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Comunicação: conceitos, fundamentos e história

Índice

Introdução

1 Fundamentos científicos

2 Do grunhido à Internet

3 Efeitos convergentes

Considerações finais Referências bibliográficas

1

2

4

11

14

15

Resumo

Visando colaborar prioritariamente para com as disciplinas de Teorias da Comunicação e História da Comunicação, o presente trabalho faz uma releitura do processo de comunicação, focando-se nos marcos conceituais, nos fundamentos científicos

e na história da comunicação. Para tanto,

toma como elementos essenciais a tríade

linguagem, cultura e tecnologia. Recorrendo

à pesquisa bibliográfica o texto reúne dife-

rentes visões relacionadas ao processo de comunicação e a história dos meios de co-

municação de massa e conclui pressupondo

a existência de uma transição de modelo sócio-tecnológico da informação.

Palavras-chave: processo de comunica- ção, linguagem, cultura, tecnologia.

Introdução

Comecemos por falar brevemente sobre o nosso objeto de estudo: o processo de co- municação. Ele representa um dos fenô- menos mais importantes da espécie humana.

Compreendê-lo, implica voltar no tempo, buscar as origens da fala, o desenvolvimento das linguagens e verificar como e por que ele se modificou ao longo da história. A linguagem, a cultura e a tecnologia são elementos indissociáveis do processo de co- municação. Quanto à primeira, Tattersall (2006, p. 73) afirma categoricamente que

“[ ]

se estamos procurando um único fator

de liberação cultural que abriu caminho para

a cognição simbólica, a invenção da lingua-

gem é a candidata mais óbvia.” Quanto aos outros dois, nos parece pertinente concordar com Mayr (2006, p. 95) ao propor que “Uma pessoa do século XXI vê o mundo de ma- neira bem diferente daquela de um cidadão da era vitoriana” e que “Essa mudança teve

fontes múltiplas, em particular os incríveis avanços da tecnologia.” Souza Brasil (1973,

p 76), mais incisivo, enxerga a cultura como subordinada às formas de comunicação

Ora, se a existência da cultura está su- bordinada a forma de comunicação do tipo humano, isto é, comunicação simbó- lica, temos que admitir que os fundamen- tos da comunicação precisam ser bus-

cados nos caracteres biológicos do ho- mem, pois cultura e comunicação sim- bólica surgiram na terra simultaneamente como o próprio gênero humano. Assim, cultura e comunicação são conceitos su- plementares, não se constituindo, nem um nem outro, fundamento mas condição necessária para compreensão e existência de cada um.

Sendo assim, a linguagem, a cultura e a tecnologia constituem a tríade de fatores que

alicerçam o presente trabalho. Para tanto, re- corremos à pesquisa bibliográfica, tomando

a antropologia, a história, a sociologia, a

lingüística e as teorias da informação como campos de conhecimentos principais, mas não exclusivos. Ao explorarmos o vastíssimo campo da

comunicação em seus variados aspectos te- mos por objetivo geral contribuir para com as Teorias da Comunicação e a História da Co- municação. Além disso, consideramos que

o presente trabalho serve como contraponto

à histórica dos meios de comunicação, intro- duzindo alguns vieses, incluindo nomes de pessoas e seus papéis tantas vezes esqueci- dos por aqueles que contam a história dos mass media.

1 Fundamentos científicos

De imediato, podemos classificar a comuni- cação conforme propõem os dicionários, as- sim o termo seria apenas mais um substan-

tivo feminino: “1. ato de comunicar; infor- mação, aviso; 2. passagem, caminho, liga- ção”. (Rocha 1997, p.154). Mas tal classi- ficação, além de insuficiente para descrever

o fenômeno, se serve do longo processo de

desenvolvimento da linguagem para simpli- ficar um dos fenômenos mais importante da socialização, cujos limites sempre estão por vir, conforme ressalta Baitello Júnior (1998,

p.11):

Hoje o homem tenta lançar pontes (ainda que hipotéticas) não apenas sobre a ori- gem do universo, sobre o chamado big bang, mas também sobre as raízes remo- tas dos códigos da comunicação humana. Constata que a capacidade comunicativa não é privilégio dos seres humanos; está presente e é bastante complexa em mui- tos outros momentos da vida animal, nas aves, nos peixes, nos mamíferos, nos in- setos e muitos outros.

Resgatando o termo em sua etimologia Marques de Melo (1975, p. 14) lembra que “comunicação vem do latim ‘commu- nis’, comum. O que introduz a idéia de co- munhão, comunidade ” (grifos do autor). Mas, se falamos em “processo de comu- nicação”, cabe também uma rápida inspeção no termo “processo”. Berlo (1991, p. 33) assim descreve sua aceitação do termo:

Um dicionário, pelo menos, define “pro- cesso” como “qualquer fenômeno que apresente contínua mudança no tempo”, ou “qualquer operação ou tratamento contínuo”. Quinhentos anos do nasci- mento de Cristo, Heráclito destacou a im-

portância do conceito de processo, ao de- clarar que um homem não pode entrar duas vezes no mesmo rio; o homem será

] Se

diferente e assim também o rio. [

aceitarmos o conceito de processo, ve-

remos os acontecimentos e as relações como dinâmicos, em evolução, sempre

em mudança, contínuos. [ Não é coisa

estática, parada. É móvel. Os ingredien- tes do processo agem uns sobre os outros; cada um influencia todos os demais.

