Vous êtes sur la page 1sur 36

ESTADO DO RIO GRANDE DO SUL

PODER JUDICIÁRIO
TRIBUNAL DE JUSTIÇA

CLA
Nº 70018005900
2006/CRIME

HABEAS CORPUS. PRISÃO PREVENTIVA.


Paciente preso em razão de prisão preventiva, cujo
decreto está muito bem fundamentado, presentes
os requisitos legais. A primariedade e os bons
antecedentes, bem como a profissão e residência
fixa, não se constituem em óbice para a decretação
da prisão preventiva. Inexistência de
constrangimento ilegal. Ordem denegada.

HABEAS CORPUS QUARTA CÂMARA CRIMINAL

Nº 70018005900 COMARCA DE ESTÂNCIA VELHA

NEREU LIMA IMPETRANTE

LUIZ RUPPENTHAL PACIENTE

JUIZ DA VJUD DE ESTÂNCIA VELHA COATOR

ACÓRDÃO
Vistos, relatados e discutidos os autos.
Acordam os Magistrados integrantes da Quarta Câmara
Criminal do Tribunal de Justiça do Estado, à unanimidade, rejeitadas as
preliminares, denegar a ordem de habeas corpus, nos termos dos votos
emitidos em sessão.
Custas na forma da lei.
Participaram do julgamento, além do signatário, os eminentes
Senhores DES. ARISTIDES PEDROSO DE ALBUQUERQUE NETO
(PRESIDENTE) E DR.ª LÚCIA DE FÁTIMA CERVEIRA.
Porto Alegre, 25 de janeiro de 2007.

DES. CONSTANTINO LISBÔA DE AZEVEDO,


Relator.

R E L AT Ó R I O
1
ESTADO DO RIO GRANDE DO SUL
PODER JUDICIÁRIO
TRIBUNAL DE JUSTIÇA

CLA
Nº 70018005900
2006/CRIME

DES. CONSTANTINO LISBÔA DE AZEVEDO (RELATOR)


Nereu Lima impetra ordem de habeas corpus em favor de Luiz
Ruppenthal, informando que foi decretada a prisão preventiva do paciente,
acusado de infração ao art. 54, § 2º, inciso V (seis vezes), art. 60 (nove
vezes), art. 69, art. 68 (quatro vezes), c/c o art. 15, inciso II, alíneas a, h, o, e
art. 58, inciso I, todos da Lei nº 9.605/98 e art. 69 do Código Penal. Alega
que não há motivos para a custódia cautelar, pois, além de atípicos os fatos,
o paciente é primário, com bons antecedentes, tem endereço fixo e
emprego, ressaltando a inocorrência das circunstâncias autorizadoras da
segregação, vez que não há prova ou elementos concretos que indiquem a
presença dos requisitos do art. 312 do Código de Processo Penal. Entende
que o paciente está sofrendo coação ilegal, pedindo, por isso, a concessão
do writ, liminarmente.
O Relator originário adiou o exame da liminar para depois de
prestadas as informações, pois não acompanhou a impetração o decreto de
prisão preventiva.
O Magistrado prestou as informações, noticiando que, depois
de decretada a preventiva, o paciente permanece como foragido, juntando
cópias dos documentos pertinentes.
À vista dos documentos anexados nas informações, a liminar
foi indeferida.
O Dr. Procurador de Justiça emitiu parecer, opinando,
preliminarmente, pelo não conhecimento, e, no mérito, pela denegação da
ordem.
É o relatório.

VOTOS
DES. CONSTANTINO LISBÔA DE AZEVEDO (RELATOR)

2
ESTADO DO RIO GRANDE DO SUL
PODER JUDICIÁRIO
TRIBUNAL DE JUSTIÇA

CLA
Nº 70018005900
2006/CRIME

Quanto à preliminar suscitada pelo Dr. Procurador de Justiça,


de não conhecimento da ordem de habeas corpus firmada por advogado,
desacompanhada da decisão que decretou a prisão do paciente, entendo
superada com a determinação do eminente Relator originário que requisitou
os documentos faltantes, necessários para o exame da liminar e
conhecimento do feito, que foram juntados com as informações.
Conheço, portanto, do pedido.
Relativamente à preliminar argüida pelo impetrante, de
incompetência do Juízo originário para o processo e julgamento do feito, a
questão foi devidamente abordada e rechaçada no parecer do ilustrado
Procurador de Justiça, Dr. Luiz Carlos Ziomkowski, como segue:
“É conveniente arredar-se, de imediato, qualquer dúvida,
afirmando-se a certeza da competência do Douto Juiz de Direito para a
decretação da segregação cautelar do paciente, já que a empresa tem sede
no Município de Estância Velha e sua atividade poluidora atingiu os seus
Arroios Portão e Cascalho afluentes do Rio dos Sinos, onde culminou
ocorrendo a morte de oitenta e cinco toneladas de peixes.
Lado outro, a mera tramitação de inquérito policial na
Delegacia de Polícia de Sapucaia do Sul não constitui fundamento jurídico
para afastar a competência do Juízo de Estância Velha.
Neste ponto, afastando mais um dos argumentos
contemplados na inicial, é significativo destacar que, nos termos da cópia
em anexo, já houve, inclusive, oferecimento de denúncia contra a pessoa
jurídica UTRESA e o paciente na Comarca de Estância Velha, dando-os
como incursos nas sanções dos artigos 54, § 2º, inciso V (seis vezes), nas
sanções, ainda, do art. 60 (nove vezes), 69 (uma vez) e o denunciado Luiz
Ruppenthal, mais ainda, no artigo 68 (quatro vezes), combinados com o art.
15, inciso II, alíneas a, h, o, e 58, inciso I, todos da Lei nº 9.605/98 e art. 69,
este do Código Penal”.
3
ESTADO DO RIO GRANDE DO SUL
PODER JUDICIÁRIO
TRIBUNAL DE JUSTIÇA

CLA
Nº 70018005900
2006/CRIME

De outra parte a preliminar suscitada nos memoriais e da


tribuna também não procede, uma vez que o fato de o Ministério Público ter
procedido as investigações não acarreta qualquer nulidade, não constituindo
sequer irregularidade, segundo orientação reiterada desta Câmara.
Rejeito, portanto, as preliminares.
No mais, não há qualquer constrangimento ilegal, visto que o
paciente está preso em razão de prisão preventiva, cujo decreto está muito
bem fundamentado, presentes os requisitos legais, havendo indícios
suficientes da autoria e prova inicial segura da materialidade.
Diz o decreto de prisão preventiva:
“Vistos e examinados.
O Ministério Público, por seus Promotores de Justiça de
Estância Velha e Portão, requer a prisão preventiva de Luiz Ruppenthal, já
devidamente qualificado, expondo que, na qualidade de Diretor-Executivo,
Presidente do Conselho de Administração e responsável técnico da UTRESA
(União dos Trabalhadores em Resíduos Especiais e Saneamento
Ambiental), praticou diversos crimes descritos neste expediente, cuja
investigação teve início com a mortandade de peixes do Rio dos Sinos.
Consta da narrativa do Parquet que, ao surgirem os primeiros
peixes mortos no rio, a FEPAM passou a investigar as possíveis causas do
desastre ecológico, constatando forte odor de produtos químicos a partir do
braço alterado do Arroio Portão.
Pelo potencial poluidor, a FEPAM passou a investigar a
UTRESA, não acreditando, e com razão, que seria uma área estanque, da
qual não sairia qualquer poluente para um dos afluentes do Rio dos Sinos,
os Arroios Portão e Cascalho.
A percepção foi um tiro certeiro; a UTRESA não se mostrou
estanque. Antes, restou comprovado que é dotada de inúmeras saídas

4
ESTADO DO RIO GRANDE DO SUL
PODER JUDICIÁRIO
TRIBUNAL DE JUSTIÇA

CLA
Nº 70018005900
2006/CRIME

clandestinas. Ao invés de remeter seus efluentes líquidos para tratamento


adequado, em local apropriado, a UTRESA, por direta orientação do
indiciado, criou uma malha de canalizações clandestinas de despejo de
efluentes perigosos diretamente nos afluentes antes mencionados.
Não bastassem tais constatações, o indiciado deu início à
construção, sem qualquer licença ambiental, de uma Estação de Tratamento
de Efluentes, o que constitui outra modalidade criminosa.
Do extenso material aduzido pelo Ministério Público, nesta
inédita parceria com a FEPAM e órgão de fiscalização municipal de Estância
Velha, apurou-se que, das saídas clandestinas de resíduos líquidos, havia
um verdadeiro controle por parte do indiciado. Ou seja, poderia ele, a seu
talante, comandar vazão maior ou menor de poluentes que seriam
direcionados aos arroios, combinando seu intento criminoso com, v.g., a
possibilidade de chuvas, a diluir os poluentes e minimizar a prova do crime.
As coletas realizadas pela FEPAM e pela Secretaria Municipal
do Meio Ambiente, nos dois arroios que circundam a UTRESA,
demonstraram índices absurdos de poluição, sinalizando claramente para
uma das causas concretas da mortandade de peixes no Rio dos Sinos.
O trabalho realizado pelos órgãos de fiscalização ambiental,
pelo que relatou o Promotor de Justiça, foi feito em dias diversos, em pontos
diversos (montante e jusante), e os dados foram enviados para análise em
laboratórios diversos.
Se tais investigações já não fossem suficientes, o próprio
Ministério Público inspecionou os meandros da clandestinidade erigida na
UTRESA.
Constatou a irregular existência de chorume e um córrego, com
erosão, demonstrando a habitualidade da ilegal saída de poluentes. Para
ocultar tal prova, também constatou que o indiciado determinou que o local

