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sangue da deusa ii

kara dalkey
prÓlogo

o quê, viajante, quereis que vos conte outra história? ou pretendeis lisonjear-me ou
não tendes o vosso tempo em grande conta.

pois bem, sentai-vos e escutai, vou contar-vos uma história sufi. não é que eu seja
um xeque ou me considere um homem sábio. não, eu conto estas histórias só para
entreter. contudo, não é uma maravilha se pudermos retirar um grão de sabedoria de
um simples passatempo? É como se encontrássemos um anel de ouro num tapete
esfiapado que, no bazar, compramos por uma pechincha.

mas vamos à história. era uma vez uma mulher que, por grande infortúnio, perdera
toda a família e se vira sozinha no mundo. era, porém, uma mulher inteligente,
instruída e desejosa de saber. e tinha ouvido falar de um jardim maravilhoso, onde
havia uma figueira que dava figos dourados do paraíso. quem comesse esses figos
ficava sábio e senhor de um saber sem limites. não tendo família, a mulher decidiu
que o melhor que tinha a fazer era procurar a árvore maravilhosa.

foi ter com o homem mais sábio que conhecia, um dervixe que vivia na floresta.

- grande pir - disse-lhe ela -, eu quero encontrar a figueira que dá os figos dourados
do paraíso.

o sábio aquiesceu e disse:

- eu sei onde está essa árvore.

o coração da mulher pulsou de alegria.

- dizei-me, então, como a posso encontrar.

- bem - disse o sábio -, eu podia aceitar-te como discípula, mas isso comportaria um
longo período de estudos, antes que aprendesses o que precisas de conhecer.

a mulher sentiu-se frustrada, pois tinha consciência do seu temperamento


impaciente.

- desculpai-me, então, homem sábio, mas eu não me sinto capaz de um estudo


aturado.

o sábio respondeu brandamente:

- não tem importância, mulher. se caminhares pelo mundo com firme propósito do
coração, acabarás por encontrar o que procuras.

a mulher, então, desfez-se de todos os bens que possuía e tornou-se uma peregrina.
visitou os túmulos dos santos e as mesquitas de cúpulas douradas. assistiu às
preleções de inúmeros homens letrados. falou com ricos e com pobres, suportou
chuvas e inundações, calor e frio, contemplou o sol nascente e o pôr do sol, subiu
montanhas e atravessou desertos. não encontrou, porém, os figos dourados do
paraíso.

trinta anos se passaram. a mulher regressou à sua terra natal, o cabelo cor de cinza,
a cara marcada pelo sol e pelo vento. dirigiu-se à floresta e encontrou o sábio com
quem tinha falado e que, surpreendentemente, não parecia ter envelhecido.

- eu não devo ser merecedora - disse-lhe ela -, pois não consegui encontrar o que
procurava. ainda bem que não aceitei ser vossa discípula, pois teria sido uma perda
de tempo para vós.

o sábio sorriu e pegou-lhe na mão:

- anda, quero mostrar-te uma coisa.

subindo a um monte próximo, levou -a a um vale escondido. ali estava a árvore,


pejada de figos dourados do paraíso.

- que parva eu fui! - exclamou a mulher. - vagueei todos estes anos e, afinal, a
árvore estava aqui. porque é que não me dissestes que éreis o seu guardião?

o sufi abanou a cabeça:

- porque terias pensado que eu me vangloriava e não terias aceitado a dádiva sem
esforço da mente e do corpo. além disso, a árvore só dá fruto de trinta em trinta
anos.

por isso, viajante, sede paciente. a luz virá a seu tempo, de harmonia com a viagem
que fizerdes.
gandharva
músico da corte de ibrahim adilshah ii de bijapur

capítulo i

rosmaninho: esta muito apreciada planta ostenta folhas grossas, escuras por cima e
claras por baixo, e dá flores azuis no final da primavera. diz-se que a santa família,
na sua fuga para o egito, se escondeu atrás do rosmaninho e, por isso, o azul do
manto de maria é o azul da flor do rosmaninho. os estudantes da antiga grécia
entrançavam-no em coroa para os auxiliar nos estudos e, nos funerais, é utilizado
como preito de homenagem à memória dos falecidos. um ramo de rosmaninho
colocado debaixo da cama dá um sono profundo e afasta os pesadelos. cheirar
rosmaninho preserva a juventude. o rosmaninho floresce bem junto de uma casa
dirigida por uma mulher de alma virtuosa...

cidade de bicholim, provÍncia de goa, inÍcio de outubro de 1597

trovões soaram no céu carregado de nuvens negras. a chuva começou a cair,


cinzenta e pesada como pregos. quando thomas chinnery, aprendiz de boticário e
aventureiro involuntário, desmontava da sela da sua mula, o animal deu um pinote e
guinou para o lado. thomas sentiu um puxão doloroso nos braços machucados e um
pé pisado por um casco afiado.

- um diabo que a carregue, ao raio da mula! uma mão enorme pesou-lhe nas costas:

- cuidado, rapaz, nada de invocar o cornudo que ele pode aparecer.

thomas voltou-se e olhou para a cara larga, de sobrancelhas negras, de andrew


lockheart.

- acho que já o vi uma ou duas vezes, desde que cheguei à índia.

um largo sorriso espalhou-se na cara do escocês.

- mais uma razão para teres tento na língua. e sê mais simpático para com esse teu
amigo irracional, a menos que queiras despertar-lhe a antipatia. era uma pena teres
chegado até aqui para uma mula ser o teu carrasco.

- era só o que me faltava, depois de tudo por que tenho passado - disse thomas.

baixou-se e examinou o pé, verificando que estava apenas arranhado. ergueu-se e


limpou a água dos olhos.

- com esta chuva ainda me afogo primeiro. ainda bem que só começou depois de
termos atravessado o rio mandovi. onde é que estamos?

- chamam-lhe bicholim. dizem que é um lugar de comércio de pedras preciosas e de


minerais. mas não tem caravansará e vamos ter de procurar um abrigo.

- boa idéia, um abrigo. vamos lá procurá-lo, depressa.

o moço das mulas, quase nu, apenas com uma tanga, apareceu, agarrou as rédeas
da mula e levou -a para um tufo de palmeiras.

thomas, com lockheart a seu lado, coxeou até uma casa próxima, cujo grande beiral
de colmo oferecia algum um abrigo.

a água escorria do telhado em abundância, formando uma cortina cinzenta que


parecia isolá-los do mundo exterior.

- que raio de chuva! não passou já a época da monção? todo molhado e a tremer,
thomas pôs-se a esfregar os

ombros doloridos, não de todo refeitos do suplício de estrepada a que fora


submetido na inquisição de goa.

- a mãe natureza não se rege pelo nosso calendário, meu rapaz. talvez jeová tenha
decidido dar mais um aperto à prensa ou, como dizem os hindus, indra se passeie
no céu uma última vez, na sua carruagem.
thomas soltou uma gargalhada.

- certamente que alguma divindade franze o sobrolho à nossa viagem, mas vós,
andrew, misturais as metafísicas. tende cuidado, pois correis o risco de negar esse
hábito de jesuíta que envergais.

- este hábito é um disfarce, já te disse. ou julgas-me capaz de abdicar da minha


masculinidade, convertendo-me aos paulistas, só para te proteger? não, este hábito
é de empréstimo. e, agora, já não me importa que se saiba.

- já não vos importa? recordo-vos que ainda não estamos em segurança, embora
goa esteja a milhas de distância. se sois, realmente, o meu encomendado anjo-da-
guarda, devíeis preocupar-vos mais com a minha salvaguarda.

- É assim que me agradeces, tom? a viagem está a tornar-te demasiado prudente.

- a experiência ensinou-me que ser prudente é ser sensato. aprendi, à minha custa e
dolorosamente, que os familiares da inquisição não pensam como nós. o padre
gonsção ficaria furioso, se viesse a saber do vosso embuste.

- e se soubesse? ele não ia desfazer-se de nós. e para quê inquietares-te, tu,


guardião do segredo do pó da ressurreição? o padre não é doido ao ponto de ferir
aquele que o conduz à fonte do pó maravilhoso.

- assim espero.

deus me valha, pensou thomas, se ele descobre que o meu ”segredo” é um embuste
tão grande como o hábito que enverga.

- já que falamos do padre - continuou lockheart -, acho que vou ver se ele não nos
arranja um abrigo melhor do que este beiral. ah, aí vem o vosso outro guardião.
assim, já não vos deixo sozinho.

sob a chuva, caminhava na direção deles joaquim abalança, um homem baixo, seco
e duro, envergando uma couraça almofadada, na cabeça um morrião orlado de
picos que espalhava a chuva em jatos, à frente e atrás dele.

thomas ficou meio contente ao vê-lo, porque, embora ele fosse um dos soldados
goeses que o vigiavam, joaquim era, também, quase um amigo. tinham-se
conhecido no fétido aljouvar, a prisão do governador, em goa, onde, por tradição,
todos os homens são irmãos, pois todos tinham mergulhado tão fundo que eram
todos iguais.

- olá, inglês - saudou joaquim, juntando-se a eles. - fico contente por ver que a mula
não vos fez em picado - disse ele em latim aportuguesado. - eu teria ido em vosso
auxílio, mas tive de ajudar os carreiros, para evitar que a nossa comida apanhasse
chuva.

- eu compreendo - disse thomas -, vós sois um homem que sabe distinguir


claramente o que é importante.
- pois sou. por isso é que fui escolhido pela santa inquisição para integrar esta
expedição.

- pensava que fora para evitardes ser enforcado. joaquim, sempre a sorrir, colocou a
mão no copo da espada.

- já vos avisei, thomas, para não ferirdes o meu orgulho, que é muito sensível. bom
irmão andrew - disse ele, voltando-se para lockheart -, não quereis fazer o favor de
impetrar a deus que acabe com esta chuva?

- para que iria eu fazer isso - disse lockheart - quando esta chuva é tão benéfica
para os patos e para os peixes?

- porque nós somos homens e não patos e peixes, irmão.

- de fato, somos homens e, por isso, temos obrigação de suportar um pouco de


chuva. tem cuidado, tom, não te deixes cortar pela espada ou pela língua deste
homem, enquanto eu estiver afastado.

lockheart puxou o capuz para a cabeça e saltou para o meio da chuva. joaquim
seguiu-o com o olhar:

- este não é monge há muito tempo, pois não?

- aposto que não - disse thomas -, mas o que é que vos faz pensar isso?

- os monges são, em geral, frágeis e este não tem fragilidade nenhuma. porque raio
é que ele veio conosco, se a santa inquisição não gosta dos paulistas? e parece
conhecer-vos bem?

- viemos no mesmo barco, desde inglaterra.

- ah, se calhar veio em peregrinação a goa, para ver o corpo incorrupto de francisco
xavier?

- não, nada disso. na verdade, nós nem vínhamos para goa...

- há uma história engraçada a respeito do corpo de xavier. uma mulher peregrina foi
ver o corpo e, ao beijar-lhe os pés, trincou um dedo mínimo e saiu com o dedo
escondido na boca. eu chamo a isto a extrema devoção, não achais?

thomas ficou arrepiado:

- bem, o meu patrão, às vezes, utiliza o pó de múmia, para preparar medicamentos


muito caros. mas falávamos do irmão andrew...

- a mulher, mais tarde, confessou e obrigaram-na a devolver o dedo. eu, cá por mim,
não quero ser célebre, quando morrer. prefiro que haja alguma coisa para ser
enterrada. o que é que vai pensar o pobre padre francisco quando, no dia do
julgamento final, acordar e verificar que lhe faltam pedaços do corpo?

- vai ficar desapontado, com certeza, mas...

- mas porque é que mudastes de assunto, thomas? falávamos do irmão andrew...

- sim. - thomas suspirou. talvez vos tenham posto em liberdade para não
atormentardes mais a cabeça aos outros presos do aljouvar. - nós íamos para catai.
nos nossos barcos seguiam muitos mercadores e levávamos uma carta da rainha
para o imperador. o meu patrão enviou-me lá para ver se eu lá podia estabelecer um
entreposto, pois tinha ouvido falar dos maravilhosos produtos medicinais da Ásia,
como o ginseng, a pedra-fénix...

- e como é que fostes parar a goa? o vosso timoneiro era assim tão desorientado?

- não - thomas suspirou de novo, observando os camelos da caravana que, a


blaterar, eram conduzidos para o abrigo de uma moita de árvores.

- eles aguentam bem a chuva - disse joaquim -, mas nunca se sabe quando nos vão
cuspir em cima. mas não haveis respondido à minha pergunta, caro inglês.

porque a resposta exige alguma delicadeza, pensou thomas.

- o nosso capitão, infelizmente, quis dar combate aos vossos barcos. caímos sobre
uma pequena galera e tentamos apoderar-nos dela...

- pois claro, tomás, toda a gente sabe que os ingleses são todos piratas e ladrões.
mas continuai.

mal sabeis como não estais longe da verdade.

- de qualquer modo, fomos obrigados a largar a presa, pela intervenção da maior


carraca que alguma vez vi.

- devia ser a santa rosa. É uma verdadeira montanha em cima da água, não é? e, é
claro, foram capturados.

- não, não. a carraca atingiu os nossos barcos muito seriamente, mas nós tomamos
dois reféns e alguma mercancia da galera e encontramos um porto, na costa da
índia, para proceder às reparações.

um vislumbre de cor atravessou a cortina de chuva em frente deles e thomas


conseguiu lobrigar uma liteira dourada, com cortinas cor de púrpura, que ia a passar,
rodeada de mulheres com saias vermelhas, escarlates e amarelo-esverdeadas.
olhou fixamente, na esperança de vislumbrar a bela mulher hindu que seguia na
liteira: a mulher que fora um dos reféns tomados na galera portuguesa, que o
ajudara em goa e que ele esperava pudesse ainda vir a ajudá-lo.

sentiu o cotovelo de joaquim:


- são bem jeitosas, hem? o padre gonsção avisou-nos para nos mantermos à
distância das mulheres da caravana, mas quem sabe se, quando ele estiver a
dormir, não conseguiremos travar amizade com estas senhoras.

- isso é uma perspectiva agradável.

- mas continuai a vossa história, tomás. como é que fostes parar a goa.

- acho que já vos contei tudo isso no aljouvar.

- talvez, mas eu não me lembro e temos de passar o tempo até o padre nos vir
buscar. e que melhor maneira há de passar o tempo do que ouvir histórias.
continuai.

- uma noite fomos... atraiçoados e ficamos prisioneiros de um bando de piratas de


omã. - É melhor não lhe contar que o nosso judas foi lockheart. - eu, estupidamente,
fui a bordo de um dos barcos dos piratas e fiquei, também, refém.

- isso é justo. e o irmão andrew, também ficou refém?

- os piratas... também ficaram com ele. levaram-nos para goa, a nós e aos dois
goeses que havíamos capturado, na esperança de obter um resgate.

- e os paulistas pagaram o resgate do irmão andrew?

- acho que sim. - de fato, ele resgatou-se a si próprio.

- e a santa inquisição meteu-vos no aljouvar. porquê?

- foi uma coisa estranha. eu fui levado para goa na mesma carroça que um dos
reféns da galera. acontece que ele era um feiticeiro afamado, procurado pela
inquisição. ele... morreu na carroça e, por isso, eles interrogaram-me, pensando que
eu saberia alguma coisa dos seus atos de feitiçaria, simplesmente porque eu tinha
feito a viagem na sua companhia.

- ah, agora lembro-me: esse feiticeiro foi o que vós matastes, não foi?

- não, eu não matei ninguém! quer dizer, eu estava a dar-lhe um remédio que ele
dizia que lhe aliviaria as dores, mas que, em vez disso, o matou. - um remédio que
eu acreditava ser uma grande panacéia, pois, poucos dias antes, havia restituído a
vida a um rapaz morto.

joaquim encolheu os ombros:

- ora, não é isso que vós, alquimistas, fazeis? remédios, venenos, é tudo a mesma
coisa. vós vendeis por bom preço poções às pessoas que julgam que estão doentes
ou que querem ver outras doentes.

thomas cerrou os dentes:


- eu sou um boticário, não sou nenhum alquimista, e o meu patrão nunca vendeu
venenos. mesmo àqueles que se nos dirigem julgando estar doentes, mesmo a
esses as nossas pílulas e as nossas tinturas são úteis.

- de certeza? estais certo de que não sois, vós próprio, um feiticeiro, tomás?

- joaquim!...

- ah, agora feri eu a vossa susceptibilidade. perdoai-me, pois vem aí o padre e não
devemos indispô-lo com as nossas disputas.

brilhou um raio e thomas viu, através do lençol de chuva, o padre gonsção


caminhando para eles, com um encapuzado lockheart a seu lado. o padre vinha de
cabeça inclinada, os braços escondidos nas mangas largas do hábito. caminhava
com passo seguro, sem pressa, como que a desafiar o vento e a chuva a desviá-lo
do caminho.

- e o irmão andrew e os paulistas intercederam por vós junto da santa inquisição?

- sim, ele intercedeu por mim. - e, estupidamente, despertou a atenção da inquisição


para o pó da ressurreição.

- e foi por isso que eles vos deixaram sair de lá inteiro?

- mais ou menos.

- há uma coisa, porém, que eu gostava de saber. do que é que andamos à procura,
com esta expedição?

thomas olhou para ele fixamente:


- eles não vo-lo disseram?

- a santa inquisição não diz nada a ninguém.

nesse preciso momento, o padre atravessou a cortina de chuva e disse, em latim:

- deus vos conceda uma boa tarde a vós, mestre chinnery, e a vós, joaquim. -

thomas inclinou a cabeça e retorquiu:

- e a vós também, padre.

- como vão os vossos braços, mestre.

- oh, sinto apenas uma ligeira dor. quando chegamos, tive alguma dificuldade ao
desmontar, mas foi tudo.

thomas sentia sempre uma certa incomodidade com a solicitude do dominicano


acerca do seu estado físico. tinha de fazer um esforço para reconhecer que o padre
gonsção não era o inquisidor que o mandara torturar, nem o que recebera a sua
confissão forçada. na verdade, o padre parecia tão pouco feliz por se encontrar
naquela expedição como ele, thomas.

- o nosso bom padre - disse lockheart - conseguiu arranjar-nos pousada para


passarmos a noite.

o padre gonsção suspirou:

- não é bem o que eu teria desejado. nesta região não há estalagens, por isso temos
de nos alojar com os nativos. a domina agnihotra encontrou um mercador, um
cristão, do mal o menos, que se dispõe a dar-nos guarida em sua casa.

- e onde é que a domina fica alojada? - perguntou thomas.

o padre teve um ligeiro franzir de sobrolho.

thomas admoestou-se mentalmente. grande parvo! para quê esta pergunta? não lhe
posso dar a entender que conheço a senhora da caravana.

- o seu clã, os maratas, encontra-se espalhado e, aparentemente, ela tem aqui


parentes. porque é que perguntais?

- bem, eu... era apenas, padre, para saber se ela ficava + bem instalada. a
senhora... parece velha e frágil e as pessoas velhas e frágeis podem adoecer, com
um tempo como este. -meu deus, perdoai-me esta grande mentira, mas ele não
pode saber quem é a pessoa que viaja sob o nome de agnihotra.

o sorriso do padre não bastou para sossegar thomas.

- claro, é a preocupação do profissional. o padre gonsção dirigiu-se a lockheart:

- caro irmão, dizem-me que o cristão que nos vai receber gosta muito de discutir as
escrituras, por isso, ao serão, vamos poder entretermo-nos com a teologia.

lockheart mal disfarçou o abalo, mas replicou:

- fico ansioso por isso, padre.

- era o que eu pensava. entretanto, não viram o irmão timóteo? ando preocupado
com o rapaz, sempre a correr de um lado para o outro, sem ter cuidado com ele
próprio.

- desculpai, padre - disse thomas -, mas timóteo, goês como é, fala os idiomas locais
e, para ele, estes sítios não são tão estranhos e de recear, como o serão para uma
pessoa como vós, recentemente chegado de lisboa.

- em boa verdade - acrescentou joaquim -, ele é o mais afortunado de nós todos.


neste momento, já deve ter à sua disposição bom vinho e boa comida e, também,
um belo regaço para dormir.
o padre olhou carrancudo para o soldado.

- o fato de esta terra lhe ser familiar pode embotar-lhe a percepção do perigo.
segundo me dizem, ele tem passado a maior parte da sua vida na santa inquisição e
é ainda um inocente, em muitos sentidos. eu muito apreciaria, joaquim, que vós e os
vossos companheiros não implicassem com ele, nem o tentassem com maluqueiras.

- padre, nós somos servos fiéis do governador da gama, do rei e de deus e nunca
ousaríamos fazer tais coisas. vou acreditar na vossa palavra, joaquim. esta noite,
ireis ficar alojado com mestre chinnery, já que pareceis dar-vos bem com ele. mas
não tolerarei comportamentos menos próprios. devemos ser corteses e amáveis
com o nosso hospedeiro, como é próprio entre cristãos. e vou pôr o irmão timóteo
convosco, quando o encontrarmos. dir-lhe-ei, mestre, para preparar um bálsamo
para os vossos ombros.

- muito obrigado, padre.

- ah, a chuva parece abrandar. segui-me, por favor.

o padre partiu a passo rápido, logo seguido por lockheart. thomas ia a segui-los de
perto, mas voltou atrás alguns passos para falar com joaquim.

- e os outros soldados, onde é que vão ficar?

- os meus menos afortunados companheiros vão ficar de guarda às carroças, longe


dos caravaneiros. os mercadores hindus não permitem que nós, os soldados,
fiquemos perto das mercadorias, pois têm receio de que as roubemos ou as
danifiquemos. receio com razão de ser, mas isso obriga-nos a dormir longe deles. os
meus companheiros vão invejar-me por eu ser vosso amigo, pois que, por isso, vou
poder dormir esta noite debaixo de teto.

- fico contente por poder ser útil - disse thomas, com um sorriso contrafeito.

a casa do joalheiro era, afinal, um palácio em miniatura, de três andares, com uma
torre abobadada a canto. aos quatro, thomas, padre gonsção, lockheart e joaquim,
foi servida a ceia numa varanda com colunas que dava para um jardim com um
fontanário: o cheiro a terra úmida e a jasmim subia até eles.

- o nosso hospedeiro não come conosco? - perguntou thomas, enquanto as criadas


traziam iguarias em travessas de prata. até então, desde que chegara àquela casa,
só vira criados.

o padre gonsção limitou-se a abanar a cabeça. lockheart, porém, explicou:

- embora seja cristão, o nosso hospedeiro conservou muitos dos velhos hábitos
hindus, entre os quais o de comer sozinho.

- talvez nós consigamos persuadi-lo a alterar os hábitos, durante a conversa desta


noite - disse o padre. - partilhar o pão em boa companhia é certamente mais
agradável do que comer sozinho.
- não me posso esquecer desta - disse joaquim ao ouvido de thomas, enquanto
mirava atentamente as criadas com as suas saias diáfanas. - isto pode ser um bom
desporto. se virmos um hindu prestes a jantar, podemos segui-lo de sala para sala e
não o deixamos dar uma dentada.

- joaquim...

- eh, não me olheis assim, eu estava a brincar. vejamos que repasto estes adoráveis
anjos de olhos negros nos trouxeram.

as travessas continham arroz picante, com galinha e passas de uva, ovos em molho
de manteiga, fofas fatias de pão com alho. as criadas enchiam as taças com um
líquido leitoso. thomas provou -o e achou-o parecido com vinho branco.

- o que é isto? - perguntou ele.

- isto chama-se tadi - disse joaquim - e é destilado das folhas da palmeira, mas o
arrak é melhor. É do mesmo gênero, mas é destilado com raiz de ganja. o arrak tira
todas as dores do mundo da mente de um homem. devíeis experimentá-lo um
destes dias, inglês.

- acho que sim.

thomas começava a sentir a necessidade de algum alívio, pois os ombros doíam-lhe


e os braços e as mãos respondiam com dificuldade à sua vontade. talvez se cansem
facilmente por não estarem ainda sarados, mas eu esperava uma recuperação mais
rápida.

terminada a refeição, o padre gonsção e lockheart foram convidados para junto do


dono da casa. thomas e joaquim foram encaminhados para o alojamento que lhes
fora destinado, o qual ficava no topo da torre sudoeste. a não ser pelo pequeno
crucifixo pregado na parede, thomas pouca semelhança encontrou com as casas
cristãs a que estava habituado. as paredes estavam pintadas com frescos
representando galos e faisões. as camas baixas tinham colchões muito mais fofos
dos que ele conhecia e estavam adornadas com compridos travesseiros tubulares.
as janelas do quarto ocupavam grande parte das paredes e eram encimadas por
arcos em concha.

thomas espreitou pela janela virada a leste e viu que o céu estava a limpar. a luz do
sol poente delineava, ao longe, um renque de montanhas, que mal se distinguiam,
acima das copas das palmeiras.

- o padre foi muito esperto - murmurou joaquim atrás dele - em dar-nos este quarto,
donde não poderemos sair sem sermos vistos.

- hum?

- para irmos ter com as raparigas hindus. o que é que estais a observar, tomás,
tendes alguma pagã debaixo de olho?
- não, estava a ver aquelas montanhas. pensais que vamos atravessá-las?

- ah, aquilo. sebastião, um dos carreiros, o zarolho, já passou por esta estrada e
disse-me que aquilo são os gates. um nome horrível, mais parece um velho a tossir.
gates. mas não são, na realidade, montanhas, diz ele. ali, a terra sobe para um
planalto a que chamam decão. sim, é para lá que vamos.

- e como é esse decão?

- oh, é um sítio horrível, segundo diz sebastião. primeiro é a selva, depois é o


deserto. e as febres. metade de nós, europeus, vamos morrer antes de chegar a
bijapur.

joaquim fez esta observação num tom neutro, como se estivesse a falar do tempo.

thomas sentiu um aperto no coração. quanto mais se afastassem do mar, mais difícil
se tornaria a sua fuga, mais ficaria à mercê de estrangeiros e do deus que dirigisse o
seu destino, fosse a deidade anglicana que conhecia desde nascença, fosse a
católica a que fora obrigado a converter-se pela santa inquisição. ou, quem sabe, os
poderes infernais desta terra esquecida por deus. disseram-me que talvez pudesse
fugir em bijapur, mas estou a ficar com poucas esperanças de lá chegar.

- antes de o padre chegar junto de nós, íeis dizer-me, tomás, qual era o objetivo da
nossa expedição.

o que é que eu posso dizer-lhe, dado que o padre quer que eu guarde segredo
acerca do poder da rasa mahadevi?

- nós procuramos a fonte de um poderoso medicamento, joaquim.

o soldado riu-se:

- um medicamento! não quereis que eu acredite, tomás? eu não posso crer que a
santa inquisição queira curar os seus prisioneiros.

- eu não sei para que o quer a inquisição, só sei que me libertaram quando eu
concordei em conduzi-los à sua fonte.

- eu compreendo - aquiesceu joaquim brandamente - foi o desejo de escapar à


masmorra a todo o custo.

dar-se-á o caso, pensou thomas, de eu ter um aliado aqui mesmo à mão. será que o
meu guardião se disporá a ajudar-me a escapar?

- quero perguntar-vos uma coisa, meu amigo. joaquim olhou para thomas um
momento, pressentindo

que se tratava de alguma coisa importante. sorriu e foi encostar-se à parede, ao lado
de thomas. tirou um punhal do cinto e pôs-se a limpar as unhas negligentemente.
- ah, com que então meu amigo! o inglês dá-me a honra de me tratar por amigo. na
verdade, não fomos nós já irmãos na adversidade? perguntai o que quiserdes.

quando thomas ia tornar a falar, o irmão timóteo apareceu abruptamente à porta,


quase sem fôlego. o hábito encharcado colava-se-lhe ao corpo, patenteando a
inépcia e a debilidade dos seus treze anos. timóteo segurava as pontas do hábito,
trazendo qualquer coisa na bolsa assim formada.

- ah, aqui estais, tomás! - exclamou timóteo, sentando-se aos pés de thomas e
sacudindo o cabelo preto, cortado à tigela, tal um cão saindo de um charco.

- ai! - gritou joaquim, completando a exclamação com uma série de epítetos em


português.

- apreciais tanto a chuva, irmãozinho - disse thomas -, a ponto de virdes partilhá-la


conosco.

- peço desculpa, senhor - disse timóteo, dirigindo-se a joaquim. - mas vede, tomás, o
que eu encontrei!

abriu a dobra do hábito e apresentou uma variedade de folhas, de ramos, de flores e


de raízes.

-”estas flores curam as mordeduras das serpentes. isto é casca de chalmugra, cujo
óleo é bom para a lepra. e isto é raiz de cuscuz e isto é raiz de sumagre. isto são
folhas de cótula, que curam a cólera e as febres. flores de malva para as dores de
garganta e folhas de champada para...

- timóteo, por favor, já chega! - disse thomas, rindo. o vosso avô teria orgulho em
vós, mas, agora, não é boa altura para essa lição.

thomas pôs-se a pensar como estranha era a espécie de amizade que sentia por
aquele rapazinho, um mui devotado acólito da inquisição. timóteo fora o ”advogado”
de thomas, no julgamento e na tortura que tivera de suportar, sempre sinceramente
preocupado com a sua alma. thomas não conseguia sentir rancor ao gentil acólito,
pese embora servisse amos sinistros. o avô de timóteo, garcia de orta, fora um dos
grandes naturalistas da europa, um dos primeiros a descrever as virtudes medicinais
das ervas do indostão: um interesse comum os unia.

- mas, tomás, dentro em pouco estaremos no decão, onde estas ervas não se
encontram!

- guardai-as, então, para mim, irmãozinho, pois os meus braços ainda estão fracos e
ainda não consigo escrever nem desenhar.

- eu desenho e escrevo por vós, tomás.

- faremos isso mais tarde. e já falastes com o padre? ele estava muito preocupado
com a vossa ausência.
o rapaz olhou em redor e, depois, replicou:

- o padre vai aplicar-me uma penitência qualquer, por isso tenho de vos descrever
estas ervas já, enquanto posso.

thomas sorriu para joaquim, com uma expressão de desalento. o soldado agarrou a
deixa.

- timóteo - disse joaquim -, ainda sois virgem? timóteo ficou siderado, as faces
morenas ruborizadas.

- senhor! - disse ele.

- já estivestes alguma vez com raparigas? timóteo engoliu em seco, o olhar


esgazeado:

- a santa inquisição proíbe-me de estar... com raparigas. joaquim deu um estalo com
a língua.

- então, é uma pena que tenhais saído de goa, pois perdeis, assim, a oportunidade
de vos tornardes homem com as adoráveis goesas. realmente é uma pena. É que
elas têm seios enormes que parecem mangas maduras, com uvas rijas na ponta, e
as suas coxas são macias e morenas como a teca. e o que elas fazem com a língua!
não duvideis, rapaz, elas tornariam a vossa vareta dura como a rocha de são pedro
e o vosso jato subiria mais alto do que o da fonte da praça de santa catarina. timóteo
ergueu-se de um salto, espalhando as folhas e os ramos pelo chão.

- desculpai-me, senhores - disse ele, num ápice desaparecendo porta fora,


persignando-se.

joaquim desatou a rir.

- este vai ter sonhos encharcados esta noite.

- sem dúvida. obrigado, joaquim - disse thomas, sentindo, também, a cara a arder.

- afinal, o que é que queríeis perguntar-me, amigo tomás?

- oh!

thomas pigarreou e foi ver se não haveria alguém junto da porta que o pudesse
ouvir. depois, voltou para junto de joaquim e disse-lhe, baixinho:

- primeiro, tendes de jurar que não revelareis a ninguém o que vos vou dizer.

joaquim ergueu o sobrolho.

- tomás, eu juro pela santa orla do manto da virgem bendita. dizei.


- eu não tencionava ficar na expedição por muito tempo. a minha intenção era,
surgida a oportunidade, fugir e arranjar maneira de regressar a inglaterra. esperava
poder fazê-lo em bijapur, mas, pelo que me dizeis, a viagem pode revelar-se
demasiado perigosa. e, como os meus braços ainda não estão bem sarados, vou
precisar de ajuda, e bem depressa. vós não tendes nenhuma lealdade para com a
santa inquisição, por isso, se, acaso, surgir uma oportunidade, poderei contar com a
vossa ajuda?

com um sorriso nos lábios, joaquim aproximou-se, apontando o punhal ao pescoço


de thomas:

- tendes sorte, tomás, em terdes pedido isso a mim, porque eu não vou ferir-vos,
nem trair-vos. mas eu sou o último homem desta expedição a poder ajudar-vos.

- mas... no aljouvar...

- no poço negro e fétido do aljouvar todos os homens são irmãos, isso é verdade.
mas nós já não estamos no aljouvar. agora, estamos debaixo do olho vigilante da
santa inquisição e a santa inquisição está em toda a parte, em lisboa, em madrid,
em goa, em todo o lado. se vos ajudasse a fugir, eu não teria fuga possível. o
aljouvar era um poço, mas eu saí de lá inteiro. a santa inquisição não tem nada de
agradável, como vo-lo dirão os vossos braços, todos os dias, mas, se eu a traísse,
não teria uma morte rápida. não, eu seria desfeito em pedaços, compreendeis?

thomas aquiesceu.

- eu também sonho em escapar desta terra pestilenta, mas, agora, foi-me dada a
oportunidade de ganhar o meu regresso a lisboa com uma pensão e, acaso,
continuar os meus estudos. não podeis roubar-me este sonho, inglês. como, em
tempos, fomos irmãos no aljouvar, eu vou cumprir o meu juramento e não contarei a
ninguém o que me pedistes, mas, por ora, a única fuga que vos posso oferecer é
através deste meu amiguinho - concluiu joaquim, encostando a ponta do punhal à
garganta de thomas.

thomas manteve-se quedo.

- acho que essa fuga desesperada não será necessária, joaquim. desculpai-me. não
tornarei a falar-vos disto.

- ainda bem - disse joaquim, voltando a atenção do punhal para as suas unhas. - eu
tenho, sinceramente, pena de vós, tomás. o demônio tomou, seguramente, conta do
vosso destino, pois não tendes, aqui, nenhum amigo em quem possais confiar.
nenhum de nós é de confiança. a santa inquisição vela por isso. nós somos meros
companheiros a caminho do inferno.

capítulo ii

romÃzeira: esta árvore é oriunda da pérsia e do oriente. apresenta, no verão, umas


flores ceráceas, carmesins, e dá um fruto, a romã, com muitas sementes, excelente
para confeccionar tartes. a romã é considerada um símbolo de riqueza e de
fertilidade. há quem afirme que era o fruto proibido do jardim do Éden. os galhos da
romãzeira são, muitas vezes, usados como varinhas de condão. no oriente, usam
ramos de romãzeira para esconjurar os demônios e os bruxedos. uma tintura
extraída da casca da romãzeira expulsa as ténias dos intestinos e é um bom curativo
para os achaques das mulheres...

forte de ahmadnagar, sultanato de ahmadnagar, mÊs de zilhij, ano 975 do profeta

omirzá ali akbarshah, omrah de dez mil homens e mui fiel general do paxá
imperador akbar, observava a sua hospedeira tal tigre saciado mirando um gamo.
aquele gamo, porém, tinha os cornos afiados e uma inteligência rápida. o mirzá
sabia que tinha de ter cuidado.
a princesa chand bibi, sultana de ahmadnagar, estava sentada num trono baixo, com
coxins, do outro lado da mesa cheia de acepipes requintados. estava vestida à
maneira hindu, com um xale de mangas curtas que lhe deixava o umbigo à mostra e
com uma saia ghagra. sobre estas peças, uma comprida túnica peshwaz da mais
fina e transparente musselina shabnam. um véu de seda azul cobria-lhe a cabeça e
os ombros.

o mirzá pôs-se a imaginá-la de armadura e de elmo, quando comandara a defesa do


forte, havia apenas um ano. o filho de akbar, o príncipe daniyal, dissera que ela tinha
um aspecto aterrador.

agora, porém, não parecia nada aterradora. a sultana era uma mulher pequena,
apenas entrada nos quarenta anos. o rosto fino patenteava uma serena
determinação, o comprido cabelo preto entrançado raiado de veios cinzentos. era
voz corrente que chand bibi sobrevivera a vários envenenamentos e outras
tentativas de assassínio, atribuídas aos filhos, impacientes pela herança. ninguém
entendia como conseguira escapar, se por firmeza de fé, se por esperteza, se,
meramente, por ter uma constituição saudável. os sultões vizinhos consideravam-na
uma boa estratega. outros diziam que era uma feiticeira. fosse qual fosse a fonte da
sua firmeza, o certo é que chand bibi mantivera a integridade de ahmadnagar
através de anos de adversidade.

o mirzá akbar pegou numa tâmara recheada e disse:

- prodigais, sultana, magnífica hospitalidade a alguém que vos aparece


inesperadamente e sem ser convidado.

chand bibi teve um encolher de ombros e sorriu friamente.

- um emissário de sua majestade imperial, o paxá, é sempre bem-vindo e nunca


inteiramente inesperado. para um visitante tão nobre, a inadequada hospitalidade
que esta pobre casa pode oferecer é escassa coisa.

o mirzá lançou um olhar à mesa, guarnecida com travessas de mangas peladas e


mergulhadas em mel, de limões e de romãs, de olorosos assados com cebolas, de
alho em molho de caril, de corações de lótus cozidos, de postas de peixe em molho
de gengibre picante e de aves de caça, assadas com alho e nozes. além disso,
viam-se tigelas de arroz de açafrão, outras de iogurte com hortelã. o chá, com
cardamomo e cravinho, era servido em elegantes taças de porcelana. o mirzá
akbarshah, porém, estivera presente em grandes festas da corte imperial: a sultana
tinha razão, tudo aquilo era escassa coisa.

a sultana e o mirzá trocaram simpáticos cumprimentos acerca da sua saúde e da


das suas famílias e referiram-se ao termo da benfazeja estação das monções,
agradecendo a alá, o misericordioso, as reduzidas pragas e inundações desse ano.
as criadas, entretanto, refrescavam-nos com grandes leques de penas de pavão,
aumentando a brisa, com aroma de lótus, que, de quando em vez, soprava dos
jardins.

- É muito mais agradável - disse a sultana - conversar com um vizinho a uma mesa
do que no campo de batalha, não achais?

- sem dúvida - retorquiu o mirzá - e o mesmo pensa sua majestade imperial.

- e como está o vosso supremo imperador? ouvem-se aqui, mesmo neste reino
distante, muitas histórias acerca dele, embora a maior parte não passem, decerto,
de boatos vis.

- histórias?

- dizem, por exemplo, que o shahinshah... se afasta um pouco da verdadeira fé.

o mirzá soltou um suspiro. tais boatos eram frequentes em agra e em lahore, com
alguma razão de ser.

- essas histórias são espalhadas por gente ignorante que não compreende a
curiosidade intelectual de sua majestade. ele gosta de conhecer e de discutir outros
credos, mas posso assegurar-vos que, no fundo, se mantém um fiel seguidor da fé.

- fico mais descansada, pois ouvíramos coisas terríveis, como, por exemplo, que
criara o seu próprio culto e que adorava o fogo, como os parsis.

- isso é falso - disse o mirzá, firmemente.

- que grandes mentirosos são os viajantes! calculai que ouvimos dizer, há uns
meses atrás, que sua majestade imperial havia recebido um sinal do divino
desagrado, um raio, não foi?

- ah, isso! de fato, houve um raio que atingiu o palácio imperial de lahore.

- que ardeu durante três dias, segundo dizem. os seus espiões mantêm-na bem
informada.

- sim. e depois, alguns ulemás, que se sentiam ignorados pelo imperador, atribuíram
o fogo... às estranhas filosofias de akbar e espalharam vis boatos.

- portanto, não é verdade que o imperador paxá, depois disso, se isolou, não falando
senão com místicos e adivinhos, em especial com aqueles que achava que havia
prejudicado?

- não, isso é realmente verdade. contudo, o imperador surgiu mais humilde do seu
isolamento e, desde então, tem seguido escrupulosamente os preceitos do corão.

- folgo muito em ouvir isso - disse chand bibi. - É importante que ele se mantenha no
seio dos crentes. e os filhos, como vão eles? ultimamente, ouvi dizer que o príncipe
murad continuava a sofrer de... da sua doença crônica.

do seu alcoolismo, quer ela dizer. sorte tem ela por murad se deixar destroçar pelo
vinho, pois, assim, não consegue controlar os seus generais, os quais passam o
tempo a degladiarem-se, em vez de se dedicarem à conquista de ahmadnagar.

- acho que sua alteza... se encontra em franca recuperação e aguarda,


obedientemente, instruções do seu pai.

- ah, ainda bem, os filhos devem ser obedientes. eu sei a dor que causa uma prole
indisciplinada.

- o paxá é um pai paciente e tolerante.

- o paxá é um bravo - disse a sultana, com um laivo de ironia.

- o homem mais corajoso que conheço - disse o mirzá. e, já que falamos de reis, o
que é que sabeis do vosso sobrinho, o sultão ibrahim?

chand bibi sorriu.

- bijapur prospera sob a sua administração. construiu já muitos novos palácios e


mesquitas e tem feito acorrer ao seu reino notáveis artesãos. a sua poesia é muito
apreciada, bem como a sua pintura. a paixão que tem pela música é tão arraigada
que, ouvi dizer, está a escrever um livro sobre as ragas. se, acaso, passardes por
bijapur, estou certa de que ficareis impressionado com os seus talentos.

ficaria mais impressionado, pensou akbarshah, se os seus talentos fossem mais de


comando e de perícia na guerra, como eram os do seu temível tio, ibrahim i

- e o que dizeis das histórias que se ouvem em agra, de que o vosso estimado
sobrinho se vem afastando da fé?

a expressão da sultana endureceu.

- têm tanto a ver com a verdade, como os boatos a respeito do paxá imperador.

- fico contente por ouvir isso, pois, de fato, vamos passar por bijapur. espero que o
sultão seja tão gentil e hospitaleiro como vós.

- ibrahim acolhe toda espécie de gente em bijapur, até estrangeiros de regiões


longínquas. se fordes em paz, não deixará de vos receber com muito agrado. mas,
se me permitis, o que é que procurais? não posso acreditar que sua majestade
imperial vos tenha mandado à conquista de um reino apenas com quinhentos
homens, uma centena de cavaleiros e dez elefantes.

o mirzá sorriu.

- estais bem informada, grande dama. não, eu não venho em missão de conquista,
mas sim de exploração. fui incumbido de me introduzir profundamente no decão,
possivelmente até ao rio krishna.

- a sul de bijapur? isso é uma região erma e desolada, cheia de gente torva e
bárbara. o que é que o imperador espera encontrar num sítio desses?

- eu vou em busca de uma lenda, sultana. chand bibi riu-se.

- vejo que o imperador continua com as suas excentricidades. terá o shahinshah


esgotado tanto os entretenimentos no seu reino que tenha de enviar os seus
generais em busca de lendas?

- não me entendestes bem. eu vou em busca de provas de uma lenda, de uma


lenda de que sua majestade ouviu falar quando estava em retiro espiritual.

a sultana fez uma pausa.

- as histórias de tesouros aguçam a ambição.

aí está. talvez ela saiba alguma coisa, como sua majestade suspeitava.

- eu não falei em tesouros, sultana.

- sim, mas que outra coisa poderia atrair a atenção do shahinshah. a menos que
andeis a espiar por conta dele, para saberdes que pequenos reinos se encontram
maduros para colher.

- não é segredo nenhum que sua majestade deseja incluir toda a índia no seu
império. não esqueçais que o paxá descende de gengiscão, por isso, a ambição
está-lhe na massa do sangue. É certo que será útil toda a informação que eu possa
obter, mas não é esse o fito da minha expedição.

- a que se refere, então, essa lenda?

- diz respeito a uma grande rani, talvez descendente de deuses e que vive numa
fortaleza oculta e inexpugnável.

- pretendeis, com isso, lisonjear-me? o mirzá riu gentilmente.

- de modo nenhum, sultana. embora sejais uma monarca de reconhecidos méritos, a


rainha que eu procuro tem poderes mais sobrenaturais. uns dizem que o seu palácio
se encontra escondido no interior de uma montanha, outros dizem que ela é uma
rainha de duendes, outros, ainda, que é a mulher de um dos filhos de satã. dizem,
também, que é imortal, que tem centenas de anos e que é mais sábia do que os
anjos. o seu poder provém de magia, não de exércitos. É esta a história que eu
persigo e como dizem que esta rani vive no decão...

chand bibi ficou, por momentos, silenciosa.

- pois claro, os hindus contam muitas histórias de deuses e, como o decão é uma
região isolada, tudo aí pode acontecer. vou contar-vos uma história semelhante à
vossa. não muito longe daqui, existe uma floresta que muitos consideram sagrada.
entre as raízes das árvores há soldados de pedra, de armadura e com espadas de
um tipo nunca visto desde os tempos do grande imperador ashoka. todos os anos,
depois da monção, aparecem mais cabeças e corpos de pedra, revelados pela
chuva. os que vivem perto desta floresta têm medo dela. dizem que aquilo é uma
vingança do demônio. os hindus conhecem muitos demônios, como os nagas, com
corpo de serpente e cabeça de homem, demônios que podem matar com um
simples olhar.

estivessem eles sentados à beira do fogo, à noite, num descampado, e o mirzá


talvez tivesse estremecido, mas, naquele momento, ficou apenas irritado.

- pretendeis assustar-me, sultana? essa floresta, se realmente existe, cobre, apenas,


umas velhas ruínas com estátuas. eu tenho visto muitas ruínas dessas nas minhas
viagens. É verdade que nesta terra havia muitas maravilhas, mesmo antes do tempo
do profeta, mas estão mortas e desaparecidas desde há muito, restando apenas a
tradição oral para as recordar. a vossa história não tem nada a ver com o que
procuro.

- tendes a certeza disso? como é que podeis afirmar que uma história é mais válida
do que a outra? não desapareceriam estas lendas, se não tivessem um fundo de
verdade que as mantêm vivas? ouvi dizer que o próprio príncipe herdeiro, salim, tem
medo de ir ao decão!

o mirzá rosnou, irritado:

- isso é porque sua alteza, o príncipe salim, é um cobarde pomposo e vão. receio
bem que ele venha a ser a causa da morte do pai.

inesperado deleite iluminou o rosto da sultana, que bateu palmas.

- meu caro mirzá, isso não é traição?

- salim é ainda uma criança e não rei, por isso não tenho nada que me preocupar
com os seus receios infantis. eu esperava, porém, sultana, que, como pessoa
inteligente e bem informada que sois, me prestásseis melhor auxílio do que o de me
intoxicar com superstições insensatas.

- agora tentais realmente lisonjear-me. eu temo por vós, grande mirzá. não é bom
sinal um rei mandar um dos seus melhores generais à caça de lendas, isso é
prenúncio de desastre. lembrai-vos de fatepur sikri!

- fatepur sikri era uma grande cidade, uma obra-prima de arquitetura!


- sim, mas o vosso imperador mandou-a construir movido por um capricho, em honra
de um místico sufi que lhe predisse que havia de ter filhos. contudo, não previram
um sistema adequado de fornecimento de água e, tão-só catorze anos depois,
houve que abandonar a cidade.

- não podeis culpar sua majestade pelos erros dos seus artífices.

- se a vossa missão falhar - disse a sultana brandamente -, qual é o artífice que vai
arcar com as culpas?

- há sempre o risco de um servo desapontar o seu amo, maior razão para eu me


esforçar ao máximo em ser bem-sucedido.

a sultana suspirou e recostou-se nos coxins.

- não pareceis levar em boa conta o que vos digo, por isso não vos farei perder mais
tempo. colhei, junto de qualquer criança enlameada que encontreis na estrada, mais
informações acerca dessa rainha demoníaca. por ora, estou certa de que desejais
preocupar-vos em reabastecer a vossa caravana. o nosso bazar de bom grado
receberá a prata do vosso imperador. pela minha parte, tenho muitos assuntos a
tratar: este sultanato não é fácil de governar, como, decerto, vos apercebeis.

ela sabe alguma coisa, mas não me vai dizer nada, antes pretende desencorajar-me
da minha busca. isso é bom sinal. o mirzá ergueu-se.

- nesse caso, sultana, nada mais me resta do que apresentar os meus


agradecimentos pela vossa mui generosa hospitalidade. asseguro-vos que eu e os
meus homens não nos demoraremos muito, nem esgotaremos os escassos recursos
do vosso país.

- por vezes penso que ainda bem que ahmadnagar não é uma terra rica e de
abundância, caso contrário poderia despertar a cobiça dos vizinhos e lançá-los à
nossa conquista.

- não tendes que recear, sultana, qualquer ação de conquista. sua majestade está
disposta a receber-vos no seio da família que lhe presta homenagem. um bom pai
não ofende a futura nora, mesmo se o seu dote é escasso. espero que sejais tão
sábia e generosa quando sua majestade radiosa aqui vier celebrar a entrada de
ahmadnagar na sua família imperial. que alá, o misericordioso, o clemente, vos guie.

com uma última reverência, o mirzá deixou-se conduzir para fora da sala de
audiências.

chand bibi viu-o partir, segurando o véu com mãos firmes.