]

Acolhendo o pressuposto de Berlo, Sousa (2006, p. 28) assume o conceito de comu- nicação como processo, em razão de que o termo “designa um fenômeno contínuo [ ] com sua evolução em interação”. Não faltaram, ao longo dos estudos da co- municação, contribuições coerentes à com- preensão de fenômeno tão complexo. Seus fundamentos científicos encontram-se an- corado na biologia mencionada por Teles (1973, p. 19) para quem

Uma rocha se comunica, à medida que suas partículas nucleares se atraem ou se repelem na intimidade de sua estrutura atômica. Como se vê, comunicação implica movi- mento. Por convenção, chamou-se vida ao automovimento imanente. Sua exten- são foi restrita ao campo biológico, plan- tas e animais, em função da imanência.

Na antropologia, considerada por Souza Brasil (1973, p. 80) quando questiona sobre a capacidade da fala

Já que não estamos estudando especifi- camente a evolução dos primatas, nem mesmo a gênese humana em si, resta-nos

portanto saber por que se diz que o ho- mem é sabido, já que só os sabidos pen-

Quando e por que

um determinado animal poderia ser clas- sificado como homem e quando outro, que apresenta estrema semelhança anatô- mica, não o poderia?

sam e falam? [

]

Na psicologia, com Pereira (1973, p. 108) que procura lançar luzes sobre os elementos sensoriais e, concomitantemente, sobre im- portantes aspectos da experiência estética

O ser humano é um “sistema” aberto em

constante intercâmbio consigo próprio

(vida interior mental e visceral) e com o mundo ambiental. Isso só é possível gra- ças aos elementos e órgãos que forma o Conjunto SENSORIAL (órgãos do sen- tido, sensibilidade à dor, etc., etc.) e

FUNÇÕES PERCEPTIVAS. [ Du-

às

rante a transmissão de sinais ou símbo- los, no trabalho de comunicação, o colo-

rido emocional e a tonalidade afetiva tem

] (grifos do

fundamental importância [ autor).

]

Na sociologia, quando Menezes (1973, p. 147) propõe que o processo de comunicação poderia ser considerado como fundamento da vida social

Com efeito, num plano lógico de

consideração dos fatos, o processo da

comunicação humana poderia ser enca- rado como o fundamento da vida social

e não o contrário, conquanto do ponto

] [

de vista da natureza ou da estrutura de tais fenômenos os dois se manifestam de

forma nitidamente inseparáveis e, mais que isso, interdependente: [ ].

Na lingüística, porquanto Souza (1973, p. 209) sugere que a Lingüística e Teoria da Co- municação tem-se contribuído mutuamente

Seria bizantinismo discutir-se, entre Lingüística e Teoria da Comunicação, qual a que maior contribuição prestou à

outra, já que elas se ajudam reciproca-

] É

pacífico, desde Aristóteles, que o homem é um ser social. Nem todos, porém, con- cordam com os fundamentos dessa so- ciabilidade. Ninguém pode negar, en- tretanto, que a comunicação (principal- mente a lingüística) (sic!) é condição ba- silar dessa sociabilidade, que pressupõe um intercâmbio entre os homens a fim de que seja possível a transmissão, de um para o outro, de experiências, conheci- mentos e apelos.

mente, numa estreita correlação. [

E, finalmente, Sá (1973, p. 243) na filo- sofia quando, por analogia, estabelece uma primordial relação afirmando que

A teoria do Conhecimento está voltada

para três aspectos importantes do saber:

—Existe algo?

—É possível conhecer? —Pode-se transmitir?

A Comunicação está voltada — pois que

nisto envolta — para estas mesmas inda- gações. Inverte-se, apenas, a colocação

do problema.

—Pode-se (comunicar) transmitir? —O que se comunica se conhece? —O que se conhece existe?

A possibilidade da transmissão do

conhecimento é assunto gnosiológico e é,

também, assunto de comunicação.

Também Marques de Melo (idem, p.31) traça um rápido panorama da comunicação por meio dos diversos conceitos: o cientí- fico, o filosófico e o estrutural. Adotando este último para trilhar, o autor resume a co- municação enunciando: “Comunicação é o processo de transmissão e recuperação de in- formações”, mas adverte para o fato de que

] [

ao analisar o fenômeno comunicativo,

cada ciência e corrente filosófica utiliza a sua própria perspectiva, a sua própria terminolo- gia, os seus conceitos específicos”. Reconhecemos tais contribuições como fundamentais à compreensão do fenômeno comunicativo e, ampliando tais perspectivas, nos parece pertinente, até em função daquilo que se tem estudo nos últimos anos, men- cionar a existência de pressupostos sócio- interacionistas-discursivos difundidos pela escola francesa, cujos axiomas foram inau- gurados pelo lingüista russo Mikhail Bakhtin e que deságuam no princípio do dialogismo. Mas aqui não discutiremos tais pressupos- tos em função do objetivo do trabalho e seus limites espaciais, embora a tenhamos como mais uma caminho alternativo para pavimen- tação do campo espistemológico da comuni- cação.

“[ ]

2

Do grunhido à Internet

2.1

Tecnologia e ferramenta

Para fins deste trabalho, entendemos como tecnologia qualquer mecanismo que possibi- lite ao homem executar suas tarefas fazendo uso de algo exterior ao seu corpo, ou seja, tudo aquilo que se caracteriza como extensão do organismo humano. Assim visto, é neces- sário ressaltar que o uso de tecnologia pelo homem teve início não relacionado à comu- nicação, mas à sobrevivência, uma vez que as primeiras ferramentas utilizadas pela es- pécie humana serviam para destrinchar ali- mentos. Classificados como modo industrial Olduvainense, ou modo técnico 1, ele surgiu há cerca de 2,5 milhões de anos. Segundo Arsuaga (2005, p. 57), que atribui a utili- zação de tais objetos ao homo habilis “Os

primeiros artefatos líticos (ou seja, de pe- dra) datados com segurança foram recolhi- dos em Gona, na região do Hadar, país dos Afaris (Etiópia) e contam com uns 2,5 mi- lhões de anos de antiguidade”. No que con- cerne à emissão de mensagens, ou seja, ao processo de comunicação, só muito tempo depois é que o homem se serviu de algum ar- tefato a fim de quebrar a barreira do espaço

e do tempo. Para que a comunicação hu-

mana alcançasse o estágio atual, tanto em vo- lume e formatos, quanto em velocidade, fo- ram necessárias diversas transformações fisi- ológicas e processos tecnológicos revolucio- nários. Algumas mudanças aconteceram há tanto tempo que quase nunca são menciona- dos ou percebidos pelo homem, mas os seus traços se conservam e, vez ou outra, se fazem presentes nos gestos, expressões e ruídos que emitimos.

