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Opinião

Agroecologia. Enfoque científico


e estratégico
Agroecologia nos faz
lembrar de uma agri-
cultura menos
agressiva ao meio
ambiente, que pro-
move a inclusão so-
cial e proporciona
melhores condições
econômicas para os
agricultores de nosso
estado. Não apenas
isso, mas também
temos vinculado a
Agroecologia à oferta
de produtos "limpos",
ecológicos, isentos
de resíduos quími-
cos, em oposição
àqueles característi-
cos da Revolução Ver-
de. Portanto, a Agro-
ecologia nos traz a idéia e a expectativa de
Caporal, Francisco Roberto*
uma nova agricultura, capaz de fazer bem aos
Costabeber, José Antônio**
homens e ao meio ambiente como um todo,
De algum tempo para cá, quase todos nós afastando-nos da orientação dominante de
temos lido, ouvido, falado e opinado sobre Agro- uma agricultura intensiva em capital, ener-
ecologia. As orientações daí resultantes têm gia e recursos naturais não renováveis,
sido muito positivas, porque a referência à agressiva ao meio ambiente, excludente do
ponto de vista social e causadora de depen-
* Engenheiro Agrônomo, Mestre em Extensão Rural
dência econômica.
(CPGER/UFSM), Doutor pelo Programa de
"Agroecología, Campesinado e Historia" - Instituto de Por outro lado, e isto é importante que se
Sociología y Estudios Campesinos, Universidad de diga, o entendimento do que é a Agroecologia
Córdoba (Espanha), Extensionista Rural e Diretor e onde queremos e podemos chegar com ela
Técnico da EMATER/RS-ASCAR. não está claro para muitos de nós ou, pelo
** Engenheiro Agrônomo, Mestre em Extensão Rural menos, temos tido interpretações conceitu-
(CPGER/UFSM), Doutor pelo Programa de ais diversas que, em muitos casos, acabam
"Agroecología, Campesinado e Historia" - Instituto de nos prejudicando ou nos confundindo em re-
Sociología y Estudios Campesinos, Universidad de lação aos propósitos, objetivos e metas do tra-
Córdoba (Espanha), Extensionista Rural e Assessor balho que todos estamos empenhados em re-
Técnico da EMATER/RS-ASCAR. alizar. Apenas para dar alguns exemplos do 13
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mau uso do termo, não raras vezes tem-se maior ênfase no conhecimento, na análise e
confundido a Agroecologia com um modelo de na interpretação das complexas relações
agricultura, com um produto ecológico, com existentes entre as pessoas, os cultivos, o solo,
uma prática ou tecnologia agrícola e, inclu- a água e os animais. Por esta razão, as pes-
sive, com uma política pública. Isso, além de quisas em laboratório ou em estações expe-
constituir um enorme reducionismo do seu rimentais, ainda que necessárias, não são
significado mais amplo, atribui à Agroecolo- suficientes, pois, sem uma maior aproxima-
gia definições que são imprecisas e incorre- ção com os diferentes agroecossistemas, elas
tas sob o ponto de vista conceitual e estraté- não correspondem à realidade objetiva onde
gico, mascarando a sua real potencialidade seus achados serão aplicados e, tampouco,
de apoiar processos de desenvolvimento ru- resguardam o enfoque ecossistêmico deseja-
ral. Por esses motivos, e sem ter a pretensão do. São relações complexas deste tipo que ali-
de fazer, neste momento, qualquer aprofun- mentam a moderna noção de sustentabilida-
damento teórico e/ou metodológico, nos pa- de, tão importante aspecto a ser considerado
rece conveniente mencionar, objetivamen- na atual encruzilhada em que se encontra a
te, como a Agroecologia vem sendo encarada humanidade.
sob o ponto de vista acadêmico e o seu víncu- Em essência, o Enfoque Agroecológico
lo com a promoção do desenvolvimento rural corresponde à aplicação de conceitos e prin-
sustentável. cípios da Ecologia, da Agronomia, da Sociolo-
Com base em vários estudiosos e pesqui- gia, da Antropologia, da ciência da Comuni-
sadores nesta área (Altieri, Gliessman, cação, da Economia Ecológica e de tantas ou-
Noorgard, Sevilla Guzmán, Toledo, Leff), a tras áreas do conhecimento, no redesenho e
Agroecologia tem sido reafirmada como uma no manejo de agroecossistemas que quere-
ciência ou disciplina científica, ou seja, um mos que sejam mais sustentáveis através do
campo de conhecimento de caráter tempo. Trata-se de uma orientação cujas pre-
multidisciplinar que apresenta uma série de tensões e contribuições vão mais além de
princípios, conceitos e metodologias que nos aspectos meramente tecnológicos ou agronô-
permitem estudar, analisar, dirigir, desenhar micos da produção agropecuária, incorporan-
e avaliar agroecossistemas. Os agroecossis- do dimensões mais amplas e complexas, que
temas são considerados como unidades fun- incluem tanto variáveis econômicas, sociais
damentais para o estudo e planejamento das e ecológicas, como variáveis culturais, polí-
intervenções humanas em prol do desenvol- ticas e éticas. Assim entendida, a Agroecolo-
vimento rural sustentável. Nestas unidades gia corresponde, como afirmamos antes, ao
geográficas e socioculturais que ocorrem os campo de conhecimentos que proporciona as
ciclos minerais, as transformações bases científicas para apoiar o processo de
energéticas, os processos biológicos e as re- transição do modelo de agricultura conven-
lações sócioeconômicas, constituindo o lócus cional para estilos de agriculturas de base eco-
onde se pode buscar uma análise sistêmica lógica ou sustentáveis, assim como do mode-
e holística do conjunto destas relações e lo convencional de desenvolvimento a proces-
transformações. Sob o ponto de vista da pes- sos de desenvolvimento rural sustentável.
quisa Agroecológica, os primeiros objetivos Suas bases epistemológicas mostram que,
não são a maximização da produção de uma historicamente, a evolução da cultura huma-
atividade particular, mas sim a otimização na pode ser explicada com referência ao meio
do equilíbrio do agroecossistema como um ambiente, ao mesmo tempo em que a evolu-
14 todo, o que significa a necessidade de uma ção do meio ambiente pode ser explicada com
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referência à cultura humana. Ou seja: a) Os cionais e a experiência com instituições e


