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ESCAVANDO O PODER E DESCOBRINDO O SUJEITO EM MICHEL

FOUCAULT
Simone Suelene Pereira*
simone_suelene@hotmail.com

O presente trabalho nos leva ao encontro do pensamento de Michel


Foucault, que se revela numa constante busca existencial. Debatemo-
nos em constante agonia por não aceitarmos as normas e padrões
sociais que nos são previamente impostas e querer entender como tais
normas se tornaram regras e padrões sociais é o exercício que a filosofia
e o pensamento de Foucault nos possibilita.
Como o enquadramento social se dá, porque somos conduzidos e
manipulados e porque somos tão permissivos? Através do pensamento
de Foucault, de seus métodos de estudos, podemos compreender
porque nos encontramos tão manipulados. É necessário entender essas
estruturas sociais para conseguirmos alterá-las, modificá-las, ao menos
esclarecê-las.
Uma pretensão que nos joga às margens de diversos enquadramentos
sociais, nos retira do conceito de normalidade vigente na sociedade em
que vivemos, nos priva muitas vezes da aceitação social. Através de
estudos foucaultianos, entendemos como Foucault consegue delinear o
enquadramento social, aproximando-o a um tecido xadrez, em que cada
quadradinho representava uma normatização, uma docilização.
Exploramos a relação entre sujeito e verdade, demonstramos como a
verdade é apontada e construída pela chave de leitura foucaultiana.
Perpassa o trabalho, o tema do sujeito, a construção do saber e da

*
Bacharel em Filosofia pela Faculdade Dehoniana – Taubaté SP
Professora de Filosofia pelo estado – regime ACT OFA PEBII
Rua Dr Jorge Winther, 586 – Centro
Taubaté – SP CEP: 12010-150
Fone 012 8111-7721
liberdade, transgressão e autonomia, ou seja, como o sujeito pode se
soltar dessas amarras sociais, impostas pelo poder invisível.
Pretendemos aqui, demonstrar como Foucault percebe o poder enquanto
esquadrinhamento social em que indica as formas de domesticação e
docilização dos corpos para que a visão de permissividade que hoje se
apresenta possa ser justificada.
Percebemos que esse movimento hoje, só se faz possível através da
transgressão dos meios sociais impostos. Uma transgressão consciente,
de um trabalho de autonomia do sujeito, autonomia essa que só pode
ser feita com uma liberdade construída, dentro de opções existenciais
conscientes.
O sujeito nesse caso se tornará autônomo e responsável direto por suas
opções, sendo para tanto necessário o conhecimento de saberes prévios
para que ele possa tomar “conta” de si mesmo, ou como diria Foucault,
numa proposta da ética da existência, governar a si mesmo.
A primeira questão levantada quando estudamos Foucault é a de como
ele chega aos seus pensamentos e de que forma ele argumenta seus
pressupostos.
Através do método genealógico, encontramos pistas de como esse
“descortinamento” do sujeito que é singular e detentor de suas próprias
especificidades pode melhor se fazer.
Deixemos claro que é muito difícil encontrar onde exatamente se
encontra recortado à questão do método genealógico foucaultiano. É
correto afirmar que nas obras de Michel Foucault suas idéias se
entrecruzam.
É através do método arqueológico que ele faz o movimento da
genealogia. Inspirada nas obras de Nietzsche e é através desses
métodos que iremos compreender qual o movimento que Foucault faz
em busca da verdade do sujeito e de todas as suas análises.
O método genealógico se encontra emaranhado nas próprias
construções do autor, seus livros e suas entrevistas são de base
genealógica, mas não existe, ao contrário do método arqueológico,
livros que tratem diretamente do assunto.

Trata-se portanto não de dar um fundamento teórico


contínuo e sólido a todas as genealogias dispersas, nem
de impor uma espécie de coroamento teórico que as
unificaria, mas de precisar ou evidenciar o problema que
está em jogo nesta oposição, nesta luta, nesta insurreição
dos saberes contra a instituição e os efeitos de poder e de
saber do discurso científico (FOUCAULT, 1971, p.18).