- ukha!

logo apareceu uma mulher robusta, musculada, lança em riste, as chapas da


armadura a tilintar. em tempos chefe da guarda do harém de um sultão vizinho, ukha
era, agora, a guarda de confiança de chand bibi.

- que desejais, sultana?

- surgiu um problema. tenho de partir já para bijapur e quero que me acompanhes.

- sultana, uma caravana leva dias a preparar.

- não se trata de uma visita de estado, mas sim de uma viagem em segredo. manda
arriar os cavalos mais velozes do estábulo.

- ainda assim, sultana, bijapur está a sete dias de viagem!

- eu sei, ukha, mas vai ser uma viagem ainda mais demorada para o mirzá
akbarshah e o seu exército. e ibrahim tem de estar preparado para a sua chegada.

- não poderíeis mandar um mensageiro, sultana? talvez um patamar? esses


corredores viajam mais depressa que os próprios cavalos. tendes problemas aqui.
será, pois, sensato ausentar-vos?

- a quem posso eu contar o segredo da minha sobrevivência, ukha, sem que ele se
espalhe? não, tenho de ser eu a levar a notícia. além disso, ibrahim acreditará mais
em mim e terá mais em atenção o que eu lhe disser.

- mas, sultana, e os vossos filhos?

- meghaduta dirá que eu estou doente e isolar-se-á ela própria, fingindo que sou eu.
já o fez anteriormente, e tudo correu bem. os meus filhos vão pôr-se a discutir o que
cada um quer herdar, na esperança de que eu esteja, finalmente, às portas da
morte. isso vai mantê-los entretidos até eu voltar e reaparecer, mais uma vez,
miraculosamente curada. encontramo-nos nos estábulos ao pôr do sol. akbarshah e
os seus homens estarão nas preces e não darão pela nossa partida.

ukha inclinou-se:

- seja como desejais, sultana - e logo partiu.

chand bibi saiu também da sala de audiências e dirigiu-se para os seus aposentos.

bem ciente estava chand bibi de que ahmadnagar não podia resistir indefinidamente
ao poderio do império mongol do norte, mas ela tinha uma dívida de gratidão para
com o poder que a ajudara a resistir tanto tempo. akbar não pode vir a saber do rasa
mahadevi, nem da rainha feiticeira guardiã da sua fonte. se o viesse a saber,
destruiria tudo à sua passagem na conquista de ahmadnagar, de bijapur e por aí
além.

capítulo iii

artemÍsia: esta planta tem folhas dentadas, com pedúnculos felpudos, e flores de um
amarelo-esverdeado, no final do verão. a tintura desta erva amacia os olhos e reduz
o cansaço de uma pessoa. dormir com a cabeça num travesseiro cheio com
artemísia permite prever o futuro. diz-se que são joão o batista, usava um cinto de
artemísia para o proteger no deserto. por isso é muito apreciada pelos viajantes, que
a metem no calçado ou no meio da roupa. É uma erva que protege das picadas dos
insetos, dos raios, do infortúnio e das feras...

a selva fechava-se-lhes em redor, pouca luz do sol chegando à esforçada caravana


goesa. o ar era quente, úmido, quedo. a estrada estava cheia de raízes e de ramos
partidos, por vezes desaparecendo por debaixo dos arbustos rasteiros. a mula de
thomas escolhia o caminho com muito cuidado, tropeçando, porém, aqui e ali, num
pedregulho escondido. o silêncio úmido era apenas pontuado pelos berros de aves
estranhas, ou pelo zumbir de insetos. thomas espiava constantemente o
emaranhado das árvores à sua frente, no temor de ver os olhos de alguma grande
fera voraz a olhar para ele.

quão diferente é esta região da que percorríamos antes, pensava thomas, ansiando
por uma brisa. durante dois dias, depois de terem saído de bicholim, o terreno fora
muito agradável, com pequenas elevações cobertas de orquídeas e anchos cursos
de água, com patos e elegantes garças, à beira dos quais se viam prósperas
aldeias. o irmão timóteo apontava-lhe, jovialmente, os grandes ninhos pendentes,
dos pássaros de caramanchão, e as pegadas das raposas e dos cervos, o que lhe
aliviava um pouco a sombria disposição e o levava a resignar-se a suportar a
viagem, até recuperar as forças ou até que uma oportunidade de fuga se
apresentasse, ou, ainda, até chegarem a bijapur. mas, agora, a selva sombria e o ar
sufocante pesavam-lhe de novo no espírito.

- como é opressiva e desesperante esta selva! - murmurou ele.

- É exatamente o que eu estava a pensar - disse lockheart, cavalgando ao lado dele.


- e os nossos animais também não gostam nada destes sítios.

thomas reparou como o cavalo de lockheart se empinava, ansioso e de olhos bem


abertos. e a sua mula espetava as orelhas e aspirava freneticamente o ar.

- sim, mas o que é que os perturba?

- perturba-os o que não conseguem ver. esta selva é muito cerrada e pode esconder
toda a espécie de perigos. eu sempre imaginei as selvas como dádivas generosas,
cheias de caça e de outras maravilhas, concedidas por mercê divina, mas esta é
uma emanação de miasmas, é uma selva mais adequada para morada do demônio.

thomas recordou-se do whelp, depois do ataque à carraca, com os homens a


morrerem sob o pernicioso sol tropical, enquanto tentava tratar deles.

- se é verdade o que os físicos dizem, este ar sufocante vai provocar as doenças e


as febres de que falava joaquim.

voltou-se na sela e verificou que os soldados e as carroças dos abastecimentos


tinham ficado muito para trás, já ocultos pelo emaranhado de ramos e de árvores.
tão-pouco se viam os camelos e a liteira da chefe da caravana, muito afastados à
frente. só o padre gonsção e timóteo se encontravam à vista.

É um belo sítio para uma emboscada, embora só malfeitores em extremo desespero


quiçá se atrevessem neste emaranhado. thomas pensou na ironia da situação:
estivessem os seus braços recuperados, aquela seria boa altura para tentar escapar,
pois estava a cinco dias da costa e talvez pudesse encontrar um barco que
precisasse de um par de braços, sem olhar de quem. mas não com estes braços
que mais parecem bracinhos de bebê. e tentar fugir pelo meio deste pantanal... teve
um repentino estremecimento.

- o que é que foi, thomas?

- o quê?

- tremeste todo e ficaste pálido. terás apanhado as febres?

- não, não é isso. eu estava a recordar um pesadelo que tive esta noite.

- ah! os pesadelos persistem?

- ainda não me largaram desde que cheguei à índia.

o padre gonsção, que thomas notara a observá-los, voltou o cavalo - com alguma
dificuldade, pois o garanhão também estava inquieto - e dirigiu-se para junto deles.

- mestre chinnery - disse o padre em latim, aliviando o cabeção -, o feiticeiro de


cartago não vos teria, acaso, indicado um caminho mais agradável e menos agreste
do que este?

thomas riu com gosto.

- se eu conhecesse outro caminho, padre, não estaríamos, certamente, a seguir


este.

- havia um mapa desenhado por de cartago, padre disse lockheart. - o inquisidor-


mor não vo-lo entregou?

o padre fez uma pausa, fixando o escocês.

- sim, irmão, ele entregou-me esse mapa, mas eu acho-o um pouco... falho de
pormenores. por isso, devemos estar gratos pela ajuda que mestre chinnery nos
está a prestar.

- muito naturalmente - disse thomas -, mestre de cartago não quereria que fosse fácil
a leitura do que desenhava.

- e, por isso, o nosso percurso é semelhante aos percursos dos mistérios da religião
- disse lockheart. - lento e com diversos desvios, com obstáculos para superar e
enigmas para decifrar.
- de fato, mestre de cartago disse-me que a fonte se encontra à guarda de uma
deusa - corroborou thomas.

- eu espero - disse o padre - que venhamos a comprovar que tudo isto é um


absurdo. mas dizei-me do que faláveis e que vos fez empalidecer, mestre chinnery.
como deveis compreender, tenho razões para me preocupar com o que vos possa
alarmar.

quereis dizer que estivemos a falar muito tempo numa língua que não
compreendeis, pensou thomas. suspeitais de alguma coisa, portanto, não sois nada
parvo.

- estávamos a falar dos sonhos de mestre chinnery, padre.

- sonhos? - disse o padre, erguendo o sobrolho e conduzindo o cavalo para ao lado


da mula de thomas. - que sonhos são esses?

- eu tenho sido perseguido por pesadelos desde criança explicou thomas. - quando
partimos de inglaterra, os pesadelos desapareceram, mas, desde que tornei a pôr o
pé em terra, eles voltaram.

- alguns dos meus confrades - disse o padre - dizem que os pesadelos são o meio
de que os demônios lançam mão para levar um homem ao pecado do desespero.
outros dizem que são tormentos que o homem impõe a si próprio, quando contraria
o lado bom da sua natureza.

serão as minhas preocupações tão evidentes na minha cara? interrogou-se thomas.

- e há quem diga - disse lockheart - que são mensagens dos anjos.

- a causa é muito provavelmente a primeira - disse thomas -, pois os meus


pesadelos são por de mais aterradores. sou sempre perseguido por três criaturas
femininas... monstruosas, horríveis, que me surgem sob os mais diversos disfarces.
uma vez, eram caçadores e eu um veado, a tentar fugir pela floresta. esta noite
apareceram-me como lenhadores e eu era um carvalho. puseram-se a cortar-me o
tronco e a gritar, como sempre ”assassino! assassino!”. - thomas esfregou os
ombros. - receio bem que estes demônios desejem a minha morte e não se
contentem com menos.

thomas olhou para trás e viu lockheart a olhar para ele com uns olhos esgazeados
de espanto e de medo.

- o que foi, andrew?

- acho que vou deixar o padre explicar os teus sonhos disse lockheart, com um
sorriso que não lhe chegou aos olhos.
- estou a ficar preocupado com as carroças que, há já algum tempo, deixamos de
enxergar. queiram desculpar-me, eu vou lá atrás ver se precisam de ajuda.

- É uma idéia sensata - concordou o padre. - depois voltai e dizei-nos se devemos


parar e esperar por eles.

- assim farei, padre.

lockheart voltou o cavalo no caminho apertado e partiu ao trote.

o que é que o teria assustado tanto?, pensou thomas. que raio de guardião é ele que
foge dos pesadelos dos outros?

- estou a pensar nesse grito de ”assassino” que ouvis nos vossos sonhos - disse o
padre. - dado que os pesadelos vos perseguem desde criança, acho que não têm
nada a ver com o fidalgo de cartago, em cuja morte fostes, em certa medida,
cúmplice. haverá mais alguma morte que vos pese na alma?

- só se for a minha mãe, que morreu quando eu nasci. o meu pai, às vezes, quando
se zangava comigo, acusava-me...

thomas calou-se de repente e baixou os olhos, embargado por recordações meio


esquecidas.

- de a ter matado? - terminou o padre por ele. - a dor pode levar um homem a dizer
coisas dolorosas, meu filho. o vosso pai, na sua dor, acusou a causa, embora a
causa fosse inocente. o senhor levou a vossa mãe quando chegou a sua altura e,
embora tenhais sido o seu agente, não deveis ser culpado por isso. portanto, a raiz
dos vossos pesadelos é, talvez, um castigo que vos infligis injustamente. se houver
outras preocupações que vos apoquentem, de bom grado vos ouvirei em confissão,
mas, agora, não é a altura adequada.

thomas inspirou profundamente para se recompor.

- obrigado, padre. vou pensar bem no que me dissestes. o padre sorriu e colocou
uma mão no ombro de thomas,

levando-o a encolher-se. o padre retirou a mão de imediato.

- as minhas desculpas. como estão hoje os vossos ombros? thomas hesitou, antes
de admitir:

- estão pior, acho eu.

na verdade, thomas estava a sentir dificuldade em segurar as rédeas da mula e, por


vezes, deixava-as pousadas no pescoço do animal.
- isso é natural - comentou o padre - para quem sofreu o suplício da estrepada. se
calhar, o irmão andrew compôs-vos os braços demasiado cedo.

- eu esperava que o tratamento do irmão andrew me permitisse uma recuperação


mais rápida.

- e possivelmente assim é. mas os vossos braços vão, por vezes, ficar inúteis,
enquanto saram. já tenho visto isso. deveis ter paciência e rezar pela vossa
recuperação.

ah, pois, quantas vítimas da estrepada já tereis visto? e quantos homens já a ela
terão sido submetidos a vosso mandado?

- e a recuperação leva muito tempo?

- várias semanas, pelo que me lembro.

que sorte a vossa! pensou thomas, frustrado. vai passar muito tempo antes que eu
possa escapar.

- olhai, olhai! - timóteo, escanchado no seu burro, apontava para um brilhante


pássaro colorido adejando no dossel da selva.

thomas riu-se:

- haja ao menos um de nós que aprecie esta viagem!

- ah, a curiosidade da juventude - exclamou o padre. faz-me lembrar quando eu era


rapaz. uma vez, tinha eu os meus dez anos, acompanhei o meu pai a huelva, em
espanha, onde ele ia entregar uma encomenda de alaúdes que construíra. havia lá
um mouro que tinha, maravilha das maravilhas, um camelo. eu nunca tinha visto um
animal daqueles e corri para o ver melhor. o mouro aliciava as crianças a dar uma
volta no camelo e eu pedi ao meu pai para me deixar montar no camelo. o meu pai,
porém, afastou-me dali e admoestou-me, dizendo que mais depressa me venderia
ao diabo do que me deixaria montar um animal de um herético. agora que sou
adulto, compreendo, claro, a sua zanga, mas... o que foi, mestre chinnery?

thomas estava com um sorriso zombeteiro na cara.

- estava apenas a pensar que é fácil esquecermo-nos de que os outros também já


foram crianças.

- sim, sim, isso acontece, meu filho - disse o padre, com um sorriso desajeitado.

- o vosso pai era, portanto, um construtor de alaúdes. porque é que não seguistes
essa profissão?

- o meu pai desencorajou-me.

- e como é que fostes parar ao santo ofício?

repentinamente, foi como se um muro surgisse entre eles.

- não falarei desse assunto convosco.

- desculpai-me, padre, com todo o respeito.

o padre ficou calado e, no pesado silêncio que se estabeleceu, thomas tentou


encontrar qualquer coisa simples e amena para conversar, pois a conversa tornava a
viagem mais suportável.

ao ver o padre a remexer-se na sela, thomas avançou:

- se me permitis, padre, porque não viajais num palanquim, como a domina


Àgnihotra? quer-me parecer que viajaríeis mais confortavelmente.

o padre pareceu irritado.

- os palanquins são para as mulheres.

- e para os homens notáveis. como chefe desta expedição, em nome do santo ofício,
um palanquim não vos imprimiria mais respeito aos olhos dos caravaneiros que nos
acompanham?

- talvez, mas eu gosto de ver por onde vou e prefiro estar à mercê de um cavalo do
que à de palanquins nativos. se os condutores de camelos me considerarem menos
por isso, paciência.

em boa verdade, thomas admirava um pouco mais o padre por ele se recusar a
viajar com ostentação.

- e, ainda se me permitis, o que é que trouxe a estas distantes paragens o filho de


um simples construtor de alaúdes?

timóteo voltou-se para trás e exclamou:

- o padre foi enviado pelo cardeal e pelo papa!

- timóteo! - admoestou-o o padre.

o rapazinho murmurou umas desculpas e remeteu-se a um silêncio embaraçado.

suspirando, o padre acrescentou:

- isso são assuntos do santo ofício e não devemos falar deles. a regra do silêncio,
mestre, aplica-se tanto a mim e a timóteo, como a vós.

- ah, tinha-me esquecido da regra do silêncio.

thomas havia-se submetido à regra do silêncio, no julgamento, e considerava-a


como fazendo parte da loucura da inquisição. mas, era evidente, essa loucura tinha
a sua razão de ser: se não se talasse nisso, ninguém viria a saber dos horrores a
que o santo ofício submetia os seus ”convidados”.

thomas pensava nas palavras proferidas por timóteo. o papa? por que motivo
poderoso essa personalidade tão temida e venerada enviaria um emissário à índia?
uma vez mais, thomas tinha a estranha impressão de ficar dividido entre dois
sentimentos: a sua personalidade anterior consideraria o padre um servo do diabo,
mas, como convertido ao catolicismo, segundo a sua imposta confissão, devia
considerar o padre orientado diretamente por deus. incapaz de reconciliar os dois
sentimentos, e convicto de que o padre nada mais lhe diria, dirigiu toda a atenção
para a selva e para o caminho traiçoeiro.

o padre gonsção lamentava ter-se irritado com o inglês. e timóteo fora apenas
inconveniente, movido pela sua espontaneidade. mas, naquele ambiente selvagem e
estranho, tinha de ter cuidado e de ter sempre em mente os preceitos que o
guiavam. sem eles, gonsção pressentia que podia perder a sua sanidade mental,
naquela terra em que nada lhe era familiar. fora já difícil adaptar-se a goa, à primeira
vista tão parecida com lisboa, mas decadente e corrompida por influências
estranhas. comparada, porém, com aquela selva, goa parecia-lhe, agora, um
paraíso de civilização.

era impensável explicar a mestre chinnery que era um enviado especial do cardeal
albrecht - não propriamente do papa, isso tinha sido um pequeno exagero para
assegurar a colaboração de timóteo - para investigar por que razão um governador
e, depois, um vice-rei, haviam sido destituídos e chamados a lisboa, sob a acusação
de heresia e de feitiçaria. causava muita preocupação que isso tivesse acontecido
numa colônia onde, justamente para prevenir que tais coisas acontecessem, havia
sido estabelecido um posto avançado da inquisição.

quando chegara a goa, gonsção logo se apercebera de que os rumores que corriam
acerca do santo ofício tinham um fundo de verdade e de que este descambara na
corrupção, mais interessado em perseguir aqueles que tinham fortuna para
confiscar. parecia, contudo, que mais alguma coisa havia relacionada com os casos
do governador e do vice-rei.

ao princípio, domine sadrinho, inquisidor-mor do santo ofício de goa, parecera


querer cooperar, prestando a informação de que o ex-governador tinha sido vítima
de uma cabala de feiticeiros, dirigidos por de cartago e por uma misteriosa mulher
chamada aditi. depois, quando gonsção tentara saber mais a respeito dessa cabala,
sucedera uma série de acontecimentos verdadeiramente estranhos.

o feiticeiro de cartago escapara de goa e, traído por um dos próprios ingleses que o
haviam salvo dos perseguidores portugueses, fora entregue à cidade por piratas.
contudo, regressara já morto e a única ligação com o feiticeiro era mestre chinnery.

domine sadrinho tinha tido, então, um comportamento muito estranho, durante o


interrogatório do jovem inglês, ocultando informações a gonsção e tentando excluí-lo
das sessões de interrogatório. isso, até aparecerem, casualmente, os jesuítas padre
estevão e irmão andrew lockheart. numa tentativa de convencer o santo ofício a
libertar mestre chinnery, os padres jesuítas afirmaram que o feiticeiro não estava
morto e que podiam prová-lo.

no julgamento de mestre chinnery, trouxeram o cadáver de de cartago e os padres


introduziram-lhe na boca um pó escuro. e gonsção ficara, então, a saber que era
este pó que tanto fascinava domine sadrinho, constituindo o seu principal interesse
no caso, pois o pó restituíra, de fato, a vida ao cadáver decomposto do feiticeiro.
encontrar a fonte do poderoso e perigoso pó era o objetivo da expedição do padre. o
feiticeiro, entretanto, não revelara o seu segredo e tornara a morrer. mas o jovem
inglês tinha consigo um mapa. e o jovem inglês fora submetido à estrepada até
confessar. e o jovem inglês oferecera-se para guiar a expedição até à fonte do
miraculoso pó.

gonsção não sabia se podia confiar inteiramente em mestre chinnery. o jovem


parecia honesto e desejoso de colaborar.

com os braços machucados, não constituía, certamente, uma ameaça, mas não se
podia saber se abraçara a sua nova fé do fundo do coração. era o que acontecia
habitualmente com os convertidos, mas havia que estar atento.

e, para além das relações de entre ajuda de dois europeus, havia mais qualquer
coisa nas relações do irmão andrew com o jovem inglês. conheciam-se já há algum
tempo, segundo parecia.

o irmão andrew era outro mistério, com os seus conhecimentos de línguas e


costumes estrangeiros, quase universais. conhecimentos que, até então, tinham sido
preciosos para a expedição. o irmão andrew aparentava preocupar-se bastante com
o bem-estar de mestre chinnery, mas gonsção gostaria de saber qual a sua
motivação.

o jovem inglês proclamava ser boticário e talvez fosse motivado por razões
mercantis na busca do pulvis mirificus. pela sua parte, ele, gonsção, concordara em
dirigir essa busca com um único propósito: não para conseguir um fornecimento do
pó para o santo ofício, como desejava domine sadrinho, mas para o destruir.

o cavalo do padre parou de repente e soltou um relincho prolongado, interrompendo


as reflexões de gonsção.

- estúpido animal - exclamou gonsção -, isto não é sítio para parar!

puxou-lhe as rédeas, mas o cavalo esticou as orelhas e começou a recuar. gonsção


olhou em redor e não viu nenhuma razão para a teimosia do animal.

- vamos avançar! - comandou, batendo com os calcanhares nos flancos do cavalo.

num pestanejar de olhos, o cavalo pôs-se a guinchar e empinou-se. gonsção


estatelou-se no chão, caindo pesadamente sobre a anca e sobre o cotovelo.

- santa maria, vais levar com o chicote - explodiu gonsção, ao mesmo tempo
ouvindo um grito de dor atrás dele.

voltou-se e viu que timóteo e mestre chinnery também tinham sido atirados ao chão
pelas suas montadas, as quais galopavam loucamente, fugindo dali. o inglês estava
estendido no chão, esfregando o ombro, um esgar de dor na cara. gonsção
começava a erguer-se para o ir ajudar, quando timóteo se levantou de um salto e
apontou para a frente.
- cuidado, padre!

gonsção voltou-se e viu um tigre à frente dele, a escassos metros. ficou de boca
aberta, pois nunca havia visto tal magnífico e aterrador animal. o tigre agachou-se,
arreganhou os dentes e rosnou-lhe.

gonsção não tinha pistola, nem sequer uma besta. não tinha experiência de luta e
trazia apenas um punhal como proteção. puxou pelo punhal enquanto o enorme gato
rastejava para ele.

- ai, ai, ai, ai, ai! - pôs-se a gritar o irmão timóteo atrás dele, pedras caindo entre o
padre e o tigre.

o tigre levantou a cabeça, espantado, e recuou um passo.

- não, timóteo, não! - gritou gonsção. - ajuda mestre chinnery e foge daqui!
depressa!

timóteo, porém, continuou a gritar palavras que gonsção não compreendia e a atirar
pedras ao tigre. este arregalou os olhos e tornou a rosnar, golpeando o ar com as
garras. timóteo conseguiu acertar-lhe uma pedrada no nariz e o tigre, então, saltou
para trás, abanou a cabeça e, com um olhar ofendido para timóteo, desapareceu,
refugiando-se na selva. timóteo correu para o sítio onde o tigre desaparecera,
continuando a gritar as estranhas palavras e a atirar pedras.

- basta, timóteo! - exclamou o padre. - vem cá! passado um momento, o irmão


timóteo pôs fim ao seu ataque e voltou, a cara toda corada e as mãos a tremer.

- o tigre foi-se embora, padre - disse ele, simplesmente.

- graças a deus. - o padre gemeu quando timóteo o ajudou a levantar-se. - o que


fizeste, meu filho, foi muito valente, mas foi, também, uma loucura.

timóteo encolheu os ombros.

- foi o que os meus primos me disseram que se deve fazer quando nos aparece um
tigre. disseram-me, também, que ele ou foge ou ataca, mas que fica com tanto medo
de nós, como nós dele. atirar pedras é bem melhor do que ser comido, não achais?

- sim, isso é verdade - disse gonsção, sacudindo o pó do hábito. - mas que palavras
eram aquelas que gritavas ao animal?

- eu estava a dizer-lhe, em marata, para se ir embora e ir procurar comida noutro


lado.

- tivemos sorte em o tigre compreender marata. bem, parece que estou apenas
arranhado. vamos ver o que se passa com mestre chinnery.

enquanto se dirigiam para junto do inglês, ajoelhado e todo encolhido no meio do


caminho, gonsção foi dizendo:
- devemos-te um grande favor, timóteo.

- nem por isso, padre. estou contente por ter podido ajudar. quando chegaram junto
dele, mestre chinnery disse-lhes,

por entre os dentes apertados:

- É uma vergonha, eu devia ter ido ajudar-vos, mas...

- não vos censureis, meu filho - disse gonsção, abanando a cabeça. - o que é que
poderíeis ter feito, se não serdes comido?

o padre ajudou o inglês a levantar-se e apalpou-lhe, com brandura, a área em redor


do ombro esquerdo.

- não há nada deslocado, portanto, com alguma sorte, não estais pior do que antes.

- isso não me dá grande consolo, neste momento - murmurou o inglês.

- eu já não tenho mais folhas de betei - disse timóteo em tom de desculpa. - pode
ser que venha a encontrá-las por aqui, mais adiante.

- agradeço-vos, irmãozinho - disse o inglês. - talvez eu peça um pouco de arrak aos


soldados, quando os reencontrarmos.

- isso pode levar algum tempo - disse gonsção, olhando para trás, pelo caminho. - as
nossas montadas desapareceram, queira deus que os carreiros consigam agarrá-las
antes que vão parar a goa.

- talvez seja melhor irmos ao encontro deles - disse mestre chinnery. - o irmão
andrew deve ter ficado preocupado, ao ver os nossos animais voltar sem nós.

- tendes razão. conseguis andar, meu filho.

- são os braços que me doem, não as pernas. eu consigo andar, mas, por favor,
vamos devagar.

- muito bem, vamos, então. agarrai-vos a mim, se precisardes.

enquanto caminhavam para trás, timóteo perguntou:

- padre, os tigres são maus?

- maus, meu filho?

- sim, padre. eu sei que são criaturas de deus, mas foram feitos para caçar e
comerem carne. quer isso dizer que são monstros?

- mas não foram feitos para caçarem o homem, timóteo. lembra-te de que, de todas
as criaturas de deus, o homem é o privilegiado, porque só nós fomos feitos à
imagem de deus. a nossa posição é a de dominar e submeter a natureza e não a de
nos submetermos a ela.

- ah, mas era um belo animal, não era? espero que não o tenha magoado muito.
uma coisa é má só porque é perigosa?

gonsção riu-se:

- basta de perguntas, timóteo. estou por de mais enervado para discutir filosofia. tu
tens bom coração, mas tens muito que aprender.

- tendes razão, padre - disse timóteo -, tenho muito em que pensar.

há diversos tipos de perigos, timóteo, pensou gonsção, os perigos do corpo e os


perigos da alma. e os perigos da alma surgem muitas vezes encobertos pela beleza.
hás-de vir a compreender isto.

capítulo iv

turquesa: esta pedra azul encontra-se na pérsia e diz-se que protege do contágio. os
hindus acreditam que olhar para uma turquesa em noite de lua nova proporciona
riqueza. os mongóis usam-na para se protegerem das serpentes e das afecções da
pele. quando se oferece uma turquesa, um inimigo torna-se um amigo. diz-se,
também, que protege das quedas, em especial das quedas de cavalo. um amuleto
de turquesa tem o poder de avisar quem o usa dos perigos que o espreitam...

a fortaleza de ahmadnagar já não se avistava para lá da poeira levantada pela tropa


do mirzá. a luz do sol cintilava, brilhante de cegar, nas pontas das lanças e nos
escudos dos cavaleiros mongóis. os cavalos abanavam as cabeças e resfolegavam,
fazendo soar as rédeas e os arreios.

o mirzá ali akbarshah preferiria estar montado no seu ágil cavalo niyazik do que
naquele desajeitado mastodonte que tinha debaixo de si. era exasperante para um
descendente de tártaros. os duzentos cavaleiros eram homens seus, mas os
quinhentos infantes que caminhavam lá atrás, numa mal controlada confusão, eram
hindus e outros harbis, escolhidos entre os disponíveis e dispensáveis. aquela
escumalha requeria símbolos claros de comando e, por isso, os rajás dirigiam os
seus exércitos montados em elefantes.

doíam-lhe as costas da andadura oscilante do animal, o howdah dourado a estalar a


cada passo. e tinha plena consciência de que constituía um alvo fácil para um hábil
arqueiro. a vista era a única vantagem que o seu palanque lhe proporcionava. a
paisagem do decão parecia-lhe, porém, pouco interessante. pedregulhos de saibro
espalhavam-se por uma planície de avermelhada lama de saibro que, seca ao calor
do sol, produzia uma poeira espessa de saibro. a monotonia da paisagem era
quebrada, tão-só, por uma ocasional colina rochosa, encimada por uma fortaleza, ou
por uma aldeola miserável, escondida atrás de árvores raquíticas. esta monotonia da
paisagem é um pormenor que chand bibi se esqueceu de mencionar.
um grito ao lado do elefante chamou-lhe a atenção. o mirzá olhou para baixo e viu o
seu lugar-tenente, jaimal, cavalgando a seu lado.

- umas palavras convosco, senhor mirzá? - gritou ele.

- sim, sim - disse o mirzá, feliz por ter companhia. inclinou-se para a frente e falou
para o cornaca. este, com

umas destras pancadas do seu bastão, fez parar o pesado animal. jaimal entregou
as rédeas do cavalo a outro cavaleiro e, pelas cordas do arreio, subiu para junto do
mirzá. o cornaca tornou a bater no elefante com o bastão e este lançou-se para a
frente, fazendo jaimal colidir com o mirzá: tiveram de se agarrar aos assentos do
howdah para não caírem.

- as minhas humildes desculpas, senhor mirzá! - disse jaimal, endireitando o


turbante.

- não há razão para isso - disse o mirzá com um sorriso amargo. - não consigo
imaginar como é que os marajás se podem sentir cômodos em cima destes animais.

- talvez tenham os traseiros maiores, meu senhor, por se sentarem em tronos com
coxins.

- talvez. está uma manhã muito quente.

- vai estar uma tarde abrasadora - concordou jaimal.

- espero que possamos encontrar um lugar à sombra para as orações do meio-dia.

- sim, esperemos. embora a nossa comodidade não deva sobrepor-se ao nosso


dever, no nosso pensamento.

o mirzá fez uma pausa, antes de retorquir.

- claro, tens razão, jaimal, e não se sobreporá. embora o mirzá fosse sunita, jaimal
era xiita. jaimal servia

fielmente akbarshah havia muitos anos, mas o mirzá continuava a ter cuidado
quando falava de questões de fé com o lugar-tenente.

- todavia, é insensato o general que não pensa na comodidade dos seus homens.

- fico contente por ouvir isso - disse jaimal, porém, com um acento estranho na voz
que o mirzá não deixou de notar.

- mas receias que eu tenha esquecido esta verdade?

- meu senhor, eu nunca pensaria isso de vós!


- mas alguma coisa te preocupa?

- preocupar, preocupar... preocupante é um ladrão a bater à porta: deixamo-lo entrar


caridosamente e ele rouba-nos toda a coragem.

- quer dizer que não tens nada a apontar em matéria de comodidade.

jaimal pareceu examinar os desenhos do tapete que tinha aos pés.

- talvez tenha, meu senhor.

- então fala. alguma vez deixei de escutar-te?

- a mim não, meu senhor, mas alguns dos homens têm... dúvidas.

- ouvi-las-ei, então, como se fossem minhas.

- pois bem, senhor mirzá, eles comentam que partimos de ahmadnagar com
demasiada pressa.

- demasiada pressa?

- É o que eles dizem. como sua alteza radiosa, o príncipe murad, se ofereceu para
fornecer mantimentos e mulheres, bem como homens seus para nos ajudar na
nossa busca, os homens interrogam-se por que razão desdenhamos a sua
generosidade.

- ah, é isso? tu não és parvo, jaimal: não percebes que essa generosidade do
príncipe murad traz água no bico?

jaimal levou algum tempo a responder:

- sim, ele esperava que, em compensação, nos juntássemos às suas tropas e o


ajudássemos a provocar uma rebelião em ahmadnagar e, finalmente, conquistar
esse reino.

- e encher-se de glória. claro, era isso que ele pretendia. mas não compreendes que
isso comportaria o adiamento indefinido da nossa expedição e, talvez, o seu
cancelamento?

jaimal replicou, suavemente:

- alguns dos homens preferiam um combate rápido, com um prêmio ali à vista, a
uma longa marcha cuja compensação não conseguem enxergar.

- ah! mas, então, eles não se apercebem de que, se formos bem-sucedidos,


ahmadnagar será uma ninharia, face ao poder que outorgaremos ao shahinshah?

- É o que eu lhes digo, senhor mirzá, mas eles receiam que andemos à caça de
fantasmas.
- estou a perceber. e o que é que achas que os poderia sossegar?

- se o meu senhor lhes pudesse prometer que vamos encontrar grandes tesouros no
nosso destino e que cada homem terá a sua parte...

- e querias que eu lhes mentisse, jaimal? o tesouro que o paxá me mandou procurar
é um só e esse pertence-lhe, a ele só. o que é que nos aconteceria se os homens se
apercebessem de que os havíamos intrujado? numa terra longínqua, é fácil os
comandantes sucumbirem a um tigre esfomeado ou a outro qualquer acidente
imprevisto.

- eu compreendo, meu senhor - disse jaimal.

- não vou iludir os homens com histórias de grandes tesouros. a consciência do


dever cumprido para com o shahinshah e a glória que daí advém têm de bastar.

- para os nossos homens talvez, mas para os harbis...

- para esses, basta o medo do castigo.

soou um grito à cabeça da expedição. o elefante balançou ao parar e por ele


passaram cavaleiros a galope. o mirzá espreitou por cima dos ombros do cornaca.

- o que é que aconteceu?

- está um homem na estrada, senhor mirzá - disse o cornaca, apontando com o


bastão.

uns metros à frente, via-se uma figura solitária, a túnica branca de lã suja de terra, a
barba desgrenhada, os braços erguidos.

- o louco! - exclamou o mirzá. - o que é que ele quererá?

- pode ser uma armadilha, meu senhor - disse jaimal. esta região está infestada de
bandidos e aquele homem pode estar ali para nos distrair de um ataque.

o mirzá olhou em redor.

- seria muito difícil uma chusma de bandidos esconder-se num terreno como este.
vai ver o que ele quer. e diz aos homens para ficarem alerta.

- muito bem, meu senhor.

jaimal desceu do elefante que, a uma ordem sua, foi prontamente rodeado por
cavaleiros, espadas desembainhadas nas mãos.

passado pouco tempo, jaimal regressou, acompanhado pelo homem de aspecto


estranho.
- senhor, este homem deseja falar-vos.

- quem é ele?

- É um sufi, senhor, e vem de bijapur.

- de bijapur? as notícias da nossa chegada correm depressa. tenho ouvido dizer que
os sufis operam milagres, manda-o subir.

em boa verdade, o comportamento místico dos sufis era motivo de perplexidade


para o mirzá, o que o levava a compreender que alguns seguidores da fé os
acusassem de heresia. não obstante, muitos príncipes do império e, também,
islâmicos notáveis davam ouvidos aos conselhos dos xeques sufis.

akbarshah fez descer uma escada de corda e o estranho homem subiu ligeiro por
ela, tal macaco. jaimal subiu prudentemente atrás dele. o sufi sorriu abertamente
quando entrou no howdah, ajoelhando-se no tapete.

parecia ter mais de trinta anos. o cabelo comprido, desgrenhado, surgia, espetado,
por debaixo do turbante, e a comprida barba espalhava-se sobre a túnica branca de
lã. contudo, a intensa vivacidade dos olhos do homem patenteava que a sua
compostura desleixada não tinha nada a ver com a pobreza, antes resultava do fato
da sua atenção se fixar noutras coisas.

- o senhor mirzá é muito gentil em receber este humilde seguidor da via - disse o
sufi.

- honrais-me ao aceitar o meu convite - disse o mirzá. desejais beber água?

akbarshah deitou água de um jarro com tampa para uma taça de prata e estendeu-a
ao sufi. o místico agarrou na taça com as duas mãos e bebeu a água de uma
golada. depois, estendeu a taça a pedir mais:

- se o senhor quiser fazer o favor...

o mirzá tornou a encher a taça e o sufi tornou a engolir a água de uma golada. o
mirzá franziu o sobrolho.

- tínheis muita sede. quereis comer um pouco de frutos secos? - perguntou o mirzá,
abrindo um saco de pano.

- sois muito generoso, senhor mirzá - disse o sufi que, metendo a mão no saco e
retirando uma mão-cheia de frutos secos, pôs-se a trincá-los avidamente

o mirzá trocou um olhar rápido com jaimal, mas não comentou as horríveis maneiras
do hóspede.

- vejo que também tínheis fome. não havíeis comido nada desde que saístes de
bijapur?
- muito pouco - respondeu o sufi, a boca cheia de tâmaras -, tal era a pressa de vos
encontrar.

- de me encontrardes? jaimal explodiu:

- como te chamas, homem? e vens a mando de quem? o sufi baixou a cabeça numa
rápida reverência:

- o meu nome é masum al-wadud e venho do acampamento chisti, no monte


shahpur, próximo de bijapur. venho a mando do misericordioso que tudo vê. É nossa
regra não nos preocuparmos com o corpo, se isso nos abrir o caminho para o divino.

- eu já ouvi falar desses sufis chisti. são poetas - disse jaimal com ar desaprovador -
e artesãos. quem é o teu mestre, o teu pir?

masum sorriu gentilmente, abanando a cabeça:

- isso não vo-lo posso dizer, pois o meu pir não mo permite.

- notai, meu senhor - disse jaimal -, como a tão apregoada arrogância dos sufis
corresponde à verdade. eles menosprezam os nobres.

- não, não - disse masum -, não é arrogância. simplesmente, temos consciência das
tentações da vida da corte. quando um pir se compraz na companhia de príncipes,
fica incapacitado de se dedicar à contemplação solitária que conduz à sabedoria. o
meu pir pretende, apenas, precaver-se da contaminação...

- estais a ver, senhor - disse jaimal. - como se nós fôssemos a mais ínfima casta dos
hindus. não nos ensinam que os homens são todos iguais aos olhos do
misericordioso?

- jaimal, por favor! - exclamou akbarshah, erguendo uma mão. - dizei-nos, masum,
por que era assim tão importante virdes ao meu encontro?

- eu tive uns sonhos, senhor mirzá.

- sonhos?

- sonhos poderosos, senhor mirzá. sonhei com um general que vinha do norte para o
sul, em busca da fonte da vida. no meu sonho o general encontrava o que
procurava, mas a fonte estava rodeada de serpentes e, em vez de água, continha
sangue.

o mirzá cofiou a barba.

- esse sonho pode ter muitas interpretações.

- talvez. mas o sonho repetiu-se muitas noites. eu contei-o ao meu pir e ele disse
que o sonho era, seguramente, uma mensagem dos anjos e que eu devia seguir o
sonho até ser conduzido ao que ele significava.
- e acreditais que eu seja o general do vosso sonho?

- não vos parece claro? eu encontrei-vos aqui, numa estrada em direção ao sul.

masum voltou-se para jaimal:

- e sonhei, também, convosco.

- comigo?

- sim, sim. no meu sonho, estava com o general um homem muito parecido
convosco. esse homem tinha ouro numa das mãos, mas esse ouro transformava-se
em pó. e, na outra mão, tinha pó que se transformava em ouro.

jaimal pôs-se a rir:

- se esse sonho fosse verdade, mais valia eu encher os meus sacos com o pó da
estrada.

- valeria o mesmo do que enchê-los de ouro.

o sorriso de jaimal desvaneceu-se num esgar de confusão.

- pois bem, masum - disse o mirzá -, já que nos contastes o vosso sonho, vou dizer-
vos a verdade. nós estamos, de fato, numa busca, a mando do shahinshah
imperador akbar. procuramos uma rainha que vive numa fortaleza escondida numa
montanha, que parece ser imortal e ter poderes de vida e de morte.

o sufi ergueu os olhos para o céu e murmurou uma oração.

- estou no bom caminho - disse ele.

- assim - acrescentou o mirzá -, agora que conheceis a verdade que o vosso sonho
continha, que ides fazer? viestes para nos avisar e para nos dissuadir da nossa
viagem?

- dissuadir? não, senhor mirzá, de modo nenhum. eu acho que... devo testemunhar.
e aconselhar no que saiba. acredito que o que procurais é da maior importância, de
uma importância que supera as ambições de sultãos e de imperadores. ponho ao
vosso dispor a pouca força e sabedoria que detenho.

- meu senhor - disse jaimal -, não precisamos de um pedinte para ajudar a esgotar
os nossos mantimentos.

- mas eu não serei como o hóspede que nunca mais se vai embora - disse masum. -
eu já fui soldado e, embora seja hoje um homem de paz, ainda me lembro das
humildes tarefas que um exército requer, como escovar os cavalos, carregar água,
polir as espadas e por aí adiante.
- e um homem santo como tu - perguntou jaimal - está disposto a encarregar-se
dessas humildes tarefas?

- o meu pir ensinou-me que, ao submetermo-nos às tarefas quotidianas que a vida


requer, apreendemos a noção do dever e da firmeza que pavimentam a via do
divino.

- encontrarás entre nós muito com que vos instruir - disse o mirzá, com um sorriso
irônico. - mas, agora que já conheceis o nosso objetivo, dizei-nos se ouvistes falar,
para os lados de bijapur, de alguma coisa a respeito da grande rani que procuramos.

- ah, a esse respeito, eu ouvi, de fato, uma história pertinente.

jaimal ergueu uma mão:

- meu senhor, ele vai contar-nos uma infernal história sufi.

- se é pertinente, jaimal, como ele diz, vamos ouvi-la. continuai, masum.

- pois bem, senhor mirzá. uma vez, há muito tempo, três homens, um estudante, um
mercador e um pedinte, foram ter com um mestre, todos no mesmo dia, à mesma
hora, e todos pedindo que lhes mostrasse uma maravilha. o pir disse-lhes que, se
caminhassem um dia inteiro para leste, a partir da cidade, encontrariam uma
maravilha. então, no dia seguinte, os três homens caminharam, do nascer ao pôr do
sol, na estrada que, da cidade, partia para leste. ao pôr do sol, chegaram a uma
pequena e abrigada fonte. o guardião do poço deu, a cada um dos sedentos
viajantes, uma caneca de água. o estudante, que esperava encontrar a escola da
grande sapiência, bebeu a água e olhou em redor: ”eu não vejo nada”, lamentou-se
ele. ”e vocês?” o mercador, que esperava topar com o maior tesouro do mundo,
disse: ”também não vejo nada.” depois de beber a água toda da sua caneca,
acrescentou: ”acho que fomos enganados.” mas o pedinte, que se sentia cheio de
sede e cansado da longa jornada, sentou-se à sombra, devagar bebendo a água
fresca e pura da fonte, e suspirou: ”ah, isto é uma maravilha.”

masum fez uma reverência, para indicar que a história terminara.

- espero - resmungou jaimal - que, no final da nossa viagem, encontremos bastante


mais do que uma caneca de água.

o sufi olhou para ele, com ar triste:

- encontrareis o que a viagem vos tiver preparado para encontrardes. se aceitardes


as lições que vos dão, encontrareis, decerto, no final da via, uma maravilha.

- hum! - exclamou o mirzá -, eu estava à espera de uma história que tivesse mais a
ver com a nossa travessia do decão e não com a viagem espiritual da vida.

- eu referia-me a ambas - disse masum.

o mirzá akbarshah viu-se eximido da resposta pelo grito da chamada à oração.


- parece, masum, que escolhestes por nós o local da oração. jaimal, quando
terminarem as preces destina tarefas adequadas ao nosso novo faxina. quanto a
mim, vou ter em conta o que me dissestes acerca das dúvidas dos homens.

jaimal aquiesceu e escoltou o sufi na descida. o mirzá ia segui-los, quando tocou


com a mão na taça de prata pela qual o sufi tinha bebido. pegou nela e olhou para o
fundo. uma maravilha... ruminou, mas viu apenas a sua imagem distorcida no fundo
da taça.

capítulo quinto

maravilhas: esta planta, a que também chamam malmequeres, tem folhas felpudas e
flores douradas que florescem durante a maior parte do ano. dizem que a virgem
maria muito a apreciava, usando-a como adorno. a infusão das folhas alivia as dores
do coração, enquanto a amálgama das pétalas e das folhas sara toda a espécie de
feridas. há quem diga que tem o poder de nos apontar o ladrão que nos roubou. É
costume utilizar as flores para sabermos se somos amados e se esse amor é
sincero. há, porém, quem diga que os malmequeres induzem amores
desafortunados, porque brotaram de uma virgem grega que se estiolou por uma
paixão por apolo...

- empurra, empurra! - gritava lockheart, e os soldados e os carreiros empurravam à


uma, enquanto os bois se esforçavam a puxar o carro pela estrada esburacada.

este trilho desgraçado mal merece o nome de estrada, pensava thomas, observando
a manobra montando na mula. embora já tivessem saído da selva, a subida dos
gates tornara-se cada vez mais difícil: era um caminho estreito, cortado por regatos,
bloqueado por pedregulhos e que, por vezes, desaparecia por completo, tão pejado
estava de lama e de rochas desfeitas. e não ajudava nada a ravina a um dos lados,
montanha abaixo, coberta de espinheiros e de cascalho. era muito pior do que
qualquer das estradas que thomas vira em inglaterra.

- cuidado! cuidado!

o carro rolava, mas escorregava perigosamente para o lado da ravina. houve um


pulverizar de rochas, o carro inclinou-se para um dos lados e a roda traseira direita
ultrapassou a beira da estrada. o carro estremeceu e embrulhos soltos das cordas
caíram montanha abaixo. dois carreiros deslizaram para os recuperar, enquanto os
outros lutavam para puxar o carro para cima.

meu deus, se o carro cai, lá se vão os homens e os bois com ele. thomas saltou da
mula e foi ajudá-los. ignorando as dores que lhe lancetavam os ombros, encostou-se
à traseira direita do carro e fez força com as pernas, gritando ao sentir o peso do
carro sobre ele. o boi berrava no esforço de puxar pela canga, o boieiro
desesperadamente chicoteando-lhe os flancos.

mais homens se juntaram a thomas atrás do carro, até o padre gonsção. deram, em
simultâneo, um valente puxão e o carro avançou, as rodas todas de novo na
estrada. os soldados e os carreiros soltaram um hurra de regozijo e thomas suspirou
de alívio.

voltou-se para se dirigir à mula, mas o pé esquerdo escorregou-lhe. o joelho direito


de thomas dobrou-se e a perna direita escorregou-lhe também. thomas largou um
berro, esbracejando, mas as mãos só encontravam rochas e pedras que lhe fugiam
ao agarrar-se-lhes. inexoravelmente, foi deslizando, cada vez mais depressa, ravina
abaixo.

- mestre chinnery!

num instante, o padre gonsção estava esgaravatando ao lado dele. juntos, foram
travados por um arbusto espesso. um pato, perturbado pelo choque, grasnou e
partiu numa explosão de penas.

- como estais, mestre?

- acho que estou bem - ofegou thomas, embora os ombros lhe ardessem de dor.

no cimo da ravina, caras aflitas espreitavam-nos.

- eh, tom! - gritou lockheart. - como é que estás?

- estou vivo, acho eu.

- e o padre?

- também.

- não há por aí uma corda? - gritou o padre gonsção para eles.

- acho que conseguimos arranjar uma.

- então ide buscá-la, por favor.

- padre - disse thomas, sentando-se, as costas apoiadas no arbusto -, uma corda de


nada me vai servir. eu magoei ainda mais os meus braços e não consigo agarrar
nada.

enquanto a corda de cânhamo descia bamboleando pela ravina abaixo, o padre


disse:

- sois tonto, meu filho. eu ato-vos a corda por debaixo dos braços e eles, lá em cima,
puxam por vós.

- e como é que ides subir?

- vou rezar para que não partais a corda e a possam lançar de novo.

enquanto o padre lhe atava a corda em volta do peito, thomas foi dizendo:
- estais a ser muito gentil para quem já foi um herético.

- temos que ter muito cuidado convosco, meu filho. sem vós, ficamos perdidos, não
é verdade?

comigo estais perdidos na mesma, embora não o saibais, pensou thomas.

- contudo - continuou o padre - como timóteo me salvou a mim e eu estou a ajudar a


salvar-vos, para a próxima é a vossa vez de proceder ao salvamento.

ao chegar ao cimo, thomas correspondeu à saudação dos homens com um débil


sorriso.

- estás magoado? - perguntou lockheart, ajudando-o a erguer-se.

- doem-me os ombros e os braços, como sempre. e o meu orgulho.

- deve ter sido por isso que caíste, do modo como andava o teu orgulho. descansa
aqui um bocado.

encostaram thomas a um carro, enquanto os soldados foram resgatar o padre.


thomas pôs-se a pensar: que aconteceria se o padre tivesse morrido na queda, ou
nas garras do tigre? que aconteceria à expedição? desfazer-se-ia, talvez, e eu
poderia alcançar a minha liberdade. thomas abanou a cabeça, decidindo afastar
aquele pensamento. quero a minha liberdade, mas não à custa da morte de um
homem.

olhou para a frente na estrada e viu, ao longe, os condutores de camelos a aguardar.


os seus animais, no seu passo seguro, mais adequado àqueles pisos incertos,
haviam galgado a montanha sem grande dificuldade. nenhum dos mercadores da
senhora agnihotra, porém, se dignara descer para ajudar os goeses.