5
ESTADO DO RIO GRANDE DO SUL
PODER JUDICIÁRIO
TRIBUNAL DE JUSTIÇA

CLA
Nº 70018005900
2006/CRIME

fosse lavado, onde um caminhão pipa despejou água sobre a área


contaminada, lavando-a.
Tal fato constitui obstrução na produção da prova, fator
preponderante para a requisição da prisão preventiva do indiciado.
Também, a Promotoria de Justiça, no trabalho conjunto com a
FEPAM e fiscalização municipal, fiscalizou as saídas clandestinas mantidas
pela UTRESA às margens dos arroios Cascalho e Portão, colhendo
amostras de sedimentos, efluentes e de água, a montante e a jusante do
empreendimento poluidor, inferindo vazão intensa dos poluentes.
Esta vazão é, indubitavelmente, saída de efluentes sem
quaisquer tratamentos, tanto na fase líquida, como na semi-sólida.
Pelo que se entende, a situação criada na UTRESA permite
que até mesmo as águas da chuva sejam aliadas ao intento criminoso.
Como foi visto, a unidade não se mostra estanque, e a precipitação
pluviométrica havida em 05 de outubro transato contribuiu para o livre
escoamento de carga poluente de grande expressão para o arroio Portão; o
lodo e líquidos não escoaram na integralidade, permanecendo depositados
após duas semanas depois da mortandade, em trechos variados.
Depois da vistoria e da coleta de provas iniciais, repete, o
indiciado deu início à construção de tanque de acúmulo de efluentes,
justamente para que não mais se soubesse para onde estariam sendo
direcionados os efluentes poluidores ali percebidos.
A despeito da ocultação de provas, da lavagem antes
mencionada, a coleta de camadas inferiores do solo comprovou a existência
de resíduos de efluentes da UTRESA, indicando importante contribuição
desta na contaminação dos arroios e, ao fim e ao cabo, do Rio dos Sinos.
O agir do indiciado, como representante da empresa, mostra
dolo direto ou, no mínimo, eventual.

6
ESTADO DO RIO GRANDE DO SUL
PODER JUDICIÁRIO
TRIBUNAL DE JUSTIÇA

CLA
Nº 70018005900
2006/CRIME

Exemplificando, o Ministério Público mostra que são


alarmantes os valores dos efluentes poluidores no Arroio Portão, com alta
carga orgânica e química, e capazes de consumir grandes quantidades de
oxigênio dissolvido junto ao Rio dos Sinos, notadamente os quantitativos de
nitrogênio amoniacal e total — referindo-se unicamente à primeira saída.
Na segunda saída clandestina também mostra alta carga de
impacto poluidora, orgânica e química, também consumidora de oxigênio
dissolvido no rio sob comento.
Na terceira saída clandestina apurou-se quadro de expressiva
gravidade, onde a quantidade de consumo de oxigênio dissolvido é maior
em relação as demais, concluindo que a cada litro de poluente proveniente
da UTRESA consumiria 32.538 mg/L de O².
Demonstrando a quantidade de oxigênio existente no Rio dos
Sinos, conclui que a contribuição da UTRESA foi conclusiva.
Não bastasse isso, o potencial poluente ainda existente na
UTRESA não afasta a possibilidade de novas e repetidas mortandades de
peixes, sendo imprevisível se o índice será superior ou inferior aos números
verificados nos dias 07 e 08 de outubro passado. A UTRESA está, de fato,
em descontrole, com lançamentos irregulares e graves de material
altamente poluidor, além de elementos cancerígenos, com perigo imediato à
fauna e aos seres humanos.
Diante destes elementos, pede o Ministério Público a prisão
preventiva de Luiz Ruppenthal, afirmando presentes o perigo pela demora e
a plausibilidade do direito.
Quanto à garantia da ordem pública e da instrução criminal,
revela-se pela existência de um controle da vagão poluidora, que se faz de
forma continuada e acintosa, sobrepondo interesses econômicos privados
ao interesse público, com prejuízo direto à população, ao meio-ambiente e,

7
ESTADO DO RIO GRANDE DO SUL
PODER JUDICIÁRIO
TRIBUNAL DE JUSTIÇA

CLA
Nº 70018005900
2006/CRIME

sobretudo, ao Poder Público, que assume, doravante, os gastos para


minimizar a falta de oxigênio no Rio dos Sinos.
Houve atos concretos para obstruir a apuração dos fatos, com
a modificação do quadro fático, pela lavagem do chorume; com a construção
de inúmeras lagoas de efluentes, sem licença, após a mortandade, com o
nítido propósito de tentar impedir a apuração do extravasamento de
produtos poluidores; e com a redução drástica de lançamentos entre os dias
16 e 18 no Arroio Cascalho, por força de fiscalização municipal, a indicar o
efetivo controle que o empreendimento possui no ato de poluir o meio
ambiente.
A liberdade do agente é perigo de ocultação de materiais, de
maquiagem da complexidade química dos efluentes, falseando o verdadeiro
contingente, gama e diversidade de produtos acumulados na UTRESA.
Disserta o Ministério Público, ainda, sobre a necessidade da
instrução criminal e aplicação da lei penal, abordando o trinômio gravidade
da infração, repercussão social e periculosidade do agente, vendo na prisão
preventiva a forma única de buscar conter as saídas clandestinas de
efluentes, apurar a forma de controle destas, além daquilo que ainda resta
incógnito, mas que o agente m capacidade para ocultar ou aniquilar, caso
permaneça em liberdade no curso do processo-crime.
Sucintamente relatada a exposição e o pedido do Ministério
Público, passo a decidir.
Inexorável a necessidade de decretar-se a prisão preventiva do
indiciado Luiz Ruppenthal, haja vista estar presente a habitualidade
criminosa, a prática de atos claros de obstrução da prova e,
subsidiariamente, o fato de ausentar-se do país com relativa freqüência,
como aqui já ficou demonstrado e adiante será ponderado.
Muito embora a liberdade seja um direito fundamental, e a
presunção de inocência um mandamento constitucional, tais garantias
8
ESTADO DO RIO GRANDE DO SUL
PODER JUDICIÁRIO
TRIBUNAL DE JUSTIÇA

CLA
Nº 70018005900
2006/CRIME

devem sofrer limitações quando agridem a coletividade, quando mostram


que o agente tem, no crime, manifestado sua forma mais usual de vida.
Mesmo que no plano jurídico-dogmático exija-se, de regra, atos
negativos do Estado (defesa da liberdade), a situação clama por atos
positivos, de limitação da liberdade (imposição da prisão), a fim de
assegurar a correta e mais severa aplicação da lei penal, além de permitir
que as investigações sejam realizadas sem o ocultar de provas,
desmantelando-se o quadro montado para poluição, quer seja ele material,
quer seja ele humano.
Devemos não olhar apenas o Estado como entidade de
garantia de direitos individuais, e não como prossecutor de fins coletivos;
cabe ao ente público a defesa da ordem e da segurança, mesmo que, para
isso, tenha de impor limites, restrições aos direitos fundamentais individuais,
como a liberdade.
Na averiguação realizada pela Promotoria de Justiça,
acompanhado da FEPAM e Secretaria Municipal do Meio Ambiente, afirmou-
se que ‘a UTRESA se caracteriza por ser uma unidade receptora de
resíduos industriais. Os resíduos são dispostos em valas, não cobertas,
sujeitas ao regime das chuvas. Os líquidos contaminados gerados são
direcionados para valas de recebimento. Na UTRESA não existem sistemas
de tratamento dos líquidos contaminados, o que gera a necessidade
continuada de transporte dos efluentes líquidos para outras unidades, além,
de representar risco potencial de extravasamento e infiltrações no solo.’
Nestas condições de trabalho, causa espécie que o Promotor
de Justiça, a FEPAM e a fiscalização municipal, tenham descoberto tantas
saídas de efluentes, de poluição, em direção aos arroios Portão e Cascalho.
A toda evidencia, a UTRESA vem desrespeitando normas de
proteção ambiental. praticando, na hipótese e na espécie, os crimes
identificados pelo Ministério Público.
9
ESTADO DO RIO GRANDE DO SUL
PODER JUDICIÁRIO
TRIBUNAL DE JUSTIÇA

CLA
Nº 70018005900
2006/CRIME

Não bastasse a prática de diversos crimes ambientais, o mais


grave foi a postura de tentar obstaculizar a apuração da verdade, inegável
ocultação de provas e, diretamente, obstrução da Justiça.
Se estivéssemos a investigar a morte de um pequeno animal
em extinção, o fato já seria de alarde e gravidade. Trata-se, no entanto, de
uma das maiores mortandades de peixes da história recente do Rio dos
Sinos, e a co-participação do denunciado, através da UTRESA, é
inquestionável!
Demonstrou o Ministério Público que os poluentes ilegal e
acintosamente despejados pelo indiciado nos arroios Cascalho e Portão,
afluentes do Rio dos Sinos, foram causadores diretos da baixa oxigenação
das águas e, via de conseqüência, da mortandade dos peixes.
Somada a tal postura de descaso ambiental, de agressão à
coletividade, o indiciado pendeu para o lado do deboche às autoridades,
pensando que o lavar da cena do crime seria o suficiente para obstaculizar
qualquer investigação.
A cena do crime é, apenas, a natureza, e esta guarda a prova
da agressão por anos, em camadas. Permite que a escavação mostre a
história de agressão, de violação às normas ambientais, daquilo que não foi
tratado e despejado, criminosamente canalizado para poluir os arroios.
Aquele que trama no meio da mata saídas clandestinas de
chorume, violando a própria condição de existência e funcionamento da
unidade que representa, e ainda pensa que a lavagem, ou a chuva lhe
servirá de passaporte à impunidade, a toda evidência, mostra que é
absolutamente pernicioso ao meio social, e deve sofrer a segregação
provisória.
Se já foi capaz de pensar em obstaculizar a ação do Ministério
Público e da FEPAM, burlando ou ocultando os elementos de provas, sem

