas perdas, investe contra isso e contra aquilo. Mais do que tudo, costuma investir contra as escolas. Se há crise na s letras, se não se escreve como dantes, se a língua evolui e perde antigos sabores primitivos e ingênuos, é que as escolas já não são as mesmas e urge reformá -las. Se há crise do "espírito", como hoje se diz, se os valôres humanos, na sua perpétua transformação, conquistam novas formas, e velhas ilusões se vão desfazendo em troca de valôres realistas e ásperos, - é que as escolas estão a falhar na sua finalidade espiritual«e urge reformá-las. Se há crise de costumes e de maneiras e o homem, longe de se comprazer na velha dissimulação habitual, reorganiza os seus valores com brutalidade quase, encarando a realidade de face, - é que as escolas já não formam o caráter... e urge reformá -las ou antes obrlgá-las a voltar aos velhos ídolos e velhas fórmulas. É diante de uma dessas situações que nos encontramos presentemente. A transformação por que passou a juventude atual, nos seus métodos de vida, nos seus costumes, nas suas aspirações e nas suas coragens de ação, é interpretada como uma singular crise de c aráter. A nova geração está perdendo a forte marca antiga de disciplina, solidez e segurança que fazia a honra da geração estável, conformada e cumpridora de deveres que foi... a geração anterior. E não falta quem culpe a escola... E agora, os visos da acusação, parece, se corroboram. As escolas passam, com efeito, por transformações alarmantes. A velha autoridade dos mestres já não é a mesma, se é que existe ainda. A própria autoridade dos livros começa a ser posta em dúvida. Há, pelo menos, uma porção de livros, e de opiniões adversas, - todos sendo igualmente compulsados e lidos. Critica -se tudo e tudo se questiona. Nada é sagrado. Diante de coisa alguma pára a coragem corrosiva e insolente dêsses pensamentos adolescentes e vivazes... E pior do que t udo isso ... Há sinais de aprovação por parte dos educadores. Estranhas teorias percorrem as escolas - de autodisciplina e autogovêrno, de programas voluntários, de liberdade de

é evidente: semelhante educação está a modificar a nossa juventude. a tal "liberdade" e a tal "expressão da própria personalidade" . ou melhor. Talvez. as rebeldias inesperadas da juventude moderna. que haja na teoria. o que já vai pela própria sociedade.é. uma delas serrando a perna de uma cadeira e. na aplicação das teorias modernas o excesso de zêlo que a charge do caricaturista procurou assi nalar? Não direi que não. refletem. favorecendo. na aplicação da teoria. tem realmente qualquer coisa de excessivo e de. exprime tão sòmente a correção. aviva -se. procurando retific á-Ias e harmonizá-las mùtuamente. de evitarmos a repressão clara ou dissimulada de nossas personalidades. É a tal "educação nova". nessas vozes de reprovação que se levantam do passado ? Não será mesmo que a escola se está a deixar levar exageradamente pelo "espírito do tempo". arrancando a formão e martelo as teclas do piano. Não haverá. repetindo a eterna linguagem dos reacionários de todos os tempos. a idéia de que educação. de respeito po r essas personalidades. que vinham chegando. verdadeiramente. que vive dentro de cada um de nós. Assim fala.que são os dos adultos aos das crianças e dos jovens. de expressão das próprias personalidades. a consciência dos processos e conseqüências daqueles atos e experiências e. em nossos jovens. o libelo de acusação. Essa revisão. dos valôres em que ela. mais do que tudo. se entretêm.. Os p ais. e da livre expansão de nossas tendências. como êles. . A chamada teoria da educação nova é a tentativa de orientar a escola no sentido do movimento. Antes de mais esclareçamos que não são as escolas as responsáveis pelas transformações do espírito da sociedade. se deve basear. na pessoa. lògicamente. já acentuado na sociedade. Mas. Elas. que evidentemente não podem deixar de ser caprichos e extravagâncias.. outra. O quadro é o de uma sala de estar. . porventura.escolha e de recusa. em sua compreensão exata. enquanto a mãe segreda: "Respeitemos as personalidades de nossos filhos. " Não haverá. no sentido dessa sociedade. dissolvente? Está ainda sob os meus olhos a caricatura de um humorista internacional. Examinemos. A teoria dos educadores busca ajustar a escola às necessidades dessas transformações. Não nos parece.porque só a própria pessoa se educa . e de subordinação dos interêsses reais da vida. As esco las são como os romancistas. de revisão dos velhos conceitos psicológicos e sociais que ainda há pouco predominavam. uma com um serrote e outra com um martelo e um formão. porém. porém. das lições que decorrem daí. antes de tudo. . Duas crianças. auto-educação . certas fraquezas sensíveis de caráter? Não será que tôda essa psicologia de nos "exprimirmos a nós mesmos". as loucuras. o reacionário. Assumindo tal responsabilidade. Pode haver. longe de representar concessões a um conceito de vida menos sério ou menos forte. tão sòmente.que explicam os desvarios. o resultado de se assumir direta e integralmente a responsabilidade dos próprios atos e experiências. se retiram nas pontas dos pés. . assim. também acusados de corromperem a sociedade. aquêle famoso grão de verdade que o filósofo costuma dizer existe em todos os erros. expressa ou tàcitamente. realmente.

seria substitu ir o regime do compulsório. o homern se desenvolverá correta e harmônicamente. E que se essa realização exige disciplina.com o mínimo de responsabilidade voluntária a tarefa obrigatória que lhes marcavam os mestres. Daí concluir que. só por êsse meio assumirão a plena responsabilidade dos seus atos. porém. com os falsos renovadores? Sucede que êles julgam que aquêle meio "normal ou favorável". que é a sua forma de poder. . Não será. retidão de vontade e leal aceitação das limitações e sacrifícios da vida. sua ignorância e sua indis ciplina. é o meio em que não homem não chegue mesmo a ocupar -se. É porque o educador veio a verificar que só por êsse meio êles se disciplinarão. e viva entregue ao s valvéns da sua fantasia. conquistar a disciplina de si mesma. que procuravam cumprir . O seu postulado fundamental é o de que a natureza humana tende. à marcha normal do saber e do aperfeiçoamento pessoal. porém. Isso seria. A teoria moderna da educação está equidistante dêsses dois extremos. método. dado o meio normal ou favorável. as mais das vêzes. uma deformação monstruosa da teoria moderna de educação. conseguir. do seu capricho e da sua vontade desgovernada por falta de estímulos sérios e fortes. a sua forma de expressão própria. sem graves perigos que tais experiências se hão de processar. ao progresso. paradoxalmente comum às duas concepções. e para isso esfôrço. a se realizar a si mesma. E são elas que justificam a ch arge do caricaturista a que nos referimos. porém. desagradável e deseducativo da escola tradicional pelo regime do caprichoso.o homem tende a essas virtudes pelas próprias características de sua natureza. Com efeito. Passar daí para o domínio da escola onde não se faz senão o que der na veneta. a complexidade do ato educativo e tudo que podia. realmente. extravagante e igualmente deseducativo de uma falsa escola nova. suas desordens. deformação que se vem basear num conceito errôneo da natureza humana. paciência. por mei o de qualquer ocupação. porque a natureza humana reagirá. O que sucede. Semelhante educação só não resultará nos mais espantosos desastres. ou largamos a brida ao homem para que êle se entregue aos seus caprichos. habituando -se à unidade de propósitos. só por êsse meio êles ganharão o hábito do esfôrço tenaz e continuado. Ou impomos tudo isso. procurando. coragem e sacrifício . normalmente.Não é arrebatado pela sedução da liberdade pela liberdade que o educador moderno prega a necessidade de uma escola onde os alunos sejam livres na escolha das suas atividades. livres no planejá -las e livres no executá -las. A escola fundada nos ³programas de lições prèviamente traçada s´ e no regime do ³aprende ou serás castigado´ ignorava. é o meio em que não haja solicitações de espécie alguma. antes do mais. onde tudo seja prazer no sentido pejorativo e flácido dêsse têrmo.para evitar a pena ou ganhar o prêmio . eram crianças hábeis no jôgo da dissimulação. contrôle de si mesmo e do meio ambiente. tenacidade. só por êsse meio terão caráter e integridade. só aparentemente antagônicas da escola tradicional e dessa pseudo -escola nova. ambas as concepções pressupõem a natureza do homem refratária à disciplina. a sua forma de ser. mal e compulsòriamente.

. Sairemos dessas origens para chegarmos. secundário em sua personal idade. A escola fundada em tais bases não será. de paradas e de erros são mil vêzes maiores. Alguém já disse que o homem é um animal de conquista. pois. subordinando -o aos seus fins e aos seus planos lúcidos e voluntários. do seu pensamento e do seu corpo. o têrmo e o alvo dessa tendência. assistir. do não planejado. corrigir os seus desvios. precisa de ser observado. a incerteza. é ter clisposição para alguma coisa. afinal. na criança. O educador moderno não acr edita que o pensamento ou a ação se gerem no vácuo. o importante do não importante. E tender é inclinar -se. onde as possibilidades de desvios. que tende a isso. em sua plenitude. acelerar a sua marcha. devem ser tão sòmente os nossos pontos de partida. informe. pensar com clareza. deve o educador traçar o roteiro do desenvolvimento individual. veja-se bem. no pessimismo ácido das suas violentas afirmações. para a liberdade da disciplina de si mesmos. em todos os passos. chega a dizer SPENGLER. O meio que aí se desenvolve é um meio cheio de estímulos e de direção para atividades que tenham continuidade. querer com firmeza e executar com tenacidade. longe de constituírem os motivos de nossa indulgência desarrazoada. uma escola que forme homens sem capacidade de esfôrço e de resistê ncia.mas. Crescer e desenvolver -se é para o homem aumentar em fôrça de compreensão.isto é . da prisão dos seus desejos e de suas paixões. Muito ao contrário. não se afirma que a natureza humana marche fatalmente para a aquisição dos meios de contrôle do ambiente e de contrôle de si mesma . defin e os seus limites e as suas inferioridades. dirigir o seu curso. disciplinada e lúcida. mas. enfim.Porque. como se é pelo regime de licença e desordem de uma falsa escola nova. fôrça de real ização e fôrça de expansão. do incerto. os homens formados nessa escola provaram. da ignorância. ou que a criança não precise de ser guiada e orientada no processo do seu crescimento mental e social. passo a passo. para tê -la definida. o que não diremos do seu crescimento mental e social. Nenhuma dessas fôrças se efetiva. Por meio da experiência já adquirida da humanidade. e para a fôrça e o poder de execução e realização que lhes deu o hábito de controlar o meio externo. De rapina. que exijam esfôrço e que sejam cabalmente desempenhadas.tudo que. em que se não distin gam o transitório do permanente. simplesmente. impreciso. o caminho de sua emancipação. ao homem educado. que não é outro senão aquêle que sabe ir e vir com segurança. Pela sua própria natureza. corrigido e acom panhado. o homem que perdeu tudo que era desordenado. é que pode conduzir à organização de escolas cujo centro sejam o capricho. Só uma atitude falsa de educador. níida. Êsses limites e inferioridades não são desprezíveis. na experiência organizada da espécie. porém. Emancipação do desordenado. Se o próprio crescimento físico.o que constitui a educação . no próprio conceito da teoria moderna de educação. sem que êle experimente antes dirigir. a inconstância e a extravagância infantis . de reverência pouco lúcida para com tudo que é infantil. o mais automático dêles. o desviado do correto. mas de que se pode ser desviado. de que é o guarda e o responsável. tende ao domínio. coordenar e comandar as próprias fôrças de seu desejo. a obra da educação. o prazer de conquistar. A verdadeira doutrina é a que enxerga na criança o impulso e a tendência e. A escola progressiva é a escola onde as atividades se pr ocessam com o máximo de oportunidades para essa ascensão.

Industrialismo ou idade da máquina. como já vem sendo chamada. há. nos Estados Unidos? E progressiva. para quem buscar um ponto de vista bastante elevado. "Leis" da aprendizagem. aí. O reacionário e o renovador. A escola tradicional e os seus pressupostos. mestres renovado s. C) Fundamentos psicológicos da transformação escolar. à medida que lhes podemos aplicar conhecimentos mais precisos dos fins e meios a que se destinam. Uma nova filosofia da vida. Natureza da civilização moderna. seqüências e harmonias irrefutáveis. Democracia. dentro de cada um de nós. Por que essa designação? Há. querem a mesma coisa. como essa civilização. necessária. mais do que a precariedade insustentável do adjetivo. ou dentro da sociedade. ela mesma. o que chamamos de "escola nova" não é mais do que a escola transformada. como se transformam tôdas as instituições humanas. Autoritarismo e liberdade. A t ransfomação que se impõe. um esclarecimento. Tendências ou diretrizes essenciais. Entre a medicina de Hipócrates e Galeno e a medicina moderna. Nem por isso. ganharia em ser abandonada. entretanto. Com efeito. Novos deveres da escola. A designação "escola nova". Por que não "escola pro gressiva". A) Escola nova. por quê? Porque se destina a ser a escola de uma civilização em mudança permanente (KILPATRICK) e porque. está trabalhada pelos instrumentos de um a ciência que ininterruptamente se refaz. Escola nova. Transformação que ainda se impõe. receosos de uma ofensiva contra os valôres reais da escola. D .Êsse deve ser o produto da escola. ou escola progressiva? e INíClO. CAPÍTULO II A transformação da escola A) Escola nova ou escola progressiva? B) Fundamentos sociais da transformação escolar. Nova psicologia da aprendizagem. talvez. qualquer coisa de combativo e atrevido. alguém cuida poder hoje reviver os métodos errôneos ou empíricos daqueles primeiros tempos. que choca alguns companheiros avisados de trabalho. alunos ativos. para marcar vivamente as fronteiras dos campos adversos. em início de campanha. A escola progressiva: escola de vida e experiência. Êsse o objetivo por que trabalham os que desejam vê-Ia renovada e eficiente. têm o mesmo ideal. mas vêem faces antagônicas do movimento que nos poderia conduzir para a aspiração comum.

as alas direita e esquerda de uma transformação inevitável. alinham -se as "cadeirinhas" que serviam de transporte à sua gente fidalga. as audácias e os temores. a visitar. graças ao desenvolvimento da ciência. como de ponto de apoio para a sua projeção. São Paulo era uma cidadezinha sertaneja. Êste. Em educação. mas os nossos recursos de conhecê-los. em miniatura. o museu do Ipiranga. porque o desenvolvimento das ciências que nos vêm emancipando da rotina. em tôda a amplitude. mas de que não se têm ainda os elementos integrais para definir. o objetivo e o alcance e traçar. a medicina e a engenharia se renovaram. ao mesmo tempo. mas fantasias. não podiam sequer ser imaginados pelos antigos. o famoso museu paulista de história e ciências naturais. a cidade de São Paulo. ainda. Mas. construída em gêsso.Pois existe tanto uma educação nova quanto uma nova medicina ou uma nova engenharia. Os fins são verdadeiramente fins quando os conhecemos de tal modo que dêles se desprendem os meios de sua realização. nos próprios fins. Em uma de suas salas o observador encontra. Renova -se nos seus meios e. com algumas igrejas e conventos a assomarem aqui e ali. os entusiasmos e os desânimos. fins e meios não se distinguem senão mentalmente. por intermédio dos meios. As pontes que se constroem hoje. Na longa galeria que nos levara até essa sala. aprofundá-los e esclarecê-los. . Porque de fato. Transforma-se a sociedade nos seus aspectos econômicos e sociais. o esclarecimento inicial. Fins inexplicáveis não são fins. em São Paulo. ou as cidades e os edifícios que se erguem pelo mundo. com nitidez. dia para dia. e com ela se transforma a escola. do improvisado e do acidental é tão recente e tão incompleto que não pôde. o problema de reconstrução escolar não pode ser visto com essa objetividade. de base para sua estabilidade. como inevitáveis as confusões. instituição fundamental que lhe serve. em 1840. de casinhas brancas e solares coloniais. quanto ao nome e ao sentido do movimento que se processa em tôrno da escola. os caminhos e os processos. conciliar tôdas as inteligências. B) Fundamentos sociais da transformação escolar O cuidado benevolente de um amigo levou-me. transformaram -se os recursos e os instrumentos e. A engenharia moderna tem fins diferentes da engenharia primitiva. Os meios são "frações de fins" (DEWEY). com um detalhe e uma perfeição notáveis. As divergências são inevitáveis. as expectati vas exageradas. Apenas 127 anos atrás. O desenvolvimento técnico da engenharia permitiu ao homem reconstruir os seus fins e realizar as maravilhas dos nossos tempos. como se vai renovando lioje a educação. Em todos os tempos o homem se esforçou para curar e se esforçou para construir. Desta sorte não são pròpriamente os fins que se renovam. certa vez. dia para dia.

de transformar-se. É o transporte mais rápido e mais barato. E raciocina-se. O fato da ciência trouxe consigo uma nova mentalidade. Muda a comunidade. São os jornais e as publicações mais numerosos e mais bem feitos. Êle ganhou o hábito de mudar. E em "progresso" ela vê mais que tudo a transformação material do mundo. de "progredir". É a luz e água mais fáceis e melhores. Êle constrói e reconstrói o seu ambiente. Com a nova civilização material. O homem conseguiu instrumentos para lutar contra a distância. em tão pouco tempo. Tudo que êle faz é um simples ensaio. essas eram eternas e obedeciam a "verdades eternas" que não sofriam os choques e contrachoques da ciência experimental. mudar tanto que um romano teria menor surprêsa em se encontrar na côrte de Luís XV. pareceu. o nosso progresso é filho das invenções e da máquina. Mas o homem é mais lógico do que os seus filósof os. feita e governada por êle. A ordem social e a ordem moral. Muda a família. do que teria um contemporâneo de Pedro I que surgisse hoje no Rio? O que se deu foi a aplicação da ciência à civilização humana. prova e porquê que se encontram nos resultados e nas . De sorte que o homem passou a tudo ver em função dessa mobilidade. Primeiro. que é "progresso"? Na imaginação popular é nêle que se resume o caráter da civilização de nosso tempo. à primeira vista. por tudo transformar. Não há alvo fixo. não foi só isso. O "progresso" tomou conta da cidade e e fêz dela o que ela é hoje. começou a velha ordem social e moral a se abalar. Materialmente. Se em ciência tudo tem o seu porquê e a sua prova. contra o tempo e contra a natureza. não lhe parecerá menos que milagre a imensa mudança. e crescessem essas enormes cidades que são a flor e o triunfo maior da civilização. Mas. como se diz. o São Paulo moderno. São as ruas mais bonitas. Mas é isso tudo que faz o nosso tempo tão diferente do tempo dos nossos antepassados de 1840? É isso e mais alguma coisa. A experimentação científica é um método de progresso literalmente ilimitado. E essa mudança e êsse "progresso" o homem moderno os sente: é êle que os faz. Mas. A ciência experimental na sua aplicação às coisas humanas permitiu que uma série de problemas fôssem resolvidos. nesse armar e desarmar de tôda uma civilização. Nesse seu grande afã.A quem se detiver na observação e quiser fazer nascer ali. que só a ordem material era atingida. E cada vez é mais poderoso. Tudo está a mudar e a se transformar. São as casas maiores e mais confortáveis. É a diversão mais interessante e mais acessível. determinou que a nova ordem de coisas de estável e permanente passasse a dinâmica. numa reconstituição imaginativa. Amanhã será diferente. Mudam os hábitos do homem e os seus costumes. Por que progredimos? Que foi que se deu no mundo para que pudéssemos.

Êle ensaia no mundo moral e social. com a diferença de nossa riqueza. não lhe merece já respeito. de otimismo e de coragem . as mesmas docilidades à autoridade e o mesmo sentimento de permanente dependência às coisas invisíveis que o governavam e dirigiam. cem de nós gozávamos vantagens materiais de confôrto. deixamo-la apontada na nova atitude espiritual do homem.por que também não subordinar o mundo moral e social à mesma prova? E é aí que está a maior transformação de nossos dias. mas para um futuro rigorosamente imprevisível. senão com a mesma audácia. b) temos que construir a nossa escola. entretanto. nem por isso deixam de existir certas grandes tendências. * * * Se a natureza da civilização do nosso tempo é a de uma civilização esteada na experimentação científica. por certo sob o influxo dos mesmos princípios que lhe permitem experimentar no mundo material. Ontem. de mêdo e de desconfiança n a natureza humana foi substituída por uma atitude de segurança. Não é assim. O homem. que alteram profundamente o conceito da velha escola tradicional: a) precisamos preparar o homem para indagar e resolver por si os seus problemas. se resolver. quer também reconstruir o ambiente social e moral. A primeira dessas diretrizes. Mas. por êle visto e por êle sentido. que marcam as linhas gerais por onde a nossa evolução se está processando. A velha ordem preestabelecida. Nessa nova ordem de mudança constante e de permanente revisão. à sua luz. No fundo teríamos a mesma civilização de nossos avós. para. assim como está reconstruindo o ambiente material em que vive. o homem era o mesmo. hoje cem mil de nós tínhamos essas vantagens. O período de revisão e reconstrução é muito mais profundo e mais universal. que sucede. A velha atitude de submissão. e. Só um esclarecido e nítido porquê.conseqüências dessa ou daquela aplicação. de prazer. mais ou menos fixas. . de bem -estar. com os mesmos hábitos morais. Se fôsse sòmente o quadro externo da civilização que estivesse a sofrer as mudanças de uma ordem essencialmente dinâmica. não teríamos senão pequenos problemas técnicos de ajustamento. à luz dos mesmos processos de julgamento e de experiência: o seu beneficio na terra onde vive. seja ela religiosa ou tradicional. O homem está com responsabilidades novas em tôda a sua vida. não como preparação para um futuro conhecido. como tal. se em ciência tudo se subordina à experiência. animada de um permanente impulso de movimento e contínua reconstrução. lhe pode determinar a sua ação. duas coisas ressaltam.

um desejo mais lúcido pelo melhoramento real da vida do homem na terra. eu só reconheço um crédito aos que me precederam: êles sofreram mais do que nós e. o método é sempre digno de confiança. que a guerra sempre estará entre nós. De segurança. O método experimental reivindicou a eficácia do pensamento humano. O homem moderno sabe que pode mudar as coisas e sabe que deve mudá-las. graças a êle. graças a êsse método. o real progresso. Por certo não substitui êle o velho dogmatismo das "verdades eternas". ainda assim. só agora. um dia.ninguém os teve como os tem o homem moderno. êsses últimos obstáculos. sua maior dignidade e sua maior felicidade. ganhou -se o govêrno da natureza e dos elementos a fim de ordená -los para o maior benefício do homem. seu maior bem -estar. repousa no método científico. o progresso. se ainda é vencido . Quantos de nós ainda cremos que a vida não mudará essencialmente. por causa de sua maior pobreza. porém. dentro dos limites da prova experimental. um espírito maior de sacrifício e de heroísmo pela conquista objetiva do progresso. vemos. pelo contrário. Um fato nôvo. que o crime e a moléstia sempre flagelarão o homem! Entretanto. Maior sinceridade. Outros poderão achar que. tudo lhes deve ser perdoado. quando percebemos que só ontem começamos a progredir. Antes. que. se as conclusões podem ser e são falíveis. Tudo era permitido. o homem foi. o que o homem pensa está certo. e que. . os cataclismos e as crises sabe porque é vencido e tem esperança de dominar e de conquistar. para sua maior tranqüilidade. De mim.aí estão as moléstias. do homem começa a ser possível. O ato de fé do homem moderno esclarecido não repousa nas conclusões da ciência. que não conhecemos ainda nem o décimo milionésimo do que poderemos e precisamos conhecer. Contudo. porque. como. Tudo se tolerava. . uma prova mais cabal e experimental pode levar à revisão dêsse pensamento. não havia limites a criar. se está construindo a civilização progressiva dos tempos de hoje. nesses outros sempre dourados tempos do passado. que só um sôpro de robusto e orgânico otimismo é que nos deve animar. A um homem fraco e mau e a uma natureza inclemente e áspera.diante da vida. visceralmente mau. Nem sempre podemos ver com a clareza que o caso exige. estamos realmente iniciando uma "nova ordem de coisas". A vida era um castigo e o homem era considerado mau. moral e social. tôda verdade passou a ser eminentemente transitória. diante da relativa celeridade com que o homem está refazendo a vida. Êsse "nôvo senso de segurança" e de independência é acompanh ado de um nôvo sentido de responsabilidade. um sentido de responsabilidade mais agudo pelo que resta a fazer. tôda feita pelo homem e para o homem. em outros tempos. mais sacrificado e mais honesto. que lhe está dando um senso nôvo de segurança e de responsabilidade. A ordem em que vivia lhe era ditada por autoridade estranha e superior. Porque. se tem ainda inimigos. por isso. O homem antigo podia ser um irresponsável. Mas.

