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ANÁLISE DO CÓDIGO DE PRÁTICAS DE ALVENARIA DE VEDAÇÃO EM BLOCOS CERÂMICOS Jordy Caldeira Mega Filho Projeto de Graduação apresentado ao Curso de Engenharia Civil da Escola Politécnica, Universidade Federal do Rio de Janeiro, como parte dos requisitos necessários à obtenção do título de Engenheiro Civil. Orientador: Prof. Eduardo Linhares Qualharini Rio de Janeiro Setembro de 2011 ANÁLISE DO CÓDIGO DE PRÁTICAS DE ALVENARIA DE VEDAÇÃO EM BLOCOS CERÂMICOS Jordy Caldeira Mega Filho PROJETO DE GRADUAÇÃO SUBMETIDO AO CORPO DOCENTE DO CURSO DE ENGENHARIA CIVIL DA ESCOLA POLITÉCNICA DA UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO DE JANEIRO COMO PARTE DOS REQUISITOS NECESSÁRIOS PARA A OBTENÇÃO DO GRAU DE ENGENHEIRO CIVIL. Examinado por: ________________________________________ Eduardo Linhares Qualharini Prof. Associado, D.Sc., EP/UFRJ (Orientador) ________________________________________ Elaine Garrido Vasquez Prof. Adjunta, D.Sc., EP/UFRJ ________________________________________ Vania Maria Britto Cunha Lopes Ducap Prof. Convidada, M.Sc., EP/UFRJ RIO DE JANEIRO – RJ - BRASIL SETEMBRO DE 2011 Mega Filho, Jordy Caldeira Análise do Código de Práticas de Alvenaria de Vedação em Blocos Cerâmicos/Jordy Caldeira Mega Filho – Rio de Janeiro: UFRJ/Escola Politécnica, 2011. XIII, 93 p.: il.; 29,7 cm. Orientador: Eduardo Linhares Qualharini Projeto de Graduação – UFRJ/ Escola Politécnica/ Curso de Engenharia Civil, 2011. Referências Bibliográficas: p. 67-69. 1. Código de Práticas 2. Vedações Verticais 3. Alvenaria Racionalizada 4. Blocos Cerâmicos I. Qualharini, Eduardo Linhares. II. Universidade Federal do Rio de Janeiro, UFRJ, Curso de Engenharia Civil. III. Análise do Código de Práticas de Alvenaria de Vedação em Blocos Cerâmicos. AGRADECIMENTOS Aos meus amigos e familiares, agradeço pela torcida e por todo tipo de apoio que recebi. Aos meus pais, agradeço pela paciência, por sofrer junto, e principalmente pela fé. À minha Renata, a quem serei eternamente grato, por tudo. Ao Senhor, agradeço por colocar à minha volta essas pessoas incríveis, sem as quais eu não conseguiria. Resumo do Projeto de Graduação apresentado à Escola Politécnica/UFRJ como parte dos requisitos necessários para a obtenção do grau de Engenheiro Civil Análise do Código de Práticas de Alvenaria de Vedação em Blocos Cerâmicos Jordy Caldeira Mega Filho Setembro/2011 Orientador: Eduardo Linhares Qualharini Curso: Engenharia Civil A indústria da Construção Civil passa atualmente por um momento de forte crescimento. Executando em grande escala empreendimentos complexos com prazos e orçamentos apertados, o setor produtivo tem enfrentado diversos problemas: obras atrasadas, de baixa qualidade e acima dos custos previstos. Nesse cenário, existe um consenso de que é necessária uma maior industrialização da construção. Dentre as estratégias adotadas destaca-se a racionalização dos processos e sistemas construtivos. O processo construtivo de alvenaria de vedação em blocos cerâmicos tem sido alvo de diversas iniciativas para a sua racionalização. As paredes de alvenaria são o elemento de vedação vertical mais empregado no processo construtivo tradicional brasileiro, e sua racionalização pode trazer diversas vantagens para as empresas construtoras. Mas o setor produtivo se ressente da falta de literatura que descreva o “estado da arte” de técnicas construtivas racionalizadas. Recentemente, um projeto de pesquisa deu origem ao Código de Práticas de Alvenaria de Vedação em Blocos Cerâmicos. Dada a importância das alvenarias na construção de edifícios, a possibilidade de se empregar a racionalização construtiva na sua execução e a importância que padrões de práticas de obras podem ter na busca do aumento da qualidade e da melhoria do desempenho da indústria da construção, esse trabalho pretende analisar o Código de Práticas de Alvenaria de Vedação em Blocos Cerâmicos. Palavras-chave: código de práticas, vedações verticais, alvenaria racionalizada, blocos cerâmicos. Abstract of Undergraduate Project presented to POLI/UFRJ as a partial fulfillment of the requirements for the degree of Civil Engineer. Analysis of the code of practices for non-load bearing masonry with ceramic bricks Jordy Caldeira Mega Filho September/2011 Advisor: Eduardo Linhares Qualharini Course: Civil Engineering The civil construction industry is currently experiencing a strong growth. Carrying out in a large scale real estate projects with tight deadlines and budgets, the productive sector is facing several problems: delayed, low quality and high costs construction projects. In this scenario, there is a consensus that is necessary an increase on the industrialization for the construction. Among the adopted strategies, it is important to take note on the streamlining of processes and constructive systems. The construction process for non-load bearing masonry with ceramic bricks has been the target of several initiatives for its streamlining. The masonry walls are the wall systems most used on the traditional brazilian construction process, and its streamlining can bring many advantages for the construction companies. But, the productive sector suffers from a lack of literature that describes the “state of the art” of streamlined constructive techniques. Recently, a research project resulted in the code of practices for non-load bearing masonry with ceramic bricks. Considering the importance of masonry for the buildings construction, the possibility to apply the constructive streamlining in its execution and also the importance of the construction projects practices standards may have in the search for an increase in quality and on the improve performance of the construction industry, this work intends to analyse the code of practices for non-load bearing masonry with ceramic bricks. Keywords: code of practices, wall systems, streamlined masonry, ceramic bricks. vii SUMÁRIO 1 INTRODUÇÃO ...................................................................................................... 1 1.1 1.2 1.3 1.4 1.5 2 Considerações iniciais .................................................................................... 1 Justificativa ..................................................................................................... 2 Objetivo .......................................................................................................... 3 Metodologia aplicada ...................................................................................... 3 Estruturação do trabalho................................................................................. 4 VEDAÇÕES VERTICAIS E ALVENARIAS ............................................................ 5 2.1 2.1.1 2.1.2 VEDAÇÕES VERTICAIS ................................................................................ 5 Definição e requisitos .................................................................................. 5 Classificação ............................................................................................... 8 2.1.2.1 Quanto à posição ...................................................................................... 8 2.1.2.2 Quanto à técnica de execução .................................................................. 8 2.1.2.3 Quanto à mobilidade ................................................................................. 8 2.1.2.4 Quanto à estruturação ............................................................................... 9 2.1.2.5 Quanto à continuidade superficial ............................................................. 9 2.1.2.6 Quanto à distribuição dos esforços.......................................................... 10 2.1.2.7 Quanto à densidade superficial ............................................................... 10 2.1.2.8 Quanto ao acabamento ........................................................................... 10 2.2 2.2.1 2.2.2 ALVENARIAS ............................................................................................... 11 Histórico .................................................................................................... 11 Definição e classificação ........................................................................... 15 2.2.2.1 Quanto à função ...................................................................................... 16 2.2.2.2 Quanto às condições de exposição ......................................................... 16 2.2.3 2.2.4 3 O bloco ou tijolo ........................................................................................ 17 A racionalização construtiva da alvenaria de vedação .............................. 18 REFERENCIAIS TECNOLÓGICOS PARA A PRODUÇÃO DE EDIFÍCIOS ........ 21 viii 3.1 3.2 Definição e histórico ..................................................................................... 21 A elaboração do Código de Práticas de Alvenaria de Vedação em Blocos Cerâmicos............................................................................................................... 27 4 ANÁLISE DO CÓDIGO DE PRÁTICAS DE ALVENARIA DE VEDAÇÃO EM BLOCOS CERÂMICOS .............................................................................................. 32 4.1 4.1.1 4.1.2 4.1.3 4.1.4 4.1.5 4.1.6 4.2 4.2.1 4.2.2 4.2.3 4.3 4.3.1 4.3.2 Introdução .................................................................................................... 32 Dos Códigos de Práticas ........................................................................... 32 Das alvenarias de vedação ....................................................................... 32 Objetivos ................................................................................................... 32 Campo de aplicação ................................................................................. 33 Limitações de uso ..................................................................................... 33 Terminologia ............................................................................................. 33 Etapa de seleção de materiais ...................................................................... 34 Blocos cerâmicos ...................................................................................... 34 Argamassa de assentamento .................................................................... 37 Telas metálicas ......................................................................................... 38 Etapa de projeto ........................................................................................... 39 Requisitos e critérios de desempenho....................................................... 39 Exigências e recomendações técnicas de projeto de alvenarias de vedação 42 4.3.2.1 Coordenação modular horizontal e vertical.............................................. 43 4.3.2.2 Estabilidade e resistência das paredes de vedação ................................ 44 4.3.2.3 Compatibilização com projetos de estruturas e de fundações ................. 45 4.3.2.4 Compatibilização com projetos de sistemas prediais ............................... 45 4.3.2.5 Compatibilização com projeto de impermeabilização .............................. 45 4.3.2.6 Juntas de assentamento e juntas de controle .......................................... 46 4.3.2.7 Ligações entre paredes ........................................................................... 46 4.3.2.8 Ligações entre alvenarias e pilares ......................................................... 47 4.3.2.9 Fixações (“encunhamentos”) ................................................................... 48 ix 4.3.2.10 Reforços metálicos, vergas, contravergas e cintas de amarração ......... 49 4.3.2.11 Fixação de marcos de portas e janelas ................................................. 50 4.3.2.12 Alvenarias do último pavimento ............................................................. 50 4.3.2.13 Recebimento/aceitação do projeto das alvenarias de vedação ............. 51 4.4 4.4.1 Etapa de execução ....................................................................................... 52 Estocagem de materiais e componentes ................................................... 52 4.4.1.1 Blocos cerâmicos .................................................................................... 52 4.4.1.2 Aço .......................................................................................................... 53 4.4.1.3 Cimento, cal e argamassa industrializada ............................................... 53 4.4.1.4 Areia........................................................................................................ 53 4.4.2 4.4.3 Preparo das argamassas de assentamento e chapisco ............................ 54 Fiada de marcação (1ª fiada) .................................................................... 55 4.4.3.1 Equipamentos e ferramentas................................................................... 56 4.4.4 4.4.5 4.4.6 4.4.7 4.5 4.6 4.7 5 Elevação das alvenarias ........................................................................... 57 Fixações ( ou “aperto de alvenaria” ou “encunhamentos”) ........................ 60 Colocação das esquadrias ........................................................................ 60 Embutimento de tubulações ...................................................................... 61 Etapa de controle da qualidade e recebimento ............................................. 62 Etapa de uso e manutenção ......................................................................... 62 Garantias e responsabilidades ..................................................................... 63 CONSIDERAÇÕES FINAIS ................................................................................ 65 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ............................................................................ 67 REFERÊNCIAS ELETRÔNICAS ................................................................................ 70 ANEXO 1 – Requisitos de desempenho para Sistemas de Vedações Verticais Internas e Externas (SVVIE) de acordo com as normas ABNT NBR 15575-1:2008 e ABNT NBR 15575-4:2008 ............................................................................................................... 1 ANEXO 2 – Agentes do setor privado que poderiam estar diretamente envolvidos com o SiNCOP ..................................................................................................................... 4 x ANEXO 3 – Modelo de ficha de controle de projeto de alvenaria de vedação do pavimento tipo .............................................................................................................. 5 ANEXO 4 – Lista de verificações e tolerâncias para os serviços e itens de controle ..... 6 xi ÍNDICE DE QUADROS Quadro 1 – Exigências dos usuários de edifícios relativas a vedações verticais. .......... 7 Quadro 2 – Principais diferenças entre as definições de Referencial Tecnológico. ..... 26 Quadro 4 – Requisitos de segurança contra incêndio. .................................................. 1 Quadro 5 – Requisitos de segurança no uso e na operação. ........................................ 2 Quadro 6 – Requisitos de estanqueidade. .................................................................... 2 Quadro 7 – Requisitos de desempenho térmico. .......................................................... 2 Quadro 8 – Requisitos de desempenho acústico. ......................................................... 2 Quadro 9 – Requisitos de desempenho lumínico. ......................................................... 2 Quadro 10 – Requisitos de durabilidade e manutenibilidade......................................... 2 Quadro 11 – Requisitos de saúde, higiene e qualidade do ar. ...................................... 3 Quadro 12 – Requisitos de funcionalidade.................................................................... 