10
ESTADO DO RIO GRANDE DO SUL
PODER JUDICIÁRIO
TRIBUNAL DE JUSTIÇA

CLA
Nº 70018005900
2006/CRIME

saber formalmente da investigação, o que não será capaz de fazer, já citado,


estando em liberdade?
A liberdade do indiciado representa o perigo de ocultação
definitiva de muitas outras irregularidades danosas praticadas através da
UTRESA, que agridem ao meio ambiente e, por fim, à coletividade.
Seguramente, as investigações do Ministério Público apenas
mostraram a ponta do iceberg. O que mais não está enterrado ou
armazenado na UTRESA, capaz de sair por encanamentos clandestinos,
com vazão direta para os arroios?
A descoberta de toda a podridão da UTRESA não poderá ser
feita com a liberdade e a negativa participação do indiciado Luiz Ruppenthal.
A prisão é imprescindível para que as investigações permaneçam isentas e
livres para apurar toda a irregularidade criminosa tramada pelo indiciado. A
liberdade, pelo que já ficou demonstrado, não sendo mero temor subjetivo,
ou potencial, é um risco de ocultação de muitas outras provas ou crimes
ainda acobertados.
Pelos elementos carreados até o presente momento, inegável
a existência de crime na hipótese e na espécie.
Se a UTRESA deveria ser uma entidade de tratamento de
resíduos sólidos, encaminhando o chorume para tratamento em outro lugar,
não haveria possibilidade de saídas clandestinas, contaminando o solo e os
arroios diretamente, com materiais orgânicos, químicos, oleosos, graxos,
etc. Se tais saídas existem, a toda evidência, decorrem ou de um
descontrole, ou, como sérios são os indícios, de um verdadeiro controle
criminoso de efluentes que são despejados nos afluentes do Rio dos Sinos.
Poderá o indiciado dizer que o sistema, tal como concebido, é
falho, que permite a saída de efluentes, antes que sejam captados e levados
a tratamento. Porém, há amazônica distância entre a constatação de falha
do projeto concebido e o que foi demonstrado pelo Ministério Público.
11
ESTADO DO RIO GRANDE DO SUL
PODER JUDICIÁRIO
TRIBUNAL DE JUSTIÇA

CLA
Nº 70018005900
2006/CRIME

A prova até agora existente, as canalizações encontradas, os


diferentes tipos de vazões, demonstra que não se trata de uma falha, de
uma brecha no sistema, mas de uma rede perfeitamente estruturada,
clandestina e criminosa, para vagão de efluentes variados, de expressiva
capacidade poluidora, destruidora do meio ambiente e perniciosa ao
homem.
Os indícios que o Promotor de Justiça encontrou na cena do
crime mostram que o indiciado tinha pleno, perfeito controle da situação
poluidora, podendo aumentar ou diminuir, a qualquer momento, o nível ou a
quantidade de poluentes a despejar nos afluentes do Rio dos Sinos.
Considerando que o laudo de vistoria e laudo técnico
organizado pelo Ministério Público é extenso, e considerando a fase
processual presente, não é o momento mais oportuno para exaurir o exame
das provas, podendo a ponderação ser feita exemplificativamente, tão
somente com o fim de demonstrar a existência de crime, na hipótese e na
espécie, bem como os requisitos para o decreto da prisão preventiva.
O Promotor de Justiça trouxe fotos obtidas em visita realizada
junto ao Ponto P5c, em área lindeira à UTRESA, ‘junto ao talude que deveria
isolar a área. Verificou-se quantidade expressiva de chorume que escorria
pelo terreno, ressecando a vegetação rasteira e revelando rastro de
contaminação que atingiu o arroio Portão, entre os pontos P2c e P4c. A área
contaminada estende-se por mais de 300 metros até o arroio Portão.’
Ainda apresentou foto de porção erodida do talude que cerca a
UTRESA, não sugerindo, mas mostrando que a poluição no local é habitual,
continuada.
Depois da constatação, a equipe dirigida pelo Ministério
Público percebeu que o local foi lavado, na nítida tentativa de ocultar provas,
e não de mera minimização do dano ambiental, pois a lavagem apenas

12
ESTADO DO RIO GRANDE DO SUL
PODER JUDICIÁRIO
TRIBUNAL DE JUSTIÇA

CLA
Nº 70018005900
2006/CRIME

levou o material poluidor para mais além das fronteiras da UTRESA, sempre
na direção do Rio dos Sinos.
A comprovação de que existem saídas clandestinas foi
mostrada através de fotografias, sobre as quais asseverou o Ministério
Público:
As vistorias, realizadas no arroio Portão, concentraram-se no
dia 23/10/06. Após as coletas realizadas no arroio Cascalho, a equipe
deslocou-se para a margem do arroio Portão, no ponto mais a jusante da
UTRESA, isto é, em direção ao Município de Portão (P1c). A equipe
percorreu a margem esquerda do arroio Portão em direção ao bairro Campo
Grande — Estância Velha. Foram amostrados efluentes, lodos e
sedimentos, recolhidos nos quatro pontos identificados. Nos pontos P1c
(primeiro ponto após o terminal — relatório de efluentes n. 23100-06 e
relatório de sedimento n. 23103-06) e P2c (segundo ponto após o terminal,
relatório de efluente n. 23101-06 e de sedimento 23111-06), havia canos de
concreto que chegavam até o arroio Portão, conduzindo efluentes. Em
ambos, havia fluxos contínuos de líquidos para o arroio. As fotos c1 e c3
ilustram essa condição. No local dos lançamentos, havia lodos e sedimentos
acumulados analisados. No ponto P2c (segundo ponto após o terminal),
havia grande quantidade de oleosidade na água, formando iridiscência
característica junto ao arroio. Amostras de efluentes foram recolhidas para
análise. No Ponto P3c (terceiro ponto após o terminal), foram recolhidas
amostras de efluentes do arroio Portão (relatório n.23102-06) e lodos
depositados nas margens (relatório n 23112- 06), provenientes da drenagem
com lodos depositados a partir do ponto P5c. O ponto P4c é o que se situa
mais a montante da área de influência da UTRESA, recebendo os resíduos
das indústrias situadas a montante. No trecho vistoriado, várias drenagens
conduziam chorume e lodos para o arroio Portão, conforme ilustram os

13
ESTADO DO RIO GRANDE DO SUL
PODER JUDICIÁRIO
TRIBUNAL DE JUSTIÇA

CLA
Nº 70018005900
2006/CRIME

registros fotográficos. Foi realizada filmagem em VHS que acompanha a


documentação deste relatório.
Mais adiante:
As tubulações percorrem mais de 100 metros desde o interior
da UTRESA, através de canos de concreto, com diâmetros de 30 e 40 cm,
até atingirem o arroio Portão. No interior dos canos é visível o acúmulo de
chorume, bem como da pressão realizada pela massa de líquidos que
percorreu a tubulação até o ponto de lançamento no arroio, causando a
movimentação da areia na parte externa (detalhe em amarelo), conforme
ilustra a foto c4. A seta indica o aro de areia movido com a pressão que foi
gerada na passagem dos líquidos pelo cano sobre a fresta de junção. Essa
condição revela que passaram pelo cano volumes expressivos de líquidos
em direção ao arroio Portão.
(...)
As fotos ilustram a grave situação de acúmulo de lodos e
efluentes sem tratamento que atingem o arroio Portão provenientes da
UTRESA, a partir do ponto P5c No percurso do canal de drenagem verifica-
se a presença de poluentes nas fases semi-sólidas, sendo possível registrar
as diferentes fases que a área tem sofrido Após a ocorrência de chuvas as
águas drenadas contaminadas e aquelas provenientes da UTRESA
escoavam livremente para o arroio Portão. Os lodos e líquidos não escoados
permanecem depositados naquele trecho de mais de 300 metros de
extensão. Filmagem em VHS foi realizada no trecho atingido. A foto e4
ilustra o ponto de lançamento dos lodos e efluentes no arroio Portão (P3c). A
foto e5 ilustra a coloração do efluente no final do canal de drenagem do
ponto P3c, junto ao arroio Portão, evidenciando forte contaminação que
atingiu o arroio (lodo escuro).
(...)

