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Olavo de Carvalho

Edmund Husserl
Contra o Psicologismo
Preleções Informais em torno de uma leitura
da Introdução às Investigações Lógicas

Rio de Janeiro
IAL
1996
Não basta crer em Deus; é preciso acreditar também no diabo.
Em nosso tempo, o diabo substitui a lógica por uma falsa psicologia.

Frithjof Schuon
ÍNDICE

Introdução ....................................................................................................................................... 4
Preleção I ......................................................................................................................................... 5
Preleção II ....................................................................................................................................... 25
Preleção III ..................................................................................................................................... 30
Preleção IV ...................................................................................................................................... 38
Preleção V ....................................................................................................................................... 47
Preleção VI ...................................................................................................................................... 53
Preleção VII .................................................................................................................................... 63
Preleção VIII ................................................................................................................................... 75
Preleção IX ...................................................................................................................................... 80
Preleção X ....................................................................................................................................... 87
Preleção XI ...................................................................................................................................... 97
Preleção XII ..................................................................................................................................... 101
Preleção XIII . .................................................................................................................................. 109
Preleção XIV ................................................................................................................................... 119
Preleção XV .................................................................................................................................... 128
Preleção XVI ................................................................................................................................... 136
Preleção XVII .................................................................................................................................. 147
Preleção XVIII ................................................................................................................................ 155
Preleção XIX .................................................................................................................................... 165
Preleção XX .................................................................................................................................... 175
Preleção XXI ................................................................................................................................... 188
Preleção XXII ................................................................................................................................. 207
Preleção XXIII ................................................................................................................................ 215
Preleção XXIV ................................................................................................................................ 228
Preleção XXV ................................................................................................................................. 234
Preleção XXVI ................................................................................................................................ 244
Preleção XXVII .............................................................................................................................. 251
Preleção XXVIII ............................................................................................................................. 261
INTRODUÇÃO

Edmund Husserl representa, para mim, o protótipo da honestidade intelectual, do rigor fundado na sinceridade de
propósitos. Perto dele, quase todos os outros filósofos do século XX parecem um pouco artificiais. Ele surpreende pela absoluta
ausência de pose, pela total boa-fé, pelo empenho total naquilo que está fazendo e pela completa ausência de motivos
secundários de ordem social, literária, política, etc.
Esta leitura informal que será feita de algumas páginas de suas Investigações Lógicas mostrará o poder do espírito
filosófico. Não há melhor porta de ingresso ao mundo da filosofia; o único obstáculo é que se trata de um texto denso, pesado,
que afugenta o principiante por sua aparência temível - algo como o retrato de Husserl que lhes mostrei, um par de olhos
perfurantes que parecem julgar com severidade o recém-chegado, lendo na sua alma o teor das suas intenções. Ele é como um
guardião na porta do templo da filosofia, pronto a afastar o intruso, o farsante, o beletrista.
O que mais nos surpreende na biografia de Husserl é que no período de 1933 a 1938, com a Alemanha já sob o domínio
nazista, ele, que era judeu, continuasse imperturbavelmente o seu trabalho filosófico, produzindo nesses anos alguns de seus
trabalhos mais importantes, sem emitir jamais uma queixa, uma lamúria, inteiramente dedicado à única coisa necessária o amor
à sabedoria. Muitos alemães notáveis, judeus ou não, se espalharam então pelo mundo, representando no Exterior a
sobrevivência do espírito alemão aviltado no interior pela tirania. Muitos obtiveram em outros países a glória merecida: Thomas
Mann, Einstein, Eric Weil, Eric Voegelin e outros. Mas Husserl, que permaneceu e sofreu calado, foi o maior de todos. Se Deus
não destruiu a Alemanha por considerar que lá dentro havia cinco justos, Husserl era certamente um deles.
Quando me pergunto como os nervos desse homem não cederam ante o pavor reinante, só encontro uma resposta: ele
era talvez o único, em todo o mundo, que compreendia realmente o que estava acontecendo. Ele sabia que o horror do século XX
tinha raízes profundas, de ordem espiritual e intelectual, que escapavam à maioria dos observadores. Essas raízes fincavam-se no
solo da crise intelectual inaugurada a partir do Renascimento, quando as ciências foram perdendo sua inspiração originária de
saber apodíctico, para se contentarem cada vez mais com artifícios técnicos e o deslumbramento de resultados práticos sem
fundamentação intelectual suficiente. Husserl via nesse processo uma traição à busca da sabedoria, e certamente entendia os
males do presente como o efeito inevitável de uma longa demissão da inteligência ante o reino deste mundo. Enquanto outros
bradavam contra o presente às vezes iludindo-se na esperança de poder combater o mal com o mal , ele, dando o presente por
perdido, sondava, no passado filosófico e científico, o mal que corroia as raízes da racionalidade humana, para lançar as
sementes de um futuro melhor.
Nestas leituras, tentar-se-á recolher uma parte do seu legado.
Preleção I

Rio de Janeiro, 18 de novembro de 1992


1 A ORIGEM DA LÓGICA

Os Quatro Discursos estão, dentro de um processo histórico, numa constante interação. É como se os temas da
preocupação humana, embora permanecendo os mesmos, passassem por distintos níveis de elaboração, de forma que podemos
comparar os Quatro Discursos a uma árvore da qual o Discurso Poético constitui a raiz, uma raiz que mergulha no mundo da
realidade mesma, no mundo dos cinco sentidos, no mundo da experiência mais direta, e dessa experiência, desse fundo, se
destacam diferentes orientações humanas, que entram em luta através do Discurso Retórico. A imaginação mostra vários objetos,
que se tornam objetos de desejo. Daí surge a multiplicidade dos desejos, e os desejos entram em luta através do Discurso
Retórico - o discurso persuasivo. Cada desejo tenta se sobrepor aos outros, expressando sua pretensão através do discurso
retórico. De vários discursos retóricos, nenhum é mais probante que o outro, embora uns possam ser mais persuasivos.
Persuasividade, no sentido em que se usa o termo na Teoria dos Quatro Discursos, é o poder de obter a concordância de um
determinado ouvinte, ou de um determinado número de ouvintes. Ser probante é ter condições de provar, não para uma platéia
em particular, mas, em princípio, para toda e qualquer platéia capaz do pensamento racional. É o mesmo que cogente, ou
forçoso.
Quando examinados por uma inteligência mais neutra, nenhum dos discursos retóricos é mais convincente que o outro e
nenhum é totalmente cogente, ou probante. Daí os discursos retóricos poderem se perfilar uns ao lado dos outros como
concorrentes eternos. Existem preferências, é verdade, mas é absolutamente impossível provar por A+B que um é mais
verdadeiro que o outro. Mesmo porque as bases com as quais se demonstraria a superioridade de um discurso não servem para o
outro discurso. Eles partem de premissas diferentes - e a decisão racional é impossível. Assim, a competição dos discursos
retóricos é interminável, no plano em que se coloca.
Porém, os vários discursos retóricos confrontados - de um ponto-de-vista neutro - revelam determinados pontos comuns.
Revelam certas premissas que estão por baixo, e que podem ser comuns a todos eles. Pode-se mesmo, com um pouco de
paciência, descobrir que os pressupostos diferentes de que partem se assentam, por sua vez, em premissas comuns, diversamente
enfocadas. É com base nessas premissas que eles poderão ser, se não julgados, ao menos combinados de determinada maneira,
que então permitirá encontrar uma verdade para além do confronto de opiniões. E essa verdade se encontra no momento em que,
confrontando vários discursos de opinião, várias preferências, percebe-se que a discussão toda está baseada - de maneira quase
sempre implícita e até subconsciente - num certo número de princípios, que por serem auto-evidentes, podem servir de critério
para a avaliação e correção mútua dos vários discursos. Confrontar discursos retóricos, reduzi-los a um denominador comum,
encontrar um princípio de base no qual eles possam ser julgados, essa é a função do Discurso Dialético.
Uma vez, porém, encontrados esses princípios, verificamos que eles dizem respeito a aspectos muito gerais, muito
universais da realidade. Mas não estamos querendo conhecer somente princípios gerais, estamos querendo um conhecimento
efetivo sobre determinadas particularidades, a fim de estender nosso conhecimento do real efetivo ( não de meras generalidades
lógicas ), e nesse sentido é que tiramos conseqüências mais particularizadas dos princípios colocados, estabelecendo assim
critérios para que os princípios possam se transformar em meios de julgamento das várias opiniões, de uma maneira apodíctica,
infalível, indestrutível. E isso é exatamente o que se chama o Discurso Lógico.
Essa progressão dos Quatro Discursos corresponde a um movimento histórico. Todos os temas da discussão humana
provêm da imaginação poética, da imaginação mítica, simbólica. Desse caldo de imagens e de símbolos é que se formam as
vontades humanas opostas e em luta - daí surgindo a discussão. Da discussão surge, ao longo do tempo, um princípio de
arbitragem que se torna, por sua vez, a base de demonstrações científicas. Esse processo mostra também um estreitamento do
leque dos temas; daqueles sugeridos pela imaginação poética somente algumas linhas serão desenvolvidas até chegar-se a um
conhecimento científico do assunto. O conhecimento científico, por sua vez, fornece uma base sólida para a ação humana, que
retroage sobre o mundo existente, real, e o transforma mediante a técnica. A técnica, inspirada na ciência, muda a face do mundo
e muda a experiência humana; daí surgem novos temas e novas formas imaginativas e assim o ciclo prossegue indefinidamente.
É importante não atribuir a esse ciclo uma duração definida. O mesmo ciclo é percorrido dentro de uma cultura várias
vezes e com velocidades diferentes. O mesmo ocorre no microcosmo da mente de um indivíduo. Podemos tomar como exemplo
o surgimento de uma idéia científica qualquer: é evidente que as idéias científicas surgem no plano da imaginação, como meras
hipóteses possíveis, e às vezes sob forma simbólica, alegórica, como no caso de Niels Bohr, que sonhou com a estrutura do
átomo. Tendo sonhado com a estrutura do átomo, ele seria um perfeito idiota se imediatamente atribuísse certeza a esta estrutura
tal como ela havia se apresentado no sonho. A partir dessa imagem, porém, surge um desejo de saber se ela contém algum
conhecimento verdadeiro. E surge um desejo oposto, que é o desejo de não se deixar enganar por uma mera imagem. Esse
conflito, em seguida, é elaborado na apresentação das razões pró e contra aquele modelo de átomo e, finalmente ele pode ser
elaborado numa teoria científica capaz de ser provada ou refutada logicamente. Esse ciclo deve ter sido percorrido na mente de
Niels Bohr em questão de minutos. Depois, é repetido ao longo dos dias com uma duração um pouco maior, e assim por diante
em elaborações sucessivas até a formulação final da demonstração lógica, que por sua vez pode fracassar ou ter sucesso.
Do mesmo modo, podemos encarar a evolução da teoria atômica no século XX num plano coletivo, histórico, seguindo
exatamente a mesma seqüência: uma imaginação coletiva encontrando esquemas hipotéticos, em seguida apostando neles - ou
contra eles -, depois confrontando-os, discutindo-os até achar um princípio de arbitragem. Em última análise, toda investigação
científica segue esse ciclo e não poderia ser de outra forma.
Assim, a idéia de que se possa haver uma espécie de confronto, uma paridade oposta, entre o mundo poético - o mundo da
imaginação -, e o mundo científico, é uma coisa que só é crível para quem desconhece por completo qual é o processo da
descoberta científica, quer do ponto-de-vista da psicologia individual, quer do ponto-de-vista histórico, da evolução da cultura
como um todo: o Discurso Lógico científico, emerge do mito, do símbolo, através da mediação dos Discursos Retórico e
Dialético.
Esse dualismo foi criado por uma espécie de decreto oficial, sobretudo na França, a partir da formação das Faculdades
de Ciências e das Letras. Mas o fato de existirem dois organismos que estudem duas coisas distintas não quer dizer que a
distinção entre essas duas áreas do conhecimento humano seja tão nítida quanto a distinção espacial entre os dois edifícios que
contêm as respectivas instituições. As Letras e as Ciências, de fato, não se distinguem assim tão facilmente quanto seus
respectivos edifícios.
Com isso se pode então, entrar um pouco mais profundamente no Discurso Lógico, este surge como uma resposta da
mente grega a uma situação criada por três fatores. Um deles é a proliferação dos discursos cosmológicos incoerentes. Os
filósofos pré-socráticos discutiam todos a mesma questão: de quê se compõe o mundo? Qual é a substância que está por trás de
toda a variedade de fenômenos cósmicos? Eles se perguntam sobre a natureza do Cosmos. O quê é o Cosmos, em última análise?
O quê seria a Physis?
Physis não quer dizer só “natureza”, no sentido da coleção dos entes visíveis, mas no sentido dos princípios que estariam
por trás de todos os fenômenos visíveis; os princípios que unificam todos esses fenômenos através de uma lei comum, fundada
também numa substância universal. Os filósofos divergiam com relação a isso e cada um oferecia um discurso que parecia tão
persuasivo quanto os demais discursos. A proliferação dos discursos filosóficos divergentes inclina, naturalmente, a mente grega
ao ceticismo e ao relativismo; este último se expressa na idéia de “Cada cabeça, uma sentença”, ou seja: há uma verdade
diferente para cada um; e o ceticismo por sua vez, se expressa na famosa fórmula que seria mais tarde a de Francisco Sanchez:
Quo nihil scitur, “que nada se sabe” nem se pode saber.
Nesse mesmo ambiente de ceticismo existe também um outro fator, que é uma posição de predomínio, uma posição de
prestígio da atividade retórica, que é a arte da persuasão. Os retóricos praticamente dominavam a educação da classe letrada
leiga. Os retóricos eram, sobretudo, educadores, professores, e o jovem estudante grego, sendo um jovem de classe aristocrática,
se educava, fundamentalmente, para a participação na política, para a qual a arte da retórica era o instrumento principal.
A retórica é uma arte de persuadir, porém, a técnica da persuasão não permite, por si mesma, saber se o conteúdo do que
está sendo dito é verdadeiro ou falso. Ela dá simplesmente os instrumentos psicológicos necessários à persuasão, e não ao
julgamento do conteúdo do que foi dito. Então, por um lado, no campo científico-filosófico havia uma tendência muito grande
ao ceticismo e à equalização, à mútua neutralização de todos os discursos, de modo que a adoção desta ou daquela tese
filosófico-científica parecia mais uma questão de preferência pessoal do que outra coisa. Por outro lado, esse ambiente de
subjetivismo ainda era fomentado pelo próprio domínio da retórica. O grego letrado do tempo de Sócrates é um sujeito que não
acredita em nada, que acredita que todas as idéias são iguais, que todas valem mais ou menos a mesma coisa e que, ademais, tem
os instrumentos para persuadir os outros do que quer que seja.

2 AS CONDIÇÕES ESSENCIAIS DO CONHECIMENTO CIENTÍFICO, OU : A IDÉIA PURA DE CIÊNCIA

A fim de sanar esta situação, Sócrates e Platão inventam um método de tirar dúvidas, que formula uma série de
exigências para que o saber possa ser considerado verdadeiro, independentemente da persuasividade do orador que defenda a
tese, de modo que, os vários discursos retóricos, se pudessem ser reduzidos a um conjunto de fórmulas retoricamente neutras,
todas não-persuasivas, para neutralizar o efeito retórico, ficando somente com o conteúdo explícito das teses defendidas para, em
seguida, poder conferir sua veracidade. Ou seja, se pudéssemos abstrair a eloqüência dos vários discursos, de modo que todos
ficassem chatíssimos, e ficássemos apenas com as teses explícitas, com o conteúdo afirmativo formal daquilo que esses discursos
disseram, haveria um meio de confrontá-los, possibilitando, então, investigar qual disse verdade e qual disse falsidade. Para
tornar possível fazer essa confrontação, Sócrates e Platão conceberam um conjunto de exigências que formaram a idéia pura do
que vem a ser Ciência - Ciência no sentido mais universal, no sentido do conhecimento verdadeiro, certo, irrefutável,
fundamental.
O que será dito em seguida a respeito das condições ou exigências do conhecimento científico não é uma exposição literal
do pensamento de Sócrates e Platão, mas uma interpretação husserliana, que o mestre deixou disseminada em vários de seus
textos, como Filosofia Primeira e Lógica Formal e Lógica Transcendental, e que aqui resumo livremente, acrescentando-lhe o
que me pareça que deva ser acrescentado por minha conta; ou seja, é a minha livre interpretação da interpretação de Husserl. A
vantagem de entrar no assunto por essa via é que, expondo os antecedentes históricos, já se atinge o núcleo do pensamento do
próprio Husserl, isto é, tem-se uma visão husserliana dos antecedentes de Husserl. Husserliana no espírito e na fidelidade
interior, entenda-se, já que nestas preleções não tenho um compromisso de exatidão filológica permitindo-me, assim, introduzir,
onde me pareça bom fazê-lo, minhas próprias idéias, na medida em que sejam fiéis, não digo à letra, mas ao ideal da obra de
Husserl.
A primeira exigência desta idéia pura de Ciência, é a evidência direta, ou seja, o conteúdo afirmado deve ser, no mais
possível, evidente, ou seja, que ele não possa ser de outra maneira, como por exemplo, a afirmação: “Nós estamos aqui, agora”.
Cada um de nós sabe isto por evidência direta sem precisar de provas.
Se pudéssemos saber todas as coisas com a mesma evidência com que sabemos que estamos aqui agora, tudo seria muito
fácil e nem sequer haveria o confronto dos discursos. Porém, lamentavelmente, isso não se dá porque existem muitas coisas que
precisamos conhecer mas que estão para além da nossa experiência direta possível. Por exemplo, se alguém cometeu um crime,
só podemos ter uma evidência direta de quem é criminoso se tivermos presenciado o crime - e aí não haveria necessidade de
investigar. Caso contrário, não podemos ter uma evidência direta, mas talvez possamos ter uma evidência indireta. Uma
evidência indireta é uma verdade que em si mesma não é evidente, mas que é garantida por uma outra que é evidente. Por
exemplo, se você está aqui neste momento, para chegar até a escada você vai ter de dar um certo número de passos. Eu não tenho
a evidência de você caminhar, não estou vendo você caminhar, mas sei que, se quiser ir até a escada, vai ter de dar um certo
número de passos. O que sei evidentemente é que você está aqui, e que a escada está lá. Com base nessa evidência direta posso
acreditar numa outra evidência, menor, mais fraca, indireta, mas que é garantida pela evidência maior.
Isto posto, chega-se a uma segunda exigência da idéia de ciência, que é a de transferência de veracidade. É necessário
que uma verdade possa garantir uma outra verdade menos evidente - se ficássemos apenas com as verdades evidentes não
iríamos muito longe, não transcenderíamos o círculo da nossa experiência imediata. Portanto, para existir ciência, é
absolutamente necessário que umas verdades possam ser garantia de outras verdades que não possam se garantir por si mesmas.
Porém, o que é que garante que a primeira verdade garanta a segunda verdade? É preciso também que haja um nexo
qualquer, uma ligação qualquer entre as duas verdades, e aqui, a terceira exigência.
Mas é preciso ainda que o nexo que estabelece a transferência seja, ele próprio, evidente, ou seja, não pode ser um nexo
qualquer. Isso porque, se não for evidente, ele também precisará ser garantido por uma outra evidência - e assim por diante
indefinidamente. Temos, assim, outra exigência que é a da existência de um nexo evidente. Se tenho aqui uma verdade, que
chamo de evidente, e ali uma evidência indireta, tenho de ter um nexo entre as duas. Porém, se esse nexo não é evidente
diretamente, isso quer dizer que ele é uma evidência indireta que depende de uma outra verdade evidente; e haverá necessidade
de um outro nexo, o qual se não for evidente vai depender de uma outra verdade evidente, a qual está ligada por um outro nexo.
Se isso não parar nunca, ou seja, se nunca encontrarmos um nexo evidente entre a verdade direta e a verdade indireta, acabou-se
a nossa Ciência.
Essas são, então, as quatro condições gerais, ou teóricas, da Ciência. Ciência quer dizer conhecimento verdadeiro. A
evidência indireta não é evidência em si mesma, senão seria uma evidência direta. Se as duas verdades que nós queremos
conectar são realmente diferentes uma da outra, inteiramente heterogêneas, estranhas entre si, então, não haverá um nexo
evidente possível. Mas pode haver nexos acidentais. Um nexo só poderá ser evidente na seguinte situação: se entre a primeira
verdade e a segunda verdade não houver, na realidade, salto algum. Porém, quando examinamos retroativamente percebe-se, de
fato, que a segunda verdade é igual à primeira verdade, embora não tivesse assim parecido de início. Como se faz isso? Se temos
uma verdade evidente de que estamos aqui e a escada está lá e, eu, partindo da primeira evidência de que estamos aqui e a escada
está lá, digo que para chegar até lá, precisamos nos mover. O quê é mover-se? É deslocar-se no espaço. O quê é aqui e lá? São
diferentes lugares no espaço. Então, eu dizer que você está aqui, é exatamente a mesma coisa que dizer que para você estar lá
tem que haver um movimento, um deslocamento. Ou seja, eu disse exatamente a mesma coisa, só que com duas palavras
diferentes, e a diferença da frase me enganou. Dizer que você está aqui é a mesma coisa que dizer que você não está em outro
lugar. Qual é a conexão entre dois lugares? É somente o movimento, que conecta os dois lugares. Na hora em que eu disse que
você está aqui, já está implícito que você não está lá, e que a única maneira de você chegar lá é através do movimento, ou seja,
somente explicitei o que estava implícito. Eu não disse uma coisa nova; não acrescentei um conhecimento novo, uma informação
nova.
Existem conexões ideais como, por exemplo, a medida: daqui até lá dista cinco metros. Só que a medida, em si mesma,
não leva um corpo até lá. O que o leva é o movimento através desses cinco metros. No instante em que eu digo que você está
aqui, eu já estou implicitamente dizendo que você não está lá, e que só através do movimento você pode chegar até lá. Retire
essas duas coisas e você verá que a expressão “você está aqui” fica totalmente destituída de qualquer significado. O que quer
dizer a frase “você está aqui” sem ela significar que você não está lá? Não quer dizer nada - isso já está incluído. De modo que, a
análise do significado do que eu falei me leva à segunda verdade evidente. Eu não acrescentei uma segunda proposição, eu
apenas desmembrei a primeira proposição, apenas expliquei o que a primeira queria dizer. Isto significa que, entre a verdade
direta e a verdade indireta, existe uma relação que é como a do Todo e a da Parte. Esse é que é o nexo, e que se chama de
Silogismo. Silogismo é um conjunto de três proposições, o qual, dadas as duas primeiras, a terceira decorre necessariamente. Um
exemplo disso é o famoso: “Todos os homens são mortais; Sócrates é homem; logo, Sócrates é mortal.
Aquilo que eu digo de todos, evidentemente se refere a cada um, porque todo e cada um são exatamente a mesma
palavra. Portanto, a transferência de veracidade é, evidentemente, no mesmo sentido de que, duas frases ditas são a mesma frase.
Quando eu digo que todos os homens são mortais, e que cada um homem é mortal, o que eu digo de um homem em particular já
está incluído na primeira proposta. Portanto, eu não disse uma coisa nova. O nexo que existe aí é o nexo entre o todo e o cada
um. Eu disse apenas que todo é igual a todo e que cada um é igual a cada um. E se uma coisa é igual a ela mesma, essa coisa é
uma evidência. Apenas a formulação da frase é que me pareceu diferente, porém, analisando o sentido da primeira frase, eu vejo
que na segunda frase ela já estava dita. E se eu disse que todos os homens são mortais, eu não posso negar que um deles seja
mortal.
O quê é o conhecimento evidente? É um conhecimento onde exista a total impossibilidade de negá-lo, a não ser
introduzindo um duplo sentido nas palavras. Se um indivíduo diz, “eu não estou aqui”, ou ele está mudando o sentido da palavra
eu, ou da palavra aqui. Se ele diz, “eu não estou aqui; na verdade, eu estou na minha casa”, isso significa que o sentimento dele,
ou o seu coração, está lá, porém, nesse caso ele criou um duplo sentido porque ele está utilizando a palavra aqui num sentido
espacial, e a palavra eu, não no sentido corporal, mas num outro sentido. Quando você nega uma evidência, você está sempre
jogando com um duplo sentido de palavras. Se eu digo, por exemplo, A = A, então o primeiro A é o mesmo A do segundo lado
da igualdade. Se digo que AA, eu estou negando a frase anterior? Se digo isso, significa que o primeiro A não é igual ao
primeiro A e, se ele não é o mesmo que o primeiro, não é a ele que se refere a primeira sentença ( A=A ). Se a segunda frase (
AA ) não se refere à primeira ( A=A ), ela não pode ser a sua negação. A pessoa tem a impressão que negou, mas não negou. Ele
só enganou a si mesmo. Para ficar mais claro, vamos numerá-los: A1=A2 e A3A4. Vamos supor que A1=A3, e se A1A4, então A4 é
um outro A. A=A não tem como ser negado - você só pode imaginar que negou.
Se você duplica o sentido de uma palavra, então, duas frases aparentemente iguais são, na verdade, duas frases
diferentes, que não se referem às mesmas coisas. Então, uma frase não pode ser a negação da outra. Se eu digo, por exemplo, “O
Paulo está de camisa azul”, e o Alexandre diz, “Não! o Guilherme está de camisa branca”, é evidente que a segunda frase não é
uma negação da primeira. Entretanto, e se ele chamar o Guilherme de Paulo? Isso significa que ele se equivocou de nome.
Houve uma troca de nomes. Assim, nós podemos dizer que um conhecimento, uma sentença, uma proposição, é evidente se ela
não puder ser negada, exceto mediante o uso de um duplo sentido. Isso é fundamental se você quiser ter certeza de qualquer
coisa na vida.
Assim, tudo o que não é diretamente evidente pode ser negado. Quando você diz, “eu já não sou mais o mesmo”,
significa que você está atribuindo um duplo sentido à palavra eu. Num caso, designa uma individualidade, e aí é você mesmo.
Num outro caso, designa uma qualidade desse indivíduo. A individualidade continua a mesma, só a qualidade é que foi alterada.
Para que o indivíduo fosse, primeiro pobre, depois rico, é necessário que ele continue a ser o mesmo. Uma sentença só é negação
da outra quando o sujeito é o mesmo.
O princípio da identidade é imortal. É a própria unidade do real. Isso significa que ele não pode ser escamoteado pelos
nossos mesquinhos jogos de palavra. No entanto, há conhecimentos que são verdadeiros, mas não são evidentes. Por exemplo, se
você me afirma que tem Cr$ 1.000,00 no seu bolso, isto não quer dizer, para mim, que isso seja evidente. Eu posso negar isso
sem duplo sentido. Existe apenas uma veracidade contrastada com uma falsidade. Pode ser que isso seja uma verdade, e eu
esteja dizendo uma falsidade. Ou, pode ser o contrário. Mas nessa contradição não existe duplo sentido. A coisa pode ser negada
mesmo.
Um conhecimento qualquer de ordem científica pode ser negado. Por exemplo, você pode negar toda a Física porque
não há contradição. As teorias não são evidentes em si mesmas. A negação de uma evidência não é a mesma coisa que uma
contradição lógica. Contradição lógica significa você negar alguma sentença anterior, cuja veracidade já afirmou - A=A se
sustenta sozinho, não há necessidade de outra afirmação anterior; e AA se derruba sozinho. Contradição lógica é um falso nexo.
Entre A=A e AA, não há nexo, são frases isoladas. A=A se sustenta pela simples enunciação - é óbvio.
Portanto, eu gostaria que vocês fizessem todas as tentativas possíveis para derrubar o princípio da identidade. Quando
vocês estiverem definitivamente derrotados e começarem, de alguma maneira, a aceitar o princípio, vocês começam a aceitar a
verdade. É para você lutar consigo mesmo - é difícil. Você pode dizer, “Parece verdade...”, mas parecer significa uma
verossimilhança. É uma convicção retórica. Você está retoricamente convencido do princípio de identidade.
O sujeito estar retoricamente persuadido do princípio de identidade quer dizer que ele não teve uma convicção firme,
pessoal.
Prove que, A=A, embora verdadeiro, prove que ele não é um princípio auto-evidente. Prove que ele se baseia em
alguma outra coisa. Prove se puder. Muitos filósofos caíram nessa tentação.
Qualquer evidência direta é uma repetição do princípio de identidade, sob uma nova forma. E é tão válida quanto o
princípio de identidade.
E se eu indagasse, se uma coisa que eu vejo, se ela é uma evidência direta, nesse sentido? A resposta é não, porque você
pode estar enganado. você pode ser enganado pelos seus sentidos.
Se eu posso ser enganado pelos meus sentidos, como é que eu sei que eu estou aqui? Resposta: você não precisa dos
sentidos para saber que você sempre está, onde estiver, para você saber que você faz o que você faz.
Quando Descartes diz que, “Eu posso duvidar de tudo, mas não posso duvidar que estou duvidando”, eu não posso
duvidar do que eu estou pensando ( dúvida já é o conteúdo do pensamento ).
E se eu parar de pensar? Eu duvido que estou pensando, porém, eu faço essa dúvida, sem pensar propriamente. Portanto,
um sujeito não pode negar que ele está pensando naquela hora. Porque negar, ou afirmar, é pensar. É o famoso “cogito ergo
sum”, que é, de novo, o princípio de identidade, só que aplicado à minha pessoa. Se eu digo que A=A, se eu afirmo isso, logo
estou pensando ( cogito ergo sum ).
Toda investigação sobre qualquer coisa sempre começa com esse tipo de coisa.
No caso do silogismo anterior ( Todo homem é mortal; Sócrates é homem; logo Sócrates é mortal ), para eu saber que a
palavra todo é igual a cada um, basta saber o que significa a palavra todo. E cada um significa todos um. Então, quando eu digo
que esse homem em particular também está incluído na mesma regra geral, eu estou apenas repetindo que todos é cada um. E
esse nexo é auto-evidente. É a identidade do todo com cada um. São duas expressões da mesma idéia.
O nexo é a identidade entre a expressão todos e a expressão cada um.
Não confundir nexo lógico com a premissa menor. No silogismo você tem, Premissa maior, Premissa menor e
Conseqüência. A Premissa Menor é o elo entre as duas.
Nexo lógico é a garantia ( e, não uma outra premissa ) de que, de duas premissas dadas você pode concluir uma terceira.
Por quê? Porque a terceira sintetiza as duas anteriores, dizendo a mesma coisa, sob uma outra forma. Mas, é a mesma coisa que
está sendo dita. Apenas transferindo de todos para cada um, e de cada um para um um em particular.
Se eu digo que todos os quadrados têm quatro lados, isso quer dizer que, cada quadrado tem quatro lados. E, esse
quadrado tem quatro lados, como todos os outros. Aliás, como cada um deles. É apenas a forma verbal que foi mudada. E, eu
posso ser enganado com isso aí acreditando que eu estou falando uma coisa que não tem nenhuma relação com a outra. Só que,
não apenas tem uma relação, como é a mesma coisa. E, se é a mesma coisa, então entra o princípio de identidade, e que estou
afirmando que A=A, que todos = todos, que cada um = cada um, etc. O nexo é o que mostra a identidade entre duas proposições
diferentes. Assim, essas são as condições gerais, ou teóricas, para que possa existir qualquer conhecimento.
Com base no que foi dito anteriormente, nós podemos pegar vários discursos retóricos e conferi-los, uns com os outros,
para ver se estão dizendo a mesma coisa, ou se estão dizendo coisas diferentes, se são uma negação um do outro, ou se trata de
discursos inconexos como, por exemplo, “O João está de camisa branca”, “Não, a Maria está de camisa azul”.
Com base no princípio de identidade eu faço a comparação e a seleção: se estão dizendo as mesmas coisas, se estão
dizendo coisas diversas, se efetivamente se negam um ao outro, ou se são falsas negações.
Se eu encontrar dois discursos que efetivamente se negam, quer dizer, descontadas as diferenças, os erros de
interpretação, então, daí temos um problema. Eu tenho uma alternativa, das quais uma terá que ser verdadeira, e a outra, falsa.
Porém, isso não se aplica a todos os discursos que se contradizem. Isso porque, primeiro, se precisa reduzi-los a uma
significação comum. Por exemplo, “João matou Pedro”. Qual é a negação disso aqui? Só haverá negação se houver o mesmo
sujeito, o mesmo objeto, e o mesmo verbo, e somente introduzindo a palavra não. Se o outro responde, “Não, João não matou
Joaquim”, se a comparação não tem cabimento, então a comparação é absurda.
Mas, os discursos podem ser contraditórios, por exemplo, “João não matou Pedro”. Se João é o mesmo, o Pedro é o
mesmo, e matar significa a mesma coisa, então temos um problema, que terá que ser resolvido mediante uma afirmação de uma
das alternativas, e a negação da outra. Assim, vemos que não há uma terceira alternativa.
Porém, nas discussões que nós efetivamente encontramos no dia-a-dia, existe não somente uma terceira alternativa,
como também, uma quarta, uma quinta, e uma sexta, ou mais. Isto porque o sentido do discurso é múltiplo. E, freqüentemente,
não se referem exatamente às mesmas coisas, porém, a diferentes aspectos da mesma coisa.
Se você observar uma campanha eleitoral, é sempre assim que acontece. É inteiramente absurda. É o non-sense por
completo. Trata-se de um show para enganar idiotas. E, às vezes, pessoas letradas tomam partido nisso. Por exemplo, o César
Maia diz, “A Benedita empregou o filho na Câmara, sem diploma”. A Benedita responde, “Você diz isso porque eu sou mulher,
negra e favelada, e você é racista”. A resposta do César Maia deveria ser, “Mesmo que eu fosse racista, isso não tem nada a ver
com a estória”. Só que isso não repercutiria bem no eleitorado. Aí, ele tenta contornar a situação.
A discussão política consiste sempre em confundir, conteúdo, sujeito, propósito, etc. Mas, nunca responder no mesmo
plano, ou seja, é a “arte do sabonete”. Isso não é nem retórica, é sub-retórica. Nem nos tribunais, hoje em dia, você vê a retórica
pura. Houve um jurista que afirmou, “Antes, a corrupção era constituída de casos isolados. Depois do governo Collor, isso virou
uma coisa sistemática”. A resposta é a seguinte: “O senhor pesquisou? Tem dados estatísticos? Quanto foi roubado antes, e
quanto foi roubado agora? Se não sabe, então não deve se pronunciar sobre o assunto”.
O que estamos tentando aqui é colocar a questão de uma maneira séria, com o intuito de resolver o problema,
efetivamente. E o problema é o seguinte: se existem tantos discursos contraditórios, se falam tanta besteira, como fazer para nos
orientar no meio dessa confusão, para ter uma certeza firme de alguma coisa, ainda que fosse pouca?
Com isso, Sócrates-Platão, inventam a idéia de Ciência, que é o conhecimento seguro, que é a idéia que, até hoje,
orienta quaisquer esforços científicos feitos no mundo inteiro para assumir qualquer coisa.
A idéia pura de Ciência, o ideal de Ciência, é algo que o homem se esforça para alcançar, com diferentes graus de
sucesso. É como se fosse um objetivo a ser alcançado. E ele não precisa ser alcançado para que possa existir Ciência
efetivamente. Basta que a Ciência esteja nessa direção, e não numa outra.
Isso significa que mesmo que a Ciência tenha sido um fracasso completo, desde os tempos de Platão até hoje, ainda
assim, nós diríamos que é esse ideal que continua orientando os nossos esforços, e nós continuamos tentando. É como disse o
Barão de Itararé, “Num pugilato com o adversário, ele, no fim, chegou à conclusão que era melhor demonstrar que a corrida de
velocidade era um esporte muito superior”.

3 CONDIÇÕES EXISTENCIAIS PARA A IDÉIA DE CIÊNCIA PURA

Uma vez colocadas essas condições, elas não bastam. Para que possa haver Ciência, é necessário haver algumas outras
condições, de ordem prática.

Repetibilidade do ato intuitivo. A primeira dessas condições práticas é a de que, o ato cognitivo pelo qual o homem
capta uma evidência tem que poder ser repetido, ou seja, se não podemos ter duas vezes a mesma evidência, uma evidência não
poderia servir de fundamento para uma outra evidência. Seria a repetibilidade de um ato intuitivo. Isto porque, na hora que eu
capto uma verdade evidente, por evidência direta, eu estou prestando atenção nela. Na hora em que eu me dirijo a uma evidência
indireta, se a primeira evidência desaparecer por completo, não posso estabelecer o nexo. Isto quer dizer que, para que seja
possível qualquer conhecimento, é necessário que você tenha a mesma evidência, pelo menos duas vezes.
Isto é mais grave do que parece, porque significa que o objeto de dois atos diferentes, feitos num instante diferente, é
exatamente o mesmo. Quando digo que A = A, eu tenho dois atos intuitivos. Só ao afirmar o princípio de identidade á existe essa
condição prática que tem que estar presente, ou seja, que dois atos intuitivos diferentes que são distintos no tempo, podem se
repetir à mesma evidência e, ao mesmo objeto. Sem que haja nenhuma mudança substantiva.
Claro que, se eu digo dois atos, eles são diferentes. Isto aqui poderia ser contraditado pela citação de que “não nos
banhamos duas vezes no mesmo rio”, ou seja, tudo flui continuamente, e não temos duas vezes a mesma experiência. Isto,
muitas vezes, é confundido, tomado no sentido de que não temos duas experiências no mesmo objeto. Assim, se proferimos a
frase acima, é porque o rio correu, e a água já não é a mesma. Mas, como é que eu sei que é o mesmo rio, já que eu não me
banho nele? Se fosse um rio completamente diferente, eu não perceberia que ele não mudou em nada. Eu acreditaria estar
entrando ali pela primeira vez. E, assim, eu não poderia proferir a sentença acima.
A objeção consiste em alegar que, o fluxo permanente em todas as coisas não afeta o princípio de identidade. Se
afetasse, não se poderia proferir a frase acima, a não ser que fosse um duplo sentido. Assim, quando digo que, “não nos
banhamos duas vezes, no mesmo rio”, é porque eu sei que, eu mesmo, entrei duas vezes no mesmo rio. Esse eu continua o
mesmo. Ou mudou o rio, ou mudei eu. Se o rio mudou, é porque eu sei que eu fiquei. Ademais, não fiquei só eu, mas, também
ficou o rio, com outras águas. Ou seja, a constatação do fluxo é impossível ser a constatação do princípio de identidade.
Qualquer mudança, qualquer alteração, só se torna cognoscível perante um fundo de identidade. Quer dizer, o princípio
de identidade não é só um princípio lógico, não é um princípio psicológico, é um princípio do ato real do conhecimento. Assim,
podemos dizer que a repetibilidade do ato intuitivo é o correspondente psicológico do princípio de identidade.

Dispositivo de registro. A repetibilidade do ato intuitivo, por sua vez, pressupõe que, do primeiro ato, algo restou na
memória, algo permaneceu, através de um registro, ou qualquer dispositivo de registro, que seria outra condição prática para que
possa haver Ciência. Seja um registro na memória, seja no papel, num disquete de computador, qualquer coisa que, evocando um
conteúdo de um ato intuitivo passado, lhe permita repetir o mesmo ato sobre o mesmo objeto. Se não existe o registro, não existe
a repetibilidade do ato intuitivo, e não existindo isso, então, não podemos realizar nada. Não havendo a possibilidade do registro,
isso significa que as quatro primeiras condições não seriam afetadas, elas continuariam de pé, só que o conhecimento seria
impossível. Na prática, seria impossível.
Assim, podemos dizer que, se existisse um conhecimento, ele teria que ter evidência direta, evidência indireta,
transferência de veracidade, e nexo evidente. Porém, sendo o homem, organizado do jeito que é, mas não podendo repetir o ato
intuitivo, esse conhecimento não seria possível. Porém, todo esse raciocínio seria falso, porque ele mesmo pressupõe a
repetibilidade do ato intuitivo.
Argumento cético: “Eu não sei nada”. Ora, se nada sei, não sei nenhum. Eu não posso afirmar que nada se pode afirmar.
A não ser que afirmar tenha duplo sentido. Por exemplo, “Não se pode afirmar nenhuma regra geral sobre nada”. Então, isto é
um regra geral. Mas, e se colocarmos da seguinte forma: “Não se pode proferir nenhuma regra geral sobre nada, exceto esta
regra”? Sabemos que há alguma regra geral que é uma exceção à regra geral que, segundo a qual, não há regra geral. A pergunta
seria: “De qual das duas regras ela seria a exceção? Ela é exceção da regra geral, ou é exceção da inexistência de regra geral?”
No primeiro caso, sendo ela uma exceção, nega a generalidade de regra. No segundo caso, ela nega a si mesma. Seria a negação
da negação.
Assim, os argumentos céticos representam o pré-Mobral. Os argumentos céticos são todos jogos de palavras, e
justamente por isso, eles exercem um certo fascínio. Principalmente para quem não sabe que eles existem há séculos, e acredita
que acabou de inventar isso. O adolescente está numa fase de ampliar o vocabulário, dominar a terminologia e aprender a
dominar as palavras. Então ele é facilmente encantado pela arte de argumentar.
Entendemos que o conhecimento geral, que é o conhecimento científico, além de requerer essas condições teóricas,
requer também algumas condições práticas, das quais, a primeira é a do ato repetitivo, a segunda seria o dispositivo de registro.
No momento que estou olhando para a evidência indireta, ela é o foco da minha atenção, não é mais aquela evidência direta
inicial, porém, esta não desapareceu completamente. Ela está retida sob forma de um sinal, que me permite refazer o ato
intuitivo, mas que não estou fazendo no momento em que penso na evidência indireta. A evidência direta entra num pano-de-
fundo, e a evidência indireta ocupa a posição principal. Mas, a primeira não desapareceu, porque está lá colocada sob forma de
um registro qualquer.
E se eu afirmasse que não existe possibilidade de dispositivo de registro? Digo isso para mostrar a vocês como a
negação da possibilidade do conhecimento é absurda. É a absurdidade das absurdidades. E se a pessoa negar a fidelidade da
memória? A memória às vezes não falha? O que é que impede que ela falhe sempre? Do fato de que ela falha algumas vezes, nós
entendemos que não podemos mais confiar nela sempre. Entre não poder confiar nela sempre, e não poder confiar nela nunca, é
apenas questão de grau. E se eu disser que, “ela falha de vez em quando”, ou “com muita freqüência”, ou “ela falha, quase
sempre”, não parece uma questão de grau? Dizer que a memória falha quase sempre não é uma verdade porque você guarda
recordação de cada uma das falhas dela. Logo, isso é uma negação de evidência, porque você está lembrando que ela falha. Você
tem que ter a recordação de que houve várias falhas, ou seja, você não poderia dizer, jamais, que ela “falha quase sempre”. Isso
quer dizer que nós temos que confiar na memória? Não, isso quer dizer apenas que é inviável uma crítica geral da memória. Nós
não podemos corrigir a memória nesse ou naquele ponto em particular, mas nunca genericamente. Ou seja, o ser humano é
impotente para corrigir a memória, na sua essência. Assim como, por exemplo, somos impotentes para corrigir a percepção dos
sentidos na sua essência.
Muita gente diz que existe uma instância superior, que seria a própria Física, ou a Matemática, que pode fazer uma
crítica geral dos sentidos, e estabelecer a jurisdição de que isso é uma impossibilidade lógica, ou seja, que daqui não dá para
passar. Isso é um erro. A idéia de que o homem possa estabelecer limites para a sua própria memória é uma absurdidade. É, mais
ou menos, como dizia o Barão de Munchausen, “se puxar pelo cabelo para sair da água”. Achar que as faculdades superiores da
inteligência , ou da razão, podem retroagir sobre a memória, verificar que ela tem uma falha essencial e corrigi-la, é impossível,
porque a razão se sustenta na sua memória.
O homem não tem outro remédio senão confiar na sua memória. Mesmo que ela falhe. Mesmo sabendo que ela vai
falhar nesse ou naquele caso. Também não há outro remédio senão confiar nos sentidos, mesmo sabendo que eles irão falhar em
vários casos.
Seguindo este raciocínio, podemos também dizer que os sentido falham às vezes, ou que os sentidos falham muito, mas
não podemos dizer que eles falham na maioria, ou na minoria das vezes. Nós não podemos quantificar o erro geral dos sentidos.
Se eu disser que os sentidos falham quase sempre, eu já entrei num non-sense, porque estou supondo que existe uma maneira de
conhecer os objetos sensíveis, a qual é melhor que os cinco sentidos. Assim, eu conheceria qualidades sensíveis melhor que os
meus próprios cinco sentidos, através da razão. Acontece que a razão não conhece qualidades sensíveis. Isto significa que as
faculdades superiores se assentam nas faculdades inferiores e as pressupõe, às vezes. Não teria jeito de se sair delas.
Entendemos que os dispositivos de registros não são somente uma necessidade para que possa existir a Ciência, mas nós
entendemos que efetivamente existem esses dispositivos de registros e entendemos que eles têm que existir necessariamente,
assim como têm necessariamente que existir a repetibilidade do ato intuitivo, e o nexo evidente, e a transferência de veracidade,
e as evidências direta e indireta. As condições que fundamentam a idéia de Ciência são, elas mesmas, verdadeiras. Ou seja, elas
jamais poderiam ter sido colocadas a título de mera hipótese. No começo nós raciocinamos como se elas fossem hipóteses, ou
seja, se existisse o conhecimento científico ele teria que se basear em evidências. Porém, na hipótese da inexistência de
evidências, a hipótese da existência não poderia ser formulada. Se não existe um conhecimento evidente, essa hipótese não será
adotada de nenhuma possibilidade de evidência. Isto significa que o simples caso de você colocar as condições que possibilitam
a Ciência, afirma que a Ciência, que o saber verdadeiro existe necessariamente. Ele não é apenas uma possibilidade humana.
Até que ponto pode ser absurdo as pessoas acharem que o homem geralmente erra? Que a espécie humana é falha, que
ela não consegue conhecer a realidade? Isto é um pensamento comum em certos círculos brasileiros, que está muito em moda,
que é o ceticismo: que a espécie humana não é capaz de conhecer quase nada. Ora, só se medir o restante que ela não conhece. E,
se você conhece efetivamente que ela desconhece, então, você tem uma idéia da ignorância dela. Só que, para isso, você se
coloca numa posição sobre-humana.
Colocar-se, hipoteticamente, numa posição sobre-humana, só lhe permitiria emitir um juízo hipotético sobre o
conhecimento humano. Ou seja, se eu fosse Deus, eu saberia tudo aquilo que a humanidade não sabe, e eu saberia como ela é
ignorante. Mas, esse juízo também seria hipotético. Supondo que eu fosse Deus, e eu emitisse os seguinte parecer categórico: “A
humanidade nada pode conhecer”. Isso seria a negação de uma evidência, porque hipótese é hipótese. Isto quer dizer que
qualquer tipo de ceticismo é absurdo. Qualquer filosofia que negue a possibilidade de conhecer o que quer que seja, é absurda,
auto-contraditória, demente. A única coisa certa a dizer é “Existem limites reais, efetivos, empíricos, ao conhecimento humano”.
Isto porque eu sei que não conheço tudo, e eu sei que a humanidade não conhece tudo. Porém, não existe nenhuma possibilidade
de se fixar limites do que ela pode vir a conhecer.
Em princípio o conhecimento humano existe, tem que existir necessariamente, é uma necessidade imperiosa,
indestrutível, e esse conhecimento é necessariamente ilimitado. Não há nenhuma barreira que possa ser colocada e que possa ser
defendida filosoficamente como necessária. Existem barreira acidentais, contingentes, por exemplo, um dia você morre e não
conhece mais nada. Porém, até que ponto você vai conhecer, até a hora que morre? Não existe uma limitação absoluta.
A idéia da limitação do conhecimento humano é uma idéia que obcecou os filósofos durante quase três séculos, como a
idéia do Barão de Munchausen, onde você poderia sair da água puxando pelo próprio cabelo.
Assim, existem três grandes correntes, segundo Kant, que são: o dogmatismo, o ceticismo, e o criticismo. O dogmático é
aquele que confia na possibilidade do conhecimento humano, sem limites. A palavra dogmático aqui não tem o mesmo sentido
que em religião. Existem dois tipos de dogmatismo: o dogmatismo ingênuo, ou pré-crítico, e o dogmatismo pós-crítico. A
corrente cética nega a possibilidade do conhecimento humano. O ceticismo se divide em ceticismo total e ceticismo parcial. A
doutrina crítica, do próprio Kant, não afirma nem nega a possibilidade do conhecimento, mas investiga essa possibilidade, e
investiga seus limites. Mas o fato de você investigar já não está afirmando? Não, porque você conhecer a possibilidade de uma
coisa não é a mesma coisa que você conhecer aquela coisa. Essa é a objeção de Hegel: “Como é que eu vou conhecer os limites
do conhecimento, sem conhecer coisa nenhuma?” É a mesma coisa que aprender a nadar sem entrar na água. Hegel era um
filósofo dogmático. Ele afirma taxativamente a realidade do conhecimento. É a estória do sujeito cuja casa está caindo, e ele sai
correndo e, de repente, ele se pergunta: “Como é possível que o meu cérebro emita para as minhas pernas a ordem de correr, e
elas obedeçam?” Aí, ele pára para investigar esse problema, e a casa cai em cima dele. A investigação crítica é isso, sem nenhum
desrespeito a ela.
O que Kant fez foi uma necessidade histórica. O kantismo é, ao mesmo tempo, uma possibilidade para uma doença e a
cura para essa doença. Havia a doença, que é um empacamento da filosofia causada pelo ceticismo. A idéia de que antes de você
julgar um conhecimento de uma coisa vai ser possível uma investigação crítica, é uma idéia ambígua. Porque esse antes é apenas
lógico, e não cronológico. Na prática, se você está investigando a possibilidade de existir alguma coisa é porque algo daquilo
você reconhece. Você pode dizer: “Não vamos investigar o fato, mas sim a possibilidade de conhecer o fato”. Eu digo: “Mas nós
podemos investigar a possibilidade de conhecer a possibilidade”. E assim por diante indefinidamente. É o caso do astrólogo que
diz para o rei que a hora da coroação é muito séria, e que a hora certa para a coroação precisa ser calculada. Aí, chega outro
astrólogo e diz que, calcular essa hora é algo muito sério e, então, temos que calcular a hora certa para poder calcular essa hora
certa. E não há fim nisso.
Karl Marx dizia: “Não interessa interpretar o mundo; interessa transformá-lo”. Veio o Stálin, pegou a obra do Marx,
uma horda de proletários, e matou todo mundo.
A essa altura nós entendemos que essas coisas não poderiam ter sido colocadas aqui por hipóteses, mas que elas têm
uma espécie de integridade intrínseca. Ou seja, a evidência direta não pode ser concebida como hipótese, e o restante também
não. Mesmo as condições práticas não podem ser concebidas como hipóteses. E, nesse sentido, e não no sentido religioso da
coisa, nós vamos ver que o conhecimento humano é essencialmente dogmático, afirmativo.
Até o momento nós só colocamos os princípios da Ciência. Pode ser que o conjunto inteiro das afirmações de cada
ciência esteja totalmente errado, mas seus princípios continuam de pé.
Assim, esse conhecimento, para ser conhecimento, tem de ser assim, e um conhecimento assim é necessariamente
possível. Algum conhecimento assim existe, necessariamente, se existir o homem. E se não existir o homem, alguém, que não
seja o ser humano, tem que ter um conhecimento assim. Alguém sabe essas coisas. Essas coisas não podem ser colocadas como
simples hipóteses.

Transmissibilidade essencial. Se existe um dispositivo de registro, quer dizer que eu posso guardar um conhecimento
anterior e, mediante um sinal qualquer ( papel, memória, pedra, etc. ), tão logo, em seguida, me faculta a reprodução do ato
intuitivo sobre o mesmo objeto. Se posso fazer isso de mim para mim mesmo, por quê não posso fazer de mim para um outro?
Isto significa que o conhecimento é transmissível, não apenas por acaso, mas essencialmente. Posso transmitir um
conhecimento de mim para mim mesmo em momentos diferentes. De modo que, em momentos distintos, fazendo atos
quantitativamente distintos, ou seja, um ato não é um outro ato, eu incido novamente sobre o mesmo objeto. E essa repetição,
esse retorno ao mesmo objeto, é uma condição de possibilidade do conhecimento. Assim, se não houver essa transmissão de
momento a momento, não há conhecimento algum. Portanto, em princípio, a transmissibilidade faz parte da essência de qualquer
conhecimento. Isso significa que aqueles pressentimentos profundos, aquela coisa que a gente “saca” às vezes, não são
conhecimentos de maneira alguma. São apenas uma possibilidade de conhecimento.
Hegel dizia, “Se você me pede uma árvore, eu te dou uma semente”. Você fica satisfeito? O fato é que para uma
semente virar uma árvore são necessárias muitas outras coisas que não estão contidas na semente. Por exemplo, precisamos de
terra, e essa terra deve ter substâncias capazes de alimentar a semente, precisamos do transcurso do tempo, precisamos de uma
série de outras coincidências como por exemplo o solo não pode ser removido, etc. Assim, dizer que a semente é a árvore, ela é
árvore de certa maneira, mas não da maneira certa.
Então, quando nós falamos de transmissibilidade, nós estamos querendo dizer expressividade. O conhecimento
inexpresso não é conhecimento de maneira alguma, porque se ele for totalmente inexpresso, significa que você intuiu aquilo num
momento, e no momento seguinte você esqueceu. Mesmo o conhecimento que foi esquecido, se foi totalmente retirado da
memória, se não há possibilidade da reposição, e quando você diz que não se lembra, então, como é que você se lembra que
conhece aquilo, ou não? Se o conhecimento é expressivo, tudo aquilo que permaneça totalmente inexpresso não é conhecimento,
e se for expresso, tanto faz expressá-lo de mim para mim mesmo, ou de mim para um outro. É uma diferença de mera
quantidade, e não faz a menor diferença. Você pode dizer que é difícil transmitir, mas a dificuldade de transmitir um
conhecimento não é nem um pouco maior do que a dificuldade de adquiri-lo. A dificuldade de transmissão é prática, e não
teórica.
Espero que vocês tenham entendido o que se chama discurso analítico, por causa de algo que foi dito há pouco, que o
nexo entre uma evidência direta e uma indireta é, por si mesmo, uma evidência, que nada acrescenta à primeira verdade, mas que
apenas a analisa. Analisar significa desmembrar nos seus membros constitutivos. Quando digo que o conceito de estar aqui é o
mesmo conceito de não estar lá, significa que não acrescentei nada, apenas analisei o conceito.
Intuição é ir para dentro; Intelecção é ler dentro; Insight é ver dentro. São várias maneiras de dizer a mesma coisa. No
entanto, se eu vi mas digo que nada se conservou na minha memória, como é que eu sei que vi? Um insight é um insight quando
o seu conteúdo é claro e permanente. Não confundir um insight com um pressentimento vago, uma imaginação, um sentimento
de não-sei-o-quê. Quando você tem um insight, você o tem com a mesma clareza de que você sabe que está aqui, agora. Claro
que você pode ter um insight de coisas tão enormemente complicadas que você pode levar um tempo enorme para contar aquilo.
Uma coisa é a expressão interna, de você para você mesmo, que Sócrates chamava de verbo mentis, a fala mental, a
mente falando para si mesma, ou através de palavras, ou através de figuras, ou através de gestos, ou através até de uma tensão
muscular interna. Você mesmo entende a sua própria linguagem. Embora já seja uma expressividade que esteja contida ali. Você
passar dessa expressividade, que é mais ou menos simultânea, e que repete várias vezes o mesmo ato intuitivo simultâneo ( você
“saca” aquele conjunto todo, várias vezes ), para uma expressão no tempo ( palavras orais, ou escritas, ou desenho, ou qualquer
coisa que possa ser materializada ), pode ser muito complicado. Às vezes, uma única intuição que você teve em dois segundos,
você pode passar o resto da vida tentando explicar. Vai depender da complexidade do objeto relacionado. Por exemplo, quando
um arquiteto, vendo um determinado terreno, ou paisagem, ele concebe a forma do edifício, ele só pode conceber o edifício
inteiro, de uma só vez. Para colocar no papel, desenhar, calcular, ele pode levar semanas. Para construir ele pode levar anos. Na
hora de calcular as proporções do edifício, veja quantas mediações lógicas e matemáticas ele tem que ter para que ele possa
desenhá-lo. É muito complicado mas, tudo aquilo estava naquele ato intuitivo inicial. Que dele, para ele, estava perfeitamente
claro. No entanto, se não tivesse claro ali, não estaria claro nunca mais. Mozart “sacava a sinfonia num segundo, porque ele fazia
uma audição não-auditiva, ele fazia um audição intelectual. Para passar aquilo para o auditivo levava um tempo enorme. Vamos
supor que Mozart tentasse imaginar sensitivamente a sua própria sinfonia. Ele teria que levar a duração real dela. Para escrever
leva muito mais tempo que para executar. Uma obra de vinte minutos pode levar horas para ser escrita.
Espero que vocês possam vencer aqui neste curso, a doença que, para a inteligência brasileira de um modo geral, é a
pior doença, que é a falta de confiança na Inteligência, que induz ao fanatismo, ao misticismo, esperar milagres, expressando os
fatos daquilo que você menos deveria saber, ou você necessitar de uma autoridade que te dê segurança, ou seja, você acreditar
que 2 + 2 = 4 porque papai falou. É claro que o papai tem razão, é evidente, e você deve acreditar nisso, mas não porque o papai
falou, pois se o satanás em pessoa te falasse isso, também era para acreditar.
Conseguir distinguir a autoridade do sujeito, e a crença por autoridade. Se Aristóteles, ou Platão, falou algo, significa
que o homem tem autoridade porque falou a verdade, e não que é verdade porque a autoridade falou.
Esse complexo de autoridade que existe no Brasil, onde todo mundo precisa de uma autoridade para você acreditar em
algo, ou então, você só acha que só será inteligente se sempre duvidar de todas as autoridades. Isso é uma estupidez. Não se trata
nem de você obedecê-las, nem de contestá-las, mas de você ter uma cabeça suficiente para você pensar, e pensar igual a qualquer
outro sujeito que se coloque no objeto do problema. Em 2 + 2 = 4, é para todo mundo encontrar o mesmo resultado,
dogmaticamente. Não porque uma autoridade mandou, mas porque é assim.
Se vocês conseguirem superar isto aqui, adquirirem aquela condição de terem a inteligência própria, alcançar as
verdades universais necessárias, vocês irão colocar como que uma ilha no meio de uma vida mental caótica, que é a vida
brasileira, irão criar condições de segurança, ou seja, condição de confiança em si mesmos. Condição esta que, a intelectualidade
brasileira nunca tem. Toda a nossa vida intelectual é marcada por uma hesitação, por uma dependência da autoridade estrangeira.
Nós nos tornamos dependentes deles, porque nós necessitamos deles, e isto porque nós não somos capazes de averiguar por nós
mesmos o que é e o que não é. Entretanto, você querer se rebelar contra eles, também não funciona. Você se livra da cópia servil,
não no momento que você se rebela, mas no momento que você se torna mais forte do que ele. Portanto, não se trata de acreditar
ou rejeitar um conhecimento mas, sim, de você se perguntar se você pode fazer alguma coisa.
Todos os nossos movimentos culturais nacionalistas foram marcados por um instinto de rebelião servil. Rebelião servil é
um sujeito que cisma que existe uma autoridade, por quem ele está sempre rebelado contra ela. Só que, se a autoridade morrer,
ele está liquidado. É preciso ter um pai para poder bater o pé contra, e dizer que é independente e, amanhã, o pai morre, você
está sozinho e não sabe mais o que fazer.
A idéia básica do curso foi a de retomar o projeto originário da Filosofia como ciência suprema. Não como uma
atividade paralela ao mundo da ciência, como se tornou costumeiro nos últimos 150 anos ( aproximadamente ). Retomar este
projeto, sem que a Filosofia se reduzisse a uma ciência em particular, ela adquiriria nesse caso a dimensão dessa ciência por
excelência, mas não se distanciando de que em cada um dos seus momentos, o pleno rigor demonstrativo, que é característica da
própria idéia de ciência, como nós vimos antes. A idéia de ciência, como foi aqui apresentado, não é inteiramente fiel ao texto de
Platão. É como se fosse o Platão relido à luz do Edmund Husserl.

4 EVOLUÇÃO E TRANSFORMAÇÕES DA IDÉIA DE CIÊNCIA

Também é bom saber que essa idéia de ciência nunca foi contestada realmente por ninguém. É a idéia que está presente
em todos os esforços científicos da humanidade, desde que alguém a expressou, e mesmo antes. Porém, essa mesma idéia ao
tender a uma realização, ela assume formas variadas. Ou seja, se nós perguntarmos assim: dadas essas condições para que uma
ciência seja verdadeira, quais são os conhecimentos reais e efetivos que cumprem essas condições? A resposta será muitíssimo
variada, e a primeira resposta que nós teríamos foi dada pelo próprio Platão, e é uma resposta com a qual nós já não podemos
concordar hoje em dia. Isto porque Platão acreditava que somente atendiam plenamente a essas condições o estudo dos
arquétipos, ou idéias, ou formas. E, não dos seres humanos, ou do empírico.
Uma coisa é o conceito de ciência verdadeira, que é a idéia pura de ciência. Outra coisa é a ciência efetiva que alguém
desenvolve visando atender a essas condições. Com relação à idéia pura, jamais houve contestação. Porém, quanto à realização
concreta, já é um assunto tão polêmico que o próprio indivíduo que formulou as condições, ao tentar realizar, já oferece uma
alternativa que a geração seguinte, com Aristóteles, já não pode aceitar.
A história da Filosofia combinava os esforços para retornar desde o estado real das ciências, a cada momento ( a ciência
se desenvolve, entra em crise, se problematiza, se extingue, sai de moda, afunda, e aparecem novas ciências ), à idéia pura.
Como se fosse um recomeço, uma refundamentação.
A primeira dessas refundamentações é do próprio Platão. A segunda é de Aristóteles. A terceira é dos filósofos
escolásticos. A quarta é de René Descartes. A quinta é de Kant, sob o idealismo alemão. A sexta é do positivismo de Comte. A
sétima é de Husserl. E, esta última, é recomeçar do zero. É como se dissesse: o estado presente das ciências não atende
satisfatoriamente à idéia pura de ciência.
Assim, o avanço dos conhecimentos prossegue de acordo com duas linhas: uma é a que vai sempre em frente,
avançando, apresentando novos conhecimentos, fundando novas ciência, abrindo novos campos de investigação, etc. A outra
linha é um movimento de correção periódica do curso. É como se fosse o motor e o leme de um barco. Não basta só andar, mas
para aonde está andando.
A insatisfação dos grandes filósofos com o estado do conhecimento, tal como se apresentava aos seus olhos, parece que
a história da cultura seja pontilhada desses retornos. Dos quais nós poderíamos assinalar sobretudo esses, que seria o próprio
Platão, que decide expressar a idéia pura de ciência, embora essa idéia não estivesse sido expressada por extenso, ele não estava
retornando a um exemplo historicamente anterior, mas a uma espécie de arquétipo intemporal.

Aristóteles. Porém, ao tentar desenvolver a ciência propriamente dita, com determinados obstáculos ( ele expressou a
idéia, mas não conseguiu realizar de modo satisfatório ), então, logo a partir desse recomeço platônico, existe um segundo
recomeço com Aristóteles, que vem com tanta força que Aristóteles funda a maior parte das ciências que nós conhecemos hoje.
A ciência da Biologia, é ele quem formula as bases. A ciência da Física, da Lógica, da Política, são todos conceitos aristotélicos.
Não existia nada disso. Nós estamos tão acostumados com a Biologia, a tanto tempo, que nós pensamos que ela brotou em
árvore mas, esse esquema, essa delimitação de um certo tipo de objeto, como biológico, isso foi um pensamento de Aristóteles.
A maior parte dos conceitos que nós usamos, conceitos-chave como por exemplo, conceito de causa, de espécie, de gênero, tudo
isso, começa com Aristóteles. De modo que ele “bola” as principais ciências e os conceitos-chave principais da ciência. E isso
continua até hoje.

O Cristianismo. Porém, esse mundo aristotélico se desenvolve em determinada linha até que chega a um ponto de
crise, na medida em que se torna incompatível com outros dados da realidade que se desenvolveram à margem dele.
Principalmente o próprio Cristianismo, que inaugura certas noções que são perfeitamente estranhas ao mundo aristotélico. Uma
delas que viria a alcançar uma importância fundamental ( inclusive para nós hoje ), é a própria noção de História. O
desenvolvimento humano no tempo, como sendo uma espécie de linha única, que pode e deve ser vista como um
desenvolvimento orgânico da humanidade, com começo, meio e fim, isso é uma idéia inaugurada pelo Cristianismo. A idéia da
individualidade, inclusive da inteligência individual, de psique individual, que para nós hoje é tão óbvia ( cada um tem sua
individualidade ), essa idéia, para Aristóteles, era muito difícil de entender. Para Aristóteles existia uma inteligência só.
Também, a idéia de fim do mundo, de que o mundo pode acabar, que existe uma coisa antes do mundo, e outra depois do fim do
mundo - para Aristóteles o mundo era eterno.
Na medida onde esses elementos todos, que não são de origem filosófica, são de origem religiosa, vão entrando na
mente, nos hábitos, nos valores das pessoas, chega a um certo ponto onde isso começa a entra numa certa contradição total com
o mundo aristotélico. Por exemplo, Aristóteles acreditava que existiam dois planos de inteligência, que ele chamava de intelecto
agente e intelecto por si. O intelecto por si é um para cada um; o intelecto agente é uma espécie de inteligência cósmica de que é
uma só para todos. Ele acreditava que quando você morria não sobrava absolutamente nada, somente sobrava o intelecto agente,
e que esse era um só. Assim, a idéia da imortalidade pessoal seria inconcebível dentro do mundo aristotélico.
Na medida que as pessoas iam à igreja, rezavam, acreditavam nisso e, ao mesmo tempo, liam Aristóteles, era impossível
que, mais dia menos dia, não percebessem que havia uma contradição a isso. Essa contradição, que não era uma só, mas um
monte delas, ainda se agrava pelo fato de que a noção aristotélica de intelecto universal foi endossada por filósofos islâmicos,
que a consideraram compatíveis, sobretudo com as expressões superiores da mística islâmica, que era uma mística de
reintegração do indivíduo ao próprio ser divino, de anulação do indivíduo com o ser divino, era a dissolução do indivíduo.
Isso tudo dava a impressão que Aristóteles estava argumentando em favor dos infiéis ( aos olhos do Cristianismo ).
Imaginem, então, na Idade Média, você ter todo o mundo grego, cuja cultura a Europa dependia, lutando a favor do outro lado.
Era complicado.
Quem procura responder a isso, e reunificar a cultura européia é São Tomás de Aquino. Ele consegue dar uma expressão
unificada onde, o aristotelismo, a cultura grega, a romana, etc., tudo parece coerente de novo. Então, essa é uma grande reforma.

Descartes. A outra grande reforma foi empreendida por René Descartes, que se depara com um fato, que para nós ainda
é muito atual, que é de que a cultura se desenvolveu demais, que tem gente demais falando coisas, que existem muitos livros,
que não dá para você ler todos, que não dá para você saber tudo, e quanto mais você lê, mais confuso fica. Esse é, na verdade, o
ponto de partida de Descartes. Ele havia estudado muito na sua juventude, inclusive com filósofos escolásticos, e tinha saído de
lá mais confuso do que tinha entrado. Assim, ele vê necessidade de refundar o mundo do conhecimento numa base subjetiva,
individual, não-coletiva. Ele descobre que é necessário acreditar no indivíduo, que ele é capaz de encontrar o fundamento do
conhecimento por si mesmo, e em si mesmo, na sua própria experiência interna, e não simplesmente nas provas oferecidas pela
Ciência socialmente vigente.
Essa é uma das grandes conquistas, e ela ainda é coerente com o desenvolvimento do Cristianismo. Por isso mesmo que
ela é uma perspectiva estritamente individual, pessoal e não-coletiva. O assunto da salvação da alma é pessoal, ninguém pode te
ajudar. O Cristianismo tem essa ênfase subjetiva, pela afirmação da imortalidade da alma individual, pela afirmação da
individualidade da inteligência, e pelo desenlace pessoal da questão da salvação da nação. É lógico que uma filosofia que fosse
assim, impessoal, coletiva, desde as suas bases mesmas, inteiramente objetivista, como a de Aristóteles, nunca bastaria para a
questão. Ou seja, além de você ter os motivos da certeza objetiva, é um fundamento de certeza subjetiva. Essa é a pergunta de
Descartes: não apenas qual é o fundamento real do conhecimento mas, como eu, indivíduo real, posso encontrá-lo? A novidade
que Descartes introduz é o eu. Ele pretende encontrar o fundamento da certeza dentro do próprio eu, no ato reflexivo do próprio
eu, e não na verificação de uma evidência externa, como os filósofos de até então.
Veja que em toda a obra de Aristóteles, Platão, Sto. Tomás de Aquino, os escolásticos, o indivíduo humano está
completamente ausente, ou seja, a Filosofia é igual para todos. A escolástica é coletiva, onde todos os assuntos são tratados
segundo uma terminologia uniforme, conceitos, técnicas uniformes. Tudo dentro de uma coletividade intelectual vigente,
altissimamente treinada. Eram profissionais de Filosofia, por assim dizer.
Assim, Descartes inaugura a Filosofia do amador, que raciocina sozinho, na sua casa. Isto porque este amador, esse
investigador, esse buscador de conhecimento, ele vê que existe uma ciência estabelecida, uma ciência que tem uma autoridade
coletiva, mas ele também vê que ela contém contradições. E, ele como indivíduo, por mais que ele tente confiar na autoridade da
ciência recebida, ele não pode fazer isso sem que ele tenha a condição de que ele possa verificar isso pessoalmente. Assim, ele
não garante que uma coisa seja certa, é preciso que eu tenha a evidência de que ela é certa. E essa evidência é uma conquista
pessoal. Assim, Descartes faz essa grande descoberta de que o fundamento da atividade filosófica está no encontro de certas
evidências universais, por assim dizer, externas. O fundamento da Ciência se dá na própria consciência humana.
A primeira certeza que o indivíduo tem não é a certeza do mundo, de Deus, da Ciência, da religião. Isso tudo são
certezas que ele vai descobrir depois. São certezas secundárias, e que dependem de uma anterior, que é a certeza de que a
consciência está presente, de que o indivíduo tem certeza. Esse é o fundamento subjetivo. Assim, se o homem busca uma
evidência, é ele mesmo, ou seja, a autoconsciência é que é o fundamento do conhecimento. Com isso, ele traz de volta uma
tradição pré-Platão, que é o famoso “Conhece-te a ti mesmo”, de Sócrates. Aquela linha socrática, que é a do exame, do livre-
exame feito pelo indivíduo isolado, que não começa na Academia, começa pelo amador ( Sócrates era um empreiteiro ), pelo
indivíduo que se investiga.
Porém, essa tradição do livre-exame, tão logo começa com Sócrates, ela fica esquecida durante mais de mil anos, para
somente retornar com Descartes. É uma reconquista fundamental, porque todo o restante do desenvolvimento da Filosofia, desde
Platão até Sto. Tomás de Aquino, é todo um empreendimento coletivo. O desenvolvimento das várias ciências e da Filosofia são
sempre feito por grupos humanos, mais ou menos organizados, como a Academia Platônica, o Liceu Aristotélico, e as
Universidades em geral.
Quando Descartes larga tudo isso, como um cidadão comum fechado em sua casa, tentando consigo mesmo, reconstruir
dentro de sua própria mente, o mundo do conhecimento, ele está retomando a uma das sementes da própria Filosofia, que é de
Sócrates.

Kant. A próxima grande retomada é com Kant, que empreende a busca da certeza, não no sentido cartesiano, na
certeza íntima, mas a pergunta fundamental é: “Por quê todas as ciências não progridem do mesmo modo?” “Por quê uma vão
para frente e outras não vão?” “E, particularmente, por quê todas as coisas que estão mais atrasadas são justamente aquelas que
tratam dos assuntos mais importantes: Biologia, Metafísica, etc.?” “Por quê as ciências que teriam que nos dar respostas dos
problemas mais graves, e mais universais, não progridem tanto quanto deveriam, mesmo usando o método cartesiano?”
Kant se preocupa com a organização do mundo da ciência como um todo. Saber qual é o lugar de cada uma. Kant,
praticamente, vai dividir as ciências entre aquelas que tratam dos objetos de experiência, e aquelas que tratam das condições
internas. É como se fossem as ciências do objeto do mundo, e as ciências do sujeito, do homem. A segunda divisão de Kant é a
de que todos os dados da experiência são dados da experiência humana. Portanto, todo o nosso conhecimento é, por assim dizer,
co-proporcional à própria forma humana, a qual nós não podemos escapar. Isto quer dizer que as respostas às perguntas
fundamentais da Metafísica, sobre Deus, imortalidade, etc., só podem ser encontradas sob a forma humana, e não sob a forma de
uma objetividade externa. Não podemos encontrar provas da existência de Deus fora de nós, na natureza.
São Tomás de Aquino, os escolásticos, acreditavam que a prova da existência de Deus está na própria natureza. Kant diz
que a natureza não é, senão, uma representação que nós mesmos fazemos, a partir de informações mais ou menos esparsas dos
sentidos, que a nossa forma humana unifica na forma de conhecimento humano. Portanto, a nossa visão da natureza é
determinada por categorias de espaço e de tempo, que não estão na natureza, mas em nós. Kant liberta o homem de uma espécie
de objetivismo que procuraria no mundo externo as provas das respostas das máximas perguntas e devolve o homem a si mesmo.
A resposta está em você. Está na própria experiência da sua alma. Você verá a exigência de Deus, a exigência da imortalidade,
etc., e não uma prova externa. A idéia de uma prova científica da imortalidade, para Kant, seria o absurdo dos absurdos. Assim,
para Kant, o homem não poderia encontrar uma prova, uma evidência de Deus, da imortalidade, no mundo da experiência
externa, nem da experiência interna, no mundo físico. Mas, o homem pode encontrá-la no mundo da sua vontade, da sua
liberdade moral. A única prova da existência de Deus é a liberdade moral do homem.
A partir dessa divisão estabelecida por Kant, a coisa toma dois rumos. Um rumo é o do idealismo alemão, com Hegel,
Fichte, e Schelling, que, meio juntos, meio separados, empreendem a tarefa de juntar aquilo que Kant havia separado. E para
fazer isto eles desenvolvem a idéia da verdade absoluta, como algo que não pode ser encontrado, exceto no próprio
desenvolvimento temporal da natureza da História. O Absoluto Deus não pode ser conhecido como coisa, como físico. Ele só
pode ser conhecido no próprio fluxo da sua manifestação externa, à qual nós fazemos parte. Kant diz que o espírito absoluto é ao
mesmo tempo, uno - algo que existe em si mesmo -, e ele é para ser algo que tem consciência, que tem inteligência. No seu
desdobramento, na manifestação real, ele se duplica. E ele aparece sob a forma de natureza por um lado, ou de objetividade, e de
uma forma de inteligência, ou de subjetividade, por outro lado. Mas é a mesma coisa.
É fácil perceber como o seu ego, o auto-consciente, é algo frágil perante esse dado do tal da materialidade do mundo, de
tamanho descomunal. Você só pode conhecer, efetivamente, o que é objeto de experiência. Acontece que essa experiência é a
sua experiência humana. No que o mundo realmente é, nós só recebemos aquilo que é compatível com a forma humana. O que
está fora da forma humana, para nós, não tem sentido. Nós jamais saberemos se existe. Só quem pode saber se existe ou não é
Deus. Assim, como nós vamos conhecer Deus? Eu não posso conhecê-lo por experiência. Também não posso conhecê-lo como
ente subjetivo, cuja existência efetiva posso provar, como eu provo a existência de fenômenos físicos. Por outro lado, a minha
experiência interna também não ajuda em nada, porque a experiência que eu tenho de mim mesmo está enquadrada na categoria
de espaço e tempo, que são minhas mesmas. Assim, eu não saio nunca da forma humana. Estou preso dentro dela. E, ele diz que
o único índice, o único sinal que existe de um Deus, ou de uma imortalidade, é a liberdade humana. Mas, você não pode provar a
liberdade. Você não pode provar metafisicamente que o homem é livre. Ele diz que a liberdade é um imperativo categórico.
Você tem que agir como se fosse livre. É como se você estivesse condenado a isso. Eu não posso provar que o homem é livre,
mas eu não posso agir exceto se eu supuser que eu sou livre. Que eu sou o autor dos meus atos. Eu não posso agir supondo que
os meus atos sejam determinados por um outro. Ou seja, não existe prova teórica, nem de Deus nem da liberdade humana. Eu
não posso provar que eu sou livre, mas eu não consigo pensar de outro jeito.
Ele diz que o caminho para Deus é o caminho pelo qual o homem, ao invés de procurar provas de Deus, procurar
desenvolver a Metafísica como ciência, nesse sentido, ele aceita e assume a liberdade, na qual implica a própria responsabilidade
pelos seus atos, que você é autor de seus atos. E essa liberdade é que é a chave da divindade, da imortalidade, etc. O caminho
para as respostas metafísicas é um caminho que passa pela vontade humana, e não pela inteligência. É um caminho prático, e
não, teórico.
Por um lado, isto tem um mérito enorme, porque ele libera o homem para uma espécie de ciência religiosa mais pessoal.
Inclusive, a Igreja Católica jamais o perdoa por isso, porque, nesse sentido, não adianta você ter uma doutrina externa pronta,
com tantas provas, tantas demonstrações, porque é somente assumindo a sua própria liberdade que você vai chegar a conhecer
alguma coisa desse outro mundo do divino. Ele diz, “Se não tem prova de que eu sou livre, que Deus existe, não tem prova que a
alma é imortal”, porém, de fato, eu não consigo agir, a não ser com base nesses três pressupostos: liberdade, Deus e
imortalidade. Cada ato humano, se for moralmente responsável, ele pressupõe esses três pressupostos. Então ele diz que existe
uma espécie de lógica do ato moral, porque somente através dessa lógica é que nós poderemos adquirir convicção em Deus,
porém, essa convicção jamais poderá ser sustentada em provas, porque se eu pudesse provar que Deus existe, eu não seria
responsável pela minha crença em Deus.
Kant foi um dos grandes místicos da humanidade. Se você está sozinho, você é livre, é como se fosse um ponto num
espaço totalmente indeterminado, onde nada te segura, nada te prende, te exige, e você vai nos caminhos de uma determinada
crença, e não de outra, como uma exigência da tua própria liberdade, e não por uma prova externa. Assim, nós poderíamos dizer
que, para as pessoas que são sinceramente desejosas de uma vida espiritual mais profunda, Kant te dá uma maneira de salvação.
Para quem não está a fim de nada, mas está só querendo encher o saco da Igreja Católica, o Kant lhe dá todos os pretextos. Kant
também serve. Porém, a obra de Kant fecha as portas à Metafísica como ciência. Na verdade, ele não fecha totalmente a porta,
porque o próprio Kant tenta no fim da vida desenvolver uma nova Metafísica como ciência, a partir da própria noção de
liberdade humana, mas, aí ele morreu.
Assim, se podemos conhecer os objetos de experiência, sendo que isso está condicionado à nossa estrutura de percepção
de tempo e de espaço, a categorias lógicas, se só nós percebemos do mundo aquilo que é captável pela forma da esquemática
humana, e se tudo que está para além da experiência exclusivamente da sua liberdade pessoal, a geração seguinte ( não os
idealistas, mas os positivistas, um pouco mais tarde ), concluem que essas questões de ordem metafísica, religiosa, etc.,
dependem do arbítrio pessoal, e que portanto são questões que não têm importância cultural alguma. Isso foi feito por Comte.
Assim, Comte inaugura a ciência positivista, que trata dos dados da experiência e deixa de lado as questões metafísicas.
Isso também é uma grande contribuição, senão as ciências não teriam prosseguido, teriam empacado nas questões metafísicas.
Porém, o positivismo é uma das linhas de desenvolvimento possíveis a partir de Kant. A outra linha é o idealismo alemão.
No mundo universitário alemão, o esforço da geração imediatamente seguinte, que foi marcada por Schelling, Hegel, e
Fichte, o esforço é no sentido de reunificar os dois mundos, subjetivo e objetivo, que Kant havia separado tão radicalmente. Por
um lado você tem as ciências de experiência, a ciência aplicando os padrões lógicos, os padrões de percepção de espaço e tempo,
a experiência do mundo, que chega a resultados efetivos, etc., por exemplo, na Física. Por outro lado, temos o mundo do
conhecimento metafísico, que na verdade não são conhecimentos, e que dependem de uma indefinível liberdade humana, e que
portanto são não-conhecimentos.

O idealismo alemão. Os filósofos do idealismo alemão perceberam as conseqüências trágicas que essa idéia do Kant
poderia ter mais tarde, que seria simplesmente tirar a preocupação metafísica da jogada, que foi exatamente o que fez o
positivismo, e se prender apenas ao mundo da experiência sensível. Porém, para essa reunificação eles partiram da idéia do Kant
de que o conhecimento metafísico era um conhecimento de ordem prática, moral, e não, teórico, intelectual. E desenvolveram a
idéia de uma teoria da prática, de uma espécie de evidência intelectual, que não vem pronta num ato único, mas se desenvolve no
próprio tempo, no próprio tecido da vida real ( uma espécie de pensar, vivendo o pensamento da vida mesmo ). Era uma síntese
da teoria e da prática. Que teoria e prática seriam a mesma coisa. É um dos pensamentos mais complexos que a humanidade já
concebeu.
Nesse sentido, nós podemos colocar o que Schelling propôs: o absoluto, ou Deus, Ele é ao mesmo tempo, ser, real, e Ele
é também, conhecer, é a inteligência subjetiva. No processo da sua manifestação, que nós chamamos da criação, ele se desdobra
no aspecto objetivo, que é dado pela natureza, pelo mundo corpóreo, e num aspecto subjetivo, está representado na inteligência
humana. Parece que é um abismo e, de fato é um abismo entre o mundo da objetividade e o mundo da subjetividade. Por
exemplo, nós entendemos que a natureza está regida por leis que são matematicamente expressadas pelo princípio da
necessidade terrena. E por outro lado, nós entendemos que a nossa inteligência, o nosso ser humano está regido por um princípio
de liberdade, mas no absoluto, liberdade e a necessidade teriam que ser uma coisa só. Se não houvesse necessidade alguma seria
o caos total, e se não houvesse liberdade alguma, então, Deus não poderia ser um sujeito criador. Assim, os dois aspectos,
homem e natureza, em Deus, são uma coisa só: liberdade e necessidade, objetivo e subjetivo. Qual é, então, o processo de
retomada, redescoberta, dessa unidade primordial?
A grande pista para isso aí é dada pela Mitologia. Toda a nossa idéia atual sobre o mito, que o mito contém uma verdade
metafísica profunda a ser descoberta, quem colocou isso foi Schelling. As duas grandes pistas, de um lado, o mito relacionado à
criação artística, onde uma coisa subjetiva se torna objetiva, material, sem perder a presença do elemento subjetivo, de modo
que, para Schelling a Arte era a suprema atividade humana.
Os mitos são a linguagem divina por excelência, a linguagem absoluta. No mito, o objetivo e o subjetivo estão todos
misturados. Por isso que eles parecem non-sense. De modo que, se você vê na perspectiva correta, você vê que eles são a
expressão de uma unidade interior da divisão de objetivo e subjetivo. O Schelling é de uma profundidade assombrosa, de modo
que, todos nós vivemos num mundo schellinguiano, sem nunca termos lido Schelling. O movimento esotérico que está aí hoje, é
um Schelling estragado. Jung é um Schelling estragado. Schelling é um dos grandes marcos da história filosófica.

Evolução da Idéia de Ciência

- Sócrates-Platão: idéia pura de ciência.

- Platão: ciência das formas ou dos arquétipos

- Aristóteles: ciência natural ou ciência das coisas


efetivamente existentes

- Cristianismo: senso da história,


alma individual

- Santo Tomás de Aquino: harmoniza o cristianismo com


a ciência aristotélica

( R U P T U R A )

- Descartes: retorno a Sócrates; a consciência individual


como sede da ciência verdadeira

- Kant: conhecimento interno ( formal )


conhecimento externo ( material )

Idealismo Positivismo
por reação, por reação
surge Marx surge E. Husserl

Este quadro me permite ter uma visão do que está sendo discutido. Qual é o problema? Do quê se trata? Trata-se, em
última análise, sempre da mesma coisa: como atingir um conhecimento verdadeiro?
Em relação ao que seja conhecimento verdadeiro na sua idéia pura, dificilmente houve mudança. Aqueles que discutem
questões, tentam abalar a noção de idéia pura do conhecimento, são sempre filósofos menores, que estão aí só para chatear, e
estimular uma reação de algum grande filósofo. São geralmente os movimentos céticos que antecedem uma grande reação. São
sempre as mesmas dúvidas, sob uma outra forma que provocam uma reação.
Fichte já está incluído aqui, porque Schelling já é uma resposta a ele. Fichte resolve a questão do Kant pelo modo
radical, onde só existe o eu, o ego. Schelling prometeu mas não realizou, somente disse, afirmou, que o absoluto unifica o ser, e
o saber, o conhecer, o objeto do sujeito, mas ele não explica completamente como. O Schelling é uma promessa do
conhecimento, e não o conhecimento efetivo.
Hegel só acredita no conhecimento quando ele está totalmente desenvolvido num sistema. Hegel faz o sistema do
idealismo e o sistema do desenvolvimento da progressiva manifestação do espírito na vida histórica real, de modo que a noção
de teoria e de prática já foi para as cucuias a muito tempo. A própria teoria é a distinção da própria prática.
Hegel, Fichte e Schelling são pessoas profundamente voltadas para o mundo da ação, e não para o mundo da intelecção
pura. E, nesse mundo da ação, para eles, é onde justamente vai aparecer a idéia. A idéia do espírito está justamente ali, no real.
Segundo Hegel, essa manifestação do espírito é o tecido da própria História. A História é a dimensão suprema onde todas as
contradições se resolvem. Por isso mesmo é que Hegel não aceita as contraposições estáticas ( teoria contra outra teoria ). Para
ele, a teoria tem de que ser vista como um momento de um desenvolvimento dialético. A teoria errada não pode ser totalmente
errada. Isto quer dizer que, o que nós definiríamos entre o que é uma verdade objetiva, do que é o processo de descoberta dessa
verdade. Para ele, essa distinção não existe. O processo de descoberta é a própria verdade. Hegel diz que a história da filosofia é
a própria filosofia. A filosofia não tem nenhum conteúdo a não ser o desenvolvimento dialético das idéias ao longo da História.
E esse desenvolvimento dialético é o próprio conteúdo da ciência que nós chamamos de Filosofia, a qual, no fim do processo,
toma conhecimento de si mesma. Com isso Hegel retoma essa idéia de História, que havia sido enxertada ali com o Cristianismo.
A História é tudo.
A célebre formulação de Hegel: “A essência de uma coisa é aquilo que ela se torna. Não é aquilo que ela é em
potencial”. Para Aristóteles, a idéia de essência, é a idéia do que ela vira com o tempo. A essência de uma coisa é independente
dela existir ou não. Porém, Hegel diz que isso é somente uma potência de essência. Não é uma essência real, que é aquilo em que
a coisa se tornou. O sentido de um ato, é o resultado desse ato. Não há nenhum outro sentido. Se você tem uma semente, e você
quer saber o que ela é, você tem que plantar e, aí, ela irá se transformar em manga, tomate, laranja, etc. Isto quer dizer então que
a prática é a própria revelação da essência.
Todas essas coisas que estão em discussão vão dar nessa dupla raiz d o mundo ocidental que é, por um lado, o
pensamento grego, e por outro lado, o Cristianismo. A questão que nós estamos lidando ainda é a mesma: como é que nós vamos
conjuminar essas duas coisas?
Para Platão a essência praticamente não existe, ela é apenas uma idéia. Mas, essa idéia é independente da existência, ou
não-existência, da coisa. Hegel acredita na noção de uma essência real que se manifesta, não no mundo das idéias, mas no
processo temporal, através dos resultados. Para Hegel, tudo aquilo que é potência, não é nada. Só existe se estiver plenamente
desenvolvido. A potência que não se manifestou, não é potência.

Karl Marx. Karl Marx complementa Hegel no seguinte sentido: ele concorda com Hegel que os enigmas filosóficos
somente se desenvolvem e se resolvem na História. A História não é o desenrolar das idéias ou doutrinas, como dizia Hegel, mas
o desenrolar dos atos humanos, de indivíduos reais ( indivíduo, não considerado isoladamente, como se fosse uma essência
metafísica, mas o indivíduo unido a outros indivíduos como um sistema de relações determinadas ). Por exemplo, nós não
estamos aqui como indivíduos abstratos ( mas, como professor e aluno ). E, o indivíduo real, considerado fora dessas relações
que demarcam as suas relações com os outros não é absolutamente nada. Nunca existiu um indivíduo assim. Um indivíduo assim
seria apenas uma potência de ser humano. Porque quando alguém nasce, já nasceu filho de alguém, num determinado lugar, e
não num outro, então faz parte de um conjunto de relações.
A História é a história dos atos humanos, considerados no entrelaçamento total das suas relações ( econômicas,
jurídicas, políticas, etc. ). Marx radicaliza a idéia de Hegel de que a prática é teoria. Marx vê os atos reais, físicos, econômicos,
militares, políticos, etc. Daí, ele pergunta como nós podemos descrever o mundo baseado num sistema dessas relações humanas?
Ele também vê que esse sistema não é estático, que ele muda, então, ele pergunta: nessa mudança, quais são as relações decisivas
cujas alterações, dependem das alterações de outras regras? Ele tem a impressão que estão nas relações econômicas.
A História é a história dos atos humanos determinados por um conjunto de relações, as quais, impossibilitam outros
atos. Por exemplo, se um é pai, e o outro é filho, então, o filho não pode agir como pai. Está excluído. Fim de papo. É
incongruente. O ato fica sem efeito. Se é patrão e empregado, patrão não age como empregado, e empregado não age como
patrão. Essas relações são de uma complexidade formidável. São relações de âmbito econômico, político, jurídico, psicológico,
etc. Vendo que o segredo do enigma somente seria resolvido se fosse possível descrever esse sistema de relações, ou seja, contar
a História, contar o sistema de relações existente de atos determinados, e como ele evoluiu com o tempo, Marx pergunta: como
fazer isso? Ele vê que a modalidade mais simples e estável é a Economia, porque você pode, facilmente, encontrar quatro
sistemas básicos: um é o que ele chama de comunidade primitiva, que é uma espécie de socialismo, depois, um outro que ele
chama de feudalismo; outro que é o capitalismo, e um outro que seria o socialismo, que era uma coisa que só existia em germe.
Apenas os três primeiros ele podia identificar.
Assim, vendo essas relações econômicas como mais estáveis, ele acreditava que, para cada um desses sistemas havia
uma infinidade de sub-sistemas que podiam se desenvolver em cima desse sistema econômico, mas sempre ligados a esse
sistema de base. Este é o famoso materialismo histórico.

Positivismo. A partir de Kant, existe uma outra linha de desenvolvimento, que surge com o Comte, que é o
positivismo, que é a proposta da organização do mundo das ciências como sendo conhecimento positivo. O conhecimento
positivo é o conhecimento afirmativo, provado, dentro dos seus próprios limites, e que se limita, sobretudo, ao mundo da
experiência. Lida, principalmente, com a experiência sensível. Abandona as questões da metafísica, não exatamente a liberdade
humana, na maneira como entendia Kant, que vê que a liberdade humana é uma só para todos, que, o que existe de imperativo e
categórico é igual para todos os seres humanos, mas o positivismo não admite exatamente isso, e sim, ele coloca entre parênteses
essas questões, deixando-as ao arbítrio de cada um.
Essa é uma tendência que ainda existe hoje, no sentido das questões metafísicas, religiosas ( todo mundo tem direito de
ter a fé que quiser; todas as crenças são igualmente neutras do ponto-de-vista da Ciência ). A Ciência não pode opinar sobre isto.

Husserl. Aí chegamos ao ponto que nos interessa, que é onde Edmund Husserl faz a mesma pergunta que todos
fizeram. Resume todas essas perguntas dizendo que, se as ciências tem que se ater apenas ao mundo da experiência, se as
ciências positivas ( Física, Biologia, etc. ), se tornam donas do mundo conhecimento, isso se deve unicamente ao fato de que elas
são ciências. Se não fossem válidas não seriam ciências. E o que as torna ciências? Qual é o princípio da sua cientificidade? Esse
princípio pode ser estabelecido pelas próprias ciências positivas? O estudo da totalidade dos fenômenos físicos poderia me
informar qual é o princípio de validade do conhecimento físico? Se elas são ciências é porque obedecem a uma idéia pura de
ciência, a uma determinada idéias de ciências que elas não poderiam fundamentar.
Assim, aceitando a idéia de ciência positiva, ele procura levá-la mais adiante, dizendo que as ciências somente têm
autoridade na medida que são ciências. E, só serão ciências se atenderem a determinadas condições que não dependem de
nenhuma delas. A Biologia, a Química, a Economia, são ciências. Por quê o conhecimento que elas produzem é válido? O
conhecimento dos fenômenos econômicos me dirá qual é o princípio que valida a Economia como ciência? Tudo isso, para ele,
depende da idéia mesma de Ciência. A idéia mesma de Ciência é o que é o objeto de algo chamado de Teoria da Ciência. E, para
a Teoria da Ciência restabelecer o que é Ciência, ela o tem que estabelecer cientificamente, ou seja, ela é Ciência, por
excelência. O quê é a Teoria da Ciência? É o que chamam de Lógica.
O primeiro passo de Husserl será ele demonstrar que nenhuma ciência positiva pode legislar nada, em matéria de
Lógica. Nenhuma descoberta, seja em Física, Biologia, Matemática, etc., pode afetar em absolutamente nada o princípio da
Lógica. Seria uma absoluta autonomia da ciência lógica. Para refundamentar desde o início, já não seria como em Descartes (
uma descoberta subjetiva ), mas teria que ser um início apodíctico, indestrutível, como no começo, um começo que esteve
sempre presente no fundo de tudo isso.
Para recolocar a idéia de Ciência ele diz que ia resolver o que ele chama de “a crise das Ciência”, o que significa que
elas não são muito científicas. Nenhuma delas. Seria como “apertar o parafuso” de todas as ciências, para que elas se tornem,
todas, mais corretas. Reconstruir todo o mundo das ciências numa frase totalmente exata. Talvez esse seja o recomeço mais
radical de todos os outros. Ele deixa tudo entre parênteses, as questões da metafísica, etc. Ele diz que não sabe porque não tem
certeza de nada, das questões da metafísica, nem das questões morais, nem da História, etc. Ele diz que tudo isso só é válido se
for Ciência.
Assim, nós temos que saber qual é a condição que torna um conhecimento absolutamente verdadeiro e, em seguida,
saber se essa condição está presente em todos os conhecimentos verdadeiros. O que move o sujeito para aprender não é o
simples desejo para aprender, mas é o desejo de se transformar. É o desejo de ser amanhã o que você não é hoje. Sem isso não
adianta estudar nada. A partir do momento que você sabe alguma coisa, você já não é o mesmo quando não sabia. Agora, se eu
sei, e continuo a ser como se não soubesse... Se eu sei os parâmetros, os critérios, para uma tomada de determinada decisão, mas
ainda sinto a necessidade de perguntar, então, você não aprendeu nada. Depois de uns dez ou quinze anos de estudo disto aqui (
IAL ), você tem que não precisar de perguntar mais nada para ninguém ( na esfera prática ). Nós temos o direito de ter uma cota
enorme de perplexidade na adolescência e, essa cota tem que ir diminuindo. Agora, se você está perplexo, e não sabe o que fazer,
então será um problema, porque também ninguém sabe. Você tem que aprender a você responder às suas próprias questões.
Chega a um ponto que, se você não pode se ajudar, ninguém mais vai te ajudar. Você tem que aprender a tomar as suas decisões,
nem que seja por tentativa e erro. Aquela ilusão de que você pode ser guiado de tal maneira que você será poupado dos erros,
dos fracassos, de não estar seguro todo dia, isso tudo é sonho, ilusão, poesia e romance. Isso não existe. Você pode ser guiado
durante um período da sua vida para evitar quedas traumáticas, de certos erros, decepções, quando tem doze, quinze, dezesseis
anos de idade, os quais podem acabar com você. Entretanto, as mesmas quedas e decepções, aos vinte e cinco ou trinta anos de
idade, você tem que agüentar sozinho. Ninguém pode te poupar disso, e se o fizerem, estarão te fazendo um mal. O importante é
saber que nas questões existenciais ninguém tem as respostas. E, se eu as tivesse, eu não as daria, porque elas só servem para
mim. Kant dizia: “Não é possível você fazer nada a não ser com base na suposição de que você é o senhor dos seus atos”.
Sempre que nós agimos, o fazemos com base nesse pressuposto, porém, quando vamos raciocinar, nós erramos. O princípio
básico da ação humana é: “Fi-lo porque qui-lo”.
No entanto, como é que eu vou raciocinar, se o que eu fiz, eu conto a estória errada? Eu raciocino na base de que não fui
eu quem fiz, porque foram as condições externas, porque fui obrigado, porque não tinha outro jeito, etc. Existe uma tendência de
que, quando você fez uma coisa que te frustra, você diz que não era bem aquilo o que você queria, e se não era bem aquilo o que
eu queria, não foi bem eu quem o fez. Se não foi você quem o fez, significa que você mudou, então, o que você queria naquela
época não é o que você quer agora. Só que isso não é motivo para você, retroativamente, dizer que não foi você quem fez,
exatamente o que fez. Você queria, e se queria, você o fez. Depois, se deu errado, admita que escolheu errado. Se você não
reconhece isso, não vai aprender nunca. A perda da evidência sobre os seus próprios atos também contraria os princípios
fundamentais que tinham sido descobertos por Descartes. A certeza que eu tenho não te serve nunca. Se você concordou comigo
porque acha que eu sou um sujeito legal, também não adianta de nada. Se eu digo que A = A, mas você não tem firmeza disto,
mas concordou, quer dizer que você pegou isto como uma verdade, mas não como uma verdade absoluta. Você não captou
totalmente. Você recebeu a minha mensagem, mas não a mensagem do objeto, do A. Você prestou atenção em mim, e não no
objeto.
É claro que você tem que captar isto através do que eu pensei, mas o que eu pensei é como se fosse um canal para que
você chegasse ao objeto. Aquilo que você vê através de mim, você tem que ver sem mim. Senão, será como naquela parábola de
Buda: “O sábio aponta para a lua e o néscio olha para o dedo”. Você pode achar que o dedo é a lua. Você tem que tentar provar o
absurdo, até cansar, até descobrir que é um absurdo. Por você mesmo. Isto é para vocês entenderem que há certas coisas que o
ser humano pode negar, ele tem a liberdade de negar, porém, ficticiamente. Ele tem a liberdade de viver uma vida fictícia se ele
quiser, que é tomar as duas formas da mentira e da loucura. A mentira é quando você é o autor do mal, e na loucura, você é a
vítima. A neurose é uma mentira esquecida, mas você ainda acredita nela, então começa a mentir e termina mal.
5 CARACTERES GERAIS DA OBRA DE EDMUND HUSSERL

A obra do Husserl divide-se num certo número de etapas. É uma obra muito grande, pois ele era taquígrafo, e tudo o que
ele pensava de importante era passado para o papel imediatamente. Desse conjunto de anotações, ele publicou uma parte, e o
resto está sendo publicado até hoje. Existem um certo número de etapas que correspondem a determinados problemas.
Husserl era judeu tcheco, nascido na Morávia.
A obra de Husserl se divide-se em três etapas: a primeira é a colocação do problema da idéia pura de Ciência, da idéia
do conhecimento verdadeiro e o afastamento das alternativas falsas que impedem a formação de uma verdadeira teoria da
Ciência.
Para que exista uma verdadeira teoria da Ciência que expresse plenamente o conteúdo do que é o conhecimento
verdadeiro, as normas do conhecimento verdadeiro, etc., existem uma série de noções que estão no ar, e que precisam
preliminarmente serem desbastadas.
A segunda seria a formulação desta teoria e do método da teoria da Ciência.
A terceira seria a formulação do que seria a filosofia de Husserl. O que Husserl tivesse a dizer a respeito dessa ou
daquela questão filosófica concreta, ficou para o fim. Esta última parte só ficou conhecida postumamente, e as partes
comunicadas em vida que exerceram uma influência enorme em todo mundo, se diversificou em muitas escolas, que partindo
das primeiras bases, desenvolveram essas idéias num sentido completamente diferente do dele. Por este motivo, Husserl sempre
disse que nunca teve discípulos. Houveram algumas pessoas que desenvolveram algo a partir do que ele escreveu. Max Scheler
foi um deles. Scheler pega os indícios do método fenomenológico e desenvolve num determinado sentido. Heiddeger e Jean-Paul
Sartre, foram outros. Cada um desses desenvolve, parte de uma parte inicial da fenomenologia, do método, num determinado
sentido. Edmund Husserl sempre achou isso muito ruim, porque eles teriam que esperá-lo acabar de falar. Por isso o pensamento
de Husserl é visto de maneiras errôneas quando interpretado a partir da obra dos seus muitos discípulos.
A meta de Husserl é a restauração da idéia essencial da Ciência, a formulação do método essencial da Teoria da Ciência,
o julgamento do conjunto das ciências existentes, e a reformulação total do sistema das ciências. É a reforma total do mundo das
ciências. Este é o objetivo. Ele o põe desde o começo. Porém, ele tratando problema por etapas, exaustivamente, de modo que,
quando pegava um problema, ele nunca se contentava com aquilo, de maneira que não sobrasse mais nenhuma dúvida. É o que
ele faz aqui nessas investigações lógicas. Esse texto não é para ser esgotado neste curso. É algo para servir, em princípio, de
referência para nós o resto da vida. A dificuldade maior do texto do Husserl é o fato dele se estender demais sobre cada ponto, o
que, de um ponto-de-vista retórico, pedagógico, é um verdadeiro desastre, porque você acha que não vai mais sair daquilo, nunca
mais. O texto que está em suas mãos poupa vocês dos fatos intermediários das investigações dele.
Esta não é a principal obra de Husserl, porém, aqui é onde ele vai enfrentar as primeiras das grandes dificuldades, e
vocês verão porque muitas dessas dificuldades que se resolvem aqui se constituem de doutrinas filosóficas do século passado, e
que, embora já rebatidas inteiramente por ele, continuam presentes nas cabeças das pessoas, como hábitos arraigados. Tudo que
é hábito para nós, faz parte do natural. Se é hábito é uma segunda natureza. Quando você pensa de uma maneira habitual, você
pensa que as pessoas sempre pensaram assim, e que é da natureza humana. Isto quer dizer que, idéias que são destruídas, do
ponto-de-vista científico, continuam sendo de fato crenças profundas arraigadas e, às vezes, inconscientes, dentro das pessoas.
Lendo este texto do Husserl, entendi porque existe, da parte de tantas pessoas, dificuldades em acreditar que seja
possível o conhecimento objetivo: porque os obstáculos criados a respeito da idéia de conhecimento objetivo foram tantos, e de
tantas fontes, que acabaram por virar senso comum, hábito. Para desarraigar este hábito só há um jeito: ver de onde ele saiu e
você mesmo discutir com ele. Não apenas uma vez, mas muitas vezes, e sobre todos os aspectos, até que você o cerca de tal
maneira que ele não aparece mais. Isto quer dizer que esta leitura também tem um sentido psicoterapeuta. Esta leitura restaura o
indivíduo à confiança na inteligência humana. Só que dá um trabalho enorme.