para dormir". um outro efeito da indústria é o de retirar à família as suas antigas funções econômicas.É essa a nova atitude espiritual: a ciência tornou possível o bem do homem nesta terra e nós temos a responsabilidade de realizá -lo pela revisão completa da velha ordem tradicional do "vale de lágrimas". que sente. o rádio. como o telégrafo. além disto. que êle é uma simples "peça da máquina". à noite. do homen. que tem que pensar em têrmos muito mais largos do que o do seu esplêndido isolamento local ou nacional de outros tempos. Essa enorme unidade planetária. . Não sòmente somos imensamente mais ricos. do alimento. Mais perto de nós. o antigo lar. também filho da ciência e da s ua aplicação à vida. não havendo lugar para pensar. Um outro aspecto é o da superespecialização do trabalho na grande indústria. hoje são propried ades comuns de todo homem. não é mais do que o "luga r onde alguns indivíduos voltam. o automóvel e o aeroplano. apenas esboçada. como a nova visão intelectual. é o industrialismo. Não só a matéria-prima. como temos. tão decantado. Em centros muito adiantados. mas a idéia e o pensamento. mais do que isto. etc. O vapor. não sòmente o homem multiplicou o rendimento de seu tra balho . nem para ter essa natural satisfação de saber o que está fazendo e que o que está fazendo vale a pena. um sentimento nôvo de profunda dependência dos demais centros de produção ou de cultura. o trabalho atual de um homem equivale ao de 40 homens fìsicamente válidos . . Êss e nôvo homem. da diversão. o telefone. e a televisão põem todo o mundo em comunicação material e espiritual. foram destacadas para a fábrica ou para a indústria. porém. A família com isso se está alterando profundamente. O trabalho torna -se com isto uma simples tarefa. o trem. assim. as velhas funções caseiras do preparo da roupa. há de se refletir profundamente na mentalidade do homem moderno. A indústria está integrando o mundo inteiro em um todo interdependente.na América. O homem moderno não trabalha em casa e não se diverte em casa. Graças à máquina. desintegrada na vida do homem. independente e responsável é o que a escola progressiva deve vir preparar. Uma por uma. * * * A segunda grande diretriz de vida moderna.como pela facilidade do transporte e da comunicação criou uma nova interdependência entre todos os pontos do globo. cada vez mais. A indústria está tornando possível a completa exploração dos recursos materiais do planêta e. A "grande sociedade" está a se constituir e o homem deve ser preparado para ser um membro responsável e inteligente dêsse nôvo organismo. está articulando e integrando a terra inteira.

caracterìsticamente. é a que mais de longe se filia à ciência. dia a dia. Democracia é. Nenhuma autoridade exterior é hoje aceita. a capacidade de se orientar exclusivamente por uma autoridade interna . essa de respeito pelo homem. quanto a êsse ponto. acima de tudo. como lhe assistirá permanentemente o dever de se exprimir de sorte a não reprimir valôres de ninguém. não pode ser formado pela maneira estática da escola tradicional que desconhecia . mais compreensão. deve ser uma individualidade. ou democracia. o lar. mas.muitos problemas têm de ser resolvidos e mais uma vez se há de exigir do homem mais liberdade. o desapêgo aos velhos sistemas autoritários do passado. antes. essencialmente. um modo de vida. ressalta.o trabalho individual. Êsse desapêgo é mais acentuadamente pronunciado entre os moços. Mas. não só as condições materiais da vida mudam. democracia é. é a tendência democrática. mais inteligência. se é que não queremos ficar em uma simple s interdependência mecânica e degradante. o mod o de vida social em que "cada indivíduo conta como uma pessoa". Nessa nova vida social.Dessa desintegração das pequenas unidades anteriores . Êsse nôvo homem. e o homem deve sentir -se responsável pelo bem social. a cidade e a própria nação até a vinda da grande integração da "grande sociedade" . Graças ao desenvolvimento da ciência e sua aplicação à vida humana. com hábitos novos de adaptabilidade e ajustamento. como a própria visão do homem sôbre a vida. Personalidade e cooperação são os dois pólos dessa nova formação humana que a democracia exige. As idéias e os fatos s ão examinados nos seus méritos e resolvidos de acôrdo com as luzes da razão de cada um. O respeito pela personalidade humana é a idéia mais profunda dessa grande corrente moderna. * * * A terceira grande tendência do mundo contemporâneo. Não falta quem diga que antes a ela se opõe. uma expressão ética da vida. Dois deveres se depreendem dessa tendência moderna e se refletem profundamente em educação: o homem deve ser capaz. o homem não só terá oportunidade para a expressão máxima dos seus valôres. E todos êsses problemas são problemas para a educação resolver. É curioso notar que de tôdas as correntes modernas. A noçao atual de liberdade envolve. sejam êles tradicionais ou religiosos. facilitar a máxima expressão de todos êles. Acima de qualquer outro aspecto. Essas tendências da civilização atuam sôbre a escola no sentido de sua transformação. e tudo leva a crer que o homem nunca se encontrará satisfeito com alguma forma de vid a social que negue essencialmente a democracia.

o seu papel. certos de que êsse seria o melhor modo de garantir a permanência de seus credos religiosos ou patrióticos.De acôrdo com essa teoria. escrever e contar. e com razão. ou religiosas. porfiavam por seu contrôle. com algumas informações dogmáticas. substancialmente. apoiar-se senão nesses fatos e nessa nova mentalidade. por sua vez. em uma ordem social. e. êle tem que guiar e tem que fazê -lo com mais inteligência. no interêsse da tranqüilidade. pelo dogmatismo intransi gente de seu ensino. A escola é o retrato da sociedade a que serve. mais agilidade. precisamos que cada homem tenha as qualidades de um líder. dando oportunidade para a aquisição dos instrumentos fundamentais da cultura: ler. precisas outras razões que as da profunda modificação social por que vamos passando para justificar a alteração profunda da velha escola tradicional .preparatória e suplementar . A escola tradicional representava a sociedade que está em vias de desaparecer. Ill . desde que se abriu o ciclo da aplicação da ciência à vida.A escola pressupôs uma ordem estática para o mundo. mais hospitalidade para o nôvo e imprevisto. IV . deveria manter. que a educação se fazia no lar e na vida da comunidade. a escola pressupôs que não tinha mais que ensinar às crianças certas técnicas e certos fatos e certos modos de proceder. Antes a escola suplementava. tão sòmente. em uma ordem. A escola progressiva não pretende.A escola pressupôs. I . Tôda educação consistia em ensinar a seguir e a obedecer. Tão bem andaram as escolas nessas funções. Hoje.na escola progressiva de educação integral. suplementá-la. Não seriam. Como a escola tradicional. do que os vellios líderes autoritários de outros tempos. Pelo menos a si. II . que o aluno assimilaria e mais tarde poria em prática. quando adulta. seria o mesmo de seus pais. pois. ela é a réplica da sociedade renovada em que vivemos. que Igreja e Estado. intelectual e industrial eminentemente complexa e mutável. mais. cabendo -lhe preparar a criança para cumprir. Podemos perceber a nova finalidade da escola. que. quando refletimos que ela deve hoje preparar cada homem para ser um indivíduo q ue pense e que se dirija por si. uma educação que o lar e a comunidade ministravam ao indivíduo. cabendo -lhe. geralmente. ou morais. se quisermos que a nova ordem de coisas funcione com harmonia e integração. que . sem nenhum exagêro. É fácil demonstrar como todos os pressupostos em que a escola se baseava foram alterados pela nova ordem de coisas e pelo nôvo espírito de nossa civilização. por assim dizer. estática.o maior fato da vida contemporânea: a progressão geométrica com que a vida está a mudar. as aprovadas atitudes sociais.A escola pressupôs que. informações e fatos de natureza livresca.

Estamos com responsabilidades dobradas. diante do fracasso por que as instituições tradicionais de educação estão passando com o advento da nossa era. que não lhes permitem ser conscientes de sua ação educativa. sobretudo. a si. decorando as lições que os professôres marcavam. Porque. é inadequada para a situação em que nos achamos. condicionavam as promoções. porque a educação que a criança recebia diretamente da família e da comunidade perdeu o seu antigo caráter de eficiência e integração .é o modo de aprender uma lição. convém observar. Os programas determinavam o período para se vencerem tais e tais lições. apenas aspectos fragmentários do seu todo. Aprender significa aceitar e fixar. na memória ou no hábito. relativas à escola tradicional se prendem a êsses pressupostos. Mas. depois tomavam. onde a sua vida e a sua educação transcorriam. hoje. O ciclo era simples: o professor prelecionava. pois. se quisermos dar às nossas crianças a oportunidade de se adaptarem e se ajustarem à ordem social do nosso vertiginoso presente. vivendo. que verificavam se os livros ficaram aprendidos. Tôdas as noções. como a velocidade de. futuro que se supunha perfeitamente conhecido. mesmo pedagógicas. aquêle que melhor se adaptava a êsse processo livresco de se preparar para o futuro. Não só essa ação é mais vaga e menos direta. A necessidade. transformação lhes impede exercê-la com lucidez e consciência. simplesmente uma doutrinação daqueles fatos ou conceitos. como em outros tempos. uma instituição de educação integral. O aluno bom era o mais dócil a essa disciplina. tal escola. Ensinar. Assim a escola nada mais era do que uma casa onde as crianças aprendiam o que lhes era ensinado. nunca se deixou de julgar que a criança se educa. e que lhes forneciam elementos de informação e saber. Os livros eram feitos adrede. A escola simplesmente ensinava certas artes e certos conhecimentos necessários lá para fora. Ora. Exames. marcava a seguir a lição e tomava-a no dia seguinte. Era a sua vida familiar e a sua vida social que a educavam. E os deveres que cabiam antes a essas duas fôrças educativas. para sua visão e análise. simplesmente suplementar e preparatória. Estudo . em lições. a vida de família já não é. E o é. que só mais t arde deveriam utilizar.as preparassem para o período de adulto. vieram acrescer os primeiros deveres puramente suplementares da escola. um fato ou uma habilidade . corresponde a uma verdadeira premência dos nossos tempos. de a escola tomar. em grande parte. as funções d a família e do meio social. por outro lado. essas instituições ganharam uma certa velocidade de transformação. Daí o relêvo impressionante que ganhou o movimento educativo. e a vida social tornou -se tão eminentemente complexa que oferece à criança. E tais .

preparar a criança para ser boa. sem. serviçal. tolerante e forte. uma lição de tolerância. a criança poderá ganhar os hábitos morais e sociais de que precisa. E com relação ao que poderíamos chamar a sua estrutura espiritual. Democracia na escola importa em democracia para o mestre e democracia para o aluno. assim. a criança deve ganhar através da escola êsse sentido de independência e direção.o regime social em que cada indivíduo conta plenamente como uma pessoa.como ainda lhe cabe o dever de aparelhar a criança para ter uma atitude crítica de inteligência. . com hospitalidade mas sem credulidade excessiva. com relação ao espírito democrátlco moderno? Primeiro. a escola deve prover oportunidade para a prática da democracia . A escola deve vir a ser o lugar onde a criança venha a viver plena e integralmente. discernimento que há de habituá -la a não perder a sua individualidade e a ter consciência do que vai passando sôbre ela pelo mundo afora. mais do que informar e ensinar algumas artes úteis.deveres se refletem. Se a escola deve. Devemos ter sempre presente que a escola não vai dar soluções já feitas à nossa juventude. como democracia é acima de tudo o modo moral da vida do homem moderno. perder a personalidade. para saber julgar e pesar as coisas. entretanto. isto é. nos responsáveis pela educação escolar. de entusia smo? Só uma situação real de vida pode fazer com que a criança aprenda essas atitudes sociais indispensáveis à vida moderna. para ter uma vida feliz e integrada.só a absoluta necessidade de ensinar ciência fôra bastante para transformá -la . como pode ela obter tudo isso pelo velho sistema de disciplina e lições? Como posso eu marcar uma lição de bondade. Isso com respeito ao próprio aspecto externo da civilização. Tudo que podemos fazer é dar -lhe método e juízo. que lhe permita viver com outros com a máxima tolerância. com lúcida objetividade. A reorganização importa em nada menos do que trazer a vida para a escola. para lutar com os problemas que vai encontrar. Segundo. e o sentido da responsabilidade social que lhe assiste na solução dêsses problemas. a interdependência geral do mundo e a necessidade de conciliar o nacionalismo com a concepção mais vigorosa da unidade econômica e social de todo o mundo. a sua ética social. po rque a êles cabe reorganizar a escola para o fim de servir às novas funções que lhe dita o atual momento de civilização. em um meio dinâmico e flexível tal qual o de hoje. Só vivendo. A escola precisa dar à criança não sòmente um mundo de informações singularmente maior do que o da velha escola . sobretudo. e ainda. de simpatia. para sentir. para sa ber discernir na formidável complexidade da integração industrial moderna as tendências dominadoras. operosa. um regime que procure dar ao mestre e aos alunos o máximo de direção própria e de participação nas responsabilidades de sua vida econômica.

Para essa finalidade. Decorar um livro era aprendê -lo. Além disso. parece excessivamente limitado. quando assimilamos uma coisa de tal jeito que. começou-se a exigir que se compreendesse o que era decorado. Mas um ato é sempre uma reação a uma situação em que nos encontramos. A palavra agir tem vulgarmente um sentido estreito de ação material. Não bastava decorar. Um passo mais.. é essencialmente progressiva e livre. foi o de exigir do aluno que repetisse. Como tal. pois. mais finamente.. preparar para um futuro incerto e desconhecido em vez de transmitir um passado fixo e claro. Aprender significou durante muito tempo simples memorização de fórmulas obtidas pelos adultos. e então. Para muita habilidade puramente mecânica. só um nôvo programa. com palavras próprias. nao há dúvida. em vez de simplesmente ensinar dois ou três instrumentos de cultura e alguns manuaizinhos escolares . formar homens livres em vez de homens dóceis.podem bastar. chegado o momento oportuno. Que enormes. É êsse o fim da escola. o que se achava formulado nos livros. informados e capazes de resolver os seus próprios problemas. sim. O velho processo catequético de pergunta e resposta é um exemplo impressionante disto. urge reformar a escola para que ela possa acompanhar o avanço "material" de nossa civilização e preparar uma mentalidade que moral e espiritualmente se ajuste com a presente ordem de coisas. um nôvo método. estava aprendido o assunto. uma idéia? Aprende-se uma idéia ganhando um nôvo mod o de proceder ou agir? É exatamente o que se dá. em um meio social liberal. Como a escola deve ser uma réplica da sociedade a que ela serve. uma visão mais aguda do ato de aprender vem em muito alterar a psicologia da escola tradicional. Aprender é alguma coisa mais. Fixar. C) Fundamentos psicológicos da transformação escolar Até o presente. era ainda necessária a expressão verbal pessoal. Reagimos contra . em transformação. com mais tolerância. A nova psicologia veio provar não ser isso ainda suficiente. nada mais fizemos do que insistir nas exigências novas que uma ordem social. sabemos agir de acôrdo com o aprendido. faz sôbre a escola. compreender e exprimir verbalmente um conhecimento não é tê-lo aprendido. e para o exercício dessa forma social progressiva e livre. precisa-se de homens conscientes. Dito assim. não bastava compreender. são as novas responsabilidades da escola: educar em vez de instruir. mais nobremente e com maior felicidade. Aprender significa a aquisição de uma determinada habilidade. Mais tarde.Em democracia não há senão uma tendência fixa: a busca do maior bem do homem. ensinar a viver com mais inteligência. Mas. a resolver os seus problemas morais e humanos. a êsse respeito: ajudar os nossos jovens. um nôvo professor e uma nova escola . Aprendemos. Aprender significa ganhar um modo de agir. porém.

As duas mais importantes são a de prática e efeito e a de inclinação (³readiness´). da pergunta: 2 x 2 igual a quê? Ora. Não se aprende por simples absorção. Uma habilidade. tendemos a não repeti-Ias e. Tais necessidades. uma emoção. na escola. As reações que não no s satisfazem.dois mais dois são quatro? Quando diante de qualquer situação que sugira esta resposta. a fixar certas interpretações gerais do ato de aprender.Não se aprendem sòmente idéias ou fatos. tal qual na vida. afirma-se que aprendemos. dos hábitos. do mesmo modo aprendemos qualquer outra coisa.estímulos que recebemos por meio dos sentidos internos ou externos. aprendemo -lo do mesmo modo. Não aprendemos uma idéia quando apenas sabemos formulá -la. dispor as condições para o exercício daquele conhecimento nôvo . não menos profundamente. que passa a fazer parte do próprio organismo e exigir de nós. mas quando a fizemos de tal modo nossa. Logo. é notar como o ato de aprender depende profundamente de uma situação real de experiência onde se possam praticar. A primeira fonte da aprendizagem está. quase automàticamente. Para aprender uma idéia. a não as aprender. sem que. Aprender é um processo ativo de reagir a certas coisas. das atitudes e das informações que tem o indivíduo que aprende. hoje. pela prática. Mas se eu quiser ensinar a urna criança a ser boa. Chegou-se. no momento. Quando é que aprendemos . Pela primeira. apenas. o nosso organismo a dê fatalmente. são imensamente variáveis e dependentes do a mbiente social. eu posso preparar. uma idéia.a água é composta de oxigênio e hidrogênio. Devo. E o que aprendemos é sempre uma forma especial de reação. ou informação. do propósito em que estiver a pessoa de aprender essa ou aquela coisa. as reações que devemos aprender e. aprecia ções. ideais. assim. no homem. portanto. não se aprende senão aquil o que se pratica. intelectuais ou morais do organismo. uma atitude. certas reações que ocasionam certos efeitos e não aprendemos outras. suponhamos. um ambiente eficaz. fixando uma certa reação do organismo a uma certa coisa. O que aprendemos tem assim uma fôrça de projeção que nos força a reagir daquele modo diante. por exemplo . um ideal. O mais importante. selecionar reações apropriadas e fixá -las depois no organismo. nas necessidades físicas. . mesmo na escola tradicional. aprendem-se ainda atitudes. Uma situação real de experiência . que se podem chamar de ³leis´. . uma reação ou uma série de reações especiais.e praticar com a criança até que ela aprenda. haja condições sociais reais que desenvo lvam o sentimento de bondade. não há meio de fazê -la praticar bondade e ter as satisfações que o exercício de bondade pode trazer. do mesmo modo que fixamos a resposta específica para essa situação.

Pode estar satisfeita ou aborrecida. a cabeça. De sorte que se aprende não só o objetivo primário. O desejo do aluno. . em uma lição de aritmética. o tronco. tudo está em movimento. esperançada ou desanimada. de que iriam sofrer por tôda a vida. se a escola quer ter uma função integral de educação. ela está experimentando. experimenta de um modo e de outro. essencialmente do propósito ou intento do indivíduo que vai aprender.Não se pode praticar tolerância ou bondade como se pratica aritmética. Os primeiros golpes. onde as crianças iam para fazer aquilo que não queriam. Se eu quero aprender a fazer uma certa carambola ao bilhar e passo a exercitar-me com as bolas. Observa. isso que se está aprendendo. Várias sensações de pressão. ela sente. é mais importante do que o objeto direto do estudo. fêz-me aprendê-los. A escola não pode ser uma simples classe de exercícios intelectuais especializados. eu os desaprendo de fazer e os segundos. Para com o escrever. está profundamente inadequada . Propósito ou intento do aluno . é que não se aprende nunca uma só coisa. Logo. o pescoço. eu os aprendo. tanto me aproveito com os golpes errados quanto com os certos. Imaginemos uma criança que aprende a escrever. de esfôrço de respiração. é a nova psicologia de aprendizagem que obriga a transformar a escola em um centro onde se vive e não em um centro onde se prepara para viver. Mais do que isso. a alimentarem complexos de inferioridade. Ora. O propósito ou intento de aprender os segundos. deve organizar se de sorte que a criança encontre aí um ambiente social em que viva plenamente. mas aquilo que nos dá prazer ou satisfação. como várias outras coisas associadas ou concomitantes. que se queria aprender. Êsse prazer ou satisfação dependem. Então vemos como a velha escola. Outro aspecto tremendamente importante da n ova psicologia do ato de aprender. porém. Assim. Tôda a sua atividade mental também trabalha. a criança está ali experimentando uma atitude favorável ou desfavorável que lhe será útil ou prejudicial. os certos. a não serem sociais. planeja processos especiais. podia estar ensinando as crianças a não terem coragem. Muitas vêzes. para com a classe. O mesmo sucede com relação aos demais atos de aprender. imagina. para com os colegas. porém. para com o professor e para com a própria vida. recorda. orienta o que vai êle aprender. a escola tradicional nunca percebeu que. o seu interêsse para usar a palavra consagrada. Tôda a sua atividade física está empenhada nisso. etc. concomitantemente ou por associação.. Os músculos do braço e da mão. o que torna o ato de aprender sumamente complexo. com uma disciplina semi -militar.A lei do efeito nos diz que não aprendemos tudo que praticamos.

Diante dessa concepção. é a reconstrução da experiência.é guiar o aluno na sua atividade e dar-lhe os recursos que a experiência humana já obteve para lhe facilitar e economizar esforços. Estudo . 3) Uma escola onde os professôres simpatizem com as crianças. Só uma atividade querida e projetada pelos alunos pode fazer da vida escolar uma vida que êles sintam que vale a pena viver. onde os alunos recebem um tarefa e sofrem uma ordem imposta externamente. para que a aprendizagem seja integradora. * * * O fenômeno educativo. a situação escolar e a vida do aluno devem ajustar -se e harmonizar-se como um todo contínuo. a escola que pode satisfazer as exigências sociais e pedagógicas que apontamos atrás. Além disto. 2) Uma escola onde os alunos são ativos e onde os projetos formem a unidade típica do processo da aprendizagem. Diante disto. * * * Diante de tudo isto. como organizar a escola sob a base de matérias a estudar? A única matéria para a escola é a própria vida. onde o que é aprendido funciona com o seu caráter próprio. o processo educativo se opera em uma situação real de vida. e produz as suas naturais conseqüências. crescer. como para a própria concepção moderna da aprendizagem. sabendo que só através da atividade progressiva dos alunos podem êles se educar. isto é. na frase de DEWEY. de modo que a façamos progressiva e ascensional. de que escolas precisamos nós? Conforme KILPATRICK. distribuída por ³centros de interêsse ou projetos´. deve ser: 1) Uma escola de vida e de experiência para que sejam possíveis as verdadeiras condições do ato de aprender.é o esfôrço para resolver um problema ou executar um projeto. confirmada pela presente psicologia. o qu e vale dizer educativa.não só para a sociedade presente. e que saibam ainda que crescer é ganhar cada vez melhoes e mais adequados meios de realizar a própria personalidade dentro do meio social onde se vive. à luz da esperiência atual. . Tal escola é totalmente diversa da escola tradicional. Ensinar . guiada com inteli gência e discriminação. Para a escola progressiva as matérias são a própria vida.

examinam. . O professor sugere estudar o assunto. É necessário que êles escolham as suas atividades. em cada caso. de vida. Os meninos vão buscar livros. dar à criança os hábitos sociais que. para que pudessem tomar banho. etc. tôda a humanidade fêz reprêsas. Aí está como a experiência já ganha da espécie entra na atividade escolar. etc. Nem por isso a situação deixou de ser uma situação real de vida e de experiência. Vimos o papel que têm na aprendizagem o intento. nunca dar prontinhos às crianças os resultados for mulados pelos adultos em seus compêndios finais. porém. que diremos se refletirmos sôbre as novas funções da escola? Como pode uma escola que não seja. Imaginemos que algumas crianças desejam fazer uma reprêsa. Umas e outras experiências lhe passarão pelo organismo sem nêle deixar mossa. Se não tem interêsse no jôgo e não quiser aprender tais e determinados golpes. a nova escola de atividade e de trabalho. é sumamente importante. Ponhamos uma criança a praticar tênis. para elas. As experiências e as atividades escolares hão de ser sempre selecionadas e. suponhamos. poderá exercitar tôda a sua vida e nada aprenderá. são indipenáveis ao próprio bemestar da comunidade democrática em que vivemos? * * * Corolário imediato de uma escola de experiência e de vida é que os alunos sejam ativos. conforme as nossas considerações anteriores. que os alunos sejam ativos. Se só se aprende o que sucede ou o que satisfaz. o concurso da experiência do passado. o propósito e o interêsse do aluno. Não basta. Em vez da velha escola de ouvir. realmente. Está aí uma atividade que é delas e que representa uma situação real de vida. Possìvelmente aprenderá uma porção de coisas. porque impossível. porque várias vêzes foram até êsse pequeno rio e sempre cogitaram de ter ali um reservatório de água maior. má vontade contra o professor. porém. averiguam.Está claro que não vamos fazer a criança repetir a experiência racial tôda. simplesmente estúpido. Se a própria concepção da aprendizagem impõe ho je tal organização escolar. associadas ou concomitantes: desgôsto pelo esporte. como sucesso. nem lhe dão prazer os sucessos. Os insucessos não a aborrecem. aquilo que a criança entende. como diz DEWEY. Seleção e organização das experiências escolares não representarão. aprendem. Antes delas. Está aí como os livros podem e devem ser utilizados. Isso seria. desde o princípio. sempre inestimável.. Metem mãos à obra.

É indispensável. que é também a sua. dê -selhe nova liberdade de pensar. como indivíduos. para uma civilização baseada na autoridade interna de cada um de nós. Mestres e alunos devem trabalhar em liberdade e à luz do que o filósofo e o cientista esclarecerem sôbre a profissão dos primeiros e o labor dos últimos. Os problemas dêle só poderão ser resolvidos por êle. Não passe pela cabeça de ninguém que isso seja completa anarquia. a uns e outros tem-se que dar independência. como diz CLAPARÈDE. que ganharmos critérios mais finos de compreensão. deve o mestre confiar no aluno. Mas assim como o administrador deve confiar no mestre. E. com KILPATRICK: ³desde que um interêsse ativo guie os alunos a se empenharem em empreendim entos adequados . Lembremos que estamos passando de uma civilização baseada em uma autoridade externa. que parece que o dia em que elas desaparecerem. Se me perguntarem o que é essa vida. Êle vai viver a vida um passo adiante do mestre. eu lhes direi que é mais liberdade e mais felicidade. Tão habituados estamos a impor nossas fórmulas. Perca para sempre a idéia de que lhe cabe qualquer soberania sôbre o pensamento do seu discípulo. mas queiram tudo o que fazem. pois. a dos mestres. Na reorganização democrática d as escolas. só em uma vida onde todos trabalham com o sentimento e que participam. Educar é uma arte tão alta que não se pode subordiná -la aos métodos de imposição possìvelmente adaptáveis às tarefas mecânicas. que as crianças não façam tudo o que quiserem. À medida que formos mais livres. Dê-lhe oportunidade para pensar e julgar por si. podem se realizar as condições de responsabilidade e de prazer que são indispensáveis para o crescimento educativo dos alunos e para a sua progressiva participação na sociedade adulta. o que desejamos é uma vida melhor e mais ampla. nem por isso êles deixam de ter sentido para cada um de nós. . que abrangermos em nosso coração e em nossa inteligência mais coisas. por outro lado. A única finalidade da vida é mais vida. E com a nova civilização. desaparecerá a ordem.tanto maior probabilidade de sucesso haverá com todos os bons efeitos que o sucesso traz: melhores serão as condições de aprendizagem total. insistir no ponto. e as crianças.nem muito difícies nem muito fáceis . São vagos os têrmos. Com as novas responsabilidades que vai assumir. Podemos resumir. e melhor será a organização escolar resultante´. da atividade coletiva. Mas. * * * Tôda educação até hoje foi autocrática! Os mestres sofriam a autocracia dos administradores. nessa medida nos sentiremos maiores e mais felizes.Não precisamos.