O objetivo da genealogia foucaultiana é outro: “Este não é


absolutamente meu problema, procuro fazer aparecer essa espécie de
camada, ia dizer essa interface, como dizem os técnicos modernos, a
interface do saber e do poder, da verdade e do poder. É isso. Eis aí meu
problema” (FOUCAULT, 1979, p.229).
Assim, para esse tipo de pesquisa, a evolução da origem ocorre de
maneira linear e progressiva. O genealogista que escuta a história ao
invés de dar ouvidos à metafísica entende que esse tipo de evolução é
mentiroso. Ele percebe que as coisas são todas portadoras de uma
historicidade e, por meio do rigor e paciência documentária do “método
genealógico”, descobre que:

(...) atrás das coisas há “algo inteiramente diferente”: não


seu segredo essencial e sem data, mas o segredo que elas
são sem essência, ou que sua essência foi construída peça
por peça a partir de figuras que lhe são estranhas. (...) O
que se encontra no começo histórico das coisas não é a
identidade ainda preservada da origem – é a discórdia
entre as coisas, é o disparate (FOUCAULT, 1979, p.18).
A pesquisa genealógica abre, portanto, espaço à descontinuidade, à
fragmentação, ao devir, permitindo perceber a multiplicidade onde se
pressupunha a unidade; a diferença onde se comprazia em ver a
identidade; o disparate, a discórdia entre as coisas, no lugar onde a
metafísica buscava a harmonia original da coisa em si (FRANCO, 2004,
p.14).
Pretendemos demonstrar, como Foucault, pela genealogia do poder,
demonstra o que acontece e de que forma as teias que emaranham o
sujeito aos sistemas sociais vigentes o amarram ao ponto que ele
mesmo seja suscetível a elas.
Ao mesmo tempo, pretendemos demonstrar o poder que se engendra
na sociedade e se torna invisível. Bem como almejamos demonstrar
como a relação do poder versus saber dentro de seu pensamento é a
base de como as relações se formam.
É preciso compreender, dentro da perspectiva foucaultiana, que não há
teoria geral do poder a-histórica, que, em certo sentido, aplique-se a
todas as formas de dominação em uma sociedade, em qualquer
circunstância.
As relações de poder para Foucault não podem ser analisadas no âmbito
de uma teoria geral e globalizante, ao contrário, é preciso se orientar
por um método analítico de poder, que considere a sua mecânica local
em espaços e discursos específicos e em contextos históricos
determinados.

Sujeito e poder

Pretendemos demonstrar, como Foucault, pela genealogia do poder,


demonstra o que acontece e de que forma as teias que emaranham o
sujeito aos sistemas sociais vigentes o amarram ao ponto que ele
mesmo seja suscetível a elas.
Ao mesmo tempo, pretendemos demonstrar o poder que se engendra
na sociedade e se torna invisível. Bem como almejamos demonstrar
como a relação do poder versus saber dentro de seu pensamento é a
base de como as relações se formam.
É preciso compreender, dentro da perspectiva foucaultiana, que não há
teoria geral do poder a-histórica, que, em certo sentido, aplique-se a
todas as formas de dominação em uma sociedade, em qualquer
circunstância.
As relações de poder para Foucault não podem ser analisadas no âmbito
de uma teoria geral e globalizante, ao contrário, é preciso se orientar
por um método analítico de poder, que considere a sua mecânica local
em espaços e discursos específicos e em contextos históricos
determinados.