6 INÍCIO DA LEITURA DAS INVESTIGAÇÕES LÓGICAS

PROLEGÔMENOS À LÓGICA PURA

Introdução

§ 1. A discussão em torno à definição da lógica e ao conteúdo de suas doutrinas essenciais

Ainda hoje estamos longe de uma geral unanimidade com respeito à definição da lógica e ao conteúdo de suas
doutrinas essenciais.
Sabemos que a Lógica trata das definições, dos silogismos, etc. Uma coisa é o conteúdo das técnicas lógicas, e quanto a
esse conteúdo não há muito o que dizer, pois todos sabem o que é um silogismo, premissa maior, premissa menor, etc. Quanto a
isso não há divergência. Mas, não é disso que Husserl está falando. Ele está perguntando, não qual é o conteúdo das técnicas
lógicas, mas, primeiro, sobre o conteúdo das doutrinas, ou teorias lógicas. Teorias que respondem ou deveriam responder à
pergunta: em que as técnicas lógicas se fundamentam? E, em segundo lugar: de que a Lógica trata? Qual é o objeto dela?
Depois de dois mil anos de Lógica, embora a ciência da Lógica esteja bastante desenvolvida, ainda não se tem clareza
sobre o de que ela está falando. Isto significa que o estudo da Lógica se atém ao aspecto empírico-prático, ou seja, sabemos
praticar a Lógica, sabemos aplicar suas regras, mas não sabemos exatamente o que estamos fazendo quando fazemos isso. O quê
é essa ciência a que chamamos lógica? Ela é uma formalidade, um conjunto de esquemas? Ela expressa leis reais que atuam na
realidade exterior ou leis da mente humana? Ninguém sabe ao certo. O próprio sucesso da Lógica contrasta com a ausência de
qualquer clareza quanto a esses pontos.

Das três direções capitais que encontramos na lógica, a psicológica, a formal e a metafísica, a primeira alcançou
uma preponderância decisiva.

Essa “preponderância decisiva” é válida até 1910. E, o que são essas três direções?
A primeira teoria que existe a respeito da Lógica e cada uma dessas teorias é uma direção na qual a ciência da Lógica se
desenvolve é a teoria psicológica. Ela diz: a Lógica é a ciência das leis do pensamento humano; é a ciência de como nós
efetivamente pensamos.
A segunda é a direção formal, que hoje ( 1992 ), é dominante, e que diz o seguinte: a Lógica é um conjunto de
esquemas que possibilitam a coerência do pensamento. Sendo que a coerência do seu pensamento nada tem a ver com a
veracidade dela, também não tem a ver com o processo real pelo qual nós pensamos. É como se fosse a regra do jogo, que dá a
esse jogo uma coerência, mas não quer dizer que essa regra de jogo corresponderia ao modo natural de nós pensarmos. A Lógica
seria uma combinatória que permite criar esquemas de pensamento coerente. Essa é a lógica dos computadores. A terceira
direção, metafísica, que é a de Aristóteles, diz que a Lógica é a tradução das leis ontológicas, das leis fundamentais do real, tal
como se manifestam no nível do discurso humano. “A Lógica é uma ontologia do microcosmo do discurso humano”. diz Frithjof
Schuon. Então, as leis da Lógica vigoram universalmente para o ser em geral, ou seja, se o discurso com a Lógica é coerente, é
porque o real é coerente.
Essas três direções estavam em disputa no tempo de Husserl ( 1910 ), sendo que nessa época a direção psicológica era
dominante no mundo universitário, mas sem que tivesse eliminado as concorrentes. Quando se diz que uma afirmativa foi
“derrubada”, “superada” ou “abandonada”, você precisa verificar se ela foi refutada satisfatoriamente, ou se simplesmente saiu
de moda antes mesmo de ter sido seriamente discutida. O jargão corrente dos debates intelectuais, mesmo nas universidades,
sempre confunde essas duas coisas. Aqui no Brasil é comum acontecer que, quando alguém apresenta um argumento contrário a
uma teoria, se diga que ele “derrubou” a teoria. As pessoas não sabem o que é uma teoria, e não sabem o trabalho que dá para
derrubar uma teoria. Você pode passar vinte séculos para derrubar uma, e às vezes não consegue. Dizem, por exemplo, que “a
queda do Muro de Berlim refutou o marxismo”.
Mas a conexão entre um fato histórico e uma teoria geral é altamente problemática. Não dá para se estabelecer essa
conexão tão facilmente. Para que esse juízo fosse válido, primeiro você precisaria provar que a teoria marxista contém como um
dos seus pilares, como uma das suas demonstrações fundamentais, essenciais, e não acidentais, a eficácia e a permanência do
Muro de Berlim. Mas demonstrar a conexão entre marxismo e a União Soviética já é complexo...
Você pode não refutar uma teoria, mas pode neutralizá-la como força histórica; por exemplo, você desaparece com
todos os livros que falam dela, ninguém mais os lê, e a teoria não tem mais força histórica atuando. Foi mais ou menos o que
aconteceu com a filosofia escolástica depois do Renascimento. Ninguém mais leu os livros escolásticos e isto ficou como uma
“prova” de que as teorias escolásticas estavam erradas ou não tinham importância. Mas a popularidade ou impopularidade entre
os letrados não nos diz se uma teoria é verdadeira ou falsa. O fato de uma teoria ter mais adeptos prova que ela é verdade? Não.
Pode acontecer que todos tenham se enganado juntos.
Assim, em 1910, a dominante era a teoria psicológica, porque ela abordava as questões de lógica com o espírito das
ciências empíricas que então obtinham grande sucesso a passavam por ser o modelo mesmo do conhecimento válido.

Mas as outras duas continuam propagando-se; as questões de princípio discutíveis continuam sendo discutidas; e,
no que toca ao conteúdo doutrinal, os distintos autores servem-se das mesmas palavras para expressar pensamentos
diferentes. Mesmo a lógica psicológica não nos oferece unidade de convicções.

Questões de princípio, algumas discutíveis, outras não; por exemplo, a Lógica deve produzir pensamento coerente.
Entretanto, uma questão que gerou desacordo universal está incluída nessa categoria. Se você segue a lógica da teoria
psicológica, você dirá que, as categorias são esquemas da percepção humana. Porém, como a percepção humana é
exclusivamente humana, pode ser que o mundo que nós vemos através dessas categorias seja totalmente diferente do que vemos.
Pode ser que aquilo que eu vejo como uma deformidade seja uma qualidade, e vice-versa. Se eu sigo a orientação formal, eu
digo: as categorias não são nada. São apenas grupos de palavras, de conceitos, que eu agrupo por similaridade, e que não têm
nada a ver, nem com o meu modo de ser, nem muito menos com o real. Se eu sigo a orientação metafísica, eu digo: as categorias
são, ao mesmo tempo, grupos de conceitos e aspectos do ser. Porém, esta questão continua sem resposta até hoje. Com relação a
pontos capitais da Lógica, existe a incerteza total.

§ 2. Necessidades de uma nova dilucidação das questões de princípio

A circunstância de que ensaios tão numerosos para impelir a lógica pelo caminho seguro de uma ciência não
permitam apreciar nenhum resultado convincente, deixa aberta a suspeita de que os fins perseguidos não se aclararam
na medida necessária, para uma investigação frutífera.

Ele tenta, com este texto, colocar a investigação das questões filosóficas no caminho seguro da Ciência. Temos que
tomar cuidado, pois Kant dá como exemplo modelar de Ciência que entrou pelo caminho seguro, precisamente a Lógica.
No começo do estudo da Lógica, não foi colocado direito com que fim estavam fazendo aquilo. Qual era o objetivo?
Isso quer dizer que se estuda a Lógica com três finalidades completamente diferentes. Então, talvez hajam três sínteses
completamente diversas, e não uma só.

A concepção dos fins de uma ciência encontra sua expressão na definição dessa ciência. Não que o cultivo
frutífero de uma disciplina exija uma prévia e adequada definição do conceito do seu objeto. As definições de uma ciência
refletem apenas as etapas de sua evolução. Não obstante, o grau de adequação das definições exerce também seu efeito
retroativo sobre o curso da ciência mesma; e este efeito pode ter influxo escasso ou considerável, conforme a direção em
que as definições se desviem da verdade. A esfera de uma ciência é uma unidade objetivamente cerrada. O reino da
verdade divide-se, objetivamente, em distintas esferas; as investigações devem orientar-se e coordenar-se em ciências, em
conformidade com essas unidades objetivas.

Ele diz que se existe uma confusão tão grande quanto ao rumo que a Lógica deve tomar, quanto à definição mesma da
Lógica, se é o rumo de uma investigação psicológica, se é o rumo de uma elaboração formal, de uma construção formal ( caso
dos computadores ), ou se é o rumo de uma fundamentação de ordem metafísica, se não existe qualquer clareza quanto a isso, é
muito provavelmente porque os fins da ciência da Lógica não foram aclarados desde o início.
Uma Ciência é definida em objeto material, objeto formal motivo, e objeto formal terminativo. Objeto material é “o
quê?”; por exemplo, Economia e História: o objeto de estudo das duas é o mesmo, que é a sociedade humana. Objeto formal
motivo é o “por quê?” você estudou, por onde, por que lado você se encaminhou no estudo? É o “pelo que”. A História estuda do
ponto-de-vista do encadeamento, das seqüências temporais. Sempre isso. Não existe história simultânea. A Economia olha do
ponto-de-vista de um dos componentes dessa sociedade humana, que seria a aprovação e distribuição das riquezas, em particular.
Isto não é nem cronológico, nem não-cronológico. Não podemos conceber a idéia de ciência histórica sem uma sucessão de
acontecimentos, porém a Economia pode ser com sucessão, ou sem sucessão. Por exemplo, pode haver uma história econômica,
pode haver um estudo estrutural de uma sociedade, numa determinada fase, e isso é Economia também. Pode também haver a
investigação de leis que regem essa Economia, portanto, leis que expressam uma repetição. Objeto formal terminativo, é o “com
que fins?”, ou seja, que pergunta você pretender responder, em última instância, ou seja, se a sua ciência estivesse plenamente
realizada, o que ela te daria? Qual seria o resultado dela? Quando essa ciência estiver pronta, você terá feito o quê? No caso da
Economia diríamos que ela visa, naturalmente, criar uma técnica. Na hora em que você conhecesse tão bem as leis e o
funcionamento da Economia que você pudesse regulá-las, estaria realizado o objetivo dessa ciência. A ciência econômica não se
concebe, exceto como prolegômeno a uma prática, porque ela visa a dar ao homem um conhecimento que representa
automaticamente um poder. Podemos dizer o mesmo da História? Podemos dizer que o historiador deveria conhecer a História
do passado tão bem, de forma que, daí para frente, ele pudesse regular o curso da História? Seria demência. Portanto, não é isso
que você espera da História. Não é essa a finalidade dela. O princípio ( poderíamos dizer assim ) da História seria compreender
tão bem o passado que, com ele eu ficasse compreendendo o presente. Com uma História que realizasse isso, eu passo a entender
o meu estado de coisas, e sei de onde ele saiu. Se a História realizasse isso, poderíamos dizer que ela alcançou o seu objetivo.
Esse objeto, em última análise, é de ordem teórica.
Com isso, nós podemos fixar a índole, não totalmente teórica, das ciências da História e da Economia:
- objeto material: ( é o mesmo ) a sociedade humana;
- objeto formal motivo: ( diferente ) uma olha por um aspecto de sucessão temporal; outra olha somente sob o aspecto
de uma par seletiva ( histórica ou não );
- objeto formal terminativo: uma visa a produzir um domínio tecnológico, e a outra se esgota no objetivo teórico.
A hora que você definiu História e Economia, já está dado nessa definição, a expressão da finalidade das ações, aonde
ela pretende chegar, ou seja, qual é o conhecimento que, uma vez dado por essas ciências, eu consideraria como missão
cumprida.
Você pode dizer que uma ciência é teórica ou prática, não com relação ao seu objeto material, ou objeto formal motivo,
mas com relação aos seus fins. Se é um conhecimento que deve lhe dar um poder de atuação para fazer isso ou aquilo então é
uma Ciência prática. Se é um conhecimento que deve lhe dar, simplesmente, uma intelecção, um entendimento de algo, então é
uma Ciência teórica.
Porém, Husserl diz que não é verdade que o cultivo de uma ciência requeira uma definição mais ou menos confusa,
parcial, por exemplo, o conceito de Economia: Husserl, partindo de uma hipótese, diz que ela não se refere unicamente a riqueza,
e ele diz que o sujeito nasce, está respirando, ele está provendo a sua própria subsistência, e isto é um ato econômico. O sujeito
que vai a um jogo de futebol e, ao se distrair, ele está atendendo uma necessidade humana que não é de ordem, nem ético, moral,
nem de ordem teórica, mas de ordem econômica. Então, isso é uma crítica da definição de Economia.
Se você pensar a partir daí, você vai entender que muitas vezes os processos de fatos econômicos não são
compreendidos, porque a definição de Economia é demasiado estreita em relação à totalidade dos fatores em jogo. Por exemplo,
todos os economistas, em geral, acreditam que um dos fundamentos da Economia é o princípio da escassez. Se existe a escassez
de um produto, existe a ciência da Economia. Se existisse tudo em abundância, não haveria necessidade alguma da ciência
econômica. Este conceito já não pode ser aceito, segundo esta análise que Husserl fez sobre o corpo humano, porque não existe
nenhuma escassez de ar, não existe nenhuma escassez de energia em um mundo que, segundo a Física, é feito de energia.
Partindo disso, você vai poder reformular toda a ciência da Economia, abrangendo a multidão de assuntos que estão fora
do interesse tradicional da Economia. No entanto, antes da Economia ter levado em conta esses novos fatores, ou seja, no tempo
em que ela não tinha uma definição suficientemente ampla de seu próprio objeto, já existia ciência econômica e ela já fazia suas
descobertas. Por exemplo, esta definição de Economia que ele estava discutindo vai ser compatível com Karl Marx, que vê a
ação econômica como a totalidade das transformações que o homem introduz na natureza, e não somente quando ele lida só com
bens e com dinheiro.
XXXXXX estudou muito a obra de Karl Marx. O primeiro livro dele foi sobre Karl Marx. Quando ele enuncia esta
definição mais ampla da Economia, ele está dizendo que no marxismo está implícita esta definição mais ampla que, no entanto,
Karl Marx nunca deu. Ou seja, se você, baseado na definição acadêmica, universitária, de Economia, vai estudar Karl Marx,
você já não entende o que ele está falando, porque entra na abordagem da Economia, uma série de fatores que outros
considerariam extra-econômicos, e que no entanto ele vai considerá-los como o próprio centro da Economia.
O ar está totalmente fora do interesse da Economia, e ele só entra na Economia se faltar ar. Se começar a falta ar, a
atmosfera se polui, o ar começa a ser vendido em lata. Isso já acontece com a água.
Com isso surge o problema: o problema da escassez é falso. Não precisa que exista escassez para que uma coisa seja
objeto de estudo da Economia. Basta a possibilidade da sua escassez. Mesmo que a escassez seja forjada. Por exemplo, o
comércio de água não existia na Europa, mas no mundo árabe já era assim. A água era vendida a peso de ouro.
Pode haver uma forma mais requintada de escassez do que você estragar alguma coisa? E você estragou aquilo por quê?
Movido por uma necessidade econômica. Então quer dizer que, a Economia, que surgiu no século XVIII ( Adam Smith, etc. ),
todos eles acreditavam num princípio de escassez, e definem a ciência que estuda o conjunto da produção e distribuição da
riqueza. Porém, existe algo que está a disposição do homem, e que não pode ser considerado como riqueza porque não é um bem
econômico, mas pode se tornar um bem econômico amanhã ou depois. E pode se tornar um bem econômico artificialmente,
criado por uma outra necessidade econômica anterior, logo, o princípio da escassez não é o fundamento da Economia. Se a
escassez é gerada artificialmente por uma necessidade econômica anterior, então, a própria atividade econômica do homem não
pode ser explicada pela escassez. Deve ser explicada por alguma outra coisa.
Vamos supor que não houvesse escassez de nada. O homem nada produziria? A Economia clássica diria que não. Todos
viveriam da economia extrativa. Será que existiu, algum dia, o homem que não fazia nada? Tudo isso eram questões que
colocam que, embora a Economia tendo por objetivo descobrir determinadas coisas, antes que fosse ampliada a sua definição, a
ampliação dessa definição permite que você reesclareça essas descobertas e as coloque dentro de um plano, dentro de um
esquema mais geral, e mais correto.
Preleção II

19 de novembro de 1992
Husserl um dos autores mais difíceis de se ler porque ele não tem expressividade literária. Ele escreve como um
matemático. Vai colocando um encadeamento de idéias. Para quem está de fora, à primeira vista, é um texto chato! Para cada
ponto que ele aborda, ele repete de quatro a cinco maneiras diferentes, para a questão totalmente, e usando várias terminologias
possíveis. Isso tem um espírito científico, e não pedagógico. Ele lecionava na universidade, mas seria como num curso de
doutorado. Entre os alunos dele, você tem os maiores filósofos do século: Heidegger, Max Scheler, Hartmann, e outros. Ele era
um homem que tinha muitas idéias, sua cabeça não parava de produzir, e além dele escrever em taquigrafia, os alunos escreviam
para ele. Há vários textos dele que foram redigidos por alunos dele, e você vê a diferença no estilo dos textos que foram
redigidos pelo próprio Husserl, por Eugen Fink ou por Ludwig Landgrebe.
A grande pergunta dele surge da própria Matemática: por quê a Matemática é tão certa assim? Como se dá o fato de que
nós saibamos que ela está tão certa assim? De onde vem, qual é o fundamento da evidência matemática? Até que, no fim, ele vai
achar uma espécie de parentesco entre o fenômeno da consciência humana e a certeza matemática. Essa seria a grande
culminação do trabalho: a consciência é a morada da evidência. Não é necessário conhecer muita matemática para entender a
filosofia dele, mas é bom ter uma referência sobretudo do estado da Matemática na época, conhecer os autores a que ele se
refere, quais eram as questões que estavam sendo discutidas também.

[Retomada da parte inicial do texto. Reexplicação do que foi comentado até agora.]

Pergunte às pessoas: o quê é Lógica? O quê é Razão? Principalmente às pessoas que gostam de opinar sobre isso...
São três os tipos de opinião corrente: psicológica, metafísica e formal. Isto quer dizer que as idéias correntes que
constituem o conjunto de pressupostos mais ou menos inconscientes em cima dos quais ele se orientam, as idéias vêm sempre de
antigas doutrinas que foram apresentadas explicitamente por filósofos. Ou seja, as idéias que nós achamos que brotaram em nós,
espontaneamente, são uma herança cultural que vai como que filtrar através dos hábitos, e sobretudo através das significações
implícitas na linguagem. De modo que, certas teorias, para nós não surgem como teorias, mas como se fosse uma maneira
natural e espontânea de ver as coisas. Quando, na verdade, não é natural, nem espontâneas, mas como invenção de algum ser
humano. Tornam-se lugares comuns.
Só que, quando o sujeito formulou pela primeira vez, não era opinião dominante, porque senão ninguém formularia.
Depois aquilo vai se transmitindo às gerações seguintes, sobretudo através das nuanças que nós, automaticamente conferimos às
palavras. Nuanças que nós nos acostumamos a ouvir. Significações que nós estamos acostumados a ouvir. Por exemplo, se você
perguntar a qualquer pessoa: o quê é Razão? O quê é racional? Muitos dirão que racional é o que é matemático, o que é
científico, o que é exato. Isso é achologia. Você está dizendo vários nomes da mesma coisa. Vencida a primeira batalha, que é a
logomaquia ( luta com as palavras, com o conceito das palavras ), vamos falar da coisa propriamente dita. Não me dê sinônimos,
mas diga o que você ache que é Razão. Alguns vão dizer que é a própria estrutura do cérebro, que o cérebro funciona de acordo
com certas leis que são determinadas pela própria natureza. Você tem uma cadeia de neurônios que permite estabelecer nexos,
que são as sinapses, que vai transmitindo uma informação, e vai juntando essas informações em blocos. Essa seria uma maneira
do sujeito explicar como o cérebro funciona.
Se você perguntar pelo conhecimento que não é racional, o conhecimento intuitivo, a pessoa vai dizer que esse é um
conhecimento que você não pega com o cérebro. Agora, qual é a definição de racional, para uma pessoa que é contra o racional?
Se ela é contra é porque ela acha que é ruim. Se ela acha que é ruim, é porque ela sabe o que é! Mas, o quê é?
Apertando a pessoa ela vai dizer, mais ou menos, que é artificial. Mas, se é artificial, então, não pode ser o modo natural
de funcionamento do cérebro, a não ser que você seja contra o cérebro. Se é artificial, é um conjunto de esquemas. Daí caímos na
definição formal. Ao passo que antes, dizendo que a Razão funcionava no cérebro, caímos na definição psicologista. E disso
você não vai escapar.
Pode ser que você encontre um indivíduo que diga algo assim: a Razão é como se fosse um gigantesco computador que
controla o Cosmos. Controla sobre a realidade. Isso é a definição metafísica.
Assim, pessoas que passaram a vida pensando nesta questão, vão chegar a essas oferecidas como resultado de perguntas
que os seres humanos fizeram. Nós podemos nos posicionar com relação a uma ou a outra, e tendo posicionado nós podemos,
em seguida, ser contra ou a favor da Razão, definida formalmente, psicologicamente, ou metafisicamente. Por exemplo, eu posso
achar que o controle geral não satisfaz; posso ir contra isso. Posso achar que o mundo é absurdo, que a realidade é absurda, e que
Deus é mau.
Assim, se eu disser que a Razão é um esquema, é um conjunto de artifícios para dar coerência artificial ao pensamento,
eu posso achar isso bom ou mau. Eu posso achar que isso é muito útil, e eu posso achar que, com esse artifício, nós descobrimos
a verdade. Mas, também, posso achar que, justamente, por ser artificial, só nos leva a conhecimentos artificiais, que nos
enganam, e que na verdade precisamos apelar a uma outra fonte, intuitiva, sentimental, etc. Posso também dizer que a Razão é o
funcionamento normal do cérebro humano, e posso achar que isso é bom ou mau. Que isso é uma obra-prima da natureza que
funciona perfeitamente bem, nos leva ao conhecimento da verdade, ou então ao contrário. É um conjunto de conexões bio-
elétricas que nos faz ver tudo errado. Distorce a nossa visão das coisas. Eu posso adotar uma das três definições e, além disso,
posso me posicionar a favor, ou contra aquela coisa a ser definida.
O quê faz Husserl aqui? Ele vai, inicialmente, se posicionar a respeito dessas três formas. Ele vai colocar algumas outras
questões as quais dependem dessas três respostas ( formas ). E, tratando dessas questões, daí sairá gradativamente, e muito
trabalhosamente, uma resposta. Por isso ele chama de investigações, termo que não denota a defesa de uma idéia dada num
fenômeno, mas a busca de alguma resposta.
Como Husserl pensava por escrito, nós podemos lê-lo como se estivéssemos pensando naquilo, exatamente naquela
ordem. Ou seja, nós estamos ouvindo o sujeito pensar. Isso é bom para afastar a idéia de Filosofia como gênero literário. A
Filosofia não está no livro. Uma obra literária está na obra, materialmente, mas a Filosofia está no filósofo. Está no
conhecimento que ele tem, e naquele em quem ele transmite. Por isso que na Filosofia não há outro jeito para facilitar, senão a
transmissão oral. Por escrito é muito difícil. Para que você possa aprender alguma coisa, só pelo escrito, isso pressupõe uma
espécie de co-naturalidade entre a sua mente e a mente do escritor. Isso nem sempre se realiza.
Quando cessa a comunicação direta, começa o desentendimento, a diferença de interpretações. Enquanto você faz a
explicação direta, fica mais fácil, porque você capta por exemplo pela presença do sujeito, pelo tom de voz, que no escrito você
não captaria a não ser que o filósofo seja um poeta capaz de criar a atmosfera na qual aqueles pensamentos seriam
compreendidos. A não ser que você encontre um sujeito que tenha uma mentalidade parecida com o filósofo, e que entenda
daquilo, mesmo que seja só de ouvir falar. É o caso de São Tomás de Aquino com Aristóteles. São Tomás não sabia nem grego,
e no entanto foi o maior intérprete de Aristóteles até a época dele, e depois também. São Tomás leu Aristóteles numa tradução
latina feita a partir de uma tradução árabe! Como você explica que ele tenha compreendido tão profundamente? Por pensar
parecido, por uma afinidade.
Às vezes, mesmo com o ensino direto, a diferença de mentalidade, de personalidade, é tão grande que não permite que o
sujeito seja captado exatamente pela intenção que teve. Ele é captado parcialmente, e um aspecto lateral do seu pensamento é
ouvido como se fosse um aspecto central. Assim, é importante você notar se você tem um aspecto de co-naturalidade com o
sujeito. Se você tem, deu sorte, e se não tem você pode ter certeza que você vai se enganar muitas vezes. E vai ter que se corrigir.
Mesmo quando é uma coisa simples, por exemplo, um filósofo que teve um texto quase todo mal interpretado, como Descartes,
que aliás, como filósofo é literalmente quase perfeito. É tão elegante, tão límpido, que você entende ao contrário. Você acredita
que está entendendo porque parece que o que ele está falando é simples. Por exemplo, quando ele fala da seqüência de negações
que você fará quanto à existência das coisas, negação do mundo exterior, negação dos seus sentimentos, negação das suas
memórias, etc. É fácil você entender, por exemplo, que você não é o seu sentimento, que o sentimento é uma coisa que você tem,
que está em você mas não é você. Isso dá para entender! Entretanto, faça efetivamente a abstração dos seus sentimentos reais.
Procure ter autoconsciência que independa dos seus sentimentos. Uma coisa é você entender qual foi a proposta de Descartes,
outra coisa é você realizá-la para ver, materialmente, a coisa como ela é. Mas, em geral, as pessoas se contentam com o
entendimento da leitura, entender a filosofia literalmente, como se estudar Filosofia fosse ler.
A leitura representa para a Filosofia o que a partitura representa para a música onde, depois de ler, você tem que tocar. É
diferente do que é uma poesia, ou um romance, onde você leu, está lido. Uma peça, você assistiu, está assistido. A experiência
estética se esgota ali mesmo. O máximo que você pode fazer é analisar, recordar, etc., mas a experiência estética fica
inteiramente na hora da leitura. Você não precisa escrever o romance para entendê-lo.
No entanto, na Música, por exemplo, você, de fato, só chega a uma compreensão efetiva se você é capaz de executá-la.
A Música requer uma execução para você descrever esse ato. Há pessoas que estão habituadas e que, lendo a partitura, compõem
a música imaginativamente, ouvem mentalmente a música, mas mesmo assim não podem garantir que é exata.
Na Filosofia você tem uma reprodução de uma experiência intelectual, e se você não a refaz, você pode ferir uma
filosofia inteira, não adianta. Um exemplo disso seria você associar a própria leitura de René Descartes com alguma técnica de
relaxamento que lhe permitisse abstrair totalmente os sentidos, para poder pensar como Descartes. Daí você pode dizer se
entendeu ou não. Mesmo a leitura analítica não resolve nada.
Assim, ler é somente o começo, é para saber que existe. Analisar é apenas decompor de maneira que você possa guardar
a seqüência de operações. É aí que vai começar a Filosofia mesmo, é aí que você vai começar a filosofar, repensar para saber se
é verdadeiro ou falso. Ou seja, primeiro o sujeito precisa decorar a partitura para poder tocá-la e, depois de tocar é que ele vai ver
se foi bom ou ruim. A interpretação tem que ser boa senão ela pode estragar a música, ou pode mudar o seu estilo
completamente.
O ouvinte pode gostar da música por razões fortuitas, por exemplo, no meio da sinfonia de uma hora, pode haver uma
determinada melodia que o agradou, mas a melodia é um elemento, ela não é a música. Uma mesma melodia pode ser usada em
várias músicas, com melodias muito ruins, podemos fazer grandes obras. A melodia é como se fosse a matéria-prima. Por
exemplo, quando você vai a um restaurante, você não vai julgar a qualidade da comida pelo simples estado em que a carne
estava quando chegou ao restaurante. O que me interessa é saber o que o cozinheiro fez com essa carne. É aí que entra a arte do
cozinheiro.
Assim, diz Husserl, existem três direções capitais no que diz respeito à compreensão do que é a Lógica, ou o que é a
Razão, o que é a dedução matemática. A psicológica diz que a Lógica é uma ciência natural, experimental, que observa o
funcionamento do cérebro, o nosso modo de pensar. A formal que vê a Lógica como um conjunto de artifícios inventado pelo ser
humano para dar artificialmente, e a posteriori, uma coerência a um pensamento, que pode ter sido produzido por meios
propriamente incoerentes. A metafísica que diz que a Lógica é um conjunto de leis ontológicas, de leis que regem a própria
realidade.
Husserl diz que, apesar da Lógica ser uma ciência muitíssimo antiga, e que com respeito às suas técnicas, não sofreu
alteração desde o tempo de Aristóteles, ela ainda não alcançou clareza quanto à sua própria natureza, quanto ao que são
propriamente essas técnicas, por que elas funcionam, e qual é o fundamento da própria Lógica.
Ele destaca dois aspectos: primeiro, a definição da Lógica. A definição significa o que é o objeto em estudo, e qual é o
ângulo pelo qual essa ciência enfoca esse objeto, e qual é a finalidade. Veja que na definição do objeto, do modo, e da finalidade,
nos casos das orientações psicológica, formal e metafísica, essa definição é completamente diferente. Qual seria o objeto
material da Lógica psicológica? É o processo real do pensamento. É estudar como as pessoas pensam. Como se faz isso?
Observando como elas pensam, e retirando por indução. Pelo fato de que você vê que existem circuitos que se repetem, você
chega à conclusão que as regras naturais do pensamento são essas e aquelas. Esta é uma ciência que tem por objeto material o
pensamento real, como um fenômeno que efetivamente acontece na vida real, que o encara desde o ponto-de-vista de ciência
experimental, de ciência de observação, por indução, com o objetivo de formular as leis que expressam o modo real pelo qual
nós pensamos.
Qual é o objeto material da Lógica formal? Não é o pensamento real, mas o pensamento ideal. Não como nós realmente
pensamos e, sim, como nós deveríamos pensar para que o nosso pensamento fosse coerente. É uma combinatória que não se
interessa pelos fenômenos reais. Ela se interessa em conceber, inventar, um sistema de regras que permita o pensamento
coerente. Como ela estuda o pensamento coerente? Do ponto-de-vista de conceber esquemas que permitam o pensamento
coerente. E com que finalidade? O de expressar plenamente essas regras, de modo que, esse processo de coerência e ação fique
mais fácil. Por exemplo, a Matemática investiga como o cérebro produz o resultado das contas, ou ensina a fazer contas? Ensina
a fazer contas. A Lógica, tal como se entende na atribuição matemática, é uma Lógica puramente formal. É um conjunto de
esquema puramente inventado para determinado fim, e que não se interessa em saber como esses esquemas são realmente
acionados pelo ser humano real. Assim, a Matemática é a mesma, seja utilizado pelo ser humano real, seja pelo computador. Isto
não significa que o cérebro humano pensa exatamente igual como o computador pensa. E pouco importa. E se, amanhã o homem
inventar um outro tipo de máquina que reproduza esses esquemas de uma forma mais simples que o computador, também será a
mesma Matemática. Assim, não se trata do pensamento real, pensado por criaturas reais, mas se trata do pensamento ideal, que é
como toda e qualquer criatura deveria pensar, caso queira que o seu pensamento seja coerente. Criaturas naturais ( homem ), ou
artificiais ( computador ). É um pensamento que estabelece parâmetros que permitem realizar uma seqüência de operações, não
importando a força, a energia, ou a causa que coloca essas operações em ação. Por exemplo, um programa de computador é
perfeitamente indiferente ao fato do computador ser movido por eletricidade, gasolina, ou pela força do pensamento positivo ( o
programa em si ).
As idéias estão aí há séculos, e nós naturalmente pelo tipo de associação de palavras, usado ao longo de nossa vida, nós
acabamos achando que uma determinada maneira de pensar é natural. Por exemplo, acreditar que do estudo do pensamento real
nós podemos acabar deduzindo regras formais. Será possível? Se o sujeito responder que acha que sim, isso indica que ele tem
uma inclinação psicologista. Há um grande número de psicólogos célebres que apostaram nisso. Husserl vai se posicionar contra
a teoria psicologista. Só que dá um trabalho enorme para demonstrar que isso é impossível.
O que importa não é apenas você acertar; que a hipótese da teoria seja certa. O importante é que, se você lança a teoria
certa, que ela seja provada, e, se você lança uma teoria errada, que ela seja desmentida. Se a lógica psicologista tem como objeto
material o pensamento real, e se o modo dela enfocar é o modo como as ciências experimentais enfocam os seus respectivos
objetos, isto é, por observação e indução, a finalidade só pode ser a mesma das demais ciências de observação, que é, a indução
de leis gerais que expressem regularidades, repetições ( este é o objeto final ). Vocês, observando milhares de casos, de
pensamentos, de raciocínios, de associações de idéias, etc., você acaba reduzindo esta variedade a um conjunto de leis que
expressam esquemas repetidos.
Com relação à orientação formal, ela, evidentemente, não tem esse mesmo objeto material, porque ela está pouco se
importando sobre como as pessoas pensam: “Não adianta examinar como as pessoas pensam porque, geralmente, pensam
errado” - este poderia ser o seu argumento. Além do que, poderia dizer o formalista, você vai estudar o pensamento humano, mas
ainda tem o pensamento animal, tem o pensamento das plantas. No entanto, se uma planta fosse fazer a mesma equação ( 2 + 2 =
4 ) teria que chegar ao mesmo resultado nosso. O objetivo da lógica psicologista é, poderíamos dizer, puramente científico e
teórico; o objetivo da orientação formal é técnico-prático ( formar regras para que você possa pensar com eficiência, e pensar
corretamente ), ou seja, fazer um bom programa de computador e não explicar como funciona o computador. Aliás, para você ser
um gênio em programação de computadores, você não precisa ter a menor idéia do que acontece dentro deles. A orientação
metafísica diria que as leis da Lógica são as leis da Ontologia. O princípio de identidade não é um mero esquema lógico, ele é
algo que vigora na realidade. Assim, as leis principais da Lógica ( princípio de identidade, princípio de não-contradição, etc. ),
são os princípios que explicam a realidade inteira.
Qual seria o objeto material da orientação metafísica? Como as leis ontológicas aparecem ao nível da linguagem do
pensamento humano? Objeto material: se as leis da Lógica não são nada em si mesmas, mas são apenas expressão de leis
ontológicas, então fica claro que a Lógica é uma extensão da Ontologia. Considera-se como uma ontologia regional. A ontologia
de um determinado objeto, o pensamento humano. O pensamento humano como expressão do ser. Esse é o objeto material da
orientação metafísica. Ou seja, como esse fenômeno chamado pensamento humano expressa a própria unidade do real?
Você pode dizer que isso é um pouco confuso, porque nós podemos cair no problema anterior. A orientação metafísica
não resolve o enigma, o confronto, das duas anteriores.
O pensamento expressa o ser, porque o pensamento existe, e ele funciona segundo as leis do ser, ou é porque é o
contrário: se você pensar corretamente, segundo as regras corretas, você captará o ser? Ou seja, ele capta o ser psicologicamente,
ou formalmente? Bem, isso fica para depois...
O objeto terminativo da orientação metafísica é chegar a uma expressão geral da linguagem do pensamento como
expressão do ser. Você pode perguntar: expressão formal ou real? Por exemplo, dentro da totalidade do ser existe um
determinado ente, que é o homem, o qual pensa, e ele pensa segundo tais e quais leis. Você trata tudo metafisicamente, só que
pelo lado psicológico. Vejamos de outra maneira: dentro do mundo do ser existe um ente que pensa e, quando pensa
corretamente apreende a verdade do ser. Este é um tratamento metafísico, só que pelo lado formal. A orientação metafísica pode
estar até certa, porém ela não pode ficar certa, se ficarmos em dúvida sobre de qual das maneiras ela está certa. Ou se é das duas
maneiras.
Se você for raciocinar, não como um orador de palanque, que tão logo ele faz uma frase bonita, já te persuadiu, ou não
como uma criança que imagina, e quando ela imagina um tigre, ela fica com medo, quando imagina um doce fica com fome,
quando imagina um brinquedo fica alegre, ou seja, no fundo é um panaca que fica fazendo um cineminha para enganar a si
mesmo. Se você não pensar assim, vai pensar como um matemático que quer encontrar um resultado correto, da conta, e que
tem que obedecer à estrutura dos números mesmos, e não à sua própria vontade. Você vai entender também que se a Lógica é
um instrumento básico de todas as ciências, e se na prática funciona dessas duas maneiras, mas se você não está seguro quanto à
sua natureza, o que é essa Lógica, e qual o alcance dela, você pode estar aplicando tudo errado. Ou a coisa pode estar dando
certo por outros motivos. Ou, no mínimo, poderia dar mais certo do que dá. As ciências poderiam render mais, alcançar respostas
mais facilmente.
Para que você possa estabelecer elos entre as várias ciências ( que fazem uso da Lógica ), se você não está seguro do que
é essa Lógica, este elo comum é obscuro. Por exemplo, entre a Antropologia e a Física, qual é o elo? A antropologia é uma coisa
que o homem faz, é uma atividade humana, e estudar Física é outra atividade humana. Então, elas estão conjuminadas no
homem. Você pode explicar as duas como atividade humana. O quê é isto? Orientação psicológica.
Porém, o fato das duas atividades estarem reunidas no mesmo homem, significa, por acaso, uma síntese entre os
conteúdos das respectivas ciências? É claro que não. Do mesmo modo, você pode ter duas atividades díspares: jogar futebol e
mascar chicletes. é o mesmo sujeito. No entanto, o que uma coisa tem a ver com a outra? Façam um síntese, ou seja, expresse
numa única regra o futebol e o chicletes, ou, a importância do chicletes no futebol, relacione as duas coisas de uma maneira que
não seja puramente casual. Não dá! Não há nexo.
Por outro lado, nós poderíamos fazer uma conexão puramente formal, no sentido de que, as regras de raciocínio que
você usa numa, é a mesma que você usa na outra ( lógica probabilística, estatísticas, etc. ). Você usa a mesma forma de
raciocínio. Entretanto, já que você juntou a forma, conexione, de alguma maneira, os conteúdos! Se a estatística que você usa
para fazer previsão de resultado de eleição é a mesma que você usa para saber se vai haver uma chuva de meteoros em algum
lugar, me diga onde está a conexão entre esses dois fatos. E se um desses conhecimentos pode avaliar o outro ou não, ou, se são
completamente distintos, por quê são distintos? Finalmente poderíamos tentar conectar metafisicamente. Dentro de uma teoria
geral do ser nós teríamos uma teoria dos diversos tipos de seres, e estaria situado lá a parte, o aspecto, a dimensão do ser
estudado pela Antropologia, Física, etc. Isso seria o certo. Mas, acontece que todas as tentativas de se fazer isso, caíram por
terra. Não há nenhuma metafísica que possa funcionar até hoje como princípio coordenador geral das ciências. Não existe uma
ontologia geral até hoje que possa dar conta da totalidade do mundo das ciências. E, no fundo, é a isso que o Husserl quer
chegar. As duas primeiras explicações, psicológica e formal, falhariam por contradição interna; a terceira, simplesmente porque
não existe.
No fundo, ele quer chegar a uma ontologia geral. Ele quer uma refundamentação da idéia pura de Ciência para, com
base nisso, fundar uma ontologia geral que possa servir para a organização do mundo das ciências. Ele não fala do ponto-de-
vista externo, como aquela classificação feita a posteriori e meramente de utilidade prática ( ciências humanas e ciências exatas
), divisão administrativa, puramente externa, e que não tem nada a ver com o conteúdo das ciências. Aliás, pressupõe-se que as
ciências exatas sejam humanas, e as ciências humanas sejam inexatas.
Ele está falando de uma ontologia geral que permita estabelecer as divisões reais do ser, e fazer com que os sistemas das
ciências correspondam a essas divisões reais. No final dos seus trabalhos, Husserl deu algumas indicações bem precisas de onde
se vai chegar. Nós podemos dizer o seguinte: o problema da idéia pura da ciência está colocado, o problema da criteriologia está
colocado, a fundamentação da noção de verdade e de evidência está colocada, e alguns princípios da ontologia geral estão
colocados. O resto, com o tempo se faz. Acontece que os discípulos dele não fizeram isso, porque, como ele foi ditando e
falando por mais de 10 anos, e cada parte do problema parecia tão importante em si mesma, os discípulos já partiam para outros
desenvolvimentos.
Preleção III

21 de novembro de 1992
Diferença entre verdade e falsidade: na prática, se distingue a diferença entre verdade e falsidade. Mas, as pessoas não
tinham uma consciência clara de que existia um pensamento verdadeiro e um pensamento falso. Não seria errado dizer que, até a
formação dessa consciência, que se dá na Grécia, com Sócrates-Platão, todas as pessoas que pensavam, tendiam a acreditar que,
pelo fato de uma coisa ser pensável, ela era automaticamente verdadeira. É uma tendência que existe nas crianças, e que
sobrevive na idade adulta, na esfera da imaginação. Para o bem da humanidade deveria ser progressivamente extirpada à medida
que você evoluísse. Um exemplo disso é o fato de que as pessoas, mesmo conhecendo a distinção do verdadeiro e do falso,
mesmo tendo estudado Filosofia, conhecido a Ciência, etc., continuam tendo a reação de se sentir mal quando imaginam
imagens nocivas. Quando você imagina uma cena desagradável você se sente mal, como se ela estivesse acontecendo mesmo.
Dificilmente você tem esse distanciamento. Por exemplo, no cinema, onde uma pessoa se sente mal porque uma cena lhe foi
mostrada, embora ela esteja consciente de que a tela do cinema só possa estimulá-la visualmente, e que o sangue mostrado é
massa de tomate, que é uma experiência exclusivamente visual, não acompanhada dos sinais dos outros sentidos que dariam a
consistência real, a pessoa chega a ter uma reação orgânica. Isso é um resíduo de realismo ingênuo que, no fundo, consiste em
você acreditar em tudo o que você pensa.
Uma das principais funções da Educação é tirar isso das cabeças das pessoas. Levar a consciência da distinção entre
verdadeiro e falso às suas últimas conseqüências. Inclusive na esfera dos reflexos imediatos. Esta é uma conquista tardia da
humanidade, do ponto-de-vista histórico da evolução da humanidade. E para o indivíduo pode ser uma conquista mais tardia
ainda. Por exemplo, se você vê qual é o mecanismo da formação das convicções nas pessoas em geral, você vê que é a própria
possibilidade de formular uma idéia. Ou seja, dentre as várias idéias que nós poderíamos ter a respeito de um determinado
assunto, o indivíduo acredita naquela que ele consegue formular. Pelo simples fato de ele conseguir formular aquilo, lhe parece
mais verossímil. Acontece que um outro indivíduo, por coincidência, conseguiu formular uma outra idéia. Por exemplo, se você
pega as pessoas progressistas ou conservadoras. Uma pessoa é progressista porque ele conseguiu conceber os benefícios do
progresso. O outro é conservador porque ele conseguiu enunciar mentalmente os malefícios do progresso. Entretanto, e se eu
conseguisse formular perfeitamente as duas idéias, ou seja, criar argumentos em favor de um, e argumentos em favor de outro.
Dessa forma eu já não sou mais vítima do meu argumento, da estrutura do meu argumento. Eu entendo que, para além dos
esquemas argumentativos que eu invento, deve existir uma realidade que, talvez não esteja bem captada no meu argumento. E,
eu entendo que posso conceber, articular, mentalmente, argumentos, por exemplo, a favor dos benefícios do progresso. E, que eu
posso, igualmente, conceber um esquema que me mostre os malefícios do progresso. Assim, se eu puder argumentar a favor de
A e de não-A, é porque deve haver uma realidade que está para além dos meus esquemas argumentativos. Eu não identifico mais
a minha facilidade de argumentar com a realidade mesma. Eu percebo que o pensar não é o ser.
Porém, mesmo depois que eu consigo fazer isso na esfera intelectual, eu continuo operando do mesmo modo anterior, na
esfera da imaginação, onde as coisas que eu consigo imaginar me parecem reais, porque o sistema nervoso reage igualmente à
imagem vista e à imagem imaginada. Isso é a base da hipnose. Isto significa que o ser humano é facilmente hipnotizável, porque
ele é facilmente auto-hipnotizável. Se o ser humano não fosse tão propenso a se enganar a si mesmo, não seria tão propenso a ser
enganado pelos outros. Além disso, a pessoa é propensa a ser enganada, exatamente nas mesmas coisas onde ela gostaria de se
enganar. E não nas outras coisas. Assim, nós conhecemos a realidade através do pensamento e da imaginação. Não há outro
meio.
Porém, o pensamento e a imaginação são um pouco lentes através das quais nós captamos alguma coisa. Não são a
realidade mesma. Em geral, como os indivíduos têm muita dificuldade de pensar, por exemplo, você coloca uma questão, o
sujeito não consegue montar o argumento, ele se sente numa atmosfera opaca, está tudo escuro, ele não está enxergando. No
momento que ele consegue montar o primeiro raciocínio, ele sente que chegou a algo, e ele acha que chegou à realidade, quando
na verdade ele chegou apenas ao seu próprio pensamento.
Uma das finalidades supremas da educação é varrer isso de você. Não ser enganado nem pelo seu pensamento, nem pela
sua imaginação, nem pelos seus sentidos. Isso seria, em suma, levar às últimas conseqüências o projeto cartesiano que era o
duvidar de tudo, até prova em contrário. Duvidar não do pensamento humano em geral, porque as mesmas pessoas que são
vítimas do seu próprio pensamento, e crêem ingenuamente em tudo o quanto pensam, imaginam, sentem, essas mesmas pessoas,
às vezes, enunciam dúvidas a propósito da inteligência humana em geral, a propósito do valor da Ciência, etc.
Assim, se o sujeito é cético em relação aos outros, como é que ele não o é em relação a ele mesmo? Se ele duvida de
toda inteligência humana, que a razão é falha, etc., mas tudo o que ele pensa é verdadeiro. Isto é a forma mais horrível de
mentalidade que existe. Lamentavelmente, num meio onde as pessoas não têm educação é a mentalidade geral. As pessoas não
têm educação e, ao mesmo tempo, são convidadas a opinar. É o que acontece hoje, com freqüência. As pessoas podem até
opinar, mas acreditam que os outros têm o dever de ouvi-las, de ouvir qualquer coisa. Por exemplo, você chega para um garoto
de doze anos e pergunta o que ele acha do impeachment do Presidente, ele fala e todo mundo tem que ouvir. Num meio assim, o
indivíduo é convidado a amar as suas próprias opiniões, e desprezar o conhecimento humano em geral, a civilização, a Ciência,
etc. Daí a pessoa vira uma espécie de hitlerzinho, napoleãozinho; ele acredita em tudo quanto ele fala, porque a palavra dele fica
como se a voz do ego fosse a voz de Deus. Se você junta um monte de egos desse tipo, a somatória é a opinião pública, que
acredita que é a verdade, que é a voz de Deus.
O processo da educação deve, em primeiro lugar, fazer você duvidar do seu próprio pensamento, e ao mesmo tempo,
fazer você adquirir um sentido de reverência em relação à inteligência humana, da humanidade em geral. Você começa a
entender que se o seu pensamento é capaz de alcançar a verdade algumas vezes, não é por mérito seu, mas por experiência
acumulada ao longo dos milênios, e sedimentada na própria linguagem, e que não foi você quem inventou. Por exemplo, uma
língua pode ter esquemas prontos para você pensar isto ou aquilo, para você formular certos pensamentos e não ter esquemas
para formular outros. Assim, essa facilidade que você tem de articular certas palavras, certas idéias, essa facilidade não é mérito
seu. Você a recebeu com a língua que você aprendeu. E, isso mesmo já é uma herança cultural.
Você aprende a ter desconfiança em relação às suas idéias ou aos seus argumentos, imaginação, sentimentos, mas
aprende a ter respeito pelo trabalho da humanidade inteira. Ou seja, inverte a fórmula. A educação é desligar o indivíduo dos
hábitos e preconceitos da sua própria personalidade, do seu próprio meio familiar, e meio social imediato, e vinculá-lo à
humanidade. Tirar o indivíduo da cultura pequena e colocá-lo na cultura grande. Você passa a adquirir uma dimensão humana,
você passa a ser gente. E começa a pensar como um habitante da Terra, e como um personagem de todo o processo da História
da cultura. Quando colocamos as coisas dessa forma, vemos que o número de pessoas educadas, no nosso meio, é infinitesimal.
Se pegarmos todos os nossos deputados e senadores, quase todos são, nesse sentido, pessoas que vivem no mundo da ilusão, que
jamais podem acertar, a não ser por uma feliz coincidência, por um favor da Divina Providência. Todo mundo tem o direito de
errar, mas esse direito é, mais ou menos, co-extensível à esfera das conseqüências das suas palavras. Por quê uma criança pode
falar um monte de besteiras e ninguém liga? Porque o que ela fala não tem conseqüência alguma. No entanto, se um pai de
família, que ganha salário-mínimo, acha que dá para comprar um carro cuja prestação é o dobro do salário dele, isto tem
conseqüências! Então, ele não tem mais esse direito de errar.
Vejam que a nossa classe dirigente erra, já há duzentos anos. Nunca acertou uma vez. Ela não tem direito de estar
enganada a tanto tempo assim. Idem para a nossa classe intelectual.
A educação visa, sobretudo, abrir a pessoa às portas da inteligência humana em geral, e fazer com que elas superem essa
auto-ilusão. Ensinar as pessoas a verem as coisas mais indiretamente. A humanidade é mestra do indivíduo. Mas, no meio
iletrado, o indivíduo corrige a humanidade inteira. Dá lições, acha que quem só sabe é ele. Se acontece uma mudança social
rápida, e o indivíduo acha que ele se atualizar com essa mudança, ele está se instalando no real, aí é que ele está mais maluco.
Você se informar dos novos fatos do mundo só aumenta o seu número de problemas. Novos fatos são novas possibilidades de
erros, porque se você já estava errando com meia dúzia de fatos, quando tiver sessenta, vai errar dez vezes mais.
Não se trata do conhecimento de novos fatos, mas da correção do seu julgamento sobre os fatos. Como você interpreta
os novos fatos. Você pode partir de princípios falsos que podem servir de chave para a explicação falsa de milhões de novos
fatos, só que quanto mais fatos você vai explicando por princípios falsos, maior vai ficando a falsidade do conjunto. A
preocupação que existe no ensino atual acerca da atualização é extemporânea, porque você não precisa. A educação não tem que
acompanhar os progressos da Ciência. Se você ensinar um indivíduo a ter lucidez suficiente para ele entender a geometria de
Euclides, compreendê-la profundamente, o restante da evolução da geometria, ele capta em um mês por conta própria. E
continua capaz de se informar com grande rapidez.
A preocupação com a atualização é uma preocupação com o quantitativo. Não adianta você tentar passar toda a
informação. Depois ele adquire a informação por si. A função da educação não é ficar correndo atrás das novas conquistas da
Ciência. A educação não é jornalismo, que é uma coisa periódica. Educação significa ex-ducere, ou seja, levar o indivíduo para
fora. Ou seja, você está preso dentro de um mundo subjetivo seu, onde você só olha para dentro, e a educação faz você olhar
para fora. Sair do mundo pequeno e olhar o mundo grande, real, que está à sua volta.
A distinção entre o verdadeiro e o falso leva um tempo para surgir historicamente. Você pode encontrar tribos de índios
onde essa distinção ainda não existe. Os índios, que no século XX começaram a ter muito contato com o branco, levaram trinta a
quarenta anos para perceber que o branco mentia. O Juruna é um exemplo que, depois de vários contatos com o branco, ele
decidiu comprar um gravador, porque o branco fala uma coisa e faz outra.
Não estar habituado a distinguir entre veracidade e falsidade na conversa diária vem do fato de que você não está
habituado a fazer essa distinção em geral. Ou seja, você não está habituado de que o seu pensamento funciona: eu penso assim,
ele pensa assim, então, parece que a natureza se comporta de acordo com o jeito que nós pensamos. Assim, nós vivemos num
mundo onde só existe veracidade. A falsidade não existe. Mas, o conjunto que você pensa, somado, é tudo falso. Por ninguém
pensar ao contrário, todos se enganam, uns aos outros há séculos, exatamente assim.
O mundo mítico é um mundo onde existe uma confirmação coletiva de um pensamento mais ou menos uniforme. Todo
mundo acredita nas mesmas falsidades e nada acontece que desminta essas falsidades. É como se disséssemos que são falsidades
que não contrariam flagrantemente nenhum acontecimento. É como se fossem falsidades inofensivas.
Porém, se o indivíduo sai daquela tribo e entra em contato com outra tribo, ele entra no mito da outra tribo. E se o
sujeito entra numa outra sociedade que já não é mais tão premida pelo mito, mas onde existe uma forma diferenciada de
pensamento individual, o indivíduo já não entende mais nada. Para que nós possamos sobreviver nessa sociedade, temos que
desenvolver um sentido de saber quais são as pessoas mais honestas, e quais as menos desonestas. Temos necessidade de
desenvolver uma escala de confiabilidade. Isto para o índio não existe. Lá é tudo igual. A distinção entre o verdadeiro e o falso
não faz parte do mundo indígena.
Na história do ocidente essa idéia só se expressa claramente com Sócrates-Platão. Sócrates convoca, pela primeira vez
na história, a idéia de que a coletividade inteira pode estar enganada a respeito de coisas fundamentais. Por isso mesmo é que o
chamaram de um sujeito ímpio, que destruía os deuses. E era mesmo! Ele estava destruindo os deuses, no sentido do mito
coletivo. Por exemplo, o grande mito grego da linguagem. A linguagem é o mundo onde existe a verdade, portanto, tudo o que
pode ser falado, deve ser verdade. Esse é o mito que sustenta a retórica: você conseguiu falar, se expressar, conseguiu nos fazer
entender, nós vemos o que você falou, e dizemos: é verdade!
A retórica se baseia nisto: tudo o que é falável, é verdadeiro. Sócrates mostra que esse discurso, não obstante ele ser
expressivo, é auto-contraditório. Não tem fundamento no real. Isto quer dizer que, na evolução de uma comunidade qualquer,
supondo uma evolução ideal onde não haja cortes criados por interferências externas, você poderia falar de uma fase poética,
onde a palavra é a própria realidade, onde a palavra é diretamente uma força ( como em Homero ), no sentido de que, por
exemplo, quando Júpiter fala uma coisa, ela é verdade automaticamente, ou como está na Bíblia, quando na hora que Deus fala,
a luz se faz na mesma hora, onde se acredita na palavra humana como se ela tivesse a força mágica, criativa, plasmadora divina.
Em seguida a essa fase, entramos numa fase retórica, onde já não se acredita nessa força da palavra sobre as coisas, mas
na força das palavras sobre as pessoas. Assim, onde existem vários discursos em confrontação, o discurso mais forte, mais
persuasivo, que mais toca o coração, fica sendo a própria expressão da verdade. Daí, chega Sócrates e introduz o elemento
dialético, ou seja, ele compara o discurso com o discurso mesmo, e mostra que o sujeito está afirmando aquilo que ele mesmo
tinha acabado de negar. Ele mostra ao indivíduo que ele não sabe do que está falando. Por exemplo, um militar, ele fala sobre a
guerra. Mas, se você pergunta o quê é a guerra, ele diz: “A guerra é um conflito”. Você diz: “Então, se eu brigar com minha
mulher, isto é guerra.” Ele diz: “Não é bem isso...” E assim por diante até que o militar fica todo atrapalhado. Isto quer dizer que,
às vezes, o indivíduo sabe se posicionar perante uma coisa na prática, mas não sabe do que aquilo se trata. Ou seja, conta apenas
com o conhecimento empírico. O sujeito só serve para aquelas situações vividas que, naturalmente, são militares, e não
extensíveis a outras situações.
Após essa fase, naturalmente tende a surgir, se a sociedade chegou a evoluir até o ponto de criar uma discussão
dialética, isto é, exigir a confrontação dos discursos, aí entra a dúvida, existe a tomada de consciência do caráter duvidoso dos
discursos, e daí surge a criação das ciências.
Assim, havia de um lado a confrontação dos vários discursos filosóficos, uns contradizendo os outros, às vezes, se
contradizendo a si mesmos, o que gerava o ceticismo, a propensão a não acreditar na possibilidade de conhecer a verdade. De
outro lado, a dominância da retórica, que permitia a credibilidade universal dos mais eloqüentes, cuja palavra era como se fosse a
palavra divina. Ainda, por um outro lado, esses dois elementos são desafiados por Sócrates.
A retórica é os deuses da cidade que, mais tarde, Santo Agostinho chamará de Teologia Civil. Aquelas coisas que uma
sociedade inteira acredita, que são os mitos em que se baseia a vida social, e que nada tem a ver com a religião do espírito, isso,
Santo Agostinho chamava de Teologia Civil. Não é senso comum, é uma parte do senso comum. É aquilo em que os membros
de uma sociedade inteira acredita a respeito dessa sociedade e que jamais é questionado, como se aquilo fossem dogmas. Por
exemplo, a crença de que existe liberdade de informação, e de que a liberdade de informação é uma das bases da sociedade
moderna. Este é um mito da nossa teologia civil.
Na mesma medida em que crescem os meios de informação, cresce a área das informações consideradas confidenciais,
secretas, que ninguém pode saber. A importância adquirida pelos serviços secretos na administração dos Estados é um fato do
século XX, e é um fato político dos mais importantes, como ficou provado no caso da URSS. A URSS era apenas a KGB. Foi só
desmontar a KGB que a URSS caiu por inteiro. Isto mostra que é possível você montar um Estado inteiro na base de retenção de
informações, e da difusão de informações falsas. Do mesmo modo, com relação à CIA, 80% dos problemas que os Estados
Unidos tem, foram criados pela própria CIA. Nós só ficamos sabendo quando o chefe do FBI morre e deixa as suas memórias.
Eu não sou contra ou a favor do serviço secreto. Ele é uma realidade do século XX, e eu acredito que, mais do que a democracia,
mais do que o estado de direito, a base da política do século XX, foi o serviço secreto.
A idéia de que há um progresso democrático crescente é inteiramente falsa. À medida que progride a democracia,
progridem os meios de compensá-la. Isto é uma amostra do que é teologia civil.
O ceticismo resulta do próprio confronto dialético. Assim, se por um lado existe uma propensão cética, e por outro lado
existe um domínio da retórica, então, acaba ninguém acreditando em nada. É a sensação de estar sendo enganado 24 horas por
dia. É o que nós sentimos hoje aqui no Brasil.
Porém, com isso, há um elemento de ordem positiva, que começou a se desenvolver como uma ciência demonstrativa
muito firme, que era a Geometria. Assim, quando parecia que não seria possível a verdade a respeito de nada, surge Euclides, e
mostra que é possível a verdade a respeito de alguma coisa. E qual é a diferença entre o modo de pensar da discussão pública e o
modo de pensar de Euclides? Se na discussão pública nós só chegamos em falsidades e dúvidas, e Euclides chega à certeza, é
porque ele deve ter uma técnica, um jeito, um esquema qualquer de descobrir a verdade.
É isso que inspira Sócrates-Platão, ou seja, deve ser possível uma ciência certa, deve ser possível escapar do reino da
falsidade. Essa possibilidade que Euclides havia demonstrado na prática, mediante o estudo da Geometria, é o que vai ser
teorizado por Sócrates-Platão, sob forma da idéia pura de Ciência, na qual eles destacam essas três condições teóricas, e essas
três condições práticas. Primeira condição teórica: o conhecimento tem que ser tão fundamentado quanto as evidências diretas
inegáveis ( por exemplo, as frases, “eu estou aqui, agora”, ou “eu sou eu”, ou “uma coisa é igual a ela mesma”, etc. ). Se todos os
conhecimentos, todos os assuntos pudessem ser tratados com essa evidência, estaria tudo resolvido. Nós estaríamos vacinados
contra o erro. Porém, não é possível. Assim, é necessário que haja uma evidência indireta, uma evidência que é garantida por
uma outra evidência, como no processo do raciocínio do silogismo, onde dadas duas verdades, elas garantem uma terceira.
Porém, para que tudo isso seja possível é necessário essa terceira condição, que o nexo entre a primeira verdade ( a que garante ),
e a segunda verdade ( a garantida ), seja ele próprio evidente. Isso acontece quando a primeira verdade se refere a todos os
membros de uma espécie e a segunda verdade se refere a um ou a alguns deles, porque, daí, as duas frases estão dizendo a
mesma coisa, apenas sendo necessário trocar a expressão todos pela expressão cada um, que é exatamente igual, de modo que,
essa transferência de veracidade, não acrescente uma verdade nova, mas apenas mostra para você uma verdade que, no fundo, já
estava sabida. Este seria o procedimento dito analítico. As condições práticas são: primeiro, que o ato intuitivo ( o que capta a
evidência ), possa ser repetido, porque se você tem a evidência e a esquece imediatamente, você não pode transferir a veracidade
dele para nada. Segundo, para que haja a repetibilidade do ato intuitivo, tem que haver algum registro, pelo menos na própria
memória. Registro que, uma vez mostrado para o indivíduo, lhe permita refazer o ato intuitivo a respeito do mesmo objeto. Por
exemplo, se na demonstração do teorema, “A soma dos quadrados dos catetos é igual ao quadrado da hipotenusa”, é porque eu si
que o quadrado da hipotenusa se refere ao mesmo triângulo do qual eu havia calculado os quadrados dos catetos. Para eu
completar a demonstração, eu tenho que repetir a mesma intuição inicial várias vezes. Terceira condição: se os dispositivos de
registro são indispensáveis, então tem que haver a transmissibilidade. Tem que haver uma linguagem, um processo qualquer de
significação. Portanto, o conhecimento é essencialmente transmissível.
Mais tarde, Hegel dá grandes risadas da expressão “ciências ocultas”, porque se é oculta é porque ninguém viu; se
ninguém viu, ninguém sabe; portanto, não é Ciência. Seria a ciência intransmissível.
Em seguida, vemos que essa idéia pura de Ciência orienta todos os esforços de todos os pensamentos, pelo menos no
Ocidente, onde nós podemos acompanhar a evolução histórica, ao longo de dois mil anos. Porém, essa mesma idéia vai passando
por sucessivas versões e aperfeiçoamentos, ou reflexões, aprofundamentos. Pode-se escrever toda a história da Filosofia com
base na história das tentativas de realização da idéia pura de Ciência. Assim, destacamos um certo número de passagens que foi
enumerado em oito, mas que, desdobrando, nós vemos que foram dez.
Essas reflexões em torno da idéia pura de Ciência, não se referem apenas à história da Filosofia, mas no mundo das
ciências positivas também. Vejam que, conhecimentos que são considerados científicos numa época, porque parece que
atendiam aos anseios dessa época, numa época seguinte, você vê que não atendiam tão perfeitamente bem, e são rejeitados. Não
são mais considerados científicos. É como se você pudesse dizer que o esforço dialético chega à verdade através de uma
sucessão de erros. Por tentativa e erro.
Nós vemos então que essa evolução, mais ou menos, passa por essas dez etapas. Primeiro, com Sócrates-Platão, a
formulação inicial do que é a idéia pura de Ciência. De fato, nós poderíamos começar essa evolução com Parmenius. Na hora
que ele diz, “o ser é”, e “o não-ser não é”, ou seja, o caminho da verdade, e o caminho da opinião, já temos aí um princípio. Só
que ele não diz como fazer isso. Só deu o nome da coisa. Existe verdade, e existe falsidade, existe o ser, e existe o não-ser, existe
o caminho da verdade, e existe o caminho da opinião. Daí Parmenius morreu e nada continuou.
Com Sócrates-Platão você tem a expressão do conteúdo dessa idéia. Porém, ao mesmo tempo que expressam, a sua
primeira tentativa de realização já é falha, porque Sócrates-Platão acreditam que o conhecimento verdadeiro não é possível a
respeito de qualquer coisa, mas só a respeito de um determinado tipo de coisas, que são as idéias, ou modelos, eternos. E, o
mundo da experiência só oferece um conhecimento, mais ou menos, fictício. Assim, é como se eles mesmos tivessem puxado o
tapete de sua própria idéia.
A segunda revolução é feita por Aristóteles, no sentido de propor a realização efetiva dessas idéias com relação aos
objetos reais. Aristóteles não só faz um projeto, formula exigências, mas efetivamente, o realiza através da aquisição de
conhecimento de valor permanente da humanidade. Conhecimentos que duram até hoje. Por exemplo, não só formula
inicialmente a Lógica formal, que continua intacta até hoje ( pode ser aumentada, mas não diminuída ), e que geração após
geração se revela como um edifício indestrutível, como também, ele inaugura as principais ciências que nós cultivamos até hoje,
como a Psicologia, a Biologia, a Física, a Política, a História. Claro que no meio dessas realizações existem uma infinidade de
erros. Particularmente, houve erros graves na Física. Entretanto, mesmo assim, o que se conserva vivo na ciência aristotélica é
quase tudo.
A terceira revolução, feita por São Tomás de Aquino que, sobretudo, enxerga na ciência aristotélica uma
impossibilidade de você dar conta de um domínio teológico, e ver que por falta de imaginação metafísica, Aristóteles havia
proposto coisas como por exemplo a eternidade do mundo (Aristóteles achava que o real existente, cósmico, é eterno ), o que de
certo modo, é auto-contraditório; a ciência aristotélica não permite enfocar a relação do indivíduo humano com o infinito divino.
É como se existisse em Aristóteles uma certa confusão entre o quantitativo e o qualitativo.
São Tomás de Aquino vai trabalhar nesses pontos, tratando de abrir essa noção de Ciência para as duas grandes
dimensões da preocupação do Cristianismo, que seriam, a infinitude divina, e a unicidade intransferível da alma humana, a
perenidade da alma humana.
Para Aristóteles, nós só podemos individualizar a alma na medida em que individualizamos o Cosmos. E quando nós
subimos às dimensões superiores da alma, como a inteligência, ele não mais vê individualidade nisso. É como se tudo fosse uma
inteligência única e coletiva. É a mesma coisa que dizer que o indivíduo só é distinto do outro corporalmente. Não existe uma
noção de alma psíquica individual humana. Isso leva a uma infinidade de contradições, e é isso que São Tomás de Aquino
procura consertar, de maneira a completar o edifício aristotélico.
Em seguida, a outra grande revolução é com Descartes, onde a idéia pura de Ciência tem fundamento na
autoconsciência do indivíduo humano. Uma coisa é você conceber a idéia pura de Ciência tal como ela é em si mesma. Outra
coisa é você se preocupar com os meios em você realizá-la, e na hora em que você se preocupa com os meios de realizá-la, com
as condições práticas, você tem que acrescentar mais uma àquelas que o mundo antigo havia descrito, que é o fundamento da
idéia da veracidade na própria consciência humana. Assim, se o indivíduo, sozinho, meditando, não encontra um ponto de apoio
firme, ele fica separado da idéia pura de Ciência. Ele não tem como chegar a ela. Com isso, Descartes descobre o fundamento
prático da idéia de Ciência na subjetividade humana, que é o chamado cogito cartesiano - cogito ergo sum -, “penso, logo
existo”. Isto é, ao mesmo tempo, o início prático da construção da Ciência, mas é também o fundamento teórico, porque esta é a
primeira evidência inegável, direta.
Descartes parte de uma investigação prática, ou seja, como que eu, completamente existente, posso chegar até a
verdade? Ele chega a uma resposta teórica que é a primeira evidência não só na ordem da descoberta, mas a primeira também na
ordem lógica, que é a autoconsciência do indivíduo. Ou seja, qualquer coisa que eu descubra, antes de descobrir a mim mesmo, é
uma evidência secundária. Eu não posso saber nem o princípio da identidade se, primeiro, eu não descobrir o princípio da minha
identidade, o princípio da identidade referido a mim. Depois é que eu o estendo às outras coisas.
Em seguida, Kant estabelece uma limitação na aplicabilidade da idéia pura de Ciência. É como se fosse uma conquista
negativa. Ele diz que não é para ter Ciência neste sentido apodíctico, a não ser a respeito de duas coisas: dos objetos de
experiência; a respeito das formas do nosso próprio entendimento. A Lógica, e tudo o mais que não seja nem pura forma do
próprio conhecimento humano, e nem objeto de experiência, escapam da possibilidade de ser objeto de uma Ciência pura e deve,
portanto, ser conhecido por outro meio. Por exemplo, Deus não é pura forma no mesmo entendimento, ou seja, não é um dos
esquemas que presidem o desenrolar do pensamento lógico, e nem do conhecimento pelos sentidos, e ele também não é objeto
de experiência. Assim, Ele não pode ser objeto de Ciência pura. Ele não pode ser objeto de evidência, de transferência de
veracidade, etc. Portanto, Deus só poderia ser conhecido de uma maneira moral, ou seja, não é um conhecimento firme; é um
conhecimento que depende da liberdade do indivíduo. É como se nós disséssemos que é um não-conhecimento. No entanto,
Deus tem que poder ser conhecido de alguma outra maneira que seria a aceitação da liberdade humana.
Com isso, Kant inaugura uma técnica, que as pessoas não se dão conta. Parece que fecha todas as portas ao
conhecimento de tudo o que seja transcendente, mas não é isso. Ele está dizendo apenas que o acesso a esse mundo do infinito,
não é um acesso intelectual. É um acesso volitivo. Não é por um ato cognitivo, mas por um ato de vontade.
Kant deve ter lido muito São Paulo apóstolo. Fala da Fé, que significa um ato de vontade. E esse é um dos elementos
fundamentais da mística protestante, e um dos pontos de separação entre o protestantismo e o catolicismo. O catolicismo segue
São Tomás de Aquino e acredita na possibilidade de um conhecimento intelectual de Deus, embora não por experiência. E o
protestantismo diz que isso só acontece por um ato de vontade. Com isso Kant procura salvar o caráter infinitivo da divindade,
na medida onde a liberdade humana se abre para uma dimensão de infinitude e indeterminação. É como se dissesse que a alma
que peca é punida pela sua própria liberdade, e não por uma instância externa que a castiga.
Portanto, quando nós violamos uma lei da natureza, como a lei matemática, por exemplo, onde o indivíduo que compra
uma coisa que ele não pode pagar, ele é punido de fora para dentro. Não é ele quem se pune na sua liberdade. Kant acreditava
que a lei moral, a lei divina, é destituída. Não é uma lei que se pune de fora para dentro, como uma lei da natureza. A Igreja, com
isso, acha que Kant é um bárbaro. Eu - Olavo -, não acho que isso seja maléfico, mas benéfico. Pelo menos livra você da idéia de
que Deus é como se fosse um ente apenas maior do que os outros. Ele cura você da idéia de naturalização de Deus. Esse Deus
absolutamente transcendente, inacessível, incompreensível logicamente, de que falam os protestantes, e que Kant fundamenta
tão bem, Ele, pelo menos tem a vantagem de que Ele jamais pode ser confundido com o Cosmos, com a natureza.
Kant, então, via o abismo que havia entre o mundo do conhecimento e o mundo da Fé, do ato de vontade, da liberdade.
Para fins práticos de educação do homem, ou para fins práticos da vida mística, é uma solução muito útil. A obra de Kant é uma
via mística, um caminho místico. É para quem quer seguir. É claro que a maior parte dos místicos contemporâneos não tem nem
a menor capacidade de perceber isso, nem de longe. Porque, para eles, místico é aquilo que tem algo de mitológico.
A obra de Kant não é somente uma obra teórica. Porém, do ponto-de-vista teórico, o que ele faz é um desastre, porque
ele fecha a porta a determinado tipo de conhecimento, ou seja, a obra de Kant só é boa para quem é muito bom. É uma obra que
só devia ser lida por quem é santo...
A partir de Kant, surgem duas correntes possíveis. Uma que tenta reunificar o mundo do conhecimento, e o mundo da
liberdade, que vem com Schelling, com sua filosofia do absoluto que é, ao mesmo tempo, ser e saber, sujeito e objeto,
determinação e liberdade, ao mesmo tempo, e que se desdobra em dois aspectos antagônicos e complementares, na natureza e no
homem, ao se manifestar sob a forma da criação. Segundo Schelling, esses dois aspectos, subjetividade e objetividade, eles são
reunificados no retorno da consciência às suas fontes originais, para o que serve de unificador do caminho dos mitos e a criação
artística. Schelling é também um outro grande místico. Vejam que existe o tempo todo uma tendência de estreitar, ou de ampliar
a idéia do saber, a idéia da Ciência pura. Kant restringe; Schelling amplia.
Hegel vai, então, objetar e diz que o sistema de Schelling é apenas um apelo e não uma realização. Schelling diz que o
que precisa fazer, mas não faz. Ele não descreve efetivamente o processo da exteriorização do absoluto. Ele fala que existe essa
exteriorização, essa manifestação, que o absoluto se desdobra nas sucessivas manifestações do ser, mas ele não diz como isso
acontece. Ele não diz o que o absoluto faz realmente no processo da sua manifestação. Ele vai identificar a filosofia da
manifestação do espírito com a filosofia da História, que é entendida como um processo de sucessivas afirmações e negações,
que em seguida se transformam em novas afirmações e negações, e assim por diante.
Nessa altura, acontece uma coisa importante, que a antiga idéia da dialética, como método da Filosofia, inaugurada por
Aristóteles, é retomada de uma outra maneira por Schelling e Hegel, onde ela deixa de ser apenas um método humano de
descobrir a verdade e ela passa a ser a própria lei que constitui o real. Para Hegel e Schelling, a realidade é dialética. Não só o
nosso processo de conhecimento é dialético, mas a própria realidade é dialética, porque o conhecimento faz parte do processo de
desdobramento do próprio espírito, isto é, do próprio real. Para os filósofos do idealismo alemão, a dialética não era um método
de descoberta, como era para Aristóteles, mas é o próprio processo da existência do real, da qual faz parte o próprio
conhecimento. O processo humano da descoberta do real, o conhecimento humano, é o próprio real. Quando o homem descobre
algo, é o próprio espírito que se redescobre.
Então, não se pode fazer a distinção entre a teoria e a prática, ou, entre o real externo e o seu conhecimento. Isso quer
dizer que o processo classificatório e distintivo da Filosofia antiga é aqui abandonado, em favor de um processo dialético que
engloba as várias classes e espécies, num todo que está em perpétua transformação e, naturalmente, a distinção aristotélica entre
ciências teóricas e ciências práticas não existe, porque o conhecimento é um processo que se desenrola no tempo, e que é uma
prática. Esta prática, por sua vez, não é separada do real que o conhecer conhece, mas quando o homem conhece, é o próprio real
que se conhece a si mesmo, na medida em que o próprio homem é real. Os filósofos do idealismo alemão comprimem, num
processo único e dramático, tudo aquilo que a Filosofia dos séculos anteriores havia se preocupado em distinguir e classificar
com atenção. Como se todas essas práticas e espécies, conceitos, esquemas, etc., fosse visto por eles, tudo ao mesmo tempo,
como um processo dinâmico. É claro que eles não poderiam ter feito tudo isso se a filosofia anterior não tivesse feito todas essas
classificações. O processo de desdobramento analítico das partes precede, depois, à sua síntese final. Essa direção de reunificar o
que Kant havia separado é uma, que começa com o idealismo alemão.
Por outro lado, a outra linha de desenvolvimento, é a linha do Positivismo, que vem com Augusto Comte, que tenta, não
reunificar o que Kant havia separado, mas formalizar a separação e torná-la definitiva. É toda uma corrente positivista que, de
uma maneira ou de outra, tem sua origem em Comte.
A lógica positivista é psicologista. A orientação formal surge do conhecimento, se torna quase que um dogma oficial.
Isto traz um certo benefício, porque permite a formação inteiramente autônoma das ciências positivas que, a partir daí, começam
a progredir muito rapidamente, na medida que elas não têm que prestar satisfações de ordem metafísica. Até o Idade Média, se
você descobrisse u, novo fato científico, esse fato não era intuído até que você o confrontasse com todas as doutrinas. Por
exemplo, o sistema de Copérnico: toda a Europa leu o livro de Copérnico e usou os cálculos de Copérnico, e ninguém deu
grande importância a aquilo, porque aquilo não parecia ter conseqüências de ordem teológica. Foi só quando Giordano Bruno
interpretou o sistema de Copérnico no sentido teológico, extra-oficialmente, é que o problema se deu.
Nas estórias das polêmicas contra a Igreja Católica, a quase totalidade que se diz contra ela é mentira. A Igreja Católica
proibiu o sistema de Copérnico: isso é mentira. O que ela proibiu foi a interpretação teológica que se estava fazendo. Entretanto,
se os planetas vão para lá ou para cá, isso não tem importância teológica. Se você interpreta esse fato teologicamente, num
sentido contrário, aí tem-se a polêmica teológica. Quando se diz que a Inquisição proibiu os livros de Copérnico, atrasou o
progresso da Ciência, isso é balela. Eu li o Index dos livros proibidos, e lá não tem um único livro de Copérnico. As obras de
Galileu, Newton, Copérnico, nada disso foi proibido. Ao contrário, pois a obra de Copérnico foi introduzida na Península Ibérica
pelo sujeito que era chefe da Inquisição, e que era astrônomo.
A partir do século XIX, com o advento do positivismo, as descobertas científicas são tornadas autônomas, no sentido de
que elas não tem que ser justificadas filosoficamente, ou metafisicamente. Elas começam a valer por si, independentemente de
suas conseqüências filosóficas. Por um lado, isso permite um rápido desenvolvimento dessas ciências; por outro lado, cria uma
confusão enorme, porque vai perdendo, gradativamente, a unidade do mundo da cultura. E, gradativamente, vai começando a
entrar o non-sense.
Paralelamente a isso, acontece um outro processo, que é o fato de que a dimensão da História que Hegel havia
identificado como o próprio processo de manifestação do absoluto, e que é, no fundo, um aproveitamento filosófico de uma idéia
cristã ( o Cristianismo introduz a noção de historicidade do homem ), e as conseqüências filosóficas disso só vão se tornar
plenamente manifestadas 1800 anos depois, com Hegel, que mostra a História como sendo o real propriamente dito. E este
processo de historicização da realidade, da própria Filosofia, que para Hegel, a história da Filosofia, o desenrolar temporal das
doutrinas, é o próprio conteúdo das filosofias, ele por certo vai ser submetido a uma transformação por Karl Marx, que vai dizer
que o mecanismo fundamental da História não é o confronto das idéias e das doutrinas no campo filosófico, mas o confronto das
ações humanas reais dentro de um quadro de relações que delimita a ação humana: relações jurídicas, econômicas, militares,
políticas, etc. De maneira que a própria História, que passa a ser História social, e não a História cultural, é que passa a ser a
chave.
Na obra de Husserl surge a resposta da situação criada pelo positivismo. Husserl vai à margem do desenvolvimento
Hegel-Marx, na medida onde a autonomia das ciências, permitindo a sua extensão qualitativa, abre a brecha para a incoerência
dentro do mundo da Ciência. Na medida que surge a incoerência, ou seja, aquilo que é verdade aqui é desmentido acolá, vai
entrando o non-sense, não só dentro dos interstícios entre as várias ciências, mas dentro do próprio âmbito de cada ciência em
particular. Um exemplo disto é o caso de Georg Cantor.
Husserl parte do fato que ele chama de “A Crise das Ciências”, não no sentido de que elas não estejam descobrindo
nada, não no sentido de que elas não progridam, mas no sentido da sua própria cientificidade, ou seja, são ciências ou não? São
ciências verdadeiras ou são apenas um tecido de conjecturas, retoricamente colocadas à sociedade, como que embasadas numa
autoridade de um grupo social determinado que se auto-intitula “a classe científica”?
Husserl não é, evidentemente, contra as ciências. Ao contrário, ele apenas quer que elas, de fato, cumpram a sua
promessa do conhecimento apodíctico, demonstrativo. E isso é tanto mais importante quanto ele vê a própria civilização
européia como fruto, criação da Ciência, toda ela marcada pelo ideal de Ciência. Portanto, onde estiver um defeito, uma
rachadura, uma incoerência no mundo das ciências, ela se propagará por toda a civilização, mais cedo ou mais tarde, assim como
se fosse uma civilização fundada num mito, onde as incoerências do mito, mais tarde, acabariam com a própria civilização.
A obra de Husserl é de salvação da civilização européia. É a obra de um abnegado que abriu caminho para o que ele
chama de “os bons europeus”, que são aqueles que amam a civilização da Europa e que, embora vendo as contradições e defeitos
dela, procuram tocar para frente, e não destrui-la. Ele dizia que essa nova sensação criada pela perda do sentido de veracidade
nas ciências, deveria ser enfrentada com uma coisa que ele chama de “o heroísmo da razão”, que é a Razão que se supera a si
mesma, que vence a absurdidade dos seus próprios produtos, dos seus próprios efeitos. Ele propõe um retorno à noção primária
da evidência; o que é a evidência; o que é conhecimento correto; e nesse sentido ele vê que existem duas evidências que
ninguém nega.
A primeira é a do cogito cartesiano, que é a evidência do próprio indivíduo humano que existe. Ele considera isso uma
aquisição definitiva do mundo científico. Ninguém derruba isso. O fundamento da veracidade na subjetividade, a idéia de que a
existência e o auto-reconhecimento do ego auto-consciente, é a primeira condição sine qua non do fundamento da Ciência, e é
uma evidência inegável. Nenhum homem pode negar que ele existe.
A segunda evidência que ninguém nega é a veracidade da dedução matemática. Ninguém nega que 2 + 2 = 4.
Porém, parece que essas duas evidências que não tem nada a ver uma com a outra, porque o modo pelo qual chego a
uma evidência matemática é totalmente diferente pelo modo o qual eu chego à evidência subjetiva. Aí ele levanta o ponto-chave:
as evidências matemáticas são evidências na medida em que a consciência as atende, elas são evidências na consciência, para a
consciência. Do mesmo modo que a evidência da sua própria existência, é um evidência para a consciência. Assim, o problema
que se está tratando é saber o que é consciência, e quais são os diferentes modos pelos quais as evidências podem se apresentar à
consciência.
A consciência humana é uma só, e essa mesma consciência toma consciência de si mesma, e toma conhecimento da
exatidão da dedução matemática. Portanto, essas duas coisas se dão para a consciência. Isto quer dizer que existem dois tipos de
evidência, diferentes. O modo de apresentação da verdade são totalmente diferentes.
Assim, primeiro passo: descrever a consciência, e ver os vários modos de evidência com o que a verdade se apresenta.
Temos que fazer uma fenomenologia da consciência, descrever a consciência, e no momento em que ele vai tentar reunificar o
noção de evidência, que é comum às duas, mostrando a consciência como o lugar onde aparece a evidência, ele vem primeiro
com a filosofia da Lógica, ou seja, uma filosofia pela dedução matemática e, segundo, a filosofia da consciência.
Porém, aí começa o grande problema: a consciência, no caso, não pode ser encarada no sentido psicológico, porque
senão você supõe que a consciência possa ser estudada pelos dois métodos admitidos em Psicologia, que seriam, um, o método
de observação e experimentação, ou método de introspecção. E ele diz que, o primeiro método pressupõe que você coloque
entre parênteses a veracidade dos conteúdos de consciência. Quando o psicólogo estuda como você realmente pensa, que meios
ele tem de saber que o que você pensa é verdadeiro ou falso? A veracidade ou falsidade do conteúdo de um pensamento não é
um problema psicológico. Se você vai estudar psicologicamente como se produz uma evidência, você não vai estudar o objeto da
evidência, e sim, somente o modo de produção da evidência em sua mente - quando aqui nós estamos interessados exatamente
no contrário.
Nós entendemos que existem diferentes objetos de evidência. Quando Husserl fala numa fenomenologia da consciência,
não é no sentido psicológico, e sim, numa fenomenologia dos diferentes conteúdos de consciência, ou seja, o conteúdo
matemático é um, e o conteúdo do cogito é outro. Entretanto, que se possa estudar a consciência de uma maneira extra-
psicológica, aí é que surge todo o problema, porque então, se escapa da idéia de Ciência, tal como se admitia na época, que seria
a Ciência no sentido positivo, no sentido experimental. Para isso, Husserl empreende preliminarmente um exame das filosofias
da Lógica, e das filosofias da consciência, até então existentes. E, este texto do Husserl, se refere ao exame crítico das filosofias
da Lógica até então conhecidas. Para Husserl, a Lógica é a teoria da Ciência, do conhecimento científico. Essa teoria tem que
provar que existe a possibilidade do conhecimento verdadeiro, independentemente do seu modo de produção psicológico, porque
senão, a própria Psicologia não poderia ser uma ciência. Se a definição do que é veracidade em Ciência depende de que exista
previamente uma ciência para estudar o funcionamento da consciência que nos dá essa verdade, nós entramos em contradição. A
veracidade e a falsidade têm que poder ser definidas, e os seus critérios têm que poder ser estabelecidos, independentemente de
qualquer considerações de ordem psicológica, ou seja, independentemente se você pensar com o cérebro, com o estômago, ou
até independentemente de saber se você pensa, tem que haver um critério do que é o conhecimento verdadeiro. Condições
puramente formais, lógicas, que não têm nada a ver com o procedimento real do pensamento, por exemplo, assim como as regras
da Geometria são reais, independentemente do processo do seu pensamento. Vejam que ao se explicar uma lei geométrica, as
pessoas captam essa lei por diferentes maneiras. Por exemplo, pensem num triângulo. Agora, me digam: esse triângulo apareceu
solto no espaço, desenhado num papel, recortado num pedaço de madeira? Como? Qualquer que seja o modo, eu pergunto:
algum desses triângulos é geometricamente diferente do outro? Não! Isto quer dizer que vocês pegaram a mesma idéia
geométrica, por processos psicológicos que independem de suas associações de idéias, as quais foram totalmente fortuitas. Isto
quer dizer que, a veracidade dos cálculos geométricos que você faz, que existem no triângulo, independe do modo psicológico
pelo qual você apreendeu a idéia. Mesmo que fosse o homem das cavernas, o triângulo continuaria tendo três lados, e o quadrado
da hipotenusa continuaria a ser a soma dos quadrados dos catetos.
Assim, Husserl indaga: “É possível a Lógica pura?”, ou seja, a teoria pura da Ciência. Não apenas a formulação da idéia
pura da Ciência, que é uma coisa, porém é possível formar uma Lógica inteira? Ou seja, é possível o conjunto total dos critérios
do conhecimento de maneira inteiramente pura, sem referência aos dados psicológicos? Ele diz que se não é possível isso, então
não é possível Ciência alguma. Ou destacamos a Lógica da Psicologia, ou então, essa Lógica não pode fundamentar a própria
Psicologia como ciência.
O mundo dos psicólogos está, até hoje, lesado em todas as pessoas que não estudaram Edmund Husserl, e estudaram o
restante da Psicologia. Isto porque tendem a reabsorver nos fenômenos psicológicos, todo o mundo do conhecimento e a
explorar o conhecimento psicologicamente, e portanto você relativiza psicologicamente, mas, ao mesmo tempo esse mesmo
indivíduo que faz isso, sabe que a Psicologia não tem fundamento científico. Resultado: tem que apelar para o mundo do mito.
Por isso é que os junguianos logo vão para o lado do mito, começam a ler o Schelling.
O futuro da Ciência, a cientificidade da Ciência, a sua base verídica, repousa nessa possibilidade: ou existe a Lógica
pura, ou então tudo isso é uma demência. E é justamente isso que ele vai começar a se esforçar, por etapas, a partir deste livro
das Investigações Lógicas. É um novo São Tomás de Aquino, um novo Aristóteles.
Preleção IV

16 de dezembro de 1992
ESPINHA DORSAL DA HISTÓRIA DA FILOSOFIA

- Sócrates-Platão: idéia pura de ciência.

- Platão: ciência das formas ou dos arquétipos

- Aristóteles: ciência natural ou ciência das coisas


efetivamente existentes

- Cristianismo: senso da história,


alma individual

- Santo Tomás de Aquino: harmoniza o cristianismo com


a ciência aristotélica

( R U P T U R A )

- Descartes: retorno a Sócrates; a ciência individual


como ciência verdadeira

- Kant: conhecimento interno ( formal )


conhecimento externo ( material )

Kant

Idealismo Positivismo
por reação, por reação
surge Marx surge E. Husserl

Esta é a espinha dorsal da história da Filosofia. É claro que existem muitos ramos laterais, secundários, auxiliares, mas a
espinha dorsal é esta.
Se você conseguir situar cada filosofia, cada idéia, cada obra, dentro desta evolução, você sabe onde as pessoas estão.
Esta é a idéia geral. Este é o problema que se discute.
Isto quer dizer que, a essa altura, nós ainda estamos colocados dentro de uma fase onde a idéia pura de Ciência requer
uma espécie de visão do conhecimento em duas partes, mutuamente excludentes. Nós ainda estamos dentro de uma atmosfera
kantiana, onde uma ciência pura, verdadeira, parece que só pode ser realizada com relação a uma parte dos fenômenos, ou seja,
aquilo que é objeto de experiência. E, aquilo que está colocado para além da experiência não é objeto de conhecimento
propriamente dito. Por exemplo, o problema da Lógica sem fundamento ontológico. Nós podemos conhecer a Lógica,
evidentemente, porque nós temos experiência do nosso próprio pensamento, e podemos então estabelecer as regras segundo as
quais esses pensamentos se realizam, ou devem se realizar, para tais ou quais fins. Porém, se tudo isso tem fundamento
ontológico ou não, isso é uma questão metafísica.
Assim, ou desistimos de fundamentar ontologicamente a Lógica, ou realizamos uma Lógica sem fundamentos
ontológicos, uma Lógica que seria uma ciência puramente formal, e baseada, em última instância, numa arbitrariedade humana,
baseada em convenções, ou seja, a Lógica como ciência puramente normativa. A lógica de computadores é puramente
normativa. Basta um conjunto de leis, e cria um sistema dedutivo que seja coerente com essas leis. Entretanto, se tudo isso é
coerente com o real pouco importa, o computador vai funcionar do mesmo modo. É a partir de tudo o que foi dito que nós
devemos entender o texto de Husserl.
Este texto pergunta fundamentalmente, o quê é a Lógica? Se é uma ciência empírica, baseada no estudo do pensamento
humano real; se é uma ciência metafísica, fundada em leis ontológicas, e que reflete na unidade do pensamento, na unidade do
real; ou se é uma ciência puramente normativa, formal, constituída de um sistema dedutivo, fundado em normas
convencionalmente adotadas pelo homem. Estas são as três orientações que Husserl fala no primeiro capítulo: psicológica,
metafísica e formal.

§ 2. Necessidade de uma nova dilucidação das questões de princípio

Husserl diz que as três orientações da Lógica, ou seja, esses três modos de definir a Lógica, aos quais correspondem três
modos respectivos de desenvolver, e esses três modos ainda estão em conflito, muito embora, na época dela o modo psicológico
tenha alcançado um maior número de adeptos. Só que isso não quer dizer nada.
Assim, nenhuma das três correntes ofereceu argumentos contundentes que pudessem convencer os partidários das
demais. Diz Husserl, “A circunstância de que ensaios tão numerosos para impelir a lógica pelo caminho seguro de um ciência
não permitam apreciar nenhum resultado convincente, deixa aberta a suspeita de que os fins perseguidos não se aclararam na
medida necessária, para uma investigação frutífera”.
Por quê ele fala em “caminho seguro de uma ciência”? Essa é uma das expressões que Kant usa no começo dos seus
trabalhos. Ele assinala alguns dos traços que indicam se uma ciência entrou pelo caminho seguro, ou se ela está perdida. Um dos
sinais de um caminho seguro seria a unanimidade quanto aos resultados, e quanto aos caminhos a seguir. Essa unanimidade não
se observa na ciência da Lógica, e que portanto, Husserl diz que ela não entrou para um caminho seguro de uma ciência.
Curiosamente, a Lógica é a ciência que Kant dizia ser a ciência por excelência. Kant considerava a Lógica como a
ciência que havia entrado no caminho seguro. Husserl demonstra aqui que não é nada disso. Ele diz que uma parte da Lógica
entrou pelo caminho seguro, que é o esquema dedutivo, e quanto a isso ninguém discute. Porém, quanto à natureza da Lógica, e
quanto ao campo de extensão de validade de seus princípios, a discussão continua até hoje. Ele quer dizer que os fins nos casos
sobre a discussão quanto à natureza da Lógica, não foram aclarados de maneira suficiente, e por isso mesmo os resultados da
discussão não são firmes.

A concepção dos fins de uma ciência encontra sua expressão na definição dessa ciência. Não que o cultivo
frutífero de uma disciplina exija uma prévia e adequada definição do conceito de seu objeto. As definições de uma ciência
refletem as etapas de sua evolução. Não obstante, o grau de adequação das definições exerce também seu efeito retroativo
sobre o curso da ciência mesma;

Você pode ter várias definições na mesma ciência conforme ela vai se desenvolvendo, porém é fundamental que as
definições não estejam totalmente erradas, ou deslocadas com relação ao objeto. Elas podem, por exemplo, ampliar o campo do
objeto, ou podem especificá-lo, conforme as novas descobertas vão sugerindo um caminho ou outro. Porém, se acontece da
definição se desviar completamente do objeto, a ciência perde o rumo.