- porque é que eles não nos ajudam? - perguntou thomas.

- ah, isso tens de perguntar ao padre, meu amigo. olha, aí está ele. vou deixar-te ao
seu cuidado, pois estou a ver outro carro em perigo de perda de orgulho.

quando lockheart partiu, thomas voltou-se e viu o padre a sacudir o hábito que,
noutros tempos, fora branco.

- ainda bem que a corda aguentou, padre. mas dizei-me, sabeis porque é que os
hindus se ficaram a observar os nossos esforços, sem se dignarem a prestar-nos
auxílio?

- É a sua obstinação de pagãos - respondeu o padre, num resmungo, olhando para


o cimo da estrada.

thomas pôs-se a pensar se haveria algum motivo especial para o padre desconfiar
dos caravaneiros ou se, simplesmente, gonsção não confiava em ninguém que não
fosse português ou, pelo menos, europeu.
- talvez alguém - disse thomas - lhes pudesse sugerir, diplomaticamente, que
alcançaríamos mais depressa o nosso objetivo comum se eles juntassem os seus
esforços aos nossos.

o padre olhou para thomas por uns momentos.

- tendes razão, mestre chinnery, devemos falar com eles. e como, aqui com os
carros, ficais sujeito a magoar-vos mais, sem que possais prestar grande auxílio, vós
sois claramente o emissário apropriado.

- eu? não seria o irmão andrew mais apropriado, dado que fala a língua deles?

- nesta altura, os braços robustos do irmão andrew são-nos mais úteis do que os
seus conhecimentos. além disso, domina agnihotra interessa-se por vós, se
recordais. e pergunta por vós quase todos os dias.

thomas conseguiu manter uma calma aparente, embora o coração lhe entrasse em
aceleração.

- pergunta por mim? bem, deve achar muito estranhos o meu cabelo amarelo e os
meus olhos azuis. deve achar-me uma excentricidade divertida.

- talvez a consigais convencer a enviar-nos auxílio. levai timóteo convosco, ele


poderá falar com os condutores de camelos e ficará longe destes sarilhos.

- se assim o desejais, padre. decerto não suspeita de que algo existe entre mim e a
senhora, já que me manda para junto dela, embora a presença do irmãozinho seja,
possivelmente, para se inteirar do meu comportamento. tanto me faz. ao menos, vou
ter a oportunidade de falar de novo com a mulher em que deposito todas as minhas
esperanças.

- muito bem. permiti que vos ajude a montar a mula. thomas todo estremeceu
quando, com um empurrão do

padre, caiu pesadamente de barriga na sela, passando-lhe uma perna por cima.

- joaquim devia vir comigo, não achais? - o soldado seu guardião era muito útil para
manter timóteo à distância.

o padre olhou para thomas com um ligeiro sorriso nos lábios:

- precisamos, também, da força dele aqui. e eu não acredito, mestre chinnery, que
sejais tão louco ao ponto de nos abandonardes neste ermo, ademais no estado em
que tendes os braços. eu tenho verificado que, quando mostramos a um homem que
acreditamos na sua palavra, ele, geralmente, honra essa palavra. agora, ide-vos.

o padre deu uma palmada na garupa da mula, para a fazer avançar.

thomas guiou a mula cuidadosamente por entre os carros de bois e os homens


atarefados, interrogando-se se joaquim teria quebrado a sua promessa, ou se,
simplesmente, o padre era um fino observador do humano. esperava que fosse a
última hipótese.

encontrou o irmão timóteo montado no seu burro, um pouco à frente dos carros.

- o padre gonsção disse para virdes comigo.

logo se iluminou a cara do rapaz que, de imediato, levou o burro a colocar-se ao


lado da mula de thomas.

- onde é que vamos, tomás?

- vamos lá à frente falar com o pessoal da senhora agnihotra, a ver se os


convencemos a darem-nos uma ajuda com os carros.

- oh, acho que não nos vão ajudar.

- porque não?

- acho que eles não gostam de nós - respondeu timóteo, logo se calando.

thomas não insistiu na conversa e deixou à mula o cuidado de escolher o caminho


estrada acima, enquanto ele se punha a olhar para oeste. lá em baixo, um rasto de
nevoeiro agarrava-se à floresta e às arredondadas colinas e, muito para além, jazia
a extensão cinzento-azulada do mar. para sudoeste, conseguia ver, vagamente, as
construções mais altas de goa. aqui e além surgiam, por cima do dossel da selva,
cúpulas exóticas e tetos de templos em pirâmide. teria achado a vista uma beleza,
não lhe mostrara ela quão longe se encontrava do que lhe era familiar e do caminho
oceânico de regresso a casa.

thomas começou a ficar preocupado com o estranho e incomum silêncio de timóteo.

- o que é que se passa, timóteo, estais com saudades de casa?

- hum? oh, não, tomás, não é isso. ou talvez um pouco, também. mas... é que... o
padre não anda muito satisfeito comigo. admoestou-me por ter desafiado o tigre. e
por andar a correr de um lado para o outro, a ver coisas, à noite, quando paramos.
disse-me que não estava certo ter de preocupar-se com o meu procedimento,
quando já tinha tanta coisa com que se preocupar. eu sou importante para ele e para
a nossa pesquisa e tenho de ter mais cuidado com a minha segurança. ele tem
razão, eu tenho-me comportado estupidamente.

thomas riu-se, gentilmente.

- isso não é razão para vos censurardes. sois ainda muito jovem e esta é a vossa
primeira longa viagem, por isso é natural que vos interesseis por tudo o que vedes.
não devemos ser tolerantes conosco próprios, como somos para com os outros?

- mas eu tenho uma missão a cumprir. deus enviou-me nesta expedição com uma
determinada tarefa. não me posso esquecer disso - disse timóteo, mexendo
nervosamente no barbante de um saco de juta suspenso da sua sela.

thomas ficou a pensar nas estranhas e orgulhosas palavras do rapaz. mas ele tem
uma expressão franzida de preocupação: talvez a causa não seja só o orgulho.

chegaram, finalmente, ao topo da serpenteante subida, onde a estrada ia dar a uma


planura e onde se via um renque de árvores refrescantes. os camelos,
tranquilamente ajoelhados à sombra, ergueram os longos pescoços para mirarem os
recém-chegados. a liteira púrpura e dourada da senhora aditi estava meio oculta na
sombra mais profunda, rodeada pelas jovens servas que se abanavam com os seus
leques.

quando thomas e timóteo se aproximaram, as jovens apontaram para eles e


puseram-se a tagarelar com excitação. uma delas levantou-se e foi falar para dentro
dos cortinados da liteira.

thomas ficou surpreendido pela ardente satisfação que sentiu ao ver a liteira. antes
de chegar a goa, os seus mais ternos pensamentos eram dirigidos a anna coulter, a
filha do seu patrão. thomas assumira que, após o seu regresso do oriente, mais rico
e com mais experiência, anna se tornaria sua mulher. porém, desde que se
encontrara com a exótica aditi, tornara-se-lhe difícil recordar o rosto de anna e já não
vibrava ao pronunciar o seu nome.

- falais grego, timóteo? - perguntou, em tom casual, thomas.

- não, thomas, não falo grego, mas gostava muito de aprender.

- talvez eu te ensine um destes dias. - mas, por ora, não perceberás nada do que eu
disser a aditi.

- far-me-íeis esse favor? eu gostaria muito, tomás. o meu avô contava-me muitas
histórias da antiga grécia, os deuses, os monstros, tudo isso. É por isso... - timóteo,
subitamente, olhou para a sela. - É por isso que eu gostava de aprender terminou
ele, por fim.

o rapaz anda a ter um comportamento estranho. bom, acho que o padre não deve
concordar nada com o interesse que ele tem pelas histórias pagãs. mas não é altura
para me pôr a pensar nisso.

enquanto se aproximavam, a rapariga que falara para dentro da liteira correu para
thomas, agarrando-lhe as rédeas da mula.

- compreendeis o que ela diz, timóteo?

- ela está a dizer que deveis ir falar já com a senhora, tomás.

- então, acho que é o que vou fazer de imediato. quanto a vós, seria útil que fôsseis
falar com os condutores de camelos e lhes dissésseis que andaremos mais
depressa se eles nos ajudarem com os carros. perguntai-lhes se precisam de
alguma coisa e se sabem como é a estrada em que vamos prosseguir.

timóteo calou-se, um certo receio no olhar.

- o padre disse que há que manter boas relações com o pessoal da senhora
agnihotra. falais a língua deles, não falais?

- acho que sim, mas eles podem não querer falar comigo, por eu ser cristão.

- ah! pois bem, se é esse o problema, penso que o melhor que tendes a fazer é ir
falar com as jovens criadas e pedir-lhes que convençam os condutores de camelos.

timóteo ficou com um ar assombrado: claramente, aquela era uma perspectiva ainda
mais terrível.

- eu vou falar com os mercadores, tomás.

- muito bem. o padre vai ficar contente com a vossa coragem, timóteo. fazei o
melhor que puderdes.

- assim farei, tomás - murmurou timóteo, dirigindo-se para o meio dos camelos que
não paravam de pestanejar e de mascar a erva.

thomas conduziu a sua mula para junto da liteira. hesitou antes de tentar desmontar,
mas logo pensou que, de qualquer modo, iria fazer má figura. cerrou, pois, os
dentes, agarrou-se ao pescoço da mula e alçou a perna. para seu alívio, a mula não
se mexeu e conseguiu escorregar por ela abaixo sem cair. ficou uns momentos
apoiado à mula, até lhe passar a dor nos braços e, depois, foi sentar-se junto das
cortinas cor de púrpura.

a mulher, lá de dentro, disse, em grego:

- ah, tamas, que maravilha terem-vos mandado falar comigo! há muito tempo que
não conversávamos.

a sua voz era suave e doce como o mel. thomas ficou encantado, ao mesmo tempo,
porém, maravilhado e assustado com tal encantamento.

- e eu sinto-me muito feliz por falar de novo convosco, despoina aditi - respondeu
thomas brandamente. - espero que a viagem não seja uma tortura para vós?

- eu tenho viajado muito na minha vida, tamas. nasci numa família de caravaneiros e
estou habituada a viagens. e vós, tamas, como estais?

- menos mal, despoina, embora com alguma dificuldade. os braços não me ajudam e
o padre diz que a recuperação vai demorar.

- pobre tamas! o frade da orlem gor ainda vos atormenta?

- não, não, despoina, o padre trata-me com muita cortesia. ainda esta manhã
arriscou a vida para me salvar, quando eu caí por uma ravina abaixo. estou a ser
vigiado, mas ninguém me fez mal nenhum desde que partimos de goa.

- um frade da orlem gor salvou -vos a vida? isso é difícil de acreditar!

- eu também acho, mas o padre gonsção é de portugal, não é de goa. talvez a...
orlem gor lá seja diferente.

- não era o que bernardo me dizia. pobre bernardo. ao menos deixou este mundo
antes de cair nas garras da orlem gor.

thomas calou-se, pensando que era melhor ela não saber que bernardo de cartago
tinha, de fato, sido entregue ao santo ofício e que o seu cadáver já corrompido tinha
sido ressuscitado com o rasa mahadevi. o feiticeiro, contudo, tivera a sua vingança,
pois o seu corpo ressuscitado já não pudera sentir os tormentos do santo ofício e
logo tornara a morrer, sem que ele revelasse qualquer segredo.

- porque vos calastes, tamas?

- estava a lembrar-me de despos de cartago. ainda sinto alguma culpa pela sua
morte.

- não deveis sentir culpa. e foi melhor para ele. mas falemos de coisas mais
agradáveis. porque é que o frade gonsção foi tão simpático ao ponto de permitir que
viésseis falar comigo?

- ele mandou-me cá porque, com estes meus braços, pouco ou nada posso fazer
para ajudar as carroças a andar mais depressa e o padre tem a esperança de que
eu consiga persuadir-vos a mandar, lá abaixo, alguns dos vossos condutores de
camelos, para auxiliarem os nossos homens. aditi exclamou:

- os meus homens tentaram dissuadir os frades da orlem gor de trazerem carros de


bois, porque a estrada é muito má, mas os frades não os quiseram ouvir. a orlem gor
não confiou nos nossos mercadores e, por isso, não permitiu que os vossos
mantimentos fossem transportados pelos nossos camelos. foi esse orgulho teimoso
que vos meteu em sarilhos. nunca me passaria pela cabeça insultar os meus
caravaneiros, dizendo-lhes para ajudarem tais ingratos.

thomas pôs-se a rir.

- É curioso, despoina. o padre acha que é a vossa gente que é orgulhosa. devo
informar o padre de que vos sentis ofendida?

- se pensais que ele vos ouve, porque não? mas dissestes que éreis vigiado. quem é
que vos vigia?

- veio comigo timóteo, o rapazinho monge, mas eu mandei-o falar com os


condutores de camelos.

- quereis dizer que estamos sós? - um braço esbelto, adornado com uma pulseira
em forma de serpente a morder a cauda, deslizou por entre as cortinas. os dedos
compridos roçaram a pele do antebraço de thomas, fazendo-o estremecer até à
ponta dos cabelos. thomas inspirou profundamente:

- apenas com as vossas criadas, despoina.

- elas são os meus olhos e os meus ouvidos e são-me muito fiéis. ah, se pudésseis
entrar na liteira! há tanto tempo que não nos vemos cara a cara!

perante o que estas palavras sugeriam, o coração de thomas pôs-se a bater


desordenadamente.

- despoina, isso não seria... muito próprio. nem a vossa gente, nem a minha,
encarariam isso com bons olhos. não, não seria sensato. - nem os meus braços
permitiriam estreitar-vos como eu gostaria.

- a sensatez desaparece - disse ela meigamente - quando a beleza aparece.

- quando nos vimos pela primeira vez, despoina, não estáveis tão... deslumbrada
com a minha beleza.

- quando nos vimos pela primeira vez, eu era uma prisioneira no vosso barco e vós
ajudáveis o comandante a obter um resgate por mim.

- quando eu pedi o vosso auxílio, em goa, dissestes que eu tinha menos dignidade
do que um pária.

- sim, por vos terdes disfarçado, tamas, mergulhando na lama, estupidamente. mas,
depois disso, já provastes que sois corajoso e inteligente. poucos conseguem
escapar da orlem gor como vós.

- resta saber se consegui realmente escapar.

- hás-de conseguir, tamas.

- ajudar-me-íeis a fugir?

- não vos disse já que me juntei à caravana justamente e tão-só com esse
propósito?

thomas encostou a cabeça ao resguardo da liteira e suspirou de alegria.

- eu disse ao padre gonsção que teríamos de passar por bijapur e que, só aí,
poderíamos determinar o caminho a seguir. estais disposta a interceder por mim
junto do sultão de bijapur, no sentido de me proporcionar um refúgio, tomando-me
ao seu serviço?

- sem dúvida, se é isso o que desejais. mas eu julgava que queríeis seguir uma via
mais espiritual, eu julgava que queríeis encontrar a mahadevi e ouvir os seus
ensinamentos.
chocado, thomas apercebeu-se que se havia enredado numa armadilha. ele
conseguira obter a ajuda de aditi, em goa, afirmando que o feiticeiro bernardo de
cartago o convencera a encontrar a misteriosa deusa, ”cujo nome é força”, e a
aprender os segredos do rasa mahadevi, o ”sangue da deusa”, como chamavam ao
pó maravilhoso.

- sim, sim - disse thomas -, é isso que eu desejo. mas, primeiro, temos de nos ver
livres do padre e dos seus homens, não é verdade? em bijapur, o sultão dispõe do
poder de os mandar embora. uma vez livre deles, poderei continuar a minha
desejada viagem. - a qual tende mais para a minha pátria do que para a procura de
vias espirituais.

houve uma prolongada pausa por detrás das cortinas da liteira.

- pois claro. sem vós, o frade não consegue encontrar o rasa mahadevi, pois não?

- acho que não.

- há alguma dúvida disso?

- ele tem o mapa de de cartago.

- ele tem um mapa? - o braço de aditi desapareceu para dentro da liteira como se
tivesse apanhado um escaldão.

grande estúpido, para quê dizer-lhe?

- serenai, despoina. É apenas um pedaço de papel com uns símbolos e o padre não
consegue interpretá-los. por isso é que eu fui integrado na expedição.

- como é que ele conseguiu esse mapa?

thomas suspirou, pensando na grande volta que a conversa dera, passando do amor
para a intriga.

- de cartago entregou-me para que eu o guardasse, quando fomos aprisionados


pelos piratas árabes. infelizmente, quando fui capturado e levado para o santo ofício,
tiraram-me a roupa toda, revistaram-na e encontraram o mapa.

- mas vistes esse mapa e sabeis que é ilegível?

- não, quem mo disse foi de cartago, tendo-me explicado alguns dos símbolos.

thomas ouviu, atrás da cortina, uma torrente de palavras estranhas que deviam ser
vociferadas maldições.

- perdoai-me, despoina, se vos afligi - exclamou thomas, a sua atenção subitamente


atraída por lockheart, que se aproximava a cavalo.
- se me afligistes? na verdade, tamas, não percebeis nada!

- desculpai, despoina, mas vem aí alguém que conhece esta língua. já não podemos
falar à vontade.

- ah!

- olá, thomas!

desmontando, o entroncado escocês dirigiu a thomas um sorriso de cumplicidade.

- meu amigo, se tratas de diplomacia íntima com a senhora, é melhor despachares-


te. o padre recuperou a sensatez e decidiu distribuir a bagagem pelos cavalos e
pelas mulas, para acelerar a viagem. o que me conduz à minha missão: venho
buscar a tua mula.

- a mula não é minha - disse thomas -, podeis levá-la à vontade. e podeis levar,
também, o burro do timóteo.

- eu não gosto de rapazinhos, tom. thomas corou e exclamou:

- sabeis perfeitamente o que eu quero dizer, andrew. o padre ficaria escandalizado,


se vos ouvisse. que raio de monge fala assim?

- estou cada vez mais farto deste hábito - suspirou lockheart. - nele, um homem não
se sente um homem.

- que fala esquisita é essa que eu ouço? - soou a voz de aditi, num latim arranhado e
partido. - eu não entendo o que dizeis. por favor, respeitai uma mulher velha e não
troceis de mim.

lockheart sorriu para thomas e explicou:

- desculpai-nos, domina agnihotra, mas nós falávamos a nossa língua pátria. deve,
sem dúvida, soar-vos estranhamente.

- parece o silvo das serpentes cuspideiras.

- eis uma descrição muito... pitoresca, domina. thomas ouviu o som de passos
rápidos e viu surgir o irmão

timóteo, por detrás da liteira.

- irmão andrew, as carroças já aí vêm?

- muito em breve, irmãozinho. mas precisamos do vosso burro e da mula de thomas.

- eu vou regressar convosco e ajudar-vos. não estou a fazer nada aqui: os


condutores correram comigo e os camelos cospem-me em cima.
lockheart desatou a rir:

- tenho muita pena, irmão timóteo, mas o padre gonsção insiste em que fiqueis. e
recomenda-vos que não invoqueis constantemente a intercessão dos anjos, pois
eles podem ficar cansados e não vos acudir em verdadeira aflição. deveis ficar e
cuidar de mestre chinnery, que nós, em breve, estaremos aqui.

com um suspiro de frustração, timóteo sentou-se no chão, ao lado de thomas.


lockheart dirigiu-se até onde as criadas de aditi haviam amarrado o burro e a mula,
pegou-lhes nas rédeas, montou a cavalo e, com uma saudação jovial, seguiu
montanha abaixo.

- quem está aí, agora? - perguntou aditi no seu latim arranhado.

- só eu e o jovem irmão timóteo, domina agnihotra respondeu thomas.

- hum! deixai-me, então, quero descansar. thomas sentiu um aperto no coração.

- decerto, domina, se assim o desejais. bem, timóteo, que vamos nós fazer? vistes
algumas ervas interessantes, aqui próximo?

- não vi, não, thomas, mas posso ajudar-vos a procurar.

- então vamos lá.

timóteo ajudou thomas a erguer-se e lá foram os dois.

aditi abraçou os joelhos e deixou o pensamento vogar, como vixnu vogou no mar
para trazer a amrita, a bebida imortal. está tudo muito mais complicado do que eu
imaginara. terei de matar, também, o frade da orlem gor? tateou o cabo do punhal
que tinha à cintura. É já uma infelicidade ter de matar o belo tamas.

estava surpreendida por ter acreditado que o inglês desejava sinceramente ouvir os
ensinamentos da mahadevi. será a solidão? de fato, tenho-me sentido só depois da
morte de bernardo. eu não o amava, mas ele era um bom companheiro. terei feito
mal em ter preferido o meu dharma em vez de uma vida com ele? talvez ainda
estivesse vivo, se eu tivesse procedido de outra maneira. mas como podia eu
abandonar tudo o que conhecia, tudo o que estava destinada afazer, por um homem
a quem não amava? seria isso muito diferente do resto da minha vida?

afinal, tinha nascido nômade, numa família de caravaneiros do rajastão. aos seis
anos, já sabia montar um camelo, falava já quatro línguas e tinha visto mais de sind
que muitos príncipes e conquistadores. e, aos sete anos, a família juntara-se a uma
caravana rumo a calcutá, através do decão. a caravana fora assaltada por bandidos
que chacinaram toda a gente, exceto aditi, que se escondera num buraco, no meio
das rochas.

no dia seguinte, vagueara, sozinha, atrás de um camelo que escapara à rapina,


como, muitas vezes, o pai a aconselhara a fazer, se se perdesse. o camelo
conduziu-a a uma aldeia junto de um rio amplo e escuro. os aldeãos ficaram tão
espantados ao verem aparecer do descampado uma rapariguinha sozinha, ademais
uma criança de olhos cinzento-azulados - não tão raros no rajastão, mas nunca
vistos no decão - que a consideraram uma dádiva dos deuses. puseram-lhe o nome
de aditi, como a deusa do céu, e levaram-na para a montanha sagrada, bhagavati, a
morada da mahadevi.

e, assim, aditi crescera à guarda de uma deusa, uma mulher de que apenas via a
sombra atrás de um biombo, pois, ver a cara da mahadevi significava a morte. as
suas aias eram duas mulheres velhas que afiançavam que eram velhas desde
sempre. ensinaram-na a falar, a ler e a escrever a sua língua, o helênico, e, bem
assim, muitas outras coisas que nenhuma outra rapariga hindu tinha o privilégio de
aprender. e, quando chegou à idade própria, aditi foi, de novo, enviada para o
mundo, para ser os olhos e os ouvidos da mahadevi e a sua mensageira. desde
então, aditi viajara por todo o sind ocidental, venerada e respeitada pelos que a
recebiam e temida e evitada por outros. sempre, porém, uma estranha, numa terra
onde os laços de família e de casta interferiam em tudo.

excelsa mãe, que devo fazer? quem dera que tamas não me tivesse seguido em
goa, para me pedir ajuda! quem dera que eu não o tivesse socorrido! quem me dera
que eu não tivesse sentido que as nossas vidas estão, de algum modo, unidas numa
finalidade sublime!

mas ele mente-me. sinto isso na sua voz. segundo diz, é ervanário e curandeiro.
procura, talvez, o rasa mahadevi por interesse próprio. se ele estivesse sozinho, eu
poderia levá-lo à mahadevi e, fossem nobres as suas intenções, ela ensina-lo-ia,
destruindo-o, se não fossem. mas eu não posso deixar o frade da orlem gor
descobri-la: seria terrível a destruição que ela causaria, uma vez desperta a sua ira.

talvez tamas só pense em fugir e em voltar à pátria. mesmo assim, ele poderia falar
do rasa mahadevi aos da sua nação e viriam exércitos em sua busca. bernardo
dizia-me que todos os ingleses são bárbaros, mentirosos e ladrões. e, se calhar,
tinha razão.

capítulo vi

cornalina: a esta pedra, de um vermelho-claro, grandes méritos já lhe atribuíam os


antigos, usando-a nos sinetes e colocando-a ao pescoço dos mortos. e achavam
que desfazia as feitiçarias e afastava os pesadelos e os fantasmas. a cornalina
protege dos tremores de terra e cura as doenças dos pulmões e dos dentes. diz-se
que o profeta dos maometanos usava um anel com esta pedra e, por isso, para os
seguidores desta crença, a cornalina é sinal de paz no meio da desordem, apazigua
a ira, imprime dignidade e confere coragem nas batalhas...

omirzá akbarshah olhou para o firmamento estrelado em busca de um sinal do céu.


rãs ai ghul, a estrela do demônio, parecia lançar sobre ele a cintilação avermelhada.
oh, misericordioso, não permitas que a rãs ai ghul influencie a nossa empresa.

havia uma aldeia por detrás das colinas rochosas diante deles. os batedores tinham
regressado referindo que os aldeãos se recusavam a falar-lhes e a oferecer-lhes
hospitalidade. pois bem, o shahinshah deseja que o seu poder seja conhecido no
decão e os meus homens estão a ficar desassossegados, tal como os cavalos. É,
pois, chegada a altura de os largar. que alá, o que tudo perdoa, me acompanhe e
me faça justiça.

desembainhando o comprido sabre talwar, o mirzá ergueu-o bem alto, para que os
homens o vissem. a luz dos archotes brilhou no aço, iluminando a inscrição na
lâmina: ”aquele que não ouve os avisos do clemente fará companhia ao diabo.”

entre os homens reunidos em redor do elefante estabeleceu-se uma ansiosa


quietude.

- alá akbar - gritou o mirzá, apontando o sabre para a frente.

a resposta foi um urro sinistro, como se uma horda de gênios se visse libertada do
cativeiro. houve um torvelinho de cavaleiros à volta do elefante, tal rochedo no meio
de uma corrente caudalosa, as crinas dos cavalos parecendo água aspergida. o
mirzá suspirou, pesaroso por não cavalgar com eles.

em vez disso, o seu elefante avançou lentamente para a aldeia, atrás dos cavaleiros,
estes desfazendo a frágil paliçada, tal vaga de carne e de aço. os pequenos aldeãos
de pele escura saíam a correr das miseráveis choupanas, os cavaleiros furando com
as lanças as paredes de palha e lama amassadas. ”cá para fora, cá para fora,
miseráveis párias!”, gritavam os cavaleiros, ”vinde conhecer os vossos amos!
observai o poder de alá e tremei!”

os infantes entravam nas choupanas e arrastavam para fora os que ali


permaneciam, escondidos ou a dormir, levando-os para o centro da aldeia, onde já
ardia uma fogueira, com os restos da paliçada e pedaços das choupanas. os
aldeãos amontoavam-se em grande desordem, ansiosamente juntos, a sua pele e
as jóias douradas brilhando à luz da fogueira. olharam para o mirzá montado no
elefante, quando este se dirigiu para eles, os olhos aterrorizados e bem abertos.

o elefante parou e o mirzá olhou para eles uns momentos, perguntando-se que
segredos se ocultariam por detrás daqueles olhos. fora eu um verdadeiro soldado da
fé, agarraria cada um destes pagãos pelo pescoço e, encostando-lhe o sabre, dir-
lhe-ia ”aceita alá como único deus, ou morres! mas, ali, não se tratava de guerra
santa, por muito que os seus homens o desejassem. tinha de obter outras coisas
daquela gente. as suas almas iam ter de esperar.

debruçou-se do howdah e gritou para baixo:

- em nome de alá, o clemente, o onipresente, e do seu servo o shahinshah allahu


akbar, o magnífico, califa e senhor do sind, eu vos saúdo.

um dos infantes traduziu estas palavras para a língua bárbara dos aldeãos, mas a
resposta foi um profundo silêncio. aos ouvidos do mirzá chegavam apenas o estalar
da fogueira e os lamentos de um infante estafado.

- pareceis espantados com a nossa chegada - continuou akbarshah -, contudo,


enviámo-vos mensageiros a anunciar a nossa chegada. talvez não tivésseis
acreditado neles quando falaram do nosso poder, mas, agora, já o vistes, agora,
tendes de acreditar no poder de alá. não deveis, porém, ter medo de nós. nós vimos
como portadores da verdade e procuramos a verdade. trazemo-vos a lei da Única e
pura fé e a palavra do esplendente profeta. de vós, procuramos informações acerca
de uma grande rani que vive algures nesta região. uma rainha que dizem imortal e
que detém o poder da vida e da morte.

os aldeãos olharam uns para os outros, mas permaneceram calados. jaimal avançou
e picou alguns aldeãos com a ponta da lança:

- falai, é o nosso mirzá que vos ordena!

o mirzá ergueu a mão e ordenou a jaimal que recuasse.

- qualquer um que nos fale dessa lendária rainha cairá no meu agrado e conhecerá
a generosidade do shahinshah akbar. eu darei vinte moedas de prata a quem nos
disser o que pretendemos saber.

os aldeãos começaram a murmurar entre eles. akbar reparou que, mesmo perante
uma calamidade, eles se dividiam em pequenos grupos, os mais bem vestidos
separados dos esfarrapados. como se agarram às castas, sem consciência de que,
aos olhos do Único, são todos iguais. alguns dos mais pobres pareciam inclinados a
falar, mas percebia-se que eram impedidos pelos vizinhos.

- pois bem, falei-vos da clemência e da generosidade de sua majestade imperial


akbar. agora, dou-vos notícia da sua ira. se nada me disserdes, queimaremos a
vossa aldeia e vós sereis enviados, em grilhetas, para norte, para o seu império. e,
quem resistir, morre.

do meio dos aldeãos, de braços erguidos para o mirzá, irrompeu uma lamúria de
protestos e pedidos de misericórdia. alguns caíram de joelhos, implorando.

- silêncio! - berrou o mirzá. - que ninguém fale, a não ser para me dizer o que eu
quero saber.

a lamúria, porém, continuou e ninguém avançou para falar.

- meu senhor general - soou uma voz ao lado do elefante -, peço uma palavrinha.

o mirzá olhou para baixo e viu o sufi, masum, encostado ao arnês do elefante.

- que me quereis dizer? sede breve.

- meu senhor, peço-vos que não importuneis mais esta gente, pois eu encontrei
alguém que vos falará do que desejais.

- belo trabalho, masum. trazei-me essa pessoa.

- não posso, senhor mirzá.


- não podeis?

- pois não, senhor mirzá, temos de ir ter com ela.

- que tolice é essa?

- trata-se de uma pessoa que não é da aldeia e a sua casta não lhe permite entrar
nela. temos de ir ter com ela.

o mirzá suspirou. nunca os meus valorosos antepassados encontraram gente tão


susceptível nas suas conquistas. abriu a porta do howdah e lançou a escada de
corda. ao menos, tenho um pretexto para largar este animal deselegante.

mal os pés do mirzá tocaram no chão, jaimal aproximou-se, uma expressão inquieta
na cara.

- meu senhor, por que desceis?

- o nosso simpático sufi diz ter encontrado um destes teimosos asnos disposto a
cantar para nós, mas temos de ir algures para ouvir a sua canção. tu e fasim podem
começar a ensinar a palavra do profeta a esta gente. talvez vocês consigam iluminar
algumas almas enquanto eu estiver ausente.

jaimal franziu o sobrolho.

- meu senhor, mandai-me a mim ouvir esse asno.

- eu próprio quero ouvir a história.

- então, deixai-me ir convosco.

- receias um rapto? pois bem, vem daí. fasim dirá as preces por nós ambos e os
homens que não deixem essa gente sair donde está.

o mirzá foi ajustando o cinto do sabre, enquanto jaimal gritava as suas ordens.
jaimal, depois, pegou num tronco a arder da fogueira, para lhes alumiar o caminho, e
juntou-se a eles. o mirzá fez sinal a masum para os guiar.

o sufi não os conduziu pela estrada que atravessava a aldeia, mas sim por um
caminho que a rodeava. enquanto caminhavam, masum foi dizendo:

- meu senhor, gostava de vos recomendar uma certa contenção. serenidade é uma
grande virtude, mas é coisa rara nos homens habituados à guerra.

- o meu pai ensinou-me que não devemos matar desnecessariamente. mesmo os


descrentes podem, embora inconscientemente, servir os desígnios do altíssimo.

- É isso mesmo. o vosso pai era sábio. eu lancei os ossos por vós, esta noite, e eles
disseram-me isto: entre os portões da reflexão, na busca do santuário da felicidade,
alguém há-de encontrar a porta da devoção.
- ah! - o mirzá virou a cara, para esconder a sua embaraçosa comoção. - palavras
que dão que pensar, masum. mas onde é que está a pessoa que vínhamos ouvir?

tinham chegado ao poço da aldeia. sentada ao lado do poço, estava uma mulher,
com um sari e um xale esfarrapados, uma tigela de madeira, de pedinte, em frente
dela.

- esta é a pessoa de que vos falei, senhor.

- uma pedinte? - perguntou o mirzá.

- uma mulher? - inquiriu jaimal.

- ela é da casta ercala - explicou masum. - os homens desta casta são caçadores e
as mulheres erram de terra em terra, contando histórias e lendo a sina. esta mulher
já esteve em lugares muito longínquos desta aldeia, enquanto, os que ali vivem,
nunca de lá saíram.

- os ercalas criam porcos - disse jaimal com asco.

- e fazem cestos excelentes - disse masum.

- ergue o archote, jaimal - disse o mirzá - para a vermos bem.

a cara da mulher era severa e feia como a de um camelo. alçou o braço magro para
esconder a cara da luz do archote, mas não sem que o mirzá notasse que os seus
olhos eram pálidos e sem cor.

- ela é cega?

- eu vejo tudo o que preciso ver - disse a mulher num persa vacilante.

- como é que uma pedinte conseguiu aprender a língua dos nobres.

- eu falo com muita gente, em muitos sítios. todos querem ouvir histórias e conhecer
a sina. vós quereis também ouvir uma história, pelo que me disseram.

- tem cuidado, mulher - disse jaimal - nós queremos ouvir uma história verdadeira,
nada de falsidades.

a ercala ignorou-o:

- eu tive uma visão de vós, príncipe do norte.

o mirzá acocorou-se em frente dela, uma moeda na mão erguida, por forma a que a
luz nela batesse.

- eu tenho uma peça de ouro para a vossa tigela, se me contares essa visão.
- vós procurais uma rani que detém o poder da vida e da morte.

a mulher estendeu a mão e tocou na moeda, mas não a agarrou.

- isso não é nenhum segredo - disse o mirzá -, quero saber mais.

- ela vive escondida numa montanha de rochedos que fica para sul e para oeste.

- ah, isso já é alguma coisa.

- uns dizem que ela é um gênio do clã yoonan, outros dizem que descende do
grande iskandr. outros, ainda, adoram-na como o avatar terreno de sarasvati, ou de
lakshmi.

- continua.

- se quereis saber mais, procurai o túmulo do esquecido shahid, na cidade que


perdeu o nome. está situado na margem do rio sina.

- como é que vamos encontrar uma cidade sem nome? escarneceu jaimal. - como é
que vamos encontrar um túmulo esquecido?

- os de coração puro encontram sempre o santuário que procuram - disse masum.

- os sufis procuram santuários como os macacos procuram mangas - disse jaimal.

- isso é verdade - aquiesceu masum, os olhos brilhando ambos são bom alimento.

ignorando a disputa, o mirzá disse para a pedinte:

- tu não és da fé, contudo, diriges-nos para o túmulo de um dos nossos santos


homens?

- porque, como o shahid era da vossa fé - disse a pedinte -, vós podeis compreender
melhor o que lá virdes. mas não esqueçais, príncipe do norte, que as crenças
estranhas também ensinam os que sabem ouvir.

- É o que diz o imperador akbar.

- eu ouço muito falar da sabedoria do grande rajá akbar


- disse a mulher. - espero que ele vos tenha emprestado alguma dessa sabedoria,
pois deveis ter muito cuidado, mirzá. porque, se encontrardes a rani da vida e da
morte, encontrareis muito mais e muito menos do que procurais.

a mulher entrelaçou os dedos e meneou-os em frente da cara, como se as mãos


agarrassem um ninho de víboras. depois, escondeu as mãos, de novo, no regaço.

a moeda que o mirzá segurava desaparecera. o mirzá tirou outra da bolsa que tinha
ao cinto e deixou-a cair, tilitante, na tigela de madeira.
- agora, dizei-nos como soubestes desta história.

a mulher cobriu a cara com o xale e encolheu-se toda, tal minhoca ameaçada.

- não tenho mais nada a dizer-vos.

- como queres que te acreditemos? - disse jaimal, avançando para ela, mas o mirzá
afastou-o, calmamente.

- há circunstâncias em que é avisado não criar inimigos disse o mirzá. - depois,


dirigiu-se à ercala: - que alá, o compassivo, o clemente, te abençoe e te conduza à
sua via!

- que ganesha, o sábio, vos conceda inteligência e bom êxito, príncipe do norte.

o mirzá regressou à aldeia, cofiando a barba, pensativo.

- meu senhor - disse jaimal -, não pretendeis seguir o conselho dela, pois não?

- não sei bem, talvez. o que é que achais?

- e se a mulher estiver possuída pelo espírito do xeque saddu, o qual tenta afastar-
vos do vosso objetivo?

o mirzá riu-se.

- o xeque saddu é uma lenda, jaimal, utilizada para explicar os caprichos das
mulheres e das crianças.

- essa rani que procuramos também é uma lenda.

- não, eu acredito que há um fundo de verdade no que respeita a essa rainha: há


muita gente que fica cheia de medo quando perguntamos por ela. o que é, masum?

o místico seguia os calcanhares do mirzá, humildemente tentando chamar-lhe a


atenção.

- acho que devíeis fazer o que a ercala disse, meu senhor.

- e porquê?

- porque ela nos aconselhou a procurarmos o túmulo de um shahid e, para um sufi,


essa via conduz sempre ao conhecimento.

- mas a mulher não era uma sufi - disse jaimal.

- alá pode exprimir-se em inúmeras línguas.

- e os demônios também.
- basta! - exclamou o mirzá. - vem aí alguém. apareceu, correndo para eles, um
soldado, com um archote

na mão.

- senhor general, o brâmane da aldeia não permite que preguemos para os aldeãos
e está a pô-los a orar aos deuses pagãos. e afirma-nos que os seus deuses vão
fazer um milagre e destruir-nos.

o mirzá suspirou.

- estão a desafiar-nos. pois bem, traz-me lá esse brâmane - disse o mirzá,


caminhando para junto da fogueira.

o soldado fez uma reverência e correu à frente dele.

- vamos matá-los todos, meu senhor? - perguntou jaimal.

- cuidado, grande mirzá! - exclamou masum.

- eles rejeitaram a palavra do profeta!

- como o próprio mirzá disse há pouco, não se devem causar mortes


desnecessárias. se esta gente for massacrada, serão todos enviados a satã, sem
salvação. quanto mais tempo viverem, mais oportunidades haverá de os seus
corações encontrarem a via de alá.

uma vez mais, o mirzá, ereto junto da fogueira, ignorou a discussão deles. o
brâmane foi trazido à presença do mirzá e forçado a ajoelhar-se a seus pés, à vista
dos aldeãos.

os olhos do brâmane, quando ergueu o olhar para o mirzá, exprimiam uma serena
desconfiança.

- tu recusaste a Única verdadeira fé?

o brâmane murmurou uma longa declaração, assim traduzida para o mirzá:

- nós não aceitamos que a vossa via seja a da verdade. vós sois mlecch, não sois
limpos. nós não aceitaremos nada de vós. quem sois vós para dizer que mahadeva
só tem um rosto e que só vós é que o vedes? o vosso orgulho desencadeará a ira
de devadurga sobre vós.

o mirzá desembainhou o sabre e encostou a lâmina ao pescoço do brâmane, ao


mesmo tempo estendendo a mão esquerda, a palma para cima:

- masum, dai-me uma mancheia de terra.

o sufi baixou-se, apanhou do chão uma mancheia de areia e despejou-a na palma


da mão do mirzá.
o mirzá, então, levantou a mão mais alto e exclamou:

- observai a clemência do shahinshah akbar e do Único e verdadeiro deus que ele


serve. eu podia decepar a cabeça deste homem, mas não o vou fazer.

e afastou o sabre do pescoço do brâmane, ouvindo, atrás de si, um suspiro de


decepção.

- jaimal, abre-me a boca deste pária.

enquanto dois soldados manietavam o brâmane, jaimal agarrou-se-lhe aos queixos e


forçou-o a abrir a boca. o mirzá, então, num gesto rápido, enfiou a mancheia de terra
na boca do brâmane.

- dou-te terra a comer porque só dizes imundícies e, aos olhos do Único, do


compassivo e clemente, não passas de uma imundície. segundo a lei de akbar, tu e
o teu povo passam a ser dhimmi. vamos deixar-vos seguir a vossa crença pagã,
mas vão pagar por isso, posto que não mostraram respeito e consideração pelo
fidedigno. jaimal, que os homens tomem metade do ouro desta gente e que
queimem os seus santuários, para que se apercebam que não há milagre que os
salve. jaimal inclinou a cabeça, sorrindo:

- será feita a vossa vontade, meu senhor - disse ele e pôs-se a gritar as ordens do
mirzá para os homens, com grande satisfação.

enquanto os homens começavam a apossar-se dos bens dos aldeãos, o mirzá


acrescentou:

- tirem apenas metade do que possuem, mas se algum se recusar, matai-o.

e logo se afastou da fogueira, ansioso por distanciar-se dos gritos das mulheres e
das crianças.

capítulo vii

rubi: a esta pedra preciosa, de cor carmesim, atribuem-lhe muitas virtudes curativas.
reduzida a pó e misturada com vinho estanca as hemorragias, limpa o sangue e
reduz as febres altas. os hindus acreditam que usar rubis reforça a coragem e a
firmeza, aumentando o poder de decisão. protege, também, a casa de quem os usa
das tempestades e permite que uma pessoa se sinta à vontade no meio de inimigos.
uma gema clara e polida de rubi torna-se escura e manchada para avisar que um
perigo se aproxima...

a sultana chand bibi fez por ignorar as dores nas coxas, nas ancas e nas costas.
sentira uma serena satisfação com o espanto dos criados ao vê-la aparecer
repentinamente no anand mahal, o palácio das delícias de ibrahim, apresentando-se
perante o velho mordomo que tão bem a conhecia, dos tempos em que o marido
dela governara bijapur. saudara-o bruscamente, exigindo ser levada à presença do
estimado sobrinho imediatamente, sem ser anunciada.
olhava, agora, através de um biombo entrelaçado, para uma varanda,
luxuriosamente guarnecida de almofadões e de espessos tapetes, sobre os quais se
viam grandes travessas de frutos secos e de acepipes. o sultão ibrahim adilshah ii
estava sentado no chão, de pernas cruzadas, vestido simplesmente, com uma jama
azul, bordada a ouro e prata, e umas calças shalwar, de seda púrpura. tinha no colo
um pequeno tambor que fazia soar com os dedos, os olhos fechados, em êxtase.

sentado ao lado dele, um músico cego dedilhava uma balada, um dos corpos da
vina no colo, o outro corpo, no outro extremo do braço da vina, apoiado no ombro.

ukha olhou para a sultana, como se dissesse: Ӄ assim que o douto ibrahim governa
o seu reino?”

- na verdade - murmurou chand bibi, com um sorriso ele não deve ter sido varredor
numa vida anterior, como proclama, mas sim músico.

a balada terminou e ibrahim suspirou:

- É uma maravilha, gandharva. tens de ensinar-me. quero incluir a sua transcrição


no meu livro.

- honrais-me por de mais, majestade - disse o cego, inclinando a cabeça.

- sim - disse chand bibi, surgindo de trás do biombo ele exagera.

- minha querida tia! - exclamou ibrahim, o tambor caindo-lhe dos joelhos.

embora um bem constituído e belo homem de vinte e sete anos, naquele momento o
sultão parecia uma criança apanhada numa travessura.

- meu querido sobrinho - disse chand bibi, com uma inclinação da cabeça - é bom
ver-vos, depois de tanto tempo. saudações para ti, gandharva.

- É um prazer ouvir de novo a vossa voz, grande sultana - disse o músico,


inclinando-se sobre a vina.

ibrahim depressa se recompôs.

- e, para mim, é, também, um grande prazer ver-vos de novo, embora dificilmente


vos reconheça nessa vestimenta guerreira. deixai-me adivinhar: o vosso exército
cerca as muralhas de bijapur e viestes recuperar o reino do meu falecido tio.

chand bibi deu uma gargalhada:

- não, meu querido ibrahim, para governar, basta-me um sultanato. e já é muito.

com um suspiro e um resmungo, sentou-se, de pernas cruzadas, e fez um gesto a


ukha, para fazer o mesmo.
- na verdade, minha querida tia, sinto-me muito feliz por ter-vos aqui. se quereis
saber, passei todo o dia de ontem em audiência, ouvindo as mais mesquinhas
petições, mercadores a discutirem os espaços nos bazares, soldados a queixarem-
se de que os pobres constroem casas junto às muralhas, pobres a pedirem para
construir mais, mestres a lastimarem-se de que a uma escola rival foram permitidos
mais estudantes. que o céu me acuda!

- meu pobre ibrahim - disse chand bibi com gentil ironia -, os suplícios que
enfrentais!

- o que torna a vossa inesperada visita ainda mais agradável. embora eu me


interrogue qual seja o motivo dela, a menos que desejeis assegurar-vos de que eu
não ando a desonrar a família com uma conduta dissoluta?

- lamento que haja um motivo, e preocupante, meu sobrinho. trago-vos uma


mensagem urgente que achei dever ser eu própria a comunicar-vos.

ibrahim cofiou a barba bem tratada.

- deve ser uma mensagem deveras importante, para correrdes o risco de não
encontrar o vosso reino, ao regressardes.

- se o que eu receio vier a acontecer, perderemos ambos os nossos reinos. e muitos


outros no decão.

a expressão de ibrahim ficou, subitamente, séria.

- então, por favor, falai claramente, como clara é a água do poço com o vosso nome.
gandharva, acho que deves sair.

- não, ele pode ficar - disse chand bibi. - ainda me lembro dos dias em que
gandharva alegrava a minha corte. e estou em dívida para com ele pelo seu talento
e pelos seus conselhos judiciosos. e pelos da sua protetora.

gandharva permaneceu sentado, muito atento.

- e quanto à vossa guardiã? - perguntou ibrahim, olhando para ukha.

- ela tem conhecimento do que se trata e é digna de toda a confiança.

- eu sirvo vossas majestades em todas as circunstâncias disse ukha, fazendo uma


reverência.

- muito bem - disse ibrahim. - fazei-me, então, saber, querida tia, as terríveis
notícias.

- o shahinshah enviou uma força ao decão. essa força passou por ahmadnagar e
dirige-se agora para aqui, para bijapur. estão a poucos dias daqui.

ibrahim abanou a cabeça, pensativo.


- não é coisa que não esperássemos. como é essa força?

- não é muito grande. apenas uns cem cavaleiros e uns quinhentos homens.

- só isso? que loucura! a menos que seja uma pequena força de diversão, enquanto
o grosso do exército ataca noutro lado.

- noto que o vosso tio conseguiu ensinar-vos alguma coisa da arte da guerra. mas
não, esta pequena força não veio atacar-nos. a missão do mirzá ali akbarshah, o
general que a comanda, é de paz, ameaçadora, contudo, nas suas implicações.

- minha mui estimada tia, acho que falais por enigmas.

- escutai-me com atenção: este general anda à procura de lendas.

ibrahim ergueu os sobrolhos. chand bibi continuou:

- ele procura uma rani imortal que vive numa cidade oculta, inexpugnável. uma rani
com poderes de vida e de morte.

- estou a perceber.

ibrahim respirou fundo e gandharva aspirou o ar por entre os dentes.

- ele sabe que ela está algures no decão e pergunta a toda a gente que encontra se
têm notícia dela.

- ah! - exclamou ibrahim. - ele que a encontre, então. ela dará conta dele e dos seus
homens num instante, não é assim, gandharva?

- por favor, majestade - disse gandharva -, invocar a ira da mahadevi só pode


conduzir a maiores desastres. grande sultana, sabeis dizer-me como é que o
shahinshah teve notícia dessa... lenda?

- se for verdade o que o mirzá me disse - esclareceu chand bibi -, akbar terá tido
uma crise de consciência, durante a qual falou com muitos místicos. eventualmente,
um deles sabia da existência dela.

- ou tinha ouvido histórias em segunda ou terceira mão disse ibrahim.

- talvez - disse chand bibi -, mas ouçam o que eu temo. e se o mirzá a convencer a
estabelecer uma aliança com o paxá imperador akbar, prometendo-lhe muito mais
influência do que a que os nossos pequenos reinos podem oferecer? e se ela lhe
oferecer a sua dádiva? já imaginaram um imperador do sind imortal, com um
exército imortal?

- nenhum reino do decão escaparia - murmurou ibrahim.

- gandharva, achais isto possível?


- não sei dizer - disse o músico, suspirando - qual seria a atitude da mahadevi, mas
não acredito que abandonasse os que lhe são leais.