3 Quadro 13 – Requisitos de conforto tátil e antropodinâmico. ........................................ 3 Quadro 14 – Requisitos de adequação ambiental. ........................................................ 3 Quadro 15 – Agentes do setor privado que poderiam estar diretamente envolvidos com o SiNCOP ..................................................................................................................... 4 xii ÍNDICE DE TABELAS Tabela 1 – Índice de redução sonora ponderado da fachada, Rw, para ensaio de laboratório..................................................................................................................... 7 Tabela 2 – Dimensões de fabricação de blocos cerâmicos de vedação. .................... 35 Tabela 3 – Características exigidas para os blocos cerâmicos e de vedação. ............ 36 Tabela 4 – Amostragens e critérios de aceitação e rejeição. ...................................... 37 Tabela 5 – Resistência a impactos de corpo mole e capacidade de fixação de peças suspensas de alvenarias de vedação em blocos cerâmicos. ...................................... 40 Tabela 6 – Resistência térmica, isolação acústica e resistência ao fogo de alvenarias de vedação em blocos cerâmicos. .............................................................................. 41 Tabela 7 – Alturas e distâncias máximas entre elementos contraventantes de paredes de vedação em blocos cerâmicos. .............................................................................. 44 Tabela 8 – Traços indicativos de argamassas recomendados para execução de alvenarias de vedação. ............................................................................................... 54 Tabela 9 – Prazos de garantia segundo a norma ABNT NBR 15575-1:2008. ............. 64 xiii ÍNDICE DE FIGURAS Figura 1 – Detalhe da Catedral de Santa Elisabete, em Marburg, Alemanha. ............. 12 Figura 2 – Exemplo de alvenaria de pedra.................................................................. 12 Figura 3 – Detalhe da prefeitura da cidade de Bremen, Alemanha, construída entre 1405 e 1410. ............................................................................................................... 13 Figura 4 – Detalhe da saída da cerâmica após a queima em um forno tipo túnel. ...... 14 Figura 5 – Distribuição das normas segundo o tipo. ................................................... 23 Figura 6 – Distribuição das normas em função do tempo de publicação. .................... 23 Figura 7 – Estrutura do PBQP-H. ................................................................................ 29 Figura 8 – Estrutura proposta para o SiNCOP. ........................................................... 30 Figura 9 – Representação dos blocos cerâmicos de vedação. ................................... 34 Figura 10 – Reticulado modular e medida modular. .................................................... 44 Figura 11 – Fixação entre alvenarias e pilares com o emprego de tela metálica galvanizada. ............................................................................................................... 47 Figura 12 – Vergas e contravergas no contorno de vãos de janelas. .......................... 49 Figura 13 – Empilhamento de blocos cerâmicos com amarração entre eles. .............. 52 Figura 14 – Marcação das paredes a partir dos eixos de referência. .......................... 56 Figura 15 – Equipamentos auxiliares na execução das alvenarias. ............................ 57 Figura 16 – Execução de ligação entre alvenaria de fachada e alvenaria interna. ...... 58 Figura 17 – Etapas de concretagem da estrutura, marcação e elevação das alvenarias. ................................................................................................................................... 59 Figura 18 – Formas de acoplamento dos sistemas prediais com as alvenarias. ......... 61 1 INTRODUÇÃO 1.1 Considerações iniciais A indústria da Construção Civil brasileira passa atualmente por um momento de forte crescimento em todos os seus subsetores. Em particular, o subsetor Edificações vive uma fase que tem sido chamada de „Boom Imobiliário‟: estimuladas pelo aumento de segurança jurídica trazida pela lei federal nº 10.931/20041, pela oferta de crédito farto, com taxas baixas e de longo prazo, por programas governamentais como o Minha Casa Minha Vida, pelo crescimento de renda da população e pelo aporte de recursos vultosos oriundos do mercado financeiro, incorporadoras e construtoras estão sendo obrigadas a lidar com uma super demanda de obras. Mas o „Boom Imobiliário‟ também trouxe problemas: pressionado a executar em grande escala empreendimentos complexos com prazos e orçamentos apertados, o setor produtivo, paralisado por anos de estagnação, tem sofrido com a falta de mão de obra qualificada, escassez de materiais e equipamentos, resultando em obras atrasadas, de baixa qualidade e acima dos custos previstos. Entre as várias ações necessárias para mudar esse cenário, existe um consenso de que é necessário promover uma maior industrialização da construção. A Construção Civil é uma indústria de base artesanal, afirmação que por si já guarda uma contradição. Uma característica dos processos artesanais é que a qualidade do produto final e a produtividade são muito dependentes do conhecimento e habilidade do artesão. Além disso, processos artesanais possuem baixa produtividade quando comparados com processos industrializados, exigindo mais mão de obra. Independentemente do momento atual, a indústria da Construção Civil tem buscado implantar ações buscando essa industrialização. Dentre as estratégias que vêm sendo adotadas destaca-se a racionalização dos processos e sistemas construtivos, empregada com o objetivo principal de redução de custos, garantia de atendimento dos prazos de execução e incremento da qualidade dos edifícios produzidos. 1 Dispõe sobre o patrimônio de afetação de incorporações imobiliárias, Letra de Crédito Imobiliário, Cédula de Crédito Imobiliário, Cédula de Crédito Bancário, entre outras providências. 2 O processo construtivo de alvenaria de vedação em blocos cerâmicos tem sido alvo de diversas iniciativas para a sua racionalização, com ações de vários agentes do setor. Empresas de projeto fornecem projetos de produção de alvenaria. Fornecedores de material produzem blocos modulados para assentamento com furos na vertical. Fornecedores de equipamentos incentivam a mecanização do canteiro de obras, fabricando ferramentas e equipamentos. Tudo isso com base em conhecimento disseminado de maneira informal, tácito, que as construtoras que possuem sistemas de gestão da qualidade incorporam em sua documentação. Muitas vezes, essa é a única documentação de referência utilizada. As iniciativas mais formais são localizadas. Cita-se como exemplo um vídeo de treinamento em alvenaria de vedação racionalizada, produzido pela ANICER (Associação Nacional da Indústria Cerâmica) em parceria com o SEBRAE (Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas). Ou seja, o setor produtivo se ressente da falta de literatura que descreva o “estado da arte” de técnicas construtivas racionalizadas, embora existam estudos acadêmicos acessíveis a empresas interessadas em aumentar seu grau de racionalização. 1.2 Justificativa A escolha do tema foi fruto da reunião de algumas ideias adquiridas ao longo do curso e da experiência profissional:    A importância das alvenarias na construção de edifícios; A possibilidade de se empregar a racionalização construtiva como forma de otimizar técnicas tradicionais e A importância que padrões de práticas de obras com abrangência nacional podem ter na busca do aumento da qualidade e melhoria do desempenho da indústria da Construção Civil. As paredes de alvenaria são o elemento de vedação vertical mais empregado no processo construtivo tradicional brasileiro. Além disso, a racionalização do subsistema vedação vertical pode trazer diversas vantagens para as empresas construtoras, não só pela redução direta dos custos incidentes neste subsistema e pelo aumento da 3 produtividade, mas também pela profunda alteração que pode introduzir no nível organizacional das obras. O subsistema vedação vertical está intimamente ligado a praticamente todos os demais subsistemas do edifício e está relacionado diretamente ao conforto, segurança, higiene e saúde do usuário da edificação. Um recente projeto de pesquisa financiado pela FINEP (Financiadora de Estudos e Projetos), através do programa Habitare, deu origem ao Código de Práticas de Alvenaria de Vedação em Blocos Cerâmicos, um documento cujo objetivo é recomendar e unificar práticas construtivas bem sucedidas e consensualizadas junto ao setor produtivo, para alvenaria de vedação em blocos cerâmicos, complementando a normalização técnica e balizando o uso dessa técnica construtiva no Brasil, mesmo considerando-se as especificidades regionais. Nas empresas cuja técnica construtiva de alvenaria seja “tradicional”, o Código de Práticas pode ser utilizado como diretriz para aplicar ou implantar uma técnica construtiva de alvenaria mais racionalizada. De acordo com BARROS (1998), aplicar uma tecnologia construtiva racionalizada em um canteiro de obras é bastante diferente de implantar uma nova tecnologia construtiva na empresa, que significa consolidar a nova tecnologia no sistema produtivo da construtora e no processo de produção de edifícios, através de princípios que permitam a sua constante evolução. 1.3 Objetivo O objetivo deste trabalho é analisar o Código de Práticas de Alvenaria de Vedação em Blocos Cerâmicos, documento que pode ser empregado como diretriz para aplicar ou implantar o processo construtivo de alvenaria de vedação racionalizada executada em blocos cerâmicos. 1.4 Metodologia aplicada Este trabalho tem caráter conceitual. Para sua produção foi realizada pesquisa bibliográfica em livros, revistas, notas de aula, artigos, dissertações, normas, sítios da internet, etc. Essa pesquisa se complementa com um estudo qualitativo, com a descrição e análise do Código de Práticas de Alvenaria de Vedação em Blocos Cerâmicos. 4 1.5 Estruturação do trabalho O trabalho está estruturado em cinco capítulos, incluindo este primeiro capítulo de introdução. No segundo capítulo será conceituado o subsistema vedação vertical e realizado um breve relato sobre a história da alvenaria. No terceiro capítulo os Referenciais Tecnológicos serão conceituados e será apresentado o histórico da elaboração do Código de Práticas de Alvenaria de Vedação em Blocos Cerâmicos. No quarto capítulo será apresentado e analisado o Código de Práticas de Alvenaria de Vedação em Blocos Cerâmicos. O quinto e último capítulo apresentará as considerações finais deste trabalho. 5 2 VEDAÇÕES VERTICAIS E ALVENARIAS 2.1 VEDAÇÕES VERTICAIS 2.1.1 Definição e requisitos Vedação vertical é comumente definida como um subsistema do edifício constituído por elementos que definem e limitam verticalmente o edifício e seus ambientes internos, controlando a ação de agentes externos (vento, chuva, luz, som, calor, poeira e intrusos). A ABNT NBR 15575-4:2008 (Edifícios habitacionais de até cinco pavimentos – Desempenho – Parte 4: Sistemas de vedações verticais internas e externas) dá a seguinte definição para vedações verticais, chamadas de Sistemas de Vedações Verticais Internas e Externas (SVVIE): “partes do edifício habitacional que limitam verticalmente o edifício e seus ambientes internos, controlando o fluxo de agentes solicitantes”. As vedações verticais são compostas de três elementos básicos:    Vedo: elemento que caracteriza a vedação vertical. É dividida em panos (cada uma das faces do vedo). Exemplos: paredes, divisórias. Esquadria: elemento que permite o controle de acesso aos ambientes. Exemplos: portas, janelas. Revestimento: elemento que possibilita o acabamento decorativo e a proteção da vedação. Exemplo: pintura, azulejos. O subsistema de vedação vertical tem como principal função criar condições de habitabilidade para o edifício, juntamente com as esquadrias e os revestimentos. Elas também desempenham a função acessória de servir de suporte e proteção para as instalações do edifício, quando estas estão embutidas. De acordo com a ABNT NBR 15575-4:2008, as vedações verticais, além da volumetria e da compartimentação dos espaços internos do imóvel, integram-se de forma muito 6 estreita aos demais elementos da construção, recebendo influências e influenciando o desempenho do edifício habitacional. Ainda segundo a ABNT NBR 15575-4:2008: Mesmo sem função estrutural, as vedações podem atuar como contraventamento de estruturas reticuladas, ou sofrer as ações decorrentes das deformações das estruturas, requerendo assim uma análise conjunta do desempenho dos elementos que interagem. As vedações verticais exercem ainda importantíssimas funções de estanqueidade à água, isolação térmica e acústica, capacidade de fixação de peças suspensas e compartimentação em casos de incêndio. No que diz respeito ao custo de execução, a importância das vedações verticais vai muito além do que seu custo representa no custo total do edifício, pois elas:   Determinam as diretrizes para o planejamento e programação da execução, por estarem no caminho crítico da obra; Determinam o potencial de racionalização da produção, na medida em que interferem com a estrutura, as instalações elétricas e hidrossanitárias, as esquadrias e com os revestimentos;  Têm profunda relação com a ocorrência de problemas patológicos. Para cumprir com todas as suas funções as vedações verticais deverão atender a uma série de requisitos de desempenho. Segundo as normas ABNT NBR 15575-1:2008 (Edifícios habitacionais de até cinco pavimentos – Desempenho – Parte 1: Requisitos gerais) e ABNT NBR 15575-4:2008, esses requisitos derivam de exigências dos usuários e das condições de exposição e dizem respeito à segurança, habitabilidade e sustentabilidade da edificação. As normas supracitadas estabelecem as exigências dos usuários de edifícios para o subsistema vedação vertical, como pode ser visto no quadro a seguir: 7 Quadro 1 – Exigências dos usuários de edifícios relativas a vedações verticais. Segurança estrutural SEGURANÇA Segurança contra incêndio Segurança no uso e na operação Estanqueidade Desempenho térmico Desempenho acústico HABITABILIDADE Desempenho lumínico Saúde, higiene e qualidade do ar Funcionalidade Conforto tátil e antropodinâmico SUSTENTABILIDADE Durabilidade e manutenibilidade Adequação ambiental Para cada uma dessas exigências as normas citadas acima estabelecem um ou mais requisitos de desempenho, como pode ser visto no anexo 1. Cada requisito tem seus critérios mínimos definidos, ou, se for o caso, são indicadas as normas a serem consideradas. As normas definem três níveis de desempenho para o edifício e seus subsistemas: M (mínimo), I (intermediário) e S (superior). As vedações verticais, assim como os demais subsistemas, devem ter um desempenho que ao menos atinja o nível M. Como exemplo, a tabela abaixo mostra os níveis de desempenho recomendados para o requisito níveis de ruído admitidos na habitação, de acordo com o critério índice de redução sonora ponderado dos elementos construtivos da fachada pelo ensaio de laboratório: Tabela 1 – Índice de redução sonora ponderado da fachada, Rw, para ensaio de laboratório. Sistema Rw dB 30 a 34 Rw +5 dB 35 a 39 40 a 44 ≥ 45 Nível de desempenho M - recomendado I S Fachada 35 a 39 ≥ 39 Fonte: ABNT NBR 15575-4:2008, anexo F, tabela F.9. 8 2.1.2 Classificação 2.1.2.1 Quanto à posição Quanto à posição no conjunto do edifício, as vedações verticais podem ser divididas em duas, cada uma com funções específicas:  Externa: também chamada de fachada, é a vedação envoltória do edifício, onde uma das faces do vedo está em contato com meio externo. Serve como proteção contra ação de agentes externos;  Interna: tem função de compartimentação interna de uma unidade de um edifício ou de separação entre unidades e áreas comuns. 