Supõe-se que entre todos os acontecimentos de uma área


espaço-temporal bem definida, entre todos os fenômenos
cujo rastro foi encontrado, será possível estabelecer um
sistema de relações homogêneas; rede de causalidade
permitindo derivar cada um deles relações de analogia
mostrando que eles se simbolizam uns aos outros, ou
como todos exprimem um único e mesmo núcleo central;
supõe-se por outro lado que uma única e mesma forma de
historicidade compreenda as estruturas econômicas, as
estabilidades sociais, a inércia das mentalidades, os
hábitos técnicos, os comportamentos políticos, e os
submeta ao mesmo tipo de transformação; supõe-se
enfim, que a própria história possa ser articulada em
grandes unidades – estágios ou fases – que detém em si
mesmas seus princípio de coesão (FOUCAULT, 2005 p.11).
Conforme o autor, o poder não existe enquanto algo monolítico, o que
existem são práticas ou relações de poder que se disseminam por todo
corpo social, ou seja, o poder é uma relação de forças.
O poder deve ser analisado como algo circular, ou melhor, como algo
que só funciona em cadeia, onde há formas de exercício de poder
diferentes, como uma grande corrente com elos.
Deve-se compreender o poder, a princípio como a multiplicidade de
correlações de força que se manifestem nas suas formas locais
articuladas de maneira variadas e que são imprescindíveis, inclusive, à
sustentação das estruturas e das instituições em sua dimensão
macroeconômica, ou seja, o poder está em toda a parte, não porque
engloba tudo e sim, porque provem de todos os lugares.

Refletindo esta relação poder e saber, os mecanismos


existentes nos exercícios de poder e produção de saberes
são reconhecidos como verdadeiros. Com efeito, são
regiões do saber, cujo terreno, é mais movediço, mais
claramente aberto a combater e cuja história, pode ter
mais eficácia política. (MUCHAIL, 2004, p.25).

Foucault pretende com essa análise de poder e saber, demonstrar que o


próprio sujeito pode se tornar emancipado dentro de sua dimensão
social pela aplicabilidade desse próprio saber construído pelo sujeito.
Observa-se desse modo que Foucault em seus estudos, não se limita a
estudar o poder como o panótico de Jeremy Bentham, bem como o
biopoder social, que se apresenta na clínica psiquiátrica, nos presídios
ou nas escolas, ou a questão da estrutura presente dentro dos pleitos da
escola, do hospital, pretende além disso, demonstrar como essa
genealogia do poder, pode propiciar ao indivíduo a construção dele
próprio dentro de uma sociedade, tornando-se ser autônomo dentro de
uma estrutura já formada.
Para Foucault, o poder é positivo e imaterial, pois está em toda a parte
e ao mesmo tempo em lugar nenhum. Ele não quer se ater ao poder
enquanto ideologia, mas sim, enquanto formador de saberes, onde as
organizações nos jogos de luta são apoios para se formar elos
engendrados na sociedade que instituem normas e regras.
Ele não quer também se fixar na idéia negativa de poder enquanto
repressão, mas sim nas possibilidades que ele dá para libertar o sujeito
das amarras sociais, o que se apresenta hoje como transgressão, é na
estética da existência, no ato de governar a si mesmo que está
diretamente ligado ao conhecer a si mesmo, que ele encontrará em seus
estudos em seu último momento em que busca compreender esse
movimento do sujeito, que o leva inclusive a Grécia Antiga, em que
escreve a História da Sexualidade, volumes 2 e 3 e a Hermenêutica do
Sujeito.
As formas de condução do poder que foram apresentadas por Foucault,
não significam impor uma ordem ou um determinismo, significa apenas
delinear historicamente os efeitos do poder.
Por isso o processo arqueológico e genealógico se faz presente e
necessário para se entender o “como” do poder, de que forma se
manifestou nas sociedades enquanto controle, e em que sentido o
sujeito tem que operar para não sucumbir a ele.
Dessa forma, procuramos explorar como Foucault denomina o poder
propriamente dito.