2.2 Linguagem e comunicação

Até hoje os estudiosos ainda buscam chegar

a uma conclusão definitiva sobre como os

homens primitivos começaram a se comuni- car entre si, se por gritos ou grunhidos, por gestos, ou pela combinação desses elemen- tos. De qualquer modo, o homem chegou à as- sociação dos sons e gestos para designar um objeto, dando origem ao signo, conforme nos

fala Bordenave (1982, p.24)

Qualquer que seja o caso, o que a histó- ria mostra é que os homens encontraram a forma de associar um determinado som ou gesto a um certo objeto ou ação. As- sim nasceram os signos, isto é, qualquer coisa que faz referência a outra coisa ou

idéia, e a significação, que consiste no uso social dos signos.

A invenção de uma certa quantidade de signos levou o homem a criar um processo de organização para combiná-los entre si, caso contrário, a utilização dos signos desordena- damente dificultaria a comunicação. Foi essa combinação que deu origem à linguagem se- gundo Bordenave (idem, p. 25) quando diz que “de posse de repertórios de signos, e de regras para combiná-los, o homem criou a linguagem”. Certamente a afirmação de Bor- denave refere-se à linguagem verbal (oral ou escrita) bem articulada e não à linguagem em sua acepção mais genérica que inclui a pos- sibilidade do homem emitir sons guturais a fim de expressar sensações. Não por acaso, Tattersall (idem, p. 72) nos faz recordar que “os humanos tinham um trato vocal capaz de produzir os sons de fala articulada mais de meio milhão de anos antes que surgisse evi- dência de linguagem.” É quase de domínio popular o fato de que o processo de comunicação visual sur- giu muito antes da escrita. Não por acaso, conforme nos adverte Peltzer (1991, p. 98), “muito antes de qualquer escrita, os que habitaram as grutas de Altamira comunica- ram com seus semelhantes (e poder-se-ia di- zer que continuam a comunicar)” uma vez que “quem visita hoje essas grutas recebe as mensagens cujos emissores são nossos ante-

Esse fato, por si, torna desne-

passados [ ]”.

cessário discorrer mais amplamente acerca da importância da expressão visual para o homem. Entretanto, parece-nos interessante acolher alguns pressupostos teóricos formu- lados por Santaella e Nöth (1998, p. 13), para quem a imagem faz parte da expressão humana “desde as pinturas pré-históricas” e

“hoje, na idade do vídeo e infográfica, nossa vida cotidiana—desde a publicidade televi- siva no café da manhã até as últimas notícias no telejornal da meia-noite—está permeada de mensagens visuais [ ]”. Inicialmente o homem comunicava os acontecimentos na mesma ordem em que eles se davam, ou seja, um caçador descre- via sua rotina na mesma seqüência dos fa- tos. Se pegava uma arma, enfrentava um ani- mal, matava-o e comia-o, assim desenhava nos pictogramas (desenhos ou símbolos) e ideogramas (sinal que exprime a idéia e não os sons da palavra, em oposição à fonográ- fica). Há cerca de 3.000 anos antes de Cristo, os egípcios representavam aspectos de sua cul- tura por meio de desenhos e gravuras colo- cados nas casas, edifícios e câmaras mortuá- rias. Os signos sonoros e visuais, como o tantã,

o berrante, o gongo e os sinais de fumaça, fo- ram os primeiros a serem utilizados pelo ho- mem a fim de vencer a distância. A utiliza-

ção desses artefatos caracteriza a tecnologia da comunicação em seus primórdios, já que, através deles a mensagem humana vence o âmbito familiar e grupal. Mas somente com

a invenção da escrita, por volta do século IV

antes de Cristo, é que o homem encontrou uma solução mais definitiva para o problema do alcance, já que a mensagem escrita pode ser levada de um para outro lugar. Mais do que isso, a escrita inaugura o início da histó- ria, uma vez que, sem ela, “poucos especia- listas ousam fazer assertivas, e a maior parte das interpretações é tão genérica e cautelosa que quase nada revela sobre a vida na pré- história (Gontijo, 2004, p. 48).”

2.3 A escrita e a tradição oral

O homem descobriu que as palavras ou no-

mes de objetos eram compostos por unida-

des menores de som, descobrindo, portanto,

os fonemas e, conseqüentemente, a possibili-

dade de representar os objetos e as coisas por meio destas unidades. Esta descoberta per- mitiu o surgimento da escrita chamada fono- gráfica, na qual os signos representam sons.