Conceito classico. não se busca outra coisa senão a permanente reconstrução da vida para maior riqueza. B) Reconstrução dos programas escolares. Tendência a se extremar do movimento de reconstrução escolar. Os programas . CAPíTULO III Diretrizes da educação e elementos de sua técnica A) A criança . Teoria da aprendizagem. em tôrno da escola. Vida presente da criança e experiência da espécie. A organização dos conhecimentos do aluno. . Conclusão. Os programas escolares para uso do professor.centro da escola ONJUGAM-SE. Dificuldade do ensino pela organização puramente lógica. Dentre essas aspirações e tendências se destaca. Conceito moderno. aumento dos seus podêres de ação e diminuição progressiva de restrições externas sôbre o pensamento. Programas "mínimos". lntegração e isolamento da aprendizagem. A) A criança . Matérias de estudo para o "especialista": organização lógica. No fundo de todo êste estudo paira a convicção de que a vida é boa e que pode ser tornada melhor. O processo educativo . O ensino por meio de "projetos". as mesmas tendências e as mesmas aspirações que marcam a evolucão social. maior harmonia e maior liberdade. se n ão podemos dizer que o homem tenha vingado na sua aventura de felicidade. Função do professor na elaboração dos programas. É essa a filosofia que nos ensina o momento que vivemos. Atividade infantil e "textos" e "compêndios". Teoria de educação que a fundamenta. Respeito pela personalidade infantil. A objeção d a ausência de sistematização do ensino. C) Organização psicológica das "matérias" escolares. Equilíbrio recomendável. no seu todo. Análise da idéia quanto a uma das matérias escolares. Educação é o processo de assegurar a continuidade do lado bom da vida e de enriquecê -lo. Visita a uma escola experimental. podemos assegurar que vai vencendo na sua aventura de liberdade ( 1).centro da escola. Matérias de estudo para a "criança": organização psicológica. Parte dos programas que pode ser prèviamente traçada. ainda com os de um passado próximo. Na escola progressiva cujos lineamentos se comentaram aqui.parte ou fator nesse processo total. Comparados os nossos tempos. C 1 O têrmo ³liberdade´ é usado aqui significando expansão da personalidade humana.A finalidade da educação se confunde com a finalidade da vida. dentro do ambiente de transformação e de progresso que a era industrial inaugurou. a de liberdade. alargá-lo e ampliá-lo cada vez mais. Matérias escolares ou matérias de estudo. com mais vigor. Atividades "intrínseca s" e "extrínsecas".

A música. Nada aí lembra as escolas tradicionais que estamos habituados a ver. divertida. A criança é a origem e o centro de tôda a atividade escolar. em conversa. corpo de bombeiros. O eixo da escola se desloca para a criança. A doçura daquele espetáculo desfaz. conscientemente. com os seus interêsses. ³Trata-se de uma transformação. uma confiança muito funda nos dias melhores. correios. mas como um fim em si mesma. A iniciativa e o espírito social dessas crianças parecem milagres. Monografias interessantíssimas. a sua sociedade. que já vêm chegando. trabalhando. tôda uma cidade armada no chão. cheia de côres. Não é mais o adulto. mas a criança. como ainda a convicção de que o homem se desenvolve naturalmente para um ajustamento social perfeito . que governa a escola. Enfim. que se transforma em um pequenino mundo feito à sua imagem e semelhança. várias dessas escolas. que se compara com a de Copérnico em nosso sistema planetário´. Todos os instrumentos construídos pelas mãos dêsses meninos maravilhosos. Todo um museu de gravuras. como é inevitável. Quando se busca. as lágrimas nos vêm aos olhos. reprimida. A personalidade infantil aceita. onde a vida corre alegre. ouvida. A sua atividade impulsiva e espontânea deve governar a escola. presidindo clubes ou discutindo coisas a fazer. e não mais ignorada ou. movimento. Adiante.tal nome não tem sequer sentido nessas escolas . planejando.por tôda a parte. Êsse velho princípio caracteriza uma das diretrizes mais essenciais do movimento de reconstrução escolar. As classes são salas de bric-à-brac. A frase de JOHN DEWEY é típica. Visitei.concorreram para a reorganização escolar. O sentimento de respeito pela personalidade infantil. tôda a pessoa sempre como um fim em si mesma e nunca como um meio. os estudos psicológicos que vieram demonstrar a necessidade de uma formação livre e espontânea para a expressão harmoniosa do indivíduo. Com linhas de bonde. Em uma adorável desordem. tão sòmente. Uma estranha aliança dos recursos técnicos dos nossos dias com a imprecisão das capacidades infantis. entretanto. Um grupo de 30 crianças ergueu -a do chão em um ou dois anos de atividade. as suas atividades e os seus projetos. composta por aquêles artistas liliputianos. com as suas tendências. riso e som. os seus impulsos. a sua ciência. diz êle. as amarguras da lembrança. sai-se com a impressão de um conto de fadas. um estudo sôbre transporte. por mais de uma vez. São casas de crianças. Os alunos . êsses princípios nos conduziram a certas escolas experimentais de nossos dias. Nesta sala. em vários e diversos centros de civilização.Percorreu a escola o mesmo sôpro impetuoso de filosofia individualista que varreu da sociedade restrições religiosas espirituais e políticas opostas à liberdade dos homens. tudo enfim que constitui uma cidade. respeitada. um concêrto de 200 crianças. de modelos e de exemplares reais de meios de comunicação. luz elétrica. No auditorium. dias em que a infância seja completamente feliz e os homens fortes e tranqüilos. E da visita fica. o problema se pôs em têrmos claros. A criança não mais como um meio. Para os elementos mais radicais. Há de tudo. Considerai. Levados às últimas conseqüências. contrastar aquela infância com o que foi a nossa infância. . dizia KANT.

a de uma confiança ilimitada no espírito infantil e a de um respeito religioso pela personalidade da criança. que os costumes prescreviam. Obedece à autoridade do professor. urge suprimir a coação intelectual. de que é a reprodução. para servir às experiências de cada dia. como a natureza mesma. Por tôda parte a criança é mais bem tratada. que a escola busca produzir. em si mesma. costumavam enfaixar as cabeças das crianças para lhes dar as formas cônicas ou chatas. As atividades são escolhidas ao sabor das situações. submetemos os pequeninos cérebros infantis. Como os pequeninos cérebros enfaixados. e não sòmente uma preparação para a vida de amanhã. de considerar mais atentamente os seus impulsos. pouco a pouco se deixam modelar pelo tipo em série. Começa-se a compreender que. com efeito. Vivem a vida imediata dos desejos e dos impulsos. é examinar se a tendência está certa e se tem fundame ntos científicos e sociais. Os povos primitivos. Na escola tradicional. Esteja ela na imposição de um castigo físico ou de um estudo ininteligível. à autoridade do livro. O ímpeto com que se chega às extremas conseqüências da teoria serve par nos mostrar. de fazer da sua vida atual uma coisa interessante. à autoridade do programa. as suas capacidades e as suas diferenças. há tôda uma gama de posições. porém. Aí a criança é o autômato. como ela se organiza hoje? Até que ponto será possível generalizar as técnicas que se vão assim desenvolvendo? Tais escolas perderam tôdas as preocupações conscientes de preparar para o futuro. O que há. dòcilmente. de incompreensões. A filosofia que a fundamenta. A escola é tôda ela flexível. nem mesmo aos elementos fundamentais de uma personalidade. a ordem é exatamente oposta à da escola que vínhamos comentando. Entre êsse extremo e o outro extremo da escola tradicional. essas escolas são possíveis no mundo? Até que ponto não se apagam aí valôres indispensáveis para a vid a. a tendência central da renovação escolar: o respeito pela individual idade infantil. O professor segue. Está em uma fôrma que a prepara para a vida futura. com vidro de aumento. Nem vale a pena alguém se assustar com a perspectiva dessa liberdade sem limites. conta HAROLD RUGG. A compressão nada pode produzir de bom. Tal tendência se encontra na escola e se encontra na família. de dissociações. A tendência de transformação se acentua no sentido de dar mais direitos à criança. civilizados.Até que ponto. para perpetuar indefinidamente a sociedade retardatária e estática. . Não há atenção às possíveis diferenças individuais. Essa deformação física é bem mais inocente que a deformação mental a que ainda hoje nós. supresso o castigo físico. que vão impossibilitar o desenvolvimento espontâneo e harmonioso. é sempre a geradora de complexos. a vontade das crianças.

nenhum. mais difícil e mais fundamental do que o do programa escolar. como o ambiente da vida. então está certa a escola tradicional. pode -se de logo ver que a escola tradicional está errada. E crescer é viver. As dificuldades repontam de todos os lados. envolvendo o problema da própria marcha do processo educativo. nem o seu desejo. dêsse modo. Seja lá qual fôr o programa adotado. Há. B) Reconstrução dos programas escolares Não precisamos repetir que o problema dos programas escolares. mas as conclusões a que chegaram filósofos e psicólogos sôbre a natureza do fenômeno educativo. Isolem -se as atividades.Não é isso o resultado de nenhum sentimentalismo obscuro e imprevidente. é sobretudo a impossibilidade de a negar. se querem construir obra de educação respeitável e sincera. limitem-se os objetivos. onde a criança se desenvolva e se eduque. Educação é. orientando-o. governando-o. Como aí encontrar o móvel centralizador e harmonizador do crescimento ou da educação da criança. continuem-se os pequeninos exercícios. na sua compreensão. ainda. À escola deve transformar -se para prover ambiente complexo. O organismo não pode ser treinado por partes. Essa revisão do conceito da educação obriga a revisão da escola. nem a sua atenção. Dentre todos os problemas. Mas se educar é uma função complexa de adaptação e crescimento do organismo total da criança. alguma teoria de educação está nêle implícita. Tudo está. e se a obra interna da educação de nada disso pode prescindir ? Não é sòmente o desejo de dar liberdade à criança que dirige os educadores. a falta de uma técnica impessoal. não a podemos encontrar nos processos mecânicos da escola tradicion al. Se educar é função de superposição. em se saber o que é educar. com efeito. porém. Dessa premissa da criança autônoma e livre é que temos de partir para a aventura da reconstrução educacional. Educar é crescer. Alargada. está inteiramente prêso ao conceito de educação e à teoria geral de educação. emprestando-lhe o critério para a avaliação dos resultados a que visa. é essencialmente unitária. . de modelagem externa. vida no sentido mais autêntico da palavra. A sua atividade funcional de educação e vida. é mais delicado. o que eriça a obra de dificuldades supremas. se não há a sua participação. assim. Os objetivos que a teoria determinar para a educação. A educação se está sempre fazendo. de acréscimo.

êsses, por fôrça, é que hão de governar a sua fatura, o seu método e o seu conteúdo. Quando os objetivos da educação se circunscreviam à finalidade política e intelectualista do século XIX, o problema de organizar o programa também se circunscrevia a uma seleção inteligente de matérias e de técnicas escolares, destinadas a dar ao aluno um conjunto de informações e de hábitos, capazes de fazê-lo um cidadão leal ao regime, a que a escola servia, e com habilidade bastante para participar ùtilmente na economia próp ria e na de seu país. A aquisição de certas técnicas - leitura, escrita, aritmética, desenho e música: a memorização de alguns compêndios de geografia, história e ciência; e a educação de certa destreza manual em trabalhos de oficina e jardinagem, - nisso se resumia o programa. Como dizia GERARD, a escola visava a ensinar à criança tudo aquilo que ela, quando adulto, não podia ignorar. A larga experiência escolar do século XIX, os estudos sôbre a criança e o próprio caráter de nossa civilização vieram d emonstrar que, não sòmente os objetivos colimados pela escola tradicional não eram real e efetivamente atingidos, como ainda que as novas condições estavam a exigir a transformação da própria finalidade da escola. Com efeito, a escola e, na escola, o programa, são apenas partes de um todo: o processo educativo por que passa o homem desde que ingressa na vida. Nesse processo, o característico essencial é que as experiências passadas afetam o presente, transformam-se e, por meio dessa transformação, reagem sôbre o próprio futuro. Processo, assim, contínuo e progressivo, em que o homem e o seu meio mùtuamente se influenciam, modificando a própria vida. Tanto melhor, tanto mais perfeito é, quanto mais concorre para a transformação e ampliação da vida. A aprendizagem resultante do processo educativo não tem outro fim, senão o de habilitar a viver melhor, senão o de melhor ajustar o homem às condições do seu meio. O currículo tradicional não discordava dessa orientação. Apenas julgava que se fôssem ensinados isoladamente algumas técnicas e alguns livros às crianças, elas depois os transportariam para a vida, tornando -a mais eficaz, mais cheia e mais feliz. Foi êsse isolamento da atividade escolar, que a veio perverter e inutilizar. Nem se aprendia realmente na escola, nem, muito menos, se transferiam posteriormente para a vida os resultados laboriosamente ganhos naquele trabalho. Daí condenar-se a orientação de preparação especializada e artificial para a vida. E condenar-se a orientação puramente informativa e intelectualista. Ao invés disso, a escola deve ser uma parte integrada da própria vida, ligando as suas experiências às experiências de fora da escola. Em vez de lhe caber simplesmente a tarefa de transmitir os conhecimentos armazenados nos livros, deve caber-lhe a tarefa, muito mais delicada, de acornpanhar o crescimento infantil, de desenvolver a personalidade da criança.

Aprender não significa sòmente fixar na memória, nem dar expressão verbal e própria ao que se fixou na memória. Desde que a esc ola e a vida não mais se distinguem, aprender importará sempre em uma modificação da conduta humana, na aquisição de alguma coisa que reaja sôbre a vida e, de algum modo, lhe enriqueça e aperfeiçoe o sentido. Semelhante concepção de aprendizagem altera, conteúdo e os métodos da escola. substancialmente, o

Está claro que não basta, para isso, aprender uma informação. Pode -se saber tudo a respeito de dentes: a sua estrutura, a causa de suas cáries e de suas moléstias e, ainda assim, nada disso alterar a c onduta prática na vida. Só se aprende para a vida quando não sòmente se pode fazer a coisa de outro modo, mas também se quer fazer a coisa dêsse outro modo. Só essa aprendizagem interessa à vida e, portanto, à escola. Tal aprendizagem é, inevitàvelmente, mais complexa do que a simples aprendizagem informativa. Nenhum processo mecânico é suficiente para a sua aquisição. A criança tem que ser levada em conta. E, com ela, os seus interêsses, os seus impulsos, os seus desejos, os seus receios, os seus gostos e os seus aborrecimentos. Tudo isso contribui para que se aprenda ou para que não se aprenda. Para que se aprenda mal e para que se aprenda bem. Ao lado da lição que se quer ensinar, vão -se também e simultâneamente ensinando hábitos, disposições e at itudes, que têm maior importância educacional do que o objeto original de ensino. A velha escola foge à dificuldade, continuando a ignorar ou agindo como se ignorasse o que se passa com a criança. Na impossibilidade de considerar o problema em sua complexidade, reduz o programa a um conjunto de lições fixadas de antemão e que devem ser aprendidas. Sob o pretexto de preparar para o futuro, êsse programa se constitui de matérias de interêsse para a vida adulta. E a determinação de isolá-las, para o ensino, desliga -as do lugar natural que os conhecimentos têm na vida adulta. Não é, pois, sòmente a ignorância da criança e dos seus interêsses, é a ignorância do próprio sentido que a matéria tem na vida real, que constitui a falha mais profunda dos programas escolares usuais. Desligados do sentido natural que têm na vida, aquêles conhecimen tos não podem ser realmente aprendidos. Em vez dêles, a criança aprende hábitos, atitudes, disposições que lhe falsificam o caráter, lhe retiram o espírito crítico e lhe minam a inteligência nas suas fontes vivas de originalidade e de iniciativa. Em resumo, o êrro capital da pedagogia tradicional está no isolamento em que a escola e o programa se colocaram diante da vida. Aprender é uma função normal da criança e do homem. Mas, por isso mesmo, não se pode exercer senão na matriz da própria vida e dentro de certas condições essenciais. Essas condições devem ser atendidas, e não removidas. Primária entre tôdas elas, está a intenção de quem vai aprender. A vontade da criança ou do adulto é imprescindível para que o aprendizado seja real e integrado à próp ria vida. Seja um cálculo de aritmética ou

seja uma habilidade manual, a determinação de aprender é que faz com que as mesmas sejam aprendidas. KILPATRICK classifica as atividades em "intrínsecas" à vida da criança e "extrínsecas" a essa mesma vida, conf orme participa delas, ou não, a vontade intencional da criança. No segundo caso - atividades extrínsecas - o valor ducativo é duvidoso ou nulo. No primeiro caso - atividades intrínsecas - os resultados educacionais são seguros e completos: a intenção do a prendiz articula com a sua personalidade a nova atividade, conduz e orienta os próprios esforços, verifica os resultados e lhe comunica o ímpeto necessário para novas atividades e esforços novos. Todos os males do isolamento ficam aí corrigidos. Não há isolamento em relação à posição real das coisas na vida corrente. Apreciada, assim, não parece haver possibilidade de divergência, em teoria. Todos estão de acôrdo em que educação não é um "instrumento estranho à vida e que aplicamos sôbre a vida para melhorá-la"; mas é o próprio processo de viver, o próprio processo de refazer, reconstruir e melhorar a vida. Como, entretanto, conciliar essa teoria com a necessidade inelutável de ensinar às crianças o que é essencial que seja aprendido, com a necessidad e inelutável de abreviar o processo dessa aprendizagem e com a necessidade inelutável de ensinar as grandes massas de crianças? Como organizar -se o programa, afinal, se não o devemos organizar em lições e em matérias? De acôrdo com a concepção que vimos defendendo, o programa deve constituir-se com a série de experiências e atividades em que a criança se vai empenhar na escola. Para a organização dêste programa, devemos levar em conta as atividades da vida presente, que sejam necessárias ou desejáveis, e os processos adquiridos pela experiência humana para conduzir essas atividades a bom têrmo. A vida da criança está em uma das extremidades e em outra, a suma da experiência humana, representada pelas matérias escolares, pelos compêndios e pelos livros em geral. A função dessa experiência humana no processo educativo consiste em oferecer à criança a inspiração e, quando ela o necessite e solicite, o modêlo para sua aprendizagem individual. O denominador comum das atividades infantis e dos aspectos perf eitos em que se condensou a sabedoria humana, está no conceito da experiência. As atividades infantis são os começos incertos e tateantes que devem conduzir à experiência organizada e lógica, já consubstanciada em livros. Essa última não representa mais do que o conjunto de leis e instrumentos já aperfeiçoados para solução das dificuldades reais que a vida apresenta. O currículo ou o programa deve ser, assim, a série de atividades educativas em que a criança se vai empenhar para progredir mais ràpidamente, de acôrdo com a sabedoria da experiência humana, em sua capacidade de viver. Aceita essa concepção, o primeiro problema prático com relação aos programas é o de saber se essas atividades podem ser previstas, planejadas e

organizadas antecipadamente. Duas posições extremas são tomadas pelos educadores. De um lado, os que afirmam que o programa deve ser feito todo êle antecipadamente, se não queremos que o ensino venha a falhar ou se tornar confuso e ineficiente. De outro lado, os que dizem q ue experiências educativas não podem ser predeterminadas, que a natureza do processo educativo não permite um plano anterior, de tal modo a sua marcha é acidental e filha das circunstâncias em que opera. Como quase sempre, uma solução intermediária é a mais consentânea com os fatos e com a prática. Antes de tudo, o programa deve ser extraído das atividades naturais da humanidade. Ora, essas atividades, tendo a sua origem na natureza do homem, são, como tais, objeto de investigações e estudos, que as cl assificam, as definem e as organizam. A espécie humana já acumulou, com relação ao modo de dirigir as suas atividades, uma experiência muito longa, que se acha observada, catalogada e condensada naquilo que chamamos matérias de estudo. Logo, de alguma s orte, o programa geral da escola está organizado antecipadamente. Todo êsse material, porém, - sejam as atividades, sejam os conhecimentos e as leis que a experiência humana veio descobrindo - é tão rico e abundante, que exige e impõe uma seleção, à vista do valor educativo dos seus diferentes elementos. Até que ponto o trabalho de seleção deve ser feito antecipadamente? Aconselham os educadores a se levarem em conta as condições do professorado. Existe, quanto à necessidade de planejar o programa , uma verdadeira gradação, conforme seja o treino e o preparo dos professôres. Alguns professôres serão tão bons, que qualquer determinação externa pode vir a prejudicá -los, e alguns outros serão tão deficientes, que a exclusiva orientação pessoal conduzi rá inevitàvelmente a desastre. Dentro dessa escala, os programas podem ser prèviamente preparados, a fim de marcar a orientação geral e fornecer elementos abundantes para permitir a escolha e para guiar e auxiliar os professôres na direção das classes. Devendo o programa consistir numa série de atividades que representem as atuais necessidades da vida e sendo essas necessidades, em seu quadro geral, mais ou menos permanentes, é sempre possível prefixá -Ias em um estudo central, que discrimine os principais objetivos da escola. No mesmo quadro, ainda é possível determinar, com a necessária flexibilidade, muitas atividades particulares em que os alunos se podem empenhar para que venham a crescer e se desenvolver adaptadamente ao meio em que vivem. Um corpo de educadores especializados pode organizar os planos gerais de atividades, fazendo-as acompanhar das matérias necessárias, para que as crianças as empreendam com êxito.