14
ESTADO DO RIO GRANDE DO SUL
PODER JUDICIÁRIO
TRIBUNAL DE JUSTIÇA

CLA
Nº 70018005900
2006/CRIME

Neste local foram realizadas obras para colocação de tanque


de acúmulo de efluentes após a visita do MP. As obras foram realizadas
após a constatação pelo Ministério Público Estadual do escoamento de
chorume quando da constatação de escoamento realizada dia 20/10/06. O
tanque foi enterrado no ponto de geração dos líquidos contaminados que
atingiam mais de 300 metros de drenagem até o arroio Portão (Ponto P5c
até P3c). Após as obras de colocação do tanque, ocorrida no dia 21/10/06 a
área contaminada recebeu despejos de água limpa para reduzir a
visualização dos efeitos da poluição continuada.
De todo o apurado e coletado, o Ministério Público trouxe ao
almanaque processual a constatação de índices de poluição absurdos, a
mostrar, uma vez mais, a existência de crime e os indícios de autoria.
Assim;
Os resultados encontrados nas amostras de água do arroio
Cascalho, através de amostras recolhidas em 15 e 18/10/06 revelam dados
graves quanto a contaminação ambiental decorrente da UTRESA:
A DQO (1) aumenta em 13,2 X quando comparado com os
dados a montante (branco) do arroio Cascalho. A DBO-5 (2) aumenta em
12,4 X quando comparado com os dados a montante (branco) do arroio
Cascalho. A quantidade de sólidos suspensos (3) aumenta de 6,9 X quando
comparado com o valores encontrados a montante (branco) do arroio
Cascalho. Os valores de sólidos sedimentáveis (4) aumentaram em 11 X
quando comparado com o valores encontrados a montante (branco) do
arroio Cascalho.
Na água do arroio Cascalho apareceram valores expressivos
de aumento para Nitrogênio (a), com aumento de 21 x quando comparado
aos valores encontrados a montante do arroio Cascalho. O fósforo aumenta
em 1,9 X quando comparado aos valores encontrados a montante do arroio
Cascalho. O metal cromo aumentou em 80 x quando comparado aos valores
15
ESTADO DO RIO GRANDE DO SUL
PODER JUDICIÁRIO
TRIBUNAL DE JUSTIÇA

CLA
Nº 70018005900
2006/CRIME

encontrados a montante do arroio Cascalho O metal chumbo aumenta em 3


x quando comparado aos valores encontrados a montante do arroio
Cascalho e o metal zinco aumenta em 12,5 x quando comparado aos
valores encontrados a montante do arroio Cascalho.
(...)
Os resultados encontrados nas análises de sedimentos no
arroio Cascalho, através de amostras recolhidas em 16 e 18/10/06 revelam
dados graves quanto a contaminação ambiental decorrente da UTRESA:
O Cálcio aumentou 32 x entre os valores encontrados a
montante (antes) da UTRESA. O Chumbo aumentou 2,25 x. O Cobre
aumentou 4,28 x. O Cromo total aumentou 16 x. A presença de Óleos e
graxas aumentou 77 x e o metal Zinco aumentou 3,2 x quando comparados
com os valores de sedimento amostrados a montante.
Os resultados encontrados nas análises de LODOS nas
margens do arroio Cascalho, através de amostras recolhidas em 23/10/06
revelam dados graves quanto à contaminação ambiental decorrente da
UTRESA:
O produto Benzeno aumentou em 619,5 X quando comparado
com os valores de sedimento do arroio Cascalho. Etilbenzeno aumentou em
109.400 X. Tolueno aumentou em 19.520 X e Xileno aumentou em 76.200 X
quando comparado com os valores a montante no arroio Cascalho.
O metal chumbo aumentou em 4 X. Cloretos aumentam em 4
X. O metal cromo aumentou em 22 X. O ferro aumentou em 3,5 X,
manganês aumentou em 49 X. Sulfeto aumentou em 16 X, quando
comparado com os valores obtidos de sedimentos a montante do arroio
Cascalho.
b) LODO ACUMULADO NA MARGEM DO ARROIO
CASCALHO, 60 cm acima do nível: essa situação se caracteriza como

16
ESTADO DO RIO GRANDE DO SUL
PODER JUDICIÁRIO
TRIBUNAL DE JUSTIÇA

CLA
Nº 70018005900
2006/CRIME

grave, uma vez a necessidade de grande carreamento para o arroio e


posterior deposição naquela altura. É INDICATIVO DE LANÇAMENTO
IRREGULAR EM GRANDE QUANTIDADE.
A situação de maior gravidade registrada nas vistorias e coletas
de efluentes, lodos e sedimentos, foi verificada entre o Ponto P5c e P3c. No
canal de drenagem de 300 metros que tem início com os efluentes,
atualmente acumulados em tanque instalado em 21/10/06, revelam a
existência de ALTA CARGA DE POLUENTES, de diversos tipos que atingem
o arroio Portão, provenientes da UTRESA. Neste ponto foram verificadas
diversas situações que ilustram a gravidade e a fonte de contaminação que
causou a mortandade de peixes no Rio dos Sinos
Os produtos acumulados possuem alto poder de toxicidade,
sendo conhecidos pelas suas propriedades cancerígenas, teratogênicas e
carcinogênicas.
As ações realizadas pela UTRESA, desde 21/10/06 evidenciam
o interesse em diluir e maquiar os efeitos destrutivos dos produtos
acumulados naquele trecho e que representam GRAVE POTENCIAL DE
CONTAMINAÇÃO.
Além da contribuição de poluentes verificada nos 05 pontos
estudados, através das amostras recolhidas, constatam-se as seguintes
situações de ALTO POTENCIAL POLUIDOR.
Naqueles locais onde o MP verificou lançamento de chorume
foi realizada a lavagem do terreno, na tentativa de diluir a contaminação
verificada.
Os lançamentos de efluentes proporcionaram o acúmulo de
lodos e sedimentos altamente poluentes numa extensão de 300 metros.
Uma vez constatada a irregularidade e registrada em fotos pelo MP, a
UTRESA passou a realizar, posterior-mente, atividades que visavam
esconder as evidências apontadas. No trecho onde o chorume escorria
17
ESTADO DO RIO GRANDE DO SUL
PODER JUDICIÁRIO
TRIBUNAL DE JUSTIÇA

CLA
Nº 70018005900
2006/CRIME

livremente, ressecando a vegetação e acumulando-se no canal de


drenagem, foi realizada a ‘lavagem’ superficial. A lavagem foi realizada no
dia 22/10/06, conforme identificam as fotos e filmagens realizadas naquele
dia.
(...)
Os resultados encontrados nas amostras recolhidas do canal
de drenagem que transportava efluentes e acumulava lodos do ponto P5c
em direção ao ponto P3c se revela ALTAMENTE PREOCUPANTE.
Os níveis de poluentes acumulados revelam um quadro
EXTREMAMENTE GRAVE. As fotos e amostras recolhidas identificam a
facilidade com que esses materiais foram transportados até o arroio Portão e
posteriormente ao Rio dos Sinos.
Os níveis de Benzeno, tolueno, etilbenzeno e xileno são
MUITO GRAVES, podendo facilmente serem transportados pelas águas da
chuva.
(...)
P1C: São alarmantes os valores encontrados neste ponto junto
ao arroio Portão. Os valores de condutividades (19.370), revelam o
lançamento de sais em alta concentração. A DBO-5 e a DQO (4.224 mg/L e
14.642 mg/L, respectivamente) revelam alta carga poluidora orgânica e
química, capaz de consumir grandes quantidades de oxigênio dissolvido
junto ao Rio dos Sinos. Os valores de nitrogênio amoniacal e total (2.488
mg/L e 3.288 mg/L) revelam valores expressivos. São elementos que podem
causar toxicidade nesses níveis.
P2C: A contaminação lançada no arroio Portão neste ponto se
revela de alto impacto, principalmente devido a composição de solventes
presentes no solo e lodo analisados. No efluente os valores encontrados de
DBO-5 e a DQO (730 mg/L e 2.440 mg/L, respectivamente) revelam carga

18
ESTADO DO RIO GRANDE DO SUL
PODER JUDICIÁRIO
TRIBUNAL DE JUSTIÇA

CLA
Nº 70018005900
2006/CRIME

poluidora orgânica e química expressiva, capaz de consumir quantidades


significativas de oxigênio dissolvido junto ao Rio do Sinos. Nitrogênio e
sólidos contribuem com a poluição lançada neste ponto, como valores mais
significativos.
P3C: A contaminação identificada neste ponto de lançamento
se revela extremamente grave. A DBO-5 e a DQO (13.440 mg/L e 32.538
mg/L, respectivamente) revelam alta carga poluidora orgânica e química,
capaz de consumir quantidades EXTREMAMENTE ALTAS de oxigênio
dissolvido junto ao Rio do Sinos. A presença, ainda de solventes de alta
capacidade poluidora no lodo (tolueno, benzeno e xileno) contido no canal
de drenagem e facilmente arrastados para o arroio Portão revelam situação
EXTREMAMENTE GRAVE. Os valores de nitrogênio (orgânico 1.158 mg/L;
total 2.157 mg/L), associados aos valores de sulfeto (1.158 mg/L), além de
valores extremamente altos de sólidos revelam o coquetel de substâncias
poluidoras que atingiram e atingem o arroio Portão.
As combinações dos materiais presentes nos efluentes formam
uma sinergia química com capacidade de causar a mortandade verificada.
Além da carga poluidora a presença de solventes TEM POTENCIAL
SUFICIENTE para causar NOVAS MORTANDADES como verificado em 07
e 08/10106.
A localização da UTRESA, em relação ao Rio dos Sinos é de
menos de 10.500 metros, através do arroio Portão, até o ponto da
localização da maior mortandade que atingiu o Vale do Sinos.
Os produtos transportados após a chuva que atingiu a região
reforça a tese de que os materiais mais poluentes, com capacidade
potencial de causar uma mortandade com aquelas proporções, partiu da
UTRESA, uma vez os níveis identificados nos 04 pontos estudados, através
das coletas realizadas.