- não é altura para expressões obscuras.

- desculpai-me, majestades. - gandharva colocou a vina ao seu lado e encostou a


testa ao chão. - há, porém, uma coisa de que tenho conhecimento e de que devo,
agora, dar-vos parte.

- ocultaste-nos alguma coisa? - perguntou ibrahim.

- fi-lo porque pensei que não era assunto de grande preocupação, mas o fato é que
o mirzá não é o único que se dirige a bijapur em busca da mahadevi.

ibrahim franziu o sobrolho.

- explica-te.

- está a chegar uma caravana de goa, com frades portugueses da orlem gor.

- o que é essa orlem gor? - perguntou chand bibi.

- pelo que tenho ouvido dizer - disse gandharva -, é considerada uma casa sagrada,
mas os goeses têm medo dela. É como um templo de cáli: prendem lá pessoas que
nunca mais aparecem, ou que libertam aleijados ou loucos, proibindo-os de falar do
que lá viram. talvez seja o local onde eles fazem os sacrifícios ao seu deus cristo,
mas ninguém fala do que lá acontece, com medo de serem presos e lá torturados.
parece que um crente da mahadevi foi para lá levado e que foi torturado até revelar
o seu segredo.

- parece incrível! - disse chand bibi. - tenho ouvido histórias medonhas a respeito
dos portugueses, mas essa ultrapassa tudo.

- não é para admirar - disse ibrahim -, já que o seu símbolo mais sagrado é o seu
profeta pregado em dois pedaços de madeira, com espinhos na cabeça e uma ferida
no peito. e os frades falam mesmo do seu ”sacrifício”. eu sempre suspeitei dos seus
rituais bárbaros, embora os poucos frades com quem tenha falado sempre o
negassem com veemência.

- e esses bárbaros estão a chegar a bijapur! - exclamou chand bibi.

- porque não me contaste isso antes? - perguntou ibrahim.

- porque é possível que não cheguem cá e eu não quis inquietar-vos


desnecessariamente.

- queres dizer que são uma boa presa para os bandidos da estrada?

- por exemplo. e porque vêm acompanhados por alguém que serve a mahadevi,
como eu. creio que conheceis sri aditi?

- ah! - exclamou ibrahim, sorrindo.

- quem é essa aditi? - perguntou chand bibi.

- conheci-a há anos atrás - disse ibrahim. - tinha os olhos mais lindos que eu jamais
vira. eu era, então, um jovem príncipe e achei-a maravilhosa. tê-la-ia convidado para
o meu harém, mas não me atrevi. ela era adorável como uma pequena serpente e,
quem sabe, talvez igualmente mortífera. quando aqui esteve, havia um jovem clérigo
xiita que ameaçava opor-se à construção do meu templo ao avatar da mahadevi,
sarasvati. aditi convidou-o a visitá-la, aparentemente para o converter, mas o clérigo
nunca mais foi visto, nem ouvido, desde então. por vezes, ponho-me a pensar se...
mas isso não interessa.

- e resta-nos a esperança de que essa criatura afaste daqui os goeses? - disse


chand bibi. - se ela falhar, meu caro sobrinho, tereis de haver-vos com os bárbaros e
com os mongóis!

- É verdade. tenho de preparar-me para essa eventualidade. ibrahim afagou a barba


e olhou para os desenhos do tapete.

- É como o meu mestre, xá sigbat allah, me dizia. ele dizia-me que a minha
propensão para conhecer os costumes dos pagãos me iria trazer dissabores. não
devia tê-lo mandado embora de bijapur, mas foi ele que começou com aquele
protesto, com o xiita...

- sobrinho - disse chand bibi, friamente - não é altura para divagações. chamam-vos
aqui, no vosso reino, abale bali, o defensor das mulheres. É, pois, chegado o
momento de mostrar-vos, de novo, digno desse nome, defendendo uma deusa.

- tendes razão - disse ibrahim, levantando-se e apertando as mãos uma na outra. -


tendes razão, isto é um sinal, é uma prova. É chegada a altura de retribuir a sua
generosidade.

- que ireis fazer, majestade? - perguntou gandharva.

- se eles cá chegarem, vou recebê-los, é evidente. vou saber o que eles querem e,
se possível, desencorajá-los. - ibrahim fez uma pausa. - e destruí-los, se necessário.

- ides receber os frades de goa? - perguntou chand bibi. julgava que detestáveis os
portugueses.

- e detesto. mas alguns dos nossos mercadores mantêm comércio com eles, de
cavalos, especialmente. não me oporei abertamente ao emissário, a menos que ele
a isso me obrigue. todavia, se me oferecerem mais um dos seus livros sagrados,
incrustado com pedras preciosas, juro que o desfaço em pedaços e os espalho aos
quatro ventos.

- o mirzá pode ficar ofendido com a vossa cortesia para com os heréticos - disse
chand bibi.

- eu tenho muitos palácios. eles podem mesmo não ter notícia da presença uns dos
outros. contudo - ibrahim fez uma pausa, erguendo as mãos -, pode até ser
divertido, se, acaso, vierem a encontrar-se.

- tende cuidado, majestade - disse gandharva - que o ódio e o desprezo destes


frades de cristo pelos seguidores do islão não tem limites.

- exatamente! - disse ibrahim. - e são pagos na mesma moeda: os do islão odeiam


os cristãos. e esse ódio mútuo - um sorriso matreiro surgiu-lhe no rosto - pode ser a
chave da sua destruição. minha tia, dais-me o prazer de assistir a isso e de me
aconselhardes. a vossa presença seria muito bem-vinda.

chand bibi suspirou e levantou-se, aumentando o desconforto dos músculos


doloridos.

- quem me dera, ibrahim, mas não posso ficar. neste momento, posso já ter sido
desapossada de ahmadnagar e, por isso, tenho de regressar rapidamente. espero,
tão-só, que os meus gananciosos filhos não tenham dado pela minha ausência e
que o príncipe murad continue entregue ao estupor das suas bebedeiras. tereis de
enfrentar a situação sozinho, mas se lhe dedicardes tanta inteligência como a que
dedicais à música e à poesia, não fracassareis.

thomas olhou para fora do pequeno e elegante pavilhão, para as nuvens lá em


baixo, imaginando-se uma divindade hindu no seu paraíso privado. bebericava, de
uma taça de porcelana, uma bebida chamada char-bakhra, uma mistura de vinho de
palma quente e sumo de limão, adoçada com açúcar. achava a bebida muito
agradável e as dores nos braços pareciam-lhe tão distantes como a pátria.

no cimo da passagem ramghat, um hindu piedoso e abastado construíra um refúgio


para os viajantes. ali parara a caravana goesa, para reparar os carros de bois e
conceder, a homens e a animais, alguns dias de merecido descanso, depois dos
rigores da viagem.

perto de thomas, estava o padre gonsção, sentado e todo embrulhado numa manta,
o olhar mortiço, o rosto pálido, cheio de febre desde a véspera. não bebia vinho,
mas sim conjee, um caldo de arroz e água. era tudo o que conseguia engolir e
conservar no estômago. thomas esperava que o ar frio e seco da montanha, tão
revigorante depois do ar úmido e insalubre da selva, permitisse a recuperação do
padre, coisa que, até então, não acontecera.

- ilusão vil - murmurou o padre, em latim - falsa tentação, ide-vos.

- o que foi, padre?

gonsção pestanejou e olhou para cima, para thomas.

- desculpai-me. pareceu-me ver uma criatura de asas brancas a acenar-me por entre
as nuvens, como que a chamar-me para o paraíso.
- É, apenas, um sonho provocado pela febre, padre.

- ou um agouro.

- não deveis pensar nisso. timóteo ainda não encontrou ervas para vos tratar? ele
sabe mais das ervas daqui do que eu.

o padre fez que não com a mão.

- eu não vou tomar nenhuma dessas vossas ervas doentias e entorpecentes. só a


oração, mestre chinnery, me poderá curar. se assim não for, então... seja feita a
vontade de deus!

- deus tem permitido ao homem obter algum conhecimento sobre os meios de


recuperar a saúde. não quereis aceitar a ajuda humana? mas deveis lembrar-vos da
importância da vossa missão, padre. nosso senhor não se oporá, certamente, a que
utilizeis meios razoáveis na vossa recuperação.

- hum - o padre gonsção apertou melhor o cobertor em volta dos ombros. - talvez
uma sangria, se for caso disso. sois hábil com a lanceta, mestre chinnery?

- já a tenho usado, mas não considero as sangrias muito eficazes - disse thomas
num suspiro.

a bordo do the bear’s whelp, depois da morte do cirurgião, thomas praticara a


sangria, em quem lha pedira. embora, num ou noutro caso, se tivesse verificado
uma certa recuperação, na maioria dos casos a sangria parecia ter, apenas,
provocado uma morte mais célere.

os olhos do padre pareciam olhar para o além.

- quero pedir-vos uma coisa, mestre chinnery. como vos disse, eu acho que, se
confiarmos numa pessoa, ela mostra-se digna dessa confiança. o irmão timóteo,
decerto já notastes, confia muito em vós. ele é muito receptivo, mas muito ingênuo,
também.

thomas não sabia o que dizer, por isso aguardou.

- se eu... não puder prosseguir na nossa busca - continuou o padre - timóteo vai,
naturalmente, pedir a vossa orientação. ele sente-se menos à vontade com o irmão
andrew, por ele ser de uma ordem diferente da nossa e ser muito palavroso. por
isso, mestre chinnery, peço-vos que sejais um guardião para o rapaz. protegei-o dos
modos rudes dos soldados. deixai o vosso bom senso guiá-lo e a pureza de espírito
dele guiar-vos a vós.

- não deveis falar assim, padre. deus velará certamente para que recupereis a
saúde.

o padre, ou não ouviu, ou, simplesmente, ignorou as palavras de thomas.


- e, entre as minhas coisas, há uma prenda para o sultão de bijapur. deveis
encarregar-vos de lha entregar e de não permitir que a roubem. É uma bíblia linda,
encadernada em prata, por um dos melhores artesãos de lisboa, incrustada com
pedras preciosas, escolhidas pelo próprio joalheiro do rei filipe. as iluminuras são
dos mais hábeis escribas dominicanos. tendes de assegurar-vos de que o sultão a
recebe.

- tenho a certeza de que ele a receberá com muito prazer, quando vós próprio lha
entregardes em mão. não faleis mais da morte, que ela pode bater-vos à porta.
como físico, é o que vos aconselho.

e thomas pôs-se, de novo, a olhar lá para fora, por sobre as nuvens.

o que é que me interessa que ele viva ou morra? talvez fosse melhor para mim se a
febre o levasse. não, agora não, aqui não! ficavam ainda os soldados e não me
apetece nada ser a ama de timóteo, nem o chefe desta maldita expedição. mais vale
que ele aguente até bijapur, onde as possibilidades de escapar são melhores. e
trata-se de um homem, não obstante o que possa ter feito. não tenho a alma tão
empedernida a ponto de desejar a morte de um homem.

thomas sentiu um puxão na manga e, voltando-se, viu o padre a olhar para ele com
uma intensidade inquietante.

- mas há mais, meu filho. confesso que não sei bem quais as vossas intenções no
que respeita à nossa busca, mas sinto que, acima de tudo, sois um homem de bom
coração. por isso, vou pedir-vos mais uma coisa. se deus me chamar, peço-vos que
continueis a busca da fonte do pulvis mirificus, desse rasa mahadevi. encontrai-o e,
quando o encontrardes, imploro-vos, pela salvação das nossas almas, destruí-o, por
forma que não chegue às mãos do santo ofício.

- padre! - exclamou thomas, boquiaberto.

- ah! - o padre conseguiu um arremedo de sorriso sardônico. - vejo que ficais


admirado por eu trair a instituição a que devotei a minha vida, mas não é,
propriamente, uma traição. a inquisição é uma arma poderosa que pode ser usada
para o bem e para o mal. por bem, pode unir os homens numa mesma fé, destruindo
as heresias maléficas, como um jardineiro arranca as ervas daninhas de um jardim.
mas, nas mãos de homens gananciosos, o santo ofício pode tornar-se um terrível
instrumento do mal. domine sadrinho, o inquisidor-mor de goa, é um desses
homens. ele sonha em aumentar a sua reputação, penetrando no segredo da vida
para além da morte que o próprio deus oculta ao homem. vós assististes ao horror
da ressurreição do senhor de cartago.

thomas anuiu com a cabeça. não conseguia esquecer a visão do cadáver inchado
do feiticeiro, morto havia três dias, erguendo-se do caixão, incapaz de falar com a
boca putrefata.

- esse horror repetir-se-ia muitas vezes - continuou o padre -, se sadrinho obtivesse


o pó. tereis de evitar, a todo o custo, que isso aconteça! fa-lo-eis?
- se puder, padre - ouviu-se thomas dizer.

o padre gonsção colocou-lhe a mão no ombro e thomas tentou não estremecer com
a dor que sentiu.

- ouvi o que diz timóteo. o rapaz leu as confissões dos companheiros da cabala do
feiticeiro e diz que a deusa que procuramos é, na verdade, um monstro.

o som de passos que se aproximavam fez thomas erguer os olhos.

- vem aí alguém, padre.

um matulão, vestindo um casaco verde comprido, de gola alta, e umas calças largas
de seda, caminhava em direção ao pavilhão. o turbante exibia uma grande gema,
adornada com uma pena de pavão, e, na cinta escarlate, brilhava o cabo de uma
adaga. só quando o homem subiu para a plataforma do pavilhão é que thomas
reconheceu andrew lockheart.

- estais esplêndido, andrew, pareceis um verdadeiro malabar. onde é que


conseguistes essa roupa?

- obrigado. mercadejei-a com os homens de agnihotra, meu amigo.

- e a vossa sotaina, frater? - balbuciou o padre gonsção que estava a ficar, se


possível, cada vez mais pálido.

- está bem escondida - respondeu lockheart em latim -, onde a vossa devia estar,
padre, se fôsseis esperto. estamos muito longe de goa e dispomos, apenas, de uma
dúzia de soldados para nos proteger. nas terras que vamos atravessar, vamos
encontrar muitos pagãos e heréticos que não gostam nada dos portugueses, nem da
igreja. foram os condutores de camelos que me aconselharam este vestuário, para
lhes evitar sarilhos.

- só um homem de pouca fé - murmurou o padre - é que é capaz de a negar por


causa dos pagãos e dos heréticos. eu nunca ocultarei o que sou, nem no que
acredito. mas tenho notado que vós, mestre lockheart, ocultais muita coisa a vosso
respeito!

- tenho verificado que isso me ajuda. É evidente que não tendes viajado muito,
padre?

- eu só viajo quando o dever mo exige.

- nisso somos iguais, padre, mas acho que os meus deveres têm sido mais
exigentes do que os vossos.

o padre ficou de olhos abertos e parecia ir argumentar, mas teve um ataque de


tosse. thomas inclinou-se e pôs a mão na testa do padre.
- está a escaldar. temos de o deitar, andrew, para que descanse.

- É culpa minha - disse lockheart. - eu não devia ter-lhe estimulado a bílis.

thomas ficou a pensar se lockheart fizera, apenas, um trocadilho, ou se teria


conhecimento das teorias medicinais de galeno. de harmonia com essas teorias,
uma febre como a do padre era causada por um excesso do humor quente e seco, a
bílis. para a curar são necessárias as ervas ditas ”frescas”, mas as que thomas
conhecia, como a espora, a borragem ou a cevada, não cresciam por ali. e timóteo
não classificava as ervas locais do mesmo modo. É uma pena que tanto
conhecimento não nos sirva para nada.

- tendes de ajudar o padre a andar, andrew - disse thomas -, que eu não posso.

com um resmungo de anuência, lockheart ajudou o padre a erguer-se e conduziu-o


para o edifício principal da hospedaria. thomas seguiu-os, os pensamentos a zumbir,
tais abelhas em redor da colméia destroçada.

capítulo viii

sÉsamo: esta planta, também chamada gergelim ou milho da turquia, tem as folhas
alongadas e dá uma flor branca ou rosa-pálido. as suas sementes dão origem a um
óleo doce, muito bom para os intestinos, e uma tisana de pó de semente de sésamo,
com vinho, alivia as dores de estômago. no oriente, a planta tem o poder de abrir
lugares ocultos, onde se podem encontrar tesouros. os hindus ofertam-na à deusa
da sabedoria e, também, aos mortos, acreditando que um novo corpo se possa
formar a partir de uma pasta de sésamo e arroz...

o mirzá akbarshah caminhou para a sombra de um definhado tamarindo.


completadas as orações do meio-dia, os homens haviam-se dispersado por um
pequeno e dessecado vale do rio sina, tentando encontrar algum alívio do sol
ardente. o ar tinha a quietude que precede as tempestades, não se enxergando,
porém, nenhuma nuvem no céu. se é algum augúrio, pensou o mirzá, não consigo
lê-lo.

viu o sufi, masum, a tratar do braço de um dos infantes de pele escura, à sombra de
uns arbustos, e dirigiu-se para lá.

o soldado fez-lhe uma vênia deferente e disse-lhe:

- que o profeta e os anjos vos protejam, senhor mirzá.

- e a ti também - disse o mirzá. - que aconteceu a este homem, masum? caiu de um


cavalo?

- não, meu senhor, chegou-se demasiado a um templo em chamas, na aldeia -


respondeu o sufi. - há dois dias que ando a tratar dele.

- eu testemunhei o poder do grande e misericordioso alá - disse o soldado através


dos dentes cerrados - e, agora, sigo a palavra e a lei do profeta.
- ele é oriundo de uma família hindu - explicou masum mas converteu-se depois do
ataque à aldeia. o mesmo fizeram alguns outros soldados harbis.

- não pareceis muito satisfeito com isso?

o sufi acabou de atar a ligadura no braço do soldado.

- eu fiquei muito satisfeito por ele ter encontrado o caminho da via, mas tenho
verificado que a porta de entrada que um homem escolhe pode determinar quão
longe ele alcança.

que importância tem isso, pensou o mirzá, desde que ele honre a palavra e respeite
a lei? não querendo, porém, entrar numa discussão filosófica com o sufi, o mirzá
disse-lhe:

- não sabia que praticáveis as artes da cura, masum.

- eu aprendi que tratar o corpo de um homem liberta a mente para pensamentos


mais elevados. estudei os trabalhos de ibn sina e a unani tibb, a medicina grega.
besuntei as queimaduras deste homem com uma surma de mel e cinza, o que lhe
vai aliviar as dores até os humores voltarem ao equilíbrio.

- hum! - o mirzá era muito desconfiado em relação a físicos e ervanários, pois já


assistira a grandes discussões entre eles, na corte de akbar. um guerreiro devia
limitar-se a limpar e a ligar uma ferida e esperar que o divino tratasse do resto. -
porque é que se fala tanto do conhecimento grego, masum? a grandeza dos gregos
é coisa do passado, iskandr morreu há muito tempo.

- muita coisa se perdeu, desde os tempos de iskandr - disse masum - colocando as


tampas nos potes e metendo-os num saco de couro. - tantos segredos e tantas
maravilhas! confesso que tenho a esperança de que essa rani que procuramos
detenha, ainda, muitos desses vetustos conhecimentos.

- pensava que a via dos sufis era de desprezo pelas coisas terrestres - disse o
mirzá.

masum sorriu, embaraçado.

- haveis descoberto o meu gênio da tentação. o meu pir bem me diz que a minha
curiosidade é uma barreira para o aperfeiçoamento da minha alma.

um soldado com o suor a correr-lhe do turbante aproximou-se deles:

- senhor mirzá, os batedores regressaram com notícias da estrada que nos espera.

- pois bem, vou ouvi-los de imediato.

o soldado fez sinal a dois cavaleiros que aguardavam a uma certa distância.
enquanto se dirigiam para ele, o mirzá, de novo, invejou-lhes os cavalos e a
circunstância de neles montarem. os homens desmontaram e inclinaram-se perante
o mirzá.

- que notícias me trazem?

- grande senhor, a uns cinco quilômetros daqui, há uma cidade quase abandonada.
houve uma grande fome na região, há três anos, e os habitantes morreram ou
fugiram. os poucos que ali vivem, agora, são vagabundos, vindos de outros lados, e
nem sabem o nome da cidade.

- uma cidade sem nome - disse masum, mansamente. o mirzá lançou um olhar ao
sufi, antes de perguntar ao
batedor:

- esses vagabundos representam algum perigo para nós?

- não creio, grande senhor. eles tiveram medo de nós dois e só com muita
insistência e algumas moedas é que os pusemos a falar.

- há lá próximo algum túmulo?

- de fato, um dos vagabundos referiu-se a um túmulo, ao sul da cidade. mas nenhum


deles sabia quem lá estava enterrado.

- senhor - disse masum -, deve ser o lugar a que a ercala se referia!

o mirzá sorriu pacientemente.

- então, acho que temos de lá ir dar uma olhadela. batedor, emprestas-me o teu
cavalo?

duas horas depois, o mirzá, masum e jaimal, entravam nas ruínas da cidade sem
nome. o ar tremeluzia no calor que a estrada poeirenta exalava. as distantes e
avermelhadas montanhas de saibro pareciam um mar ondulante. gado esquelético,
com a pele branca como ossos descarnados, deambulava pela estrada. crianças
todas sujas e mulheres embrulhadas em xales rotos espreitavam-nos de portas
esconsas.

- devemos ser um espetáculo, para eles. gostaria de saber o que é que pensam de
nós.

masum dirigiu-se a uma das casas e conseguiu falar com um dos habitantes. voltou,
dizendo:

- o ziarat que procuramos fica à saída da cidade, por trás daquela muralha
derrocada e depois de uma pequena colina.

seguiram as indicações e, rodeando a pedregosa colina, descobriram uma pequena


construção quadrada, de tijolo caiado de branco, encimada por uma cúpula baixa.
uma árvore solitária, despida de folhas, erguia-se ao lado da construção. sentado,
encostado à árvore, um velho tocava flauta.

quando os três se dirigiam para ele, o velho ergueu os olhos e ficou boquiaberto,
cheio de espanto. levantou-se lentamente, apoiado a um bastão, polido pelo longo
uso. o turbante branco e o comprido cafetão estavam puídos e muito remendados,
mas limpos.

- afinal é verdade - disse o velho. - viestes, realmente. alá seja louvado!

o mirzá desmontou e perguntou-lhe:

- sabíeis que nós vínhamos? quem vos avisou da nossa chegada?

o velho caiu de joelhos e fez uma vênia:

- foram os anjos, em sonhos de velho. sede bem-vindo, poderoso mirzá.

reclinando-se, o mirzá, gentilmente, ajudou o ancião a erguer-se:

- levantai-vos, essa honra só é devida ao imperador ou a alá, que os seus inúmeros


nomes sejam louvados. sois vós o guardião do ziarat?

- tem sido a missão da minha família, geração após geração, grande senhor.

- nesse caso, aceitai a nossa oferenda. nós viemos de muito longe para ouvir a
história do vosso shahid.

jaimal colocou uma bolsa com cinquenta tumans de ouro nas mãos do ancião, cujos
olhos se encheram de lágrimas ao aceitá-la.

- há já tanto tempo que ninguém aparece para ouvir falar do nosso santo! os
peregrinos que por aqui passam é, geralmente, porque se enganaram de santuário,
ou porque este é um local de repouso. mas vinde, vinde, meus senhores, que eu vou
falar-vos daquele cujos restos aqui jazem.

o guardião conduziu-os ao outro lado do túmulo, até junto a uma porta de madeira,
ao fundo de uma pequena arcada. tirou do pescoço um cordão com uma chave de
madeira e, com mão trêmula, colocou a chave na fechadura da porta e abriu o fecho.
empurrou a porta e, descalçando as sandálias, entrou. logo à entrada, estava um
balde suspenso de um gancho pregado na parede. o velho retirou o balde do
gancho. o balde continha um pouco de água e um caço.

o mirzá estendeu as mãos em concha e o velho deitou nelas uma pequena porção
da água. o mirzá lavou ritualmente as mãos e a cara e depois, tirando as botas,
entrou no santuário.

o velho despejou água nas mãos de jaimal, nas de masum e nas dele próprio, antes
de tornar a pendurar o balde, fechando, depois, a porta atrás deles.

o interior do santuário era um espaço agradavelmente fresco, abobadado, onde


caberiam umas quinze pessoas. as paredes eram caiadas de branco, com elegante
caligrafia taliq, a preto e a vermelhão. notava-se que a pintura estalada ou
esmaecida havia sido cuidadosamente refeita.

- quantos anos tem este ziarat? - perguntou o mirzá.

- a minha família cuida dele há doze gerações, grande senhor.

na face leste da sala havia uma série de degraus que desciam para um pequeno
espaço escuro.

- se quiserem fazer o favor de descer - disse o velho, descendo.

o mirzá, jaimal e masum seguiram-no.

com uma pederneira, o velho acendeu uma lamparina de óleo e ergueu-a. a luz débil
revelou um bloco maciço de basalto que enchia quase por completo a pequena sala.
em cima do bloco estava colocada uma simples caixa de madeira, com a altura e o
comprimento do antebraço do mirzá. o ancião limpou a garganta e começou:

- tendes diante dos olhos, poderoso mirzá, o vaso com os restos de um mártir
anônimo da fé. eis a sua história. dizem que era discípulo do grande saiy’d
muhammad gesudaraz, que veio da pérsia pregar a palavra do profeta para estas
terras. o nosso shahid aprendeu bem os ensinamentos do mestre e percorreu longas
distâncias, convertendo muita gente. muitos rajás ouviram a sua palavra e
submeteram-se ao Único, como acontecia com os pobres. um dia, o nosso shahid
ouviu falar de uma rainha poderosa que desdenhava da verdadeira fé, que afirmava
ser uma deusa imortal e que dizia não precisar da palavra do profeta para nada. o
nosso shahid foi ter com ela à cidade escondida, no cimo de uma alta montanha, e
tentou convertê-la, como fizera com tantos outros, mas a rainha riu-se dele e tentou
seduzi-lo e afastá-lo da via, utilizando magia e artimanhas. o nosso shahid, porém,
não vacilou. por fim, a maléfica e orgulhosa rainha foi forçada a revelar-se, pelo
poder da fé do nosso shahid. e declarou que era um demônio, que era a mulher do
terceiro filho de satã, Ãwan, o companheiro dos reis, que o clemente me perdoe por
pronunciar o nome do maldito! a maléfica rainha, então, tentou arrastar com ela o
nosso shahid para o inferno, mas ele implorou muito e alá, o todo misericordioso,
ouviu-o e transformou o nosso shahid em pedra, para que não pudesse ouvir as
palavras doces da rainha, nem ver a sua beleza diabólica. e foi assim que a alma do
nosso shahid foi para o paraíso, deixando neste mundo apenas uma pedra, para
recordar o seu exemplo aos fiéis.

o velho sorriu e fez uma vênia.

- a vida do vosso shahid - disse o mirzá - foi, realmente, uma vida cheia de
maravilhas. há quanto tempo é que isso aconteceu?

- há mais de duzentos anos, grande mirzá.

- e a vossa família tem contado esta história através das gerações?


- de pai para filho, grande mirzá, como o meu filho a há de contar, quando eu me
tiver ido deste mundo.

- porque é que foi concedida essa honra à vossa família?

- dizem que esta terra pertencia a um antepassado meu, ali ahmad, que era
mercador e que recebeu em sua casa o shahid, antes de ele ir ao encontro da
malévola rainha. dois dos discípulos do shahid ficaram à espera na casa, com
ahmad. uma noite, uma mulher alta, já velha, bateu à porta do meu antepassado,
com o único discípulo que acompanhara o shahid. o discípulo cegara-se a si próprio;
para evitar a terrível magia da diabólica rainha, e foi ele que contou a ahmad a
história que acabei de vos contar. a velha era uma das criadas da diabólica rainha e
conduzira a salvo o discípulo, trazendo com eles uma relíquia do shahid. o meu
antepassado construiu este ziarat para honrar a memória do mártir, porque achou
que era uma exigência do céu. e, desde então, a família de ali ahmad tem cuidado
fielmente deste túmulo.

- mas os discípulos - disse o mirzá - gostariam, certamente, de ver conservada a


memória do seu mestre. porque é que o vosso shahid ficou sem nome?

- foi a velha criada da rainha que aconselhou isso, dizem, para evitar que a diabólica
rainha e os demônios do inferno tivessem conhecimento do ziarat e viessem destruí-
lo.

- dizei-me - perguntou jaimal - como é que vós e a vossa família conseguiram


sobreviver à seca que assolou toda esta região, ainda não há muito tempo?

- em boa verdade - disse o velho - alá tem-nos protegido. nós temos uma pequena
fonte, atrás da nossa casa, e, embora seja apenas um fio de água, nunca secou.

- eu tenho uma pergunta que pode parecer-vos estranha disse o mirzá -, mas nunca
ouvistes nenhuma história que possa implicar que essa rainha imortal ainda exista?

o velho pôs-se a abanar a cabeça, de sobrolho franzido.

- os filhos de satã estão sempre conosco, bem como as suas mulheres e os seus
servos, os demônios. mas as histórias dizem-nos sempre que devemos evitá-los,
para não ficarmos sujeitos às suas tentações.

o mirzá sorriu polidamente.

- sim, sem dúvida, mas a vossa história sugere que a nora de satã viveria não muito
longe daqui. nas histórias que ouvistes na família, nunca apareceu mencionada uma
montanha em particular como sendo a morada dela? o guardião soltou um suspiro.

- o meu pai, uma vez, disse que a montanha ficava algures a sul e a leste de bijapur,
num sítio chamado o ninho da serpente. mas se o céu é justo, esse sítio já não
existe.

- então, como é que podemos saber se a vossa história é verdadeira? - exclamou


jaimal.

os olhos do velho brilharam.

- se me permitis, meus senhores, vou conceder-vos uma honra que a poucos tem
cabido. vou mostrar-vos a relíquia do nosso shahid.

- honrais-nos por de mais - disse o mirzá.

- não, não - disse o velho abanando com a mão -, tudo o que eu faça é insuficiente.
no entanto...

retirou a tampa da caixa de madeira e colocou-a ao lado, sobre o bloco de basalto.


meteu a mão lá dentro e tirou outra caixa, esta de prata, encastoada de pedras
preciosas, com orações nela inscritas, caligrafadas a laca preta.

- eu conservo esta caixa dentro da caixa de madeira disse o velho, com um ar


matreiro - para não despertar o apetite dos ladrões.

com todo o cuidado, pousou a caixa.

- esse magnífico relicário - perguntou jaimal, boquiaberto - foi oferta do vosso


antepassado mercador? É por isso que a vossa família é agora tão pobre?

- ninguém que sirva um mártir da fé é pobre - disse o velho guardião. - mas deixai-
me contar-vos a história desta caixa. lembram-se de eu vos ter falado da mulher
velha que trouxe a relíquia do nosso shahid do palácio da diabólica rainha? segundo
o que se dizia na família, a mulher era uma pagã, mas com a pele clara dos
nortenhos. e pensava-se que não estaria de acordo com a malevolência da rainha
que servia. ora, com a relíquia, ela entregou a ali ahmad, algo embrulhado em lã
branca.

- ah! - exclamou masum, como se considerasse aquilo muito significativo.

- depois de a estranha mulher se ter ido embora, ali ahmad abriu o embrulho e
verificou que continha sete barras de prata. três delas foram fundidas para fazer esta
caixa, duas pagaram a construção do ziarat e as restantes têm servido para
sustentar a minha família desde então. e, agora...

o velho tirou do pescoço outro cordão com uma pequena chave, abriu com ela a
caixa e recuou:

- se quereis fazer o favor, meus senhores, observai.

o mirzá olhou para dentro da caixa. num leito de prata, estava uma mão, segurando
um rolo de papel. a mão escura parecia perfeitamente conservada, cada poro, cada
ruga, cada cicatriz, cada veia, como devia ter sido em vida. o coto da mão, no pulso,
estava rematado a prata. o papel parecia ser uma página do corão, amarrotada na
ponta. muito suavemente, o mirzá tateou o papel com um dedo, desde a ponta até
onde a mão o segurava. junto à mão, o papel era como jade esculpido, mas a meio
tornava-se claramente papel. era, porém, tão gradual a mudança que o mirzá não
conseguia precisar em que ponto o papel se tornava pedra.

- É, de fato, como se tivesse sido transformado - murmurou. jaimal olhou para a mão
com um ar carrancudo, mas ficou

calado. masum murmurava orações, balançando.

- É, na verdade, um grande mistério - disse o mirzá. - não consigo imaginar nenhum


escultor capaz de fazer isto.

- só alá - disse o velho, baixando a cabeça. enquanto saíam do ziarat e montavam


nos cavalos, o mirzá

foi dizendo:

- parece que a mulher ercala que encontrastes, masum, nos deu indicações
corretas. houve, de fato, nesta região, uma rainha como a que procuramos, embora
há séculos atrás. talvez se trate de uma dinastia, ou de alguém realmente imortal e
nós possamos encontrar ainda essa rainha. jaimal, tens estado muito calado, o que
é que pensas do que acabamos de ver?

sempre carrancudo, jaimal respondeu:

- eu penso, senhor, que devemos estar continuamente atentos a artimanhas e a


traições. acho que é isso que esta expedição nos ensina.

- quer dizer que não acreditas nas histórias do velho guardião?

os olhos de jaimal refletiam uma fúria contida.

- que fiel seguidor da fé devotaria um santuário à idolatria? ele venera um pedaço de


pedra e afirma que é a mão de um antigo mestre. quando muito, o velho é um louco,
como toda a família, por acreditar em histórias tais. ou, então, é um ladrão e um
inimigo da fé, arrancando dinheiro aos peregrinos e confundindo-lhes as mentes
com mentiras.

o mirzá ficou abalado com a veemência de jaimal.

- eu não penso assim, jaimal. o velho acredita, claramente, no que nos contou. não
achais, masum?

masum olhou para jaimal.

- eu penso que a lição a tirar deste santuário é a de que há, ainda, grandes
maravilhas e milagres neste mundo. a escuridão é, apenas, o mistério causado pela
luz. mas o homem que só vê a escuridão não alcança a luz que a penetra.

- quando um homem fica cego com a luz - disse jaimal


- é como se caísse na escuridão. afastai-vos tanto da via a ponto de vos dispordes a
adorar uma mão de pedra?

- eu venero a mão do criador - disse masum serenamente - que pode, sem dúvida,
proceder à transformação da carne viva em pedra.

- basta, basta! - exclamou o mirzá. - eu não deixarei de pensar nos vossos


conselhos: vou ter um olho atento às maravilhas que acontecem neste mundo e
outro atento às traições.

- e espero que não fique vesgo.

capítulo ix

manjericÃo: esta planta aromática tem folhas dentadas, de um tom púrpura, flores
que podem ser brancas ou vermelhas. a tintura de manjericão é saudável para o
estômago e alivia a tosse e a dor de cabeça. É uma planta sagrada para os hindus e
em todas as casas a cultivam, para terem saúde e prosperidade. para os antigos
gregos, bem pelo contrário, era uma planta venenosa e diziam que só se dava nos
ossários. uns dizem que é a planta dos amantes, outros dizem que dos inimigos, se
uma jovem der um manjericão a um jovem, diz-se que ele cairá de amores por ela...

aditi penteava o comprido cabelo preto, que perfumara com água de rosas e fizera
cair sobre os ombros e sobre o peito. vestia apenas um diáfano vestido peshwaz da
mais fina seda, com um leve saiote por baixo. olhava, pela entrada da tenda, para o
luar que se refletia no rio nesri. já tinham atravessado as selvas da vertente oriental
dos gates, já tinham passado pela cidade de chandgala, e o ar era agora quente,
mas seco, com uma brisa que era uma delícia para a pele. de dia, a região era um
ermo de colinas inóspitas e preguiçosos riachos acastanhados. mas, na noite
quente, à luz de prata do luar e das estrelas, era um ambiente mágico.

- por favor, sashi - disse aditi jovialmente para a lua -, empresta-me a tua veia de
hospitalidade, para que eu possa encantar o meu hóspede, que não tardará a
chegar.

ergueu-se e lançou sobre os ombros um véu de seda recamado a prata. impaciente,


aditi caminhou até à margem do rio e olhou para onde estavam as suas jovens
criadas, de lâmpadas nas mãos, aguardando, à entrada do acampamento.

ah, aí vem ele. respondendo ao seu anseio, aproximavam-se três homens, dois
soldados goeses e, no meio deles, thomas.

as criadas cumpriram a sua missão, atraindo e incitando os dois soldados, por forma
a que deixassem thomas prosseguir sozinho.

aditi inclinou a cabeça de lado, de modo a que o luar lhe iluminasse o rosto, e
observou thomas a dirigir-se para ela. o seu cabelo pálido brilhava e os olhos, de
um azul um pouco mais claro do que os dela, pareciam lançar chispas. quão
maravilhosamente estranho ele é, quase como um demônio ou um avatar divino. É
uma pena que seja apenas um homem. perdoar-me-ia a mahadevi, se eu lho
levasse como oferenda? talvez, então, eu pudesse ficar com ele como se fosse um
brinquedo. ai, tenho de me deixar destes pensamentos insensatos.

- sri aditi - disse thomas, inclinando a cabeça à maneira hindu.

- ah, tamas, vejo que adotais os nossos modos.

- nós, no ocidente, temos um ditado, despoina: em roma, sê romano.

aditi riu-se. a mahadevi tinha-lhe falado de roma. -\mas aqui estais em sind e alguns
dos nossos costumes são difíceis de imitar.

- nisso, tendes razão, despoina. mas posso saber porque me mandastes vir à vossa
presença?

pela forma como ele a olhava, aditi apercebia-se de que despertava positivamente o
interesse dele.

- queria, tão-só, desfrutar da vossa companhia, tamas. vinde, vamos observar as


estrelas e conversar.

foi junto dele e, meigamente, tomou-lhe o braço, encostando-lhe um seio.

thomas pestanejou e ficou confundido, mas os olhos brilharam-lhe de prazer.

- hum! aqui fora, à vista de toda a gente? será sensato, despoina?

- eu sei que o frade da orlem gor está doente e não vê, nem ouve nada. e os
soldados dele - aditi olhou para as tendas para onde as criadas haviam arrastado os
soldados - parecem mais interessados noutra coisa. quem é que está a ver-nos?

thomas sorriu.

- tendes, de novo, razão. pois bem, conduzi-me, eu não deixarei de acompanhar-


vos.

aditi retribuiu-lhe o sorriso, sentindo uma ardência a apossar-se dela.

enquanto caminhavam ao longo da margem, observando os pássaros noturnos que


se esgueiravam por entre os juncos, thomas foi dizendo:

- tenho andado a pensar na vossa mahadevi e em como conciliar a sua existência


com tudo o que aprendi. segundo os nossos filósofos, os vossos deuses são meros
anjos caídos, dirigidos por belzebu no sentido de confundirem e desviarem as almas.

- o que é um anjo, tamas?

- É um ser que incute respeito, muito belo, que irradia luz e que serve deus,
cumprindo as suas ordens como mensageiro e como guardião.
a mão de thomas apertou a mão de aditi.

- vós sois, talvez, um anjo, pois servis a vossa divindade e tendes sido minha
guardiã, não é verdade?

aditi riu-se e sentiu-se corar.

- lisonjeais-me, tamas, mas acho que não sou nenhum anjo. mas vós, talvez, pois o
vosso cabelo brilha?

thomas soltou uma gargalhada.

- acho que também não sou nenhum anjo, despoina. mas, dizei-me, como viestes a
saber da existência da mahadevi? a vossa família desde sempre a adorou, é isso?

aditi abanou a cabeça.

- não, eu só a conheci quando ela me adotou. eu fui conduzida ao seu palácio


depois que os bandidos mataram a minha família. foi ela e as suas duas velhas aias
que tomaram conta de mim e me educaram.

thomas parou e olhou para aditi.

- quereis dizer que ela é uma mulher de carne e osso?

- eu não sei do que ela é feita, mas é uma mulher comum. eu nunca pude olhar para
ela, porque isso é fatal. sei que assim é porque vi o que acontecia aos que,
estupidamente, olhavam para ela. eu só via a sua sombra atrás de um biombo, ou
ouvia a sua voz na escuridão, mas ela ensinou-me muita coisa.

thomas pôs-se a olhar para o rio, permanecendo em silêncio. aditi continuou a falar:

- pensais, talvez, que eu fui vítima de uma fraude, mas vós não vistes o que eu vi,
nem aprendestes o que eu aprendi. eu sei que não podeis compreender. ninguém
consegue compreender, a menos que tenha sido sujeito ao seu poder. talvez, um
dia, o venhais a conhecer.

gradualmente, aditi conduziu-o para um sítio junto do rio, onde mandara colocar um
tapete e almofadas.

- sentemo-nos aqui, isto é confortável - disse ela, ajoelhando-se gracilmente no


tapete.

thomas sentou-se desajeitadamente ao lado dela, com um estremecimento, ao


apoiar-se nos braços para não se estatelar.

- pobre thomas. eu tenho um óleo perfumado que fiz aquecer para vós. vou
amaciar-vos os ombros com ele.

deslizou para trás dele e, suavemente, levantou-lhe as costas da camisa até ao


pescoço. retirando o pote de óleo debaixo de uma almofada, deitou um pouco de
óleo nas mãos e espalhou-o nas costas alvas de thomas, massageando os
músculos. os doces murmúrios dele eram encorajadores.

aditi encostava-se a ele, o queixo quase apoiado no ombro direito de thomas.

- olhai, além, tamas, rohihi está muito brilhante esta noite, não está?

- ah, aquela estrela, além! para nós é a aldebarão. também vos ensinaram
astronomia.

- o meu pai ensinou-me as estrelas e os movimentos da lua, quando eu era criança.


ele dizia-me que, sabendo isso, se, de noite, nos perdêssemos, num descampado,
saberíamos orientarmo-nos. além, para leste, naquele sítio escuro entre as
montanhas, está a cabeça de rahu, o que come a lua.

thomas riu-se:

- eu não vejo nada!

- claro que não. nós sabemos que ele está lá quando desaparece a lua e, às vezes,
o sol. se quereis saber, rahu era um demônio que se atreveu a desafiar os deuses,
bebendo-lhes o soma, o vinho da imortalidade. mas foi apanhado com a boca na
botija e os deuses cortaram-lhe a cabeça, atirando-a para o céu. talvez possais
retirar uma lição desta história, tamas: não é nada saudável roubar os privilégios dos
deuses.

- eu não tenciono roubar coisa nenhuma a ninguém.

- ah, eu sabia que éreis mais avisado do que os outros disse aditi, beijando-lhe uma
orelha e, depois, o pescoço. - isto
- exclamou ela, puxando-lhe a camisa.

saltou para a frente dele e tirou-lhe a camisa pela cabeça, num ápice e sem lhe
infligir grande dor nos braços. depois, colocou-lhe uma mão no peito e empurrou-o
para cima das almofadas. percorreu-lhe com os dedos a pele quente e sentiu a
pulsação dele acelerar.

- aditi - ofegou thomas -, eu não posso, quero dizer, com os braços assim não vos
posso abraçar...

aditi riu-se.

- vós, ocidentais, tendes idéias muito estranhas acerca das práticas amorosas, como
se existisse apenas uma maneira de fazer amor. os braços são agradáveis, mas não
são indispensáveis.

beijando-lhe o peito, fez deslizar uma perna entre as dele, para lhas abrir. entretanto,
pôs-se a divagar sobre qual seria a melhor maneira de o matar. seria tudo mais fácil
se tivesse conservado um pouco de rasa mahadevi, mas tivera de o entregar todo
ao escocês lockheart, como paga da sua passagem de regresso a goa. cortar-lhe
uma veia era o mais simples, mas como explicar o sangue? um leão, talvez. podia
procurar um veneno da região, mas como fazer-lhe beber?

enquanto thomas ia ficando mais tenso sob as coxas de aditi e ela sentia o desejo
apossar-se dela, aditi pensou: ainda estamos longe de bijapur. não tenho de decidir-
me já. yama pode esperar por este um pouco mais. não precisa de morrer já.

absorto nas suas orações, timóteo sobressaltou-se, ao ouvir bater à porta da casa.

- o que é que se passa, timóteo? - murmurou o padre gonsção, estendido na sua


padiola.

- não sei, padre, vou ver o que é.

levantou-se e correu pelo chão sujo para a sala da frente, onde um homem da casta
kummari lhe fez uma grande vênia, quando abriu a porta. timóteo reconheceu o
barbudo visitante de turbante como um dos mercadores de sri agnihotra.

- mestre timóteo - disse o kummari em arrastado canarim -, esta minha pessoa pede
licença para falar com o senhor gonsçom.

- desculpai - disse timóteo para o mercador, no seu melhor marata -, mas o meu
mestre está muito doente e não pode falar com ninguém.

- então, tendes vós de falar por ele - disse o mercador. vinde comigo.

- mas... eu não posso deixá-lo sozinho. do que é que se trata?

- É que nós entramos nos domínios de um novo governador e temos de pagar


portagem. o cobrador da portagem exige um tuman de prata por animal e dois
tumans por carroça. esta expedição é do vosso mestre, portanto é ele quem tem de
pagar.

timóteo fez as contas pelos dedos.

- mas isso é impossível! nós não temos essa quantia em prata, não temos, mesmo,
prata nenhuma. ninguém nos disse para trazermos prata para a viagem.

- então, tereis de dizer isso ao cobrador e depressa, pois ele afirma que tem um
exército à espera, do outro lado da colina, que nos fará pagar a portagem à força, se
não quisermos pagar voluntariamente.

o mercador agarrou em timóteo e puxou-o para fora, empurrando-o, depois, à frente


dele até à estrada, onde se encontrava um grande matulão, cheio de cicatrizes na
cara e um alfange em cada anca. o matulão olhou para o pequeno timóteo:

- trazes o dinheiro?

- por favor, senhor cobrador - disse timóteo -, o meu mestre é apenas um peregrino
e não traz dinheiro nenhum com ele. nem eu. nós não podemos pagar a portagem.

o cobrador vociferou primeiro com o mercador e, depois, com timóteo.

- alguém tem de pagar, ou vocês não passam nesta estrada.

todo a tremer, timóteo disse:

- eu vou ver o que se pode fazer, meu senhor.

e pôs-se a correr, desorientado, em busca de ajuda, atravessando o acampamento


dos soldados e tropeçando num dos corpos estendidos no chão.

- ai, irmãozinho, porque me acordais tão bruscamente?

- senhor alvalanca - disse timóteo -, preciso de ajuda. onde é que está o tomás.

- ele foi namorar com a senhora agnihotra e acho que não quer que o incomodem.
qual é o problema?

- apareceu um cobrador a dizer que temos de pagar vinte e três tumans de


portagem, para passarmos nesta estrada!

o soldado pestanejou, admirado, e, depois, soltou uma gargalhada.

- senhor alvalanca, isto é um problema sério!

- não estais a ver, irmãozinho, que esse cobrador de portagens é um ladrão, a tentar
roubar-nos? passamos a vida a ouvir histórias dessas, em goa. nunca ouvistes?

- não, nunca ouvi histórias dessas no santo ofício.

- sim, acho que não deveis ter ouvido.

o soldado teve dificuldade em sair do entrouxado em que dormia e em pôr-se de pé.


timóteo apercebeu-se de que ele estava bêbado.

- vamos lá falar com esse cobrador, irmãozinho - disse alvalanca, colocando


desajeitadamente a espada à cintura. eu e os meus compadres vamos tomar-lhe as
medidas, não é?
- acrescentou, fazendo sinal a dois outros soldados que estavam sentados junto à
fogueira do acampamento, largo sorriso na boca.

- há que ter cuidado, senhor alvalanca. ele diz que tem um exército à espera, atrás
da colina, para nos atacar, se não pagarmos.

- eles dizem sempre isso. Às vezes têm, outras vezes não.

porém, quando se dirigiam para a estrada, foram interceptados pelo mercador


barbudo, com mais outros três.
- onde é que ides? - perguntou o mercador. - tendes o dinheiro?

timóteo traduziu para alvalanca, o qual respondeu, balançante:

- dizei-lhe que vamos cortar o ladrão às fatias. daqui, ele não me parece grande
coisa.

timóteo, dubitativo, traduziu a resposta de alvalanca e o mercador explodiu:

- sois loucos! quereis que o exército do governador nos massacre a todos? não
vamos permitir isso. tereis de pagar!

- dizei a esses lambedores de cus de camelos que, se receiam tanto pelas suas
vidas, eles que paguem a portagem com parte da mercadoria que transportam.

- nem pensar! não vamos desfazer-nos do nosso ganha-pão. os goeses é que


devem pagar. dizei a esse ocidental comedor de merda para pagarem ao cobrador
com os cavalos.

- com os nossos cavalos? isso nunca!

os soldados pousaram as mãos nos punhos das espadas e os mercadores puxaram


pelas adagas que tinham à cinta.

- parem, por favor! deixem-se de lutas! - timóteo corria de um ao outro grupo de


homens.

- fora daqui, irmãozinho - rosnou alvalanca - que vamos dar a estas doninhas
arrogantes uma lição de civilidade.

timóteo viu, então, o irmão andrew, na sua indumentária hindu, aparecer por detrás
dos mercadores.

- frater andrew, ajudai-me a travá-los!