As atividades devem ser tais. que compreendam o que deve ser aprendido pelas crianças. hábitos e atitudes indispensáveis para resolver os problemas de sua própria vida. dar-lhes uma seqüência organizada e prover os meios necessários para que os alunos os resolvam. externa. de casa e de vestimenta. salvo dificuldade insuperável. o programa especial para cada classe. os instrumentos da leitura. na ge ografia. nos jogos e nas danças será devidamente aproveitada. podem ser também. O professor ou diretor da escola organizará. mas só assim a criança realmente aprende alguma coisa. Com relação às atividades de organização e regulamentação da vida cooperativa da classe e da escola. na agricultura.Além disso. nas artes industriais e na aritmética. torná-los sentidos ou conscientes. q ue tornam difícil qualquer sistematização? Primeiro: não precisamos voltar ao princípio para dizer que pode êsse meio não ser ainda o melhor. que levem os alunos à aprendizagem dos conhecimentos. por intermédio de projetos devidamente escolhidos.a experiência da humanidade acumulada na literatura. incidente. ocasional? Como poderá a criança ter o seu saber organizado. A organização que vale é a que se faz em nosso próprio espírito. através de experiências gerais. O papel do professor está em despertar os problemas. os fatos e os conhecimentos ficam subordinados às atividades escolares em que a criança se empenha. à medida que sentimos aumentar o nosso cabedal de conhecimentos e o sentimos articulado. Organizada a escola dêsse modo.o estudo do direito. organiza-se a escola para que aí se vá aprender uma coisa secundária. Nos projetos de empregar ùtilmente o tempo de lazer e diversão. a escola. Segundo: percamos a superstição da organização lógica. se ela o ganha. assim. Então. nas artes. organizados. ligado com as nossas experiências passadas. Aí está a grande objeção. A unidade constitutiva do programa escolar é a atividade aceita pelo aluno e por êle devidamente planejada. de acôrdo com o melhor método e os melhores conhecimentos. pelas quais se verá co mo a humanidade vem resolvendo êsses problemas. porá o aluno em contato com os conhecimentos que se encontram na história natural. influindo em nossa ação presente e nos fornecendo os meios para o enriquecimento progressivo de nossa vida. da escrita. antecipadamente. à medida que o trabalho progrida. Com relação às atividades concernentes aos problemas de alimentação. . da história e da literatura fornecerá objeto para discussões. do desenho. . na música. E em tôdas e ssas atividades. "programas mínimos". . da aritmética e a habilidade manual terão sempre uma grande contribuição. dentro dêsses limites gerais. então. em que se acham os conhecimentos nos livros escolares.

partindo do ponto onde nos achamos para o ideal longínquo que nos traçaremos. assim. se possível. Elas irão.atentos. fica essa erudição. evapora -se. que nos tortura. e não como uma simples distribuição de matérias escolares. com a forma e a função que vimos enunciando. C) Organização psicológica das "matérias" escolares Partindo da criança e de suas necessidades. valendo -nos ainda da contribuição trazida por KILPATRICK à consolidação da doutrina sustentada pelo famoso filósofo. torna-se mais complexo. Não é senão um me io-saber verbal. ganha.A aprendizagem de fatos livrescos. depois dessas reflexões. aos mesmos resultados. com o otimismo confortador de quem acredita que as coisas devem ser melhoradas e. no seu estudo. em visão e em comando sôbre a vida. sôbre a criança e o programa escolar. visto de um ângulo diverso. também. mais do que isso. quando muito nos dá uma tôla e inútil erudição.empreendamos a reorganização dos programas. que nada cria nem produz. No melhor dos casos. O critério central há-de ser o de transformar a escola em um lugar onde a criança cresce em inteligência. o pod em ser. hoje universalmente conhecido. Nos demais. a exposição de JOHN DEWEY. desligado da realidade e da vida. irão aprender eficazmente. O mesmo problema. receio de que as nossas crianças vão aprender menos. para que sempre o saldo seja a favor da reforma . destruindo -se. Reconstituiremos aqui. tudo que foi aprendido assim. sobretudo. cuja falência já conhecemos? Não. pois. . que se pode estabelecer. Com a consciência nítida das dificuldades atuais e muito cuidado no conflito de valôres. . apenas deixamos a escola. chegamos à conclusão de que o programa escolar se deve organizar em uma série de experiências reais e socializadas. presos aqui e ali em nossa memória. aprender mais e. * * * Não desconheço as grandes dificuldades de organizar um programa. com a brevidade possível. O próprio estudo das matérias escolares nos vai levar. o flagelo do ensino verbal e livresco. O perigo de confusão e de desperdício em uma escola organizada nessas bases é gritante. com o sentido da realidade e da ação. Que fazer? Ficar com a velha organização. assim. maior clareza e a solução aventada maior plausibilidade. muito provàvelmente. Não há uma fórmula fixa a prescrever. Atiremo-nos à tarefa. O problema. Não tenhamos.

a brincar. matemática. mais fácil do que dirigir orgânicamente a experiência infantil até êle. A tarefa dos educadores era a de prover um meio social em que a criança pudesse. até receberem uma organização lógica. Descuraram-se. com economia e rapidez. o conceito de matérias escolares. Como todo o material acumulado hoje nos livros é imenso e complexo. Na linguagem clássica. que nenhum alcance tinham já sôbre as atividades reais dos homens. Como tais. êsses conhecimentos poderão ser enriquecidos e aprofundados. então. onde. A escola mostra desconhecer essa progressão e se atira desde os primeiros tempos à terceira fase. porém. o estudo. na teoria tradicional.nada mais são do que resultados sistematizados dos conhecimentos humanos em sua forma lógica e abstrata.As matérias escolares ou matérias de estudo. as "matérias escolares" . Não tem sido êsse. A finalidade suprema da educação escolar é a de levar a criança à participação no sentido. história. etc. Essa informação está. Com efeito. É a forma mais simples de seu contato com o meio. Assim aprende a caminhar.. se aprende para fins de promoção e . a fazer isso e aquilo. os educadores de percebe r que os conhecimentos armazenados nos diferentes departamentos do saber humano se achavam de tal modo desligados da sua matriz social. por isso que se acha em contato com outros. entretanto. em sua educação. . racionalizada e sistemática. tornando-se o ambiente artificial que vimos condenando e onde. a falar. Aprende por intermédio da informação. no desenvolvimento de uma determinada atividade. nos valôres e na conduta da sociedade a que pertence. de sorte que ela a absorve diretamente. Daí a escola ter-se afastado da vida. só interessam ao especialista que pode compreender a sua linguage m simbólica ou técnica e perceber as relações que existem entre as diferentes partes da sua estrutura lógica. que lhe são comunicadas. se prepara o espírito para as especializações diversas de uma vida estritamente intelectual. quando muito. em rigor. contra o bom senso e contra a utilidade. ciências naturais. a criança aprende através das experiências alheias. um outro mundo. articulada e prêsa à sua atividade geral. No mesmo passo. percorrer os diferentes estágios de cultura do seu grupo. entretanto. E. São matérias de estudo para o especialista.linguagem. A escola constitui. a criança aprende a fazer coisas. deveriam ser tudo sôbre que incidissem o inquérito. Não o podem ser para as crianças. A marcha da criança. atravessa três fases disti ntas. Primeiro. Por que razão julgou a escola que ensinando aquêles diferentes ramos do saber operava o milagre dessa participação? Pela razão muito simples de se enxergar naquelas ³matérias" o conjunto de conhecimentos que consubstanciam a própria vida coletiva da sociedade contemporânea. significam os diferent es ramos classificados do saber. O seu êrro estêve em organizar esse meio pelo estudo de matérias que não se achavam devidamente impregnadas do sentido social necessário à sua p erfeita compreensão. é dividi-lo e dá-lo por doses aos alunos. por último. a reflexão.

etc. De alguma sorte. com elementos novos... já não agirá do mesmo modo. portanto. representam os resultados das experiências.... R 3 .. Vejamos.de exames. cronològicamente.......... em que nos empenhamos com sentido de responsabilidade e de prazer. porque isso mesmo se perverteu em um simples esfôrço de repetir... etc........ se a pedra não fôr colocada de certo modo. não é sòmente a soma dos resultados anteriores R 1 + R 2 .. Há... pela palavra ou pela escrita.. realmente... Como por nenhuma outra.. pròpriamente. Nem existe. R 1 R 2 R 3 .... constituir o objeto do estudo e da aplicação das crianças? Para isso temos que fugir da organização "lógica"... Como então organizar as "matérias" para que possam.. distintamente.. o desdobramento dessa idéia.. se quisermos dar -lhe a representação lembrada por KILPATRICK... Êsse resultado.. representam as experiências. Terá mais cuidado... sabe que. Cada experiência deixa um certo resultado que habilita a criança a encarar de modo diverso a futura experiência e..... desenvolver. ali. de quem tomamos essa demonstração: E 1 R 1 E 2 R 2 E 3 R 3 E 4 R 4 .. A criança não passa incólume por essa experiência...... que repr esenta o seu último estágio de aperfeiçoamento.. Imaginemos uma série de experiências dessa natureza. A sua primeira experiência deu -lhe certos conhecimentos. .. Suponhamos que na aprendizagem de física a primeira experiência de uma criança tenha sido a queda de uma pedra em seu pé.... os diferentes passos da aquisição do conhecimento científico. A organização lógica é o modo por que se organiza o que ela aprendeu da experiência.. em detalhe. a organização psicológica representa a disposição da matéria ou da lição na ordem em que se realiza a experiência da criança. e.. para sua conduta em outras experiências com objetos pesados. Em essência... A organização da matéria escolar ou das lições por essa forma educativa é geralmente chamada a organização psicológica em contraposição à organização lógica do especialista. duas coisas a notar: a experiência e o resultado da experiência. por exemplo..... E 1 E 2 E 3 . por tê -la colocado em uma posição de desequilíbrio. Na próxima vez. obter del a um resultado também diverso. nem ali existem. partindo da experiência da criança... o que outros formularam em livros.. a vida no seu sentido normal de um conjunto de atividades aceitas. saber e ciência.. assim.. mas é qualquer coisa dependente dêles e reorganizada. Aprende aí qualquer coisa. virá a cair.

E 50 R 50 E 51 R 51 .. Cada experiência é um trecho da vida. de modo que êles sejam mais utilizáveis e mais eficientes para uma determinada aplicação. cada E representa uma experiência e cada R o resultado organizado que dela decorreu e que vai influir sôbre a futura experiência.. libertam-se dessas condições próximas.. uma determinad a pessoa tem um saber próprio. mesmo de uma criança. aqui. e portanto. Quando muito.No próprio processo de desenvolvimento ou aquisição de uma idéia não é de outro modo que o espírito age. se processam da mesma forma e estão. abstratos. Em geografia... Se as experiências fôssem tôdas frutuosas. O saber. Uns e outros. tanto que ela o pode aplicar. Nessa série. como o adulto. como o homem de ciência agem segundo as mesmas leis... embora em graus diferentes.. a série completa de experiências e resultados a que se poderá chegar em física.. agindo com i nteligência. Do mesmo modo... que resumiria. com os seus resultados intrìnsecamente organizados e o seu aspecto lógico derivado. Teriamos: E 1 R 1 E 2 R 2 E 3 R 3 . Cada resultado é um produto mental..... agora.... corrigiria e completaria o resultado anterior. os do adulto. O espírito humano. Não pareça isso extravagante.. os conhecimentos da criança serão ordenados em tôrno de sua rua. como na dos primeiros conhecimentos da criança.. . o de um grande cientista. Logo.. se nos primeiros anos os pais e depois os mestres tivessem cuidado em que a criança percebesse claramente cada experiência e organizasse conscientemente o seu resultado. a ordenação lógica do que foi aprendido daquela experiência. seria mais complexa. a que tenha chegado hoje o maior especialista em física. como a concepção lógica da matéria tem assim um substrato natural e orgânico. A sucessão de experiências E 1 E 2 E 3 vai-lhe permitindo organizar sucessivamente os resultados R 1 R 2 R 3 . uma atividade e.. a sua marcha é psicológica. servida pelos resultados já obtidos. sem ligações nem ordem. Cada experiência. Tanto a criança.. Tomemos.. porém.... E essa identidade. desde que seja um verdadeiro saber e que afete a sua conduta. por isso que a sua visão mental é muito mais larga. no curso da mesma escala. por exemplo.... em cada momento da vida.... no aspecto lógico. com desenvolvimento cada vez maior e cada vez maior exatidão de detalhe. E n R n n. naturalmente... não pode proceder de outro modo.. permitindo uma análise mais minudente das partes e uma integração posterior mais coesa e mais lógica. tem alguma organização lógica. É sobretudo para notar. para se classificarem em tôrno de conceitos gerais. A organização lógica não pode ser outra coisa senão a organização dos conhecimentos. Mas são classificados. é inegável que cada resultado representaria mais ou menos um todo lógico. são classificados segundo critérios diversos dos do adulto. Os resultados do conhecimento infantil não são pedaços isolados. de sua cidade.

aos quais ela só chegou ao final do caminho percorrido de sua formação mas a que existe em idéias que são ensinadas globalmente por exemplos concretos. para projetar novas experiências . Está perfeitamente senhor da exposição lógica em que se resumem os seus últimos resultados: R n . etc. no quarto a madeira em que fôsse feita e assim por diante. se elas pertencem a um todo que não conheço? O ensino do mais simples para o mais complexo. admitamos. mês a mês.e chegar a resultados novos . R n +2. Porque não é uma simplicidade inicial. falha. ou a receita. está muito acima da capacidade da criança naquele momento dado. não pode ser a que se supunha existir nos princípios fundamentais de uma ciência feita. na escola tradicional. O professor de física conhece também. na série natural de e xperiências e aprendizagens. em contraste com a atitude da crianç a e do cientista investigador. Analisemos. e desen volvidas. Imaginemos alguém cujos conhecimentos em física possamos reputar completos. no terceiro o espaldar.do conhecimento germinal da criança e do conhecimento consumado e profundo do cientista. em doses devidamente graduadas. As experiências têm a mesma marcha psicológica. é levada ex-abrupto para o R n . divida-a em capítulos. e ensine a matéria. porém. os resultados finais a que chegou a física. explicando-lhe. A simplicidade dos primeiros conhecimentos não deve ser.E n +1. Como deve êle ensinar física? A resposta. Como cientista. etc. como cada resultado. vão-se distinguindo melhor as partes e as suas relações entre si e com o todo. representa verdadeiros todos para a inteligência. depois. que chegou à escola com o seu d esenvolvimento em física ali pela parte inferior da série que imaginamos . no primeiro dia os pés da cadeira.E 50 . por exemplo. agora. que lhe é impôsto à inteligência.R n +1. Conhece até E n e R n . em todos os seus corolários ou premissas. que a da criança nos seus primeiros passos. e ano a ano. é claro. sem nunca lhe mostrar a cadeira tôda. separadamente. mas uma resultante de muitas. com que se iniciava o en sino da gramática ou da física. a atitude da escola e do mestre. . E n +2. existe também. está empenhado em prolongar a série de experiências. de sucessivas generalizações e sínteses. Porque. É o mesmo que desejar dar -lhe a noção de cadeira. em lições. notemos bem. posso eu compreende r partes. A simplicidade dos grandes princípios e regras. Como. nos aspectos psicológicos. portanto. em essência. torne a sua exposição mais simples para os alunos mais novos e mais complexa para os alunos mais adiantados. para obter novos resultados. . às leis da psicologia e do bom senso. no segundo o assento. O seu gênio o leva utilizar -se de R n . A criança. da escola tradicional era simples. cada experiência. Tome a massa compacta que representa a totalidade dos conhecimentos dessa ciência .R n -. À medida que se progride.

para repeti-Ias quando llie pedirem. através de um processo experimental. lhe permitirão amanhã ampliar e corrigir os seus primeiros conceitos. desde que conservaram de memória os passos sucessivos. Afinal. mais completo e. até que uma ciência da física se lhe esboçará no espírito. estimulando o jôgo mental das análises e das sínteses progressivas. etc.Para se ensinar a uma criança o que é um coelho ou um gato. Não conseguimos tornar o conhecimento mais simples por lhe querermos ensinar primeiro o focinho. não teve. a fatia que lhe dão para aprender. que antes não tinha. O professor poderá dar uma certa unidade à lição. um capítulo específico da física como é hoje escrito. À medida. desarmá -lo-á mais profundamente para a vida. representando uma parte dos resultados finais R n . então. Mas. a visão total da física ou sequer das leis. nesse dia. que seu espírito naturalmente realiza em cada uma delas. Idéias se adquirem. que ela começa a diferenciar as partes e estas passam assim a ter u ma existência mental distinta do todo que é o coelho ou o gato.do conhecimento moderno da ciência. Êsses ³muitos" são. lhes foi possível uma revisão global da matéria. que êle não sabe a que prender ou ligar. partes e todo serão sempre compreensíveis. que a ignorância verbal. abrem -lhe a noção da distinção. de certo modo. que lhes permitiram gravar tôda a marcha do curso. a escola foi a primeira estrada. ainda é porque foram inteligências tão vigorosas. mais exato. mas êle mesmo não a verá como um todo. que deram sentido aos seus estudos. Aquêle saber pode enganá -lo e dar-lhe uma impressão de ciência. mas. nem como parte. depois o rabo. Dêste modo. talvez. se os compararmos aos que se perdem pelo caminho. à grande massa dos que nada aprendem. podemos dizer. Já vê melhor os detalhes no todo. E se aprenderam. que indicamos. Porque. Há muitos que aprendem. entretanto. depois os pés. dos princípios fundamentais da gravidade. d essa cultura. Mas aquela experiência e o seu resultado representaram. Objetar-se-á: os fatos negam essas afirmações. a estrada real. Há mesmo muitos que sabem e que sabem muito. mais complexo. Já vê o todo mais em detalhe. Ao fim do mesmo. se conq uistam. mas não pode deixar de ser global . nem como todo. rigorosamente. de experiências vividas e sentidas. através da série de lições isoladas e desconexas. de que êle tanto se envergonharia. inadequada. E se triunfam. Do mesmo modo em física. afirma KILPATRICK. lograram. Não há dúvida. apesar da organização puramente lógica da matéria. e só então. E mais: geralmente possuíam memórias excepcionais. um todo. E assim progredirá. o seu conhecimento do animal se tornará mais minucioso. Tudo que pode fazer é recorrer a palavras. porque a sabe uma seção de um todo maior. que. não se decoram idéias. E o aluno apenas a perceberá como qualquer coisa mal arranjada. Está claro que a criança que deixou cair a pedra em seu pé. aqui e ali. há alguém que aprende. através da série. é preciso mostrar-lhe primeiro o coelho ou o gato. nunca poderá ser compreendido pelo aluno. revisão que lhes deu a noção de conjunto necessária à compreensão verdadeira de . Nem mesmo as idéias aprende. que o seu conhecimento progride. por cúmulo de ironia. com unidade natural e clara para o seu espírito. porém. A análise e a síntese. pedaços reais de experiência vital e orgânica. A sua primeira noção será imprecisa. por isso que ainda não con hece o todo a que pertence o trecho. também vistas como todos. Outras experiências. bem poucos.

na seqüência de cada projeto. que. de um ensino por meio de atividades e empreendimentos com um fim em vista. não podem. é bem de ver. O critério não será.poderá sempre haver uma seqüência progressiva nos projetos utilizados. em vez de lições. Escolas que visam a ensinar a massas ou a grupos escassamente selecionados. 5) Material para os alunos se exercitarem nesse ou naquele ponto de estudo. orgânica. os interêsses e a capacidade da criança. Essa indicação servirá para que os professôres e os alunos meçam e estimem o progresso que estão fazendo. cujo sucesso esteja a depender de tais esforços e de tais riscos. a seqüência lógica em que hoje é dividida a matéria. que. descritos em detalhes. 2) Projetos diversos. salientando -se os objetivos novos. guiada e dirigida pelas c ondições do meio em que vive. * * * Como se fará. E os projetos não acompanharão. vieram a perceber. Como as atividades se estabelecem em virtude de um desdobramento da capacidade infantil. segundo o conselho de KILPATRICK. porém. e por que. . será organizada em bases. à proporção que se desenvolve e cresce. para mostrar o que se deve esperar. 4) Indicação dos resultados que se devem razoàve lmente esperar com relação à matéria. que estamos a defender? A matéria escolar. a que visa o seu ensino. devem obedecer à seguinte ordem ( Foundations of Method. vital. pondo-se maior relêvo na aquisição de hábitos e atitudes. se empenhará em atividades mais . o ensino passará a ser dado por meio de projetos. As matérias serão ensinadas à medida que se tornem precisas. aproveitável em escolas que desejam oper ar uma seleção extravagante de inteligências. portanto. No ensino primário e no ensino secundário deve ser condenado como anti-econômico e ineficiente. pág. a organização dos conhecimentos. será. Sob tais bases. as tendências. subordinar a instrução que ministram aos acidentes de um método que é um absurdo para as inteligências comuns e uma singular provação mental até para os espíritos de escol. o de sua organização e da necessidade em que ela se acha para prosseguir em Iógica. com referência de material e aparelhagem necessários. Indicação dos resultados obtidos. no ponto de vista que assumimos. nesse momento. 361): 1) Descrição clara da teoria. quando muito.cada uma das partes e das suas relações com o todo. geralmente esquecidos na escola tradicional. neste caso. po r isso que se devem organizar em harmonia com os impulsos. 3) Lista de projetos em número superior aos que possam ser pràticamente usados. A criança. Sistema. para uso do professor. mas o da aptidão da criança para compreender determinada atividade. se dermos ao curso de estudos a marcha psicológica.

porque não há nenhuma antinomia entre a sua primeira atividade prática e as culminâncias . A organização que se opera é perfeitamente vital e utilizável. percebendo -lhes as relações e a função prática. a organização dos conhecimentos do aluno? Desprezando. o seu interêsse puramente intelectual pode acentuar -se. para o seu raciocínio e para as suas pesquisas. Pode -se ver. mas não se forçará. O aluno ou a criança. Tal desenvolvimento será natural e lógico. pouco a pouco. chegando assim aos mais altos graus de organização científica. através da sua atividade querida e consciente. então. Afinal. Tôda a matéria que fôr assim chamada a dar a sua contribuição. reorganiza -os em um todo cada vez mais amplo e se encaminha para novos projetos com um setimento de confiança efetiva nos seus conhecimentos. de chôfre. no estágio de desenvolvimento em que se encontra.complexas. cujo fim percebe e procura atingir. Os conhecimentos adquiridos dêsse modo se ajustam e se articulam em tôrno de conceitos que irá. como desprezamos. O êrro de visão da escola tradicional está em lhe querer dar. sob pretexto de necessidade lógica. cujo sentido só o especialista percebe. A organização lógica e sistemática da ciência ou de uma mat éria é a disposição dos seus conhecimentos em tôrno de certos princípios gerais. formando e que são a tôda hora utilizáveis em sua vida. Está tudo disposto do melhor modo para o seu manejo. organização é a disposição de uma série de coisas com o sentido da utilidade que tem cada uma delas em relação ao todo que se quer organizar. ao longo de linhas especializadas. vista e prevista. que exigirão maior soma de conhecimentos. a utilização de matéria que não sirva a alguma finalidade. de cujo segrêdo é senhor. articula os resultados dessa aprendizagem às suas experiências passadas. Aquêle conjunto de fórmulas e abstrações. A organização que realiza a c riança. no curso do projeto. representa o seu material de trabalho. que vai adquirindo. O aluno que tiver gôsto e inclinação pode chegar até lá. com o qual nem sequer poderá conversar sôbre a matéria. O especialista em matemática ou física sente perfeitamente a vantagem dessa organização. participa das mesmas virtudes. Quem não o possuir é simplesmente um leigo. a organização final da matéria. se julgam e se reúnem todos os conhecimentos. tem no propósito que o anima a agir e prosseguir na ação. Como se operará. Os seus projetos se poderão desenvolver. o eixo em tôrno do qual se distribuem. como a criança. o que lhe vamos dar em substituição àquele possível valor perdido? Vamos dar-lhe a oranização que se processa natualmente no curso de sua atividade e que é a única legítima e útil. cuja necessidade ema mesma irá sentindo. a organização lógica sistemática. em uma certa época. tudo aprendendo em função de um fim em vista. em que se acha a matéria. po rque ela os conquistou por um esfôrço orgânico. deverá ser fatalmente incluída. empenhado em uma atividade que escolheu ou em cuja escolha participou. por aqui.

mais paciência e mais inteligência do que. 4) A criança. com os seus hábitos de reflexão. de inquérito.intelectuais que vier a alcançar. O essencial. Tal resultado é o característico do método de que estudamos aqui um dos elementos. Êsse resultado pode perfeitamente ser atingido dentro da teoria escolar que estamos a defender. em função do seu desenvolvimento futuro. que a ciência podia ser ensinada pelos seus resultados e não pelos seus métodos. Precisamos. em matemática. agem do mesmo modo. para isso. às mesmas conclusões a que nos tinham levado as primeiras reflexões sôbre a criança e o programa. "unidades de trabalho" ou projetos. . Resumamos essas conclusões: 1) A escola deve ter por centro a criança e não os interêsses e a ciência dos adultos. interessada em estudar matemática ou gramática. Implìcitamente. desta sorte. mas obterá uma noção eficiente do seu método e dos seus processos. * * * Não escureçamos as grandes dificuldades de chegar a realizar integralmente essas conclusões. a atitude acertada para encarar os fenômenos. em física. entretanto. em história. Ambos usam inteligentemente os recursos que têm às mãos para a consecução de um determinado fim. é dar ao educando a atitude científica. na escola. em geografia. de crítica e de sistematização. à primeira vista. Chegamos. Afinal. porém. a grande maioria não chegará ao ponto em que se encontram os especialistas. Mais do que isso. de análise. analisando o saber de mais valor para o homem contemporâneo. SPENCER. pressupôs. 5) Os seus interêsses e propósitos governam a escolha das atividades. de mais estudo. 2) O programa escolar deve ser organizado em atividades. Mas. a criança que se educa e o cientista que descobre mais uma verdade. 6) Essas atividades devem ser reais (semelhança com a vida prática) e reconhecidas pelas crianças como próprias. A que fica. é um ser que age com tôda a sua personalidade e não uma inteligência pura. parece. e não em matérias escolares. mais pesquisa. Perceberá êle ainda a funç ão do conhecimento científico. reduzido o ensino? O aluno não ganhará u m conhecimento completo da ciência. concluiu que êsse saber era o saber científico. 3) O ensino deve ser feito em tôrno da intenção de aprender da criança e não da intenção de ensinar do professor. então. O seu pensamento ganhará.

Assim o progresso será orgânico e real. iniciar o movimento.O que se está procurando reformar tem séculos de organização. em que se tente o nôvo método. Lembremo-nos do problema da disciplina. aprenderá sob o princípio do trabalho com um fim em vista. propor a organização psicológica das matérias escolares e o ensino por projetos. Assim como desapareceu a coação física. à medida que os resultados se acentuarem. hoje. por inútil e contra -producente. mesmo nas escolas tradicionais. on de esta. Além dessa obra escolar. Estimule -os neste exercício de autonomia e de responsabilidade. cujo número iria aumentando com os professôres convenientemente preparados. quanto em alguns lugares. . Seria tão absurdo propor a êsses educadores a supressão da chibata ou da palmatória. incentive o professor as atividades extra-classes. devidamente guiada. desde que os princípios estão certos. E pouco a pouco. Não poderemos mudar da noite para o dia. A organização lógica dará lugar às organizações psicológicas pessoais dos conhecimentos adquiridos. vá o professor alargando -o pelas demais fases do trabalho escolar. A própria organização da escola e o exercício do seu ministério pelo professor só teriam a perder com uma modificação súbita. Mas. Houve tempo em que os professôres não acreditavam em ensinar sem o castigo físico. escolherá a sua atividade e. nem a coação intelectual de h oje. contribuindo para êle quando chamadas. nem a organização do currículo em matérias escolares. ai. também desaparecerá a coação intelectual. ninguém mais tentará o ensino por lições.Segundo. A escola será progressiva. não há razão para não tentar realizar uma escola mais consentânea com a diretriz que dêles decorre. existe radicada. talvez. entretanto. Podemos. A orientação da educação leva. a crer que. As novas técnicas estão apenas sendo experimentadas. Dê liberdade aos alunos para organizar a sua vida social e recreativa. . do seu lugar de ho nra para o de simples servas do crescimento infantil. nessa hora. dentro de 10 ou 20 anos. As matérias escolares passarão. até abrangê -lo por inteiro. A criança.Primeiro. . retirando do dia escolar uma hora ou uma meia hora. à medida que se sentir com fôrças para ampliar um tal programa. efetivamente. fundando escolas experimentais.