sistemas biológicos e sociais têm potencial tecnologias agrícolas ocidentais podem se
agrícola; b) este potencial foi captado pelos unir para melhorar tanto os agroecossiste-
agricultores tradicionais através de um pro- mas tradicionais como os modernos; f) o de-
cesso de tentativa, erro, aprendizado seleti- senvolvimento agrícola, através da Agroeco-
vo e cultural; c) os sistemas sociais e biológi- logia, manterá mais opções culturais e bioló-
cos coevoluíram de tal maneira que a sus- gicas para o futuro e produzirá menor deteri-
tentação de cada um depende estruturalmen- oração cultural, biológica e ambiental que os
te do outro; d) a natureza do potencial dos sis- enfoques das ciências convencionais por si
temas social e biológico pode ser melhor com- sós (Norgaard, 1989).
preendida dado o nosso presente estado do co- Dentro desta perspectiva, especialmente
nhecimento formal, social e biológico, estu- ao longo dos últimos 3 anos, o Rio Grande do
dando-se como as culturas tradicionais cap- Sul vem se transformando em um estado
taram este potencial; e) o conhecimento for- onde existem referências concretas quanto
mal, social e biológico, o conhecimento obti- ao processo de transição agroecológica a par-
do do estudo dos sistemas agrários convenci- tir da adoção dos princípios da Agroecologia
onais, o conhecimento de alguns insumos de- como base científica para orientar esta tran-
senvolvidos pelas ciências agrárias conven- sição a estilos de agricultura e desenvolvi- 15
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mento rural sustentáveis. Não obstante, ain- rar, de forma holística e sistêmica, as seis
da que o tema, como abordamos acima, te- dimensões da sustentabilidade, ou seja: a
nha sido objeto de discussão em distintos Ecológica, a Econômica, a Social, a Cultural,
eventos realizados em todas as regiões do a Política e a Ética (Caporal e Costabeber,
estado e esteja presente em vários textos e 2002). Partindo desta compreensão, repeti-
documentos de ampla circulação, continua- mos que a Agroecologia não pode ser confun-
mos a observar que segue existindo um uso dida com um estilo de agricultura. Também
equivocado do termo Agroecologia e de seu não pode ser confundida simplesmente com
significado. um conjunto de práticas agrícolas
Por este motivo, nos parece importante ambientalmente amigáveis. Ainda que ofe-
reforçar a noção de Agroecologia que vem reça princípios para estabelecimento de es-
respaldando o processo de transição agroe- tilos de agricultura de base ecológica, não se
cológica em curso com seu caráter pode confundir Agroecologia com as várias de-
ecossocial, como fazemos neste artigo de nominações estabelecidas para identificar al-
opinião. Na prática e teoricamente, a Agro- gumas correntes da agricultura "ecológica".
ecologia precisa ser entendida como um Portanto, não se pode confundir Agroecologia
enfoque científico, uma ciência ou um con- com "agricultura sem veneno" ou "agricultu-
junto de conhecimentos que nos ajuda tan- ra orgânica", por exemplo, até porque estas
to para a análise crítica da agricultura con- nem sempre tratam de enfrentar-se em re-
vencional (no sentido da compreensão das lação aos problemas presentes em todas as
razões da insustentabilidade da agricultu- dimensões da sustentabilidade.
ra da Revolução Verde), como também para Estas são considerações que julgamos ser
orientar o correto redesenho e o adequado de suma importância quando se almeja pro-
manejo de agroecossistemas, na perspecti- mover a construção de processos de desen-
va da sustentabilidade. volvimento rural sustentável, orientados
Assim sendo, o Enfoque Agroecológico, pelo imperativo socioambiental, com parti-
como o estamos entendendo no Rio Grande cipação e equidade social, como já nos re-
do Sul, traz consigo as ferramentas teóricas ferimos em outro texto (Caporal e
e metodológicas que nos auxiliam a conside- Costabeber, 2000; 2001).