E esse efeito pode ter influxo escasso ou considerável, conforme a direção em que as definições se desviem da
verdade. A esfera de uma ciência é uma unidade objetivamente cerrada. O reino da verdade divide-se, objetivamente, em
distintas esferas.

Isto aqui é absolutamente decisivo e que, pelo menos no meio brasileiro, as pessoas têm muita dificuldade de captar.
Em geral, pelo menos no campo que eu tenho visto dos alunos, nos últimos dez anos, pelos quais eu tomo uma medida
do que se passa no meio universitário, a tendência vigente do brasileiro é de viver a realidade como uma espécie de pasta
caótica, na qual todas as distinções são estabelecidas apenas pelo arbítrio humano. Ou seja, o indivíduo vê o mundo como um
caos onde está tudo misturado, e vê as distinções como mais ou menos convencionais e arbitrárias, ou seja, como meramente
práticas.
Assim, distingue-se entre um campo da Física e outro da Biologia, entre o real e o possível, entre o dentro e o fora, etc.,
apenas por uma convenção, por uma necessidade prática. Sendo que essas distinções não correspondem a traços da própria
realidade. Quase todo mundo pensa assim. Mas, não é que pensem assim por terem examinado o problema, mas, sem jamais
terem examinado o problema.
Existe um preconceito de que todas as distinções, inclusive as divisões do próprio sistema das ciências são, primeiro,
arbitrárias e, segundo, meramente práticas. Husserl afirma exatamente o contrário. Ele diz que a esfera de uma ciência é uma
unidade objetivamente fechada. Ou seja, se quiséssemos fazer entrar outros fatores nessa esfera, não conseguiríamos. Ele não diz
que deve ser, ele diz que é. Isso é muito importante. Com isso está subentendido que um sistema das ciências só é válido quando
as suas divisões, ou seja, as denominações das várias ciências, correspondem a divisões objetivas do real. Por exemplo, quantas
ciências podem estudar um objeto?
Pelo pressuposto inconsciente na mentalidade do nosso meio universitário, qualquer coisa pode ser objeto de qualquer
ciência, sob qualquer ponto-de-vista. Basta você inventar um ponto-de-vista qualquer que você terá uma nova ciência.
O que Husserl diz é exatamente o contrário: as ciências só são válidas, elas só existem efetivamente, e elas só podem ser
praticadas efetivamente, quando as divisões dos seus campos correspondem rigorosamente às divisões do próprio real. Isto não
quer dizer que o sistema das ciências tenha que esgotar essas divisões mas, pelo menos, as que estão nela, são divisões que
refletem, não apenas pontos-de-vista, ou desejos, ou interesses humanos, mas a constituição dos próprios objetos. Um único
exemplo permitiria tornar isso bastante claro, e isto é uma coisa tão simples que, uma vez visto, as pessoas percebem que é
assim: como nós poderíamos fazer uma ciência que pudesse por no objeto, ao mesmo tempo, as propriedades dos triângulos e o
crescimento das plantas? Como poderíamos achar uma conexão causal, na qual, o crescimento das plantas afetasse as
propriedades dos triângulos? Existe algum meio de que algo que aconteça a qualquer planta desse mundo, dos outros mundos,
afetasse a propriedade dos triângulos? É absolutamente impossível. Essas coisas não interferem uma na outra, jamais. São planos
distintos, portanto, são objetos distintos.
Quando um indivíduo sente as divisões como arbitrárias, ou convencionais, é que ele está confundindo o mundo, tal
como ele é estudado pelas ciências, com o mundo da experiência sensível, da experiência real humana, que não são o mesmo
mundo. O mundo que chega à nossa experiência de indivíduo é o mundo concreto, onde todos os efeitos, todas as linhas de
causa, comparecem ao mesmo tempo, ou seja, nós experimentamos, ao mesmo tempo, os efeitos que estão ligados entre si, e os
que estão desligados. Por exemplo, se um aluno me faz uma determinada pergunta relativa à aula anterior, eu compreendo que
isso é um efeito da própria aula anterior que eu dei. Porém, esse mesmo aluno que manifesta um efeito de um acontecimento
anterior, ele também chega aqui vestido de verde, ou de amarelo, e essas duas coisas acontecem ao mesmo tempo, e é o mesmo
aluno que vem vestido de uma das cores, por causa de uma escolha arbitrária que ele faz, e que me faz essa pergunta derivada da
aula anterior. Ou seja, eu observo, ao mesmo tempo, indícios, num todo inseparável, os efeitos de duas linhas de causa que não
tem nada a ver uma com a outra. O concreto quer dizer exatamente isso.
O acontecimento concreto é aquele no qual se juntam todas as linhas de causas, as que estão ligadas entre si, e as que
não estão ligadas entre si, e que somente se juntam no acontecer concreto. Porém, a Ciência não se interessa pelo acontecimento
concreto. Ela só se interessa pelas conexões de causas. Por quê a Ciência haveria de se interessar pelo acontecer concreto? Isto é
matéria da experiência humana, comum e corrente. Se a Ciência tratasse disso ela seria uma simples repetição da experiência, e
de nada serviria. Ou seja, aquilo que nós já sabemos pelas vias comuns e correntes, não pode ser matéria de Ciência. Da
experiência concreta nós sabemos os fatos, aquilo que são efeitos ( factum est ), aquilo que está sendo, o que já é fato. E, tudo
aquilo que é feito, é feito pelo composto de uma infinidade de causas diferentes, que convergem num mesmo lugar e momento.
Porém, essas causas não estão conectadas em si mesmas, umas com as outras, embora estejam ambas conectadas ao mesmo fato.
O conhecimento da aula anterior, e a cor da roupa, estão juntas ambas no mesmo indivíduo, mas não são eles que se juntam um
ao outro. É o indivíduo quem os junta. O que pode acontecer é que efeitos de tipo físico, e de tipo econômico-sociológico,
convirjam num determinado momento. Por exemplo, um sujeito dá um tiro no outro. A bala mata o sujeito devido ao impacto.
Esse impacto pode ser calculado por leis físicas, porém, por quê o sujeito matou o outro? Isto poderia ser calculado por leis
físicas? Não. Pode ser por motivos psicológicos, ou sociológicos, que nada têm a ver com o impacto da bala. No entanto, o
indivíduo foi morto, precisamente, porque o encadeamento das leis físicas que determinam o impacto da bala, e o encadeamento
das causas psicológicas que determinaram o tiro, convergiram no mesmo momento. Isto é o que se chama de concreto.
Portanto, para poder captar o que é o ponto-de-vista científico, nós temos que sair do aspecto concreto para que nós
possamos pegar quais são os encadeamentos de causa que estão necessariamente conectados entre si, ou seja, que sempre vêm
juntos, e aqueles que podem vir separados. Ou seja, o impacto de uma bala depende do seu calibre, e a causa psicológica pelo
qual o indivíduo matou o outro, depende de acontecimentos anteriores, de ordem puramente psicológica. Essas coisas não estão
conectadas entre si, mas apenas no indivíduo real. Assim, coincidiu de que João tinha tais motivos para matar José, e João tinha
uma bala de calibre 38. Não poderíamos, dessa forma, estabelecer uma relação direta entre o motivo psicológico e o calibre da
bala e, portanto, o seu impacto. Essa relação é indireta e estabelecida através de um terceiro fator que é o indivíduo ser o autor do
ato. Entre o calibre da bala e o seu impacto existe uma relação necessária, mas entre o calibre da bala e a motivação psicológica
que motivou o tiro não há uma relação necessária, portanto, isso não pode ser objeto de Ciência. Não pode existir Ciência das
conexões fortuitas porque senão seria uma Ciência inesgotável, nunca chegaria a nada. É como se você tivesse uma Ciência que
estabelecesse uma estatística entre o horário de partida dos aviões nos aeroportos de todo o mundo e a quantidade de
nascimentos de crianças. Não é impossível que você até encontre uma certa coincidência, por exemplo, quando partem mais
aviões, nascem mais crianças, porém a nossa razão percebe que não há uma conexão entre uma coisa e outra, mesmo quando
elas coincidem.
A incapacidade que o indivíduo tem de sair do plano da experiência concreta e se colocar no plano abstrato que separa
as várias linhas de causa, ela vem junto, necessariamente, com a impossibilidade que o sujeito tem de distinguir o necessário do
fortuito. Por quê? Porque só existe conexão necessária em linhas causais unívocas, por exemplo, entre o calibre e o impacto da
bala. Entretanto, a conexão entre o impacto da bala e a motivação psicológica é fortuita. Se eu não consigo me desligar do
acontecimento concreto, eu não consigo perceber quais são as ligações necessárias, e quais são as fortuitas. Por isso mesmo é
que eu tenho uma imagem do mundo que é caótica, onde qualquer coisa pode acontecer a qualquer momento, por qualquer
causa. Isso é, evidentemente, um sinal de muita fragilidade intelectual. É um impressionismo. O indivíduo está tão
impressionado pelo acontecimento concreto que ele só consegue ver um amálgama de causas e efeitos misturados, e não
consegue ver que, por trás, existem conexões necessárias e outras, fortuitas. Portanto, daquele acontecimento em particular, ele
não tira nenhuma conclusão que seja aplicável para um outro acontecimento, e se tentar vai tirar a conclusão errada.
O problema é que, pessoas que tenham formação universitária, que se dedicam à profissão científica, pensem desta
forma, isso é gravíssimo. Se for assim, a pessoa está fazendo Ciência com a mentalidade mágica, ingênua, de uma criança de
cinco anos. É necessário que a sua imaginação também pense junto com o seu saber, e que você possa, dentro do mesmo
acontecimento, separar imaginativamente os vários aspectos, uns dos outros, para você ver quais estavam ali por uma
necessidade, e quais estavam de maneira fortuita.
O indivíduo confundir o que é necessidade lógica com o encadeamento causal, real, é também um sinal dessa mesma
fragilidade. O indivíduo está tentando sair do concretismo, e o faz por um abstracionismo excessivo. Seria a pessoa que tem uma
mentalidade racionalista, ou seja, tudo aquilo que está no raciocínio, tem que acontecer, necessariamente. Isso só acontece se
houver, entre os dados, uma conexão real, homóloga à conexão física dos seus raciocínios.

Nós estamos num situação, que acontece no meio letrado brasileiro, onde tudo aquilo que foi conquistado pela
humanidade, ao longo dos séculos como, critérios de distinção, instrumentos de classificação do mundo, etc., tudo isso está
inacessível ao brasileiro. Assim, dada qualquer problema para resolver, na mão de indivíduos assim, mesmo que seja da sua
ciência em particular, eles farão muita confusão.
Sinceramente, eu acho impossível que o sujeito pratique bem uma ciência se ele não tem idéia de, se o campo daquela
ciência tem uma unidade real ou fictícia, real ou convencional, teórica ou prática. Simplesmente não é possível, porque se o
indivíduo nem sabe se aquele objeto existe ou foi inventado por ele mesmo. Ele fica desorientado em face do objeto e, mais dia
menos dia, ele vai começar a fazer burrada. O pior é que todo o mundo das ciências existentes, Biologia, Economia, História,
etc., só tem validade em cima dessas distinções. Se eu conheço as ciências, mas não conheço as distinções que as estabelece, que
as criam, que as delimitam, na realidade eu não sei o que é Ciência. Mesmo aquela que eu pratico profissionalmente.
Por razões como essa é que o problema do Brasil não é a miséria mas, sim, o de ser um país desorientado, e que só não
está numa miséria maior porque Deus é brasileiro. é um país cujos recursos são desproporcionais às realizações exatamente por
ser formado de pessoas que estão num nível intelectual muito atrasado. O pior é que isso é verdade, embora eu gostaria que não
fosse, mas acontece que quando você vê como uma discussão é iniciada, como ela se desenrola, e ao resultado que ela chega,
não importa em que setor seja, sempre chega a uma confusão, porque são pessoas que não acreditam no conhecimento objetivo,
não têm idéia do que é, e encaram o mundo como um pastiche, no qual todos os conceitos são uma espécie de joguinhos, regras
de jogo que nós inventamos. Pergunte a um psicanalista se existe o id, objetivamente? Ele existe como uma unidade, ou ele é
uma função de alguma outra parte do ser humano realmente existente? O id é sujeito de atos? É difícil você achar um
psicanalista que tenha se colocado essa pergunta. Todos falam do id como se ele existisse, como se ele fosse uma outra pessoa: o
José quer isso, mas o id do José quer aquilo, ou seja, o José parece uma só pessoa, mas é, na verdade, duas! O id vira uma
espécie de “encosto”.
Assim, saber se os objetos de que você fala são entes, são funções, são modalidades, são aparências, ou epi-fenômenos,
isso é fundamental. Se eu não sei se estou falando de um ente, ou de uma palavra, então não vai adiantar nada... É claro que eu
posso fazer raciocínios sobre conceitos inexistentes. Às vezes, para completar certos argumentos lógicos, você procede como em
Álgebra: você tem uma coisa que você não sabe se existe ou não; você a denomina de x e continua raciocinando em cima dela.
Mas, se você não sabe se o x existe ou não, e não o distingue, você nunca pode chegar a resultado algum que preste.
Vejam, por exemplo, as nossas discussões que prosseguem exatamente a noventa anos, nos mesmos termos. Há um
artigo de Monteiro Lobato, de 1910, discutindo as causas da inflação. A discussão é exatamente a mesma. Discute-se este
problema há nove décadas e não o resolvem..., assim como uma infinidade de outros problemas. Se o povo, em determinados
momentos, adere a modas estrangeiras, então fica impossível.
Assim, o povo, enxergando o mundo como um caos, ele fica desorientado, e fica procurando algo que lhe sirva de
referência, e quando aparece uma nova palavra, uma nova idéia, ele se agarra a aquilo como um náufrago se agarra a uma tábua.
Isso acontece, não porque ele tenha espírito de imitação, mas porque tem o espírito de salvar a pele. Para ele não ficar
completamente louco, ele se agarra a uma nova palavra que pode ser, por exemplo, modernidade. Ele não sabe o que é, mas
também não precisa, desde que isso lhe dê a esperança de salvar a sua pele.
Com relação às discussões de problemas de interesse público, dificilmente você vê alguém que queira colocar as coisas
e as tente resolvê-las efetivamente. Há um amor por certas idéias, de modo que você depende delas, e se elas morrerem você
sente que o seu mundo caiu. Essa nossa impressão de estarmos isolados do mundo, ela é verdadeira, mas não pelos motivos que
as pessoas pensam, por estarmos à margem da modernidade. Sempre pensam que é por motivos econômicos e é evidente que não
é por isso. Não sei por quê um país pobre não pode acompanhar o movimento de idéias do mundo! É evidente que pode.
Sobretudo, eu não sei por quê um país pobre não pode saber como foi o movimento de idéias nos tempos de Platão e Aristóteles.
Quanto dinheiro você precisa para saber disso?
O que acontece hoje é ver as pessoas tentando alcançar uma atualidade, e quando você consegue, já não é mais atual.
Isso é imediatismo, que é uma coisa do indivíduo só visar o interesse do seu grupo, e não conseguir enxergar; esse espírito de
reivindicação ( queremos isso, queremos aquilo ) que é como se a sociedade fosse um pai que não lhe dá as coisas porque ela não
quer, porque ela é malvada. Assim, cada um reivindica a sua parte, e ninguém tem a menor idéia de que existe um conjunto, e
esse conjunto, às vezes, não pode atender a todo mundo. Ainda, as pessoas reivindicam coisas urgentíssimas, e coisas
perfeitamente fúteis, com o mesmo vigor, com a mesma ênfase. Assim, temos situações onde o indivíduo que está no hospital do
INAMPS, e reivindica o sangue que precisa, e o hospital não tem, enquanto o juiz federal que ganha, apenas, 50 milhões por
mês, e que vê o funcionário equivalente ganhando 65 milhões, está igualmente revoltado, e reivindica nos mesmos termos: “Isso
é uma injustiça! É intolerável!”. Isso é totalmente desproporcional.
Todo ser humano tem direito a isso ou aquilo, e o pai tem o direito de não dar para a criança o que ele não tem. Portanto,
ficou tudo na esfera puramente verbal. Essa estória de reivindicação pode até acabar descambando para a hipocrisia. Um
hipócrita é um sujeito que se coloca deveres morais que estão acima da capacidade dele. Assim, ele não pode atender ao seu
próprio padrão moral elevado, vive abaixo do padrão, vive se condenando, e ao mesmo tempo, tendo que se esconder. Ele é um
para se mostrar, e outro para dentro. Naturalmente ele tem um complexo de inferioridade enorme, e para compensar isto, ele terá
que encontrar uma série de procedimentos mais ou menos rituais, compulsivos e completamente malucos. É um sistema
adaptativo muito complicado o relacionamento neurótico. O neurótico é o sujeito que vive em bases muito complicadas. A
relação dele com todas as coisas é indireta, simbólica, cheia de mediações. É um código muito complexo, e a regra do jogo
também é muito complexa.
Quanto mais você exige da sociedade o que ela não pode dar, ou seja, cada nova lei que proclama mais um novo direito
para mim, é um crime, porque a lei já consagrou muito mais direitos do que a sociedade brasileira pode atender. Se ela não pode
atender, por quê a lei?
Isso aí é só uma das manifestações dessa patologia intelectual. Eu não vejo esperança de melhora para a sociedade
brasileira enquanto não houver uma espécie de saneamento da nossa vida intelectual; enquanto ela não começar a enxergar claro.
Sempre que existe um debate público, sobre qualquer coisa, é seguro que os termos reais que aquilo se coloca nunca aparecerão.
Com relação a essa visão do real como um pastiche, onde está tudo misturado com tudo, não é preciso dizer que as
pessoas que não conseguem enxergar essas distinções reais e que, não obstante, são obrigadas a estudar determinadas ciências, e
sentem o mundo da Ciência como opressivo, quando aparece uma coisa chamada holismo, elas sentem um verdadeiro alívio. O
holismo é a justificação científica dos pastiches. O que adianta você ensinar Ciência se antes você não ensinou o indivíduo a
perceber que as coisas, os eventos, têm conexões necessárias, e têm conexões que são fortuitas. Ou seja, se você não ordenou a
própria visão do mundo da experiência, se esse indivíduo chegou à idade adulta ainda com uma visão infantil, fantasmagórica,
do real, você não conseguirá enfiar Ciência na cabeça de um botocudo para que dê certo. O problema todo fica colocado numa
fase da educação que está entre o primário e a universidade, que seria a faixa onde deveria entrar tudo isso.
Assim, este texto do Husserl, se for bem estudado, ele irá arrancar essas coisas das suas cabeças, ele vacinará você
contra essa sensação de caos e, sobretudo, fundamentar, fazer uma espécie de experiência do que pode ser um conhecimento
firme. De pronto, ele parte da idéia de que as Ciências, ou têm as denominações, as suas definições separadas, de acordo com as
divisões do real, que o próprio real impõe, ou então elas não valem de nada, não são Ciências absolutamente. Isto, ele não vai
demonstrar neste livro, pois não é assunto deste livro. Ele está partindo disto como um premissa, então, ele não vai mais se
explicar a esse respeito.
Então, entenderam o que Husserl quer dizer com “esfera objetivamente cerrada”? Existem uma definições que valem
entre objetos, mas que não se referem a princípios diferentes do conhecimento desse objetivo. Por exemplo, pode existir uma
ciência dos animais, mas não pode existir uma ciência dos leões. Não pode porque ela seria exatamente igual à ciência dos
leopardos, ou à ciências das onças, etc. Só muda o denominação do objeto. É, fundamentalmente, a mesma ciência, que usa os
mesmos princípios, os mesmos métodos, apenas aplicam a objetos diferentes. Não são objetos genericamente diferentes, nem
especificamente diferentes. É uma diferença de um indivíduo para outro indivíduo. Eu não posso estudar os leões com os
mesmos princípios que eu estudo as leis de mercado, ou que eu estudo os oceanos. Entretanto, eu posso estudar os leões com os
mesmos princípios que eu estudo os leopardos. É um conteúdo diferente, da mesma ciência, só que aplicado a um outro objeto,
da mesma ciência. Ou seja, os leões não estão conectados entre si com um sistema de lei diferente daquele que conecta os
leopardos ou as onças. Enfim, os leões não constituem uma esfera objetivamente cerrada.

A esfera de uma ciência é uma unidade objetivamente cerrada. O reino da verdade divide-se, objetivamente, em
distintas esferas; as investigações devem orientar-se e coordenar-se em ciências, em conformidade com essas unidades
objetivas.

Ou seja, essas unidades objetivas estão dadas no real. Elas, às vezes, não são evidentes à primeira vista. No mundo
concreto, no mundo da experiência, as várias esferas de conexão aparecem misturadas sempre, e isso mesmo é a definição do
concreto. Nós é que temos que, gradativamente, perceber como esses vários grupos de conexões se distinguem. A medida que
descobrimos novas diferenças ou novas relações entre grupos de conexões, estaremos aperfeiçoando o edifício da Ciência para
que o campo da Ciência se torne mais completo e ao mesmo tempo mais distinto. Por isso ele diz que a definição de Ciência vai
variando segundo a sua evolução.

Pois bem: quando um grupo de conhecimentos e problemas se impõe como grupo coerente e leva à constituição
de uma ciência, a inadequação de sua delimitação pode consistir meramente em que se conceba a princípio a sua esfera
de um modo demasiado estreito, em relação ao dado, e que as concatenações dos nexos fundamentais ultrapassem a
esfera considerada e se concentrem numa unidade sistemática mais ampla.

Isto quer dizer que uma ciência se constitui estudando um grupo de fenômenos, mas pode acontecer que entre esse
grupo, e um outro que está ao lado não haja, fundamentalmente, distinção alguma. Então você acaba percebendo que aquilo
também faz parte da sua ciência.
Husserl diz que isso não é um problema, ao contrário, você apenas amplia o campo da ciência. Por exemplo, no caso da
Zoologia, é evidente que ela se desenvolveu estudando uma fauna européia. Só que existem outras espécies de animais,
totalmente diferentes, que você nunca ouviu falar, e que representam desenvolvimentos que seriam inesperados em face daquelas
espécies de animais que você já conhece. Ou seja, espécies de animais que seguiram uma outra linha de evolução, diferentes das
espécies que você já conhece. Isto não quer dizer que eles devam ser objeto de outra ciência, porque essas diferentes linhas de
evolução que levaram à constituição dessas outras espécies, são baseadas nos mesmos princípios que fundaram a evolução das
espécies conhecidas. Assim, a estreiteza do campo não é um problema.
Incomparavelmente mais perigosa é a confusão de esferas, a mescla do heterogêneo numa presumida unidade,
sobretudo quando radica numa interpretação completamente falsa dos objetos.

Podemos citar o exemplo de mesclas heterogêneas numa presumível unidade. Se vocês olharem qualquer mapa do
mundo, anterior aos grandes descobrimentos, vocês verão demarcados a Europa, a Ásia, um pedaço da África, em volta deles um
monte de água, e para além disso, a zona dos monstros marinhos. Isto quer dizer que a Geografia da Idade Média estudava
também os monstros marinhos. Para que uma ciência possa dizer se para lá de um certo limite geográfico existem monstros
marinhos ou não, ela poderia utilizar os métodos da Geografia? Com o método da Geografia podemos delimitar se um
determinado ser é monstruoso ou é normal? É impossível saber disso por meio da Geografia.
Assim, quando a Geografia fala de “zona de monstros marinhos”, ela está colocando, dentro do seu objeto, uma ordem
considerações que lhe é totalmente estranha. Quando isso acontece, fica muito difícil você desmentir o erro porque como a
própria ciência não dá critérios para você decidir a questão, a falsidade daquilo não pode ser averiguada pela própria ciência que
está tratando do assunto. Então, a mentira se propaga.
É o que acontece em Astrologia, se um astrólogo lê o mapa das suas reencarnações passadas ou futuras. A existência ou
não da reencarnação é assunto astrológico? Como poderíamos decidir essa questão por meio da Astrologia? Essas são típicas
mesclas heterogêneas de uma unidade presumida. Outro exemplo: quando um astrólogo, baseado no seu mapa, diz que você é
conservador progressista. A própria definição do que seja conservador progressista escapa totalmente dos conceitos astrológicos.
A Antropologia pode dizer se uma raça é superior ou não? O racismo, ou o anti-racismo, pode ser fundamentado? Saber
se alguns homens são superiores a outros é um problema antropológico? A ciência que estuda a variedade das culturas das
espécies humanas não é a mesma ciência que gradua as qualidades humanas. Um indivíduo pode ser superior a outro sob
determinado ponto-de-vista, por exemplo, moral, ético, etc. Assim, você precisaria recorrer a uma outra ciência para resolver
essa questão. Acontece que essa ciência não existe. Não existe uma ciência que estuda a superioridade de um ser humano sobre o
outro, sob todos os pontos-de-vista ao mesmo tempo. A Ética pode dizer que um sujeito é melhor que o outro. Mas, ela pode
dizer se um indivíduo é mais bonito que o outro? Ou mais forte? Não pode. A clínica médica pode dizer se um indivíduo tem
mais saúde que o outro, mas ela pode dizer se um indivíduo é, moralmente, melhor que o outro? Todas as superioridades e
inferioridades conhecidas são específicas. Não existe a ciência da superioridade geral.
Portanto, isso não é objeto de conhecimento humano. Sendo assim, como é que a Antropologia pode discutir sobre isso?
Quando você diz que uma raça é melhor que a outra, você está falando melhor em termos gerais, e não nesse ou naquele ponto.
Se assim fosse, é evidente que uma raça é melhor do que a outra sob certos aspectos, e pior sob outros aspectos. Entretanto,
quando se fala de uma superioridade geral, a pergunta é: o quê determina essa superioridade geral? Qual é a ciência que estuda
isso? Nenhuma. No caso, a Antropologia açambarca um objeto que não é, nem da sua área, e nem de qualquer outra. Qualquer
debate sobre isso não vai dar em nada.
Que um ideólogo discuta sobre isso, tudo bem. Mas um cientista, perder um minuto discutindo sobre isso, é um absurdo.
Isso não é matéria científica. Ademais, a pergunta “existe uma raça superior?”, é intrinsecamente contraditória, porque uma raça
é uma diferença específica, e não geral. Existe alguma superioridade geral que possa ser devida a uma diferença específica?
Claro que não! Se existe uma diferença de tipos humanos, só pode haver uma superioridade -- ou inferioridade -- que esteja
vinculada a essa diferença mesma. Portanto, jamais poderá ser geral. Entre seres da mesma espécie, onde há tipos diferentes,
jamais poderá haver uma superioridade geral, sob todos os aspectos.
Isto é o que Husserl quer dizer com “a confusão de esferas”, que pode chegar ao ponto de uma ciência tomar a seu
encargo uma determinada questão que somente poderá ser resolvida pelo saber universal. Pode acontecer, em outros casos, da
ciência simplesmente tomar a seu encargo um saber que depende de uma outra ciência, porque se referem a objetos que estão
conectados entre si, por um tipo de nexo, que não aquele que une os objetos dessa ciência. Isso é metásbases exalogüenos, ou
seja, transposição para um outro gênero. você está falando de um gênero de coisas e, repentinamente, sem que você perceba você
está falando de um outro gênero de coisas, por exemplo, como no caso da Geografia da Idade Média, quando ela fala de
características geográficas e, de repente, ela está falando de monstros marinhos.

Uma transposição para um outro gênero, assim inadvertida, pode ter os efeitos mais nocivos: fixação de objetivos
falsos; emprego de métodos incomensuráveis com os objetos, confusão de camadas lógicas, de modo que as proposições e
as teorias fundamentais, ocultas sob os disfarces mais singulares, vão perder-se entre séries de idéias completamente
estranhas, como fatores aparentemente secundários, ou conseqüências incidentais.

Em todos os debates científicos, não-decididos, sempre existe uma coisa desse tipo. Um dos exemplos seria os debates
em torno de condições de evolução. Existe uma evolução animal no tempo, de modo que as espécies mais aptas vão se
substituindo às espécies mais inaptas. Aptas, em relação a adaptar-se a aquele ambiente em particular. Acontece que a adaptação
ao ambiente em particular pode ser inadaptação com outro ambiente em particular. Como o ambiente ao qual uma determinada
espécie se adaptou, mediante tais ou quais alterações, pode, amanhã, ser novamente alterado. Isso significa que a sobrevivência
do mais apto, como lei geral é também auto-contraditória.
Não existe a aptidão geral. Só existe aptidão específica para isso ou aquilo, portanto, a sobrevivência do mais apto
jamais poderia ser uma lei geral para explicar todos os casos. Por exemplo, os peixes são muito mais aptos para viver embaixo
d’água do que os seres humanos. Isso significa que quando a água secar o peixe morre, a não ser que ele se adapte a uma vida
fora d’água. Isso, de fato, aconteceu em certas regiões da Terra, onde secas prolongadas acabaram fazendo com que certos
peixes se adaptassem para ficarem fora d’água por muito tempo. Existe até uma ilha onde os peixes a atravessam pulando fora
d’água. Para que isso ocorresse, os peixes tiveram que perder uma série de capacidades, e se tornaram monstruosamente feios.
Entretanto, a adaptação a essa circunstância em particular facilita a sua evolução posterior, ou, ao contrário? A espécie teve que
se transformar tanto que, para se adaptar a uma determinada circunstância, que depois ela não pode se adaptar mais à seguinte,
porque senão ela morre. Se fosse assim, você vê que a circunstância, o clima, a vegetação, etc., que a Terra já passou por tantas
alterações, que ficaria quase impossível a sobrevivência de quase todas as espécies.
Portanto, podemos dizer que o princípio de sobrevivência dos mais aptos pode funcionar em certos casos, mas ele não
pode ser um princípio explicativo geral. Quem diz que em determinadas circunstâncias os inaptos não podem ser favorecidos por
qualquer coisa? Existe uma evolução no sentido da complexidade crescente dos organismos, mas essa evolução, resultar do
princípio da sobrevivência do mais apto, isso é quase impossível. A idéia de que determinados fatos da natureza, ou seja, o fato
de que uma determinada espécie sofreu certas alterações no curso do tempo, faz explicar que se recorre a um princípio geral, na
verdade, vai complicar tudo formidavelmente. Talvez fosse mais fácil apelar a uns dez ou quinze princípios explicativos
diferentes do que a um só.
A grande ambição de Darwin foi oferecer uma explicação para todas as transformações sofridas por todas as espécies ao
longo de todos os tempos. É uma teoria tão grande, tão ambiciosa, que jamais poderá ser comprovada, nem desmentida, como
aliás o é até hoje.
Assim, quem disse que a ciência da Biologia, considerada em si mesma, poderia fornecer explicação para a
transformação sofrida por todas as espécies de animais? A fauna terrestre, no seu todo, não está só submetida às variações
climáticas, geográficas, locais, mas às condições do planeta como um todo. Portanto, você pode procurar explicação terrestre
enquanto queira. Ou você vai ter que considerar o sistema solar como um todo, ou não vai achar explicação alguma. Portanto,
não faz parte da Biologia terrestre, o dever de explicar a evolução terrestre como um todo. Isso é uma metásbases exalogüenos.
Isso é um problema de Biologia cósmica, e não de Biologia terrestre. A entrada de um asteróide na órbita do nosso planeta pode
provocar tais alterações que mate milhares de espécies animais de uma vez só. Isso significa que essas espécies estavam
inadaptadas? O quê adiantaria se adaptar a um acontecimento fortuito? Se elas se adaptassem a essa breve alteração estariam
adaptadas para sempre.
A Biologia terrestre só pode explicar os fatos dentro dos âmbitos terrestres. É claro que você não poderia explicar as
transformações biológicas sem apelar às transformações geofísicas, geológicas, climáticas, etc. Mas, isso é Biologia? Nem existe
essa ciência ainda. É muito complicado. É querer dar um pulo maior que as pernas. Quando alguém levanta uma pergunta
enorme como essa, ele só irá encontrar uma resposta metafísica. A teoria da evolução é uma teoria cosmológica. Depende de
toda uma cosmologia. Por quê o próprio Darwin não percebeu que a pergunta era insolúvel? Talvez porque lhe faltassem dados
para ele perceber que a questão era maior do que ele imaginava. Talvez por ele olhar tudo com olhos de biólogo.
Naquela época não haviam viagens espaciais, as pessoas não tinham o hábito de pensar a Terra colocada dentro de um
sistema, embora soubessem disso. A imaginação de Darwin era a terrestre, então, a idéia de um conjunto, parecia sensato
naquela época. Hoje, é insensato. Hoje, temos uma consciência de ecologia cósmica. Teilhard de Chardin já percebera que a
idéia de uma evolução terrestre pressupunha uma evolução cósmica. Darwin, nem de longe havia pensado nisso. Com isso ele
resolveu a pergunta? Não, ele só ampliou a pergunta.
Assim, esclarecer a teoria da evolução em termos biológicos é fixar um objetivo falso. A Biologia não tem obrigação
disso. Nem pode fazê-lo.

Estes perigos são mais consideráveis nas ciências filosóficas do que nas ciências da natureza exterior, nas quais, o
curso de nossas experiência nos impõe divisões nas quais é possível organizar ao menos provisoriamente uma
investigação frutífera.

Vejam que, embora a Biologia tenha colocado um objetivo falso, ainda assim é possível você continuar procedendo a
investigações parciais sobre isso ou aquilo sem grandes danos. O fato da Biologia não poder resolver a questão da evolução
como um todo não impede que você possa reconstituir a evolução de uma determinada espécie em particular. Ou seja, ainda que
no fim a investigação toda vá tomar um rumo completamente diferente, aquele pedacinho investigado continua válido dentro dos
seus limites. Isto porque a investigação que toma por base o mundo real, este mundo real nos impõe divisões. Por mais que a
resolução da questão da evolução dependa de considerações de ordem da Ecologia cósmica eu posso, por exemplo, reconstituir a
evolução da espécie cavalo porque o cavalo tem certas analogias com os outros esqueletos de cavalos de outras épocas, e isso é
suficientemente distinto do esqueleto dos tubarões ou dos elefantes. É uma divisão que o próprio real nos impõe.
Nas ciências da natureza, às vezes, as divisões dos seres estão tão claras que não há possibilidade de confusão. Porém,
nas ciências filosóficas isso não acontece. Não há experiências para você verificar. Mesmo as investigações parciais dependem
da orientação do conjunto para serem bem sucedidas. Portanto, aqui é preciso mais cuidado ainda. E, no caso, a Lógica é uma
ciência filosófica.
§ 3. As questões discutidas. O caminho a empreender.

As questões discutidas tradicionalmente em relação à delimitação da lógica são:


1. Se é uma disciplina teorética ou prática.
2. Se é uma ciência independente ou subordinada.
3. Se é uma disciplina formal ou considera também uma “matéria”.
4. Se é a priori e demonstrativa ou empírica ( a posteriori ) e indutiva.
Propriamente só há dois partidos: a lógica é uma disciplina teorética, independente, formal e demonstrativa; ou é
uma tecnologia que depende da psicologia.

Que diferença faz a Lógica ser uma disciplina teórica ou ser prática? Independente ou subordinada? Formal ou material?
A priori ou a posteriori, isto é, demonstrativa ou empírica? Qual a importância disto?

[ Olavo faz uma parada nos comentários para discorrer sobre a inteligência humana. ]

A inteligência humana não se divide. Não existe inteligência específica. Só existe geral. Se o sujeito é burro em alguma
coisa, é burro em tudo. Qualquer burrice específica que você tenha é uma deficiência geral. Se você diz que tem uma
incapacidade para a Matemática, eu digo que essa sua incapacidade lesará, por exemplo, a sua capacidade narrativa.
O máximo que você pode admitir é que você tem um desenvolvimento desigual nos diferentes setores. Você não pode
consentir com uma incapacidade intelectual para nada. Os diferentes tipos de objeto não existem separadamente uns dos outros.
Uma incapacidade intelectual específica lesa um pouco todas as outras capacidades. O que você pode é aproveitar essa melhor
capacidade de um objeto para desenvolver a capacidade que você não tem.
Você tem que ser capaz em tudo, embora você não tenha igual interesse por tudo. Você não precisa desenvolver
realmente, mas você tem que sentir que tem a capacidade de desenvolver o que você quiser. Por exemplo, o exercício de você
expor o que você pensa sobre um assunto que você ignora completamente. Se você pensar realmente, se você fizer uma cadeia
dedutiva, partindo do pouco que você tem, você vê que, sempre o que você falar, pode estar deslocado em relação aos dados
reais, mas manifesta um conjunto de possibilidades que é sensato. Só quando você tem isso é que você pode compreender os
dados reais. A prática é baseada nisso. Porém, as pessoas não fazem isso reflexivamente, e não entendem que isso é uma lei
universal.
Um assunto qualquer, no qual você não tenha uma conjectura razoável, você nunca vai chegar a entender a realidade
dele. Isto porque a imaginação precede o raciocínio, então se você não prepara a imaginação para aquilo, você não chega a
compreender a significação dos dados para o entendimento.
O procedimento científico é você constituir toda a hipótese na sua cabeça, e quando você pega os dados reais, é só você
tirar isso, ajustar aquilo, e pronto. Na verdade, a explicação da produção do fato seria muito mais breve do que o imaginado. Se
você pensar sobre qualquer assunto que você desconhece, em primeiro lugar você vai ver que você conhece muito mais do que
você imaginava, e em segundo lugar você vai ver que a imaginação abre um oco para o conhecimento entrar, senão o
conhecimento desliza no vazio e se perde. É como comer sem fome.
Preleção V

17 de dezembro de 1992
[ continuação dos comentários da aula anterior sobre o §3 do texto. ]

Por quê umas pessoas tomam partido de uma dessas questões, e outras tomam de outra? Em nome de quê e com que
fins? O quê é uma ciência teorética, e o quê é uma ciência prática? O quê faz uma disciplina teorética? Qual a finalidade dela?
Exemplo de uma proposição teorética: “Esta parede é branca”. A proposição teorética fala de alguma coisa sobre a
realidade. A forma da proposição teorética é, “Isto é aquilo”, ou, “Tal coisa acontece”. A proposição prática é condicional: “Para
obter tal efeito, você faça assim”.
A mesma proposição pode ser dita sob forma teorética ou prática, por exemplo, “O quadrado da hipotenusa é igual à
soma dos quadrados dos catetos” ( proposição teorética ); “Para obter o quadrado da hipotenusa, somam-se os quadrados dos
catetos” ( proposição prática ).
Uma ciência prática enuncia uma regra. Ela não faz uma proposição sobre a realidade. Uma ciência teorética se expressa
em proposições categóricas, e para uma ciência prática todos os juízos dela são condicionados, são hipotéticos. Por exemplo,
num manual de televisão podem haver alguns juízos teoréticos: a TV é assim, tem isso, foi feita na época tal, etc. As instruções
são os juízos práticos: “Se você quiser ligar a TV, faça isso”, “Se quiser ajustar a cor, gire o botão”, etc. Isso não é uma
afirmativa sobre a realidade, isso é um juízo hipotético, condicional.
É muito grave que um indivíduo que tenha formação universitária não saiba o que é ciência teorética e ciência prática.
Um diagnóstico médico é teorético: “Você tem tal doença”. A terapêutica, a prescrição médica, é prática: “Se você quiser se
curar, tome o remédio tal”.
Existem ciências práticas, inteiras, que não são nada mais do que a transcrição de uma ciência teorética para a fórmula
hipotética, quando se trata de objetos de ação humana. A Geometria não é só uma descrição das propriedades, mas a descrição
de operações possíveis. Idem para a Matemática: 2 + 2 = 4 é igual a você dizer que, para obter 4, some 2 + 2 -- vira uma regra.
Entretanto, nem toda ciência prática é uma transcrição direta de uma ciência teorética. Há algumas que saem de outras
fontes. Código de trânsito é um juízo prático porque ele não diz como o trânsito é realmente, mas diz o que você deve fazer para
obter uma direção correta.
As pessoas geralmente pensam que qualquer coisa que se refira à realidade é prático. O prático não se refere à realidade,
mas à sua ação. Numa coisa onde não há interferência do indivíduo, não há prática alguma. O teorético representa o que é,
independente da minha ação. As pessoas pensam que o que é teórico não se refere à realidade, por exemplo, acham que dizer que
o triângulo tem três lados, é prático.
Vejam o que vocês estudaram na faculdade e digam o que é teórico ou prático. Artes Dramáticas: se você estudasse
todas matérias teoréticas você saberia a Arte Dramática? E se estudasse somente as matérias práticas? Em qual dos dois casos
você saberia mais? Qual é o objetivo do curso? A Escola de Artes Dramáticas ensina, fundamentalmente, o que é alguma coisa,
ou ela ensina a fazer alguma coisa? No caso, aqui, predomina o aspecto prático. Se você sai da Escola de Artes Dramáticas
sabendo toda a história do Teatro, mas não sabe fazer teatro, não adianta de nada.
Medicina: a ciência médica é, em si mesma, fundamentalmente prática; Filosofia: é fundamentalmente teorética -- ela
fala o que é; Biologia: é fundamentalmente teorética -- nas suas finalidades; Economia: a Economia ensina a fazer o quê? Nada.
O objetivo do curso se esgota no aspecto teorético. Se o sujeito sabe como funciona a sociedade econômica, o que é a riqueza, o
que é dinheiro, o que é capitalismo, etc., então ele é um economista. Engenharia: é prática. Se o indivíduo sai da faculdade
sabendo o que é uma ponte, o que é uma máquina, mas não sabe fazê-los, ele não é um engenheiro. Música: é prática. Você
saber o que é um instrumento, o que é uma música, mas não sabe como funciona, não faz de você um músico. Física: é teorética.
Saber o que é matéria, tempo, espaço, etc., faz de você um físico. Sociologia: é teorética. Administração de Empresas: o sujeito
tem que sair de lá sabendo administrar uma empresa? Não. é uma ciência teorética. Ele aprende como funciona uma empresa. A
prática não faz parte, não é fundamental para se saber de Administração de Empresas. Ao encarar como parte real da vida do
indivíduo, tudo vai ser prático.
Acontece que não é a Economia que é prática. Sou eu quem tenho que ter uma ação prática para aprender Economia. O
que eu estou interessado aqui é no conteúdo da ciência, e não o que eu possa fazer com ela. A Engenharia, por exemplo, é prática
no seu conteúdo. Ela ensina a fazer alguma coisa. Mesmo que você nunca faça. Já a Física não ensina a fazer nada. O
administrador de empresas não precisa sair da faculdade sabendo administrar uma empresa. Quando ele compreendeu a teoria
toda, já será suficiente. Administração de Empresas não vai ensinar você como administrar uma empresa, mas vai ensinar o que
é uma empresa, como funciona, etc. A prática de administração não é transmitida verbalmente. O aluno pode fazer um estágio
para aprender como a teoria se comporta na prática. A característica da ciência prática é que ela se expressa em proposições, em
regras.
Geometria: é prática, “para obter tal coisa, faça assim”. Psicologia: é teorética. Psicanálise: é prática. Escola de
Psicanálise ensina a fazer análise. E o psicanalista que não sabe fazer análise, não é psicanalista. No caso da Administração de
Empresas, a parte prática da matéria é quase intransmissível. O sujeito tem que aprender no dia-a-dia. Se é intransmissível é
porque não há uma ciência prática correspondente. Nos casos onde o saber prático é difuso, vago, cheio de possibilidades, aí
temos um saber teorético. No dia em que a Administração de Empresas, toda, puder ser reduzida a uma série de esquemas
formulados e, uma vez seguidos, dê um resultado x, daí ela será uma ciência prática. A Administração de Empresas suscita
problemas porque ela tem um objetivo prático, tem um ideal prático, mas ela fica sempre aquém desse ideal. Ela quer se
transformar numa ciência prática, só que ainda não conseguiu, pois é uma ciência nova.
Assim, que diferença faz a Lógica ser uma ciência teorética ou prática? Se ela fosse uma ciência teorética, que tipo de
proposições ela enunciaria? Que diferença faz o princípio de identidade ser teorético ou prático? Faz uma diferença brutal. Se
você diz que uma coisa é, efetivamente, igual a ela mesma, isso é uma proposição teorética. Sendo A = A uma proposição
teorética, significa que você deve raciocinar como se uma coisa fosse igual a ela mesma. É uma regra do raciocínio. Isso é uma
proposição prática.
Uma coisa é você afirmar a identidade de uma coisa com ela mesma. Outra coisa é você dizer que, condução do
raciocínio, você deve proceder como se uma coisa fosse igual a ela mesma e, portanto, jamais diferente. Existe também, um
outro princípio chamado de não-contradição, onde uma coisa não pode ser igual e diferente de outra, ao mesmo tempo. No caso
do princípio de identidade ser considerado teorético, ele é, por si mesmo, um princípio. No caso dele ser considerado um
princípio prático, ele é absorvido no princípio de não-contradição. Ou seja, basta você raciocinar de maneira não-contraditória,
que o princípio estará atendido. Mas, a Lógica tem condições de emitir proposições teoréticas? Ou ela tem que se limitar a emitir
regras práticas? Se você diz que tem que atender às duas, você admitiu que ela é uma ciência teorética, pois de toda ciência
teorética você pode tirar uma ciência prática.
Entretanto, que conseqüências isso teria para a totalidade do nosso conhecimento? Se eu raciocino logicamente, e o meu
raciocínio lógico está fundado num saber teórico segundo o qual uma coisa é igual a ela mesma, esse princípio de identidade
fundamenta tudo o que eu disse para adiante. Se eu raciocino apenas com base numa regra prática de não-contradição, esta regra
prática garante a coerência lógica do restante, mas não fundamenta. É como se fosse tudo um vasto conjunto hipotético.
Não se pode confundir prático com empírico, com aplicável. São questões completamente diferentes. Um conhecimento
pode ser prático, e a priori. As condições a priori não dependem da experiência. É por indução que você faz geometria, ou seja,
tirando da prática, da experiência real, ou ao contrário, é a priori que você sabe que há um triângulo retângulo, que o quadrado
da hipotenusa é igual à soma dos quadrados dos catetos? É a priori ou a posteriori?
Uma ciência teorética diz que as coisas são realmente: um quadrado tem quatro lados realmente. Uma regra prática diria
o seguinte: faça as contas como se o quadrado tivesse quatro lados. Ou seja, uma ciência prática nada fala sobre a realidade,
apenas sobre o resultado possível.
Assim, quando se começa a discutir a questão da Lógica, as alternativas que se apresentam são sempre essas quatro
citadas por Husserl. Se você faz um raciocínio sobre um problema para saber o que aconteceu, para saber o que é, o problema é
teorético. Se é para saber o que você vai fazer, qual é a decisão a tomar, o problema é prático. Entretanto, para você decidir o que
vai fazer, você precisa saber totalmente o que vai acontecer? Não. Muitas decisões são tomadas, às vezes, precisamente porque
você não sabe nada. São duas fórmulas de raciocínio completamente diferentes, embora haja uma relação entre elas.
Porém, se não sabemos se um determinado conhecimento é teorético ou prático, nós simplesmente não sabemos como
nos posicionar diante dele. Não sabemos o que esperar dele. A prática comprova a teoria, quando ela deriva da teoria. É o caso
da Geometria, onde o saber prático é uma simples conversão do saber teórico, desde proposições categóricas, para proposições
hipotéticas. Então, resultado prático confirma o teórico. Entretanto, isso não vale para o caso de outros saberes.
Uma teoria pode ser falsa, mas não deixa de ser uma teoria. Se eu digo que os gatos voam, isso é uma proposição
teorética. Se eu digo: “Para que os gatos voem, instalem neles um par de asas”, isto é uma proposição prática -- e ambas são
falsas.
Somente a proposição teorética pode ser verdadeira ou falsa. A prática nunca é verdadeira ou falsa. Ela pode ser correta
ou incorreta. Se ela é condicional, nada afirma sobre a realidade. Em princípio, qualquer proposição da qual você possa dizer que
ela é verdadeira ou falsa, ela está colocada como teorética. Quando uma prática qualquer deu errado, você investiga o por quê,
pois você está esperando uma resposta teórica. Quando a prática confirma a teoria? Quando o nexo entre o saber teorético e o
saber prático faz parte da própria teoria. Isso é muito importante. Por exemplo, o motor a vapor foi construído cem anos antes de
que se soubesse por que ele funciona. Não havia teoria. No caso, a teoria do sujeito estava completamente errada. Ele não tinha a
teoria correspondente. A maior parte dos inventos técnicos do mundo moderno foram assim. Nós imaginamos que toda a técnica
moderna deriva da Ciência moderna. Vejam que todos os inventos feitos pelos primeiros cientistas modernos -- Galileu, Newton,
etc. --, as invenções das máquinas, todas elas eram apenas instrumentos de observação científica. Instrumentos para facilitar a
investigação teorética. A única finalidade prática desses inventos eram facilitar a própria Ciência teorética. Não havia nenhuma
finalidade prática. O saber é teorético ou prático em relação ao seu conteúdo, e não ao seu possuidor.
Voltando ao texto, uma coisa é a Lógica como saber, que fala de alguma coisa real. Outra coisa é a Lógica como técnica
de fazer alguma coisa. Segunda questão: a Lógica é uma Ciência independente? Se você diz que a Lógica é uma ciência que
estuda o pensamento, então o conhecimento da Lógica depende do conhecimento do que é pensamento. Assim, a Lógica
dependeria da Psicologia. Então ela não seria independente. Assim, que a Lógica faça parte da Psicologia, é uma decorrência
necessária de qualquer definição da Lógica que implique a palavra pensar, ou, pensamento, mas se nós disséssemos que a
Lógica é a ciência que trata da coerência, independentemente dos pensamentos terem sido pensados ou não. Ou seja,
independentemente de alguém ter pensado tal coisa ou não, se pensar assim está coerente, e se pensar assado, está coerente. Isso
depende de um conhecimento do pensamento real? Não. Por exemplo, para você saber que uma conta de 2 + 2 seja igual a 4,
para você ter certeza de que essa conta está certa, e de que o resultado 5 estaria errado, é preciso que você conheça o processo
psicológico pelo qual se pensa tudo isso? Não, porque senão a Matemática seria um ramo da Psicologia. Ou seja, muito antes
que alguém se lembrasse de perguntar como é que nós pensamos, muito antes de existir a Psicologia, já existia a Aritmética. Ela
não poderia existir se dependesse da Psicologia.
Porém, nesse segundo caso, a Lógica seria uma ciência independente? O quê é coerência? É a não-contradição? Basta
não ser contraditório para ser coerente? Duas proposições são coerentes, não só quando elas se exigem mutuamente. Seria a não-
contradição e implicação da interdependência. Por exemplo, quando você diz que todo homem é mortal, e Sócrates também é
homem, necessariamente ele será mortal. Isto é uma implicação recíproca. Você não pode afirmar as duas primeiras sentenças
sem que elas exijam a terceira sentença. Você não pode afirmar a terceira sem que ela se baseie nas duas anteriores. Porém, a
não-contradição é a própria identidade, é uma maneira de expressar a identidade. E o princípio de identidade é teorético, ou é
prático? Se você dissesse que ele é prático, o quê aconteceria com a Lógica? Se você disser que o princípio de identidade é
prático, então ele é uma regra do bem-pensar, o qual, para ser aplicado, não depende de mais nenhum outro conhecimento além
dele mesmo. Então, a Lógica seria uma ciência prática e independente.
E se você disser que o princípio de identidade é teorético? Uma coisa é igual a ela mesma é uma afirmação sobre todas
as coisas reais, e sobre todas as coisas possíveis. Isto não é uma afirmação de ordem metafísica ou ontológica? Nesse caso, a
Lógica é dependente de uma ciência metafísica.
Assim, nós temos a primeira alternativa: teorética e prática. E temos a segunda alternativa: dependente e independente.
No caso da dependência, nós temos duas dependências fundamentais: dependência da Psicologia, ou da Metafísica. Se eu digo: a
Lógica é uma ciência da coerência entre as verdades, então ela é uma ciência teorética, fundada na Metafísica. Esta questão
decide o destino do mundo há séculos. Todas as posições que as pessoas tomam em função de quaisquer problemas estão
determinadas numa decisão prévia a respeito deste ponto. E a posição que você tomar com relação a este ponto determinará o
restante do seu pensamento pelo resto da sua vida. Isto será grave se para você os seus pensamentos são importantes. Se eles
forem irrelevantes, então não tem importância alguma. Por exemplo, o sujeito que vive inteiramente segundo os hábitos do seu
mundo, do seu centro de referência. Claro que ele também tem opiniões, mas ele jamais age segundo a opinião dele. Então, a
opinião dele é irrelevante. Ou seja, a quase totalidade da humanidade não decide coisa alguma jamais. Não precisa decidir. Já
decidiram por ele. Assim, ele pode ter qualquer opinião. Pode achar que a Lógica é teorética ou é prática, ou que o quadrado é
redondo, tanto faz.
As opiniões são importantes quando o indivíduo lhes dá importância prática. Se a sua opinião não é ouvida por
ninguém, nem mesmo por você, então você pode ter qualquer opinião. A diferença, na escala dos seres humanos, entre os
inferiores e os superiores, é esta. O homem inferior é aquele cuja opinião, cujo pensamento, é irrelevante para ele mesmo.
Embora ele goste da sua opinião, ele pode até defendê-la, mas ele não pretende realmente agir segundo aquilo que ele pensa em
nenhum momento. Ele pretende, às vezes, usar o pensamento como uma espécie de disfarce para justificar, a posteriori, aquilo
que ele já fez. Ou seja, o pensamento não tem utilidade nenhum para essa pessoa, é colocado nela como se fosse um luxo.
Talvez, se colocasse um disquete e computador nessa pessoa ela funcionasse melhor.
Vejam, por exemplo, que a Terra está passando agora por um processo de modernização da economia, ou seja, implantar
o capitalismo de modo global. Não pode haver capitalismo sem que haja condições sociais e culturais que permitam o
capitalismo. Isto quer dizer que muito antes de você introduzir as modificações econômicas que produzirão esse capitalismo
moderno, você começa a introduzir as modificações culturais e psicológicas para isso. Existem órgãos internacionais que
estudam isso, e que planejam a mudança de mentalidade das nações subdesenvolvidas para que ingressem no capitalismo. Isso
significa você suprimir determinados valores, e colocar outros. Portanto, mudar a conduta, os sentimentos, a imaginação, os
sonhos, o subconsciente das pessoas. Isto é planejado por cientistas sociais, e não nos interessa julgar se isto é bom ou não, mas
o fato é que estão fazendo. O que importa é: você tem interesse real em saber quando uma mudança de opinião, de gosto, sua, foi
planejada socialmente ou aconteceu espontaneamente? Como que um hábito que antes era considerado negativo, de repente,
entra no universo de uma pessoa? É uma mudança radical, porém não percebida.
Por isso é que a maior parte das pessoas não tem, propriamente, gostos pessoais. Não tem nenhum conteúdo pessoal.
Tudo vem de fora. Há alguns sujeitos que se identificam com aquilo, no momento, e se você o contraria, ele se sente ofendido no
seu íntimo. Você violou a liberdade dele. Isto é um processo que acontece dentro de nós, diariamente. Assim, eu não gostava de
uma coisa e amanheci gostando. Eu não tolerava tal coisa e, de repente, eu não ligo mais. Por quê mudou isso em mim? Foi uma
livre escolha? Eu pensei, meditei, ou fui arrastado por uma onda de imagens que vem da sociedade? E essa onda de imagens, ela
é um produto espontâneo da convivência social, ou foi planejada num escritório em Nova Iorque? E no caso de eu perceber que
foi planejada, eu concordo com esse planejamento ou não? Eu tenho condição de escolha?
O Brasil todo está passando por este tipo de transformação, e as pessoas, inclusive letradas, entram nessa corrente sem
perceber que estão sendo levadas. Portanto, jamais se posicionam conscientemente. Não estou dizendo que é para combater, para
contestar. Eu, pessoalmente, sou a favor desta transformação, mas você sabe se você é? Você poderia ser contra!
Para o indivíduo que amanhece gostando do que ele não gostava, sem perceber, as idéias dele não têm importância
alguma. O seu pensamento, tudo o que você pensa, é baseado apenas num conjunto de regras, numa técnica mental, mais ou
menos arbitrária, mais ou menos convencional, ou, ao contrário, expressa uma realidade? Você é um computador que pensa
segundo regras arbitrárias, ou você é um ser livre, pensante, auto-consciente, capaz de captar as verdades? Para mim, este é o
problema máximo. Eu não gosto de pensar nada, não gosto de gostar de nada, sem que eu possa dizer: fi-lo porque qui-lo. Eu
quero ser um sujeito livre e responsável pelas minhas ações, e saber que fui eu quem fez. Não gosto de ser manipulado pelas
costas. Mesmo porque, você pode acabar pagando pelo erro dos outros.
A sociedade não é tão maligna assim que te impeça de saber de tudo isso. Ela deixa você saber dessas coisas, por
exemplo, através de livros publicados. No entanto, que uma massa de pessoas mais ordenadas, um pouco mais conscientes, de
pessoas trabalhadoras, não queira saber disso, dá para entender. Que as pessoas que têm um certo peso, uma certa autoridade, por
exemplo, chefes de pequenas empresas, também não queiram saber disso, já começa a ficar ruim, mas ainda é tolerável. Mas,
que a intelectualidade não queira saber disso, aí já é demência! Não é possível que um país seja inteiramente determinado desde
fora na sua vida mental, na sua vida íntima. É uma nação que não existe. É um sem-caráter total, teleguiado completo. Por
exemplo, aqui, quando um intelectual resolve levantar e defender as reivindicações do movimento negro, do movimento gay, das
crianças de rua, etc., ele acha que está exercendo a sua liberdade criativa, se posicionando contra uma sociedade que o oprime.
Ele não está não. Ele está obedecendo a um programa.
Urge, para certos organismos multinacionais, trocar todo o repertório de idéias da nação brasileira, da classe letrada
brasileira, mudar toda a temática, em uma década, e está mudando com uma facilidade impressionante. É muito importante que
certos valores típicos de sociedades protestantes sejam assimilados no contexto católico brasileiro. E isto está sendo feito. É
muito importante criar uma sociedade individualista e reivindicante, onde todos os grupos estejam contra todos. Isto porque o
grande inimigo das multinacionais chama-se Estado, Unidade Nacional. Precisam acabar com isto, no entender delas. Não estou
contra elas, pois acho que a luta é um processo inevitável.
Assim, tem que haver uma situação onde ninguém possa falar em nome do país como um todo. Você não acha estranho
que os meninos de rua façam um movimento de reivindicação no mesmo plano que, por exemplo, os juizes federais fazem
movimentos de reivindicação porque se sentem injustiçados, porque eles ganham apenas 50 milhões de cruzeiros por mês, e o
funcionário equivalente ganha 65 milhões? E você ouve o menino de rua falando, e ouve o juiz federal falando. Estão os dois
igualmente indignados com a injustiça. você acha que isso acontece naturalmente? Você acha que isso seria possível, no Brasil, a
uns quinze anos atrás? Uma greve de altos funcionários?! Não aconteceria jamais. Qualquer um teria vergonha de fazer isso.
Hoje ninguém tem -- por quê? Porque reivindicar é bonito, é um dever que qualquer um tem.
São transformações desse tipo, que acontecem tão lentamente, que você nem percebe. Às vezes esses planejamentos são
feitos com cinqüenta anos de antecedência, e vão sendo corrigidos o tempo todo. Vocês têm idéia de quanto os Estados Unidos
investem em educação superior para criar técnicas para obter isso? São muitas pessoas envolvidas. Vejam, por exemplo, como a
esquerda brasileira assimilou rapidamente o discurso contra a corrupção. A nossa esquerda sempre foi, tradicionalmente alheia
ao nosso problema da corrupção. Corrupção era assunto da direita, da UDN. E a esquerda, naturalmente, achando o capitalismo
uma coisa corrupta em si mesma, não podia achar que o combate a caso isolados de corrupção fosse uma coisa importante.
Vejam que em menos de três anos a esquerda inteira apareceu com a bandeira contra a corrupção. Ninguém discutiu se isso era
importante ou não. Como se faz isso?
Não estou dizendo que isso seja errado, mas é errado quando a classe letrada engole as coisas sem examinar. Como que
a mentalidade do movimento operário foi passando para as outras classes sociais? Hoje em dia reivindica-se tudo. Quando você
entra no mecanismo da reivindicação, você já está perdido. Você aceitou a regra do jogo. Você se proletarizou voluntariamente.
Você fez do outro o seu patrão. Por exemplo, pedir aumento, para mim é um absurdo. Eu teria vergonha. Se for o caso de pedir
aumento, eu prefiro pedir demissão. Se o sujeito não está pagando o que é justo, o que é digno, e eu estou sendo aviltado, eu não
vou reclamar. Nós reclamamos com uma pessoa que tem espírito de justiça. Com ladrão não se reclama nada. Você convive com
o ladrão e ainda quer que ele compreenda o seu problema?! Mas, isso, penso eu.
O jornalismo é considerado profissão liberal. E, profissional liberal não recebe salário, recebe honorários, pagamento
honorífico. Se o sujeito, tendo muito, me paga pouco, ele não está me explorando, ele está me desonrando. Com exploração de
mão-de-obra você faz uma greve e o sujeito te paga mais -- você negocia. No entanto, você negocia com quem te ofende a tua
honra? Não! Se ele está me desonrando, no mínimo, você parte para um duelo.
Porém, dessa proletarização da classe média, quem não reclama? Começaram a reclamar na hora que essa proletarização
começou a doer no bolso. Porém, antes dela atingir o seu bolso, ela já tinha atingido a alma! As pessoas estavam indefesas contra
a proletarização porque já tinham mentalidade de proletários. Primeiro você adquire uma mentalidade de proletário, depois é que
você reclama que se proletarizou.
Assim, isso são transformações psicológicas muito graduais, mas, às vezes, muito rápidas e que não são sequer
discutidas. Por exemplo, hordas de pessoas que saem da Igreja Católica, que dizem ser repressiva, para entrar numa outra seita
religiosa. Assim, ele não aceitavam aquela repressão, e vão para outra, às vezes mil vezes mais repressiva -- por quê? Porque
algo foi feito para que você chegasse a esse resultado. Você pensa que está fazendo uma coisa, mas na verdade está fazendo
outra. É como o burro e a cenoura. O burro acha que está indo atrás da cenoura. Você, que pôs a cenoura lá, sabe que está pondo
o burro para puxar a carroça.
Se você acha que tudo o que é verdadeiro, está na esfera do prático, e a teoria não se refere a nada, o que acontece com o
seu pensamento? Você age primeiro para pensar depois. Você só pode ir por indução. Se o pensamento teorético não tem o seu
vigor próprio, você tem que, primeiro, entrar na prática. Quase todo mundo pensa assim.
Se você não tem uma classe letrada que esteja consciente disso tudo, capaz de identificar mudanças psicológicas nela
mesma, você não tem autonomia de pensamento. Você é totalmente hipnotizado, comandado. Eu posso até aderir a essas
mudanças, mas só depois de pensar. Essa é a diferença entre o sujeito, para quem, o seu pensamento tem importância, e aquele
que somente acata os acontecimentos na prática.
Assim, se você disser que a Lógica é apenas uma ciência técnica, um saber técnico, para o pensamento obter um
determinado resultado, aí segue-se uma série de conseqüências. Entretanto, é preciso saber a importância que isso tem para você.
Não ligar para nada é próprio do sujeito que está liquidado. É o último estágio, ele está na ralé, ele nem liga mais se ele
come ou se não come, se morre... À medida que você vai subindo na escala de poderes, e na escala de qualidades humanas, as
coisas começam a se tornar importantes. A quintessência dessa importância, seria como a pureza de um ritual. Se você errar mil
vezes, você tem que recomeçar mil vezes. Você sabe a importância daquele ponto, sabe as imensas conseqüências que derivam
daquilo. E isso é muito importante. Se nós consideramos que nós só temos o direito de ter essa exigência caso ocupemos os
postos de mando na sociedade, é porque já nos colocamos como ralé. Se você acha que pensar e examinar as coisas é para o
patrão, para o chefe, aí não tem mais jeito. Prestem atenção que, se você pensar dessa maneira, seria o mesmo que você cuspir na
sua própria cara. Para o cientista social que faz o planejamento das mudanças sociais que irão ocorrer no Terceiro Mundo, tudo
isso é muito importante. Às vezes, a Fundação Rockfeller paga um sujeito, durante anos, só para ele pensar uma coisas dessas,
porque isso é muito importante para o conjunto da coisa. Se o intelectual, o estudante brasileiro, acha que isso é uma questão que
para ele não tem importância, que somente as pessoas que têm poder é que tem que pensar nisso, isso é uma coisa trágica.
A exigência com um rigor, até uma elegância, da inteligência, é uma exigência necessária. Se você espera que as
pessoas, primeiro te coloquem numa posição social superior, para daí você ser um aristocrata, você não será aristocrata jamais.
Se você pensa assim, você está confundindo aristocracia com dinheiro no bolso. Se o conhecimento não vale nada em si mesmo,
e vale só pelo talão de cheques, então ele realmente não vale nada. Que o sujeito do talão de cheques pense assim, eu entendo,
mas que o próprio intelectual também pense assim... Que o ladrão roube, eu entendo. O que eu não entendo é que você ofereça o
seu bolso.
Vejam que a opinião de um único filósofo vale mais do que milhares de tiros dados por todos os exércitos, porque ele
vão dar tiros por causa da conseqüência dessa opinião. A partir do momento onde, na Renascença, a classe científica desistiu da
idéia grega da Ciência como uma espécie de visão global que levava a uma perfeição humana, desistiu do aspecto ético da
Ciência, as conseqüências disso foram monstruosas, e se prolongam até hoje. É por causa disto que o mundo tem a sua forma de
hoje, tem o comunismo, o nazismo, o capitalismo, etc. Se não tivesse acontecido essa desistência, não teria acontecido nada
disso também. As conseqüências sociais, políticas, dessas idéias filosóficas, são de muito longo prazo.
A História é como se fosse uma roda que gira, e ela tem um centro que a faz girar. Esse centro é como se estivesse
permanentemente pegando fogo. Se você chega perto dele, você queima os dedos, mas é aí que você se torna gente mesmo. De
outro modo, você está rodando e os outros estão fazendo o que querem.
Preleção VI

18 de dezembro de 1992
Nós vimos então as quatro alternativas. A terceira questão é saber se a Lógica é uma disciplina formal, ou se deve tomar
o conhecimento como uma “matéria”.
Aristóteles dividia a Lógica em duas partes: a formal e a material. Existe a Lógica material, que hoje nós chamamos de a
teoria do conhecimento. O quê significa a Lógica ser formal ou material? Que diferença faz?
Vamos ler um pouco mais e depois retornamos a esta questão.

Propriamente só há dois partidos: a lógica é uma disciplina teorética, independente, formal e demonstrativa; ou é
uma tecnologia que depende da psicologia.

Essas alternativas que existiam no tempo de Husserl, hoje, já não são somente essas duas. Existem outras possibilidades
que veremos um pouco mais adiante. Temos que entender esses conceitos dessas alternativas para seguir adiante.
A priori e demonstrativo, seria como a Geometria: partindo de métodos postulados, você faz toda a demonstração a
priori, sem depender da experiência. A parte a priori seria a parte que é evidente. Embora a priori e evidente não queiram dizer
a mesma coisa, pois não se identificam. A priori é quando independe da experiência, ou seja, por mera análise dos conceitos
dados você já obtém aquele conhecimento -- como em Geometria; é por dedução.
Em Geometria você dá o conceito de uma figura e, analisando esse conceito, você descobre as propriedades daquela
figura sem precisar de investigar outra figuras na realidade. Se for empírico, ao contrário, o conceito não contém tudo. Por
exemplo, se eu te dou o conceito de leão, desse conceito você consegue descobrir quantos meses é a gestação de uma leoa? Não.
Você precisaria observar a leoa por outro meio que não seja o próprio conceito. Entretanto, do conceito de ângulo você deduz
todas as propriedades do triângulo. Nem todas elas são evidentes à primeira vista.
Quando se diz que o conhecimento a priori, analítico, nada acrescenta ao conceito, não quer dizer que ele nada
acrescente ao seu conhecimento. Ao contrário, na Geometria, freqüentemente, você vê que por análise você chega a descoberta
de propriedades que você jamais teria suspeitado num primeiro momento. A dedução é uma investigação, só que ela investiga
tomando como objeto, unicamente, os conceitos dos entes que estão dados no problema. No conhecimento empírico, o conceito
nunca resolve totalmente o problema. O conceito de leão não abrange todas as propriedades de leão. Mas o conceito de triângulo,
abrange.
Assim, vocês acham que a Lógica é a priori e demonstrativa, ou empírica e indutiva? Pela Psicologia você tem o
conhecimento dos processos reais do pensamento. A definição do pensamento já contém todas as propriedades do pensamento?
Pela análise do conceito do pensamento você descobre como funciona a memória, a imaginação, etc.? É claro que não. Você
precisa de outros estudos. Se a Lógica dependesse da Psicologia, então nós necessitaríamos de um estudo empírico. Ver como as
pessoas realmente pensam, e daí, tirando por indução, você ter as leis do pensamento correto. No caso dela ser uma disciplina a
priori, dados certos conceitos, todo o conteúdo da Lógica se seguiria por mera dedução.
Entretanto, Husserl diz que, de fato, só existem dois partidos, e a discussão se dividia nessas duas correntes: uma que
dizia que a Lógica é uma disciplina teorética, independente da Psicologia, é formal e demonstrativa e, outra que dizia que a
Lógica é uma técnica que depende da Psicologia. Não está excluído que seja uma disciplina formal e demonstrativa, porém, de
caráter técnico, prático, que é a posição que surge mais tarde com a Lógica analítica ( posterior à obra de Husserl ). A Lógica
analítica surge a partir de determinadas obras que são anteriores a Husserl, mas elas só se desenvolvem depois dele. Para ela, a
Lógica analítica é uma disciplina puramente formal, sem caráter teorético, mas apenas técnico. Se fossemos discutir essa questão
hoje, teríamos que incluir essa alternativa.

Não aspiramos propriamente a tomar parte nessas discussões, propomo-nos aclarar as diferenças de princípio
que atuam nelas e os objetivos essenciais de uma lógica pura. Tomaremos como ponto de partida a definição da lógica
como uma arte e fixaremos seu sentido e sua justificação.

Husserl não vai, propriamente, se posicionar ante essas alternativas, mas ele vai partir para uma definição corrente.
Que a Lógica seja uma disciplina teorética ou prática, o fato é que ela é uma disciplina prática também. Ninguém
discute que exista uma técnica lógica. Só que uns dizem que ela tem fundamento teorético, e outros dizem que não. Ela parte da
definição corrente, unânime, da Lógica como técnica e, analisando esse conceito, ele verá se consegue, a partir daí, fundamentar
uma Lógica pura, teorética, mas também, formal.

Que isto relaciona-se naturalmente a questão das bases teoréticas desta disciplina e de sua relação com a
psicologia. Esta questão coincide essencialmente com a questão cardinal da teoria do conhecimento, que concerne à
objetividade deste.
Ele diz que a questão da natureza lógica, e das suas relações com a Psicologia, se identificam com a questão central da
teoria do conhecimento, que é a questão da objetividade, da validade, do conhecimento. Por quê isso acontece? Por quê a decisão
quanto à natureza da Lógica afeta a resposta que nós vamos dar à esta questão da teoria do conhecimento?

O resultado de nossa investigação sobre este ponto é a obtenção de uma ciência nova e puramente teorética, que
constitui o fundamento mais importante de toda arte do conhecimento científico e é uma ciência a priori e puramente
demonstrativa. Com o que ficará adotada uma posição clara face às questões colocadas.

Husserl vai chegar, em última análise, à conclusão de que a Lógica é uma disciplina formal, porém, teorética, a priori, e
puramente demonstrativa. Portanto, também uma ciência independente.

Capítulo I

A LÓGICA COMO DISCIPLINA NORMATIVA


E ESPECIALMENTE COMO DISCIPLINA PRÁTICA

Neste capítulo ele vai ver a definição corrente da Lógica como técnica, como arte, e a partir desta definição, colocar
essas mesmas interrogações, e qual é a relação entre a Lógica, assim definida como técnica, e a Psicologia. Ou seja, se a técnica
lógica, tal como ele define, tem um fundamento psicológico ou não, e se ela depende desse fundamento psicológico.

§ 4. A imperfeição teorética das ciências particulares.

A mestria com que um artista maneja seus materiais ou aprecia as obras de arte, só por exceção se baseia num
conhecimento teorético seguro das leis que prescrevem ao curso das atividades práticas, sua direção e sua ordem, e
determinam os critérios valorativos.

O sujeito sabe fazer alguma coisa e você pergunta: “Qual é o fundamento teórico e prático disso que você faz?” Na
maioria dos casos você vai ouvir: “Não sei!”
Por exemplo, no caso dos escritores, a grande maioria não vai saber explicar qual é a técnica que ele utilizou para
escrever determinado livro. No momento da realização da sua obra, o escritor “inventa” um jeito, uma técnica, conforme as
coisas vão acontecendo. O que ele pode ter aprendido anteriormente em termos de técnica não ajuda em quase nada no momento
de escrever uma nova obra. A técnica de cada escritor só serve para o próprio escritor.
No entanto, ao se examinar os livros -- a posteriori --, você vê que ali há uma técnica, e ela, por sua vez, terá algum
fundamento teórico, mesmo que seja implícito. O fato é que no momento que o escritor está executando o trabalho, ele não está
pensando nisso. É totalmente inconsciente.

Isto não sucede só nas belas-artes, mas também à criação científica. Nem mesmo o matemático, o físico ou o
astrônomo necessitam chegar à intelecção das raízes últimas de sua atividade. O cientista não pode ter a pretensão de
haver provado as premissas últimas de suas conclusões, nem de haver investigado os princípios em que repousa a eficácia
de seus métodos.

Ele diz que essa inconsciência do aspecto teórico não existe só na criação artística, mas também na investigação
científica. Na maior parte dos casos, o sujeito procede à sua investigação científica sem ele estar, propriamente, consciente de
qual é o fundamento teórico-científico a que ele se assenta. Recorre-se a determinados métodos como, por exemplo, a indução. A
indução é utilizada em 99% das investigações científicas, mas se você perguntar ao sujeito por quê a indução funciona, ele não
vai saber responder. Peguem, por exemplo, uma pesquisa qualquer. Você chega à conclusão de que o fumante passivo aspira
60% da fumaça do fumante passivo, logo ele terá uma probabilidade x ou y de contrair tais doenças, as quais estariam sujeitos os
próprios fumantes ativos. Por quê isto te persuade? Qual é o fundamento da veracidade desse teu raciocínio? Na quase totalidade
dos casos não saberão a resposta.
Acontece que na criação artística isso não tem um grau de problema maior porque o trabalho do artista se esgota na hora
que ele termina a obra. Essa obra não será prosseguida. Isso é muito importante. No caso da Ciência, isso é imperdoável, porque
aquilo que cada cientista descobriu será usado como fundamento de uma pesquisa posterior. E, se você não sabe o fundamento
da primeira pesquisa, então a dúvida se perpetua. Isto quer dizer que os métodos e conceitos usados normalmente na Ciência,
que são fundamentos da veracidade dela, nunca estão perfeitamente aclarados na prática, e as pessoas continuam confiando
nesses métodos, até por uma questão de hábito. As pessoas não têm uma certeza pessoal a respeito daquilo. Também acontece de
que quando você vai investigar esses fundamentos você descobre que eles não são tão fundamentados assim. Para um sujeito que
entenda um pouco do método de desenvolvimento científico, a maior parte das investigações científicas, sobre tudo e qualquer
coisa, será considerada muito insatisfatória.
E a estatística? A estatística é uma formalização matemática da indução. Qual é o fundamento teórico da indução? Há o
fundamento metafísico, que é a homogeneidade do real onde na maior parte as coisas que se passam de uma determinada
maneira tenderão a se passar da mesma maneira nos casos restantes. Por quê no âmbito do mundo real as coisas não poderiam se
passar sempre na base da exceção? Por quê a homogeneidade tem que imperar? Ou seja, se tais fatos se passam assim, em 80%
dos casos, por quê tem que se passar da mesma maneira nos outros 20%?
Quando você vai examinar por quê isso funciona, você vê que para se ter uma certeza absoluta de que esse raciocínio
tem fundamento, seria necessário recorrer a um pressuposto de ordem metafísica, para saber que o real é homogêneo. Que o real
é homogêneo, pode até ser contestado. É uma premissa metafísica como qualquer outra. A maior parte dos indivíduos que
recorre a argumentos estatísticos, eles não têm idéia de que eles estão fundados numa metafísica. Eles acham que aquilo é uma
exigência decorrente do próprio fato. Acontece que os fatos jamais são estatísticos em si mesmos. Todo e qualquer fato que
acontece, só acontece de maneira singular e concreta, e nunca nas mesmas condições. Você faz estatística a partir do momento
que você recorta certos aspectos homogêneos de todos os fatos, os agrupa num conceito único e, em seguida, quantifica. Mas,
tudo isso é você quem fez. O fato não vê assim.
Então, o quê legitima o seu experimento? Por quê o raciocínio estatístico indica uma probabilidade real? Qual é o
fundamento da indução? Dizer que o percentual é um dado, isso é um absurdo. Um percentual jamais pode ser um dado, porque
ele é uma medição. O percentual é uma interpretação que você está fazendo em cima dos dados. Nenhuma medição é natural, é
dada. A medição é sempre uma comparação de fatos que tem a ver com uma determinada unidade que você escolheu por uma
razão arbitrária. Ou seja, já é uma construção da mente.
Por quê essa construção funciona? Que ela funciona, é óbvio, nós sabemos que funciona. Sabemos por nossa própria
experiência. Então, é a nossa própria experiência que serve de fundamento da indução. Se você disser que a indução funciona
porque na maior parte dos casos ela funciona, que tipo de raciocínio é esse? É uma indução. Assim, isso forma um círculo
vicioso. Quando você usa como fundamento da coisa que pretende demonstrar a mesma coisa que está para ser demonstrada,
isso é, evidentemente, ilógico. A indução funciona porque indutivamente se prova que a indução funciona. Então, a indução é a
prova da indução. Isto não tem fundamento algum. Ou a indução tem um fundamento lógico, não-indutivo, ou ela não tem
fundamento algum.
A indução não se refere à classificação de objetos, segundo as várias esferas. Ela se refere à previsão do comportamento
de determinados objetos conforme a quantidade de vezes onde eles se comportaram assim nos casos anteriores. Husserl não
levantou o problema da fundamentação da indução. Eu é quem estou discutindo isto aqui.
Vejam que na quase totalidade dos casos de pesquisas científicas, as pessoas fundamentam as conclusões com base em
conceitos que ainda não se sabe o que é. Por exemplo, o câncer é um conceito meramente empírico. É um conceito mais
indicativo do que qualquer outra coisa. É difícil você discutir o que é câncer, e o que não é. Não há limite preciso, como nos
conceitos geométricos. Quando você usa conceitos meramente empíricos, as suas conclusões têm validade meramente empírica.
Se essa validade empírica é fundada num raciocínio meramente empírico, então ela tem uma validade meramente estatística, a
qual se fundamenta numa indução, que talvez não tenha fundamento algum. Essa é a verdade.
No fundo você sabe que a indução tem fundamento, só que não é óbvio. e, se você desconhece qual é o fundamento,
você acredita que é um fundamento absoluto e você pode sempre confiar na indução. Até porque, você pensa que a indução é
uma coisa que a realidade impõe por si mesma, quando na verdade a indução depende de uma premissa de ordem metafísica, que
é a homogeneidade do real. Se o mundo fosse caótico, funcionasse como uma combinatória totalmente casual de circunstâncias
fortuitas, a indução não valeria absolutamente. Assim como não vale a indução num jogo de cara-ou-coroa. Se a indução vale, é
porque o mundo não se comporta como num jogo de cara-ou-coroa. Esse é um dos fundamentos alegados pela indução. É a
famosa frase do Einstein: “...(?).”. Mas há quem diga que joga sim. O sujeito pega essas supostas regularidades reivindicadas
pela Ciência na área dos fenômenos e mostra que essas regularidades não são tão irregulares assim.
Partindo da experiência você pode mostrar tanto a regularidade quanto a irregularidade, tanto a homogeneidade quanto a
heterogeneidade, e na hora que você fez tudo pela heterogeneidade, adeus à indução. Isto quer dizer que toda pesquisa científica
se assenta em determinados fundamentos metodológicos que são a razão que você tem para crer que as suas razões são
verdadeiras. Na prática os indivíduos não se preocupam em conferir os fundamentos em que se apóiam, mas confiam nesses
fundamentos por uma razão óbvia do costume, do hábito.
Quando você examina a pesquisa científica à luz do que você sabe de metodologia, você fica horrorizado. De qualquer
experiência você só aproveita um por cento, e olhe lá! O próprio progresso, com a crescente quantidade de pesquisas, aumenta a
possibilidade de erros, na medida onde esse avanço não é compensado por uma fundamentação cada vez mais firme. Se um
sujeito está progredindo, então, as pessoas dão crédito a ele. Por darem crédito, ele se lança em novos negócios e dá a impressão
de mais prosperidade, e aumenta o crédito, e assim por diante. No entanto, será que o sujeito tem bens para sustentar toda essa
coisa? Não tem. Então ele progride só para frente, e não para baixo também. Ele não tem fundamento, base.
O dito progresso da Ciência, em grande parte é ilusório. Ele só seria um progresso na medida onde ele tivesse um lastro.
Senão é como emitir cheques, um atrás do outro, sem ter fundos. Vejam , por exemplo, as últimas pesquisas de qualquer campo
científico. Procurem ver se elas têm um fundamento absoluto, ou se elas estão somente baseadas numa série de procedimentos
costumeiros. Ao meu ver, o aumento do número das pesquisas não representa nenhum avanço. Isto porque você vai pesquisar
mil vezes a mesma coisa, mil vezes vai chegar a conclusões mais ou menos certas, mais ou menos iguais às outras, e se a
primeira já não tiver fundamento, a seguinte também não terá. Assim, trata-se de fundamentar a primeira pesquisa, para daí
prosseguir.
Muitas vezes você assenta uma determinada conclusão como hipotética e continua pesquisando, e usando aquela
hipótese como básica, que gerem novas hipóteses, e assim por diante. O que acontece é que a tecnologia avança, mas a Ciência
avança muito menos. Até porque, uma única descoberta científica prolifera em milhões de resultados tecnológicos. Quanto de
Ciência existe num computador? Muito pouco, e com esse pouco você tira milhares de conclusões tecnológicas, e as pessoas
tomam o avanço tecnológico como se fosse o avanço do conhecimento, e não é. É o avanço da técnica. E as coisas funcionam.
Entretanto, o importante não é saber que funciona, mas por quê funciona. Se funciona e você não sabe como, a Ciência
gradativamente vai se transformando num empirismo de bolso, e na medida que isso acontece, daqui a pouco ela começa a se
transformar, outra vez, numa magia. Mesmo os simples avanços das descobertas teóricas, se não forem sendo refundamentados,
eles proliferarão em novas descobertas, e todas só têm valor hipotético. Acaba virando crença. Por exemplo, na ciência política,
todo mundo acredita que existe um avanço do estado de direito, que caracteriza a História dos três últimos séculos. E acreditam
que isso é de fato, que vale. Isso equivale a uma divisão mais equânime do poder? No meu ponto-de-vista não, porque se há
introdução de novos fatores de poder, que eram desconhecidos como, por exemplo, o serviço secreto. Você não pode
democratizar o serviço secreto. Na medida que a importância do serviço secreto aumenta, a divisão do poder fica cada vez mais
hierárquica. Você tem uma democracia na parte pública da política, mas está criando uma aristocracia, que está mais distante da
base, do povo, que qualquer democracia jamais esteve. Não devia, mas é real. Em certos casos, muito importantes, como no
próprio Estado americano, o serviço secreto adquire uma tal importância que os fatos históricos fundamentais saem dele e não do
movimento democrático. E mais ainda. Existem meios de atuação da elite letrada sobre a consciência popular, meios que a
humanidade jamais imaginou, jamais ousou conceber. Na medida em que essa elite detém conhecimentos secretos e um meio
secreto de atuação, ela cria uma aristocracia mais fechada do que jamais houve em qualquer outra época. Só seria comparável às
castas da sociedade egípcia, onde meia dúzia de pessoas detinha todo o conhecimento e governava sobre a massa que ignorava
tudo, no conjunto e nos detalhes. O serviço secreto pode ser comparado a isto.
Eu tenho a tendência a acreditar que tudo isso que aconteceu com o Collor foi por causa do SNI. Você acha que aquela
gente que estudou aquilo, a vida inteira, para fazer só aquilo, vai para casa e tudo bem? Vão virar motoristas de táxi? Você acha
que a comunidade de informações se dissolve só porque você mandou eles para casa? Esse é um fator fundamental para
produção dos eventos de uma sociedade na história. Porém, o povo que se baseia em jornais, ele vê uma outra linha de causa. Ou
então, o povo inventa essa linha de causa para justificar esses acontecimentos.
O homem não suporta a incoerência, o absurdo, então, quando ele não entende as coisas que estão sendo mostradas a
ele, e ele não tem explicação, ele inventa uma. A que lhe parece mais satisfatória, ele a acomoda ali. Ele não vai investigar mais
profundamente. O homem tem a tendência a ver as coisas de maneira homogênea. Onde ele vê o caos aparente, ele homogeniza,
e das maneiras dele fazer isso, a primeira é a fantasia. Uma das funções do sonho é homogeneizar os dados daquilo que ele não
entendeu.
Entretanto, o sonho homogeneíza os dados, não com a forma dos eventos, mas com a forma do seu corpo. Você adapta
os fatos nas divisões de categoria que o seu corpo conhece. Isso é como você classificar os livros na estante conforme o tamanho
e, depois, supor que aquilo lá é o sistema do conhecimento. Você catalogou, mas não de acordo com a natureza da informação, e
sim de acordo com a natureza do recipiente. E isso, pode criar uma interpretação que, ao mesmo tempo pareça coerente, global, e
totalmente falsa. É o que acontece na quase totalidade dos fatos.
Nas ciências da natureza acontece a mesma coisa. Por exemplo, a idéia de que um conhecimento objetivo seria um
conhecimento que descrevesse os fatos tal como eles se passam em si mesmos, sem qualquer observador humano, é a base da
maior parte do pensamento científico.
Examinando o que foi exposto aqui, nós podemos perguntar: qual é a força do elemento retórico em Ciência? Quando
Galileu quis provar que dois objetos, de peso diferente, jogados de cima de uma torre, cairiam ao mesmo tempo, por exemplo,
algodão e chumbo. O fato é que eles caíram ao mesmo tempo, e isso contraria a percepção sensível. De fato, muitas vezes, o
resultado real será tornado nebuloso pela intervenção de outros fatores, por exemplo, o vento. Então, isso teria muito mais a ver
com a superfície ocupada pelo objeto que com seu peso. Assim, para tentar demonstrar isso, ele recorreu a um argumento
retórico: fazer com que as pessoas conseguissem imaginar a queda desses dois objetos, não visto desde o chão, onde eles
estavam, mas visto desde um outro lugar, de um outro sistema de referência. A partir do momento que eles conseguiram
enxergar de uma outra maneira, aquilo pareceu verossímil. Isto é um argumento retórico.
Por outro lado, na medida onde você cria um procedimento metodológico, rotineiro, habitual, consolidado, ele mesmo
se torna um argumento retórico. A estatística aparece hoje como algo que vale por si mesma. A estatística jamais prova o que
quer que seja. Se você usa a estatística, é justamente porque você não pode provar nada. Você tem que se contentar com o
probabilismo. O probabilismo representa respostas prováveis. Se é provável, não está provado. O provável significa aquilo que,
em condições melhores, talvez se possa provar algum dia. Por isso é que é provável. Entretanto, 2 + 2 = 4 não é provável, é
provado.
Nós poderíamos fazer a seguinte estatística: das conclusões estatísticas estabelecidas, quanto por cento vai ser provado
efetivamente quando houvessem condições melhores? Qual a probabilidade que existe de haverem melhores condições de
observação disto, pelos próximos mil anos? Ou seja, em todos esses casos, nós teremos que continuar confiando na base de que
Deus deve saber como se resolve esse problema.
É evidente que nem toda Ciência é assim. Vejam, por exemplo, a Embriologia. Ela depende muito pouco de estatística --
quase nada. Ela pode desenvolver as fases da evolução de um embrião, e a entrada em cena de um fator que altera o conjunto,
com certeza quase apodíctica. Um sujeito que procede nesses critérios metodológicos, sem fundamentos, ele não tem idéia do
quanto é incerto o que ele está afirmando. Acontece que, milhões dessas incertezas somadas, produzem uma autoridade maciça,
sem contar com a intervenção de outros fatores, alheios, como o deficiente intercâmbio das informações científicas, ou como a
falta de dados homogêneos em todas as partes do mundo, etc. Exemplo de interpretação errônea do princípio da homogeneidade:
se é assim nos Estados Unidos, deve ser assim no resto do mundo.
Um médico que diz que x% dos pacientes que tem tal sintoma, tem um segundo outro sintoma. Partindo deste princípio,
um outro médico investiga o seguinte: os que têm x% dos que tem o segundo sintoma, também tem um terceiro sintoma. Daí
você relaciona com o primeiro sintoma, e assim você vai montando toda uma cadeia hipotética. Se você abalasse a indução, você
abalou essa Ciência inteira. Por mais que a definição dos objetos dela seja correto, por mais que os métodos sejam organizados,
toda ela se baseia na indução. A indução não é errada. Ela funciona. O problema é que o indivíduo que não sabe qual é o
fundamento da indução, acredita exageradamente nela, e não introduz um princípio de correção. A indução não tem um
fundamento absoluto. Ela tem um fundamento probabilístico, por um lado, e um fundamento metafísico, por outro lado. Se você
conhece o caráter metafísico desse fundamento, com base nisso, você pode introduzir um princípio de limitação da indução,
senão, você não pode. Eu não estou falando que o sistema todo da Ciência está errado porque ele se baseia na indução. Eu não
sou louco. A indução é uma base muito firme e muito sólida. Porém, ela é sólida porque ela se baseia num pressuposto
metafísico. Entretanto, tudo aquilo que é baseado num pressuposto metafísico tem sua validade circunscrita por esse mesmo
pressuposto metafísico e pelas condições de sua aplicabilidade. Nem todas as esferas do real são homogêneas. Se eu digo: se
uma coisa aconteceu em 75% dos casos, deverá acontecer nos demais. Isso não é igual em todas as esferas de realidade. O
princípio de homogeneidade vale, mas como princípio. Este princípio tem que ser desdobrado em regras mais especificadas para
cada campo, para cada esfera determinada, onde há homogeneidade, maior ou menor, de acordo com tais condições.
A Física é uma ciência que leva em conta esse tipo de coisa. Ela sabe que a homogeneidade é limitada para cada campo.
Quando você passa da Física newtoniana para a Física relativista, ou quântica, você muda de campo. Neste campo, maior ou
menor, a homogeneidade não é a mesma, porque o princípio da homogeneidade não é um princípio físico, e sim metafísico.
Sendo metafísico, ele não pode obviamente se aplicar em toda a realidade. O princípio de identidade é metafísico: uma coisa é
igual a si mesma. Me diga, então, no mundo da experiência, qual a coisa que permaneça exatamente igual a si mesma? Nada
permanece.
O quê é metafísico? É aquilo que abarca a totalidade do possível. E que só é válido na escala da totalidade do possível.
Quando você parte para o mundo da experiência, ele se desomogeiniza, ele tem distintos graus de aplicabilidade. Assim, se o
sujeito, por exemplo, na pesquisa médica, pode se basear no princípio da homogeneidade média, ele está doido! Ele está supondo
que as coisas vão funcionar ali como funcionam para a mecânica clássica. Mas a mecânica clássica funciona porque ela está num
universo perfeitamente circunscrito. Como circunscrever o corpo humano se ele depende de fatores ecológicos, astrológicos,
etc., e se ele é uma coisa que está recebendo influências de todos os lados?
Numa coisa que é tão elástica, as estatísticas também tem que ser elásticas. E isto não é levado em conta na prática,
porque daria muito trabalho, e haveria muito menos médico publicando pesquisa, e ele tem que publicar pesquisa para fazer
currículo. Ao invés de ter feito 120 pesquisas, seria melhor se tivesse feito uma só, bem feita. Mas, como o sujeito diz que fazer
todas essas considerações não é preciso porque, em média, todo mundo procede assim e mais ou menos funciona. Baseado num
costume, ele faz funcionar mais ou menos; resultado: nenhum dos pesquisadores está seguro quanto à validade efetiva dos seus
resultados, e todo mundo depende da aprovação do conjunto. É puramente uma retórica, para não dizer, como numa religião,
onde você depende da aprovação da massa de fiéis para se sentir seguro. Isto é Ciência? Isto acontece também devido à
organização social da pesquisa científica. Sempre se acredita que, no conjunto, as pesquisas vão se compensar, uma à outra. Só
que isto é uma mentira, porque se uma pesquisa diz A, e a outra diz B, se não houver um terceiro sujeito que leia as duas, para
confrontar e sintetizar na cabeça dele, elas vão ficar, eternamente, guardadas no arquivo, se contraditando uma à outra, sem que
ninguém saiba. A síntese só se opera na mente do indivíduo que a formou. O sujeito solta uma pesquisa, e a comunidade
científica nem se dá ao trabalho de ler o seu trabalho, e os erros que ali tiverem, jamais serão corrigidos. É preciso a intervenção
de um elemento, extra-científico, extra-intelectual, um elemento puramente psicológico, na formação da convicção científica.
Quanto mais pesquisas científicas são publicadas, mais isso piora. Isto quer dizer que o número de pesquisas é um péssimo
indicador do avanço do progresso científico. E ainda há quem reclame que as universidades estejam publicando poucos
trabalhos. O que importa é você aperfeiçoar a mesma pesquisa para você chegar a um resultado correto. Uma tese de
doutoramento na França é o coroamento de um vida. O indivíduo apresenta uma tese de mestrado, e continua trabalhando com
base naquilo para depois de muitos anos, somar as conclusões das pesquisas e elaborar uma tese de doutoramento. Aí ele vira
doutor.
Aqui no Brasil, a tese de doutoramento é uma coisa que se segue imediatamente a uma tese de mestrado. Isto é um
absurdo. Você está convidando as pessoas ao charlatanismo. Qualquer sujeito que tenha estudado um pouco esses assuntos aqui,
por mais desonesto que ele seja, ele vai perceber que aquilo não tem fundamento algum. Certamente, ele ficará um pouco mais
inibido de publicar conclusões apressadas. Nenhum indivíduo que não tenha meditado sobre o fundamento da indução deveria
ter direito de publicar conclusões baseadas em indução. O maior ...(?) do século, Karl Popper, disse que não existe indução
nenhuma. Se não existe indução, ela, em si mesma, não tem fundamento algum. Para achar o fundamento dela, você tem que
convertê-la numa forma dedutiva e toda vez que você fizer isso, você fica horrorizado. Você vê o mundo de hipóteses que estão
lá para completar o edifício lógico. Um cientista que faz isso e que não está consciente desse caráter hipotético, ele está
acreditando na conclusão dele. Acontece que um outro cientista acredita nele e, baseado nisso, continua o raciocínio, e assim por
diante.
O sujeito tem é que fazer a pergunta: “Mas, como?”, “Quid est?”. Teoricamente falando, a indução tem fundamento, só
que teórico e geral. Para que este fundamento se torne válido, é preciso que o pressuposto metafísico no qual ele se baseia, que é
o princípio da homogeneidade do real, seja afinado por uma série de ontologias regionais. Ou seja, esta realidade aqui é
homogênea, ou aquela outra, etc., nesse plano, encarado nesse nível tal, etc. Como as pessoas não sabem que ela é um
pressuposto metafísico, elas acham que a indução é válida homogeneamente para todos os setores da realidade. Há setores da
realidade onde trinta por cento dos casos é uma taxa altissimamente significativa, e há outros onde noventa e nove por cento dos
casos não indica absolutamente nada.
A indução tem uma indução validade geral, e dessa validade geral, você partir para as validades específicas, dentro de
cada campo, e acreditar que todos são iguais, isso é uma outra coisa. Por exemplo, o raciocínio que um sujeito faz com relação
ao fumo, é o mesmo que outro sujeito faz com relação a votos. Não existe distinção. O que é considerado significativo num
setor, é considerado igualmente significativo para outro, como se toda a realidade obedecesse homogeneamente ao princípio da
homogeneidade. A própria Física já demonstrou que não é assim.
É por isso que Husserl vai falar, em seu último livro, “A Crise das Ciências Européias”, que as ciências estão em crise,
não no sentido de que elas não façam descobertas, mas que elas estão perdendo a sua cientificidade. Daqui a pouco as ciências
acabam virando um misticismo que é reforçado pela aprovação do número de seus fiéis, e que por isso mesmo, quando você
levanta uma discussão científica, ela não é discutida cientificamente, mas na base do entusiasmo, do fanatismo. As pessoas se
ofendem com as teorias alheias, levam tudo para o pessoal. Os fundadores da ciência moderna, se vissem isso ficariam
profundamente decepcionados.
A maior parte desses erros que vão se acumulando, é pelo fato de você tomar as palavras por coisas. No momento que
você se posiciona com um conceito, na mesma hora, você também está posicionando perante todas as coisas que se apresentam
sob aquele conceito. Seria como raciocinar com bases universais: a Ciência, o fumo, etc., e achar que você pode, nessas matérias,
raciocinar a priori. O que você falou do conceito abrange todas as propriedades do objeto considerado. Na discussão vulgar, o
sujeito toma posições desse tipo: “Você é a favor disso ou daquilo?” Na verdade, são discussões sobre palavras, sobre conceitos
universais. São discussões que se dão em princípio. Nos casos particulares, na realidade concreta, a sua discussão deveria ser a
mesma.
Também não é impossível que existam determinados setores do saber que são mais sólidos do que outros. Porém, dentro
dos setores menos sólidos, existem trabalhos que são mais sólidos do que todos da outra ciência mais sólida. Por exemplo, me
mostre na ciência biológica, um trabalho no qual se possa confiar tanto quanto eu confio, por exemplo, no livro do ...(?), “O
Outono da Idade Média”. Vai ser difícil você achar um trabalho biológico que seja tão firme quanto esse da História. O que não
quer dizer que o que você falou genericamente sobre tal ou qual conceito, deva valer para todos os exemplares da História.