As formas de poder1

1
O texto presente não apresenta referências de suas fontes, pois suas
informações foram um compilado de notas pessoais realizadas no III Colóquio
Franco – Brasileiro de Michel Foucault, bem como das leituras dos livros Vigiar
e Punir e a Microfísica do Poder.
Este tópico se compromete a demonstrar qual o olhar sobre o poder tem
Michel Foucault, traçando para isso uma distinção entre os tipos de
poder que ele denomina como três: o poder soberano até os fins do
século XVII; o poder disciplinar da época vitoriana que vai do fim do
século XVII até fins do século XIX, início do século XX, no qual começa a
aparecer a figura do Biopoder ou o poder Biopolítico.
O poder soberano corresponde à figura do tirano, dos imperadores que
determinam as ordens e as ações de seus súditos, sendo o suplício e a
tortura principalmente da exposição pública dos esquartejamentos que
determinam a manifestação desse tipo de poder.
O poder disciplinar, se instaura após a Revolução Industrial, onde a
figura do tirano como monarca passa a ser derrubada, mas não deixa de
ter o domínio do controle mas esse é feito através da dominação e
“domesticação” dos corpos. Esse poder se encontra instaurado no que
podemos denominar época vitoriana, época tal em que a modernidade
se adentra no ocidente, dando destaque ao homem enquanto produtor
de realidades.
O poder disciplinar, infiltrando-se na sociedade o poder manipulador e
adquirindo um caráter invisível, não sendo possível detectá-lo. Ele passa
a fazer parte dos mecanismos de dominação e de “consentimento” ou
seja, inicia-se o processo de poder através da relação, onde temos
necessariamente o dominado e o dominador, quase que um
consentimento “legal” ente as partes. Esse poder se emaranha nas
relações de tal forma que não é possível detectar seu início ou seu fim.
O poder disciplinar realiza a dominação dos corpos para transformá-los
em corpos dóceis, na qual a tortura e o aniquilamento em praça pública
passa a ser substituído pelo “controle e domesticação” através de como
os corpos são manipulados. Temos dentro disso a importância de uma
nova leitura da cadeia, do hospital e da escola.
O panótico construído e desenvolvido por Jeremy Bentham é o maior
modelo de “docilização” dos corpos, onde através de uma arquitetura na
qual é construído de forma circular, tendo na torre de vigia, o lugar mais
alto de maior controle, podendo vigiar a todos.
Como o espaço é circular, todos vigiam uns aos outros, de forma que
suas silhuetas marcam até mesmo seus movimentos. Dessa forma
encontramos o processo de vigilância e punição, os mesmos detectados
nos hospitais psiquiátricos, nas cadeias e também nas escolas.
A tortura e o suplício são substituídos pelo “silêncio” das marcas de
“domesticação”, passa a ser envolvido por uma “bolha” em que as
sutilezas das ordens postas nas fileiras onde sentam, marcam o espaço
onde habitam, bem como a maneira como andam sempre enfileirados
como que acorrentados uns aos outros, como em tempos de suplício,
indo para suas guilhotinas nomeadas e vistas de outras formas.
E temos no final do século XIX, início século XX, o poder Biopolítico,
denominado como “Biopoder”, no qual aliam-se todas as perspectivas do
poder panótica, bem como do poder disciplinar, mas onde o controle
deixa de ser individual para se tornar coletivo. Como o controle de
natalidade, da bioética como a eutanásia, distanásia, o controle social
econômico que se dá também através da mídia em que se desenvolve a
figura da dominação através das “tecnologias do Eu”.
Esse poder se instaura de forma sutil e progressiva, onde aqueles que
dominam não têm a consciência de dominar, como o caso dos
professores, dos agentes penitenciários, não tem consciência por não
refletirem o que estão fazendo ou por consentirem de alguma forma
com esses mecanismos de manipulação e o indivíduo que é dominado,
controlado por sua vez não tem o olhar de “dominado” e sim de
integrante de um sistema em que ele até pode opinar e interagir, mas o
faz sempre em resposta a esse poder dominador. É o poder normativo
que impõe normas e regras.
Foucault sugere que o período grego foi em que o homem foi mais livre,
em relações as amarras sociais, as manipulações invisíveis que para ele,
o cristianismo foi o marco significativo no ocidente em que se começam
a se engendrar e se esquadrinhar a sociedade.
Esquadrinhamento esse feito como num desenho, quadriculado, como
uma grande teia de aranha, em que uma coisa necessariamente teria
que estar amarrada a outra, como um tecido quadriculado, que para se
tornar um quadrado, depende do outro ponto da amarra.
A esse advento do cristianismo denominamos o que Foucault chama de
“subjetivação do sujeito”, em que o conceito de determinação de como
as coisas devem ser encaminhadas, no caso da moral, da ética, indicam
quais meios os homens terão que seguir para “conseguir” a salvação
eterna.
O nascimento de “sujeito” para Foucault, portanto se dá muito antes do
momento Freudiano, mas se dá quando o cristianismo impõe e
determina ao homem sua maneira de conduzir a vida e no caso o sujeito
se submete consentindo e buscando a salvação eterna. O sujeito então
se subordina ao poder pastoral que conduz a salvação.
A salvação e a expiação dos pecados em outra vida, denomina o início
do sujeito ocidental dominado e Foucault exemplifica através do
confessionário e da expiação dos pecados, em que o padre, o professor,
até o médico é um reprodutor dos mecanismos em que todos devem se
encaixar.