Referências Bibliográficas
CAPORAL, F. R.; COSTABEBER, J. A. Agroe- cialidades em questão. Santa Cruz do Sul:
cologia e desenvolvimento rural sustentá- EDUSC, 2001. p.19-52.
vel: perspectivas para uma nova Extensão CAPORAL, F. R.; COSTABEBER, J. A.
Rural. Agroecologia e Desenvolvimento Agroecologia! enfoque científico e estratégico
Rural Sustentável, Porto Alegre, v.1, n.1, para apoiar o desenvolvimento rural susten-
p.16-37, jan./mar. 2000. tável. Porto Alegre: EMATER/RS, 2002. 48p.
CAPORAL, F. R.; COSTABEBER, J. A. Agro- (mimeo.).
ecologia e desenvolvimento rural susten- NORGAARD, R. B. A base epistemológica da Agro-
tável: perspectivas para uma nova Exten- ecologia. In: ALTIERI, M. A. (ed.). Agroecolo-
são Rural. In: ETGES, Virgínia Elisabeta gia: as bases científicas da agricultura alterna-

16 (Org.). Desenvolvimento rural: poten- tiva. Rio de Janeiro: PTA/FASE, 1989. p.42-48.

Agroecol.e Desenv.Rur.Sustent.,Porto Alegre, v.3, n.2, abr./junh.2002