O cientista não pode ter a pretensão de haver provado as premissas últimas de suas conclusões, nem de haver
investigado os princípios em que repousa a eficácia de seus métodos.

Se essa eficácia não estiver claramente fundamentada em cada caso, então, ela é uma eficácia do tipo consuetudinário,
baseado no costume e, em última análise, é uma eficácia do tipo retórico.

Mas esta é a causa do estado imperfeito de todas as ciências, da falta de claridade e racionalidade íntimas da
ciência. Mesmo nas matemáticas os investigadores que manejam com mestria os métodos da matemática se revelam com
freqüência incapazes de prestar contas da eficácia lógica desses métodos e dos limites de sua justa aplicação.

§ 5. Complementação teorética das ciências particulares pela metafísica e pela teoria


da ciência.

Para alcançar esse fim teorético é preciso, primeiro, uma classe de investigações que pertencem à esfera da
metafísica.
A missão desta é fixar e contrastar os pressupostos de índole metafísica, em geral nem sequer advertidos, que
constituem a base de todas as ciências referentes ao mundo real. Tais pressupostos são, por exemplo, a existência de um
mundo exterior, que se estende no espaço e no tempo, a submissão de todo evento ao princípio da causalidade, etc.

Qual é o fundamento do princípio de causalidade? Quando se diz que uma coisa é causa de outra, o quê se está querendo
dizer exatamente? Não vou nem perguntar o fundamento, mas, antes, o significado. O quê significa “ser causa de”? Dizer que
uma coisa é causa da outra quando causou algo é uma frase baseada na idéia de causa, e não esclarece o que é ser causa mesmo.
Outra questão: esse processo que você denominou de causa, existe na realidade ou é apenas uma conexão lógica criada
pela mente humana? Se você não sabe nem uma coisa nem outra, e você, no entanto, continua atribuindo a tais ou quais
fenômenos, tais ou quais causas, você não sabe o que está falando.
Claro que na maior parte dos casos você vai usar a palavra causa no sentido geral, costumeira, habitual, e as pessoas
entenderão no sentido de que elas estão habituadas a entender, e que nesse sentido, você parecerá estar falando de uma coisa que
você sabe o que é, porque você acredita que os outros saibam do que você está falando. Mas, nem você, nem os outros, têm uma
idéia real do processo causal e, na verdade, estão falando de uma convenção: denominando de causa, tal ou qual coisa. No
máximo você alcança isso aí.
Jung disse: “Você diz que o movimento da bola de bilhar causa o movimento da outra, mas o fato é que, no fenômeno
você não vê isso. Você só vê uma bola rolando e, depois, você vê a outra bola rolando. Você não vê conexão causal. Se você
falar do impulso de uma bola na outra, você já pressupõe a idéia de causa. Mas, o quê é causa? Um exemplo: um fenômeno que
contém dentro de si, um outro. Isso seria uma maneira de ser causa? Por exemplo, quando você diz: “Quando chove é porque a
água estava nas nuvens, e ela caiu de lá”. Isto quer dizer que a nuvem foi causa da chuva, nesse sentido. A mãe que traz dentro
de si o seu filho, ela é causa do filho, nesse sentido. Ou seja, no processo vital dela, está incluído esse filho. Mas, e as bolas de
bilhar? Existe o efeito, mas ele é parte da causa, assim como o filho é parte do organismo da mãe? Será que causa é isto? Ou
seja, dá para entender que, onde houver o organismo da mãe, ali está o fenômeno do filho. Ela o traz como um prolongamento de
si.
Um efeito é um prolongamento da causa, como se fosse uma parte da causa, que a partir de um certo momento se
destaca dela. A causa estaria para o efeito, como o continente está para o conteúdo. Se você pega um jarro cheio de água e o
carrega, você carrega a água necessariamente. Efeito seria um sinônimo de pertinência. Mas, e as bolas de bilhar? Uma estava
dentro da outra, por acaso? O movimento da segunda bola, estava no movimento da primeira? No caso da mãe, a vida da mãe se
transfere para o filho porque a vida do filho é a vida da mãe. O filho está vivo, porque a mãe está viva. Porque eles são uma só
unidade. Ela não precisa transferir, porque a vida dela está na vida do filho. É simplesmente um processo de separação. Um
processo de autonomização. O mesmo ocorre no caso do jarro com água.
E as bolas de bilhar? Como você poderia ver que o movimento da segunda está contido no movimento da primeira, se
são dois movimentos de dois corpos distintos no espaço? Se, nunca, uma bola está onde a outra está? Se eu jogo a água fora do
jarro, a água se separa do jarro, e se o filho nasce, ele se separa do corpo da mãe. No caos da bola, uma jamais está onde a outra
esteve. Como é que se chama essas coisas de causa? O braço não faz parte do taco, que não faz parte da primeira bola, que não
faz parte da segunda bola, portanto, a explicação não pode ser a mesma do jarro. Se o impulso passa de uma corpo para o outro,
é porque nós podemos conceber o impulso separado do corpo. No entanto, não precisa resolver o problema. É só você saber que
você não sabe o que é causa. Você pode reconhecer a causa mas, por exemplo, uma pessoa que você vê todos os dias, por causa
disso, você sabe quem é ela? Entretanto, se você nunca tivesse visto, você nunca perguntaria quem é. Se eu nunca tivesse visto
uma bola imprimir movimento a outra bola, eu não levantaria a pergunta. Portanto, reconhecer não resolve absolutamente o
problema. É justamente porque você consegue reconhecer que o problema aparece.
Assim, se o sujeito não sabe que o conceito de causa é um conceito problemático, o que significa a atribuição que ele faz
de uma causa a alguma coisa? Não significa nada. É flatus vocis. Porque se ele não sabe o que é causa, como é que ele vai dizer
que uma coisa é causa da outra?
Esses conceitos fundamentais: causa, existência, realidade, inferioridade, posteridade, etc., tudo isso são conceitos
metafísicos que são usados o tempo todo em pesquisas científicas. Tudo isso constitui um vocabulário que o indivíduo
desconhece. Na melhor das hipóteses, ele sabe o significado convencional. e qual é o significado convencional de causa? Nem
isso, às vezes, o sujeito está consciente. Isto significa que qualquer pesquisa científica feita nessa base, ele é uma tentativa de
explicar fenômenos desconhecidos, com base em princípios igualmente desconhecidos. Com estes princípios ( causa, realidade ,
posterior, etc. ), você explica o real. É o mesmo caso da indução.
A idéia de Ciência é você explicar determinados fenômenos ou fatos à luz de determinados princípios, que para você são
inteligíveis, ou seja, você torna inteligíveis os fatos através dessa explicação. Explicação significa você desdobrar o fato nos seus
princípios constitutivos. Se os princípios, para você, são ininteligíveis, o fato explicado por princípios ininteligíveis é ...(?) No
entanto, o processo que você aplica aos princípios, e aos fatos, para obter a explicação, qualquer criança pode aprender. Você
repete a seqüência de operações utilizada em qualquer pesquisa científica exatamente como um macaco pode aprender a apertar
as teclas da máquina de escrever e produzir um soneto de Camões. Não quer dizer que ele saiba ler.
Eu digo que na maior parte dos casos, as pesquisas científicas foram feitas, rigorosamente, assim. É uma seqüência de
operações que o indivíduo aplica mecanicamente, usando instrumentos que ele desconhece, para explicar fatos que ele não
entende. Em qualquer investigação você procura reduzir o desconhecível ao conhecível. Até mesmo uma investigação policial,
quando você chega à conclusão de que o autor do crime foi este aqui, supondo que você saiba quem é este aqui, o Antônio da
Silva. Quem é o Antônio? Não sei. Qual é o CIC e a RG dele? Não sei. Qual é a cor dele? Não sei. Onde ele mora? Não sei. Ele
existe? Também não sei. Na polícia ninguém aceita isso, mas na Ciência se aceita.
Se fosse para fazer Ciência de verdade, era para se aplicar todos os princípios de evidência, nexo, etc., como faziam
Newton, Descartes, Kepler, etc. Na prática científica feita por uma multidão de indivíduos que receberam um rótulo de cientista,
não acontece nada disso. Na prática é uma atribuição de determinados rótulos desconhecidos, a outros fatos que, na verdade,
eram conhecidos. Alguns fatos a explicar são mais inteligíveis que a explicação obtida. Ou seja, antes de pesquisar você estava
entendendo o que estava acontecendo; depois, você não tem nem isto. Isto é o que Husserl chama de crise da ciência européia.
Elas se tornam ciências em crise, na medida onde são infiéis ao conceito de Ciência. Na medida onde não depende do real até
que ele dê a sua inteligibilidade. No entanto, se contentam com a aplicação de um mecanismo rotineiro que, na verdade, é trocar
palavra por outra palavra.
Tudo o que o homem inventa de bom, depois entra nos hábitos das pessoas e elas continuam fazendo porque não sabem.
Vira uma rotina, um fetiche, e continua sendo cultuado em si mesmo. Às vezes, até a idéia originariamente era boa. Mas, por não
saberem bem o que era, os sujeitos acabam por inverter o significado, completamente, até servir ao contrário do propósito
originário. É a estória do banco da praça onde havia um cartaz dizendo: “É proibido sentar aqui”. Passaram-se trinta anos até que
alguém se lembra de que a prefeitura havia mandado pintar o banco e esqueceram de tirar o cartaz...
Os atos que são puramente imitativos não podem se constituir numa ciência jamais. Existe a técnica da pesquisa
científica, a qual é uma derivação da Lógica. Essa derivação é fácil de aprender. Você pega qualquer manual, que ele te diz o que
fazer. Aliás, até a metodologia científica foi substituída no ensino, pela técnica da pesquisa científica. Hoje em dia, a técnica da
pesquisa científica está sendo substituída pela técnica da redação de trabalho científico! Newton não sabia da técnica de redação,
ele não sabia nem como apresentar as contas ordenadamente, mas ele sabia o que era Ciência. Ele sabia fazer, e sabia porque
aquilo valia.
Tudo aquilo que nasce da criatividade, da espontaneidade humana, depois, se torna um rótulo, uma fórmula cristalizada,
repetível. Na hora que se torna repetível, a inteligência some. Vira um rito. Aquele rito, por si mesmo, vai desencadear tal ou
qual efeito, então, é uma interpretação mágico-religiosa.
A seqüência de operações denominada “pesquisa científica" não produz conhecimento científico. Ela produz se você
tiver a plena inteligência do que está fazendo. Se você tiver toda aquela metodologia científica, aí sim. Não é a rotina, a
seqüência de hábitos que magicamente produz esse efeito, mas a maior parte dos cientistas pensa que seguindo a ordem,
seguindo a seta, eles irão conseguir. Isso é fetichismo. Isto aqui é um fenômeno que na maior parte dos países do Terceiro
Mundo, aparece de uma forma mais grotesca. O erro de base vem do Primeiro Mundo. Nós apenas padecemos e aumentamos
esse erro. Por exemplo, as injustiças do capitalismo; será que foi algum latino-americano quem inventou isso? Não. Foi o
europeu. Mas o latino-americano sofre aquilo muito mais do que o europeu.
Do mesmo modo, as aberrações da pseudo-cultura científica, também não foi nenhum ugandense quem inventou, mas
no entanto, ele sofre aquilo com muito mais impacto que o europeu, porque este tem uma série de mecanismos de compensação.
Quando alguém faz um erro, logo vem um outro que reclama. Acontece que aqui, nós sempre copiamos o que tem de pior.
Então, tudo o que Husserl fala sobre o estado das ciências européias, por volta de 1930, você vê que em qualquer país do
Terceiro Mundo, as conseqüências daquilo aumentaram de maneira apocalíptica. A ponto de você ver uma nação inteira, pobre,
passando fome, e financiando uma ciência inútil, produzindo balelas. E os sujeitos que fazem isso, ainda reclamam que o país
tem que dar mais dinheiro para eles.
Um outro exemplo sobre o princípio da homogeneidade: ele pressupõe um espaço tridimensional, euclidiano,
homogêneo, em todas as direções. Nós sabemos que o espaço tridimensional euclidiano é um espaço ideal, não de fato, real. É
um espaço metafísico, não um espaço físico. O espaço físico tem outras características que a Física moderna nem apontou. Se o
princípio da Geometria euclidiana não vale para o espaço real no qual nós vivemos, nas condições desse Cosmos aqui, significa
que o Cosmos não é homogêneo em todas as direções, nem em todos os tempos. Por exemplo, por quê você supõe que o homem
de Neanderthal, ou os gregos, os romanos, enxergavam da mesma maneira que nós? Quando nós dizemos que o céu é azul, será
que o que eles chamavam de azul é exatamente igual ao que hoje nós chamamos de azul? Será que não houve modificações
profundas na percepção humana ao longo da História? Existe uma História cósmica, o qual existe um tempo em que a História se
modifica. Mas, se modifica, de que vale a nossa indução ao longo dos anos? Ela vale quando você tem a idéia do campo
delimitado ao qual aquilo se aplica. Qual é o princípio de delimitação do campo em, por exemplo, pesquisa médica? Nunca
perguntaram isto. Tanto não perguntaram que partem de pesquisas pretensamente universais sobre o fumo, o câncer, e assim por
diante. Mas isso são entidades abstratas. É preciso que haja um princípio de delimitação e especificação de cada campo. Isto mal
começou. quando se fala dos erros da profissão médica, o erro que o povo é o erro da prática mesma. Mas, esses erros seriam
diminuídos em oitenta por cento se não houvessem os erros no campo biológico.
Entretanto, sempre há um resíduo de erros práticos, por exemplo, incompetência, burrice, desonestidade, e uma série de
outros fatores aleatórios. No entanto, eu acredito, sinceramente, que a quase totalidade da profissão médica é constituída de
gente honesta. De gente que, até quer acertar, mas não pode acertar. Na verdade, o que me espanta é que hajam tão poucos erros,
porque nessas condições era para ter muito mais erros.
Por outro lado, os erros da profissão médica abrem os flancos a ataques de movimentos alternativos, místicos, que
dizem que a ciência médica está baseada em princípios errados. Como os médicos vêem que existe o problema dos erros
médicos, se sentem culpados, e cedem a esse tipo de argumentação. Quando não é para ceder. A Ciência não está errada. Nós
apenas não estamos fazendo Ciência. Estamos fazendo outra coisa. Tem que corrigir, mas dentro da mesma linha de fidelidade
ao ideal puro de Ciência.
Qualquer empreendimento humano, se ele não é perpetuamente corrigido por um retorno ao intuito originário, você se
esquece do que está fazendo ali, acaba caindo na armadilha, e vai parar longe do proposto original. Se você não sabe o que está
fazendo, você vai sendo gradativamente empurrado, sem perceber, para outro objetivo.
A Ciência não está errada. A Ciência é um ato humano, uma vontade humana. Ninguém é cientista forçado, obrigado
pelas leis da natureza. Foi uma série de decisões humanas, sustentadas por um intuito humano. O que norteia um impulso
humano? A noção de um objetivo. Se você esqueceu o objetivo, e continua achando que pelo piloto automático vai acabar
parando no mesmo ligar, isso é um absurdo. O sujeito não pode esquecer qual é o objetivo da investigação: ele deve estar
querendo procurar um nexo evidente, fundamentado entre tais ou quais fenômenos. Ele precisa conhecer esses fenômenos de um
modo evidente, e estabelecer entre eles um nexo de evidência, porém que esse nexo seja logicamente evidente com o resultado.
Fazer Ciência é isto. Não é outra coisa.
Para cada operação científica em particular, trata-se de você lembrar o que é Ciência. Senão, você aperta o botão do
piloto automático e continua como se, sem evidência nenhuma, e pelo simples fato de que você seguir o procedimento padrão,
aquilo pudesse ter alguma validade científica. Em geral, não tem nenhuma. Você vai ver que, na maior parte dos casos, o
indivíduo está mais ou menos inconsciente. Ele está apenas seguindo uma rotina profissional. E ele acredita que não cabe a ele
estar consciente das implicações daquilo tudo, porque a classe social a que ele pertence há de corrigi-lo. Ele conta com um
mecanismo de correção social, automático, o qual não vigora na quase totalidade dos casos. ele está supondo que existe um
super-cérebro que se chama “classe científica”, e que o corrigirá.
A classe científica é composta de cientistas. Se nenhum cientista fala, avisa, a classe inteira não ficar sabendo. Não é
nem garantido que eles vão ler o seu trabalho, visto que eles não prestam atenção nem no trabalho deles. Nas ciências humanas,
isso chega a efeitos de uma monstruosidade sem par. Por exemplo, existe uma escola sociológica, que foi fundada por ...(?), e
que fundaram uma revista chamada “L´Année Sociologique”, que parte do princípio de que as estruturas fundamentais do
pensamento humano são uma transposição, uma externalização de padrões sociais. Ou seja, a estrutura social, política, etc., surge
primeiro, e como imitação disso, surgem os esquemas do pensamento lógico. Isso é uma estupidez. Isso é uma coisa que os
sociólogos admitem como um pressuposto implícito, e nunca pararam para pensar se isso pode ser assim. Só que isso já está
derrubado, com Husserl, em 1910, e a sociologia mundial ainda não tomou conhecimento disso.
Na hora que você demonstra aqui que os nexos lógicos fundamentais, não dependem da psique humana, do
funcionamento da mente humana, como é que poderia surgir, não só da mente humana, mas uma criação da definições de papéis
sociais, e daí você copia, adapta, e fica uma coisa chamada pensamento lógico? O nexo lógico é anterior a qualquer experiência
humana, é anterior até à humanidade, e não depende absolutamente dos circuitos do pensamento humano real. O ponto básico
dele é que a Lógica pura se identifica com o cálculo puro, com a Aritmética pura. Se a Lógica é uma parte da Psicologia, a
Aritmética também é. Isto é o mesmo que dizer que a Aritmética foi inventada a partir das definições sociais, que o raciocínio, a
veracidade da Aritmética depende das definições sociais.
Isso é um problema que no campo da metodologia, ninguém sustenta mais essa tese. a tese psicologista acabou aqui.
Mas, no campo da sociologia, são todos psicologistas, porque eles não se posicionam declaradamente em face disso. Eles tomam
isso como um pressuposto. E toda uma nova safra de estudos é baseada nesse pressuposto. Ou seja, estão exatamente 82 anos
atrasados. Basta pegar o livro do Husserl para saber disso. Mas, eles não fazem isso.
Se você pegar a Sociologia brasileira, como a Sociologia no Brasil, é uma ciência de bar. A intelectualidade brasileira
nunca parou para pensar no assunto. Com base nisto, você explica os movimentos sociais, você orienta o pensamento da
sociedade. Isto não é Ciência, é uma retórica, é uma forma de dominação, é uma casta de mandarins.
Preleção VII

19 de dezembro de 1992
Mas esta fundamentação metafísica concerne meramente às ciências que tratam do mundo real, e nem todas
tratam deste; por exemplo, as ciências matemáticas, cujos objetos são pensados como meros sujeitos de puras
determinações ideais, independentemente do ser e do não ser real. A segunda classe de investigações se refere a todas as
ciências, porque diz respeito a aquilo que faz com que as ciências sejam ciências. Estas investigações são a “teoria da
ciência”.

Em princípio, ele se divide em dois lados nesse aspecto, porque, de em lado, para que exista um conhecimento
fundamentado, é necessário que se tenha alguns pressupostos que digam respeito ao que é a natureza do real. Por exemplo, o
princípio de homogeneidade, onde o real é homogêneo, não existem hiatos, não existe uma transição que passa de um universo
regido por determinadas leis, para outro universo, regido por leis completamente diferentes.
Isto é um pressuposto de índole metafísica. Inclusive, alguns filósofos não aceitaram isso. Epicuro não aceitava isso. Ele
dizia que o mundo, tal como nós o vemos, resulta de uma combinação fortuita de átomos que se movem em todas as direções.
Ora, se deu uma combinação fortuita aqui, pode ter dado outra combinação fortuita, diferente, em outra parte. Daí o princípio de
homogeneidade, não vale.
Isso parece muito extravagante, mas ainda hoje, há quem pense assim. Mesmo dentro da Física, há alguns sujeitos que
se inclinaram para uma solução desse tipo. É evidente que, se optamos por uma metafísica dessa ordem, a fundamentação da
Ciência, ou cai por terra, ou teria que ser completamente diferente. Porém, Husserl diz que isso aí se refere somente às ciências
que tratam do mundo real, do mundo das experiências. Há ciências que não concordam com isso, por exemplo, Matemática pura,
quando diz que 2 + 2 = 4, nós estamos tratando desses números como sujeitos de juízo meramente possível. Independente de
existir um 2, ou de existir um 4, 2 + 2 vai continuar sendo 4. Não depende que seja 2 isso ou 2 aquilo, e não depende de que
exista nem mesmo o 2. Se nós concebermos a Matemática como um esquema puramente inventado, as suas leis continuariam
exatamente as mesmas.
Estas ciências não necessitam deste tipo de fundamento metafísico. Porém, necessitam de um outro tipo de fundamento,
que não se refere ao sue objeto, mas a elas mesmas. Ou seja, uma fundamentação que distingue essa ciência de um outro
conhecimento não-científico e prescreve certas exigências que elas têm que cumprir para poderem ser verídicas. Mesmo que a
ciência não trate do mundo real, se fosse uma ciência puramente formal, como a Matemática, ainda assim é preciso que ela tenha
um fundamento que explique por quê ela é uma ciência, porque o cálculo funciona. O primeiro tipo de fundamento é metafísico,
e o segundo seria gnosiológico, ou referente à teoria da Ciência. A Gnoseologia e a Epistemologia seriam a mesma coisa.

§ 6. Possibilidade e justificação de uma lógica como teoria da ciência.

A ciência refere-se ao saber. Não que ela seja uma soma ou tecido de atos de saber. Só em forma de obras escritas
tem ela uma existência própria, ainda que cheia de relações com o homem e suas atividades intelectuais. Ela representa
uma série de dispositivos externos, nascidos de atos de saber e que podem converter-se de novo em atos semelhantes, de
inumeráveis indivíduos.

Ou seja, como é que a Ciência chega ao nosso conhecimento? Como é que nós sabemos que existe Ciência?
Principalmente, porque existem livros, disquetes, filmes, etc., que registram alguns atos de saber que foram cometidos por
homens, em outras épocas remotas, ou recentes.
Husserl diz que a Ciência não se constitui propriamente dos atos de saber, mas dos conjuntos de registros desses atos de
saber, e que esses registros se caracterizam pelo fato de que eles podem se transformar, novamente, em atos de saber, na hora em
que você entende, intelige, aqueles atos.

A nós basta-nos que a ciência implique ou deva implicar certas condições prévias para a produção de atos de
saber, cuja realização pelo homem “normal” possa considerar-se como um fim acessível. Neste sentido a ciência aponta
ao saber.

Qual é a relação entre a ciência e o saber? A ciência não se constitui propriamente do saber, mas de um conjunto de
dispositivos externos que, para um homem normal, em circunstâncias normais, propiciariam uma renovação, uma retomada,
desses atos de saber.

Pois bem, no saber possuímos a verdade. No saber efetivo, possuímo-la como objeto de um juízo justo. Mas isto
só não basta.
Veja que há um juízo que corresponde à verdade, ou seja, nós fazemos o ato de saber a medida e no momento onde
proferimos, ou podemos proferir, em voz alta, para nós mesmos, uma sentença do tipo x é y, sendo que x, de fato, coincide de ser
y. Ou seja, quando o conteúdo do nosso juízo corresponde à verdade, dizemos que isso é um juízo justo. E o saber,
particularmente o saber científico, se apresenta para nós sob a forma de uma seqüência de juízos, um conjunto imenso de juízos,
de afirmações que se pretendem justas, ou seja, correspondentes com a verdade.

É necessário, ademais, a evidência, a luminosa certeza de que aquilo que reconhecemos que é, ou de que aquilo que
rechaçamos não é;

Não basta que o juízo seja justo. É necessário que nós saibamos que ele é justo, e que o juízo contrário é falso.
Assim, a Ciência seria uma série de juízos, ou proposições, que são verdadeiras porque nós temos a evidência de que
aquilo que elas afirmam, é de verdade, e de que o contrário daquilo não é.

certeza que é preciso distinguir da convicção cega, da opinião vaga, por resoluta que seja. A linguagem corrente,
porém, não se atém a esse conceito rigoroso do saber. Chamamos também ato de saber, por exemplo, o juízo que vem
enlaçado com a clara recordação de haver pronunciado anteriormente um juízo de idêntico conteúdo, acompanhado de
evidência ( “Sei que o teorema de Pitágoras é verdadeiro, mas esqueci a demonstração” ).

Não é necessário para que seja um ato de saber, que exista uma evidência presente. Se eu repito agora, sem renovar o
ato da evidência, um juízo que eu me recordo de haver proferido outrora, com evidência, isso também é chamado de um ato de
saber.
Nós vamos ver que isso é a fonte de quase todos os problemas, porque o ato de evidência pelo qual obtive um
conhecimento, outrora, ele se expressa numa fórmula, numa proposição, e essa proposição pode ser registrada e pode continuar
sendo repetida indefinidamente, sem ser acompanhada de sua evidência respectiva.
Na medida em que se faz isso, é evidente que se pode introduzir, gradativamente, sutis mudanças de significado, de
modo que o juízo fundado em evidência acaba sendo usado posteriormente para fundamentar falsidades.
Porém, teoricamente, nós poderíamos dizer que somente o juízo acompanhado de evidência é verdadeiro. O outro nós
não sabemos. Na prática, não dá para você puxar, a todo momento, um ato de evidência a respeito de todos os juízos. Então você
liga o piloto automático e vai pronunciando aquela série de juízos que você se lembra de terem sido evidentes algum dia.
Periodicamente, quando você faz a pergunta: “Por quê eu confio nisso?”, “Qual é o fundamento disso?”, e você vai rever o
fundamento de evidência, você vê que fez um monte de erros. Isso significa que o saber não pode funcionar totalmente no piloto
automático, embora aquilo que nós chamamos de Ciência na vida prática, se apóie amplamente nesse piloto automático. Isto
porque a Ciência é um conjunto de registros produzidos pelo homem, e transmitido de geração a geração, de sociedade a
sociedade.
Assim, pela exigência prática, é evidente que a maior parte disso acaba sendo transmitido na base da credibilidade
atribuída à própria classe científica, e não na base de atos de evidências, de novas intuições feitas pelos indivíduos a quem o
conhecimento foi transmitido. Resultado: junto com as evidências, vai passar um monte de informações falsas. Isso é um
problema prático. Praticamente insolúvel.
Este é um dos motivos pelos quais eu não acredito muito no progresso do conhecimento. Acredito que existe progresso
no registro dos conhecimentos e, pessoalmente, tendo a acreditar que só existe conhecimento no instante do ato intuitivo. Isso,
Husserl não diz, mas já é um radicalismo de minha parte.
O conhecimento efetivo é muito mais raro do que se imagina. O homem possui muito menos conhecimento do que ele
supõe que tenha. O que ele tem é um potencial de fórmulas que são como comida desidratada. a transmissão da massa de
informações só aumenta a esfera do conhecimento potencial. Então, qual é a diferença que existe entre a realidade da experiência
e os registros dos conhecimentos? Ambos são conhecimento em potencial. Se eu tenho aqui uma pedra, ela tem uma determinada
estrutura, uma composição, etc., e tudo isso é um conhecimento potencial que está nela. Tão logo eu examine a pedra, eu trarei à
luz todo esse conhecimento, eu conscientizarei toda essa estrutura que está dentro da pedra. Elas estão colocadas sob forma de
presença física, e se tornarão uma presença intelectiva. O aspecto intelectivo da pedra está nela, mas só potencialmente. Assim,
chega um momento em que eu intelijo, e a pedra se transforma num objeto de conhecimento, e não só em objeto existente. O
conhecimento registrado, o livro, por exemplo, é exatamente a mesma coisa.
A atividade cognitiva humana produz objetos materiais que apenas são a tradução da inteligibilidade das coisas, numa
inteligibilidade verbal -- que também tem sua dificuldade. Então, o conhecimento se realiza, excepcionalmente, em certos
momentos muito privilegiados, quando o sujeito presta uma grande atenção a aquele momento em que ele tem um ato
intelectivo.
Tudo isso que eu estou colocando é de minha parte. Husserl não fala nada sobre isso. Ao contrário, ele acredita
piamente na comunidade científica, na possibilidade de um saber produzido coletivamente, e entendido coletivamente. Eu já sou
um pouco mais pessimista do que ele. Tentam formar um intelectual coletivo, numa coletividade de pessoas de Q.I. 25. Se não
houver, pelo menos, um sujeito inteligente, o intelectual coletivo desaparece.
Assim, o quê seria propriamente a Ciência? Seria um conjunto de objetos materiais, que registram certas informações
em códigos, tal como elas são quantificadas na própria natureza. Só que a natureza está quantificada com a fórmula material, e
nós passamos para uma forma verbal e lingüística que, teoricamente, seria mais fácil de ser decodificada. É só isso. Porém, esse
“mais fácil” é relativo, porque a facilidade diminui à medida que aumenta o volume de registros. Eu acho que este é o maior
problema do século XX. Levy-Strauss disse que a cultura é uma espécie de almofada entre o homem e a natureza, e que nós
nunca temos um contato direto com o mundo real a não ser através da cultura. Acontece que a cultura é constituída de potenciais
de conhecimento, por exemplo, o sujeito que coleciona livros sem jamais os ler. Isso hoje é muito comum. Por quê isso
acontece? Porque ele acha que comprando a Enciclopédia Britânica, ele tem melhores meios de conhecimento. A enciclopédia é
como se fosse uma programa de computador, que se você pedir as informações ele te dará, mas se você não pede, ela não te dará
nada.
Isso tudo eu comecei a pensar a mais de vinte anos atrás, e eu vi que se é assim, então o problema da educação não é a
transmissão do conhecimento, mas é a criação de condições para uma espécie de estado de evidência quase permanente. E, mais
ainda, o tempo que você leva na escola, desde que você entra até que você saia, aproximadamente dezoito anos, nesse período,
quanto que a Ciência caminhou em novas descobertas? Quanto aumentou em volume de pessoas, a classe científica? Quantos
novos institutos foram fundados? Quantos novos livros foram publicados? De forma que quando você sai da faculdade, você já
foi vencido pela corrente. Cria, então, o que hoje é a corrida contra o crescimento das informações. E essa corrida é utópica.
Qualquer um que entre nela já perdeu. Só que tudo isso aí surge do conceito errado do conhecimento, e às vezes o conhecimento
é o registro. É como se fosse um conjunto de números numa loteria que, de vez em quando você vai sortear algum.
Não adianta absolutamente você tentar atualizar o sujeito, fazer com que ele ganhe a corrida. Não adianta você organizar
melhor a informação como, por exemplo, existe hoje um investimento mundial na organização da informação científica para que
tudo seja mais facilmente acessível. Só que quanto maior a facilidade de acesso, quanto mais organizado está, mais informação
você produz. A própria produtividade da máquina do conhecimento esmaga o indivíduo. O crescimento do conhecimento é
compensado por um crescimento proporcional da ignorância. Às vezes até maior. E o que é pior, cada nova geração surge tão
burra quanto a anterior. Só que o que ela tem que aprender é muito mais que a anterior. Resultado: se nós entendemos o
conhecimento, a educação, como um problema da transmissão das informações, nós já perdemos a guerra.
Não obstante, você vê que o conhecimento, de fato, progride, e que algumas ciências, de fato, progridem. Isto quer dizer
que a base desse progresso não é a transmissão da informação. É alguma outra coisa. É algum outro mecanismo, aparentemente
mágico, que está por baixo de tudo isso, e que permite que, de algum modo, o homem acabe sobrepujando isso tudo. O problema
fundamental da educação consiste em criar condições para que o indivíduo possa inteligir -- e só. Mas, o quê ele vai inteligir?
Não sei, porque não sei quais informações vão aparecer na sua frente. Não sei do que ele vai precisar. Isso é imprevisível.

Deste modo tomamos o conceito de saber num sentido mais amplo.


A nota mais perfeita da justeza é a evidência, que é para nós como que uma consciência imediata da verdade
mesma. Mas na imensa maioria dos casos carecemos deste conhecimento absoluto, e em seu lugar serve-nos a evidência
da probabilidade. A evidência da probabilidade de um situação A não funda a evidência de sua verdade; mas funda
aquelas valorações comparativas e evidentes, pelas quais logramos distinguir as hipóteses e opiniões razoáveis das
irrazoáveis.

Em primeiro lugar, ele tem o ideal de uma série de conhecimentos, que seria que o conhecimento fosse evidente, mas na
prática isso não acontece. Na maior parte das coisas, nós só temos uma evidência indireta, ou seja, uma evidência através de uma
prova, através de uma longa cadeia dedutiva. Mesmo neste caso, o objeto sobre o qual temos a evidência não nos é oferecido
integralmente, mas só sob a forma de uma probabilidade.
A nota mais perfeita da justeza do juízo é que ele seja evidente, e que essa evidência dê uma consciência imediata sobre
a verdade mesma. Seja lá essa verdade o que for. No momento, isso não nos interessa. Mas na imensa maioria dos casos,
carecemos desses conhecimentos absolutos, e em seu lugar nós temos uma evidência da probabilidade, maior ou menor. Ora, a
evidência da probabilidade de um juízo não funda a veracidade desse juízo. O fato de que um juízo seja provável não quer dizer
que ele seja verdadeiro. Porém, essa evidência de probabilidade fundamenta a valoração de várias hipóteses que nós possamos
concluir daí. Ou seja, uma evidência de uma probabilidade fundamenta o julgamento razoável de hipóteses concernentes ao
mesmo assunto. Apenas razoável. Isso é problema do terreno da dialética.

Todo conhecimento repousa, pois, em última instância, na evidência.


Não obstante, subsiste uma duplicidade no conceito de saber. Saber, no mais estrito sentido da palavra, é
evidência de que certa situação existe ou não existe. De acordo com isto, a evidência de que certa situação objetiva é
provável é um saber no sentido mais estrito ( rigoroso ) no tocante à probabilidade; mas, no tocante à existência da
situação objetiva mesma, é um saber em sentido mais amplo ( vago ).

Se nós temos a evidência de que uma situação objetiva existe, ou não existe, por exemplo, nós temos a evidência de que
nós estamos aqui, agora; essa evidência não é probabilística. Porém, lançamos a pergunta: “A Noemi está presente?”. É uma
pergunta probabilística, porque há uma probabilidade de que ela esteja presente, sob forma incerta. Ela pode estar atrás da porta,
pode estar no banheiro, etc.
Porém, se nós chamamos de saber a primeira dessas hipóteses, a de que nós estamos aqui, isso é um saber no sentido
estrito. Porém, se nós dissemos que há 72% de probabilidade de que a Noemi esteja aqui, atrás da porta, isto é um saber, não no
mesmo sentido da anterior, porque nós temos uma evidência da probabilidade, mas não uma evidência da coisa. Quando nós
chamamos isto de saber, isto é um saber no sentido mais elástico.
Vejam, então, que demência que é as pessoas confiarem tanto em estatística, como algo seguro. Estatística é uma
unidade de probabilidade. E a probabilidade só é um saber num sentido derivado, elástico. Ela não é bem um saber. É
exatamente o que ele está dizendo aqui.

Neste último caso fala-se de um saber ora maior, ora menor, e se considera o saber em sentido estrito como o
limite ideal e absolutamente fixo a que em sua série ascendente se aproximam assintoticamente as probabilidades.

Isto é uma curva que vai se aproximando de um limite, mas não o alcança jamais. A evidência de probabilidades se
aproxima de um saber evidente, assintoticamente. Se a evidência de probabilidades for de 100%, então já não é mais
probabilidade. É um saber no sentido estrito.

Mas o conceito de ciência exige mais do que mero saber. É necessário algo mais: conexão sistemática em sentido
teorético; e isto implica a fundamentação do saber e o enlace e ordem pertinentes na sucessão das fundamentações.

Agora a coisa complicou. Para que seja Ciência, você tem que ter um saber. Esse saber só pode ser no sentido estrito,
num número dito de casos. Na maior parte dos casos, é um saber probabilístico que se aproxima idealmente de um saber estrito,
que ele não vai alcançar nunca.
Porém, em qualquer dos dois casos, se trata de um saber no sentido estrito, ou no sentido amplo. Mas o saber só não
constitui a Ciência. A Ciência é um conjunto de conexões entre esses saberes, e essas conexões, por sua vez, elas também têm
que ser um saber. A Ciência está mais propriamente nos nexos entre os vários saberes e nos fundamentos desses nexos.

A essência da ciência implica, pois, a unidade do nexo das fundamentações, em que alcançam unidade sistemática
não só os distintos conhecimentos, mas também as fundamentações mesmas e, com estas, os complexos superiores de
fundamentações, a que chamamos teorias.

Vamos fazer um diagrama: temos um conhecimento A, um outro B, outro C, e outro D. Esses conhecimentos, de fato,
estão sendo conhecidos por evidência. Porém, por um simples enlace, através de um nexo de um sistema de causas presentes.

A ( causa ) B = ( identidade ) = C D

Quando você diz que A é causa de B, você descobre que B é idêntico a C. Então, você conectou B e C através da
identidade. Assim, identidade, espaço, tempo, são os nexos com que você vai fundamentando as várias evidências isoladas que
você tem.
Entretanto, como que esses fundamentos se enlaçam entre si? Nós podemos perguntar: Existe identidade no tempo?
Quando se diz que uma coisa é igual a outra, essa identidade persevera no tempo? Ou a identidade só existe entre objetos ideais?
Isso é uma questão metafísica, não é?
Entenderam como que os conhecimentos dependem dos nexos, e estes das fundamentações? O fato de poder fornecer
uma explicação de conjunto para esses fundamentos, que fundamentam os nexos, e que por sua vez, fundamentam o
conhecimento, é isso que caracteriza a Ciência. Se você sabe que um fato tem algo a ver com um outro fato, mas não têm ambos
que ver com isso, esses dois fatos são concomitantes? Um é causa do outro? Um é aspecto, uma parte, do outro?
Na clínica médica isso acontece o tempo todo. Por exemplo, um sinal qualquer que você perceba no corpo de um
paciente, isso é uma evidência, é um dado evidente. Como é que você vai conectar isto com uma determinada patologia? Você
vai dizer que isto é um sinal daquilo. Mas, é um sinal, em que sentido? Foi a doença quem causou aquilo, ou aquilo é parte da
doença? Na medida em que você vai interpretando esses sinais, você está enlaçando os vários conhecimentos à luz de categorias
de causa, identidade, parte e todo, posterior e anterior, etc. Na prática, é exatamente isso o que você faz.
Entretanto, esses nexos que você descobre entre os fatos, que fundamento teria? O quê é isso? Então, vai haver um
fundamento teórico dessas fundamentações. Isso é o que se chama de teoria. Isto quer dizer que, sem a teoria que fundamente os
fundamentos, as coisas não têm nexo algum.
Por quê as pessoas acham que a medicina mágica dos primitivos está errada? Porque ela conexiona as coisas de maneira
errada. Por exemplo, se você fica doente, o sacerdote diz para você pegar o seu animal totêmico, como uma simpatia, para que a
doença seja curada. O sacerdote está estabelecendo um nexo entre uma coisa e outra. Daí, chega o cientista e diz que esse nexo
não existe. É puramente imaginário. O processo da simpatia é simbólico. No próprio simbolismo você não fundamenta tudo
igual. É diferente você propor um simples nexo analógico e você ver uma ligação real entre aqueles entes. Por exemplo, essas
cadeias de analogias que se fazem com o simbolismo. Em que medida o sol, o leão, e o girassol -- que estão conectados
simbolicamente -- estão conectados realmente? Em que medida você, mexendo num deles, você afeta o outro?
A magia diz que é possível que você, através de um deles, alcance o outro. Mas nem sempre. É preciso que haja um
monte de outros nexos. Na verdade, o raciocínio mágico é muito mais complexo que o científico. Vejam, por exemplo, o
processo alquímico. Ele consiste na regeneração do mundo metálico por uma interferência humana. Você vai transformar o
chumbo em ouro, e com isso você vai regenerar uma parte da natureza que está ...(?). Eu acho que isso é possível. Porém, como
se faz isso? Primeiro, você precisa descobrir o nexo que existe entre um mineral e um vegetal. Porém, este nexo só se torna
evidente em determinados momentos, muito peculiares, onde as conjunções astrológicas, de certo modo, o evidencia. Então,
você precisaria colher elementos minerais de uma planta, porém, em um determinado momento, sob uma conjunção astrológica,
que pode acontecer talvez no ano 2073. Vejam o conjunto imenso de nexos que têm que ser estabelecidos.
Na verdade, os nexos que são usados na Ciência moderna são muito mais simples. Muito mais fáceis de você encontrar.
Ou seja, a fundamentação teórica da alquimia é muito mais complicada. No fim vai ser a mesma coisa, porque você vai lidar
com um número de elementos infinitamente mais rápidos. Se você vai a um médico e diz: “Doutor, estou com o nariz
escorrendo”. Ele tem uma evidência dos sentidos, ao ver que o nariz está realmente escorrendo. Isto é uma saber, uma
informação, que ele tem. Porém, depois, ele vai dizer que isto é um sinal de alguma coisa. Este sinal é um complexo de outros
sinais, no qual ele acredita enxergar uma determinada patologia. Qual é o nexo entre uma coisa e outra? Qual é a função desse
nariz escorrendo? Se o nariz escorrendo é uma gripe, será que não pode haver uma gripe sem nariz escorrendo? Pode. Pode
haver uma gripe sem dor alguma, em parte alguma? Não. Então, o nexo entre o nariz escorrendo e a gripe não é o mesmo nexo
entre a dor e a gripe.
Esses vários sinais estão conexionados diferentemente. Isto aqui pode ser, por exemplo, um sinal mais ou menos casual.
Pode ser até, uma idiossincrasia daquele médico: sempre que ele vê um indivíduo gripado, ele pensa nas ...(?). Isto é uma
idiossincrasia dele, que está conexionada com a gripe, mas somente através da conformação pessoal daquele indivíduo.
Mas existem outros sinais que estão sempre presentes na gripe, que podem ser, algia, astenia, etc. O que está sempre
presente em toda gripe? Poderia ser um estado febril. Mas o estado febril é uma febre em potencial. Se o indivíduo não tem
febre, como é que se pode dizer que ele está num estado febril? Porque ele teve antes, e pode ter novamente daqui a pouco, não é
mesmo? Vejam como é complicado!
Isto quer dizer que, quaisquer sinais e quaisquer sintomas, jamais estão conexionados uns com os outros, em função de
uma patologia, porém em função de uma constituição individual. O conjunto de nexos é completamente diferente. Vejam que o
conceito de uma patologia, gripe, icterícia, hepatite, bicho-de-pé, etc., tudo isso são elementos teóricos com os quais você
fundamenta as conexões que estabelece. Por exemplo, você vê dois sinais e você diz que isto é hepatite, e eles costumam
aparecer juntos na hepatite, probabilisticamente. Porém, um outro médico diz que tudo isso não existe, e que é tudo um nome
que você dá. Um sinal não está conexionado com outro porque existe uma entidade chamada hepatite, porém, porque este
indivíduo tem uma determinada constituição, e nessa constituição esses sinais se conexionam deste maneira. Então, a noção de
constituição “come” a noção da patologia.
Esta é a tendência dos homeopatas. Eles não gostam de nomes de doenças, mas só gostam de nomes de constituições
individuais. Quando o homeopata diz que você é sépia, ou que você é ( natrium muriático ), ele está falando o conjunto de
nexos que se produzem, não em função de uma doença, mas em função de uma constituição individual, a qual se manifesta de
uma maneira, ora saudável, ora doentia.
Assim, se você estrutura toda a clínica médica em cima das noções das patologias, ou das constituições, você tem um
modo de raciocinar completamente diferente num caso e no outro. Você pode pegar indivíduos diferentes, por exemplo, um
gordo, enorme, vermelho, e outro, astênico, com 1,20 metros de altura, pesando 41 quilos, e você poderia raciocinar de maneira
mais ou menos análoga em ambos os indivíduos, se os dois estivessem com hepatite. Porém, se você raciocina baseado na
constituição, você não pode fazer isso jamais. Eles jamais terão a mesma doença. Assim, a doença para um é concreta, para o
outro é abstrata. É tudo teoria mesmo. E o quê é teoria? É um conjunto de nexos entre as fundamentações, com as quais você vai
conexionar depois, vários conhecimentos, vários dados.
A noção de doença, de patologia, é um dos fundamentos para se dizer que existe doença, e os mesmos quadros que se
repetem entre indivíduos diferentes. Assim, este conceito de doença é um dos fundamentos do raciocínio que, depois, você vai
fazer. Porém, outra pessoa não pode dizer que não existe doença propriamente, mas só existem as constituições individuais. Isto
quer dizer que os sinais encontrados terão que ser conexionados, não em função deste fundamento denominado doença, mas em
função deste outro fundamento denominado constituição. São duas teorias diferentes, e elas vão fundamentar sistemas diferentes
de nexos que você estabelece entre os sinais. E se fosse magia? Seria a mesma coisa. Só que os conceitos fundamentais da magia
são muito mais complicados. É uma fundamentação muito mais indireta, e por isso mesmo, na prática nós acabamos
abandonando-a. Ou praticando magia sem fundamento algum. Seria uma pseudo-magia.
Você diz que a icterícia é um sinal da hepatite. Isto quer dizer que a hepatite causou a icterícia? A doença é causa do
sinal? Se assim fosse, onde quer que ela estivesse presente, o sinal também estaria presente. Se, às vezes está presente, às vezes
não está, então não basta a doença para causá-la. Há uma outra causa concomitante. O mesmo sinal poderia estar numa outra
doença. Então, você não pode dizer que a doença é a causa do sinal. A patologia é sempre a mesma coisa. A hepatite é sempre a
mesma coisa. Isto é um conjunto de esquemas genérico, prático, comum, apresentado em casos diferentes. Com isso você
constrói o conceito de uma determinada patologia. Isto é uma teoria.
Por outro lado, há uma outra teoria que se desinteressa de tudo isso, e estuda as constituições individuais. Então, a
constituição do indivíduo é x ou y, e ela poderá se apresentar de maneira sã, ou de maneira mórbida, em tais ou quais
circunstâncias. Mas, tem que haver uma terceira teoria que conexione os dois critérios e que não seja nem uma, nem outra.
Não se precisa dizer que, na prática, as pessoas fazem essa fusão sem estarem conscientes em o quê elas estão se
baseando. Como isto pode dar certo, eu não sei, mas o fato é que costuma dar certo. Se você perguntar se macumba funciona, às
vezes funciona, mas também não sei por quê. Na prática científica, existe uma faixa de fé, magia, fantástica. Isto funciona
porque os fundamentos teóricos, embora não estejam conscientes na mente do indivíduo, eles existem, e eles estão disseminados
no corpo da profissão médica, científica, de modo ...(?)... [ troca de fitas ] Entretanto, quando falha, falha tudo ao mesmo tempo.
O coeficiente se segurança, por exemplo, é uma outra teoria de ordem probabilística. Como é que este coeficiente de segurança
está conexionado com estas outras três teorias? É muito raro que haja um indivíduo que esteja, de fato, consciente de todo esse
conjunto de nexos na hora de praticar. Esta é a grande diferença entre um grande cientista e um pequeno cientista. Um sabe da
complexidade da coisa toda, e por isso mesmo está aterrorizado. O outro não está, e diz que se ele não sabe, alguém deve saber.
E, além disso, ainda existe a margem de segurança.
Assim, quanto mais o indivíduo esteja consciente do fundamento teórico daquilo que ele está fazendo, mais claramente
ele percebe nexos, e distingue os nexos reais, dos imagináveis, e dos prováveis.
Estamos falando de clínica médica. Imaginem na pesquisa pura. Na clínica médica é inevitável que você ligue o piloto
automático, confiante de que haverá um colega que assinalará o erro, ou que o paciente manifeste o seu erro de uma maneira
não-letal, e você irá corrigi-lo, se você quiser.
Vejam que entre qualquer ato de inteligência científica, médica, e a teoria do fundamento, existe uma longa cadeia, e
isto é muito mais complicado do que parece, e que estas teorias ficam colocadas ali no fundo como uma retaguarda que está
orientando o conjunto, mas, de longe, sem aparecer. Porém, a quase totalidade dos erros pode se explicar pela aplicação da teoria
errada, e não porque o conjunto da ciência médica esteja errada. A ciência médica está certa, mas como um conjunto, o qual é
um saber potencial que está depositado nos livros, nos disquetes, etc., e o fato é que o paciente não vai consultar os livros, mas
vai consultar um, ou um grupo de determinados médicos. Se este saber todo não se realiza efetivamente na mente daquele
indivíduo, não como conhecimento teórico, e sim como fundamento teórico daquele nexo que ele estabelece naquele momento, o
paciente estará em apuros.
Portanto, o problema não é você ensinar um monte de coisas ao médico, mas é preciso que você dê uma convicção para
que ele intelija as coisas corretamente na hora em que ele enxerga. Senão, ele vai confundir concomitância com causa, com uma
manifestação acidental, com um efeito necessário, e assim por diante. Vejam, por exemplo, um programa de computador, que é
um conjunto imenso de nexos que foram estabelecidos por outras pessoas, em outras épocas, transformados em linguagem de
computador e registrados ali. Ou seja, é toda uma cadeia dedutiva, a qual você só tem o produto final, e você nem tem idéia de
como tudo aquilo foi feito. Deste modo você está muito longe da fundamentação. O livro foi um instrumento que proporcionou
progresso num certo sentido, e ignorância num outro sentido. Não é pelo fato de que a coisa está escrita no livro que você não
precisa sabê-la pessoalmente. Eu acredito no conhecimento portátil, ou seja, aquele que está no indivíduo, pronto para ser
efetivado a qualquer momento, onde houver necessidade. O que está no livro, no computador, não é conhecimento. É um
registro de conhecimentos. E é justamente no acúmulo do registro não-efetivado que ...(?) o indivíduo. Eu acho que esse é o
problema máximo da educação. A capacidade de você absorver registros depende da universalidade entre tudo o que não seja o
conhecimento teórico. Em suma, só interessa o conhecimento teórico. O resto vem com a prática. A prática é infinitamente
variada, segundo os casos. Não adianta você guardar tudo uniformemente. Na hora em que você uniformiza a prática e cria as
rotinas, aí é que você introduz o besteirol.
Qual é a diferença entre o saber teórico, normativo, saber técnico, e saber prático? Se a educação não levar isto em
conta, tudo o que ela ensina, depois, vira pastiche. O sujeito achar que o conhecimento técnico é melhor que o prático, ele é um
louco. Toda técnica é uniforme, e técnica só ensina a lidar com tipos de problemas, e não com problemas específicos. Portanto, a
técnica nada tem de prática. O que se resolve com a prática é porque não tem técnica. A técnica se constitui sempre de preceitos
gerais, aplicáveis a tipos, a espécies de casos. Não existe uma técnica de um caso em particular. Isto é precisamente a prática. A
técnica que você inventa na hora, é um saber prático. O que fundamenta o saber prático é o saber teórico, e não o saber técnico.
Quanto mais saber técnico você tem, mais você se confunde. O que interessa é você ter um saber teórico profundo, e uma
flexibilidade prática total. A técnica você inventa na hora.
É claro que um pouco de técnica uniforme você precisa ter, mas nunca confiar sempre nela. A tendência na medicina é
você confiar na uniformização técnica cada vez mais. O sujeito que não tem o saber teórico, cada vez sabe improvisar menos.

[ intervalo da aula ]

Temos, então, uma hierarquia desse negócio todo:

Saber nexo fundamentos teoria.

Porém, não dá para mapear isso de uma maneira tão simples, porque quando você chega a um nexo, qualquer tipo de
ligação que você estabeleça entre fatos é um nexo. Entretanto, a partir do momento que você estabeleceu um nexo, por exemplo,
“A icterícia é um sinal da hepatite”, mas não indica necessariamente a hepatite, você pergunta: “Por quê?” Qual é a diferença
que você estabelece entre esse nexo que existe, entre icterícia e hepatite, e outro tipo de nexo que indicasse um efeito necessário
da hepatite? Qual é o nexo que você estabelece entre o traçado do eletrocardiograma e o estado do coração do paciente? O
primeiro nexo é que você supõe que o traçado acompanha a subida e a descida de uma tensão elétrica, o que já não é muito
exato. Daí, as variações da tensão elétrica refletiriam alterações no movimento cardíaco, e essas alterações refletiriam
determinadas alterações sentidas no próprio órgão. É toda uma cadeia de nexos. É um sinal muito indireto. E cada um desses
nexos se fundamenta em alguma coisa completamente diferente. Para um simples sinal, você precisa de um conjunto de nexos
baseados em fundamentações totalmente diferentes.
O motivo pelo qual você crê que o traçado num papel reflete uma variação de potencial elétrico, e não uma outra coisa,
é um. Só isto já é um conjunto imenso de nexos. Quem te diz que uma forma gráfica pode ser análoga ao ritmo do tempo?
Durante quanto tempo aquele coração bateu? Como é a medida, e como fazer com que aquela medida seja precisa, e qual é o
princípio da analogia entre estas duas coisas? Na Música, por exemplo, existe um nexo entre o traçado e o tempo, porque você
determinou que existe. Você convencionou. Mas, não é o que acontece com o eletrocardiograma. Aquele traçado expressa um
transcurso que já aconteceu. Independe de você.
Por aí você vê que há uma série de nexos que depende de uma fundamentação que vai, em última análise, se apoiar na
teoria da percepção humana. Tudo isto está pressuposto aí. E se uma destas teorias cair, cai o eletrocardiograma junto. É como a
ponte Rio-Niterói, onde a fundamentação, a base, está debaixo d’água, e você passa por ela, porque você acredita que a base está
lá, embora você não saiba se isto é verdade.
Imaginem se vocês vão investigar isso na esfera da Psicanálise. Um ato que você cometeu ao montar uma frase é
interpretado como um sinal de que você cometeu uma errônea associação de idéias, o qual é interpretado como uma confusão
entre duas esferas desconectadas, o qual é interpretado como função de existência de focos de preocupação estranhas ao assunto,
a qual é interpretada como um sinal de uma tensão remanescente de um outro acontecimento, que não tem nada a ver com o
assunto, o qual é interpretado como um sinal de um conflito que aconteceu com o pai e a mãe, quando você tinha quatro anos de
idade. Como isso acontece? Claro que tudo isto pode estar muito certo, mas não é assim, sem mais nem menos, como se isso
fosse uma coisa evidente.
A Ciência é um bloco totalmente sistemático, onde tudo está apoiado em tudo. Não há espaços vazios. Por exemplo, no
caso do eletrocardiograma, você está se fundando na eletricidade, na Fisiologia, na Física, etc. Ou seja, qualquer sujeito, partindo
do eletrocardiograma, e remontando para trás, até os seus fundamentos, vai ver que há esses fundamentos. Só que são
fundamentos complexos, indiretos. E, se ele tiver consciência disso, ele tem muito mais critério para saber da aplicabilidade real
daquela coisa. Se eu sei por que uma coisa significa outra, eu posso saber com mais facilidade quando ela significa, realmente,
ou quando não significa. No caso da Psicanálise, um determinado objeto, um engano, um equívoco, a Psicanálise já interpreta
como sendo um sinal disso ou daquilo, sem saber toda a cadeia de nexos. Se soubesse, ele tentaria, em primeiro lugar, explicar
este lapso por qualquer outro motivo, e se não conseguisse, daí ele iria tentar a explicação psicanalista.
Este é, precisamente, o princípio metodológico. Qualquer ato, gesto, deve ser explicado por um intuito consciente. Se
todas as possibilidades de explicação por intuito consciente imediato, pertinente à situação falharem, lance a hipótese de que o
sujeito está mentindo conscientemente, está fingindo. Se isto ainda falhar, lance a hipótese de que aquilo pode ser uma ação
induzida por terceiros, e se isto falhar, daí você apela para o inconsciente. É mais fácil você achar a situação imediata, a situação
imediatamente anterior, a ação das pessoas, do que você achar o tal do inconsciente, o tal do id. Se na primeira vez você já apela
para o id, aí é muito fácil. Isto porque eu já acho que há uma relação direta de uma entidade chamada id, como se fosse uma
outra pessoa, e que é o verdadeiro autor dos meus atos, e eu sou um fantoche.
Este tipo de explicação mostra que o indivíduo não tem a menor idéia de qual é o fundamento real da própria explicação
da situação. Claro que ela tem um fundamento, mas como este fundamento é feito através de um complexo sistema de nexos,
não é o fundamento direto. E se não é direto, não pode ser aplicado em todos os casos.
O que Husserl diz aqui, que caracteriza a Ciência não é, exatamente, os vários saberes que estão ligados, mas que eles
estão ligados através de nexos fundamentados que, por sua vez, se apóiam em teorias, ou seja, em sistemas explicativos gerais.
Quando você distingue um nexo causal, de uma simples concomitância, como no caso da icterícia, que seria causada pela
hepatite, então você está discutindo o que é um efeito direto de um determinado estado, o que é um efeito indireto, e o que é uma
fusão de duas correntes causais.
Qual é a diferença exata entre um nexo causal e uma concomitância? Hume já não dizia que não existe nexo causal
nenhum, que é tudo concomitante? Se é possível tratar desta discussão sem estar demente, significa que a noção de causa não é
assim tão óbvia. Ela parece óbvia porque nós estamos acostumados a usá-la no dia-a-dia, e nós confiamos na autoridade da
sociedade, da camada letrada, que deve saber o que está falando. Da mesma maneira que a criança que acredita que o colo da
mãe é o lugar mais seguro do mundo, e ela não sabe que a mãe dela é esquizofrênica, e não sabe que ela está tramando jogá-la do
alto de um edifício naquele momento! É a sensação de falsa segurança.
Assim, sempre que nós nos apoiamos nesse conceito costumeiro, nós estamos, em última análise, nos apoiando no
caráter sistêmico da Ciência. A Ciência é um conjunto indubitável e tudo deve, em última análise, fazer sentido. Na maior parte
dos casos, são tiros no escuro. Todo mundo sabe que a Ciência é um conhecimento organizado. Entretanto, a enciclopédia não é
um conhecimento organizado? Se você organiza, por exemplo, pela ordem alfabética, ele não está organizado? Se você organiza
um conhecimento pela sua ordem didática, do mais fácil para o mais difícil, ele não está organizado? Se você organiza este
conhecimento pela ordem de utilidade, ou seja, os que são de utilização mais freqüentes, também não está organizado? Só que
nada disso é Ciência.
A Ciência não é um saber organizado, mas é um conhecimento organizado em função da sua fundamentação teórica. De
qualquer outra maneira não é Ciência. A história da Física não é ciência física, é evidente. A sucessão das descobertas físicas não
está organizada exatamente segundo a ordem da sua fundamentação, porque você pode ter descoberto uma coisa, e ter
descoberto a sua fundamentação depois. A Ciência é uma organização hierárquica onde a explicação do fundamento teorético
ocupa a base, e as outras conexões vão se apoiando nesta base, até que você chega a poder estabelecer nexos entre os dados
considerados isoladamente.
Prestem bem atenção que no conceito alquímico também nada está separado. Uma ciência mágica que supusesse um
hiato no real, é uma autocontradição. Ao contrário, a magia pressupõe até um número de nexos maior, mais estreito, do que a
Ciência. A única crítica que nós podemos fazer ao mundo mágico é que ele é um sistema de nexos tão bem organizados, que é
utópico. Não existe uma explicação geral que dê tanto fundamento a tantas coisas assim. É como se você dissesse que a magia é
racional demais. Nela, tudo está excessivamente explicado.

No fato de que a forma sistemática nos pareça a mais pura encarnação da idéia do saber não se exterioriza
meramente um traço estético da nossa natureza.

Isto aqui é fundamental. O homem tem, por um lado, uma espécie de ordem, de totalidade e harmonia. Nesse sentido,
nós poderíamos dizer que a razão é como uma expressão do senso de integridade do próprio organismo. Isso existe de fato.
Piaget estuda o surgimento das operações racionais do homem como atos derivados de uma espécie de impulso de
integridade e de autoconservação do organismo psicofísico humano. Isto é o que nós poderíamos chamar de fenômeno estético.
O estético é aquilo que enxerga as coisas sob a categoria da unidade, da harmonia, do equilíbrio. Harmonia e equilíbrio são
formas da unidade.
Existe um outro autor, que foi professor da USP, Etiénne Souriau, cujo primeiro trabalho estabelece correspondência
entre o pensamento lógico e o que ele chama de “uma visão estilizada das coisas”. A Lógica, para ele, é uma estilização do
pensamento. Neste sentido, o pensamento lógico e a organização científica do Cosmos emanam do mesmo impulso pelo qual o
homem produz obras de arte, no sentido de unificar numa forma harmônica o fluxo mais ou menos incoerente da experiência. É
isso que Husserl se refere quando ele fala que esse caráter sistemático da Ciência não provém de um mero impulso estético,
embora ela pudesse prover também.
Quando você fala de um impulso estético, é no sentido de você dar uma forma unitária ao fluxo da experiência. É por
isso que você faz arte. Por exemplo, quando você conta uma estória, quase todas as estórias de todas as pessoas que você
conhece, acontecem concomitantemente a milhões de outras estórias, que não têm nada a ver com o assunto, mas que estão ali
cruzadas, formando uma espécie de caos. Entretanto, você isola uma estória singular, e a encara na sua forma apenas, separando-
a de todos os elementos materiais que pudessem interferir no curso dos acontecimentos. Você faz isso por um impulso estético,
para encarar a forma do acontecimento de uma maneira total, unitária, harmônica. Por quê o homem faz isso? Piaget responde
que é por um impulso de autoconservação da forma do seu organismo. Isto quer dizer que o impulso que leva você a organizar
racionalmente, esteticamente, a experiência, é o mesmo impulso que faz você se defender, por exemplo, de uma agressão. Ou
seja, o caráter caótico da experiência é uma agressão ao nosso organismo psicofísico, e nós nos defendemos desta agressão
organizando o todo, através desta forma estética, lógica.
Mais particularmente, Etiénne Souriau, estudou a analogia quase perfeita entre o que é o impulso estético e o
pensamento lógico. Assim, este elemento existe, porém, ele existe no homem, e ele pode ser uma das causas que impelem o
homem a fazer Ciência, e de uma forma, precisamente, sistemática. Porém, o fato de que o homem tenha este impulso para a
unidade, ou forma sistemática, do conhecimento, não quer dizer que esta forma sistemática seja, de fato, a mais adequada para o
conhecimento do real.
O que Husserl está dizendo é que, independentemente do impulso humano para o sistematismo lógico-estético, a forma
sistemática é a ideal para o conhecimento do real. Portanto, diz ele, se as ciências são idealmente organizadas em forma
sistemática, isto não deriva de um mero impulso estético nosso, mas deriva da organização do próprio real. Se um outro ser, que
tivesse uma organização completamente diferente da humana, se quisesse obter um conhecimento, faria a mesma coisa, com ou
sem impulso estético. No nosso caso isto é uma feliz coincidência. Nós temos este impulso estético e o real é organizado em
esferas distintas, e segundo nexos também organizados. E não é só uma coincidência porque nós também fazemos parte do real.

O sistema não é invenção nossa, mas reside nas coisas; o reino da verdade não é um caos desordenado; nele rege
uma unidade de leis; e por isto a investigação e a exposição das verdades deve ser sistemática, deve refletir suas conexões
sistemáticas e utilizá-las, ao mesmo tempo, como escala do progresso, para poder penetrar em regiões cada vez mais altas
partindo do saber já dado ou obtido.
A ciência não pode prescindir dessa escala. A evidência não é um acessório natural. Para que investigar relações
de fundamentação e construir provas, se somos partícipes da verdade numa consciência imediata?

“A evidência não é um acessório natural” -- não é tão natural quanto respirar, andar, etc. Se ela fosse um acessório
natural, estaria funcionando vinte e quatro horas por dia, e de tudo o que você conhece, você teria um conhecimento
imediatamente evidente. Então, é óbvio que não acontece assim tão naturalmente. E, sendo assim, daí surge a necessidade de
investigar as relações de fundamentação, e construir formas, ou seja, a evidência indireta.
Mas, de fato, a evidência que impõe o selo de existente à situação objetiva representada, ou a absurdidade, que lhe
impõe o de não-existente, só são imediatas num grupo de situações objetivas primárias, relativamente muito limitado.

Somente para certas situações primárias que a evidência salta aos olhos. Por exemplo, estar ou não estar aqui, agora.
Uma coisa ser ela mesma, ou não. Ou seja, a evidência marca a veracidade de um situação objetiva. E a absurdidade, que é o
contrário da evidência, marca a não-existência.
Porém, na maior parte dos casos, a existência, ou a não-existência, não estão patentes, e só podem ser verificadas através
de uma cadeia de nexos.

Há inumeráveis proposições verdadeiras, de cuja verdade só nos apercebemos quando as “fundamentamos”


metodicamente.

Existem muitas coisas que são verdadeiras, mas não sabemos por quê são verdadeiras.

Este fato de que necessitemos de fundamentações não só torna possíveis e necessárias as ciências, mas, com as
ciências, uma teoria da ciência, uma lógica.

Se este sistema de fundamentação é necessário, justamente porque nos falta a evidência, as fundamentações também não
são evidentes de início. Elas também são resultado de uma outra fundamentação, e assim por diante, até chegarmos em certas
evidências primárias.
Portanto, o estudo das fundamentações é também uma ciência, que Husserl chama de Lógica. Ele entende como
Ciência, o saber fundamentado numa unidade teorética. É o saber organizado, segundo a ordem das fundamentações teoréticas. E
ele entende como Lógica, a teoria da fundamentação, ou seja, a teoria da validade da Ciência. É a teoria que diz porque a Ciência
é Ciência, ou se ela não é Ciência de maneira alguma.
Assim, poderíamos admitir tanto uma Lógica geral, que faça a fundamentação em geral. Por exemplo, a definição de
evidência seria a mesma para toda ciência, porém, você poderia admitir uma série de Lógicas especiais, conforme os objetos
materiais e formais das várias ciências requeressem diferentes tipos de fundamentações. Por exemplo, é fácil você ver que a
fundamentação é uma em Aritmética, e outra em Biologia. Na Matemática não existe nenhuma fundamentação que dependa de
uma evidência sensível, mas em Biologia existe.
Qual é a natureza de cada uma dessas fundamentações? Qual é o seu alcance? Qual é a validade de cada caso? -- e assim
por diante. Tudo isto faz parte de uma teoria especial da Ciência.

Se todas as ciências procedem metodicamente, então o estudo comparativo desses instrumentos metódicos haverá
de proporcionar-nos os meios para estabelecer normas gerais.

Não só as normas gerais que valham para todas as ciências, mas também as normas especiais ou locais, que valham para
cada determinada ciência.
Vamos fazer a seguinte hipótese: que o mundo seja um aglomerado caótico, do tipo epicuriano, onde os átomos se
encontram casualmente, e formam seres e coisas. E que, os átomos se encontrando fortuitamente, desde milhões de anos,
conseguiram formar em determinado planeta, um ser que tem um impulso estético.
Isto não é impossível. E este ser tende a juntar todos os dados da experiência, todas as informações que lhe chegam,
como se formassem uma unidade. É evidente que este ser é o que está mais enganado de todos, porque ele ignora o caos. Ele
enxerga a ordem e a unidade onde só existe caos e multiplicidade.
Millor Fernandes acredita nisto piamente. Ele segue a filosofia de Epicuro, talvez sem saber quem seja Epicuro, mas
tudo o que ele fala, pensa e diz é baseado nisto. É a teoria epicurista: o homem forma uma unidade porque ele tem um impulso
para tanto, mas o mundo é um aglomerado caótico. Entretanto, algum de vocês é capaz de dizer que o mundo não é um caos?
Há uma teoria metafísica, que diz que o mundo é uma ordem, ou que o mundo é um caos. Essa discussão é complicada.
Você pode oferecer argumentos para determinada teoria, e também, para outra. Entretanto, dá para perceber que, num caso, a
Ciência pretende retratar uma ordem no mundo, e no outro caso, ela implanta uma ordem no mundo. Ela é uma expressão do
desejo humano.
Essa idéia do caos, que parece maluca, ela é dominante em vários meios. Eu não acredito que haja pessoas que pensem
assim, só para arranjar discussão à toa. Elas foram levadas a pensar assim, talvez por experiências que tiveram. Eu acredito que
esta é uma teoria errada. Mas ela não é impensável.
Suponha que o mundo seja caótico, mas que há parcelas que sejam organizadas, ou que funcionam como se existisse
alguma ordem. Ou seja, entre a forma total do caos e o que nós projetamos como ordem, existe, às vezes, uma coincidência, que
seja suficiente para fundamentar uma ação racional humana. Existe um enorme número de cientistas que pensa assim. Esta é
uma das verdades alternativas.
O próprio Ortega y Gasset pensava um pouco assim: aqui está a realidade, e aqui está a teoria física. Esta teoria coincide
com a realidade em determinados pontos, e no resto ela é totalmente inventada, imaginária. Se estes pontos coincidem com a
aplicação técnica, ou por testes de laboratórios, jamais saberemos se existe erro aí. O fato é que são erros que funcionam. Isto
deriva da perspectiva do pragmatismo: uma teoria científica é verdadeira, não quando ela expressa a ordem real dos fenômenos,
mas quando ela coincide com os fenômenos em determinados pontos, suficientes para sustentar uma nação humana. Isto tudo
terá que ser estudado com muito cuidado, mais tarde.
Eu também acho que isto está errado, mas não é a absurdidade total -- é possível. Nós nunca devemos pensar que quem
não pensa como nós está maluco. Muitas vezes é maluquice mesmo, outras vezes é pura enganação, mas muitas vezes não é nada
disso. É uma hipótese viável. Hans Vahinger dizia: “Tudo se passa como se fosse assim”. É o esquema do Ortega y Gasset.
À luz do Husserl, tudo isto cai maravilhosamente. Ele diz que tudo isto é maluquice. Se existe um caso de demonstração
completa de alguma coisa, está aqui no texto de Husserl, de maneira completa e exaustiva, sob todos os aspectos possíveis e
imaginários. Não há nada que você possa dizer depois.
A idéia psicologista está no fundo de todas essas teorias. Todas elas se baseiam na Psicologia, de uma maneira ou de
outra. Elas se baseiam na idéia de que a Lógica é um processo do pensamento humano. Se você retira esta viga de baixo da
estrutura, cai o pragmatismo, cai o epicurismo, cai tudo! Você vê que eles são impossíveis. Só que ele aborda isto sob um
aspecto que vocês ainda não tinham pensado. Como todas estas teorias exercem um efeito paralisante na mente humana, removê-
las é fazer um benefício, porque você vai investigando e, mais dia, menos dia, é capaz de você levantar uma hipótese dessas. E
você vai ficar o resto da sua vida paralisado ali, e não vai saber sair, porque não é fácil sair. Quando William James, por
exemplo, propõe essa coisa, não é para nos enganar não. Ele está a fim de descobrir a verdade, chega a isso, e depois não sabe
como sair, e diz: “É assim!”.
Existe hoje, na Sociologia, toda uma corrente dominante que está presa ao psicologismo. E não sabe como sair dele. O
texto de Husserl não Lógica, mas uma filosofia da Lógica, ou seja, depois de ter aprendido a teoria do Husserl, você começa a
filosofar sobre ele mesmo. Ele é o seu primeiro assunto. Epicuro é muito importante na Física atual, e eu acho que ele e todos os
seus discípulos estão doidos da cabeça.
As condições do ensino, da prática social da Ciência são adversas à idéia mesma de Ciência. Se existe uma classe
científica, que é formada de batalhões de pessoas, se as pesquisas têm que se suceder, umas às outras, como coelhos que se
proliferam, se é preciso atender a todas as exigências de pesquisa obrigatória, tudo isso é incompatível com a idéia de Ciência
mesma. Quem disse que o saber organizado pode ser organizado com essa velocidade? Para que fosse possível progredir nessa
velocidade e permanecer organizados cientificamente, isso é utópico. Nós precisaríamos de ser mais que humanos.
O progresso acelerado da Ciência, como as pessoas acreditam que existe, ele não apenas não existe, mas ele não poderia
existir em nenhum planeta do universo. É uma balela. O conhecimento progride, mas não é assim. Vejam num século, quantas
descobertas em Ciência foram feitas? Uma, duas, e isso já é uma grande coisa. As descobertas não saem assim, uma atrás da
outra, e quando saem assim, elas vão perdendo o seu caráter científico, vão perdendo fundamentação. Entram num mecanismo
entrópico, ou seja, aumenta a quantidade e diminui a diferenciação vertical. Tanto faz uma pesquisa chegar a esta conclusão,
como à conclusão oposta, porque ela está destinada, não a fornecer o conhecimento sob forma científica, mas a sustentar a
determinada prática social.
A organização social da Ciência é muito recente, ela se constitui a partir do século passado, e a Ciência é muito antiga.
A partir do momento onde a produção científica se organizou, ela progrediu no sentido quantitativo, ou seja, tem muita gente
ganhando dinheiro com isso. Há verbas imensas sendo carreadas para este fim. Este progresso quantitativo da profissão, ele toma
um rumo que destrói o fundamento da própria Ciência, ou seja, ele cria um tipo de classe científica que não pode ser científica
em hipótese alguma. No instante seguinte, se instala uma gigantesca confusão onde chegam aquelas constatações céticas: “A
Ciência não nos ensina a viver; não nos dá felicidade, etc.”, ou seja, toda uma série de queixumes e lamúrias, vindo de uma certa
parte da população, aliado à quantidade imensa de fracassos da profissão científica, parece fornecer o argumento para o tipo de
pensamento alternativo do tipo neo-romântico, etc. Isto tudo está fracassando porque a Ciência não é Ciência, e o negócio é
tomar LSD, ficar doidão, e aí é que nós vamos encontrar a verdade. Ou seja, um erro produzido por um outro erro. E esse erro
vem de que a Ciência, na sua prática, espera que a vocação científica na mesma medida onde ela progride quantitativamente e
socialmente.
Esta contradição tem que ser resolvida de algum modo Ou terá que haver uma mudança total da cultura da produção
científica, ou a Ciência acaba. Isto porque as idéias mais malucas, mais bárbaras, começam a entrar na própria área da produção
científica. Na USP você tem seminário de esoterismo, macumba, ufologia, duendes, etc., e eles acham que com isso vão superar
os erros da Ciência. Só que os erros não são da Ciência enquanto idéia pura. Os erros são da profissão científica. Isto é o que nós
estamos vendo neste fim de século: uma espécie de suicídio da Ciência.
O livro “O Tao da Física”, por exemplo, não tem nem Física, nem Tao! E, no entanto, fez um sucesso enorme na
comunidade científica. Virou uma espécie de bíblia. Isto é uma pseudo-revolução, um pseudo-progresso, na verdade é uma fuga.
A proposta do Husserl é ser mais cartesiano que o Descartes. Ele tem um livro que medita sobre a proposição de
Descartes, onde ele vai mostrar as limitações da proposta cartesiana, e o que está faltando para completá-la. Ele nem acabou de
falar, e já estão querendo trocar por outra. As pessoas não entenderam o Husserl. O que as pessoas querem é propor uma reforma
da Ciência que atenda aos anseios de felicidade dos indivíduos. Isto é uma tremenda retórica. A proposta é encantatória, mas o
fato é que não funciona, de maneira alguma, em área alguma. Aliás, não há uma única pesquisa científica concreta baseada nisto.
O pensamento sistêmico não sai disso aí. O pensamento sistêmico é o sistema de todos os nexos, do nexo universal da
fundamentação da Ciência. Não há nenhum conhecimento separado, e também não há esferas dos fenômenos que estejam
separadas.
Isto aqui tem raízes na ação humana, tem raízes na imaginação e na percepção sensível. Isto existe desde Aristóteles. O
fato é que a Ciência, a partir do século XIX, ela perde essa noção sistêmica na mesma medida onde perde a raiz na idéia pura de
Ciência. Daí, surgem pessoas oferecendo, não a cura desse mal, mas uma utopia, que seria o holismo, a Nova Era, etc. A
alquimia é muito mais sistêmica do que isso. Quando você tem um pensamento muito complexo, muito abrangente, as pessoas já
te carimbam, por exemplo, se eu digo tudo isso, elas vão dizer que eu sou racionalista, que eu sou contra o esoterismo, a magia, a
alquimia, etc. Quando eu falo de astrologia, elas dizem: “Esse aí é astrólogo...”. Elas te carimbam e ficam esperando que você vá
defender as alternativas x, y e z, e vá responder A, B, C e D.
À luz dos Quatro Discursos, o que eu estou fazendo aqui é a idéia de uma filosofia integral da cultura humana, que
abrange esse aspecto da Ciência, do conhecimento imaginativo, abrange a idéia da revelação do mundo, e se prolonga na idéia
pura de Ciência. Se você esperar para ouvir até esse ponto, você terá uma idéia do conjunto. Mas, eu acredito que esse seja o
conjunto, esse seja o sistema, que nós poderíamos dizer, tradicional, embora não esteja expresso em parte alguma. Estou apenas
tentando expressar uma coisa que está aí, implícita em todo desenvolvimento da cultura, e não estou negando nada, não estou
afastando nada. No momento em que falo pensamento sistemático, já está dito tudo. Sistema quer dizer” onde se juntam todas as
raízes”. Não é uma idéia de holismo genérico, onde dá uma sensação de todo, de sentimento de todo. Para ter sentimento de
todo, basta tomar LSD, beber cachaça, etc. Espero que vocês me ajudem neste empreendimento.
Preleção VIII

13 de janeiro de 1993
Vamos voltar um pouco atrás na questão da idéia pura de Ciência. A idéia pura de Ciência define a direção de todos os
esforços intelectuais da humanidade, existentes a dois mil anos ou mais. Todos que investigaram qualquer coisa, em princípio,
estavam norteados por essa idéia pura, no sentido do saber apodíctico, indestrutível. Mesmo quando o indivíduo só acredita no
conhecimento precário, parcial, relativo, ainda assim ele está norteado por essa idéia do saber apodíctico. Acontece que ele julga
negativamente o saber positivo, ou seja, o saber efetivamente existente recebe um julgamento negativo a partir desta comparação
com o saber apodíctico, possível.
Partindo da idéia pura de Ciência, e vendo que a Ciência efetivamente existe, o sujeito vê que a idéia que existe não
atende a estes requisitos, e nem poderia atender. Ao passo que outros acreditam que se ela não atende a isso, ela poderá vir a
atender algum dia. De qualquer modo, o que ninguém questiona é a idéia pura de Ciência. Esta idéia é composta do seguintes
elementos:

1) Evidência: que se define por um saber, ou uma sentença, que só pode ser negada mediante um duplo sentido. Esta
seria a definição técnica da evidência. Uma evidência é um saber que só pode ser negado por uma frase cujo ato de locução é
uma negação do seu conteúdo. Se o seu conteúdo é verdadeiro, ela não pode ser proferida, e se ela pode ser proferida, é porque
ele não é verdadeiro. Isto nada tem a ver com contradição lógica.

2) Evidência indireta: ou prova; é a sentença que não é imediatamente evidente em si mesma, ou seja, que pode ser
negada sem duplo sentido. Então, ela não pode ser dita verdadeira em si mesma, mas ela depende de uma outra anterior que a
fundamente, que a justifique, e que a garanta.

3) Porém, para que uma sentença possa garantir outra, é necessário que exista um nexo, e que este nexo seja, ele mesmo,
evidente, ou seja, não necessite de uma prova. Um dos nexos evidentes é o nexo entre parte e todo, por exemplo, uma frase que
você disse já está embutida na outra, representa apenas uma parte da outra, então, a veracidade da maior contém a veracidade da
menor, e a garante portanto.

Estas são as três condições teóricas.

Se a idéia pura de Ciência emprega uma evidência que não é tão difícil em si mesma, por quê existe o erro, por quê
existe a falsidade, e por quê existe tanta discussão? Esta idéia pura de Ciência já permite elucidar, de cara, em que consiste a
pseudo-ciência; em que consiste a falsidade. Se nós temos três condições para que um saber seja apodíctico, devem haver três
condições que permitem que este saber seja falso. Para que um saber seja falso, ele tem que atender uma das seguintes
condições:

1) Falsa evidência: é quando você toma por inquestionável uma coisa que é questionável. Quando você julga que uma
determinada sentença só poderia ser negada mediante um duplo sentido quando na verdade ela poderia ser negada sem duplo
sentido algum. Dito de outro modo, é quando existe a possibilidade da sua negação, porque a evidência não existe a
possibilidade real da sua negação. Toda negação de uma evidência é uma negação fingida. Quando um indivíduo nega uma
evidência, ele não está negando, de fato. O fato dele negar já prova aquilo com o que ele está negando. Não é o conteúdo da
negação dele que prova a veracidade do que ele nega, mas é o ato dele negar. Por isso, não é uma contradição lógica, que é uma
contradição interna do discurso, ao passo que a negação, na negação da evidência, a contradição é externa. Não é entre uma parte
do discurso e outra parte. É entre o discurso e a condição da sua pronunciabilidade, ou seja, o discurso que negue a evidência não
pode ser pronunciado, a não ser que a evidência seja verdadeira. Porém, nós podemos achar que uma determinada sentença, uma
determinada contradição, uma determinada condição, atende a este requisito, quando na verdade ela não atende.

2) Evidência indireta tomada como direta: ou seja, tomada como princípio. É quando há uma sentença, uma convicção,
uma proposição, uma crença, que não é garantia de si mesma, e que é tomada como se fosse uma evidência direta, ou um
princípio, de modo que até mesmo as evidências diretas deveriam ser fundamentadas por elas. Isto aqui é o mais grave que
existe, porque até a falsa evidência pode ser corrigida.

3) Falta de nexo: esta condição pode acontecer sem nenhum dos erros anteriores. É o que se chama de erro de lógica.
Quando nós cometemos uma das muitas figuras do falso silogismo, ou seja, de uma coisa nós concluímos outra que,
logicamente, não se segue a ela. Esta é fácil de corrigir. Se você entregar para um computador, ele corrige. Isto aqui é a própria
contradição.
A primeira condição, que é uma falsa evidência, é uma falsa interpretação das convicções que nós tiramos da
experiência. É uma má observação, ou, uma observação parcial.
Vejam que, normalmente, os erros científicos que nós conhecemos são todos atribuídos à primeira, ou à terceira,
condições, porém, a causa fundamental de erros, ao longo da História, vem da segunda condição. Por exemplo, vamos supor que
nós digamos que as categorias da Lógica emanam da estrutura social ( esta é uma tese muito disseminada hoje em dia ). Na
medida em que há uma estrutura social, há funções e instituições e, estas funções são introjetadas e, daí, com elas, você conserva
o princípio de identidade, o princípio de causa e efeito, etc. Ou seja, a Lógica é uma transposição da estrutura social para o nível
do discurso. A pergunta é a seguinte: Qual é a prova que você tem disto? A prova é que eu estudei tais e quais sociedades, e
tenho aqui um pilha de provas de que é assim. Ou seja, sua prova é por indução. A indução é um dos meios de prova que existe
em Lógica, mas é um meio que tem valor probabilístico. Portanto, toda indução tem que se fundamentar nos princípios lógicos.
Se a sua prova atende a alguma coisa é porque ela atende os princípios lógicos, entretanto, se eles, por sua vez, nasceram do
mesmo fato que você está estudando, então, você entra num círculo vicioso. A indução é tomada como se fosse uma evidência
inicial e, com base em algo que obtive por indução, isto é, por um nexo, eu pretendo fundamentar a própria evidência. Assim,
para que eu pudesse provar a minha tese, eu necessitaria de , como evidência, os princípios lógicos, mas se eles nasceram dos
mesmos fatos que estou estudando, eu entro num círculo vicioso.
Quase todos os antropólogos do mundo inteiro pensam assim. O que prova que a Antropologia é uma pseudo-ciência,
embora, não em tudo. Se eu digo: o princípio de identidade nasce da experiência repetida, ou seja, o homem aprende o
fundamento do princípio de identidade através da experiência. Mas, como eu vou saber se é a mesma experiência? Se eu tenho
experiências repetidas, elas podem me levar a uma conclusão, justamente, porque eu tenho o princípio de identidade. Se eu não
tivesse, eu não chegaria a conclusão alguma. Então eu tomei um nexo como fundamento de uma evidência.
Isto aqui é a pedra-de-toque para você nunca mais ficar assustado com nenhuma pseudo-ciência. Se você aplicar isto
aqui com bastante cuidado, você vê que praticamente noventa por cento do que se toma como científico, como provável, não tem
fundamento algum. Isto é a base de um erro que, se ele se torna convincente, é porque o sujeito acrescentou o elemento retórico.
A retórica não é um erro. As pessoas a usam com um sentido pejorativo, mas ela, em si mesma, não é pejorativa.
Existem uma série de outras condições, que o saber precisa, e que são práticas. E existem outros tantos erros relativos às
condições práticas também. Para que um ser humano possa ter um saber apodíctico, além das três condições teóricas, ele precisa
ter mais alguma coisa, que são as condições práticas.

1) Repetibilidade: se eu não tenho condição de repetir duas vezes o mesmo ato intuitivo, o mesmo conteúdo essencial,
em duas circunstâncias diferentes, qualquer conhecimento se torna impossível. Inclusive, para que eu negasse a possibilidade
desse conhecimento, eu também precisaria repetir o mesmo ato intuitivo.

2) Registro: registro na memória biológica, que conserva o esquema simplificado do conteúdo do ato intuitivo, na
ausência do ato intuitivo. Quando você não está intuindo nada, quando você está intuindo outra coisa, o conteúdo da intuição
anterior se conserva, de algum modo, para que você reconheça. Ou seja, no ato intuitivo, quando ele se repete, não há apenas um
conhecimento de algo, mas há um reconhecimento, no sentido de que você sabe que a coisa conhecida agora, é a mesma que foi
conhecida antes.

3) Transmissibilidade: se as duas condições anteriores existem é porque existe um esquema transmissível de um


momento a outro momento. É aquilo que eu conservo do primeiro ato intuitivo, não no seu conteúdo inteiro, mas apenas uma
parte suficiente para me permitir a repetição do ato. Se eu posso conservar um registro simplificado, de momento a momento, o
que me impede de transmitir esse registro? Toda dificuldade de transmissão de conhecimento é de ordem prática, e não, teórica.
Por exemplo, a deficiência de linguagem: a pessoa fala outra língua; a burrice do interlocutor; a falha de memória; diferença de
códigos; diferença de sensibilidade entre uma pessoa e outra, etc. Tudo isso são dificuldades práticas, que podem variar
conforme os sujeitos envolvidos. Assim, o indivíduo que disser que o conhecimento essencial é intransmissível, é a mesma coisa
que ele dizer que esse conhecimento que ele acabou de transmitir não é essencial. Se a intransmissibilidade do conhecimento
essencial não é essencial, ela é acidental. Se ela é acidental, isto significa que, essencialmente, ele pode ser transmitido e que,
acidentalmente, não pode. Mesmo que você receba uma revelação, ela é transmissível. O máximo que a pessoa poderia dizer é
que o conhecimento é essencialmente intransmissível, mas que, acidentalmente, ela recebeu uma transmissão. Mas você também
poderia dizer: o que me impede que, acidentalmente, eu também receba? A transmissibilidade não é acidental no conhecimento.
Ela é essencial. Sem ela não existe conhecimento algum. Existe apenas a potência do conhecimento, que é o simples ato
intuitivo. Nesse sentido, todo conhecimento é um reconhecimento. Se você não reconhece, é o mesmo que não conhecer. Assim,
existe também a possibilidade de conhecimento falso, através de falsas condições práticas.

1) Falsa repetição: quando você acredita que uma coisa que está sendo intuída agora, é uma mesma que foi intuída em
outra ocasião que não esta. Por exemplo, uma falsa recordação, um erro de memória.

2) Registro falso: pode ser um documento falso, um testemunho falso, um registro perdido, etc.
3) Erro de transmissão: por exemplo, quando você fala uma coisa e o sujeito entende outra.

A totalidade da história dos erros está contida aqui nestas condições.

Quadro resumido das possibilidades do saber verdadeiro e do saber falso


Condições teóricas e práticas

Saber verdadeiro Saber falso

Condições teóricas
1. Evidência 1. Falsa evidência
2. Evidência indireta 2. Substituição da evidência indireta à evidência direta
3. Nexo evidente 3. Falso nexo ou ilogismo

Condições práticas
4. Repetibilidade 4. Falsa repetição; erro de memória
5. Registro 5. Erro de registro
6. Transmissibilidade 6. Erro de transmissão

Assim, por quê existe tanto erro? Existe porque o indivíduo quer, porque se não quisesse, simplesmente, aplicaria estes
critérios, e no caso de não poder tirar a dúvida quanto ao que vai dizer, simplesmente deveria dizer: “Não sei!”.
O fato é que, os homens de Ciência, se por um lado são norteados pelo ideal de Ciência pura, por outro lado são seres
humanos também, e têm uma série de outros interesses além do ideal de Ciência pura: vaidade, preconceito, atmosfera de
bajulação profissional, desejo intenso de provar determinada tese que ele ama, e assim por diante.
Quando uma pessoa, em criança, na adolescência, ela é criada dentro de uma fé religiosa, e perde essa fé, é muito raro o
indivíduo que mantém a questão religiosa em suspenso. Na maioria dos casos, ele dirigirá o seu esforço científico no sentido de
destruir a religião que ele abandonou, e em um por cento dos casos ele manterá a questão religiosa em suspenso. Max Weber é
um exemplo do último caso. Nem todo indivíduo que é religioso, é militante na sua religião, e tente destruí-la no seu conteúdo
científico. Entretanto, noventa e nove por cento dos ateus, são ateus militantes. O desejo de destruir os fundamentos da religião
que foi abandonada, torce completamente o esforço científico da pessoa. Se você abandonou uma religião, não tem mais fé, não
significa que você saiba que aquilo é falso. Não ter fé é uma coisa, mas você não pode ter fé no contrário. Há uma distância
imensa entre você não ter fé, não acreditar na Bíblia, e você acreditar na negação de cada uma daquelas frases. Se você não
acredita que Deus criou o mundo em sete dias, isso não significa que você acredita que Ele criou em oito dias. O fato de você ter
perdido a credibilidade numa determinada afirmação, não implica que você tenha uma outra para substituí-la. Você não pode
provar a descrença. Uma descrença não é uma tese científica. você simplesmente não acredita. Se a fé é um ao voluntário, você
acredita se quiser ou não. Se não existe a prova integral da fé, também não existe a prova integral do contrário.
O caso do judeu, por exemplo, é peculiar. Um sujeito que larga a fé, em geral, ataca a sua Igreja. O judeu que se torna
ateu, ataca a religião dos outros. Por um motivo muito simples: o judeu, como minoria, não pode perder o apoio da sua
comunidade. O Judaísmo não é só uma religião, mas também uma comunidade organizada economicamente. Se ele ataca o
Judaísmo, ele perde o apoio da comunidade judaica, e ele terá que contar com o apoio dos católicos, protestantes, etc.
Eu sou muito mais desconfiado dos ideólogos ateus do que dos ideólogos religiosos, porque você vê sempre o desejo do
sujeito provar alguma coisa que derrubaria completamente, no entender dele, os fundamentos daquela religião que ele
abandonou. Mas, se você abandonou aquilo, por quê não vai estudar outra coisa? Por quê você não deixa em suspenso esta
questão? Se você teve um ato voluntário de abandono, por quê você não deixa os outros fazerem um ato voluntário de adesão?
Max Weber foi um dos que manteve uma linha científica estritamente correta. Ele não tinha fé em coisa alguma, mas não enchia
o saco de ninguém.
Assim, não existe um sujeito mais devoto do que o ateu. Em geral, o abandono da religião vem sempre cheio de
ressentimentos. Um exemplo característico é o do fundador da Sociologia, ...(?). Ele é um ex-judeu, e como tal, ele tem que
puxar a coisa para um lado que seja fundamentalmente anti-religioso. Ele não é capaz de se colocar num outro plano.
Você poderia perguntar: Aristóteles tinha fé em quê? Ele também não tinha fé em nada. E nem por isso existe um intuito
religioso, nem anti-religioso. Ele adota o caminho filosófico. Se você adota o caminho da Ciência, isso não deixa de ser, de
algum modo, uma forma de religião, e ela deveria te bastar.
Voltando ao assunto aqui, a condição fundamental que cria a pseudo-ciência é quando uma evidência indireta é tomada
como fundamento de outras evidências. Por exemplo, o sujeito que pretendia fundamentar o princípio de identidade numa noção
de signo. O matemático Gotrieb Freg (?), pretendia fazer isso. Um signo é uma coisa que representa outra coisa, e que não é
essa coisa. Isto é para mostrar que o mundo da Ciência não é formado de pessoas puras, que estão lá investigando a verdade, etc.
Há um monte de pessoas que pode agir com os motivos mais indecorosos, e disfarçam bem, como qualquer outro domínio da
ação humana.
Isto se torna uma tendência mais dominante na medida onde a comunidade científica aumenta, onde existe mais
padronização da atividade científica, onde existe um exército maior de pessoas se dedicando a isso, uma fiscalização menor, e
onde existe a departamentalização ( cada um fica escondido da fiscalização pelos indivíduos da outra ciência ). Por exemplo, em
São Paulo, um aluno de Economia, me disse que na primeira aula da faculdade, lhe ensinaram que a Economia é uma ciência
natural. Como ele jamais vai sair da faculdade de Economia para olhar aquilo por um outro lado, como ele jamais vai entrar
numa faculdade de Biologia, se ele não compara a Biologia com a Economia, ele pode passar o resto da vida acreditando que ela
é uma ciência natural. Ele nunca viu uma ciência natural. Se te disserem que o elefante é um peixe, sem você jamais ter visto um
peixe, você acredita. Assim, a lei da oferta e da procura é uma lei natural, da natureza. Ou seja, a lei da oferta e da procura passa
a funcionar como se fosse uma espécie de equilíbrio ecológico, quando não é assim. Esta lei jamais vigorou em parte alguma do
mundo.
Essa idéia da Economia como ciência natural aparece quando a burguesia, em ascensão, procura obter uma liberalização
que, antes, não tinha. Então, ela diz que a sua atividade não precisa ser regrada por ninguém, porque a natureza era a regra. É
uma idéia meramente ideológica, pois se fosse realmente uma lei natural, tudo já estaria funcionando séculos antes. Mas, quem
reivindica essa liberalidade econômica? Só quem está interessado nessa atividade econômica, e não quer ser atrapalhado por um
Estado, ou por uma Igreja. Quem advoga em favor do mercado diz que ele, por si só, se ajeita. Claro! Deixa eu fazer o que eu
quiser que, automaticamente, tudo se ajeita! É a idéia do PC Farias: o dinheiro que ele me roubar, quando ele comprar alguma
coisa, voltará para o mercado, e depois de alguns milênios, voltará para o meu bolso...
Assim, para um estudante de dezoito anos de idade que ouve, no primeiro dia de aula, que a Economia é uma ciência
natural, como ele vai dizer que não é? Quando ele se interessar em saber se isto é verdade ou não, ele já estará com cinqüenta
anos e já não adianta mais.
Do mesmo modo, se você faz faculdade de Direito, Filosofia, etc., pode ter certeza que há um monte de idéias como
essa na sua cabeça. Isto porque, nunca, as pessoas das várias faculdades se reuniram para ver se o que ensinaram na sua,
sustenta, em parte, o que ensinaram na minha. Vocês veriam que sobraria muito pouco. Se todas elas são ciências, é porque
devem atender a determinados critérios comuns a qualquer ciência. Então, vamos examinar a Ciência à luz da teoria da Ciência.
E, o conceito fundamental da teoria da Ciência é a idéia mesma do conhecimento apodíctico. Portanto, o que não atender a isso,
ou é um conhecimento parcial, secundário, que depende de outros para ser fundamentado, ou então é falso. Assim, onde existir
uma evidência indireta, tomada como evidência direta, isso é imperdoável. Isto se chama vício redibitório. É o que não tem jeito
de ser consertado. é um contrato de má-fé, impossível de ser cumprido, e que tem que ser anulado.
Daí pode-se ver que o edifício da Ciência tem muito menos andares do que você imagina. O progresso da Ciência existe,
mas ele é muito menos do que a propaganda afirma. O que avança é a tecnologia. Uma só descoberta científica dá margem a
milhões de avanços tecnológicos. Por exemplo, quando Leibniz desenvolveu o sistema binário, não parou de ter conseqüências
até hoje. O computador, por exemplo, é um sistema binário; o resto é eletrônica. Não há tantas descobertas científicas. Há
aplicações dessas descobertas. O reflexo condicionado, por exemplo, é uma realidade. Mas, vejam tudo o que se tirou do reflexo
condicionado desde então. A descoberta genética é outro exemplo.
Assim, para cada descoberta científica, há milhares de hipóteses interessantes, e também milhares de erros. No entanto,
não podemos contar a proliferação de hipóteses como progresso. Também não podemos contar a proliferação de aplicações
tecnológicas como progresso científico.
Hoje em dia, cresce muito o know-how e não o know-what. Sabe-se muito como fazer, mas o que você sabe continua a
mesma coisa. Assim, esses conhecimentos do progresso da tecnologia são baseados em mudanças acidentais, periféricas, que
para o usuário da coisa vão fazer uma diferença brutal, mas que não mudam a essência do objeto. Por exemplo, um carro com
pneu careca, e outro com pneu novo, não faz uma diferença enorme? Mas, em quê difere cientificamente um carro do outro?
Nada, há apenas um diferença prática, mas, não teórica, de natureza ( por exemplo, um triângulo é diferente de um elefante ). A
diferença científica que interessa é justamente a diferença teórica. Na prática, às vezes, é até melhor você não saber a teoria da
coisa. Aliás, na prática, tudo é mais fácil que na teoria, porque na prática você conta com a acidentalidade, com a sorte. As coisas
podem se resolver sem que você tenha a menor idéia. Entretanto, se você quer a solução teórica perfeita, nesse caso, demora um
pouco mais. Se você não consegue resolver o seu problema em particular, como você quer resolvê-lo em geral? A importância
prática, e a importância teórica, são exatamente inversas. Um problema tem importância teórica para você quando ele não tem
importância prática urgente, porque senão não dá tempo de saber a teoria. Nesse sentido físico, filosofar é não-viver, e viver é
não-filosofar. Se eu estou padecendo do problema pessoalmente, eu sou o último que tem interesse em teorizar esse problema. E,
se eu vou teorizar, é porque aquele problema não é um problema meu, urgente. É um problema que eu sinto, por uma
identificação, ou às vezes por uma compaixão.
Preleção IX

14 de janeiro de 1993
Numa prova de História do vestibular da UNICAMP, oito questões são relativas ao Brasil e a acontecimentos atuais. O
resto fica distribuído à Grécia, Ásia, Inglaterra do século XII, e só. Das oito questões, há uma, que embora seja sobre a história
do Brasil, sobre Tiradentes, ela é feita de modo a evocar uma problema presente que é o plebiscito entre República e Monarquia.
A desculpa que o sujeito tem sobre isso é muito simples: a História não deve ser uma ciência fóssil, que vive do
passado, e como disse Benedito Croce, toda história, é a história do presente.
Acontece que se é assim, a história do presente não é mais presente do que a história do passado. Essa é a sutileza. Se o
indivíduo não é capaz de considerar perfeitamente atual o que acontecia na Grécia, no século IV, ele não tem o sentido histórico.
Se a proximidade da data, lhe dá ainda uma ilusão de centralidade, ou de importância maior, o sujeito não está entendendo
absolutamente nada do que é História.
Em segundo lugar, o fato do acontecimento presente parecer muito importante, não quer dizer que ele seja efetivamente
importante historicamente. Isto porque no conjunto todo das conexões, o fato que hoje parece algo transcendental, vai se anular
perfeitamente. Basta você estudar as coisas que aconteceram, por exemplo, a trinta anos atrás, e você perceberá que a perspectiva
do que o acontecimento deixou, às vezes, mostra que ela era bem menos importante do que ele parecia ser na época. Às vezes,
mostra que o importante não era nada daquilo que você estava imaginando naquele momento.
Discute-se hoje o parlamentarismo, e o pessoal se esquece que ele já existiu, e também foi tentado com todas essas
promessas de resolver os problemas do país, a crise entre o legislativo e o executivo, etc. A História mostra que aquilo ficou
totalmente sem efeito.
Do mesmo modo, a famosa política neo-liberal do Collor, que a dois anos atrás foi celebrada como se fosse a grande
virada histórica do Brasil, e hoje nós vemos que não deu em nada. Do mesmo modo que eu lhes asseguro, a retirada do Collor,
também será um nada. Historicamente, nada influirá.
Nessa mesma prova da UNICAMP, há uma pergunta relativa à política econômica do período da ditadura, mencionando
que ela era conduzida pelo ministro Delfim Neto, e formulada de forma tal que, o aluno terá que se posicionar contra, de alguma
maneira. Eu era, evidentemente, contra essa política econômica, na época; continuo sendo contra hoje, mas eu acho que você
obrigar o aluno a se posicionar contra um ato de um indivíduo que é político, em pleno exercício do seu mandato, é uma
interferência nos acontecimentos presentes. Pelo simples fato do sujeito estar vivo, significa que a história dele ainda não
acabou, e que o que você fala dele hoje, influenciará os acontecimentos. Mesmo nas épocas de maior luta ideológica, jamais
ocorreu a ninguém, usar o vestibular para “pichar” um sujeito em particular, vivo e atuante. Um país onde acontece isso, é um
país onde vale tudo. O pior é que num vestibular, o aluno não a mínima condição de discutir a pergunta. Ele está quase que
implorando para ser aprovado. Ele está totalmente indefeso quanto a isso. Ele tem que aceitar a jogada nos termos em que lhe
foram propostos, senão ele não passa no vestibular. Normalmente, qualquer propagandista, de qualquer ideologia, teria pudor de
fazer uma coisa dessas. No Brasil as pessoas não têm mais esse pudor. E são os mesmos que falam da Ética. Eu acho que a
própria preocupação com a Ética mostra um sintoma de uma mente culpada. O Brasil está carregando culpas que ele desconhece,
e que todos estão precisando de um tipo de expiação. E para expiação, tanto serve o Presidente do país, quanto o Guilherme de
Pádua.
Num congresso de Psicologia, foi apresentado um perfil psicológico, difamatório, do Collor. Isto é uma atitude
criminosa. Você não pode expor um perfil psicológico de um sujeito vivo, em público, sem a autorização dele. Não existe perfil
psicológico que possa qualificar moralmente um sujeito. Isso é contra todos os princípios de qualquer ciência. E não importa que
seja contra o Collor, o Guilherme de Pádua, etc., todos eles não valem nada mesmo, mas mesmo que fosse com o satanás, o
drácula, o Hitler, tanto faz, está errado. Estas pessoas podem se sujar porque já estão sujas. Entretanto, indivíduos que pretendem
passar por autoridades científicas, por guias da opinião pública, essas têm que ter um pouco mais de compostura, e se recusar a
fazer, e falar, certas coisas.
Esses indícios de perturbação da inteligência, me parecem muito graves, do que os acontecimentos de ordem física, por
exemplo, aproveitar o assassinato da Daniela Perez para retomar a tese sobre a pena de morte, num momento desses... Se há um
momento em que não se deve discutir a pena de morte é justamente agora , porque mesmo que a pena de morte fosse aprovada, o
Guilherme de Pádua não poderia ser enquadrado nela porque a lei seria posterior ao julgamento dele. Isto é oportunismo
estúpido.
Assim como no tempo do Collor, uma coisa esquisita que aconteceu, que foi o pessoal de esquerda fazer uma aliança
com o pessoal mais direitista do país, em torno da idéia do moralismo, hoje, está acontecendo algo parecido entre o pessoal do
teatro e o Amaral Netto: estão todos pregando a pena de morte.
Tudo isso são sintomas, os quais nós temos que observar, aprender a racionar fora do esquema. Para fazer isso, é
necessário que você adquira um mundo próprio, ou seja, você ter uma visão própria do que você não está enxergando, e as
imagens que lhe são projetadas pelos outros, não te influenciem. Se você não vê as coisas com os seus próprios olhos, aquilo que
está sendo oferecido não existe para você. Criar esse mundo próprio, para cada um, é o objetivo da educação. Educação vem do
latim ex-ducere, ou seja, levar para fora. Para fora do ovo, que simboliza toda a estrutura de valores, hábitos, proibições, leis, de
gostos , que você herda do seu ambiente familiar e que funciona como uma casca protetora até que você esteja apto a andar com
seus próprios pés. Uma das finalidades da educação é quebrar a casca do ovo para que você possa sair andando. Esse é um dos
sentidos que pode ser interpretado o duplo nascimento: o homem duas vezes nascido -- ...(?) Mukta.
No simbolismo hindu é associado a uma ave. a ave nasce duas vezes: primeiro quando bota o ovo, e segundo, quando
ela quebra a casca do ovo. Este segundo nascimento é feito através da própria educação, que funciona como uma espécie de
chocadeira, que vai aquecê-lo, para que você cresça e deseje quebrar a casca. Quem quebra a casca é a própria ave. Se a
educação não intervém no tempo devido, o ovo chocado apodrece.
O fenômeno atual, que se chama adolescência ...(?) é um sinal de um fracasso na educação, na medida em que ela se
torna apenas um meio de aquisição de ofícios, ela não serve para libertar o indivíduo do seu meio familiar, do seu meio de
origem, ao contrário, ele o prende ainda mais a ele. O indivíduo acredita ingenuamente que a simples aquisição de um ofício, ou
de um emprego, vai libertá-lo do meio familiar, quando evidentemente isso seria o efeito sem a causa. O que liberta você do
meio familiar é quando você consegue um mundo interior maior do que aquele do meio familiar. Mesmo que você continue
fisicamente ligado a ele, você estará livre.
Se, ao invés de você conquistar um mundo interior maior, você pretende apenas realizar um ofício, acreditando que ter o
seu próprio dinheiro, te libertará da família, você está louco. Você pode ganhar dinheiro, morar em outro lugar, que você estará
sempre circunscrito a aquele ambiente de valores. O pinto quebra a casca do ovo no momento em que ele está forte para quebrá-
la. Esta força é o próprio conteúdo da alma, o conteúdo da psique individual que exige um território maior, e não apenas outro.
Se o mundo das preocupações, dos objetivos familiares, ainda lhe é suficiente, você continua querendo as mesmas coisas; você
quer uma casa e seu pai também queria, ou seja, você simplesmente está repetindo. É como se fosse uma extensão do mesmo
mundo. Você não está vivendo uma vida própria, não está suficientemente individualizado.
Evidentemente, seria utópico que eu, sozinho, aqui neste curso, tentasse acreditar conseguir, por mim mesmo, suprir
toda a falta de educação, e chocar todos em dois anos, para que vocês saiam voando. Este curso constitui um sinal do que
poderia ser uma educação, e só não é por causa das dificuldades de tempo ( escasso ). A educação é uma influência maciça, que
age sobre você diariamente, várias horas por dia, e que se sobrepõe à influência da família, e que é mais forte do que a influência
da família no plano do passado.
Você tem um futuro que te puxa diariamente, e é evidente que em quatro aulas por mês eu não posso fazer isso. Isto
aqui é mais um cardápio do que o alimento. É mais um indício do que poderia ser uma verdadeira educação, do que a realização
dessa educação. Nunca esqueçam disso.
O fato disso não ser possível não deixa de ser vantajoso, sob certos aspectos, porque é possível que o indivíduo se
liberte do meio familiar tornando-se subserviente ao meio escolar. Este subterfúgio, para nós, está excluído. Aqui, o indivíduo
vai sozinho, ou não vai a parte alguma. O fato de que as pessoas, freqüentemente, necessitem de apoio uns dos outros, e recebam
este apoio, em parte é bom, porque às vezes você não agüenta a pressão da vida, mas por outro lado, isso não pode virar um
vício. Está na hora de por na cabeça que você está sozinho, e que nós nem podemos chocá-lo completamente.