não me pergunte quem sou e não me diga para


permanecer o mesmo: é uma moral de estado civil, ela
rege nossos papéis. Que ela nos deixe livres quando se
trata de escrever (FOUCAULT, 2005 p.19-20).

Michel Foucault viveu uma existência de ação de engajamento políticos


sociais, buscando entender os mecanismos que operavam dentro de sua
realidade, pois buscava o que movia o homem, porque esse homem
tinha sempre que fazer todas as coisas impostas, sem questioná-las, ele
queria “detectar” esses mecanismos de docilização sobretudo. Mas sua
busca sempre foi para descobrir, descortinar a “verdade”, não as
verdades metafísicas, ontológicas, mas a verdade que permeava a
realidade existencial de cada homem, a verdade em relação ao sujeito.

Foucault e o conceito de verdade

Como dissemos acima, a busca do autor, é pela verdade, mas não a


verdade ontológica do ser, mas sim, a verdade que está no emaranhado
da situação, pois segundo o autor, só é possível desvendar a verdade,
utilizando-se do método arqueológico, em que, separa-se o que é
histórico, o que é articulado, para se debater sob os pontos específicos
em que a verdade flui, a verdade que está situada no cotidiano das
pessoas.
As características da verdade para esse autor, são relevantes ao
momento histórico em que se vive, a captação de informações, bem
como o emaranhado de dogmas, paradigmas e pressupostos científicos
levantados, sempre estão ligados a forma em que a sociedade vive e
dirige sua política, sua vida social. Portanto, a verdade é relativa e
histórica e sistematicamente individual, tornando-se assim,
circunstancial.
Para Foucault, a verdade se alicerça em fatos que se descortinam ao
longo da história da humanidade e, a cada tempo, se tendenciona a crer
em um tipo de verdade.

O importante, creio, é que a verdade não existe fora do


poder ou sem o poder. (...) A verdade é deste mundo; ela
é produzida nele graças a múltiplas coerções e nele produz
efeitos regulamentados de poder. Cada sociedade tem seu
regime de verdade, sua ‘política geral’ de verdade: isto é,
os tipos de discurso que ela acolhe e faz funcionar como
verdadeiros; os mecanismos e as instâncias que permitem
distinguir os enunciados verdadeiros dos falsos, a maneira
como se sanciona a obtenção da verdade; o estatuto
daqueles que têm o encargo de dizer o que funciona como
verdadeiro (FOUCAULT, 1979, p.12).