19
ESTADO DO RIO GRANDE DO SUL
PODER JUDICIÁRIO
TRIBUNAL DE JUSTIÇA

CLA
Nº 70018005900
2006/CRIME

Outro fator que reforça essa afirmativa é o fato de que os


produtos permaneceram acumulados junto às margens, canais de drenagem
e tubulações após o dia 08/10 até o dia 23/10 pelo fato de que não
ocorreram novas chuvas que dispersassem os materiais poluentes
As coletas de lodos, efluentes e sedimentos ocorreram 08 dias
após a mortandade, o que revelou, ainda, o potencial de contaminação que
escapa da UTRESA sem controle.
As fotos c1, d1, e4, e4, ilustram a GRAVIDADE DOS
LANÇAMENTOS IRREGULARES PROMOVIDOS PELA UTRESA.
As amostras realizadas no dia 23/10 remontam as mesmas
condições ambientais e de acúmulo de poluentes que ocorreu no dia 07 e
08/10/06. Vários dias haviam se passado sem chuvas na região, conforme
pode ser verificado nos dados recolhidos da rede meteorológica Urbana —
Met SUL.
Não sendo objeto desta fase, como disse alhures, analisar
criteriosamente crime por crime, mas limitando-se à demonstração de que
ilícitos foram praticados, e o indiciado é o (principal) responsável, penso que
a prova é robusta.
O indiciado praticou inúmeros crimes contra o meio ambiente,
enquanto responsável pela UTRESA, pelo que passo à análise dos
requisitos para a prisão preventiva.
A busca da ocultação de provas e, com isso, a obstrução da
Justiça; a tentativa de radical alteração da cena do crime, inclusive com a
não autorizada construção de locais para recepção do material que, antes,
era jogado criminosamente nos arroios, já são bastante para a custódia
cautelar. Subsidiariamente, há o potencial perigo de nova viagem ao exterior,
agora sem um retorno previsto.

20
ESTADO DO RIO GRANDE DO SUL
PODER JUDICIÁRIO
TRIBUNAL DE JUSTIÇA

CLA
Nº 70018005900
2006/CRIME

A atitude do réu causa indignação, uma vez que se furta a


colaborar com a Justiça, com as investigações preliminares do Ministério
Público, produzindo graves danos ao meio ambiente, com posterior e
alteração do local do crime, cabendo ao juiz determinar a prisão, visando
assegurar a investigação e a aplicação da lei penal.
O STJ já definiu que a prisão cautelar deve estar fulcrada em
fundamentação concreta, apta a configurar quaisquer dos requisitos do art.
312 do Código de Processo Penal (Superior Tribunal de Justiça STJ, HC
35906; SP; Quinta Turma; Rel. Min. Gilson Langaro Dipp, JuIg. 21/06/2005;
DJU 01/07/2005, Pág. 572).
No caso sob comento, ficou comprovado e, portanto, é objetiva
demonstração, que o indiciado busca alterar os fatos, pela mudança radical
do local e das fontes de poluição. Mantê-lo em liberdade significará a
possibilidade de outras e profundas alterações, impedindo o prosseguimento
das investigações (quanto aos crimes) e fiscalizações ambientais (quanto à
cessação das causas de poluição e contaminação dos arroios).
Ficou patente que o indiciado não está tomando atitudes para
resolver as saídas clandestinas e cessar a fonte de poluição dos arroios.
Antes, está ocultando seu agir criminoso, buscando afastar a
responsabilização civil e penal.
Por não se tratar de suposições, mas da demonstração
concreta de alteração dos fatos, de ocultação de provas, visando atenuar ou
afastar responsabilidades, a jurisprudência atesta o acerto da prisão
preventiva decretada.
Neste sentido:
CRIMINAL. HC. QUADRILHA. ADULTERAÇÃO DE
COMBUSTÍVEL. CRIME CONTRA O MEIO AMBIENTE. PRISÃO
PREVENTIVA. GARANTIA DA ORDEM PÚBLICA. POSSIBILIDADE
CONCRETA DE CONTINUIDADE DA PRÁTICA CRIMINOSA.
21
ESTADO DO RIO GRANDE DO SUL
PODER JUDICIÁRIO
TRIBUNAL DE JUSTIÇA

CLA
Nº 70018005900
2006/CRIME

NECESSIDADE DA CUSTÓDIA DEMONSTRADA. EXCESSO DE PRAZO.


FEITO COMPLEXO. EXPEDIÇÃO DE CARTAS PRECATÓRIAS.
PLURALIDADE DE RÉUS. GREVE DOS SERVENTUÁRIOS DA JUSTIÇA.
DEMORA JUSTIFICADA. PRINCÍPIO DA RAZOABILIDADE. PRAZO PARA
A CONCLUSÃO DA INSTRUÇÃO QUE NÃO É ABSOLUTO. TRÂMITE
REGULAR. CONSTRANGIMENTO ILEGAL NÃO DEMONSTRADO.
ORDEM DENEGADA. Hipótese em que o paciente foi denunciado pela
suposta prática de crime contra o meio ambiente, formação de quadrilha e
adulteração de combustíveis Não se vislumbra ilegalidade no Decreto de
prisão preventiva exarado contra o paciente, tampouco no acórdão
confirmatório da custódia, se demonstrada a necessidade da segregação,
atendendo-se aos termos do art. 312 do CPP e da jurisprudência dominante.
A possibilidade concreta de continuidade da prática delituosa revelada pela
facilidade de tratativas para a aquisição e transporte de combustível
adulterado, condutas explicitadas na denúncia, autoriza a decretação da
custódia para a garantia da ordem pública e da ordem econômica. Não se
tratam de suposições e probabilidades a respeito de eventual reiteração
criminosa, mas de fundamentação concreta e vinculada á realidade do réu, o
que é perfeitamente hábil a fundamentar a segregação. Por aplicação do
Princípio da Razoabilidade, justifica-se eventual dilação de prazo para a
conclusão da instrução processual, quando a demora não é provocada pelo
Juízo ou pelo Ministério Público, mas sim devido à observância de trâmites
processuais sabidamente complexos, como a expedição de cartas
precatórias, à greve dos serventuários da justiça e à pluralidade de réus. O
prazo de 81 dias para a conclusão da instrução criminal não é absoluto. O
constrangimento ilegal por excesso de prazo só pode ser reconhecido
quando a demora for injustificada. Ordem denegada. (Superior Tribunal de
Justiça STJ: HC 41139; SP; Quinta Turma: Rel. Min. Gilson Langaro Dipp;
Julg. 07/06/2005: DJU 27/06/2005; Pág. 421.)

22
ESTADO DO RIO GRANDE DO SUL
PODER JUDICIÁRIO
TRIBUNAL DE JUSTIÇA

CLA
Nº 70018005900
2006/CRIME

Em outros julgamentos, a jurisprudência assentou que a


habitualidade da conduta criminosa, com destruição ambiental, somada à
presença de organização para a prática do crime, com intenso patrocínio de
interesses privados, justifica a prisão preventiva, aí presentes todos os
requisitos da lei processual penal:
PENAL. PROCESSUAL PENAL. HABEAS CORPUS.
OPERAÇÃO CURUPIRA II. PRISÃO PREVENTIVA. QUADRILHA.
CONSTRANGIMENTO ILEGAL. INEXISTÊNCIA. REQUISITOS DA
PREVENTIVA. GARANTIA DA ORDEM PÚBLICA. CONVENIÊNCIA DA
INSTRUÇÃO CRIMINAL. APLICAÇÃO DA LEI PENAL. CONFIGURAÇÃO.
CONDIÇÕES PESSOAIS FAVORÁVEIS. HABEAS CORPUS DENEGADO. 1
- Ressai dos autos a comprovação de indícios substanciais de autoria e
materialidade do delito, a justificarem a segregação preventiva com medida
hábil à necessidade de garantia da ordem pública, à conveniência da
instrução criminal e a assegurar a aplicação da Lei Penal. 2 - Hipótese em
que não se demonstrou a existência de fatos concretos a comprovar o
constrangimento ilegal que estaria o paciente a sofrer. 3 - No caso concreto,
a necessidade de garantia da ordem pública se encontra configurada pela
habitualidade das condutas criminosas de desmatamento e devastação de
extensas áreas ambientais, com a destruição de recursos naturais, por
grupo de pessoas com grande poder de estruturação, articulação e
mobilidade, com intenso patrocínio de interesses privados em detrimento
dos interesses públicos, inclusive profundamente arraigados nos órgãos
ambientais, com reflexos danosos ao meio- ambiente, à Administração e ao
Erário Público, impondo-se reconhecer a adequação e oportunidade da
prisão preventiva como medida assecuratória a desarticular todo o aparato
material e humano formado para a prática dos delitos. 4 - São condutas
ilícitas concretamente submetidas à investigação policial e à instrução
criminal a extração ilegal de madeiras, a aprovação ilegal de planos de