- quietos! - gritou o irmão andrew para os soldados e, inclinando-se para timóteo,


disse-lhe ao ouvido:

- eu acho que temos uma solução para o problema, irmão timóteo. eu ouvi o padre
gonsção falar a thomas numa bíblia encadernada em prata. talvez o cobrador de
portagens, ou ladrão, a aceite como suborno suficiente e se vá embora.

timóteo afastou-se do irmão andrew.

- de maneira nenhuma! a bíblia é um presente para o sultão.

- mas não chegará a recebê-la - disse o irmão andrew -, se não estivermos vivos
para lha entregarmos.
- não, isso não pode ser!

sentindo-se encurralado num pesadelo, timóteo correu para o acampamento de sri


agnihotra. chegou-se à primeira tenda e gritou em latim:

- tomás, tomás, socorro, depressa!

duas das jovens criadas surgiram, alvoroçadas, da tenda, envolvendo-se à pressa


em vestes transparentes. timóteo desviou o olhar.

- o que é que aconteceu, o que é que se passa convosco? perguntaram as raparigas


em marata.

- preciso de falar com sri tamas chineri - disse timóteo. corremos um grande perigo.
É muito urgente.

- tamas está a dormir - disse uma mulher dentro da tenda, em voz baixa e firme. - e
eu não vou acordá-lo. dizei-me o que quereis.

- sri agnihotra? - a voz não lhe parecia a de uma velha, mas percebera que devia ser
ela. - por favor, um cobrador de portagens, ou talvez um ladrão, apareceu a pedir-
nos dinheiro. os vossos mercadores dizem que devem ser os goeses a pagar, mas
nós não temos dinheiro. o cobrador diz que seremos todos mortos, se não
pagarmos, e os mercadores e os soldados estão a lutar por causa disso. e eu não
sei o que hei-de fazer.

houve um prolongado silêncio dentro da tenda.

- sri agnihotra?

ouviu-se uma série de imprecações em voz baixa, em urdo. depois, timóteo ouviu-a
chamar pelos palanquins e pela liteira. num instante, surgiram por detrás da tenda
os palanquins a correr, com a liteira escarlate.

timóteo seguiu a liteira, a qual parou junto do cobrador. de dentro da liteira soou,
então, uma longa e terrível série de ameaças e de maldições, em voz alta e aguda,
que fazia arrepiar a pele e espetar o cabelo. ela falava num dialeto canarim que
timóteo mal compreendia, mas o pouco que compreendia enchia-o de regozijo. sri
agnihotra, num agudo tom de brâmane, referia-se às suas estreitas relações com o
sultão de bijapur, com este e aquele governador, com poderosos brâmanes, maratas
e outros poderosos clãs, apontando o terrível rol de sanções que poderiam aplicar
ao pobre cobrador e à sua família. e, ainda, como certas deusas, de grandes e
aterradores poderes, lhe esvaneceriam o fruto das entranhas, por gerações e
gerações.

o cobrador, visivelmente pálido à luz dos archotes, começara a recuar, os olhos cada
vez mais esgazeados.

uma mão fina emergiu, então, da cortina da liteira e atirou uma pequena bolsa que
tilintou, ao cair aos pés do cobrador.
- dá-te por satisfeito com isto - disse sri agnihotra -, senão...

a tremer, o cobrador, ou ladrão, baixou-se e agarrou a bolsa. depois, olhando para


um lado e para o outro, pôs-se a correr e desapareceu estrada fora.

os soldados riram e assobiaram atrás do ladrão.

- que raio de ladrão - disse alvalanca - corrido em osso pela língua afiada de uma
mulher! espero que a mulher não o desanque esta noite, se não fica todo desfeito.

a mão fina emergiu de novo e fez sinal aos três mercadores para se aproximarem da
liteira. timóteo não conseguiu ouvir o que ela lhes dizia, mas, pelo tom agreste da
voz e pelo ar carrancudo das caras dos mercadores, percebeu que não estava nada
satisfeita com eles.

inclinando-se para a liteira, os mercadores voltaram para junto das suas tendas e
dos camelos, murmurando entre eles. o irmão andrew foi com eles, voltando-se de
vez em quando, lançando um olhar especulativo à liteira.

quando os palanquins pegaram nos varais da liteira e a dirigiram para onde estava
timóteo, este colocou-se ao lado dela.

- muito obrigado, sri agnihotra, por nos terdes salvo. peço desculpa por vos ter
incomodado, mas, com o padre doente, eu nada podia fazer. que santa maria e os
anjos vos guardem!

- não me agradeçais a mim - disse a voz dentro da liteira. - agradecei a tamas,


quando o virdes. agora, ide, rapaz, e não me incomodeis mais.

- não o farei, sri agnihotra.

timóteo parou e, voltando-se, dirigiu-se para a casa onde estava o padre.

e se eles se põem a discutir e a querer lutar outra vez?, pôs-se a pensar, quase em
lágrimas. É evidente que não sou capaz de comandar esta expedição, pois eles não
me dão ouvidos. e como é que eu posso confiar no irmão andrew, quando ele queria
que nos desfizéssemos da preciosa oferta para o sultão? quanto a tomás... acho que
tão-pouco a ele dão ouvidos.

timóteo abriu a porta da casa e dirigiu-se rapidamente para a padiola onde jazia o
padre.

- irmão timóteo? - murmurou o padre. - que aconteceu? eu ouvi uma discussão.

- houve uma disputa entre os mercadores e os soldados, mas está tudo apaziguado.
não vos preocupeis. deveis descansar, para recuperardes.

o padre tocou levemente no braço de timóteo:


- És um bravo rapaz, meu filho. eu sabia que tu...

a voz sumiu-se-lhe num murmúrio abafado e a cabeça caiu-lhe para o lado,


adormecido. timóteo ajoelhou-se ao lado do catre. por favor, curai-vos. meu deus,
curai-o. mais ninguém nos pode dirigir. sem ele, a nossa santa busca decerto
falhará.

capítulo x

loureiro o loureiro é uma árvore de folha persistente, com folhas estreitas e


aromáticas. dá umas flores brancas que, no verão, se tornam em bagas. o óleo
obtido das folhas e das bagas é um bom unguento para o reumatismo. o cozimento
do sumo das bagas com mel é bom para combater a tísica e a pestilência. usar um
dente-de-lobo, embrulhado numa folha de louro, evita as palavras coléricas e diz-se
que um ramo de loureiro protege dos raios e da feitiçaria. quando um loureiro
murcha, é sinal de morte, mas ele renascerá das raízes e, por isso, é, também, um
símbolo de ressurreição...

tomas estava sentado debaixo de uma arcada, ao longo da rua principal da aldeia,
regozijando-se por estar ao abrigo do sol. poucos nativos ou viajantes se
aventuravam na estrada poeirenta em frente dele. até os cães e as vacas pouco se
mexiam, se o podiam evitar.

a aldeia chamava-se hukeri e era o primeiro local mais ou menos agradável onde a
caravana passava, depois de deixar chandgala, dois dias antes. a estrada levara-os
através de um ermo de saibro e areia, cortado apenas por colinas que pareciam
grandes amontoados de rochas, algumas encimadas por ruínas de antigas
fortalezas. o vale hukeri era bafejado pela água, esta alimentando grandes pomares.
aquele oásis era tão bem-vindo à vista, depois de dois dias de viagem através do
deserto, que, embora o sol ainda estivesse alto, a caravana parou para repousar.

thomas tentava, ainda, conciliar as diversas histórias que tinha ouvido, acerca do
incidente com o ladrão que se fazia passar por cobrador de impostos. segundo
timóteo, aditi havia empregado uma espécie de magia, com maldições, que fizera o
ladrão fugir. joaquim afirmava que fora o medo dos soldados que pusera o ladrão em
fuga. lockheart dizia que sri agnihotra, muito simplesmente, pagara ao homem,
depois de o invectivar duramente. quanto a aditi, nada lhe disse, mostrando-se muito
irritada quando ele lhe falou nisso.

e ninguém lhe dava uma explicação satisfatória para a má disposição que parecia
ter invadido toda a caravana. será a febre do padre que nos causa esta má
disposição? o padre gonsção estava, agora, tão doente que tinha de ser
transportado na padiola. ainda bem que não tem consciência disso, senão ficaria
envergonhado.

sob a arcada onde thomas estava sentado, havia umas alcovas fundas, onde os
viajantes descansavam. a alcova junto dele, a mais ampla de todas, fora destinada
ao inquisidor. thomas ergueu-se e caminhou lentamente para a alcova. o padre
estava estendido no chão, ao fundo. thomas esperava que a frescura da pedra
proporcionasse algum alívio ao homem febril. pouco mais havia a fazer. aditi
mandara-lhe um dos seus almofadões, para ele pousar a cabeça. e o irmão timóteo,
como sempre, mantinha-se em vigília, ajoelhado junto do padre, em silenciosa
oração.

thomas ajoelhou-se, ao lado de timóteo.

- como é que ele está?

timóteo olhou para ele com um sobressalto, como se a sua mente regressasse de
muito longe.

- ha? não sei dizer, tomás. está vivo, mas...

o rapaz terminou a frase com um profundo suspiro.

thomas colocou a mão na testa do padre. está úmido, mas já não está tão quente. o
padre continuava muito pálido e com a respiração fraca e pouco profunda. as vítimas
de febre que thomas já havia observado com aqueles sintomas estavam, em breve,
a caminho da cura, ou da morte.

- ele comeu?

timóteo abanou a cabeça.

- ides sangrá-lo, tomás?

- não. acho que não é aconselhável.

- então - disse joaquim despreocupadamente, atrás deles -, o nosso padre já se


passeia com os anjos?

silenciosamente, thomas amaldiçoou a insensibilidade do soldado. batendo no


ombro do rapaz, disse-lhe:

- continuai as vossas orações, timóteo, é tudo o que podemos fazer por ora.

timóteo aquiesceu e baixou, de novo, a cabeça. thomas ergueu-se e fez sinal a


joaquim para o seguir para fora da alcova.

- não me respondestes, tomás - disse joaquim, seguindo-o para a arcada. - É bom


ou mau sinal?

- por favor, joaquim, tende pena do rapaz. o padre ainda está vivo e, se deus quiser,
vai manter-se vivo.

- oh, é uma pena!

- que dizeis, homem? certamente não desejais que ele morra?

- claro que não, eu não desejo que ele morra, santa maria me valha. semelhante
maldição recairia sobre a minha cabeça. mas não desejo, tão-pouco, ver um homem
sofrer. e vou dizer-vos uma coisa, tomás: o nosso sargento diz que, se o padre
morrer, voltamos para goa. É uma coisa interessante, não é?

thomas olhou espantado para o soldado.

- se o padre morrer, o comando da expedição passa para o irmão timóteo. É essa a


vontade do padre.

joaquim pôs-se a rir.

- julgais que vamos seguir esse rapazinho nesta terra de ladrões e de pestilência?
devíeis tê-lo visto quando os mercadores nos enfrentaram: ”oh, não se ponham a
lutar, virgem santa!” - disse o soldado, imitando a voz de falsete de timóteo. depois,
em tom mais sério, continuou: - o padre, movido pela sua fé, pode ser induzido a
cometer loucuras, mas nós somos homens sensíveis. temos, já, quatro
companheiros doentes com febre e, por outro lado, bem vedes, se ele morrer, o
corpo do padre tem de regressar, para ser enterrado em campo santo. para vós
será, pois claro, má fortuna, já que caireis, de novo, nas mãos gentis do santo ofício.
e penso que o inquisidor-mor não vai ficar nada satisfeito com o vosso insucesso.

thomas, as mãos apertadas uma na outra, resmungou:

- eu não volto para o santo ofício. se tiverdes de voltar, eu fico e direis que eu morri.

joaquim abanou a cabeça.

- eles quererão o vosso corpo como prova, tomás. ou talvez possamos cortar-vos
uma perna, se achardes que podeis passar sem uma delas.

o calor, o medo e a raiva puseram a cabeça de thomas a andar à roda: avançou


para joaquim e encostou o baixo e entroncado soldado à parede.

- eu-fiimcfl-mais-volto-para-o-santo-ofício! compreendeis o que vos digo? aconteça o


que acontecer, eu não volto a goa!

o soldado ficou boquiaberto de espanto.

- claro que eu compreendo, meu amigo, que não desejeis voltar a goa. eu estava
apenas a contar-vos o que o sargento disse.

- meus senhores!

thomas voltou-se, viu timóteo a olhar para eles e afastou-se de joaquim.

- desculpai-nos, timóteo, nós estávamos... em desacordo.

- mas não discutam aqui, por favor, pois disturbais o padre.

- decerto - disse joaquim -, devemos deixar que o padre descanse em paz. - e,


voltando-se para thomas, disse-lhe, em voz baixa: - tenho muita pena, meu amigo,
mas não podeis impedir-nos de voltar. a menos que façais um milagre.

depois, puxando as mangas enrugadas da camisa, foi-se embora como se nada


tivesse acontecido.

thomas encostou-se a um dos pilares da arcada, lamentando-se da sua condição


física, pela centésima vez desejando que os seus braços não estivessem tão fracos
e tão ineptos.

timóteo foi junto dele.

- o que é que estavam a discutir, tomás? eu ouvi o senhor alvalanca a zombar de


mim e ouvi-vos dizer que não voltaríeis.

não vale a pena estar a enganá-lo.

- joaquim estava a dizer-me que, se o padre morrer, ele e os outros soldados


tencionam voltar para goa.

timóteo ficou de boca aberta:

- e abandonavam-nos aqui?

- não, eles pensavam que nós voltaríamos com eles, mas eu disse-lhe que não
voltaria.

- pois claro, tomás - disse timóteo com um sorriso largo -, vós não sois cobarde,
como eles são. como o padre disse, vós sabeis como é importante o que estamos a
fazer e não ireis desistir da nossa busca sagrada.

thomas retribuiu debilmente o sorriso de timóteo.

- ficai tranquilo, que eu não vou regressar a goa com eles. e, com um pouco de
sorte, o padre vai recompor-se e essa eventualidade deixará de preocupar-nos.

timóteo olhou para trás, para o fundo da alcova.

- o padre está nas mãos de deus!

- em boa verdade, assim é.

e nós precisamos urgentemente de um milagre. se acaso eu tivesse um pouco de


rasa mahadevi, poderia fazer um milagre. mas há duas pessoas que talvez o
tenham. aditi, de certeza que o tem. porém, se lho pedir, vai pensar que é por
ganância. gentil, embora, para comigo, acho que continua a desconfiar de mim. e eu
preciso da sua boa vontade para que interceda por mim, junto do sultão de bijapur. o
bom ”irmão” andrew também deve ter algum. afiançou-me que o entregou todo ao
santo ofício, mas, matreiro como é, não acredito que o tenha feito.
thomas olhou em redor, para se certificar de que não havia ninguém por perto que o
pudesse ouvir.

- timóteo, não tendes convosco uma droga chamada datura?

timóteo abanou a cabeça.

- não tenho, não, tomás.

- e não podereis procurar a planta e prepará-la? ou, talvez, comprá-la, aqui em


hukeri?

- É uma droga bastante comum. deve haver na aldeia algum ervanário onde eu
possa encontrá-la. mas para que a quereis? o padre já adormeceu e a datura pode
fazer-lhe mal.

- não é para o padre.

- então, para quem é? deveis ter cuidado, tomás, pois há quem diga que a datura
tem efeitos diabólicos.

- tranquilizai-vos, timóteo, eu preciso dela por razões benfazejas. sois capaz de


guardar um segredo.
raba
horas mais tarde, thomas estava sentado à cabeceira do padre inconsciente, as
costas apoiadas à parede de pedra. tentava reconfortar-se com o ar mais fresco do
fim de tarde. ocultando cuidadosamente o copo com a datura que timóteo lhe
arranjara, fez por manter a calma, concentrando-se no que tinha a fazer.

timóteo surgiu à entrada da alcova, com lockheart ao lado dele.

- queres falar comigo, meu rapaz?

- sim, andrew. há muito tempo que não conversamos e eu tenho notícias importantes
para vos contar.

- então, quero ouvi-las.

lockheart baixou o corpo enorme e sentou-se ao lado de thomas.

thomas olhou para timóteo e disse, em latim:

- obrigado, irmão. eu fico a tomar conta do padre e vós deveis ir descansar um


pouco.

timóteo olhou desconfiadamente para lockheart, mas, depois, fez uma pequena
vênia e foi-se embora.

lockheart fez um sinal na direção do adormecido gonsção.


- achas que ele nos pode ouvir?

- se nos ouvir, isso fará parte do seu delírio. e duvido que, a sonhar, consiga
compreender o inglês.

lockheart sorriu.

- tens razão, mas devemos sempre ter cuidado. o tom de voz pode dizer muita coisa.
achas que ele escapa?

- a esse respeito não sei nada.

- hum! ele já parece um cadáver. mas a morte dele pode-nos ser favorável.

- acho que não - disse thomas. - joaquim disse-me que, se o padre morrer, os
soldados querem regressar de imediato a goa.

- ah, bem me cheirava a qualquer coisa. mas isso são boas notícias, meu rapaz. eu
tenho conversado com os mercadores da senhora agnihotra e eles não morrem de
amores pelos portugueses: ficariam bem contentes se eles partissem. em troca de
alguns favores, eles transportam-nos, a ti e a mim, até bijapur. e quanto à senhora
agnihotra, segundo parece, conseguistes seduzi-la.

- devo-lhe alguns favores, isso é verdade. mas escutai, andrew, porque eu tenho
mais notícias. se voltarem para goa, os soldados insistem em que eu vá com eles.

- hum, eles são apenas oito, os outros estão doentes. não será difícil escaparmos de
noite.

- os cavalos deles são mais rápidos do que os camelos. depressa nos apanhariam.

- muitos dos mercadores estão armados, tom. e, se queres saber, apesar da bazófia
toda, os soldados goeses têm pouco estômago para a luta. com as armas dos
mercadores podemos manter os soldados à distância e convencê-los de que nós os
dois não valemos uma batalha.

- por que razão haveriam os mercadores de se arriscar para nos salvar?

- porque a sua senhora lhes diria para o fazerem e porque não deixariam de
aproveitar a oportunidade para massacrar alguns portugueses. achas que não são
razões suficientes?

a idéia de ver joaquim, por fraco amigo que ele fosse, massacrado diante dos seus
olhos não seduzia thomas.

- esperemos não ter de chegar a esse desfecho - disse ele serenamente.


acrescentando depois, em tom mais jovial: - e se bebêssemos um copo, andrew?
acho que me tornei um apreciador deste arrak.

com muito cuidado, do lado mais afastado de lockheart, thomas deitou o líquido de
um pote de barro para dois copos de madeira, estendendo a lockheart o copo que
continha, também, a datura.

lockheart sorriu para ele com ar de sabedor, ao agarrar o copo.

- tem cuidado, meu rapaz, que os sedutores frutos do oriente podem arrastar um
homem à perdição.

- vou ter isso sempre em mente - disse thomas, com o ar mais calmo de que foi
capaz. - chocou o copo com o de lockheart e exclamou: - ao êxito da nossa
aventura!

- ao fim da nossa viagem! - disse lockheart, saudando com o copo e logo engolindo
o conteúdo de uma golada. pouco depois, franziu a testa e examinou o copo mais de
perto. É estranho, este arrak tem um gosto muito diferente dos que tenho bebido.

- isso é porque cada aldeia tem a sua própria receita, que os ervanários guardam
ciosamente. pelo menos, é o que timóteo me diz.

- e sabemos que o nosso irmãozinho nunca mente, não é? lockheart fez um sinal
para thomas, indicando o padre.

- já pensaste em tirar-lhe o mapa?

- como?

- o arrak confunde-te o espírito, meu rapaz. o padre não sente nada e não está aqui
ninguém a ver, por isso procura-lhe na roupa o mapa do feiticeiro e, depois, quer ele
viva, quer morra, somos nós que ficamos em melhores condições para prosseguir a
busca.

- não tinha pensado nisso! lockheart abanou a cabeça.

- És bom rapaz, mas és pouco esperto. o teu patrão preparou-te muito mal para o
ramo do comércio.

- sois capaz de ter razão - disse thomas, pensando se não teria calculado mal a
dose de datura e desperdiçado a oportunidade.

- avança, então - disse lockheart, apontando para o padre. - revista-o, eu fico a ver
se aparece alguém.

- está bem.

com uma olhadela à cara de lockheart, thomas pôs-se de joelhos e inclinou-se para
o padre. cuidadosamente, como se o padre pudesse acordar, desapertou-lhe o
colarinho do hábito, mas o padre não tinha nada ao pescoço. depois, apalpou-lhe as
bordas das mangas, com uma crescente aversão, como se estivesse a roubar um
morto. notou, então, uma pequena bolsa, presa ao cordão em volta da cintura do
padre. apalpou a bolsa e sentiu, entre algumas moedas, um pequeno objeto
cilíndrico. desatou os cordões da bolsa e retirou o mapa enrolado.

- acho que o encontrei, andrew.

thomas voltou-se e viu o escocês no chão, encostado à parede, cabeça de lado,


boca e olhos abertos.

- andrew?

não houve resposta. thomas abanou-lhe as mãos em frente dos olhos, mas estes
não pestanejaram. enfiando o mapa na cintura das calças, thomas desapertou
rapidamente o colarinho da túnica hindu de lockheart, encontrando uma corrente
com um pingente de prata, mas, também, um cordão de couro com uma pequena
bolsa. abriu-a e verificou que estava cheia de um pó escuro. ah, continuas a ser um
grande magano, como eu pensava.

thomas fechou a bolsinha e retirou o cordão do pescoço de lockheart, balançando a


bolsa uns momentos em frente dos olhos. Ó divina seiva, que tentação perturbante
tu és!

depois, foi rapidamente para junto do padre e observou -lhe a respiração e o pulso,
débeis, mas ainda presentes. ele ainda está vivo e não posso utilizar isto já. e onde
vou eu metê-lo até precisar dele? thomas pensou em pô-lo ao pescoço, mas, se
lockheart acordasse antes de o poder utilizar, o escocês era bem capaz de lho tirar.

thomas pressentiu um movimento atrás de si e voltou-se, vendo timóteo à entrada.

- eu tinha-vos dito para irdes descansar. entorpecido, timóteo entrou timidamente.

- não conseguia dormir, estava sempre a pensar no padre.

- está bem. então vinde cá, vou pedir-vos um favor. timóteo aproximou-se, mas ficou
de olhos abertos quando

viu a bolsinha nas mãos de thomas.

- isso é... é o pulvis mirificus?

- sim, mas não precisamos dele ainda. eu quero que fiqueis com ele, pois estais
quase sempre junto do padre.

- euu?

- isto tem de ficar em lugar seguro, timóteo. vós sois de confiança e ninguém
suspeitará de vós.

os olhos apavorados, timóteo persignou-se e baixou a cabeça para receber o cordão


de couro.

ao colocar-lhe o cordão em cima da cabeça, thomas pensou: o rapaz aceita isto


como um objeto sagrado. gonsção disse-me que ele leu os registros do santo ofício
e sabe alguma coisa a respeito do pó.

- pareceis estar com medo, timóteo. de quê?

- não, não estou com medo, tomás. mas o padre acha que o pó é diabólico e não sei
se ele gostaria que lho déssemos.

- se isso o pode perturbar, então não lhe diremos nada. o homem que eu curei com
esta substância só se lembrava de ter saído de um sono profundo. É isso mesmo
que diremos ao padre.

thomas passou o cordão de couro pela cabeça de timóteo e enfiou-lhe a bolsinha


para dentro do hábito.

- aí está, timóteo. mas o padre, uma vez, disse-me que haveis lido...

- ainda não morreu? - perguntou joaquim, entrando na alcova.

thomas fechou os olhos e soltou um suspiro.

- joaquim, pareceis um abutre a sobrevoar um campo de batalha, na esperança de


ver um desgraçado cair e servir-lhe de refeição.

- que coisa terrível me dizeis, tomás, a mim que estou tão preocupado com o pobre
padre. hum, não me parece muito apetitoso. temos de evitar que os abutres se
cheguem a ele, pois pode envenenar os pobres pássaros.

- senhor! - exclamou timóteo.

- oh, não vos escandalizeis tanto, irmãozinho - disse joaquim -, a viagem dele para o
céu paga-nos a viagem de regresso a casa. estaríeis contente, também, se tivésseis
algum senso.

timóteo espetou o queixo.

- eu não vou voltar a goa convosco. não abandonarei a busca.

- muito bem! ficai e ides ver onde vos levará a busca. ficai e sede comido por um
tigre ou morto pelos bandidos, duvido que o santo ofício sinta muito a falta de um
dos seus acólitos. mas o que é que se passa com o irmão andrew? ele também não
me parece lá muito bem?

- está bêbado - disse thomas. - coisa que não é rara nele.

- ah, certamente já anda a celebrar o regresso à civilização. a propósito, tomás,


domina agnihotra deseja falar convosco e chama-vos com urgência. deveis
aproveitar a oportunidade para a ir ver, pois pode ser a última.

- pois sim - disse thomas de sobrolho carregado. - vou já falar com ela. - e, voltando-
se para timóteo, pousou-lhe uma mão no ombro: - como não conseguis dormir, é
melhor ficardes aqui de vigília, chamando-me, se houver alguma alteração no estado
do padre.

- assim farei, tomás.

com um último olhar para joaquim, thomas saiu da alcova.

aditi ficara instalada, com o seu séquito, numa casa ampla um pouco afastada da
rua. thomas tinha a certeza de que um dos soldados goeses observava para onde
ele ia, mas já não se preocupava. se conseguisse induzir aditi a ser paciente,
poderia salvar algumas vidas. se o não conseguisse, podia, pelo menos, garantir a
sua proteção.

a jovem criada fê-lo entrar de imediato e conduziu-o a uma sala com uma cortina à
entrada. a jovem afastou a cortina e fez uma vênia, com um gesto para que ele
entrasse. quando a cortina voltou ao seu lugar, atrás dele, thomas viu-se numa sala
decorada com enormes tecidos de algodão e de seda, como numa tenda de
caravaneiro. a luz provinha de uma lamparina suspensa do teto. o mundo exterior
parecia muito longínquo, o que a thomas se afigurou muito agradável.

aditi estava recostada num amontoado de almofadas, vestindo, apenas, uma


comprida jaqueta de seda fina, o cabelo numa trança, caída sobre o ombro
esquerdo.

- tamas! fico muito contente por aparecerdes. - o sorriso era jovial, mas fugidio. -
tenho ouvido umas coisas. talvez me possais dizer se são verdadeiras ou falsas.

thomas sentou-se, de pernas cruzadas, num almofadão ao lado dela.

- o que é que tendes ouvido, aditi? talvez eu possa afastar os vossos receios.

- ou incutir-me alguma esperança, tamas. tenho ouvido dizer que o padre da orlem
gor está a morrer.

- na verdade, ele ainda está muito doente, mas eu espero que ele venha a
recuperar.

aditi franziu a testa.

- as minhas criadas dizem que ele está branco como a cal e que mal respira.

meu deus, será que também ela quer que o padre morra? É natural que ela odeie
todos os do santo ofício. não lhe posso contar que consegui algum pó da
ressurreição, nem o que pretendo fazer.

- sim, mas eu já tratei muitas febres idênticas e sei reconhecer os sinais de


recuperação.

- estais a ajudá-lo a recuperar, a esse homem que vos mantém prisioneiro?


thomas suspirou.

- o meu mestre ensinou-me as artes da cura, não as da morte. não tenho nenhuma
vontade de apressar a morte de um homem. mas ficai sabendo que não me convém
nada que ele morra, pois os soldados voltariam para goa e pretendem levar-me com
eles.

- ah! - aditi ficou-se a fitá-lo, pensativa. confundido com a resposta mínima, thomas
acrescentou:

- os soldados vão devolver-me às masmorras do santo ofício, se eu voltar com eles.

- tamas, não vos disse já que só vim nesta caravana por vossa causa? prometo-vos
que não tornareis a ver a orlem gor disse aditi, estendendo a mão e tocando-lhe no
braço.

- fico muito contente por ouvir isso, mas, se eu tentar escapar com a vossa
caravana, os soldados podem perseguir-me e causar-vos dano, a vós e aos vossos
mercadores.

- estou a perceber, eles iriam lutar para vos reaver.

- poderiam fazê-lo e eu não quero que ninguém morra por minha causa. portanto,
como vedes, é melhor que o padre fique bom, e depressa.

- ah, vós quereis, tamas, que a orlem gor encontre o rasa mahadevi?

um vislumbre de aço surgiu-lhe no olhar.

- o quê? não, aditi, de modo nenhum!

- então, porque é que sois tão amigo do rapaz monge que os serve?

- e porque não? ele interessa-se pelas ervas e pelas medicinas como eu. que mal há
em ser gentil com ele?

aditi fez uma pausa e, depois, sorrindo lentamente, exclamou:

- ah, tamas, nós não pensamos do mesmo modo. e não compreendo a vossa
filosofia. eu tenho vivido até hoje sabendo sempre, claramente, quem são os meus
inimigos.

- o rapaz não é meu inimigo, aditi. ele é tão prisioneiro nesta expedição como eu. e o
padre também não é o que julgais. mas isso não interessa. uma vez chegados a
bijapur, eu posso libertar-me deles e deixarei de ficar às suas ordens. isso é
certamente bastante melhor do que acabar com a expedição aqui, nesta região,
muito mais perigosa para todos.

- isso é verdade - murmurou aditi, olhando-o friamente. - em bijapur, muita coisa


pode acontecer.

- precisamente. se intercederdes por mim junto do sultão e ele me tomar ao seu


serviço, eu poderei, eventualmente, ganhar dinheiro para ir em peregrinação à
cidade da vossa mahadevi.

aditi abanou vivamente a cabeça.

- não percebeis nada dos nossos usos e costumes, tamas. não precisais de dinheiro
para ser peregrino. aqui, na índia, o que um peregrino veste e come é quase nada.
tendes de praticar.

num movimento gracioso, deslizou para junto dele e começou a puxar-lhe a camisa
para fora das calças.

- aditi, não é boa altura para jogos de amor.

- chiu, temos de aproveitar as oportunidades, tamas. quem sabe quando teremos, de


novo, alguns instantes de privacidade. agora, que temos luz, quero ver se os
caracóis cá de baixo são tão dourados como os de cima.

aditi puxou pelo cordão que lhe prendia as calças e o mapa que ele havia escondido
na cintura caiu ao chão.

thomas tentou agarrá-lo, mas aditi foi mais rápida e apanhou o pergaminho
enrolado.

- o que é isto, tamas? - perguntou aditi, desenrolando o mapa e examinando-o.

thomas recostou-se nos almofadões e suspirou.

- É o mapa de de cartago.

- eu julgava que era o padre da orlem gor que o tinha, como me havíeis dito.

- e era ele que o tinha, mas eu tirei-lhe, agora que ele está inconsciente.

- fostes esperto, tamas. mas não precisais dele, visto que eu posso levar-vos aonde
desejais. e não quereis que ele caia nas mãos de ninguém, pois não?

aditi levantou-se, foi junto de uma lamparina a óleo e chegou o pequeno pedaço de
pergaminho à chama. thomas ia saltar para a agarrar, mas dominou-se.

o que é que me interessa se ela o queima ou não? eu não vou à procura do pó e


quero lá saber se outros vão. ela tem razão, é melhor que o padre não o recupere.

sons de passos a correr soaram por trás da cortina.

- tomás! - gritava timóteo. - tomás, onde estais? vinde depressa, tomás!


- estou aqui, timóteo - respondeu thomas, puxando as calças e levantando-se.

- É o padre, tomás. está na hora. vinde depressa, por favor. quando thomas se
dirigia para a cortina, aditi agarrou-lhe uma manga da camisa.

- porque é que lhe dissestes que estáveis aqui?

- ele não teria vindo se não fosse urgente.

- mas porque ides? se o padre está a morrer, era melhor ficardes, para nós vos
escondermos dos soldados.

- mas eu tenho de tentar ainda uma coisa, para ver se o salvo. tranquilizai-vos, se
tudo falhar, eu volto.

thomas pegou na mão de aditi agarrada à manga da sua camisa e beijou-a. depois,
voltou-se e partiu.

aditi escutou os passos a correr que ecoavam através da cortina. mais uma coisa
para ver se o salva? que mais pode ele fazer por um homem morto? a não ser que...
ele ainda tem rasa mahadevi.

- oh, eu sou uma parva! eu sou uma grande parva! aditi levou a mão esquerda à
testa e sentiu uma queimadura na mão direita. olhou e, vendo nos dedos o toco
queimado do pergaminho, largou-o para o chão. praguejando mansamente, pisou os
restos incandescentes com a sandália e meteu a ponta dos dedos chamuscados na
boca.

isto é mau sinal. não posso ser tão ingênua. claramente, ele anda a mentir-me. tinha
o mapa e não gostou quando eu o queimei. e tem o sangue. que mais saberá ele do
segredo dela? ai, porque não o matei eu quando tive oportunidade?

À luz difusa dos archotes da rua, thomas e timóteo correram para a alcova do padre.
joaquim já lá estava, esperando à entrada. outros soldados entravam e saíam,
transportando os pertences do padre.

- chegais tarde, boticário - disse joaquim. - o padre morreu, que deus tenha a sua
alma em descanso. o melhor é prepararem as vossas coisas, o sargento quer partir
antes do nascer do sol.

- por favor, joaquim, permiti que eu e o irmão timóteo oremos pelo padre, antes de o
levarem.

- podeis orar o que quiserdes enquanto preparais as vossas coisas.

- não! isso não seria correto. deixai-me vê-lo já. eu tenho de examiná-lo uma última
vez. há estupores que se assemelham à morte e o padre gonsção pode...

- que raio de amor tendes pelo padre - escarneceu joaquim - para vos preocupardes
tanto com ele? ele que vos atormentou no santo ofício e vos obrigou a esta viagem
para nenhures?

- ele nunca me magoou, nem nunca me dirigiu uma palavra de rancor. e arriscou a
vida para me salvar, quando eu escorreguei na montanha. foi por causa dele que eu
consegui libertar-me das garras do santo ofício. foi por causa dele que eu confessei
e me tornei um verdadeiro católico. alguém como vós, que pertenceis à santa madre
igreja, compreende, certamente, quanto lhe devo.

joaquim levantou os olhos para o céu.

- ah, os convertidos são sempre os piores. ide lá, ide lá, mas despachai-vos.

antes de o soldado acabar de falar, já thomas e timóteo corriam para dentro da


alcova. ajoelharam-se junto do padre e thomas tomou-lhe a pulsação no pescoço.
não sentiu nenhuma. thomas aguardou até não haver nenhum soldado na alcova e,
então, segredou para timóteo:

- depressa, a bolsinha.

timóteo passou-a a thomas, visivelmente feliz por se ver livre dela.

- obrigado. agora, orai em voz alta, por favor. timóteo pôs-se a rezar em voz alta e
thomas espreitou por cima do ombro: joaquim discutia com outro soldado, à entrada.
abriu, então, a bolsa e, apertando os maxilares do padre, para lhe abrir a boca,
despejou-lhe o pó entre os lábios. algum do pó espalhou-se pelo queixo e pela
batina de gonsção, mas thomas não tinha tempo para se preocupar com asseios.
quando a bolsa ficou vazia, thomas atirou-a para debaixo do catre e juntou-se a
timóteo nas orações.

ele não sabia o que esperar. o grumete do whelp parecera, meramente, acordar do
sono, enquanto que de cartago se contorcera em espasmos, tão agitado que mais
parecera possesso dos demônios. as orações prolongaram-se e thomas começou a
temer que o céu preferira não devolver a alma de gonsção ao seu corpo.

por fim, o padre começou a tossir, como um afogado arrastado para a praia, e abriu
os olhos.

- louvado seja deus - murmurou thomas.

timóteo ficou de olhos abertos, a cara cor de cinza, as orações a esvanecerem-se


em silêncio.

o padre gonsção voltou a cabeça e olhou, atônito, para thomas.

- mestre chinnery? - regougou.

- temíamos o pior, padre - disse thomas -, mas deus compadeceu-se de vós e a


febre passou.

agarrando-se à borda do catre, gonsção conseguiu sentar-se.


- timóteo! - exclamou, ao ver o rapaz. timóteo persignou-se, dizendo:

- É um milagre, santa maria!

- como vos sentis, padre? - perguntou thomas. gonsção franziu a testa e pestanejou.

- acho... acho que estou bem.

- folgo muito por ouvir isso. vós estáveis mergulhado num sono profundo. os
soldados até vos deram por morto. conseguireis pôr-vos de pé? eu ajudo-vos.

ignorando as dores nos ombros, thomas segurou no braço do padre e tentou erguê-
lo do catre. ao princípio, gonsção tremeu todo, como um homem com o dobro da
idade dele, mas, quando ficou de pé e se pôs a caminhar, foi, visivelmente,
ganhando forças.

thomas conduziu-o lá para fora, onde joaquim continuava a discutir com o


companheiro. thomas pigarreou. joaquim olhou para ele e, depois, para o padre.

- madre de deus! - exclamou joaquim.

o outro soldado, que era o sargento, soltou uma série de epítetos nada reverentes.

- um bom dia para vocês - disse o padre com um sorriso contorcido.

- obrigado, padre - disse o sargento com ar carrancudo, cuspindo para o chão e


afastando-se.

joaquim começou a rir, mas havia um certo desespero no seu riso e não era um som
agradável de ouvir.

- ah, padre, realmente os anjos protegem-vos, e protegem a vossa busca, também.


já vos havíamos dado por morto e preparávamo-nos para transportar o vosso pobre
corpo para goa.

- segundo parece - disse o padre, olhando de relance para thomas -, este mundo
ainda não está farto de mim.

- na verdade, tendes amigos poderosos a velar por vós. joaquim tirou o elmo da
cabeça e, à moda goesa, fez uma profunda vênia para thomas. depois, voltou-se e
seguiu rua abaixo.

- que desejais fazer, padre? - perguntou thomas. - ainda é de noite e poderíeis,


talvez, descansar um pouco mais, antes de prosseguirmos a viagem.

o padre gonsção esfregou o queixo, olhou um momento para a mão e, depois,


limpou maquinalmente os dedos ao hábito. então, ergueu os olhos para as estrelas
no céu, como que pesaroso por não se encontrar no meio delas.
- talvez uma pequena refeição, acho eu. e, depois, vamos pôr-nos de novo a
caminho, antes que a nossa escolta perca a coragem e nos abandone. será mais
agradável viajar de noite, enquanto o ar está mais fresco.

- sentis-vos com forças para viajar? - perguntou thomas. embora a vossa cura
pareça miraculosa, o corpo precisa de tempo para...

o padre ergueu uma mão:

- não falemos mais a esse respeito, mestre chinnery. eu agradecer-vos-ei, como


mereceis, noutra altura. agora, ide preparar a vossa mula.

- muito bem, padre.

thomas afastou-se, descendo a rua com o coração aliviado.

louvado seja deus, ou a deusa mahadevi, ou quaisquer que sejam os poderes que
produziram este milagre. não vou tornar a ver o santo ofício e ninguém vai morrer
por minha causa.

no extremo da rua, lockheart emergiu de outra alcova, coçando a cabeça. o olhar do


escocês pousou em thomas e, por um momento, lockheart ficou só a olhar, os olhos
muito abertos. depois, com um largo sorriso espalhado na cara, caminhou para
thomas e deu-lhe um grande e forte abraço.

- ora então, ora então, parece que te subestimei, tom. És mais malandro do que eu
pensava. - e, aproximando a cara, perguntou em voz baixa: - utilizaste-o todo?

portanto, já sabe. antes isso.

- receio que sim.

- bem, o que está feito, está feito.

- desculpai-me, mas eu só fiz o que era justo - disse thomas - e, assim, ninguém vai
morrer para eu me salvar. e um homem só vive o tempo que lhe está destinado.

- e eu só tenho uma dor de cabeça por vossa causa. pareces ter uma mão infalível
ao leme da nossa expedição, meu amigo. tal ulisses, vais-nos conduzindo a direito,
por mais que homens e deuses te desafiem.

- espero que a nossa viagem resulte menos perigosa do que a da história de


homero.

- sinceramente? não encontraste já a tua circe? lockheart olhou para a casa onde
aditi estava alojada e,

estendendo o indicador à frente do nariz, concluiu:

- tem cuidado, tom, pois ela é muito capaz de já estar a transformar-te num
porquinho.

capítulo xi

mirra: a mirra é uma goma aromática, muito cara, produzida por umas árvores
baixinhas que crescem no oriente. tem sido utilizada, desde remotos tempos, para
consagrar os sacerdotes e os templos. É uma especiaria muito amarga. uma infusão
de mirra é boa para curar as feridas e as aftas. a tintura de mirra alivia as tosses e
os males dos pulmões. os antigos gregos acreditavam que as gotas desta resina
eram as lágrimas de uma mulher punida por ter desobedecido a uma deusa...

omirzá ali akbarshah balançava no howdah montado no dorso do elefante, agora


quase acostumado ao enrolado balanço. a paisagem em redor dele estava a tornar-
se mais verde e viçosa, à medida que se aproximavam da cidade de bijapur, agora
apenas a um dia de distância. o mirzá começava a compreender porque é que akbar
e os seus filhos ambicionavam estender o império para sul: havia ali muita riqueza.

atrás de si, o mirzá ouvia os seus homens a cantar. jaimal, aparentemente,


espalhara a história do relicário de prata do shahid anônimo e os homens, agora, só
sonhavam com tesouros à espera deles. o mirzá estava contente por terem
recuperado o entusiasmo, mas preocupado com as consequências.

o dervixe masum seguia junto dele, de quando em vez regalando o mirzá com
histórias sufis, ou recitando poemas herméticos. desde que vira a mão de pedra no
zigurate, o mirzá sentia-se inquieto e gostava de manter o místico ao pé de si.

segundo a lenda, os sufis são bons conselheiros de quem comanda. talvez masum
me ajude a compreender os mistérios daquele encontro.

se a mão fosse apenas uma hábil escultura e o mirzá seduzido apenas por histórias
com falsos fundamentos, a sua sorte chegaria ao fim. as suas ambições seriam
cortadas cerce por um imperador desapontado, como, talvez, a sua vida pelos
homens desapontados.

mas se a mão tivesse, em tempos, sido de carne... o mirzá continuava a ser um fiel
da fé, um sustentáculo da lei, um respeitador dos cinco pilares. mas tremia
interiormente, ao pensar que podia vir a experimentar uma manifestação tangível do
divino. só os profetas é que podiam obrar mujizat, milagres, e os profetas eram de
outros tempos. mas os santos podiam ter karamat, dons carismáticos, e era, acaso,
isso o que a mão de pedra era.

- tendes estado calado, meu senhor - disse masum. desejais ouvir outra história?

- não, masum.

o mirzá esfregou a ponta do nariz e suspirou. quem disse que a companhia de um


sufi dá sorte, esqueceu-se de dizer quanta paciência essa companhia requer.

- quero, porém, perguntar-vos uma coisa. o que é que sabeis a respeito desse
ibrahim adilshah, sultão de bijapur?
- É um monarca sábio e instruído, senhor mirzá. tem acolhido refugiados de perto e
de longe, que se estabelecem nas suas terras. o meu próprio pir veio da pérsia e
muitos artesãos vieram do sul, quando vijayanagar caiu. apesar de ter sido o tio
quem travou as grandes batalhas que têm permitido a bijapur viver em paz, foi
ibrahim que fez dela uma paz gloriosa. a sua cidade é a mais bela do decão.

- já falastes alguma vez com o sultão?

- oh, não, senhor mirzá. só o vi passar em cortejo. tem um aspecto magnífico.

- estou a perceber. mas é verdade que ibrahim se afasta da verdadeira fé, como se
ouve dizer a respeito do shahinshah akbar?

- esse é, de fato, um assunto muito debatido pelos ulemás e pelos xeques. dizem
que o sultão nem sempre observa os preceitos corretos, mas ele mandou construir
mui belas mesquitas. não proclamou uma fé ideada por ele, como o vosso imperador
fez, mas dizem que a veneração pessoal de ibrahim é um pouco... estranha. o sultão
dedica mais do que simples respeito à deusa hindu sarasvati, em virtude da sua
devoção à música e à poesia. dizem que ele tem uma imagem dela oculta no
palácio.

- música. poesia - murmurou o mirzá para si próprio. chegara, de manhã, um


patamar com uma mensagem do sultão, dando as boas-vindas ao mirzá e aos seus
homens e indicando-lhes o melhor local de acampamento junto da cidade, cujo
caravansará dispunha de alojamentos para o mirzá e seus oficiais. a mensagem era
em forma de poema. o mirzá teria gostado de tratar com o guerreiro ibrahim que
proporcionara a paz a bijapur. mas um monarca que escrevia poemas?

- a poesia é a linguagem em que a alma se exprime disse masum. - o meu pir


apreciava essa arte.

- ah sim? e o que é que o vosso pir diz dos sonhos?

- um sonho é uma viagem, meu senhor, numa terra interior que é o espelho da
nossa. nessa terra interior, somos guiados pelo anjo dos filósofos e os sonhos
podem mostrar-nos o caminho para a via do paraíso e de deus.

- ah, é que eu tive um sonho... tenho tido o mesmo sonho todas as noites, desde
que visitamos aquele túmulo. talvez possais interpretá-lo.

- eu sou apenas um murid e o meu pir diz que devemos meditar nós próprios sobre
os nossos sonhos, até que a alma os compreenda. mas - e inclinou a cabeça com
um sorriso gentil - confesso que estou com curiosidade. gostava de ouvir esse
sonho.

- muito bem. no meu sonho, aparece-me uma mulher linda, com uma enorme taça
nas mãos. a taça tem cinco lados e foi cheia em cinco fontes. a mulher diz-me que,
se eu beber de um dos lados, fico envenenado. se beber de um outro, saber-me-á a
um vinho delicioso, mas ficarei embriagado. se beber de um terceiro lado, engolirei
água pura e fresca. se beber do quarto, saber-me-á a sangue. e, por fim, se beber
do quinto lado, beberei cinzas e pó.

- ah! - exclamou masum, os olhos a brilharem.

- e então?

- haveis meditado no significado do sonho, grande senhor?

- sim, sim. parte dele parece-me ser um aviso. a taça, porém, é um símbolo sufi, não
é assim? os diferentes lados refletem, talvez, as mais diversas formas que o divino
pode assumir.

masum parecia deliciado com a interpretação, como se o mirzá fosse uma


criancinha a balbuciar as primeiras palavras.

- É uma boa interpretação, meu senhor. e, para nós, os sufis, a mulher é sempre
símbolo de manifestação divina. o fato de terdes sido instado a beber da taça... bem,
é através da boca que o divino entra em nós e nos ilumina.

- ah!

o mirzá não se sentia esclarecido, antes lhe acrescera a apreensão.

- de qualquer modo, devo dizer-vos que ainda não entrei completamente na via do
suf, nem este howdah pode fazer as vezes do meu khanagh. mas há mais uma
interpretação desse sonho a considerar.

- qual é ela, masum?

- acho que vos ireis confrontar, e nós todos, talvez, com uma escolha. e o que
escolherdes terá sérias consequências.

- isso é uma interpretação muito prudente, masum. comandar este exército obriga a
opções todos os dias.

- não me entendestes, grande mirzá. eu não me refiro às ínfimas ações da vida


mortal. os homens são como o pó da taça, podemos ser soprados para longe com o
sopro de deus. uma via pode proporcionar alimento à alma, outra, suave olvido.

masum ergueu as mãos em concha e abriu a boca como se fosse falar. depois,
soltou um suspiro, com um sorriso magoado, e ficou calado.

- o que foi?

masum abanou a cabeça.

- desculpai-me. eu sou mau professor e falo por de mais. era evidente que não o
forçariam a mais explicações.
o mirzá tornou a olhar para montes e vales. um bando de pombos irrompeu de uma
árvore, sobrevoou o elefante e rumou a sudeste, as asas a brilharem à luz do sol.

- haverá conceitos que a minha mente não consegue atingir, conceitos que não se
podem exprimir por palavras? será por isso que mastim se calou? contudo, ele
pressente que eu devia saber mais qualquer coisa? mas o quê? não basta respeitar
a lei? as minhas responsabilidades para com a minha família, para com os meus
homens e para com o meu imperador não bastam? devo ainda mais alguma coisa a
alá? ou patenteia-me o divino algo que eu ainda não consigo ver?

confundido com coisas que não compreendia. o mirzá deixou o silêncio cair, tal
cortina entre ele e o místico sufi.

o vento quente e seco desgrenhava o cabelo do irmão timóteo e a poeira vermelha


enchia o ar, obscurecendo-lhe a visão. por vezes, o olhar agarrava frustrantes
relances de altas paredes de pedra e de cúpulas a brilharem à distância. tentava
manter o capuz na cabeça, mas logo uma rajada de vento lho arrancava, enchendo-
lhe os olhos de areia.

- donde é que vem este vento, frater andrew? - gritou timóteo. - esta terra era um
belo e quedo vale quando nela entramos, esta manhã?

- É a estação seca - respondeu o irmão andrew. - os condutores disseram-me que,


neste mês, os gênios dos desertos do decão, com inveja da fertilidade de bijapur,
tentam reconquistar os seus domínios.