Para que Foucault chegasse a essas afirmações, foi preciso mergulhar


nos seus métodos de estudo, onde através do método genealógico, se
pudesse compreender o “como” a verdade se engendra no sistema,
como ela aparece ao olhar do historiador e como o método arqueológico
escava e desvenda as possíveis amarras sociais já direcionadas.
Segundo ele, a questão do poder e de sua prática, é ativada pelo sujeito
em relação com a sociedade em que vive, por suas articulações com o
conhecimento científico e seus pressupostos nos enunciados de seus
problemas.
Só podemos exercer o poder, gerando verdades, pois o poder
institucionaliza a verdade, ou a busca dela, o poder se localiza entre o
direito e a verdade, o direito que se adquire para defendê-la. Somos
submetidos pelo poder à produção da verdade e só podemos exercer o
poder mediante essa produção da verdade.
Isso nas esferas de poder onde encontramos, a família; a sociedade e a
religião. Aqueles que detêm o poder são os mesmos que detêm o
conhecimento, o saber denominado científico.
Ele demonstra como essa busca se revela, através do movimento que
chamamos arqueológico, em que levanta os enunciados, limpa suas
poeiras da hegemonia social, percebem-se o que está embutido junto
aquele “regime social” para então, se perceber as raízes, que seria no
caso a genealogia, para que como uma grande teia, fosse possível
encontrar o sujeito, limpo de suas crises sociais e inconscientes e
mostre-o como realmente autônomo.
Em nossas sociedades, a ‘economia política’da verdade
tem cinco características historicamente importantes: a
‘verdade’ é centrada na forma do discurso científico e nas
instituições que o produzem; está submetida a uma
constante incitação econômica e política; é objeto, de
várias formas, de uma imensa difusão e de um imenso
consumo; é produzida e transmitida sob o controle, não
exclusiva, mas dominante, de alguns grandes aparelhos
políticos, ou econômicos; enfim, é objeto de debate
político e de confronto social (FOUCAULT, 1979, p.13).

Destas características, ressalta o papel do saber científico,


compreendendo-se que é sobre os discursos científicos, e,
particularmente sobre os das ciências humanas, que vai incidir a
investigação, uma vez que, se toda a sociedade tem seu regime de
verdade com efeitos de poder, em nossa sociedade a produção da
verdade é regulamentada por regras que autorizam a eleição dos
discursos reconhecidos como científicos e a conseqüente exclusão de
outros saberes, que qualificam os objetos dignos de saber, os sujeitos
aptos a produzi-los, as instituições apropriadas, e cujos efeitos de
poder, particularmente no caso das ciências humanas, são sobretudo
disciplinar e normalizar (MUCHAIL, 2004, p.66).
A “verdade”,vem sendo construída historicamente, através de jogos de
poder, onde a relação predominante, sujeito-sujeito, se alicerça sob
custódia das capturas intencionais dessa relação.
Essa relação da verdade através do conhecimento e do poder, até
então não havia merecido tal destaque, pois a perspectiva não estava
nessa ordem de sistemas, mas sim, em como o domínio do poder se
estabelece.

De uma maneira geral, os mecanismos de poder nunca


foram muito estudados na história. Estudaram-se as
pessoas que detiveram o poder. (...) Ora, o poder em suas
estratégias, ao mesmo tempo gerais e sutis, em seus
mecanismos, nunca foi muito estudado. Um assunto que
foi menos estudado é a relação entre poder e saber, as
incidências de um sobre o outro. Admite-se, e isto é um
tradição do humanismo, que a partir do momento em que
se atinge o poder, deixa-se de saber: o poder enlouquece,
os que governam são cegos. E somente aqueles que estão
fechados à distancia do poder, podem descobrir a verdade
(FOUCAULT, 1979, p.141).

Ao aprofundar a relação entre poder e saber, Foucault busca


compreender esse poder que é invisível que está presente em todas as
circunstâncias e situações. É necessário que se entenda esse homem,
que se rompe dos grilhões da história, para analisar a própria história e
compreender como essa “verdade” fora construída.

A relação entre poder e saber

A idéia de que o saber está vinculado ao poder, foi se descortinando


para Foucault, desde os seus primeiros escritos, nos quais pontuava a
trajetória histórica, sempre recortada pelo apoio ao material a ser
analisado que segundo ele, formou-se o alicerce de uma determinada
época.
O que Foucault traz em suas análises é a relação que o poder tem
diretamente com o saber, ou seja, ele é construído sobre as normas da
ciência, quem detêm o conhecimento, o saber em determinada área,
constitui o poder.
Isso não é determinado pelo próprio saber, mas na relação onde aquele
em que se encontra o menor conhecimento automaticamente promove
aquele que mais conhece ao exercício da soberania do saber. É o que La
Boetie, chamou de “servidão voluntária”.
Numa linha de produção, por exemplo, o conhecimento de determinada
peça fabricada, é dominado pelos montadores, mas, quem determina o
que irá ser feito com ela, sua alteração e função, será alguém distante
da peça, será alguém em que a indústria confiou, pelas suas habilidades
acadêmicas, é que terá o poder sobre tal peça, é que decidirá o que será
feito dela, mesmo que o sujeito que a fabrique saiba mais sobre ela,
esse conhecimento no caso do “chefe” é simplesmente ignorado.