2.1.2.2 Quanto à técnica de execução Quanto à técnica de execução empregada na produção das vedações, elas podem ser divididas em:  Por conformação: são as vedações verticais moldadas ou elevadas no próprio local, com o emprego de água ("construção úmida" ou "wet construction"). Trata-se das vedações em alvenaria ou de painéis moldados no local;  Por acoplamento a seco: são as vedações verticais montadas a seco, sem a necessidade do emprego de água ("construção seca" ou "dry construction"). Trata-se de vedações produzidas comumente com painéis leves;  Por acoplamento úmido: são as vedações verticais montadas através da solidarização com argamassa, produzidas comumente com elementos prémoldados ou pré-fabricados de concreto. 2.1.2.3 Quanto à mobilidade A mobilidade de uma vedação refere-se à facilidade ou não de sua remoção do local na qual fora inicialmente aplicada. Assim, quanto à mobilidade, as vedações verticais podem ser divididas em: 9  Fixas: são as vedações imutáveis, irremovíveis sem destruição. Em caso de transformação do espaço, os elementos constituintes dificilmente são recuperáveis;  Desmontáveis: são as vedações passíveis de serem desmontadas com pouca degradação. A remontagem irá requerer a reposição de algumas peças e levará mais tempo para a execução dos ajustes necessários;  Removíveis: são as vedações passíveis de serem montadas e desmontadas facilmente, sem degradação dos elementos constituintes. Trata-se de elementos totalmente modulares;  Móveis: trata-se de divisórias empregadas na simples compartimentação dos ambientes, não estando vinculadas a nenhuma outra parte do edifício. 2.1.2.4 Quanto à estruturação A estruturação de uma vedação refere-se às suas características de sustentação no edifício. Assim, quanto à estruturação as vedações verticais podem ser divididas em:  Estruturadas: são as vedações que necessitam de uma estrutura reticular de suporte dos componentes da vedação como, por exemplo, painéis de gesso acartonado, divisórias de madeira, etc.;  Autoportantes: são as vedações que não necessitam de uma estrutura de suporte dos componentes da vedação, como é o caso de todos os tipos de alvenaria;  Pneumáticas: pouco comuns, são vedações na qual o suporte é fornecido por pressão do ar interna superior à atmosférica. 2.1.2.5 Quanto à continuidade superficial Essa classificação está relacionada à continuidade visual da vedação vertical. Segundo esse enfoque, as vedações verticais podem ser divididas em:   Modulares: nos casos em que as juntas entre componentes ficam aparentes; Monolíticas: nos casos em que as juntas não são aparentes. 10 2.1.2.6 Quanto à distribuição dos esforços Essa classificação tem relação com a continuidade superficial. As vedações verticais podem ser divididas em:  Contínuas: quando a absorção dos esforços transmitidos à vedação é feita por todo o conjunto dos elementos que trabalham solidariamente, como é o caso das alvenarias, por exemplo;  Descontínuas: quando a absorção dos esforços transmitidos à vedação é feita pelos componentes de modo individual, em função da existência de juntas, como é o caso dos painéis de gesso acartonado, por exemplo. 2.1.2.7 Quanto à densidade superficial A densidade superficial de uma vedação refere-se à relação entre a sua massa pela área que ocupa. Assim, quanto à densidade superficial, as vedações verticais podem ser divididas em:  Leves: são as vedações verticais não estruturais, de densidade superficial baixa, sendo o limite convencionado pela ABNT NBR 11685:1990 (Divisórias leves internas moduladas - Terminologia) é de 60 a 100 kg/m²;  Pesadas: são as vedações verticais que podem ser estruturais ou não, de densidade superficial superior a 100 kg/m². 2.1.2.8 Quanto ao acabamento Essa classificação considera o momento em que o acabamento da vedação vertical é incorporado a ela. Assim, segundo esse enfoque, as vedações verticais podem ser divididas em:  Com revestimento incorporado: trata-se das vedações verticais que são posicionadas acabadas em seus lugares definitivos, sem a necessidade de aplicação de revestimentos posteriormente. É o caso, por exemplo, dos painéis pré-moldados de concreto com prévia aplicação de acabamentos em cerâmica, 11 e das divisórias leves com estrutura em colmeia e revestimento em chapas de laminado melamínico;  Com revestimento a posteriori: trata-se das vedações verticais que são executadas em seus lugares definitivos, sem a aplicação prévia de revestimentos. É o caso, por exemplo, das alvenarias de um modo geral e dos painéis de gesso acartonado;  Sem revestimento: são as vedações verticais que não necessitam da aplicação de revestimentos. Podem ser utilizadas aparentes ou receberem unicamente uma pintura. É o caso de alguns tipos de alvenaria. 2.2 ALVENARIAS 2.2.1 Histórico A alvenaria é um dos sistemas construtivos mais antigos e tradicionais existentes, e sua utilização tem acompanhado o homem durante toda a sua história. Diz-se que suas origens datam da Pré-História, onde as primeiras “construções” eram feitas intuitivamente utilizando a técnica do trabalho com pedras. Essas construções não eram consideradas moradias, mas desempenhavam, por exemplo, a função de câmaras mortuárias e templos. As primeiras construções em alvenaria são datadas de 9000-8000 a.C., próximas do Lago de Hule [sic], Israel, onde foram encontradas cabanas de pedra com formato circular e semissubterrâneos com diâmetros entre três e nove metros (MUSGROVE E FLETCHER apud MATA, 2006)2. Há quem mencione o Santuário de Stonehenge, no sul da Inglaterra, no entanto, não há como se afirmar qual(ais) foram as primeiras construções erguidas pelo homem. As pirâmides do Egito, construídas entre 2630 e 1640 a.C. são exemplos de alvenaria de pedra que sobreviveram ao tempo. MATA (2006) descreve ainda, a arquitetura romana, entre 0-1200 d.C., com seus templos, palácios, arcos, colunas, aquedutos e pontes e a arquitetura gótica, entre 1200-1600 d.C., com suas magníficas catedrais. 2 MUSGROVE, J., FLECHTER, B. Sir Banister Fletcher‟s: A History of Architecture. New York: Butterworths. London. UK.. 1989. 12 Figura 1 – Detalhe da Catedral de Santa Elisabete, em Marburg, Alemanha. (Fonte: http://gracindaramos.wordpress.com/2011-2/3-%E2%80%93-passeando-pela-europa-2010/) As pedras, que atualmente são usadas mais como elemento decorativo e de acabamento, por seu elevado custo de extração e transporte, por conta do grande peso, se tornaram inviáveis como componente de alvenaria. Figura 2 – Exemplo de alvenaria de pedra. (Fonte: Nota de aula de Técnicas da Construção) 13 O tijolo de barro passou então a ser usado como principal elemento da alvenaria. Inicialmente era apenas cozido ao sol (conhecido como adobe), depois passaram a ser produzidos queimados, a partir da observação de que os tijolos que ficavam mais próximos ao fogo ficavam mais resistentes. Segundo MATA (2006), “os fatores que levaram ao desenvolvimento do tijolo foram: a demanda por materiais de construção combinada com a abundância de argila, um clima quente e seco necessário para curar os tijolos e a escassez de madeira e pedra que requeriam corte. [...] Era um produto que poderia ser facilmente produzido, mais fácil de moldar e de construir uma parede que tivesse resistência ao fogo e durabilidade”. Figura 3 – Detalhe da prefeitura da cidade de Bremen, Alemanha, construída entre 1405 e 1410. (Fonte: acervo pessoal) Com o impacto causado pela Revolução Industrial, as pequenas fábricas deram lugar às grandes, se expandindo rapidamente. O que era produzido manualmente passou a ser produzido em escala industrial, e com a introdução de grandes fornos, os tijolos passaram a ser queimados em grande escala, tornando a produção maior a cada dia. Com isso, houve um grande processo evolutivo e expansivo da indústria de tijolos. 14 Figura 4 – Detalhe da saída da cerâmica após a queima em um forno tipo túnel. (Fonte: Materiais de construção civil e princípios de ciência e engenharia de materiais) Ao longo dos séculos, o conhecimento empírico e intuitivo que era passado de uma geração para outra, foi sendo com a prática, aprimorado pelos construtores. Ainda assim, as construções com pedras e tijolos de barro duraram por um longo tempo. No final do século XIX a alvenaria ainda é usada como elemento de sustentação (função estrutural), no entanto, o aço começa a conquistar mercado e assume o domínio das grandes obras. No início do século XX o surgimento do aço, o aprimoramento do cimento e a chegada do concreto armado fizeram com que as pesadas obras em alvenaria estrutural fossem deixadas de lado. Novas técnicas construtivas foram surgindo e percebeu-se que as estruturas metálicas ou de concreto armado ocupavam uma menor área e que seu custo era mais baixo em relação à alvenaria, que agora passaria a ser utilizada como elemento de fechamento (vedação) ou elemento estético. De acordo com MATA (2006), em meados do século XX, em face à necessidade do mercado em buscar técnicas alternativas de construção, as obras de alvenaria 15 voltaram a ser erguidas. Normas foram criadas e foram adotados critérios de cálculos baseados em métodos racionais, surgindo assim, o que se chama hoje de alvenaria estrutural. No Brasil, a evolução tecnológica da alvenaria de vedação passou por diversos estágios até o desenvolvimento da alvenaria de vedação racionalizada, que, conforme BARROS (1998), seguiu as diretrizes de produção adotadas nos processos construtivos de alvenaria estrutural, que possuem alto grau de racionalização. 2.2.2 Definição e classificação “A alvenaria é toda obra constituída de pedras naturais, tijolos ou blocos de concreto, ligados ou não por meio de argamassas, comumente deve oferecer condições de resistência e durabilidade e impermeabilidade”. (AZEREDO, 1977) Por se tratar de um tipo de vedação vertical, em relação à classificação dessas, as alvenarias são:         Internas ou externas (posição); Obtidas por conformação (técnica de execução); Fixas (mobilidade); Autoportantes (estruturação); Monolíticas (continuidade superficial); Contínuas (distribuição de esforços); Geralmente pesadas (densidade superficial); Com revestimento a posteriori ou sem revestimento (acabamento). As alvenarias também podem ser classificadas quanto à sua função e condições de exposição. 16 2.2.2.1 Quanto à função A função de uma alvenaria está diretamente ligada à sua capacidade de suporte, que por sua vez está relacionada à resistência mecânica apresentada pelo bloco ou tijolo. Dividem-se em três categorias:  Alvenaria de vedação: são as paredes destinadas ao fechamento de vãos definidos por uma estrutura independente, resistindo ao próprio peso e a cargas atuantes sobre ela. Aos componentes (blocos/tijolos) é exigido apenas que resistam ao transporte e ao manuseio, não originando perdas excessivas, e que tenham adequado desempenho quando compuserem uma parede;  Alvenaria de contraventamento: tem função de contraventamento de uma estrutura reticulada, tendo sido ou não dimensionada para isto. Incrementa significativamente o grau de rigidez da estrutura;  Alvenaria estrutural: são as alvenarias destinadas a resistir a todas as cargas do edifício. São dimensionadas através de cálculo racional. As alvenarias estruturais que não são dimensionadas através de cálculo racional são chamadas de alvenaria resistente. 2.2.2.2 Quanto às condições de exposição Os componentes de alvenaria podem também ser diferenciados conforme as condições de exposição a que ficarão submetidos e serem assim classificados em componentes para alvenaria aparente e revestida (de alvenaria comum).  Alvenaria aparente: são paredes de alvenaria que não receberão revestimento, sendo os componentes e a técnica de execução adequados para tal (regularidade dimensional e durabilidade adequados);  Alvenaria comum: alvenarias que serão revestidas. 17 2.2.3 O bloco ou tijolo O principal componente da alvenaria é o TIJOLO ou BLOCO. De acordo com sua função ou propósito as alvenarias podem ser constituídas de tijolos ou blocos de diversos materiais:  De pedra: pouco utilizadas atualmente, as pedras podem ser empregadas na sua forma natural, desde que selecionadas as mais adequadas, ou cortadas para uso em alvenaria. Chama-se cantaria a alvenaria de pedra em que as mesmas são regulares, com faces paralelas e cantos vivos, reunidas por argamassa;  Cerâmicos: produzidos à base de argila, sendo moldados por extrusão ou prensagem e queimados (cozidos). Podem ser tijolos maciços ou blocos, e estes podem ser estruturais ou de vedação, com furos na vertical ou na horizontal, com paredes maciças, vazadas ou perfurado;  De concreto comum: é o componente de alvenaria obtido a partir de uma mistura homogênea e adequadamente proporcionada de cimento Portland, agregados minerais (areia e/ou pedrisco) e água, submetido à prensagem e vibração;  De concreto celular: são componentes maciços produzidos industrialmente a partir de uma mistura de materiais calcáreos (cimento, cal ou ambos); materiais ricos em sílica (areia), finamente granulados; água e aditivos. Essa mistura é expandida através da utilização de produtos formadores de gases (é comum o emprego de pó de alumínio). Após a conformação, os blocos são submetidos a um processo controlado de pressão e temperatura através de vapor saturado em autoclaves;  Sílico-calcáreos: produzidos a partir de uma mistura de cal e agregado fino de natureza quartzosa procedida de prensagem, após o que é levado a autoclaves submetidas a elevadas pressões e temperaturas. O processo de fabricação apresenta um alto grau de industrialização, o que permite a obtenção de componentes de boa qualidade, com baixa variação nas suas principais características;  De solo-cimento: resultado da cura úmida de mistura de solo arenoso compactado, cimento e água. Nem todo solo pode ser utilizado. Fabricados por 18 prensagem. Emprego relevante do ponto de vista econômico, energético e ecológico;  De vidro: utilizados para fins decorativos, aplicados em fechamento de vãos destinados a fornecer luz natural. Sua superfície de assentamento é jateada para que haja aderência com a argamassa de assentamento. 2.2.4 A racionalização construtiva da alvenaria de vedação O conceito de racionalização não é recente e está ligado diretamente à industrialização. A diferença básica entre os dois conceitos, segundo FERREIRA [20__?], fica condicionada à mudança na base produtiva que ocorre na industrialização, com a introdução de novas tecnologias. Já o conceito de racionalização pressupõe a manutenção da base produtiva, pois sua proposta não é a de alteração, mas sim a otimização dos recursos disponíveis. Segundo SABBATINI (1989)3 apud BARROS (1998): Racionalização construtiva é um processo composto pelo conjunto de todas as ações que tenham por objetivo otimizar o uso dos recursos materiais, humanos, organizacionais, energéticos, tecnológicos, temporais e financeiros disponíveis na construção em todas as suas fases. Os princípios da racionalização construtiva proporcionam a aplicação adequada de todos os recursos envolvidos no processo de produção, através da adequação tecnológica e da mudança organizacional dos processos tradicionais de construção. As medidas que visam à racionalização construtiva abrangem todas as fases do processo de produção, desde a concepção até a execução e utilização dos edifícios. Sobre a racionalização na construção, BARROS (1998) conclui que a racionalização de uma atividade ou processo é caracterizada pela substituição de práticas tradicionais por métodos fundamentados em princípios de organização e predefinição 3 SABBATINI, Fernando H. Desenvolvimento de métodos, processos e sistemas construtivos: formulação e aplicação de uma metodologia. São Paulo, 1989. 321p. Tese (Doutorado) – Escola Politécnica, Universidade de São Paulo. 