§ 6. Possibilidade e justificação de uma lógica como teoria da ciência.

A ciência refere-se ao saber. Não que ele seja uma soma ou tecido de atos de saber. Só em forma de obras escritas
tem ela uma existência própria, ainda que cheia de relações com o homem e suas atividades intelectuais. Ela representa
uma série de dispositivos externos, nascidos de atos de saber e que podem converter-se de novo em atos semelhantes, de
inumeráveis indivíduos.

A Ciência parte de um ato de saber, se torna um registro, o qual tem que conter a possibilidade de uma repetição futura,
senão ele deixa de ser um saber, e passa a ser um enigma.

A nós basta-nos que a ciência implique ou deva implicar certas condições prévias para a produção de atos de
saber, cuja realização pelo homem “normal” possa considerar-se como um fim acessível.

Em princípio, a Ciência deveria ser um conjunto de dispositivos de registros, acessível a um homem normal, de modo
que, ao ter acesso a estes registros, ele pudesse repetir os atos intuitivos pertinentes.

Neste sentido a ciência aponta ao saber.

Esta é a relação entre a Ciência e o saber: o saber só se dá no momento do ato de saber, mas o que nós chamamos de
Ciência é também um fenômeno social, uma instituição social. É a coleção de registros, e dos atos que visam a manutenção, o
aumento, e a decifração destes registros. E a relação deste conjunto denominado Ciência, com o saber, é uma relação como o da
potência ao ato, ou seja, a Ciência se justifica na medida onde ela representa a potência para um ato de saber. Se não existir a
possibilidade da atualização, não é mais Ciência.
Husserl não perguntou isso, mas eu pergunto: será que pelo próprio tamanho do registro ele já não deixou de ter alguma
relação possível com o saber? O simples fato de ser grande não quer dizer nada, porque é grande em relação à capacidade desse
ou aquele, mas sempre poderia surgir, um dia, um indivíduo capaz de abarcar tudo aquilo. Não é que ela seja praticamente
impossível de se transformar em saber. Ela é teoricamente impossível. Há um impedimento teórico, absoluto, de que esse
conjunto de registros venha a se tornar um ato de saber, mesmo supondo-se uma mente sobre-humana capaz de abarcar o
conjunto de informações, ela não tiraria daí conclusão alguma. Se fosse só pelo volume, ele mostraria uma impossibilidade
prática. Se nós imaginássemos uma espécie de super-homem intelectual, ele seria capaz de abarcar tudo isso, porém, se o registro
é caótico, existe uma impossibilidade de você transformar aquilo em um ato de saber. Faça a seguinte hipótese: pegue todos os
livros da Biblioteca Nacional; existe um impedimento prático de você ler todos eles. Porém, se nós pegarmos todas as páginas,
cortá-las, e misturarmos as letras, o impedimento não será prático, será teórico, porque o resultado será impossível de se ler.
No momento, onde a acumulação de atos de saber adquire, ela mesma, uma característica caótica, no sentido em que
uma parte desmente a outra, em que não há linguagem comum, não há conexão, em que um saber é incomunicável de uma
ciência para a outra, não é possível encontrar relação alguma entre determinadas pesquisas e outras pesquisas. E isso não
acontece só entre as ciências, mas dentro de uma mesma ciência. Assim, em que medida isso tem alguma relação com o saber?
Talvez esta pergunta, no tempo de Husserl, fosse ainda prematura, mas hoje em dia já não é mais.
Na minha opinião, qualquer trabalho científico, para que ele pudesse ser incluído no anuário de uma universidade, ele
precisaria passar por uma peneira muito mais profunda. Não apenas pelos especialistas da área, mas pelos especialistas das áreas
contíguas. Pode ser que um indivíduo, pesquisando algo à luz da Economia, chegue a uma conclusão que, do ponto-de-vista da
Sociologia, ou da Psicologia, essa conclusão seria um absurdo, e que já está desmentida de antemão. Se as coisas fossem para ser
feitas de maneira séria, era para ser assim. O problema estaria resolvido.
De fato, não é possível que a Ciência progrida pelos simples fato de ter mais gente se dedicando a ela. O número de
cientistas que se coloca em atividade numa determinada ciência é relevante até certo ponto. Entretanto, a partir dali a situação se
inverte. Você precisa ter um número mínimo, sem o qual não dá para funcionar o intercâmbio científico. À medida que vai
crescendo a comunidade científica, cresce o intercâmbio de idéias, e a coisa frutifica, como foi no Renascimento, com a criação
das grandes academias científicas, universidades, etc. Porém, quando o crescimento quantitativo da camada científica ultrapassa
um certo limite, ele já não representa mais um progresso, mas sim um problema.
O acesso às profissões científicas deveria ser barrado, e só deveria ser aberto a pessoas que tenham condições
excepcionais. Haveria necessidade de uma elitização, porque a maior parte das pessoas que estão indo para a profissão científica,
não têm vocação científica. Elas querem é um emprego. O homem de Ciência tem que ter uma série de qualidades,
principalmente morais, sem as quais ele não pode exercer a profissão. Um exemplo recente é o sujeito que descobriu a AIDS, e
suspeita-se que um roubou a pesquisa do outro -- isso é um escândalo! Quando Darwin lançou a origem das espécies, teve um
outro sujeito, na Austrália, que tinha lançado a mesma idéia, e Darwin reconheceu! Vejam a diferença de um verdadeiro homem
de Ciência.
Em algumas ciências, um indivíduo sozinho pode fazê-las progredir, como por exemplo na Matemática pura, ou na
Física teórica. No entanto, em outras, você precisa de mais gente, só que até um certo ponto. O crescimento quantitativo é bom
enquanto ele favorece o intercâmbio, mas a partir do momento em que ele começa a criar um impedimento...
E não é só o problema do volume, mas da qualidade, e do nível das informações também. Essas informações serão
colocadas em planos onde a comparação seja possível. A informação pode ser heterogênea, uma não ter nada a ver com a outra,
e você não tem como comparar, não tem como tirar uma síntese. Aí, começa a atrapalhar.
Isto também repercute no problema da terminologia. Quando as pessoas não se entendem no sentido das palavras que
usam, não é apenas porque eles não combinaram quanto ao sentido das palavras, mas porque eles estão olhando para coisas
diferentes. Toda confusão de palavras tem uma outra confusão pior por trás. A confusão de palavras é, no fundo, uma confusão
de coisas. No Brasil, por exemplo, as pessoas não respeitam a linguagem. Se você combinar significados, convencionais e
uniformes, para algumas palavras, pode ser que um monte de coisas que estavam designadas equivocadamente pelas mesmas
palavras, fiquem sem palavras que as designem. E como o acordo versa somente sobre as palavras, os objetos serão retirados do
consenso. Quando existe uma confusão terminológica muito grande, você pode ter certeza que o objeto daquela ciência é muito
equívoco, e ficam todos olhando para vários lados da mesma questão.
O nível intelectual da pesquisa científica está caindo vertiginosamente. A pesquisa médica, por exemplo, está tão
padronizada que o sujeito, usando aqueles procedimentos uniformes, acredita que ele está observando alguma coisa. Acontece
que ele não está, porque dos fatos envolvidos, ele está apenas selecionando certos aspectos que correspondem ao modelo
padronizado da pesquisa, e desde que haja uma aparência de uniformidade da hipótese, dos materiais, dos métodos, etc., e do
resultado, ele acredita que aquilo está certo. Mais ainda, hoje em dia, se chama de pesquisa médica o seguinte: eu dei um
remédio para quinze pessoas e elas ficaram boas, logo... Não há nisso um trabalho de inteligência. É a simples repetição de uma
rotina.
É claro que o mundo científico, em geral, está tão bem organizado até um certo ponto, que a pesquisa rotineira acabava
funcionando, mas quando você, pela pesquisa rotineira, acaba ocupando novas áreas, aí você começa a fazer erros um atrás do
outro. A grande parte dos fracassos da profissão médica, que o pessoal do movimento alternativo atribui ao fato da Medicina
científica racionalizar as coisas, vem justamente pelo fato de que ela não é científica absolutamente, e ela é completamente
racional. Se fosse científica mesmo, funcionaria. Não existe mais diferença entre a pesquisa científica e a observação empírica
mais rudimentar. Uma hipótese científica tem que ser fundamentada logicamente mesmo. Os sujeitos fazem uma hipótese
qualquer, puramente empírica, por exemplo, eu faço a hipótese de que martelada na cabeça cura bicho-de-pé. Por quê? Ah!,
porque sim! Eu não vou discutir teoria, eu não tenho tempo, porque eu sou um homem de Ciência! Eu dou martelada na cabeça
de quinze pessoas; oito curaram, logo, está provado cientificamente. Aí você faz o cálculo estatístico da probabilidade daquilo
acontecer. Só que a estatística não significa nada, nesse caso, porque nem a hipótese significa nada. A precisão estatística que se
usa entra no fim. A estatística serve para você avaliar a significância de um resultado em face de uma média já conhecida
anteriormente. Porém, isso não vai introduzir diferença nenhuma entre um enfoque científico e uma simples observação
empírica. A diferença de empírico para o científico, é o fundamento da hipótese. Ou seja, por quê investigar essa hipótese e não
outra? Eu trabalhei para uma revista médica por quatro anos, e nunca vi um sujeito que tivesse consciência disso.
Há um livro chamado “Métodos da Pesquisa Científica”; os sujeitos confundem método da pesquisa científica com a
técnica da pesquisa. Hoje em dia já estão confundindo a técnica da redação com a pesquisa científica. Como se pode dizer que
isso seja um progresso? É por isso que o pessoal da medicina alternativa diz que a pesquisa científica atual é um embuste, mas
não por ela ser científica.
Isto tudo é para vocês verem como a relação entre Ciência e saber, no sentido em que Husserl está falando, não é uma
relação aberta e, sim, uma relação indireta e problemática. Eu penso que as coisas que são causadas pela desonestidade não são
tão graves. Se o sujeito é um corrupto, que recebe dinheiro de um laboratório para inventar um monte de mentiras para promover
os seus produtos, isso não é tão grave. O grave é quando os vícios mentais criados por essas pessoas são adotados
uniformemente por todas as pessoas honestas, que não estão ganhando nada com isso, e com a maior das boas intenções, acabam
achando que o certo é isso. Há uma grande diferença entre você vender 900 gramas de açúcar como se fosse 1 quilo, e você
alterar a balança, de 1 quilo para 900 gramas. Aí, não será só um saco que você vai vender por 900 gramas, serão todos. O errado
vira norma e não tem mais jeito de consertar. Eu nunca acho que a corrupção, em si mesma, seja uma coisa grave. O grave é
quando todas as distorções criadas pela corrupção acabam virando um modelo, uma norma.
Eu não acho grave quando se diz que a classe política é corrupta. Eu acho grave é quando o povo inteiro é corrupto.
Leiam “A História dos Doze Césares”, e vocês verão que o próprio PC Farias é uma pessoa da mais elevada dignidade, porque
houve um progresso moral da classe dirigente. Não há um político do século XX, nem mesmo Hitler, que chegasse aos pés dos
césares. Júlio César se prostituiu carnalmente a um sujeito para obter a sua primeira nomeação -- começou assim a carreira dele.
E daí para cima: emprestar a mulher para outro, entregar as filhas, as irmãs, tudo isso era normal naquela época. O próprio Hitler
jamais mexeu com a mulher do próximo. Quando disseram para ele que havia um sujeito da assessoria dele que transava com
criancinhas, ele ficou indignado. Ou seja, por mais louco que ele fosse, ele já havia adquirido um padrão que estava muito acima
dos doze césares.
Só que o problema não é esse mas, sim, quando o povo começa a raciocinar de maneira totalmente errada. E, sobretudo,
os intelectuais não entravam nesse esquema. Havia sempre uma liderança intelectual capaz de dizer não, às vezes em prejuízo
próprio, como é o caso de Cícero: sem armas, poder, ele ofereceu uma oposição férrea, e acabou morrendo por isso mesmo.
Sempre houve quem fosse capaz de dizer não a este mundo corrupto. Hoje em dia, isso está se tornando uma raridade. Está se
criando toda uma falsa camada intelectual de modo a que você não tenha mais diferença qualitativa entre o que fala um Cícero e
o que fala um legitimador de discursos contratado.
A educação nas escolas, por um lado, ao invés delas tentarem fornecer uma medida de valor mais universal, mais
intemporal, ao contrário, elas entram na atualidade e assumem inteiramente o padrão de valores da atualidade, o qual é
promovido pela própria indústria editorial, e pelos meios de comunicação. Então, nesse caso, não tem mais jeito.
Tudo o que dissemos até aqui é para ver a relação entre o que o Husserl chama de saber e Ciência, onde ele usa a
Ciência no sentido não só dos atos de saber, mas no sentido do conjunto dos atos, registros, etc., ou seja, no sentido do saber
atual, efetivo, e potencial. Assim, nesse sentido, a Ciência tem com o saber uma relação problemática, ambígua. Porém, daí para
diante o que ele irá falar, se referirá à Ciência, no sentido de ...(?)
[ fim da fita ]

Pois bem, no saber possuímos a verdade. No saber efetivo, possuímo-lo como objeto de um juízo justo.

O saber é o saber da verdade; é o saber cujo conteúdo é verdadeiro. O ato do saber se manifesta internamente e
externamente, conforme um juízo justo. Um juízo justo é um juízo que afirma que aquilo que é, é, ou, aquilo que não é, não é. A
forma do saber é uma sentença, a qual pode até mesmo ser implícita. No momento em que você vê esta parede, e constata que
ela é branca, existe aí um juízo implícito. Você não formula este juízo, “a parede é branca”; mas no fato de você ver a brancura
da parede, e reconhecê-la, o conteúdo deste saber se expressa num juízo, “a parede é branca”, o qual é justo.
A tudo o que você sabe, corresponde um juízo, uma sentença, e se você não o expressa em juízo, pelo menos, o juízo
está implícito. Não existe nenhuma forma de saber que não seja um juízo. Isto acontece porque, psicologicamente falando, o
fluxo da nossa atividade cognoscitiva, às vezes, é tão rápido que nós não expressamos claramente os juízos que contêm as nossas
convicções e observações. Mas os juízos estão lá, implícitos.

Mas isto só não basta. É necessário, ademais, a evidência, a luminosa certeza de que aquilo que reconhecemos é, ou
de que aquilo que rechaçamos não é;

O quê é a Ciência? A Ciência é um saber que contém uma espécie de uma verdade sob a forma de um juízo justo, mas
não basta só isso. É necessário que você tenha a evidência da justeza do juízo.
Pode acontecer que você, ao fazer um juízo que seja verdadeiro, mas cuja evidência você não possui, por exemplo,
quando você fala um frase que coincide de ser verdadeira, mas que você não tem a evidência, ou a prova daquilo. Ou seja, a
Ciência se caracteriza, não só por ser um saber verdadeiro, que se expressa num juízo justo, mas por ser um saber que possui o
fundamento dessa justeza num evidência. Uma frase que é verdadeira, mas da qual você não possua a evidência, se é verdadeira
por acaso, ou por sorte, não é Ciência de maneira alguma.

certeza que é preciso distinguir da convicção cega, da opinião vaga, por resoluta que seja.

E por válida que seja. Se temos uma opinião que é verdadeira, mas cuja prova, cuja evidência, não possuímos, isto está
fora do âmbito da Ciência.

A linguagem corrente, porém, não se atém a esse conceito rigoroso do saber. Chamamos também ato de saber, por
exemplo, o juízo que vem enlaçado com a clara recordação de haver pronunciado anteriormente um juízo de idêntico
conteúdo, acompanhado de evidência ( “Sei que o teorema de Pitágoras é verdadeiro, mas esqueci a demonstração” ).

Normalmente, não precisamos ter a evidência atual. Se houve já, anteriormente, um juízo de idêntico conteúdo,
acompanhado de evidência, e eu o repito, isto também é um saber que pode ser aceito como científico.

Deste modo tomamos o conceito de saber num sentido mais amplo.


A nota mais perfeita da justeza é a evidência, que é para nós como que uma consciência imediata da verdade
mesma. Mas na imensa maioria dos casos carecemos deste conhecimento absoluto, e em seu lugar serve-nos a evidência
da probabilidade. A evidência da probabilidade de uma situação A não funda a evidência de sua verdade ( mas funda a
evidência da verdade da probabilidade ); mas funda aquelas valorações comparativas e evidentes, pelas quais logramos
distinguir as hipóteses e opiniões razoáveis das irrazoáveis. Todo autêntico conhecimento repousa, pois, em última
instância, na evidência.

Mesmo no caso do raciocínio de probabilidades, eles também são fundados numa evidência, que é a evidência da
própria probabilidade.

Não obstante, subsiste uma duplicidade no conceito de saber. Saber, no mais estrito sentido da palavra, é
evidência de que certa situação objetiva existe ou não existe. De acordo com isto, a evidência de que certa situação
objetiva é provável é um saber no sentido mais estrito ( rigoroso ) no tocante à probabilidade; mas, no tocante à
existência da situação objetiva mesma, é um saber em sentido mais amplo ( vago ). Neste último caso fala-se de um saber
ora maior, ora menor, e se considera o saber em sentido estrito como o limite ideal e absolutamente fixo a que em sua
série ascendente se aproximam assintoticamente as probabilidades.
Mas o conceito de ciência exige mais do que mero saber. É necessário algo mais: conexão sistemática em sentido
teorético; e isto implica a fundamentação do saber e o enlace e ordem pertinentes na sucessão das fundamentações.

Esquema mostrando como Husserl fundamenta as ciências

1. Saber
2. Verdade
3. Expressa num juízo justo
4. Com evidência ( dos fundamentos da justeza )
5. Pode ser:
5.1 amplo
5.2 estrito
6. Conexão entre os saberes ( juízos )
7. Enlace e ordem na sucessão dos fundamentos
8. Unidade sistemática:
8.1 dos conhecimentos
8.2 dos fundamentos que sustentam os conhecimentos

A Ciência não é conhecimento organizado. É a organização do próprio conhecimento. Tudo isso é um variação em torno
de evidência direta e evidência indireta. Apenas detalhamos a idéia.
A essência da ciência implica, pois, a unidade do nexo das fundamentações, em que alcançam unidade sistemática
não só os distintos conhecimentos, mas também as fundamentações mesmas e, com estas, os complexos superiores de
fundamentações, a que chamamos teorias.

Nós podemos ter um tipo de conhecimento que organize sistematicamente os conhecimentos, mas que não estejam
fundados numa unidade sistêmica de fundamentação. Por exemplo, o caso da Daniela Perez. Digamos que eu seja o delegado. Eu
tenho a fotografia do local, o relatório das testemunhas, os testes feitos pela Polícia Técnica, o relatório dos policiais que
investigaram o crime, e a reconstituição. Os fundamentos da veracidade de cada um desses elementos são diferentes. Formam
eles, por acaso, uma unidade sistêmica ou não? Se a testemunha diz que viu o fulano lá no local do crime, daí eu faço um teste de
visibilidade no local. O fundamento da veracidade do testemunho não é o mesmo fundamento da veracidade do resultado do
teste, o qual se baseia em toda uma concepção teórica sobre a relação entre a luz e a visibilidade, e este fundamento teórico é
uma ciência inteira. Se você retirasse a ciência da Ótica, acabou o teste. No entanto, eu não preciso da ciência da Ótica para
julgar o depoimento da testemunha. Eu preciso de um outro fundamento. Se eu digo que posso julgar pela cara da testemunha,
pelo tom de voz, etc., podemos ver que esses fundamentos estão desnivelados, e eles não formam conexão sistêmica. Mas, por
quê eles não formam, e não poderiam formar uma conexão sistêmica? Porque uma investigação policial não é uma ciência, é
uma técnica. Uma técnica junta conhecimentos heterogêneos, que estão conectados entre si. Ou seja, as razões que você tem para
crer numa parte da investigação são diferentes das razões que você tem para crer numa outra parte. Por isso mesmo é que a
investigação policial não pode ser uma ciência.
Do mesmo modo, a clínica médica não é uma ciência, é uma técnica. Por exemplo, um médico, na clínica, ele pode
levar em conta o tom de voz do paciente e, ao mesmo tempo, ele também leva em conta um exame de laboratório. Você tem aí
um dado subjetivo e um dado objetivo, e que você não pode dispensar nem um nem outro, portanto, aquilo não é redutível a uma
ciência.
A Administração de Empresas também não pode ser uma ciência, ela é uma técnica, porque ela implica conhecimentos
cuja credibilidade é determinada por fatores completamente diferentes e desnivelados. Se pudéssemos reduzir todos esses
elementos a um único sistema de fundamentações, fundado num princípio, ou num grupo de princípios coerentes entre si,
teríamos uma ciência completa.
Em Biologia, todas as razões que você tem para acreditar que as coisas se passam de tal ou qual modo, estão referidas a
uma única teoria, que fundamenta um único método. A técnica é uma unidade sistemática dos conhecimentos, sem a unidade
sistemática dos fundamentos. Tudo o que é unificado, reunido, o é para alguma coisa, e por alguma coisa. Por isso estamos todos
reunidos aqui, agora. Os conhecimentos estão reunidos na técnica e existe uma finalidade. Numa ciência, os conhecimentos estão
reunidos em função da unidade de um objeto em si mesmo. É uma unidade cerrada em si mesma, como diz Husserl. Na técnica,
qualquer conhecimento, referente ao que quer que seja, mas que seja útil para o fim que você tem em vista, pode entrar na
técnica. Mesmo que eles sejam de fundamentos completamente diferentes, e que não tenham fundamento algum.
Em Matemática, o critério experimental vale? O método indutivo vale em Matemática? Claro que não! A base da
Matemática é dedutiva. A demonstração de que o método funciona é diferente da aplicação do método. É a diferença do que
seria o estudo matemático da indução, e o estudo indutivo da Matemática. Em Matemática pura, é evidente que a indução não
serve de prova, embora, no aprendizado da Matemática, você use a indução. Numa técnica você pode usar elementos indutivos,
dedutivos, o que quiser, contanto que sirva para o mesmo fim. A técnica unifica os seus conhecimentos por fora, para além da
natureza do objeto, e tendo em vista um fim humano. A técnica coere o conhecimento, só não coere o fundamento. É como se
você implantasse naquele objeto uma finalidade, que não está nele e que ele, por si mesmo, não poderia determinar.
Vejam, por exemplo, a História como ciência. Ela é muito recente. A História começa a ser ciência no momento que ela
começa a ordenar, não os acontecimentos que ela narra, mas, sim, quando ela começa a ordenar as razões da credibilidade. Por
exemplo, você tem um documento escrito, e tem um monumento. Como você interpreta o documento e o monumento, e qual o
nível de credibilidade que você deve dar a cada um? A História se torna ciência no momento que ela tenta fundamentar as suas
afirmações, uma por uma, e também criar um nexo entre as fundamentações. Assim, qual é o valor relativo de um documento
escrito ou de um monumento, ou de uma moeda, ou de uma vestimenta? Para a ciência histórica, tudo isso é documento e, em
princípio, existe um conjunto de fundamentos que se desdobram, em leque, para a avaliação de todos esses tipos de documentos,
e é o nexo unificado entre esses fundamentos que dá o caráter científico da História. E, não, a simples organização dos fatos.
Essa organização poderia ser acidental, poderia ser externa, técnica, qualquer coisa.
A Ciência não é conhecimento organizado, mas é a organização do próprio conhecimento, e do fundamento desses
conhecimentos. Este texto do Husserl é o primeiro onde vocês podem ver uma explicação do que é Ciência, de uma maneira tão
simples, tão evidente, tão brilhante, e que expresse uma coisa que todos têm na cabeça, e que na prática o homem de ciência
pratica tudo isso, mas que não tinha sido dito antes. vocês podem pegar este texto e aplicá-lo nesse ou naquele caso, e verão que
funciona sempre. Por exemplo, identifique casos onde há o erro da evidência indireta passar como princípio. Ao aprenderem isso
tudo que está no texto, colocarem isso tudo na cabeça, eu acho que vocês cravarão um pilar nas suas personalidades intelectuais.
Existem outros pilares, e este é um deles. É por isso que eu acho uma bobagem alguém não crer no poder do conhecimento
humano.
Preleção X

15 de janeiro de 1993
A essência da ciência implica, pois, a unidade do nexo das fundamentações, em que alcançam unidade sistemática
não só os distintos conhecimentos, mas também as fundamentações mesmas e, com estas, os complexos superiores de
fundamentações, a que chamamos teorias.

Isso seria as fundamentações de fundamentações. O exemplo da investigação policial, dado anteriormente, é


particularmente frutífero, porque você pode, nele, ir remontando desde uma multiplicidade até uma unidade possível.
O delegado dispõe de testemunhas e depoimentos para investigar o crime. Por outro lado, ele dispõe de documentos
escritos, cartas, papéis que estivessem de posse da vítima, etc. Ele tem também exames feitos no local, a perícia, e tem alguns
testes que, não se referindo diretamente ao que aconteceu, podem servir para a sua avaliação como, por exemplo, o teste de
visibilidade.
Qual é o fundamento da credibilidade de cada um desses elementos? Nós vemos que estes fundamentos são
desnivelados, ou seja, um tem mais credibilidade que o outro, mas os motivos da credibilidade são totalmente divergentes. Você
não acredita numa perícia pelas mesmas razões que você acredita num depoimento. Se vocês tentarem definir essas razões de
credibilidade, e buscarem o fundamento da veracidade de cada uma dessas coisas, vocês encontrarão várias ciências envolvidas.
Muito mais do que vocês imaginam. E vocês encontrarão os motivos pelos quais eu acho que todos os delegados de polícia
deveriam ser demitidos, porque eles deveriam dominar, pelo menos, umas cinqüenta ciências.
Assim, em quê se fundamenta a crença num depoimento de testemunha? Por exemplo, a coerência com os fatos, pode
ser avaliada psicologicamente? Não. como você poderia pegar a coerência interna se você não tivesse uma correta interpretação
do que o sujeito está dizendo, levando-se em conta todas nuanças da linguagem pessoal dele, a linguagem do grupo social, etc.?
Isso se desdobraria, basicamente, no aspecto sociológico, e no aspecto psicológico, que seria a coerência externa: coerência com
os outros depoimentos, testemunhos, com os fatos observados diretamente, com os resultados de testes e perícias, etc. Assim,
que condição tem um delegado de entender um assunto dessa complexidade? Se levarmos em conta que, depois do inquérito
policial, ainda há a interferência do juiz, o qual ainda tem que compreender a mentalidade do delegado, os hábitos da Polícia, a
estrutura do inquérito policial, e a coisa se complica mais ainda.
Vamos supor que o delegado tenha todas as condições de entender a complexidade do seu ofício, e que ele quer fazer o
melhor possível. As coisas que são derivadas da ignorância individual, da inépcia, e da corrupção, são acidentais e não podem
ser levadas em conta na nossa análise. Nós temos que partir da melhor hipótese possível, porque se você for partir, não sob o
aspecto ideal, mas do aspecto real, então, o quê um delegado precisa saber para conduzir o inquérito? Nesse caso, ele não
precisaria saber coisa alguma, nem precisaria ler o inquérito, porque não haveria problema algum, estaria tudo resolvido. Mas
estamos partindo da melhor hipótese possível.
Quando confrontamos os testemunhos com os fatos, tudo isso tem a ver com tecnologia da História. Porém, qual é o
princípio de confiabilidade do teste de visibilidade? Ele não tem um fundamento único. Ele é uma relação de conhecimentos de
Ótica e de Fisiologia. E, estes, por sua vez, se fundamentam num método científico, estabelecido por Claude Bernard (?). Se
você acredita nesse método científico, então adeus teste de visibilidade. Suponha que o teste desse como resultado o fato de ser
quase impossível que alguém consiga enxergar naquelas condições, e a testemunha insistisse em dizer que viu -- como se sai
dessa? A Fisiologia responde esta questão? A Ótica responde? A Psicologia responde? Como fica a situação? Entrega-se a Deus?
Eu acho que no fundo é isso mesmo. Eu acho que o sistema judiciário faz justiça por sorteio. Não é possível que eles
errem na totalidade dos casos. No infinito, acaba tudo em 50% e 50%. Ou seja, entre os inocentes que eles condenam, e os
culpados que eles absolvem, há também os inocentes que são absolvidos, e os culpados que são condenados. Isto porque quando
o inquérito chega a um ponto desses, ele entra numa regra retórica. A retórica é a psicologia do discurso, e essa regra diz o
seguinte: Não é verossímil que o inverossímil nunca aconteça ( Aristóteles ). Ou seja, o inverossímil acontece, de vez em
quando, e pode ser que você esteja dentro de um desses casos.
Porém, isto aqui não explica, apenas abre uma possibilidade. Daí, você teria que partir para novas verificações. Como
fazer isso? Você teria que testar novamente os testemunhos, por outros meios, não teóricos, porque o teste avalia apenas a
possibilidade teórica, logo, geral. E não aquele testemunho em particular. Portanto, se você não consegue resolver o caso geral,
você tem que averiguar mais particularmente aquele caso para ver se, por inverossímil que fosse ele, ainda assim, poderia ter
acontecido. Você teria que repetir tudo isso a esse detalhe em particular. Por exemplo, você teria que avaliar talvez, a
possibilidade de uma coincidência, de alguém, por acaso, ter iluminado a área, etc. Você teria que avaliar, sair do terreno da
regra, das leis que definem a visibilidade em geral, e você teria que entrar no terreno da acidentalidade. É claro que os
conhecimentos de Fisiologia, Ótica, História, Lingüística, e da Retórica, eles não poderiam ser coeridos num fundamento único.
Seria uma multiplicidade de fundamentos. Assim, cada uma das partes teria que ser julgada com critérios diferentes. E a única
chance que esse negócio tem de dar certo, é de que o indivíduo que procede à aplicação da técnica, possua, ele mesmo, cada um
dessas conhecimentos. Essa é a única garantia.
Quando você tem uma ciência organizada, às vezes, você não precisa conhecer o conjunto. Você tem o fundamento
central, e aquilo abrevia o trabalho. Mas, se se trata de conhecimentos heterogêneos, portanto, que têm fundamentações
diferentes, eles só se unificam no indivíduo que detêm a totalidade daqueles conhecimentos.
Assim, o delegado teria que possuir nele, sintetizado, como síntese prática, e não, teórica, todo esse conjunto de
conhecimentos e seus respectivos fundamentos. Entretanto, nós estamos aqui fazendo uma teoria da investigação policial? Sim,
estamos investigando teoricamente o quid est -- o quê é? -- e é por isso que isso se chama um complexo superior de
fundamentações. Quando você pega um bolo de conhecimentos e suas respectivas fundamentações, e procura unificar tudo
aquilo numa fundamentação geral, você está fazendo uma teoria, seja de uma ciência, ou de uma técnica. Só que eu acho que as
pessoas envolvidas na questão, jamais pensaram numa teoria da investigação policial porque, se pensassem, teriam desistido da
profissão. Ou teriam decidido continuar nela, para exercê-la de maneira inepta.
Na prática, às vezes, eles acertam, porque não é verossímil que eles errem sempre. Mesmo que o sistema judiciário seja
totalmente corrupto, é impossível que ele cometa injustiça na totalidade dos casos. O juiz pode ser corrompido pela parte
inocente: o sujeito está inocente, e vê que não tem chance de provar a sua inocência, daí ele compra o juiz, que então o absolve,
só que pelos motivos errados. Também, se você não tem provas suficientes para incriminar o culpado, você poderia comprar o
juiz, para que ele o condene. É possível que tudo isso aconteça.
Nas faculdades de Direito, hábitos de retórica são tão arraigados nos estudantes que, depois de formados, é difícil que
um advogado pense de forma diferente. Não adianta você dar esses conhecimentos para o delegado, se ele não tem o arcabouço
teórico que mostre a ele a necessidade absoluta desses fundamentos. Um delegado é uma autoridade terminal, não há ninguém
por trás dele para investigar o que ele está fazendo. Mesmo quando vai para a justiça, o juiz não vai levar integralmente a sério o
inquérito, mas vai se basear nele. Ele já vai receber a coisa toda já dirigida num certo sentido, mesmo que ele tenha que revogar
tudo aquilo. A linha de investigação de um juiz já está pré-determinada. Pior ainda, é que pela lei brasileira, o juiz não pode
mandar investigar nada, a não ser dentro daquilo que as partes em conflito tenham colocado. O juiz não pode levantar um
terceiro ponto-de-vista, mesmo que ele saiba que exista. Quem propõe, quem tem a iniciativa na investigação é, de fato, o
delegado. Só que o resultado do inquérito não tem validade, nem para absolver, nem para condenar alguém. No Brasil, indiciado
e inquérito, já querem dizer a mesma coisa que condenado. Isto graças a uma nuança criada pela nossa imprensa. Se o sujeito for
processado, então nem se fala!
Ora, o sujeito ter mil processos, e estar absolvidos em todos, significa que ele está legalmente inocente. O que importa é
o pronunciamento oficial, porque o que não é oficial tem validade subjetiva para quem diz. Assim, a sociedade como um todo, só
pode admitir aquilo que a própria sociedade verificou através do órgãos constituídos exatamente para isso. Se a absolvição de
nada vale, de que vale a condenação? Essa mentalidade está profundamente arraigada no Brasil, e precisa ser reiterada das
cabeças. Por quê a condenação representa a culpa, e a absolvição não representa a inocência? Porque a idéia mesma de lei não
está na cabeça das pessoas. Estado de direito é isso: condenado, condenado; absolvido, absolvido. Essa é a regra do jogo. Eu
também quero isso para mim! Só se deve considerar o sujeito como culpado quando a sentença é do tipo transitado em julgado,
ou seja, não tem mais condição de apelação. Daí, fim.
Você pode dizer que o sistema judiciário é corrupto. Eu digo que tanto faz. Não faz a menor diferença. Se a sentença
num sistema judiciário corrupto não vale, como você vai sanear o próprio sistema? Imaginem que todos os juizes sejam
corruptos. Então, de agora em diante nós não vamos mais obedecer às sentenças deles. Neste caso, então, é que não tem mais
conserto a corrupção. O fato de um juiz ser corrupto é um problema grave, justamente porque a sentença dele vale. Se não
valesse nada, tanto faz. Entretanto, se você não respeita a sentença de um juiz, que diferença faz ele ser corrupto ou não? Para
sanear um sistema judiciário, a primeira coisa a ser feita é levar a sério a sentença de um juiz. Aceitar como se fosse honesta. A
única maneira de você punir um juiz corrupto, é através de uma sentença de outro juiz. Ou, então, nós vamos ter que fazer justiça
com as próprias mãos.
Assim, o fato de você colocar em dúvida os resultados das sentenças, principalmente no caso de absolvição, isso ajuda a
corromper o sistema judiciário. A sentença condenatória, essa é que não deveria ser levada tão a sério, até que o sujeito seja
realmente condenado. O problema é que, aqui no Brasil, só o fato de você ser indiciado num processo, já significa que você é o
culpado. Entretanto, o brasileiro só pensa assim com relação aos outros. Se for no caso dele, em particular, aí é o contrário.
Isto significa que o povo não tem educação política para viver num estado de direito. Ele não aceita a regra do jogo. Ele
aceita, mas diz que é uma falsa regra, e ele irá cumprir uma outra regra, que ele mesmo inventou. Assim, todo o sistema
judiciário vira uma superestrutura ideológica, uma espécie de corrente que serve para bater na cabeça do adversário. Não é, de
fato, uma regra para ser cumprida. É uma espécie de inversão de todos os princípios de direito. Aqui no Brasil, você vai a uma
loja de eletrodomésticos, você pede um crédito, e eles consideram você um estelionatário, até prova em contrário. Essa idéia de
que a absolvição nada prova, mas que a condenação prova, é a inversão total dos princípios jurídicos. Mesmo a condenação nada
prova. Punir o culpado não é tão importante. Fazer a justiça não é punir o culpado. Só se deve punir o culpado quando não
houver outro jeito, outra solução. Os juristas romanos já diziam,”...( frase em latim )...”, perfeita justiça, e a perfeita injustiça, ou
seja, é para fazer justiça quando não há outro jeito. Se der para resolver na base da negociação, será melhor. Quem tem muita
experiência disso são os juizes de varas de família, que sentenciam alguma coisa, muito a contragosto. Eles não se interessam em
punir. Eles se interessam em chegar a um acordo. Mesmo no caso de casos hediondos. Isto porque se começa uma seqüência de
condenações por crimes hediondos, ...(?)
Uma vez, Bertrand Russerl escreveu um artigo sobre a China, dizendo que o povo chinês havia dado um exemplo de
amor pela educação quando os professores, que não recebiam o salário a um ano, entraram em greve e, em solidariedade, todo o
povo da cidade também havia entrado em greve, e isto foi considerado um sinal de muito amor pela educação.
Ortega y Gasset escreveu uma carta dizendo: se ele acha que para nós louvarmos o nosso amor pela educação,
nós precisaríamos começar por não pagar os professores e, em seguida, fazer greve em favor deles.(?)
Qual é o raciocínio que está implícito aí? A resposta que é dada a uma irregularidade, ela também é uma irregularidade.
O melhor não é você fazer a segunda, mas o melhor é não ter tido nem a primeira. Vamos supor que um sujeito tenha matado um
parente teu. O sujeito diz para você: você quer me por na cadeia, ou quer 10 milhões de dólares de indenização? Se optarmos
pela cadeia, ela não resultará em benefício para ninguém. O desejo de fazer justiça é dos mais perversos que existe. O cargo de
juiz é algo que uma pessoa deveria aceitar como um flagelo. Quando Cristo disse: “Não julgueis para não ser julgado”, Ele quer
dizer que não é para você julgar nada. Há situações em que você é obrigado a julgar, e daí você julga. Mas, se você não está
moralmente obrigado a fazer um julgamento, não o faça. Você não é a vítima, é apenas o parente da vítima. O quê a vítima
desejaria? Em primeiro lugar, morto não fica satisfeito, nem insatisfeito. Essa estória de que “os mortos clamam por vingança”, é
para justificar um instinto mau dos vivos. “Eu não sei o que é a morte. Como vou condenar uma pessoa a uma coisa que eu não
sei o que é?!” -- disse uma vez, ...(?). Este argumento dele é forte. A morte pode ser até um benefício. Só que há um outro
argumento contrário que diz que nós não queremos castigar, mas sim nos livrar desse sujeito. Acontece que, quem tem que se
livrar desse sujeito é a sociedade, através de um juiz nomeado para isso, o qual terá que assumir essa responsabilidade, se não
houver outro jeito. O ideal é você tentar, novamente, devolver esse sujeito à sociedade, de alguma maneira integrado. Parece que
todo mundo tem um apetite por julgar. De onde vem esse desejo de julgar? Em parte por culpas acumuladas, em parte
ressentimento por não ter poder algum, e o sujeito está louco par assumir um cargo que ele acha que é uma delícia.
Eu acho mais lícito a vingança pessoal, direta -- um duelo. A abolição dos duelos foi um dos maiores erros da
humanidade. O duelo é um jogo, e você aceita a regra do jogo: quem morrer, morreu; quem viver, viveu. Se o sujeito não aceita
a regra, então ele tem que fazer alguma coisa: reparação, desculpas, indenização, etc. Essa coisa de querer condenar, julgar, é de
quem está muito ressentido, porque o outro te fez um mal. Por quê ele fez isso? Porque também estava ressentido, e assim por
diante. O duelo era um código, de uma outra época, onde a honra pessoal contava. O fato de você não aceitar o duelo, equivalia a
uma confissão de culpa. Porém, essa confissão de culpa te livra da pena, embora te desqualifique socialmente. No Brasil, o duelo
foi considerado ilegal com o advento da República. Na França, a ilegalidade do duelo veio depois da Primeira Guerra Mundial.
O próprio aperfeiçoamento das leis no Estado moderno, a instalação de um monopólio da punição e da recompensa, é
uma espécie de declaração de que o povo aceita isso, não tem o sentido de honra. O estado democrático de direito é o regime da
maioria que não vale nada. Entra o Estado para arbitrar, porque as pessoas não podem se arbitrar. Os contratos pessoais só são
válidos dentro de certos limites, que o Estado estabelece. A liberdade de contratar não é total no Estado moderno, porque ele
parte do princípio de que existe um desnível muito grande, e de que existe muita desonestidade. O Estado moderno é feito,
fundamentalmente, para pessoas que são desonestas.
Numa tribo de índios não é necessário isso. Eles não precisam de que um Estado tome conta deles. Numa tribo de índios
o nível é mais ou menos o mesmo. O contrato pessoal vale alguma coisa.
Quanto mais você aperfeiçoa o Estado, isto é um sinal de que a moralidade pública é muito baixa. A tendência do
Estado interferir cada vez mais, é um sinal de que as pessoas não conseguem governar a si mesmas. Se você deixa o sujeito sem
fiscalização, ele vai aprontar alguma coisa. O próprio povo pede para ser fiscalizado. Por isso que eu não acredito em progresso,
nem em retrocesso. Quando uma coisa progride, outra estraga. Todo progresso é relativo. Aperfeiçoar as leis e, ao mesmo tempo,
fazer subir o nível de moralidade pública é algo quase contraditório. Um povo moralmente elevado, pode viver sob um regime
injusto e tirânico. Aquilo não o corrompe. Aliás, isto aconteceu muitas vezes. Vejam o povo judeu. Quantos milênios eles não
viveram sob regimes tirânicos, e nem por isso eles se roubavam uns aos outros. Mas, é um povo pequeno. Se é com uma
sociedade de massa, a coisa complica.
A idéia de uma sociedade perfeita, a humanidade inteira perfeita, ter um Estado perfeito, leis perfeitas, administração
perfeita, todo mundo é santo, o nível de moralidade é altíssimo, tudo isso é uma utopia. Quanto mais perfeito é o Estado, pior é o
povo.
Um dos segredos dos americanos, é que o Estado, lá, funciona muito menos do que se imagina. Por exemplo, para a
entrada de imigrantes ilegais, eles fecham os olhos quanto a isso. James Bryce, era um diplomata inglês que, em seu livro “A
Comunidade Americana”, vai mostrando a formação do Estado americano, a partir das comunidades independentes. Este é um
fenômeno que nunca havia ocorrido.
Aqui no Brasil, o Estado se forma anteriormente às comunidades. Nos Estados Unidos, as pessoas, acostumadas a
tomarem as suas decisões locais, no momento que fizeram sua independência, havia uma forte corrente anarquista, que achava
que não devia haver governo algum.
Eu acho que esse é um dos segredos dos Estados Unidos. Por isso que a constituição deles é pequena, simples. É para
não complicar. É melhor deixar as coisas de maneira meio vaga, onde cabe tudo, que depois nós resolvemos. Não existe uma
Constituição muito minuciosa, que tenha durado muito. Quem faz uma Constituição muito grande, tem que fazer várias.
Outro fator que lhes permitiu ter essa frouxidão das leis do Estado, é o rigorismo moral-religioso. É um moralismo
atroz. Se o sujeito cresce cheio de disciplinas, ele tem um impedimento interior. Então, não há necessidade de um impedimento
exterior. Um dos motivos do aumento de criminalidade, que ninguém fala, é a crise religiosa, uma indefinição religiosa. Essa
massa de pessoas que sai da Igreja Católica e vai para outra religião, e depois vai para outra, isso é, evidentemente, uma crise
mental. Tudo se resume naquela velha contradição de você desejar uma ordem, uma ética social e, ao mesmo tempo, você nega o
fundamento dela.
Esse é um dos dramas brasileiros. Não há ninguém aqui que acredite em princípios éticos absolutos. São raros os casos
de pessoas que estão vinculados a uma religião em particular. Todo mundo acredita em princípios convencionais, por isso, não
tem muito sentido você fazer um combate pela Ética. Tanto faz essa ou aquela Ética.
Eu acho que a raiz disso é fundamentalmente intelectual, porque você não tem uma camada letrada capaz de educar a
nação. Ela mesma é a primeira que se deseduca. A idéia de que um delegado deva ser um homem de cultura, não existe hoje em
dia. A uns quarenta anos atrás, ainda havia essa idéia. Qualquer pessoa de formação universitária era considerada de elite. Hoje,
não. A qualificação cultural diminuiu, mas ao mesmo tempo a responsabilidade aumentou. A idéia da formação profissional é
uma idéia que entrou no tempo da ditadura militar, com o Jarbas Passarinho, que “atualizou” o nosso ensino universitário,
transformando-o em ensino profissional. A idéia de que a função da universidade seria a de te dar uma profissão, e não uma
cultura, faz com que o sujeito vá pelo critério do mínimo indispensável, como num concurso. Por exemplo, você entra num
concurso para Fiscal de Renda. Se você passa em primeiro lugar, você ganha um salário de 15 milhões, e se você passar em
último lugar, você ganha o mesmo salário. Então, qual é a vantagem em tirar o primeiro lugar?

[ Voltando à questão da fundamentação ]

Uma simples investigação policial se apóia em conhecimentos de diversas procedências, cuja fundamentação é
diferente. Não havendo a possibilidade de coerir essas diversas fundamentações numa teoria unificada, você teria que fazer uma
espécie de teoria da heterogeneidade, que é o que nós estamos fazendo aqui, agora. E o único ponto onde tudo isso se unifica é
na cabeça do indivíduo. Na cabeça do delegado existe uma síntese de Fisiologia com História, porque ele precisa desses dois
conhecimentos para poder julgar esse caso em particular.
Se, ao investigarmos tudo isso, nós descobrimos um fundamento comum a todos esses fundamentos, nós teríamos uma
teoria unificada, e isso se constituiria numa ciência única. Seria possível você fazer uma teoria unificada da investigação
policial? Ou seja, um sistema axiomático, partindo de um núcleo de princípios, das conseqüências de ordem fisiológica,
psicológica, e lingüística? Do ponto-de-vista holístico, deve ser possível, porque, partindo do ser universal, tudo está esclarecido.
Na prática, é claro que não acontece isso. Por isso que eu acho que entre o plano metafísico e o plano científico, existe um
abismo. Há coisas que nós só conseguimos perceber metafisicamente, de maneira puramente teórica, sem nenhuma tradução
imediata. Não têm utilidade científica alguma.

No fato de que a forma sistemática nos pareça a mais pura encarnação da idéia do saber não se exterioriza
meramente um traço estético da nossa natureza.

Por quê a Ciência tem que ser unificada? Argumento kantiano: a realidade é heterogênea, variada, e não tem unidade
alguma. Entretanto, o homem tem as suas formas a priori da inteligência, tem a sua estrutura cognitiva, a qual tende a unificar
tudo. O homem dá uma forma unificada a aquilo que não tem.
Na verdade, o real não é o mundo. O real é um caos infinito de possibilidades. Assim, se a Ciência tende a uma forma
unificada, é por causa de uma tendência nossa de unificá-la. Esta idéia kantiana é aprofundada depois na idéia da razão como
uma forma superior do sentido de autoconservação.
A razão tende a unificar o nosso conhecimento, dar uma forma unitária, sistemática e perseverante, no mesmo sentido
em que o organismo procura conservar a integridade da sua forma. Quando o animal come alguma coisa, e rejeita partes, e
assimila outras partes, ele assimila o que é semelhante. Assimilar é tornar similar. Uma parte do que ele comeu se transforma
nele mesmo: o coelho come alface, e o alface vira coelho ( Jean Piaget ). E o animal rejeita o que não é assimilável. Ao
assimilar, você está reiterando a forma do seu organismo. O organismo cresce, na mesma medida em que ele reitera essa
integridade, senão ele morre.
A razão seria uma extrapolação, um abstrato mental, psicológico, desse senso de autoconservação, e por isso mesmo, as
construções racionais conservam a sua integridade, e crescem ao mesmo tempo. Um sistema dedutivo, axiomático, ele pode se
estender indefinidamente sem perder a unidade de sua forma. Pergunta-se: a Ciência tende a uma forma sistemática só porque o
homem é assim, ou por algum outro motivo? Husserl responde que não. Não é só por uma tendência humana à unidade que a
Ciência é unitária, mas porque o real, o objeto do conhecimento também tem uma integridade. Mesmo que o homem não tivesse
essa tendência, ele teria que se adaptar, de alguma maneira.
Isto é uma posição claramente anti-kantiana. O mundo do conhecimento é de unidades objetivamente distintas, que
formam um todo. Elas formam em si, ainda que você não conheça esse todo.

O sistema não é invenção nossa, mas reside nas coisas; o reino da verdade não é um caos desordenado; nele rege
uma unidade de leis; e por isto a investigação e a exposição das verdades deve ser sistemática, deve refletir suas conexões
sistemáticas e utilizá-las, ao mesmo tempo, como escala do progresso, para poder penetrar em regiões cada vez mais altas
partindo do saber já dado ou obtido.

A própria tendência humana à unidade é, de certo modo, propícia ao conhecimento do real, que é ele também, um
sistema. É uma analogia. O homem entende o mundo, e o mundo entende o homem. Essa é a teoria mais velha, clássica.
Porém, existem outras, como a teoria kantiana que diz que o mundo é o caos, e só o homem tem a unidade; outra diz que
o mundo tem a unidade, e o homem é o caos; outra diz que os dois são o caos, e que nada é possível, etc.

A ciência não pode prescindir dessa escala. A evidência não é um acessório natural. Para que investigar relações
de fundamentação e construir provas, se somos partícipes da verdade numa consciência imediata?
Ou seja, se tudo pudesse ser conhecido por uma evidência imediata, não haveria necessidade de uma escala de
progresso. Não haveria um conhecimento melhor ou pior; seriam todos melhores.

Mas, de fato, a evidência que impõe o selo de existente à situação objetiva representada, ou a absurdidade, que lhe
impõe o de não existente, só são imediatas num grupo de situações objetivas primárias, relativamente muito limitado.

Quais são os conhecimentos, ou situações objetivas primárias, nos quais é possível uma evidência imediata? Se você
não fizer uma demarcação dos setores onde é possível uma evidência imediata, você nunca vai distinguir perfeitamente o que é
um conhecimento firme, e o que é um conhecimento incerto.
Onde está o ponto de apoio arquimédico, o ponto firme, onde o conhecimento pode se apoiar? Esta pergunta é
absolutamente obrigatória a qualquer indivíduo que pretenda desenvolver uma mentalidade intelectual. Ele tem que procurar por
si mesmo. Não importa se o ponto que você encontrar não vai coincidir perfeitamente com o dos outros. Geralmente eles não
coincidem, mas se somam, de alguma maneira. Esta busca do fundamento inicial, é o que define mesmo o esforço filosófico.

Há inumeráveis proposições verdadeiras, de cuja verdade só nos apercebemos quando as “fundamentamos”


metodicamente.
Este fato de que necessitemos de fundamentações não só torna possíveis e necessárias as ciências, mas, com as
ciências, uma teoria da ciência, uma lógica. Se todas as ciências procedem metodicamente, então o estudo comparativo
desses instrumentos metódicos haverá de proporcionar-nos os meios para estabelecer normas gerais ( às quais se
constituirão a teoria das ciências ).

§ 7. Continuação. As três peculiaridades mais importantes das fundamentações.

Elas têm, em primeiro lugar, o caráter de complexos fixos, no que diz respeito ao seu conteúdo. Para chegar a
certo conhecimento, não podemos escolher como pontos de partida quaisquer conhecimentos dentre os imediatamente
dados; nem nos é lícito inserir no curso restante do pensamento, ou dele excluir, quaisquer membros.

Você não chega a uma fundamentação de uma verdade, partindo de qualquer ponto, de qualquer coisa. Não é partindo
de qualquer elemento do conhecimento que você chega ao seu fundamento.

Em segundo lugar, não há nenhum cego arbítrio que tenha amontoado múltiplas verdades P1, P2,...S, dispondo
em seguida o espírito humano de tal maneira que ele tenha de ligar irremediavelmente ( ou em circunstâncias “normais”
) o conhecimento de S ao conhecimento de P2.

Isto aqui é fundamental. Não existem verdades soltas que sejam agrupadas por uma simples necessidade, ou por uma
simples tendência dos seres humanos. As verdades, se são verdades, elas têm entre si, uma determinada conexão que não há jeito
de você mudar. Por exemplo, suponha o silogismo: todo homem é mortal; Sócrates é homem; logo, Sócrates é mortal. São duas
verdades: é verdade que todo homem é mortal, e também é verdade que Sócrates é mortal. Entre estas duas verdades existe uma
certa relação, que não é arbitrária, que nós não podemos inverter, e que nós não poderíamos enxertar uma terceira verdade
qualquer nesse raciocínio, porque existe uma relação de todo e causa, uma relação de pertinência. Nós tendemos a ver isso com
uma certa conexão de modo que existisse uma verdade: P1 = todos os homens são mortais; P2 = Sócrates também é mortal. A
seqüência dela não fomos nós que colocamos, pois existe uma relação intrínseca.

Isto não sucede em nenhum caso.

Vejam que ele não disse: geralmente; ele não disse: quase sempre. Entre as verdades, só existe duas hipóteses: ou você
não conhece a relação entre elas, portanto, você não pode sequer saber se são verdades, não pode saber se há fundamentação, ou
ela tem uma conexão necessária, um encadeamento inevitável, porque se não houver encadeamento nenhum, se são verdades
soltas, ou elas são evidências primárias, que não necessitam de provas, ou então, a prova, o fundamento delas está em alguma
outra coisa, em alguma outra verdade, com a qual ela tem uma relação necessária. Você não pode sair combinando verdades
umas com as outras, ao seu bel prazer, porque para que possa haver combinação é necessário que haja relação entre elas.

Nas conexões de fundamentação não reina a arbitrariedade e o acaso, mas a razão e a ordem; e isto quer dizer: a
lei reguladora. Todas as fundamentações têm algo em comum, uma constituição íntima homogênea, que expressamos
claramente na “forma do raciocínio”: todo A é B, X é A, logo X é B.
Todas e quaisquer fundamentações, de qualquer tipo, em qualquer domínio do conhecimento que exista, tem que ser
desta forma. Verifiquem isto. Sempre a relação entre todo e parte -- sempre. Mesmo quando você parte para o raciocínio
mágico, simbólico, analógico. Por exemplo, quando um astrólogo diz que você é gago porque tem Saturno na Casa 3. O
fundamento disso é que todo aquele que tem Saturno na Casa 3 é gago; se você também tem Saturno na Casa 3, então, você é
uma parte deste conjunto, logo, também é gago. É sempre assim. Isto é onipresente. Nós só pensamos assim, e as verdades são
sempre conectadas assim, em todas as hipóteses possíveis. Não há nenhuma exceção. Sempre que você acredita em alguma
coisa, é porque você acredita que aquela coisa é parte de uma outra veracidade, mais vasta, que é tomada como evidente.
Isto significa que para cada pequena coisa que você acredita ser verdadeira, existe, por trás, uma lei geral. Você está
sempre afirmando uma lei geral. Isto é a mesma coisa que dizer que não existe jamais um conhecimento fundamentado no
particular isolado. Ou esse particular isolado é conhecido como uma evidência direta, que não necessita de prova, então ele é
fundamento de si mesmo, ou se ela é fundada numa outra coisa, é porque ela é parte de um todo, que é tomado como evidência.
A forma mesma que é denominada o silogismo, já está subentendido toda e qualquer afirmação de fundamento de um
conhecimento. Isso é para mostrar que não foi inventado, apenas foi dado um nome, porque já estava lá, já era assim.

Mas não só estas duas fundamentações têm algo em comum, mas também a têm outras incontáveis. E mais ainda.
A forma de raciocínio representa um conceito de classe, sob o qual recai a infinita multidão de enlaces entre proposições,
que têm a constituição rigorosamente expressada nessa forma.

Este “Todo A é B, X é A, logo X é B” é um conceito de classe. É uma classe de raciocínio. Não importa qual é o
conteúdo do raciocínio. Todos e quaisquer raciocínios que pretendam ser uma fundamentação, quaisquer que sejam os seus
conteúdos, têm sempre essa forma. Onde quer que haja uma fundamentação, você vai encontrar um raciocínio com este formato.
Expresso, ou inexpresso, manifestado ou subentendido, mas sempre têm.

Mas ao mesmo tempo existe a lei a priori, segundo a qual toda presumida fundamentação, que ocorra em
conformidade com essa forma, é realmente uma fundamentação correta, se partiu de premissas justas.

Existe uma lei a priori e que dado um raciocínio desta forma, a coisa fundamentada é verdadeira, se aquela
fundamentação partiu da premissa ...(?). Se o que você afirma de um todo é verdadeiro, o que você afirma da parte fundada,
também é verdadeiro.

É inerente ao curso das fundamentações uma certa forma, que lhes é comum com outras inumeráveis
fundamentações, que permite justificar de um só golpe todas essas distintas fundamentações. Não há nenhuma
fundamentação isolada; eis aqui o fato sumamente notável. Nenhuma enlaça conhecimentos com conhecimentos sem que
-- seja no modo externo do enlace, seja a um tempo neste e na estrutura interna das proposições -- se expresse um tipo
determinado que, formulado em conceitos gerais, conduz em seguida a uma lei geral.

Toda e qualquer fundamentação, sobre toda e qualquer coisa, estará sempre referida a esta forma, e esta é a forma de
uma lei geral. Qualquer convicção que tenha sobre qualquer coisa, e que você crê que é fundamentada, ali está expressando
sempre uma lei geral. Claro que, não explicitamente.
Isto pode ser um dos exercícios mais elucidativos que existe: perceber a lei geral que está afirmada em cada frase das
pessoas. Se você vê o sujeito falando de uma certa maneira, procedendo de uma certa maneira, e você capta a lei geral que ele
afirma isso, você saberá como ele irá proceder em outras circunstâncias similares. Se nós não obtemos essa generalização, então,
teremos que repetir a experiência muitas vezes e, às vezes, não tiramos conclusão alguma.
A incapacidade de aprender com a experiência é um dos sinais da burrice. A rapidez em captar a experiência, portanto, a
necessidade de pouca experiência, é um sinal de inteligência. O sujeito que passa mil vezes pela mesma experiência, e não chega
a uma conclusão alguma, você diz que ele é, flagrantemente, burro. Isto quer dizer que está na raiz de qualquer aprendizado, essa
generalização.

Em terceiro lugar, poderia crer-se possível o pensamento de que as formas de fundamentação dependem das
esferas do conhecimento. Mas é patente que isto também não ocorre.

Não importando qual é a esfera do conhecimento a que se refira, a fundamentação tem essa forma sempre. Se há uma
fundamentação, então existe sempre um recurso explícito, ou implícito, a uma lei geral, tomada como certa, ou como evidência.

Não há nenhuma ciência em que não se apliquem leis a casos singulares,


E não é concebível um outro tipo de ciência. Hoje em dia, há muita gente falando em ciências esotéricas, tradicionais,
etc. A diferença entre ela e as ciências ditas modernas não é essa; por exemplo, para Astrologia, Alquimia, o princípio é
exatamente o mesmo. Isto quer dizer, sumariamente, que nenhum conhecimento é irracional. Se eu falo que há um conhecimento
...(?) e inegável, é porque ele não é irracional, mas ele é a-racional, é extra-racional. Os princípios são, por assim dizer, pré-
racionais. Seria irracional se fosse fundamentar num mesmo esquema que não obedece a essa forma do todo e parte, ou que a
desmente. Isso, de fato, jamais aconteceu.

isto é, em que não apareçam com freqüência raciocínios da forma que nos serviu de exemplo. Mais ainda: todas as
demais espécies de raciocínios se prestam a ser generalizadas de tal modo, a ser concebidas de maneira tão “pura”, que
resultem livres de toda relação essencial com uma esfera de conhecimentos concretamente delimitada.

Ou seja, não há nenhuma espécie de raciocínio que se aplique somente a um determinado setor da realidade. Você
sempre vai cair nas mesmas. É muito interessante você fazer a averiguação disso em conhecimentos que se pretendem
irracionais, supra-racionais, porque você vai cair sempre na mesma coisa.
Resumindo, então, as três propriedades das fundamentações são:

1) Você não pode partir de qualquer ponto para chegar numa fundamentação;

2) Existe uma sucessão ordenada de fundamentações;

3) Elas sempre obedecem à forma do todo e parte.

§ 8. Relação dessas peculiaridades com a possibilidade da ciência e da teoria da ciência.

Se não fosse verdade fundamental que a todas as fundamentações lhes é inerente uma certa “forma”, não
peculiar ao raciocínio presente hic et nunc, mas típica para toda uma classe de raciocínios,

Hic et nunc, quer dizer, aqui e agora. É o raciocínio que você está fazendo concretamente, neste momento.
Só há raciocínios típicos. Não há raciocínios singulares. Todo raciocínio é um esquema típico. Existem milhões de
outros raciocínios, numa série inesgotável de raciocínios semelhante à mesma forma. Todos aplicáveis a inúmeras situações, e
não há repetição singular.

e que ao mesmo tempo a justeza de todos os raciocínios dessa classe está garantida justamente por sua forma; se
antes sucedesse o contrário, não haveria ciência. Já não teria sentido falar de método; todo progresso seria ao acaso. Já
não seria possível apreender, de uma fundamentação dada, o mais mínimo com relação a novas fundamentações futuras,

Todo conhecimento se esgotaria nele mesmo, e uma coisa, uma vez provada, não provaria nada mais além daquilo. A
possibilidade de extensão do conhecimento reside na inexistência de raciocínios singulares. É justamente porque a forma de
raciocínio é sempre a mesma em todos os casos que, de um conhecimento em particular, você pode tirar algo para todos os
casos. E assim a Ciência pode se estender.

pois nenhuma fundamentação teria nada de exemplar para nenhuma outra, nenhuma encarnaria em si um tipo.
Não teria nenhum sentido buscar uma prova para uma proposição previamente dada.

Se cada vez que você faz um raciocínio, o fizesse de uma forma totalmente diferente, a forma de um não valesse para o
outro, então como é que você vai buscar a forma que ele teria que ser? Seria o caos total.
A verdade não é uma coisa que dê muito trabalho para encontrá-la. O trabalho maior é admiti-la. Às vezes ela é tão
patente que você gostaria que fosse de um outro jeito; você gostaria de complicar. Depois que você descobre que 2 + 2 = 4, você
não precisa repetir que é 4, mas, sim, você precisa parar de repetir, “e se for 5? E se for 6?”
Quando você aprende algo, sabe intelectualmente, mas não consegue proceder de acordo com aquilo, na prática, então
não tem mais jeito. O fato é que a mente humana trabalha demais, não é muito criativa, seu jogo de imaginação não pára, e às
vezes ela não se conforma que a verdade seja tão pobre. As pessoas, por exemplo, gostariam que o passado tivesse sido de outro
jeito. E elas ficam imaginando como seria se fosse, e às vezes você imagina tão bem, tão vividamente, que você se persuade. Só
que toda vez que você faz isso, você também cria, simultaneamente, uma imagem contrária, então, cria uma agitação.
O mundo das imagens é o mundo dos contrários. É um cajado, com duas cobras entrelaçadas. O movimento das cobras é
o movimento da mente em torno da verdade ( cajado ). O segredo da coisa consiste, como no mito de Hércules, que nasce
segurando duas serpentes, uma de cada lado, não deixando que elas se afastem demasiadamente.
O movimento da mente é inevitável. Pelo fato de você estar vivo, a mente faz esse movimento sinuoso. Esse movimento
é a própria vida. Mas, é fundamental que a mente não se afaste demasiado, e que seja balizado por uma reta, até que no ponto
onde existe uma verdade admitida, o movimento pára. É o ponto de encontro das duas serpentes no cajado. Estas são as verdades
conquistadas.
Então, só existe um certo número de raciocínios, e é muito limitado esse número. Existem 64 tipos de silogismos
possíveis, dos quais 19 são probatórios, e os outros não são. Todos eles estão dentro deste esquema de A=B, X=..., e etc.

Como a buscaríamos? Iríamos contrastar todos os grupos possíveis de proposições, para ver se seriam utilizáveis
como premissas da proposição dada? O homem mais inteligente não teria neste ponto a menor vantagem sobre o mais
estúpido. Uma rica fantasia, uma extensa memória, uma capacidade de atenção intensa, etc. são belas coisas; mas só
adquirem significação intelectual num ser pensante, cujo fundamentar e descobrir tenha formas submetidas a leis.

Ele quer dizer que, todas as faculdades cognoscitivas só conseguem ter alguma importância porque existe esta
possibilidade de uma fundamentação submetida a leis. Senão, elas não serviriam para absolutamente nada. Por exemplo, um
sujeito tem uma memória extraordinária, guarda todos os fatos, e outro tem uma memória pequena. O que um diz vale tanto
quanto o outro. Estes fatores são puramente acidentais, externos. A qualidade das faculdades que estejam em causa, nada tem a
ver com a veracidade do conhecimento produzido por elas. É perfeitamente possível que um imbecil completo, agindo segundo
estas leis aqui, acerte, onde o gênio erre. Um sujeito, por exemplo, um autista, que faz operações aritméticas com incrível
rapidez, será que ele tem a veracidade dos resultados? Não. No mesmo sentido que uma máquina de calcular também não tem.
Ele tem apenas a repetição da forma que nós sabemos que é verdadeira. Quando você programa uma calculadora, você a
programa segundo esta forma. E você a programa assim, porque esta forma é verdadeira. Se você programar a calculadora da
forma falsa, ela também irá aplicar a forma falsa igualmente. Entretanto, nós podemos saber que esta forma tem um valor
fundamentante, e por isso mesmo a usamos. Mas, o simples fato de você a usá-la, não significa que você tenha consciência de
sua veracidade. Essa consciência de veracidade é do tipo intuição de evidência. Nós sabemos que o que é válido para o todo, é
válido para a parte, porque nós sabemos que há identidade entre o todo e cada um, a qual se baseia na identidade de cada um =
cada um. Ou seja, nós conhecemos o princípio de identidade com evidência -- e só por isso. Nós podemos até não saber aplicar.
Nós podemos errar, mas entre o indivíduo pensante, capaz de reconhecer o princípio de identidade, e outro, não-pensante, capaz
de fazer o cálculo mais extenso, o primeiro leva vantagem. As capacidades intelectuais não interessam. Para o exercício correto
da vida intelectual não é preciso ser inteligente, mas é preciso ter o senso de veracidade. É uma capacidade inata do seu
temperamento, e você pode tê-la ou não. Isaac Newton, por exemplo, não tinha capacidade de cálculo, mas ele tinha a intuição
da veracidade matemática. É só isso que interessa, o resto é questão de força física. Só que fazer força na direção errada não
adianta absolutamente nada.

O pensador exercitado encontra provas mais facilmente do que o não exercitado. Por quê? Porque os tipos de
provas se gravaram nele de um modo cada vez mais profundo, mediante uma variada experiência.

Isto é fundamental, do ponto-de-vista prático. A fundamentação é também um exercício, um hábito da mente. Se a


mente está continuamente buscando as fundamentações, ela acaba pegando quais são os procedimentos esquemáticos que levam
a isso, que fazem, que se aplicam a cada caso, e quais não se aplicam. Ao passo que, se a mente se dirige num outro sentido, ela
vai encontrar os esquemas necessários para fazer alguma outra coisa. Por exemplo, você pode ser um inventor de subterfúgios,
ou seja, um mentiroso atroz. Você vai saber produzir as frases necessárias para que tal ou qual coisa seja admitida por tal ou qual
interlocutor, no momento. E você pode desenvolver esta habilidade indefinidamente. É a mesma habilidade que você desenvolve
quando procura a verdade em cada coisa. Você só vai procurar o que você quer. Para isso, basta você entender que, no começo
de uma vida intelectual, você terá que tomar uma decisão: eu quero encontrar o fundamento verdadeiro, ou quero encontrar um
subterfúgio, uma justificação. A justificação seria o contrário do que é justo. Você quer tornar justo; fazer com que seja justo,
aquilo que não é. Os esquemas retóricos, para esse fim, são inesgotáveis. O que pode tornar uma coisa crível para uma pessoa,
depende da pessoa que você está falando, depende da situação. Existe um esquema para cada situação. você pode ser tão
inventivo quanto queira. E, quanto mais facilmente ele persuade, mais facilmente ele se persuade. Tanto que é muito raro você
encontrar um grande retórico que seja, ao mesmo tempo, um grande filósofo.
A filosofia de retórica é para uso prático. É um pouco de filosofia que serve para o gasto, porque não é uma mente
orientada para a verdade. Existem determinadas formações, educações, universitárias que são para fazer retóricos como, por
exemplo, o Direito. Se você colocar na faculdade de Direito uma mente científica, de fato, o aluno fica quinze anos no primeiro
ano do curso.
Na verdade, em muitos aprendizados existe um elemento de mistificação que é necessário para que o indivíduo aceite
aquilo e siga adiante. Por exemplo, em qualquer ensaio técnico você tem uma série de coisas que não estão fundamentadas, que
poderiam até ser falsas, mas que para você conseguir aquele resultado, você vai precisar engolir desse ou daquele jeito. Se você
decidir parar e examinar aquela coisa, pode ser que você destrua aquela regra. Isto tornaria a investigação da verdade uma força
autônoma e, de certo modo, hostil à ordem social. Por isso mesmo que Deus, sabendo disso, colocou o amor à investigação da
verdade em um número muito pequeno de cérebros. Senão, seria um problema. a maior parte das pessoas, de fato, têm que
aceitar um monte de mentiras, e continuar agindo como se aquilo fosse verdade, até segunda ordem.
A mentira também é psicologicamente e socialmente necessária, até certo ponto. É o caso da verdade traumática. Vejam o
exemplo do ovo: o ovo é uma casca do indivíduo. As mentiras são uma casca para o indivíduo. Enquanto a criança alcança o seu
desenvolvimento biológico natural, é necessário que ela seja protegida de verdades traumáticas. A verdade não é
fisiologicamente conveniente àquele indivíduo, até um certo momento. Então, ele tem que ser protegido daquilo, mas só até
certo momento. Se essa proteção continua, após o ser humano ter atingido o seu desenvolvimento biológico natural, ela se torna
lesiva. Viver num mundo de fantasias é muito bom para quem não tem que tomar decisão própria. A criança pensa, com a única
finalidade de alcançar uma satisfação, para se manter num estado homeostásico, no qual ela possa crescer e se desenvolver com
critérios.
Para a criança só interessa o pensamento que faz bem a ela, e não para o meio em geral. Por quê? Porque as decisões
dela não afetam ninguém. Mas, e o pai de família que tomar uma decisão, que não reflete o real, mas que é apenas boa para ele?
Não é melhor você pensar que você é rico, do que você pensar que é pobre? Sim, você se sente melhor. Porém, é bom continuar
passando cheque indevidamente com base no pensamento que você queria ser rico? É claro que não!
O pensamento que é útil, organicamente, o é para um indivíduo porque é um pensamento egoísta, que visa a sua auto-
proteção. Na hora que esse pensamento começa a servir de base para decisões que afetarão os outros, aí o compromisso dele não
é mais de integridade física de um sujeito, mas com a integridade do meio. Neste caso ele terá que obedecer à razão, à verdade.
Porém, é claro que, em qualquer sociedade, o número de pessoas que permanecem infantis é muito grande, porque o número de
pessoas que tomam decisões é muito pequeno. A maior parte das pessoas nunca toma decisões a respeito de quase nada. O
sujeito pode continuar infantil. Pode, e deve continuar infantil porque ele vive uma vida miserável, uma vida quase que de
escravo, e ele só pode encontrar o reconforto no mundo da ilusão. Assim, é melhor que ele fique mesmo na ilusão, porque se ele
descobrisse a verdade, ou ele teria que mudar de vida, o que seria muito difícil, ou ele sucumbiria sob o impacto de uma verdade
que ele não agüentaria.
Vejam, por exemplo, o problema das bombas atômicas, que durou tantas décadas. Claro que haviam pessoas que
tomavam decisões relativas às armas atômicas, e essas pessoas ficavam apavoradas, porque tinham que saber a realidade daquele
perigo e pensar nele com realismo, para pode tomar decisões. Porém, a massa da população tinha que viver baseada numa ilusão
de que aquilo era impossível, quando de fato não era. Toda noite, antes de dormir, eu verifico se o gás está fechado, se a porta
está trancada, etc. E as crianças pequenas? Elas não podem pensar nisso, porque senão ficariam aterrorizadas. A criança
pequena, para crescer, ela precisa confiar que ela é indestrutível. Ela pensa que se vier um monstro ela dá um tiro de raio laser
nele, ou aplica um golpe mortal de karatê, etc. Ela precisa dessas mentiras para se sentir segura. Entretanto, e o pai que pensasse
assim?
O pensamento fantasista é fundamentalmente egoísta, que foge do real, porque não assume a responsabilidade pelas
decisões. Se nós abandonamos o mundo dos pensamentos agradáveis, nós o abandonamos por um amor aos nossos semelhantes.
O mesmo reconforto que a criança encontra naquele mundo ilusório de auto-satisfação egoísta, é a satisfação que o pai encontra
em se sacrificar pelas crianças que ama. São duas formas da felicidade: uma é egoísta, narcisista; a outra, altruísta, própria do
adulto.
...(?) tem um frase linda que diz: “Ser sincero é morrer um pouco”. Toda vez que você é sincero, que você fala a
verdade, você tem que matar mais uma ilusão. E você só agüenta isso se conseguir uma outra satisfação, num outro plano, que é
a satisfação do amor ao próximo, do amor à Deus, etc. Você vai reconquistando no plano da universalidade, a felicidade que
você traz no plano do egoísmo individual. Isto é a raiz da vida humana. O homem foi feito para isso.
Por isso que eu ...(?) com pessoas adultas que buscam satisfações de adolescentes, lambendo o próprio ego, dizendo “eu
quero isso!”, “eu preciso disso!” Você não precisa de nada! Você precisa é de serviço, de encargo, de responsabilidade, de amor
ao próximo, para aprender a agüentar. O exemplo de Ghandi é de um auto-sacrifício total pelo próximo. Coisa de maluco! A
felicidade dele era a comunidade hindu viver em paz.
Quando eu vejo um sujeito que diz que precisa da roupa que ele quer, da comidinha que ele quer, o empreguinho que ele
quer, a namoradinha que ele quer, o carrinho que ele quer, tudo para ele não ficar tristinho, eu acho isso asqueroso! Tem que
dizer como Einstein: “A felicidade é um ideal ...(?) dos porcos”. você tem que buscar a realização de um supremo valor que
torna a vida humana valiosa, independentemente de ir para cima ou para a morte. Neste sentido, o sacrifício é o único sentido da
vida humana. Sacrifício é uma obra sacra, sagrada.
O sacrifício é nessa direção, de largar o mundo da ilusão egoísta, o mundo da auto-proteção, que é bom para as crianças,
e encontrar satisfação em algo que transcenda a sua pessoa, que seria o benefício da humanidade, ou mesmo de um família. O
homem que se sacrifica pela sua família, já é um ser humano evoluído.
Para que um indivíduo viva uma vida de auto-satisfação, é necessário que o protejam de suas fantasias infantis. O teste é
o seguinte: retirem o sujeito de dentro desse universo protegido, e o jogue sozinho numa situação, e você vai ver que ele é menos
que um bebê. O homem tem que estar preparado para saber que ele, individualmente, não pode ser nada. Ele só é alguma coisa
em função do valor que ele se dedica, pelo qual ele se mata. Curiosamente, a negação da individualidade é que dá o único valor a
ela. O indivíduo se mata por uma coisa universal, e daí ele encarna esse universal. Só isso pode ser o fundamento da Ética, ou da
Moral, o resto é conversa fiada. Você vale aquilo que você é. A medida do quanto você ama, é o quanto você se dá. Se o que
você ama é um carro importado, ou uma dose de cocaína, você vale isso.
Preleção XI

16 de janeiro de 1993
O pensador exercitado encontra provas mais facilmente do que o não exercitado. Por quê? Porque os tipos de
provas se gravaram nele de um modo cada vez mais profundo, mediante uma variada experiência. As qualidades de tato
científico, intuição previdente e adivinhação estão em relação com isto. Na natureza geral dos objetos da esfera
correspondente radicam certas formas de conexões objetivas, e estas determinam por sua vez peculiaridades típicas em
todas as formas de fundamentação preponderantes nessa esfera. Nisto reside a base das rápidas presunções científicas.
Toda prova, todo descobrimento repousa nas regularidades da forma.

Peguem um determinado domínio. Existem certos tipos de esquemas probatórios que sejam de uso corrente, que
apareçam com mais freqüência, de modo que, quando o caso se apresenta, você logo percebe.
Em Ginecologia, por exemplo, me dê um esquema que tal coisa indica tal outra, como, por exemplo, num diagnóstico
diferencial. Pode ser por eliminação, de modo que, quando você tiver quinhentos diagnósticos diferenciais, você tenha esse
esquema comparativo.
Outra pergunta: o que leva você a fazer um diagnóstico diferenciado entre duas patologias, e não entre três, quatro,
cinco ou mil? Como você escolhe essas duas? Você escolhe essas duas porque você é um pensador exercitado, senão você teria
que escolher várias.
O que Husserl está dizendo é que isso só é possível porque os esquemas de provas são sempre idênticos, no tempo,
senão, não seria possível.

Se a forma regular torna possível a existência das ciências, a independência da forma com relação às distintas
esferas do saber torna possível, de outro lado, uma teoria da ciência. Se não fosse esta independência, haveria uma série de
lógicas coordenadas entre si, mas não haveria uma lógica geral.

O esquema que se usa no diagnóstico diferencial, é o mesmo que se usa pelo delegado de polícia para fazer uma
acareação. É possível uma lógica geral, porque esses esquemas são sempre os mesmos.

§ 9. Procedimentos metódicos das ciências: fundamentações e dispositivos auxiliares para as fundamentações.

As fundamentações não esgotam o conceito de procedimento metódico, embora tenham, uma significação central.
Todos os métodos científicos, que não tenham por si mesmos o caráter de verdadeiras fundamentações, ou são
abreviações e substitutivos das fundamentações, destinados a economizar o pensamento, ou representam dispositivos
auxiliares, que servem para preparar, facilitar, assegurar ou possibilitar as futuras fundamentações.

Existem métodos científicos que não têm, por si mesmos, caráter de fundamentação. Eles não servem de prova, mas
servem, ou para economizar raciocínio, para abreviar, como por exemplo, a estatística, ou então, como dispositivo auxiliar que
serve para preparar, para facilitar, assegurar, tornar possível as futuras fundamentações. Por exemplo, classificações que você
faz, com vistas a tornar abarcável o terreno que você vai trabalhar. A classificação pode ser até fictícia, que depois você conserta.
Existem uma série de procedimentos que fazem parte do método, mas não têm caráter de fundamentação.
Um método científico consiste, fundamentalmente, nas fundamentações. Estas devem ser as mesmas para todas as
ciências, ou devem obedecer aos mesmos esquemas. No entanto, os dispositivos auxiliares podem ser infinitamente variados
conforme os campos a que você recorre. É justamente porque tanta gente confunde uma coisa com a outra que não se percebe a
unidade da teoria da ciência que está subjacente a todos os métodos.
A Estatística tem que se fundamentar numa coisa que se chama indução. A indução é um tipo de raciocínio no qual
falta, justamente, a premissa maior. Falta o todo, e você só tem a parte. Tomando essa parte, você supõe qual é o todo, no qual
ela se encaixa. Se você tem uma premissa menor, e uma conseqüência a que ela se refere, então, deve haver uma premissa maior.
É uma suposição de silogismo. O fundamento da indução, em última análise, é o mesmo raciocínio entre todo e parte. A
indução, por si mesma, não é fundamento de nada, mas ela é um procedimento auxiliar.
A Estatística é um procedimento auxiliar da indução. Assim, a Estatística, por si mesma, jamais poderia ter valor
probatório. Ela tem porque existe a indução, e a indução, por si mesma, nada prova, porque ela depende da estrutura silogística
que ela subentende. Daí que o grande metodologista Karl Popper, diz que não existe indução nenhuma. só existe dedução.
A indução não faz parte da Lógica. A indução é um mero procedimento técnico, exterior à Lógica. Ela não é um método
científico, é apenas uma técnica auxiliar.

Assim, por exemplo, para referir-nos ao segundo grupo, é importante requisito para a segurança das
fundamentações que se expressem os pensamentos de um modo adequado, mediante signos bem diferenciáveis e
unívocos.

A terminologia adequada faz parte desses recursos e dispositivos auxiliares.

A linguagem, embora ninguém possa prescindir dela, é um instrumento sumamente imperfeito. Na definição
nominal vemos, pois, um procedimento metódico auxiliar para a segurança das fundamentações.

Isto é a definição nominal. Não sabendo o que é uma coisa, você define o sentido em que vai utilizar uma determinada
palavra, mesmo que não exista um objeto correspondente. Uma coisa é você dizer o que é algo; outra coisa é você dizer o sentido
em que vai usar a palavra.

Coisa semelhante sucede com a nomenclatura, o método de classificação, etc.


Exemplos do primeiro grupo de métodos nos são oferecidos pelos métodos algorítmicos,

Algoritmo é um esquema de uma operação que pode ser repetida indefinidamente, que pode ser cada vez mais
complexa, mas baseada sempre nesse mesmo modelo.
Se você acha um algoritmo que expresse uma seqüência complexa de operações, você pode pular essa seqüência
complexa, usando somente o algoritmo. Por exemplo, quando você faz um cálculo astrológico, você tem uma seqüência de
operações pré-determinadas. Você poderia reduzir aquilo a um algoritmo. Os programas de cálculo do mapa astral são feitos
assim.
Mas, tudo isso não valeria de nada se não tivesse a fundamentação por trás. Por quê o algoritmo funciona? Não é pelo
mesmo princípio do todo e parte? Toda e qualquer operação feita segundo aquele modo, obedecerá ao mesmo esquema. Então,
se em geral é assim, em cada um dos casos também será assim.

algoritmos, cuja função peculiar é poupar-nos a maior parte possível do verdadeiro trabalho dedutivo, mediante
ordenações artificiais de operações mecânicas com sinais sensíveis. Neste grupo entram também os métodos literalmente
mecânicos. Cada um destes métodos representa uma soma de dispositivos, cuja seleção e ordem estão determinados por
um complexo de fundamentações, que prova em geral que um procedimento dessa forma, anda que se realize de um
modo cego, há de proporcionar necessariamente um juízo particular objetivamente válido.

Não se pode esquecer que a seleção e a ordem desses métodos, quais os que se aplicam, é determinado por um
complexo de fundamentações, que em última análise vai cair na noção de evidência. Ou seja, se cair a evidência, cai tudo isso.
Entretanto, só existe evidência para o sujeito. Assim, se há o sujeito cognoscente, não há evidência. Uma coisa não pode
ser evidente em si, mas uma coisa pode ser verdadeira em si. A evidência não é um caráter inerente ao objeto. A evidência é o
tipo de relação que se estabelece entre a coisa e o sujeito cognoscente, de modo que se você retirar o sujeito, cai a evidência,
caem as fundamentações, caem os procedimentos de prova, etc.
A estrutura da Ciência é de tal maneira fundada na noção de fundamentação, que por sua vez, está fundada na noção de
evidência, que a própria Lógica só vale se o enlace de uma proposição com a outra for, ele mesmo, não um objeto de prova
lógica, porém uma evidência, como a do todo e parte.
Entretanto, acontece que o progresso dos meios auxiliares, pelo tamanho do progresso que as novas gerações de
cientistas, já educadas dentro de uma atmosfera criada por estes meios auxiliares, mecânicos, que isso pareceu mudar a própria
idéia do que fosse Ciência, ou conhecimento. De modo que, hoje em dia, a noção corrente de Ciência é a seguinte: partindo do
princípio de que os raciocínios lógicos e matemáticos, que dão à Ciência um caráter científico, já estão todos unificados pelo uso
de computadores, e espalhados pelo mundo. Isto significa que passa a ser científico, tudo aquilo que puder ser equacionado nos
termos do que esses computadores aceitem, e o resto que não puder ser colocado nessa linguagem, é retirado como irrelevante. A
cientificidade passa a poder ser medida mecanicamente, de acordo com programas pré-determinados. Parte-se hoje, sem
nenhuma necessidade de que um sujeito consciente examine aquilo. Assim, o que é científico ou não-científico, hoje em dia, é a
adaptabilidade a um determinado conjunto de programas.
Neste caso, não há mais o sujeito, não há mais a evidência, e com isso, não há mais a distinção entre verdadeiro e falso.
A Ciência é julgada, não em termos da sua veracidade ou falsidade, mas em termos de sua utilidade para o seu desempenho da
máquina total da pesquisa científica. É possível você fazer uma pesquisa científica sem nenhum cientista, mandá-la para uma
universidade, ninguém vai ler a sua pesquisa, ela vai ser aprovada, vai ser utilizada e vai ser repetida, sem quase que não haja
nenhuma interferência humana.
Neste caso, a própria distinção do prático e do teórico vai para as cucuias, não importa mais. O que importa é que o
conhecimento teórico passa a valer, não em função da veracidade ou da falsidade, mas em função da facilidade, maior ou menor,
do que ele se encaixe dentro do todo da pesquisa científica atualmente em curso, e é avaliado também segundo a sua capacidade
de otimizar essa máquina geral da pesquisa científica. Tudo isso sem a intervenção humana. Tudo vira um imenso piloto
automático.
Preleção XII

10 de fevereiro de 1993
Eric Weil disse em um dos seus livros que não é possível você apresentar os pensamentos de um filósofo com maior
brevidade do que ele mesmo apresentou.
Se fosse possível isso, o próprio filósofo o teria feito. Você só pode acrescentar alguma coisa a mais. Se você lê somente
um livro de Kant, e não a sua obra completa, você não vai ter nunca uma idéia completa de seu pensamento.

§ 9. Procedimentos metódicos das ciências: fundamentações e dispositivos auxiliares para as fundamentações.

As fundamentações não esgotam o conceito de procedimento metódico, embora tenham uma significação central.
Todos os métodos científicos, que não tenham por si mesmos o caráter de verdadeiras fundamentações, ou são
abreviações e substitutivos das fundamentações, destinados a encontrar o pensamento, ou representam dispositivos
auxiliares, que servem para preparar, facilitar, assegurar ou possibilitar as futuras fundamentações.