Ora, tenho a impressão de que existe, e tentei fazê-la


aparecer, uma perpétua articulação do poder com o saber
e do saber com o poder. Não podemos nos contentar em
dizer que o poder tem necessidade de tal ou tal
descoberta, desta ou daquela forma de saber, mas que
exercer o poder cria objetos de saber, os faz emergir,
acumula informações e as utiliza. (...) O exercício do poder
cria perpetuamente saber e, inversamente, o saber
acarreta efeitos de poder (FOUCAULT, 1979, p.142).

Foucault investigou, o “como” do poder, discernindo os mecanismos


existentes entre dois pontos de referência, dois limites: onde de um lado
se encontram as regras do direito legal, que delimitam o poder
formalmente, e por outro lado os efeitos de verdade que esse poder
produz, que transmite e que acaba assim sendo por se reproduzir.
O professor José Ternes, no Colóquio de educação sobre Michel
Foucault, na UERJ em outubro de 2006, observa que segundo
Bachelard, existe uma separação entre a curiosidade natural do sujeito e
o saber reconhecido como científico. Há um engajamento engajament
que é diferente do ensino na vida acadêmica, a esse engajamento nos
referimos aqui aos esforços de fazerem os diferenciais enquanto
produtores de saber e não simples reprodutores.
Quando o professor José Gondra, no mesmo Colóquio menciona que
devemos “experimentar Foucault”, observa que não devemos ficar
presos apenas em suas teorias, mas devemos experienciar suas opções
em relação a autonomia, a liberdade construída e principalmente no que
se refere a uma “estética da existência”.
Todo o conhecimento perpassa a subjetividade do sujeito. Nos referimos
ao pensamento que após a década de 80, sob um enfoque foucaultiano,
passa a ter um olhar de maior importância, principalmente sobre a
linguagem, a ação, com as novas exigências que para o conhecimento e
para o saber.
De acordo com TERNES (2006), a referência a que Foucault faz ao
conhecimento científico se pauta no que a universidade se tornou após a
década de 60, onde os atuais discursos acerca da natureza e da função
da universidade, da escola, da educação, demarcam outro divisor de
águas.
Para Descartes “No conhecimento, há apenas dois pontos a considerar,
a saber: nós que conhecemos e os objetos a conhecer”. A revolução
copernicana desencadeada por Galileu, entre outros, consiste,
fundamentalmente, em romper com a relação de exterioridade na qual
se vinha desdobrando o pensamento ocidental. Nossa modernidade,
depois de Kant, acena para uma relação outra com o saber. Ainda se
buscam nas ciências, objetividade e precisão. Estamos diante de um
acontecimento, e de uma exigência, mais fundamental do que a simples
mudança de procedimento, ou a introdução de técnicas mais avançadas,
mantendo inalteradas as asas do passado, afirma TERNES, 2006.
Foucault menciona que, quando se faz história – história das idéias, do
conhecimento ou simplesmente história – atemo-nos a esse sujeito de
conhecimento, a este sujeito da representação, como ponto de origem a
partir do qual o conhecimento é possível e a verdade aparece. É
interessante tentar ver como se dá através da história, a constituição de
um sujeito que não é dado definitivamente, que não é aquilo a partir do
que a verdade se dá na história, mas de um sujeito que se constitui no
interior mesmo da história, e que é a cada instante fundado e refundado
na história.
Concluindo, essa guinada na forma estruturada de se formar o saber,
essa “interioridade”, essa “subjetividade”, pertence unicamente ao
sujeito, este que deveria receber todo o destaque de nossa análise.
O sujeito diz respeito a essas análises que são feitas sobre o saber,
através da reflexão científica, em que a razão vai se realizando. Embora
se deva ressaltar, de imediato, há mais razão na vida de um homem,
ou de uma sociedade do que em outras esferas.