Função primitiva: preservar certos conhecimentos de valôres. Distribuídas. de fato. que mùtuamente Processos fundamentais da vida. A) A educação e a sociedade. "Uniformidad es" naturais. "Organismos" e vida. O processo social e o processo educativo. existem. corrigir e harmonizar a educação integral do indivíduo. Agir. imanente à natureza evolucional do mundo em que vivemos. existiram. sentir e saber . A inteligência e sua função própria. A escola e o verdadeiro progresso social. e intencionalmente. vistas como dois processos fundamentais da vida humana. B) A educação. pelo tempo afora. A educação como fenômeno social. Não existe educação.valem o sacrifício dessa mudança de hábitos. a educação e a escola. mas a sua filosofia. Tentativas de contrôle da ação da inteligência. existirão sociedades e educações. confundidos no seio das sociedades. vistas como dois processos fundamentais da vida humana e a sociedade A EDUCAÇÃO se influenciam. instituição consciente de educação. Liberdade individual e direção so cial. são dois processos fundamentais da vida. Autoritarismo. Não existe sociedade. a nada nos podemos referir sem de logo deixar subentendida a contingência de mobilidade. Mobilidade e continuidade. Um problema mal colocado. como fenômeno individual. CAPÍTULO IV A educação e a sociedade A) A educação e a sociedade. Nível mental.As novas idéias . Sociedades conservadoras e sociedades progressivas. C) A sociedade. transformação e perpétuo vir -a-ser. idealismo objetivo. Essa função é literalmente imposta pelas circunstâncias. A reconstrução escolar. São objetos de estudo para historiadores. de planos e de atitudes. Educação: a natureza que se faz arte . Existe um processo de educação.que já não são inéditas e já estão até bem comp rovadas alhures . E aqui desejaríamos esboçar não a história da educação e da sociedade . Nível biológico. Porque. dizemos. Educação e inteligência. Existe um processo de sociedade. Função atual: acompanhar. . A escola.

mantendo -se a si mesmo .há. faltam ao homem moderno aquelas velhas certezas de quatro pés. por outro lado abriram-se-lhe novas possibilidades e caminhos novos para o exe rcício da ação criadora. o mistério da vida peculiar ao aparecimento daqueles novos atributos ou qualidades. com elas. os atos de criação são permanentes e contínuos. Muitas das confusões e obscuridade s do pensamento contemporâneo se explicam pela persistência com que ainda se amparam nas concepções estáticas. A ciência moderna. em virtude de novas organizações. ferir de incerteza permanente a marcha das coisas. características de períodos já vividos de sua evolução. talvez. Combinações e organizações de processos se podem efetivar. está porém concorrendo. os processos de atividade característicos da fase biológica de organização da natureza não diferem dos processos da fase físico -química. mas realmente perfeita de uns e outros. que é. * * * No universo. dia a dia. por isso mesmo que vive em um mundo onde as mudanças e. A indiferença das reações físico-químicas alça-se a um nível em que aparece o impulso ou a tendência no sentido de se manter a organização característica anterior.organismos. direção e dinâmica. Mas. nos asseguram o poder de controlá-la. em que se apoiavam a nossa ignorância e os nossos preconceitos. mas nem por isso deixam de constituir uniformidades apreciáveis da natureza. em meios novos. O sistema conjugado de processos e fôrças. que. numa identidade só verbalmente contraditória. sólidas e inflexíveis. por certo. que lhes é dado mudar e adaptar -se. A mobilidade incessante do universo não vai. Nestas organizações . senão por nova combinação. Os processos físicos-químicos combinados em grau elementar produzem os sêres inanimados. para que se evidencie essa transformação de plano. o biológico. Se. continuidades mais ou menos constantes de processos asseguram largas uniformidades de estrutura. dotados os conjuntos de tal unidade e flexibilidade.Essa filosofia é apenas um esforço de ver claro através do longo processus de transformação indefinida. com efeito. entretanto. e os novos fins. que passam a ter os mesmos fenômenos. As antigas leis científicas não terão. isto sim. em que repousam os quadros gerais da realidade. dentro de certos limites. a rijeza estável que lhes atribuíamos. de um lado. e ainda conservar as características anteriores. a combinação determina novas qualidades e novos atributos. em cujo desenvolvimento os fins imediatos se transmudam logo em meios. com as suas revelações sôbre o caráter mutável e dinâmico dos compone ntes mais íntimos e profundos do universo. Vai dar-lhe. um vasto conjunto de energias em ação e reação recíprocas. um ritmo diverso de certeza. chamamo-los nós . Em grau de maior complexidade.

Conquistam. ganha. além das qualidades de atividade psico -física. No campo biológico as mesmas transformações se operam em agrupamentos organizados. em combinações ainda mais complexas.sempre articulado. satisfações. apenas. desde a atividade físico-química até a atividade mental. Não há. esforços. John Dewey para exposição completa da teoria aqui enunciada. representando sòmente qualidades diversas de acontecimentos. concorrer para a direção de si mesma. A amplitude das modificações limita. sempre articuladas. leva -nos à fase psico-física. têm atividade mental. os resultados podem ser previstos. As modificações são menos amplas porém muito mais numerosas e variadas. As organizações vivas sentem e reagem em infinita riqueza de processos e recursos. Tais. contudo. O esfôrço da natureza para se governar outra coisa é senão educação. encontramos novos ³organismos" (organizações). age e sabe que sente e age . em certas circunstâncias. Agora. As ações e reações de nível mental são de natureza idêntica às ações e reações de níveis físicos ou biológicos. 2 V. havendo preferências. No campo mental tôdas essas fôrças vêm a atuar. das dificuldades maiores de investigação. por conseguinte. portanto. não existe nenhum problema especial. Êsse nôvo fato transfigura a face das coisas. as fôrças psico -físicas do organismo acompanham e percebem o processo de sua própria atividade. Necessidades. No campo físico. a natureza não sòmente sente e age. nos diferentes estádios dessas últimas organizações outro mistério que não o decorrente de sua maior complexidade e. a qualidade nova de se conhecerem. caracterizam as variadíssimas formas dessa atividade. em que surge o fato mental. havendo relativa indiferença de resultados. mas contínuos e graduais. não sabe ainda que tem essa atividade.. mas sente. do prof. na designação de JOHN DEWEY (2). impulsos e persistências em determinados sentidos. dadas as condições em que se processam. jogando com maior variedade de movimentos. entretanto. a natureza pode conduzir-se a si mesma. por isso mesmo. por isso que êles não são de natureza diversa. Se avançamos ainda nas possibilidades de organização de que é suscetível a natureza. A natureza nesse nível de organização. no nôvo nível. . a realidade se transforma dentro de condições amplas. no sentido mais amplo do têrmo. as gradações de estrutura que caracterizam a própria realidade na continuidade de seus processos. o atributo singular de poder. além de imensas possibilidades de se combinarem de mil modos. Experience and Nature. Nas relações entre aquêles diferentes estádios. O organismo. porém. que. É só no nível mental que surge essa nova qualidade: o animal. e. o seu número.. E se êste processo se pode assim examinar.

observa. foge e se protege. A natureza está em sua fase de acidente. entretanto. inquire. mas a própria natureza em uma das suas fases de organização .* * * Educação é. A experiência. se regula a si mesma e se modifica. Educação é a natureza que se faz arte. É a natureza na sua grande aventura de ordem. as coisas são. . E inteligência é a qualidade que assumem certas ações e reações de se verem a si mesmas. de utilidade e de beleza. acompanhando a própria história ou processo. experimenta novas combinações dos seus elementos e prevê. um mundo voluntário e proposital. ela a si mesma se transformou. vistas. Na fase animal.essencial a diferença entre o nível biológico e o nível mental. percebendo os seus têrmos e relações e tornando-se. um mundo de ordem. fazendo surgir uma nova natureza que se subjuga. mesmo a experiência de conhecimento. tornando possível transformar as cousas dentro de certos propósitos ou fins da própria natureza. a natureza não sòmente se retrai. como que desejaríamos indicar que não é a inteligência nenhum deus ex machina mas um deus in machina. mas se examina. que retorna à direção original e combina os e lementos para melhor atingi-Ia. para novos ou idênticos resultados. podem agora ser conhecidas. podendo ser refeitas ou reconstruídas para melhor atingirem seus próprios fins naturais. o nome que recebe a série de fenômenos decorrentes do aparecimento da inteligência no universo. capazes de reproduzi-los em novas combinações. de um modo ou de outro. dêste modo. do acidental e do precário. Dir-se-á que os elementos são os mesmos. com efeito. quando as relações e combinações são percebidas. Educação é o permanente esfôrço de redireção da própria natureza. a natureza se retrai. Mas são também os mesmos os elementos do estádio biológico. Antes dessa fase. qualquer coisa externa. não é. foge e se protege. Figuremos um exemplo. e nem por isso deixamos de dizer que há entre os dois estádios uma diferença essencial de atributos e qualidades. reconstruído e redirigido em seus próprios meios e fins. As experiências dos animais. A natureza conquista um nôvo arbítrio ou uma nova liberdade. adicionada à natureza. que eram apenas tidas e sentidas. em uma permanente reconstrução de si mesma.a de organização mental. O raio alcança uma árvore. Atingida a fase intelectual. para fugir à fatalidade do acidente. A manifestação de energia que atingiu a árvore agora se governa e se reconstrói. Graças à capacidade da natureza de se examinar a si mesma. conforme os acidentes ou as circunstâncias. pelas quais vai a pouco e pouco emergindo. desta sorte. O fato mental. Combinações especiais de atmosfera deflagram uma faísca elétrica. Não é menos nem mais . o fato do conhecimento é que permitiu as transformações mais radicais da natureza.

de reconstrução da própria experiência. O fato. porém. de se localizar no homem a inteligência. um indivíduo. Experiência e natureza não são coisas distintas. como um instrumento humano de análise e conhecimento. Fixada. o caráter individual e pessoal se acentua particularmente. assim. para atingí-los de modo diverso.B) A educação. A inteligência individual integra -se em suas origens e pelos seus atos e fins na natureza. Na medida em que o homem se torna capaz de reflexão. Experiência é a fase da natureza em que esta se vê a si mesma. em que determinada experiência. como fenômeno individual e social O fenômeno da educação data. pelo qual a natureza se transforma conscientemente. verdadeiramente. restritivamente. antes de ser social. habilita o homem a aumentar o seu poder de govêrno e direção de outras experiências. percebida em suas conexões e relações. emancipando -se do caráter Individual. E sendo a educação o processo pelo qual o pensam ento se efetiva e se incorpora à vida. Sucede mesmo que o indivíduo só é verdadeiramente individual quando. e falar mais de perto dos problemas que nos interessam. Não sobra aqui espaço para refutar esse dualismo em tôdas as suas conseqüências. se quiserem. do indivíduo. Sendo a educação o processo de contínua reorganização e reconstrução da experiência. com certas repetições necessárias. por meio de um ato consciente de readaptação. a educação se torna também o processo pelo qual o homem se torna. é um processo individual e pessoal. podemos volver aos quadros habituais das divisões e classificações de nossa linguagem. comete à nova fôrça ou modalidade da energia um caráter específico e individual. A educação se processa. em sua origem e em seu processo. de pensamento e. em seu nível mental. assim do aparecimento da inteligência consciente sôbre a terra. constituindo um longo processo. O portador dessa inteligência consciente é o homem e os seus meios de ação. reflete sôbre si mesma e se transforma a si mesma. Pelo menos em sua fase de plena consciência. obedece a métodos e planos que lhe são próprios. conseqüentemente. nessa reconstrução da experiência. a experiência humana se projeta sôbre a natureza e a readapta para os próprios fins. para melhor atingir os seus fins ou. nessa medida é êle uma individualidade. Tal ato é emine ntemente individual. esta última compreendida apenas. que tem sido a razão permanente de um pretenso dualismo entre a natureza e o homem ou entre a natureza e a experiência. Baste-nos salientar que. . com efeito. a função da inteligência no seio da própria natureza. a experiência.

criadas ou transformadas pela lnteligência humana. eminentemente individual e pessoal. a essa altura eminentemente social.em instituições. com hábitos. os seus modelos. Social é . como se adapta ao clima e à terra. social: a sua ação. o animal que se educa. da educação. tão pessoal e individual quanto a digestão dos alimentos que ingere ou a ci rculação do sangue que o nutre. é. o indivíduo tivesse um pensamento. técnicas.se concretizam. * * * Tudo no indivíduo é. de tal jeito.da educação . ou por êle experimentar.Dos primeiros anos aos últimos é o homem-assim. tôda a sua qualidade individual para se tornar. O exercício da inteligência. para que se torne capaz de viver a vida ao nível em que a encontrou. dos conceitos. que permeiam a vida civilizada. o seu conteúdo. sociais. em modelos e em fórmulas ou conhecimentos. sòmente. urna consciência. A obra personalíssima do pensamento. assim.no meio social . que vão constituir um outro mundo de realidades. * * * Mas os resultados do pensamento e da experiência . de tal maneira. uma ação e uma moral apenas individuais. instituições. Todo o mundo da linguagem. o seu pensamento ou a sua consciência. ainda e sempre por um processo de educação. indefinido processo. E objetivam-se no ambiente . A educação reverte-se. em instrumentos. O ato pessoal do pensamento perde. que compete ao homem no quadro da harmonia natural. cujos meios e fins se confundem. isto é. como se confundem os da natureza e da vida. enriquecendo-o com sentidos ou significados. própria natureza. impossível se tornaria a direção do processo educativo. sôbre si mesma. então. exercendo as suas funções de animal de reflexão e de pensamento. . um instrumento permanente de p rogresso e mudança da. facilitar. confirmando o seu caráter de largo. instrumentos. realmente. Ninguém pode pensar por êle. constantemente. deve ser. enfim. por conseguinte. das generalizações e das técnicas. Tais processos são personalíssimos e tudo quanto se pode fazer é sugerir. para condicionar o mais desordenado esp etáculo de anarquia que se pudesse conceber. atua sôbre o meio. alargando. dirigir e corrigir. tornando-se. costumes. a fôrça intelectual de que é dotado serviria. dos significados. assimilado pelo homem. Se. sociais. os seus objetivos e resultados. adaptando-se e readaptando -se sem cessar. ou educar -se por êle. dia a dia. a sua compreensão. tão. a que o homem se adapta. com efeito. E se assim não fôsse. de reconstrução das próprias experiências.

E por quê? Exatamente porque o individualismo de inteligência. as rebeldias e revoltas. que. E incapazes porque. a iniciativa humana se exerce no sentido de melhorar o sistema de autoridade ou de melhorar a educação. o conceito de que a ação e a natureza se distinguem essencialmente da razão ou da inteligência. que se processa dentro de um jôgo de lógica subjetiva. entretanto. então. a inteligência como uma função da própria natureza. que não vai longe disso o que sucede. * * * A idéia da inteligência como uma fôrça absolutamente livre e estranha ao jôgo natural das realidades foi que levou o homem a tantos erros sôbre o seu funcionamento e. Mas. de tal sorte.Muitos dirão. através dos tempos. fazendo -a sofrer. precisando-se coerção para orientar a primeira ou. tem sido entendido como qualquer coisa de arbitrário e absoluto. por i sso mesmo que a teoria é compressora.todos os regimes aceitam. Por mais variáveis e numerosos que sejam os seus movimentos. êles se devem conter dentro de processos naturais e orgânicos. tornando -se um verdadeiro problema unir inteligência e propósitos ou fins sociais. de uma milagrosa lógica da inteligência. por isso que a desviam das suas condições reais. Repontam. criado por uma compreensão parcial do fenômeno da inteligência individual. seja o dogmatismo autoritário e coercitivo. a humanidade oscila entre os regimes autoritários e os regimes de pura razão ou pura lógica. naturalmente subordinaremos à autoridade coercitiva a ação humana. para a conformidade desejada. a um simples golpe de vista. seja o racionalismo lógico. Considerada. há de disparar na anarquia indlvidiial. Tôdas essas filosofias são. Com efeito. que ela deve agir dentro da estrutura da realidade que lhe é própria. mas prejudiciais ao seu próprio exercício. . como fundamento filosófico. tão natural quanto as outras fôrças da natureza. ambos incapazes de assegurar uma ação externa uniforme e correta. pelo contrário. aceita a tese. Se. Se admitimos que a teoria da inteligência é da sua incapacidade para dirigir se a si mesma. cujas condições podem ser previstas e ordenadas. Para a solução do problema.a fôrça mental. por fôrça. veremos. insistiremos por uma direção. o paradoxal da atividade mental é que ela se e xerce de acôrdo com os conceitos que adotamos. originário. não só impotentes para a direção da inteligência. até. porém. seja o idealismo objetivo . então. à prevenção receosa contra essa fôrça . entendermos que a inteligência é uma fôrça livre.

Considerando as instituições como encarnações da razão absoluta.era. No jôgo da liberdade de exame. o problema do desajustamento individual deixou de existir. ser consideradas como encarnações ou emanações. naturalmente. mas também da crítica da inteligência.característico da filosofia germânica . com instrumentos e objetos sociais. O pensame nto humano se processa pelos instrumentos de linguagem. não sendo possível à inteligência fugir a êsse caráter social. surgem. não da razão ou inteligência absoluta. os conflitos entre o indivíduo e as fórmulas dominantes do pensamento ou de moral. em criação de instituições. que se afirmaria à proporção que se identificasse com as instituições. serão estimuladas e encorajadas como ensaios de renovação e de reforma. na sociedade. quanto predominar. graças a processos regulares de inquérito e de conhecimento. em geral. Há e deve haver liberdade de exame e inquérito individual. naturais. O homem pensa em sociedade. mas da razão ou inteligência relativa e humana. podendo. Não sòmente a conformidade com o que está provado é tranqüila e pacífica. em particular. na sua adaptação às instituições a forma normal e regular do seu desenvolvimento. sendo a emanação e produto da própria razão humana. porém. talvez. apenas um problema mal pôsto. para a sociedade. para a conservação das instituições. deviam ser. como o inquérito individual se faz em particulares condições de êxito. as exceções e as discordâncias do normal.as imposições artificiais de autoridade ou as limitações de filosofias não menos artificiais. ganhou a segurança de si mesmo. longe de se tornarem conflitos. aliás. Liberdade de exame e inquérito não importa. Não há moral individual. todos eminentemente sociais. Em urna sociedade conservadora ou reacionária. de todos êsses artifícios. Com efeito. contingentes. Há diferentes morais sociais. as instituições são resultados da experiência humana. para que. o desejo de experiência e progresso. por isto. inevitàvelmente. com a tendência social à conformidade. onde o pensamento humano. por isso mesmo que é o recurso natural para o progresso do pensamento científico. nem HEGEL. realmente. que permitem o livre desenvolvimento das tendências e interêsses do homem. O problema do conflito entre a moral individual e a moral social tem sido. . O chamado idealismo objetivo . hábitos ou pensamentos individualistas. por tais motivos. tal filosofia criou um objetivo para adesão da inteligência. os conflitos serão tanto menos prejudiciais e tanto mais úteis. hábitos. No campo científico. objeto não só da conformidade. Mas. Porque nada disso pode existir. E isso pressentiu HEGEL e o pressentiu tôda a filosofia germânica. não se transmudassem em instrumentos de constrição e paralisação da sua própria fôrça renovadora. o que andasse mais próximo da realidade. A inte ligência tem. o quie não pressentiram a filosofia germânica. Em uma sociedade progressiva. foi que essas instituições. de instrumentos de libertação. costumes e instituições.

mais complexa. da natureza da educação tornar-se. de modo que a conduta de cada qual não seja imposta. Nem uma. Esta escolha ou decisão se fará. A educação nos apareceu como a conseqüência do aparecimento da inteligência. a subjugação das fôrças naturais foi simplesmente maravilhosa. É. Tôda distinção reside nos processos de raciocínio e reflexão utilizados em um e outro caso. sofre as limitações dêsse meio. pois. sendo tão sòmente o instrumento da sua contínua reconstrução. o problema de liberdade se põe sempre mal: ou como um problema de ausência de constrangimento físico. o método experimental. a educação e a escola Até aqui nos temos referido à educação como fenômeno normal da vida do homem sôbre a terra e em sociedade. desde que os processos de inquérito sejam regulares. em sua ação no meio físico. porém. um problema de liber dade de inquérito e de fixação das condições para que a mesma se exerça. não podendo fugir ao esfôrço de contínua reorganização dêsse outro meio. no sentido da instituição social ou do costume dominante porque. No panorama universal. tem sido coroado de êxito não pequeno. graças ao método experimental de conhecimento. mais vasta. dia a dia. Como os problemas de contrôle social.Tenhamos a coragem de elaborar os mesmos ou outros processos de inquérito regular para o pensamento moral ou social . sofre idênticas limitações.e teremos chegado ao mesmo acôrdo feliz entre o indivíduo e a sociedade. do mesmo modo a inteligência. o esfôrço prodigioso da natureza e do homem para construírem um mundo ordenado. encurtando tôda as distâncias e centuplicando a quantidade de energia sob o contrôle direto. porque se em relação às ciências físicas já a ceitamos. será tão difícil inovar nesse campo. Assim como a inteligência. em todos os seus aspectos. definitivamente. Tôda essa grande luta representa o esfôrço de educação do homem. ou como um problema de ausência de direção social. Nos últimos cento e cinqüenta ou cento e sessenta anos. em sua ação no meio social. C) A sociedade. vacilamos ainda em aceitá -lo integralmente nas ciências chamadas sociais ou morais. O homem refez materialmente o mundo. adaptado às suas condições e governável. no campo das ciências chamadas exatas. O problema de liberdade é. Tôdas as civilizações que existiram e as que existem aí estão fundamentando a afirmativa. por intermédio da experiência. dominantemente. que. nem outra coisa. na maioria dos casos. a fim de permitir as contribuições individuais de pensamento. reorganiza e refaz a vida. mais acumulada. Tais considerações tornam preciso e certo o caráter da educação como fenômeno social. mas fruto da sua própria escolha ou decisão. disciplina e govêrno estão sempre ligados à conduta externa. .

que os seu s passos se contavam por séculos. ao terminarmos a nossa educação escolar. aliás com os velhos aforismos human os . senão a consciência de que os seus deveres antigos . A escola era. ao lado do grande esfôrço coletivo de recons trução da vida. As mudanças são tão aceleradas que. Mais do que isso. que é preciso aprender. hoje. ainda não há. tão longe. . para se impregnar do ritmo ambiente e assumir a consciência de suas funções. onde se possam preparar as crianças para a participação em uma civilização técnica e dinâmica. do outro mundo. a escola teve que deixar de ser a instituição isolada. outrossim. Vida é. E comunicar é educar-se. viver é um difícil mister. porém. mais depressa há de marchar a escola. se a distância e a diferença de ritmo entre a escola e a sociedade permanecessem as mesmas de outros tempos. Mas há transformação maior ainda a fazer.. . A vida é.de guarda e perpetuadora dos valôres sociais . com maior ou menor consciência. Vai. onde se ensaiam. Tôda a vida do homem se faz em educação e por educação. que a reconstrução da vida se faz em condições. nos tempos que precederam o nosso. com efeito.o ritmo de transformação e mudança atingiu tal velocidade. que era. pois. tôda a vida social.e de acôrdo. tão lentos. Se depressa marcha a vida. a instituição consciente de preparo dos jovens para a participação na imensa tentativa reconstrutora. A civilização material é educação. transformouse em uma sociedade febril e dinâmica. métodos e experiências de reconstrução material. Enquanto o que havia a aprendeir era pouco.Nesse sentido. Por tudo isso. acidental. as mais das vêzes. que não podiam fàcilmente ser transmitidos na vida direta e imediata dos homens..só poderão ser cumpridos criando se dentro da escola um ambiente idêntico ao da sociedade. de uma sociedade de aquisições e movimentos lentos. senão parcialmente.uma grande e larga escola. sob os olhos de uma só geração. seria necessário começá-la de nôvo. entretanto. social e moral. imprevisíveis. não seria para espantar que a humanidade se contentasse com a escola que só êsse pouco lhe ensinava. comunicação entre os homens. as maiores dificuldades de comunicações e de livre ensaio foram dominadas e caíram as barreiras que restringiam a atividade humana . A natureza se fêz arte e. no imenso laboratório. A sociedade humana quase repentinamente. sem planos e sem previsão. muito adiantada a marcha da humanidade. Nem o homem sabia ainda bastante para fazer outra coisa. tranqüila. Urna escola. Desde que. porém. de estabelecer. nas suas adaptações e readaptações sucessivas. que totalmente se renova. por assim dizer. tão adiante já se acharia a vida . Dentro da transformação real que se vai operando ria escola. e educação é. a instituição que velava para que se não perdessem os esforços de conhecimento e de cultura. Antes disso o homem não cuidou. tôda a humanidade é um grande laboratório.

mais ordenado e mais rico. Mas se essa expectativa não se fôr . de tal modo as palavras de pessimismo estão hoje na ordem do dia.apenas. como pelo seu instinto de viver. . que a máquina e a ciência estão exigindo. A civilização industrial e experimental. que lhe vem dar confôrto e fôrça.e agora é que se acentua a transformação fundamental por que passa a escola . inteligente do aperfeiçoamento social . que o vem libertar. a de um dia melhor. Não havia nenhum milênio a conquistar. como diz JOHN DEWEY. É necessário que se não perca o grande esfôrço de uma prolongada série de erros. com sentido mais amplo. e reconstruir melhor. a sua própria vida. O industrialismo. sobretudo momentos para atos de coragem mais inteligentes. Os momentos de pessimismo são. pròpriamente ditas. Apenas. A máquina .As escolas. Depois de um entusiasmo exagerado e complacente.com o domínio pelo homem de grandes segredos da natureza . de ajustamentos e de regularização do processo social. E os problemas de reconstrução da vida huma na se debatiam na própria vida. as crises prolongadas e a incerteza de nossos dias são fatos naturais. alterou todo êsse quadro. por fôrça de sua natureza. o está fazendo morrer à fome. eram casas pacíficas de cultura literária e artística. já agora vai bem arrefecido o calor místico por uma imediata conquista do milênio. o está escravizando. Retomemos a obra do princípio. que tão sòmente deverão levar o homem a se preparar ainda mais. transmudada em trágico tumulto de idéias e propósitos. A liberdade de julgamento pessoal e de auto -direção o está asfixiando. A escola não pode ficar no seu estagnado destino de perpetuadora da vida social present e. Não nos é dado dizer de antemão o que poderá representar de correções. excedido e subjugado pela sua própria criação. O homem vive não tanto para ser feliz. Os instintos adormecidos dos homens. urge que não entreguemos ao acidente e ao acaso o que podemos prever e planejar.deram à ilusão humana um resplendor nôvo e uma nova esperança. e já começam a se colocar na defensiva os últimos entusiastas. A queda dad barreiras naturais . destinadas a atuar na formação de um corpo de fiéis às tradições do estudo e saber.com a conquista da liberdade de experimentação e ensaios . porém. concedendo todos um imenso crédito ao fatalismo e ao acidente do progresso. Não que acreditemos que o homem volte atrás. Precisa transformar-se no instrumento consciente. Os homens confundiram mudança com progresso. seu verdadeiro fim. O dia presente o ocupa e absorve. e a expectativa de amanhã é sempre. o aproveitamento inteligente ela escola para êsse fim. recentemente erguida. as suas aspirações e esperanças mais profundas se alvoroçaram. A grande tarefa dos nossos dias é preparar o homem nôvo para o mundo nôvo. E as confusões.e a queda das barreiras intelectuais . Até agora. temos um homem ainda antigo.