19 das atividades, resgatando para o início do processo de produção as decisões que se fazem necessárias. Ainda segundo BARROS (1998), o processo de produção de alvenarias racionalizadas envolve todas as ações que tenham por objetivo otimizar o uso de todos os recursos envolvidos com a produção de alvenarias de vedação, desde o início da concepção do empreendimento até a sua fase de utilização. Essa abordagem dá a alvenaria de vedação racionalizada status de nova tecnologia, que segundo BARROS (1998), é capaz de:  Alterar a postura predominante no meio produtivo que permite a adoção de soluções construtivas estabelecidas no canteiro de obras, no momento em que se realiza um determinado serviço, fazendo com que se perca todo o potencial de racionalização da produção;  Exigir um planejamento prévio de todas as atividades envolvidas, ou seja, a realização de um projeto voltado à produção, permitindo que as soluções mais racionais possam ser pensadas previamente;  Colocar a condução do processo de produção do edifício nas mãos do corpo técnico da empresa, que pode empregar com mais propriedade as ferramentas do planejamento e da tecnologia para a solução de problemas;   Exigir o treinamento e a motivação da mão de obra, o que permite a valorização profissional e a adoção de novas posturas de trabalho; Exigir a implementação de procedimentos de controle do processo de produção e aceitação do produto, em geral inexistentes. Como consequência dessas ações o processo de produção de alvenarias racionalizadas, em relação à “alvenaria tradicional”, possui características distintas, tais como:     Utilização de blocos de melhor qualidade, preferencialmente com furos na vertical, facilitando a passagem de instalações; Utilização de família de blocos, com elementos compensadores para evitar a necessidade de quebra durante a execução; Planejamento prévio do canteiro e da produção; Projeto da produção com detalhamento de todas as paredes; 20    Treinamento da mão de obra; Redução de entulho, gerando menos desperdício de material; Melhoria nas condições de limpeza e organização do canteiro de obras. Nos últimos anos, algumas empresas têm reconhecido a importância da vedação vertical para a racionalização dos edifícios e têm investido na implantação de tecnologias racionalizadas para a produção deste subsistema. 21 3 REFERENCIAIS TECNOLÓGICOS PARA A PRODUÇÃO DE EDIFÍCIOS 3.1 Definição e histórico O Regimento Geral do Sistema de Avaliação da Conformidade de Empresas de Serviços e Obras da Construção Civil (SiAC) do Programa Brasileiro da Qualidade e Produtividade do Habitat4 (PBQP-H) dá a seguinte definição ao termo Referencial Tecnológico: Documento não normativo constituído por um conjunto de requisitos de caráter tecnológico e definidos pelo cliente ou por entidade de classe, que recomenda práticas ou procedimentos para projeto, produção, instalação, manutenção ou utilização de produto. Na produção de edifícios são grandes os problemas a serem contornados: baixa produtividade e alto desperdício na execução, baixa qualidade e desempenho insatisfatório do produto final. Sabe-se que são muitas as causas para esses problemas. Parte deles podem ser atribuídos a falhas cometidas ao longo de cada etapa do processo de produção5 de um edifício: projeto, execução, controle, uso e manutenção. Como afirma CARDOSO et al. (2007), “parte-se do princípio que a obediência a esses documentos durante o processo de produção contribua para a obtenção de edifícios com qualidade e adequado desempenho”. Um referencial tecnológico pode, portanto, contribuir para a padronização de técnicas para a execução de obras. Isso pode ser útil não só na prevenção e tratamento das falhas cometidas ao longo do processo de produção, mas também na organização do 4 O Programa Brasileiro da Qualidade e Produtividade do Habitat é um instrumento do Governo Federal cuja meta é organizar o setor da construção civil em torno de duas questões principais: a melhoria da qualidade do habitat e a modernização produtiva. 5 CARDOSO (1996) define Processo de Produção como “Conjunto das etapas físicas, organizadas de forma coerente no tempo, que dizem respeito à construção de uma obra; tais etapas concentram-se sobre a execução, mas vão desde os “estudos preliminares”, até a “utilização da obra”, e são asseguradas por diferentes atores”. 22 conhecimento sobre essas práticas, formalizando-o. Assim, pode ser usado na capacitação dos profissionais envolvidos e também para o ensino, na formação e na reciclagem de profissionais. Tradicionalmente, como reforça a definição do PBQP-H, Referenciais Tecnológicos têm sido definidos por clientes ou entidades de classe a fim de regular relações contratuais entre contratantes e contratados: agentes financiadores, projetistas, construtoras, subempreiteiros, etc. Um documento técnico de referência é uma importante ferramenta para a contratação de serviços, sendo um facilitador de relações entre contratantes e contratados. Quando o objeto do contrato é descrito em um documento técnico de referência todos ficam cientes de suas responsabilidades e funções. Os Referenciais Tecnológicos não possuem caráter normativo, mas podem agregar informações de diversas normas relativas a um determinado processo construtivo. Isso contribui para a adequada aplicação das prescrições dessas normas técnicas. Conforme apresentado no relatório do Projeto Estrutura Metodológica e Institucional para o Desenvolvimento, Aplicação e Difusão de Referenciais Tecnológicos: Além de contribuírem como embasamento complementar às normas técnicas, com referências de especificações, requisitos de desempenho, procedimentos de execução e de controle que ainda não foram normalizados, ou como uma atualização às normas que se encontram obsoletas, os referenciais tecnológicos colaboram com a difusão da informação e do conhecimento, criando e fixando padrões sistematização. de referência e Vê-se, então, que os Referenciais Tecnológicos também podem preencher possíveis lacunas da normalização, pois é fato que as normas relativas à Construção Civil são insuficientes e encontram-se desatualizadas. Um estudo sobre as normas do Comitê Brasileiro da Construção Civil (CB-02) da Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT) mostra a distribuição das normas por tipo: normas gerais para viabilidade e contratação, de projeto e especificações, de execução de serviços, de ensaios (controle tecnológico) e de manutenção, conforme figura abaixo: 23 Distribuição das normas segundo o tipo 0,5% 3,4% 27,6% Normas gerais para viabilidade e contratação Normas de projeto e especificações Normas de execução de serviços Normas de ensaios - Controle tecnológico Normas de manutenção 10,3% 58,2% Figura 5 – Distribuição das normas segundo o tipo. (Fonte: NGI – Consultoria e Desenvolvimento (adaptado)) Destaca-se que uma parte muito pequena destina-se a execução de serviços (10,3%). O mesmo estudo classificou as normas do CB-02 conforme o tempo de publicação, com base em uma amostra de 428 normas. Veja figura a seguir: Distribuição das normas em função do tempo de publicação 15% 31% Publicadas até 1990 Publicadas entre 1990 e 1995 Publicadas entre 1995 e 2000 23% Publicadas entre 2000 e 2005 Publicadas após 2005 18% 13% Figura 6 – Distribuição das normas em função do tempo de publicação. (Fonte: NGI – Consultoria e Desenvolvimento (adaptado)) 24 Observa-se que 31% das normas possuem mais de 20 anos e 62% das normas possuem mais de 10 anos. Atualmente existem 780 normas no CB-02. Encontram-se 6 projetos de norma ou de revisão em consulta nacional6 e 90 estão em análise sistemática, sendo a maioria relativa a componentes de sistemas prediais. Os Referenciais Tecnológicos devem ser vistos, portanto, como documentos complementares às normas técnicas, pois não visam competir com estas, uma vez que possuem objetivos distintos. Por exemplo, os Referenciais Tecnológicos podem conter aspectos contratuais, de garantias e de responsabilidades, tópicos normalmente não contemplados nas normas técnicas da ABNT. A importância e a necessidade de produção e aplicação de Referenciais Tecnológicos são destacadas em programas de associações e institutos de pesquisa voltados para a Construção Civil. Como mencionado no Projeto Estrutura Metodológica e Institucional para o Desenvolvimento, Aplicação e Difusão de Referenciais Tecnológicos (EPUSP, 2010): A Associação Nacional de Tecnologia do Ambiente Construído (ANTAC) destacou em 2002, a necessidade de produção e disseminação de documentos técnicos de referência na Construção Civil brasileira em uma de suas estratégias para modernização do “Macro-complexo Construção Civil”. Tais estratégias estão inseridas no “Plano Estratégico para Ciência, Tecnologia e Inovação na área de Tecnologia do Ambiente Construído com ênfase na Construção Habitacional”, e salientam que a Construção Civil brasileira ressente-se da falta de modelos de códigos de práticas e guias de práticas recomendadas que consolidem e disseminem procedimentos bem sucedidos de projeto e produção. Em 2006 o Programa Habitare, da Financiadora de Estudos e Projetos (FINEP), através da rede de pesquisa Ciência, Tecnologia e Inovação para a Melhoria da Qualidade e Redução de Custos da Habitação de Interesse Social, lançou um projeto 6 A Consulta Nacional é uma das etapas do processo de elaboração de Normas brasileiras. Nessa etapa o Projeto de Norma, elaborado por uma Comissão de Estudo representativa das partes interessadas, é submetido à apreciação da sociedade. Na Análise Sistemática a ABNT propõe a confirmação de Normas publicadas há muito tempo e que não tiveram atualização. 25 intitulado Tecnologia e Gestão no Processo de Produção de Habitação de Interesse Social. Um dos subprojetos, intitulado Estrutura Metodológica e Institucional para o Desenvolvimento, Aplicação e Difusão de Referenciais Tecnológicos, já citado anteriormente, deu origem ao Código de Práticas de Alvenaria de Vedação em Blocos Cerâmicos, objeto de estudo desse trabalho. Em 2007 a Câmara Brasileira da Indústria da Construção (CBIC) deu início ao Programa Inovação Tecnológica na Construção (PIT), uma iniciativa que visa estudar, analisar e definir diretrizes para o desenvolvimento, difusão e avaliação de inovações tecnológicas na Construção Civil brasileira. Embora seus projetos não façam referência a Referenciais Tecnológicos, três projetos (Ciência e Tecnologia para a Inovação, Conhecimento para Inovação e Difusão da Inovação) abordam a necessidade de se produzir e disseminar conhecimento relativo ao processo de produção de edifícios de forma organizada, considerando as diferenças regionais do país. A definição de Referencial Tecnológico dada pelo PBQP-H é coerente com diversos documentos desenvolvidos no Brasil, na forma de cadernos de encargos, manuais técnicos, guias de práticas recomendadas e documentos de programas de controle da qualidade de obras. Observa-se, entretanto, que a existência de Referenciais Tecnológicos com o caráter de “Código de Práticas” de cobertura nacional, como os existentes em diversos países, não tem sido considerada pelos agentes do setor. CLETO (2006), em sua dissertação de mestrado, estudou as iniciativas nacionais e estrangeiras de Referenciais Tecnológicos com o objetivo de propor orientações técnicas, metodológicas e institucionais para a implementação de Referenciais Tecnológicos para o setor de edificações no Brasil. Nesse trabalho, ela propôs a seguinte definição para o termo Referencial Tecnológico: Documentação técnica de referência, não normativa, e de caráter consensual entre os principais agentes envolvidos na cadeia produtiva, que recomenda boas práticas para o processo de produção de edifícios, abrangendo desde a etapa de planejamento, projeto, execução até uso, manutenção e pós-uso (reforma ou demolição). Existem diferenças importantes entre a definição acima e a dada pelo PBQP-H. Elas estão destacadas no quadro a seguir: 26 Quadro 2 – Principais diferenças entre as definições de Referencial Tecnológico. PBQP-H (2005) Conjunto de requisitos definidos pelo cliente ou por entidade de classe CLETO (2006) Documento de caráter consensual entre os principais agentes envolvidos na cadeia produtiva Recomenda processo (projeto, de boas práticas de para o Recomenda práticas ou procedimentos para projeto, produção, instalação, manutenção ou utilização de produto produção edifícios uso e execução, controle, manutenção) Uma diferença importante diz respeito a quem tem a atribuição de elaborar Referenciais Tecnológicos. CLETO (2006) propõe que o Referencial Tecnológico seja elaborado com a participação e concordância dos agentes da cadeia produtiva da Construção Civil, inspirada no modelo francês de documentos (os Documents Techniques Unifiés, aqui traduzidos como Documentos Técnicos Unificados – ou DTU). Sobre isso, CARDOSO et al. (2007), diz que um Referencial Tecnológico (guia de práticas recomendadas) refere-se a procedimentos consolidados no meio técnico, sobre os quais existe um consenso. Segundo CLETO et al. (2011), “as boas práticas são consagradas para uma atividade quando existe um consenso a respeito dos modos mais eficientes e eficazes de realizá-la, segundo procedimentos comprovados ao longo do tempo por uma quantidade significativa de pessoas experientes no assunto”. Nota-se também que a definição do PBQP-H cita que os documentos podem ser para determinadas etapas do processo de produção ou para outras (“projeto, produção, instalação, manutenção „ou‟ utilização de produto”), enquanto a definição de CLETO modifica o “ou” para “e”, indicando que sejam contempladas e compatibilizadas todas essas etapas. Essa ideia contribui para que a documentação seja visualizada e compreendida de forma sistêmica, minimizando possíveis conflitos e garantindo que todas as etapas do processo de produção de edifícios sejam documentadas. 27 Neste trabalho será adotada a definição dada por CLETO (2006), por ser considerada a mais adequada para o contexto da elaboração e aplicação de Códigos de Práticas. Em resumo, um referencial tecnológico pode ter as seguintes aplicações, em parte ou na sua totalidade, como verificado no Projeto Estrutura Metodológica e Institucional para o Desenvolvimento, Aplicação e Difusão de Referenciais Tecnológicos:  Formalizar e disseminar o conhecimento de práticas bem sucedidas, podendo abordar etapas do processo de produção dos edifícios, como o projeto, a execução, o controle dos serviços e do produto final e o seu uso e manutenção;  Homogeneizar e padronizar critérios técnicos nas diversas fases de produção, após a obtenção de consenso entre os agentes do setor da construção civil interessados;  Balizar relações contratuais, facilitando a definição dos serviços, dos processos e do produto que se deseja obter, por meio de especificações, procedimentos e critérios ou parâmetros de controle e recebimento;   Suprir lacunas existentes na normalização técnica, potencializando a utilização da mesma e Serem utilizados na prática das obras, como documentos técnicos que contribuem para a melhoria da qualidade do processo de produção e do desempenho dos edifícios. 