Isto aqui é uma coisa que vocês podiam tomar como um exercício. Em qualquer discussão sobre método científico, ao
invés de se falar sobre as fundamentações ( porque você deveria acreditar que tal ou qual afirmação científica é verdadeira, quais
são os princípios e critérios de credibilidade da Ciência ), ou se fala de substitutivos, abreviaturas, para economizar o
pensamento, ou se fala de dispositivos auxiliares.
Não é preciso dizer que a maior parte dos livros que atualmente se publica no Brasil, que constituem o método
científico, tratam apenas de abreviações ou dispositivos auxiliares. Se confunde a metodologia científica com a mera técnica de
pesquisa científica. A técnica que fundamenta os métodos. Os métodos, por sua vez, tem que ter uma fundamentação na teoria da
ciência, e daí você tem a técnica. A técnica vai se constituir sempre das duas coisas: método de economia de pensamento, ou
então, dispositivos auxiliares, que facilitam, asseguram, as futuras fundamentações.
Isto significa que o conceito de método científico está se tornando, cada vez mais, uma espécie de receituário da
pesquisa. Este receituário pode, facilmente, ser formulado em linguagem de computador, e nós chegamos ao ponto onde uma
pesquisa científica pode ser feita quase sem nenhuma participação da inteligência humana, e o resultado se devendo quase
exclusivamente ao mérito do autor do programa que está no computador. Como exemplo, o famoso livro de Paul Kennedy,
“Ascensão e Queda das Grandes Potências”, o qual é uma obra do computador. A obra não foi feita no, mas pelo computador.
Ele colocou no programa um monte de dados, e praticamente o relatório saiu pronto.
Em São Paulo, há um aluno meu, que trabalha na FIESP, e a função dele é justificar cientificamente tudo o que a FIESP
queira. Ele disse que eles têm lá um monte de programas desse tipo, para poder editar uma pesquisa científica em quinze
minutos. Ele se autodenomina um legitimador de discursos.
Essas técnicas estão muito avançadas hoje em dia. Por um lado, abrevia o tempo da pesquisa científica. Por outro lado,
isto abre a toda uma pseudo-ciência, à vigarice. Por exemplo, há programas para montar a redação do relatório final. É uma
fórmula do relatório. É preciso estar ciente que isso não permite nenhuma descoberta efetiva mas, sim, permite uma espécie de
retórica científica que logo vai se constituir, creio eu, em 90% da produção científica. Se for assim, você não precisa estudar
mais nada. Apenas informática. O resto, o conteúdo, somente uma pessoa precisa estudar.
É claro que tudo isso examinado à luz da teoria da Ciência, nem um por cento tem valor. Se você apertar o sujeito
quanto às razões da credibilidade, você não vai muito longe. O método científico seria, para abreviar, a sugestão de uma
seqüência de atos que, em princípio, seriam favoráveis para você obter a resposta a determinadas questões. Todo método é
hipotético. O método não é um conhecimento. O método é uma estratégia para você obter uma resposta a determinadas questões.
Este método, por sua vez, tem que se basear em algum princípio lógico que, por sua vez, se prolonga num conjunto de técnicas
que permite a sua realização material. Todo método é baseado num conjunto de fundamentações referentes a uma determinada
esfera do ser, da realidade. Se você não conhece as razões pelas quais essa esfera foi recortada assim, e não de outro modo, então
o seu método não tem fundamento. Quem diz que determinado assunto pode ser estudado, por tal ou qual ângulo, pelo qual você
deseja estudá-lo? O método, em si mesmo, ele vai se basear sempre num determinado recorte, que seriam zonas do ser. Essas
zonas são definidas pelo qual o Husserl chama de Ontologias Regionais. Se você não tem essas fundamentações, você não pode
tirar o método. O método é a maneira da descoberta, mas de uma descoberta que você não fez. Se você está pensando num
método, é porque você ainda não descobriu nada. É como se o método fosse um plano. A fundamentação vem da Ontologia
Geral, da Ontologia Regional, depois sai o método, e daí a técnica. Algumas ciências usam técnicas de outras ciências, querendo
colocar nelas, mas não tendo feito a ontologia regional.
A Ontologia é sempre uma resposta à pergunta: o quê é? Quid est? Sempre que você faz esta pergunta, você chega, às
vezes, a descobertas assombrosas, porque as coisas eram muito diferentes do que vocês imaginaram. Entretanto, se você já parte
de uma determinada definição, determinados conceitos, convencionais, habituais, costumeiros, e “bola” o seu método dali para
diante, o seu método também só terá valor consensual, ou hipotético. Isso aí faz com que você possa chegar a determinadas
descobertas que não deixam de ter validade, mas tem validade dentro de um corpo de hipóteses tão vasto que para você acreditar
nelas, praticamente você precisaria conceder preliminarmente uma credibilidade a toda uma enciclopédia de informações. Ou
seja, um monte de pressupostos, mais aquele, mais aquele, etc., então, essas descobertas seriam válidas. Se acontece desses
pressupostos serem compartilhados por toda uma comunidade humana, então o erro não aparece. Se você parte de crenças
comuns a respeito da natureza de tal ou qual fenômeno, dentro daquela coletividade não irá surgir dúvida alguma a respeito das
conclusões a que você chegou.
Porém, a inexistência de dúvidas numa determinada coletividade não quer dizer que as coisas criadas sejam realmente
sólidas. Não é um fundamento autônomo, com começo, meio e fim. É um fundamento consensual, baseado na crença pública,
numa determinada hipótese. Por exemplo, em São Paulo, fizemos uma investigação preliminar -- quid est? --, sobre o dinheiro.
O quê é o dinheiro? Chegamos à conclusão que o dinheiro não é um conceito econômico, mas sim um conceito jurídico. Se você
abordá-lo pelo lado econômico ele vai ficar cada vez mais enigmático. Embora você possa calcular todo o comportamento dele,
você jamais sabe o que é, e a partir de um certo ponto, a ciência econômica se transforma no que ela é hoje, um cálculo exato dos
desvios das suas próprias previsões. Nesse momento você começa a usar uma técnica, um instrumental cada vez mais
aprimorado, para estudar uma coisa cada vez mais obscura.
É justamente aí que entramos no que o Husserl chama de “crise das ciências”. Elas só formam uma retórica. O pior é
que, não havendo da classe científica uma consciência filosófica mais aguda, eles não têm nenhuma má consciência. O sujeito,
às vezes, não sabe que é um charlatão. Um filósofo, quando “chuta” muito, ele sabe que é um charlatão. O filósofo polonês
Kolakowski disse que, no século XX, nenhum filósofo esteve isento do sentimento de ser um charlatão. Mas, na Ciência, nós
não poderíamos dizer a mesma coisa. Raramente um homem de ciência tem esse senso agudo de ser um charlatão, e no entanto,
o sujeito, às vezes, é isso mesmo.
Para vocês que, um dia, estudaram essa ou aquele ciência em particular, deveriam estudá-la novamente, a partir dessa
velha pergunta -- quid est? --, porque aí vocês verão que as coisas serão diferentes, porque o que vocês sabem, de fato, é bem
menos. Embora sempre sobre uma margem de realidade, cuja natureza você desconhece, e suas implicações vocês também
ignorem, mas que, até certo ponto, podem ser manipuladas, usadas. Por exemplo, saiu no jornal a notícia de um computador que
obedece às ordens do seu pensamento, sem precisar de bater as teclas. Hoje, ele consegue escrever à razão de dois, três
caracteres por minuto. Se você procurar pela técnica que eles utilizaram para isso, verá que é apenas o aprimoramento da
eletroencefalografia. Cientificamente isso não é nada. É o mesmo princípio. Este tipo de descoberta te joga um pouco de areia
nos olhos. Você acha que é uma coisa fantástica, e que é algo novo, quando não é. O princípio é o mesmo. É só continuar
aprimorando que o computador vai conseguir escrever fluentemente.
O conceito público que se tem sobre a Ciência é o de que ela tem um domínio extraordinário sobre a realidade das
coisas. Não é bem isso. Na maior parte dos casos, são determinadas operações que você conhece e, geralmente, dentro de linhas
de avanços tecnológicos muito bem determinadas. São sempre as mesmas. Mesmo o avanço tecnológico, para ser algo diferente,
é muito raro. Vejam o caso dos supercondutores, que seriam uma coisa nova. Já provaram que não é tão fácil assim. Entretanto,
o público vê a classe científica como se fosse uma casta sacerdotal encarregada de conhecer o mundo, e dizer para todos como o
mundo é. Eles detêm o poder da visão, como a classe guerreira deteria o poder da ação. Qualquer camada intelectual sempre
exerce essa função. Como essa função, hoje em dia, parece caber à elite universitária, é natural que o povo lhe atribua todas as
características, e todos os poderes, que uma tribo de índios atribui ao seu pajé, e os povos antigos atribuíam aos seus profetas.
Lamentavelmente, não é bem assim.
Para resumir: temos, fundamentação, método e técnica. Temos a teoria da Ciência em geral, a teoria da Ciência em
particular, baseada na sua Ontologia Regional, depois temos o método, e depois temos a técnica. Depois você tem a Ciência
propriamente dita, posteriormente os resultados que, com tudo isso, ainda podem ser decepcionantes.
O problema é que, quando os métodos algoritmos passam a ser a própria essência da coisa, dá a impressão que a Ciência
é uma mágica que produz resultados do nada. Acontece que não existem atalhos. Tudo você tem que melhorar, começando
sempre pela pergunta, Quid est?

Assim, por exemplo, para referir-nos ao segundo grupo, é importante requisito para a segurança das
fundamentações que se expressem os pensamentos de um modo adequado, mediante signos bem diferenciáveis e
unívocos. A linguagem, embora ninguém possa prescindir dela, é um instrumento sumamente imperfeito. Na definição
nominal vemos, pois, um procedimento metódico auxiliar para a segurança das fundamentações.
Coisa semelhante sucede com a nomenclatura, o método da classificação, etc.

Tudo isso são esquemas para economizar pensamentos. Porém, essa economia é duvidosa. Há seqüências inteiras de
pensamento que, teoricamente, você poderia entregar para um computador fazer, e ele, de fato, o fará, de acordo com um linha
pré-determinada.
Acontece que me parece que o avanço real da Ciência não é feito exatamente assim. Em primeiro lugar, o computador
não opera intencionalmente. Ele não sabe para o que ele está pensando tudo aquilo. Mesmo que você tenha mil alternativas, ele
só irá operar dentro de certas linhas pré-determinadas. É como se você não estivesse ali para observar. É um procedimento
amplamente inconsciente. Isso pode ajudar, e pode atrapalhar.

Exemplos do primeiro grupo de métodos nos são oferecidos pelos métodos algorítmicos, cuja função peculiar é
poupar-nos a maior parte possível do verdadeiro trabalho intelectual dedutivo, mediante ordenações artificiais de
operações mecânicas com sinais sensíveis. Cada um destes métodos representa uma soma de dispositivos, cuja seleção e
ordem estão determinados por um complexo de fundamentações, que prova em geral que um procedimento dessa forma,
ainda que se realize de um modo cego, há de proporcionar necessariamente um juízo particular objetivamente válido.

Se você pega todos os programas de dedução que estão nos programas de computador, tudo isso está baseado nos
fundamentos mesmos da Lógica. Qual é a diferença de você operar com eles, e você ter uma convicção pessoal dos fundamentos
da Lógica? Há uma grande diferença. A própria facilidade que o indivíduo realiza a operação, não implicando da parte dele
nenhum esforço pessoal, pode fazer com que o indivíduo, no fim, até duvide do resultado da dedução, quando na verdade, está
certíssimo.
Quem vai ter que concordar, ou discordar, desse padrão, no fim, será o indivíduo. Se você, partindo dos fundamentos da
Lógica, faz uma dedução inteira, você obtém, no fim, uma certeza pessoal. Se você entrega isso para o computador, que te dá o
resultado no final, você pode não ter aquele sentimento de certeza, aquela firmeza pessoal.

Mas basta de exemplos. Está claro que todo verdadeiro progresso do conhecimento se verifica nas
fundamentações.

§ 10. A idéia de teoria e a idéia de ciência como problemas de teoria da ciência.

As fundamentações soltas ainda não constituem ciência. Esta implica certa unidade no conjunto das
fundamentações, certa unidade na série gradual delas; e esta forma unitária tem uma significação teleológica para
alcançar o fim supremo do conhecimento, isto é, não a investigação de verdades soltas, mas do reino da verdade, ou das
regiões naturais em que este se divide.

Isto aqui é fundamental, porque toda a articulação que se possa fazer de método científico, ela só se justifica em função
de uma determinada finalidade. Esta finalidade é nada mais do que a necessidade da verdade sobre determinada coisa; vai se
fundamentar no conceito da verdade e na idéia de um objetivo a alcançar. Este objetivo, que é a idéia pura de Ciência mesma, se
ele sai da sua frente, então toda a operação científica fica totalmente sem sentido. Você pode sempre se contentar em procurar a
verdade dentro de certos parâmetros. Por exemplo, definindo como verdade isso ou aquilo, e começamos a procurar a verdade
dentro desses parâmetros. Não se pode mais chamar isso de Ciência porque se você se baseia em determinados parâmetros, mais
ou menos convencionais, você está ...(?) pensamento hipotético, onde se esses parâmetros forem efetivos, então, tais ou quais
estudos serão verdadeiros. Mas, é próprio do pensamento científico exigir algo mais do que a mera hipótese, do que a mera não-
contradição.
A verdade descoberta dentro de certos parâmetros convencionais, é sempre uma verdade lógica, ou seja, uma verdade
que não implica contradição. Ora, uma coisa que não implica contradição é uma mera hipótese. Para ser verdadeira é preciso
algo mais que a não-contradição. Toda e qualquer confiança dada a parâmetros convencionais, ou pelo menos não-discutidos,
arrisca transformar todo o edifício da Ciência num conjunto de hipóteses muito interessante, mas fundadas apenas na não-
contradição interna. Por exemplo, o pessoal da Lógica Matemática desenvolveu um sistema dedutivo em tábuas completas de
alternativas, com as quais, de uma sentença, dada como verdadeira, tais outras se podem deduzir verdadeiramente ou não. Tudo
isso é, de fato, automatizado, mas todo o problema fica sendo sempre a primeira sentença que você vai colocar lá.
Um computador não poderia jamais trabalhar fora do parâmetro que você mesmo coloca. E esse parâmetro é que é o
ponto de discussão. O resto, pelo simples fato de ser uma dedução automática, não tem interesse em si mesmo.
A questão fundamental da Ciência é: o quê ela investigar, e por quê ela vai investigar? E, por quê investigar isso e não
aquilo? Não é tanto o como investigar. Todas as decisões científicas fundamentais estão colocadas antes do problema do método.
Dentro de muitas ciências você vê o contrário: é um conjunto de procedimentos muito exatos, para proceder às investigações, e
uma quase ausência de discussão dos conceitos básicos. Por exemplo, nós vimos isso com relação ao caso anterior do dinheiro.
Havia muitos economistas na discussão, e ninguém sabia o que era dinheiro. Jamais haviam pensado nisso. Confundiram
dinheiro com riqueza, com valores, com bens, com moeda.

A missão da teoria da ciência deverá ser, portanto, tratar das ciências como unidades sistemáticas, ou, dito de
outro modo, daquilo que as caracteriza formalmente como ciências, daquilo que determina sua recíproca limitação e sua
interna divisão em esferas, em teorias relativamente cerradas, de suas espécies ou formas essenciais, etc.

Este problema aqui é gravíssimo. A divisão da Ciência deve corresponder, em princípio, à divisão do ser em esferas, de
modo que você possa estar seguro de que um determinado tema, que está delimitado de tal maneira, a investigação de um outro
tema, vizinho, não interferirá em nada no andamento das investigações que você faça.
Nós podemos estar seguros de que as descobertas psicanalíticas não afetem em absolutamente nada as descobertas em
Geometria Descritiva. Isto porque são esferas do ser, realmente independentes. Este é o verdadeiro problema. Por exemplo, desta
discussão do dinheiro, chegamos à conclusão de que a Economia, entendida como uma ciência autônoma, em relação à ciência
do Direito, é uma coisa absurda. A Economia é uma divisão da ciência jurídica. O exame da questão do dinheiro nos leva,
fatalmente, a isso.
Que esta pergunta, simplesmente, não tenha sido feita, se explica pelo fato de que os indivíduos sempre tomaram o
dinheiro como uma definição normal. O que se chama de dinheiro dentro deste contexto? É como se eles falassem, não em
dinheiro, mas em “dinheiros”. Existem fenômenos diferentes chamados de dinheiro aqui e acolá. Aqui, o pessoal está chamando
de ...(?) Isto não chega a ser uma definição nominal, mas poderia ser uma definição iniciativa, definitiva, que indica mais ou
menos onde está, e como reconhecer um objeto quando ele se apresenta.
Mas, não diz o que é este fenômeno, em todos os casos. Sobretudo, não indica o seu parentesco, a sua semelhança, e sua
diferença com outras coisas que levam o mesmo nome, em outros contextos.
A própria idéia de que uma coisa como o dinheiro, possa ser objeto de um conceito geral, é uma coisa que para o
economista nos parecia estranho porque ele responderá sempre assim: o dinheiro varia conforme a sociedade, conforme a época,
etc. É como se dissesse que este é um fenômeno que só tem acidentes, só tem propriedades, ele não tem essência. O que é uma
absurdidade, porque se a coisa chega a ter propriedades, se chegam a acontecer acidentes, é porque algo ela é. O nada não sofre
nenhum acidente.
Se nós perguntarmos o quê é o dinheiro, não neste contexto, mas se buscarmos assim, algo que se denomina dinheiro, e
dado o qual, dele decorre, necessariamente, todas as propriedades reconhecidas a isto que chamamos de dinheiro, desde que o
mundo é mundo, nós haveríamos de encontrar alguma coisa.
A conclusão final será de que, o que se chama dinheiro, tem todas as propriedades que tem, realmente, e não só
nominalmente, pelo fato de que o dinheiro não é nada mais do que um direito. Isto jamais foi dito em toda história da Economia.
Se você parte do princípio de que o dinheiro é uma unidade de conta usado em determinado comércio, nós perguntaríamos: mas
como que uma unidade de conta poderia ter a propriedade produtiva que o dinheiro tem? Todos sabem que dinheiro rende
dinheiro. Uma simples unidade de conta não pode ter esta propriedade, portanto, esta definição está errada.
Mais ainda: o poder de ser desejado, ser ambicionado pelos homens, isto também é uma propriedade do dinheiro. Se
ele é apenas uma unidade de conta, um símbolo de um valor, então teríamos que dizer que a humanidade, ao desejar dinheiro,
estaria completamente louca, porque ela deseja um símbolo. A moeda é desejada não por um fetichismo, mas é desejada porque
ela lhe corresponde a um direito real, assegurada por uma autoridade. O sujeito que deseja dinheiro, ele não está desejando um
símbolo, o que ele quer é um direito.
O dinheiro é uma abstração em relação aos bens, e o crédito é uma abstração em relação ao dinheiro. Tanto o crédito,
quanto o dinheiro, você pode resumir num conceito único, que é um direito. Em Direito, a definição de dinheiro é uma
quantidade determinada de bens indeterminados. Mas, não haveria dinheiro em hipótese alguma, a não ser que haja uma
autoridade que garanta ao possuidor do dinheiro, seja em forma de moeda, de madeira, de cheque, nota promissória, de uma
quantidade abstrata marcada num cartão, não importa. Todas as formas de dinheiro são sempre um direito que é assegurado por
uma autoridade. Se não houver uma autoridade co-autora, que obrigue você entregar uma determinada quantidade de bens em
troca de uma determinada quantidade de dinheiro, o dinheiro não vale rigorosamente nada.
O aspecto simbólico é irrelevante. O aspecto de unidade de conta também é irrelevante, porque você não precisa fazer as
contas em dinheiro. Você pode fazer as contas em qualquer outra unidade. O único aspecto relevante é o jurídico. O dinheiro se
baseia numa autoridade, a qual tem um poder coercitivo. Este é o único conceito de dinheiro que se possa admitir como
científico.
Rasgar dinheiro, por exemplo, é um crime porque você está contestando a autoridade que garante aquele dinheiro. Se
fosse um símbolo, você poderia rasgá-lo à vontade, porque não faria diferença alguma. O próprio Karl Marx, de tanto entender
disso, ele foi obrigado a explicar a cobiça do dinheiro pelo lado demencial, pelo lado fetichista. Isto é a mesma coisa que dizer
que toda a humanidade desejando dinheiro, são todos uns loucos. O primeiro que percebeu essa demência foi Marx.
O dinheiro, por ser um direito a uma quantidade de bens qualitativamente indeterminados, ele tem uma propriedade a
mais que os outros não têm, que é a sua conversibilidade universal. Ele é o único bem que pode ser trocado imediatamente por
qualquer um, e os outros não, só podem ser trocados por bens determinados. você pode trocar dinheiro por dinheiro, trocar
dinheiro por crédito, que é uma espécie de direito a um dinheiro, e assim por diante.
É errado dizer que o dinheiro é um bem, porque ele não chega a ser um bem, porque se ele fosse um bem, ele teria um
valor de uso. Dinheiro não tem valor de uso ( a não ser como papel higiênico... ), ele só tem valor de troca. Nós poderíamos dizer
que as moedas cunhadas em ouro são uma espécie de equívoco, porque seria como se fosse uma pompa da autoridade, seria por
motivos simbólicos. Se fizermos uma moeda de plástico, com um valor facial, e uma assinatura, o que vale é a assinatura, e não
o material plástico. Por isso a moeda de ouro foi um equívoco, na medida onde se você tem uma coisa com valor de uso, pode
ser que num determinado momento, o valor de uso seja maior que o direito que aquela moeda lhe assegura. Então, a autoridade
se desmoraliza, e ela já não é mais dinheiro.
Em suma, o dinheiro não é nada mais do que um direito. O direito tem que ser provado de alguma maneira, então, você
tem uma moeda, um papel, ou um sinal material que ateste este direito como, por exemplo, um contrato. O dinheiro é um direito,
e a moeda é um documento que atesta este direito. Ou seja, é um conceito inteiramente jurídico, e não econômico em si. O
surgimento do dinheiro é um dos fatos da progressiva introdução de uma ordem jurídica na esfera econômica.
O Direito é uma coisa que se alastra. Existe cada vez mais intervenção do Direito em todos os domínios da vida. Isto é
uma das poucas constantes que existem na história do mundo. Cada vez que o Direito se alastra, significa que a autoridade vai
colocando seu dedo em cada vez mais domínios da vida. O advento do dinheiro é um passo importantíssimo desse progressivo
fenômeno que o Miguel Reale chama de “jurispação da vida”, ou seja, o Direito vai ordenando, moldando a vida.
Assim, sendo uma realidade de ordem fundamentalmente jurídica, não tem como você explicá-la fora do fenômeno do
poder, e que a autoridade sem poder é nada. Você resolveria a coisa inteira na base da Política e do Direito.
Eu dou um doce para quem conseguir me apresentar um conceito puramente econômico do dinheiro. Um conceito sem
interferência de ordem jurídica, e que não seja meramente nominal, indicativo, e sim, um conceito do qual decorram todas as
propriedades reais do dinheiro. Entre os quais, o primeiro deles é o seu famoso poder produtivo.
Na Idade Média se achava que o dinheiro não tinha poder produtivo, porque para eles o dinheiro era um símbolo, e o
que tinha o poder produtivo eram os bens. Eles se esqueceram que o dinheiro é, quaisquer bens, e por isso mesmo é melhor você
ter dinheiro do que ter bens. O dinheiro é abstrato em relação aos bens considerados. Mais tarde, é melhor você ter crédito do
que ter dinheiro, porque o crédito é o dinheiro do dinheiro. O crédito é mais abstrato, portanto, mais abrangente. E é por isso
mesmo que ele tem o poder de produzir. Mais vale Cr$ 10,00 do que Cr$ 10,00 de bananas, porque as bananas só poderão ser
trocadas por quem necessite de bananas.
A universalização do crédito ( cartão de crédito ) é um outro passo, fundamental, nessa “jurispação” da atividade
econômica. Ou seja, você não precisa nem mostrar o comprovante. O crédito já te é dado por conta de um documento que está
arquivado em algum lugar, do qual você não tem cópia. Mais tarde será possível você ter isso sem cartão de crédito, por
exemplo, pelo toque da sua mão numa máquina que o reconheça.
O dinheiro tem toda a característica do direito, que é uma bilateralidade, ou seja, o direito de um corresponde a uma
obrigação do outro, e esse direito, e essa obrigação são garantidas por uma autoridade mediadora. A inflação, por exemplo, é ou
não é uma propriedade do dinheiro? Claro que é! A inflação não pode ser explicada por um acidente. Ela é uma propriedade pela
simples razão de que a autoridade que garante o funcionamento daquilo, que garante a ordem jurídica, e portanto, o valor do
dinheiro, ela também toma parte na atividade econômica. Ela também compra, vende, toma emprestado, etc. Só não existiria
inflação na hipótese de você ter uma autoridade que estivesse fora e acima da atividade econômica. Mas como ela participa da
atividade econômica, tão logo ela esteja endividada, ela mudará o valor do dinheiro. Até o Banco Central precisa de dinheiro
para pagar os funcionários, conta de luz, etc. Para isso não acontecer teria que existir um banco abstrato, que tenha uma não-
sede, que empregue não-funcionários, etc. Se o Banco Central participa da atividade econômica, ele não pode ser um árbitro
totalmente isento. Isto significa que, a partir da hora que existe o dinheiro, a inflação decorrerá disso, quase que necessariamente.
A possibilidade de existir inflação é muito maior do que a de não existir. A não ser que a autoridade seja absoluta, ou seja, a
autoridade seja proprietária de todos os bens colocados dentro do seu território. Neste caso, ela estará acima da atividade
econômica, porque ela desenvolverá dentro dos domínios da autoridade. Então, a situação é a seguinte: ou a tirania absoluta, ou a
inflação.
Por outro lado, nós sabemos que a inflação decorrerá sempre do endividamento da autoridade, ou da cobiça ( ela pode
não estar endividada, mas pode querer sempre mais ). Assim, o endividamento da autoridade é a única causa da inflação. Todas
as outras causas são acidentais. O endividamento da autoridade significa que ela não tem bens suficientes para arcar com seus
compromissos. Isto significa que a autoridade é ilegítima, que não tem poder de fato para se sustentar. Se tivesse, ele,
automaticamente, se traduziria em bens. Por exemplo, seria o caso do antigo Estado soviético: seria um Estado ilegítimo porque
tudo é dele, inclusive o pensamento das pessoas. Fora disto, a autoridade terá sempre um coeficiente de ilegitimidade. Não pode
existir uma autoridade totalmente ilegítima, que seria aquela que tem o poder integral de fazer tudo o que quer. Ou seja, a falta
de poder é a ilegitimidade. Um governo legítimo é aquele que é efetivamente obedecido. A obediência é prova de legitimidade.
Se o povo aceita, quem está no poder, fica.
Então, sempre haverá um coeficiente de ilegitimidade, que corresponderá a um coeficiente de inflação. Se a inflação é
alta, é porque o governo tem pouco poder, e ele terá que governar na base do truque, da mentira. Por outro lado, não é preciso
dizer que a sociedade estruturada assim, está toda montada na mentira. Se o Estado vive do seu próprio endividamento para com
a sociedade, nós seríamos, teoricamente, credores de um governo que pode nos por na cadeia a qualquer momento. Sendo uma
sociedade montada na mentira, não é possível que nada dentro da sociedade seja claro, definido. Por isso que as grandes crises
inflacionárias correspondem a grandes crises psicológicas, são épocas de loucura. Vide a Alemanha entre as duas guerras. Foi a
época onde surgiu o cinema expressionista, O Vampiro de Dusserldorf, etc. O povo só pensava em demônios, vampiros, etc.
O fenômeno da inflação, que é tão enigmático, pode ser simplesmente deduzido como uma propriedade, partindo-se do
conceito de dinheiro. Assim, depois de ter comida, roupa e moradia, é melhor ter dinheiro do que ter bens. O capitalista quer um
acréscimo de dinheiro, que corresponda a um acréscimo de poder efetivo. Nada mais normal e são na humanidade do que querer
isto. No entanto, se você perguntar por quê querem tanto, aí nós teremos que transmutar a pergunta: por quê o homem quer
poder? Neste caso, saímos da Economia e entramos na Psicologia Política. Já é um outro problema.
Eu falei tudo isto aqui por causa do problema da divisão de esferas relativamente cerradas. Algumas pessoas sustentam
que a partir da psicologia animal você pode esclarecer a psicologia humana. Ao contrário, eu acho que é mais capaz de você
explicar o animal, a partir do homem. O homem pode ser tão animal quanto o rato, mas o rato não pode ser tão gente quanto o
homem.
Nas ciências ditas humanas, a partir do próprio conceito de ciências humanas, quase todos os conceitos são
transposições. Por quê? Porque as pessoas não fazem a questão principal: quid est? A própria herança cultural, as descobertas de
um geração são transpostas para uma outra, são tomadas como um ponto de partida, e aceitas como resultados convencionados.
Na discussão que tivemos sobre o dinheiro, em São Paulo, foi quase impossível evitar que as pessoas discutissem a
questão a partir das noções dadas, ou por Karl Marx, ou por Adam Smith, etc. O sujeito não responde o que é dinheiro. Ele
responde o que Karl Marx, ou Adam Smith, disseram a respeito do dinheiro. Ou seja, quanto mais o sujeito estuda, mais burro
fica, porque ele não consegue fazer a pergunta básica.
Esta é a proposta do Husserl: voltar às coisas mesmas. É claro que você não vai abolir essa herança cultural, mas você
vai tentar descobrir o fenômeno, a coisa tal qual ela representa, e não a sucessão de interpretações que foi feita em cima dela. As
interpretações também têm lá o seu valor, mas elas só adquirem um valor a partir do momento que você tem um fenômeno. O
quê adianta eu saber o que Karl Marx fala sobre o assunto, se eu não sei o que é dinheiro? Ademais, Karl Marx também não
disse o que é...
O quê você acha da opinião de Aristóteles sobre PTLX? Aristóteles pode ter dito algo sobre PTLX, eu posso ter
estudado a opinião dele, discorrer sobre ela, mas eu não sei o que ele está falando. Se você soubesse o que é PTLX, o conceito
obtido por você mesmo esclareceria e te daria critérios de avaliação para você saber o significado, o valor relativo das opiniões
de Aristóteles. Vejam, por exemplo, as opiniões que as pessoas têm sobre alguém que você desconhece; é mais ou menos isso.
Por isso mesmo a abordagem histórica da Filosofia é um problema gravíssimo. Se você não ataca o conceito mesmo,
você vai ter uma sucessão de opiniões sobre assuntos desconhecidos.
Estas distinções que nós estamos fazendo aqui, agora, com relação aos vários campos de conhecimento e da sua
separação, mais ou menos relativos, nós deveríamos exercitar isso o tempo todo. Senão fica aquela coisa de ginástica pela TV,
onde o instrutor não sabe se os alunos que estão assistindo ao programa estão realmente fazendo a ginástica. A parte prática
deste curso é totalmente feita por vocês. Por isso, não é um ensino propriamente dito, pois não há um acompanhamento do
aprendizado do aluno.
Uma coisa que seria interessante de mostrar para vocês, seria aqueles 150 internatos que existem nos Estados Unidos,
onde há uma forma de ensino mais integrada, mais global. Entretanto, eu acho que este curso aqui, sua forma pedagógica, é
melhor, principalmente no aspecto teórico, porque o conceito que eles dão lá é da educação liberal, que é um conceito muito
bonito, mas puramente pedagógico, sem um embasamento filosófico firme. Ele não tem unidade teórica. Ele foi feito na base do
pragmatismo, da experiência acumulada, que tanto pode dar certo, como pode dar errado. Muitas vezes a educação liberal se
perde naquela coisa vaga de cultura geral, onde você dá uma “palhinha” de cada assunto, aprende umas opiniões aqui e ali, e
você vira uma espécie de diletante. Neste erro nós não caímos.
Porém, isso que estamos aprendendo é só uma teoria, uma hipótese. Não sei se vocês vão dar uma continuidade para
isso, mas eu estou fazendo a minha parte. Eu faço o que tem que ser feito, e pouco me importa se vai dar certo ou errado. O
homem põe, e Deus dispõe.
A força deste curso é a sua unidade, embora isso ainda seja sua fraqueza, porque esta unidade ainda está apenas na
minha cabeça. Seria preciso que algumas outras pessoas fossem capazes de captar a unidade profunda deste curso, fundada na
Teoria dos Quatro Discursos, com todas as suas implicações morais, psicológicas, etc., e decidissem tocar este trabalho adiante.
Isto ainda não aconteceu, mas por enquanto vocês podem ter uma idéia do estado de coisas, a partir dessas entrevistas que nós
estamos fazendo. Por aí vocês podem ter uma idéia de quanto a formação dos indivíduos não é propriamente uma formação. Na
verdade, ela é disforme.
Dificilmente você encontra uma pessoa que tenha alguma colocação filosófica clara perante o mundo. Uma colocação
autônoma, que venha dele mesmo, e por isso mesmo a nossa cultura é derivada, subdesenvolvida, é um efeito de uma outra
cultura. Durante mais de cem anos se acreditou que a cultura nacional seria autônoma, caso ela lidasse com os nossos temas,
com os nossos problemas e adquirisse um caráter local. Esse é o grande erro. Uma cultura não é autônoma por tratar de
problemas locais. Ela é autônoma quando é capaz de partir dos problemas desde a sua raiz. Quando ela tem uma colocação,
fundamentalmente dela, perante os problemas básicos. A autonomia deve ser vista quase em termos de auto-suficiência, no
sentido de que se nós desconhecemos tal ou qual resposta dada por um filósofo alemão, ou grego, a tal ou qual problema, isso
não nos fará falta porque nós já pensamos nesse problema também.
A nossa cultura toda pega os problemas já muito elaborados. Nós sempre estamos trabalhando a partir de palavras,
frases, posturas prontas, e não através de um enfrentamento direto do problema. Vocês verão que todos os nossos intelectuais já
fazem um discurso a partir de uma certa empostação que ele recebeu de uma cultura estrangeira, tomada no ponto atual do seu
desenvolvimento, quando a verdadeira autonomia seria conseguida quando você pegasse esse material estrangeiro, não a partir
do seu ponto atual, mas do seu ponto de partida. De fato, não interessa tanto você acompanhar a produção cultural e a evolução
das idéias agora, quanto você enfrentar os problemas pela sua própria conta. Percorrer o caminho por sua própria conta. Daí
vemos a tremenda importância da obra de Mário Ferreira dos Santos. Ele é o único pensador brasileiro, irredutível a qualquer
hipótese. Não que ele trate de problemas nacionais, mas de problemas eternos. Por isso mesmo ele é uma fonte rica, e talvez por
isso mesmo ele é recusado, porque só consegue entrar no debate cultural brasileiro se as pessoas conseguem identificar o que for
corrente, ou estiver na moda. O certo seria dizer que só existiu, em toda a história brasileira, um único filósofo, que é o Mário
Ferreira. O resto são filosofantes, que pegam certos temas que estão em discussão, e acompanham nos termos que já estão
colocados. Quando, na verdade, é próprio da Filosofia recusar todos os temas que já estejam em discussão, e recomeçar tudo de
novo. Refazer o caminho é a essência da Filosofia.
A Filosofia é uma atividade individual, na qual o indivíduo enfrenta o problema diretamente, num plano de
universalidade, sem a mediação do geral.
É justamente onde a herança cultural da sociedade não socorre o indivíduo, é ali que começa a Filosofia. Se a herança
cultural já traz todos os problemas resolvidos, então não há necessidade de se filosofar. Ninguém vai filosofar sobre o que não
precisa.
Isto também acontece com os outros departamentos. Vejam, por exemplo, a literatura brasileira. Se você pensar bem, ela
começa e acaba com Machado de Assis, que é o único que você pode dizer que é uma fonte. Os outros são, de certa maneira, um
prolongamento. Não há nenhum autor ficcional, do mundo, onde tudo o que acontece no livro, seja uma perfeita simulação. Esta
simulação da linguagem, onde não interessa sequer saber se é verdadeira ou falsa, isso foi Machado de Assis quem inventou.
Depois outros tiveram a mesma idéia, mas o próprio Pirandello, que trata da simulação, a estética dele não é simulada. Ele é um
autor naturalista escrevendo sobre personagens simulados. Aquelas coisas vivas são simuladas mediante uma técnica naturalista.
Mas Machado de Assis, não. A falsidade era uma essência não só psicológica dos personagens, mas a essência da própria
estética de Machado de Assis.
Pegue um livro de Robert Schweitz (?) e ele vai explicar como que isso se tornou possível. Era preciso uma condição
social muito particular para permitir o surgimento de uma estética dessas. E como só aqui foi possível essa condição social,
Machado de Assis é um autor que desorienta os leitores estrangeiros, porque é tanta ambigüidade que fica difícil eles
compreenderem isso.
Saiu há pouco uma tese, um livro, que prolonga a história da Capitu, onde ela, com cem anos de idade, conta a sua
própria história, e ela confessa que transou mesmo com o tal de Escobar. Mas, aí perdeu a graça, porque o interessante é você
ficar sem saber se aconteceu ou não a transa. Mas, tudo funciona como se fosse. Essa é a essência do Brasil.
Tudo isso aí para dizer que ninguém poderia nos inspirar mais a isso do que o próprio Husserl, por exemplo, sacar as
coisas diretamente. Você não pode mudar toda uma tradição que está atrás de você, mas você a coloca entre parênteses. Você
não endossa. Entretanto, aqui no Brasil, o sujeito com vinte anos de idade já aderiu a alguma coisa. O sujeito acaba de entrar
para uma escola de Psicologia, e ele já é junguiano, reichiano, freudiano, etc., e fica nisso o resto da vida. Há pessoas que
fizeram toda uma carreira baseado na idéia de ser representante de, por exemplo, Jung, ou Reich. Se você não adotasse uma linha
única, as pessoas ficam desorientadas, e não sabendo o que fazer com você, então não fazem nada. É exatamente o que fizeram
com o Mário Ferreira.
Preleção XIII

11 de fevereiro de 1993
Cabe subordinar igualmente este tecido sistemático de fundamentações ao conceito de método, e atribuir
portanto à teoria da ciência a missão de tratar não somente dos métodos que se apresentam nas ciências, mas também
daqueles que se chamam ciências; não só distinguir as fundamentações válidas das não válidas, mas também as teorias e
as ciências válidas das não válidas. Esta missão não é independente da anterior, pois a investigação das ciências como
unidades sistemáticas não é concebível sem a prévia investigação das fundamentações.

Quando você fala de ciências válidas e não-válidas, um exemplo de uma ciência não-válida seria uma que tivesse ...(?) a
respeito, por exemplo, do conceito da Economia. A Economia como ciência natural, evidentemente, não é válida. Ela pode ser
alguma outra coisa, não uma ciência natural. Uma proposta assim seria totalmente inviável, porque não existe o objeto
correspondente. Então, você teria que situá-la numa outra relação com outras ciências. Seria, em parte, uma ciência normativa,
em parte uma ciência histórica.

§ 11. A lógica ou teoria da ciência como disciplina normativa e como arte.

Uma ciência é verdadeiramente ciência, um método é verdadeiramente método, se é conforme ao fim a que tende.
A lógica aspira a investigar o que constitui a idéia de ciência, para poder saber se as ciências empiricamente dadas
respondem à sua idéia, e até que ponto. A lógica renuncia ao método comparativo da ciência histórica, que trata de
compreender as ciências como produtos concretos da cultura das distintas épocas, por suas peculiaridades e
generalidades típicas, e explicá-las segundo as circunstâncias dos tempos. A essência da ciência normativa consiste em
fundamentar proposições gerais em que, com relação a uma medida fundamental normativa -- uma idéia ou fim supremo
--, são indicadas determinadas notas, cuja posse garante a acomodação à referida medida. Isto não significa que a ciência
normativa deva dar necessariamente critérios gerais; assim como a terapêutica não indica sintomas universais, nenhuma
disciplina normativa dá critérios universais. O que a teoria da ciência em particular pode dar-nos são critérios especiais.
Quando a norma fundamental é ou pode chegar a ser um fim, brota da disciplina normativa uma arte. A teoria
da ciência se converte em arte da ciência.

§ 12. Definições da lógica inspirada nesta concepção.

Definições como: arte de julgar, de raciocinar, do conhecimento, arte de pensar ( l’art de penser ) são equívocas.
O fim da arte em questão não é propriamente o pensamento, nem o conhecimento, mas aquilo para que o pensamento
mesmo é um meio.
Mais se acerca da verdade a definição de Schleiermacher, ao dizer que é a arte do conhecimento científico.
Se você definisse a Lógica como arte, ou técnica do conhecimento científico, você está pressupondo um determinado
fim para um conhecimento científico para cuja consecução essa arte daria as normas. Esta definição seria incompleta porque
haveria uma falta; você incumbiria a própria Lógica de definir o que é conhecimento científico, e o que não é conhecimento
científico. Você incumbe a ela também determinar o fim. Por isso que Husserl propõe esta definição da Lógica como teoria da
Ciência. Ela seria uma ciência da Ciência, que vai determinar os caracteres do que seja o conhecimento científico como fim,
como meta a ser alcançada, e em seguida verificar os meios pelos quais se pode alcançar isso.
É importante o que ele diz aqui, que não interessa para a Lógica as ciências efetivamente existentes, encaradas do ponto
de vista histórico como realidades porque, por um lado, ela é uma ciência pura, que investiga a idéia de Ciência, e por outro lado,
é uma arte ou técnica do conhecimento científico considerado em geral, ou seja, independentemente das suas realizações, e das
realizações que historicamente tenham alcançado nessa ou naquela época. A idéia de que a Ciência é tudo o que trata do
corpóreo, isso poderia ser admitido até como uma realidade histórica.
Durante uma fase houve uma certa tendência implícita, na comunidade científica, a só admitir como Ciência, por
exemplo, a Física, ou a Química, e todas as outras como pseudo-ciências. Isto aconteceu durante uma certa fase; nunca chega a
ser uma idéia dominante em toda a comunidade científica, e é apenas um evento histórico que não tem nada a ver com a idéia de
Ciência. No século passado, mal se formou essa tendência, já estavam se formando as ciências sociais, as ciências humanas. Isso
aí é fazer uma tendência pequena, de uma manifestação local, histórica, a própria idéia de Ciência. Também, isso é confundir a
expressão matematizável com o que é corpóreo -- não tem nada a ver. Hoje em dia, você não pode nem dizer que a Física lida
com o corpóreo. Temos, hoje, o neutrino, que é uma partícula que é capaz de atravessar dois buracos ao mesmo tempo...
A idéia de Ciência é aquela que está aqui no texto de Husserl. Qualquer coisa que atenda a isto aqui, em mais ou em
menos, participa, em mais ou em menos, do caráter de Ciência. Seja Astrologia, seja Profecia, etc.
Vejam que não existe nenhum conhecimento de ordem religiosa que não pretenda possuir um pouco desse caráter de
Ciência. Isto é fácil de ver quando todas as religiões argumentam em causa própria na base de uma veracidade que atenderia a
esses requisitos da evidência. Uma revelação é uma evidenciação, tornar evidente o que você não via antes, o que você passa a
ver a partir de um certo momento. É muito difícil você dizer que para Moisés, no alto do Monte Sinai, que o conhecimento ali
adquirido não fosse evidente. Ele teria um problema de transmissibilidade, mas não lhe faltaria a evidência, pelo menos para
quem estava lá.
Não seria impossível você imaginar a hipótese de que você, através de uma técnica, permitisse o acesso de um indivíduo
a determinadas vivências que lhe dariam uma evidência que os outros não têm. Tudo isso você precisaria deixar em aberto. Ou
levamos a sério a idéia de Ciência, e não tentamos usá-la, nos escondendo atrás dela, e defendendo concepções que no fundo são
a preferência do indivíduo, ou ela só serve para jogar pedra nela, que é o que muitos fazem. A alternativa é deixar em aberto a
questão de quais as ciências que realizam, e quais as que não realizam; quais as que podem, e quais as que não podem. Mesmo o
fato de uma determinada ciência jamais ter historicamente chegado a realizar esses requisitos, não quer dizer que ela não seja
uma ciência. Quer dizer apenas que no decorrer do tempo, e nas condições reais que se desenvolveu aquele estudo, não se
chegou a realizar.
Enquanto não houver uma demonstração de uma impossibilidade intrínseca, você não pode negar o caráter de uma
ciência. Você pode dizer apenas que a coisa é duvidosa. Ainda não se pode dizer que, por exemplo, a Ufologia seja uma ciência.
O único problema é a definição do objeto, pois UFO é um objeto não-identificado, e que voa. Você parte de uma definição
negativa. A Ufologia tem uma contradição intrínseca, pois ela supõe uma classe de objetos, não-identificados, que no entanto,
tem certas propriedades em comum -- é uma auto-contradição. Por exemplo, a Ufologia não pode pressupor a origem desses
objetos. Se eles são não-identificados você não sabe rigorosamente o que é. você apenas pressupõe uma origem extraterrestre. Se
você diz que é uma nave interplanetária, como você diz que é não-identificado? Está perfeitamente identificado. Boa parte
desses conceitos de não-identificados existe justamente no sentido de atender a uma espécie de objetividade privativa. Como é
que você alcança um conhecimento objetivo? Uma vez definido certos requisitos do conhecimento científico, alguns indivíduos
acharam que para você alcançar uma objetividade científica passaram a se privar de certos pressupostos subjetivos. Isso é o que
eu chamo de objetividade privativa. É o não-envolvimento do indivíduo.
A partir da Renascença, surge a idéia de que os objetos apresentam certos caracteres que só podem ser percebidos
subjetivamente, como por exemplo a cor, a forma. Mas há outros que não dependem do indivíduo, que podem ser vistos de
maneira independente, por exemplo, a extensão, o volume, etc. Caracteres primários seriam aqueles mensuráveis objetivamente
independentemente da sua percepção de indivíduo concreto. Os outros caracteres seriam secundários, como a cor. Isto sugeriu a
idéia de que só seria objeto real do conhecimento científico aquilo que pudesse ser medido independentemente de um sujeito
com percepção concreta. A partir daí se desenvolve o que eu chamo de objetividade privativa, ou seja, você apagando uma parte
dos caracteres de um objeto, o resto que sobra é objetivo. Por exemplo, suponha uma sala. Nesta sala há partes que só podem ser
vistas por determinados indivíduos desde a posição que eles estão. E há partes que podem ser vistas por todos ao mesmo tempo.
A primeira parte nós vamos chamar de subjetiva, e a segunda, de objetiva. Reduza esta sala à parte que todos vêem ao mesmo
tempo, e o resultado não se parecerá absolutamente com esta sala. Isto é objetividade privativa.
Em Física se acreditava que o volume, o peso, etc., não dependeriam do indivíduo, e que todos veriam a mesma coisa.
No entanto, a recepção à cor depende de um determinada estrutura do indivíduo. Um daltônico, por exemplo, vê diferente. Mas
se para conseguir objetividade bastasse isso seria muito fácil. Além do mais, os objetos assim descritos ficariam muito diferentes
dos objetos de percepção. Para isso, nós teríamos que supor que por trás do mundo perceptível, existe um outro mundo, que é
composto apenas das qualidades matemáticas dos seres, e que este é o verdadeiro mundo objetivo. Mas a seleção dessas
qualidades matemáticas é abstrativa. Esta abstração não se faz sozinha. Alguém tem que fazer. Então, foi você quem selecionou.
Do conjunto que você percebeu, você separou uma metade, que por ser matematizável, não tem sentido você dizer que ela é mais
real, mais objetiva do que a outra. Seria o caso de perguntar: uma cadeira é uma cadeira, ou é um feixe de átomos? Parece uma
cadeira, mas no fundo é um aglomerado de átomos. No entanto, você pode inverter o raciocínio e dizer que isso é, na verdade,
um feixe de átomos, mas parece como se fosse uma cadeira. Acontece que um feixe de átomos poderia ser observado
independentemente do uso que você faz e do significado que você atribui ao feixe, mas a cadeira, não. Quem diz que uma escala
é mais válida do que a outra? É o non-sense completo. E mais, além de ser um feixe de átomos, eles não estão agrupados de uma
maneira qualquer, porque se uma cadeira é um feixe de átomos, um elefante também é. A diferença que existe e que caracteriza
o objeto não é se ele é composto de átomos, partículas, mas a forma como eles se agrupam. De modo que, a noção de que a
visão física do mundo como composto de partículas que se atribui um movimento, ela teria, por conseqüência, abolir a diferença
entre as formas dos objetos e sobrar somente a matéria de que eles são compostos. O quê seria o mundo se fosse apenas
composto de partículas em movimentos e que elas não se agrupassem em formas reconhecidas? Não se pareceria em nada com
este mundo! Isto seria a mesma coisa que dizer que o José é de fato um monte de carbonos, mas acontece que esse monte de
carbonos se agrupou de tal maneira, e com tais propriedades, que deu num negócio que nós chamamos de José.
Os objetos não têm a sua forma individual determinada pelo fato de serem compostos de partículas, mas por alguma
outra coisa. O mundo das realidades físicas é um mundo abstrativo, que está colocado, por assim dizer, por baixo deste mundo
como a sua matéria. Também, para mim, é óbvio que não existe nem um único objeto no mundo que possa ser inteiramente
caracterizado apenas por suas propriedades físicas -- não é possível. Como você distinguiria fisicamente, por exemplo, um jacaré
de uma lagartixa? Será que o jacaré não tem algumas outras propriedades? Será que é por causa do tamanho? Se existisse uma
lagartixa de três metros de comprimento, ela deveria subir nas paredes do mesmo jeito. O conjunto das propriedades físicas,
químicas, de uma determinada substância não chega a constituir essa mesma substância, individual, real, concreta. Mas chega a
constituir, por exemplo, uma espécie. Os objetos que a Física estuda são classes, não objetos reais. Ela estuda classes,
distinguidas apenas por suas propriedades físicas. Se são classes, são entidades lógicas, e não entes reais.
No fundo, isso é uma espécie de platonismo, você dizer que as classes são mais reais que os indivíduos que as compõe.
Todo o mundo da Física moderna é muito embuído da idéia platônica de encontrar por trás da realidade sensível, uma outra que
seria a verdadeira realidade, composta apenas de combinações matemáticas. Isto seria um platonismo intra-mundano. Ao invés
de colocar as idéias puras no céu, as colocam aqui mesmo, e consideram mais reais do que os entes fisicamente considerados.
A idéia de dizer, por exemplo, que o sistema de Copérnico é mais verdadeiro que o sistema de Ptolomeu, na verdade é
mais uma questão de mudança de escala. Copérnico disse que a Terra gira em torno do Sol, mas se você observar desde um outro
ponto de vista, você vê que também não é a Terra que gira em torno do Sol. Ambos descrevem um determinado movimento que
tem como pólo a estrela Vega, e que dá a impressão que a Terra gira em torno do Sol, se você considerar apenas os dois. Assim,
visto da escala da percepção normal humana, o Sol gira em torno da Terra. Visto da escala do sistema solar exclusivamente, a
Terra gira em torno do Sol. Visto de uma outra escala, nenhum gira em torno do outro, mas apenas dá a impressão.
Isto é um jogo de perspectivas. Conforme a posição em que você esteja, muda a perspectiva e você vê um movimento
diferente. Para você dizer que o movimento da Terra em torno do Sol é um movimento absoluto, só se você isolar apenas o
sistema solar. Como existem milhares de objetos se movendo uns em relação aos outros, a descrição de um movimento absoluto
é impossível. O movimento absoluto só existe geometricamente; fisicamente não pode existir. Por exemplo, eu posso fazer um
círculo aqui, e vocês acham que é circular na medida onde vocês tomam esta sala e este quadro-negro como ponto fixo de
referência. Mas a Terra não está girando? Enquanto eu faço este círculo, ele já virou um cone.
Você pode fazer uma experiência simples: você está num trem e uma lâmpada cai do teto. Qual o movimento que a
lâmpada faz? Visto de dentro do trem, ela faz um movimento vertical. Visto de fora do trem, ela faz um movimento curvilíneo.
Acontece que, enquanto isso, a Terra girou e o movimento fica meio espiralado. Além da Terra girar em torno do seu eixo, ela
também gira em torno do Sol, então o movimento torna-se mais complexo. Isso sem considerarmos que o sistema solar também
girou em torno da estrela Vega, e assim por diante, sem fim.
Então, qualquer ponto de vista é igualmente válido dentro dos limites que ele mesmo estabelece. A única coisa que não
é possível é a troca dos objetos entre si. Mesmo as noções de para cima, para baixo, para o lado, etc., só são válidas se você
fixar um ponto, um Norte. Dentro do movimento conhecido da esfera celeste, você coloca lá um ponto que se move menos do
que os outros e você o chama de Norte. Entretanto, se você colocar esse conjunto de uma perspectiva um pouco maior, você
também verá que aquele ponto também não é imóvel. Neste sentido, o sistema ptolomaico é uma descrição absolutamente
perfeita do movimento que o Sol faz em cima das nossas cabeças. Inclusive a medição nele é rigorosamente válida. Tanto que,
não só em Astrologia, mas também em Náutica se utiliza o sistema ptolomaico, que é muito mais simples. Se fosse calcular
heliocentricamente seria a maior complicação.
Então, o ponto de vista geocêntrico é tão válido quanto o heliocêntrico, jupteriocêntrico, etc. Qualquer ponto pode ser
tomado como centro. No entanto, até hoje se dá a impressão de que quando veio sistema de Copérnico se descerrou o véu da
ilusão, e nós percebemos a realidade. É como o sujeito que está no cinema e faz a grande descoberta: “Ah!, estão todos
enganados! Os atores não estão lá na tela! Eles estão, de fato, naquela máquina lá em cima!!...”, e ele acha que descobriu a
realidade, a verdade. Cada vez que você descerra o véu da ilusão, você tem um snapping ( estalar de dedos ), você tem uma
mudança total do quadro de percepção, a qual te leva a outra ilusão.
A estrutura real do mundo só pode ser inteligível, só pode ser captada por uma espécie de inteligência pura, capaz de
raciocinar dentro da relatividade total. Capaz de conceber a relatividade total dos movimentos do mundo em relação a uma
espécie de Norte, não-físico, em relação ao absoluto não-físico. Quando Einstein toma como parâmetro a velocidade da luz,
todos os movimentos que se passam aqui são relativos. O único que permanece constante é a velocidade da luz, e portanto pode
ser tomada como absoluta. No entanto, isto é válido provisoriamente. Não como uma verdadeira teoria cronológica. Einstein só
inventou um novo sistema de medição, no qual você pega um determinado parâmetro, que é provisório e mais ou menos
convencional, mas que parte de determinado campo, permanecendo igual porque suas variações não interessam, e mede todas as
suas variações em relação a elas -- é só isso.
Mas, se você disser que a velocidade da luz é constante em todas as direções, e portanto é um absoluto, então você teria
que dizer que ela não é uma velocidade. Ela seria uma outra coisa, porque toda velocidade é relativa. Se você quiser encontrar
um parâmetro absoluto que não possa ser medido por nenhum outro parâmetro, então ele tem que ser de ordem não-física. Você
poderia fazer uma suposição ideal, por exemplo, o pensamento divino, que está simultaneamente em todos os lugares, e que nós
não podemos captar de maneira alguma. A partir desta suposição ideal de um absoluto permanente, constante, você mediria todo
o resto com ele. Acontece que para muitas pessoas, esta transposição para um ponto de vista ideal, as deixa sufocadas. Sentem
que estão perdendo o pé. O famoso salto abstrativo de que falava Hegel, é um salto para um abismo. A maioria cai ali. As
pessoas querem um parâmetro físico.
Há duas saídas: uma delas é você procurar uma espécie de absoluto físico, que você poderia considerar a Terra. A Terra
é fixa, e o resto todo se move. Entretanto, vem um outro e diz que a Terra também se move, e a única coisa fixa é a velocidade
da luz. Mas ele também está enganado.
Não é possível você fazer nenhuma Física sem você partir de alguns parâmetros metafísicos. A Física também está cheia
de Metafísica. Não há saída. você fica medindo uma coisa em relação à mesma coisa, e nunca sai disso. Por exemplo, quando as
pessoas discutem sobre o buraco negro e que o universo é finito. E o que tem depois desse universo? É o não-universo? É o
nada, totalmente desprovido de quaisquer propriedades? Esse nada, é um nada espacial? Ora, dizer espaço vazio, implica que há
um espaço! Eles descrevem o universo dotado de certas propriedades, e quando terminam essas propriedades, eles dizem que é o
nada! Será que eles acharão outras propriedades lá?
O universo pode ser finito, mas não fisicamente. O universo fisicamente finito é uma contradição de termos. Onde quer
que exista espaço, há um universo, ainda que nada aconteça lá dentro. Ao falar de finitude do universo, você pode falar em dois
finitudes: uma delas no sentido físico, que é onde termina o mundo das propriedades físicas conhecidas, e para lá você vai ter um
espaço onde não há essas propriedades físicas. Se você chamar de universo apenas o campo determinado pelas propriedades
físicas conhecidas, você dirá que o universo termina ali. Mas, e a parte faltante do espaço vazio, você vai chamar do quê? Para
mim é universo também. Não é metafísico. O mero fato de ser um espaço vazio não o torna metafísico. Não é por ele ser um
espaço vazio que ele deixa de ser uma realidade física, porque você ainda o define fisicamente pela mera aplicação de certas
propriedades. Então, ele não é não-físico, ele não é supra-físico. Ele é, por assim dizer, um extra-universo, e o único conceito
que se tem dele é a privação de certas propriedades. Se o universo está em expansão, ele tem que ter espaço para tal.
O problema, na verdade, é que as pessoas estão doidas para ver Deus, fisicamente. No fundo, você pode ter uma cultura
científica imensa e não entender que ela toda se baseia em dois ou três conceitos que podem, perfeitamente, permanecer
incontidos (?). Se você diz que o universo é a totalidade daquilo que pode ser fisicamente distinto, ou pela presença de certas
propriedades, ou pela sua ausência, então ele não termina fisicamente. você poderia conceber um término, mas não no sentido
físico. Por exemplo, Deus teria certas propriedades que vão além de todas as propriedades do universo. Então, Ele pode fazer e
desfazer desse universo. Outras pessoas chegam à conclusão de que esse universo, fisicamente reconhecido, é apenas um de uma
série. Ele pode acabar e surgirem outros. O conjunto desses universos e mais o espaço onde eles se manifestam, isso é o que
chamamos de universo mesmo. Isso tudo é o mundo. É claro que não é o absoluto.
No fim, a coisa vai se basear numa filosofia muito capenga. Se você aplica os métodos mais exatos, de observações, de
medições, etc., resulta num fim que é uma fantasia matematicamente calculada. Metafisicamente não tem valor nenhum. Se
existem dez milhões, ou dez bilhões de universos, que diferença faz?
Então, isso aí é um monte de vícios que surgem nas ciências a partir da Renascença, motivados pelo desejo de encontrar
uma espécie de absoluto material, que no fundo é o impulso de ver Deus fisicamente. É um esoterismo de muito baixo nível.
Toda a ciência da Renascença, ela mesma não percebe a base retórica das suas argumentações. Por exemplo, para você tornar o
sistema de Copérnico mais crível do que o sistema de Ptolomeu, você tem que fazer com que as pessoas imaginem o mundo de
outra maneira. Então, é uma mudança imaginativa. Você vende um quadro que parece ser mais verdadeiro. É uma
argumentação retórica.
O fato é o seguinte: o primeiro quadro de referência é imaginativo, e o segundo também. E qualquer outro quadro de
referência será imaginativo. Toda visão de um mundo que possa se expressar sob um quadro imaginativo, ela será sempre
relativa, provisória, e nenhuma é mais real do que a outra. Se você vê este mundo como um cenário no qual tudo é lindo, todos
são deuses, cheios de fadas, duendes, etc., e outra pessoa vê isto aqui como um inferno, cheio de diabos, todos sofrendo, etc., a
diferença é retórica. Duas visões subjetivas como estas não podem competir em termos de veracidade, porque elas não estão
colocadas no plano do verdadeiro e do falso, mas no plano do verossímil. Para um garoto de ginásio, hoje em dia, a visão do
mundo como partículas em movimento parece mais verossímil do que a visão do universo cheio de deuses. Entretanto, a própria
facilidade que as pessoas, hoje, passam de uma visão dessas para a outra, mostra que nenhuma delas é verdadeira. É o sujeito
que de dia é físico, e à noite é pai-de-santo. A única coisa que os dois têm em comum é que eles fumam charuto...
Isto é o problema do snapping, que é o termo que os psicólogos têm utilizado para a hipnose, para mudança de
percepção que você sofre quando faz certas experiências psicológicas. Por exemplo, você entra para o Santo Daime, bebe o
líquido, dez, quinze vezes, e de repente dá o snapping, e todo o sue quadro de percepção muda. Muda o referencial todo. Pelo
impacto da experiência você pode ter a impressão de que você saiu da ilusão para a realidade, mas você saiu de uma ilusão para
outra ilusão. Você tem um insight especial. É o caso de você descobrir que a lâmpada acende, não porque tem uma forma de
energia lá dentro, mas porque há um monte de anõeszinhos lá dentro.
Sempre que você tem um insight, você tem uma impressão da realidade. É a coisa mais enganosa que existe. O mundo
dos sentidos e da imaginação jamais podem se situar na realidade porque ele só lida com a possibilidade. Entretanto, uma
possibilidade pode disputar com outra, em termos de verossimilhança, ou seja, você quer que aquilo seja real. Você se identifica
com uma visão, e não com a outra. É uma diferença entre duas imagens poéticas, sublinhadas retoricamente. Portanto, se você
teve o impacto de uma experiência, você já está fazendo o papel de trouxa. Isto porque estas faculdades não estão aí para nos
dizer o que é a realidade, mas apenas para criar um quadro das possibilidades, dentro do qual você, intelectualmente, aos poucos,
vai recortando o que é real.
Qualquer visão que você tenha, qualquer impacto sensorial em você, ele não é acompanhado do sinal do real ou do
irreal. O nosso aparato perceptivo não pode dizer o que é real ou irreal. Não existe diferença sensível entre o que é real ou irreal.
Entre a imagem imaginada, e a imagem vista, você estabelece uma distinção que é puramente intelectual, e que é recortada pelo
costume apenas. O decisivo para escolher entre as duas imagens, ou será o costume, ou será uma diferença de impacto, ou terá
que ser um critério intelectualmente válido, que considera que todas as imagens valem a mesma coisa. Por exemplo, a visão
animista do mundo vale tanto quanto a visão científica porque são apenas visões. Para saber o que é real, você vai ter que
explicar como é que pode existir um mundo que seja composto de partículas atômicas, ou subatômicas, em movimento, e dentro
do qual existem certos tipos de seres, ao qual esse mesmo universo aparece sob a forma de deuses, fadas, etc. Isto porque o fato é
que essas duas coisas acontecem, e entre essas duas imagens você não pode criar um elo imaginário, porque seria abstrato
demais. Essas duas visões são discordantes demais, imaginativamente falando. Só a inteligência pura é capaz de criar um elo,
uma seqüência de explicações que juntem a possibilidade dessas duas visões.
Acontece que num tempo onde as pessoas acreditam já na visão do mundo composto de partículas, elas ainda acreditam,
de certo modo, no mundo animista. E só entendem o segundo em relação ao primeiro. O mundo de partículas só existe
dialeticamente como negação do anterior. Por exemplo, o sujeito que, durante o dia acredita num mundo de partículas, quando
ele sonha, ele acredita num mundo cheio de deuses. Se você suprimir a capacidade dele sonhar com os deuses, tente ensinar
Física para ele... Se você apagasse o mundo imaginativo, o mundo racional também não funcionaria. Como diz o Crocce (?),
“o homem só é um animal lógico porque ele é também um animal fantástico”. Ele só tem lógica porque ele tem fantasia.
Será que somente o homem é assim, e que a realidade em torno é completamente diferente? Se você suprimir o
pensamento mágico, some também o pensamento lógico. Imaginem a cabeça humana com dois andares, um com o pensamento
lógico, e o outro com o pensamento mágico, sendo que o pensamento lógico está no andar superior porque o cérebro também
tem camadas ( hipotálamo, córtex, etc. ). Se tirar o hipotálamo, o córtex, será que ele vai funcionar melhor?
Você tem também o mundo. Se esse mundo funciona de acordo com a visão mágica, ou seja, quem diz que a verdade é a
visão mágica ou é a visão lógica? Será que o mundo também não tem dois andares? O homem tem um pensamento mágico,
simbólico, no andar de baixo, e em cima tem o pensamento lógico, o qual só se desenvolve depois e em função do primeiro. Se
tudo der certo no primeiro, fica tudo igual. Se não der certo, o sujeito fica doido. Se a imaginação desordenar, o sujeito fica
maluco. O pensamento lógico só funciona se estiver colocado ordenadamente sobre o pensamento mágico, através da
intermediação da vontade, que é a unidade da personalidade.
Então, você tem o sujeito humano e o objeto. Se esse sujeito humano funciona em dois andares, será que é possível que
dentro desse universo, que nós chamamos de objeto, exista um ser cuja estrutura perceptiva não tenha nada que ver com o
universo? Ou seja, o homem é uma exceção? Isso me parece inviável. Isto significa que o universo em torno também não pode
ser abrangido por nenhuma dessas visões, mas que tem que existir nele uma parte que funcione segundo um determinismo
lógico-matemático, uma parte que funcione através de conversões absurdas de realidade e de irrealidade, e assim por diante, que
seria a parte mágica, e uma parte que depende da vontade, da interferência humana, onde o homem está colocado, não só como
observador, mas como peça, ele também funciona dentro desse universo.
Isto explica porque os debates sobre determinismo e indeterminismo nunca chegam a uma conclusão. Nem podem
chegar. O mundo tem uma parte que funciona de maneira determinista, e outra que funciona indeterministicamente. Uma parece
com uma máquina, e outra se parece com um sonho. Mas, o mundo é assim mesmo, e o homem também é assim.
Também nos parece que na articulação desse mundo, o homem tem um certo papel e que, de certo modo, a visão
científica tem falhado na medida onde ela não leva em conta o papel ativo desse homem na construção do mundo. Você acha que
um ser como o homem poderia subsistir num universo totalmente mágico, como se tudo funcionasse por magia, vivesse dentro
de um sonho onde um hipopótamo, de repente, virasse uma borboleta, e depois a borboleta virasse uma fada, etc.; o homem não
conseguiria viver dois dias assim. Por outro lado, o homem poderia viver dentro de um universo rigorosamente lógico, que
funcionasse como uma máquina? Também não! O homem subsiste dentro disso porque ele também é parecido com o universo.
Isto é o princípio antrópico. O universo é constituído de tal maneira que, lá dentro, há um lugar onde o homem possa viver. Ou
seja, a existência do universo é compatível com a existência do homem. Isto significa que nenhuma descrição lógico-matemático
do universo vai poder esgotá-lo sem ela chegar no ponto onde as coisas parecem estar funcionando na base da arbitragem, que é
onde a Física chegou. Você vai pelo determinismo universal até um certo ponto, e de repente tudo fica confuso: daqui para frente
é indeterminístico, e mais lá para frente é o caos! É sempre assim. Mas, você também não é assim?
As pessoas dizem que estes são dois mundo que se excluem. Mas, eles não se excluem; eles estão costurados, só que a
costura é você! Esse negócio de colocar o homem no centro do universo, isso eu acredito mesmo. O homem está no centro do
universo, não no sentido de estar no centro geográfico, mas ele está colocado, por assim dizer, como um eixo, não somente
cognitivo, mas, creio eu, que seria possível a prova completa desse princípio antrópico. O universo tem as propriedades do
homem.
Vamos dizer que você descubra uma verdade num campo puramente científico. O quê significa uma verdade científica
cuja contrapartida moral você não conheça? Se eu desconheço totalmente as conseqüências que uma determinada verdade
científica tem para mim, eu só a conheço parcialmente.

§ 11. A lógica ou teoria da ciência como disciplina normativa e como arte.

Uma ciência é verdadeiramente ciência, um método é verdadeiramente método, se é conforme ao fim a que tende.
A lógica aspira a investigar o que constitui a idéia de ciência, para poder saber se as ciências empiricamente dadas
respondem à sua idéia, e até que ponto. A lógica renuncia ao método comparativo da ciência histórica, que trata de
compreender as ciências como produtos concretos da cultura das distintas épocas, por suas peculiaridades e
generalidades típicas, e explicá-las segundo as circunstâncias dos tempos.

Nós podemos dar um exemplo: no tempo de Aristóteles não havia muita distinção entre o que seria uma observação
científica e uma observação empírica. Ou seja, uma observação comum e corrente, feitas em condições mais ou menos fortuitas,
era admitida pelo próprio Aristóteles como um fonte mais ou menos fidedigna. Observações que ele mesmo tinha feito até ali
eram computadas como dados significativos.
Mais tarde, só se passa a aceitar como observação científica as observações feitas em determinadas condições. Com
isso, alguma coisa se ganha, alguma coisa se perde. Se ganha, por exemplo, em exatidão, certeza, dentro do campo observado, e
se perde na relação entre o conhecimento assim adquirido e a experiência comum, corrente, dos homens.
Esses dois tipos de Ciência -- ciência aristotélica e ciência renascentista --, as diferenças entre elas são explicadas
historicamente. Conforme o modo de pensar da época, os vários conhecimentos que se tinha, você pode, a partir daí, explicar
porque a Ciência tomou esse rumo na Grécia e na Europa renascentista, mas esse não é um assunto da Lógica. Ela não está
interessada em referir os modos de ciência ao panorama cultural histórico da época. Ela está apenas interessada em julgar se essa
ou aquela ciência atende a essa finalidade expressa no ideal do conhecimento científico.
Em que medida nós podemos dizer, por exemplo, que a ciência renascentista atende em mais ou em menos esse ideal do
que a ciência aristotélica? Nós podemos dizer que hoje se acredita correntemente que a ciência renascentista é mais científica, de
certo modo. Isso se levarmos em conta como parâmetro para avaliação dessas duas coisas apenas a exatidão e a confiabilidade
dos dados colhidos.
Por outro lado, nós também poderíamos fazer a objeção de que a experimentação científica é feita de um quadro de
referência que é muito diferente do que o Husserl chamava de o mundo da vida -- Lebenswelt --, que é o mundo da experiência
comum e corrente, em parte mais artificial, mais inventado, hipotético e que, por isso mesmo, se após feitas as observações,
tiradas as conclusões, não houver um princípio de correção, de relativização do resultado obtido de modo a reenquadrá-lo dentro
do Lebenswelt, então a Ciência acaba criando um outro mundo, que se superpõe ao mundo da experiência, e que às vezes
pretende substitui-lo. Com isto, ela escapa do próprio ideal de Ciência.
Mas, o que interessa não é a causa histórica, o por quê que tudo isso aconteceu. A Lógica tem que ver apenas essas duas
modalidades de ciência em função de um ideal. Ver o que uma atende, o que a outra atende ou deixa de atender. Em suma, a
Lógica vai estabelecer o que é Ciência, em seguida, a partir desse modelo, desse padrão, julgar a cientificidade das várias
ciências.
Muitas vezes a consideração do aspecto histórico obscurece o problema. Por quê? Porque existe uma espécie de
ideologia do progresso, onde se acredita que o que vem depois tem necessariamente que ser melhor. Então, se passamos daquele
tipo de observação a esse, é porque vimos as deficiências do modo de observação anterior. Isso é verdade, mas no momento
onde vimos as deficiências do modo anterior, e inventamos um novo modo, ainda não vimos as deficiências desse novo modo.
Elas só aparecerão com o tempo.
As distorções do modo de observação renascentista só se tornaram claras no século XX. No fim do século XVIII, Kant
tomava a nova ciência física, de Newton, como se fosse uma verdade pura e final, como a ciência pura e modelar. Isto porque as
deficiências ainda não tinham aparecido. Na hora que elas começam a aparecer, elas são de dois tipos: primeiro, elas se referem
à escala onde foram feitas as observações. Na medida onde você começa a imaginar a possibilidade de observações feitas noutra
escala e começa a desenvolver aparelhos com uma observação mais fina, é evidente que essas novas observações vão te dar um
quadro muito diferente do que você tinha na Mecânica Clássica. Na hora que você vê que os princípios da Mecânica Clássica
não se aplicam a realidades físicas menores, infinitesimais, ou então não se aplicam numa escala universal, macroscopicamente,
aí você vê que aquelas observações tinham sido feitas dentro de um quadro muito limitado.
Não é impossível ver aqui as novas observações feitas a partir desse novo progresso, desse novo aprimoramento da
observação científica, voltem a coincidir com algumas coisas constatadas no tempo da ciência aristotélica. Aquilo que tinha sido
aparentemente superado, retorna. Por isso é que todo progresso da Ciência é muito relativo. É um progresso que pode, amanhã,
se revelar como uma perda. Mas uma perda no qual você sempre leva alguma vantagem. Ninguém pode negar a perfeição do
quadro todo da Mecânica Clássica dentro de um certo quadro de referência que, por um lado é macroscópico, ou seja, é referido
ainda à percepção comum, humana apenas, desprovida das chamadas qualidades secundárias, por exemplo, cor, forma, etc.
O mundo ...(?) é o mundo que seria observado por um ser humano, do tamanho de um ser humano normal, mas que
somente percebesse as qualidades matematizáveis e padronizadas. É claro que um ser humano assim não existe. Seria o mundo
ideal. Mas toda ciência sempre observa somente o mundo ideal, e essa é exatamente a força dela, e a sua fraqueza, porque se as
descobertas científicas não são de novo referidas ao ser que as produziu, que é o ser humano, se não são reenquadradas no
mundo da vida -- Lebenswelt --, então elas ficam sem sentido. Ela acaba inventando um outro mundo que compete com o mundo
da experiência, e que pretende às vezes ser mais real do que ele, mas no qual você não pode viver, não pode atuar de maneira
alguma. Você pode provar que tal ou qual sistema de observação, dentro de tais ou quais parâmetros, pode produzir frutos. Mas,
você não tem nenhuma prova de que os outros também não poderiam fazer o mesmo, ou poderiam fazer melhor.
Nós podemos dizer que, hoje, a própria expansão da educação, ela permite o acesso a educação de pessoas cada vez
menos capacitadas. Cada vez é preciso ser menos inteligente para ser um cientista. Se você pegar os cientistas da Renascença --
Galileu, Newton, Descartes, etc. --, você vê que monstros eram eles, e a comunidade científica inteira era constituída de pessoas
mais ou menos desse nível. Só que era uma comunidade pequena. Hoje é exatamente o contrário. Vejam, por exemplo, nos
Estados Unidos, onde estabeleceram uma lei, no qual tinham que haver uma taxa de alunos negros nas escolas. Então, você tinha
que aprovar os sujeitos necessariamente. Claro que isso foi feito para atender a um problema extra-científico, de ordem social, e
de fato o resolve, mas em grave prejuízo para a qualidade da ciência resultante. Aqui no Brasil, por exemplo, quando o ministro
Jarbas Passarinho fez uma reforma universitária, para abrir uma universidade a cada esquina para atender uma reivindicação dos
chamados excedentes, que eram aprovados no vestibular, mas fora da classificação por falta de vagas. Teoricamente eles tinham
um direito a uma vaga universitária, mas a quem incumbia a obrigação de dar uma vaga a ele? Então, o sujeito ficava sem
ensino, e isso criou uma situação delicada, com passeatas, greves, etc. Daí, para resolver a questão, abriram um monte de vagas.
Mas o que isso tinha a ver com a atividade própria da universidade? Nada. Qual a diferença entre um movimento para obter
vagas numa universidade, e um movimento para obter vagas num hotel? Na verdade, são direitos idênticos. É um aspecto em que
a organização chamada universidade coincide com qualquer outra organização. A universidade sofre essa reivindicação, não
enquanto universidade, mas enquanto instituição pública. Ou seja, pelo gênero, e não pela espécie. Portanto, o atendimento à
resolução do problema, nada tem a ver também com a especificidade da ocupação universitária.
Porém, o ensino é uma atividade muito peculiar, onde a questão decisiva não é dar o ensino, mas sim que o sujeito o
receba. Dizer que ele tem direito à educação é uma espécie de contradição, no meu entender. A educação nunca pode ser um
direito, porque ela não depende de um outro indivíduo. A educação depende de mim. A educação é uma decisão, e não um
direito. Por exemplo, dizer que você tem direito de ser corajoso, tem direito à coragem, é um non-sense, porque você será
corajoso se você quiser. O sujeito ativo do processo educativo não é o professor, mas o próprio aluno. A educação não pode ser
colocada nem como um dever, mas como uma opção livre. Quando você a coloca como um direito, o sujeito, por ter acesso
àquele meio, ele acredita que está obtendo a educação. Isso desvia todo o problema.
O quê é a educação? É o indivíduo adquirir, para ele, o conhecimento, o domínio de certas coisas. Não tem sentido, é
ilógico você colocar isto na esfera do direito. Isto tem que ser colocado na esfera da capacidade da vontade. Não cabe a ninguém
reconhecer o seu direito à educação, aos meios da educação. Ademais, os meios também são muito variáveis. Quanto custa a
educação de um indivíduo? A minha educação, por exemplo, não custou muito. Ela custou algum tempo, geralmente fora das
horas de trabalho, e os livros que comprei. Não custou mais do que isso. Quanto custa a formação de um desses filósofos que sai
todo ano das faculdades? Você precisa de prédios, bibliotecas, funcionários, equipamentos, etc., e se você divide pelo número de
alunos, veja o custo que sai.
Entretanto, é próprio da sociedade democrática colocar as coisas em termos de direito. Mas aí o problema não é de
direito, mas se a educação efetivamente se faz ou não. O máximo que um governo pode dar é certos meios de acesso. Mas se ele
dá acesso à educação a um bando de gente, isso não garante que ele vá realizar os fins da educação.
No meu entender, as verbas destinadas à educação são muito mais do que suficientes. Não precisava tanto. Por outro
lado, ou a educação visa a produzir conhecimento, ou ela visa a assegurar emprego para um bando de gente. Estas duas
finalidades estão muito misturadas. Se você perguntar para a grande maioria dos estudantes universitários, que se fosse possível
ter acesso a esse tipo de emprego sem nenhum estudo, agora, já, se eles queriam ou não? A grande maioria diria que sim. Isto
significa que a educação, o conhecimento, está se tornando um meio para um determinado fim, que permanece individual,
voltado para ele mesmo. A educação não é dada para aquele indivíduo em função de um serviço social que ele vai prestar, mas
em função do atendimento de uma reivindicação unilateral, dele. É o caso, por exemplo, dos médicos. Durante uma certa época,
as pessoas que se formavam em Medicina, tinham a consciência muito nítida de serem privilegiados. Como se tivessem recebido
um prêmio de loteria. Tinham consciência de que aquilo custava um custo social, fora do comum, e que portanto alguma coisa
eles deveriam devolver. Mas hoje isto não existe mais. O sujeitos acham que o governo montou toda aquela máquina com a
única finalidade de lhe dar um meio de acesso a ele ganhar um dinheiro. O que é, evidentemente, um suicídio da sociedade.
Isto transformou a discussão da educação numa confusão muito grande. Dá acesso à educação não apenas a pessoas
intelectualmente inqualificadas, mas como a pessoas que não tem a menor idéia da responsabilidade inerente àquele trabalho.
Em São Paulo há a faculdade de Estudos Orientais, que é um depósito de pessoas que não encontraram vagas nos outros cursos.
Houve até um deputado, que é um animal, o Gastone Righi, que fez uma análise do fechamento desta faculdade da USP, porque
ele achava que não servia para nada. Acontece que toda a história do século XX, começa na faculdade de Estudos Orientais.
Tudo o que ocorreu no século XX, você pode explicar a partir da entrada de uma influência oriental, que vem da faculdade de
Estudos Orientais, onde as pessoas estudam o chinês, o árabe, etc., trazendo esse conhecimento para cá. Por exemplo, como é
que você teria a acupuntura se não fosse a faculdade de Estudos Orientais? Foram os médicos que foram lá traduzir os textos da
acupuntura? Não, foram os lingüistas, os orientalistas. E assim por diante. Então, esta faculdade, no momento, ela serve apenas
para atender a uma reivindicação subjetiva de determinados indivíduos, como se eles fossem os mimados da sociedade. Esses
mesmos indivíduos fazem greve quando o preço do restaurante sobe 10 cruzeiros.
Para mim, o estudante não poderia fazer greve jamais, por motivo nenhum. Ele tem é que estudar. Será que ele não
entende tudo o que ele está recebendo de presente? Ele pensa que ele é o quê? Um proletário explorado? É exatamente o
contrário, ele é um menino mimado, a quem a sociedade dá tudo de melhor. Talvez, poderia existir uma espécie de greve ao
contrário, que seria a prestação de serviços gratuitos.
Pelo fato da universidade dar acesso a pessoas de muito baixo nível intelectual e moral, nem o mercado atenderá à
reivindicação delas. O sujeito que se formou em algo, não quer saber se aquilo é socialmente útil, ou se a sociedade precisa
daquilo. Ele quer é saber de ter uma oportunidade para ele. A profissão universitária que atualmente tem o mais alto salário
inicial é a de advogado. Isto resulta simplesmente do fato de que quando terminou o governo dos militares, começou o governo
dos bacharéis.
É claro que pessoas que estudaram por estes motivos, elas adquirirão o conhecimento pelo mínimo indispensável para
poder parecer advogado, médico, engenheiro, etc. E para este mínimo, é claro que os procedimentos algorítmicos são uma mão-
na-roda, uma verdadeira maravilha, porque vai pela lei do menor esforço. Então, é claro que para a quase totalidade dessas
pessoas, estes procedimentos serão a quintessência daquele setor do conhecimento, e se apegarão àquilo como se fosse um
verdadeiro fetiche, porque se tirar aquilo, eles estão roubados.
Então, se me perguntarem se eu sou a favor da democratização do ensino, eu respondo que, ao contrário, sou a favor da
elitização, porque o acesso é excessivo. A sociedade não tem meios de alimentar essa gente toda. Por quê existe o desemprego
nessas áreas? Porque tem gente demais. Evidentemente, não há necessidade de tanto advogado, filósofo, etc. Então, temos a
sociedade inteira, a começar pelos famintos, os proletários, todos trabalhando, para que uma casta de privilegiados possa brincar
com essas coisas.
A promoção desses processos simplificados, abreviados, à quintessência da própria Ciência, é devido a isso. Quanto
mais se puder reduzir o trabalho a procedimentos algorítmicos melhor para eles. Melhor porque num raciocínio econômico é
uma redução de tempo. Acontece que não existe, por exemplo, um médico geral. Cada médico é um indivíduo. Ou ele sabe ou
ele não sabe. Então, você economiza o tempo de todos de maneira que ninguém saiba de nada. A cadeira de Economia, por
exemplo, houve uma perda porque o sujeito ficou lá, anos estudando, você pagando, e ele não sabe nada. a própria definição do
objeto de ensino é o indivíduo, e não a coletividade. Numa coletividade onde ninguém quer aprender nada, onde nenhum
indivíduo saiba de nada, mas que pela média, somando as várias ignorâncias, dê para obter a nota mínima, isso é o fracasso total.
O problema não é formar médicos, mas saber se são médicos!
As idéias pseudo-científicas surgem devido a esses problemas. O sujeito não foi lá para averiguar o que é, ele não refez
o caminho, nem está interessado nisso. Isto não é só culpa das autoridades, mas é culpa de todo mundo. A culpa é de cada um.
Lutar pelo ensino melhor, é como você lutar pelo aumento do nível da sua moralidade. Você não tem que lutar por isso. Ela está
em você; ou você faz, ou você não faz.
Qualquer oportunidade de ensino poderia ser aproveitada integralmente. Então, seria o caso de perguntar, por exemplo,
para o sujeito que entra numa faculdade de Filosofia: suponha que os professores fossem uma porcaria, fossem desinteressados,
então, por quê você não mata as aulas e vai para a biblioteca, requisita os livros, e faz o seu curso? Se os professores não me dão,
eu tenho o aparato físico à minha disposição. A má qualidade dos professores não é desculpa. A má qualidade do ensino não
justifica a má qualidade do aprendizado. Suponha que você tenha um professor que saiba muito pouco, que fale um monte de
besteiras, mas você não tem nem a curiosidade de saber por quê o que ele fala é besteira? Se o professor disse que o Aristóteles é
isso ou aquilo, mas você acha que não, por quê você não vai ver o quê Aristóteles falou realmente? Mesmo o pior dos
professores é uma oportunidade de ensino.
Por quê isso acontece em termos de Brasil? Em primeiro lugar, eu acho que o conhecimento não faz parte da vida
brasileira. Você saber as coisas, não é considera importante. Não é moeda corrente. Eu acho, inclusive, que há elementos
cultural-psicológicos que são adversos a qualquer resultado. Por exemplo, a ênfase que se dá para o sujeito passar de ano. O
importante é passar, ou seja, é nunca ter estado lá... Isto porque está todo mundo pobre, precisando de emprego, acaba gerando
esse tipo de raciocínio. Aqui no Brasil, você querer saber as coisas, você acaba ficando mal visto. O absurdo é que o país é
subdesenvolvido, cheio de dívidas, e se dá ao luxo de oferecer faculdades a pessoas que não querem nada. Muitos desses desvios
filosóficos, que no mundo aparecem como meramente potenciais e não chegam a se manifestar, aqui eles adquirem
corporalidade. Então, como é que você poderia fazer uma elite científica, cultural, para fazer as coisas darem certo? Só se for por
mágica! O fato de você saber algo, qualquer coisa, já te torna uma pessoa suspeita.
O que adianta não é dar verbas para a educação, mas fazer mudança cultural mais profunda. Uma mudança nos hábitos
psicológicos da nação. No panteão dos heróis nacionais, quantos brasileiros são cultuados pelo seu saber? Só Rui Barbosa. Mas,
que tipo de saber tinha o Rui Barbosa? Ele tinha um saber retórico -- só isso. Ou seja, não há um herói cultural. Assim, onde não
há heróis culturais, não há o ideal do sábio. Isto está totalmente fora do repertório vital dos indivíduos. É um escândalo, no
sentido bíblico. O escândalo é um fato cuja constatação faz você perder a fé na vontade divina. Realmente, o panorama cultural-
psicológico aqui é muito trágico. Este é o único problema real do Brasil.
Vejam, por exemplo, um pai de família, que está desempregado, doente, é corno, os filhos fumam maconha, e além do
mais ele está louco. Então, como é que ele pode resolver tudo isso antes recuperar a sanidade? Não há jeito. Ponha a cabeça do
sujeito no lugar que ele conseguirá resolver tudo com sua própria capacidade: ele dá uma prensa na mulher, ensina ao filho o que
deve fazer, arranja um trabalho, e as coisas começam a melhorar. Entretanto, com a cabeça fora do lugar, desorientado, o
desgaste é inevitável.
Vejam que qualquer problema simples, aqui no Brasil leva anos e anos de debate. Em Curitiba é que eu vi até que ponto
nas outras cidades você gasta mão-de-obra à toa. Um único prefeito tinha as idéias e as colocou em prática. Eu pergunto: quanto
custou? Quantas reuniões de alto nível aconteceram? A reunião de alto nível era quando ele ia para casa à noite, pensava, e
chegava a uma conclusão. Pensando ou não pensando, o salário do prefeito será o mesmo. Então, para resolver uma infinidade
de coisas, basta um sujeito pensando. Não precisa de um monte de gente e tanta discussão. Acontece que lá em Curitiba, o
prefeito pensava, e as pessoas resolveram dar um voto de confiança nele. E o fato é que ele governou Curitiba como um
autocrata; na maioria dos casos, nem o secretariado dele sabia o que ele estava fazendo. É melhor do que um milhão de liberais
obscurecidos, porque parte para a democracia, todo mundo discute, falam o que querem, e no fim não se resolve nada.
Então, isso tudo não é um problema de direito, de legislação, é um problema cultural onde a estrutura de personalidade
dos indivíduos não é apta à solução dos problemas. Por exemplo, te arrumam um emprego numa firma que fabrique camisinhas.
Então, ela tem determinados problemas objetivos a resolver. Quanto tempo você gasta, quanto dinheiro a firma gasta até que os
seus executivos recém-admitidos tenham conseguido satisfazer todas as suas necessidades objetivas, sentindo-se pertencendo,
aprovados, etc.? Acontecerão reuniões e reuniões, onde as pessoas falarão as coisas, não porque isso seja pertinente à fabricação
das camisinhas, mas pertinente ao problema deles.
As pessoas te dão opinião, não porque têm algo a dizer, mas porque elas têm uma dúvida sobre se elas têm capacidade
para aquilo, se elas serão aceitas naquele lugar, então elas ficarão testando. Embora isso já devesse ter sido testado aos quinze
anos de idade. Já devia estar resolvido. Isso é dinheiro jogado fora, o tempo todo. Se você trouxe um problema e não dá para
falar qual é o problema, então o problema não existe. Se esse sistema fosse adotado oficialmente, todo mundo ia ficar de boca
calada para o resto da vida. Entretanto, não se perderia tanto tempo.
Mas por quê é assim? Porque o que está em jogo não é o problema efetivo. O que está em jogo é a convivência humana.
No entanto, por quê a personalidade das pessoas é tão mole? Porque não existem valores e ideais culturais que norteiem a
formação de uma sociedade forte. Se você não sabe a que modelo de conduta você tem que atender, você nunca sabe se você está
agradando ou não. Em alguns lugares, eu creio que você tem isso. Quando se entra para o Exército, tem lá um modelo de militar
que nós tentamos nos enquadrar rapidamente nele. Logo, logo você fica sabendo se você serve para aquilo ou não. Tirando,
talvez, o Exército e a Igreja Católica, onde logo você fica sabendo se você serve para padre ou não, no resto não existe esse
padrão. Um executivo de uma grande indústria, por exemplo, que qualidades de conduta deveria ter? Por exemplo, falar pouco e
não perder tempo. A economia de tempo é um traço absolutamente fundamental. Se o sujeito tivesse esse valor muito claro em
sua mente, na medida em que ele atendesse a isso, ele estaria satisfeito, estaria seguro de si, não importando com o que os outros
pensem. Mas se ele mesmo não tem esse parâmetro com o qual se julgar, ele depende do julgamento alheio: saber se fulano
gosta de mim, se os outros me aprovam, etc. E, com isso, você perde alguns anos. Se o sujeito conseguiu passar por toda essa
barreira de questões subjetivas, no fim é que ele vira presidente de uma empresa. Tudo isso é uma perda formidável.
Em relação à Ciência, o quê é você ser um cientista? O quê você tem que atender? Que caracteres você tem que ter?
Esses valores não estão claros na sociedade, de maneira alguma. Qual é a função de um filósofo? Tudo isso representa valores
que são a fórmula de vida, básica, que um educador -- Sprangler -- chama de faith: o homem religioso, o homem teorético, o
homem econômico, etc., ao todo, são seis. Cada um deles representa um conjunto de valores que marca uma conduta ideal, à
qual, se você entra na respectiva carreira, você tem que atender. Se eu entro numa carreira técnica, mas as minhas necessidades
são outras, completamente diferentes, por exemplo, eu gosto da intercomunicação humana, de biologia, então você está no lugar
errado. Esses valores fazem parte da educação, e eu acho que isso o Estado deveria fazer. O Estado deveria oferecer esses
modelos. Ajudar a pessoa a se situar, já que a família não dá. O Estado aqui, sempre vem antes da iniciativa social. É o que dá o
primeiro lance, é o educador, o reformador, o legislador, então ele tem que assumir de verdade esse papel.
Não é possível você educar uma nação ao mesmo tempo em que você vai fazer tudo do jeito que ela quer, e vai
concordar que ela fique do mesmo modo. Um educador está ali para transformar a pessoa, isso é óbvio. A própria viabilidade do
sistema democrático aqui já era para ter sido questionado mil vezes. Toda hora caímos numa ditadura, e não é à toa. Não é
porque há uma meia dúzia de homens maus. É porque você tenta pelo lado democrático, daí você elege o Fernando Collor, dá
uma crise, e olha aí a ditadura de novo. O problema é que quando você tem uma ditadura, as pessoas não aproveitam esse
período para fazer mudanças básicas. O Getúlio Vargas ainda fez. Colocou alguns valores, mas muito pouca coisa. Na época dos
militares não aconteceu nada nessa área.
Quando nós vemos a conseqüência disso na área da atividade puramente intelectual, científica, filosófica, etc., aí se nem
os executivos das grandes empresas são capazes de serem formados, imaginem formar filósofos... Imaginem o coeficiente de
falsidade que existe na conduta desses indivíduos que tentam representar um papel que ele desconhece, que nunca sabe se ele é
um bom médico, engenheiro, executivo, ou não. E, esses são papéis que o indivíduo precisa conferir pela resposta alheia, se ele
aceita ou não. Imaginem o papel de filósofo. Não há um sequer que me diga se ele é ou não é. Então, ele está sozinho no espaço,
tentando se auto-definir. É uma espécie de coisa em si. A coisa é muito vaga. Todo mundo vivendo com aquela sensação de
falsidade, de vazio, que vem por ele estar sempre vivendo um papel que ele não tem certeza se ele é. Um papel que o
dignificaria, que ele até gostaria de ser, mas que ele não sabe exatamente como fazer. Então, ele tem que perguntar para os
outros: será que eu sou isso ou aquilo?
Esse é o problema psicológico-cultural de base que impede qualquer educação. Quando você decidir por uma carreira
não é só você adquirir conhecimento, mas é você adquirir as condutas respectivas. É claro que devem haver condutas que são
essenciais a determinadas profissões, e condutas que são mais ou menos acidentais, com certos cacoetes mentais. Estes cacoetes
podem mudar de época para época. Em cada profissão você tem, não o vocabulário técnico, mas o vocabulário social daquele
meio, e que não faz parte da estrutura da profissão. É apenas uma contingência momentânea. Mas, quanto fosfato as pessoas
gastam para adquirir esse vocabulário? E esses trejeitos? Para que ele possa se sentir um economista, um médico, etc. É um
absurdo!
No fim de tudo, é para você poder imitar um papel, ao qual você não tem certeza que você pertence. Então, quase todo
mundo, numa certa idade, se for um pouco honesto, vai ter que entender que está no lugar errado. No fundo, quase todo mundo
se sente charlatão.
Nós aqui temos que pensar tudo isso, não na escala social. O Brasil é uma coisa. Nós somos outra coisa. Tudo o que está
sendo dito aqui, tem que ser traduzido para o caso pessoal, e ver como é que você corrige isso dentro da sua escala. Quando
decidi ser filósofo, eu pautei a minha conduta por essa linha. Se os outros não entenderem o papel que estou representando, isso
é problema deles. Geralmente não entendem. Mas, pelo menos, eu não fico “patinando no vazio”, eu sei o que eu estou fazendo.
As pessoas não precisam me entender. Eu estou me entendendo.
O fato é que cada um de vocês vai procurar ver quais são os valores que determinam, que moldam a conduta, da prática
daquela ciência, daquela arte, e se pautarem por isso. De modo que, as pessoas que convivem com você, aos poucos venham a
saber o que você está fazendo ali, qual é o seu propósito real. Por exemplo, médico, hoje em dia, ignora que você só trata de um
indivíduo. Isso faz parte da natureza da profissão médica. Não existe terapêutica geral. Não é como, por exemplo, um engenheiro
industrial, que só vai resolver problemas de ordem geral. No entanto, o médico não pode tratar de quinze pessoas ao mesmo
tempo. A Medicina é essencialmente clínica, o resto é acidental. As pessoas fazem Medicina como se fosse uma coisa industrial,
quando não é. A divisão de trabalho na Medicina tem níveis intransponíveis, que em outras esferas isso não acontece. O
problema é que as pessoas acreditam que essa divisão realmente existem. O especialista, em princípio, é o médico que sabe algo
mais de uma determinada área. a Medicina é clínica. O termo clínica vem do grego kline, que significa leito. Clinicar é você
sentar no leito e ouvir, tratar, o doente. As divisões de Engenharia, por exemplo, são radicalmente distintas. O sujeito para ser
Engenheiro Civil não precisa saber absolutamente nada de Engenharia Naval. A única coisa em comum são algumas matérias
básicas. No entanto, Medicina e Veterinária, são realmente diferentes, porque o objeto é diferente. a especialização, as espécies,
em Engenharia existem fisicamente, mas em Medicina as especializações são apenas entes de razão. É como se fosse uma
especialização metafórica. A própria distinção entre cirurgia e clínica já é motivo de discussão. Hoje, com os
microcomputadores, qual é a impossibilidade que existe de que um médico tenha, praticamente, a totalidade da informação
médica no seu consultório? Nada impede isso. O indivíduo não pode saber tudo, mas também não precisa ser uma biblioteca,
basta ter um microcomputador. Isso amplia o raio de ação dele formidavelmente.
Preleção XIV

12 de fevereiro de 1993
[ Olavo deu uma parada nos comentários sobre Husserl, e discutiu o artigo de uma revista sobre a Química do Amor ]