23
ESTADO DO RIO GRANDE DO SUL
PODER JUDICIÁRIO
TRIBUNAL DE JUSTIÇA

CLA
Nº 70018005900
2006/CRIME

manejo, a invasão e loteamento ilegal de terras, a utilização de documentos


falsos, a comercialização de ATPF’s para acobertamento de madeira
extraída ilegalmente, a receptação e a utilização de ATPF’s furtadas ou
fraudadas. 5 - A conveniência da instrução criminal decorre da complexidade
das condutas ilícitas praticadas, e que se encontra vinculada à estrutura
criminosa articulada por muitos agentes, e com diversidade do modo de
operação da prática delitiva. 6 - Condições pessoais favoráveis como
primariedade, atividade lícita, e residência fixa, não são razões suficientes
para a revogação da prisão preventiva, conquanto esteja a medida
constritiva de liberdade fundamentada nos termos do art. 312, do Código de
Processo Penal. Precedentes desta eg. Corte Regional Federal. 7 - Dos 144
mandados de prisão temporária inicialmente expedidos, 34 prisões
ensejaram sua manutenção com a decretação da prisão preventiva,
subsistindo a mesma com relação a 12 acusados. E mesmo a denúncia,
oferecida contra 193 acusados, fora rejeitada com relação a 16 pessoas Tais
registros evidenciam a condução de modo criterioso e com a devida cautela
pelo Juízo Impetrado no enfrentamento dos requisitos a autorizarem a prisão
preventiva, conforme definido no artigo 312, do CPP, como também das
mais diversas situações que o crime em análise exige. 8 - Precedentes da
4a Turma com relação à manutenção da prisão preventiva decorrente da
denominada “Operação Curupira (HC 2005.01.00.045312-2/MT, julgado em
19/7/2005, HC 2005.01 00.0041219-2/MT, julgado em 25/7/2005, HC
2005.01.00.053136-6/MT, julgado em 02/8/2005, HC 2005.01.00.041038-
0/MT, julgado em 08/8/2005, HC 2005.01.00.053137-0/MT, julgado em
16/8/2005, HC 2005.01.00.053139-7/MT, julgado em 16/8/2005, HC
2005.01.00.053302-7/MT, julgado em 16/8/2005, HC 2005.01.00.053168-
4/MT, julgado em 06/9/2005, HC 2005.01.00.053138-3/MT, julgado em
19/9/2005, HC 2005.01.00.058592-0/MT, julgado em 27/9/2005, HC
2005.01.00.058593-3/MT, julgado em 27/9/2005, HC 2005.01.00.055413-

24
ESTADO DO RIO GRANDE DO SUL
PODER JUDICIÁRIO
TRIBUNAL DE JUSTIÇA

CLA
Nº 70018005900
2006/CRIME

7/MT, julgado em 27/9/2005, HC 2005.01.00.057474-9/MT, julgado em


27/9/2005, HC 2005.01.00.057659-5/MT, julgado em 27/9/2005, HC
2005.01.00.042461-1/MT, julgado em 03/10/2005, HC 2005.01.00.061050-
5/MT, julgado em 04/10/2005 e HC 2005.01.00.059678-9/MT, julgado em
04/10/2005). 9 - Habeas corpus denegado. (TRF 01ª R , HC
2005.01.00.061081-7; MT; Quarta Turma; Rel. Juiz Fed. Conv. Alexandre
Vidigal de Oliveira; Julg. 04/10/2005; DJU 02/12/2005: Pág. 148.
Como consta no aresto acima, é imprescindível desarticular o
aparato montado pelo indiciado na UTRESA, a fim de que sejam conhecidas
todas as ações perpetradas para dar um destino ilícito aos poluentes,
geradores da histórica mortandade de peixes, fato que se repetiu e poderá
repetir-se a qualquer momento.
Quantas mais toneladas de peixes precisarão ser recolhidas
para que o Poder Público, o Poder Judiciário, tome atitude severa de
punição aos infratores? Quantos ribeirinhos mais precisarão restar
prejudicados em suas atividades e saúde com atos irresponsáveis como os
que aqui ficaram provados?
Já salientei alhures: o tempo não corre a favor da Justiça, da
investigação criminal e da sociedade. Urgem medidas para cessar a
agressão ao meio ambiente, principiando pela desarticulação do cabeça dos
interesses privados que despejam nos afluentes do Rio dos Sinos poluentes
em índices absurdos à vida!
Tal como aqui aparece, a jurisprudência entendeu pertinente e
necessária a prisão para desarticulação e garantia da instrução criminal e
aplicação da lei penal, em situação igual àquela antes aduzida:
PROCESSO PENAL. PENAL. HABEAS CORPUS.
OPERAÇÃO CURUPIRA II. PRISÃO PREVENTIVA. FUNDAMENTAÇÃO.
REQUISITOS AUTORIZADORES. GARANTIA DA ORDEM PÚBLICA E
BENEFÍCIO DA INSTRUÇÃO CRIMINAL. CONSTRANGIMENTO ILEGAL
25
ESTADO DO RIO GRANDE DO SUL
PODER JUDICIÁRIO
TRIBUNAL DE JUSTIÇA

CLA
Nº 70018005900
2006/CRIME

INEXISTENTE. BONS ANTECEDENTES. LIBERDADE PROVISÓRIA.


IMPOSSIBILIDADE. ORGANIZAÇÃO CRIMINOSA. LEI N° 9.034/97, ART. 7º
DILAÇÃO PROBATÓRIA. 1 - Não se apresenta eivado de nulidade o
Decreto prisional que se reporta às provas da existência de crime e de
indícios da autoria, justificando a prisão como forma de cessar a atuação de
quadrilha organizada, para garantir a ordem pública, e como forma de
impedir a destruição de provas, por conveniência da instrução criminal.
Precedentes deste Tribunal. 2 - No caso concreto, a necessidade de
garantia da ordem pública se encontra configurada pela habitualidade das
condutas criminosas de desmatamento e devastação de extensas áreas
ambientais, com a destruição de recursos naturais, por grupo de pessoas
com grande poder de estruturação, articulação e mobilidade, com intenso
patrocínio de interesses privados em detrimento dos interesses públicos,
inclusive profundamente arraigados nos órgãos ambientais, com reflexos
danosos ao meio-ambiente, à Administração e ao Erário Público, impondo-
se reconhecer a adequação e oportunidade da prisão preventiva como
medida assecuratória a desarticular todo o aparato material e humano
formado para a prática dos delitos. 3 - São condutas lícitas concretamente
submetidas à investigação policial e à instrução criminal a extração ilegal de
madeiras, a aprovação ilegal de planos de manejo, a invasão e loteamento
ilegal de terras, a utilização de documentos falsos, a comercialização de
ATPF’s para acobertamento de madeira extraída ilegalmente, a receptação e
a utilização de ATPF’s furtadas ou fraudadas. 4 - A conveniência da instrução
criminal decorre da complexidade das condutas ilícitas praticadas, e que se
encontra vinculada á estrutura criminosa articulada por muitos agentes, e
com diversidade do modo de operação da prática delitiva. 5 - As condições
pessoais do Paciente, relativas à primariedade, aos bons antecedentes, à
residência fixa e à profissão licita, não ilidem a prisão preventiva.
Precedentes deste Tribunal 6 - Dos 144 mandados de prisão temporária

26
ESTADO DO RIO GRANDE DO SUL
PODER JUDICIÁRIO
TRIBUNAL DE JUSTIÇA

CLA
Nº 70018005900
2006/CRIME

inicialmente expedidos, 34 prisões ensejaram sua manutenção com a


decretação da prisão preventiva, subsistindo a mesma com relação a 12
acusados. E mesmo a denúncia, oferecida contra 193 acusados, fora
rejeitada com relação a 16 pessoas. Tais registros evidenciam a condução
de modo criterioso e com a devida cautela pelo Juízo Impetrado no
enfrentamento dos requisitos a autorizarem a prisão preventiva, conforme
definido no artigo 312, do CPP, como também das mais diversas situações
que o crime em análise exige. 7 - Precedentes da 4a Turma com relação à
manutenção da prisão preventiva decorrente da denominada Operação
Curupira (HC 2005.01.00.045312-2/MT, julgado em 19/7/2005, HC
2005.01.00.0041219-2/MT, julgado em 25/7/2005, HC 2005.01.00.053136-
6/MT, julgado em 02/8/2005, HC 2005.01.00.041038-0/MT, julgado em
08/8/2005, HC 2005.01.00.053137-0/MT, julgado em 16/8/2005, HC
2005.01.00.053139-7/MT, julgado em 16/8/2005, HC 2005.01.00.053302-
7/MT, julgado em 16/8/2005, HC 2005.01.00.053168-4/MT, julgado em
06/9/2005, HC 2005.01.00.053138-3/MT, julgado em 19/9/2005, HC
2005.01.00.058592-0/MT, julgado em 27/9/2005, HC 2005.01.00.058593-
3/MT, julgado em 27/9/2005, HC 2005.01.00.055413-7/MT, julgado em
27/9/2005, HC 2005.01.00.057474-9/MT, julgado em 27/9/2005, HC
2005.01.00.057659-5/MT, julgado em 27/9/2005, HC 2005.01.00.042461-
1/MT, julgado em 03/10/2005, HC 2005.01.00.061050-5/MT, julgado em
04/10/2005, HC 2005 01.00.061081-7/MT, julgado em 04/10/2005 e o HC
2005.01.00.059678-9/MT, julgado em 04/10/2005). 8 - A Lei n° 9.034/95,
dispondo sobre a utilização de meios operacionais para a prevenção e
repressão de ações praticadas por organizações criminosas, determina em
seu art. 7º que ‘não será concedida liberdade provisória, com ou sem fiança,
aos agentes que tenham tido intensa e efetiva participação na organização
criminosa’. 9 - A análise da tese relativa ao fato de não ter o paciente
praticado nenhuma conduta típica está a demandar dilação probatória, o que