3.2 A elaboração do Código de Práticas de Alvenaria de Vedação em Blocos Cerâmicos O estudo para a elaboração de Referenciais Tecnológicos para a produção de edifícios com caráter nacional e consensual foi a temática da dissertação de mestrado de CLETO em 2006. A mesma participou também do projeto de pesquisa iniciado em 2007 e que deu origem ao Código de Práticas de Alvenaria de Vedação em Blocos Cerâmicos. A intenção era criar um ambiente para a elaboração de documentos técnicos que fossem referência de boas práticas para o processo de produção de edifícios de maneira unificada no Brasil, respeitando as especificidades regionais. Segundo 28 CLETO et al. (2011), “um documento que formaliza boas práticas torna-se uma referência e contribui para a melhoria da qualidade de atividades e seus resultados, podendo ser incorporado a uma estrutura de regulamentação”. Dois objetivos eram fundamentais de acordo com CLETO et al. (2011): propor uma estrutura institucional e operacional para a elaboração de Códigos de Práticas destinado à produção de edifícios no Brasil - o Sistema Nacional de Códigos de Práticas (SiNCOP) e propor a estrutura e o conteúdo necessário para os documentos gerados no âmbito desse Sistema. Essa proposta foi baseada em experiências de alguns países na implementação de Códigos de Práticas e para isso uma vasta revisão bibliográfica foi consultada, uma vez que ainda não existe no Brasil um sistema implantado para a elaboração de boas práticas aplicadas ao setor da construção de edifícios. A proposta foi submetida à análise e validação junto a entidades e representantes do setor da construção. De acordo com CLETO et al. (2011), “a existência de um conjunto de boas práticas contribui para orientar o setor da construção de edifícios, balizar as relações contratuais e melhorar a qualidade das obras e o desempenho dos edifícios”. No Brasil há vários documentos com finalidades das mais diversas para construções de edifícios com objetivos distintos do proposto pelo Código de Práticas. O intuito do projeto era unir os conhecimentos e documentos aqui existentes com as informações obtidas através do estudo de documentos de sistemas de outros países. A proposta do SiNCOP é inédita, pois não há um sistema nacional para elaboração de documentos como há em outros países e nem um modelo de documentos de boas práticas que possa ser utilizado como base, segundo CLETO et al. (2011). O Código de Práticas foi uma iniciativa inspirada no modelo francês de códigos de construção. Ele foi lançado pelo Instituto de Pesquisas Tecnológicas de São Paulo (IPT) e pela Escola Politécnica da USP (EPUSP) e financiado pelo Programa de Tecnologia da Habitação (Habitare), da Financiadora de Estudos e Projetos (Finep), por meio da rede com o tema “Desenvolvimento e difusão de tecnologias construtivas para a habitação de interesse social/Coordenação Modular”, no âmbito de um projeto de pesquisa denominado “Criação de mecanismos para avaliação e melhoria da qualidade e da racionalidade em empreendimentos habitacionais de interesse social”. Ele é um projeto piloto do proposto Sistema Nacional de Códigos de Práticas 29 (SiNCOP), que visa a criação, futuramente, de outros códigos de suma importância para o desenvolvimento da Construção Civil e que pretende-se que seja inserido no Programa Brasileiro da Qualidade e Produtividade do Habitat (PBQP-H). O ideal seria que o Sistema Nacional de Códigos de Práticas (SiNCOP) complementasse o Sistema de Avaliação da Conformidade de Empresas de Serviços e Obras (SiAC), Sistema de Avaliação da Conformidade de Materiais, Componentes e Sistemas Construtivos (SiMAC) e o Sistema Nacional de Avaliações Técnicas (SINAT), sistemas esses que compõem o Programa Brasileiro da Qualidade e Produtividade do Habitat (PBQP-H). A figura abaixo ilustra a estrutura do PBQP-H, que está inserido no Ministério das Cidades: Figura 7 – Estrutura do PBQP-H. (Fonte: http://www.cidades.gov.br/pbqp-h/estrutura.php) A estrutura pensada para o SiNCOP propõe que os textos sejam elaborados e analisados por grupos de trabalhos (GTs), uma vez que seria difícil uma única instituição ficar responsável pela elaboração dos textos que dariam origem aos Códigos de Práticas no Brasil. Cada grupo ficaria responsável por um texto e teria representantes técnicos com conhecimento relativo ao elemento construtivo em questão. Sendo o SiNCOP um sistema único, todas as atividades deveriam ser coordenadas por uma única representação, para que o resultado dos Códigos de Práticas não 30 tenham divergências. Desse modo, verificou-se a necessidade de criar um Comitê Técnico, responsável pela análise do trabalho dos diversos GTs, uma vez que há a necessidade de se agrupar os textos elaborados pelos mesmos. Desta forma, a estrutura do SiNCOP poderia aumentar à medida que haja o aumento da demanda em se elaborar Códigos de Práticas, conforme figura abaixo: Figura 8 – Estrutura proposta para o SiNCOP. (Fonte: CLETO et al. 2011) Os Códigos de Práticas podem ser um incentivo ao processo de normalização, visto que as normas relativas à Construção Civil são insuficientes e encontram-se desatualizadas. Podem conter referências a especificações, requisitos de desempenho, procedimentos de execução e de controle que ainda não foram normalizados ou provocar a atualização de normas obsoletas. Toda a cadeia produtiva da Construção Civil ganha com a unificação dos procedimentos levando em consideração todas as etapas do processo projetual e de produção de um edifício. Isso contribuiria com uma maior competitividade do setor e também para a obtenção de produtos de melhor desempenho. O código piloto se aplica a Alvenarias de Vedação executadas com Blocos Cerâmicos, mas pretende-se elaborar Códigos de Práticas também para outros elementos e sistemas construtivos tradicionais. No entanto, é preciso que exista interesse dos setores ligados à construção, de modo que o documento seja completo, tenha credibilidade e possa ser aplicado em obras. O anexo 2 relaciona os agentes do setor privado que poderiam estar diretamente envolvidos com o SiNCOP. 31 Acredita-se que o Código de Práticas seja uma contribuição de grande valia, necessária para a modernização da construção no Brasil. 32 4 ANÁLISE DO CÓDIGO DE PRÁTICAS DE ALVENARIA DE VEDAÇÃO EM BLOCOS CERÂMICOS A seguir serão apresentados e analisados os tópicos do Código de Práticas, destacando seus pontos mais importantes. 4.1 Introdução 4.1.1 Dos Códigos de Práticas Define Códigos de Práticas: documentos técnicos de referência nacional, não normativos, consensualizados entre os principais agentes envolvidos na cadeia produtiva, que contribuem para a consolidação e disseminação do conhecimento relativo a elementos e sistemas construtivos consagrados na Construção Civil. Esclarece suas vantagens, citando o exemplo de outros países, explica a origem do Código e seus realizadores. 4.1.2 Das alvenarias de vedação Define alvenarias de vedação e destaca a importância da modernização da técnica construtiva da alvenaria, considerando principalmente os aspectos de desempenho, justificando a elaboração do Código de Práticas. 4.1.3 Objetivos Descreve o objetivo desse documento, que é o de recomendar e unificar práticas construtivas bem sucedidas e consensualizadas junto ao setor produtivo para alvenaria de vedação em blocos cerâmicos, complementando a normalização técnica e balizando o uso dessa técnica construtiva no Brasil, considerando também as diferenças regionais. 33 Explica-se a proposta do documento de otimizar a produtividade e a qualidade das edificações, além de melhor balizar as relações contratuais entre os diferentes agentes da cadeia produtiva. 4.1.4 Campo de aplicação Esse tópico descreve o escopo de utilização do Código: alvenarias de vedação executadas com blocos cerâmicos vazados ou maciços, destinados a preencher os reticulados de estruturas de concreto, aço, madeira e outras. Refere-se a alvenarias empregadas em fachadas, paredes internas, platibandas, muros de divisa e ainda paredes com ou sem revestimento. 4.1.5 Limitações de uso Aqui os autores deixam claro que o Código não contempla recomendações para a execução de alvenarias em locais como saunas, piscinas, reservatórios, fornos, câmaras frigoríficas, alvenarias submersas e também obras de alvenaria estrutural. Essa definição é importante para que os usuários interessados em utilizar o Código de Práticas saibam que é preciso avaliar a aplicabilidade do mesmo quando se trata de executar alvenarias sob condições específicas. 4.1.6 Terminologia Esse tópico contém a definição dos principais termos técnicos relativos à alvenaria e suas partes, bem como os relativos aos materiais e equipamentos a serem empregados. Dois conceitos importantes oriundos da ABNT NBR 15575-1:2008 são estabelecidos nesse item: VIDA ÚTIL (VU): Período de tempo durante o qual o edifício ou seus sistemas mantém o desempenho esperado, quando submetidos às atividades de manutenção pré-definidas no respectivo manual de operação, uso e manutenção. VIDA ÚTIL DE PROJETO (VUP): Período estimado de tempo em que um sistema é projetado para atender aos requisitos de desempenho estabelecidos na série de normas 34 NBR 15575, desde que cumprido o programa de manutenção previsto no respectivo manual de operação, uso e manutenção. 4.2 Etapa de seleção de materiais 4.2.1 Blocos cerâmicos O Código orienta que os blocos cerâmicos utilizados na execução das alvenarias de vedação devem atender às normas ABNT NBR 15720-1:2005 (Componentes cerâmicos – Parte 1: Blocos cerâmicos para alvenaria de vedação – Terminologia e requisitos) e ABNT NBR 15720-3:2005 (Componentes cerâmicos – Parte 3: Blocos cerâmicos para alvenaria estrutural e de vedação – Métodos de ensaio). A norma ABNT NBR 15720-1:2005, além de definir termos, fixa os requisitos dimensionais, físicos e mecânicos exigíveis no recebimento. Consideram-se dois tipos de blocos quanto ao direcionamento de seus furos prismáticos, conforme ilustrado na figura abaixo, que mostra também as dimensões de fabricação (largura - L, altura - H e comprimento - C): Figura 9 – Representação dos blocos cerâmicos de vedação. (Fonte: THOMAZ et al. 2009) As dimensões de fabricação devem ser correspondentes a múltiplos e submúltiplos do módulo dimensional M (onde M = 10 cm menos 1 cm), conforme dimensões padronizadas indicadas na tabela abaixo: 35 Tabela 2 – Dimensões de fabricação de blocos cerâmicos de vedação. LxHxC (1) M x (1) M x (2) M (1) M x (1) M x (5/2) M (1) M x (3/2) M x (2) M (1) M x (3/2) M x (5/2) M (1) M x (3/2) M x (3) M (1) M x (2) M x (2) M (1) M x (2) M x (5/2) M (1) M x (2) M x (3) M (1) M x (2) M x (4) M (5/4) M x (5/4) M x (5/2) M (5/4) M x (3/2) M x (5/2) M (5/4) M x (2) M x (2) M (5/4) M x (2) M x (5/2) M (5/4) M x (2) M x (3) M (5/4) M x (2) M x (4) M (3/2) M x (2) M x (2) M (3/2) M x (2) M x (5/2) M (3/2) M x (2) M x (3) M (3/2) M x (2) M x (4) M (2) M x (2) M x (2) M (2) M x (2) M x (5/2) M (2) M x (2) M x (3) M (2) M x (2) M x (4) M (5/2) M x (5/2) M x (5/2) M (5/2) M x (5/2) M x (3) M (5/2) M x (5/2) M x (4) M Fonte: THOMAZ et al. 2009 Largura (L) Altura (H) Comprimento (C) Bloco 19 24 19 1/2 Bloco 9 11,5 9 11,5 9 9 11,5 14 19 11,5 11,5 9 11,5 14 19 9 11,5 14 19 9 11,5 14 19 11,5 14 19 9 14 9 24 19 19 19 24 29 39 11,5 14 11,5 19 24 24 19 24 29 39 19 14 19 24 29 39 19 19 19 24 29 39 24 24 24 29 39 O Código explica também que além dos blocos e meios-blocos existem outros tipos de componentes cerâmicos complementares com funções específicas e que integram as alvenarias de vedação, desde que atendam aos requisitos de desempenho exigidos, como a canaleta U, a canaleta J, os blocos de amarração e os compensadores. 36 As características que os blocos cerâmicos de vedação devem apresentar, de acordo com a norma ABNT NBR 15270-1:2005 (Componentes cerâmicos - Parte 1: Blocos cerâmicos para alvenaria de vedação - Terminologia e requisitos), são resumidas na tabela abaixo: Tabela 3 – Características exigidas para os blocos cerâmicos e de vedação. Características visuais Forma Tolerância dimensional individual relacionada à dimensão efetiva Tolerância dimensional relacionada à média das dimensões efetivas Espessura das paredes internas dos blocos Espessura das paredes externas dos blocos Desvio em relação ao esquadro Planeza das faces Resistência à compressão (área bruta) Índice de absorção de água (AA) Fonte: THOMAZ et al. 2009 Não apresentar quebras, superfícies irregulares ou deformações Prisma reto ± 5 mm (largura, altura ou comprimento) ± 3 mm (largura, altura ou comprimento) ≥ 6 mm ≥ 7 mm ≤ 3 mm Flecha ≤ 3 mm ≥ 1,5 MPa (para furos na horizontal) ≥ 3,0 MPa (para furos na vertical) 8% ≤ AA ≤ 22% As características apresentadas na tabela acima devem ser verificadas conforme os procedimentos de ensaios definidos na norma ABNT NBR 15270-3:2005 (Componentes cerâmicos - Parte 3: Blocos cerâmicos para alvenaria estrutural e de vedação - Métodos de ensaio), que descreve os métodos para a avaliação de conformidade dos blocos cerâmicos, incluindo a inspeção geral e determinação de suas características geométricas, físicas e mecânicas. Para realizar esses ensaios deve-se observar os lotes de fornecimento, com no máximo 100.000 blocos ou fração, e realizar a inspeção de acordo com as amostragens e critérios de aceitação e rejeição apresentados na tabela abaixo: 37 Tabela 4 – Amostragens e critérios de aceitação e rejeição. Inspeções e ensaios realizados Identificação blocos Características visuais Características geométricas Caracterização física Caracterização mecânica Fonte: THOMAZ et al. 2009 Nº Blocos ensaiados 1ª amostra 2ª amostra - Blocos não-conforme 1ª amostragem Nº Nº 2ª amostragem Nº Nº rejeição - aceitação rejeição aceitação 0 1 - dos 13 13 13 2 5 6 7 13 - 2 3 - - 6 - 1 2 - - 13 - 2 3 - - O Código explica que os fabricantes de blocos cerâmicos participantes do Programa Setorial da Qualidade de Blocos Cerâmicos – PSQ-BC, pertencente ao SiMAC, do PBQP-H, realizam análises e ensaios periódicos de seus produtos. Essa é uma forma de estimular a aquisição de blocos de fabricantes que participam desse PSQ. O Código conclui a orientação sobre blocos explicando que no caso da utilização de tijolos maciços cerâmicos para alvenaria deve-se verificar as especificações constantes da norma ABNT NBR 7170:1983 (Tijolo maciço cerâmico para alvenaria) e da norma ABNT NBR 6460:1983 (Tijolo maciço cerâmico para alvenaria – Verificação da resistência à compressão). 4.2.2 Argamassa de assentamento O Código de Práticas recomenda para o assentamento de alvenaria, argamassas mistas, compostas por cimento e cal hidratada, podendo ser industrializadas ou preparadas em obra. Elas devem atender aos requisitos estabelecidos na norma ABNT NBR 13281:2005 (Argamassa para assentamento e revestimento de paredes e tetos – Requisitos). 38 Recomenda também a realização dos ensaios previstos nessa norma, tanto para argamassa industrializada quanto para preparada em obra: resistência à compressão, densidade de massa aparente nos estados fresco e endurecido, resistência à tração na flexão, coeficiente de capilaridade, retenção de água e resistência de aderência à tração. Os traços recomendados são apresentados apenas na etapa de execução. Com relação aos materiais constituintes, o Código destaca a importância do cimento na aderência, na resistência mecânica da parede e na estanqueidade à água das juntas, e previne contra a utilização de cimentos de alto forno (CP III) ou pozolânico (CP IV), por conta da possibilidade de alta retração caso não haja adequada hidratação do aglomerante. É interessante notar que não se fala em cuidar da adequada hidratação do cimento, e sim de evitar esses tipos de cimento. Não são mencionadas as normas relativas a cimento Portland. O Código explica as vantagens da cal e recomenda que pode ser utilizada qualquer uma que atenda à norma ABNT NBR 7175:2003 (Cal hidratada para argamassas – Requisitos). As areias devem atender às especificações da norma ABNT NBR 7211:2009 (Agregados para concreto – Especificação). Devem ser lavadas e bem granuladas, recomendando-se para a argamassa de assentamento, areias médias. Não se recomenda o emprego de areias com porcentagens elevadas de material siltoargiloso. 4.2.3 Telas metálicas Recomenda-se que as telas utilizadas na ligação alvenaria/ pilar sejam telas metálicas eletrossoldadas, galvanizadas, e dotadas de fios com diâmetro em torno de 1 mm e malha quadrada de 15 mm. Recomenda-se que as telas atendam às especificações da norma ABNT NBR 10119:1987 (Tela de simples torção de malha quadrangular e fios de aço baixo teor de carbono, zincados – Dimensões – Padronização). Curiosamente, essa norma foi cancelada em 04/07/2011 por não ser mais utilizada. 