A combinação dos sons em seqüências de

diversos comprimentos pode, além de des-

crever objetos, representar idéias. A possi- bilidade dos signos gráficos serem represen- tados por unidades de sons menores que as palavras deu nascimento ao conceito de le- tras. Com elas, o homem formou os alfabe- tos. Antes que o alfabeto tomasse a forma que o conhecemos atualmente, passou por inúmeras transformações. Primeiro surgiram os silabários, que consistiam num conjunto

de sinais específicos para representar cada sí-

laba chegando muito tempo depois ao alfa- beto greco-latino (Gontijo, idem, p. 48-166). Mas, ainda assim, por séculos, a cultura continuou sendo transmitida oral e visual- mente. Durante a Idade Média o povo não tinha acesso à linguagem escrita, que era res- trita aos monges e às pessoas letradas. Enquanto a linguagem se desenvolvia, os suportes e meios de comunicação também iam se aperfeiçoando. O surgimento do pa- pel, inventado pelos chineses, substituiu as superfícies de pedra, os papiros e os perga- minhos de couro, então utilizados para a es- crita. A história da escrita tem muito de fascí- nio. Antes que a tecnologia ocidental de im- pressão surgisse para disseminar os textos, as cópias manuscritas circulavam entre os pou- cos que decifravam seus códigos. Briggs e

Burke (2004, p. 19) contam que “nas expe- dições que fazia, Alexandre, o Grande, car- regava consigo um porta-jóias com a Ilíada de Homero,” e que, “além disso, uma grande biblioteca com cerca de meio milhão de ma- nuscritos foi erguida na cidade que levou seu nome, Alexandria”.

2.4 Prensa, tecnologia e comunicação de massa

Entre 1438 e 1440, o alemão Johann Gens- fleish Gutenberg aperfeiçoou os tipos mó- veis criados pelos chineses que foram os primeiros a imprimir livros. O sistema de prensa tipográfica criado por Gutenberg, as-

sociado às possibilidades oferecidas pelo al- fabeto romano, composto de pouquíssimas letras quando comparado aos inúmeros ide- ogramas chineses, não somente possibilitou

a produção de livros em grande escala, como

propiciou o surgimento do jornal. Dava-se então o primeiro passo para a democratiza- ção da escrita e, conseqüentemente, do saber, conforme ressalta Gontijo (idem, p. 167) di- zendo que “quando foi possível mecanizar esse processo através da prensa e reproduzir

em série, o livro tornou-se portátil e o saber extrapolou os limites dos mosteiros, feudos

e nações.” O surgimento do sistema tipográfico gu- tenberguiano é considerado a origem da co- municação de massas por constituir o pri- meiro método viável de disseminação de idéias e informações a partir de uma única fonte. Ao surgimento da imprensa Fernando Sá (2002, orelha) ressalta um outro importante marco histórico

O aparecimento e difusão da imprensa

também estará diretamente vinculada ao desenvolvimento comercial e industrial das principais cidades da Europa. É com a imprensa que a cultura sai dos claus- tros e vai para as ruas, permitindo o sur- gimento do público leitor. Quando uma parte importante desses leitores passa a se interessar pelas publicações políticas e decide se envolver com os assuntos pú- blicos, teremos chegado ao nascimento do público político.

Porém, o jornal não foi o primeiro pro- duto a ser impresso por meio da tecnologia dos tipos móveis. Antes, Gutenberg produ- ziu cerca de 300 exemplares da Bíblia divi- didos em dois volumes. O clero, que via na impressão uma ame- aça ao seu domínio, rendeu-se à tecnologia tipográfica e passou a utilizar o invento para imprimir as indulgências, textos teológicos e manuais de instrução para a condução de in- quisições, aumentando a influência da Igreja. Bacelar, (2002, p.2) descreve como a pro- dução de textos foi fundamental para a que- bra do papel da Igreja como guardiã da ver- dade espiritual. Segundo ele

Cópias impressas das teses de Lutero fo- ram rapidamente divulgadas e distribuí- das, desencadeando as discussões que vi- riam iniciar a oposição à ideia do papel da Igreja como único guardião da ver- dade espiritual. Bíblias impressas em linguagem vernáculas, em alternativa ao latim, alimentaram as asserções da Re- forma Protestante que questionavam a necessidade da Igreja para interpretar as Escrituras — uma relação com Deus po- dia ser, pelo menos em teoria, directa e pesssoal.

Além de quebrar dogmas religiosos, Ba- celar (idem, p. 4) ressalta a importância da imprensa também como instrumento de re- voluções

Veja-se como exemplo, o papel que a imprensa desempenhou nas colónias in- glesas da América, divulgando e defen- dendo as ideias visionárias que deram forma à Revolução Americana ou, mais tarde ainda, o papel que desempenhou nos aparelhos de agitação e propaganda para a disseminação das ideais de todos os movimentos ideológicos revolucioná- rios que, a partir do século XIX, se pro- puseram transformar o mundo.

A tecnologia mecânica de Gutenberg au-

tomatizou o sistema de produção de textos e antecipou-se ao que seria a Revolução Indus-

trial, iniciada na Inglaterra em 1750. Assim, não caracteriza exagero afirmar que a tipo- grafia instituiu a tecnologia moderna de co- municação, visto que, antes, o que tínhamos eram tecnologias primitivas (tambor, ber- rante, fumaça) ou arcaicas (placa de barro, papiro, pergaminho).

A associação mundial dos jornais aceita

como verdadeira as evidências de que o pri- meiro jornal do planeta tenha sido o Rela- tionen , produzido por Johann Carolus, em 1605. De acordo com o site Observatório

da Imprensa (2005), Carolus residia em Es- trasburgo, que no século XVII pertencia ao Império Alemão e hoje pertence à França. Os descobridores do jornal, Martin Welker e Jean Pierre Kintz dão garantias de que o periódico circulava em cópias manuscritas desde 1604. Afora isso, não é incomum de- pararmos com textos que afirmam serem as Actas Diurnas publicadas em Roma desde 59 a.C a origem do jornalismo.