Na medida onde a Igreja, no começo da Idade Média, estava procurando educar, civilizar, de certo modo, disciplinar
uma casta guerreira, de origem pagã, percebendo que essas pessoas não eram capazes de noções de tipo moral, direta, que era
muito complexo para elas, procurou ver se não podia, através do erotismo, dirigir as ações desses indivíduos no sentido benéfico.
Como eram pessoas altamente erotizadas, a Igreja tentou dirigir os impulsos eróticos desses indivíduos no sentido de
uma mulher inacessível, para que o desejo dessa mulher inacessível pudesse formar uma espécie de base sensível, para que eles
pudessem chegar a compreender a aspiração pelo divino.
Neste período surge a Ética de Cavaleiros, que serve à sua dama, que geralmente era a esposa do rei, ou do senhor
feudal, à qual é proibida para ele. Ele é incentivado, de certo modo, a se apaixonar por ela justamente porque ela é inacessível.
Se ele transar com ela, ele morre. Assim, todo o erotismo do indivíduo é canalizado nesse sentido, o que faz com que ele sofra, e
sinta um fundo de nostalgia. Essa nostalgia forma uma base sensível para que essa gente pense na nostalgia do paraíso perdido,
na nostalgia do divino, etc. Foi uma espécie de truque psico-pedagógico inventado pela Igreja, e que funcionou durante centenas
de anos.
Quando acabou a Idade Média, acabaram os cavaleiros, os senhores feudais, etc., e a burguesia, lendo aqueles livros,
gostou, também quis viver isso, e daí surge o amor romântico, na concepção moderna, que é uma coisa totalmente fora do lugar,
porque o cavaleiro medieval, de certo modo, pagava com a sua vida a aquisição dessa amante, que ele não tinha como prêmio
material. Se ele transasse com a mulher do rei, o prêmio era a morte. Pior do que a morte, era a sua desqualificação como
cavaleiro, que é como aparece na estória de Sir Lancaster. Ele cai em desgraça porque na medida onde ele segurou com as mãos
aquela que deveria permanecer como uma medida inatingível, ele desfaz a mágica. Então, sua vida perde o sentido. Ou seja, o
amor romântico é feito para não ser realizado. Daí é que surge o fato de que em toda a civilização do Ocidente o culto do amor
romântico lembre o culto do adultério. Isto porque o amor romântico jamais se realiza no casamento. Pode haver uma imagem de
casamento idealizado, que jamais se realiza, porque a estória termina quando o sujeito se casa. É o tal “e foram felizes para
sempre...”
Então, é evidente que esse complexo de emoções que se denomina de amor romântico, isso é uma bela de uma balela,
que você já deveria ter jogado pela janela, e tentando dar ao amor algum outro fundamento que poderia ser, por exemplo, ético.
Eu entendo o amor como um ato voluntário, e que deve ser mantido. A paixão é só um estopim, e que pode passar. Se
você ama uma pessoa, você é bom para ela quando você gosta dela, e quando você não gosta também. Você vê isso, por
exemplo, na relação pais-filhos. Você só é bom para o teu filho quando ele te agrada? Só quando ele é bonitinho, simpático?
Quando ele se comporta de maneira repulsiva, você também deve ser bom para ele. Então, um fundamento ético seria mais
interessante do que esse fundamento onírico.
Se é uma fundamento bioquímico melhor ainda, porque ele não toma o conceito de fatalidade. Eu me ligo a uma pessoa,
não porque ela tenha tais ou quais qualidades excelsas, ela pode até nem prestar, mas é bioquímico, é genético, é uma fatalidade,
que no fundo um conceito dos homens. As pessoas se apaixonam umas pelas outras por uma fatalidade. Se nós falamos de
fatalidade, falamos de genética, no fundo estamos falando da mesma coisa: você não tem controle sobre o destino, assim como
você não tem controle se for genético. Então, se aparecer um cientista que diz ter descoberto um fundamento bioquímico do
amor, melhor ainda. Essa seria a minha reação pessoal.
Assim, a matéria que foi publicada na revista não é destinada a mim, porque eles começam o texto dizendo que o
mesmo será decepcionante quanto ao que você pensa do amor, que seus sonhos irão acabar, etc. No entanto, se a matéria
conseguiu obter como resposta esse sentimento de decepção, então a retórica funcionou. E quando a retórica funciona significa
que você, não gostando do que está dito na matéria, você a lê exatamente com os olhos com o que se premeditou que você lesse.
Ou seja, o objetivo foi inteiramente cumprido.
A retórica é você colocar uma questão com um certo prisma, dando duas alternativas, fingindo que defende uma delas,
porque daí você sabe que optarão pela outra. Você escapa disso se você sair dessa discussão: “o problema não é esse. O
problema é outro”.
É óbvio que não existe, para mim, e não poderia existir jamais dentro de tudo aquilo que discute o assunto, um conflito
entre o mundo encantado da paixão romântica e o mundo desencantado da bioquímica. Este conflito é uma colocação auto-
contraditória na medida onde, se você diz que um determinado fenômeno bioquímico causa um complexo de emoções, então o
fenômeno bioquímico certamente não é inimigo desse complexo de emoções, porque é justamente a sua causa. Então, por quê
optar? Porque é justamente a bioquímica que está fazendo a mágica. O problema não existe. É a mesma coisa que um sujeito dá
um tiro no outro, e você diz: “Isto aqui não foi a morte do fulano, mas foi o assassinato dele pelo sicrano”, ou seja, não foi a
morte de um ser humano, foi um disparo que causou a interrupção do funcionamento de um determinado organismo. E aí você
fica muito decepcionado: “Então foi só isso?”
Compreenderam como um jogo de palavras recria uma emoção no leitor? E as palavras respondem exatamente do jeito
que foi premeditado pelo autor do texto. A imprensa, de um modo geral, é letal porque ela está tão habituada a fazer isso, que ela
mesma não percebe; o próprio redator não percebe a eficácia da falsificação que está fazendo. Ele está combinando uma
informação científica com um fundo de valores culturais, psicológicos, etc, e escreve dessa ou daquela maneira porque sabe da
reação. Ou seja, ele sabe como o ouvinte vai ouvi-lo.
Pergunto eu: ele sabe a colocação real dos problemas independentemente do auditório a que ele se dirige? Não, isso não
chega a ser colocado, porque se fosse colocado ele não conseguiria escrever essa matéria. Senão, teria que ser um sujeito
maquiavélico. Um sujeito que estivesse consciente de que ele está moldando uma questão científica para provocar uma
determinada reação, despropositada, ele teria uma má consciência, e não conseguiria exercer essa profissão sem ter que se drogar
todo dia. O que não representa a maior parte dos casos. As pessoas exercem a sua função com boa consciência. Isto significa
uma mente que está moldada à retórica ainda. Ele pensa em função da reação psicológica de um leitor, o qual também lê em
função da intenção psicológica do redator. Mas, e a química, e o amor, onde ficam nisso? Não ficam. Não foram examinados em
nenhum momento. De modo que você consegue, ao dizer a causa de alguma coisa, fazer com que o leitor se veja entre duas
alternativas, entre a causa e a coisa. Isto acontece, como podem ver, inclusive com a TIME, considerada uma boa publicação.
Então é assim: todos nós, num primeiro momento, somos idiotas porque já somos treinados para isso. Entretanto, você
tem que reverter essa situação. Você tem que se perguntar por quê ficou chocado com o texto. O jornalismo é uma forma
moderna da retórica. Ele é um modo de escrever que é modulado segundo uma expectativa de uma determinada reação, que na
cabeça do jornalista, às vezes, é a única possível. Ele identifica aquela reação daquele público, com as alternativas reais
oferecidas pelo problema. Mas, isso não deixa de ser uma mágica. O perfil dos leitores de uma revista é um esquema, uma
constelação de reações prováveis. E essa constelação de reações é tida como se fosse uma expressão completa das alternativas
reais existentes em quase cada problema. Por exemplo, se você discute a Igreja Católica, você tem que ver o problema atual da
Igreja Católica em termos de conservador e progressista. Ou você é um, ou é outro, ou está em dúvida. Portanto, todo noticiário
será feito dentro dessa clave, de modo que as reações padronizadas possíveis são tidas como as categorias segundo as quais
aquele problema pode ser visto. Tipos de reações psicológicas se transformam em categorias lógicas. Muitas dessas linhas
equivalem a posições publicamente assumidas e outras não, são atitudes mais ou menos inconscientes, habituais, como por
exemplo, esta em torno do amor. Todas as pessoas definem o amor como se fosse uma coisa mágica, inexplicável, logo, se
dizemos que ele é algo bioquímico, elas vão ficar decepcionadas. Portanto, vamos trabalhar dentro dessa linha: a Ciência
desencantou o amor! Uns irão gostar, outros não gostarão, e outros ficarão em dúvida. A discussão toda vai ser em torno disso.
Mas você pode recusar esse jogo. Uma das finalidades desse curso é fazer com que vocês atendam a isso: você só tomar
parte do jogo, você só permitir determinadas reações pró, contra, ou de dúvida, em face de uma determinada alternativa, quando
você concorda com a montagem da alternativa. Neste caso, por exemplo, eu discordo frontalmente; esta alternativa não existe.
Porque se existe um fenômeno e uma causa, você vai optar entre o fenômeno e a causa. Como é que a explicação do fenômeno
bioquímico poderia desencantar a constelação de sentimentos mágicos que esta mesma reação bioquímica, segundo a matéria,
provoca? É querer procurar chifre na cabeça de cavalo. Levantar uma questão inexistente.
Neste caso, o jornalismo presta um desserviço à elucidação do problema. Ele não está fazendo um serviço ao patrão
dele, ele está fazendo um serviço dele, porque o patrão não importa. Isto está na estrutura mesma da atividade jornalística, não
importando em qual é o ponto onde ela se apóia. Se fosse uma revista do Ministério Público seria a mesma coisa. O jornalismo é
isso. Se ele for além disso, ele entra na discussão dialética, e sai da farsa. E as alternativas que ele vai ter que colocar não serão
os conflitos que ele vai expressar, e as alternativas que ele irá colocar não corresponderão mais às diferentes expectativas
públicas em torno do assunto. Ou seja, ele terá que colocar um problema de maneira que não coincida com as reações
espontâneas das pessoas. Isto significa que as pessoas terão que fazer um esforço para entender a alternativa. As pessoas teriam
que estudar a questão, e o jornalismo foi feito para quem não quer estudar a questão. A retórica sempre supõe uma passividade
da parte do auditório, o qual pode optar entre as alternativas dadas. Mas ele não pode inventar uma terceira alternativa. Vejam,
por exemplo, o caso do plebiscito: temos parlamentarismo, república, monarquia, ou presidencialismo. Suponha que você não
queira nenhuma dessas alternativas, e diga que quer, por exemplo, um sistema oligárquico-anarquista. Só que não há esta
alternativa na cédula. Ou então, você pode ser contra o plebiscito, mas também não terá esta alternativa. Um sujeito que fosse,
por exemplo, adepto do movimento separatista diria que o plebiscito não é mais do que um truque de uma federação agonizante
para se preservar, encobrindo, disfarçando o fenômeno das diferenças regionais, que clamam por uma separação.
Quem manda na opinião pública nunca é o chefe da corrente de opinião dominante, mas é o que monta a alternativa. Isto
é uma regra universal. Quem ganha mais não é o time vencedor, é o dono do estádio. Quem ganha mais entre o leão e o domador
é o dono do circo. Quem ganha mais não é o boxeador, mas o empresário dele -- é sempre assim. Portanto, sempre que uma
pessoa te convida a tomar partido, a te pedir uma opinião, pode começar a desconfiar que ele já está “batendo a tua carteira”,
porque ele colocou duas alternativas e as pessoas participarão dentro da clave que ele determinou. Acontece que essa clave é
meramente subjetiva, corresponde às atitudes possíveis dos indivíduos, e não aos aspectos reais do problema. A alternativa não é
essa. Portanto, pouco importa se vai dar isso ou aquilo, o que importa é a manutenção do quadro de referência. Todo discurso
retórico funciona dentro de um quadro de referência pré-fabricado, e não pode mudá-lo.
A retórica só serve para favorecer um partido ou outro, dentro dos efetivamente existentes, dentro daqueles que estão
presentes. Portanto, o raciocínio retórico nada tem a ver com a natureza do problema, como por exemplo, o racismo: você é
contra ou a favor? E se eu disser assim: o racismo é evidentemente uma ideologia racista, e o combate ao racismo também é uma
ideologia racista. Isso é como eu vejo. Por exemplo, o combate ao racismo pressupõe que determinadas raças têm o direito à
afirmação de seus valores raciais e culturais, tradicionais, e outras não. Na ideologia do anti-racismo não é bonito o preto que
afirma a sua identidade de preto? E o branco que afirma a sua identidade de branco? Não pode? Mas quem foi que inventou essa
coisa toda? Foi o preto? Não, foi o branco europeu. Com que propósito? Aonde quer chegar com isso? Isso é uma transformação
do mundo numa etapa de colonialismo imperial -- portanto racista --, para uma nova forma de colonialismo do tipo
transnacional. Você não pode manter, por exemplo, uma situação imperial sem uma dose de racismo. Se você monta um
escritório de administração inglesa na África, como é que cem mil ingleses vão mandar em quarenta milhões de africanos, sem
os ingleses se considerarem uma raça superior? Mesmo que eles não sejam, eles terão que dizer que são, senão eles não
agüentam. O antigo colonialismo implicava no racismo quase que necessariamente. Porém, e se o que você quer não é mais isso?
Você não quer mais tomar conta do território e manter lá uma administração colonial. Você quer que o próprio colonizado faça a
administração, explorem os seus próprios compatriotas e te mandem o dinheiro. Quem te impede de fazer isso? O anti-racismo
foi feito, não para beneficiar as raças oprimidas, mas apenas para acabar com os antigos impérios coloniais e favorecer um novo
tipo de imperialismo, puramente capitalista. Portanto, eu sou contra o racismo, e sou contra o anti-racismo também. Eu acho que
esse problema não existe realmente. Ele é inteiramente absurdo.
Por outro lado, você vê que a definição das várias raças é ambígua. Na África do Sul, por exemplo, tinha banheiro para
branco e para preto. Mas se você era japonês você entrava no banheiro de branco, e se você era chinês, tinha que entrar no
banheiro de preto. Que raio de racismo é esse? O racismo sempre foi um pretexto. Ele não é o ponto. A ideologia racista é tão
aparente, tão fraca, que nunca deve ser levada a sério, porque tem alguma coisa por trás. O conflito de raças não existe há muitos
anos. Conflitos de religiões, de nações, de cultura, de interesses econômicos, de territórios, etc, tudo isso existe. Mas, e de raça?
Isto é só um nome que você dá para enganar as pessoas e fazer com que elas optem pelas alternativas que você colocou. É tudo
pura retórica.
Você dizer que uma raça é superior que as outras, é racismo ou não é? O sionismo, por exemplo, é uma ideologia racista
porque os judeus se consideram o povo eleito. O judeu não é um povo profético? O quê é um profeta? Não é um sujeito que
manda nos outros? Ele não representa a palavra de Deus? E todo mundo tem que obedecer. O judeu tem que mandar no mundo.
Está escrito na Bíblia. Então, se está na religião dele, ele tem que se propor a mandar no mundo. Mas isso não pode porque é
racismo. Então, vamos proibir o judeu de praticar a sua religião. Mas isso não pode porque é contra a liberdade de crença. Então
não tem solução! Se o judeu tem o direito de crer e praticar a sua religião, ele tem o direito de acreditar que ele é um povo
superior. Se ele tem esse direito, o chinês, por exemplo, também tem esse direito. Eles podem se achar o centro do mundo e que
o resto é periferia. Então, cada povo é um povo racista ao seu modo. Isto está na natureza das coisas. Não tem como abolir isso
aí.
Então, essas são alternativas que se colocam, visando um determinado resultado que pouco ou nada tem a ver com a
questão colocada. Se você examinar melhor as coisas, compreender bem a Teoria dos Quatro Discursos, nunca mais você toma
partido nesse tipo de discussão. Dadas duas alternativas, você sempre vai procurar mudar o quadro, a não ser que aquelas
alternativas correspondam à diferença real, atenderem aos aspectos reais do problema, às alternativas objetivas. Se você vê
crianças discutindo para saber, por exemplo, se elas devem brincar disso ou daquilo, quantas vezes a mãe já não decidiu que elas
não vão brincar de coisa alguma porque está na hora de tomar banho, de almoçar, etc. Ou seja, eles estão totalmente fora do
problema, estão optando entre coisas inexistentes e que não serão levadas à prática. A maior parte das discussões públicas é
assim. Quando as pessoas acabavam de optar, já mudou todo o quadro, e já não é mais aquilo que estavam discutindo.
Certa vez me pediram para saber se eu era contra ou à favor do divórcio. Eu disse que era contra, mas com a ressalva de
que eu era contra, porque eu era contra o casamento. Este tipo de reação paradoxal vira, às vezes, uma defesa da integridade e da
inteligência. Convidado a optar entre absurdos, o melhor é embolar tudo. Se isto tudo aqui que estou falando, não é ensinado na
faculdade de Jornalismo, que os princípios da retórica são a mãe do Jornalismo, você nunca vai entender o seu jornalismo. Você
nunca será capaz de colocar os assuntos acima do nível do Jornalismo.
Por outro lado, como as pesquisas científicas, as correntes científicas, só adquirem um relevo maior na medida onde
alcançam a imprensa, isto significa que é isto que produz a verdadeira tragédia, quando os padrões de pensamento exigidos na
imprensa retroagem sobre as pesquisas científicas. Um sujeito que pesquisa e é uma autoridade em Teologia, ele não tem
autoridade em tudo o mais -- Política, Sociologia, Economia, etc. A tragédia acontece quando o Jornalismo, portanto a retórica,
acaba tomando conta de tudo. Acaba moldando a cabeça de todos. Esse é o maior problema.
A idéia de que existe aqui uma cultura científica e filosófica de que o Jornalismo apenas difunde, sem alterar, e não
determinar o conteúdo do que fala, só aumentando o volume de sua voz, essa idéia é radicalmente falsa. Os quadros de
alternativa propostos pelo Jornalismo acabam, a longo prazo, determinando o própria condução da pesquisa científica. Por
exemplo, na seleção de prioridades: que chefe de departamento tem a coragem de colocar todas as verbas em uma pesquisa que
não tenha a menor repercussão pública? Então, aí a imprensa determina. Em São Paulo houve aquele famoso artigo de um jornal,
que disse que a USP estava decadente porque estava publicando poucos trabalhos científicos. Eles encostaram o reitor na parede,
e o reitor foi sincero, dizendo que eles publicavam poucas coisas porque eles descobriam poucas coisas. Você não pode obrigar
as pesquisas científicas a darem certo, não é? Assim, o reitor foi sincero, e todo mundo o criticou. Isso significa que a obrigação
de publicar x textos, de tanto em tanto tempo, haja descobertas ou não, foi adotado nas universidades.
O Jornalismo é isso: o jornal tem que sair todo dia, haja notícia ou não. É como o número de páginas determinado pelo
que se chama de espelho publicitário. Se você tem anúncios para x páginas, você vai ter que preencher aquelas páginas, mesmo
que não tenha acontecido nada. Você que faça cair um avião, ponha uma bomba num prédio, ou como dizia o comentarista
político que escrevia uma coluna dele às 10 horas da manhã e, depois, ao longo do dia, ele se esforçava para que tudo
acontecesse do jeito que ele havia escrito. O Jornalismo é um conjunto de técnicas, nem sempre a serviço de um poder. O
Jornalismo já tem um poder implícito. O problema não é que o lado ruim seja o conflito. O problema é: quem montou o
conflito?
Quando falo de um poder que dirige isso, eu não estou me referindo à classe dominante de um país. Estou me referindo
a uma mentalidade dominante de uma época, sobre a qual, pouquíssimas pessoas ou grupos, tem um controle direto. Por
exemplo, para perceber isto aqui que estou falando, quantas pessoas no Brasil percebem também? Devem ser uma três ou quatro
pessoas, as quais estão profundamente conscientes. E desses, um ou dois trabalham para, por exemplo, o FMI ou coisa do
gênero. Dirigem a coisa nesse sentido, mas é muito fácil para eles porque não se conhece outras alternativas.
A direção total dos debates que marcam uma época é, de certo modo, dirigida por uma classe dominante, mas não por
toda a classe dominante. É só a elite da elite. A CIA deve ter algumas pessoas que estudam exatamente isto: como se montam os
conflitos. Isto é uma retórica, e a retórica é, de certo modo, uma parte da ciência política ligada à arte da guerra, à Polemologia.
A classe dominante inteira não sabe disso. Somente a nata da classe dominante. Não é realmente um processo dirigido. Não tem
uma direção coletiva, e às vezes basta um sujeito para montar uma coisa dessas. Uma vez montada a situação, ninguém sai de
dentro, porque ninguém conhece o conjunto. Por isso que os efeitos históricos têm resultados que nunca são os equivalentes do
conflito em jogo. Na última guerra mundial, de um lado você tinha os Estados Unidos, França, Inglaterra e URSS; e do outro
lado, você tinha a Alemanha, Itália e o Japão. Quem ganhou a guerra? Os aliados. Entretanto, o que era a Alemanha antes da
guerra? Um país na miséria total, arrasado. O que é a Alemanha depois da guerra? A maior potência européia. O que era a
Inglaterra antes da guerra? Uma grande potência colonial. O que é a Inglaterra depois da guerra? Um país de segunda classe, que
depende dos Estados Unidos. Este foi o resultado final. Hegel já dizia que a essência de uma coisa é aquilo no qual ela se tornou
no fim. Portanto, para saber o que estava em jogo, você tem que ver quem ganhou o jogo. Quem ganhou o jogo não foi a parte
que estava jogando, mas uma outra parte. Havia uma outra guerra por trás. A guerra entre o capitalismo norte-americano de um
lado, e de outro lado as antigas potências coloniais, foi ganha pelos Estados Unidos, com a aliança da URSS. Portanto, a URSS
foi fortalecida nesse processo, fortaleceu os Estados Unidos, colocou-o numa posição muito mais elevada do que antes, e em
seguida, a URSS foi deglutida por esse processo. Há quinze anos que eu digo que o comunismo é uma etapa da história do
capitalismo. O sumiço da URSS faz parte do processo. O que existe aí é um conflito entre a aristocracia e uma nova classe de
capitalistas. Esse capitalismo mandou nos Estados Unidos, e também na URSS. Com que dinheiro se fez a revolução soviética?
Com o dinheiro americano. A verdadeira guerra era entre os Estados Unidos e a Inglaterra. Se esse conflito fosse feito
abertamente as pessoas ficariam chocadas. Então, dá-se uma volta para se chegar lá. Vejam, por exemplo, uma biografia recente
do Churchill, que condena o Churchill porque o livro diz que a Inglaterra poderia ter evitado a guerra, ter feito a paz em separado
com a Alemanha e deixado Hitler e Stálin brigando entre si. Havia muita gente na Inglaterra que era a favor disso. Foram todos
chamados de nazistas e postos na cadeia. Por exemplo, foram os ingleses que fizeram primeiro bombardeio de população civil
na Segunda Guerra Mundial, porque haviam pessoas na Inglaterra que não suportavam a idéia de não haver guerra, da paz em
separado. Na verdade, eram agentes americanos infiltrados, conscientes ou inconscientes.
Vejam, por exemplo, a biografia de Lord Mountbatten; ele era vice-rei da Índia, era um socialista, tinha simpatia pela
URSS. Então, como é que você dá para esse sujeito autoridade sobre o império colonial, se não fosse só para destruir? Na hora
de destruir ele é nomeado para destruir. De outro lado, na biografia de Roosevelt, você vê a nítida simpatia dele pelo lado
soviético, e contra a Inglaterra. Então, a verdadeira briga era essa.
Entretanto, isso vai aparecendo aos poucos, à medida que as décadas vão se passando, e você vai lendo só depoimentos,
as histórias, etc. No começo você se choca, mas depois você se convence: a trama toda era para desmontar a Inglaterra, em
benefício aparente de duas grandes potências -- Estados Unidos e URSS --, porém, em benefício de uma só: os Estados Unidos.
Será que essa desmontagem da URSS, aconteceu sozinha, da noite para o dia? Será que não há 50 anos de trabalho da CIA lá
dentro? Como é possível que todos aqueles sujeitos que estavam lá na URSS, de repente, não são mais comunistas? Eles já não
eram a mais de vinte anos! Você acha que o Gorbatchev mudou de idéia assim, num estalar de dedos? Ou, ao contrário, ele
sempre esteve consciente do que fez?
Na verdade, a URSS foi implodida. Mas, como é que você faz isso? Você vai, gradativamente, colocando gente sua lá
dentro. E isso já estava dentro do plano. O processo inteiro de desmantelamento da URSS foi totalmente conduzido pelos
americanos. Com isso, os americanos estão começando agora o maior imperialismo que já se viu na história. Vejam que
atualmente eles têm o único grande serviço secreto que existe no mundo. O negócio dos Estados Unidos é ter os maiores
Exército, Marinha, Aviação e serviço secreto do mundo. O resto é conversa fiada. O Japão, por exemplo, não tem hoje Exército
para tomar Hong-Kong, então não há problema eles terem dinheiro. Se for preciso, os americanos vão lá e tomam o dinheiro.
Não há perigo amarelo algum.
Nos Estados Unidos existe hoje as noções de império e nação. O império é feito para governar o mundo, e tem que arcar
com a responsabilidade do mundo. Por outro lado, eles são uma nação, com um povo desigual, problemas internos, etc. Essas
duas noções vivem em eterno conflito desde que o Estados Unidos existe. O imperialismo americano começou em 1820 com seu
avanço sobre o extremo-oriente. Essa refrega que existe entre o Estados Unidos e o Japão é muito antiga, e foram os Estados
Unidos quem começou. Vejam que os planos de imperialismo foram discutidos durante cem anos. Não é algo que simplesmente
começou na Primeira Guerra Mundial. É como se você dissesse: a nação não quer, mas o império quer. Vejam que o império está
realizado hoje, com Bush. Eu li uma nota na revista TIME, do secretário de assuntos estratégicos, onde ele diz que a política do
Bill Clinton será prosseguir a linha do Bush, de intervenções americanas, apoiado na ONU. Essa é a maior descoberta dos
últimos tempos. É o imperialismo que todos querem. A Guerra do Golfo é um exemplo. Bush esperou que todos pedissem pela
intervenção armada dos Estados Unidos. A última vez que o mundo pediu pela intervenção dos Estados Unidos foi na Segunda
Guerra Mundial, mesmo assim por um motivo que parecia óbvio para todos. Os Estados Unidos, ou tem um presidente que serve
ao império, ou um que serve à nação. É sempre assim. Bush, por exemplo, é um novo Roosevelt, que projeta os Estados Unidos
no mundo. No entanto, a nação “queima” o Bush.
Tudo isso é em função da retórica. A retórica pega as alternativas que estão à sua disposição, das quais você pode estar
de um lado, ou pode estar do outro, ou você pode estar em dúvida, ou pode estar neutro. Só há essas quatro alternativas. Dentro
delas é que a retórica irá trabalhar. Num julgamento, por exemplo, ou o sujeito é inocente, ou é culpado. Você só tem essas duas
alternativas. Você pode, por exemplo, contestar a competência do tribunal para julgar aquilo, ou então você questiona o
fundamento do próprio processo. Daí não tem processo. Se você chegou a formar um júri é porque o processo foi aceito, já está
em andamento, e só tem essas alternativas. Então, o negócio não é optar dentro do processo. É ver se você aceita o processo ou
não. Todo juiz, quando recebe uma petição, um processo, antes dele julgar a matéria, ele vai julgar se o processo é procedente ou
não. Do mesmo modo, o leitor teria direito a esse julgamento preliminar. O julgamento, não no conteúdo da questão, mas a
questão em si. Quem monta o conflito pode mais do que qualquer dos dois lados do conflito. Isto, por definição.
Por isso que toda e qualquer reação -- sem exceção --, a qualquer coisa lida na imprensa, se você quer realmente passar
para um plano onde você exerça a sua liberdade interior e real de julgamento, e não apenas a liberdade formal, externa, você tem
que dar um passo atrás. Você deve se perguntar: será que eu quero me posicionar em face dessa questão? Muitas vezes a
alternativa é colocada em torno de coisas absurdas, e de escolhas que são inexistentes, e portanto irrelevantes. Por exemplo, você
gosta mais dos sentimentos amorosos, ou da causa bioquímica que causa esses sentimentos? Você escolhe a bola ou a esfera? E
assim por diante.
O mundo da retórica, da Política, da História, da influência humana sobre o homem, esse mundo é feito de adesões e
repulsas, qual seja, decisões da vontade: a vontade pró, e a vontade contra. A decisão de como montar o quadro não é tomada na
esfera da retórica. Ela requer uma visão maior do que a visão interna do conflito. Assim, quem monta o conflito, não o monta
retoricamente. E se você quer entender realmente o que está se passando, você tem que transcender o quadro da opção retórica e
se colocar acima dela. Para se colocar acima, você tem uma série de procedimentos dialéticos. Nós vamos ensinar isso mais
tarde, mas também tem as próprias recomendações do senso comum. Entre as quais, esta velha regra de que “pelos frutos os
conhecereis”. Ou seja, o vencedor não está necessariamente entre os partidos que estavam em luta.
Por outro lado, hoje se sabe que existe o famoso geopolítico Carl Ritter(?), que foi um dos grandes geógrafos da
humanidade, e Ritter delineou para Alemanha um projeto de três guerras mundiais, nas quais ela perderia todas, e cada vez que
perdesse, sairia mais rica. O plano de Ritter está sendo cumprido à risca. A terceira guerra planejada não envolveria diretamente
a Alemanha; se travava no Oriente Médio. Isto é um documento arquivado no Museu de Berlim. Está lá, é só ler. Eu não sei, de
fato, até que ponto esse trabalho do Ritter influenciou os fatos. Não sei em que medida essa idéia pode ter sido causa de eventos.
De qualquer modo, os grandes conflitos que se travam na História, os reais conflitos, nunca estão equacionados do jeito que
parecem as guerras do dia. Por trás da guerra, existe uma outra guerra, que é a que será efetivamente vencida e que você só
entende no fim. Você vê isso por quem ganhou no fim. Isso é um critério infalível, por isso mesmo que o estudo da História
contemporânea, a do dia, é muito difícil. Por isso mesmo é que eu fiquei chocado com a estória do vestibular de História da
Universidade de Campinas, que só fazia perguntas sobre a História atual. Sobre esses eventos atuais nós não podemos ter uma
compreensão profunda, pelo fato de que eles não desencadearam suas conseqüências, então nós não sabemos quem esses
acontecimentos são. Você precisaria esperar que o discurso se complete para ver aonde quer chegar.
Eu só acredito numa História com um certo recuo de uns quarenta, ou cinqüenta anos, pelo menos. a Segunda Guerra
Mundial, hoje, já se pode ter uma certeza científica do que se tratou, do que realmente estava em jogo. O que aconteceu depois
disso ainda vai demorar muito tempo. Você pode tentar articular a coisa de alguma maneira e tomar uma posição, mas sempre
provisória. Vejam, por exemplo, o filme JFK, sobre o assassinato do Kennedy, onde ao assistir o filme você fica horrorizado
porque o complexo industrial militar americano quer matar o jovem idealista, democrático, etc. Todos colocam aquilo nestes
termos. Não há no mundo, ninguém que desaprove o Kennedy frontalmente. O fato é que ele tinha um projeto de acabar com a
CIA. Suponha que ele tivesse acabado realmente. Desmonta-se a CIA: o quê iria acontecer depois? Iam montar uma CPI, pior do
que a que montaram para o Collor. Iam acabar com o Kennedy. Seria pior do que morrer prematuramente. Ele seria totalmente
enlameado em sua reputação, e ter a sua ação histórica totalmente apagada. Estas eram as verdadeiras alternativas: ou nós o
matamos, fisicamente, ou nós o matamos, historicamente. Não há outra alternativa, tem que optar por uma das duas. A terceira
alternativa seria o suicídio nacional, pois o país desmonta o se serviço secreto e se mata. Desmontar o serviço secreto é
absolutamente impensável. Quem estava realmente interessado em matar o Kennedy não era o complexo industrial militar
americano. Ele estava interessado, remotamente, porque ele seria prejudicado a longo prazo. Mas a curto prazo o prejuízo maior
seria da CIA. O risco era imediato. O prejuízo para o complexo industrial militar era uma hipótese mais a longo prazo.
A tese do filme está correta, foi uma conspiração e mataram o sujeito. Até aí tudo bem. No entanto, as causas remotas
são meramente conjecturais, e elas são totalmente desnecessárias, porque se eu sou o diretor da CIA, e vão desmontar o meu
departamento, tudo o que nós fizemos aqui para criar uma barragem contra o comunismo vai ser colocado em perigo, e além do
mais nós vamos perder o nosso emprego, e o que nós iremos fazer? Só sei fazer isto aqui. Então eu tomo a iniciativa de matar o
sujeito. O filme vai longe demais na especulação das causas.
Uma coisa que realmente chama a atenção e que é a mais esquisita de todas é a seguinte: o famoso relatório Warren, era
de autoria de um sujeito quase esquerdista. Warren foi um sujeito que mais abriu a legislação americana para todas as reformas,
todas as aberturas de direitos humanos, algumas até estapafúrdias. Então, como é que esse sujeito, de repente, se transforma num
defensor do complexo industrial militar, e tenta ocultar a conspiração em torno do assassinato? Um sujeito que durante setenta
anos age num certo sentido, nós esperamos que ele continue a agir da mesma forma. Eu acho que esse é mais mistério do que o
próprio assassinato. É como se, de repente, você visse o Lula querendo impedir a todo custo a investigação a respeito da
corrupção do Quércia. Não seria estranho? Até o fim Warren dizia que o assassinato foi feito por um indivíduo isolado, e que
não havia conspiração alguma. Isso é para vocês verem que não dá para ter o quadro inteiro de uma situação histórica.
Eu acho que hoje em dia vale a pena estudar a Segunda Guerra Mundial. As pessoas todas que estiveram lá já contaram
a sua história, e é impossível supor uma conspiração universal da mentira, no qual todas as pessoas, de todos os lados, grandes e
pequenas, todos escondem a verdade. Sempre alguém conta a história verdadeira. Essa estória de que a Inglaterra bombardeou a
população civil em primeiro lugar, ela é abafada, mas um dia um sujeito conta a verdade, escreve um livro. Sempre a verdade
acaba aparecendo, mesmo que a longo prazo. O então Primeiro-Ministro Chamberlain, que assinou o tratado de paz com os
alemães, reconhecendo a invasão de parte da Tchecoslováquia, na época foi considerado um “banana”. Hoje, se analisarmos
bem, talvez não o fosse realmente.
Eu sou contra qualquer conspiração sinistra, conspiratória, maquiavélica, feita pelo Mal, ao longo da História. Na
verdade é simplesmente a fragilidade humana. As pessoas colocadas em altas posições também são assim. Então, não precisa
ninguém conspirar. A própria somatória das várias burrices produz um resultado desses. Ninguém pode dizer que está isento
disso. Podemos dizer que estamos isentos disso na medida em que você não tem a responsabilidade política, não tem o poder,
para se poder examinar as coisas mais ou menos de longe, com serenidade. Quando você lê uma notícia dessas, não se trata de
você ser contra a imprensa, porque eles estão fazendo o serviço deles, que é a retórica, ou o jornalismo. Então, eles agem como
jornalistas, e você como estudante de Filosofia. É o Dharma. É você cumprir com o seu dever, que é intransferível, diferente do
dever do outro. O Dharma deles é tocar lenha na fogueira, e o seu não é este, senão você se queima.
Certamente, o sujeito que escreveu tudo isso, não terá gastado meses, ou anos, estudando o que você está estudando, que
é a diferença entre um discurso retórico e um discurso dialético. Ele não tem sequer essa condição de fazer essa distinção, mas
você tem. É você quem tem a obrigação de não ser enganado, e não ele de parar de escrever retoricamente. Posições polêmicas
do tipo “A imprensa é corrupta”, “conspiração comunista”, não é realmente o nosso negócio, embora, às vezes, eu fale numa
linguagem enfática, que pareça estar jogando tomate, mas o intuito não é esse. O intuito é puxar para cima e tentar ver as coisas
de uma maneira séria, de modo que quando você chega a tomar uma posição, não é mais uma opção, mas é quase uma imposição
dos fatos.
Um ideal filosófico seria você tomar todas as posições como posições definitivas ditadas pela ordem real das coisas, e
reduzir ao mínimo as tomadas de posição subjetivas. Você não defenderá que 2 + 2 = 4 pelos mesmos modos e pelas mesmas
razões do sujeito que defende o Lula ou o Maluf. Você pode defender até mais serenamente, mas com uma certeza muito mais
embasada. Às vezes você nem precisa defender, você apenas diz que 2 + 2 = 4; se você não acredita, aja como 2 + 2 = 4. Você
não precisa persuadir as pessoas. É a diferença entre persuadir e convencer. Por quê convencer não é vencer? Suadir, quer dizer
você influenciar, você empurrar. E o prefixo per, significa em volta. Quando você persuade, você cerca o sujeito, você o
domina. Convencer é vencer juntos. Os dois admitem a mesma coisa. Numa batalha dialética não há vencedor. Os dois estão
procurando a verdade. Portanto, na colaboração dialética não interessa quem está com a tese certa, pois o que está com a tese
errada também está ajudando. Sempre alguma tese vai estar errada, outra vai estar certa, ou uma combinação das duas, ou a
exclusão das duas. O que interessa é o resultado.
Na discussão dialética, por exemplo, é importante que você busque, para uma tese que você não aceita, tantos
argumentos quanto você busca para a tese que você aceita. É preciso você aprender a defender o contrário do que você acredita,
senão não irá funcionar. A dialética acontece fechando as alternativas, até que sobra uma que não tem saída, e tem que ser por lá,
goste você ou não.
Na retórica é o contrário; o que interessa é você puxar argumentos decisivos em favor da sua tese, e esconder o
argumento contrário. Se for possível não chegar a discuti-los, melhor ainda. a nossa tese já é pressuposta, não como certa, porém
como vencedora e como já aceita. Assim como, por exemplo, todos os candidatos a um cargo eletivo, todos se declaram
confiantes na vitória, embora as pesquisas de opinião lhe dêem 3% dos votos. Eles se comportam como se já estivessem eleitos.
Isso faz parte do jogo. Aquele que conseguir representar o seu papel com suficiente firmeza, talvez consiga persuadir os outros.
Você vota num sujeito porque acha que ele já ganhou. Só que ele ganha justamente porque você votou nele. Você faz o efeito
parecer a causa.
Por outro lado, abaixo da persuasão retórica, você ainda vai encontrar procedimentos mais subterrâneos ainda. Esse
negócio de programação neurolinguística, sai fora do campo da persuasão porque ela nada tem a ver com o assunto. Ela é a
criação de uma disposição favorável. Quando um sujeito fala uma coisa da qual você concorda, e expressa o seu sentimento
íntimo, você se sente bem, não é? Por exemplo, quando falo mal do seu inimigo; ou quando você se divorcia, e eu dou a maior
força para a sua decisão, etc. Você se sente bem e apoiado, mas por quê? Porque o interlocutor concorda com você. Mas, e se
houvesse um jeito de fazer você já se sentir bem antes, independentemente do que o interlocutor vai falar? Mesmo que o que o
interlocutor fale seja totalmente diferente do que você pensa, como você já se está se sentindo bem, você pensa que é a mesma
coisa que ele disse. Por exemplo, se você chega para um sujeito católico e diz que Jesus Cristo não é Deus. Ele jamais pode se
sentir bem de ouvir isso, não é? Ele só se sentirá bem se você confirmar a tese dele, criar uma harmonia entre os dois.
Concordância são os corações que batem juntos, e discordância são os corações que batem descompassadamente, um em relação
ao outro. A concordância cria um sentimento agradável. Sossega os corações. E se você conseguisse obter esse sossego
independentemente do conteúdo eidético da tese ser contrária ao que você pensa? Você aprovaria a tese contrária como se fosse
sua, sem perceber que existe uma discordância. Isto já não é mais retórica, mas é sacanagem, e das grandes. É uma forma de
hipnose. Ele concorda com o contrário do que ele pensa porque ele não percebe que é o contrário. É como se uma pessoa
assinasse um contrato de aceitação de um cartão de crédito, acreditando que esse documento que ele está assinando é uma
recisão de contrato. É claro que depois ele pode perceber, mas aí pode ser tarde. Na hora que você está assinando aquilo, você se
sente como você se sentiria caso estivesse fazendo exatamente o que você quer. Você pode, por exemplo, fazer um sujeito
apanhar e sentir que bateu.
Isto não chega a ser uma persuasão retórica porque está totalmente desligado de quaisquer opções conscientes. A
retórica é uma opção consciente dentro de um quadro pré-determinado, que nem sempre é legitimo, mas você conhece as opções.
A diferença entre a retórica e a programação neurolinguística é que, na retórica você vota no Collor porque acredita que ele é o
melhor, e na programação neurolinguística você vota no Collor acreditando que está votando no Lula. Você enxerga Lula onde
está escrito Collor. Isto baixa cada vez mais o grau de liberdade de consciência. Na retórica existe uma liberdade externa; não
existe uma liberdade de consciência, mas uma liberdade de expressão. Você dizer o que quiser, é uma coisa; você ser capaz de
pensar livremente, é outra. Dentro da retórica ainda se resguarda a liberdade de expressão, perdendo a liberdade de consciência.
No caso da programação neurolinguística, hipnose, propaganda subliminar, etc, o que se corta é a liberdade da própria
consciência. Você enxerga errado. Parece uma persuasão retórica aumentada, mas é completamente diferente.
Entretanto, não faz sentido nós estudarmos essas distinções do Husserl, todo o discurso lógico, se no dia-a-dia nós
perdemos o uso dessas distinções. Se você conhecer bem as propriedades dos Quatro Discursos, você conhece bem as razões das
suas adesões ou repulsas. Um efeito prático que este curso devia ter seria este, mas isto não depende de mim. Eu sou posso dar a
teoria. O efeito prático é você duvidar, não do que você lê, não da revista, não se trata de você desconfiar deles, mas desconfiar
de você mesmo. Você achar que a imprensa toda é mentirosa não te liberta da influência da imprensa, ao contrário, noventa por
cento dos artigos já foram escritos na previsão, e na expectativa de serem lidos por pessoas que duvidam da imprensa, e que por
isso mesmo ficarão, às vezes, um pouco desorientadas, sem saber se acreditam ou não, não sabe o que fazer perante as
alternativas. Não é tendo uma atitude de distanciamento em relação aos órgãos de imprensa,ou ao conteúdo do que está sendo
lido, que você se libertará, mas você tendo um distanciamento em relação à sua reação espontânea. É através dela que eles te
pegam. Por exemplo, quando você entra no mato, para se prevenir contra picada de serpente você não põe uma mordaça na boca
de cada serpente, mas você põe uma bota na sua perna. Já pensaram que trabalho enorme seria você ter que fiscalizar a revista
Veja, Time, Isto É, Manchete, etc? Fiscalize somente a você! Se você estiver livre de você, da sua própria reação retórico-
emotiva num primeiro instante, você estará livre de todos eles ao mesmo tempo, sem precisar pensar mal deles. Não se trata de
você se defender de cada inimigo em particular, mas você zelar pela sua segurança em geral. O principal inimigo da liberdade de
consciência não é externo absolutamente. Não há quem possa, desde fora, violar a sua liberdade de consciência, a não ser pelo
emprego da agressão física mais extrema. Mesmo assim há quem resista a essas agressões físicas.
Então, o seu inimigo é você mesmo, é a sua vontade de aderir a alguma coisa que você gosta, de se sentir participante, é
a vontade de dar palpite, de ter e manifestar opinião, vontade de exercer a maldita da liberdade de expressão, em troca da perda
da liberdade de consciência. É melhor você ficar quieto, guardar a tua opinião para si, mas estar pensando livremente por dentro,
do que você abrir a boca, falar para as multidões e ser ouvido, sem ter liberdade de pensamento interno. Você tem um liberdade
aparente, mas perdeu a real.
O ideal da liberdade humana é consubstancial à própria definição do ser humano. Se o ser humano não é livre, então ele
é apenas um bicho. Um cachorro está preso ao seu conjunto de reflexos condicionados, não porque alguém o condiciona, mas
porque ele é apenas um cachorro. Ou seja, você só pode escravizá-lo desde fora, tomando como base a escravidão interna dele. O
indivíduo que estivesse fundamentalmente decidido a não obedecer um tirano, e que julgasse que a sua liberdade vale mais do
que a vida, ele morre mas não é escravizado.
Por isso que o propósito deste curso não é propriamente defender contra a influência, o falatório da sociedade em torno,
mas contra você mesmo, de certo modo. Todos nós temos uma face fraca, e esta face deseja ser amada, deseja se sentir
protegida, deseja se sentir aceita, ela tem um monte de reivindicações afetivas, que no seu próprio nível são legítimas até certo
ponto. Porém, elas são legítimas quando elas buscam o atendimento real e concreto. Por exemplo, se eu desejo ser amado, eu
tenho que procurar uma pessoa que me ame. Para quê eu preciso entrar num partido político? Para aderir a uma corrente de
opinião, para me sentir amado. Isto é um atendimento simbólico. É irreal, na verdade. Eu não vou receber o feedback. Se eu
torço por um time, eu lhe garanto que o time não torce por mim. Eu me sento amado porque eu sou um igual, mas eu estou sendo
um pateta, porque estou amando sem ser amado.
As reivindicações afetivas devem ser atendidas no plano real delas, que é o plano da interrelação pessoal. O próprio
desejo de opinar é um desejo de atrair atenção para você. Mas se você quer atenção, por quê você não busca atenção realmente?
você tem certeza de que quando está opinando as pessoas estão prestando atenção? Ou você é só mais um que está dando
opinião? Os desejos afetivos do homem devem ser atendidos da maneira mais direta, simples e concreta. Desejo de carinho físico
deve ser atendido com carinho físico; desejo de atenção deve ser atendido com a atenção de uma ou duas pessoas concretas, cujo
olhar você possa ver. Não a massa anônima que, de fato, não presta a atenção em você concretamente, mas na imagem que ela
fez de você, que pode ser bem diferente de você. Sua mulher, seu pai, sua mãe, seus filhos, estes prestam atenção em você, e daí
você fica satisfeito, e não quer mais atenção, a não ser que você tenha algo real a dizer. Não é a questão de prestar atenção em
você, mas na coisa que está sendo dita.
É por estes desejos que o sujeito é pego e puxado, como se fosse por um cabestro, conduzido como se fosse o burro
atrás da cenoura. Também é assim que se jogam as pessoas umas contra as outras. Eu me lembro quando li pela primeira vez um
livro de Astrologia, de Adolfo Weiss, a quadradura de Saturno com o Sol: pessoa cruel, vingativa e desumana. Então, eu disse:
“Ah! é por isso que eu tenho sofrido desse jeito!...” O que você quer é uma explicação, e a primeira que vem , que lhe pareça
convincente, você aceita. Por exemplo, dentro do tema do racismo, o sujeito que é composto de várias raças, ele tem o direito de
aderir a qualquer uma delas livremente, ou ele tem o direito de ficar de fora de todas elas, e exigir um tratamento diferenciado?
Por quê ele deveria ser carimbado como pertencente a essa ou aquela raça? Quem quer isso são as duas raças, e não ele. você
tem todo o direito de permanecer fora e acima do debate racial. Ou, entrar nele se quiser, sabendo que é uma opção arbitrária.
Você não pertence a uma raça, mas você apenas decidiu pertencer a ela, como você adere a uma nacionalidade.
Se esse propósito prático-moral de atitude não é atendido, os outros não serão. Não existe moral geral. Moral de visa à
conduta do indivíduo. Só existe uma moral, que é a do indivíduo para com a sua própria consciência. O resto não existe. Não tem
sentido você tomar uma posição quanto ao que você acha que a sociedade inteira deve fazer moralmente. A moral não foi feita
para isso. Ela foi feita para orientar a sua conduta. Você é contra a pornografia? Afaste-se dela. Quanto ao seu filho pequeno,
tenha autoridade sobre ele para mantê-lo afastado dela. E quanto ao seu vizinho? Sobre ele você não tem poder nenhum.
Nada pode ser imoral em si mesmo. Tudo é relativo a quem fez, e por quê fez. A pessoa que necessita, de certo modo,
de viver um delírio transsexual para ela reconquistar um pouquinho de sentido vital dentro de uma existência puramente
mecânica e tediosa que ela leva, a pessoa tem o direito absoluto a isso. Não se pode ser contra uma coisa dessas. Não faz o
menor sentido. O show da Madonna, um strip-tease pornô, eu sou contra, e não vou lá, nem que me paguem, e acho que as
pessoas deveriam ser educadas para elas nunca precisarem de ir a esses shows. É só isso. Mas, dizer que esses shows são
imorais...
Você pode até proibir, por eles serem inconvenientes, perturbarem a sociedade, mas não por eles serem imorais. Não
existe imoralidade intrínseca, até porque essa expressão é quase autocontraditória. Só é intrinsecamente imoral aquilo que viola a
natureza das coisas, ou a natureza humana. Aquilo que reduz o homem a um bicho é intrinsecamente imoral. Aquilo que tira a
sua liberdade de pensamento, de consciência, é intrinsecamente imoral. A pornografia se torna imoral a partir do instante onde
ela adquire direitos e status. Eu não acho imoral um show pornográfico, mas eu acho horrivelmente imoral quando o sujeito, que
é garoto de programa, por exemplo, dá entrevistas como se fosse um médico, um fonoaudiólogo, ou filósofo, e todos acham que
seja uma profissão respeitável. Isso se torna imoral porque viola a sua liberdade de julgamento, confunde os dados. Na hora que
você acha que o sujeito, ao alugar o corpo para atender a fantasia de alguém, aos quais, no fundo, ele detesta e despreza, tenha
sua atividade classificada como uma profissão como outra qualquer, você apagou a noção de profissão. Isto não é propriamente
uma profissão, mas uma outra coisa. Por exemplo, vamos supor que todas as pessoas se dispusessem a fazer o que fazem os
garotos de programa nas suas respectivas camas, acabaria a profissão. Ela não é uma profissão porque ela não requer nenhuma
habilidade e nenhum conhecimento. Ela requer apenas uma capacidade orgástica, e às vezes nem isso. Não tem sentido o sujeito
ser pago para ele exercer uma função puramente orgânica. Levar isto a sério, e tornar isto imoral, é inverter a ordem do mundo.
A base de todo e qualquer princípio moral é a liberdade humana, exercida por um indivíduo. Ou seja, ele tentar julgar livremente
as coisas.
Eu tenho que conseguir pensar por cima dos meus medos, dos meus desejos, dos meus olhos, e eu tenho um direito
humano fundamental, que é o direito à verdade objetiva. Isto é mais importante do que o direito à expressão. É o tipo de moral
que se dirige a cada um, é você com você mesmo. Não há quem possa dizer para você, de fora, para você o que é moral, o que é
imoral. E eu acredito que exista uma espécie de lei moral universal, mas ela só existe para quem a conhece, e o conhecimento
dela somente se revelará na efetiva experiência interior: verdade conhecida, verdade obedecida. Esta moral se tornará
obrigatória para você quando você a enxergar. Antes disso você é uma criança.
Nós podemos te impedir de fazer certas coisas, não porque sejam imorais, mas sim porque nos incomoda. Neste caso, já
não é Moral, é Direito, é jurídico.
Para vocês, a partir do momento em que esses conceitos são adquiridos, começa a se tornar uma espécie de obrigação
progressiva. Estar consciente disso, e jamais cair dentro dessas armadilhas. Claro que durante uns dez ou quinze anos você
poderá cair, mas a pergunta é: quero esta liberdade interior ou não? Esta liberdade interior é a liberdade em relação ao que os
antigos chamavam de “as paixões da alma”: medo, ódio, desejo, preconceito, etc. Aos seus preconceitos, e não aos dos outros.
Um preconceito é um conceito feito antes do conhecimento da coisa. você nem ouve o sujeito falar e você já o enquadra e fica
contra. É terrível você viver preso a esse tipo de coisa.
Preleção XV

13 de fevereiro de 1993
Capítulo II

DISCIPLINAS TEORÉTICAS
COMO FUNDAMENTO DAS NORAMTIVAS

§ 13. A discussão em torno ao caráter prático da lógica.

Uma lógica prática é um imprescindível postulado de todas as ciências. Kant mesmo adepto, por outro lado, da
idéia de uma lógica pura, falou de uma lógica aplicada.
A questão na verdade discutida em Kant diz respeito a se a definição da lógica como uma arte toca ao seu caráter
essencial. O que se discute é se o ponto de vista prático é o único em que se funda o direito da lógica a ser considerada
uma disciplina científica.
O essencial na concepção de Kant não consiste em negar o caráter prático da lógica, mas em considerar possível a
lógica como ciência plenamente autônoma, nova e puramente teorética, com caráter de disciplina a priori e puramente
demonstrativa.
Segundo a forma predominante da teoria contrária ( à de Kant ), a redução da lógica ao seu conteúdo teorético
conduz a proposições psicológicas e eventualmente gramaticais, isto é, a pequenos setores de ciências distintas e
empíricas.

Vamos pegar um silogismo, por exemplo, “todo homem é mortal; Sócrates é homem; logo, Sócrates é mortal”, e vocês
vão tentar averiguar qual é o princípio do tipo lógico, mas sobretudo do tipo psicológico, sobre o qual você acredita na
conclusão.
Seja o silogismo genérico: “Todo A é B; todo B é C; logo A é C”. Nós estamos acostumados a raciocinar assim,
logicamente, não é? O que nós estamos querendo saber é se existe algum fundamento psicológico daquele resultado; se esse
fundamento psicológico tem alguma relação com a estrutura lógica do raciocínio. Ou seja, nós estamos querendo ter a crença
nesse silogismo do ponto de vista lógico e do ponto de vista psicológico. Então você tem que perguntar: por quê eu acredito
nessa conclusão?
O que me impele a crer, e se a coisa que me impele a crer nisso é igual, ou é a mesma coisa que o nexo lógico entre o
todo e a parte? Mas, o fundamento lógico dessa crença ainda não foi dado. Porém, é esse fundamento lógico, para nós
acreditarmos nele? Qual é a freqüência de eventos psicológicos que se passam dentro de você que te levam a admitir que aquilo
que se passam com o todo, deve se passar com a parte? Não quero saber o fundamento, mas qual é a causa disso.
Uma primeira hipótese seria porque você precisa acreditar, porque você não tem escapatória. Você é levado por uma
necessidade externa. Porém, você diz que se não fosse assim você ficaria louco. Mas o que te impede de ficar louco? Por quê
você não pode ficar louco? E por quê você é obrigado a reconhecer a necessidade externa? Por quê você não pode negar? Você
pode efetivamente negar, ou não pode? Você nunca fez nada que estivesse acima da tua possibilidade real? Por exemplo, você
nunca comprou algo que você não pudesse pagar? Ou nunca tentou pegar um objeto pesado, que tua força não aguentasse? Você
nunca negou a tua necessidade externa?
Se a sua crença numa conseqüência lógica fosse derivada da constatação de uma necessidade externa, essa crença jamais
seria necessária, mas seria contingente. Você poderia acreditar ou não. O elo da necessidade lógica não poderia surgir da sua
mente pela experiência que você tem de uma necessidade externa. Em geral, você entende a necessidade externa porque você já
acredita na necessidade lógica. Um indivíduo é levado a crer na conseqüência lógica pela constatação de uma necessidade
externa; subentende-se de uma necessidade repetida, de uma experiência repetida. Porém, nada te impede de proclamar como
possível aquilo que a necessidade externa declara como impossível.
A esta objeção você poderia dizer: eu realmente posso violar a necessidade externa, mas não quero fazê-la porque eu
quero preservar a minha integridade física, a integridade do organismo. Isto significa que eu tenho uma necessidade lógica
impelido por um senso de autoconservação. Toda idéia que nós temos sobre qualquer conversa, sempre corresponde às teorias
que já estão em circulação. Mas, ainda poderíamos perguntar: para que você tem que manter a sua integridade? Não há pessoas
que se auto-destroem?
Então você vê que a conservação da integridade não é uma necessidade. Isto, em si, não é uma razão suficiente para
você admitir a conseqüência lógica. Me parece que devem haver razões mais fortes. Vamos ver primeiro as razões de ordem
psicológica para ver se por ela nós chegamos a alguma coisa.
Se você dissesse que você acredita na conseqüência lógica pela constatação de uma necessidade externa, e que por outro
lado você admite a necessidade externa por um senso de auto-conservação, veja onde você chegaria: o senso de auto-
conservação está presente em umas pessoas e ausente em outras. Isto significa que o reconhecimento de uma necessidade externa
estaria na dependência de uma contingência pessoal. Em última análise, você acreditaria na lógica dependendo da contingência
pessoal. Significa que depende de uma mera casualidade. Por exemplo, uma criança pequena tem um senso de auto-conservação
extremamente deficiente. As crianças vivem fazendo coisas perigosas. Elas não têm medo das coisas que deveriam ter. Ao passo
que, no caso de um animal, como disse São Tomás de Aquino, “a ovelha que jamais viu um lobo, a primeira vez que vê, ela já
sabe que ele não é coisa boa”. Num animal você admitiria um instinto de auto-conservação como uma coisa que funciona quase
automaticamente. Mas, num ser humano, não se trata de um instinto de auto-conservação, e sim da transmissão de um ato
cultural, de uma norma de auto-conservação, de uma espécie de dever de auto-conservação. Isto significa que você reprime na
criança não só o que ela faz contra os outros, mas também pelo que ela faz contra si mesma. Para que a auto-conservação
funcione é preciso que alguém ensine esse negócio. Por exemplo, o mais elementar instinto de auto-conservação nos impeliria a
manter o nosso corpo limpo. Para a criança tomar banho, na maior parte dos casos, você tem que obrigá-la a tomar banho. Ás
vezes, temos que forçar a criança a comer!
Se o fundamento da crença na conseqüência lógica residisse no reconhecimento da necessidade externa, ou experiência
repetida, e se a validade dessa experiência, por sua vez, dependesse de uma mera contingência. Não pode ser por isso que você
acredita na conseqüência lógica. Deve ser por outra coisa. Se o próprio senso de auto-conservação pode ser inculcado no ser
humano pela educação, sob a forma de um desejo de auto-conservação, quem sabe a crença na conseqüência lógica também não
é inculcada, como uma espécie de desejo que você tem? Seria uma espécie de condicionamento, para criar uma espécie de senso
de dever, de obrigação. Seria uma outra hipótese.
Então, a primeira hipótese é de que as categorias lógicas surgem de experiências repetidas. Esta hipótese pode também
ser refutada da seguinte maneira: se você não tem idéia do princípio lógico, como é que você sabe que duas experiências iguais,
são iguais? Elas deverão se repetir quantas vezes? Ou você tem o senso da identidade, previamente à experiência, ou então a
experiência repetida não lhe parecerá repetida.
A segunda hipótese seria a do biologismo -- a tese do Jean Piaget. O senso de integridade lógica, no fundo, é o mesmo
senso de integridade do organismo.
O quê esses dois sensos têm algo a ver um com o outro? Mas não que o senso de integridade física, de auto-
conservação, possa servir de fundamento lógico, ou psicológico, da crença na lógica. Que ele não é um princípio lógico, é mais
do que evidente, porque a própria idéia de auto-conservação, no momento que você fala auto, já supõe a relação todo-parte,
porque eu sou um todo que deseja conservar a integridade das minhas partes. Não quero, por exemplo, perder as minhas
memórias, os meus dedos, minhas pernas, etc. Por outro lado, se a auto-conservação não pode servir de fundamento lógico da
crença lógica, também não pode ser o seu fundamento psicológico, pelo fato de que nesse caso o reconhecimento de uma
necessidade dependeria de uma mera contingência.
A terceira hipótese seria sociológica. Não há propriamente um instinto de auto-conservação que sirva de base à crença
na lógica, mas existe a transmissão cultural de um senso de obrigação de auto-conservação. Um condicionamento que ensina o
indivíduo a se defender. e assim esse ensinamento inculca na mente esse senso de auto-conservação, e através dele o indivíduo
percebe a necessidade externa, e ao admitir isso acaba admitindo a crença na lógica. Para que a herança cultural pudesse
fundamentar, ou ser causa, do senso de integridade, e este, por sua vez, ser a causa da percepção da necessidade externa, e esta
ser a causa na crença da lógica, para que toda essa cadeia fosse válida, é preciso que cada um dos seus membros anteriores fosse
válido. Se o senso de integridade não é o fundamento na crença na lógica, então pouco importa de onde vem esse senso. Se ele
vem de um instinto, ou da sociedade, em qualquer desses casos, ele não poderia ser, por si mesmo, o fundamento da crença na
lógica. Então, a teoria sociológica só complica um pouco mais. Ela só acrescenta um elo causal a mais.
Vamos tentar uma outra hipótese: as estruturas lógicas estariam na própria linguagem. Então, quando você aprende a
falar, você aprende as estruturas lógicas junto. E como você não consegue falar sem estrutura lógica... O que eu quero saber é, se
você começou a pensar logicamente porque aprendeu a língua, ou se aprendeu a língua porque tinha um pensamento lógico? Se
eu aprendi a linguagem, me ensinaram a falar, então as frases têm uma estrutura lógica ( sujeito, predicado ,verbo, etc ), e para
poder continuar falando eu tenho que admitir a consequencialidade lógica. Então, o comportamento lógico já existe
anteriormente ao aprendizado da linguagem. Se você tem capacidade de fazer uma coisa caber dentro da outra, você tem a noção
de todo e parte. Noção de homeogêneo: em um prato de sopa, a primeira colherada é de sopa, a segunda não pode ser de suco
de laranja. A própria criança sabe disso. Se ela não gosta de sopa, e você dá a primeira colherada, ela não quer mais o resto do
prato. E como isto é a própria lógica, a teoria linguística não pode ser também um fundamento à lógica.
Uma outra hipótese: os princípios lógicos entraram na sua cabeça na hora que você aprendeu a significação. É a
experiência da Marie Hotin(?), que era cega, surda e muda, e aprendeu a se comunicar aos 29 anos de idade. Até lá, vivia como
um bicho: tinha que ser alimentada, lavada, etc, e não tinha nenhuma comunicação com ninguém. Até que um dia, a freira que
tomava conta dela, tirou a faca da mão da Marie, e esta ficou muito agitada, começou a se debater por causa disso. Daí a freira
fez um sinal na mão dela esfregando no dorso da mão da menina, e a Marie fez o mesmo sinal na mão da freira, e a freira
entregou a faca. Então, toda a vez que ela queria a faca ela fazia o mesmo sinal. Este foi o primeiro signo que ela aprendeu. Foi o
primeiro ato psicológico dela que se referia a um objeto externo. Apesar dela sentir os objetos, não havia uma conexão entre a
vida interior dela e estes objetos que a cercavam. Esta conexão foi estabelecida por este signo.
Mas, voltando à questão, esta hipótese também pode ser refutada porque ela não passa de uma nova forma da hipótese
anterior -- a linguística --, porque as significações pressupõem uma lógica.
Bom, a resposta para essa questão é: humanamente falando, não há nenhum motivo para o sujeito acreditar na lógica!
Pelo menos até agora não parece haver motivo para acreditar. Se não há nenhum motivo para acreditar, a crença na lógica não é
necessária, mas contingente. Pode acontecer, como pode não acontecer. Pode acontecer de que 0,0000...000001% da população
não acredite na lógica. Mas, a maioria acredita.
Por outro lado, por quê essa maioria acredita? É por quê Deus quis? Mesmo a hipótese teológica pode ser descartada. Se
é uma vontade de Deus, então não é uma vontade constante e absoluta, porque Ele deixa algumas pessoas não acreditarem. Ou
seja, nem Deus nos tira dessa.
Há muitas crenças que podem ser explicadas; por exemplo, por quê você acredita que o Sol sai todo dia? Porque, de
fato, ele sai todo dia há muito tempo, e nada indica que ele vá mudar este ciclo. Por quê você acredita que se um cachorro vier te
morder, o melhor é você dar o fora? Porque o seu desejo de auto-conservação quer ser atendido. Essas mesmas causas poderiam
fundamentar outras crenças, particulares, mas a crença na validade dos princípios lógicos, em geral, elas não poderiam
fundamentar. Por outro lado, todas essas outras crenças, de educação, auto-conservação, necessidade externa, etc, que poderiam
servir de fundamento, também dependem da crença nos princípios lógicos.
Por quê o homem acredita, confia, em geral? Essa questão poderia ser respondida sem a referência à questão dos
princípios lógicos? Será que a hierarquia de gênero e espécie não é um pouco enganosa? A crença dos princípios lógicos não é
uma espécie de crença; ela é uma crença diferente de todas as outras, porque ela só serve para produzir mais(?). Não sei por quê
o homem crê; só sei que pelos princípios lógicos ele não ia acreditar nisso, nem deixaria de acreditar. O princípio da negação e
da afirmação já refuta os princípios lógicos. Portanto, a pergunta sobre a crença jamais poderia ser respondida sem isto aqui.
A classificação gramatical nos ilude porque nós usamos a mesma palavra, por exemplo, crença no princípio lógico, e
crença em contos de carochinha, crença que o cheque que você recebeu tem fundos; parece que são espécies de crenças, mas
acontece que é apenas a mesma palavra. Crença no princípio lógico é uma coisa, e crença em contos da carochinha é outra.
Inclusive, porque a própria lógica é um dos motivos de crença. Você acredita numa coisa porque lhe parece lógico, não é? Então,
é como se ela fosse uma crença que serve de único fundamento a todas as outras crenças -- é impossível. Dentre os vários
fundamentos da possibilidade da crença, um deles é a crença na aceitação dos princípios lógicos. Mas, se nós perguntamos para
quê o homem aceita os princípios lógicos, nós vemos que não tem explicação humana, ou mesmo divina. Será que isso já não é
um resultado satisfatório? Por quê isto nos inquieta?
O caso é que a investigação sobre a causa da aceitação dos princípios lógicos não leva a parte alguma. Portanto, esta
investigação é non-sense. A pergunta não faz sentido. Precisamos rejeitar a questão. Não é isso que nós chegamos no fim? Não
há causa. O ser humano acredita, quando quer acreditar. Uns acreditam, outros não acreditam; uns acreditam de vez em quando,
outros acreditam sempre; uns acreditam profundamente, outros acreditam superficialmente -- não é assim? Na média, nós
acreditamos, e com uma certa regularidade. Então, não há uma causa, mas se você deixasse de acreditar nisso, você se sentiria
um idiota perfeito.
Por outro lado, se tudo o que o homem faz tivesse uma causa que transcende a ele, ele jamais, por si mesmo, seria a
causa de nada. Por exemplo, você tem uma causa, que determina uma outra causa, que determina uma outra causa, etc, e no meio
dessa corrente você tem um ente, que é um elo dessa corrente, e que também determina outra causa, e assim por diante. Ora, se
tudo o que está para diante desse ente provém dele é causa dele, e se essas causas fossem conseqüência de uma causa anterior a
esse ser, isso é a mesma coisa que dizer que esse ente não faz nada, ele é apenas um elo lógico, um nexo lógico entre outras
causas.
Então, esse ente não é um ser causal, ele nada causa; só é causado. Então, ele tem menos poder que, por exemplo, uma
parede, porque ela tem uma ação que lhe é própria, por exemplo, a ação de resistir, pois ela se mantém no lugar. Mas, esse ser,
supondo que ele não causasse nada, e fosse apenas um elo, ele seria um elo lógico. Seria preciso que ele fosse totalmente
destituído de quaisquer traços, propriedades, e portanto não é possível que tudo o que o homem faz tem uma causa fora dele.
Aliás, isso não é possível com relação a nenhum ser realmente existente. Existir é poder ser causa de alguma coisa.
Voltando à pergunta anterior: quando nós chegamos ao resultado de que a crença nos princípios lógicos não tem causa,
por quê todos ficaram perplexos? É aquela piada: um sujeito comprou cinco burros numa feira. No meio do caminho, de volta
para casa, ele ficou cansado e montou em um dos burros. Quando ele chegou em casa,chamou a mulher para ver os burros que
ele havia comprado. Ainda montado em um dos burros, ele contou cada um deles e, surpreso, disse: “Eu comprei cinco burros,
mas aqui só tem quatro!”. E a mulher disse: “Engraçado, eu estou vendo seis!”. A sensação de vazio ante uma coisa que não tem
causa, você sente a mesma emoção do sujeito que diz que comprou quatro burros. Então, o único ser que determina que você
acredita em princípios lógicos é você mesmo. Nada impede isso.

[ Houve o intervalo da aula e parte dos comentários que o Olavo fez não foi gravado porque esqueceram o gravador
desligado ]

Nesse caso, nós teríamos um elo de necessidade entre o homem e a crença na conseqüência lógica. E por isso nós
poderíamos obrigar ao homem a crer na conseqüência lógica. Nesse caso, que diferença haveria entre a sensação da persuasão
racional e a coerção?
Aí eu estou argumentando, por um lado: primeiro porque não tem causa; em segundo lugar, isto não é possível porque
tudo o que acontece com um ser tem uma causa fora dele, e é necessário que ele seja causa de alguma coisa também. Ou seja,
nem todos os seres, sob todos os aspectos, podem estar encaixados na lei de um determinismo universal, que os abrange
completamente. Porque, se acontecesse isso, todos os seres seriam inócuos, e somente as causas operariam sobre eles. Não
existiriam seres, mas somente causas.
O primeiro argumento contra o determinismo universal seria este: um determinismo tem que determinar seres. As
causas têm que atuar sobre seres que efetivamente existem. Porém, se esses seres, por si mesmos, se reduzem às causas que
atuam sobre eles, então ele não existem funcionalmente, eles são nadas. E um ser incapaz de qualquer ação sobre qualquer outro
ser, também não pode sofrer a ação do nada.
Esta é a segunda linha de argumento. Ou seja, se de um lado não encontramos nenhuma causa para que o homem creia
nos princípios lógicos, e de outro lado, todo ser tem que ser capaz de ser causa de alguma coisa, então talvez seja o homem
mesmo a causa. Talvez seja um ato dele, não causado por algo externo.
Em favor desta hipótese, ainda restam vários argumentos, dentre os quais destaco o seguinte: se nós soubéssemos qual a
causa da crença no princípio lógico, nós, produzindo a causa, poderíamos gerar o efeito mediante um elo de necessidade. Dada a
causa,o efeito se seguiria imediatamente. Ou seja, a persuasão lógica se tornaria forçosa. Se assim fosse, que diferença haveria
entre a argumentação lógica e a coerção física? No entanto, quando você adere a uma argumentação racional, você adere
livremente, porque você aceitou os princípios lógicos dos elos de conseqüência. É você quem aceita. Você não é forçado de fora.
Tanto que, mesmo diante de uma argumentação lógica, você pode ficar recalcitrante. Às vezes alguém te dá uma demonstração
mais completa e você, mesmo assim, ainda não quer aquela conclusão. Mesmo entendendo a conclusão você ainda pode não
querer. Por exemplo, o comprador conpíscuo; ele compra mais do que pode pagar, embora a soma do seu extrato bancário
demonstre que não dá para ele fazer isso. Ele está entendendo perfeitamente, no entanto, ele nega. Ou seja, toda e qualquer
argumentação racional é negável pela vontade. Se a argumentação racional fosse acompanhada de uma espécie de forçosidade
física causal, isso não aconteceria jamais.
Entretanto, isso seria mais absurdo ainda, porque se você pode forçar o indivíduo, para quê você vai argumentar? Então,
a própria existência da argumentação racional mostra que a sua aceitação não é forçosa realmente. Ela pode ser forçosa,
idealmente, no sentido de que não há uma outra. Mas, mesmo nesse caso, o indivíduo pode inventar uma outra, pode supor. aliás,
o que me obriga a optar pelo resultado certo? Por quê eu não posso optar pelo resultado errado? Você pode, e de fato muitas
vezes na vida é isso que acontece. Dito de outro modo, tudo leva a crer que a aceitação dos princípios lógicos, e portanto da
conseqüência lógica, é um ato livre do ser humano. É um ato contingente, onde ele pode ou não fazer.
Mas ainda há uma pergunta, meio maligna: por quê que a ausência de causa lhe dá a impressão de vazio, se quem está
no meio desse vazio é você mesmo? Não é um pouco o raciocínio dos cinco burros? Ou seja, você não está vendo o que você
não está fazendo.
Uma concepção do mundo que começasse por abolir da representação do mundo a pessoa daquele que está construindo
essa mesma representação, seria manifestamente falsa. É como escrever uma estória que na sua conclusão negasse que a estória
foi escrita. É uma espécie de curto-circuito.
Por quê as pessoas, em geral, se espantam ante a necessidade imperiosa de reconhecer a existência do sujeito? Por quê
que uma visão do mundo lhe pareceria mais real se ela começasse por abolir a sua pessoa?
Existe uma confusão entre dois tipos de veracidade, ou de credibilidade, que é o seguinte: nós procuramos o
conhecimento objetivo, e dizemos que ele é objetivo se a todas as pessoas as quais esse conhecimento for mostrado, o verem da
mesma maneira, e admitirem a veracidade desse conhecimento. Portanto, esse conhecimento não depende da minha
subjetividade. Ele não é causado pela minha subjetividade. É a idéia de uma objetividade, como conhecimento, que não é
causado pela forma do ser singular.
A verdade deve aparecer intersubjetivamente e pode ser compartilhada por vários sujeitos. Porém, uma coisa é você
dizer que o conhecimento objetivo é aquele que independe do sujeito, nesse sentido, e outra coisa é você dizer que só é
conhecimento objetivo aquele que não tem sujeito nenhum. O conhecimento objetivo é aquele que independe deste ou daquele
indivíduo em particular, mas não de todo e qualquer sujeito. Senão, você oferece um mundo que é como ele seria visto por um
sujeito inexistente, e não apenas como no outro caso, por um sujeito indeterminado. Na verdade, não seria concebível de maneira
alguma, uma verdade inteiramente objetiva, sem o sujeito. Você tem que admitir, ao menos, um sujeito potencial. Por exemplo,
vamos supor que existe um mundo onde não há nenhum ser consciente, de espécie alguma, capaz de captar nada. Em primeiro
lugar, um mundo assim, jamais existiu porque o mundo é uma coleção de seres articulados entre si, que agem uns sobre os
outros, e que, nesse sentido, são subjetivos. Por exemplo, a chuva que cai sobre o solo está agindo sobre o solo.
Alguma forma de troca, de câmbio, de interpretação, troca de informações, entre sujeitos sempre existiu,porque senão,
não existiria o mundo. Não é apenas uma coleção de seres, mas uma coleção de acontecimentos. Ora, se existe acontecimento é
porque um ser age sobre o outro, e de uma maneira qualquer, um participa do outro. O conhecimento não é, senão, uma das
muitas maneiras de participação. Portanto, se existe mundo, existe sujeito e objeto. Existem, nesse sentido, um princípio de
veracidade, na medida onde há sujeitos e há objetos -- não necessariamente sujeitos humanos conscientes, isso não importa. Por
exemplo, mesmo entre os micro-organismos, eles podem se equivocar nas suas relações com os outros. Existe o princípio de
veracidade e erro. Todo e qualquer conhecimento do tipo objetivo pode ser objetivo no sentido de ser independente de um sujeito
determinado, ou de um grupo determinado de sujeitos, mas não de ser independente de qualquer sujeito. Nós podemos conceber
uma verdade absoluta que é independente de qualquer sujeito, no sentido de que ele é independente de quaisquer sujeitos
individuais.
Quando você fala em verdade universal absoluta, o sujeito está sempre supondo um sujeito universal absoluto que
conhece essa verdade. Mesmo nesse caso, seria um sujeito. Um mundo sem sujeito não seria nem verdadeiro nem falso, porque o
objeto em si mesmo não é verdadeiro nem falso. Ele é uma potência de veracidade, e uma potência de falsidade. Todo objeto tem
um conjunto de aparências que ele emite para os outros. Algumas dessas aparências são informações reais, e outras são
informações falsas. A possibilidade de ludibriar o outro, isto está contido em qualquer sujeito. Mesmo, por exemplo, no mundo
mineral. Uma pedra tem uma determinada forma, e esta forma emite informações sobre a pedra. Então, todos os seres estão
continuamente emitindo informações sobre todos os seres, para todos os seres. Então, uma certa relação que veio com o objeto,
sempre existe, onde quer que exista um mundo. A não ser que fosse um mundo de objetos sem interação, mas daí não é um
mundo.
O bicho que come uma folha é porque esta folha se parece com uma outra folha que ele está habituado a comer, e ele
morre envenenado. Não acontece? Sim. Isto é um exemplo de conhecimento equivocado. Ali existe um sujeito, uma interação, e
uma possibilidade de verdade e erro. Vejam, por exemplo, o mimetismo. Os seres se enganam uns aos outros. O jogo da verdade
e falsidade, informação e contra-informação, é um mecanismo básico da natureza.
Então, a idéia de um mundo totalmente objetivo, sem sujeito, é uma idéia auto-contraditória. Só existe objeto em função
de um sujeito. Objeto tem que ser ob-jecto, aquele que está jogado na frente; mas jogado na frente de alguma coisa. Este
encontro, esta interação, esta troca de informações, é isto que constitui o mundo. Realmente, nós não podemos dizer que o
mundo é apenas uma coleção de objetos, mas de acontecimentos também, porque se não acontece nada ali, ele não existe. O
acontecimento pressupõe um sujeito, causas em operação, efeitos que se seguem, portanto, interação. E onde tem interação, você
tem sujeito e objeto, seja da ação, seja do conhecimento.
Ora, a ação não pode ser equivocada também? A ação não pode visar um objeto errôneo, como no caso do mimetismo?
Até as plantas podem se equivocar. Uma planta não pode cometer um erro cognitivo? Ela não pode receber uma informação
falsa do ambiente? O girassol, por exemplo, segue o movimento do Sol, mas se eu colocar uma luz muito forte perto dela, ela se
enganará e seguirá a luz. No reino mineral existem formações minerais mórbidas errôneas. Elas são resultado de informações
errôneas da Terra. São terras defeituosas, mal-formadas. Por quê elas foram mal-formadas? Porque elas receberam informações
externas, que são também informações. Algo que se mete na formação internas delas.
A teoria da informação em Biologia, é um das coisas mais lindas que foram descobertas no século XX. É um dos
grandes avanços da Ciência é a teoria teológica da informação. Ela nos mostra o universo inteiro como composto de seres que
estão em constante troca de informações. Portanto, sempre existe um sujeito e um objeto atuante, seja na esfera da ação
propriamente dita, seja na esfera puramente cognitiva, que é uma ação retida(?), que é uma possibilidade de ação que não se
realiza em parte alguma. É uma ação potencial. Isto significa que todos os seres agem de alguma maneira. Um ser que não
tivesse nenhuma possibilidade de agir, nem mesmo passivamente, sobre um outro ( um ser que não tivesse peso, por exemplo ),
ou seja, um ser que fosse totalmente destituído da possibilidade de ação sobre um terceiro, também não poderia receber a ação
do primeiro. É possível agir sobre um objeto porque ele é alguma coisa, mas se ele é alguma coisa é porque ele emite alguma
informação e assim ele já está agindo. Portanto, todo ser, por mais insignificante que seja, ele é um ser causal.
Vejam a famosa definição de Vronsk(?), filósofo polonês, “Ser é ter a potência de engendrar efeitos”, e portanto sofrer
efeitos também. Isto é uma espécie de complemento da Biologia aristotélica, e aliás Aristóteles só não chegou a essa conclusão
porque morreu antes, porque se pensasse um pouco mais ele ia ter que chegar a isso aí. Isto significa que nenhum ser pode ser
totalmente explicado pelas causas que atuam sobre ele, porque as causas pressupõem o ser dele. Aquele que não existe não pode
sofrer a ação de causa alguma. Então o que existe de estranho que o próprio homem seja a causa de alguma coisa, sem que nada
cause, através dele, essa alguma coisa? Dito de outro modo, se até mesmo um fundo de liberdade metafísica você encontra numa
pedra, por quê não deveria encontrar algum também no homem? Porque existe essa expectativa de determinismo universal, da
parte de pessoas que, no entanto, conscientemente, não acreditam no determinismo universal.
Se eu perguntar para vocês se acreditam no determinismo universal, na absoluta fatalidade, que tudo está escrito e pré-
determinado, nos seus mínimos detalhes, ou seja, existe a objetividade absoluta, onde nenhum ser é causa de nada, e todos só
sofrem impacto, vocês dirão que não acreditam nisso. Mas, se não acreditam nisso,por quê tiveram aquele sentimento de vazio
na hora que descobriram que a crença na lógica não tem causa? Não é contraditório? Isto significa que você não acredita
conscientemente no determinismo, mas só aceita como conhecimento objetivo o que for totalmente determinístico. Quando nós
temos crenças absolutamente incompatíveis, ou seja, a mente ainda não está formada de uma maneira límpida, de maneira que
ela possa arcar com todas as conseqüências de suas crenças, então, uma espécie de determinismo implícito está presente em todo
nossa sociedade. Porque é a imagem que se tem de que se funciona assim.
A Ciência está encarregada de nos dizer as leis subjetivas que presidem o acontecer. Portanto, está encarregada de nos
descrever o determinismo. A própria Ciência efetivamente já desistiu de fazer isso há muito tempo. a própria Ciência não
acredita em determinismo. Então, a imagem pública que se tem dela é de uma espécie de retrato do determinismo universal, e só
acreditamos numa coisa, encontrando uma explicação científica, quando vemos que ela é totalmente independente de qualquer
arbítrio ou de qualquer liberdade. Embora, por outro lado, a própria Ciência negue a possibilidade de um determinismo deste
tipo. A própria Ciência toda hora tem que fazer um acordo entre determinismo e acaso, acaso e necessidade, acaso e
probabilismo. A idéia de um determinismo universal, além de ser absurda em si mesma, ela é totalmente anti-humana. Ela é
contra a liberdade de consciência, contra a liberdade humana, ou seja, o homem nada cria, não é um centro criador, mas apenas a
vítima inerte de tudo o que se passa em torno. Ninguém gosta de pensar nisso, a respeito de si mesmo, não é?
Se as pessoas não gostam disso, ao contrário, na hora delas terem uma sensação de vazio ao ser dito que não há causa,
elas deveriam ficar contentes. Por quê existe uma sensação de incomodidade? Essa sensação, não é sem razão; há um
fundamento. Essa sensação de incomodidade é porque na hora que você percebe que você é a causa, você percebe que a
responsabilidade é inteiramente sua, que não há uma força externa, nem Deus, para dizer para você o que você deve fazer. Daí
essa sensação de vazio. Esse vazio é um centro onde está você mesmo. Você está totalmente livre para acreditar nisso ou
naquilo, ou não acreditar. Apenas você tem o hábito de crer que você crê. Não quer dizer que você creia sempre, mas em geral
você crê, você acredita que crê.
Isto significa que crença nos princípios lógicos não é para nós, uma necessidade externa, e não é nem sequer uma
conveniência prática quando você a domina na sua totalidade, e daí você sabe empregá-la, e daí ela serve. Uma lógica na qual
você crê mas não a domina, aquilo será um mal. No intuito de acertar, de pensar coerentemente, você pensa errado, e é aí que
você se engana. Então, o que tem isso de prático? A quase totalidade dos erros humanos é feita por causa de uma lógica
imperfeita. Essa lógica imperfeita não é prática absolutamente, ela é totalmente imprática. Mas, prefere-se essa lógica imperfeita
do que lógica nenhuma. Dito de outro modo, para resumir, saltando um monte de etapas, para o homem, a lógica não é uma
necessidade externa, ela é um valor. é um valor que ele prefere, pelo qual ele opta, e de certo modo, que ele ama.
A educação pode reforçar essa opção, como pode destruí-la. O senso de auto-conservação pode falar em favor dessa
opção, se ela já tiver sido tomada, mas pode também falar contra ela. Por exemplo, num caso de lavagem cerebral, influência
subliminar, e outros. É o próprio senso de auto-conservação que faz você admitir o absurdo. É para conservar a vida que você
admite o ilogismo. Do mesmo modo que uma necessidade externa pode te reforçar essa crença no absurdo. Nenhum deles
determina a crença. Ou pode reforçá-la, ou pode atenuá-la, uma vez que ela já existe. E ela já existe sem causa. Pior ainda, essa
opção nunca é feita de uma vez para sempre. Ela é feita e refeita continuamente. Se ela é livre, mesmo as suas conseqüências não
são fatais. Se você acreditou na integridade lógica, nisso ou naquilo, você pode, em seguida, ser completamente ilógico numa
outra coisa. Você pode querer ser lógico num monte de coisas, e absurdo numas tantas outras -- nada te impede.
Então, nós não poderíamos pensar de uma maneira ilógica? Poderíamos, e pensamos de fato, mas pelo ponto que nós
chegamos até aqui, nós entendemos que a crença nos princípios lógicos é para o homem, um valor, um valor de um discurso
coerente. Você não é obrigado a manter um discurso coerente. Às vezes, um discurso coerente pode ir contra os seus interesses,
mas às vezes você opta por esse valor.
Então, se essa adesão não tem uma causa que a coloca, e se ela é uma ...(?) a um valor, nós poderíamos perguntar que
valor é esse, qual o conteúdo desse valor? Aquilo que não tem causa, pode ter motivo. Motivo é uma justificação interna. Mas,
uma justificação interna não causa um ato, apenas sublinha o valor desse ato, que no entanto pode ser feito ou não. Por exemplo,
quando você vai comprar algo, você pode argumentar pró e contra a compra, mas o teu argumento não faz você comprar nem
deixar de comprar. Você decide livremente comprar ou não comprar, pesando os argumentos, portanto, você não está
determinado a comprar.
Então, poderíamos perguntar: qual é o valor que o homem encara nesse ideal de um discurso coerente? Que perspectivas
ele lhe abre, que a incoerência não lhe daria? Porém, veja o que disse o Husserl nesse parágrafo que nós acabamos de ler: ou a
lógica será apenas uma técnica, portanto uma ciência prática,ou se for uma ciência teórica, seu conteúdo terá de ser psicológico,
gramatical, sociológico, etc. Por isso mesmo que eu lhes perguntei se vocês conseguirem encontrar um fundamento psicológico,
sociológico, da crença no princípio lógico. Eu estou preparando vocês para a discussão que ele vai fazer do psicologismo.
O psicologismo é uma tendência filosófica dominante durante mais de cem anos, e até hoje é muito influente
subliminarmente, segundo a qual a validade dos princípios lógicos advém de causas psicológicas, gramaticais, sociológicas, etc.
Dito de outro modo, a lógica seria uma parte da Psicologia, Sociologia, etc. Por exemplo, a escola sociológica, muito influente,
fundada por Durkheimer, até hoje acredita que as categorias lógicas provém da estrutura social interiorizada. Ou seja, ao assumir
que existe uma analogia entre as estruturas lógicas e as estruturas sociais, transforma-se uma analogia numa explicação causal,
em seguida transforma-se a explicação causal numa fundamentação lógica. Isto está muito destorcido.
Todo o conjunto de negações à lógica pura, Husserl chama de psicologismo, que é aquele que vai remeter a causa e,
implicitamente, a validade dos princípios lógicos a fatores extra-lógicos, ou seja, a fatores reais. O que nós dissemos aqui era que
não existe nenhuma causa real, mas talvez possa haver uma causa ideal que seria um valor. Mas, um valor não chega a ser uma
causa, ele é apenas uma justificação. Ou seja, a validade dos princípios lógicos não pode depender de nada real. Independe do
real, eles têm que ser válidos. Mesmo aqueles que distinguem o que é causa e o que é fundamento, mesmo eles acabam
misturando as coisas.
Eles não têm outra saída: ou eles vão para a lógica pura, que é uma ciência meramente a priori, totalmente ideal, que
fala das relações e verdades possíveis, e que não tem absolutamente nada que ver, não tem nenhum fundamento, causa, na
experiência real humana, que não é causada por nada, é apenas um conjunto de esquemas das relações e verdades possíveis,
encaradas como um sistema íntegro e coerente, a qual a adesão é feita somente pelo livre arbítrio humano; ou então, nós teremos
que aderir a algumas formas de psicologismo, que são todas estas que nós vimos aqui.
Não é preciso lembrar que o velho Kant, que era o grande adepto da lógica pura, é também, de todos os filósofos do
Ocidente, o que mais enfatizou a idéia da liberdade humana. Kant era contra -- até -- você provar que Deus existe. Ele dizia que
a prova objetiva da existência de Deus seria a suma blasfêmia, porque suprimiria a liberdade humana. A existência de Deus não
pode ser matéria de ciência no sentido objetivo, porque se pudesse, você seria obrigado a engolir esse Deus, como você tem que
engolir o real empírico. Então, Deus se relacionaria com os homens do mesmo jeito que se relaciona com as pedras, porque Ele
coloca lá umas leis cosmológicas, e as pedras se movem de acordo com isso. Então, não seria um Deus do homem, seria um
Deus para o homem. Esse mesmo indivíduo que tanto enfatizou a liberdade humana, é também o mesmo defensor da lógica
pura.
Então, pegando a conexão entre essas duas coisas, por tudo o que eu falei hoje, a adesão aos princípios lógicos puros é
um ato livre do ser humano, e nada pode obrigá-lo. Sendo um ato livre, nunca é um ato definitivo, é uma opção reiterada. E se é
assim, é porque existe então efetivamente a liberdade humana. E se existe a liberdade humana, o conteúdo das crenças do
homem jamais está pré-determinado. Pode ser influenciado, ou reforçado pela experiência, mas não totalmente determinado
desde fora.
Então, a ênfase aqui é colocar no sujeito como indivíduo cognoscente e livre. Porém, ele se defronta com um mundo que
não foi ele quem fez, e desse mundo faz parte o seu próprio corpo, e grande parte de sua psique. Ou seja, a minha liberdade se
defronta com uma infinidade de determinações externas e internas. É uma liberdade muito limitada, mas nem por isso mesmo
real nos seus próprios termos. O homem é um ser livre, mas que vive na miséria e na sujeição parcial de suas determinações.
Essa é a imagem do homem, que tem Kant, e ao qual nesse aspecto, Husserl adere, e que eu também estou aderindo aqui,
formalmente. Ou seja, de que o conhecimento no sentido lógico, a construção do mundo do conhecimento coerente era uma livre
opção do homem, que ele não precisava fazer absolutamente, nem por motivos práticos, e que pode ser até conveniente em
certos momentos, ou inconveniente em outros.
Sendo assim, um dos sentidos da educação seria a de reiterar no homem essa escolha contínua pelo discurso coerente,
que pode ser compartilhado por todos os homens, uma vez que o entenda, e que, admitindo os princípios lógicos, conforme
ouviam o restante do discurso. Essa opção é o que Eric Weil chama de “o contrário da violência”. Então, o mundo da
determinação externa seria o mundo da violência, e o mundo da livre adesão aos princípios lógicos e suas conseqüências, seria o
mundo da Razão.
Preleção XVI

17 de março de 1993
( sem correção do Prof. Olavo de Carvalho )

Capítulo II

DISCIPLINAS TEORÉTICAS
COMO FUNDAMENTO DAS NORMATIVAS

§13. A discussão em torno ao caráter prático da lógica.

Uma lógica prática é um imprescindível postulado de todas as ciências. Kant mesmo adepto, por outro lado, da
idéia de uma lógica pura, falou de uma lógica aplicada.
A questão na verdade discutida em Kant diz respeito a se a definição da lógica como uma arte toca ao seu caráter
essencial. O que se discute é se o ponto de vista prático é o único em que se funda o direito da lógica a ser considerada
uma disciplina científica.
O essencial na concepção de Kant não consiste em negar o caráter prático da lógica, mas em considerar possível a
lógica como ciência plenamente autônoma, nova e puramente teórica, com caráter de disciplina a priori e puramente
demonstrativa.
Segundo a forma predominante da teoria contrária (a de Kant), a redução da lógica ao seu conteúdo teorético
conduz a proposições psicológicas e eventualmente gramaticais, isto é, a pequenos setores de ciências distintas e
empíricas.

Segundo essa idéia, a lógica seria constituída de uma série de preceitos, normas e regras de ordem prática, cujo único
conteúdo teorético seriam as leis psicológicas que expressam o funcionamento do real através da mente.
É exatamente o contrário do que pretende o Kant que diz que existe uma lógica que tem uma parte teórica própria. É
uma teoria lógica que nada tem a ver com a descrição ou as teorias psicológicas sobre o funcionamento real do pensamento. A
lógica, segundo essa orientação do Kant, e que é a do próprio Husserl, trataria das leis ideais do pensamento, e não das leis reais.
A dúvida aqui é: se a lógica é uma ciência teórica própria, ou se ela é uma ciência prática, cujo único conteúdo teorético
possível fosse a psicologia.

[Olavo dá um salto para a página 14 do texto]

A objeção de que se trata de uma restauração da lógica aristotélico-escolástico, sobre cujo escasso valor a história
pronunciou seu juízo, não deve inquietar-nos. Talvez a lógica antiga fosse somente uma realização imperfeita e turva da
idéia dessa lógica pura. É também questionável se o desprezo pela lógica tradicional não é uma injustificada repercussão
das emoções do Renascimento, cujos motivos já não podem tocar-nos hoje. A luta contra a ciência escolástica foi, com
freqüência, irrazoável, no fundo; dirigia-se antes de tudo contra a lógica. Mas, o fato de que a lógica formal tomasse o
caráter de uma falsa
metodologia nas mãos dos escolásticos (sobretudo do período de decadência) só prova que talvez faltasse a estes
uma justa compreensão filosófica da ciência lógica e que por isto a utilização prática da mesma seguia caminhos errados,

O que ele queria dizer com isso? Será que os escolásticos não conheciam bem a lógica de Aristóteles? O que ele quer
dizer com "a justa compreensão filosófica"?
Qual é a diferença entre você conhecer a lógica e ter uma compreensão filosófica dessa mesma lógica? O que é a
compreensão filosófica de alguma coisa? Qual é a diferença entre a compreensão de alguma coisa, e a compreensão filosófica?
Você pode fazer o conceito de alguma coisa relacionar-se com tudo o que está em torno sem ser, propriamente, uma
compreensão filosófica. O que caracteriza profundamente a compreensão filosófica? O conteúdo da Ciência lógica pode ser um
só, tanto para o sujeito que a compreende filosoficamente, quanto para o que não a compreende. Qual é a diferença?
O sujeito que não tem uma compreensão filosófica, não quer dizer que ele não compreenda. Ele compreende de alguma
maneira, mas, não, filosoficamente. não tem nada a ver com a origem, ou com o conhecimento, porque ele está falando do modo
de compreensão. É um modo específico de compreensão que nós denominamos de filosófico.
P.e., vocês estão compreendendo a minha aula, até o momento? Parece que sim, mas não é uma compreensão filosófica,
necessariamente. Aliás, vocês não podem ter nunca uma compreensão filosófica de alguma coisa que você acabou de ouvir pela
primeira vez. Esta é a primeira característica: a compreensão filosófica é reflexiva. não é a compreensão imediata. Mas, ainda
tem mais uma característica. Vamos supor uma coisa que você conheça muito bem, que você tenha estudado a vida inteira. O
que é necessário para que o conhecimento que você tem disso aí seja uma compreensão filosófica? Qual é o método filosófico
por excelência? É a dialética. E o que a dialética faz? Ela faz a contradição? E se a coisa, aparentemente, não tem contradição em
si, internamente? compreensão interna, é compreensão lógica. Mas, podem haver outros tipos de contradições, tão internas. A
compreensão filosófica compara com o ideal. Esta é a outra característica.
Os escolásticos tinham uma compreensão filosófica, porque eles eram filósofos, mas com relação à lógica, diz Husserl
que eles não tiveram. Eles aprofundaram a Ciência da Lógica enquanto Ciência, mas ainda falta um ponto fundamental. Segundo
Aristóteles o conhecimento começa com o quê? Ele começa com o espanto!
Uma compreensão de qualquer coisa se torna filosófica a partir do momento em que se tem uma compreensão da
problemática daquilo, em face de um determinado ideal. Tudo parece carente de fundamento para uma compreensão filosófica.
O que caracteriza a compreensão filosófica não é a busca; a busca é a tarefa filosófica. É uma compreensão de que
aquele conhecimento é insuficiente com relação aos seus fundamentos e que aquele conhecimento não é o que ele pretende ser.
Ou, ainda, a consciência de uma defasagem da pretensão e a realidade, da pretensão e os atos. Ter uma consciência de
problematicidade e uma consciência de contradição. Sempre que você se contente com um discurso, ou possuir e utilizar um
conhecimento, tem que fazer essa ...(?)... filosófica. (Bryan Rice(?)), disse o seguinte: "há duas maneiras simples de evitar todas
as complicações dialéticas. Uma é o procedimento fácil: não pensar. A outra, é uma via prudente: não confessar, absolutamente.
Os filósofos desprezam ambas essas maneira e tratam de confessar suas contradições e viver através delas e, desse modo, se for
possível, superá-las."
É claro que essa não é a perspectiva de nenhum conhecimento, nem científico, nem prático, nem teórico, nem coisa
alguma. Porque, qualquer conhecimento, é um conhecimento pré-determinado. No momento em que você recorta o campo, você
já não questiona mais o próprio recorte. Isso é condição sine qua non, senão você não vai conhecer nada.
Portanto, para ser Ciência significa deixar problemas de lado. Existe um elemento de decisão e de convencionalidade,
no recorte do campo, e dos problemas de qualquer conhecimento científico ou técnico.
Sendo assim, é inevitável que esses conhecimentos apresentem contradições, ou com a experiência, ou consigo mesmos,
ou com um outro conhecimento. Porém, o indivíduo que se dedica a aquela Ciência em particular, para ele, essas contradições
não
interessam. Ele segue em frente até que não seja mais possível. Até que ele não consiga obter mais conhecimento por
aquela via.
Porém, no momento do recorte, quantas perguntas você não tem que abandonar... Você fica com duas ou três perguntas.
Então, segue-se a investigação dessas duas ou três
perguntas, até que, mais à frente, nós percebemos que a investigação não pode mais ir para frente, a não ser que se retorne
a aquelas perguntas abandonadas. Acontece que isso pode acontecer com um lapso de 100, 200, 300, 1000 ou 2000 anos, e daí,
você já não lembra mais qual era a dúvida.
O ponto de vista científico é sempre linear, seguir em frente, dentro de uma determinada linha de investigação, enquanto
ela lhe parecer profícua. É claro que a investigação científica requer o abandono da crítica filosófica por algum tempo,
provisoriamente, até que as contradições apareçam outra vez. Isso acontece quando, p.e., partindo de determinadas definições,
principalmente científicas, que você colocou no começo, você chegue a conclusões que desmentem, fatalmente, esses mesmos
princípios.
P.e., parta de um conceito físico, de que matéria é uma coisa que ocupa lugar no espaço. Partindo daí, e desenvolvendo
investigações ao longo de séculos, você chega, no fim, a descobrir um tipo de coisa que não é nada além de matéria e que parece
não ocupar lugar nenhum, então, você tem um "abacaxi" nas suas mãos.
Porém, a Ciência só percebe isso no fim, por absoluta impossibilidade de prosseguir naquela direção. Mas, a
compreensão filosófica consistem em ver a possibilidade dessas contradições já no começo, e na fixação dos princípios. Por isso
não é errada a imagem de que a investigação científica vai para a frente e a investigação filosófica vai para trás. Ela vai no
sentido do fundamento. Ao invés de aumentar o edifício, ela aprofunda a sua base. A fuga das contradições é uma condição sine
qua non para a ação prática. A ação prática é, ela mesma, a superação de uma contradição em particular: a contradição entre a
vontade humana, e as condições estabelecidas. Qualquer ação prática é você fazer alguma coisa que não existia antes. Mudar
uma situação. Do mesmo modo, a investigação científica é a superação de determinadas contradições já definidas de antemão.
Portanto, o campo de contradições que existe, tanto no conhecimento científico teorético, quanto no prático, é um
campo já delimitado, mais ou menos convencionalmente. Delimitado, ou por efeito de uma exigência prática, ou de uma decisão
humana. Porém, a consciência filosófica consiste em buscar o fundamento absoluto do conhecimento.
Portanto, nada está completamente fundamentado, nada é suficientemente fundamentado. A consciência filosófica é a
consciência permanente das contradições. Do mesmo modo que nós podemos dizer que existe um avanço científico quando o
número de respostas obtidas pelas investigações vai sendo aumentado, a coleção de verdades adquiridas vai aumentando, nós
podemos dizer que houve um progresso filosófico quando foi limitado o número de contradições possíveis. Portanto, a Filosofia
lida mais com a possibilidade do conhecimento do que com o próprio conhecimento. Tornar o conhecimento possível, viável, e
não propriamente realizável. Nesse sentido, nós vemos que os escolásticos não tinham uma compreensão filosófica da Lógica,
porque ela lhes parecia um conhecimento que não tinha problema algum. Aliás, essa idéia é a mesma que muitos tem até hoje.
Eu me lembro quando nós começamos a ler o Husserl, nessa aula, e algumas pessoas ficaram espantadas de ver que a
Ciência da Lógica podia estar numa tal bagunça. Mas, ninguém sabe o que,
com relação à Lógica, cada um fala uma coisa. Então, isso é completamente ilógico e, lamentavelmente, é assim. O
próprio Kant, que é o inventor da Filosofia Crítica, o que ele diz logo no começo da crítica em relação à Lógica? Que ela é uma
Ciência que chegou à sua perfeição, que ela está num caminho seguro, e não tem mais nada que se mexer ali. Ou seja, passaram-
se 100 anos entre a comunicação da crítica à razão pura, e isso
que Husserl escreve, para você ver que ...(?)... Onde não haveria parecer mais contradição, onde parecia haver um ponto
científico delimitado corretamente, parecendo que sua delimitação correspondia à realidade e, portanto, se houvesse algum
progresso, esse seria quantitativo, dentro da mesma linha de investigação, de repente, você vê que todos os fundamentos
parecem estar oscilantes.
Primeiro, você não sabe se isso é uma regra de conduta, que diz o que você deve fazer, ou se é uma teoria que diz o que
está, de fato, acontecendo, então, você está perdido, não é?
Me parece que Husserl está muito certo quando diz que não se tem uma compreensão filosófica da Lógica. Até que
surgissem esses debates, ninguém levantou o problema. O problema surge quando John Stuart Mill lança a sua Lógica, na qual
ele diz que, as leis da Lógica tem um fundamento psicológico. Até então, ninguém havia perguntado qual é o fundamento das
leis da Lógica. Nem mesmo Aristóteles. Ele apenas insinua que a Lógica é uma espécie de Ontologia.
Então, ninguém percebeu esse problema porque ninguém tinha uma compreensão filosófica daquilo. Dizer que uma
coisa não tem fundamento conhecido, não quer dizer que ela não funcione. Muitas coisas que funcionam, na prática, você não
sabe o fundamento. A máquina a vapor é um exemplo disso. Ela funcionava, mas não pelos motivos que seu inventor supunha.
P.e., quantos aqui conhecem, precisamente, a teoria da eletricidade? Por quê a luz acende quando você aperta o botão? Ou seja,
quantos, dos que sabem do processo todo, sabem, a cada um dos conceitos que está usando, qual é a realidade correspondente, e
sabe a eficácia real desses conceitos?
Na hora que você fala em elétrons, já complicou tudo. Elétron, é um nome que você dá a um efeito de alguma coisa que
você desconhece. Para mim, elétron é um conceito como o de UFO. É um efeito, um fenômeno, que acontece, e que você, não
sabendo o que é, você o designa com um nome.
Me parece que todos os conceitos da Física Atômica, do primeiro até o último, são todos assim. A rigor, nem o físico
atômico sabe direito o que esse negócio é.
Então, a teoria de que a eletricidade é um monte de anãozinhos circulando dentro de um fio, me parece tão respeitável
quanto qualquer outra que me apresentem.
Se você espremer a teoria dos elétrons, você vai ver que os conceitos de base, não correspondem a coisas reais. São
nomes de efeitos.
Você supor que exista uma força que você chama de eletricidade. Essa força se manifesta sob várias formas: é essa força
que faz você tomar um choque elétrico; é essa força que produz um raio; ela também está presente no seu corpo, etc. Ela tem
muitas manifestações, mas você não conhece a sua natureza.
Porém, você sabe em que condições ela se manifesta em alguns canais, e em que condições ela se manifesta em outros
canais. Então, você sabe dirigir, de certo modo, a produção do efeito, mas você não sabe o que ela é.
Foi justamente tentando responder o que é essa eletricidade que os cientistas chegaram à teoria atômica. Porém, antes da
teoria atômica, já não existiam máquinas movidas a eletricidade?
Então, você já havia chegado a um domínio do fenômeno que, de certo modo, você não tinha a menor idéia dele. No
momento em que você diz que são átomos, e os elétrons saltam de órbita em órbita, e vão colocando um cadeia de efeitos, na
verdade, não
melhorou em nada. Isto, porque, eletricidade é o nome de um conjunto de efeitos que você supunha ligados a uma causa
única, cuja natureza você desconhecia. Elétron é exatamente a mesma coisa.
O que interessa é saber se aquilo corresponde a uma substância determinada, a um ente determinado, ou se é um efeito,
ao qual você apenas dá um nome que o unificasse.
Isto é mais ou menos como a opinião pública. Ela é um ente, uma coisa? não. Ela é uma manifestação de uma infinidade
de causas que você não consegue, nem de longe, delinear.
Elétrons, átomos, partículas sub-atômicas, são conceitos desse tipo. não é como, p.e., em Fisiologia, o conceito de
circulação do sangue. você sabe exatamente o que é sangue. Você não é perfeitamente capaz de distinguir sangue, de uma outra
coisa?
Em Geometria, p.e., o quadrado é um conceito perfeitamente delimitado. Ele não é um nome vago que você dá a uma
constelação de efeitos.
Então, nem todos os conceitos científicos são igualmente fundamentados. Mais ainda, para que as pesquisas prossigam e
dêem frutos, eles não precisam ser fundamentados.
Se você fosse esperar para ter todos os conceitos fundamentados, não teria nem iniciado as pesquisas. Então, todas as
Ciências caminham meio no claro, meio no escuro.
No instante em que você sabe o suficiente para dar um nome unificado a uma constelação de fenômenos, que você
denomina eletricidade, claro que você subiu um grau no processo abstrativo. Você já sabe que a causa que está por trás do raio, e
do que se passa no fio, é mais ou menos a mesma coisa. Você conseguiu unificar os fenômenos num conceito comum, mas, você
não sabe qual é realmente a natureza desse conceito.
Vamos supor um outro exemplo: Várias pessoas aparecem mortas nas mesmas circunstâncias. Eram todas moças jovens,
e foram degoladas. Então, você descobre que todos aqueles crimes foram de autoria do mesmo assassino, só que você não sabe
quem é ele. É a mesma coisa.
Na Física Mecânica, você lida com coisas que você sabe o que são. Entretanto, nenhuma Ciência tem jamais os seus
conceitos arrumadinhos. Se tivessem, então, acabou a Ciência, porque ela se fechou dentro de um esquema explicativo final, e
não precisa mais investigar. Se ainda existe investigação em Física, Química, etc., é justamente porque há muita coisa que não
está clara.
A opinião popular imagina que todos os conceitos estão determinados pelas Ciências, e que cada conceito corresponde a
uma realidade determinada. Se você fala em neutrino, um garoto de ginásio acredita que o neutrino é uma coisa, é um ente.
Buraco negro, p.e., é um nome que você dá a uma coisa que acontece. não é o nome de um lugar. Acreditar em neutrino,
e acreditar em duende, é mais ou menos a mesma coisa.
Você acredita que exista algum tipo de força que faça, p.e., as plantas crescerem? Por quê a seiva sobe, contrariando a
lei da gravidade? Isto é o efeito de uma força. Essa força você denomina de duende. O duende vai lá e puxa a seiva para cima. É
exatamente
pelo mesmo processo que se inventa o conceito de elétron, e se inventa o conceito de duende.
Toda explicação inicial é mágica. Se você dá um nome a um ente, cuja presença você supõe por trás de um conjunto de
fenômenos, isso aí é, evidentemente, mágico. Mas, se não for assim, a Ciência não vai para frente. Isso é exatamente como em
Álgebra: quando você não sabe o que é, você denomina de "x", e continua raciocinando.
Pode ser que esse x não seja um número, mas, p.e., uma equação. Por trás daquele x, existem um monte de outros x que
você também desconhece.
O duende, nesse sentido, é um sinal algébrico também; é um algo. Ou seja, algo faz a seiva da planta, subir. Partindo do
princípio de que não existe efeito sem causa, então, algo deve estar puxando, ou empurrando, a seiva.
A única diferença entre conceito mágico e o conceito científico, é que o conceito mágico é feito com a pretensão de ser
terminal, e o conceito científico é feito, propositalmente, como um sinal algébrico para ser corrigido posteriormente.
A Ciência pode, mais tarde, trocar o conceito de elétron, por um outro conceito melhor. Entretanto, a fantasia não pode
trocar o conceito de duende. Num mundo mitológico, quando você trocar um conceito, cai tudo.
Acontece que o número de pessoas interessadas na solução dos problemas práticos, já é muito pequeno. A maior parte
prefere que os outros resolvam os problemas práticos.
Então, há uma parte dos seres humanos que sabe que existem os problemas práticos, p.e., nós precisamos comer, e a
comida não se faz sozinha, então, eu tenho que trabalhar em alimentos.
Dessa parte, há uma parte que se interessa também, não apenas na solução prática, mas também, como é que se
resolvem os problemas práticos, em geral. Então, eles têm o interesse em problemas técnicos. Então, eles não apenas querem
saber como eles ganham dinheiro, mas, como se ganha dinheiro nessa sociedade.
O indivíduo que está procurando um emprego, ele não está interessado no problema econômico, em geral. Isto não é um
problema técnico. É um problema exclusivamente prático, dele.
Desses que se interessam pelo problema técnico, há uma parte menor que se interessa em que esse conhecimento tenha
uma estrutura científica.
E, desses, tem uma parte, menor ainda, que se interessa que essa estrutura científica seja fundamentada. No fundo, se
resume a uma meia dúzia que carrega tudo nas costas.
A Ciência tanto pode avançar indefinidamente, de descoberta, em descoberta, quanto pode regredir, indefinidamente, na
busca de fundamentos. E esse movimento é uma espécie de pulsação. A história da Ciência é uma pulsação. Ela vai para frente
até que chega a contradições insolúveis e, aí, tem que voltar a investigar os fundamentos, novamente.
A idéia que existia até uns 20 anos atrás de que as Ciências se tornaram independentes da Filosofia, a partir da
Renascença, é uma idéia baseada num ciclo histórico que representa apenas uma dessas pulsações.
Quando chegou ao nosso século, as Ciências encontraram ...(?)..., então, elas começaram a repor as questões
fundamentais, e voltaram para dentro da Filosofia.