39 4.3 Etapa de projeto 4.3.1 Requisitos e critérios de desempenho Esse tópico começa enumerando fatores que influenciam significativamente o desempenho das alvenarias:        As dimensões dos blocos; A forma da seção transversal; A presença de revestimento; A relação altura/espessura da parede; As características da argamassa de assentamento; As características de rigidez da estrutura e A presença de vãos de portas e janelas. No que se refere ao desempenho mecânico das paredes o Código dá destaque a resistência à compressão dos blocos, a deformações impostas à parede e a resistência às cargas laterais. A resistência à compressão dos blocos, além de ser um indicador geral da sua qualidade, terá influência direta na resistência ao cisalhamento e à compressão de paredes solicitadas por deformações impostas da estrutura. Para paredes submetidas a deformações impostas ou a cargas de ocupação significativas recomenda-se optar por blocos com resistência mínima de 3 MPa. Ausentes essas condições, podem ser empregados blocos com resistência mínima à compressão de 1,5 MPa. Em situações especiais, como nos edifícios com mais de 20 pavimentos, nas paredes mais longas e naquelas com altura superior a 3 m, as alvenarias devem apresentar adequada resistência às cargas laterais, particularmente aquelas devidas à ação do vento. Nesse caso, a tensão atuante não deve exceder a tensão admissível da alvenaria solicitada à tração na flexão. Para alvenarias com juntas em amarração totalmente preenchidas (juntas horizontais e verticais), assentadas com argamassas de resistência à compressão maior ou igual a 5 MPa, o Código indica em uma tabela valores para o módulo de deformação à compressão axial e os valores admissíveis e resistência à tração na flexão. 40 Com relação a cargas dinâmicas, para valores de resistência a impactos de corpo mole e para a capacidade de fixação de peças suspensas, o Código indica a tabela abaixo, que curiosamente, não possui esses valores: Tabela 5 – Resistência a impactos de corpo mole e capacidade de fixação de peças suspensas de alvenarias de vedação em blocos cerâmicos. Tipo de bloco Largura do bloco (cm) 9 Revestimento * Características das paredes Massa (kg/m²) Resist. a impactos de corpo mole (J) Max. carga suspensa em cada mão-francesa (kgf) sem com sem com sem com sem com sem com sem com sem com sem com 90 140 ** ** 130 180 ** ** ** ** ** ** 120 170 ** ** ** ** ** ** ** ** ** ** ** ** ** ** ** ** ** ** ** ** ** ** ** ** ** ** ** ** ** ** ** ** ** ** 11,5 14 19 9 11,5 14 19 Fonte: THOMAZ et al. 2009 (adaptado) (*) Alvenaria revestida nas duas faces, camada de 1,5cm de argamassa no traço 1 : 2 : 9 (cimento, cal hidratada e areia média lavada, em volume). (**) Os valores não indicados devem ser objeto de investigação técnica. OBS: Alvenarias assentadas com juntas em amarração totalmente preenchidas e argamassas de assentamento com resistência à compressão ≥ 5 MPa. Mãos-francesas de sustentação de peças suspensas fixadas com buchas de náilon e parafusos com diâmetro de 8mm. O Código explica que esta tabela será completada em versão futura do documento. Os ensaios devem ser realizados de acordo com as normas ABNT NBR 11678:1990 (Divisórias leves internas moduladas – Verificação do comportamento sob ação de cargas provenientes de peças suspensas – Método de ensaio) e ABNT NBR 41 11675:2011 (Divisórias leves internas moduladas – Verificação da resistência a impactos – Método de ensaio) Situação similar ocorre no caso das resistências térmica, ao fogo e isolação acústica. O Código afirma que a aplicação de revestimentos em argamassa ou gesso pode melhorar substancialmente o desempenho das alvenarias frente à ação do fogo, aumentando ainda a isolação térmica e acústica. Indica que os valores médios dessas características podem ser vistos na tabela abaixo, valores esses obtidos com a realização de ensaios de laboratório: Tabela 6 – Resistência térmica, isolação acústica e resistência ao fogo de alvenarias de vedação em blocos cerâmicos. Tipo de bloco Largura do bloco (cm) 9 Revestimento * Características das paredes Resist. térmica (m².ºC/W) Isolação acústica (dB) Resist. ao fogo (minutos) sem com sem com sem com sem com sem com sem com sem com sem com ** 0,22 ** ** ** 0,30 ** ** ** ** ** ** 0,31 ** ** ** ** 42 ** ** ** ** ** ** ** ** ** ** 36 40 ** ** 90 150 ** ** ** ** ** ** ** ** ** ** 120 190 ** ** 11,5 14 19 9 11,5 14 19 Fonte: THOMAZ et al. 2009 (adaptado) (*) Alvenaria revestida nas duas faces, camada de 1,5cm de argamassa no traço 1 : 2 : 9 (cimento, cal hidratada e areia média lavada, em volume). (**) Os valores não indicados devem ser objeto de investigação técnica. OBS: Argamassas de assentamento com resistência à compressão ≥ 5 MPa. 42 Mas, dessa vez, são poucos os dados apresentados. O Código explica que esta tabela será completada em versão futura do documento. As normas para a realização dos ensaios não são mencionadas. Por fim, tem-se a impressão de que as considerações referentes a requisitos e critérios de desempenho para alvenarias de vedação aqui apresentadas não são suficientes para abordar todos os requisitos definidos pela ABNT NBR 15575-4:2008 e já citados neste trabalho. 4.3.2 Exigências e recomendações técnicas de projeto de alvenarias de vedação Segundo o Código, Na seleção do sistema de blocos deve-se considerar:              dimensões modulares/peso dos blocos (aspectos ergonômicos e de produtividade); disponibilidade de blocos especiais (para coordenação modular nos encontros entre paredes); disponibilidade de peças complementares (meio-blocos, canaletas, blocos compensadores, etc.); regularidade geométrica e integridade das arestas; embalagem/paletização; facilidade de embutimento de dutos/fixação de esquadrias; capacidade de sustentação de peças suspensas; absorção de água/expansão higroscópica/risco de eflorescências; rugosidade superficial/capacidade de aderência de revestimentos; resistência à compressão; isolação térmica; isolação acústica; resistência ao fogo. O Código ressalta a influência do projeto de arquitetura no desempenho das paredes de vedação. Na utilização de recursos arquitetônicos, como molduras, cornijas, capitéis, peitoris, pingadeiras e outros, visando a estanqueidade à água e à própria durabilidade das paredes externas e dos revestimentos das fachadas. Na pintura das 43 fachadas, onde as cores escuras devem ser evitadas, pois favorecem a absorção de calor. No caso de alvenarias aparentes, cuidados especiais devem ser observados seleção dos componentes de alvenaria a fim de evitar eflorescências. O desempenho das alvenarias está diretamente associado à perfeita coordenação dimensional, à compatibilidade com outros projetos e à adoção de detalhes construtivos apropriados. Em razão da pequena resistência a solicitações de tração, torção e cisalhamento, as alvenarias devem ser convenientemente reforçadas com telas, ferros corridos, vergas e outros dispositivos. No topo de muros de divisa, guarda-corpos de terraços e platibandas devem obrigatoriamente ser construídas cintas de amarração. 4.3.2.1 Coordenação modular horizontal e vertical Recomenda-se a coordenação modular para qualquer projeto de arquitetura, em função da disponibilidade local dos componentes cerâmicos. O Código cita as normas ABNT NBR 5718:1982 (Alvenaria Modular – Procedimento) e a ABNT NBR 5708:1982 (Vãos modulares e seus fechamentos), mencionando que não consideram os avanços mais recentes da coordenação modular e recomendando que suas versões atualizadas sejam consideradas no projeto, além das considerações estabelecidas no próprio Código. Recentemente essas normas foram substituídas pela ABNT NBR 15873:2010 (Coordenação modular para edificações). Recomenda-se que o posicionamento dos componentes da construção, das juntas e dos acabamentos seja feito conforme o reticulado modular de referência. A medida dos componentes, vãos ou distância entre partes da construção deve ser igual a um módulo ou a um múltiplo inteiro do módulo, conforme ilustra a figura abaixo: 44 Figura 10 – Reticulado modular e medida modular. (Fonte: THOMAZ et al. 2009) O Código faz recomendações sobre coordenação modular horizontal (disposição das parede em relação aos pilares), coordenação modular vertical (disposição das paredes em relação com conjunto laje-piso) e coordenação dimensional com esquadrias. 4.3.2.2 Estabilidade e resistência das paredes de vedação Deve-se considerar a capacidade de deformação compatível com as solicitações que atuam na edificação. A fim de garantir razoável nível de segurança contra deformações impostas, cargas laterais provenientes da ação do vento e cargas de ocupação, as dimensões das paredes devem ser limitadas tanto na direção do seu comprimento como na direção da sua altura. Essa limitação é imposta por elementos contraventantes, quais sejam, pilares e paredes transversais na direção do comprimento da parede e vigas e lajes na direção da altura. A tabela abaixo mostra os valores limite sugeridos para alturas e distâncias: Tabela 7 – Alturas e distâncias máximas entre elementos contraventantes de paredes de vedação em blocos cerâmicos. Largura do bloco (cm) 9 11,5 14 19 Paredes internas Altura máxima (cm) Comprimento máximo (cm) Paredes de fachada Altura máxima (cm) Comprimento máximo (cm) 260 340 400 460 400 500 600 700 * 300 340 380 * 400 480 560 Fonte: THOMAZ et al. 2009 (*) Não se recomenda o uso de blocos de 9 cm em paredes de fachadas. 45 4.3.2.3 Compatibilização com projetos de estruturas e de fundações Em função de recalques diferenciados das fundações e esforços das estruturas, as alvenarias de vedação de blocos cerâmicos são susceptíveis à fissuração. Portanto, alguns problemas podem surgir na alvenaria de vedação ocasionados pelas estruturas e fundações, como destacamentos entre alvenarias e estrutura, ocorrências de fissuras, esmagamentos ou mesmo ruptura de paredes solicitadas pelas deformações estruturais. O Código recomenda aos projetistas de estruturas e de fundações que alguns limites sejam observados no desenvolvimento dos seus respectivos projetos. 4.3.2.4 Compatibilização com projetos de sistemas prediais Os projetos dos sistemas prediais devem preceder o projeto executivo da alvenaria, ou serem desenvolvidos concomitantemente com a paginação das paredes. A paginação deve indicar o posicionamento de tubos e eletrodutos, caixas de luz ou telefone, pontos de tomada e outros detalhes. Deve-se evitar ao máximo o corte dos componentes de alvenaria, utilizando-se os furos dos blocos para caminhamento vertical de tubos e eletrodutos ou blocos mais estreitos para caminhamento de dutos de pequena bitola no corpo da parede. Recomenda-se também shafts para alojamento de prumadas, enchimentos ou carenagens sob tampos de pia para alojamento dos tubos e distribuição de tubulação acima de forros ou abaixo de pisos elevados . 4.3.2.5 Compatibilização com projeto de impermeabilização As recomendações restringem-se ao caso de impermeabilização com manta asfáltica, com a utilização nas bases das paredes blocos mais estreitos que aqueles integrantes do restante para realizar a dobra da manta, reforço com tela metálica no encontro da manta com a alvenaria e projetar os vãos de portas com largura suficiente para que o sistema de impermeabilização possa envolver a boneca da alvenaria na sua base, interpondo-se entre a parede e a aduela. 46 4.3.2.6 Juntas de assentamento e juntas de controle As juntas em amarração promovem a redistribuição de tensões provenientes de cargas verticais ou introduzidas por deformações estruturais e movimentações higrotérmicas. Sempre que se executar alvenarias com juntas a prumo é recomendável a introdução de cintas de amarração na parede, ou pelo menos a introdução de barras de ferro ou telas metálicas em algumas juntas de assentamento. Recomenda-se o preenchimento das juntas verticais das alvenarias a fim de otimizar a resistência ao cisalhamento, resistência ao fogo, desempenho termoacústico, resistência a cargas laterais e capacidade de redistribuição das tensões decorrentes de deformações impostas. Tal cuidado deve ser especialmente observado em paredes muito longas ou muito altas, ou naquelas sujeitas a consideráveis deformações do suporte ou intensas movimentações higrotérmicas. A fim de evitar a ocorrência de fissuras e destacamentos provocados por movimentações higrotérmicas recomenda-se a inserção de juntas de controle sempre que houver mudanças na direção ou na espessura das alvenarias, ou sempre que as paredes forem muito longas. O Código sugere que não sejam ultrapassados os distanciamentos entre juntas indicados em uma tabela. É também recomendável a introdução de juntas de controle nas paredes muito enfraquecidas pela presença de vãos de portas ou janelas. 4.3.2.7 Ligações entre paredes Nos encontros entre paredes (“L”, “T” ou cruz) é sempre desejável as juntas em amarração, desaconselhando-se, fortemente, juntas aparentes nas fachadas. Quando optar-se por encontros entre paredes com juntas a prumo, por exemplo, no caso de plantas com ambientes reversíveis (com a opção da retirada de paredes), uma série de cuidados deve ser prevista: maior rigidez dos apoios, disposição de ferros ou telas metálicas nas juntas de assentamento, embutimento de tela no revestimento, etc. 47 4.3.2.8 Ligações entre alvenarias e pilares O projeto da alvenaria deve definir a forma de ligação das paredes com pilares, a fim de prevenir futuros destacamentos. Como regra geral, as ligações com os pilares podem ser executadas com telas metálicas, aplicadas a cada duas fiadas e fixadas no concreto com pinos metálicos (“tiros” aplicados com finca-pinos). A tela deve ser dobrada exatamente a 90º, conforme ilustrado na figura abaixo, aplicando-se os pinos e as respectivas arruelas o mais próximo possível da dobra da tela: Figura 11 – Fixação entre alvenarias e pilares com o emprego de tela metálica galvanizada. (Fonte: THOMAZ et al. 2009) Para evitar-se risco de corrosão, as telas devem ser recortadas com largura 1 ou 2 cm menor que a largura dos blocos. Para estruturas muito flexíveis, como por exemplo estruturas pré-moldadas isostáticas ou estruturas reticuladas de grandes vãos, deve-se adotar detalhes construtivos especiais, e alguns são sugeridos no Código. Nessas estruturas, para limitar as solicitações na alvenaria pelas deformações da estrutura ou evitar destacamentos em 48 função de movimentações higrotérmicas do material, podem ser adotadas juntas flexíveis nos encontros com pilares. O Código faz também recomendações para o caso de estruturas de aço. 4.3.2.9 Fixações (“encunhamentos”) Nas fixações (também conhecida como “aperto de alvenaria” ou “encunhamentos”) com lajes ou vigas superiores, após limpeza e aplicação de chapisco no componente estrutural, curiosamente a primeira recomendação do Código é o assentamento inclinado de tijolos de barro cozido, empregando-se argamassa relativamente fraca (“massa podre”). Nos projetos modulados, onde a última fiada de blocos praticamente faceia a face inferior do componente estrutural, deve-se empregar argamassa fraca em cimento. Nessa situação a última fiada pode ser composta por meio-blocos assentados com furos na horizontal, facilitando a execução da fixação. No caso de estruturas muito deformáveis, paredes muito extensas ou muito enfraquecidas pela presença de aberturas, recomenda-se a adoção de ligações ainda mais flexíveis, por exemplo com o emprego de poliuretano expandido ou “massa podre” composta com esferas de EPS (poliestireno expandido). Nesse caso, adequações de materiais e de detalhes construtivos devem ser estudadas para garantir a integridade do revestimento das paredes. Caso as estruturas possuam deformações que sabidamente superam a capacidade de acomodação das alvenarias, detalhes construtivos apropriados devem ser adotados nos encontros das alvenarias com as vigas ou lajes. A ancoragem superior das paredes, nesse caso, pode ser feita com insertos de aço fixados nas vigas ou lajes mediante furação. O acabamento da junta pode ser executado com selante flexível, podendo-se optar pelo emprego de moldura de gesso (“roda-teto”). 