O primeiro jornal brasileiro foi o Correio Braziliense. Seu número inicial foi lançado em 1 o de junho de 1808, por Hipólito José da Costa. Sua impressão era feita em Londres, porque a Coroa Portuguesa proibia a existên- cia de impressoras na colônia. No mesmo ano, a família Real, que fugia das invasões napoleônicas, chegou ao Brasil trazendo nos porões dos navios as máquinas que iriam dar origem a Imprensa Régia, fa- zendo surgir o primeiro jornal impresso em território brasileiro. A Gazeta do Rio de Janeiro foi fundada em 10 de dezembro de 1808 e publicava documentos oficiais e no- tícias de interesse da Corte, com linguagem bem parecida com os atuais diários oficiais. Nos anos seguintes foram surgindo outros periódicos, mas com linguagens marcada- mente agitadoras, que partiam especialmente de Cipriano Barata e Frei Caneca. Desses, predominou o jornalismo panfletário da im- prensa que sobreviveu até metade do século XIX. Gontijo (idem, p. 285) assegura que

De início, os jornais demonstravam ter alguma consciência de que parte da mis- são era educar o povo. No entanto, du- rante esse período turbulento, o que se viu foi uma disputa radical, que fez surgir estilos vigorosos e originais de redação jornalística, embora, muitas vezes, des- cambassem para acusações infundadas e ataques pessoais.

2.5 A era da eletricidade

Na esteira do desenvolvimento tecnológico surgiu o rádio. As transmissões eletromag- néticas propiciaram primeiro a criação do te- légrafo, que transmitia apenas código Morse. Em 1900 foi feita a primeira ligação radiote-

legráfica de 300 km, entre Cornwall e a ilha de Wight, na Inglaterra. Muito embora o nome do italiano Gugli- elmo Marconi seja tido como o do inven- tor do rádio, o certo é que em 1896 Mar- coni patenteou o primeiro aparelho transmis- sor sem fios. Suas investigações começaram por volta de 1894, quando conseguiu enviar sinais fracos a cerca de 100m de distância. Em pouco mais de dois anos os sinais já ul- trapassavam a barreira de 1 km. Mas antes que o cientista italiano tivesse realizado ex- periências de sucesso, o padre brasileiro Ro- berto Landell de Moura já havia transmitido voz por meio do eletromagnetismo. Grecco (2006, p. 77) afirma que “Há registros de que as primeiras experiências do padre Landell com transmissões de ondas portando a voz humana teriam ocorrido entre 1893 e 1894. No mínimo um ano antes da façanha de Mar- coni na Itália”. Gontijo (idem, p. 355) tam- bém ressalta o fato de Landell ter se adian- tado a Marconi na transmissão radiofônica

A primeira demonstração oficial de seu

invento foi a transmissão entre a avenida Paulista e o bairro de Sant’ana, sem a

ajuda de fios, de sua própria voz, através

da irradiação de uma onda eletromagné-

tica, em junho de 1900, na presença de autoridades e da imprensa, 22 anos antes

do Centenário da Independência.

Vejamos como o Jornal do Commercio, em sua edição de 10 de junho de 1900, noti- ciou o fato:

No domingo próximo passado, no alto de Sant’ana, cidade de São Paulo, o pa- dre Roberto Landell, fez uma experiência particular com vários apparelhos de sua

invenção, no intuito de demonstrar algu- mas leis por elle descobertas no estuda da propagação do som, da luz e da eletrici- dade atravez do espaço, da terra e do ele- mento aquoso, as quaes foram coroadas de brilhante êxito. (sic!) Estes apparelhos eminentemente praticos são como tantos corollários deduzidos das leis supracitadas. (Sic!) Assistirão á estas provas, entre outras pessoas, o Sr. P.C.P. Lupiton, represen- tante do Governo Britânico e sua família. (Sic!)

A primeira transmissão de música por meio do eletromagnetismo se deu na noite de Natal de 1906, na cidade de Brant Rock, Massachusetts, Estados Unidos, por Regi- nald Fessenden. O sinal foi captado por na- vios a 80 km de distância. O advento do rádio marcou uma nova era nas comunicações, porque suas ondas possi- bilitaram a quebra de uma barreira que sub- sistiu à tecnologia da impressão: o analfabe- tismo. Como conseqüência, cristalizou-se o processo de massificação, cuja abrangência o viabilizou como principal instrumento po- lítico da época. No Brasil, a primeira transmissão radiofô- nica pública oficial ocorreu em 7 de setem- bro de 1922, no Rio de Janeiro, quando o presidente Epitácio da Silva Pessoa discur- sou na inauguração da Exposição do Cente- nário da Independência.

2.6 A estética da imagem

Conforme nos explica Pacheco (2005, p. 2) “estética tem sua origem em ‘estesia’, ou seja, sensação, sensibilidade, sentido. Em contraposição, temos a palavra ‘anestesia’,

negação de ‘estesia’, em que os sentidos e sensações são bloqueados.” Partindo de tais princípios, nos parece que as experiências estéticas encontram-se relacionadas ao nú- mero de sentidos que as mensagens e os meios de comunicação são capazes de aci- onar no homem. A tecnologia que propiciou a imagem em movimento e adicionou a ela o elemento sonoro, rompeu com as experiên- cias estéticas até então vivenciadas por meio da técnica de impressão. O cinema antecedeu a televisão enquanto tecnologia que possibilitou a visualização da imagem em movimento. Assim como o rádio, a televisão também nasceu de um conjunto de descobertas inici- adas em 1817 quando o químico sueco Tons Jacob Berzelius descobriu o selênio, que pro- duzia uma corrente de elétrons sempre que atingido por um feixe de luz. Em 1923, o russo naturalizado americano, Vladimir Zworykin, inventou o iconoscó- pio que, aperfeiçoado, iria se converter no atual tubo de imagem dos televisores, tam- bém chamado de cinescópio. De acordo com Gotijo (idem, p. 404)

Os primeiros passos para a televisão co- mercial foram dados pela RCA, com a tecnologia desenvolvida pelo russo natu- ralizado americano Wladimir Zworykin. Foi o seu sistema, completamente eletrô- nico, que permitiu a primeira demonstra- ção pública, em Nova York, de transmis- são das imagens produzidas nos estúdios da RCA.