- o padre diz que isso são histórias pagãs insensatas disse timóteo. as pontas das
rédeas que ele segurava voaram ao vento e, de repente, bateram-lhe na cara. - ai!
santa maria, mãe de deus! - exclamou, persignando-se. devia ter ficado calado.
quem sabe se, afinal, os demônios não andam aqui a divertir-se?

depois de ter assistido à ressurreição do padre gonsção, timóteo começava a


acreditar nas histórias de maravilhas. se era possível fazer um homem voltar à vida,
com o sangue em pó de uma lendária criatura, também outras histórias podiam ter
um fundo de verdade.

timóteo voltou-se na sela e olhou para o padre, que seguia atrás dele. o padre
estava todo encolhido em cima do cavalo, o capuz da capa preta a tapar-lhe a cara,
as abas da capa a esvoaçar atrás dele, como duas asas negras.

parece o demônio da morte a perseguir-me. timóteo estremeceu e voltou-se para a


frente. esta minha imaginação! o comportamento do padre era agora, na verdade,
muito diferente. tornara-se mais silencioso e distante, embora parecesse de boa
saúde. santa maria, espero que não esteja possesso!

o burro de timóteo parou abruptamente e uma das jovens criadas de sri agnihotra
apareceu ao lado dele, o xale apertado em volta da cabeça e dos ombros.

- fradinho da orlem gor, sri agnihotra deseja falar convosco.


- ela precisa que lhe traduzais uma coisa. está aqui ao lado da estrada, vinde!

timóteo olhou em redor, mas o irmão andrew e o padre estavam demasiado longe
para lhes gritar e não via tomás em lado nenhum.

- vamos! - a jovem puxava-o pela manga.

- está bem, eu vou .

timóteo escorregou de cima do burro e levou -o à arreata, seguindo a rapariga o


melhor que pôde, no meio da rodopiante poeira.

o palanquim não estava longe e timóteo agachou-se junto dele. as cortinas de


púrpura tinham sido substituídas por um tecido grosso de algodão, felpudo. timóteo
invejou a proteção da senhora, do vento e da poeira. desejaria entrar para dentro do
palanquim, para ficar abrigado durante algum tempo. mas a senhora não parecia
disposta a essa generosidade e o padre ficaria furioso, por isso timóteo afastou o
desejo da mente.

- sri agnihotra - disse a rapariga que o trouxera -, o pequeno frade está aqui.

- muito bem. vai, então, e manda-me cá o mensageiro. a voz continuava a não lhe
parecer a de uma mulher

velha, mas timóteo reconhecia que não conhecera muitas mulheres na sua vida,
fossem de que idade fossem, para poder ajuizar bem.

- estais aí, pequeno frade.

- sim, sri agnihotra.

- pois bem, eu mandei-vos chamar porque quero falar em marata e quero que me
compreendam.

- pois sim, sri agnihotra.

vindo por detrás do palanquim, apareceu um homem magro, de pele escura,


vestindo apenas uns calções. inclinou-se perante timóteo e disse:

- senhora, estou à vossa disposição.

- muito bem. pequeno frade, é aqui que as nossas caravanas se separam. eu vou
entrar na cidade, pois tenho de falar com o sultão, para ver se ele recebe o vosso
padre. os meus mercadores vão tratar da vida deles e este mensageiro vai conduzir-
vos a um caravansará perto da cidade, onde ficareis alojados, à espera que o sultão
vos mande chamar.

- entendido, grande senhora. o padre, se aqui estivesse, agradecer-vos-ia a


colaboração que nos prestais.
- não há motivo para agradecimentos, eu limito-me a fazer o que o meu dharma
requer. agora ide, e procurai abrigar-vos deste vento.

- obrigado, sri agnihotra. timóteo ergueu-se para partir.

- pequeno frade?

- sim, minha senhora?

- só mais uma coisa: dizei a tamas chinri que... dizei-lhe que eu espero tornar a vê-lo
em breve.

timóteo não pôde evitar um sorriso, embora soubesse que devia reprovar tais
encontros.

- dir-lhe-ei, sri agnihotra.

- ide, então.

thomas estava junto do muro ameado do caravansará, observando as altas


muralhas de basalto de bijapur. com o cair da tarde, o vento amainara e a poeira
vermelha assentara, embora a névoa ainda persistente proporcionasse um pôr do
sol glorioso.

o caravansará estava situado a cerca de um quarto de légua da cidade. o pouco que


se conseguia ver de bijapur, o brilho de cúpulas douradas e as pontas de graciosas
espirais, maravilhavam thomas, como uma miragem no deserto, ou o avistar de terra
a um homem há longo tempo no mar.

algures naquele aglomerado estava aditi, em quem ele depositava todas as suas
esperanças. talvez que, neste momento, ela esteja junto do sultão a interceder por
mim, a interceder por mim e a preparar a forma de eu regressar à pátria, embora
não o saiba.

thomas estava ansioso por largar a expedição. desde a ressurreição, dois dias
antes, o padre gonsção tornara-se muito distante, admitindo apenas timóteo junto
dele. joaquim e os outros soldados andavam mal-humorados e rancorosos, bebendo
e jogando todas as noites e sempre prontos a degladiarem-se. pouca atenção
prestavam agora a thomas, a não ser para o olharem com rancor. talvez joaquim e
os companheiros esperassem que eu tentasse fugir, dando-lhes pretexto para me
matarem. poderiam, então, convencer o padre a abandonar a busca. mas isso que
interessa, agora? já aqui estou e, em breve, ficarei liberto desta viagem de loucos.

- É linda, não é? - disse lockheart, surgindo ao lado dele.

- uma jóia de cidade no meio do cobre do deserto. orgulhai-vos, rapaz, pois poucos
dos nossos compatriotas terão observado este panorama.

thomas aquiesceu com a cabeça.


- uma história digna de ser contada. mas, andrew, onde vos metestes vós nestes
últimos dias? pouco vos vi e isso é um comportamento nada próprio de uma ama
contratada.

- depois da vossa esperta tramóia com o padre, meu rapaz, acho que não precisas
de ama. mas eu tenho estado com os mercadores de sri agnihotra. eles conhecem
esta terra e a sua gente e muita coisa se aprende escutando-os. por exemplo,
verifiquei que este caravansará estava vazio e parecia estar à nossa espera.

- tivemos muita sorte. lockheart abanou os cabelos pretos.

- não, os mercadores pensam que não. estamos em plena estação de caravanas e,


normalmente, deveria estar cheio.

eles acham que o sultão mandou reservar este caravansará só para nós.

- ainda melhor. sua majestade privilegia-nos.

- não, pensa bem. para os caravaneiros, é sempre mau sinal quando um potentado
se interessa demasiado por nós.

- talvez seja raro receberem delegações estrangeiras.

- ou talvez tenham tido notícia da nossa chegada. nota que nós ocupamos apenas
cerca de um quarto do caravansará, contudo, nenhuma outra caravana foi
autorizada a instalar-se aqui.

- e então? concederam-nos privacidade, é tudo.

- ou ficamos isolados de qualquer auxílio exterior. ou o espaço que resta está


reservado para mais alguém.

thomas riu-se.

- a nossa viagem não tem já peripécias de sobra, para que ainda procureis intrigas
em todo o lado? não podeis ocupar o vosso espírito com passatempos mais triviais.

lockheart deu um estalido com a língua.

- desperdiças as minhas lições de matreirice, meu rapaz. e eu que depositava tantas


esperanças em ti! nós, aqui, somos estrangeiros e não somos lá muito benquistos
pela população. para sobrevivermos, temos de estar alerta e de olhos bem abertos.

- estou a aprender, andrew.

- estarás, quando ligas tão pouca importância ao local onde te instalaram?

- É que eu não espero ficar aqui muito tempo. talvez que, enquanto estamos aqui a
conversar, haja alguém no palácio do sultão a zelar pelos meus interesses,
assegurando-me uma posição e, desse modo, libertando-me desta expedição e da
gentil proteção do padre.

lockheart ergueu o sobrolho.

- falas a sério? quem é que tu podes conhecer dentro daquelas muralhas, a não
ser... domina agnihotra? - o espanto de lockheart transformou-se num sorriso. -
utilizaste os teus encantos para lhe pedir um favor. eu engulo o que disse, tom. És
realmente um grande malandro, se seduziste uma velha.

thomas olhou em redor, para se certificar de que ninguém os podia ouvir.

- não sou assim tão malandro, andrew. ela não é nenhuma velha. em boa verdade,
se sois capaz de guardar um segredo, ela é, nem mais nem menos, do que a bela
aditi, que vós conheceis.

- a mesma que nós sacamos do barco de de cartago? que maravilha! pareceu-me


ter-lhe reconhecido a voz, quando ela vociferou com o ladrão, mas pensei que era
coincidência. como é que isso aconteceu?

- eu não sei como é que ela soube da nossa expedição, mas juntou-se a ela para me
ajudar a escapar.

- e porque é que só agora me contas isso?

- porque ela continua a ser procurada pelo santo ofício. não ousei contar a ninguém
com receio do que o padre poderia fazer, se viesse a ter conhecimento.

- mas nós estamos a muitas léguas de goa.

- por aquilo que sei, eles estão tão interessados nela que o padre era bem capaz de
regressar, de imediato, a goa, para a entregar aos inquisidores. ou fazê-la torturar
pelos soldados, para a forçar a revelar os seus segredos.

- acho que ele não seria tão louco ao ponto de fazer isso. contudo - lockheart
meditou, cofiando a barba -, se alguém conhece a fonte do pó da ressurreição, é ela.
ah, mas tu, agora, também já deves saber. desculpa-me, rapaz, por ter pensado que
te faltava manha. estiveste sempre com o olho no prêmio grande. não admira que
não te preocupasses em tirar o mapa ao padre, não precisavas dele para nada!

- para nada - concordou thomas com sinceridade.

- nesse caso - disse lockheart, estendendo a mão -, importas-te de mo dar?

thomas fitou-o. também quereis chegar ao pó.

- já não o tenho, andrew. aditi tirou-me.

lockheart retirou a mão estendida e, voltando-se, voltou a olhar para as muralhas da


cidade.
- depositaste a tua confiança num saco furado, meu rapaz. lembra-te que essa aditi
é a mesma insensível criatura que matou mestre thatch e que traiu de cartago,
apesar da amizade que os unia. como é que podes esperar que ela te seja fiel?

- isso não me preocupa. se ela me quisesse fazer mal, já o teria feito, pois já teve
muitas oportunidades para isso. além disso, não tenho outra opção. - desde que ela
interceda por mim junto do sultão, eu fico a caminho de casa.

aditi inclinou a cabeça até a testa tocar no tapete em que se sentara. por princípio,
só costumava mostrar tanta veneração pela mahadevi, mas havia tanta coisa que
queria obter de ibrahim adilshah que desejava causar a melhor impressão. embora
os seus pensamentos balançassem e rodopiassem como os braceletes de uma
dançarina, os seus movimentos eram firmes e o olhar direto. não tinha receio de
adilshah, pois não passava de um potentado mortal. mas sentia que se afastava
cada vez mais do seu dever para com a mahadevi. se a sua divina mãe adotiva se
viesse a inteirar das faltas cometidas, quem poderia adivinhar qual seria a sua
reação?

- bons olhos vos vejam, sri aditi - disse o sultão, reclinado em almofadões, uma flor
de asoka na mão. - há muito tempo que não honráveis o nosso palácio com a vossa
presença.

as palavras do sultão eram irônicas, pois poucos na sua corte saberiam da presença
dela. estavam reunidos numa diminuta e escura sala da residência real, o gagan
mahal, iluminada apenas por uma estreita janela no alto da parede. gandharva, o
músico cego, tocava suavemente na sua vina, a um canto da sala. aditi ignorara-o e
ele não dera sinais de a reconhecer.

- eu vou onde o meu dharma me manda, majestade.

- como todos nós. mas temos sentido a falta da vossa beleza e dos vossos talentos.
espero que tudo esteja bem com aquela que vós servis?

- a sua força e saúde nunca fraquejam, majestade.

- claro, claro. sei que trazeis uma prenda rara: estrangeiros de goa e de mais longe.

- estais bem informado, majestade.

- pobre do rajá que não tenha orelhas de elefante. mas, dados os perigos da
estrada, esses estrangeiros tiveram sorte em ter-vos por guia, para os trazer aqui
em segurança.

estará a admoestar-me. o que é que gandharva lhe terá dito?

- para a mahadevi, tudo é possível. eu sou, apenas, sua criada.

ibrahim, por momentos, fixou os olhos nela.

- sim, sim, mas o que é que vós... o que é que ela quer que eu faça com estes
ocidentais? dizeis que eles querem que os receba. que querem eles de mim?

- eles pretendem que os informeis acerca do paradeiro da mahadevi. como vós o


desconheceis, mandá-los-eis embora, sem mais.

o sultão examinou a flor de asoka que tinha na mão.

- eu sempre pensei que a mahadevi só desejava ser conhecida pelos que estão
preparados para esse conhecimento. nem eu próprio estou autorizado a ir à sua
cidade sagrada, seja ela onde for, sentar-me a seus pés para receber o privilégio da
sua sabedoria. como é que estes goeses vieram a ter conhecimento da existência
da mahadevi?

- já ouvistes falar, decerto, da terrível orlem gor dos portugueses. alguns seguidores
da mahadevi foram capturados e torturados por eles. foi assim que eles souberam.

- a mahadevi não teve o poder de calar as línguas dos seus seguidores?

aditi apertou os punhos, mas escondeu-os debaixo da roupa.

- as suas línguas foram caladas, majestade.

- mas não a tempo, segundo parece. e eis-vos aqui, a ajudar esses padres da orlem
gor. talvez a vossa deusa deseje ser mais conhecida. talvez por isso é que está aqui
a chegar, de lahore, um mirzá do imperador akbar, com um pequeno exército,
também à procura da mahadevi.

aditi manteve-se imperturbável. um exército mongol? ibrahim não pode perceber


como estou surpreendida. mas, ai, mãe de todos, que me fazeis?

- ah - disse o sultão, sorrindo -, será possível que eu saiba alguma coisa que vós
não sabeis?

aditi compôs um sorriso frio e irônico.

- não vos iludais, majestade. não deixeis o vosso orgulho cegar-vos. tudo se passa
segundo os desejos da mahadevi.

- porquê? - gritou ibrahim, erguendo-se do divã e pondo-se a caminhar ao longo do


estrado. - por que razão permite ela que esta gente chegue aqui? e porquê agora?
pretenderá pôr à prova a minha lealdade? quer certificar-se de que ainda sou digno
da sua proteção? fazeis idéia como os clérigos muçulmanos se vão aproveitar disto?
os embaraços em que tudo isto me mete?

ah, o medo fá-lo falar e está a meu favor. aditi fez uma vênia.

- folgo em ver que a vossa sabedoria se mantém com os anos, majestade.


continuais com olhos de águia e a ver as coisas com clareza.

- achais? - ibrahim tornou a sentar-se, cruzando os braços. - não basta o templo que
lhe ergui, no verdadeiro coração da cidade?

- todos os reis erguem templos, majestade.

- eu todos os dias presto homenagem ao seu avatar!

- a adoração é importante, mas é fácil fazer oferendas a uma imagem e dirigir-lhe


orações.

- não com os ulemás a espiarem-me, a condenarem-me e a ameaçarem-me com


distúrbios! devíeis contar isto à vossa mahadevi.

- estou certa de que ela o sabe.

nervosamente, ibrahim machucou a flor de asoka e atirou-a para o chão.

- terei de continuar a pagar - murmurou ele - por um favor outorgado há tantos anos?

- É verdade que, há muitos anos, a mahadevi vos restituiu uma coisa que vos era
muito preciosa - disse aditi -, mas pensai bem, algo mais ela terá feito por vós. não
foi vijayanagar destruída, proporcionando grandeza a bijapur?

- isso foi no reinado do meu tio.

- para a mahadevi, passado e futuro estão unidos. ela sabia o que estava para vir. se
vijayanagar não tivesse caído, não estaríeis vós, agora, de armadura, montado num
cavalo, em vez de estardes a apreciar música e poesia?

ibrahim suspirou.

- acertastes no alvo. pois bem. eu já me preparei para receber as duas expedições,


mas sou apenas um ser mortal e posso falhar nos meus intentos. se o imperador
akbar decidir enviar o grosso das suas forças para o sul, ou se os portugueses
enviarem os seus exércitos do oeste, espero contar com a proteção da mahadevi.

aditi abanou a cabeça e sorriu.

- quereis fazer barganha com a mahadevi? ficai tranquilo, pois recebereis o auxílio
que merecerdes.

ibrahim bateu com os dedos no joelho.

- isso, minha cara, é precisamente o que eu receio.

- não duvideis de vós próprio, majestade. tenho a certeza de que vos


desenvencilhareis bem.

- agradeço-vos a confiança que depositais em mim.

- mas há ainda outra coisa.


ibrahim revirou os olhos e soltou um suspiro explosivo.

- o quê? - exclamou.

- entre os goeses há um a que deveis prestar particular atenção. chama-se tamas


chinri e é de um país a que chama ingland. reconhecê-lo-eis pelo cabelo amarelo e
pela pele branca. os olhos são da cor dos meus. ele deseja entrar ao vosso serviço
e devíeis tomar isso em consideração.

- deveria? e o que é que esse tamas chinri faz?

- É ervanário e curandeiro.

- ervanários é o que não falta em bijapur. e grande parte das suas medicinas são
venenos ou falsidades. a não ser... esse homem tem o dom de curar da mahadevi?

- ele já utilizou o dom dela, mas não deveis esperar que ele o torne a fazer.

- coisa estranha. ele é um soldado? sabe combater?

- não. ademais, na orlem gor machucaram-lhe os braços. vai levar algum tempo a
recuperar.

- ah! fraco curandeiro ele deve ser, se não consegue curar-se a si próprio. É um
músico?

- não.

- É poeta ou filósofo?

- não.

- É um hábil artesão?

- não.

- É um estratego, então. ou um sapador experiente? ou um armeiro?

- não, ele é um homem de paz, não sabe nada dessas coisas.

- então, para que me serve esse homem?

- isso não importa. há razões para vos pedir o que vos peço. atentai, porém, nisto:
ele conhece um país de que nunca ouvistes falar. mais gente desse país pode, um
dia, vir parar à índia, primeiro para comerciar e mais tarde, talvez, para conquistar.
eu apercebi-me que estes ingleses são decididos e astutos, quando desejam alguma
coisa. pode ser-vos útil, e aos vossos descendentes, colherdes dele todas as
informações que puderdes.
em boa verdade, aditi não sabia se mais alguém da nação de thomas viria, algum
dia, a pôr os pés na índia, mas ibrahim também não sabia e podia ser que achasse o
argumento convincente.

o sultão ficou a olhar para aditi uns momentos, com a mão no queixo.

- portanto, vou ter de prestar atenção a esse cabelo amarelo, por vossas misteriosas
razões ou da mahadevi.

- patenteais, de novo, grande sabedoria, majestade - disse aditi, com uma vênia.

- ah! ficareis conosco algum tempo, sri aditi, ou o vosso dharma chama-vos a outro
lado.

- a vossa hospitalidade é elogiada em todo o sind - disse aditi -, eu não iria insultar
tão gentil hospedeiro partindo à pressa.

ibrahim franziu os lábios, pensativo.

- honrais-me muito. e eu não serei um hospedeiro indelicado a ponto de apressar a


vossa partida. considerai-vos hóspede desta casa. mas compreendei que a minha
corte está cheia de clérigos suspicazes e de nobres que só procuram desacreditar-
me. por isso, tenho de pedir-vos que permaneçais na área destinada às mulheres e
que vos comporteis adequadamente. vou pôr ao vosso serviço criadas que se
encarregarão de tudo o que necessitardes, de forma que não precisareis de vos
movimentar muito. e vou fazer espalhar que vós sois... - fez um gesto vago com uma
mão - uma parente distante, ou coisa assim. aditi, num movimento gracioso,
levantou-se e fez uma vênia. portanto, enquanto aqui estiver, vou ser em parte
hóspede, em parte prisioneira e em parte parente. estou a encarar, a todo o
momento, novos desafios.

- sua majestade não tem de recear que eu seja uma hóspede indiscreta. não me
mandou a mahadevi para vos prestar serviço? anseio por desfrutar os prazeres da
vossa hospitalidade e espero ter, de novo, a oportunidade de conversar com tão
distinto senhor. e gostaria de dizer ao vosso tocador de vina quão excelente é o som
que produz, extremamente agradável ao ouvido. conhecerá ele a ”canção da pomba
branca”. há tanto tempo que não ouço essa música divina e bem gostava de tornar a
ouvi-la.

ibrahim ergueu um sobrolho, voltou-se para o cego e perguntou-lhe:

- conheces essa canção, gandharva?

gandharva baixou a cabeça, fazendo uma pausa e pensando, antes de responder:

- acho que já toquei essa melodia. vou tentar recordá-la e, depois, senhora, quando
estiver certo das notas, toca-la-ei para vós.

- sois muito gentil - disse aditi.


- se não há mais nada... - disse o sultão, batendo palmas duas vezes. de trás de um
rendilhado biombo dourado surgiu silenciosamente uma jovem criada. - acompanha
a minha hóspede a aposentos apropriados na zenana e informa a begum xá da sua
presença.

a jovem inclinou-se profundamente e fez um gesto a aditi para que a seguisse. aditi
abandonou a sala lentamente, a cabeça erguida, como se nada no mundo a
preocupasse.

- grande mãe, estais a pôr-me à prova, como a ibrahim? como vou eu travar um
exército do imperador do norte, quando não fui capaz de desviar um bando de
bárbaros ocidentais? o vosso desejo é que eles se encontrem? ai, espero que
gandharva consiga enviarmos a minha mensagem. dizei-me alguma coisa, grande
mãe, dai-me a conhecer a vossa vontade.

logo que aditi partiu, ibrahim voltou-se para gandharva.

- ela mudou bastante desde a última vez que a vimos, não achas?

- ah, quanto a isso, nada posso dizer, majestade!

- oh, desculpa, esqueci-me dos teus olhos. mas eu acho-a mais cautelosa, menos
inflamada. e parece depositar muita fé na sua mahadevi. dizes que a conheces, mas
ela não pareceu conhecer-te, ou, então, dissimulou.

- a mahadevi, diz-se, tem mil olhos e cada um não vê necessariamente os outros. eu


falei com ela uma ou duas vezes, não me admira que não se recorde de mim.

- quantos tocadores de vina, cegos, existem neste mundo? e que queria ela dizer
com ”a canção da pomba branca”?

- a música de bhagavati é diferente de todas as outras, majestade. a senhora tem,


com certeza, saudades da sua terra, vivendo há tanto tempo em goa, no meio de
estrangeiros, e deseja ouvir sons familiares.

- compreendo. quando te lembrares da canção, gostava de a ouvir.

- será uma honra tocá-la para vós, majestade. ibrahim reclinou-se de novo no divã,
mas não conseguia encontrar uma posição confortável.

- tens alguma coisa a aconselhar-me, perante o que ouviste? o seu secretismo


inquieta-me. achas que ela fala verdade?

- eu acho, majestade, que é prudente ter em atenção o que ela diz.

- achas? e se a mahadevi se decidiu a expandir os seus domínios? bijapur progrediu


muito nestes últimos anos, talvez ela a considere um campo bem cultivado, pronto
para a colheita.

- os únicos territórios que a mahadevi conquista são os do coração e do espírito. ela


não precisa de terras, nem de guerreiros para as conservar.

- achas que não? então, porque permite ela que os portugueses e o poder de akbar
se aproximem tanto dos seus domínios? quererá que nos enfrentemos uns aos
outros, enfraquecendo-nos? ou isto será uma maquinação de aditi de que a
mahadevi não tem conhecimento? os sardars maratas são aqui numerosos, aditi
pode estar a contar com o apoio deles. ou estará a negociar com os estrangeiros,
por forma a tornar-se rainha? desejaria ter aqui chand bibi, ser-me-iam muito úteis a
sua sabedoria e o seu exército. eu não sou um homem de guerras, gandharva,
desgosta-me pensar que vou ouvir o estrondo da carroça de xiva.

- perdoai-me, majestade - disse gandharva -, mas pareceis uma criança num quarto
escuro, apavorado com as sombras, imaginando monstros a espiar-vos. muito
respeitosamente, sugiro que mandeis acender lâmpadas antes de vos aventurardes
em recantos obscuros. pelo pouco que sei de aditi, ela é muito devotada à mahadevi
e nunca a trairia.

ibrahim soltou um profundo suspiro.

- pode ser que tenhas razão. mas quem será este cabelo amarelo que ela me pede
para tomar ao meu serviço? É um pedido estranho, não te parece? para que quero
eu um ervanário estrangeiro na minha corte?

- pode não ser pelo vosso interesse, mas pelo interesse dela.

- ah! - ibrahim olhou um momento para a janela. - uma questão interessante,


gandharva. ela deseja separar este homem do resto da expedição. para que não
beneficiem dos seus conhecimentos? ou... achas que ela gosta dele?

- uma vez mais, eu recordo a vossa majestade a sua tendência para beber em
miragens. enquanto não virdes esse homem, não podereis saber o que ele é.

- tens razão, meu amigo. não posso traçar planos sem mais informação. vou encher-
me de paciência. quando orares à tua deusa, pede-lhe, por favor, que me oriente.

- não deixarei de fazê-lo, majestade. sabeis bem que a mahadevi vigia e apóia os
que a servem.

- É reconfortante saber que há alguém que olha por nós disse ibrahim, ironicamente,
fixando os olhos de gandharva. e eu, do mesmo modo, tenho de vigiar os seus
servos.

capítulo xii

jasmim: esta planta cresce no oriente e é muito parecida com a videira. vê-se com
frequência nos jardins, pois dá umas flores brancas que exalam um delicado
perfume. untura das flores afasta receios e cuidados e o óleo desta planta dizem que
excita os sentidos. a tintura das folhas alivia as inflamações dos olhos, considerada
a flor da beleza e da doçura da mulher e, por isso, diz-se que está sob a proteção da
virgem maria. diz-se, também, que sonhar com jasmim é sonhar com a sorte...
thomas estava à varanda do seu quarto, no segundo andar, que dava para a parte
central do caravansará, os olhos a piscarem à luz do sol da manhã. dormira mal. os
soldados, no quarto ao lado do seu haviam estado a beber e a falar alto até muito
tarde e um outro grupo entrara de noite no caravansará, fazendo muito barulho, com
os gritos e as invectivas aos camelos e bramidos do que pareciam ser trompas mal
sopradas.

via, agora, a origem desse som: um enorme e cinzento mastodonte, de orelhas


desmedidas e um nariz fantástico. no dorso do mastodonte, estava um pequeno
pavilhão dourado, brilhante de tinta, decorado com tapetes e almofadões.

eis, pois, um elefante. as gravuras destes animais que eu tenho visto não lhes fazem
justiça. não admira que aníbal tenha apavorado roma com um exército deles.
gostava de saber que espécie de criatura é esta e que importante personagem terá
chegado esta noite. andrew é capaz de saber.

thomas sentiu passos a soar na varanda e, voltando-se, viu timóteo que corria para
ele.

- bom dia, irmãozinho. há muito que não vos via. já chegou alguma notícia da parte
do sultão?

- não, tomás - disse timóteo, travando a corrida. - nem uma palavra. o padre deseja
falar-vos... - o rapaz aspirou fundo, os olhos muito abertos a olharem para o pátio. -
um elefante!

- um belo animal, não é? ainda não tínheis visto nenhum?

- só ao longe. de quem será? achais que poderei montá-lo?

- não vos sei dizer, mas penso que o irmão andrew saberá. não o vistes?

- eu não, tomás, tenho estado sempre com o padre.

- e o padre está bem? eu ainda não o vi sair do quarto. timóteo olhou para ele com
uma certa expressão de culpa.

- não sei bem. de corpo parece-me bem, mas o seu espírito... acho que ele não está
muito satisfeito com o que fizemos, tomás.

thomas franziu a testa.

- gostaria de saber o que ele pensou, depois de ter passado a febre. se nós o
sacamos do céu, compreendo que não possa andar muito satisfeito.

embora, se um inquisidor conseguir passar pelas portas do paraíso, eu fique muito


preocupado acerca da natureza de deus.

- perguntei-lhe o que é que viu depois de morto, mas ele não me disse. diz que deus
não deseja que os vivos saibam.

- nem outra coisa era de esperar que ele dissesse. a primeira vez que eu utilizei o
pó, foi num aprendiz de carpinteiro do barco, num rapaz não muito mais velho do
que vós. e ele disse-me que tinha visto um templo branco cheio de serpentes, ou
coisa semelhantes. mas não parecia ter ficado assustado com o que vira.

timóteo pestanejou.

- onde é que estavam as serpentes? - perguntou ele. thomas ficou um pouco


embaraçado.

- no templo, como vos disse.

- mas em que sítio do templo?

- não sei, ele não me disse.

timóteo suspirou e voltou a olhar para o elefante.

- o senhor de cartago ia dizer-me, mas eu não o consegui ouvir.

- falastes com o senhor de cartago depois da sua ressurreição?

timóteo fez que sim com a cabeça.

- eu era o seu advogado, mas falhei e ele tornou a morrer sem se arrepender.

- não deveis culpar-vos por isso. mas ele não disse nada sobre o além?

- disse que tudo o que me ensinavam era mentira, mas estava só a meter-me medo.
acho que ele estava possesso do demônio.

- achais que o padre também está possesso?

- acho que não, tomás, mas anda diferente. ide falar com ele, por favor.

- sim, vou já. se ele está apenas melancólico, talvez eu possa, de algum modo,
aliviar-lhe o espírito.

- entre - exclamou o padre, quando thomas bateu à porta. thomas entrou no quarto
mal iluminado. era um amplo

quarto de hóspedes, um dos melhores do caravansará: arejado e com uma bela


vista sobre a cidade. gonsção, porém, mandara lá colocar apenas um catre e uma
mesa baixa, em cima da qual se via uma bíblia e uma vela. o resto do quarto estava
nu.

o padre estava sentado a um canto, murmurando, o rosário nas mãos. tinha o cabelo
despenteado e deixara crescer a barba. o rosto parecia mais velho e a pele tinha um
tom doentio.

thomas atravessou o quarto e sentou-se em frente dele.

- mandastes-me chamar, padre?

gonsção interrompeu as orações e ergueu os olhos. havia um distanciamento


naquele olhar que thomas achou desconcertante.

- mandei, sim, mestre chinnery. há muito tempo que não falamos e, uma vez que me
fizeram voltar a este mundo, sinto que devo manter alguma relação com ele.

não sabendo o que dizer, thomas murmurou:

- fico contente por ver que estais bem. gonsção abanou a cabeça.

- há uma série de coisas a vosso respeito que eu não entendo. pelo que parece, vós
havíeis conservado, todo este tempo, algum pulvis mirificus convosco, ou sabíeis
onde encontrá-lo. sabeis utilizá-lo e, contudo, recuperastes-me, sabendo que eu
jurei destruí-lo. já não percebo o que pretendeis da nossa expedição. tornastes-vos
um enigma, para mim.

thomas abriu a boca para responder, mas, não encontrando resposta, permaneceu
calado.

- pensastes que eu podia acreditar na vossa mentira de que eu vencera a febre


naturalmente? pensastes que eu não conheceria a verdade? deveis ser, na verdade,
um feiticeiro muito inexperiente!

- eu não sou nenhum feiticeiro - exclamou thomas. É verdade que encontrei um


pouco do pó...

- onde?

porque é que não lhe hei-de dizer. andrew que se avenha.

- era o irmão andrew que o tinha. gonsção sorriu amargamente.

- pois claro. e sadrinho acreditou que lho tínhamos tirado todo. como fomos parvos!
continuai.

- e só o utilizei para salvar a expedição. se tivésseis morrido, os soldados teriam


desistido da busca e voltado para goa, levando-me com eles.

- foi o que timóteo me disse. compreendo que não desejásseis voltar ao santo ofício.
sadrinho teria levado a mal o vosso insucesso e ele não é um homem justo. mas o
meu espírito está dividido, a vosso respeito. dispusestes-vos a salvar a expedição à
custa da minha alma!

- teria havido derramamento de sangue, padre. os mercadores e os vossos soldados


degladiar-se-iam, entrematando-se. foi isso que eu quis evitar!

gonsção abanou a cabeça.

- há certas questões de fé que me escapam. a carne é, apenas, um breve invólucro


da alma, mas vós pareceis considerar a carne mais digna de proteção.

thomas suspirou e olhou para o lado, incapaz de o encarar.

- eu sou um simples boticário, padre, não sou um teólogo. dedico a minha vida ao
estudo das substâncias benéficas ao bom estado físico do homem. vós entendeis
melhor as coisas do espírito do que eu, mas eu fiz o que achava correto. se
continuar a vossa existência vos aborrece tanto, podeis acabar com ela à vossa
vontade.

- cometendo, ainda por mais, o pecado do suicídio. deveis, na verdade, desprezar-


me muito, ao pretenderdes, com tanta insistência, que vos preceda nas profundezas
do inferno.

- não, eu não pretendo nada disso! - exclamou thomas, batendo, enfaticamente, com
o punho no chão.

- desculpai-me, mestre, mas como posso eu saber o que pretendeis, se não consigo
acreditar em nada do que dizeis? pensais que eu não dei por me tirardes o mapa? a
febre mantinha-me imóvel, mas não de todo inconsciente do que me rodeava.

thomas tudo fez para não parecer surpreendido.

- eu não tenho o mapa, padre. talvez o que sentistes fizesse parte do vosso delírio
febril.

- talvez, mas, de qualquer modo, eu já não tenho o mapa comigo. e vós éreis a única
pessoa junto de mim, para além de timóteo. que posso eu pensar?

- por favor, padre, acreditai-me. eu só pretendi evitar que alguém morresse. eu só


quis que chegássemos todos a bijapur em segurança.

- e já cá estamos. qual é, agora, a vossa intenção?

- a minha intenção, agora, é saber, do sultão, a direção em que devemos prosseguir.

- e vós seguireis nessa direção?

- porque não?

- como vos disse, eu já não consigo perceber quais são os vossos motivos e planos,
embora saiba que a minha morte não está entre eles. pensais em abandonar-nos
aqui?

- eu não tenho nenhuma intenção de procurar o pó por minha própria conta, se é


isso o que quereis dizer.

- não foi isso o que vos perguntei. vejo bem que não estais disposto a dar-me a
conhecer o que pensais, por isso, terei de aguardar o curso dos acontecimentos.
mas ficai a saber que, já que me proporcionastes um prolongamento contranatura da
minha existência, eu vou devotá-la à prossecução da nossa busca, com a vossa
ajuda ou sem ela. e a minha intenção, quando encontrar o pulvis mirificus, mantém-
se a mesma, mestre, quer o queirais ou não. o fato de o terdes utilizado para me
fazer voltar à vida não mudou nada, apenas tornou mais firme a minha resolução.

- compreendo, padre.

um silêncio incômodo estabeleceu-se entre eles. por fim, o padre declarou:

- uma vez que não tendes mais nada para me dizer, deixai-me, por favor. quero
continuar a minha meditação.

thomas ergueu-se.

- muito bem, padre. quereis que vos mande timóteo, para vos fazer companhia?

- não, prefiro ficar sozinho.

thomas inclinou-se perante o padre, à maneira hindu, o que já se tornara habitual


nele. quando saiu, o brilho do sol cegou-o momentaneamente. depois, sentiu um
puxão na manga.

- tomás, vinde ver.

- o que é, timóteo?

- eu já descobri quem trouxe o elefante. É um príncipe mongol, do norte, onde reina


o imperador akbar.

- um príncipe? estamos alojados com a realeza?

- vinde, vou mostrar-vos onde estão instalados. thomas deixou-se guiar pelo rapaz,
ao longo da arcada
interior, para o outro lado do caravansará.

- além, thomas, na última porta.

diante de uma porta ao fundo da arcada, viam-se dois homens de turbante, armados
com compridos alfanges.

- ah! mas não há grande coisa para se ver, timóteo.

- ele estava cá fora, há pouco. É alto e delgado, com um aspecto esplêndido.

- bom, mas eu acho que ele não gostaria muito de ver-nos aqui a espreitar-lhe para
a porta, à espera que ele apareça de novo.

- temos ali outro recém-chegado, tomás, mas acho que este não é mongol.

thomas olhou lá para baixo, para um dos cantos do pátio, afastado dos animais e
dos estábulos, e viu um homem vestindo uma túnica branca de lã, com o cabelo
comprido a sair-lhe do turbante e a barba malcuidada.

- como é que sabeis?

- pelo turbante e pelo gênero de túnica que veste. ah, já sei, é um sufi.

- o que é um sufi?

- são uns muçulmanos estranhos. eles aparecem em goa de vez em quando. umas
vezes põem-se a cantar e a tocar pandeireta, outras vezes dançam em roda sem
parar.

- o padre sabe que estais tão familiarizado com esses heréticos - espicaçou-o
thomas.

- nada disso! oh, olhai, ele está a preparar qualquer coisa. o sufi sentara-se, de
pernas cruzadas, junto de um caldeiro de ferro e estava a retirar de um saco ao seu
lado folhas, galhos e umas pequenas placas de uma substância amarela. enfiou
uma das folhas no caldeiro e dele subiu um fumo cinzento. de mãos no colo, o sufi
balançava-se de um lado para o outro, aspirando o fumo.

- ele também é ervanário, tomás! vamos falar com ele, para vermos o que ele sabe.

- eu acho que não devemos perturbar a sua... timóteo? o rapaz tinha já corrido para
as escadas de madeira e descia por elas abaixo.

É melhor travar o rapaz antes que ele incomode muito o homem.

relutantemente, thomas correu, também, escadas abaixo. quando chegou junto de


timóteo, o sufi abriu os olhos e olhou para cima. sorriu e, juntando as palmas das
mãos, fez uma vênia, mesmo sentado.

- ele fala dahkni - disse timóteo. - diz que estava a rezar por uma visão e eis-vos
aqui.

- acredito que devo parecer uma visão - disse thomas, passando a mão pelo cabelo.

- ele pergunta pelos nossos nomes.

- timóteo inclinou-se para o sufi e disse o nome. depois, apontando para thomas,
disse:

- sri tamaschinri.
- tamas - repetiu o sufi, rindo.

thomas também se riu.

- já me disseram que o meu nome quer dizer escuridão. acho que é um bocado
irônico, com este meu cabelo.

o estranho homem algaraviou mais e timóteo traduziu:

- ele está a falar da sua filosofia. diz que a alma é a escuridão em que a luz do
coração deve brilhar. diz que quem vê o mundo em escuridão é estranho à unidade
do mundo. mas quem está na escuridão deve mover-se para a luz. eu não percebo o
que ele quer dizer, tomás.

- ele está a tocar uma fuga filosófica sobre o tema do meu nome. o homem é
esperto, claramente.

- o que é uma fuga?

- uma forma complexa de música. mas como é que ele se chama?

- ele diz que se chama masum al-wadud e que é de chapur, não muito longe daqui.

- ele chegou com o príncipe que se instalou no caravansará?

- sim. diz que é conselheiro do mirzá ali akbarshah, emissário do paxá imperador
akbar.

- dizei-lhe que nos sentimos muito honrados por estarmos a compartilhar o


alojamento com tão alto dignitário. e, já que estamos aqui, perguntai-lhe pelos seus
conhecimentos de ervanária.

- ah, é verdade.

timóteo pôs-se a algaraviar com o sufi, que foi ficando muito animado, falando e
apontando para os objetos junto dele, com gestos excitados das mãos. depois de
algum tempo dessas manobras, thomas limpou a voz e disse:

- por favor, timóteo, traduzi.

- oh, peço perdão. ele está a dizer que conhece as medicinas gregas ensinadas por
ali ibn sina.

- ibn sina - repetiu thomas, a quem o som se afigurava familiar. - ah! deve estar a
falar de avicena, o antigo físico persa.

o sufi balançou a cabeça para cima e para baixo.

- avicena, avicena!
- diz que está a separar, segundo os seus sabores, as substâncias que recolheu
recentemente. É como ele as reconhece, à maneira ayurvedic. aquilo, ali, é raiz de
acônito. É muito amarga. aquela casca escura é raiz de alcaçuz, que é, ao mesmo
tempo, doce e amarga. aquela coisa amarela é mirra, como a oferenda ao menino
jesus, recordai-vos? É amarga e pungente. thomas riu-se.

- tende calma, timóteo. isso é muita coisa para se aprender de uma vez. dissestes-
lhe que nós, os ocidentais, dividimos as substâncias em quentes e frias?

- sim, eu disse-lhe, mas ele diz que não compreende.

o sufi estava a remexer numa sacola de couro que tinha presa à cintura. finalmente,
a mão surgiu, segurando um objeto triangular de material branco. com palavras
suaves e uma vênia, o místico estendeu-o a thomas.

- ele está a regalar-vos com um presente - disse timóteo. - diz que é osso de choco,
difícil de encontrar tão longe do mar. e diz que é bom para os males do estômago.

serenamente, thomas aceitou o bocado de osso, também com uma vênia.

- infelizmente, não tenho nada para lhe oferecer.

- talvez eu tenha. - timóteo abriu o saco que tinha ao cinto e retirou dele uma folha
enrugada. - isto é uma folha de videira, de goa. tenho a certeza de que é coisa rara
aqui.

a folha tinha um fio de videira que se agarrava a qualquer coisa dentro do saco.
timóteo deu um puxão e surgiu uma bolsinha de couro, a mesma que contivera o
rasa mahadevi, a qual caiu ao chão, mesmo em frente do sufi.

thomas, por momentos, olhou para a bolsinha horrorizado, depois voltou-se para
timóteo:

- o que é que andais a fazer com isso? timóteo teve um sobressalto.

- eu não queria que os soldados a encontrassem, por isso, quando eles levaram o
catre do padre e a vi, agarrei-a logo.

entretanto, o sufi apanhara a bolsinha do chão e examinava-a atentamente. pousou


um dedo no pó branco que cobria a borda da bolsinha e ia levar a ponta do dedo à
boca.

- não - gritou thomas, segurando o pulso do sufi mesmo a tempo. - timóteo, avisai-o!
dizei-lhe que é um veneno mortal, depressa!

timóteo falou para o sufi e o místico exclamou:

- ah! - baixando a mão com um suspiro. thomas largou-lhe o pulso. cuidadosamente,


o sufi limpou o dedo a um pedaço de serapilheira que tirou da sacola. depois,
colocou a bolsinha no pedaço de serapilheira, embrulhando-a com dedos ágeis.
- ele agradece-vos o presente e o vosso aviso e pergunta qual é o seu uso
medicinal. tomás, o que é que lhe vamos dizer?

thomas respirou fundo. ah, os caprichos da sorte. mas seria uma extrema
indelicadeza pedir-lhe a bolsinha e só resta uma ínfima porção.

- dizei-lhe que só o deve usar depois de perdida toda a esperança.

- ele compreende e pergunta como se chama.

- para que serve estarmos a enganá-lo. dizei-lhe que se chama rasa mahadevi.

- achais que devemos...

- dizei-lho!

- rasa mahadevi - repetiu o sufi, sem nenhuma reação, para além de um ligeiro
franzir de testa.

pelo menos não tem nenhum significado místico para ele. talvez depressa se
esqueça do nome.

apareceu um mongol que gritou para o sufi. masum levantou-se e agarrou


rapidamente nas suas coisas, falando e fazendo vênias para timóteo e para thomas.

- ele pede desculpas, mas chamam-no para receber um visitante. diz que vai falar de
nós ao mirzá e arranjar, talvez, um encontro, para uma refeição juntos e
continuarmos a nossa conversa.

thomas retribuiu as vênias à maneira hindu.

- dizei-lhe que nos sentiríamos muito honrados se fôssemos recebidos pelo príncipe.
e que foi muito... interessante falar com ele e que desejamos tornar a conversar.

meu deus, espero que não tenhamos ido já longe de mais.

aditi vagueava nos jardins de água da zenana, no palácio das delícias, sentindo que
estava farta da hospitalidade de adilshah. na verdade, como podia uma mulher
passar horas e horas a ouvir contar histórias, a admirar a fragância das flores, a
jogar shatranj, a ver dançarinas, a comer doces, a importunar eunucos, a chupar
num narguilé, a brincar com macacos, a embalar criancinhas ao colo, sem ficar
louca?

nem tudo era tédio, porém. abegum de adilshah, a sultana taz, era uma mulher
interessante, nada ignorante acerca de política e perita em poesia. e a filha, malika
jahan, era uma jovem viva e brilhante, desenhando palácios e mesquitas, porque o
pai lhe prometera construir um, ou uma, quando ela lhe apresentasse um desenho
de que ele gostasse. mas quanto ao resto...
aditi sentou-se num degrau de pedra junto a uma parede rendilhada e espraiou o
olhar pelos jardins. havia centenas de mulheres na zenana, muitas das quais se
sentiriam muito felizes se passassem uma noite com ibrahim uma vez por ano.
contudo, pensou aditi, a vida delas, aqui, é muito melhor do que a que teriam nas
suas aldeias. há coisas piores do que o tédio. quem pode dizer que um pássaro
numa gaiola não tem melhor vida do que um pássaro livre, a voar na selva à mercê
das garras dos tigres?

quanto a ela, preferia os tigres às gaiolas.

o som das cordas de uma vina, próximo dela, interrompeu-lhe os pensamentos. o


som vinha de trás da parede rendilhada.

- quem é que se atreve a incorrer na ira do sultão? - disse aditi, imitando a voz do
guardião do harém.

- sou eu, gandharva, sri aditi. os eunucos deixam-me entrar, pois consideram que a
minha cegueira me torna inócuo.

- É uma sorte que eles não vos conheçam bem.

- por favor, deixai-os persistir na sua ignorância. eu trago notícias. os goeses


chegaram a bijapur e foram alojados num caravansará logo à saída das muralhas da
cidade. ouvi dizer que o sultão pretende convidá-los para amanhã e trazê-los para o
gagan manai.

- ah, tenho de ver se consigo mudar-me também para lá. talvez a begum xá me
ajude nisso. já há sinais do general do norte?

- o mirzá de akbar chegou esta noite e o seu exército acampou ao norte da cidade.
ele e o seu séquito estão alojados no caravansará.

- com os goeses? porquê?

- sabe-se lá? adilshah anda nervoso e começa a ver intrigas em todo o lado. acho
que ele pretende ter toda a gente debaixo de olho.

- não sei se isso é útil à nossa causa ou não. tivestes resposta ao meu pedido?
enviastes um pombo-correio?

- eu enviei-o, mas, depois, soube que tinha sido espiado por um arqueiro que o
derrubou, logo à saída do palácio.

aditi praguejou mentalmente e, depois, disse:

- portanto, agora ibrahim tem a mensagem nas suas mãos. achais que ele a
compreende.

- só se souber helênico - disse gandharva - e, considerando que o nosso sultão mal


arranha o persa e não sabe nenhuma língua ocidental, acho pouco provável.
- isso é uma sorte. se a percebesse, com mais suspeitas ficaria. ai, que falta me faz
a orientação da mahadevi! agora tenho de adivinhar quem-é-que-sabe-o-quê
sozinha.

- aditi, não vos tenho dito que sois inteligente? não teríeis sobrevivido tanto tempo se
não tivésseis talento. tende confiança em vós, como seguramente a mahadevi tem.

- a minha única esperança, gandharva, é que a confiança que ela tem em mim não
seja imerecida.

capítulo xiii

cÂnhamo: É uma planta do oriente, onde lhe chamam ganja. tem folhas compridas,
dentadas, e dá umas florzinhas no verão. a resina desta erva é boa para aliviar
espasmos e dores de todos os gêneros. cura as tosses e as dores de cabeça e
estimula o apetite. movimenta os intestinos e uma pasta feita com o seu óleo amacia
a pele. contudo, há que ter cuidado ao usá-lo, pois o cânhamo causa visões e dá a
ilusão de que o que nos cerca é muito mais agradável, ou muito mais terrível, do que
realmente é...

omirzá ali akbarshah voltou-se quando a porta dos seus aposentos se abriu. masum
entrou, seguido por um homem vestindo um comprido cafetã e um simples turbante.

- senhor mirzá - disse masum - trago-vos um douto alim para falar convosco. ele
chama-se abu’l hassan, é um sufi cadiri e tem uma coisa importante para nos dizer.

o mirzá fez uma vênia ao alim.

- sois muito bem-vindo, xeque hassan. por favor, acomodai-vos e partilhai o chá
conosco.

o alim atravessou a sala rapidamente e, com uma breve vênia, sentou-se à mesa
baixa, em frente do mirzá.

- lastimo não poder ficar muito tempo e ter de falar do que aqui me traz com
indelicada pressa - disse o alim, num persa elegante, denotando os seus longos
anos de estudo mas não quero que o sultão saiba que eu vim aqui, nem que tenha a
menor suspeita do propósito da minha vinda.

o mirzá fez um sinal a jaimal e aos seus oito homens, toda a escolta que trouxera
para o caravansará, para além de masum. os homens verificaram as janelas por fora
e postaram-se às duas portas da sala.

- nada tendes que recear, xeque hassan. falai à vontade.