Há mesmo tôda uma série de questões que nem sabemos se chegarão a ser resolvidas. pela doutrinação sistemática de alguns conhecimentos e alguns preconceitos compendiados. Se a escola tem de corresponder aos deveres antigos de conduzir os homens à participação nessa cultura. Fatos novos e novas fôrças estão a determinar transformações possìvelmente essenciais. aos deveres novos de os preparar para guiar a sua própria renovação. a sociedade e a civilização que vamos possuindo têm chegado a tal complexidade. o método experimental franqueou às inteligências novos recursos. Não será nos curtos anos de uma escola primária. que a custo se podem definir com precisão. que se poderão transmitir os conceitos e generalizações . que bem poucos são hoje os h omens que alcançam compreendêIas em tôda a sua amplitude e em tôdas as suas projeções. há um sem número de tendências. A escola. A escola. A ciência está em vésperas de resolver os problemas econômicos. em maneiras mais finas de apreciar e compreender. Por outro lado. O progresso não consiste nas mudanças materiais que sofre a vida. que os mestres aprendem e transmitem. para resolver os problemas mais intrincados. ao lado de uma cultura complexa. em amplitude. E é mister que se despenda muito esforço. os problemas sociais. até os dias de hoje. mas no enriquecimento dela em sentido. e só por ela. é ainda tão sòmente uma esperança. Não é. se a quisermos ver transformada em realidade. A civilização material tornou um mundo de coisas possível e fácil. mais do que isso. como instrumento de renovação social. desde que nos utilizemos da escola como uma instituição inteligentemente planejada com o fim de preparar o homem para uma existência em permanente mudança da qual êle fará permanente progresso.confirmando. difícil de ser compreendida e assimilada. em quase tôdas as instituições em que repousa a vida humana. nem com o professorado a que habitualmente entregam as nações as suas crianças. Com efeito. porque assim o digamos. . Dir-se-á que isso tem sido a escola. e o homem pode ser educado de modo a evitar a maior parte dos seus problemas de desajustamento moral e social. exato. não será de azedume que se há de lhe encher a vida e sim de um pouco mais de reflexão e de filosofia. Por fôrça dessas circunstâncias. porém. nessa civilização e.bem podemos ver como deve ser profunda e corajosa a reconstrução por que essa escola tem de passar. e de problemas.apenas a continuadora da vida social passada (nem ao menos a presente!).as melhores dentre elas . vivemos em uma civilização em que. Êsse progresso é possível por meio da educação. codificados. tem sido . cujas soluções nem sequer estão ainda entrevistas. Uma compreensão clara e eficaz da cultura contemporânea não poderá ser obtida sem uma ampla formação científica e social. Urge que ap roveitemos êsse pouco de reflexão e de filosofia.

Mais. Exigem -se. Êles têm a longa e iluminada convivência das crianças. generalizações. integrada na mesma finalidade. a fim de que acompanhe a evolução humana. a um pequeno grupo selecionado de alunos. que ainda não foi tentada. a compreensão das tendências múltiplas e variadas a que ela vai obedecendo. É muito. antes que a façam na rua. outrossim. a pequenina escola de outros tempos. tendências e problemas só agora começam a emergir. mais nítidos e claros. nem de fácil execuç ão. não é tarefa simples. ela. e êsses exércitos irão tentar a renovação da humanidade. que são o objetivo mais digno do amor e da dedicação humana.a escola para todos. Em vez de bacharéis. a grande aventura de democracia. Não sòmente lhe exigem conhecimentos adquiridos. a fim de concorrer para o enriquecimento e o progresso da existência humana. compreendendo os segredos e incertezas de um mundo complexo e mutável acessível à simpatia e à tolerância para com as tendências mais opostas. mas de inteligência aguçada e alerta. Não se lhe pedem sòmente as técnicas e os conhecimentos atrasados ou simplistas. E só assim a escola cumprirá as suas funções. que confundiam o sossêgo das suas tradições e do seu passadismo com a serenidade do próprio saber! A escola de hoje viu. muito meno s. realizar com eficiência a nova educação de nôvo homem? Como nos parece distante. Êles sabem as reservas de frescura que enchem os corações e as inteligências dessas crianças.que fundamentam a vida moderna. de pequeninos Sócrates. Nada menos do que isso. até os últimos. Êles vivem em contato com elas. Todos aquêles conceitos. de preparar a escola . em cujo alheamento é impossível viver. informação de tendências indefinidas e problemas controvertidos ainda sem solução. sentindo que a vida evolve um pouco pelo seu esfôrço próprio de melhor agir. nem ainda os dados essenciais dos problemas em que se debate. Consagraram a sua vida ao esfôrço mais progressivo da . e para os analisar. de repente. de estudo e de recurso. dirão todos. a Revolução. nem. transmitindo técnicas rudimentares e conhecimentos de 10. queremos pedir à escola a formação. 20 e até 50 anos atrás. E o estudante não há de sair apenas adestrado e eficiente no seu trabalho. à vista disso. em série. Pede-se-lhe também a transmissão das últimas conquistas da ciência e da cultura. as suas classes invadidas por tôdas as crianças. Que dizer. pois.para. Preparar o professor para compreendê-los bem. Isso não será possível nem realizável. . E mais ainda. de grandes sínteses que se vão tentando de nossa cultura e de intrépidas análises de fatos e objetivos. ao invés do pequeno punhado de favorecidos ou escolhidos. trabalham exércitos de paz maiores que os exércitos de guerra: os exércitos de professôres e de educadores de todo o mundo. Dêem-lhe os elementos de cultura. E para que isso se realize. É verdade. que outrora a freqüentava. E só assim a escola poderá fazer.

Origem geral dêsse êrro: a imperfeita organização social. Ilustração demonstrativa da inversão que se opera. há longos anos. passivo. Separaçã o da moral das atualidades presentes da vida. Diferentes aspectos dessa concepção. E onde tudo está crescendo. dirigida inteligentemente. Moral convencional. razões de crer. de lutar e de esperar. Desenvolvimento da teoria de John Dewey a respeito do seu verdadeiro funcionamento. como disse. Êrro de fato e êrro de compreensão. um formador vale mil reformadores.e se empenharam na tarefa mais grandiosa que é possível . êles trabalham em um ambiente onde tudo está crescendo. na ordem real dos fatos. A) Moral científica e moral tradicional .a de formar homens. Moral dos ³homens de ação".o da cultura e do saber . HORACE MANN. B) Análise das três premissa s basilares e de suas conseqüências. Concepção da filosofia do século XVIII. Concepção atual da natureza humana. Identidade da atividade com o próprio fim da vida. Moral "natural". vida de alguns homens. ideais. Êles (os professôres e educadores) têm. Êrro de fato: o homem é. Vida é preparação. III) As regras da conduta humana fluem de princípios eternos e estranhos à experiência positiva dos ho mens. pois. Princípios extra-humanos ou. Necessidade de fundamentos experimentais para os "princípios" ou ³hipoteses" diretores da moral. Espiritualismo e materialismo. lI) A atividade humana é um simples meio para se atingir o bem. A função do conhecimento. I) A natureza humana é corrompida ou bárbara. com a explicação da moral tradicional. O bem ou a felicidade está na atividade presente. Determinismo spenceriano do século XIX. E. que é um fim estranho ou superior a atividade. por sua natureza. a atividade é um dever. Moral "espiritual". Êrro de compreensão: concepção inadequada do funcionamento de meios e fins na vida humana. CAPÍTULO V A conduta humana A) Moral científica e moral tradicional.humanidade . segundo Dewey. puramente. Identidade das premissas fundamentais dêsses diferentes aspectos da "Moral Tradicional". Indeterminismo do progresso social ou moral. C) Conclusão. vítimas do mesmo equívoco. Concepção religiosa da natureza humana. mais que tudo isso. Exceções: vida infantil. A organização atual da vida justifica êsse êrro.

Longe de nós a suposição ingênua de que se irão suprimir da vida as suas perplexidades. como em relação às ciências naturais quando eram t ratadas pelo método da magia. Daí decorre que o reinado da moral ou do bem. a malária que lhe mina o organismo. como ontem. êle continuará a rezar. E como uma e outra coisa são mais ou menos impossíveis. em que se acha. as suas incertezas e os seus fracassos. E isso por quê? Porque.absolutamente incapazes de progresso. Reputavam -se. Ainda encontramos. É o estudo recente da n atureza biológica e social do homem. Tem sucedido com a Moral uma coisa semelhante. é estranho à natureza humana. nas religiões. uma coisa e a fazer outra. de purgar nesta vida os pecados de vidas pregressas. uma ciência da saúde. Para o indiano. vestígios dessa concepção. senão pela oração e penitência. com aquêle indiano. afinal. em bases positivas e científicas.têm partido do pressuposto de que a natureza humana é essencialmente má e que o ideal seria se a pudéssemos substituir por qualquer outra coisa. E tornando-os. mas pela necessidade. apenas nos faz mais infelizes. não é causada pelos germes com que o infetam os mosquitos. E também ela está a passar por uma transformação sensível.Á UMA CIÊNCIA da moral e da conduta humana. Para todo o sempre. nós continuamos a pregar. Essa transformação deve impregnar tôda a vida da escola. em moral. não poderão progredir. que nos deverá dar. Hoje. a biologia ou a patologia. mas chegaremos a explicá-los. como os moralistas o concebem. Não há. o papel p redominante na formação do homem.ao traçarem a ciência do Bem . Até os dias de hoje a conduta humana não se pôde guiar por conceitos positivos e experimentais similares aos que caracterizam as demais ciências. H . estamos como estávamos em relação à ciência. Qualquer coisa acima ou fora dela. a fazer penitência .. baseada no estudo objetivo da natureza humana. Está claro que. Que era a magia? A sua concepção básica era a mesma da ciência causalidade dos fenômenos. o problema tem sido fundado em pressupostos falsos. no tempo da mag ia . se é que lhe cabe. outro meio de tratar -se. Não se irão suprimir. misteriosas as causas que governavam êsses fenômenos e misteriosos os meios de controlá-las. A essência da magia está aí: o tratamento dos fenômenos naturais como efeitos originários de causas misteriosas. compreensíveis. Os moralistas . enquanto assim pensar. porém. da eficiência e da felicidade do homem.. a que temos de conformá-la ou que temos de conquistar com o sacrifício dessa pobre natureza. conforme vimos. dêsse modo. torná-losemos aproveitáveis para uma crescente reorganização do futuro. E a moral que nos devia fazer felizes. pois. como há vinte e há trinta séculos. e a ter malária.

a Moral. pois. Importa. Nem ser muito bom. entretanto. Quando chegarmos a conceber o mal como um simples funcionamento anormal dos órgãos bio -sociais do homem . Parece muito radical tal modo de ver? Mas não haverá outro meio de progredir. A separação da Moral das atualidades presentes da vida e da natureza humana. se tivesse de obedecer a êsses princípios? Estaria onde está ainda. teremos dado o primeiro passo para uma ciência moral. para a necessária aprovação social. os homens. torna-se a essência da moralidade. Os bons esbandalhariam a máquina montada com tanto saber e sagacidade. acima de tudo. como os bons é que. dão às fórmulas convencionais da moral a sua pequena substância. no final de contas. é o dos homens de ação. termina por codificá -la em uma série de prescrições proibitivas. entretanto. a que se dá o nome respeitável de moralidade convencional. O crime maior é o de quebrar as normas dêsse quadro incolor de convenções a que se apelida de boa educação. ainda nos dias de hoje. Não fazer.o que quer dizer ineficiente. nem ser muito mau. Em vez da moral "espiritual". O primeiro. prêsa a preconceitos imutáveis e eternos. e tivermos para com êle a mesma atitude experimental que temos para com os males físicos. Frios e calculados. Nem todos convencionalismo. pelo menos.A grande transformação estará em fazer da conduta moral do homem uma conseqüência dos conhecimentos positivos a que o homem vai chegando em fisiologia e em psicologia. No comércio. Nada. Mas. para a grande maioria. três grupos que fogem à classificação niveladora. Para êsses a moralidade convencional é uma capa em que urge revestir os atos . ser neutro. Evitar a excentricidade. Evitar os extremos. Ser bom é ser sentimental . e como tais fórmulas é que os . como não houve outro meio de progredir na medicina ou nas ciências. uma moral experimental baseada nas conclusões de uma ciência do homem. mais natural do que a espécie de desprêzo intelectual que prevalece neste grupo pelos bons. O seu dogma fundamental é o da conformidade com o rebanho. a resumir-se em um conjunto de costumes e praxes mais ou menos puros e mais ou menos cômodos. se fecham dentro dêsse Há. Imaginemos a medicina jungida a uma série de princípios eternos alheios a os resultados da experiência. Entretanto. resguardando -se depois as aparências. Imaginemos a medicina governada pelos princípios morais daquele indiano citado atrás ou do próprio Joseph de Maistre que também considera a doença um castigo sobrenatural ao pecado original! Onde estaria a medicina. isto é. fazer as coisas do modo mais eficiente possível.digamos assim -. vem. reivindicam o papel da inteligência na vida. Na prática. na indústria e na política é essa a moralidade que prevalece.

inclusive a moral. nesse dia. As regras que governam a vida dêsses homens de ação são. o que realmente glorificam são os impulsos. com efeito. com um golpe hábil. e manipulam devidamente os meios. os males que provocam as suas instituições. Nunca uma concepção de individualidade foi tão limitada e. Na vida êles querem alguma coisa e o querem com fôrça e lucidez. as mesmas que espalham pelo mundo 50% dos sofrimentos que nos atormentam. E assim seria. é capaz. Não tendo a fôrça de vontade e de ação que permite ao primeiro grupo utilizar-se da moralidade convencional para a realização dos seus próprios fins. ali. Não percebem nem de longe a hipocrisia do seu procedimento. No comércio. se tudo se passasse com tamanha lucidez. Submeter-se às paixões. outras. tão ininteligente. tornando-se delas miseráveis ou elegantes escravos. êsse segundo grupo condena a moralidade convencional como um obstáculo ao desenvolvimento ³natural´ da personalidade humana. E a consciência se acomoda a umas e outras com invejável satisfação. portanto. Mas. em nenhuma classe se encontra maior respeito aparente e maior desejo de prestigiar os bons. E nada é tão amargamente irônico como a "proteção" que êsses homens de ação e de dinheiro costumam dispensar às obras de certas abnegadas associações humanas. São antes de uma candura mental invejável. a ironia está em que êles são os primeiros iludidos. para consegui-la. não se conformand o com a moralidade convencional. então. O segundo grupo é o dos que. destinadas exclusivamente ao bem e ao sacrifício. o que admirar na sua freqüência às casas de caridade para compensar. O homem que. as regras são umas. atiram-se românticamente nos braços do que êles chamam a ³natureza´. pelos menos. talvez.tudo que é mais vulgar e menos pessoal na natureza humana. um conceito de personalidade que é a negação de todo bom senso e de tôda elevação humana. dos gestos mais extraordinários de ³humanitarismo´. inteligentes. na festa de caridade. causando males de que êle mesmo não sabe calcular o alcance. Escandalizar os burgueses é o dístico romântico que insculpem em seus escudos de Dom Quixotes do prazer. Os grandes burgueses são. com a esmola do fariseu. . E constroem.amparam no conceito público. Na sua glorificação da ³natureza´. é a fórmula suprema da liberdade. conseguiu arruinar um concorrente. E tudo isso só é possível porque um falso conceito das instituições humanas e uma falsa moral os defendem e amparam. sobretudo. os apetites e os desejos . Aqui. Não há.

bem possìvelmente. viva e sutil no mundo mental. êsses são perfeitos e felizes. Bem certo. exige que a renunciemos . A vida de ação. porém. Êsse orgulho gera uma inumanidade característica. um terceiro grupo. As fórmulas doces do amor dos homens não são percebidas por êsses cavalheiros do espírito. êsse grupo confirma os outros dois. Há. O isolamento mental em que se comprazem. A sua ação continua. Com a análise inquieta dos seus motivos de ação. os que viajam na planície. Se a vida moral exige que desprezemos a própria vida. em favor dos outros. Vivem a perscrutar a natureza íntima de suas ações. permitiu todos os suplícios e que hoje continua a permiti-los sob formas mais sutis e mais encobertas. Êsses se preocupam com o progresso espiritual de suas almas.de que mais se precisa para provar que ela está errada. É o dos que tomam a sério a moral como qualquer coisa estranha às atualidades da vida e à natureza do organismo humano. A vida daqueles apaixonados da "natureza". Mas. na vida moderna. E o desprêzo pela humanidade co m que êles . Foi tal inumanidade que. É uma razão. Não é verdade. está afastada de seu objetivo? Segundo. êsses vingam a maldade e a corrupção dos outros. Êsse grupo ainda forma muitas inteligências. de polít ica . o desprêzo que alimentam pela vida material. refugiam-se num amor tolo e indiscriminado à natureza e aos seus impulsos. A "vida quotidiana" é para êsses homens uma coisa atroz. estão longe da pureza imaginada os componentes dêsse terceiro grupo. em outros tempos. por isso que êsse grupo está hoje. porém. a sua inofensibilidade aparente parece não justificar tão rude sentença. dir-se-ia. de negócios. o que. a convicção em que se mantêm de que são os últimos homens de espírito em um mundo sórdido de materialistas. fazem brotar em seus corações uma qualidade de orgulho de que não têm sequer conhecimento os homens comuns.a inconsciência organizada. às avessas. vencidos no que desejam. pelo menos.Aquêles românticos. uma degradação sem limites. Primeiro. Com a perfeição interior. Vivem fora do mundo. desprovido de possibilidades de ação. seria o mesmo que os burgueses.

a vida vai -se tornando pior. e governado por p rincípios. E. tal qual ela é. Analisemos as premissas em que se funda essa moral que faz da vida de cada um a tragédia ou a comédia que todos conhecemos e. dá -nos direito a condenar a sua influência. Os "rebeldes" que buscam numa forma inferior de libertação a revelação de suas "individualidades". por isso que à medida que se alargam as nossas responsabilidades. com tudo isso. por essa causa. como ainda não assumiu certas responsabilidades concretas na vida. a irreconciliabilidade dos diferentes aspectos da vida e. os idealistas inumanos. indiquemos o que nos pareceria a correção dos seus erros. como foi entendida até os começos dêste século. fanático e ardente. segundo idéia tão esdrúxula. em essência. São três as premissas fundamentais da moral tradicional.infeccionam essas inteligências. Segundo essa concepção . A infância é melhor do q ue a idade madura. pois. que desprezam a ³natureza".e aí se trai o seu verdadeiro conceito da vida quanto menos se vive melhor é a vida. inadaptáveis às nossas condições de vida. então. as dec epções. e deixar transcorrer a vida entre as ilusões e as obrigações amenas e suaves que os homens lhe distribuem nessa época da existência. à medida que se enche de sentido a vida. virão os desgostos. mas tão comum. O ideal. O grupo dos homens de ação que se utiliza de tudo isso para a realização dos seus propósitos e que defende. desprezam a "ação" e se fecham em um egoísmo espiritual. a moral cômoda que lhes permite os triunfos. Está aí o panorama moral do mundo. Todos sofrem do mesmo êrro de considerar a moral como um domínio estranho à natureza. por último. A mocidade. a intranqüilidade e a infelicidade. que a vida nos pareça sem sentido e a felicidade um nome vão e irrisório? É a isso que se prende a divisão arbitrária da existência em dois períodos: o dos sonhos e o da realidade. seria a permanência da infância. Mas tão falso é êsse estado de coisas que todos o sabem precário e passageiro. com a dissociação a que se submete o espírito. pode dar-se ao luxo de certos idealismos irrealizáveis. Amanhã há de se escolher entre o rebanho e os grupos rebeldes e. do mesmo passo. Que admirar. O grande rebanho humano servido por uma moral convencional que se resume em aparências e em preconceitos. .

porém. na terra. o modo de justificar a ineficiência das suas teorias. len tamente. A própria concepção científica do século XIX ainda participa. buscados já em uma revelação extraterrena ou em uma lógica puramente dedutiva. que se não pode modificar sem graves prejuízos para os homens. mas a idéia de que a natureza humana vinha. renovar a descrença antiga na natureza humana. evoluindo de formas primitivas e bárbaras para um progresso social que seria demorado. que era estranho ou superior a essa atividade. mas constante. dessa enormidade. embora sob outro espírito. Depressa. As tendências humanas foram divididas em boas e más. nã o havia como explicar o desajustamento entre os homens e os dogmas morais. A teoria da evolução e a filosofia social determinista do século XIX vieram logo. Os teoristas do século XVIII transferiram para a natureza. de algum modo. êsse naturismo sentimental foi sendo mitigado. 2ª) Considerar a atividade humana em si. por certo. Essas três premissas fizeram da vida humana a trama obscura e contraditória onde não há lugar para a felicidade. todos os elogios líricos e sentimentais com que se costumava agraciar a lei divina. a suspeição fundamental das velhas superstições religiosas. incapaz de chegar naturalmente a um desenvolvimento feliz. não como o bem. . como primeira reação. entendida como resultado de um desenvolvimento normal e progressivo da individualidade.1ª) Considerar a natureza humana como qualquer coisa impura e corrompida ou bárbara. porém. Os moralistas encontraram. senão afirmando a corrupção intrínseca da natureza humana. como resulta do da degradação original. quase sempre prevalecendo sôbre aquelas. 3ª) Considerar que as regras da conduta humana fluem de princípios morais preconcebidos e estranhos à experiência racional ou positiva. como obra de um deus benevolente. estas. Seguir a na tureza era ser perfeito. Desaparelhados de quaisquer meios de estudar a natureza humana e imbuídos de estranhos princípios morais. B) Análise das três premissas basilares e de suas conseqüências A idéia de que a natureza humana é corrompida e indigna de nossa confiança vem dos tempos mais remotos. Por certo o deísmo filosófico do século XVIII. Descubra-se a lei natural. nessa fórmula. Não era. foi exatamente para o outro extremo. conformem-se os homens com as suas determinações e renovar-se-á. o velho paraíso lendário para sempre perdido. Nem essa concepção foi puramente a concepção religiosa da natureza humana. Êsses princípi os se prendem a uma ordem espiritual sagrada. mas como simples meio de atingir o bem.

das leis que regulam a inferioridade e a su perioridade humanas. Para SPENCER. A harmonia universal ainda não havia chegado. como uma fôrça benevolente e progressiva. pois. a nossa concepção da natureza humana? . as suas antipatias e transforma-se em um fator nôvo. Conhecer as leis naturais não importa em aquiescência a elas. Qual. Era questão de tempo. resultaria. errôneamente.Estamos. vista à luz da concepção evolucionista. os seus desejos. A perfeita harmonia do seu evolucionismo social é tão utópica quanto o milênio de seus antepassados. o homem pode. Poderemos lá chegar por uma obra de inteligência. Os males morais do mundo. A teoria de que o conhecimento das leis naturais leva. em fazer multiplicar os mosquitos porque descobrimos serem êles a causa do impaludismo. A descoberta. Que diria SPENCER se tivesse vivido até os nossos dias? Se tivesse assistido à Guerra? Se conhecesse a perturbação do Após -Guerra? O seu engano estêve. na verdade. pode levar os homens a querer fortalecer a capacidade de alguns em prejuízo de outros. tão sòmente. mas chegaria . com os seus propósitos. Mas.. segundo DEWEY. pelo homem. Importa em poder controlá-las. em poder usá-las nesse ou naquele sentido. E tudo depende. Por êsse conceito da necessidade do progresso social. a que se aliaram novos elementos. SPENCER com a sua doutrina evolucionista é o grande sacerdote dessa época. que SPENCER vaticinava para a sociedade humana.. à conformidade com elas. realmente diferente. o homem devia conhecê-las para se conformar a elas. Conhecendo-as. ainda. há mais do que isso. por meio de engenhosas combinações. do jôgo das leis naturais. a inaptidão do homem para fazer a sua felicidade. do uso que iremos dar a essas leis. por exemplo. no século XVIII. mas não chegaremos por nenhum fatalismo evolucionista ou histórico. as falh as humanas de que o homem só se poderia emancipar por um lento processo evolucional de aperfeiçoamento. em não ver tôda a importância do conhecimento. os endeusadores da Natureza. como diz DEWEY. haviam apenas errado quanto à data. então. do fato ignorado. que vão modificar a própria estrutura das coisas. E é isso que inabilita a teoria do progresso necessário. operando. modificar-lhes os resultados. voltam a ser imputados à natureza humana que já não é corrompida. A evolução. Mas é. mas atrasada e má. de uma ordem benevolente da Natureza. entretanto. O fato uma vez conhecido torna -se diferente. talvez. É a teoria do século XVIII. guiá -la-á de estágio a estágio até a harmonia universal. longe da teoria da corrupçao original. uma noção de primitividade e rudeza a explicar. Conjuga -se com o homem.