49 4.3.2.10 Reforços metálicos, vergas, contravergas e cintas de amarração A introdução de uma taxa mínima de armadura na alvenaria não chega a aumentar significativamente a resistência à compressão da parede. Entretanto, tal armadura melhora substancialmente o comportamento da alvenaria quanto à fissuração, normalmente provocada por flexão ou torção da estrutura de apoio, ocorrências de recalques diferenciados ou qualquer outra espécie de ação. Com a finalidade de absorver tensões que se concentram nos contornos dos vãos, devem ser previstas vergas e contravergas com transpasse em torno de 20% da largura do vão, avançando no mínimo 20 cm para cada lado do vão, conforme a figura abaixo: Figura 12 – Vergas e contravergas no contorno de vãos de janelas. (Fonte: THOMAZ et al. 2009) No caso de vãos sucessivos, as vergas e contravergas devem ser contínuas. Em casos especiais, como janelas ou portas de grandes dimensões ou paredes muito altas, vergas e contravergas devem ser dimensionadas como vigas. Vergas, contravergas e cintas de amarração devem ser convenientemente armadas, recomendando-se pelo menos dois ferros com diâmetro de 6 mm. Podem ser construídas com concreto normal ou com graute no caso do preenchimento de canaletas. 50 O Código faz ainda recomendações para o caso de paredes com alturas elevadas e desaconselha a utilização de coxins pré-moldados de distribuição nas laterais dos vãos, já que tais elementos não têm poder de redistribuir tensões provocadas por movimentações térmicas ou distorções dos panos no plano das paredes. 4.3.2.11 Fixação de marcos de portas e janelas A paginação das paredes deve indicar com precisão posicionamentos e dimensões dos vãos em osso (e não dos vãos acabados ou dos caixilhos) a serem inseridos na alvenaria. Com base nessas dimensões, devem ser previstos gabaritos metálicos indeformáveis para garantia das dimensões lineares e dos ângulos. No caso do emprego de contramarcos, estes devem ser fixados durante a própria elevação da parede, dispensando-se os gabaritos. Em função do sistema de fixação da esquadria, a folga em cada face do contorno do vão pode variar desde 10 mm (fixação com poliuretano expandido) até cerca de 30 ou 40 mm (fixação com grapas). No caso da colocação de peitoris pré-moldados ou constituídos por placas de rocha o correspondente espaço deve ser reservado na altura do vão. 4.3.2.12 Alvenarias do último pavimento As alvenarias do último pavimento são em geral muito solicitadas pelas movimentações térmicas das lajes de cobertura. Alguns cuidados recomendados pelo Código podem minimizar a ocorrência de problemas, tais como:        Sombreamento; Ventilação dos áticos; Isolação térmica da laje de cobertura; Inserção de juntas de dilatação na laje de cobertura; Adoção de apoios deslizantes (neoprene, teflon, camada dupla de manta de PVC); Fixações deformáveis; Reforços mais cuidadosos nos vértices das aberturas; 51      Seccionamento das paredes do último pavimento, mediante introdução de juntas de controle ou adoção de portas com bandeiras; Pintura branca ou reflexiva na face superior das telhas; Subcoberturas que diminuam a reirradiação das telhas para as lajes; Armaduras nas juntas de assentamento das últimas fiadas; Inserção de tela metálica no revestimento, no encontro alvenaria / estrutura. 4.3.2.13 Recebimento/aceitação do projeto das alvenarias de vedação O projeto das alvenarias de vedação deve ser compatível com os projetos de fundações, estruturas, impermeabilizações e outros. Sempre que necessário, devem ser previstos detalhes construtivos que assegurem comportamento harmônico entre as partes. Em linhas gerais, o projeto deve apresentar especificação de todos os materiais de construção necessários, memorial descritivo da construção e todos os elementos gráficos necessários, ou seja:  Planta da 1ª e 2ª fiadas, coordenação dimensional com a estrutura; coordenação dimensional com esquadrias, caixas de ar condicionado, caixas de entrada de energia elétrica e outros;     Coordenação / estudos das interferências com os projetos de estruturas, sistemas prediais, impermeabilização e outros; Necessidade de cintas ou pilaretes de reforço (paredes altas ou longas); Paginação das paredes, indicando forma e espessura das juntas de assentamento, posições e dimensões dos vãos, instalações, juntas de controle; Detalhes construtivos em geral (ligações com pilares, encontros entre paredes, fixações, vergas, contravergas, cintas de amarração, presença de peitoris, fixação de esquadrias, embutimento de tubulações). No recebimento do projeto das alvenarias de vedação todos os aspectos anteriores devem ser analisados. O Código recomenda a adoção de uma lista de verificação, que pode ser encontrada no anexo 3. 52 4.4 Etapa de execução 4.4.1 Estocagem de materiais e componentes 4.4.1.1 Blocos cerâmicos Para os blocos cerâmicos, assim como para os demais materiais, o Código faz as recomendações que já são conhecidas das construtoras que possuem Sistemas de Gestão da Qualidade. O blocos devem ser estocados em pilhas com altura máxima de 1,80 m, apoiadas sobre superfície plana, limpa e livre de umidade ou materiais que possam impregnar a superfície dos blocos. As pilhas não devem ser apoiadas diretamente sobre o terreno, sugerindo-se o apiloamento do terreno e a execução de colchão de brita ou o apoio sobre paletes. Quando a estocagem for feita a céu aberto, deve-se proteger as pilhas de blocos contra as chuvas por meio de uma cobertura impermeável. Na formação da pilha, os blocos devem ser sobrepostos aos blocos inferiores, com “juntas em amarração” conforme ilustrado na figura a seguir: Figura 13 – Empilhamento de blocos cerâmicos com amarração entre eles. (Fonte: THOMAZ et al. 2009) 53 É recomendável que os blocos sejam fornecidos em paletes, de forma que os paletes podem ser transportados em carrinhos porta-paletes até o local de aplicação dos blocos, com considerável redução na mão de obra e risco de quebra ou danos. Recomenda-se também o uso de plataformas acopláveis à estrutura dos pavimentos, facilitando o transporte dos paletes por meio de gruas. 4.4.1.2 Aço As recomendações para o aço restringem-se a vergalhões, possivelmente utilizados para a confecção de ganchos para fixação entre a alvenaria e estrutura. Não são feitas recomendações para a estocagem de telas de aço, mais usadas recentemente. O aço deve ser armazenado em local coberto, protegido de intempéries e afastado do solo, para que não fique em contato com umidade. O armazenamento deve ser feito em feixes separados para cada bitola, facilitando o uso. 4.4.1.3 Cimento, cal e argamassa industrializada Os materiais fornecidos ensacados (cimento, cal hidratada, argamassas industrializadas) devem ser armazenados em locais protegidos da ação das intempéries e da umidade do solo, devendo as pilhas ficarem afastadas de paredes ou do teto do depósito. Não se recomenda a formação de pilhas com mais de 15 sacos. O Código faz menção a estocagem de cal virgem, sendo que a mesma não é explicitamente recomendada no tópico relativo a seleção de materiais. Não são feitas recomendações para o caso de se adquirir cimento ou argamassa industrializada a granel. 4.4.1.4 Areia A estocagem da areia deve ser feita em local limpo, de fácil drenagem e sem possibilidade de contaminação por materiais estranhos que possam prejudicar sua qualidade. As pilhas devem ser convenientemente cobertas ou contidas lateralmente, de forma que a areia não seja arrastada por enxurrada. 54 4.4.2 Preparo das argamassas de assentamento e chapisco O traço da argamassa deve ser estabelecido em função das diferentes exigências de aderência, impermeabilidade da junta, poder de retenção de água, plasticidade requerida para o assentamento e módulo de deformação (propriedade muito importante nas alvenarias de vedação, frente ao risco de sobrecarga pelas deformações impostas). Também devem ser consideradas as características dos materiais a serem empregados em cada obra, incluindo-se aí os próprios blocos (com diferentes rugosidades, absorção de água, etc.), e dos processos executivos a serem adotados (assentamento com colher de pedreiro, meia desempenadeira (“palheta”), bisnaga, meia cana ou outras ferramentas, chapisco aplicado com colher, rolo, desempenadeira de aço denteada, projetor ou outras ferramentas). O Código recomenda que o traço da argamassa de assentamento deva ser estabelecido por meio de estudo de dosagem e ensaios laboratoriais, em função das características dos materiais disponíveis no local da obra. Entretanto, indica os traços da tabela abaixo, considerando-se para a areia módulo de finura em torno de 3: Tabela 8 – Traços indicativos de argamassas recomendados para execução de alvenarias de vedação. Material Argamassa de assentamento * Argamassa de fixação (“encunhamento”) Graute / micro-concreto Fonte: THOMAZ et al. 2009 Composição em volume - materiais na umidade natural cimento 1 cal hidratada 2 areia 9 a 12 pedrisco - 1 1 3 0,1 12 a 15 2,5 2 (*) Para alvenarias aparentes, recomenda-se o traço de 1 : 1 : 6 a 8 Outros traços podem ser especificados pelos projetistas desde que atendam aos requisitos estabelecidos na norma ABNT NBR 13281:2005. Para argamassas de assentamento industrializadas ou pré-dosadas, fornecidas a granel, são válidas todas as indicações anteriores. 55 Embora seja recomendada a realização de ensaios para a definição dos traços das argamassas e seja ressaltada a importância do processo executivo na sua definição, em nenhum momento a qualidade e a quantidade da água a ser utilizada são mencionadas. Para o chapisco da estrutura, nas posições de ligação com alvenarias de vedação, recomenda-se a utilização de produtos industrializados ou argamassa preparada na obra. 4.4.3 Fiada de marcação (1ª fiada) O Código começa esse tópico fazendo recomendações sobre o início da execução da alvenaria em relação ao término da estrutura. Depois faz recomendações executivas sobre a marcação da 1ª fiada e esclarece a importância dessa etapa na qualidade da alvenaria. O assentamento dos blocos da primeira fiada influencia a qualidade de todas as demais características da alvenaria, ou seja, modulação horizontal e vertical, nivelamento das fiadas e espessura da camada de assentamento, folgas para instalação de esquadrias, posicionamento de ferros-cabelo ou de telas de ancoragem das paredes, folga para execução da fixação das paredes etc. Deve, portanto, ser realizado com todo o cuidado, utilizando-se equipamentos de precisão. Antes do assentamento da primeira fiada devem ser rigorosamente conferidas a presença e o posicionamento de eletrodutos, caixas de passagem, tubos de água e outros. O assentamento da primeira fiada deve ser executado com base na transferência de cota e dos eixos de referência para o andar onde estão sendo realizados os serviços. Com relação a cota, deve ser observada aquela prevista para o piso acabado de cada pavimento, valendo em geral a cota das soleiras das portas dos elevadores. Com base nos eixos de referência, e em cotas acumuladas a partir deles, as posições das paredes são marcadas inicialmente pelos seus eixos. A marcação deve ser iniciada pelas paredes de fachada e pelas paredes internas principais, podendo ser feita com linhas distendidas entre blocos extremos, giz de cera ou fio traçante. 56 Figura 14 – Marcação das paredes a partir dos eixos de referência. (Fonte: THOMAZ et al. 2009) No plano vertical, após completo nivelamento do andar, devem ser consideradas particularmente as cotas das soleiras de portas de elevador e de peitoris de janelas, sempre alinhadas em todas as fachadas, efetuando-se eventuais correções de nivelamento com engrossamento da camada de assentamento da primeira fiada. Após lavagem da base, devem ser inicialmente assentados os chamados “blocoschave”, ou seja, aqueles localizados nas extremidades dos panos, nos encontros entre paredes, em shafts ou cantos de paredes, nas laterais de vãos de portas e outros que identifiquem singularidades. 4.4.3.1 Equipamentos e ferramentas Curiosamente, o tópico relativo a equipamentos e ferramentas utilizadas para a execução de alvenarias está inserido dentro do tópico da fiada de marcação. A figura abaixo mostra alguns dos equipamentos necessários para a marcação e elevação de paredes: 57 Figura 15 – Equipamentos auxiliares na execução das alvenarias. (Fonte: THOMAZ et al. 2009) 4.4.4 Elevação das alvenarias O Código começa esse tópico recomendando atenção para as providências de logística necessárias para o início dos serviços de elevação das alvenarias, por exemplo, instalação no andar de guarda-corpos ou bandejas de proteção, eventual fixação de plataforma de recepção de blocos e outros materiais, disponibilidade de carrinhos porta-paletes, esquema de distribuição e empilhamento dos blocos, forma de transporte e preparação da argamassa de assentamento (argamassadeiras, caixotes de massa sobre suporte com altura regulável, etc.), disponibilidade de gabaritos para os vãos de portas e janelas, disponibilidade de andaimes, prévio recorte de telas para as ligações com pilares ou ligações entre paredes com juntas a prumo e outras. Em seguida recomenda as condições para o bom início dos serviços. Os dispositivos de ligação dos pilares com as alvenarias devem ser previamente providenciados, ou seja, marcação das fiadas, fixação de telas com finca-pinos, introdução de ferroscabelo ou ganchos nos pilares, etc. O lançamento de chapisco nos pilares, lajes e vigas deve ter sido executado há pelo menos três dias. As telas de arranque devem 58 ser corretamente assentadas nas ligações com juntas a prumo, resultando totalmente embutidas em argamassa bem compactada. Recomenda-se que as paredes do mesmo pavimento sejam executadas simultaneamente, a fim de não sobrecarregar a estrutura de forma desbalanceada. Recomenda-se também promover o levantamento de meia-altura da parede num dia e complementá-la no dia seguinte, quando a primeira metade já ganhou certa resistência. É aconselhável iniciar a construção pelas paredes de fachada a fim de liberar bandejas, grades de proteção e outros. Para as ligações das paredes de fachada com as respectivas paredes internas recomenda-se que sejam simultaneamente construídos trechos das paredes internas na forma de “escada”, conforme a figura abaixo: Figura 16 – Execução de ligação entre alvenaria de fachada e alvenaria interna. (Fonte: THOMAZ et al. 2009) Nos pavimentos mais elevados, nas paredes muito altas ou nas regiões com ventos fortes deve-se tomar cuidado para que as alvenarias em fase de elevação não sejam derrubadas pela ação do vento, providenciando-se escoramentos, fixações provisórias ou outros dispositivos adequados. 59 Recomenda-se facear os blocos pelo lado da parede que receberá o revestimento menos espesso (exemplo: gesso de um lado e revestimento cerâmico do lado oposto, facear pelo lado que recebe o gesso). Devem ser criteriosamente observados todos os detalhes previstos no projeto da parede. Para a execução diversos cuidados são recomendados: a limpeza do local de trabalho visando o reaproveitamento da argamassa que cai, a marcação da cota de cada fiada, a ligação das alvenarias e pilares, o assentamento do bloco, as verificações de nivelamento e prumo da parede. Quando a estrutura é de concreto armado, a elevação das alvenarias só deve ser realizada após a cura do concreto, recomendando-se para tanto o período mínimo de 28 dias. Considerando um ciclo de concretagem de 7 dias, exemplifica-se na figura abaixo as etapas de concretagem da estrutura, marcação e elevação das alvenarias: Figura 17 – Etapas de concretagem da estrutura, marcação e elevação das alvenarias. (Fonte: THOMAZ et al. 2009 - adaptado) 60 4.4.5 Fixações ( ou “aperto de alvenaria” ou “encunhamentos”) A fim de evitar a transferência de carga para as paredes de vedação durante a execução da obra, recomenda-se que a fixação (“aperto de alvenaria”) seja feita de cima para baixo após 14 dias da elevação da parede do último pavimento. Caso não seja possível realizar dessa forma devido ao planejamento da obra, recomenda-se fixar em grupos de três pavimentos, de cima para baixo, estando três pavimentos acima com alvenaria já elevada. De qualquer forma, o pavimento térreo e o primeiro pavimento só podem ser fixados por último. A fixação nunca deve ser executada antes que a parede do andar superior esteja construída. A última fiada deve sempre constituir um espaço para a introdução do material de fixação, devendo-se para tanto empregar meio-blocos, compensadores ou blocos tipo canaleta com o fundo na parte superior. O material de fixação deve ser bem compactado no interior da junta, de forma a evitar-se a ocorrência de destacamentos. Em geral, principalmente em estruturas mais flexíveis e deformáveis, não devem ser empregadas argamassas ricas em cimento e/ou formuladas com aditivos expansores. 