- agradeço-vos, sábio mirzá. É sabido, no palácio, que procurais uma deusa pagã
que possui poderes de vida e de morte.

- isso é correto.
- e vós sois um seguidor da fé?

- eu sou um seguidor da verdadeira lei. e este - o mirzá apontou para masum - está
a conduzir-me para a via.

o alim fez um gesto de agrado com a cabeça e inclinou-se para a frente, um dos
cotovelos apoiado no joelho.

- o que vou dizer-vos, senhor mirzá, não é motivado por hostilidade ou inveja, nem
tão-pouco desejo trair o reino de bijapur. trago-vos estas informações tão-só por uma
questão de integridade e para evitar a degradação espiritual do meu rei e de tantos
outros.

- eu compreendo-vos - disse o mirzá. - e seria incapaz de pensar mal de uma


pessoa tão douta como vós. continuai, por favor.

- eu tenho tido o privilégio de servir o sultão ibrahim adilshah há muitos anos,


aconselhando-o a afastar-se de influências pagãs. infelizmente, ele pouca atenção
tem dado aos meus conselhos nestes últimos anos, e vou dizer-vos porquê. há
alguns anos, a filha do sultão, malika jahan, esteve às portas da morte, com uma
febre. ibrahim andava destroçado, pois gosta muito dela, embora se trate de uma
moça. mandou vir curandeiros e físicos de todo o reino e mesmo de fora, para tentar
salvá-la, mas nenhum conseguiu curá-la. todos nós oramos por ela, noite e dia, mas
em vão. alá, o misericordioso, tinha decidido levá-la e ela morreu.

- foi uma pena - disse o mirzá, mas o alim ergueu uma mão.

- a história ainda não acabou. no dia da sua morte, apareceu no palácio um brâmane
cego, oferecendo a sua ajuda. disseram-lhe que era tarde de mais, mas ele não
desarmou. declarou que era um shushena, indivíduos que têm a arte de fazerem os
mortos voltar à vida, e disse ao sultão que a filha podia voltar a viver. aconselhou
ibrahim a mandar vir uma imagem da deusa pagã sarasvati para o palácio e a
colocar o corpo da filha diante dela. eu e os meus companheiros protestamos,
perante um ato tão sacrílego, mas o sultão adorava a filha e estava decidido a tudo
tentar. assim, nessa mesma noite, o sultão colocou o corpo da filha diante de uma
imagem de sarasvati e o brâmane cego passou a noite a orar junto do corpo. na
manhã seguinte, o brâmane apresentou a filha ao sultão, viva e toda feliz, como se
apenas tivesse estado a dormir todo o santo dia.

- ah, um milagre! - exclamou masum.

- feitiçaria - disse o alim, irado. - É por causa disto que diabólicas influências
campeiam em bijapur, como vereis. É por causa desta magia demoníaca que
ibrahim construiu templos a deusas pagãs e dedica as horas vagas à música,
menosprezando o estudo do corão. embora proclame ser crente, ibrahim anda
perigosamente afastado da via.

- isso é lamentável - disse o mirzá.


- por isso é que eu vim falar convosco, pois diz-se que vós procurais a diabólica rani
que enviou o brâmane que corrompeu o nosso sultão. e suspeitamos que, mesmo
agora, se encontra no palácio um dos seus gênios, a segredar aos ouvidos do
sultão.

- dar-se-á o caso - perguntou o mirzá - de esse brâmane que curou a criança se


encontrar ainda em bijapur?

- não, ele desapareceu logo após a ressurreição, decerto para fugir ao nosso
interrogatório.

- claro. mas é uma pena, pois talvez pudéssemos convencer esse feiticeiro a dizer-
nos alguma coisa acerca de quem o enviou.

- ela só pode ser um demônio gerado por um filho de satã para afastar ibrahim da
sua fé. encontrai esta rainha feiticeira, senhor mirzá, encontrai-a e destruí-a. não
permitais que ela continue a envenenar a alma do nosso sultão. em nome de alá, o
supremo, que tudo ouve e tudo julga, imponho-vos esta santa missão. se fordes bem
sucedido, não haverá dúvida de que vós e os vossos homens terão ganho lugar no
paraíso.

o alim levantou-se e fez, de novo, uma vênia, preparando-se para sair.

- por favor, xeque hassan - disse o mirzá, erguendo-se também -, seria uma honra
se ficásseis e vos juntásseis a nós nas orações do meio-dia.

- noutras circunstâncias eu teria muito gosto, alteza, mas hoje não posso. como vos
disse, devo regressar ao gagan mahal antes que se apercebam aonde eu estive.
que o que tudo vê vos guie.

e o alim partiu rapidamente.

- portanto - disse jaimal, ereto em frente do mirzá - é, de fato, uma jihad.

- talvez - disse o mirzá -, se pudermos confirmar esta história.

- não sei se o xeque terá uma visão clara da questão - disse masum. - ele assistiu a
algo que o perturbou e logo considerou diabólico, atribuindo-lhe a culpa de tudo com
que discorda.

o mirzá olhou para o místico.

- nenhuma das histórias que ouvimos é uma visão clara, masum. são todas sombras
do mesmo objeto, produzidas por luzes diferentes. não conheceremos a verdade
enquanto não dirigirmos a luz para a própria coisa. mas digo-vos o seguinte: as
dúvidas que eu tinha acerca da nossa viagem desapareceram.

timóteo bateu à porta do alojamento dos soldados.

- o que é? - alguém perguntou num português arrastado.


- senhores, chegou uma ordem, o sultão quer-nos no seu palácio.

- o que é que estais a dizer?

impaciente, timóteo abriu a porta e entrou. a maior parte dos doze soldados estavam
estendidos no chão, em diversas posições. o sargento cateloso estava inclinado, à
cabeceira de um deles, quando se voltou e encarou timóteo com um olhar colérico.

- o que é isso de entrardes aqui de repente?

- os sardars estão aí. vieram para nos conduzir à cidade. temos de pegar nas
nossas coisas rapidamente e seguir com eles.

o sargento ergueu-se, praguejando.

- rapidamente? temos de nos pôr a saltar às ordens do sultão, é isso? irmãozinho,


eu tenho aqui quatro homens doentes, com a mesma febre que o bom do padre
teve. como é que eu os vou levar rapidamente, ha? a menos que vós e o vosso
inglês façam outro milagre, estes homens não vão a lado nenhum.

- eu... vou rezar por eles - disse timóteo -, mas o padre quer lá ir e já mandou selar
os cavalos e as mulas e vós não podeis deixá-lo ir a bijapur sem proteção. e a nossa
busca?

- linda coisa, a nossa busca! - disse o sargento. - o santo ofício tem idéias loucas a
respeito de expedições e contrata condenados como escolta do seu emissário. -
baixou-se, encostando a boca ao ouvido de timóteo, sufocando-o com o bafo pesado
de vinho de palma. - digo-vos, irmãozinho, o vosso padre fica muito mais seguro
longe de nós do que conosco. nós não gostamos deste decão, cheio de bandidos,
de tigres e de gente horrorosa. nós não queremos...

- eu vou - anunciou joaquim alvalanca, erguendo-se, cambaleante.

os outros soldados olharam para ele como se tivesse perdido o juízo.

- porque não? - acrescentou. - aqui não há nada para fazer, a não ser beber e mijar
como os camelos. na cidade, ao menos, há mulheres, e mais variedade de bebidas.
quem é que quer vir comigo?

o sargento ordenou:

- vocês, estêvão, gonçalo, carlos, salvador, vão com ele. os restantes, ficamos aqui.

- só cinco? - protestou timóteo.

- contentai-vos, irmãozinho. ou cinco, ou nenhum. agora, ide-vos! eles vão ter


convosco ao portão principal, quando estiverem prontos.

irritado com a atitude do sargento, timóteo exclamou:


- que deus vos perdoe, senhor! - e desapareceu porta fora. duas horas depois,
timóteo estava escarranchado no seu

burro, ao portão do caravansará, à espera dos soldados. thomas e o irmão andrew


também já lá estavam, montados nas mulas, bem como o padre gonsção, montado
num belo garanhão, mosqueado de cinzento, que o sultão lhe enviara. a escolta
sardar, quatro hindus ricamente vestidos e bem montados em elegantes cavalos
pretos, aguardava do lado de fora do portão, com ar interrogativo.

a vergonha que nos fazem passar, pensava timóteo. onde estará o orgulho de
cavalheiros em que não se cansam de falar? perdoai-me, santa maria, mas preferia
que não tivessem vindo conosco.

timóteo suspirou e olhou em redor, a ver se havia sinal dos soldados. olhou para
cima e viu o príncipe mongol a observá-los, no varandim do seu alojamento. ao lado
do mirzá estava o sufi masum, que sorriu e acenou para timóteo. timóteo sorriu e
acenou também. o esbelto mirzá inclinou a cabeça para ele. timóteo retribuiu a
vênia. É uma pena que não possamos ficar aqui mais tempo. gostava de lhe pedir
para dar uma volta no elefante. acho que ele ia deixar.

finalmente, ouviu-se o soar de cascos nas lajes do pátio e os cinco soldados, com
joaquim à cabeça, apareceram, montados nos seus cavalos. timóteo ficou muito
satisfeito ao ver que não cambaleavam nas selas.

estabeleceram, então, a formatura rapidamente. os quatro servos do sultão abriam a


coluna. atrás deles seguia o padre, com timóteo ao seu lado e, depois, seguiam
thomas, o irmão andrew, joaquim e mais outro soldado. os restantes soldados
fechavam a coluna. com um grito em marata, os quatro sardars abriram a marcha e
dirigiram a coluna para a estrada que levava a bijapur.

a estrada estava pejada de viajantes a pé, de liteiras, de carros de bois, de camelos.


e, vindo direito a eles, dois elefantes, com palanquins dourados, como o que estava
no caravansará.

- alguém duvida que deus tem sentido de humor? ouviu timóteo a voz de joaquim
dizer, atrás de si. - reparai nas orelhas que ele deu a estes animais! e aquele nariz!

quando os mastodontes passaram por eles, timóteo ficou espantado com o silêncio
e a graciosidade da sua marcha. o cornaca do segundo elefante acenou com o
bastão, numa saudação para timóteo que, sorrindo e incapaz de largar os animais
com os olhos, todo se voltava na sela para os observar. o padre gonsção
admoestou-o e timóteo logo se endireitou.

os sardars riam-se jovialmente para ele.

- se quereis ver uma maravilha - disse um deles em dakhni - basta olhar para a
vossa frente.

o eco do toque-toque dos cascos do burro a embaterem em madeira chamaram a


atenção de timóteo para as cercanias mais próximas: estavam a passar numa ampla
ponte sobre um largo fosso, a qual dava acesso a um portal na muralha. um dos
sardars voltou-se e disse-lhe:

- esta é a porta macca. É uma das cinco da cidade.

a porta era enorme, a condizer com a muralha. mais de duas vezes a altura de um
homem, com pranchas de seis polegadas de largura, ajustadas com grampos de
ferro e eriçada de picos de ferro, de um pé de comprimento. a cada um dos lados da
porta, erguia-se uma torre, com seteiras e pequenos canhões a espreitarem nas
ameias. homens com elmos de picos, coloridas armaduras de tecido reforçado e
compridos alfanges, permaneciam a um lado e outro da porta, vigiando, com olhar
atento, quem passava.

- ah! - murmurou timóteo -, é, de fato, uma maravilha.

- o que é que ele está a ver? - perguntou joaquim, para logo acrescentar, ao ver a
porta: - eh, com umas muralhas assim, um rei nem precisa de exército!

- calai-vos, por favor - disse o padre para o soldado. timóteo pode agir como uma
criança, mas tal comportamento não vos quadra bem.

- mas, padre, os nossos guias não entendem, decerto, o português.

- certas parvoíces transcendem as línguas, senhor alvalanca. a passagem pela porta


era muito lenta, com toda aquela gente e todos aqueles carros a entrarem e a
saírem.

o chefe dos sardars gritou para os guardas da porta em nome do sultão ibrahim
’adilshah e os guardas começaram a afastar rudemente para o lado homens e
carroças, mulheres e camelos, abrindo caminho para os goeses passarem
incólumes.

quando entraram na via principal da cidade, thomas ficou espantado com a largura e
o asseio da rua, mais limpa que qualquer avenida de londres. desde logo, não havia
lama nas sarjetas e viam-se muitos comerciantes ocupados a varrer e a lavar as
entradas das lojas, com abundância de água. À frente de cada loja havia uma árvore
frondosa, ali plantada deliberadamente. ao meio, a rua tinha uma faixa de terra
ajardinada, onde se erguiam altas palmeiras. À sombra das palmeiras, viam-se
mercadores sentados junto das suas mercadorias, ordenadamente expostas em
tapetes estendidos.

e as casas! a maior parte eram de saibro, as janelas com delicados rendilhados.


cúpulas de um branco de cegar ou brilhantes de ouro cobriam palácios e mesquitas.
lintéis e pilares eram esculpidos com desenhos de videiras, de árvores, de flores de
lótus. espreitando os portões, vislumbravam-se pátios ajardinados, com uma fonte
no meio, com mulheres de xales coloridos a cuidar deles. as paredes eram
adornadas com coloridos azulejos, cujos padrões formavam intrincados arabescos.

- a espantosa destreza destes maometanos! - disse lockheart para thomas. - o que


parece uma borboleta, ou um navio a toda a vela, ou uma ágil gazela, são, na
realidade, versículos da sua sagrada escritura, desenhados em tão hábil caligrafia
que o artesão lhe imprime a forma que lhe apetece.

- e um estranho tratamento do sagrado, acho eu - observou thomas.

- meu amigo, eles acham que deliciar os sentidos não é pecado, meu rapaz. uma
filosofia que eu considero muito iluminada.

- interessante, de certo modo.

os próprios habitantes de bijapur pareciam comportar-se com decoro e tinham boa


aparência. mercadores abanavam-se preguiçosamente com leques, enquanto
conversavam. homens ricos de jaquetas cravejadas de pedras preciosas e de
turbante passavam montados em cavalos bem nutridos. homens pobres de simples
e asseadas túnicas passeavam, negligentes, na avenida. mulheres, umas veladas,
outras não, com saias diáfanas e curtas blusas, mostrando a cintura nua, passavam,
graciosas, com potes à cabeça ou nas ancas e crianças a seu lado. hindus, com
uma simples tanga e um pano a cobrir-lhes os ombros, sentados em recantos,
meditavam em silêncio.

thomas tudo olhava maravilhado, com a crescente e incômoda impressão de que


chegara a uma terra mais civilizada do que aquela a que chamava pátria.

a comitiva virou para sul, saiu da via principal, passou sobre outro fosso e entrou
noutro anel de grossas muralhas. pelo esplendor dos edifícios e dos jardins no
interior das fortificações, encontravam-se, nitidamente, nos domínios da nobreza de
bijapur. mais uma viragem e viram-se perante uma arcada imponente, através da
qual se enxergava um enorme átrio, com grandes tanques retangulares e extensos
canteiros de flores, rodeando uma plataforma elevada.

lockheart falou brevemente com os nobres que os guiavam, depois voltou-se e


disse:

- isto é o gagan mahal, onde vamos ficar instalados e onde iremos falar com o
sultão. eles dizem que é uma grande honra instalarem-nos aqui.

desmontaram à entrada do gagan mahal e foram conduzidos através da enorme


arcada. o pátio e as passagens no jardim estavam tão limpos e bem tratados como
as avenidas da cidade.

- como está tudo maravilhosamente limpo! - murmurou thomas para joaquim.

joaquim pigarreou e cuspiu para o chão.

- dão-me fastídio, estes muçulmanos e estes hindus. parece uma terra de donas de
casa meticulosas. quem é que consegue viver assim?

thomas não respondeu, mas pensou que viver num ambiente tão agradável devia
fazer bem a um homem. talvez que, se aditi souber interceder por mim, eu tenha
oportunidade de vir a saber o bem que faz. e ficou a pensar como seria estar ao
serviço de um daqueles senhores de turbante de seda. montar um belo cavalo, viver
numa beleza de um palácio de mármore, ter uma amante ou, talvez, casar com uma
mulher estrangeira, seria isso suficientemente agradável para fazer um homem
esquecer a pátria por completo?

como a viagem de ulisses. será bijapur a minha terra dos comedores de lotus,
garantindo-me doce olvido? terei eu firmeza para usufruir das suas delícias, ou
preferirei que não?

capítulo xiv

mandrÁgora. a esta planta poderosa chamam, também, maçã-de-satã. tem umas


folhas grandes que se estendem pelo chão, flores púrpura em forma de sino e
produz umas bagas amarelas. a parte mais poderosa é a sua raiz que, por vezes,
toma a forma humana. os maometanos chamam-lhe a candeia do diabo, pois diz-se
que brilha de noite. há quem diga que solta um guincho, quando se arranca do chão,
e que cresce por baixo dos enforcados. dizem, também, que prediz ou revela
segredos. as raízes são utilizadas para tratar as doenças dos pulmões, para
provocar o sono, para curar a melancolia e como purga, mas há que ter muito
cuidado, pois são, também, um veneno mortal. diz-se que as feiticeiras usam a
mandrágora nos seus mais potentes feitiços. a mistura da raiz com vinho excita a
luxúria...

omirzá ali akbarshah admirava as muralhas de bijapur, do cimo do balançante


animal. ibrahim era um bom engenheiro de fortificações. muitos homens e muitas
armas pesadas são necessárias para romper estas muralhas. se nada mais levar de
volta, esta informação pode ser muito útil ao imperador.

o convite para se dirigir ao palácio do sultão chegara naquela tarde, pouco depois da
partida dos ocidentais. o mirzá suspeitava que não se tratava apenas de
coincidência.

- masum - perguntou ele ao sufi, sentado a seu lado o rapaz goês não vos disse o
que os trazia a bijapur?

- não tivemos muito tempo para conversar, por isso nada me disse a esse respeito. o
companheiro, tamas, é, como eu, ervanário e curandeiro, talvez, portanto, aqui
estejam por razões de comércio.

o mirzá abanou a cabeça.

- não pode ser só por isso. o rapaz estava vestido como alguns dos frades cristãos
e, segundo ouvi, havia um padre cristão entre eles, embora não o tenha visto.

- talvez, então, o sultão os tenha convidado para lhe exporem a sua filosofia. tenho
ouvido dizer que o vosso imperador akbar também o faz, frequentemente.

o mirzá permitiu-se uma breve risada.


- na verdade, têm sido recebidos grupos de jesuítas em agra e em lahore. porém,
quando akbar os questionava acerca da sua fé, grande discussão se estabelecia
entre eles, como se não conseguissem, mesmo entre si, saber onde é que estava a
verdade. não se comportam lá muito bem, segundo tenho ouvido dizer.

- talvez ibrahim os tenha convidado para se divertir com eles, embora eu espere que
não seja assim tão descortês. - desde que não pretendam divertir-se conosco, não
vou preocupar-me com isso.

- ah, os nossos guias conduzem-nos para a porta shahpur, senhor mirzá.

- haverá alguma razão para nos encaminharem para uma porta tão distante?
pretenderão que apreciemos as suas muralhas um pouco mais?

- não vos sei dizer. possivelmente, esta entrada está mais perto dos palácios do
sultão. talvez a entrada mais direta esteja bloqueada. ou talvez seja esta a porta
adequada ao porte dos elefantes.

o mirzá observou que o elefante e o howdah passariam facilmente na porta


shahpur. e o caminho estava de tal modo desimpedido que bastou à escolta sardar
acenar aos guardas, postados junto às torres da porta, para a escolta, o elefante,
jaimal e os oito cavaleiros mongóis escolhidos entrarem.

o convite do sultão especificava que ele devia trazer apenas dez homens consigo,
argumentando com a dificuldade de alojar e de alimentar muita gente no palácio. o
mirzá suspeitava que a verdadeira razão era o medo, mas isso não tinha
importância. o seu método para convencer o sultão a ajudá-lo não era a intimidação.
e ibrahim não iria trair um emissário do paxá imperador, designadamente quando eu
tenho um exército estacionado nas cercanias, de dimensão suficiente para causar
grandes danos em redor da cidade e destroçar o comércio léguas em redor.

o mirzá sentiu os músculos das costas relaxarem ao entrar na cidade, pois era
parecida com lahore. as avenidas não eram, talvez, tão largas e a população talvez
menos próspera, mas, noutros aspectos, era de uma reconfortante semelhança.

não muito distante da porta, o mirzá viu uma alta torre de vigia.

- aquela é a upli buruj - disse masum. - ouvi dizer que tem canhões do comprimento
de dois homens deitados aos pés um do outro e muitos paióis de pólvora para os
municiar.

decerto que os generais de akbar naturais do decão já o sabem, mas nunca é de


mais recordar-lhes.

ao dirigirem-se para uma cidadela no interior da cidade, o mirzá começou a sentir


um crescente mal-estar, embora não conseguisse compreender porquê.

de repente, compreendeu. no meio das paredes rendilhadas, dos azulejos


caligrafados, das pedras polidas das casas, surgiam umas colunas que pareciam ter
videiras a subir por elas acima e cujos capitéis eram flores de lótus de pedra. mesmo
as mesquitas, quando vistas de perto, tinham motivos de plantas engastados na
estrutura, como se o edifício fosse matéria orgânica, nascendo da terra. ao mirzá,
aquilo afigurava-se-lhe obsceno. É como se o mesmo karamat que esculpiu a mão
de pedra do shahid sem nome tivesse trabalhado aqui.

- estou a ver que o senhor mirzá aprecia a perícia dos nossos artesãos - disse
masum, ufano. - não lhe tinha dito que, de toda a parte, vieram os melhores artesãos
acrescentar beleza a bijapur?

- bem, devo confessar, masum, que o estilo é muito diferente de tudo o que tenho
visto. e acho que jaimal não deve estar a gostar do que vê.

o mirzá olhou para baixo, onde jaimal seguia, montado no seu cavalo, ao lado do
elefante. como pensara, jaimal olhava para os edifícios com um ar carrancudo.

embora estranha, pensou o mirzá, não se pode negar que é uma terra rica. akbar
não deixará de colher esta bela fruta, quando se lhe apresentar uma oportunidade.
isso, porém, não é coisa que me diga respeito e eu não devo despertar os receios
de ibrahim com a mínima alusão. não devo permitir, como diria masum, que os
gênios da distração me desviem do meu objetivo.

aditi passeava na galeria superior do gagan mahal, espreitando, através da pedra


rendilhada, com embutidos dourados, o pátio em baixo. era irritante ter de
permanecer nos andares de cima, única área autorizada às mulheres. a begum xá,
porém, dissera-lhe que era o melhor que podia fazer, dado o grande número de
convidados que estavam a chegar. mais provavelmente, ibrahim quer vigiar os meus
movimentos.

aditi conseguira, apenas, vislumbrar tamas e o resto dos goeses, quando entraram
no palácio. quem lhe dera ter conservado consigo uma ou duas das raparigas
maratas que a tinham acompanhado na viagem, pois poderia utilizá-las para enviar
mensagens, ou para obter informações. não quisera, porém, prejudicar as jovens,
expondo-as às intrigas do palácio, e entregara-as a famílias sardar locais, que as
tratariam bem.

agora, tinha ao seu serviço uma das mulheres de confiança da begum xá, uma nada
prazenteira e mal-encarada criatura, chamada krodha. aditi tinha a certeza de que a
mulher era uma espia, pela forma como se lhe colava. quer dizer que ibrahim não
confia em mim. bem, nisso tem razão. mas é uma maçada. tenho de inventar
qualquer coisa para escapar a esta intrometida companhia.

soltou um suspiro e sentou-se no chão, junto da janela rendilhada. em bhagavati, eu


podia andar por onde queria, podia falar com quem queria, podia fazer o que me
apetecesse, desde que não perturbasse a mahadevi. e estou aqui tão perto, apenas
a alguns dias de distância. grande mãe, peço-te que a minha tarefa aqui termine
depressa, para que possa voltar em breve para junto de ti.

viu tamas e lockheart encaminharem-se para os banhos e desejou poder ouvir a


conversa deles. que vou eu fazer com ele? o bom senso diz-me que já o devia ter
matado. que deus ou demônio terá travado a minha mão? estará krishna a brincar
comigo, fazendo-me desejar um homem que devia ser meu inimigo? em muitas das
histórias que ouvira desde criança, o amor era uma glória para os homens, mas um
martírio para as mulheres. começava a sentir como isso era verdade.

os pensamentos de aditi foram interrompidos por gritos e pelo soar de trombetas que
vinham da grande arcada do gagan mahal.

- o que é isto? - perguntou aditi a krodha.

- deve ser a chegada do emissário do imperador akbar, minha senhora. É bom sinal,
pois esta noite vai haver música e danças e fogo-de-artifício. e nós vamos assistir
aos festejos daqui, das varandas.

o espírito de aditi estava muito longe de festejos. quantos homens trará o mirzá
consigo? o que é que ele saberá a respeito da mahadevi e como é que o terá
sabido? que mais lhe contará ibrahim? serei eu capaz de o travar? os pensamentos
oprimiam-na de tal forma que só lhe apetecia dar safanões na jaula rendilhada e
rugir como um leão.

- que tendes, senhora? nada disso vos interessa? calma, calma, que a emoção cega
nada nos adianta. onde está a inteligência que gandharva tanto nos gaba? ah, mas,
se vai haver música, gandharva vai lá estar e pode descobrir coisas que eu não sei.
como é irônico ter de pedir-lhe, a ele, um cego, que me sirva de olhos. aditi voltou-se
para krodha e compôs uma expressão mais humilde.

- desculpai-me. deveis pensar que eu sou terrível, mas é que... eu estava distraída.
se quereis saber, mas peço-vos que não o confieis a ninguém, é que eu vim a
bijapur na esperança de despertar o interesse do sultão.

krodha ergueu o sobrolho.

- ah, mas sois demasiado velha para isso!

- eu sei, mas a verdade nunca trava a esperança.

- como é possível que ainda não estejais casada, na vossa idade? como é que a
vossa família negligenciou o seu dever para convosco, ou vós para com ela?

- isso é uma longa história. a verdade é que os meus verdadeiros pais morreram era
eu criança e a minha madrasta... tem andado preocupada com outras coisas.

krodha aquiesceu com a cabeça, compreensiva.

- as madrastas descuidam sempre os enteados. ela não oferecia um dote suficiente?

aditi olhou para o chão com a expressão triste adequada.

- foi isso.

- a sorte não vos favoreceu, sri aditi. vede o meu caso. casei com doze anos! com o
filho de um rico mercador de sedas.

- que sorte tivestes - murmurou aditi, evitando a mínima nota de sarcasmo. e como
te ufanas por te sentires superior a mim. - e o vosso marido vive aqui, no gagan
mahal?

- oh, não, felizmente! não, ele mora por cima da loja e viaja muito, com o nosso filho,
para comprar mercadoria.

- ah, tendes um filho! - disse aditi, num tom apropriadamente melancólico. - deveis
ter saudades deles?

- não tenho saudades nenhumas. o meu marido é um bruto e o meu filho está a ficar
igual a ele. se quereis saber, sri aditi, eu sou três vezes abençoada: estou casada,
tenho um filho e raramente tenho de suportar a companhia deles.

- na verdade, lakshmi sorriu-vos. - e, agora, percebo por que sois tão azeda.

aditi olhou de novo através do rendilhado e suspirou.

- krodha, não será possível mandar vir um músico para nos entreter, hoje à tarde? a
música ajuda muito a afastar as mágoas e o meu espírito, hoje, precisa de um certo
consolo. há cá um músico cego que ibrahim me recomendou, chamado gandharva,
e eu gosto muito de o ouvir tocar a sua vina. não poderíamos tê-lo aqui?

- os músicos hoje vão ser muito solicitados, por causa dos visitantes, mas eu vou
ver o que se pode arranjar.

- e um pouco de vinho, está bem?

krodha abanou a cabeça com um ar meio reprovador.

- bem, dado que é uma tarde festiva, acho que ninguém nos vai recusar um pouco
de vinho.

- sois muito gentil.

no seu palácio das delícias, não muito distante do gagan mahal, o sultão ibrahim
também ouviu os gritos e as trombetas.

- o que é que sabeis acerca deste mirzá ali akbarshah perguntou ele a haidar khan,
um dos seus generais de confiança.

- eu pouco tenho ouvido falar dele, majestade, mas o pouco que tenho ouvido indica
que se trata de um homem bastante competente. não posso, porém, acreditar que o
imperador akbar tenha enviado um general superior conquistar uma lenda, com uma
força tão reduzida. isso sugere que o mirzá é, muito provavelmente, um súbdito
conflituoso, alguém que o imperador quis afastar da corte durante algum tempo.

ibrahim aquiesceu com a cabeça, bebericando chá de cardamomo numa taça de


porcelana.

- É uma interpretação razoável, embora saibamos que o poderoso akbar nem


sempre se comporta razoavelmente. por outro lado, se o mirzá akbarshah é um
general superior, uma pequena força lhe basta. e se a sua intenção for espiar, então,
é melhor proclamar um objetivo que o faz parecer um bobo, não achais?

- será o seu objetivo assim tão louco? - perguntou o general, cofiando a barba
grisalha. - há muito tempo que vos conheço, ibrahim. receais realmente que ele seja
um espião? ou receais que, precisamente, ele seja bem-sucedido no que proclama
que veio fazer?

ibrahim teve um sorriso contrafeito.

- nunca mostreis que sois muito esperto, haidar, sabeis que não gosto de fazer figura
de parvo. mas enviar um general medíocre, com uma pequena força, capturar uma
deusa mítica? não, é demasiado ridículo para ser verdade. portanto, deve haver
mais qualquer coisa. quero que façais uma visita de cortesia às suas tropas
acampadas, a ver o que podereis descobrir, pois sabeis avaliar um exército. fá-lo-eis
esta noite, enquanto entretemos o mirzá.

haidar khan fez uma vênia.

- farei como desejais, majestade. quando pensais recebê-lo em audiência formal?

- amanhã de manhã, cedo.

o general ergueu as bastas sobrancelhas.

- tão depressa?

- quero apanhá-lo desprevenido. e, se for um espião, não o quero a vaguear muito


tempo entre nós. tenciono despachá-lo o mais rápido possível.

- a vossa estratégia tem um certo mérito, majestade, se ele for um espião...

- se não for, haidar, então a sua sorte ficará nas mãos de um poder mais alto do que
o meu.

quanto mais tempo o mirzá ficar entre nós, mais se espalhará a sua história, mais
certas facções em bijapur suspeitarão da minha estranha aliança com a mahadevi.
os ulemás acham que eu ando apenas desorientado. a agitação que causariam,
conhecessem eles toda a verdade.

aditi ergueu o olhar quando as portadas de madeira com embutidos se abriram e


krodha fez gandharva entrar na galeria, a vina enganchada no ombro.

- minha senhora, haveis requerido a minha presença? disse ele em tom neutro.

aditi ergueu-se de um salto e pegou-lhe nas mãos.


- ah, finalmente! tenho ouvido falar tanto de vós que ver-vos é como encontrar um
tesouro por muito tempo ansiado. sinto-me muito honrada por vos dispordes a tocar
para mim. vinde e acomodai-vos.

pegou-lhe no braço e conduziu-o a um tapete com uma pilha de almofadões.

- sois muito gentil, minha senhora - disse gandharva, com um muito ligeiro laivo de
ironia. - receio, porém, que não possa ficar muito tempo, pois todos os músicos do
palácio têm muito que fazer, esta noite. mas espero agradar-vos, no pouco tempo de
que disponho.

- fico feliz só por vos ter aqui - disse aditi, sentando-se muito perto dele.

ouviu-se bater à porta, muito suavemente.

- ah! - exclamou gandharva. - devem ser os refrescos que o sultão vos manda.

- É simpático da parte dele, pensar em mim numa altura destas.

- ele quer que vos sintais confortável e satisfeita com o vosso alojamento.

- e que não lhe cause problemas - murmurou aditi em voz baixa, enquanto krodha se
encontrava ocupada a receber o grande tabuleiro de cobre, das mãos da criada que
estava à porta.

- dizeis bem.

krodha apareceu com os refrescos, os quais incluíam um jarro de vinho de palma,


um pote de chá de cravo-da-índia, uma travessa de tâmaras recheadas, uma fruteira
com mangas e bananas, pistácios e avelãs.

- eh, que belo tratamento! - exclamou aditi. - talvez ibrahim pense bem de mim,
apesar de tudo. deveis provar também, krodha. e agora, meu caro músico, eu tenho
estiolado aqui, sentindo-me só, por isso, por favor, tocai-me uma canção de amor.

- Às vossas ordens, minha senhora - disse gandharva. quereis que vos toque a
canção de krishna e as leiteiras?

aditi pôs-se a rir, tentando parecer uma tonta.

- prefiro ouvir uma canção a respeito dos vossos onomásticos patronos, os


gandharvas, essas divindades versadas em vinho e em elixires de amor, tão belos e
a que as mulheres não resistem. sabeis alguma canção a respeito deles?

- seria um pobre gandharva se não soubesse - disse o cego, com um sorriso nos
lábios.

- não achais isso impróprio, sri aditi? - perguntou krodha, franzindo o sobrolho.
- só aqui estamos nós, krodha, e, hoje, toda a gente está por de mais ocupada para
se preocupar com os nossos prazeres.

krodha encolheu os ombros e pôs-se a encher duas taças de vinho.

gandharva irrompeu numa alegre canção que descrevia os encontros lascivos das
divindades com as ninfas apsaras, numa praia do oceano. os subsequentes abraços
e carícias, cantados vividamente ao longo de vários versos, de tal modo encantaram
as águas do oceano que a sua espuma se tornou um poderoso afrodisíaco, uma
gota do qual bastava para homens e mulheres ficarem loucos de luxúria.

quando gandharva terminou a canção, krodha, com os braços envolvendo os


joelhos, exclamou:

- essa canção é ultrajante! que nojo!

- não, nada disso - exclamou aditi -, é uma canção linda! ah, quem me dera ter,
agora, um pouco dessa espuma!

deslizou para cima de gandharva e abraçou-o pelo pescoço.

- a vossa canção deu-me vontade de me colar a vós. preciso de um favor.

gandharva colocou a vina de lado, com uma expressão divertida na cara.

- estou à vossa disposição, minha senhora.

- sri aditi! - exclamou krodha, chocada. ignorando-a, aditi colocou uma perna em
volta da cintura
de gandharva e segredou-lhe ao ouvido:

- a propósito de elixires, tendes rasa mahadevi convosco?

- como sempre, minha senhora - respondeu ele num sussurro. - porquê?

- porque eu preciso dele - disse aditi, percorrrendo-lhe as costas com as mãos. -


onde é que ele está?

- num frasquinho, numa bolsa presa à minha túnica disse ele, sorrindo - mas tereis
que ser vós a tirá-lo.

- que fazeis, sri aditi? - gritou krodha.

- acho que a senhora quer uma coisa que eu tenho dentro das calças - disse
gandharva.

aditi dominou a vontade de o esbofetear e começou a desatar-lhe os atilhos da


túnica.

- não deixeis as vossas esperanças subir tão alto, meu amigo - sussurrou-lhe ela.
entretanto, introduziu a mão dentro da túnica, deslizando-a pelo peito abaixo e
sentindo-lhe a quentura da pele. apalpou-lhe a cintura, junto às calças, até que
encontrou a bolsa. movendo as ancas por forma a ocultar as mãos da vista de
krodha, agarrou no frasquinho, rapidamente o ocultando na faixa que tinha à cintura.

- não são as minhas esperanças que estão a subir, como tereis notado - disse
gandharva, colocando-lhe as mãos nas ancas e metendo uma das pernas entre as
dela. - tendes a certeza de que não quereis mais nada de mim? há muito tempo que
não estamos tão chegados. lembrai-vos que por alguma razão a mahadevi me deu
este nome. e as jovens do palácio têm tido pena de mim e têm-me ensinado coisas
muito interessantes.

aditi começou a sentir subir por ela uma ponta de desejo que tornava tentadora a
proposta de gandharva...

- sri aditi!

beijando gandharva na testa, aditi segredou-lhe:

- comigo não, agora não, mas não podeis fazer qualquer coisa por aquela bruxa,
para a acalmar?

- ai, o que eu tenho de fazer pelas mulheres na minha vida! sim, eu posso satisfazê-
la, mas só se ela quiser ser satisfeita.

aditi afastou-se um pouco de gandharva e voltou-se para krodha.

- não sejais ciumenta, krodha! gandharva diz-me que é capaz de satisfazer duas
mulheres ao mesmo tempo.

- eu sou uma mulher casada, sri aditi!

aditi retirou-se dos braços de gandharva e foi sentar-se junto de krodha.

- sim, com um marido que está sempre longe e que vos trata mal. - sempre a falar,
aditi passava-lhe as mãos pelo cabelo, pelos ombros. - e isso é injusto, pois sois
amorosa e o vosso marido não vos aprecia. - sutilmente, aditi passou-lhe as mãos
pelos seios, notando, divertida, que os bicos estavam eretos.

krodha roía a ponta de um dedo, olhando para gandharva, o qual lhe estendia um
braço acolhedor.

- mas... é impróprio!

- serão impróprios os deuses, que tanto apreciam as delícias do amor? só eles verão
e julgarão, pois mais ninguém saberá. eu, certamente, nunca vos trairei. e
gandharva sabe satisfazer uma mulher por forma que não haja filhos. não tereis de
que ter vergonha. ide, tomai-o primeiro. aceitai a prenda que vos oferece, bem a
mereceis.
pegando no braço de krodha, conduziu-a para o colo de gandharva. depois, dirigiu-
se para o tabuleiro de cobre. enquanto gandharva se dedicava ao seu gentil
trabalho, aditi aqueceu o chá a uma pequena lamparina. evitou rir, ao ouvi-lo elogiar
meigamente, poeticamente, a pele suave de krodha e as suas formas flexíveis.
enquanto krodha gritava de prazer e de surpresa, aditi ia mexendo o chá dentro do
pote. quando krodha se agitava nos espasmos finais do êxtase, aditi deitava uma
pitada de rasa mahadevi numa chávena que, depois, encheu de chá.

ofegava e suspirava ainda krodha nos braços de gandharva, quando aditi lhe levou
a chávena de chá.

- não vos sentis melhor, agora? este chá vai arrefecer os ardores do vosso sangue e
serenar-vos.

- na verdade - ofegou krodha, o cabelo em desalinho, as roupas descompostas -,


estou cheia de sede.

ansiosa, agarrou a chávena com ambas as mãos e bebeu o líquido de uma golada.

aditi segurou, de novo, na chávena vazia, já krodha fechava os olhos. a mulher


encostou-se a gandharva e a respiração foi-se-lhe esvanecendo, até terminar por
completo.

- mataste-a? - disse gandharva, o espanto na voz.

- eu não utilizei todo o pó. fá-la-ei reviver dentro em pouco, ficai descansado. mas
precisava de falar convosco, sem ela saber e sem a sua interferência. eu estou aqui
presa, gandharva, e preciso da vossa ajuda para saber tudo o que puder a respeito
de tamas, a respeito do mirzá e a respeito do que ibrahim pretende fazer com eles.
eu não me posso movimentar livremente como vós.

gandharva riu-se.

- vós estais presa e procurais a escuridão - disse ele, fazendo o trocadilho com o
significado de tamas -, enquanto eu estou preso na escuridão. que belo par de
espias nós somos!

com todo o cuidado, deslizou debaixo do corpo de krodha, colocando-lhe a cabeça


meigamente em cima do tapete.

- eu farei tudo o que puder por vós, aditi, com uma compensação.

- que gênero de compensação?

gandharva estendeu os braços e envolveu-lhe a cintura.

- krodha terá ficado aliviada, mas eu não. tende piedade do vosso pobre amigo cego
e ajudai-me.
- aliviar-vos? mas o pó não chega para vós os dois - disse aditi, jocosa.

- sabeis bem que não é o olvido que eu pretendo - disse gandharva, cobrindo-lhe um
seio com uma mão.

- bem, na verdade fizestes-me um favor.

- e posso fazer-vos outro.

aditi admitiu para si própria que o seu desejo havia sido despertado, e gostava
realmente de gandharva, e ele era muito hábil. quem saberia quando teria nova
oportunidade de se entregar ao prazer dos sentidos?

- muito bem, meu amigo, mas tereis de me dizer muita coisa.

estendeu-se em cima do tapete e puxou-o para si.

- tudo o que a minha senhora quiser - disse gandharva, beijando-a. - quereis poesia,
elogios, mentiras?

aditi ria e suspirava, enquanto as mãos dele lhe subiam pelas pernas acima, os
dedos penetrando-lhe no âmago.

- quero informações. onde estão os homens do mirzá? vão ser entretidos por
bailarinas? quando? onde vão as bailarinas atuar? os frades da orlem gor também
vão ter direito a bailarinas?

gandharva introduziu nela o membro firme e quente e, por entre suspiros, ímpetos e
gemidos, disse-lhe tudo o que sabia acerca dos preparativos para entreter o mirzá e
os goeses.

aditi gozou todo o seu prazer quando ele surgiu, admirando a perícia de gandharva,
desejando, porém, contrariada, que ele fosse outra pessoa.
capítulo xv

espora: este vegetal dá, no verão, flores de um amarelo esbranquiçado e tem umas
folhas compridas que sabem a pimenta. no outono, produz vagens, com umas
pequenas sementes amarelas. É uma planta conhecida desde remotos tempos e
comer as suas folhas frescas ajuda a digestão e cura as escrófulas. a flor tem um
cheiro agradável de noite, mas de dia não cheira a nada, por isso diz-se que a
espora é a planta da decepção...

thomas estendeu-se de costas, flutuando no vapor do enorme tanque de banho, as


dores das costas e dos braços diluindo-se na água quente perfumada a rosas. os
entrelaçados desenhos dos azulejos azuis e dourados do teto afastavam-lhe o
espírito dos problemas do mundo, mergulhando-o num agradável torpor. as
gargalhadas dos soldados goeses, a brincarem e a apalparem as jovens de olhos
pretos que lhes esfregavam as costas, soavam-lhe distantes, sem importância.
nuvens de vapor dançavam à sua volta, à superfície da água, tais espíritos em
despreocupados festejos.

antes do banho, haviam servido aos goeses um banquete de peixe com arroz,
galinha assada, fruta e pão espalmado. thomas comera até não poder mais. agora,
sentia-se como se tudo o que desejasse fosse flutuar, para sempre, naquele
descuidado e quente torpor. gostaria, apenas, que aditi também ali estivesse a gozar
daquela bênção. o paraíso deve ser assim. o apaziguar das dores, a ausência de
desejos. se a morte for assim tão doce, não admira que o padre me leve a mal por
lha ter roubado.

- olá, amigo.

thomas sobressaltou-se, alarmado. as pernas mergulharam, batendo inutilmente, a


respiração engasgada na água quente. emergindo, uma mão encontrou a borda do
tanque e ele conseguiu erguer-se, tossindo.

- as minhas desculpas, tom, mas eu não queria afogar-te. simplesmente, pensei que
era boa altura para conversarmos, agora que já descansamos da viagem.

- por favor! - rouquejou thomas.

- gostava de saber por onde anda o teu espírito esta noite.

- se quereis saber, estava a pensar na morte.

- um assunto pesado para alguém tão jovem e saudável como tu.

- nada pesado, pois eu estava a achar a perspectiva de certo modo agradável.

- não me digas, meu caro amigo! a viagem destroçou-te tanto, a ponto de quereres
pôr fim à vida?

- não, nada disso, andrew. eu queria, apenas, estar livre de cuidados. e estava,
antes de vós chegardes.
- lamento ter trazido o peso do mundo, de novo, para cima dos teus ombros, mas há
assuntos importantes a tratar. e, como os nossos amigos goeses estão bem
entretidos, e nem o padre, nem o irmãozinho estão por perto, acho que esta é uma
boa oportunidade.

- muito bem.

em boa verdade, thomas receava a pergunta que, sabia, lockheart iria fazer. será
boa altura para lhe dizer a verdade e desvendar-lhe os meus planos? ou será melhor
continuar a dissimular até ver assegurada a proteção do sultão?

- chegados a bijapur, completamos a primeira etapa da nossa busca. o que eu


pergunto é qual será a próxima etapa?

thomas suspirou e encostou-se à borda do tanque.

- o que é que sugeris, andrew, o que é que aconselhais? lockheart cofiou a barba
encharcada.

- É, obviamente, uma tentação pensar em desertar e esperar, a partir daqui,


encontrar maneira de regressar à pátria.

thomas inclinou a cabeça e ergueu um sobrolho. será que ele pensa fazer o mesmo
que eu?

- mas - continuou lockheart - eu tenho pensado muito nisso e acho que há muitos
contras. sermos os únicos sobreviventes de uma expedição e chegarmos de mãos
vazias... acho que ia haver muitas perguntas a responder, como, por exemplo, qual o
destino dos emissários da rainha, e, se as respostas não agradassem à coroa, lá
estariam as confortáveis celas da prisão à nossa espera.

thomas sorriu para si próprio.

- na verdade, andrew, vós teríeis muita coisa a que responder.

- sim, mas as tuas perspectivas não são melhores. achas que mestre coulter
aceitaria de bom grado o teu insucesso, depois de tudo o que investiu na viagem?

- acho que ele seria compreensivo. os naufrágios são muito frequentes e, de


qualquer modo, eu posso levar informações preciosas acerca desta terra e destas
gentes.

- o holandês linschouten já cobriu esse tema, meu caro. achas que poderias
acrescentar-lhe alguma coisa?

- isso, verdadeiramente, não sei.

- É claro que não. e o que diria o teu mestre coulter, convicto protestante, a respeito
da tua escabrosa confissão e conversão à igreja católica?
thomas pestanejou.

- isso é injusto.

- talvez seja, mas encaremos outra saída. porque não havemos de continuar a
viagem em busca do pó da ressurreição? pensa na recepção que terias, levando
contigo o maior tesouro que um boticário pode desejar, o poder de curar tudo. e
pensa na fortuna e na fama que isso te proporcionaria, para não falar da
imortalidade para ti e para a tua família.

- foi o que eu pensei quando ressuscitei nathan e me apercebi do poder do pó.


porém, depois do que aconteceu com de cartago e com o padre, deixei de pensar
nisso.

- se a mera ganância não te convence, pensa no teu dever para com a pátria.
imagina a calamidade, se o santo ofício descobre a fonte do pó. a espanha há muito
que deseja conquistar a nossa bela ilha, achas que, perante um exército imortal, a
inglaterra lhe poderia resistir?

- o padre quer destruir a fonte, não apossar-se dela.

- isso é o que ele diz.

- e eu acredito nele.

- fico espantado que tu, tom, que sofreste a loucura da inquisição na carne, ainda
nele acredites.

- pensai o que quiserdes, mas eu apostava a minha vida nele. contudo, não vos
inibo de procurardes o pó por vossa conta e risco, se é o que desejais.

- não, não, tom. os nossos destinos estão ligados: para onde fores, eu irei contigo.

thomas tornou a suspirar, mais profundamente, farto da presença de lockheart.


voltou-se e, lançando uma perna por cima da borda do tanque, ergueu-se, saindo da
água, pingando.

- vou pensar nisso, andrew, mas, agora, desculpai-me, preciso de estar só.
falaremos mais tarde.

e correu à procura de uma toalha.

o padre gonsção conseguiu encontrar, no enorme salão onde os goeses foram


instalados, um recanto atrás de uma coluna, com um nicho onde pôde colocar um
tosco crucifixo feito com dois galhos de tamarindo. nesse recanto, ficava um pouco
ao abrigo do esplendor demoníaco que os rodeava.

- padre - disse timóteo, atrás dele -, eu também queria ir tomar banho.


- não - disse gonsção -, os banhos públicos são uma fonte de sensualidade. se
precisas, lava-te com um pano úmido.

- padre, uma das criadas que nos serviu a ceia disse que, esta noite, ia haver
música e senhoras a dançar. posso ir...

- não! - gonsção suspirou e ergueu-se, ignorando as dores nos joelhos. - tenho muita
pena, meu filho. vais achar que eu sou um velho ogre, mas eu tenho as minhas
razões. tu não tens a noção dos perigos que nos rodeiam, tanto para o corpo, como
para a alma. eu tenho observado como te maravilhas com esta terra, mas tens que
ter cuidado, timóteo. esta gente pode parecer simpática e hospitaleira, mas não se
preocupam nada com a salvação das nossas almas. tu, porém, tens de te preocupar
com isso. - e, colocando as mãos nos ombros do rapaz, prosseguiu: - preciso que
sejas o meu indefectível aliado, timóteo, pois pode acontecer que não possamos
contar com mais ninguém para continuar a nossa busca. metade dos soldados já
nos abandonaram e, possivelmente, neste momento já estão de regresso a goa.
quanto aos outros, não sei até onde poderemos confiar neles. o irmão andrew
parece ter esquecido os seus votos, se é que alguma vez os tomou, abandonando o
hábito e vestindo-se como os nativos. vai ficar conosco apenas enquanto isso servir
os seus propósitos, sejam eles quais forem.

- tomás não nos vai abandonar, padre. podeis, também, contar com ele.

gonsção abanou a cabeça.

- eu gostava de acreditar que a tua confiança nele é justificada, mas tenho grandes
dúvidas.