27
ESTADO DO RIO GRANDE DO SUL
PODER JUDICIÁRIO
TRIBUNAL DE JUSTIÇA

CLA
Nº 70018005900
2006/CRIME

não se apresenta juridicamente possível na via processual estreita do


habeas corpus. 10 - Habeas corpus denegado. (TRF 01ª R.; HC
2005.01.00.061049-5, MT; Quarta Turma; Rel. Juiz Fed. Conv. Alexandre
Vidigal de Oliveira; Julg. 11/10/2005, DJU 02/12/2005; Pág. 147.)
No presente caso, o indiciado preside, é responsável por
organização altamente estruturada, que conseguiu ocultar seus ilícitos por
muito tempo, especializando-se na prática de crimes ambientais, lesando a
Administração e Erários Públicos, fazendo-se necessário decretar sua prisão
preventiva para garantir a ordem pública.
Condições pessoais favoráveis como primariedade, atividade
lícita (?), e residência fixa, não são razões suficientes para demover o
Magistrado do dever de decretar a prisão preventiva, porquanto presentes
os requisitos do art. 312 do Código de Processo Penal.
A prisão do Paciente é decretada por se verificar presente o
duplo requisito da custódia cautelar: o fumus boni iuris e o periculum in
mora.
No caso concreto, a necessidade de garantia da ordem pública
se encontra configurada pela habitualidade e continuidade das condutas
criminosas; na rede clandestina de descarga de efluentes altamente
poluentes, diretamente nos arroios que desembocam no Rio dos Sinos.
A necessidade de assegurar a investigação e a aplicação da lei
penal pela constatação clara e objetiva de ação para destruição das provas
e destruição de recursos naturais.
Como mencionei antes, também para assegurar a correta e
severa aplicação da lei penal, há o temor de que o indiciado intente nova
viagem ao exterior, como já ocorreu antes, havendo nos autos fac-símile do
próprio indiciado, afirmando estar na Alemanha, a princípio, participando de
curso ou encontro.

28
ESTADO DO RIO GRANDE DO SUL
PODER JUDICIÁRIO
TRIBUNAL DE JUSTIÇA

CLA
Nº 70018005900
2006/CRIME

Gosto muito de uma expressão freqüentemente empregada


pelo jurista Paulo Brossard, quando faz suas críticas aos poderes
constituídos, frente às mazelas comentadas em sua coluna em determinado
periódico da capital: Leniência.
Não é possível ler o relatório da FEPAM e do Ministério Público
e tratar o tema do desastre ecológico com leniência. O infrator não mostrou
lenidade para com a sociedade; antes, montou um empreendimento para
atender unicamente aos interesses econômicos e privados, a interesses
escusos, de agressão, de envenenamento dos recursos hídricos nesta
região.
Impõe-se reconhecer a adequação e oportunidade da prisão
preventiva como medida assecuratória a desarticular todo o aparato material
e humano que subjaz à ação do indiciado, o que somente poderá ser
perfeitamente apurado, quer pelo Ministério Público, ainda na conclusão de
suas investigações, quer pelo Judiciário, já na instrução criminal, com o
afastamento do indiciado do comando da UTRESA, do meio social.
Diante do exposto, decreto a prisão preventiva de Luiz
Ruppenthal”.
Posteriormente, foi postulada a revogação da prisão
preventiva, a qual foi indeferida pelo Juízo monocrático, nos seguintes
termos:
“Vistos e examinados
Luiz Ruppenthal teve sua prisão preventiva decretada por este
juízo, preponderantemente pela ocultação de provas e, ao fim e ao cabo,
pela obstrução da Justiça. Subsidiariamente, acenou-se para a possibilidade
de realizar viagens.
Constatou-se, agora, a fuga do distrito da culpa, o que impõe
aditar os termos do decreto de prisão preventiva.

29
ESTADO DO RIO GRANDE DO SUL
PODER JUDICIÁRIO
TRIBUNAL DE JUSTIÇA

CLA
Nº 70018005900
2006/CRIME

Não bastasse a gravidade do delito e suas conseqüências, já


exaustivamente analisados no decreto de prisão, assim como a ocultação de
provas, o indiciado é considerado como foragido.
A fuga do réu do distrito da culpa é causa suficiente, por si só,
para justificar a decretação da prisão preventiva como forma de garantia do
cumprimento da Lei Penal. (STJ, HC 55792; BA; Quinta Turma; Rela. Mina.
Laurita Hilário Vaz; JuIg. 29/06/2006; DJU 21/08/2006; Pág. 267)
Em outras passagens, a jurisprudência anota que a fuga é a
demonstração cabal e inequívoca de que o agente não quer assumir sua
responsabilidade penal, com obstrução da marcha processual.
Neste sentido:
PROCESSUAL PENAL. HABEAS CORPUS. HOMICÍDIO
QUALIFICADO. TRANCAMENTO DA AÇÃO PENAL. FALTA DE JUSTA
CAUSA. LIMITES ESTREITOS DO MANDAMUS QUE IMPEDEM ANÁLISE
PROBATÓRIA. PRISÃO PREVENTIVA. REVOGAÇÃO. ALEGADA
AUSÊNCIA DE FUNDAMENTAÇÃO CONCRETA NO DECRETO
PRISIONAL E AUSÊNCIA DOS REQUISITOS DO ART. 312 DO CPP.
DESCABIMENTO. FUGA DO PACIENTE. CONSTRANGIMENTO ILEGAL
INEXISTENTE. ORDEM DENEGADA. Os limites estreitos da ação
mandamental não dão ensejo a dilatação probatória. O trancamento de ação
penal, pela via estreita do writ, somente é possível quando, pela mera
exposição dos fatos narrados na denúncia, constata-se que há imputação de
fato penalmente atípico, inexistência de qualquer elemento indiciário
demonstrativo da autoria do delito ou extinta a punibilidade. Denúncia que,
em tese, descreve fato típico. Impedir a possibilidade do Estado-
Administração demonstrar a responsabilidade penal do acusado implica em
cercear o direito-dever do poder público em apurar a verdade sobre os fatos.
Não há falar-se em constrangimento ilegal consubstanciado na ausência de
demonstração da necessidade da custódia cautelar. O julgador, motivou,
30
ESTADO DO RIO GRANDE DO SUL
PODER JUDICIÁRIO
TRIBUNAL DE JUSTIÇA

CLA
Nº 70018005900
2006/CRIME

satisfatoriamente, a decisão, com elementos concretos do processo, de


modo a demonstrar a necessidade da medida para a aplicação da Lei Penal.
Materialidade demonstrada e indícios de autoria existentes A fuga do
paciente do distrito da culpa demonstra a sua vontade de se furtar da
aplicação da Lei Penal e obstruir o regular andamento da instrução criminal.
Requisitos do art. 312 do CPP demonstrados. Ordem DENEGADA. –
(Superior Tribunal de Justiça STJ; HC 52566; BA; Sexta Turma; ReI. Min.
Paulo Geraldo de Oliveira Medina; JuIg. 20/06/2006. DJU 14/08/2006; Pág.
337.)
CRIMINAL. HC. ROUBO QUALIFICADO. INVIOLABILIDADE
DE DOMICÍLIO. OFENSA À GARANTIA CONSTITUCIONAL. SUPRESSÃO
DE INSTÂNCIA. PRISÃO PREVENTIVA. NECESSIDADE DA CUSTÓDIA
DEMONSTRADA. RÉU FORAGIDO. GARANTIA DA APLICAÇÃO DA LEI
PENAL. ORDEM PARCIALMENTE CONHECIDA E DENEGADA. A apontada
ofensa à garantia constitucional da inviolabilidade de domicílio não foi objeto
de debate e decisão pelo Tribunal a quo. O exame da matéria por esta Corte
ocasionaria indevida supressão de instância. Exige-se concreta motivação
do Decreto de prisão preventiva, com base em fatos que efetivamente
justifiquem a excepcionalidade da medida, atendendo-se aos termos do art.
312 do Diploma Processual Penal e da jurisprudência dominante — como se
verifica no presente caso. A fuga do réu do distrito da culpa revela sua
intenção de se furtar à aplicação da Lei Penal, sendo suficiente para obstar
a revogação da custódia cautelar. Precedentes do STJ e do STF. Ordem
parcialmente conhecida e denegada. (Superior Tribunal de Justiça STJ; HC
45443; SP; Quinta Turma; Rel. Min. Gilson Langaro Dipp; Julg. 12/06/2006;
DJU 01/08/2006; Pág. 467.)
PROCESSUAL PENAL. HABEAS CORPUS. HOMICÍDIO
QUALIFICADO. PRISÃO PREVENTIVA DECRETADA POR CONVENIÊNCIA
DA INSTRUÇÃO CRIMINAL. FUGA DO DISTRITO DA CULPA. CUSTÓDIA