[Foi feito o intervalo e a fita pulou uma parte da aula, porque o gravador não foi ligado]

§14. O conceito de uma ciência normativa. O princípio que lhe dá unidade

Começamos por assentar uma proposição de que toda disciplina normativa, e igualmente toda disciplina prática,
repousa sobre uma ou várias disciplinas teoréticas, na medida em que suas regras devam possuir um conteúdo teorético.
A disciplina normativa, embora esteja subentendida na disciplina prática, não contém a prática.
P.e., em termos de julgamentos éticos-morais, quantas vezes você não sabe o que é o certo e, no entanto, não consegue
fazer isso? Então, você tem a norma, mas não tem a técnica.

Consideremos o conceito de ciência normativa em sua relação com o de ciência teorética. As leis da primeira
expressam o que deve ser; as da segunda, o que é. Pergunta-se: quê se quer dizer com esse deve ser oposto ao puro e
simples ser?
"Um guerreiro deve ser valente" significa mais propriamente: só um guerreiro valente é um "bom" guerreiro.
"Um homem deve amar o próximo" quer dizer que quem não o faça não é um homem "bom". Em todos estes casos
fazemos com que a nossa valoração positiva, a concessão de um predicado de valor positivo, dependa do cumprimento de
uma condição, cujo não cumprimento traz consigo o predicado negativo correspondente.

Toda norma implica a idéia de um bem. Em princípio, qualquer norma contém dentro de si a exclusão da norma
contrária. Qualquer obrigação de fazer alguma coisa, é a obrigação de se abster de fazer o contrário.

Os enunciados negativos do dever não devem interpretar-se como negações dos afirmativos correspondentes.
"Um guerreiro não deve ser covarde" não significa que seja falso que um guerreiro deva ser covarde, mas que um
guerreiro covarde é um mau guerreiro.

Isto tem uma sutileza. "É falso que um guerreiro seja um covarde", não é mais uma posição normativa; isto é uma
proposição teorética; isto se refere ao verdadeiro e falso. Portanto, uma proposição normativa negativa, não implica a falsidade
do seu conteúdo. Implica apenas a negação da norma contrária.
"Um guerreiro deve ser valente" e, "Um guerreiro não deve ser covarde", como é que, daí, você vai deduzir o que é um
guerreiro?

É conseqüência lógico-formal disso que o dever e o não se excluam; e o mesmo cabe dizer do princípio de que os
juízos sobre um dever não implicam nenhuma afirmação sobre um ser correspondente.

Ao estar enunciado um dever, desse dever, você nada pode deduzir quanto ao ser a que ele se refere.

Devemos incluir aqui além das proposições com "deve" ou "tem de", que dão na mesma também outras
proposições como: "para que um A seja um bom A, basta (ou não basta) que seja B".

Então, só existem dois tipos de fórmulas de juízos normativos:

1) quando o juízo é construído com Deve, Tem de, Must, Soll, Il faut, dort; tudo isso são formas da mesma idéia. Ou
seja, a necessidade de que uma determinada condição seja cumprida.

2) Para que tal coisa seja isto ou aquilo, basta que tal ou qual condição seja cumprida. Aqui está incluída a idéia de
suficiência.

Enquanto as proposições anteriores concerniam a condições necessárias, nestas se trata das condições suficientes.
Outras expressarão ao mesmo tempo condições necessárias e suficientes.
Com isto esgotamos as formas essenciais das proposições normativas. Vemos que toda proposição normativa
supõe certa classe de valoração (apreciação) num sentido determinado e com relação a certa classe de objetos.

Um conjunto, um sistema de proposições, implica em, primeiro, uma seleção de uma certa classe de objetos. Dessa
classe você vai ver quais são os valores que são pertinentes (bom, mau). Desses valores é que você vai construir as proposições,
das quais, umas serão na base do necessário, e outras, na base do suficiente. Cada um deles no sentido do positivo e negativo.
Isto aqui é um sistema normativo.
Cada classe de objetos admite um certo conjunto de valores que são pertinentes, e há outros valores que são totalmente
impertinentes, que não tem nada que ver com aquilo.
P.e., vamos supor que se trate de comidas: as comidas poderiam ter um gosto agradável, e ter um gosto desagradável.
Sob um outro aspecto, considerá-las não enquanto alimento, mas, enquanto mercadoria, elas poderiam ser caras ou baratas. A
comida em si, enquanto comida, não é cara ou barata. Como mercadoria, sim. O que você determinaria como caro ou barato?
Deve haver um parâmetro qualquer. Na definição do valor, você teria que estatuir um critério qualquer, que seria teorético. Ele
mesmo não faz parte do sistema normativo. O que é essencial é que você tenha uma classe de objetos, um conjunto de valores
que define para o que aquele conjunto será considerado, bom ou mau, e que você, em seguida, expresse esses valores, positivos
ou negativos, sob a forma de proposições, que digam quando você considerará bom ou mau, tal ou qual objeto, no sentido que a
palavra bom ou mau adquire com relação aos valores pertinentes a essa classe de objetos.

Inversamente, se, sobre a base de uma certa valoração geral, foi estabelecido um par de predicados de valor para a
classe correspondente, fica estabelecida a possibilidade de pronunciar juízos normativos.

Claro, se você define um determinado valor, e com relação a esse desempenho, um máximo ou um mínimo, um bom ou
um mau, então, a partir daí, você pode enunciar juízos normativos.

Conceito de juízo normativo: chama-se normativa toda proposição que, com referência a uma valoração geral
básica e ao conteúdo do correspondente par de predicados de valor, determinado por essa valoração, expressas quaisquer
condições necessárias, suficientes, ou necessárias e suficientes, para a posse de um dos referidos predicados. Uma vez que
tenhamos chegado a estabelecer uma distinção entre "bom" e "mau" em determinado sentido e por isto em determinada
esfera, interessa- nos naturalmente averiguar quais circunstâncias, quais qualidades externas ou internas garantem ou
não a bondade ou a maldade no mencionado sentido.

Ou seja, em que condições um determinado objeto será considerado bom ou mau, naquele sentido. Em que condições,
p.e., uma comida é admitida como saborosa, que um procedimento é admitido como imoral, um quadro é admitido como belo ou
feio, etc.

Quando falamos de bom e mau costumamos distinguir também, em valoração comparativa, o melhor e ótimo do
pior e péssimo.

Portanto, todas essas proposições podem ser absolutas ou relativas. Elas podem falar do bom e do mau, ou podem falar
do melhor e do pior.
Isto é a estrutura magna de qualquer sistema normativo que exista no mundo. Desde os 10 Mandamentos, até o
regulamento do Flamengo, o regulamento das escolas, etc.

Suscitam-se, pois, análogas questões normativas com relação aos predicados relativos de valor que com relação
aos absolutos.

Que questões? Quais são as condições necessárias e quais são as condições suficientes. Quando consideramos pior, ou
quando consideramos melhor.

A totalidade destas normas forma evidentemente um grupo cerrado, definido pela valoração fundamental. A
proposição normativa, que exige em geral dos objetos da esfera em questão que satisfaçam na maior medida possível às
notas constitutivas do predicado positivo de valor, ocupa uma posição preeminente e pode designar-se como norma
fundamental.

Se nós estivéssemos falando, p.e., sobre comida, o que significa o sabor agradável em sentido máximo? Como é que nós
poderíamos conceber o máximo de perfeição possível, no sentido gustativo? Isso seria chamado a norma fundamental.
A norma fundamental seria, simplesmente, a expressão em termos de proposição, do valor fundamental. Todo e
qualquer sistema normativo implica uma norma fundamental, mas não quer dizer que essa norma fundamental esteja explícita.

Este papel é representado, por exemplo, pelo imperativo categórico na ética de Kant; igualmente pelo princípio da
"maior felicidade possível para o maior número" na dos utilitários (ou pelo primeiro mandamento da Bíblia).

O que é imperativo categórico? Kant disse: você deve agir de tal maneira que qualquer outro ser humano, colocado na
sua posição, naquela situação determinada, estivesse moralmente obrigado a agir do mesmo modo. Ou seja, uma ação, para o
Kant, é boa, quando ela obedece a um princípio de obrigação universal. ...(?)... chama de a Ética Formal.
Ele não diz, p.e., "bom é você amar a Deus", ou "bom é você amar o próximo", não é um princípio que indica um valor
determinado. É apenas um princípio formal. Ele não disse qual é o conteúdo. Segundo o conteúdo do bem aplicado, a ação só é
boa, se ela obedecer a esse princípio da obrigatoriedade universal. Isso é o que ele chama de imperativo categórico.
Todas as Éticas que surgiram, são ditas Éticas Materiais, porque elas indicam um bem determinado.
P.e., Aristóteles toma como um bem determinado o cumprimento da finalidade da vida humana: o ser humano é um
bicho que está colocado como um animal racional, e o objetivo dele é evoluir no sentido da racionalidade do conhecimento.
Portanto, a vida tem
uma finalidade espiritual. Bom é o que concorre nesse sentido. Mau é o que se opõe. Ele indicou um valor material,
determinado.
Nós poderíamos fazer um novo princípio ético qualquer, p.e., suponha uma ética socialista, comunista, onde a finalidade
é você realizar um processo histórico.
O homem é um ser essencialmente histórico, e está aí para fazer história. A História consiste na sucessão das formas de
dominação dos meios de produção ( comunidade primitiva - feudalismo - capitalismo - socialismo). Então, bom é o que
comporta o processo histórico. Se você ajuda a fazer a Revolução, é bom, se não ajuda, é mau.
Entre você tomar a evolução do homem no sentido de realizar-se como cognoscente, como racional, ou você escolher o
caminho de definir o bem segundo a maior ou menor contribuição que um determinado ato traga para a Revolução, essa é a
diferença entre dois valores, materiais. Material significa que é um valor que tem um ponto determinado.
Kant não faz nada disso. Se perguntarmos para ele se se deve fazer a Revolução, ou se você deve evoluir
intelectualmente, ele dirá: "não sei! Mas, eu sei que uma dessas coisas, ou a outra, só será certa se qualquer outro ser humano
colocado na mesma situação tiver a obrigação de fazer exatamente o mesmo".
A universalidade da obrigação é, em si mesma, a norma fundamental. Se o amor a Deus, p.e., exigir que o sujeito
permaneça burro, ele permanecerá burro. Se o exigir que ele evolua intelectualmente, ele assim o fará. Porque o valor é outro.
Se perguntarmos a Kant: devo amar a Deus sobre todas as coisas? Ele diria: depende. Mas, depende do quê? Depende de
se qualquer outro ser humano colocado na mesma situação, também devesse amar a Deus.
Ou é uma obrigação que serve para qualquer ser humano naquela posição, ou não é obrigação. Ou seja, não existem
obrigações inerentes a uma individualidade concreta.
Só existe obrigação para o ser humano em geral. Tudo isso se chama Ética Formal. não diz o que você deve fazer, mas
uma condição formal que a sua ação deve atender para poder ser boa.
Do mesmo modo, Husserl dá um outro exemplo do princípio da ética utilitária, da ética de Jeremias Benton(?) que é o
da maior felicidade possível para o maior número possível de pessoas.
Você deve agir de maneira que, dos seus atos, resulte a maior felicidade possível para o maior número de pessoas. É um
princípio obviamente material. E é uma norma fundamental.
Se amar a Deus sobre todas as coisas ajudar para a felicidade do maior número de pessoas, então, isso é bom, senão, é
mau.

A norma fundamental indica o princípio ( o valor fundamental) com ajuste ao qual deve verificar-se toda
normação, e por isto ela não representa uma proposição normativa em sentido próprio. A relação da norma fundamental
com as proposições propriamente normativas é análoga à que existe entre as chamadas definições da série numérica e os
teoremas aritméticos sobre relações numéricas -- fundados sempre naquelas. Cabe também designar a norma
fundamental como a "definição" do conceito do bem correspondente, mas isto seria abandonar o conceito lógico habitual
de definição.

Se nós fossemos conceber um sistema normativo, como é que nós faríamos? Começaríamos por assentar a norma
fundamental? Parece que sim, mas, a norma fundamental é o fundamento lógico do sistema normativo, e não é a primeira coisa
que você descobre.
A primeira coisa que se deve fazer é escolher qual é a classe de objetos sobre a qual você vai legislar. Vamos
escolher uma classe de objetos bastante complicada, mas que é aquela de máximo interesse, que são os procedimentos e
comportamentos humanos. Nós vamos conceber um sistema ético.
não é uma filosofia ética; não vamos fundamentar a Ética. Nós não vamos ver se o nosso sistema é verdadeiro ou falso,
fantástico ou razoável. não é isso que nos interessa, agora.
Interessa somente duas coisas: ele tem que representar as valorações que você efetivamente faz; ele tem que ser
coerente. Ou seja, ele tem que ser um sistema.
Para tanto, vamos proceder da seguinte maneira: primeiro, nós temos que abarcar os campos dos objetos. Nós temos que
saber quais são os objetos. É o recorte do campo.
A maneira de recortar, para nós, vai ser muito fácil. Vamos pegar num dicionário, de preferência, analógico, todos os
nomes de procedimentos e atitudes humanas, sobre os quais nós costumamos emitir um juízo de valor. Todos os hábitos e
qualidades humanas sobre as quais nós costumamos emitir um juízo de valor. P.e., a perseverança, a covardia, a generosidade,
ou seja, o que se costumava chamar de virtudes e vícios.
Isso vai levar alguns meses para vocês fazerem. Mas, isso vai ser um grande passo para vocês entrarem na formação da
mentalidade filosófica.
Vocês vão tentar acertar os pontos com relação à Ética. O que vocês pensam mesmo com relação a esse objeto. Depois
de você dizer o que você pensa mesmo, daí você pode fazer a crítica do que você mesmo pensa, mas, primeiro tem que dizer o
que pensa, tal como pensa. Para delimitar o campo, não o aumente além das palavras que já estejam no dicionário. Também não
precisa ser completo no sentido exaustivo. Se faltar alguma coisa, você perceberá mais tarde. O importante é que, com isso, você
consiga abarcar todos os valores e contra-valores que você costuma atribuir ao procedimento humano. P.e., você nunca acusou
alguém de ser covarde, mentiroso, desonesto, indeciso, etc.? Você emite constantemente, juízos de valor, sobre si mesmo, e
sobre os outros (na verdade, mais sobre os outros...).
Esse exercício vai introduzir clareza no seu juízo, a custa de um pouco de esforço. não quer dizer que esses juízos serão
certos, mas dali em diante vocês não serão o non-sense completo.
Assim:

1) demarcar o campo: a classificação pode ser por ordem alfabética, como está no dicionário. O campo é constituído
pelos nomes das qualidades e defeitos correspondentes.

2) achar os contrários de cada nome. Uma mesma coisa pode ter vários contrários em vários sentidos. Significa que,
para cada contrário, corresponde um sentido da palavra.

3) aí, vocês vão começar a distinguir o que são os termos, e quais são os conceitos que estão lá, implícitos. Se ao
mesmo termo equivale 5 contrários, esse termo designa 5 conceitos. P.e., covardia 1, covardia 2, covardia 3, covardia 4 e
covardia 5.

4) depois, você vai tentar definir exatamente no sentido em que você costuma aplicar essas palavras. não é para ver
a definição no dicionário, porque ele explica apenas o sentido de termos, e nós não estamos nos referindo aos termos e, sim, aos
conceitos correspondentes, tais como você os entende. Com isso, você vai chegar a um grupo mínimo, irredutível, de conceitos.

5) finalmente, você vai expor esses conceitos sob forma de proposições. p.e., um homem generoso deve fazer tal e tal
...

não interessa muito você julgar se as suas proposições são verdadeiras ou falsas, o que interessa é que você consiga
exprimir o que você realmente considera.
É claro que, na maior parte dos casos, vai acontecer aquilo que sempre acontece, que é quando você pergunta, p.e., o
que é generosidade, ao invés de dar uma definição, você dá um exemplo.

6) depois de tudo isso, você vai descobrir qual é a norma fundamental que está por trás de cada proposição feita.
A norma fundamental que está por trás do seu sistema ético.

não tem outro jeito de você consertar as suas opiniões, se você não souber o que são essas opiniões.
Mais complicado que tudo isso, seria você corrigir as suas opiniões, uma a uma. Se você captar a norma fundamental, ao
corrigi-la, você corrige o resto das suas opiniões. Clareza significa fazer menos juízos arbitrários, obscuros, totalmente
subjetivos. Porém, isso aqui vai ter uma conseqüência muito grave sobre as suas cabeças: vocês vão entender o quanto é sério
você fazer um julgamento sobre um outro ser humano.
Daí, vocês podem perguntar: por quê determinados procedimentos que, em si mesmos, nada têm de errado, me irritam
tanto? E pro quê eu costumo atribuir esses comportamentos a deficiências morais?
P.e., tudo aquilo que nos irrita, mas, automaticamente, emitimos um juízo moral. Isso aí só é válido se você colocar
como norma fundamental o seguinte: tudo o que me irrita é mau; tudo o que me agrada, é bom. Essa é ética de um garoto de 3
anos de idade.
Uma vez feito esse exercício, ou você diz adeus à ética do garoto de 3 anos, ou você faz um suicídio da sua inteligência
para sempre, e parte para o vale-tudo.
Inicialmente, a delimitação do campo deve ser exaustiva - o máximo de palavras possível. Porém, o sistema que você
vai construir deve ser o contrário, deve ter o mínimo de conceitos possível.
Dêem preferência, sobretudo, não a aqueles conceitos que pareçam objetivamente importantes, mas, a aqueles que
expressem as opiniões que, habitualmente, vocês já emitem sobre as pessoas.
Com isso, as pessoas que se conhecem mais, às vezes, são mais aptas a saber, para um outro indivíduo, quais são as
opiniões que ele costuma ter. P.e., quando você abre a sua boca para criticar alguma pessoa, quais são os defeitos que com mais
freqüência você assinala, aqueles a que você é mais sensível? O que importa é que você se defina com relação a isso. P.e., se o
fenômeno da covardia não te chama a atenção, mexe menos com relação a você, então, ele importa menos para o teu sistema
real.
Só com isso aqui você já vai perceber um monte de contradições, e vai ter que se ajustar com relação a si mesmo. Isso
aqui é quase um histórico da Psicanálise.
O exercício tem que sair com uma definição das principais virtudes, e vícios, tais como você as entende. P.e.,
consideremos a luxúria. Você se impressiona por uma pessoa ser luxuriosa? Se, não, esse conceito parece que está fora do seu
sistema moral. Na opinião corrente, ele seria moralmente neutro. Pelo menos, parece que sim. Então, se não há opinião moral
sobre isso, não interessa você perder tempo nesse tópico.
P.e., a prudência, ou a imprudência. Prudência é uma virtude importante, de acordo com certos sistemas éticos antigos.
Entretanto, a imprudência, a pessoa agir de uma maneira que não é sábia, insensata, você costuma considerar isso muito grave?
Uns sim, outros, não. Em geral, parece que uma conduta insensata está fora de julgamento moral.
Para mim, pessoalmente, isso é muito grave. Eu estou habituado a ferver de raiva, sempre que uma pessoa diz que fez
uma coisa, sem perceber. Fazer já é grave, e não perceber, é muito mais grave ainda. Mas, isto é uma atitude minha. Eu não
considero que a ausência de intenção explícita seja desculpa para nada. Aliás, é exatamente o contrário, porque qualquer coisa
que você faz sem intenção, é porque você faz por hábito. Ou seja, você fez sem precisar pensar que ia fazer. Mas, essa é uma
atitude ética que, eu mesmo, pensando, cheguei, e que não é compartilhada pela maioria das pessoas. A tendência natural do
meio é dizer que você fez sem querer!
Então, quer dizer, o sujeito que rouba por hábito é menos culpado do que o que roubou uma vez só. Na verdade, é o sem
querer, querendo, ou seja, significa que eu não quero prestar atenção nesse assunto. Eu não quero prestar atenção no seu pé que
está na frente, eu quero é ir pisando. Isto é uma má intenção, que se oculta sob a fachada de uma ausência de qualquer intenção.
Quando você é acusado de alguma coisa qual é a sua tendência imediata? É examinar para ver se você realmente fez aquilo? O
reflexo é exatamente o contrário: é tirar da reta, mediante uma negativa, onde nós inventamos uma justificação.
A justificativa automática se baseia numa norma fundamental, segundo ao qual, eu não posso errar. Se eu errei, ou é
falso, na verdade, não errei, ou é um erro aparente, que na verdade é um acerto. São reflexos que você vê normalmente, no dia-a-
dia.
Quando você terminar de fazer esse exame, você vai ver que você está num meio social onde qualquer consciência
moral é quase proibida. E, daí, você vai entender porque não existe Ética. A exigência de que se exista uma Ética, é totalmente
utópica.
Particularmente, eu acho muito engraçado que as pessoas queiram que, especificamente, os políticos deveriam ser mais
honestos que o resto da população. Normalmente, é o contrário.
Se você já está num meio onde a falta de conceitos éticos é total, como é que os políticos deveriam ser honestos? Se
não existe o hábito de você se julgar, e de se considerar culpado, quando está culpado, se não existe o hábito de saber que existe
culpa, erro, então, sem dúvida, você não tem consciência moral nenhuma.
Hoje em dia, as pessoas estão muito angustiadas e, por isso, elas não agüentam mais culpas, então, existe uma espécie
de necessidade de se livrar de qualquer sentimento de culpa, e essa necessidade é totalmente contrária ao desenvolvimento de
qualquer consciência moral, porque se não existe culpa, não há moralidade alguma.
Com isso, nós vemos que o problema ético na sociedade brasileira é muito mais profundo do que a imprensa propaga.
Eles acham que se deve fazer uma campanha de moralidade, por meia dúzia de pessoas na cadeia, etc. Colocar as pessoas na
cadeia, o punitivo, já não é mais uma Ciência normativa, e sim, uma Ciência prática, que decorre de uma norma. Punir os
culpados, é uma decorrência de você ter ensinado uma determinada norma, essa norma ter sido apreendida e, em seguida, haver
uma violação. Mas, e se a norma jamais for apreendida, e você começa a punir os culpados?
O problema da imoralidade da administração pública, não é só no Brasil, mas no Terceiro Mundo em geral, ela tem
raízes muito anteriores. Existem massas de indivíduos que não tem a menor idéia do que é ter uma culpa, e perderam isso de
vista, há muito tempo.
Num meio assim, a culpa quando não é aceita conscientemente, e fica inconsciente, aí, aumenta enormemente. Vira um
monstro, porque você está culpado de tudo o que aconteceu.
A idéia desse exercício é a de que se nós conseguirmos fazer um núcleo de pessoas que estejam muito conscientes de
que o julgamento moral, por um lado, não é tão terrificante quanto as pessoas imaginam, não é tão complicado, impossível, mas
que, por outro lado, é absolutamente impossível você acertar sem uma noção clara de culpa e inocência, bem e mal.
Eu acho que se houverem umas 10 pessoas que tenham essa noção esclarecida, isso vai fazer um bem muito grande para
a sociedade em torno, mesmo sem abrir a boca.
É isso que eu estou convidando vocês, pela primeira vez na vida. Vai começar com a simples exposição das idéias que
vocês já tenham, sem importar se elas estão todas erradas. O que importa é dizer o que você realmente pensa: "eu considero
generoso um homem que age assim e assado"; "para que seja generoso, basta que..., ou basta que ...", "eu considero covarde o
sujeito que procede assim e assado".
Depois, mais tarde, você vai fazer a crítica disso. Mas, primeiro exponha essas proposições e depois você encontre a
norma fundamental que está por trás delas.
A norma fundamental teria que responder à pergunta: o que é um homem bom?
Mas, não é isso que você vai responder, agora, não. Do que você expressou, você vai, retroativamente, entender o que
você sempre considerou como um homem bom.
Pode ser que você descubra que o seu conceito é muito estreito, ou que você não tem conceito nenhum, ou que é um
conceito meramente empírico, ou que é um conceito subjetivo (bom, é o homem que te ajuda; mal, é o homem que te atrapalha),
mas algum você vai ter.
não é necessário que o trabalho final, que será apresentado por escrito, expresse integralmente a opinião de cada um.
Cada um, mesmo que a sua opinião não esteja ali contida no trabalho, ele já sabe qual é. Você faz um trabalho para fora, e outro
para dentro. O trabalho para dentro é o que interessa.
O grupo serve apenas como referência para ele poder discutir aquilo. Tentem reduzir a um mínimo possível, partindo de
uma amostragem grande. Quanto mais rápido for feito esse trabalho, melhor para vocês, mesmo que ele seja incompleto,
deficiente; não tem importância.
Você vai ver que existem muito mais vícios e virtudes do que você costuma atribuir às pessoas. Mais ainda, você vai
aprender qual é o nome exato daquelas que você costuma atribuir. Muitas não tem, sequer, nome.
Se na procura de nomes você passar por, p.e., preguiça, você não percebe que aquilo é um termo moral, significa que
para você, não é. Então, não considerem.
Procurem só os termos que vocês considerem como morais e/ou imorais.
Preleção XVII

18 de março de 1993
[Neste começo de aula, Olavo faz um esboço do exercício]

Uma teoria que explica imperfeitamente um fenômeno, você diz que ela é injusta ou parcial? Ela é parcial, pois não
comete uma injustiça. Existe uma parcialidade puramente intelectual, teórica, mas não é uma injustiça teórica. Portanto, se
referem a coisas diferentes (imparcial e injusto).
Dificilmente você vai encontrar uma palavra que diga exatamente o que você quer dizer, no mesmo sentido que você
exprime. P.e., maleável, é um sujeito do tipo maria-vai-com-as- outras. Imoral, p.e., é genérico demais.
Vamos procurar na memória, palavras que expressam idéias afins ao conceito de qualidades e defeitos humanos. As
conexões entre essas palavras seriam altamente duvidosas porque as palavras iriam ocorrer mais ou menos a esmo. não há uma
conexão lógica entre elas. Há apenas uma conexão de no uso habitual elas são usadas mais ou menos dentro do mesmo contexto.
Sejam pertinentes ou sejam impertinentes.
O dicionário analógico organiza as palavras mais ou menos assim. Todas as palavras que, no uso corrente, são usadas
em contextos parecidos. não quer dizer que haja realmente uma conexão entre elas, ou que esse uso seja próprio mas,
simplesmente, ele está te dando o material bruto da linguagem.
É uma lista de palavras que só estão ligadas a um mesmo conceito, por força do uso. É uma ligação meramente
acidental. Se você procurar uma lógica num dicionário analógico, você não vai encontrar.
Analogia é uma gaveta da memória onde você coloca coisas que pareceram semelhantes, às vezes, por coincidência
fortuita, mas que se continuar a ser usada no mesmo sentido consolida aquela significação.
A língua se faz assim. Ela não é racional. Se ela já viesse com todas as categorias arrumadas, as palavras classificadas
com a natureza dos objetos correspondentes, a língua seria, em si mesma, um sistema filosófico.
Se a língua já te desse tudo pronto, você não teria nem que pensar, é só falar que tudo dá certo. Na verdade, existe a
Filosofia justamente onde a linguagem não é assim.
Tanto que houveram filósofos que acreditavam que a Filosofia, toda, pudesse se resumir a uma análise da linguagem, e a
uma espécie de limpeza da linguagem. Coisa que eu não concordo, mas, não deixa de ter lá a sua razão.

[continuação dos exemplos]

Desobediência, em si, é defeito? No seu entender, por quê o sujeito desobediente é mau? Desobediência é uma atitude
com relação a uma ordem. Então, se você não sabe qual é o conteúdo dessa ordem, não dá para saber se a obediência é virtuosa,
ou maléfica.
A desobediência em si, não é uma atitude moral. A obediência se funda numa atitude moral. A obediência é uma relação
que se estabelece entre o modo e um determinado comportamento moral que se exige dele.
Então, nós estamos falando aqui de comportamentos que sejam materiais, que tenham um conteúdo próprio. P.e.,
quando você diz que o sujeito é negligente, não importa a que. A negligência, em si mesma, está subentendida que é ruim. A
desobediência já depende do contexto.
Transgressão, p.e., é como desobediência, é um termo puramente formal. Ela também não é, em si mesma, uma atitude
moral.
Desrespeito, p.e., é uma nome de uma classe.
Irreverência: não é possível se dizer que um sujeito é irreverente, perante uma coisa, ante a qual não se espera
reverência, não é? Os outros diriam que ele é irreverente, mas ele não se consideraria.
A irreverência não é como a transgressão ou a desobediência que são termos inteiramente formais. A irreverência tem
algum conteúdo que implica uma determinada atitude, perante algo que se pretende digno de reverência.
Esse termo pode ser valorizado positivamente, ou negativamente, porém, sempre que for valorizado positivamente, o
próprio indivíduo que é irreverente, que invaloriza sobretudo, ele não concordará que ele é irreverente.
P.e., o sujeito que faz uma sátira rígida de alguma instituição pretensamente respeitável, os outros lhe dirão que ele é
irreverente, mas ele dirá que rir de uma coisa dessas não é irreverente.
Quando você diz que um sujeito é desobediente, ele pode concordar com essa qualificação, quer ele aceite a
desobediência como má, porque aí ele acha que é boa. Mas, p.e., a ingratidão, não.
Desobediência e transgressão são termos puramente formais, que não implicam numa valoração, em si mesmas. Mas, a
ingratidão, não.
P.e., se você é acusado de desobediente a uma ordem, você pode dizer que desobedeceu mesmo, porque você acha a
ordem injusta. Portanto, o mesmo termo pode ser usado no sentido positivo ou no negativo.
Quando alguém te acusa de ingrato, você pode dizer que não foi ingrato porque você acha que não deve nada a alguém.
Ou seja, você vai rejeitar o qualificativo de ingrato. No caso da desobediência você aceita o termo, mas muda só a valoração.
Há muitos termos que são usados negativamente em geral, mas que, em si mesmos, não implicam a valoração negativa.
Então, são termos formais, e a ingratidão não é um desses.
O que eu estou querendo saber é se a irreverência é um termo formal, ou não. Me parece que não. Um termo formal não
pode ser colocado dentro da definição de virtude e vício, porque ele não é nem virtude, nem vício; tanto podem ser positivos ou
negativos, dependendo do ponto de vista.
A ingratidão é uma situação definida. Você só pode ser ingrato com quem te ajudou. O problema é que na maior parte
dos casos, usa-se o termo irreverência num sentido metafórico. É como se usa no Brasil, o termo polêmico. Qualquer pessoa que
fale algo que você não goste você diz que é polêmico. Polêmico, é quando você fala uma coisa que pode ser questionada e que
pode dar a maior confusão.
Irreverente, propriamente, seria um sujeito que, sabendo que algo é digno de reverência, por isso mesmo, ele se levanta
contra. Seria como blasfemar.
Se eu não acredito em Deus, ou que Ele exista, o que quer que eu fale dele não é blasfêmia. Se eu acredito, e estou
zangado com ele, e o xingo, aí, neste caso, é uma blasfêmia. O ateu, p.e., não pode fazer sacrilégio.
Da lista dos termos que vocês acham que sejam bons ou ruins, os que sobrarem constituirão valores, positivos e
negativos, que terão que ser transformados em normas. Quanto menos sobrar, melhor.
Ingratidão, é o não reconhecimento devido a um benfeitor. É o não reconhecimento a um benefício recebido.
O que caracteriza o ato da ingratidão? Quando nós podemos dizer que um sujeito foi ingrato, ou não? Dito de outro
modo, nos termos do Husserl, qual é a condição necessária, a condição suficiente, ou a condição necessária e suficiente, para nós
dizermos que um sujeito foi ingrato?
Aqui é que nós começamos a tratar em termos de normas.
Na definição que nós demos, a devolução ou a retribuição não fazem parte dessa definição, mas apenas o
reconhecimento. Isso quer dizer que nós podemos baixar uma norma de que todo sujeito que não retribui o benefício recebido, é
ingrato? não, porque a retribuição não faz parte do conceito da ingratidão.
O reconhecimento é uma condição necessária, suficiente, ou necessária e suficiente, para nós dizermos se houve
gratidão? Se não dá para saber isso, então, nós temos que fazer uma sub-norma: houve reconhecimento em tais ou quais casos, e
não houve em tais ou quais casos.
Vamos explicitar isso. A gratidão, por definição, é o reconhecimento de um benefício recebido. Transformando isso
numa sentença normativa, nós diríamos que houve gratidão sempre que houve o reconhecimento de um benefício recebido.
Sub-norma: quando houve reconhecimento de um benefício recebido? O que define o reconhecimento, e o não? Nunca
aconteceu, na vida, de vocês acharem que alguém foi ingrato com vocês, ou com alguma outra pessoa? E o que caracterizou essa
ingratidão? A gratidão ou ingratidão não está no benfeitor, está em quem recebeu o benefício, portanto, o que o benfeitor pensa,
não interessa.
O conceito de gratidão pressupõe que houve um benefício real, não compensado com um benefício pela devolução de
um outro benefício. Vejam, então, quantas normas estão por trás disso tudo.
Para colocarmos a ingratidão aí, nós teríamos que colocar a beneficência como uma virtude, e se a beneficência não for
uma virtude, como a ingratidão poderia ser um vício?
Normalmente, na vida prática, nós legislamos, baixamos normas, sobre aspectos de detalhes, sobre casos particulares,
sem entendermos as normas mais gerais que existem, nas quais isso se assenta.
Um dos objetivos do exercício é explicar as normas nas quais vocês acreditam sem nunca se terem dado conta. Se a
beneficência, e a tua generosidade, não são uma virtude, então, a ingratidão, que é um não de um benefício, não pode ser um
vício, de maneira alguma.
Então, para colocar a palavra ingratidão como vício, você tem que por a generosidade como uma virtude. Qual é o
contrário de generosidade? Mesquinhez.
Se você tivesse definido generosidade e mesquinhez, para depois você condenar a ingratidão, bastaria que você dissesse
que ela é uma mesquinhez.
Assim, você vai organizando os gêneros e as espécies. Se a ingratidão é um tipo de mesquinhez, então, não precisa ter
uma norma explícita sobre ela; basta dizer que ela é mesquinhez. Simplifica.
Assim, qual é a condição necessária e suficiente para você poder dizer que houve uma ingratidão? Veja nos casos
concretos: quando você atribuiu ingratidão a alguém, foi por quê? Qual era o raciocínio que estava subentendido na sua
condenação? Que norma estava implícita quando você fez a condenação?
A ingratidão de tipo afetiva, é uma espécie, é uma particularidade. estão compreendendo como na vida diária nós
legislamos sobre particularidades, sem perceber e, às vezes, sem admitir a norma implícita que aquilo se baseia?
Mesmo entre pessoas onde não haja qualquer tipo de vínculo afetivo, de nenhuma espécie, é evidente que pode haver
ingratidão.
Então, o vínculo afetivo não é necessário para que exista uma ingratidão. No entanto, todos lembram do vínculo afetivo.
Isso mostra que esse caso particular de ingratidão, afetiva, lhes chamou a atenção. não é que ele aconteça com mais freqüência.
Quando você faz um sistema de normas morais, e pega somente detalhes, particulares, então, é um sistema
subjetivamente orientado. É totalmente distorcido, onde você vai julgar os outros de acordo com aquilo que te fere. Mas, e se o
sistema subjetivo do outro é completamente diferente?
Vou lhes dar um exemplo: eu tinha um amigo, que achava que a coisa mais feia que um homem pode fazer é deixar uma
mulher desamparada, quando ela quer transar com ele. Ora, ele era um "cavalheiro"... E, ele agia assim.
Então, eu lhe perguntei: e se fosse a mulher do próximo? Ele: "Também!". Ele usava o termo "fazer carinho". Isso quer
dizer que ele achava que esse era um procedimento certo.
Ora, há algo realmente de errado em você desprezar aquela que te deseja, não é? Porém, o sujeito era sensível a essa
maldade.
Vamos supor que ele encontrasse com alguém que pensasse exatamente o contrário: que a coisa mais feia do mundo é
você transar com uma mulher só porque ela quer transar contigo. E vamos supor que um desses conhecesse a mulher do outro. O
que iria acontecer? Meu amigo diria: "Mas, eu transei com a sua mulher porque ela queria, e eu não podia fazer uma maldade
dessas, não podia deixá-la desamparada. não seria humano...". Ou seja, não se pode negar que o sujeito percebeu algo que
realmente é errado, mas esse algo toca a ele. Entretanto, e se ele faz disso uma norma universal? De fato, o princípio que ele
cumpria, não vigora, porque qualquer julgamento que você faz, você sempre pretende que seja universal.
De fato, todo mundo pratica o tal do imperativo categórico. Todo mundo acha que qualquer outro, colocado naquela
posição dele, teria que fazer mais ou menos a mesma coisa, e é por isso mesmo que ele faz.
Em geral, na vida prática, os nossos preceitos morais são todos desse tipo: o particular, ampliado, generalizado até a
universalidade, como norma.
Porém, esse particular, por sua vez, ele se fundamenta logicamente em outras normas que você desconhece. Quando
você aplica uma norma, e quando você aplica outra?
Se você pegar várias normas particulares, você vai ver que todas elas se baseiam em algumas normas mais gerais. É a
norma geral que dá o critério de aplicação das normas particulares.
Então, vamos supor o princípio: jamais podemos deixar de fazer carinho pelas mulheres interessadas. Qual é o
fundamento disso? Qual é a norma mais geral, da qual, essa é um caso particular? Seria, p.e.: fazer o bem ao próximo.
Porém, se ele fizesse isso somente com as mulheres interessadas, ele teria que deixar de cumprir essa mesma norma com
relação aos maridos das referidas mulheres.
Quando você sobe desde a norma particular até o seu fundamento mais geral, você vê como você está sendo
inconseqüente quase que o tempo todo. As discussões morais, as condenações, os elogios, geralmente, são baseadas nesse tipo
de aberração.
Graças a Deus, as pessoas, em geral, não têm autoridade sobre a vida moral alheia, porque se tivessem, seria um Deus-
nos-acuda! E também, as opiniões morais das pessoas já não são ouvidas.
Porém, aqueles que pretendem levar uma vida intelectual, que pretendem que sua opinião tenha uma autoridade, eles
não podem continuar assim. Você tem que ser mais responsável nas suas opiniões, porque, se você julga o próximo com um
determinado critério, você tem que admitir que esse critério é válido também para você.
Se você faz qualquer julgamento com uma determinada norma particular, você tem que aceitar também a norma geral na
qual aquela se fundamenta.
E você também tem que aceitar que, em função dessa norma geral, talvez aquela particular que você tem usado, não se
aplique naquele caso.
P.e., se você coloca uma ênfase afetiva na ingratidão, você certamente conseguirá, com a maior boa consciência, ser
ingrato com um monte de pessoas às quais você não está afetivamente ligado, e não vai se sentir um ingrato.
Isso aqui já é uma crítica da norma.
Na hora que você vai tentar definir a norma relativa à ingratidão, você cair num particular, então, você tem que remontar
a uma norma mais geral.
Se você conseguir fazer um sistema moral que chegue a 10 normas, e verificarmos se atrás dessas normas existem outras
que as fundamentam, nós já vamos corrigir um monte de critérios morais. P.e., por quê a ênfase no afetivo? O afetivo parece
mais importante. Mas, o afetivo seu; o afeto do outro, você não sente?
Então você supõe que a ingratidão é pior se você é ingrato com alguém que você gosta. E se você for ingrato com
alguém que gosta de você, sem que você goste dele? Você não sente a ingratidão. E, essa é a definição mesma da ingratidão. E,
duplamente ingrato: você ingrato por não gostar de alguém que gosta de você, e é ingrato por não reconhecer o benefício que ele
te fez, e, por último, você é ingrato por não dizer que isso é ingratidão.
Isto quer dizer que, na vida diária, o que nós chamamos de justiça é, precisamente, o que é injustiça. A ausência de
clareza sobre esses pontos é quase universal. A confusão é total.
Os 10 Mandamentos são uma fórmula de normas gerais. Eles são princípios morais.
Se você pegar o primeiro mandamento: Amar a Deus sobre todas as coisas. O que é Deus? Quid est? não sabemos nem
se Ele existe. Porém, se existisse, Ele deveria ser algo bom. Mas, não essa ou aquela coisa boa em particular. Então, você
começa a explicitar essa norma, em normas mais concretas: o Bem universal deve ser amado acima de todos os bens parciais, ou
particulares.
Por outro lado, esse Deus, se existir, deve ser verdadeiro. Aliás, se Ele não existe, Ele não é nem Deus. Então, você deve
amar o que é verdadeiro acima do que é falso.
A mais mínima aplicação de um desses critérios ao julgamento de um ato qualquer já bastaria para corrigir os critérios
desse ato. P.e., se nós dizemos que o Bem universal deve ser preferido a qualquer bem particular, então, no caso da gratidão e
ingratidão, você teria que ver o que existe de intrinsecamente bom no ato do seu benfeitor, e no seu. E, tanto um ato, quanto o
outro ato, deveriam ir no sentido do Bem.
P.e., a preferência pelo Bem. Você tem certeza que você prefere o Bem? Se você não prefere o Bem, com que
autoridade você julga os outros?
Preferir o bem como norma moral, seria a norma fundamental de qualquer código. Isto significa que, em qualquer caso,
em qualquer situação em particular, por mais peculiar, esquisita, singular, que seja, deve haver um lado, algo, que favoreça o
Bem universal. Bastaria você aplicar isto que você já corrige imediatamente. P.e., quando você deve ser grato? Sempre que a
gratidão for um bem.
Quando que a gratidão é um mal? Em princípio, jamais. E se você for grato a quem não te fez nenhum benefício? Há
algum mal nisto? não. Digamos que seja neutro.
E se você for ingrato com quem te fez um benefício? Aí, isto é mau!
E se você for grato com quem te fez um benefício, com má intenção? Em princípio, se é para aplicar o Primeiro
Mandamento, é ser grato sempre, por via das dúvidas.
Isto significa que nenhuma ingratidão se justifica jamais sob pretexto algum.
Uma maneira simples de você construir um código moral seria você pressupor os 10 Mandamentos, e interpretá-los ao
seu modo, não teologicamente, mas de acordo com o simples sentido lógico que as frases tem e você deduzir dali.
Uma outra maneira seria você pegar as virtudes teologais da Igreja católica (Fé, Esperança, Caridade, Fortaleza,
Temperança, Justiça, Prudência), e ver como você entende cada uma destas, mas este método não seria bom porque eu não quero
que vocês façam um sistema perfeito.
Eu quero é que vocês percebam as lacunas que existem no sistema moral de vocês. Estas lacunas são a de que vocês
legislam sobre o particular, sem legislar sobre o geral. Isto é o que se chama de casuísmo.
Sem ter um princípio determinado, você legisla para um determinado caso, você faz uma lei que se aplica a um caso e
isto é uma distorção tremenda. Se você for legislar caso por caso, então, cada passo é uma norma e não acaba mais. Isto também
significa que tudo o que você faça está certo.
Geralmente, as normas morais de uso corrente são todas casuísticas. Então, não é possível haver nenhuma justiça nisso,
nunca.
Qualquer sistema moral pressupõe uma estrutura lógica dedutível que vai do geral para o particular. Ele pressupõe uma
estrutura coerente desde a norma fundamental. O que quer que esteja desligado da norma fundamental não faz parte do sistema.
Se você legisla casuisticamente como que você iria remontar desde estes múltiplos casos até a norma fundamental?
Se não existe uma norma fundamental, então não existe sistema moral, e se não existe sistema moral você não tem
nenhum jeito de dizer se as normas do outro estão certas ou erradas. Então acabou o diálogo e virou a lei do pega-prá-capar, é a
lei do cão, do mais forte. E é o que acaba vigorando. E mais, não é qualquer sistema moral que é compatível com qualquer outro.
Aliás, o que um sistema considera lícito e bom pode ser o que o outro considera pior.
P.e., o sistema moral socialista de que tudo o que contribui para a Revolução, para a libertação do proletariado, é bom.
Eles adotaram esta norma e imediatamente começaram a agir de maneira que pareceram inteiramente aberrantes e criminosos ao
restante do mundo. P.e., por quê manter os tratados internacionais, se rompê-los pode ser melhor para a vitória do proletariado?
Porque os tratados foram feitos com base num sistema ético. O sujeito assinava o tratado com base num sistema e cumpria outro.
Isto é estelionato, não é?
Do mesmo modo, nas relações humanas se você dá um significado às suas normas e o outro dá outro significado eu vejo
que na nossa sociedade isto está ficando cada vez pior, porque se você não tem a unidade mínima de um princípio moral a ser
ensinado a uma sociedade as pessoas vão acabar inventando algum código. E acabam inventando mesmo.
Eu não sei de nenhum lugar nesse país onde ninguém esteja fazendo um único esforço para esclarecer isto, a não ser
aqui. não sei se isto vai dar algum resultado mas, eu acho bastante possível que se houver algumas pessoas que tenham alguma
clareza nisso essa clareza possa irradiar um pouco pelo meio. Mais dia, menos dia, você acaba falando coisas óbvias e as pessoas
acabam ouvindo.
Então, vocês vejam que no caso da ingratidão nós caímos no casuísmo. não conseguimos definir a norma da condição
necessária e suficiente da ingratidão ainda porque caímos no casuísmo do afetivo, mesmo sem mencionar que se você gosta de
uma pessoa e ela é ingrata com você, você acha que a ingratidão é horrível.
Porém, com relação à pessoa que você não gosta se você for ingrato você não sente que foi. Portanto, o vínculo afetivo
da gratidão complica tudo.
Mas, a maneira normal e habitual de fazer um sistema normativo não é assim como nós estamos fazendo. É exatamente
o contrário. Primeiro você vai colocar a norma fundamental e através de uma discussão dialética das normas existentes você fixa
essa norma fundamental como um princípio, nem que seja por dedução.
Entretanto, o que eu estou querendo é achar uma espécie de inteligência que orienta as ações de cada um. O mais certo
seria você fazer este exercício sozinho. Só que isto requer uma concentração que, em geral, leva anos para você adquirir.
As pessoas não se examinam direito porque para isso elas precisariam de ficar às vezes 2 ou 3 horas seguindo o fio da
meada de intenções implícitas, e para isso é necessário um esforço. Montar uma situação dialética exterior, através de um
interlocutor, fica mais fácil.

[voltando ao texto do Husserl, ele faz um retorno à página 17, linha 63]

A totalidade destas normas forma evidentemente um grupo cerrado, definido pela valoração fundamental. A
proposição normativa, que exige em geral dos objetos da esfera em questão que satisfaçam na maior medida possível às
notas constitutivas do predicado positivo de valor, ocupa uma posição preeminente e pode designar-se como norma
fundamental. Este papel é representado, por exemplo, pelo imperativo categórico na ética de Kant; igualmente pelo
princípio da "maior felicidade possível para o maior número" na dos utilitários (ou pelo Primeiro Mandamento da
Bíblia).
A norma fundamental indica o princípio (o valor fundamental) com ajuste ao qual deve verificar-se toda
normação, e por isto ela não representa uma proposição normativa em sentido próprio. A relação da norma fundamental
com as proposições propriamente normativas é análoga à que existe entre as chamadas definições da série numérica e os
teoremas aritméticos sobre as relações numéricas -- fundados sempre naquelas. Cabe também designar a norma
fundamental como a "a definição" do conceito do bem correspondente, mas isto seria abandonar o conceito lógico
habitual de definição.
Se nos propomos a finalidade de investigar cientificamente, com referência a uma "definição" desse tipo, a
totalidade das proposições normativas correspondentes, surgirá a idéia de uma disciplina normativa.

A disciplina normativa seria construída fixando-se uma norma fundamental e em seguida com referência a um valor que
nessa norma fundamental está expressado a títulos máximos, você vai achar as normas que estabelecem as condições necessárias
e suficientes para usar nos tipos de atendimento desse requisito.
O que nós estamos fazendo aqui é exatamente o contrário. Nós estamos tentando remontar desde certas valorações
efetivamente feitas na prática até algumas normas implícitas.
Se fosse possível você remontar até uma norma fundamental implícita, então você teria esclarecido de fato a totalidade
do certo pensamento moral real. Só que você não vai achar essa norma fundamental por uma razão muito simples: é porque ela
não existe.
O tipo de julgamento moral que se faz na vida cotidiana geralmente deriva de um composto acidental de vários sistemas
morais diferentes, e você chegaria a várias normas morais contraditórias. São sistemas morais superpostos.
Seria muito interessante se fosse possível, na prática, você pegar uma pessoa, que não fosse você mesma, e esclarecer
totalmente, norma por norma, implícita no comportamento dela até você chegar a essas normas fundamentais. Aí você teria
demarcado cientificamente qual é a composição desse complexo de sistemas morais que está na cabeça dessa pessoa.
É possível você fazer essa análise, mas nunca de forma completa. Levaria meses para você examinar isso tudo.
Porém, como as pessoas geralmente não tem essa capacidade reflexiva de comparar o seu comportamento num
momento com o de outro momento, as suas intenções de agora com as suas palavras de ontem, então a multiplicidade
incongruente das normas que fundamentam o seu comportamento acabam lhe escapando.
Isto não quer dizer que essa não possa ser responsabilizada por isso. Ela pode e deve. Porém, na hora que você a
responsabiliza, apelando a ela a inclusão dessa ou daquela norma fundamental que ela mesma afirma com seus atos, a pessoa
simplesmente não reconhece. A pessoa não reconhece a sua obediência a essas normas fundamentais.
Quando nós denominamos, classificamos, certos comportamentos morais como sendo, p.e., utilitários, pragmatistas, ou
nos referimos a sistemas morais que a pessoa desconhece, ela simplesmente não sabe do que você está falando.
O fato de você não saber o nome do sistema moral não quer dizer nada. Você não precisa saber o nome de uma corrente
de idéias para você estar embarcado nela.
Por esta referência, ligação, que você estabelece entre o comportamento real, concreto, de detalhes, e esses sistemas, é aí
que você vai captar o sentido universal daqueles mandamentos.
Em suma, nós estamos aplicando aí o princípio Kanteano; nós estamos julgando o sujeito com base em que ele acredita
mas não queira ser categórico porque, de fato, todo mundo acredita implicitamente. O imperativo categórico é menos do que o
imperativo, menos do que uma realidade psicológica fundamental.
Uma coisa estranha foi quando eu livro de Filosofia Política do Eric Weil onde nas primeiras sentenças ele diz assim:
"Toda Política é mundial. Qualquer corrente política nunca é só para aquela situação ou para aquele local, ela tem sempre a
afirmação de uma proposta política mundial.
Eric Weil tem razão porque a proposta política é limitada no tempo e no espaço; é uma limitação contingente. O sujeito
não adotaria essa ou aquela política se ele não achasse que aquilo é bom para a humanidade em geral.
Na prática, ele talvez não consiga estender essa política além de talvez Jacarepaguá, mas é uma limitação acidental. Do
mesmo modo, o preceito moral. Qualquer regra moral que esteja implícita em qualquer ato, o indivíduo ao agir assim está
afirmando a universalidade daquilo. Caso ele pretenda ter alguma razão...
Também existe a possibilidade do sujeito negar a Razão e negar a fundamentação dos seus próprios atos. É o sujeito que
acha que não deve satisfações a ninguém, faz as coisas porque quer, e a sua vontade é lei. Então, só tem duas alternativas: ou o
imperativo categórico, ou a lei do cão.
Entretanto, adeptos assumidos, explícitos, da lei do cão são muito raros. Em geral todo mundo pretende ter razão de
algum modo, por mais absurdo que seja o que se faça. Na medida em que você pretende ter razão, você está apelando a uma
instância universal.
P.e., no caso citado, se você sente a ingratidão da pessoa pela qual você tinha afeto, mas não sente a ingratidão que você
mesmo faz por uma pessoa que você não tenha afeto, você está proclamando que esse comportamento é justo para qualquer um
colocado nessa situação. Porém, o fato é que se esse princípio fosse adotado universalmente seria, de fato, um Deus-nos-acuda.
Portanto, existem princípios e normas que só continuam funcionando enquanto são implícitas e mais ou menos
inconscientes, porque se for conscientizado e declarado você vê que é um absurdo na mesma hora.
Portanto, a inconsciência do fundamento moral do seu ato, às vezes, é um condição para que esse ato possa ser
realizado.

Toda disciplina normativa está, pois, univocamente caracterizada por sua norma fundamental. Nas disciplinas
teoréticas falta, pelo contrário, esta referência central de todas as investigações a uma valoração fundamental: a unidade
de suas investigações e a coordenação de seus conhecimentos estão determinadas exclusivamente pelo interesse teorético,
que se dirige à investigação daquilo que se implica objetivamente (isto é, teoreticamente, por virtude de leis imanentes
aos objetos).

Imanentes aos objetos, e não colocadas por uma vontade humana. Porém, ainda aqui nós poderíamos levantar a seguinte
questão: quem diz que o conhecimento deve ser objetivo? Quem diz que o conhecimento deve ser verdadeiro? Isto também é
uma norma fundamental.
Por quê o conhecimento verdadeiro deveria ser preferível a um conhecimento falso? Por quê dizer a verdade é melhor
do que dizer a mentira? Vocês verão que no fundo de toda investigação teorética existe uma opção normativa, para não dizer
ética, fundamental, que é pelo princípio da veracidade o qual não é nada diferente do que uma aplicação do Primeiro
Mandamento: Amar a Deus sobre todas as coisas. Se Deus é a verdade, então amar a verdade acima de todas as coisas.
A Ciência mesma baseia nisso de modo que, embora na prática a estrutura lógica dela não derive, em si mesma, de uma
norma fundamental o conceito de Ciência sim, se apóia numa norma fundamental. A estrutura interna da Ciência é determinada
exclusivamente pelos nexos, pelas ligações objetivas, imanentes ao próprio objeto.
O apelo à lógica é um dos aspectos fundamentais do apego à verdade. A lógica é a não, que é uma das formas
fundamentais da verdade. É o que você disse e o que você não disse. Num discurso duplo isto não pode ser verdade.
Condenar a contradição em lógica é a mesma coisa que a condenação da mentira na Ética, e a forma fundamental da
mentira é o discurso duplo simbolizado na serpente que tem língua dupla. Porém, você não está realmente obrigado a esta
condenação.
O sujeito, na verdade, é livre e se você quiser mentir o tempo todo nada te impede. O fato é que você fica excluído da
humanidade de algum modo. Mas, como a exclusão da humanidade, ao contrário da lenda, não faz o seu nariz crescer, ou
adquirir uma aparência assustadora, diabólica, você continuará entre os seres humanos, como se fosse um deles, e isso é que é o
pior de tudo.
Se você pegar o supremo mentiroso, ele não parece mais mentiroso do que os outros, aliás, em geral, tem uma aparência
inócua e você só fica sabendo a posteriori; pior ainda, você fica sabendo que ele falava mentira simplesmente porque ele foi
derrotado. Se o mentiroso vencesse, a maior parte das pessoas continuaria acreditando.
Isto é uma das coisas mais assustadoras da vida: o fato de que você não é obrigado a aderir à verdade.
Normalmente, as pessoas obedecem a aquilo que lhes foi ensinado. Na medida em que o que foi ensinado representa
algum valor efetivo, real, o sujeito continua mais ou menos dentro da decência. Mas, isso são hábitos. Ninguém faz você mudar
repentinamente.
As pessoas que são educadas dentro de determinados princípios, ficam muito apegadas a eles. Entretanto, isto também é
ilusório. P.e., na programação neurolinguística, é o caso da tentação bem colocada no momento exato:"Ninguém está vendo...
Ninguém vai saber...". É tremendamente fácil. Pode-se puxar o sujeito para baixo através de uma sucessão de sugestões.
Há pessoas que são treinadas para isso: como corromper os outros.
Nunca é de uma maneira que o sujeito pense que está sendo corrompido. Geralmente, é na base de se isolar um ato da
norma que o fundamenta, como se não fizesse parte de um sistema de encadeamento lógico e causal dos atos humanos, porque
ninguém está vendo então parece que não há conseqüências.
Mas, isto é uma ilusão cognoscitiva porque tudo está ligado, tudo tem conseqüência evidentemente. Só não tem
conseqüência o que não é feito. Se é feito, o ato entra no sistema de causa e efeito, quer você queira ou não.
A definição de uma atitude inconseqüente é você fingir que um ato não tem conseqüência alguma. Você não enxerga, ou
não quer saber das conseqüências daquele ato.
Para que você torne o sujeito um inconseqüente basta você dizer que ninguém saberá das conseqüências.
As experiências de liberdade de decisão, eu tive muito cedo, e foi isso uma das coisas que me pôs no caminho da
Filosofia. Como eu não tinha uma autoridade, tinha que achar um fundamento.
Se você recebeu uma educação repressiva, então você continua obedecendo sem pensar. A educação repressiva não
garante nada, aliás, é o contrário, está todo mundo solto, muito mais livre do que você imagina. A sorte é que isso é para o lado
bom, e é para o lado mau também. O fato de que você está habituado ao mau também torna compulsiva e obrigatória a prática do
mau.
Preleção XVIII

19 de março de 1993
[ATENÇÃO!! A fita não gravou a parte inicial da aula. Como não sabia que o gravador estava desligado, copiei apenas
algumas frases soltas. Seria interessante procurar no caderno de alguém que tivesse anotado essa introdução na íntegra pois ela
contém informações importantes. Transcreverei aqui, entre parênteses duplos, as frases que anotei incluindo um organograma
que o Olavo desenhou no quadro].

((Todo ato humano tem um conjunto de causas))

((As causas não precisam ser conhecidas pelo indivíduo))

((A tradução psicológica das causas são os motivos))

((O motivo é uma parte e se expressa como um impulso de uma necessidade))

((O motivo subentende uma intenção))

CAUSAS --- JUíZO --- MOTIVO (intenção) --- PRETEXTO --- ATO

[Começa aqui a transcrição da fita]

Quando você decide fazer uma coisa é porque você aprova esta coisa. Você aprova em nome de qualquer pretexto. Esse
pretexto é como você se explica as razões do seu ato. É a sua justificação. `As vezes não precisa ser uma justificação expressa,
pode ser implícita mas está sempre presente.
Se você chega ao ponto de poder assinalar uma causa para o comportamento de um sujeito, é porque você partindo do
comportamento visível que é o ato e da intenção manifesta deste ato, você suporá que esta intenção manifesta corresponde ao
pretexto, ou seja, que a pessoa desejou agir exatamente do jeito que agiu. Portanto, pelo menos esta parte da explicação do seu
ato ela conhece, e que é o pretexto que transparece no próprio ato. A partir daí você tem que interpretar, ou seja, é por uma
interpretação e não por uma evidência direta que você chega ao conhecimento da causa.
Essa interpretação começa no ato, que é a parte mais superficial, mais visível, daí você vai um grau mais abaixo e
encontra um pretexto, daí você vai julgar a veracidade do
pretexto. E conforme a sua maior ou menor (capacidade(?)) você diz que a intenção era realmente essa ou que havia uma
outra intenção, uma segunda intenção.
Existe uma intenção que foi alegada para si mesma, uma intenção evidente, manifesta, mas poderá haver uma segunda
intenção não, oculta. Como é que você pode conhecer a intenção oculta se você não entende nem a intenção manifesta, isto é, o
pretexto?
Então, como princípio de moralidade jamais julgue um ato se você não conhece o pretexto dele. A não ser que o ato seja
tão intrinsecamente mau que nenhum pretexto o justificasse. P.e., que pretexto poderia justificar você estuprar uma garotinha de
dois anos? Por mais elegante que seja o pretexto, não vai convencer. É um ato, que independente do pretexto e do motivo ele é
em si, ruim.
Então você sabe o que a pessoa fez (o ato). Quando eu te pergunto, por quê fizeram, você responde que foi, p.e., por
inveja (a causa). Eu pergunto: como é que elas explicaram isso para si mesmas? Se você diz que não sabe, então como é que
você diz que sabe que foi por inveja? Você só sabe do ato.
Para você saber a causa, ou seja, o ato foi causado por inveja você precisaria saber o pretexto, saber que ele é falso, em
função da situação daquele pretexto não precisaria justificar nem objetivamente nem subjetivamente, então você faria a
suposição da existência de uma segunda intenção ou de um segundo motivo. Somente assim você pode dizer que alguém agiu
por inveja.
Quem age por inveja não tem a intenção explícita de agir por inveja. A pessoa tem que ter um pretexto mais ou menos
elegante. Mesmo para você agir maquiavelicamente você tem que ter um pretexto que fundamente o maquiavelismo. O próprio
maquiavelismo não conduz o pretexto. Por quê Maquiavel recomenda agir maquiavelicamente? Porque ele diz que a natureza da
Política é essa. Se você subiu ao poder com a ajuda de 10 pessoas, por quê você deve derrubar essas 10 pessoas? Então, você tem
que ter o pretexto que fundamente esse ato maquiavélico.
Portanto, se você está sendo assim, você não está sendo mau. Você está sendo simplesmente político, porque a natureza
da política é essa. Então, isto é o pretexto. Você está legitimando o procedimento não em face de um preceito moral, mas em
face de uma constatação da realidade. A realidade exige que você aja assim. Se você não agir assim você está errado. Então, é
uma alegação de necessidade. Geralmente as alegações, os pretextos, são de dois tipos: necessidade ou moralidade. Só existem
pretextos deste tipo: agi assim porque precisava, ou, agi assim porque era o certo. E ainda tem a terceira possibilidade do sujeito
dizer que não agiu assim, que o ato não foi dele. Ele pode dizer que fez um ato, e você é quem viu um outro ato.
O pretexto geralmente é um só, mas os motivos são complexos. A causa em si mesma não tem significado moral. P.e., o
fato de você sentir o impulso da inveja não quer dizer que você vá agir como um invejoso. A causa não determina.
Toda ação humana só é humana porque ela não é inteiramente determinada por causas, e sim por motivos. O juízo
transforma a causa em motivos, ou seja, ele legitima a causa.
Todos nós temos os mesmos impulsos, p.e., de matar, roubar, de transar com a mulher do próximo, etc., etc., assim
como também os impulsos generosos.
O inconsciente de todo mundo é mais ou menos igual, então não precisa dizer que tal ou qual impulso, estar presente no
subconsciente do indivíduo, não é um julgamento a respeito dele. Nunca é. A motivação subconsciente nunca é motivo de
julgamento porque ela é igual para todo mundo. É na medida em que através do julgamento do indivíduo as causas se
transformam em motivos, é que a coisa começa a ter uma significação moral.
P.e., por quê você roubou? Eu roubei porque eu tenho um instinto compulsivo de roubar. Ou seja, é a mesma coisa que
dizer que ele roubou porque ele é um ladrão. Se isto fosse uma explicação suficiente o sujeito deveria ser inocentado justamente
porque é ladrão. Entretanto, se o não roubar, ele deveria ser punido.
P.e., por quê você mentiu? Menti porque eu sou um hipócrita consumado. Isto nem explica, nem justifica, aliás isto é
uma tautologia do tipo, bebo porque é líquido, ou, roubei porque sou ladrão. Então, a causa não tem um significado moral.
Toda investigação a respeito da moralidade dos atos se baseia nos princípios de que os seres humanos têm mais ou
menos os mesmos impulsos, em dose maior ou menor. Mesmo a quantidade do impulso não vai ser o decisivo. não é o sujeito
que tem o maior impulso de roubar, que irá roubar. É aquele que admitiu o procedimento do roubo.
Sem um juízo que racionalizasse de alguma maneira a causa, esta causa não poderia se transformar numa conduta,
porque toda conduta humana é racional na escolha dos meios. O sujeito para roubar, assaltar, tem que fazer um plano, um
encadeamento de atos perfeitamente racionais.
A causa, o impulso, se não passar pelo juízo não pode ser racionalizado. Se fosse assim, então só existiriam crimes
impensados, momentâneos, repentinos, ou seja, a pessoa em menos de 5 segundos, roubou.
Então, a razão, de alguma maneira tem que aprovar, ou então ela reprime e não se manifesta. É no juízo que a causa se
transforma num motivo, que pode ser claro, simples, complexo, obscuro, uno, ou múltiplo.
Finalmente, este motivo é apresentado à própria consciência sob a forma de um pretexto que pode ser uma expressão
límpida e completa e exata dos motivos, ou pode ser um disfarce dos motivos para que apareçam um ou dois motivos mas que os
piores não apareçam, ou que mostre um motivo parecido com o verdadeiro, ou que faça uma metásbases exaloguenos.
P.e., por quê você comeu a mulher do seu vizinho? 'É porque eu amo a humanidade...'
Ora, claro, se você não amasse a humanidade, você não amaria um dos seus membros, que é a mulher do vizinho. Ou
seja, é uma transposição para um outro gênero. Isto é muito comum. O indivíduo alega um motivo que seria análogo, mas numa
outra esfera. Qualquer criança costuma fazer isso.
Um ato plenamente consciente é do tipo 'Fi-lo porque qui-lo'. O pretexto expressa exatamente o motivo e o motivo
expressa a causa. Está tudo em linha. O julgamento de um ato assim não implica nenhuma ambigüidade.
Se o indivíduo rouba e diz que roubou porque quis roubar, porque gosta de roubar, então o julgamento do procedimento
dele é o julgamento apenas do conceito abstrato do ato. Se esse ato é abstratamente considerado como mau, então o indivíduo é
culpado, é venal.
Roubar, todo mundo sabe que é mau, porém existe uma série de motivos, de pretextos, de causas que podem fazer com
que o roubo se torne uma coisa menos grave, um ato neutro, ou até que se torne um ato meritório. Porém, se o pretexto do
indivíduo, o seu motivo e a sua causa foi apenas roubar enquanto tal, então qual é a dificuldade de julgar o procedimento dele? A
simples definição do ato já é o julgamento.
Se o sujeito tem um objetor de consciência, p.e., eu sou Testemunho de Jeová, e não quero ir para a guerra porque a
religião me proíbe formalmente de servir o exército. Ele pode ir para a cadeia, mas ninguém pode condená-lo moralmente, ao
contrário, é apenas uma condenação funcional:"nós vamos colocá-lo na cadeia para não manchar a reputação do exército, mas
não vamos falar mal de você por causa disso", ao contrário, o sujeito é respeitado.
Os 10 Mandamentos, p.e., se referem ao indivíduo e não ao Estado. Você não pode dizer que o Estado deve amar a Deus
sobre todas as coisas. Como é que o Estado vai amar o próximo como a si mesmo? O Estado tem que amar outro Estado como se
fosse ele mesmo? Isto é o non-sense.
Claro que o Estado é composto de pessoas, mas dá para entender que ele é uma unidade, que ele é responsável pelos
seus atos de alguma maneira. Então, não tem sentido aplicar os 10 Mandamentos ao Estado. não se pode julgar o comportamento
do Estado pelos 10 Mandamentos assim como você não poderia julgar o comportamento de um animal pelos 10 Mandamentos,
porque eles se dirigem ao indivíduo humano, à alma humana.
No caso da guerra, o católico que segue os 10 Mandamentos tem o dever de ignorar o mandamento "não matarás"
quando o Estado o convoca para uma guerra.
O pacifismo é uma posição que nenhuma religião do mundo sustenta porque é um absurdo. O pacifismo seria a
destruição de qualquer comunidade. A comunidade tem o estrito dever de se defender contra qualquer agressão. Se ela não fizer
isto, estarão todos lascados. Ela tem o direito de se defender e às vezes o direito de atacar. P.e., o povo que não tem uma saída
para o mar e precisa disto porque estão todos morrendo de fome, ele tem o dever de invadir o território do vizinho e tomar uma
saída para o mar.
Acontece que hoje em dia o sistema moral que os meios de comunicação estão transmitindo é assim: é um julgamento
muito severo dos Estados e muito brando com os indivíduos. Então, começam a exigir que o Estado seja responsável por isso ou
por aquilo, e o indivíduo não é responsável por nada. Sendo que por definição o Estado é só titular de direitos e não de deveres.
Por isso que o Estado é soberano. O Estado não é um ente moral. O Estado é como se fosse uma realidade física, econômica,
portanto o Estado só tem o dever de fazer o que ele puder fazer.
O Estado é como se fosse um orçamento doméstico. Você pode dizer que o seu orçamento doméstico tem o dever de
fazer isso ou aquilo?
Quando você recebe uma ordem do Estado o autor do ato é ele. Na guerra, quem mata não é o indivíduo, e sim o Estado.
Você não é o autor do ato; você é o instrumento do ato. Que liberdade você tem de não fazer isto? Você não tem liberdade de
escolha nenhuma. O que você pode é evocar o objetor de consciência e posteriormente por causa disso ser fuzilado.
Para que nós impuséssemos um dever seria necessário que nós colocássemos o heroísmo como uma obrigação
fundamental.
Você pode fazer um julgamento isolado: o Cristianismo diz que não se deve matar, e os sujeitos vão para a guerra matar.
Eu acho isso errado.
Isso significa que o julgamento tem por norma fundamental que os 10 Mandamentos deveriam servir para o Estado, o
que é impossível. Julgamentos morais isolados são a expressão de desejos, emoções momentâneas. não têm sentido algum.
Normalmente, o nosso julgamento moral, tanto da sociedade quanto dos seres humanos, é constituído de reações deste
tipo. Reações soltas, esporádicas, isoladas umas das outras, que na verdade não tem sentido moral algum. Só pode haver uma
postura moral quando é obediência a uma norma clara, uma norma obedecível. P.e., você condenar as pessoas que matam na
guerra porque o Cristianismo diz para não matar, esta não é uma norma obedecível. Para que elas não matassem os seus inimigos
na guerra seria preciso que elas desobedecessem os seus superiores e daí os superiores iriam desejar fuzilá-los. Das duas, uma:
ou se deixa fuzilar, ou então tem que matar os seus superiores.
Neste caso, o soldado estaria sendo mais cristão caso ele matasse o seu próprio sargento ao invés de matar os soldados
do exército adversário. Isto é absurdo!
Para não matar o sargento você teria que deixar que ele o matasse. Então, a obrigação número 1 do soldado cristão seria
ser morto pelo seu próprio sargento. Pareceria ser mais digno do que ser morto pelo adversário. Isto também é absurdo!
Então, todo sistema moral tem por trás uma norma fundamental. Entretanto, você pode fazer milhares de julgamentos
fundados numa norma fundamental inteiramente absurda e incoerente com outras normas fundamentais, então a sua mente vai
ser um composto de sistemas morais incongruentes.
Sistemas morais incongruentes não permitem uma discussão moral séria. O seu próprio procedimento, o seu próprio
julgamento não pode ser julgado, porque conforme o momento você saca deste ou daquele código. não existe diálogo. Ninguém
pode reclamar do que você fala ou do que você faz e isso é a própria violência.
O julgamento moral baseado no sentimento é apenas mais outro que existe. O sentimento é egoísta, por definição.
No caso da guerra não faz parte da obrigação de um Estado evitar sofrimento por um Estado inimigo. Isto é um requinte
de moralidade que a única nação que se preocupou com isto foi os EUA.
Em toda a História, se houve uma nação que refreasse o seu instinto belicoso por qualquer motivo que fosse, foi os
EUA. Principalmente porque lá tudo o que você faz tem que dar satisfação para a opinião pública - há os que gostam, os que não
gostam - e o Estado tem que ser refreado de alguma maneira. Os EUA são o único Estado em toda a História que não usa todo o
seu potencial bélico em toda a sua plenitude.
Eu acho que qualquer sujeito da esquerda mundial, qualquer sujeito que disser qualquer coisa contra os EUA, já não tem
autoridade, de cara. Nenhum comunista tem o direito de falar nada contra os EUA.
Você poderia, em nome de determinados princípios de ética política e não moral, vigente na democracia americana,
condenar os EUA. Fora disso, não. E isso ninguém precisa fazer porque o americano faz melhor que qualquer outro. não há
quem fale mais mal do seu Estado do que o americano, aliás, nós aprendemos com eles.
Você vai condenar os EUA em nome de que princípio moral-político? Dos vigentes no Brasil, ou da URSS, ou da
China? não pode, não é? Só se pode condenar segundo os princípios vigentes nos EUA, é claro! Numa sociedade onde você tem
meios, onde você é capaz de criticar, de condenar e eventualmente amarrar as mãos do Estado, certamente é a melhor sociedade
que já foi inventada. Nas competições entre os regimes políticos, é preciso ser um verdadeiro imbecil para achar que algum outro
tipo de regime iria acabar ganhando.
Quantas pessoas no mundo estavam sequiosas para viverem sob um regime comunista? Eu acho que ninguém. Havia
gente querendo implantar o comunismo sempre supondo que quando se implantasse o regime ele estaria na casta governista.
Entretanto, ninguém queria ser um simples cidadão. Então, não era preciso ser muito esperto para ver que o movimento
socialista, comunista, ia acabar logo. não é impressionante que o comunismo tenha acabado, mas sim como ele tenha durado
tanto.
Se você quiser desmontar o Estado americano, como fazer isto? Em primeiro lugar, o que é o Estado americano?
Ninguém sabe. Qual é o sistema de poder? Ele é indescritível. Ele é tão complexo que ninguém domina aquela coisa. Ele não
tem uma estrutura definida. É como se fosse uma ameba, e você não pode desmontar uma ameba. Se você desmontar um
governo, você não desmonta o Estado. Ele continua funcionando porque o Estado é a própria sociedade.
Já o sistema de poder na URSS era a KGB. Tirando a KGB, cai tudo. E nos EUA? E se tirar a CIA? Vai prejudicar
internacionalmente, mas por dentro vai continuar a mesma coisa.
O quê a CIA faz lá dentro? Alguém pode investigar a vida de algum americano como a KGB fazia? não pode. Se você
for tentar descobrir se um sujeito é traficante de tóxicos, a imprensa pode cair de pau em cima de você, o xerife pode não ser
eleito por isso, etc., etc.
Então, para você matar a nação americana, só se você matar completamente o espírito do povo, mas isso leva séculos.
Como mudar os hábitos do povo? Mudando o eleitorado? O que importa o eleitorado se 70% da nação não vota? A força da
democracia é a própria anarquia.
Na China comunista, p.e., eles estão tentando achar um pretexto elegante para se tornarem capitalistas.
Vejam vocês o seguinte: o código de interesse do Estado se sobrepõe a uma ética universal abstrata. O primeiro Estado
do mundo que foi construído em cima de uma ética universal abstrata foi os EUA. Era para ter sido a França com a Revolução,
mas depois a Revolução desandou, veio Napoleão, a restauração, etc., e aí embaralhou tudo.
Mesmo nos EUA este conceito ainda demorou para ser implementado. Na época da independência haviam duas
correntes: uma aristocrática que queria o estilo antigo de uma oligarquia dominante, e havia quem queria a democracia radical.
Até hoje os EUA ainda não decidiram exatamente o que querem.
Então, reconhecer que a integridade do corpo e da psique humana é intocável, não interessando julgamento que você
faça sobre o outro, isto é um princípio abstrato. não é um princípio natural. não é natural no homem ele perceber que um outro é
igual.
O racismo, p.e., é uma coisa natural profundamente arraigado no homem. Leva milênios para o homem entender que um
outro completamente diferente de você também é gente como ele. Todos os povos são racistas, por definição. Um filósofo pode
tentar explicar que isto não é assim, mas geralmente eles vão matar o filósofo.
O racismo é biológico porque você tem medo do que é diferente. Se é diferente em princípio é inimigo. É uma reação de
medo. Ou seja, por via das dúvidas...
Isto é para vocês terem idéia do caos moral que existe na cabeça de cada um. Para consertar este caos tem que ir através
desses procedimentos, tentar construir uma filosofia moral para você.
Eu não sei qual vai ser o conteúdo dela. Você vai levar 30 anos para fazer e não sei qual conclusão você vai chegar,
porém se isso não for baseado numa norma fundamental explícita e não tiver uma coerência, então simplesmente eu não posso te
enquadrar, você não tem código, você não tem princípios. Você não está comprometido com nenhuma norma fundamental, e
portanto ele não pode ser cobrado. Se as pessoas não têm princípios, então evidentemente é o caos moral.
Então, quando lhe baterem a carteira você não tem nada que reclamar. Você vai reclamar em nome do quê? Que
autoridade você tem?
Querer que suba o nível moral da sociedade sem que suba o seu próprio, isto é totalmente impossível. A sociedade não
tem que ter moral nenhuma, muito menos o Estado. O Estado é uma realidade física do esquema de poder existente.
P.e., vamos supor que você tenha um homem forte e um homem fraco. Evidentemente o homem forte tem mais poder
sobre o fraco por ser forte, e ele manda no fraco. Isto é o Estado.
O Estado é quem tem o poder, e não quem deveria ter o poder. não se pode confundir o Estado com o conjunto de leis
ou das instituições, que podem ser totalmente falseadas como é o caso brasileiro.
`As vezes as leis e as instituições expressam a estrutura do poder, às vezes não. A lei pode estar na mão de um e o poder
na mão de outro. Como é que você poderia impor a uma situação real de poder tal ou qual obrigação? não tem sentido.
Então, se vocês puderem sair destes quadros de debate e olhar a situação um pouco mais de cima, vocês vão ver que
tudo isto é uma demência. A reforma moral começa assim.
Se você não tiver um certo número de pessoas que tenha um princípio, e consigam julgar a coisa, se você não tiver 1,
não haverão 2, se não houverem 2, não haverão 3, e assim por diante. não tem outro jeito, tem que ser 1 por 1.
Se as pessoas que têm os meios e a vocação para estudar isto, não desenvolvem, então não tem jeito.
Você pode medir as possibilidades do país por você mesmo. Se a cabeça de um estudante de Filosofia está um caos
moral, imaginem na cabeça dos outros. Se o estudante de Filosofia não entende que o Estado não é sujeito de obrigações morais,
quem irá entender? O PC Farias?
A obrigação fundamental de um estudante de Filosofia é ele tentar se situar no que é real. Mas, ele é picado do gostinho
próprio, da violência.
A violência consiste sumariamente em você impor a sua vontade no outro sem mais nem menos. A abdicação disto tem
que ser total e definitiva em todas as esferas de vida. Nunca mais na sua vida você vai fazer do seu impulso uma norma válida.
Nunca mais você vai achar que só porque você está bravo com o sujeito ele não presta. Ou seja, o seu sentimento vai perder
autoridade para sempre. Se não fizer isto a inteligência não vai avançar. você tem que dizer assim: "O que eu gosto, ou deixo de
gostar, não interessa. Eu sou apenas mais um e igual a todo mundo. O meu sentimento não vale mais do que o dos outros". Isto
não é o óbvio.
Ou você chega a uma esfera onde exista uma obrigação que pode ser cobrada igualmente de todos e você fala em nome
desta obrigação, ou então você vai ter que impor o seu desejo. Então, não existe o meio termo. É como disse Jesus Cristo:
"Quem não está comigo, está contra Mim".
É claro que você pode ter o seu desejo, o seu impulso, os quais poderão ser satisfeitos todas as vezes que os outros
concordarem com isso, e se não concordarem você vai ficar frustrado como todo mundo ficaria.
Essa coisa sinuosa que evita as definições sérias durante a vida é uma fuga da realidade, porque é conciliar o
inconciliável. Se o sujeito adiar isto, a vida nunca começa. Então, você pode fazer o ato inaugural que é desistir de fazer do seu
desejo, do seu sentimento, uma autoridade, para sempre. Seja ele qual for.
O seu desejo tem o direito de ser atendido sempre que alguém queira atendê-lo, e fim. Se o outro não quiser, então
acabou o seu direito. A vida é assim.
Para isto significa você descer de uma montanha, desinflar um balão que coloca o EU acima da humanidade, e entender
que você é só mais um, que não faz diferença alguma. Esta é a realidade.
O que é isto senão a tradução lógica do Mandamento "Amar ao próximo, como a si mesmo"?
Também pode ser "Detestar o próximo, como a si mesmo", não é? Você tem que julgar o outro com o mesmo padrão
que você usa para julgar a si mesmo, e vice-versa. Se você não fizer esta tentativa você não sobe a esfera da Razão, jamais. Isto é
um impedimento moral básico.
Se eu sei que nós somos membros de uma mesma espécie que não tem diferença essencial alguma, que enquanto seres
viventes, enquanto animais somos exatamente iguais, temos exatamente os mesmos desejos, exatamente os mesmos impulsos de
base com uma pequena diferença quantitativa que é ridícula, desprezível, então não tem sentido você colocar você no centro e o
outro na periferia.
Esta é a famosa ilusão do ego que o Budismo diz que você tem que perder. O ego existe, só que ele é só mais um.
E o sujeito que fala isto aqui que eu estou falando? Quando ele fala isto ele está com uma autoridade total. Isto o Estado
pode até impor às pessoas, e de fato impõe. Um pouquinho de igualdade civil existe porque os Estados impuseram, porque se
largar o ser humano solto ele suprime isto no dia seguinte.
O sujeito vai falar de igualdade civil para os outros, e a diferença civil para ele.
Quem faz uma opção pela Razão diz adeus à violência. Um sujeito santo não adquire mais direitos que os outros. Você
pode adquirir um mérito, mas não um direito.
P.e., o direito à satisfação dos seus desejos. Você ter direito à roupa que você gosta, ao padrão de vida que você gosta, à
mulher que você quer, etc., etc., você acha que alguém tem este direito? Nenhum desejo tem o direito de ser atendido, jamais. O
desejo é atendido porque alguém ...(?)...
Esta opção pela Razão deve se traduzir imediatamente numa efusão de boa vontade para com o mundo.
A boa vontade significa você colaborar, não encher o saco, respeitar, etc., ou seja, o seu desejo cede ao desejo do outro,
de boa vontade, em nome da paz, da ordem, e daí dá tudo certo, senão não tem conserto.
Se não for assim só resta o Estado tirânico, e você entra no Leviatã do (Hobbes(?)), onde você precisa de um Estado
tirânico porque os seres humanos são todos animais. Eles vivem em estado de guerra perpétua, e a guerra só pára quando vem o
chefão e manda parar.
É como criança brigando. não há jeito de você fazer uma briga de crianças parar se não for fazendo uma violência em
cima de ambos. Chega então uma violência maior que pára uma violência menor. A rigor, existe tirania no mundo por causa
disto.
Então, parta do princípio de que os seus julgamentos morais estão errados. Se estão certos é por sorte, porque a quase
totalidade das vezes você estará equivocado.
Em primeiro lugar, o ato de julgar, em si já é errado. Por quê você tem que ter uma opinião sobre o comportamento do
outro? O ato de julgar não é um direito seu.
Em geral você julga porque você quer manter um simulacro de ordem cósmica baseado no princípio de que você é certo
e o outro é errado. Mas, isto é a própria desordem cósmica! Você só deve julgar quando você é obrigado a fazê-lo, e dentro
dos limites da sua obrigação. P.e., um pai é obrigado a julgar o procedimento do filho porque cabe a ele a educação do filho. Se
o filho bate no outro, ou rouba uma coisa, o pai tem que julgar, até que o filho seja maior de idade. Bom, daí, de fato, não é mais
da conta dele. Ele não precisa mais ter opinião nenhuma sobre o que o filho está fazendo.
Se você é o gerente de uma firma você tem que julgar o procedimento dos empregados na medida em que ele afete a
vida da empresa, e só. Quando termina o expediente, acabou a necessidade de julgamento.
O julgamento só é lícito se for obrigatório. Se você é juiz você tem que julgar, mas é por obrigação profissional.
Uma pessoa que te lesou, te prejudicou, você não tem nada que julgar. Você tem o direito de se defender, às vezes até
mesmo com violência, mas não tem o direito de julgar. Mate-o, mas não pense mal dele...
Então, em princípio, jamais julgar. Só julgue se for obrigado. Se tiver que julgar, faça-o de forma limitada, julgue o ato
e não a pessoa. Você só pode julgar a pessoa quando ela morrer. Como você vai saber se ela é boa ou má se ela não terminou o
seu discurso ainda? Isto só Deus pode fazer, e se Ele quiser...
Isto são normas universais que quando você aplicar nunca vai errar. P.e., um professor pode julgar o quê num aluno? Ele
pode julgar o avanço dele no aprendizado, e fim. Mas, ele não pode dizer que a pessoa que não avançou naquilo está errada ou
que é má, senão ele teria que dizer que ser aluno dele é uma obrigação. Me dê uma única razão para o fato de que você tem que
ficar satisfeito, e o outro tem que ficar insatisfeito. Por quê isto? O outro acha justamente o contrário. Então, só se for decidindo
no jogo, no cara-ou-coroa.
O princípio é o de você não lutar pela sua satisfação. A satisfação só é plena quando a coisa é dada de bom grado. P.e., o
dinheiro que você ganha com muito esforço, em geral você sofre para gastá-lo. Já o dinheiro que é ganho de bom grado você
torra com a maior satisfação.
Então, o seu desejo não é melhor que o meu desejo, assim como a sua repugnância, etc., e isto não pode ser resolvido
moralmente mas somente pela superação do egoísmo. É só um sentimento superior que vence esses comportamentos, sem negá-
los, sem suprimi-los.
Vamos supor que você tenha preconceito de raça e ache que os pretos são inferiores. Admitamos esta hipótese. Porém,
se uma raça é superior à outra isto não quer dizer que cada um dos indivíduos seja superior. E quem diz que você precisamente
está entre os superiores?
Mesmo admitindo teoricamente um preconceito de raça, nenhum sujeito teria o direito de professar aquilo a ferro e fogo.
É a velha pergunta de (Jan Puissinger(?)): você já viu algum racista demonstrar que a sua própria raça é inferior? não tem, não é?
O Egito, p.e., era preto, e escravizou meio mundo, tocou o chicote no lombo de muita gente durante milênios. O que os
judeus sofreram na mão deles, todo mundo sabe. Depois os judeus se vingaram deles vendendo escravos para os países coloniais,
e aí a coisa se inverteu. É sempre assim. Então, o critério é sempre o seguinte: pega o seu julgamento moral, aplica o imperativo
categórico, e vê o que dá. Se o seu critério disso for uma norma, qual é o significado dos termos que estão expressando a minha
intenção.
Os direitos dos Testemunhos de Jeová, p.e., são baseados na hipótese de que eles serão minoria, sempre, e de que jamais
haverá um Estado na mão deles. Neste sentido, eles se legitimam.
Os Testemunhos de Jeová dizem que existe um número determinado de pessoas que serão salvas, que é de 144.000, e
que eles já tem membros demais, não pretendem se expandir indefinidamente, e não pretendem assumir um Estado. Eles são
assumidamente uma minoria. Eles abdicam voluntariamente de qualquer poder político. Com isso, eles adquirem um certo
direito de se comportarem como minoria de exceção, ou seja, eles não pregam que todos deveriam agir como eles. É como fazem
os judeus. A norma judaica só se aplica a judeus, e eles vão ser sempre minoria.
Se você inventar uma religião universal que manda você boicotar o Estado, isto será uma monstruosidade. Isto é feito no
mundo islâmico.
Eles tiveram neste século um famoso teólogo chamado Said (Kutuk(?)), que interpretando o Corão a ferro e fogo dizia
que só existe uma lei para todos os seres humanos, e esta lei é o Corão.
Ou seja, o Estado que não esteja explicitamente baseado na lei corânica é um Estado demoníaco e que se coincide de
um muçulmano viver num Estado demoníaco o dever primordial dele é de destruir este Estado. É bem diferente das
Testemunhas de Jeová.
Os muçulmanos são ¼ da população do planeta, espalhados por quase todos os países. Se essa interpretação fosse levada
à sério teriam que cair todos os Estados do mundo.
Said Kutuk acabou morrendo enforcado por um governo islâmico. Os fundamentalistas acham isto uma grande injustiça.
Mas, eu cortaria a cabeça deste sujeito, no ato. Por via das dúvidas calaria a boca dele, na hora.
O fundamentalismo baseia-se fundamentalmente numa interpretação política, literal, da idéia do Estado Islâmico.
Qualquer Estado que não seja explicitamente islâmico deve ser destruído, ipso facto.
Said Kutuk coloca isto como uma obrigação que incumbe a cada muçulmano em particular. Como um aspecto do
(Jihad(?)).
A interpretação que se faz do Jihad é o seguinte: para o Jihad ser decretado é preciso que toda a comunidade concorde.
Isto é o que está no Corão. Jihad significa esforço, mas o pessoal usa como Guerra Santa. O Jihad é um esforço excepcional em
prol do mundo islâmico que justifica a matança e o martírio alheio, e de si mesmo.
Então, teoricamente para se decretar a Guerra Santa é preciso que a comunidade inteira aprove. Na verdade, qualquer
um declara Guerra Santa a qualquer hora.
A interpretação do Said Kutuk é que onde quer que haja um Estado não há um Estado de Guerra Santa perpétua que não
precisa ser decretado explicitamente, ou seja, qualquer muçulmano que esteja num país não já está em estado de guerra
santa, e tudo o que for permitido num estado de guerra você deve fazer: sabotagem, terrorismo, traição, espionagem, etc,
etc. Tudo isto não só é legítimo como é obrigatório. Então, é um Estado fazendo uma perseguição a um indivíduo que é
habitante de um outro Estado. Por quê você tem que condenar à morte um súdito de um outro reino? É o non-sense completo.
Mas, na cabeça de Said Kutuk isto é legítimo porque para ele só existe um Estado que é o Estado Islâmico Mundial.
Esses indivíduos legislam como se esse Estado Islâmico Mundial fosse uma realidade hoje em dia. Isto significa que
eles têm jurisdição sobre a Casa Branca, p.e. Eles estão evidentemente loucos!
Quando nós criticamos estas atitudes é no sentido de que você faça o mesmo, senão não adianta nada. É mais um que
está jogando tomate e vai receber tomate em troca.
É fundamental que você se abstenha de julgar, a não ser que seja obrigado a isso. O que você puder resolver na base de
você ceder num conflito de dever... Em primeiro lugar, você não tem obrigação estrita de ceder, mas se você não ceder estão
todos lascados.
Então, você tem o dever de colaborar com a ordem pública e em nome dela você tem que ceder, tem que deixar passar
em primeiro lugar, tem que desligar o ar-condicionado ou deixá-lo ligado, você tem que aceitar um monte de incomodidades
baseado no princípio de alguém te atenderá, como uma espécie de sorteio alguém acaba fazendo o que você quer também.
É muito improvável que um indivíduo venha a ser sempre ele o prejudicado. Você vai precisar da boa-vontade, ou seja,
querer colaborar para que tudo dê sempre certo e ninguém te encha o saco.
Com