4.4.6 Colocação das esquadrias A fixação de marcos ou aduelas em madeira, de portas ou de janelas, pode ser feita com tacos de madeira tratada ou naturalmente resistente à umidade, previamente embutidos na alvenaria. Os tacos devem ser isentos de defeitos como rachaduras ou nós, apresentando dimensões aproximadas de 5 cm x 9 cm x 9 cm, com reentrâncias centrais formando uma espécie de cintura. A fixação de esquadrias de aço na alvenaria pode ser feita de diferentes formas: por meio de grapas, com parafusos e buchas de náilon, com o preenchimento com argamassa, no caso de quadros compostos por chapas em “U”. As esquadrias de alumínio podem ser fixadas na alvenaria por meio de grapas aparafusadas ou rebitadas no marco. O marco pode ainda ser aparafusado à parede, com o auxílio de buchas de náilon. Nesse caso, o requadramento do vão com argamassa deve ser feito com o máximo de cuidado, com o auxílio de gabarito. Nesse caso, deve- se ainda 61 aplicar entre o marco do caixilho e o contorno do vão um material flexível que garanta a estanqueidade à água da parede (gaxeta de neoprene, borracha de silicone, etc.). As esquadrias de madeira, aço e alumínio também podem ser fixadas com espuma de poliuretano, mantendo-se uma folga em torno de 10 a 15 mm no contorno do vão. Nesse caso, o poliuretano não deve resultar aparente na face da parede, devendo ser recoberto por mata-juntas que se integrem ao marco da esquadria ou por qualquer outro recurso. 4.4.7 Embutimento de tubulações Para a execução dos sistemas prediais o Código recomenda diversos recursos, como o emprego de shafts, forros falsos, pisos suspensos, engrossamentos sobressalentes às paredes, “bonecas”, emprego de blocos mais estreitos nos locais das tubulações e outros, alguns ilustrados na figura abaixo: Figura 18 – Formas de acoplamento dos sistemas prediais com as alvenarias. (Fonte: THOMAZ et al. 2009) As tubulações, tanto para instalação hidráulica como para instalação elétrica, podem ser embutidas nos furos dos blocos cerâmicos de vedação (no caso de blocos com furo vertical), recomendando-se, sempre que possível, o caminhamento das tubulações horizontais através das lajes. Para o embutimento de pequenos trechos de tubulações horizontais (limitados a até 1 m de extensão) a parede pode ser cortada utilizando-se sempre serra circular diamantada (tipo “Maquita”) e talhadeiras bem afiadas. Os cortes devem ser gabaritados tanto no traçado como na profundidade, para que os tubos embutidos não sejam forçados a fazer curvas ou desvios, comprometendo no futuro o desempenho da instalação. Principalmente no caso de 62 cortes horizontais ou inclinados, recomenda-se que o diâmetro de qualquer tubulação não seja maior do que um terço da largura do bloco. Para as instalações elétricas, o trabalho pode ser muito racionalizado procedendo-se previamente ao corte e chumbamento das caixas de tomadas e interruptores nos blocos. No caso de caixas de entrada ou de passagem muito espessas em relação à espessura da parede, reforços devem ser executados localmente, incluindo moldura em concreto armado, reforço do revestimento da parede com telas metálicas, etc. 4.5 Etapa de controle da qualidade e recebimento Neste tópico o Código propõe uma extensa lista de verificações e tolerâncias para controlar itens e serviços de todas as etapas de execução das alvenarias – marcação, elevação e fixação. Essa lista pode ser vista no anexo 4. Recomenda-se que a amostragem e a periodicidade dos controles sejam feitas de acordo com o projeto da alvenaria e pelo plano da qualidade da obra, no caso da empresa construtora possuir Sistema de Gestão da Qualidade. Neste caso, isso pode ser implementado através de Fichas de Verificação de Serviço (FVS). Reforça-se que a execução das alvenarias deve seguir fielmente as indicações do projeto referentes a materiais, detalhes construtivos e processo construtivo. 4.6 Etapa de uso e manutenção O Código inicia esse tópico tratando de durabilidade e Vida Útil de Projeto (VUP) para posteriormente relacionar esses conceitos com uso e manutenção. A durabilidade da alvenaria de vedação de blocos cerâmicos se extingue quando deixar de se cumprir as funções que lhe foram atribuídas, quer seja pela degradação que a conduz a um estado insatisfatório de desempenho, quer seja pela obsolescência funcional. A durabilidade se mede através da Vida Útil (VU), enquanto que a Vida Útil de Projeto é a medida da durabilidade pretendida. Como diz a ABNT NBR 15575-1:2008, a Vida Útil de Projeto é uma decisão que tem que ser tomada na fase de projeto, para balizar toda a produção do bem. 63 O Código de Práticas, então, recomenda a definição da Vida Útil de Projeto na fase de projeto, uma vez que a mesma explicita o período estimado de tempo em que as alvenarias projetadas atenderão satisfatoriamente aos requisitos de desempenho, desde que cumprido, pelos usuários, o programa previsto no manual de operação, uso e manutenção do edifício, que deve ser elaborado conforme a ABNT NBR 14037:1998 (Diretrizes para elaboração de manuais de uso, operação e manutenção das edificações - Requisitos para elaboração e apresentação dos conteúdos). Ou seja, a manutenção da durabilidade pretendida, expressa pela Vida Útil de Projeto, depende do uso adequado e da realização das manutenções previstas. Caso ocorram manifestações patológicas, como fissuras nas alvenarias, deve-se corrigir o mais breve possível para que isso não afete o desempenho da vedação. O interessante é que o tópico do Código de Práticas referente a projeto não faz menção a Vida Útil de Projeto. Embora trate de requisitos e critérios de desempenho que estão claramente relacionados à Norma de Desempenho, o texto não explicita a relação desses requisitos com a Vida Útil de Projeto das alvenarias. Apenas nesse tópico, relativo a uso e manutenção, é que existe a recomendação de uma Vida Útil de Projeto mínima de 20 anos para paredes internas e 40 anos para as externas, de acordo com a ABNT NBR 15575-1:2008. 4.7 Garantias e responsabilidades Neste tópico o Código define prazo de garantia como sendo a garantia que os elementos e componentes de um edifício têm a partir da expedição do “Auto de Conclusão” da unidade habitacional, pelo construtor ou incorporador. Informa também que mais informações sobre responsabilidades e garantias devem ser dadas ao usuário da unidade habitacional no manual de uso, operação e manutenção do edifício, a ser elaborado pelo construtor ou incorporador de acordo com a ABNT NBR 14037:1998. A tabela abaixo apresenta os prazos de garantia para alvenarias, além de revestimentos e pinturas (chamados pelo Código de “componentes da alvenaria”), de acordo com a ABNT NBR 15575-1:2008: 64 Tabela 9 – Prazos de garantia segundo a norma ABNT NBR 15575-1:2008. Elemento / Componentes Paredes de vedação ou estruturais Prazo de garantia Segurança e integridade: 5 anos Fissuras: 2 anos Revestimentos de paredes e tetos internos e externos em argamassa Estanqueidade de fachadas: 3 anos Má aderência do revestimento e dos componentes: 5 anos Pintura Fonte: THOMAZ et al. 2009 Aderência: 2 anos É interessante observar que nesse tópico o Código se refere a revestimento e pintura como sendo componentes da alvenaria e embora ele não tenha o objetivo de descrever práticas relativas a esses serviços, os prazos de garantia relativos a eles são mencionados nesse tópico. Isso possivelmente se deve ao fato de as patologias das paredes se manifestarem no revestimento. 65 5 CONSIDERAÇÕES FINAIS O objetivo deste trabalho era analisar o Código de Práticas de Alvenaria de Vedação em Blocos Cerâmicos, mas ele também permite abrir uma discussão sobre a pertinência dessa iniciativa e também sobre a qualidade do documento. O conteúdo do Código de Práticas é bastante inteligível. O tópico relativo à execução das alvenarias é particularmente claro e fácil de ser utilizado, inclusive nas obras. É preciso observar, entretanto, que o Código não é um apanhado de procedimentos. Recomenda-se que a construtora interessada em utilizá-lo como referência elabore procedimentos (ou revise os existentes) com base nele, de maneira a integrar suas práticas às do seu Sistema de Gestão. Deve-se atentar ao caráter dinâmico das tecnologias na Construção Civil, considerando também a atualização das normas, de modo que o Código não fique com registros de práticas obsoletas. Algumas normas citadas já se encontram canceladas, enquanto outras, reconhecidamente obsoletas, já foram substituídas. Como já foi dito neste trabalho, os Códigos de Práticas podem ser um incentivo ao processo de normalização, mas é preciso haver um cuidado para que os próprios Códigos sejam mantidos atualizados. Alguns temas mereceriam maior atenção. Considerações sobre segurança do trabalho e recomendações sobre a influência da água no preparo de argamassas não foram vistas. No tópico relativo a projeto não é estabelecida nenhuma relação entre os requisitos a serem atendidos pelas alvenarias e sua Vida Útil de Projeto. Em alguns casos faltam dados, e a explicação é que estes serão fornecidos em versão futura do documento. É verdade também que, por se tratar de uma abordagem nova, muitos ensaios serão necessários para a determinação dos critérios de desempenho de todos os subsistemas do edifício. Não fica claro, portanto, se o objetivo era abordar todos os requisitos da Norma de Desempenho (ABNT NBR 15575:2008), cuja entrada em vigor foi prorrogada para março de 2012. Para os construtores é importante conhecer o desempenho dos processos e técnicas construtivas empregadas nas suas obras, pois precisam 66 assegurar um desempenho mínimo, que agora é quantificado. O Código de Práticas poderia contribuir efetivamente para isso. O desenvolvimento de documentos técnicos tende a aumentar em função do aumento da demanda por qualidade. Isso está acontecendo agora, basta verificar a evolução no campo das normas técnicas, com a chegada da Norma de Desempenho, e o primeiro passo que foi dado na direção de um Sistema Nacional de Códigos de Práticas. Documentos de “Códigos de Práticas” inseridos em um sistema nacional e elaborados de forma consensual ganham mais força no setor, em comparação com documentos específicos de entidades. Acredita-se que o Código de Práticas será uma grande contribuição para a modernização da construção no Brasil. Como já foi dito neste trabalho, nas empresas cuja técnica construtiva de alvenaria seja “tradicional”, o Código de Práticas pode ser utilizado como diretriz para aplicar ou implantar uma técnica construtiva de alvenaria mais racionalizada. Sugere-se, como aperfeiçoamento desse trabalho, que sejam realizados estudos de caso com o objetivo de acompanhar a aplicação do Código em diversas situações, como na elaboração de projetos de alvenaria, na execução de serviços em obra, referência técnica na contratação de serviços, etc. Por fim, conclui-se que este trabalho atingiu os objetivos pretendidos, na expectativa de que o tema abordado contribua para o aumento da qualidade e melhoria do desempenho da indústria da Construção Civil. 67 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE NORMAS TÉCNICAS (ABNT). NBR 15575-1: Edifícios habitacionais de até cinco pavimentos – Desempenho. Parte 1: Requisitos gerais. Rio de Janeiro, 2008. ______. NBR 15575-4: Edifícios habitacionais de até cinco pavimentos – Desempenho. Parte 4: Sistemas de vedações verticais externas e internas. Rio de Janeiro, 2008. AZEREDO, Hélio Alves de. O edifício até sua cobertura. 2 ed. São Paulo: Edgard Blücher. 2000, p.125-141. 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Acesso em: 07 ago. 2011 ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE NORMAS TÉCNICAS (ABNT). Sítio da Consulta Nacional. Disponível em: . Acesso em: 14 ago. 2011 ______. Sítio oficial da Associação Brasileira de Normas Técnicas. Disponível em: . Acesso em: 14 ago. 2011 PROGRAMA BRASILEIRO DE QUALIDADE E PRODUTIVIDADE DO HABITAT (PBQP-H). Apresenta a estrutura do PBQP-H. Disponível em: . Acesso em: 14 ago. 2011 ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE NORMAS TÉCNICAS (ABNT). Sítio do Catálogo de Normas da ABNT. Disponível em: . Acesso em: 18 set. 2011 1 ANEXO 1 – Requisitos de desempenho para Sistemas de Vedações Verticais Internas e Externas (SVVIE) de acordo com as normas ABNT NBR 15575-1:2008 e ABNT NBR 15575-4:2008 Os quadros a seguir foram criados a partir de informações obtidas nas normas ABNT NBR 15575-1:2008 e ABNT NBR 15575-4:2008. Eles relacionam os requisitos de desempenho a serem atendidos pelas vedações verticais separados pelas exigências dos usuários, definidas pela norma ABNT NBR 15575-1:2008. Quadro 3 – Requisitos de segurança estrutural. Exigência Requisito Estabilidade e resistência estrutural dos SVVIE Deslocamentos, fissuração e descolamentos nos SVVIE Solicitações de cargas provenientes de peças suspensas atuantes nos SVVIE Impacto de corpo mole nos SVVIE, com ou sem função estrutural Impacto de corpo mole nos SVVIE – para casas térreas - com ou sem função estrutural Ações transmitidas por impactos de portas Impacto de corpo duro incidente nos SVVIE, com ou sem função estrutural Cargas de ocupação incidentes em guarda-corpos e parapeitos de janelas Segurança estrutural Quadro 4 – Requisitos de segurança contra incêndio. Exigência Requisito Dificultar o princípio de incêndio Segurança contra incêndio Facilitar a fuga em situação de incêndio Dificultar a inflamação generalizada Dificultar a propagação de incêndio Segurança estrutural Sistema de extinção e sinalização de incêndio 2 Quadro 5 – Requisitos de segurança no uso e na operação. Exigência Segurança no uso e na operação Requisito Segurança na utilização do imóvel Segurança das instalações Quadro 6 – Requisitos de estanqueidade. Exigência Requisito Infiltração de água dos sistemas de vedações verticais externas Estanqueidade (fachadas) Umidade nas vedações verticais internas e externas decorrente da ocupação do imóvel Quadro 7 – Requisitos de desempenho térmico. Exigência Requisito Adequação de paredes internas Desempenho térmico Aberturas para ventilação Sombreamento das aberturas localizadas dos dormitórios em paredes externas Quadro 8 – Requisitos de desempenho acústico. Exigência Desempenho acústico Requisito Níveis de ruído admitidos na habitação Quadro 9 – Requisitos de desempenho lumínico. Exigência Desempenho lumínico Requisito Iluminação natural Iluminação artificial Quadro 10 – Requisitos de durabilidade e manutenibilidade Exigência Durabilidade e Requisito Vida útil de projeto dos SVVIE manutenibilidade Manutenibilidade dos SVVIE 3 Quadro 11 – Requisitos de saúde, higiene e qualidade do ar. Exigência Saúde, higiene e qualidade do ar Requisito Proliferação de microorganismos Poluentes na atmosfera interna à habitação Quadro 12 – Requisitos de funcionalidade. Exigência Funcionalidade Requisito Interação com portas dos SVVIE Quadro 13 – Requisitos de conforto tátil e antropodinâmico. Exigência Conforto tátil e antropodinâmico Requisito Conforto tátil e adaptação ergonômica Adequação antropodinâmica de dispositivos de manobra Quadro 14 – Requisitos de adequação ambiental. Exigência Requisito A ABNT NBR 15575-1:2008 não estabelece requisitos de Adequação ambiental desempenho para adequação ambiental, por entender que atualmente não é possível estabelecer critérios e métodos de avaliação necessários para tal. No seu lugar faz recomendações. 4 ANEXO 2 – Agentes do setor privado que poderiam estar diretamente envolvidos com o SiNCOP Quadro 15 – Agentes do setor privado que poderiam estar diretamente envolvidos com o SiNCOP 5 ANEXO 3 – Modelo de ficha de controle de projeto de alvenaria de vedação do pavimento tipo 6 ANEXO 4 – Lista de verificações e tolerâncias para os serviços e itens de controle 7 8 9 10