31
ESTADO DO RIO GRANDE DO SUL
PODER JUDICIÁRIO
TRIBUNAL DE JUSTIÇA

CLA
Nº 70018005900
2006/CRIME

CAUTELAR MANTIDA NA SENTENÇA DE PRONÚNCIA PARA


ASSEGURAR A APLICAÇÃO DA LEI PENAL. NECESSIDADE DA MEDIDA
DEMONSTRADA. CONSTRANGIMENTO ILEGAL INEXISTENTE. INDÍCIOS
DE AUTORIA. VALORAÇÃO DO CONJUNTO PROBATÓRIO.
IMPOSSIBILIDADE. ORDEM PARCIALMENTE CONHECIDA E, NESSA
PARTE, DENEGADA. 1. A fuga do réu do distrito da culpa é fato que
autoriza, segundo pacífico magistério jurisprudencial, a decretação da prisão
preventiva por conveniência da instrução criminal e para garantir a aplicação
da Lei Penal, inexistindo constrangimento ilegal na manutenção do Decreto
prisional do réu que permanece foragido quando proferida a sentença de
pronúncia. 2. Não há como prosperar a pretensão relativa à impronúncia,
quando não se demonstra, de plano, a inexistência de crime ou a indiscutível
ausência de indícios de autoria. 3. Inviável é o conhecimento da impetração,
na parte relativa à alegada inexistência de indícios suficientes de autoria a
justificar a pronúncia do paciente, por implicar o exame valorativo do
conjunto probatório produzido nos autos. 4. Ordem parcialmente conhecida
e, nessa parte, denegada. (Superior Tribunal de Justiça STJ HC 41351 MS
Quinta Turma ReI. Min. Arnaldo Esteves Lima; Julg. 07/03/2006; DJU
01/08/2006; Pág. 465.)
CRIMINAL. HC. HOMICÍDIO. PRISÃO PREVENTIVA.
NECESSIDADE DA CUSTÓDIA DEMONSTRADA. RÉU FORAGIDO.
GARANTIA DA APLICAÇÃO DA LEI PENAL. AMEAÇA A TESTEMUNHAS.
CONVENIÊNCIA DA INSTRUÇÃO CRIMINAL. NECESSIDADE DA
CUSTÓDIA DEMONSTRADA. CONSTRANGIMENTO ILEGAL NÃO
DEMONSTRADO. CONDIÇÕES PESSOAIS FAVORÁVEIS.
IRRELEVÂNCIA. ORDEM DENEGADA. Hipótese na qual se sustenta a
ausência de embasamento legal do Decreto de prisão preventiva. Não se
verifica ilegalidade na decisão que determinou a prisão do paciente,
tampouco no aresto confirmatório do encarceramento, tendo em vista a

32
ESTADO DO RIO GRANDE DO SUL
PODER JUDICIÁRIO
TRIBUNAL DE JUSTIÇA

CLA
Nº 70018005900
2006/CRIME

conformidade com os ditames legais e a jurisprudência dominante. A fuga do


réu do distrito da culpa revela sua intenção de se furtar à aplicação da Lei
Penal, sendo suficiente para obstar a revogação da custódia cautelar.
Precedentes do STJ e do STF. A apontada ameaça a testemunhas pode ser
suficiente para motivar a segregação provisória como garantia da regular
instrução do feito. Precedente. Condições pessoais favoráveis não são
garantidoras de eventual direito subjetivo à liberdade provisória, quando a
necessidade da prisão é recomendada por outros elementos dos autos.
Ordem denegada. (Superior Tribunal de Justiça STJ; HC 51456; RJ; Quinta
Turma; ReI. Min. Gilson Langaro Dipp; Julg. 06/06/2006; DJU 01/08/2006;
Pág. 479.)
HABEAS CORPUS. HOMICÍDIO QUALIFICADO. PRISÃO
PREVENTIVA. RÉU FORAGIDO. CUSTÓDIA EM OUTRA UNIDADE DA
FEDERAÇÃO. RECAMBIAMENTO DE PRESO. RESPONSABILIDADE DO
PODER EXECUTIVO. ORDEM DENEGADA. 1. Hipótese em que o acusado,
após a prática, em tese, da conduta a ele imputada pela inicial acusatória,
empreendeu fuga do distrito da culpa, o que ensejou a suspensão da ação
penal e a decretação de sua custódia preventiva. II. Não há ilegalidade na
Decreto prisional que determina a segregação provisória do réu foragido,
para garantir a futura aplicação da Lei Penal. III. A via do writ não é
adequada para a apreciação do excesso de prazo no recambiamento do réu,
eis que a responsabilidade por uma eventual mora não pode ser atribuída ao
Poder Judiciário, mas apenas ao Executivo estadual, mormente se não
restou demonstrada qualquer ato de Juiz ou do Ministério Público que
contribuísse para a alegada delonga. IV. Ordem denegada. (Superior
Tribunal de Justiça STJ; HC 53488; SP, Quinta Turma; ReI. Min. Gilson
Langaro Dipp; Julg. 12/06/2006; DJU 01/08/2006; Pág. 487.
Condições pessoais favoráveis como primariedade, bons
antecedentes e residência fixa no distrito da culpa, não têm o condão de, por

33
ESTADO DO RIO GRANDE DO SUL
PODER JUDICIÁRIO
TRIBUNAL DE JUSTIÇA

CLA
Nº 70018005900
2006/CRIME

si só, garantirem ao paciente a liberdade provisória, se há nos autos


elementos hábeis a recomendar a manutenção de sua custódia cautelar
(Precedentes - STJ. RHC 18316, SP: Quinta Turma: Rel. Min. Felix Fischer:
JuIg. 23/05/2006; DJU 07/08/2006; Pág. 242.). Não socorre ao indiciado, e
consigno isso uma vez mais, que tais situações não lhe são favoráveis e a
ocultação de provas, somada à fuga, são razoáveis e sustentam o decreto
de prisão preventiva.
Diante do exposto, adito o decreto de prisão preventiva,
acrescentando que também se fundamenta pela fuga do indiciado do distrito
da culpa”.
É exatamente isso, pouco restando a acrescentar.
De resto, a primariedade e os bons antecedentes, bem como a
profissão e residência fixa, não se constituem em óbice para a decretação
da prisão preventiva.
“HABEAS CORPUS – A ausência de antecedentes, a
primariedade, a ocupação lícita e a residência fixa não constituem empecilho
para a prisão em flagrante ou para decretação da prisão preventiva” (TJRS –
3a Câmara Criminal – Rel. Des. Nelson Luiz Púperi – RJTJRGS 146/53).
“Embora apresente o acusado instrução superior, exerça
profissão de industrial, tenha residência fixa, seja casado e tenha filhos e
tenha apresentado atestados de boa conduta, admissível é a decretação de
prisão preventiva em se cuidando de delito de natureza grave e inafiançável,
de modo a justificar-se a medida excepcional, em face a indícios veementes
da autoria, como garantia da ordem pública e por conveniência da instrução
criminal” (TACRSP – JTACRESP 46/364).
“A primariedade, os bons antecedentes e a residência e o
domicílio no distrito da culpa são circunstâncias que não obstam a custódia
provisória, quando ocorrentes os motivos que legitimam a constrição do
acusado” (STJ – JSTJ 2/267).
34
ESTADO DO RIO GRANDE DO SUL
PODER JUDICIÁRIO
TRIBUNAL DE JUSTIÇA

CLA
Nº 70018005900
2006/CRIME

“A primariedade, os alegados bons antecedentes, a residência


fixa no distrito da culpa, a boa situação econômica e a posição social
ostentada pelo recorrente, por si, não bastam para se desconstituir o decreto
de prisão preventiva. Afinal, a Constituição considera todos – pobres e ricos
– iguais perante a lei” STJ – RSTJ 20/44).
“Prisão preventiva. A só alegação de ser o réu primário e de
bons antecedentes, bem assim de residir no distrito da culpa, não basta a
afastar a possibilidade de decretação da custódia preventiva, no interesse
da instrução criminal, na garantia da ordem pública e da aplicação da lei
penal” (STF – RHC 65.118-6-DF, 1ª T., Rel. Min. Néri da Silveira, 5.6.87, DJU
26.2.88, p. 3.192).
“Prisão preventiva – Relaxamento – Esta Corte tem entendido
que, apesar de o réu ter bons antecedentes e de gozar, até o instante do
delito, de idoneidade moral, presumida, não autoriza, por si só, o
relaxamento da prisão provisória se as circunstâncias do crime e suas
condições objetivas e subjetivas a justificarem (STF – RHC 58.312 e 60.538
e HC 58.507) – Recurso ordinário a que se nega provimento” (RHC 65.827-
0-ES, 1ª T., Rel. Min. Moreira Alves, 17.12.87, DJU 11.3.88, p. 4.743).
Ademais, a prisão preventiva foi decretada em 12 de dezembro
de 2006 e, até agora, o paciente ainda não foi encontrado, estando foragido,
o que justifica plenamente a manutenção do decreto prisional, como
evidente conveniência da instrução criminal e para garantir a aplicação da lei
penal.
Por derradeiro, a alegada atipicidade do fato será
convenientemente apreciada na instrução, visto que requer profunda
discussão jurídica, incabível no âmbito restrito do remédio heróico.
Dessarte, denego a ordem de habeas corpus.
DR.ª LÚCIA DE FÁTIMA CERVEIRA - De acordo.

35
ESTADO DO RIO GRANDE DO SUL
PODER JUDICIÁRIO
TRIBUNAL DE JUSTIÇA

CLA
Nº 70018005900
2006/CRIME

DES. ARISTIDES PEDROSO DE ALBUQUERQUE NETO (PRESIDENTE) -


De acordo.
DES. ARISTIDES PEDROSO DE ALBUQUERQUE NETO - Presidente -
Habeas Corpus nº 70018005900, Comarca de Estância Velha: "À
UNANIMIDADE, REJEITADAS AS PRELIMINARES, DENEGARAM A
ORDEM DE HABEAS CORPUS, NOS TERMOS DOS VOTOS EMITIDOS
EM SESSÃO"

36