Resistência e liberdade

Segundo Eugenia Vilela, em Resistência e acontecimento, o poder para


Michel Foucault é passível de alternativas para se modificar a estrutura
de dominação, e essas possibilidades se dão através de mecanismos que
o homem desenvolve, aos quais podemos denominar a partir da década
de 70 de resistência.

(...) Encontrar a diagonal. Todavia, a revolta e a abertura


não supõem a excisão das noções de bem e de mal nas
manifestações do pensamento, elas pressentem antes a
possibilidade de traçar essa linha num qualquer sentido,
pois o ímpeto verdadeiramente importante do pensamento
é “deslocar a fronteira” (VILELA, 2006, p.109).

Dentro disso, argumenta que é necessário deslocar fronteiras, o que o


indiano naturalizado inglês Hommi Bhabha indica como “entre lugar”,
aquele lugar onde não há formas de se localizar historicamente, onde
ocorre a instabilidade histórica, que não temos registros para se
considerar um lugar especifico, é aquele lugar onde os fatos ocorrem de
forma a não poderem ser registrados.
Para Foucault, o homem precisa habitar suas próprias fronteiras
históricas, o “entre lugar” seria onde toda a história individual começa
onde não é possível negociação. O descontínuo.
A manipulação do poder para Foucault se dá predominantemente sobre
o controle dos corpos como já vimos, mas na verdade o corpo não é
apenas o instrumento de domesticação, ele é também passível de ser
espaço denso de sentido, há um pensamento do corpo em relação ao
próprio corpo, onde através de sua manifestação encontramos a
possibilidade de saída dos mecanismos de dominação.
Pensar a partir do descontínuo da história é pensar no movimento dos
corpos, na vulnerabilidade de suas afirmações sociais.
O ruído surdo da história é diferente das palavras ditas, habita no que
há de não dito, é o teatro de luz e sombra onde a cortina não cai, como
afirma Eugenia Vilela.
A resistência afigura-se na possibilidade de combate, de luta, de
diagnosticador do presente, na subversão que surge como opção de
resistência.
A força que nasce é o equilíbrio onde o medo desaparece.
Fazer soar no próprio corpo a vida. Não há linha que delineie as
fronteiras entre a vida e a morte.
Temos que procurar o silêncio como ato para se ver o presente e criar
outras formas de ver e viver a vida, e encontramos na ética da
existência, como a arte de viver, a possibilidade de formação e
transformação. Entenderemos aqui a estética da existência como o
gesto de constituir do eu.
Devemos fazer da vida uma arte contínua, onde a arte seja condição
ontológica da existência através da existência.
Somente o sujeito é capaz de interromper a temporalidade histórica,
somente o sujeito é soberano de si mesmo, somente o próprio sujeito é
capaz de governar a si mesmo.
Dentro disso, o acontecimento se enquadra na possibilidade de
interromper a própria história, pois não pode ser previsto, o
acontecimento ocorre sem nenhuma previsibilidade, não é possível
inseri-lo no corpo da história, ele se encaixa na história do sujeito por si
mesmo.
Criar é resistir2, na possibilidade de resistir através da criação o sujeito
se torna soberano de si mesmo, se torna o próprio devir como
transformação da própria vida.
O indivíduo recria o mundo num tempo singular, onde suas
circunstâncias e suas possibilidades dependem de sua ousadia.
É necessário escutar o murmúrio da noite, já indaga a poetiza Eugenia
Vilela, dizer o eco do silêncio que é presente na impossibilidade de falar.
O acontecimento se dobra num segredo sem forma. O acontecimento é
forma instável de habitar o abismo.
Existir é resistir!

REFERÊNCIAS

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fevereiro de 2004 às 15:30h.

2
Essa frase é de autoria de Eugenia Vilela, na comunicação Existência e
acontecimento, proferido no III Colóquio Franco – Brasileiro de Michel Foucault
em outubro de 2006.
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Cordeiro. Acesso em 18 de fevereiro de 2004 às 17:35 h.
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