Em resumo. Dentro do quadro dos flexibilíssimos instintos humanos. as mudanças sociais. mais ex atamente. virtualmente. Os seus instintos têm mil modos de expressão. A natureza humana não é mais que a matéria -prima. simplesmente. o acaso. Com o conhecimento progressivo que vamos tendo das causas e efeitos nas ciências sociais. nem boa nem má. pelas diversas armas do autoritarismo e do tradicionalismo. Não há nada que justifique. Quase nada é fixo. impossível. que êle torna. como tudo tem sido tentado. talvez. as conseqüências do seu ato. mais formidàvelmente complexo. . O homem é simplesmente um animal em que a obra de ajustamento ao seu meio. assim. o acidente. por certo. não estamos com os que a supuseram angélica e desviada tão sòmente de suas verdadeiras vias. recordar o passado e prever. Estamos. tudo poderá ser tentado. reputamos a natureza humana essencialmente mutável e essencialmente mutável como um corolário disso. Todos os demais animais se ajustam ao meio com um a considerável fixidez . que só o é. pode assumir as formas mais diversas. O homem. dia a dia. assim. leis inflexíveis para o seu progresso. pois.Não estamos com os que a supõem corrompida ou depravada. que talvez ainda esteja a sofrê -las. criando hábitos. longe de se fazer por processos fixos e estáticos. até hoje.e esbarram em uma perfeição. dotado em grau mais alto do poder de observar. para a evolução de sua natureza biológica. simples hipóteses que se poderão aplicar na reconstrução so cial. nem em seu ambiente. Tôdas elas são suscetíveis de direção social. A ordem social é um produto humano que deverá ser julgado pela maior ou menor amplitude com que permite ao homem a plena expansão dos seus valôres. . nesse ou naquele sentido. importando sòmente achar-lhes o caminho adequado. Dependerá da sabedoria dos homens conduzir ess as mudanças para a sua felicidade ou para a sua infelicidade. Não há. para a sua natureza social. com a concepção mais experimental de nossos dias. Houve. Mas. é que nos irá sendo possível traçar certas leis experimentais ou. não houve leis. que fornece as condições e os limites para a ordem social. e não estamos com os que a supõem animada de uma fôrça evolutiva ascensional que a levará à perfeição. por analogi a.cria e recria o seu ambiente. eternizá -los nessa e naquela forma social. Houve -as. afirmar -se que uma lei imanente qualquer governa o progresso social. ou.que não é entretanto absoluta . porque a mudança se tornou. hoje. a ordem social. O bom ou o mau será o que expande ou o que comprime as tendências humanas. e o próprio home m buscando consolidá-los e tentando. nem em sua natureza.

repara as suas faltas milenares. * * * A segunda premissa da moral. os mesmos. é a que considera a atividade humana. aqui e em tôda a parte. mas a se exprimir em formas violentamente antagônicas. Tal visão não é inteiramente exata. mas as formas sociais por que se exprimem. E de tal modo o homem muda e mudam as instituições. que defin e a vida como um exílio ou uma prisão. sempre se organizando sob os mesmos moldes e sempre caindo nos mesmos crimes. . mas simplesmente em função do sofrimento que aflige a humanidade. em sua generalidade. Não nos interessa uma teoria que ponha a felicidade humana fora desta vida. onde o homem. ou a virtude. também se insinua o êrro sutil de divorciar o bem. por uma falta original obscura. para vingar idêntica afronta. que não há dois momentos inteiramente idênticos na história. É o mesmo instinto. êsse fim externo a alcançar. sob o impulso dos mesmos instintos. revive nessa idéia. mais do que essa. não é isso o que vemos. Dentre as muitas formas que assume. da atividade pròpriamente dita.Mas. Mas. Fora dessa forma. ou mesmo a salvação futura. como foi entendida pelos moralistas. a felicidade. no trabalho e na dor. corrutora do verdadeiro crit ério para julgar-se a vida. A realidade é bem outra. como simples meio de atingir o bem. A realidade é o homem. Pretendem essas teorias que o fim. O que vemos é a natureza humana sempre a mesma. nem dois momentos inteiramente idênticos entre povos diferentes. considerando aquêle bem e aquela felicidade como qualquer coisa futura ou exterior à atividade. sob os olhos do ofensor. talvez. ou a perfeição. cujo radicalismo ainda prevalece. O conceito do homem degradado. E na China. e que nos parece errônea. seja o prazer ou vantagens utilitárias. em si. matando o homem que o ofendeu porque é uma desonra esquecer ou perdoar a ofensa. na civilização do ocidente. dentro das que a põem aqui. o mesmo home m rasgando o seu próprio ventre. há outros aspectos que assum e a mesma idéia e cuja discussão tem maior importância. o que as torna errôneas é o simples fato de considerarem a atividade presente como um simples meio para atingir aquêle fim futuro. Os instintos são. dir-se-á. neste nosso pequenino planêta. as mais variadas e as mais diversas. Nenhuma idéia é. a mais popular é a que faz da vida presente uma simples preparação para a vida futura perfeita.

no pressuposto implícito de que o homem é. o futuro é sempre uma decepção e. ativo. do que os que esperam que êsse jogo de castigos e prêmios venha dar. A fidelidade à moral nesses dois últimos aspectos. Trabalhar vem a ser. explícita ou implìcitamente. Sob o aspecto lógico. O homem comum e simples prefere logo o céu futuro. E o que dirige a atividade humana? A virtude. mas virtude e vício adquiridos. a perfeição universal. o trabalho humano sofreu tais deformações. No fundo de tôdas essas filosofias morais reponta sempre essa idéia espantosa: um estado de preguiça ilimitado e eterno seria o estado de felicidade. a menor é a que vem do trabalho. aqui mesmo. andam mais acertados os que transportam essas penas e recompensas para uma outra vida. por natureza. transforma -se. nunca se registrou senão em uma pequena elite de grande cultura. Tôdas as teorias tradicionais de moral baseiam -se. Mas. Dêsses erros de nossa organização social retirou a moral o seu julgamento absurdo do homem. . e que a atividade é o dever a que o devemos compelir. de fato. o homem é. então. por excelência. um êrro d e fato e um êrro de compreensão. Êsses é que são os agentes estruturais de sua atividade. onde afinal as penas humanas se aliviam definitivamente? Aí está a razão por que a idéia de uma outra vida ainda embala a consciência popular com maior prestígio do que a idéia de um bem a conquistar dentro dessa vida terrena. Por isso que a atividade é estúpida ou desajustada às molas íntimas que movem o homem. precisa de estímulos. mas como êsse é. em tôdas essas teorias. criado para não sei que estado de êxtase perpétuo. seja o prazer. Não é difícil mostrar de onde decorre tal concepção. na raiz de tôdas essas doutrinas estão. O êrro de fato consiste em supor o homem um animal inativo. pois. senão dormir na ilusão de um outro mundo. que sem um regime de penas e recompensas o homem não poderia conduzir até o fim. seja a virtude ou seja a realização da p ersonalidade.. o moralista conclui que aquela atividade é o fim moral do homem. Muito ao contrário. por sua natureza. Os próprios impulsos e desejos de seu organismo. para fazê -lo agir. no correr dos tempos. portanto. Precisamos descobrir vantagens. em uma tarefa dura e árdua. os resultados prometidos. preguiçoso e imoral. ao que nos parece. também mau. mostrar-lhe que das diferentes penas.. que se tornou realmente contrário à natureza do homem. A preguiça é . de penas e recompensas para não jazer em uma nirvânica indolência. passivo. O presente é mau. que resta.A vida presente. o prazer. em um fardo. uma verdadeira pena. a bem -aventurança futura? Nada disso. A vida social organizou-se em condições tão anormais. por sua natureza. um vício ou uma virtude.

tal atividade não seria possível. devem ser os próprios meios de direção e reconstrução da atividade. o homem pode reorganizar tôda a atividade primitiva. é escolhida. os fins pudessem ser obtidos diretamente. O seu fim era reconstruir a atividade interrrompida. Em imaginação. No princípio é a atividade. Tal curso de ação lhe apareceu como suscetível de operar a reconstrução de sua atividade. O fim real do homem. lhe parece mais capaz de reatar o curso de sua atividade. E aí está. tornando -a mais significativa para a sua própria vida. a série de atividades em que a vida humana transcorre é contìnuamente salteada de obstáculos. para empregar o próprio exemplo a que alude JOHN DEWEY. . ter-se-ia a seguinte extravagância: Imagine-se. dos moralistas. e o homem tem a capacidade de observá-las e recordá-las. o êrro de compreensão com relação ao modo por que funciona em nossa vida o que chamamos de fins e meios. é o de viver. Se não existissem alvos. De modo que o fim em vista que resolveu escolher dentre todos aquêles que lhe surgiram em sua análise da situação. que passa a existir sòmente como meio de atingir aquêles fins. é. Na próxima vez. por qualquer processo. Mas. Por que os homens atiram ao alvo? A resposta conseqüente dos moralistas é a de que os homens atiram ao alvo porque existem alvos. Diferentes desejos lhe nascem no organismo. Se se quisesse fazer funcionar coerentemente a moral tradicio nal na explicação de nossa conduta. sem esfôrço. vêm em seu auxílio. o meio pelo qual vai reorganizar a sua atividade. no fundo. conseqüências. êle dramatiza as diferentes soluções. os homens agem. porque êles existem. revendo em imaginação o que se deu. o único fim substancial. Os fins existem antes da ação humana e. Recordações passadas e a observação do presente à luz dêsses conhecimentos anteriores. entretanto. mas antes de uma importância inacreditável para a inteligência da vida. de sua atividade prosseguir. É o período da deliberação. tudo isso se inverte. Se. repetimos. pois. No princípio é a ação. Urge reconstruir a atividade interrompida. É antes o próprio meio. Aquelas conseqüências atingidas pelo homem tornam -se os fins da atividade humana.A atividade tem. o que quer dizer: exercer atividades significativas para si próprio. depois do êrro de fato que apontamos. Pelo conceito moral que vimos discutindo. estaria obtido o céu. a atividade de atirar ao alvo. longe de serem coisas remotas que temos de conquistar por meio de alguma atividade compulsória. Os fins. Dentre aquelas soluções. As coisas se passam realmente de modo oposto ao que supõem os moralistas. O homem entraria afinal no gôzo eterno. no momento. Não é qualquer coisa estranha que busque atingir por meio da atividade. A cada obstáculo a atividade pára e opera -se no homem um fenômeno de desequilíbrio moral ou orgânico. E isso não é nenhuma sutileza verbal.

O cumprimento forçado dêsse dever seria impôsto ao homem para glória do seu grande Protetor e para a sua felicidade futura. De meios que eram passam a ser fins e fins intangíveis. no caso. em vez da mão nua. Tomemos a concepção utilitária. penosa e difícil. . as conseqüências dêsse ato e.E se. haviam sido cria dos por algum grande poder protetor alvos e arcos. utilizou -se de um arco e imaginou o alvo. a fim de que o dever de atirar e a virtude de acertar pudessem ser desenvolvidos. não são o fim supremo da vida humana porque tal fim não existe. felicidade são resultados da atividade. o prazer é. para atingir os quais existe a atividade. feitos sem a sua intervenção. ou a perfeição. pouco a pouco. gerações após gerações. os homens encontrassem alvos. O exemplo é expressivo do modo por que se arma o feitio sagrado e compulsório do mandamento moral. por qualquer necessidade social. Tal dissociação e inversão da ordem real dos fenônemos. O prazer. entendido como um alvo externo que se busca através de uma atividade. A atividade primitiva foi reconstruída.a interpretação explícita ou implícita daqueles moralistas deveria ser a seguinte: atirar sempre fôra contrário à natureza. arrastou o à ação. ou a virtude. para evitar a sua completa degradação. Será que o bebê que procura o seio materno. porém. um subproduto. O moralista toma os instrumentos organizados pelo homem nessa reconstrução ocasional de sua atividade e os coloca em um trono. O que nos interessa aqui. o faz depois de balancear as diferentes possibilidades de prazer que lhe podia oferecer essa ou aquela atividade e se resolve afinal pela que lhe parece levá -lo mais diretamente ao prazer aspirado? Está claro que não. O homem notou. Todos sabemos como os fatos se devem ter passado. e. virtude. em que se considera que o móvel ou fim da ação humana é o prazer. houvesse pressão p ara que se atirasse ao alvo . pela sua essência. O seu organismo. O prazer vem depois. Prazer. Voltemos ao exemplo. em si. ou a salvação da alma. uma coisa secundária na ordem de sua resolução. impondo -se ao homem a atividade de atirar ao alvo. tendia ao repouso. movido pelo impulso da fome. existe mesmo na concepção chamada materialista dos que consideram o prazer o fim da atividade humana. para tornar mais significativa a sua ação de atirar. preço de sua felicidade. redirigida para maior eficiência e melhores resultados. A atividade humana se justifica por si mesma e tem em si mesma o seu próprio fim. O ato de lançar qualquer coisa é inteiramente instintivo. o que é diferente de um fim externo que se buscasse alcançar. o homem. porém. é o modo por que o moralista dissocia e inverte o sentido do fato real. A atividade de atirar ao alvo seria o dever moral e penoso dos homens.

vêem transcorrer a sua vida infantil sem grandes exigências desconformes à natureza humana. incompletos e decepcionantes . a atividade sem nenhum valor em si mesma. de um gôzo e uma alegria. repetimos. efetivamente. de raro em raro. assim organizada. a atividade cujo valor vem de um suposto bem futuro a atingir. quem assim pensa engana -se com a organização da vida dos moços. São. os sonhos que nos compensem da mágoa de viver? A vida. não é mais do que uma ilustração dêsse estado de coisas.viver é um sacrifício pontilhado. salvo condições domésticas indesejáveis. ativas. cuja função é a de sugerir meios de restaurar a atividade interrompida. aqui e ali. Aquêle próprio divórcio que apontava.o que no mundo em que vivemos e sendo nós as criaturas que somos é constante . Decorrerá daí prazer.O adulto não age de outra forma. a mais suscetível de unificar. em grande parte. alimentam. o prazer de ter satisfeito aquela necessidade de expressão. decorrerá daí um estado de felicidade. podem ter atuado no período de deliberação. entre as diversas soluções que apontam os nossos desejos. Também aí os conflitos entre o que é e o que devia ser. a obrigação pela obrigação. então. No início está uma perturbação da sua atividade vital. porém. . se agrado e prazer são coisas alheias que vamos comprar com essa atividade . Não existe. entre as delícias do período de mocidade e as tristes inclemências da realidade da vida madura. em geral. como o chamou RAUP. no mundo religioso ou no mundo intelectual. pela imaginação. anteriormente. logo que se inicia o período escolar. Os seus desejos não são mais do que tendências de ação. novamente. está. A vida para êles é um constante penar. porém. E como êsse próprio gozo e essa própria alegria em que se põe o prêmio da vida. A melhor solução é a que melhor harmonizar as diferentes tendências de nossa personalidade. o estado de complacência. se a atividade em si não dá prazer. As crianças.surgem os desejos. Entra. As visões de prazer que. Quando. o organismo no período de deliberação. necessidade de esfôrço e pertinácia. porém. a atividade partida. c omo nunca. e o mais que nos po de dar a sabedoria humana é uma diminuição dêsses males por meio de sábios esforços e avisadas renúncias. tudo isso existe e quanto mais existir mais feliz é a infância. agiram como meios atuais e presentes para orientar a atividade. De fato. Dificuldades. Pelo menos. Trata-se de resolver. Se essa atividade não é perturbada. Essa análise da conduta humana vai -nos deixar perceber o segrêdo da estranha concepção da vida que os moralistas. no fundo. e buscar. a satisfação. é o resultado e não pròpriamente o fim externo que nos empenhássemos em atingir. provocando a preferência por aquêle determinado curso de ação. se interrompe . não é agradável. E isso é que torna a vida. se o homem está completamente satisfeito. são. são enormes. em si. não pode haver desejos.o que nos resta senão julgar a vida realmente insuportável. Assumem. a responsabilidade de suas atividades que não lhes são impostas. Apenas. mas tu do isso. pesada e inaturável. Até êsse momento a vida é feliz.

Apenas liberto dessa obrigação monótona e fatigante. são instituições como a do tiro ao alvo. porém. cujos fins êle não aceitou e nem mesmo chega sequer a perceber. e que lhe não déssemos sòmente uma tarefa a cumprir. Se o que é hoje. lidar. Para isso seria preciso que o homem compreendesse o seu trabalho. a escultura ou o livro poderão ser vendidos e daí retirar o autor o prêmio externo de seu esfôrço. desencorajam as mudanças e as transformações. um período de desconfôrto e opressão. O período de labor torna-se. E com isso. O seu êrro maior está exatamente aí. A atividade do artista. O seu trabalho. Há. Tôdas elas. Nesse dia. E o que faz dêsse trabalho ou dessas vidas urna realização harmoni osa de prazer e de alegria? É que o trabalho vale por si mesmo. Agindo. tudo se funde em um só esfôrço integrado e harmonioso. o seu prazer e a sua missão. Passam a ser felizes. com essa dissociação lhe foge a sadia alegria de viver e de trabalhar. conseguem êsse resultado surpreendente. então. logo que a escola começa. o próprio trabalho daria a felicidade. a teoria moral que defendemos estaria implantada na terra e muitos dos sofrimentos. se as coisas não pudessem mudar.Mas. como os adultos. conformar -se e sofrer. O quadro. a sua atividade se dissocia entre o que êle quer e o que êle faz. e. sòmente por obrigação. como a atividade da criança. porque a realidade de tôda hora é trabalhar. em momentos raros a que se não devem habituar com muita complacência. então. evaporam-se de seus corações a harmonia e a felicidade de viver. Os moralistas conservadores teriam razão. partilhasse dos planos que o governam. e não é uma simples atividade que se perfaz pelo resultado externo que dela poderá advir. uma significação supersticiosamente sagrada às instituições de nossa época. seja o regime de competição individual. Daí o esfôrço de tô da moral para criar compensações. porém um grupo de homens para quem o trabalho é a sua própria alegria. seja o salário. Assim está organizada quase tôda a vida moderna. então. é a atividade em que se resumem as suas próprias vidas. Sobretudo os artistas e os que dão à sua própria vida a natureza de uma obra de arte. que . Nesse dia. Todo trabalho humano devia participar dessas qualidades. a do prazer. começam geralmente essas torturas e. tivesse que o ser para sempre. já lhe deu a compensação essencial. Uma remuneração mais alta. da paixão e do amor do próprio trabalho. negam valor às experiências novas e buscam emprestar. não sei por que receio. dos descontentamentos e das tragédias da vida teriam desaparecido. seja a divisão entre a produção e o consumo. procura as excitações do prazer superficial e grosseiro. As duas doutrinas alimentam-se da convicção de que as coisas são assim e não podem ser de outro modo.

Nada é estranho à conduta humana e é no sentido d e dirigi-Ia e orientá-la que trabalha todo o esfôrço do homem. em forma de conclusão. sobretudo. em um momento de transição. a antropologia. assim que o homem compreenda e veja que elas não lhe facilitam a felicida de. êsse bem. repetimos. reveladas ao coração humano. Que seria a medicina. a moral. a psicologia. Vivemos no presente e só no presente . * * * O terceiro êrro das teorias tradicionais de moral está em dar os seus ³princípios´ um caráter extra-humano ou. aqui. fazer a crítica das doutrinas mais responsáveis por uma concepção falsa da moral e da vida. dêste modo. Sabemos como em reação a essa moral sobrenatural ou espiritual. A ordem moral é inacessível à fertilização da experiência humana. os homens se voltaram para a natureza como a norma suprema. conforme a vontade humana. não poderá progredir se não compreendermos que a devemos reconstruir. puramente espiritual ou ideal. aproveitando tudo que a fisiologia. em si mesma. C) Conclusão Enquanto a moral revê as suas velhas fórmulas valetudinárias. para ser preciso voltar aos argumentos já aduzidos. Os valôres morais não podem ser encontrados nessas experiências. a psiquiatria e a sociologia nos vierem ensinando. Tudo que era natural era bom e era santo. ainda hoje. na experiência humana. Essa conseqüência é a de que a vida será boa ou má. ela mesma. O u seremos felizes agora ou não o seremos nunca. A atividade não será.podem mudar e que devem mudar. se fôsse governada pelo conhecimento revelado ou por princípios imutáveis? Do mesmo modo. entretanto. O assunto. uma preparação para um bem futuro e remoto. que é a ciência huma na por excelência. O homem vai buscá-los em concepções absolutas que foram. já foi longamente discutido. fôr agradável e satisfatória. mas. A moral para ser eficiente e progressiva tem que se fundar. A vida será boa se a nossa atividade. como qualquer outra ciência. pelos menos. mas dêsse longo arrazoado decorre uma conseqüência geral que vale a pena comentar. direta ou indiretamente. Não vamos ser felizes no futuro. que devemos propor como hipóteses atuais para a direção da conduta humana? Visamos. e por si mesma.

o que já é. porque contam com êle entre as possibilidades esperadas. por isso mesmo. A ansiedade e a dor não desaparecerão da Terra. Perca êle. mas. antes de tudo. Cada um dos momentos da vida é um jôgo com o futuro. mais complexa. entretato. porém. o sentido dinâmico da nova ordem em que vive. a luta de amanhã será mais interessante. dar à atividade sentido e significação. mais intensa e mais trepidante. Quanto mais armado para a l uta. mais complexo se torna o seu ambiente. Nem uma. E tranqüilize-se quanto à felicidade. de certo modo. Os princípios que regulam a conduta têm de ser refeitos à luz dessa nova realidade.constante da inteligência e se tenham sempre em vista os limites da natureza e os laços que a prendem ao mundo e aos demais homens. Deve-se partir para a vida como para uma aventura. ensinou coisas novas e a expectativa de melhor êxito estará sempre acesa no coração dos homens. a atividade é sempre uma aventura no desconhecido . as vitórias perderiam o melhor do seu sabor. mais rápida. Se não existisse. À medida que o homem mais conhece e mais se instrui. não desprezando nada que a possa enriquecer com elementos e conhecimentos novos: faça-se uso delicado e. estão a acalentar a mais vã de tôdas as esperanças. Ela lhe será dada de acréscimo. O procedmento do homem será tanto mais moral. Se a sorte não fôr favorável. tôdas têm. nem por amor à autoridade. o irremediável está virtualmente desaparecido da existência. Os que esperam um mundo em que tudo seja seguro e certo para ser felizes. Ganhe. o seu terrível hábito de segurança e certeza. pode ser mais rica. a experiência valeu os momentos vividos. Vitória e derrota. impedir a felicidade desde que sejam compreend idas como partes intrínsecas da vida. e mais difícil se torna viver em segurança e em harmonia. nem pelo desejo secreto de defender os interêsses da atual ordem de coisas. Esteja à altura de suas próprias criações. fundando a moral nas mesmas bases experimentais que permitiram o progresso de tôdas as demais ciências. crie -se embaraço à indispensável reconstrução moral de nossos tempos. porém. No mundo em movimento e em transformação em que vivemos. aconselharíamos a atitude esportiva. mais cheia. se conseguir dar à atividade essa feição compreensiva e unificada. O verdadeiro prazer está na luta. Busque -se. . Nem por timidez. O insucesso não os abate. mais acidentada e mais vigorosa. Tenhamos a corage m de refazê-los. integrado e harmonioso o seu ponto de vista. melhor. Desde que certas condições essenciais de saúde e de confôrto possam ser obtidas. de mais incerteza se semeia a sua vida. A vida é mais vasta. nem outra. a sua parte de prazer. O futuro é imprevisto e imprevisível. Se se tivesse de aconselhar uma atitude única. podem. possível no atual estado da civilização. O sofrimento não é senão uma forma de insucesso. Mais do que isso. em troca. Se bem sucedida. quanto fôr assim largo. nessa reconstrução.podemos governar a vida.