As primeiras experiências de transmis- são iniciadas na década de 1930 na Europa e nos Estados Unidos foram interrompidas pela Segunda Guerra Mundial, somente re- tornando após o conflito. Já na década de

1950 existiam diversos modelos de recepto-

res. Estava, portanto, concretizado o invento que uniu o som e a imagem em movimento.

O Brasil foi o quinto país do mundo a pos-

suir emissora de televisão, depois dos Esta- dos Unidos, Grã-Bretanha, Países Baixos e França. A primeira emissora brasileira foi

a PRF3-TV, futura Rede Tupi de São Paulo, inaugurada em 18 de setembro de 1950.

O incremento na comunicação viveu uma

nova fase com a invenção dos satélites. Os

primeiros geoestacionários do tipo Syncom

foram colocados no espaço nos anos de 1963

e 1964, servindo simultaneamente a diversas

estações terrestres de localidades ou países diferentes. Mas o processo de integração dos meios de comunicação iria sofrer o mais profundo impacto com o advento da rede mundial de computadores, denominada Internet. A rede planetária surgiu de experiências e pesqui- sas realizadas para fins militares no final da década de 1950 e, dela, deriva o debate entre apocalípticos e integrados, permeados por um terceiro grupo denominado “técnico- realístico” citado por Lemos (1998, p. 46):

O imaginário da cibercultura é perme-

ado por uma polarização que persegue a questão da técnica desde tempos ime- moriais: medo e fascinação. O que ve-

mos hoje, com o desenvolvimento da ci- bercultura (Internet, realidade virtual, cy- borgs, hipertexto, etc.), é o acirramento

da querela entre o que Umberto Eco cha-

mou de apocalípticos e integrados (Eco,

um grupo de americanos

criou, em março de 1998, uma corrente

de pensamento e posicionamento em re-

lação à tecnologia batizada de “técnico- realismo”.

1979).[ ]

Mais recentemente, Briggs e Burk (idem, p. 310) aludindo à Internet afirmam ser dela a responsabilidade por uma nova psicologia

Em um período de aceleração da tec-

nologia, a Internet desafiou as previsões

]. [

sica e desenvolveu uma psicologia pró- pria, como havia sido feito o desbrava- mento da fronteira, e o que veio a ser chamado de sua “ecologia”, palavra nova nos estudos da comunicação [ ].

Rapidamente deixou para trás a fí-

Assim, nos parece que a Internet conso- lida uma era estetizada pela imagem, mas não a supera, conforme se poderia deduzir de modo simplista.

3 Efeitos convergentes

Sentado em uma poltrona, acompanhado ou não por outras pessoas, no silêncio de um cô- modo tomado pela penumbra ou num am- biente de extrema iluminação e sacudido pela algazarra de vozes e sons, o homem aponta o controle remoto para a televisão e, utilizando-se de suas múltiplas funções, “na- vega” por diferentes canais, aumenta e dimi- nui o volume do som, controla as cores e a intensidade de luz da imagem etc. Tudo isso, envolvido na simplicidade das coisas e go- zando do conforto das condições que a vida moderna pode oferecer, dependendo, eviden- temente, do poder aquisitivo de cada um. Se voltarmos no tempo, em plena era do vapor, vamos nos deparar com um texto de Willian Shockley, escrito em 1927, retra- tando uma época em que a mecânica tinha lá os seus deslumbramentos. (Burke apud Shockley, 2004, p. 26):

Nossa era é eminentemente mecânica.

Viajamos de um lugar a outro a velocida- des relativamente monstruosas, falamos uns com os outros a grandes distâncias

e lutamos contra nossos inimigos com

surpreendente eficiência — tudo com a

ajuda de artifícios mecânicos.

Vinte anos depois (1947), o próprio Shoc- kley, em parceria com Jhon Bardeen e Walter Brattain, seria responsável pela invenção do transistor, dispositivo eletrônico que levou ao surgimento do circuito integrado, como bem lembra Burke. (idem, p. 27).

Shockley dividiria um prêmio Nobel de física, em 1956, quando a miniaturização

de circuitos elétricos estava começando a transformar todos os aspectos de projeto

] Todavia, a de-

e uso tecnológicos. [

manda por transistores ainda engatinhava

e só aumentou acentuadamente após o advento do circuito integrado.

Utilizamos esta introdução apenas para descrever como a tecnologia, na ponta de consumo, opera a sensação de linearidade. Ao chegar no homem-consumidor, apare- lhos, equipamentos, acessórios e proces- sos promovem o bem-estar social resumido numa comodidade inimaginável há algumas décadas. O produto acabado esconde, em sua fetichização, uma cadeia de produção vertiginosa que vai desde o trabalho mais “simples” do operário que regula e controla as máquinas na linha de produção aos téc- nicos que operam os complexos equipamen- tos dos laboratórios de nanotecnologia, pas- sando pelos inúmeros pesquisadores encar- regados de planejar as formas e os conteúdos dos produtos que serão lançados como novas

vedetes nos mais variados segmentos do con- sumo. Eis, pois, aqui, o termo mágico pelo qual tudo se move: consumo. Esse aspecto

é tratado por Jambeiro (1998, p. 3) quando

lembra que a concepção de serviços e pro- dutos se destina à apropriação das estruturas econômico-financeiras da sociedade.

Não importa a natureza da informação,

a tecnologia necessária para transformá-

la, editá-la, transportá-la ou armazená- la é a mesma, embora em certa medida persistam métodos e qualificações dife- renciados para os processos de concep- ção e produção de serviços e produtos. Serviços e produtos estes que passaram

a submeter-se aos processos de apropri-

ação típicos das estruturas econômico- financeiras da sociedade.

O cenário atual é caracterizado forte- mente pelas ocorrências de arranjos técnicos que produzem ininterruptas convergências. Trata-se do equacionamento de conteúdos no

formato de arquivos digitais, infra-estrutura de transmissão e plataforma de visualização. De acordo com Briggs (idem, p. 270), desde 1990 o termo convergência é aplicado ao de- senvolvimento tecnológico digital, “à inte- gração de texto, números, imagens, sons e

a diversos elementos na mídia”. Para entendermos minimamente as vicis-

situdes da convergência precisamos retomar

a história do desenvolvimento tecnológico da

informação. O inventário desse processo his- tórico, evidentemente, está além do que pre- tende este trabalho, mas é imprescindível ci- tar ao menos os fatos mais relevantes. A co- meçar pelo computador que, no início, fun- cionava mecanicamente. Seu protótipo foi exposto na Galeria de Instrumentos Cientí-

ficos no King’s College, em Strand (Grã- Bretanha), por seu inventor, o economista britânico Charles Baggage. Sem o computa- dor não haveria como lançar os satélites geo- estacinários e, nem tampouco, possibilidades de interligar as pessoas por meio da Internet. Quando em outubro de 1957 a ex-União Soviética colocou o Sputnik no ar, seu lança- mento chamou mais a atenção do que o pró- prio computador — equipamento imprescin- dível para a ocorrência daquele ato — des- pertando, segundo Briggs (idem, p.293), o governo norte-americano para uma corrida tecnológica.

Por um breve período na história mun- dial, os satélites de comunicações, os “comsats”, impossíveis de serem lança- dos sem os computadores, atraíam mais a atenção do que os próprios computa- dores. Os satélites eram as mais fasci- nantes (alguns diriam até “sexy”) expres- sões de tecnologia depois do lançamento do Sputinik pela União Soviética em ou- tubro de 1957, o surpreendente “acon- tecimento” que levou o governo norte- americano a encontrar uma resposta o mais rápido possível.

As primeiras transmissões de programas de televisão via satélite foram enviadas em 11 de julho de 1962. Futuramente o satélite teria sua utilização ampliada para a telefonia. Foi o lançamento do Sputinik que levou o governo norte-americano a investir no desen- volvimento da rede de computadores. A Ad- ministração dos Projetos de Pesquisa Avan- çada do Departamento de Defesa dos Esta- dos Unidos foi fundada em 1957 e recebeu grande injeção de verbas entre os anos de 1968 e 1969, como resposta aos soviéticos.

No início, tratava-se de uma rede limitada, a Arpanet, que compartilhava informações en- tre universidades de alta tecnologia e outros institutos de pesquisa. Independentemente das visões utilitaris- tas que rivalizavam as universidades e o Pentágono, havia uma preocupação tecnoló- gica com a denominada “arquitetura do sis- tema” que, segundo opinião de Briggs (idem,

p.311),

Qualquer que fosse a posição vantajosa, de cima ou de baixo, era de importância crucial, tanto de imediato quanto a longo prazo, que a “arquitetura do sistema” (termo empregado com freqüência) dife- risse daquela construída para a rede te- lefônica. Os responsáveis pelo sistema se orgulhavam disso. Qualquer computador podia se ligar à Net de qualquer lugar, e a informação era trocada imediatamente, em “fatias” dentro de “pacotes”. O sis- tema de envio quebrava a informação em peças codificadas, e o sistema receptor juntava-a novamente, depois de ter via- jado até seu destino. Esse foi o primeiro sistema de dados empacotados da histó- ria.

A Internet, nos parece, representa a cul-

minação de um ciclo de desenvolvimento da tecnologia da informação, tanto quanto ou-

tros ciclos que se completaram. Mas tal afir- mação, longe da ingenuidade e crença sim- plista, não supõe fim algum, antes, aponta para o surgimento de uma nova era, ainda que insipiente.

A nanotecnologia é um termo ainda novo

e quase desconhecido no vocabulário do pú- blico. Ele deriva da escala nanométrica que divide o metro por segmento de bilionésimo

e vem movimentando investimentos gover-

namentais na ordem de bilhões de dólares em todo o mundo. Há cerca de 2.500 anos, filósofos gregos questionavam sobre a possibilidade da exis- tência de “tijolos” como componentes mais simples da matéria a constituir as coisas do mundo. Guardadas as especificidades e res- peitados os períodos históricos, essas elucu- brações de cunho filosófico se tornaram reais no século XIX com a descoberta do átomo, o constituinte fundamental da matéria que, no início, supunha ser indivisível. Em 1959, durante uma palestra no Insti-

tuto de Tecnologia da Califórnia, o físico Ri- chard Feynman sugeriu que num futuro não muito distante os engenheiros poderiam pe- gar os átomos e colocá-los onde bem enten- dessem. A palestra de Feynman é tida como

o marco inicial da nanotecnologia. Mesmo no Brasil, onde os investimentos na área são parcos, a nanotecnologia já rende frutos. Um grupo de pesquisadores da Em- brapa, liderados pelo Dr. L. H. Matoso, desenvolveu uma “língua eletrônica”, dis- positivo que combina sensores químicos de espessura nanométrica com um sofisticado programa de computador para detectar sa- bores. O invento que ganhou prêmios e foi patenteado é mais sensível que a língua hu- mana. O físico Cylon Gonçalves da Silva, ex- diretor do Laboratório Nacional de Luz Sín- crotron e idealizador do Centro Nacional de Referência em Nanotecnologia, levanta al- gumas suposições sobre os limites da nano- metria (Silva, 2004, p.3)