A) Origem da filosofia (Segundo JOHN DEWEY) ILUSÃO julgar que homem ou hoje. aspereza e vicissitude. Empenhado na luta animal pela existência. Recorda-se do passado o que é interessante. de ódios e afeições. mas os ³significados´. As suas experiências ficavam registradas e podiam ser recordadas. Necessita de reconciliação entre o conhecimento positivo e o conhecimento tradicional e religioso. mas entre as suas memórias e os seus símbolos. as ³interpertações´ da vida. dos demais animais era a memória.. em um sent ido estreitamente literal. B) Aspectos modernos de filosofia. era êsse animal de emoções e fantasias. Não se torna a viver a vida. Podemos figurar o homem primitivo ou selvagem. Não vivia o homem sòmente entre as coisas físicas do seu reino material. CAPÍTULO VI Filosofia e educação A) Origem da filosofia ( segundo JOHN DEWEY). Caracteres da filosofia decorrentes da sua origem. ou o que fazemos interessante. O que o distinguia. é. Ambição de universalidade. repousado e florido. ainda dos tempos. Os primeiros ³filósofos´ da nossa civilização. O homem primitivo. isto é. que é recordar .Os demais sofrimentos devem ser recebidos com uma saudável coragem. A diferença real entre os homens e os brutos está nessa quarta dimensão. C) Filosofia e educação. o homem é uma criatura de desejos. Filosofia e democracia. um animal SERIA UMAespeculativo. se friamente através disciplinaram bastante para a análise especulativa ou filosófica. A reconstrução da filosofia. da vida que é a preservação das experiências passadas. Artificialidade dos seus ³raciocínios´. reviver. Alguns ohomens éfoique. Formalismo lógico. Exercício de fantasia mais do que de i nteligência. mais ainda do que o semidisciplinado homem moderno. porém. tornar a viver a vida. Dependência da filosofia da vida social. São as sombras que põem em relêvo as luzes e as côres da existência. os ³valôres´. De modo geral.. quase sempre.. rodeado de perigos e incertezas. O objetivo da filosofia não é a ³verdade´ no sentido estritamente científico do têrmo. Ausência de imparcialidad e e de espírito objetivo. Os sofistas. dever -lhe-ia. sobrar . porém. Recordar é. Viver é quase sempre luta. amável. entretanto. Filosofia é a teoria geral da educação. E êsse recordar ampliava o universo. substancial e p ermanentemente. A escola e as exigências da vida democrática. Contribuem para dar uma querida nota heróica à vida. de receios e esperanças..

os dois grupos de produtos mentais chamemo-los assim . As primeiras ganhavam a vida.que daí decorriam e que governavam a vida emocional da tribo ou da raça no seu aspecto político e religioso.fora dos momentos vigorosos da luta ou da vida prática .tempo para longos e lntermináveis repousos. superstições e religiões. só podiam subsistir porque essa vida se dividia em dois reinos isolados: o da prática e o dos ritos. Havia. um longo sonho acordado. tão pouco capazes. empresta a êsse recordar o feitio mítico e fantasioso de drama e de poesia. os donos e os tiranos. A outra classe de pessoas era a dos guardas das crenças. que distribuíam aos demais homens as consolações e ilusões necessárias para florirem as árduas vicissitudes da sua luta. Por motivo de distinção social histórica.o dos conhecimentos práticos e empíricos e o dos sonho s. O conjunto de crenças que a tradição elaborou. Os conhecimentos usado êsse têrmo com a mais explícita das reservas . o de que ainda somos. mas que só muito raramente o é. aos longínquos antepassados. entre os povos. mas o resíduo consolidado das histórias que os homens de imaginação contavam aos companheiros. ensaios de análise filosófica do universo. os sacerdotes. e tôdas as artes práticas que permitiram ao homem viver. em política. tradições e ritos não se misturavam. O homem é um animal capaz de ser racional. cerimônias e lendas. literalmente em um reino de memórias que eram sobretudo um reconto fantasiado de sua vida. o domínio do fogo. assim. as suas guerras. O fato de que o homem não recordava senão para o seu deleite. Distribuidores de ilusões e de consolações. assim. Dêsses dias passados não subia porém a lâmina de fogo de uma análise ou exercício intelectual de exatidão prática. As mais das vêzes. mas o fumo envolvente e delicioso das suas emoções revividas no prazer ou na pena da lembrança. o da realidade e o do espírito. não era obra de filósofos prirnitivos mas de primitivos poetas. um secreto interêsse em valorizar os produtos dessa tradição lendária e . como não se misturavam os homens que os serviam e que dêles se serviam. libertada das perturbações e dores da realidade.não eram. O homem primitivo . assim. de certo modo. religiões e superstições .vivia. assim. nos momentos amáveis de lazer e de folguedo. A classe dos sacerdotes ou dos guardas dessa tradiçao mitológica era a classe de domínio. que é o seu característico histórico. os feiticeiros eram também os senhores. Não peçamos. pois. A tradição que encontramos entre os povos primitivos e entre os civilizados as mitologias. êsses dois reinos representavam duas classes distintas de pessoas. Na semi-obscuridade de sua imaginação êle recordava as suas lutas. os magos. as suas aflições. trabalhavam e lutavam com os conhecimento positivos e empíricos que vinha conquistando a humanid ade e que lhe deram os instrumentos de caça e guerra. assim. A mitologia se tr ansformava. guardas do espiritual. O hábito escolástico de considerar o homem um animal racional é que nos faz procurar nas lendas e mitologias o segrêdo de interpretação do universo. de riqueza e de prestígio social.

Por que não se deu a destruição. acabaria por ser sentido. Não eram precisos intelectuais para descobrir o conflito. era inevitável. quando formulado por êsses primeiros filós ofos da nossa raça intelectual. porque a luta não se feriu. do outro. E a própria designação pejorativa com que os ferretearam os contemporâneos. por aí. crescia sempre. A incompatibilidade. mesmo entre povos que chegaram a urna expressão elevada de civilização. os conhecimentos decorrentes da prática e da experiência. Se os conhecimentos artísticos da humanidade. foi obstado. palpitante. Isso. Tão pouco racional é o homem. empí ricos e imperfeitos. dos costumes e dos modos de viver. nas modificações trazidas pelo progresso das artes e do comércio e na incompatibilidade entre os velhos costumes e religiões e as necessidades crescentes de adaptação da humanidade ao real. O conflito existia real. assim.da humanidade. com os conhecimentos da tradição. porque nas crenças e nos costumes nunca houve idéia que por absurda deixasse de ser aceita. fecundando -os. real e gritante. de uma vez. como tem sido ela entendida no mundo ocidental. Êstes promoviam a conservação das crenças. conquistados pe los homens no contato com as coisas e a ação. a persistência das superstições primitivas. muito outra seria a marcha do desenvolvimento intelectual do mundo. de exatidão ou de utilidade prática. de fato.irracional da humanidade. o do conhecimento empírico e positivo e o do conhecimento tradicional e religoso . entretanto. que nunca a observação mais elementar pôde ser bastante para afastar as extravagâncias mais arrebatadas ou mais ingênuas que a imaginação do homem chegasse a elaborar. A massa de conhecimentos positivos. Històricamente. os conhecimentos que lhe deram as indústrias primitivas. apontava JOHN DEWEY o que se deu com o movimento dos sofistas na Grécia. O conflito se pronunciou. Tal divórcio. mas desapoiados de racionali dade. estavam os conhecimentos reais e positivos. Estranhar-se-á. os costumes. a ação e o progresso. que nos poderia parecer inevitável? . consolidados em um sistema político. JOHN DEWEY percebe aí a origem da filosofia. Mais grave. é uma indicação da violência com que o conflito foi sentido. e porque não surgiram da filosofia as regras luminosas do legítimo exercício da inteligência. é certo.em essência poético . O filósofo surgiu para reconciliar os dois mundos distintos. mas que iam permitindo ao homem o contrôle das condições naturais e o erguimento de sua civilização material. de conhecimentos concretos. De um lado. isto é. as tradições. se misturassem. porém. as religiões. porém. Aquêles promoviam as modificações. Deve explicar -se. sobretudo pela separação de classes entre os que labutavam nas indústrias e os que se entregavam ao estudo e à guarda das religiões e dos ritos. entre êles e os costumes e ideais encarnados no código religioso e político dos povos. irrespondível.

uma orientação desinteressada. trazendo para objeto dos seus estudos uma verdade tão ampla e tão imutável. Não há mesmo processo de mais apavorante lentidão do que o que veio permitindo à humanidade emergir vagarosamente da obscuridade primitiva para a inteligência. por outro lado. que nela viessem a reconciliar-se o conjunto de verdades fragmentárias dos homens. O que êle. tôda a viva palpitação da comunidade. a filosofia procurou recursos numa parada de formas lógicas". diz DEWEY. de princípio. o feitio ambicioso da Filosofia. A filosofia preferiu justificar. que não é. racionalidade intrínseca ao objeto do seu estudo. verifica-se que lhe faltou. històricamente. Tão grande era êsse pêso. como a ³justificação em fundamentos racionais. Explica-se. obscuro e aparatoso dos seus raciocínios e sistemas. històricamente. dada essa origem da filosofia. menos interessante para nos esclarecer certos caracteres reais encontrados na filosofia ocidental. porém. A filosofia não se iniciou para a busca pura e simples da verdade. Com as tradições religiosas. daí. das crenças e costumes tradicionais". foi porque a reconciliação não era ato fácil como lhe parecia a êle próprio. o seu passado. desejo e apetite. Pouco importa que. "Porque lhe faltasse. Nessa pesquisa dos valôres mentais e reais da humanidade.bem poucas ainda . o feitio pedante. mas tão sòmente reconciliá -las com a razão. racional. a sua missão era a de revelar os valôres existentes nos dois mundos . E. O seu ponto de vista não é. foram -no conseguindo os demais filósofos. Nem mudar era possível. embora não da forma. as suas consolações. por isso. Em primeiro lugar. A filosofia se iniciou para reconciliar pro dutos mentais já existentes. temor e esperança. da verdade universal. A sua tarefa. Com os conhecimentos práticos e positivos estavam algumas utilidades . sem preconceitos e sem parti pris. Esta. não conseguiu. havia a própria essência de sua natureza. a filosofia pr ecisaria ser heróica para erguer-se contra as instituições sociais do tempo. poéticas e políticas estavam os seus sonhos. senhora da verdade última e final.O progresso intelectual dos homens não se fêz por êsses golpes. as suas memórias.o dos conhecimentos positivos e o das tradições. a sua segurança. a tese que DEWEY defende da origem da filosofia. morais e religiosas. mas apenas lhe permitiam viver e sofrer. Se o primeiro foi condenado à morte. .que não chegavam a consolá-lo. (JOHN DEWEY). os seus amigos. a tese de DEWEY não esteja sempre com todo o apoio. que homens como Sócrates. do espírito. quando não é puramente destrutiva oti heterodoxa. a mudar. fôsse ela qual fôsse. Entre os conhecimentos práticos e positivos do homem e os seus costumes e tradições religiosos e poéticos. não levaram a sua audácia ao ponto de querer destruir as tradições. a sua natureza é tôda afeição e ódio. Històricamente. senão por conquista. Assim a filosofia podia ser definida. Todo o pêso das suas emoções o arrastava para a tradição. Platão e Aristóteles.

aqui. foram arquitetadas na ldade Média. resolver. mas um esfôrço da inteligência. A escolástica é. a respeito da origem das filosofias. reconciliar êsses conflitos. Para provar. sem dúvida. com fundamentos racionais. a passar à pesquisa de uma chamada verdade superior e final era tão simples que os "filósofos" não resistiram à tentação. que incluía uma síntese completa do mundo e do homem. Daí. dada a sua origem. Se a origem que lhes indicamos é verdadeira. não há outro meio que o de ampliar e encarecer os símbolos de rigorosa especulação e rígida demonstração". 2) Conseqüente caráter de universalidade do seu objeto. costumes. . pelo próprio abuso a que chegou.Para provar um fato real e prático. basta produzi -lo e apontá-lo aos outros . então. o conflito entre as verdades diferentes da humanidade. que as filosofias só ilusòriamente tinham objeto próprio. Resumindo. B) Aspectos modernos da filosofia Que evolução sofreu a filosofia nos tempos modernos. com especialidade das que. com a mesma orientação de justificar e racionalizar crenças e preceitos intrìnsecamente desprovidos de fundamentos racionais. para justificar. E. Daí os seus caracteres históricos: 1) Ambição de explicar as coisas pelas suas razões finais e últimas.o conhecimento das causas últimas e finais. o chamado objeto da filosofia . porém. temos que a filosofia. A sua finalidade. crenças e instituições tradicionais da espécie humana. em um instrumento intelectual de trabalho para cada um de nós? Verifiquemos. ainda depois dos gregos. em realidade. 3) Formalismo lógico a que teve de chegar dada a inverificabilidade dos objetos do seu estudo. a ilustração mais rica e desenvolvida da atitude que estamos a comentar. Decorre daí o caráter sibilino e sutil das filosofias. as filosofias eram mais um método que uma matéria. não representou històricamente uma atividade desinteressada do espírito humano para a pesquisa da verdade. O seu objeto era.e êsse é o método fundamental de demonstração. em primeiro lugar. que tenha podido transformá-la de instrumento especializado de pesquisa de concepções engenhosas para a justificação e racionalização de verdades tradicionais. porém. "verdades de doutrinas que não podem ser aceitas senão pela autoridade do costume ou pela autoridades social e que não são suscetíveis de verificação empírica.

portanto. o que é. etc. nessa escala. Porque já agora urge uma digressão. Perfeito é só o que não muda mais. senão uma corrupção intelectual querer levar o raciocínio para a oficina ou laboratório. fazer e construir. O problema é. Está. Tôda a civilização artística e material da Grécia é um documento espantoso dêsse progresso. e que funcionava. fazer e pensar. o seu conhecimento. cultura e profissão. Só a atividade intelectual podia oferecer as condições de firmeza e imutabilidade que aproximavam o homem da suma perfeição. um saber que resultava. . não puderam formular o méto do experimental e fazer dêle o instrumento de pesquisa da verdade em que se transformou mais tarde? Pela fôrça da tradição. entretanto. em parte em nossa exposição anterior. Tudo que mudava ou que sofria as contingências do que muda. qualquer coisa de fixo ou de estável. A êsse fixo e estável. haver dúvidas quanto a g raus de superioridade. de si. que era empírico e experimental. Decorria daí uma hierarquia de valôres. de imperfeição. Tudo que se move. cuja agudeza de inteligência era tão proverbial. estava impregnado de insuficiência. que passa e se transforma. os gregos não puderam descobrir êsse ôvo de Colombo que é o método experimental. f ora dêsse universo. é por essência imperfeito. O selvagem sabia que o atrito entre dois pedaços de pau produzia o fogo. na sua essência profunda. Por que. Entre os gregos já êsses conhecimentos empíricos eram imensamente mais avultados. pela constituição real da sociedade e por uma inexplicável e obstinada atitude de inteligência. os gregos. A atividade da razão era. As coisas valiam mais. O dualismo grego entre o mutável e o imutável gerou todos os demais dualismos entre corpo e espírito. ainda. pois. Entre a atividade prática do artesão e a atividade puramente intelectual do pensador. ctc. lhes pareceu caberem tôdas as qualidades que faltavam ao universo visível e experimentável. os homens buscaram. de não ser. a tentativa de explicação histórica dêsse fato. à medida que se aproximavam do completo ser. o que chegou à plenitude do ser. desde que o homem adotou o método experimental. a êsse imutável. sup erior à atividade física. Vimos como desde os tempos mais remotos havia um conhecimento que provinha da ação e da prática. prático e positivo. é tarefa que a contingência dos homens e a contingência de um u niverso essencialmente precário e mutável nunca permitirão. eram atividades inferiores. homem e natureza. Lidar com as coisas.Buscar as causas últimas e finais e. não podia. ou nêle mesmo. e nada mais. sem sentido. E êsse saber era um saber real. Para escapar à incerteza e precariedade inquietadoras de um universo em permanente mudança. conhecer e fazer. Não era.. trabalho e lazer.

a filosofia marcou passo indefinidamente. é a m ais maravilhosa das histórias. pode merecer os nossos motejos. Mas se a compreendermos como a história "das aspirações. sendo objeto do humorismo humano que costumava comparar "o "filósofo" a um homem cego que procura num quarto escuro um chapéu prêto que lá não se acha". Hoje. é a filosofia uma tentativa de "compreender" os aspectos da vida e do mundo em u m todo único. uma visão tão completa e coerente quanto possível. hoje da f ilosofia? A reconstrução da filosofia.Todos se originam de uma concepção dualista do universo. modificando-se. os valôres reais da vida atual. em que a experiência humana não é percebida em sua continuidade. dos protestos e dos predicamentos da humanidade". Graças a êle. As causas últimas e finais. afinal certo e permanente. que é a série de conhecimentos verificados e sistematizados. deu lugar à atitu de muito mais razoável e modesta do filósofo moderno que busca auxiliar a estabelecer o mais compreensivo método de julgar. uma contingente. A história das filosofias. estável e permanente. para dar sôbre a experiência humana. A velha atitude do filósofo. a compreensão total do cosmos e o caráter metacientífico de seus métodos . mas rompida em dois tipos diversos. não importando em nenh uma atitude geral sôbre as coisas.bastaram para fazer o descrédito da filosofia e dos fundadores de sistemas filosóficos. inferior e incerta e outra fixa. com integridade e coerência. Os velhos caracteres de totalidade. Que resta. universalidade e última -causalidade são conservados. Quando começa a desprender-se da ciência essa atitude geral para com o homem e para com o universo. . a ciência imerge na filosofia. À luz dêsse critério. em sua totalidade. como nas suas origens. a filosofia é um processo em marcha transformando -se. transformações. nas outras províncias de suas pesquisas. mas reinterpretados à vista das condições modernas. Semelhante dualismo impediu os gregos de se dedicarem ao método experimental e pertubou também por vários séculos a marcha da inteligência humana. acompanhou a mesma história da reconstrução do pensamento científico ou artístico. e êsse. como a história das diversas verdades permanentes e eternas descobertas pelo homem. O reino dêsse dualismo sempre foi da filosofia. Nesse sentido a filosofia se distingue da ciência. modificações e reconstruções . reconstruindo-se na medida que o homem opera. para o efeito de dirigi -Ia para uma vida cada vez melhor e mais rica. então. que se conservou até o século XVII nessa atitu de estática e não progressiva. nos tempos modernos. fundador do último sistema.

Essa noção nos leva ao conceito de WILLIAM JAMES. a . quando afirma que todos possuímos uma filosofia. Ao ouvirmos uma sinfonia de Beethoven. e enquanto permanece como visão. também se faz sentir o ponto de vista moderno. à vista de tudo que o homem fêz e conhece na terra. mais profunda e mais cheia de sentido que fôr possível obter. honesta e profundamente. Há verdades e há "coisas significativas". de dúvida. Em relação à filosofia. sujeito aos vaivéns da apreciaçao atual dos homens e do estado presente das suas instituições. há um sentido a perceber que pode ser menos ou mais profundo. não há uma verdade a verificar. literárias ou artísticas as suas conclusões. transforma-se em ciência. sentido. mas em relação à direção e atitude em que se busca êsse conhecimento. aí. Filosofia tem assim tanto de literário quanto de científico. a sua visão. em relação à filosofia o que se busca é penetrar no sentido íntimo e profundo das coisas. as suas premissas. porquanto nos deve levar à compreensão mais larga. valôres. A filosofia não busca verdades no sentido estritamente científico do têrmo. E nesse sentido filosofia se confunde com a atividade de pensar. É que. mas interpretações. O sentido das coisas não se confunde com a verdade. do univer so. para traduzir o meaning inglês. com efeito mais um ponto de vista coerente e harmônico em relação à pluralidade de acontecimentos que ocorrem e os conhecimentos que possuímos. no que ela encerra de perplexidade. A verdade diz respeito a fatos e existências. significa para cada um de nós. como nos habituamos a considerá -la em ciência. realmente. a sua projeção. que podemos desdobrar indefinidamente. digamos assim. Filosofia é. se em relação à ciência o que se busca é a verdade. que desejamos mostrar a relação íntima e profunda entre a filosofia e a educação. Se a filosofia é a indagação da atitude que devemos tomar diante das incertezas e conflitos da vida. do que um nôvo conhecimento geral e universal. Vai às "causas últimas" para usar a velha expressão. como o queriam os antigos. é filosofia. É essa uma distinção que me parece de grande alcance. como simples hipótese de valor. "a investigação e a inquirição sôb re o que exige de nós o conjunto de conhecimentos atualmente existente ou o conjunto dos conhecimentos que temos". que é o sentido mais ou menos obscuro ou lúcido que temos do que a vida.Por conseguinte. mas valôres. filosofia é. de imaginação e de hipotético. Quando o conhecimento é suscetível de verificação. os seus postulados. Procura -se. sentidos. E é com êsse conceito. a atitude é muito semelhante. Em relação às últimas causas. No mais. não há verdades. Científicas devem ser as suas bases. o caráter de generalidade e universalidade da filosofia não o é com relação ao objeto do seu conhecimento. interpretações mais ou menos ricas da vida. na frase de DEWEY. Não é que se busquem realmente hoje causas últimas. as suas profecias. diremos. no se ntido da sua objetividade verificável. assim.

dia a dia. e os conflitos e perplexidades atordoantes da hora presente. C) Filosofia e educação Nos dias de hoje. assim. só quem vive à margem da vida. Porque. Conforme o tipo de experiência de cada um. tal seja a civilização. então. se a educação não quer se transformar em rotina e empirismo. portanto. isto é. Tais filosofias Individuais não se articulam. será a filosofia de cada um. sem interêsses e sem paixões. sem amôres e sem ódios. Só com uma vida profundamente superficial podemos não sentir as solicitações diversas e antagônicas das diferentes fases do conhecimento humano. uma interpretação harmoniosa da vida e das suas perplexidades. em nossa ânsia e inquietação de compreender e de pacificar o espírito. tal seja a vida. tão bem como tão mal. por outro lado.emocionais e intelectuais . representam e caracterizam uma época. A filosofia de um grupo que luta corajosamente para viver. E. diz DEWEY. o seu julgamento da experiência e o seu programa de v alôres deve concretizar-se na conduta e. mas expressões reais de filosofia. porém. ou simples dogma arbitrário. um povo ou uma classe de pessoas. À medida que se alargam os problemas comuns. "Com efeito". construímos. dia a dia. mais vivamente sentida será a falta de uma filosofia que nos dê um programa de ação e de conduta. porém. pode julgar que dispensa uma filosofia. no sentido realístico de que falamos de filosofia. É porque o que sabemos em ciência briga com o que sabemos em religião e com o que sabemos em arte e estética e o que sabemos em economia. ³Se educação é o processo pelo qual se formam as disposições essenciais do homem . É exatamente porque há dúvidas e incertezas e perplexidades que temos necessidade de uma filosofia. . Êsses. uma filosofia e a ela nos acomodamos. deve permitir que os seus fins e os seus métodos se deixem animar pelo inquérito largo e construtivo da sua função e lugar na vida contemporânea. e os predicamentos da filosofia irão também. que precisamos de filosofia. em educação. quando a ciência vai refazendo o mundo e a ond a de transformação alcança as peças mais delicadas da existência humana.para com a natureza e para com os demais homens. que à filosofia compete prover". Está aí a grande intimidade entre a filosofia e a educação.mestra da vida. assumindo aspectos mais gerais. tal será a filosofia. se aproximando. filosofia pode ser definida como a teoria geral da educação". "a não ser que uma filosofia seja puramente simbólica ou verbal. ou predileção sentimental de alguns. A vida vai. acrescenta êsse autor. não é a mesma de outro cujas facilidades transcorrem em uma tranqüila e rica abundância. quando não são criações pedantes de gabinete. em sistemas filosóficos. Na medida de nossas fôrças.

está claro que a filosofia dependerá. a um páreo entre a educação e a catástrofe iminente da civilização. De todos os lados lhe batem à porta. como a educação. transformam-se tôdas as instituições. contidos no sistema social democrático. a filosofia. experimental. Filosofia da educação não é. A escola tem que dar ouvidos a todos e a todos servir. o virtual desaparecimento das desigualdades econômicas e uma sociedade em que a felicidade dos homens seja amparada e facilitada pelas formas mais lúc idas e mais ordenadas. Transforma-se a família.Filosofia se traduz. transforma-se a vida econômica. pela revolução industrial iniciada no século XVIII. transforma-se a igreja. ³em educação. Considerada assim. WELLS disse. uma farsa. em princípio. e educação só é digna dêsse nome quando está percorrida de uma larga visão filosófica. pois. . porém. senão o estudo dos pr oblemas que se referem à formação dos melhores hábitos mentais e morais em relação às dificuldades da vida social contemporânea". mais harmoniosos e mais ricos que possam existir na vida social contemporânea. A filosofia de uma sociedade em permanente transformação.. que aceita essa transformacão e deseja torná-la um instrumento do própria progresso. Sem chegarmos à hipóese vigorosa de WELLS. em alguma parte.. A filosofia de uma sociedade democrática é diversa da filosofia de uma sociedade despótica ou aristocrática. assim. O método filosófico será. do tipo de sociedade que se tiver em vista. as mais rígidas e as mais sólidas . como a investigadora dos valôres mentais e morais mais compreensivos. Será o teste de sua flexibilidade. que estamos hoje a assistir. a filosofia deve procurar definir os problemas mais palpitantes dessa nova ordem de coisas e armá-los para as soluções mais prováveis. Admitindo que nos achamos em uma sociedade democrática servida pelos conhecimentos da ciência moderna e agitada. se não os fizermos dominar profundamente o sistema público de educação. Essas aspirações e êsses ideais serão. . reconheçamos que nunca se pediu tanto à educação e nunca foram ão pesadas as responsabilidades qe estão sôbre os nossos ombros. no mundo. Os ideais e aspirações.e de tôdas essas transformações chegam à escola um eco e uma exigência . transforma-se a vida industrial. transformase o estado. no sentido de que as soluções propostas serão hipóteses sujeitas à confirmação das conseqüências. De todos os lados as instituições humanas se abalam e se transformam. envolvem a igualdade rigorosa de oportunidades entre todos os indivíduos.é uma filosofia de hipóteses e soluções provisórias. assim. Nenhuma das soluções pode ser definitiva ou dogmática. da inteligência de sua organização e da inteligência dos seus servidores.

e só o poderão fazer.Êsses têm de honrar as responsabilidades que as circunstâncias lhes confiam. transformando-se a si mesmos e transformando a escola. Tem de ser um estudioso dos mais embaraçosos problemas moderno. e uma visão delicada e aguda da natureza do homem. no sentido usual e restrito da palavra.. A simples indicação dêsses problemas demonstra que o educador não pode ser equiparado a nenhum técnico.. enfim. tem que ser estudioso da civilização. tem que ser estudioso da sociedade e tem que ser estudioso do homem. . tem que ser. filósofo . Ao lado da informação e da técnica. deve possuir uma clara filosofia da vida humana. O professor de hoje tem que usar a legenda do filósofo: ³Nada que é humano me é estranho´.

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