As aplicações possíveis incluem: aumen- tar espetacularmente a capacidade de ar- mazenamento e processamento de dados

dos computadores; criar novos mecanis- mos para entrega de medicamentos, mais seguros e menos prejudiciais ao paciente dos que os disponíveis hoje; criar mate- riais mais leves e mais resistentes do que metais e plásticos, para prédios, automó- veis, aviões; e muito mais inovações em desenvolvimento ou que ainda não foram sequer imaginadas. Economia de ener- gia, proteção ao meio ambiente, menor uso de matérias-primas escassas, são pos- sibilidades muito concretas dos desenvol- vimentos em nanotecnologia que estão ocorrendo hoje e podem ser antevistos.

A velocidade do desenvolvimento na área de nanotecnologia levou pesquisadores a uma afirmação quase chocante, em março de 2004, durante o EPA (Environmental Protec- tion Agency), órgão do governo dos Estados Unidos, quando disseram que

A nanotecnologia, incluindo a nanobio- tecnologia, tem sido divulgada pelas in- dústrias e pelos governos como a pró- xima revolução industrial, a maior e a mais rápida do mundo. Mais de 450 em- presas dedicadas à nanotecnologia já es- tão no mercado produzindo uma gama de produtos da ’nano velha’, como par- tículas usadas em cosméticos e atomiza- dores, e produtos da ‘nano nova’ como chips, sensores e novas formas de car- bono. É preciso que o setor industrial se empenhe para que as preocupações rela- tivas à saúde e ao meio ambiente não se desviem do progresso da nanotecnologia.

Tais elementos oferecem condições para que possamos supor que um novo tempo tecnológico venha se forjando, caracterizado

pelo surgimento de novos produtos e ele- mentos que devem, num tempo ainda difí-

cil de precisar, quebrar novos paradigmas co-

municacionais e alterar os condicionantes da relação humana. Seguramente, os profissionais, donos de empresas, estudantes da área de comunica- ção, escolas de jornalismo, bem como espe- cialistas da área, serão desafiados a produzir a partir de novas concepções, em que a ca- pacidade de criação e inventividade nunca se fez tão emergente.

Considerações finais

A chamada sociedade da informação ou so-

ciedade tecnológica é considerada por mui-

tos autores como um fenômeno recente na história do homem e é mais fácil senti-la do que descrevê-la, porque o mote princi-

pal de sua existência se deve a complexos fa- tores que fizeram emergir novos paradigmas

na produção, recepção e percepção da infor-

mação. Sobre seu advento, Jambeiro (idem, p.3) lembra que sua caracterização se dá nos anos 70: “Na base tecnológica da mudança tem estado um intenso desenvolvimento ci- entífico e tecnológico que, desde os anos 70, vem apontando fortemente para a convergên- cia entre a eletrônica, a informática e as co- municações”.

No que concerne a sua complexidade e

percepção, Baitello Júnior (idem, p.11) ad- verte para o aspecto multifacetado do pro- cesso comunicativo afirmando que

Com esse espectro cada vez mais

] [

amplo, ainda em crescimento exponencial, pode-se dizer que não apenas houve e está havendo uma explosão informacional na so- ciedade humana de nosso tempo, como tam- bém se pode dizer que a investigação da co-

municação humana passa por uma explosão similar, compreendendo que apenas uma vi-

são transdisciplinar poderá enxergar o objeto plurifacetado que é o processo comunicativo

do homem. [ A conseqüência mais imedi-

ata é que o instrumental de que a ciência dis-

punha para a investigação dos processos co- municativos seguramente não consegue mais dar conta da complexidade do objeto. Uma das conseqüências do fenômeno da rápida transformação pode se traduzir no sentimento de incerteza, marcada por inten- sas alterações históricas, como bem lembra Santaella (2003, p. 16) Nas últimas décadas, tem havido uma constatação constante de que estamos atra- vessando um período de mudanças par- ticularmente rápidas e intensas. Tem sido freqüentemente lembrado que o último quarto do século XX não teve precedente na escala, finalidade e velocidade de sua trans- formação histórica. A única certeza para o futuro é que ele será bem diferente do que é hoje e que assim será de maneira muito mais rápida do que nunca. A razão disso tudo, quase todos afirmam, está na revolução tec- nológica, uma idéia que se tornou rotineira e lugar comum, nestes tempos de tecnocultura [

Além disso, cada vez mais, a sociedade da informação se delimita pela fetichização do tempo. Citando Ramonet, Sylvia Mo- retzshon (2004, p.4) lembra que “não é mais possível analisar a imprensa fora da lógica do ‘tempo real’, que submete todas as for- mas e meios através das quais se pratica o jornalismo”. Finalizamos este trabalho sugerindo que um novo tempo tecnológico vem se forjando, pressupomos uma transição do modelo da sociedade da informação ou tecnológica para

]

o da sociedade da nanoinformação ou da na- notecnologia. Não se trata de cunhar novas palavras, nem tampouco de exercitar a futu- rologia. Afora o neologismo, e considerando aquilo que já falamos sobre aspectos estéti- cos enquanto mecanismo associado aos sen- tidos, nos parece evidente a transição para um modelo social em que o processo de co- municação vivencie novas experiências sen- soriais.

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