- ele podia ter regressado a goa quando estivestes doente, padre. e podia ter-vos
deixado morrer!

- És muito jovem e eu compreendo essa tua cegueira. digo-te, porém, que o senhor
chinnery não está nada interessado em enfrentar a ira do inquisidor-mor e, em boa
verdade, não o podemos censurar por isso. por outro lado, o irmão andrew exerce
uma certa influência sobre ele e pode pô-lo contra nós. não há razão para
esperarmos que ele continue conosco daqui por diante.

- mas nós precisamos dele! - exclamou timóteo. - como é que vamos encontrar a
fonte sem ele?

- deves ter esquecido, timóteo, mas havia um mapa, desenhado pelo feiticeiro de
cartago, que nós apreendemos ao senhor chinnery, no santo ofício. o senhor
chinnery, por razões que eu desconheço, tirou-me esse mapa, quando estive doente.
isso, porém, pouco importa, pois eu havia lido o mapa e conservo-o na memória.
havia três pontos nele assinalados. se o primeiro era, de fato, goa e o segundo
bijapur, então, o terceiro é o nosso objetivo. e, se o mapa era correto, esse objetivo
encontra-se a uma distância que é cerca de metade da distância entre goa e bijapur,
o que se traduz numa viagem de seis dias. e, se a minha orientação do mapa for a
correta, fica para sul e para este. portanto, não precisamos nada do senhor chinnery
para nos guiar.
- e os perigos e as armadilhas de que ele falou?

- desconfio, meu filho, que o senhor chinnery os inventou, para garantir um lugar na
expedição. se assim não for, teremos de enfrentá-los, conforme forem surgindo,
pedindo a ajuda de deus.

- se isso vier a ser necessário, padre, mas estou certo de que tomás ficará conosco.
vereis.

gonsção soltou um suspiro.

- vamos ver, meu filho. agora, vai lavar-te. tens água fria naquela bacia, além.

desconsolado, o rapaz baixou a cabeça e afastou-se.

gonsção voltou-se, de novo, para o nicho e ajoelhou-se. e ficou a pensar como,


antes de adoecer, a sua fé era uma coisa natural da vida, como o ar que respirava, e
essencial no seu trabalho. agora, porém, que tinha visto o que ficava para além das
portas da morte, a fé tornava-se uma questão muito mais premente. gonsção
recordava-se que vira uma luz a guiá-lo por um corredor escuro. por outro lado, vira-
se numa colina sobranceira a um mar azul de extrema beleza, apercebendo-se de
um alvo edifício atrás de si. porém, quando se voltara para olhar para o edifício,
vira... não, não devo pensar nisso. não devo, jamais, falar disso. ninguém pode vir a
saber o que eu vi.

thomas, sentado com as costas apoiadas a uma coluna, observava o pôr do sol.
vestia, agora, uma túnica de seda, lavada, e umas calças largas, a que chamavam
shalwar. tentava arduamente embebedar-se com uma bebida chamada charas,
sumo de uma erva chamada ganja, e com cerveja boja. esperava conseguir voltar ao
estado de agradável torpor que experimentara no banho, mas o resultado era
decepcionante.

o problema é que lockheart levantara algumas questões importantes. voltar a


inglaterra de mãos vazias, apenas com uma conversão forçada, não lhe ia ganhar o
favor da rainha, nem do patrão. mestre coulter podia, até, negar-me a mão da filha.
não é que isso fosse uma tragédia, já que pouco se sentia, agora, inclinado para ela,
mas feria-lhe o orgulho. eu podia omitir a história da conversão, mas iriam perguntar
como é que eu conseguira escapar da inquisição sem a ela me submeter. e, se
descobrissem a verdade, que me aconteceria? seria exilado? seria executado? eu
podia reconverter-me... pensar o que isso acarretaria quanto à salvação da sua alma
era desesperante e thomas afastou esses pensamentos do espírito.

olhou em redor, para o jardim da ala do palácio onde estavam instalados,


observando os companheiros de viagem. joaquim e dois outros soldados goeses
tinham conseguido o que ele não conseguira e, bêbedos, tentavam cantar, falar e
jogar, nenhuma das coisas conseguindo fazer. e faltavam dois outros soldados,
decerto entretidos com as sedutoras criadas hindus.

enquanto thomas não prestara atenção, haviam chegado uns músicos e lockheart
estabelecera viva conversa com um músico cego que trazia um instrumento bulboso,
semelhante a uma guitarra com duas grandes cabaças. os outros músicos
instalavam-se, limpando as flautas, ajustando os tambores, preparando-se para
tocar.

pobre timóteo, ele gostaria de assistir a isto. e o padre, filho de um flautista, era de
crer que também se interessasse. a luz bruxuleante de velas, porém, brilhava numa
janela próxima, donde thomas, por vezes, ouvia o murmurar das orações do padre.

thomas sentiu um laivo de culpa. porquê perturbar-me? por gozar o prazer do


descanso após uma árdua viagem? por ter feito o padre voltar a uma vida que ele
não consegue apreciar? thomas bebeu mais uma golada de charas e riu de si
próprio. sou um tonto. consegui escapar das mãos da terrível inquisição e alcancei o
porto de abrigo que desejava. aqui, posso curar os meus braços e posso viver
rodeado de beleza, até decidir o que fazer. o padre, certamente, não vai poder
prosseguir sem mim. para quê ficar melancólico numa noite que promete ser tão
agradável?

algures à sua direita, thomas começou a ouvir o tilintar de braceletes e o roçagar de


vestes de seda. ah, as bailarinas! thomas ergueu-se e os soldados goeses
acotovelaram-se, com exclamações expectantes. o músico cego acomodou o
estranho instrumento no colo e rompeu num acorde sussurrante, acompanhado
pelos tambores e pelas flautas. o próprio ar pareceu ficar excitado com a música e
thomas sentiu o sangue acelerar com aquele som.

descendo por uma escadaria de mármore, surgiram as bailarinas, vestindo umas


jaquetas da mais fina seda, sobre blusas de manga curta, que lhes deixavam o
umbigo à mostra, e calças coloridas justas às pernas, que nada ocultavam das suas
formas. vinham descalças, com douradas cadeias de campainhas nos tornozelos.
cada jovem, ostentava um colar de ágatas e de pérolas, pulseiras e braceletes de
cobre nos braços, brincos requintados e véus da mesma seda fina das jaquetas,
ricamente orlados de jóias. À medida que iam descendo a escadaria, rodopiando e
ondulando, tais sinuosas serpentes, thomas achava cada uma mais bonita do que a
anterior que observara.

- tão sedutoras como as sereias, não é, tom? - disse-lhe lockheart ao ouvido. -


sabias que cada movimento, cada pose e cada gesto compõem uma história para
quem a sabe ler?

- a história que elas me contam, andrew, é que há muito me falta uma companhia
feminina.

lockheart soltou uma gargalhada e deu uma palmada nas costas de thomas.

- cuidado, rapaz, que o encanto delas é tão grande que conseguiu fazer sair o
dragão da toca.

thomas olhou para onde lockheart indicava e viu o padre gonsção à porta do
alojamento, com um ar carrancudo e agarrando um timóteo de olhos arregalados.
incapaz de se dominar, thomas acompanhou a gargalhada de lockheart, em alto e
bom som. e, de repente, o olhar fixou-se-lhe na última mulher da fila de bailarinas.
parecia diferente das outras, não dançando exatamente da mesma maneira, e o seu
olhar pousara longamente em thomas. conseguiu, através do véu, vislumbrar os
olhos da bailarina e, com súbito regozijo, reconheceu-a.

- aditi - exclamou thomas -, viestes dançar para mim! aditi franziu a testa, alarmada,
e, ligeira, deslizou até junto dele.

- não pronuncieis o meu nome, tamas. ninguém pode saber que estou aqui.

- perdoai-me, mas fiquei tão contente ao ver-vos...

- É melhor eu deixar-vos - disse lockheart, piscando o olho e afastando-se.

- eu também estou contente por vos ver, tamas - segredou aditi sobre o som dos
tambores. - vim para saber se estáveis bem. já falei ao sultão em vós e ele prometeu
ver o que podia fazer.

- mui querida aditi - disse thomas, não de todo controlando a altura da voz -, sois um
verdadeiro anjo!

- e vós estais bêbedo.

- estou? então, consegui! por favor, concedei-me o doce olvido nos vossos braços,
pois tenho muito que esquecer.

dizendo isto, thomas agarrou-a pela cintura, ignorando o protesto dos ombros
doloridos.

- devíeis ter mais cuidado, pois há perigos à vista - disse aditi, com a cabeça
indicando o padre.

thomas seguiu-lhe a indicação e viu o padre a observá-los, pálido de espanto e de


fúria.

- oh, não interessa. ele tem inveja dos prazeres mundanos que nega a si próprio.
que mal nos pode ele fazer, tão longe de goa? ficai comigo, aditi, aqui neste porto de
abrigo, onde não temos de esconder os nossos afetos!

a fila de bailarinas ia lentamente desaparecendo por uma escada de caracol ao


fundo do pavilhão. aditi inclinou-se para thomas e beijou-o na cara.

- tenho de ir. se a sorte nos ajudar, em breve nos veremos. livrou-se com ligeireza
dos braços dele e correu a juntar-se às outras bailarinas.

thomas encostou-se à coluna com um suspiro de frustração.

- portanto - disse a voz do padre gonsção atrás dele esta é que é a misteriosa aditi.

- que rouquejais, autonomeado eunuco?


- vou considerar que é o demônio da bebida a falar com a vossa boca e não me vou
sentir ofendido. preciso, contudo, de falar convosco.

o padre sentou-se ao lado dele. thomas sentiu o fedor do corpo do inquisidor como
nunca antes notara.

- do que precisais é de um banho.

- e vós precisais de ouvir. normalmente, eu não contaria isto a ninguém, fora do


santo ofício, mas, quando procurávamos saber dos membros da cabala de de
cartago, surgiu o nome de uma pessoa que nunca encontramos. era alguém a quem
chamavam aditi e diziam ser ela a instigadora do culto... alguém que arrastara para
a perdição pagã um governador e um vice-rei de goa. segundo parece, cativou mais
uma vítima.

- se calhar, aditi é um nome comum entre os hindus. o que é que isso tem?

thomas inclinou a cabeça para trás e fechou os olhos, desejando que o irritante
padre se fosse embora.

- eu muito estranhava que a senhora da liteira, que guiava a nossa caravana,


manifestasse tanto interesse por vós, mas, agora, compreendo. tenho de admitir que
bem me enganastes. sois um homem esperto, mestre chinnery!

- eh!

- mas, tenho-me eu perguntado, ter-nos-á aditi conduzido aqui para nos afastar do
nosso objetivo, ou para nos levar até ele? tenho a certeza de que ela não quer que o
santo ofício venha a encontrar a sua idolatrada deusa e talvez esteja a iludir-nos aos
dois.

thomas riu-se.

- quereis que eu desconfie dela? o padre encolheu os ombros.

- quem sou eu para vos dizer se deveis confiar ou não? nem sequer sei o que ela
vos prometeu, ou vós a ela!

- o que ela me prometeu - disse thomas em tom arrastado - já ela cumpriu. e vós
avaliais-me mal, padre. para conseguir a sua ajuda para sair de goa, eu disse-lhe
que desejava conhecer a mahadevi, mas não tenho nenhuma intenção de me tornar
pagão, podeis ficar tranquilo a esse respeito.

- ah, portanto sois vós que a enganais. homem esperto!

- É, apenas, um pequeno logro, sem nenhuma intenção malévola.

- sim, sim, eu compreendo - exclamou o padre.


- considerando que a nossa causa é grande e santa, enganá-la não é grande
pecado, pois não?

o padre teve um riso amargo.

- não deveis preocupar-vos com isso, meu filho. e eu que já tinha desesperado da
vossa salvação! portanto, vós nunca pretendestes encontrar a fonte do pulvis
mirificus, não é assim?

thomas fez uma pausa, antes de responder.

- por ora, prefiro não vos dizer mais nada quanto a isso. amanhã, depois de falarmos
com o sultão, abrir-vos-ei, por completo, o meu espírito. ficai sabendo, porém, que
nunca vos desejei mal, nem ao irmão timóteo, nem, tão-pouco, vos desejo mal
agora.

gonsção fez um sorriso forçado e ergueu-se.

- tranquilizastes-me, mestre chinnery, e destes-me uma bela lição. bem mereceis


este repouso, depois de tudo por que passastes. gozai os prazeres mundanos
enquanto podeis.

o padre deu uma palmada forte no ombro de thomas e partiu. thomas encolheu-se
todo, esfregando o ombro, enquanto o padre regressava ao alojamento dos
hóspedes.

o mirzá ali akbarshah estava reclinado num montão de almofadões, num pavilhão da
ala norte do gagan mahal, observando as estrelas. ele e os seus homens haviam
saboreado a hospitalidade do sultão, tomando banho, comendo e admirando,
serenamente, os jardins. depois de tantos dias na estrada, a mudança era muito
agradável, mas isso mais o fazia desejar estar de regresso a lahore, em vez de se
encontrar naquele pacato sultanato.

ia bebendo o chá de cravinho e olhava, por momentos, para os seus companheiros.


escolhera os homens do séquito pelo seu bom senso e sobriedade e não estava
desapontado.

nenhum deles tocara em nenhuma das bebidas alcoólicas que lhes foram servidas.
falavam, entre eles, de assuntos inconsequentes, nada que pudesse despertar o
interesse de ouvidos inconvenientes. o mirzá suspeitava que ibrahim ia convidá-los a
juntarem-se a ele nas orações da manhã, ou para uma audiência matinal, na
expectativa de os apanhar desprevenidos. era uma astúcia muito comum que o
próprio mirzá já havia utilizado.

um grupo de músicos havia chegado de outra parte do palácio e preparava-se para


tocar. masum guiava um músico cego que trazia uma vina e com ele conversava
animadamente. o mirzá sentia-se, de certo modo, aliviado por o palrador sufi ter
encontrado outras orelhas aonde destilar as suas histórias.

jaimal aproximou-se e sentou-se junto do mirzá.


- porque não os mandamos embora, senhor?

- calma, jaimal, não há razão para tão óbvio insulto ao sultão. não temos nenhum
motivo, por ora.

- mas estão a chegar bailarinas! pensará ibrahim seduzir-nos com as beldades do


seu reino. isso é impróprio. devíamos mandá-las embora, pelo menos a elas.

- não, jaimal. já agora, vamos aproveitar para ver quem dança melhor, se as nossas
jovens de sind, se estas do decão. além disso, o sultão iria pôr-se a magicar que
gênero de homens somos nós, para termos receio de um grupo de bailarinas.

o mirzá conseguiu arrancar um sorriso contrafeito a jaimal.

- tendes razão, meu senhor. vamos, então, vê-las. pouco depois, ouviu-se o tilintar
das jóias e braceletes e

os músicos começaram a tocar. era um estilo de música, com forte batimento de


tambores, com que o mirzá não estava familiarizado. as jovens entraram, vestidas
com choles e peshwaz de boa qualidade. a sua dança era graciosa, mas o mirzá
desconhecia o significado dos gestos locais, de forma que não podia saber se
descreviam a história de umas irmãs que afugentavam um bando de bandidos, ou
de umas lavadeiras a lavar a roupa num rio.

o conjunto era acertado, mostrando que dançavam juntas com frequência, não fora a
última da fila, a qual parecia ligeiramente mais velha e cujos movimentos nem
sempre se conjugavam com os das outras. parecia observar o mirzá e os seus
homens atentamente, com uns olhos invulgarmente azuis.

ah, pois claro, é a espia do sultão. pois bem, deixai-a ver o que quiser, nada há-de
ver ou ouvir que tenha grande interesse. o mirzá sorriu-lhe e baixou-lhe a cabeça.

a mulher correspondeu-lhe com um sorriso deslumbrante, quase perdendo o


equilíbrio. as bailarinas cinco vezes deram a volta ao pavilhão e a última, de cada
vez que passava, aproximava-se mais do mirzá, de cada vez lhe exibindo uma parte
do corpo à apreciação, sem já se preocupar em acertar o passo à história que as
outras contavam.

- parece que lhe atraístes o olhar, meu senhor - disse jaimal.

- acho que vou entrar no jogo - disse o mirzá. - quero saber o que ela pretende.

a dança terminou com um agudo vibrar das flautas e as jovens dispersaram-se pelos
homens. a bailarina espia correu e deslizou a sentar-se aos pés do mirzá, batendo à
justa duas outras esperançadas jovens. o mirzá estava francamente divertido.

- apreciastes o que acabais de ver, grande senhor? - perguntou a mulher, falando,


numa voz doce, um perfeito persa cortesão.
- não pude afastar os olhos de vós - disse o mirzá - tão distinta era a vossa
graciosidade. e destacáveis-vos das outras.

a mulher baixou os olhos, com estudada modéstia.

- honrais-me por de mais, meu senhor.

- de modo nenhum - disse o mirzá. - mas uma senhora que fala tão bem como vós
não é, certamente, uma simples bailarina. deveis ter sido... ah, já sei. fostes uma
cortesã de elevada casta, não fostes?

- descobristes, meu senhor. na verdade, em tempos, servi como tal. no norte, no


rajastão.

- e o que é que vos aconteceu, para agora serdes uma simples bailarina?

a mulher ergueu os grandes olhos azuis para o mirzá.

- sou forçada a admitir a verdade. eu vim aqui apenas para vos entreter, meu senhor.

- agora sois vós que por de mais me honrais.

- não, não - suspirou a mulher, a voz pesada de desejo. eu ouvi dizer que o grande
mirzá vinha a bijapur em busca de histórias e eu tenho muitas para contar.

- espantoso - disse o mirzá para jaimal - vir encontrar tão belo diamante no meio de
meros rubis. vinde, minha beleza de olhos de pomba, sentai-vos aqui ao meu lado e
contai-me o que tendes ouvido dizer.

a mulher quase se lhe sentou ao colo.

- vós procurais uma poderosa rani que concede a imortalidade aos homens que
conseguem passar uma noite com ela e sobreviver.

- isso é... uma interessante variação do que temos ouvido dizer, minha beleza. e a
vossa história diz onde se encontra essa rani?

- longe, muito longe no sul, meu senhor. nas montanhas nigiri, onde o nevoeiro
nunca larga o topo das árvores da floresta, numa cidade oculta nas profundezas de
um antigo vulcão. a cidade está guardada por dez mil demônios e só os homens
mais corajosos lá conseguem entrar, mas, tendo entrado, nunca mais de lá desejam
sair.

- contais-nos uma história de maravilhas, minha bela.

- e ides contar-nos - disse jaimal - que essas profundezas são pavimentadas a ouro
e a esmeraldas, que o mel escorre em riachos montanha abaixo, que os pássaros
cantam ragas em louvor da rainha e que as árvores dão fruta todo o ano.

- ah, vejo que já ouvistes esta história.


- sim, algo semelhante - disse o mirzá, observando, pelo canto dos olhos, que
masum se sentava ao lado de jaimal.

quer dizer que o sufi também quer ouvir o que ela conta. gostava de saber o que ele
pensa dela. a bailarina achegou-se mais ao mirzá.

- e onde, se me permitis perguntar, ouvistes contar esta história, vós que vindes de
tão longe?

- receio que a minha resposta seja pouco esclarecedora, minha bela, mas a verdade
é que só tomei conhecimento dela quando o meu imperador me ordenou que
empreendesse esta viagem. quanto a saber de quem ele a ouviu, pois bem, teríeis
de fazer a longa viagem até lahore e perguntar-lhe a ele, se quereis obter resposta.

- o vosso imperador não vo-lo disse?

- não, não disse. nem eu, tão-pouco, lho perguntei. os reis, geralmente, não
apreciam muito os súbditos curiosos. há, porém, quem diga que ele teve uma visão,
uma rainha saindo do céu, guiando um carro puxado por quatro tigres, que lhe disse
para a procurar e lhe enviar tributo.

- mas vós... - subitamente, a mulher calou-se, a atenção presa em algo que masum
estava a fazer.

o mirzá seguiu-lhe o olhar e viu o sufi a agarrar numas bolinhas que pareciam de
cera, metendo-as numa bolsinha de couro, coberta por um pó escuro.

- o que é isso? - perguntou a mulher num murmúrio. que fazeis?

masum sorriu.

- disseram-me que isto se chama rasa mahadevi, minha senhora. quem mo deu
disse-me que é um veneno mortal e que só deve ser utilizado quando perdidas todas
as esperanças. É, porém, já muito pouco, por isso estou a tentar juntar todo o que
posso.

a mulher fixava-o com um olhar intenso.

- É, na realidade, um veneno terrivelmente mortal. quem vo-lo deu?

- um ocidental de cabelo amarelo, mas não sei onde ele o arranjou.

- chama-se tamas?

- sim, é isso, minha senhora. conhecei-lo?

a mulher deu uma palmada no chão e exclamou qualquer coisa que o mirzá não
entendeu, embora se lhe afigurasse nada feminino. sem mais palavras, a mulher
ergueu-se e partiu, parando apenas para dizer qualquer coisa ao músico cego, antes
de sair do pavilhão.

- coisa estranha - disse jaimal.

- sim, muito estranha - disse o mirzá, o olhar fixo no fundo do pavilhão. - ibrahim
parece não saber escolher as suas espias. tendes idéia do que a terá irritado?

o sufi abanou a cabeça.

- não faço idéia nenhuma, senhor mirzá.

- pois bem - disse o mirzá, erguendo-se e batendo as palmas - a festa terminou.

aditi correu ligeira e silenciosamente para a ala do palácio onde se encontravam


alojados os goeses, retirando da cintura um pequeno e fino punhal. o átrio do
alojamento estava silencioso, apenas se ouvindo o piar das aves noturnas.

thomas estava estendido nos ladrilhos, o cabelo dourado a luzir do luar e de tochas
distantes. por momentos, aditi pensou que alguém se incumbira da sua tarefa, mas,
logo depois, ouviu-o ressonar. desta vez, tamas, krishna não vai travar a minha mão.
traíste por de mais, entregando o rasa mahadevi aos mongóis. quanto te terão eles
pagado? que te terão prometido? não interessa.

aditi aproximou-se do corpo adormecido, erguendo o punhal...

- eh, inglês! - a porta que dava para o alojamento escancarou-se e apareceu um dos
soldados goeses. - o padre diz para entrares imediatamente, meu sem-vergonha -
disse o soldado num latim arrastado.

aditi escondeu-se atrás de uma asoka, enquanto o soldado pegava em thomas por
baixo dos braços e o levantava. thomas soltou um gemido e encostou-se ao
soldado, numa lamúria incompreensível. amparando-se um ao outro, conseguiram
entrar no alojamento.

aditi bateu com o pé no chão, praguejando, e correu para a sua gaiola rendilhada.

gandharva já lá estava, entretido a substituir uma corda partida da sua vina.

- então? - perguntou ele, quando ela entrou.

- a sorte atraiçoou-me outra vez. ele estava sozinho, mas um soldado veio buscá-lo
e levou -o para dentro antes de eu o poder matar.

- ah!

- ai! - suspirou aditi, atirando-se para um coxim ao lado de gandharva. - que noite!

- a quem o dizeis. acho que os meus dedos vão ficar como pedra, se não caírem
entretanto. como é que isso correu com o mirzá?
- não fiquei a saber mais nada para além do que ibrahim nos disse. mas tentei
enganá-lo acerca da localização da cidade da mahadevi.

- e ele acreditou?

- terá acreditado tanto como eu acreditei nele, acho eu.

- não tentastes convencê-lo com... com os vossos encantos? aditi fixou os olhos em
gandharva, embora ele não os pudesse ver.

- para quê? o mirzá não é nenhum parvo, para se deixar levar pela serpente que tem
nas calças. ter-me-ia, sem dúvida, utilizado, mas seria como se assoasse o nariz.

- ah, estes senhores do norte não sabem nada dos prazeres sociais. deve ser por
causa da sua fé castradora. e o outro que tinha o rasa mahadevi?

- esse é um mal-enjorcado sufi, com um ar de cachorro meigo. não creio que saiba o
que tem nas mãos. disseram-lhe que era um veneno e, por isso, nada fará com ele.

- ah, deveis estar a falar de masum. ele pertence à seita chisti de shahpur. eu falei
com ele antes de tocar para os mongóis e acho que deveis ter mais cuidado com ele
do que pensais.

- porquê?

- porque ele se sente divinamente inspirado na sua busca interior e não haverá
privações materiais, nem insuficiência de informações que o detenham.

- estou a perceber.

- e diz que soube da expedição do mirzá através de sonhos.

aditi suspirou e esmurrou um almofadão.

- que podemos nós fazer, gandharva, quando a própria mahadevi nos confunde.

- não acuseis a mahadevi pelo que pode ser obra dos demônios, ou mera
coincidência. nós os dois somos como viajantes numa jangada, num rio. chegamos
a um ponto onde entram novos caudais, provocando o choque das correntes, com
rochas ocultas debaixo da água. o viajante imprudente tenta contrariar o seu curso e
arrisca-se a ser cuspido da jangada, afogando-se. o sensato tentará manter a
jangada à tona da água, procurando águas mais calmas, mas nunca se opondo à
corrente. e, assim, continuará a flutuar quando o rio ficar calmo e a água de novo
transparente.

- as vossas histórias são encantadoras, gandharva, mas não servem de nada para
me orientar.

- então, ainda bem, pois isso quer dizer que eu nunca me tornarei num sufi.
aditi olhou para além do varandim, para os telhados de bijapur à luz das estrelas.

- a mahadevi tão-pouco me pode guiar, gandharva, pois eu não estou segura dos
meus propósitos. e sinto-me ansiosa por regressar a bhagavati.

- estais extenuada, aditi.

- sim, mas é mais do que isso. estou farta da vida que levo. achas que a mahadevi
se disporá a dispensar-me de ser os seus ouvidos e a sua boca?

- não sou capaz de prever se a mahadevi vos dispensará ou não, mas vós tendes
ainda uma pequena tarefa a desempenhar.

- e qual é essa tarefa?

- a vossa criada, a qual haveis prometido fazer voltar à vida - respondeu gandharva,
tocando ligeiramente com o pé no corpo de krodha.

- oh, é verdade! já me tinha esquecido.

aditi foi buscar, debaixo do tabuleiro do chá, o frasquinho de rasa mahadevi que
tirara a gandharva. destapando-o, despejou o resto do pó na boca de krodha.

passados uns momentos, krodha estremeceu, como que saindo de um pesadelo,


soltou um profundo suspiro e sentou-se, os olhos escancarados.

- ah, finalmente, minha dorminhoca - disse aditi, encostando-se negligentemente a


gandharva. - já estávamos a pensar que havíeis decidido permanecer em shayapura
para sempre.

krodha levou as mãos à cara e aos braços, como que admirada de ainda possuir
um corpo.

- eu... eu devo ter dormido profundamente, na verdade. os sonhos que eu tive! -


olhou, então, para gandharva. - ainda aqui estais?

- ele voltou - disse aditi - dos seus outros entretenimentos. É muito tarde, já passa
de metade da noite.

krodha ergueu-se.

- tenho de me ir embora.

- mas porquê? - exclamou aditi. - e quem me vai servir a refeição da manhã?

- enviar-vos-ei outra.

krodha embrulhou-se no xale e encaminhou-se para a porta.

- assustámos-vos tanto, cara krodha - disse aditi, seguindo atrás dela - que tenhais
de fugir de nós?

krodha voltou-se e olhou fixamente para aditi.

- eu tenho um aviso para vós.

- um aviso?

- no meu sonho, encontrei-me num palácio desconhecido. era um templo de pedra


branca, com grandes colunas. havia lá alguém, uma rainha de nagas, creio eu, que
falou para mim. era uma língua estranha, mas eu compreendi-a. disse-me que eu
não ia entrar no paraíso, porque a minha hora ainda não tinha chegado. e que devia
dizer-vos que havíeis cometido um pecado contra os deuses. como é que ela disse...
engulho, creio.

- orgulho?

- sim, é isso. ela disse que iríeis sofrer por causa disso. eu não sei o que o sonho
quer dizer, sri aditi, mas eu já não quero servir-vos, pois acho que isso me traria
infortúnios. vou enviar-vos outra.

krodha saiu pela porta rendilhada, fechando-a firmemente atrás de si. aditi ficou
hirta, gelada, os rendilhados a bailarem-lhe diante dos olhos.

- ouvistes o que ela disse, gandharva?

- ouvi, sim. parece ser esta a mensagem por que tanto ansiáveis.

- a mahadevi certamente compreenderá o que eu fiz e porquê!

- hum! os deuses são caprichosos! mas talvez a mahadevi não se preocupe com os
vossos desejos. ou talvez não tenha sido a mahadevi quem falou a krodha, no seu
sonho. ou, talvez, o sonho não passe de uma alucinação.

aditi esfregou os olhos com as mãos e o atordoamento esvaneceu-se. voltou para


junto de gandharva e reclinou-se nos almofadões ao lado dele.

- como é que eu me posso livrar da loucura com tantos pensamentos contraditórios?

- não albergando nenhum por muito tempo. o momento que passa é o que interessa.
pensar no futuro ou no passado é viver com mentiras e ilusões.

aditi virou a cabeça e pôs-se a observar as ardentes, brilhantes estrelas.

- quem falou a krodha falou corretamente. eu já estou a ser castigada, pois acho que
não vou conseguir dormir esta noite.

capítulo xvi
rosa: para toda a gente, esta é a rainha das flores. todas as partes da planta têm
virtudes curativas. a essência de rosa apazigua o sono e preserva a juventude. a
infusão das pétalas secas tira as dores de cabeça e, misturada com mel, purifica o
sangue. o fruto alivia as dores do peito e da garganta. diz-se que o vermelho da rosa
é o rubor com que ficou quando eva a beijou no jardim do paraíso e, por outro lado,
dizem que os espinhos lhe cresceram para nos recordar a queda do homem. para os
maometanos, a flor é símbolo de virilidade e dizem que brotou do suor do profeta na
sua viagem para o paraíso. entre os hindus, diz-se que a rosa venceu o concurso da
flor mais bela realizado pelos deuses. e, para os antigos gregos, a rosa fora
manchada pelo sangue de vênus, ferida nos seus espinhos, quando procurava o
amante, adónis. uma rosa suspensa numa sala de conselho significa que os
presentes podem falar livremente, sem receios. pétalas de rosa caídas no chão, ou
flores fora de tempo, são de mau agouro...

embora o sol ainda não surgisse sobre as muralhas de bijapur, embora os cânticos
do almuadem e as preces sonoras ainda ecoassem nos seus espíritos com
reconfortante ressonância, o mirzá e os seus homens esperavam já, junto da porta.
ao ouvir soar passos que se aproximavam, o mirzá sorriu.

- não te tinha dito? - disse ele baixinho para jaimal.

- ainda bem que não me fizestes apostar, meu senhor retorquiu o lugar-tenente, com
um sorriso contrafeito.

a porta abriu-se e o bem indumentado enviado que surgiu deu um passo para
dentro, mas logo estacou, surpreso.

- bom dia - disse o mirzá. - estamos prontos para a audiência com o sultão ibrahim.

- mas... mas... - gaguejou o enviado.

- foi para isso que viestes, não foi? - disse jaimal. - para nos conduzirdes à sua
augusta presença?

- na verdade, meu senhor, assim é. mas veio alguém dizer-vo-lo, antes de mim?

- não, mas nós sabíamos - disse o mirzá. - como, não interessa.

- claro, claro, meus senhores. tendes, porém, muito tempo, pois sua majestade não
deseja apressar-vos.

- mas nós estamos prontos, podeis conduzir-nos já.

- hum...

- quer dizer - disse jaimal - se sua majestade estiver pronta a receber-nos.

- claro que está - disse o mirzá. - só um fraco hospedeiro convidaria os seus


hóspedes sem estar pronto para os receber.
a cara do enviado estava a ficar carmesim.

- queiram ter a bondade de me seguir, meus senhores disse ele com uma vênia,
precedendo-os para o corredor.

o mirzá notou que masum foi o último a sair da sala, como fora o último a erguer-se
do tapete das orações. os pés dele devem andar à procura da via espiritual, pensou
o mirzá com um sorriso interior, pois estão com dificuldade em seguir a via terrena.

o enviado conduziu-os num percurso circular, em redor do perímetro do gagan


mahal, antes de os levar à grande plataforma de pedra, no centro do palácio. do lado
oeste ficava a grande arcada, através da qual quem passasse podia observar as
reuniões que ali se realizavam. não havia paredes, nem colunas junto da plataforma,
notou o mirzá. nenhum sítio onde se pudessem esconder soldados de emboscada.
era um ambiente de abertura, de segurança, de honestidade, de confiança.

ou nada temos que recear da parte de ibrahim, pensou o mirzá, ou ele é mais
esperto do que eu esperava.

um tanque provisório, construído na plataforma, estava cheio de flores de lótus, a


água refletindo a luz do sol. potes de jasmins e de crisântemos circundavam a
plataforma. na extremidade oriental, erguia-se um baldaquim octogonal, coberto com
um dossel de seda vermelha e verde. no baldaquim via-se um felpudo cadeirão, de
pernas curtas e costas altas. na altura, o cadeirão estava vazio.

em frente do baldaquim havia grandes tapetes, ricamente tecidos, e era neles, ao


lado direito do baldaquim, que o mirzá e os seus homens se deviam sentar. o mirzá
ficou admirado com o arranjo, mas não protestou abertamente.

atrás do cortinado do baldaquim, um mordomo gritou: “abri caminho, vós que me


ouvis, abri caminho ao mui radiante soberano, à alta real majestade, ibrahim
adilshah, supremo senhor de bijapur, dilecto do todo-poderoso, jagat-guru, nobre
mestre, defensor das mulheres e guardião da fé.”

o mirzá voltou-se para o baldaquim e inclinou-se até à cintura, fazendo sinal aos
seus homens para o imitarem. não caiu, porém, de joelhos, pois que queria deixar
bem claro que se tratava de um encontro entre iguais.

o cortinado abriu-se e, atrás de dois acólitos, o sultão ibrahim entrou. se se tinha


vestido à pressa, isso não se notava. o bem constituído sultão vestia uma elegante
jama de seda, amarela, com uma cinta dourada e um cinto cravejado de safiras,
sobre umas calças shalwar, também amarelas. o turbante pagri, ornado de jóias e
em tecido dourado, condizia na perfeição.

- se vossa mui real majestade mo permite - prosseguiu o mordomo -, apresento-lhe


o emissário do vizinho reino do norte, sua alteza o mirzá ali akbarshah.

sempre em posição de reverência, o mirzá disse:


- trago-vos, majestade, as saudações do imperial shahinshah allahu akbar, califa,
senhor de todo o sind. que o supremo provedor vos cumule, e à vossa família e ao
vosso reino, de paz, de harmonia e de todas as bênçãos que, seguramente,
mereceis.

o sultão deu um breve abraço ao mirzá.

- tenho muita honra em receber o emissário do meu ilustre vizinho. que o mui
generoso e mui misericordioso guarde bondosamente a família do shahinshah, as
suas terras e o seu povo. acomodai-vos, por favor, todos vós - disse ibrahim,
sentando-se, as pernas cruzadas, no amplo cadeirão.

o mirzá e os seus homens sentaram-se nos tapetes à direita do sultão, como lhes
haviam indicado.

outros três homens se juntaram ao sultão, no baldaquim.

- este é qasim firishta, o meu historiador da corte. convidei-o porque considero que
este é um evento de suma importância. e este é nur al-din muhammad zuhuri, o meu
poeta da corte, que aqui está para vir a relatar este encontro em linguagem
prazenteira e requintada. e este é gandharva, um mui hábil músico que está sempre
comigo.

o mirzá reconheceu o músico cego, um dos que tinham tocado para os seus homens
na noite anterior, aquele a quem a estranha bailarina-espia havia dirigido a palavra,
antes de se retirar apressadamente. não fez, contudo, nenhum comentário a esse
respeito.

- espero que me desculpeis - disse ibrahim - por vos ter convocado tão cedo. hoje,
porém, vai ser um dia sobrecarregado e eu não queria deixar de saudar vossa alteza
o mais prontamente possível.

- compreendo perfeitamente - disse o mirzá. - aliás, a alvorada é a melhor e mais


auspiciosa altura para falar de grandes empreendimentos.

- sois muito gentil - disse ibrahim. - mas, já que fui tão indelicado convocando-vos
tão cedo, permiti que me redima, oferecendo-vos um modesto refrigério.

o sultão bateu as palmas das mãos e apareceram na plataforma criados com salvas
de prata, carregadas de fatias de figos-da-índia e de romãs, de pães doces cobertos
de sementes de papoula, de ovos de codorniz em açafrão, de tigelas de picles
condimentados e de corações de lótus cozidos. em pequenas taças de prata, foi
servido, ao mirzá e aos seus homens, chá com coentros e com canela.

houve um momento de embaraço, enquanto os homens esperaram que o mirzá


começasse a comer. se ibrahim quisesse cometer uma vilania, ter-nos-ia mandado
massacrar enquanto dormíamos. agora, não há que recear venenos. o mirzá pegou
numa pequena fatia de figo-da-índia e levou -a à boca. depois, fez um gesto aos
seus homens para fazerem o mesmo, o que fizeram com certa voracidade.
após a ligeira refeição, passaram algum tempo a falar da saúde do imperador, do
tempo em bijapur e como as colheitas prometiam, da família de ibrahim e de outros
temas inconsequentes, nem o mirzá, nem o sultão, desejando revelar demais, nem
de menos.

- será, porém, verdade, como se ouve dizer - perguntou, finalmente, o sultão -, que
um general tão sábio e tão hábil como vós tenha vindo ao decão, não em busca da
glória militar, mas de lendas folclóricas?

o mirzá sorriu.

- o shahinshah respeita muito a sabedoria do povo. e, se o que ele ouviu dizer for
verdade, haverá tanta glória nisso como numa conquista. imaginai, sábia majestade,
que existe algures uma rainha imortal, disposta a partilhar os conhecimentos que
acumulou ao longo de centenas de anos, talvez o próprio segredo da vida eterna.
que rei não desejaria encontrar tal rainha?

- mas, caro mirzá, semelhantes histórias vêm sendo referidas desde que o homem
começou a falar. já alguma se mostrou, acaso, verdadeira?

- quem pode afirmar se algumas delas não o eram? talvez esta rainha, muito
simplesmente, tenha conseguido preservar o seu segredo durante muito, muito
tempo. talvez tenha tido, nisso, a cumplicidade daqueles a quem prestou auxílio,
daqueles a quem eliminou inimigos, ou a quem fez voltar à vida um filho falecido.

ibrahim cerrou ligeiramente os olhos.

- eis uma interessante suposição, meu caro mirzá, mas creio que colheis fruta das
árvores do jardim da vossa imaginação.

- o que vos leva a pensar isso?

ibrahim soltou um suspiro e recostou-se no cadeirão, cruzando as mãos na cintura.

- ah, se eu encontrasse uma rainha assim, tudo faria para casar com ela, unindo os
nossos reinos, a nossa sabedoria e o nosso sangue. acho que qualquer rei faria o
mesmo.

- talvez ela não aceite um homem mortal como marido.

- se essa rainha é tão poderosa como dizeis - retorquiu ibrahim -, porque não
conquistou ela todo o sind, reinando em lugar do vosso imperador?

enquanto o mirzá fazia uma pausa, refletindo na resposta, masum chegou-se à


frente e exclamou:

- talvez, majestade, porque a sua longa vida a ensinou a não dar valor à guerra e à
conquista, mas antes à paz e ao saber. ela oculta-se decorosamente, no cimo de
uma afastada montanha, como fazem os mais doutos pirs, e convida aqueles que
têm sede de saber a procurá-la.
ibrahim ergueu o sobrolho.

- este, majestade, é masum al-wadud, um sufi...

- um muna - corrigiu masum.

- da vossa montanha shahpur - concluiu o mirzá.

- ah, um chisti! - exclamou o sultão. - eu sou um grande admirador da vossa poesia.


ireis dizer alguma, enquanto esperamos pelos outros que se vêm juntar a nós dentro
em breve.

- com muito gosto, majestade - declarou masum, exultante.

- outros? - interrogou-se o mirzá.

enquanto se persignava, a lamúria dos maometanos ecoava nos ouvidos do padre


gonsção. ajoelhado perante a cruz que havia colocado no nicho da parede, tentava
cobrir os gritos dos almuadens com as suas orações. será que deus sugere os
tormentos que esperam os heréticos com os gritos que os incitam às suas
abastardadas preces? como podem homens de bom senso corresponder a tais
incitamentos?

com os joelhos a estalarem, gonsção ergueu-se e olhou para os outros, ao seu


redor. dominou um ímpeto de malévolo regozijo, ao ver mestre chinnery, olhos
inchados e cara pálida, ainda estendido sobre os almofadões, gemendo com a dor
de cabeça. É a paga do pecado, mestre.

o ex-irmão andrew estava sentado, praguejando e agarrado à cabeça, mas parecia


em melhor forma. está demasiado habituado ao pecado e aos seus efeitos.

os soldados encontravam-se em variados estádios de sono, de turvo despertar ou


de lamurienta dor. por vezes, um deles queixava-se:

- tendes de rezar tão alto, padre? ai, a minha cabeça!

timóteo foi ajoelhar-se junto de gonsção, os olhos fechados em oração. pelo menos
esse ainda não fora atingido pela malignidade do local. se goa pode ser comparada
a uma mulher perdida, bijapur é uma exótica e emproada prostituta. que tu, pelo
menos, meu filho, não sucumbas às suas tentações!

ouviram-se passos a aproximarem-se da porta, a qual foi aberta sem que ninguém
batesse. os soldados agarraram nas espadas. gonsção fitou o criado de tez escura,
de turbante, que fazia uma vênia à entrada da sala.

- timóteo, pergunta-lhe o que é que ele quer.

o rapaz, obedientemente, ergueu-se e falou com o criado, voltando-se, depois, para


o padre, uma expressão de surpresa
na cara.

- ele diz que o sultão nos convoca. vamos ter uma audiência com ele, de imediato.

- ainda bem, então, que as minhas orações em voz alta acordaram toda a gente -
disse gonsção secamente.

- mais depressa ficaremos prontos.

ouvindo de novo o criado a falar, timóteo acrescentou:

- ele sugere que nos apressemos, pois o sultão não gosta de esperar. - e, em voz
baixa, confidenciou: - eu quereria continuar as minhas orações, padre, tinha tanta
coisa que pedir a deus!

gonsção pousou uma mão no ombro do rapaz.

- deus conceder-te-á novas audiências, timóteo, mas esta pode ser a nossa única
oportunidade para falarmos com o sultão.

o padre teve de esperar bastante tempo, enquanto os outros se vestiam


adequadamente, passavam água na cara e compunham um semblante sem muitos
vestígios de sono.

o criado conduziu-os através de um corredor que ligava, diretamente, a ala onde


estavam alojados ao átrio central da ampla plataforma.

o sultão já ali se encontrava, sentado, de pernas cruzadas, num amplo cadeirão.


esta gente não sabe utilizar a mobília apropriadamente, pensou gonsção. ibrahim
adilshah, na opinião do padre, era um homem grande, mas elegante, bem
constituído, embora com alguma gordura a mais na cintura. tinha uma queixada
firme, quadrada, adornada com uma barba preta bem tratada. o nariz era direito,
com narinas finas, os olhos grandes, os lábios grossos. estava resplendente, na sua
indumentária amarela e dourada, ostentando mais jóias do que uma princesa
européia.

estavam três homens sentados atrás do sultão, um deles o músico cego que
gonsção vira no serão da véspera. o sultão não dispensa os doces e as melodias,
nem mesmo quando trata dos negócios do reino. É verdade que segue uma crença
sensual! e eu tenho de tratar com este homem! quem dera que sadrinho tivesse
enviado outro qualquer!

À direita do sultão, um grupo de mongóis, sentados em tapetes, observava, com mal


disfarçada curiosidade e atenção, a entrada do grupo do padre. os restos de uma
refeição viam-se espalhados em travessas de prata, em frente deles, no ar um
cheiro a chá aromatizado. o homem sentado mais perto do baldaquim do sultão era
alto e tinha um ar austero, com uma barba bem cuidada e um turbante sofisticado. o
homem mais baixo e mais escuro, sentado à esquerda dele, franziu a carranca à
aproximação dos goeses. o homem à direita dele, com uma túnica branca de lã e
uma barba mais malcuidada, sorriu abertamente e acenou com a cabeça.

- tamas, timóteo - saudou-os ele.

- conheceis este homem? - perguntou gonsção, dirigindo-se ao irmão timóteo.

- falamos com ele no caravansará, padre. É um ervanário, como o tomás.

gonsção fixou o olhar no jovem inglês.

- alguém devia ter tido mais cuidado contigo, timóteo.

- foi, apenas, um encontro casual - disse mestre chinnery.

- falaremos disso mais tarde.

gonsção fez sinal ao irmão andrew para se colocar ao seu lado e, juntos, avançaram
para o sultão. o padre pôs um joelho no chão e fez uma acentuada vênia, indicando
aos outros que fizessem o mesmo.

o criado que os conduzira à plataforma anunciou a sua chegada, numa linguagem


cantada.

o irmão andrew franziu o sobrolho.

- É estranho, mas ele não falou em persa.

- pois não - segredou timóteo a gonsção, do outro lado -, ele falou em marata. e
disse: “sua majestade radiosa, o xá de bijapur, amado pelo céu e pelo seu povo,
saúda-vos e dá-vos as boas-vindas à sua humilde morada.”

- ah! - exclamou o irmão andrew. - essa língua eu não sei. timóteo prosseguiu:

- ele acrescentou que os outros homens que aqui estão são emissários do grande
imperador mongol akbar e que o seu chefe é o mirzá ali akbarshah.

- que estão eles aqui a fazer? - quis saber gonsção.

- antes disso, devemos apresentarmo-nos - disse o irmão andrew. - dizei o que


quiserdes, padre, que eu vou traduzir em persa.

- pois bem, dizei-lhe que eu, padre antónio gonsção, da ordem dos dominicanos,
emissário do cardeal albrecht de espanha e do inquisidor sadrínho de goa, lhe
agradeço as boas-vindas e lhe retribuo as saudações.

o irmão andrew dirigiu-se ao sultão e traduziu-lhe no que gonsção presumiu ser


persa, mas ibrahim pareceu ligeiramente contrariado e voltou-se para o criado que,
por sua vez, traduziu noutra língua.

- É surpreendente - segredou o irmão andrew -, dir-se-ia que o sultão não sabe


persa.

- talvez se recuse a sabê-lo - disse timóteo -, porque o persa é a língua dos


mongóis.

gonsção olhou para o rapaz.

- não compreendo. se os homens que ali estão são mongóis, ele devia falar na
língua deles, por uma questão de delicadeza!

- o irmão timóteo é capaz de ter razão - disse o irmão andrew. - os condutores de


camelos disseram-me que os reinos do decão odeiam o império mongol, pois sabem
que akbar pretende conquistá-los, mais cedo ou mais tarde.

- a situação complica-se, a cada momento - murmurou gonsção.

o sultão sorriu e fez um gesto, a indicar que deviam sentar-se nos tapetes
estendidos à sua esquerda. os mongóis sentados à direita do sultão observavam os
goeses discretamente, exceto o de barba malcuidada, o qual olhava espantado para
gonsção, como se estivesse a ver um cavalo com duas cabeças.

os soldados, calados e de alerta, sentaram-se nos tapetes e almofadões,


conservando mestre chinnery entre eles. gonsção, relutantemente, escolheu um
almofadão retangular e liso, sentando-se nele. que arraigado costume têm estes
bárbaros de tratar dos seus assuntos ao ar livre, sentados no chão! passei horas de
mais ajoelhado, para me habituar a isto. que deus me conceda paciência!

o irmão andrew colocou-se entre gonsção e o sultão, para servir de intérprete, mas
gonsção conservou timóteo junto de si, para o caso de necessitar de alguma
interpretação mais direta.

gonsção fez sinal a joaquim para apresentar a oferta que traziam para o sultão. o
soldado pegou na caixa de cedro e avançou, de joelhos, para o baldaquim. o criado
travou joaquim a uma espada de distância da base do baldaquim e pegou-lhe na
caixa, colocando-a aos pés do sultão. a um sinal do potentado, o criado abriu a
caixa.

o sultão inclinou-se para a frente, enquanto o criado, lentamente, ergueu o tecido


que cobria o conteúdo da caixa. o sultão estendeu a mão para agarrar o livro
encadernado a prata que lá se encontrava, mas, de súbito, retirou a mão como se
tivesse sido mordido por uma serpente. os olhos estamparam-lhe o desespero e a
mão direita dirigiu-se-lhe para a adaga que tinha à cintura. depois, fechou os olhos
e, com um suspiro, tornou a recostar-se, abanando a mão negativamente. o criado
fechou a caixa e afastou-se com ela.

gonsção ficou perplexo. porque é que o sultão terá ficado tão perturbado à vista de
uma bíblia? haviam-me dito que ele era receptivo aos que não professam a sua fé!

trouxeram-lhes comida, em travessas de prata: frutos e vegetais irreconhecíveis,


bem como arroz e ovos. os soldados raparam a comida mal lha puseram à frente,
rapidamente a devorando. gonsção observou o olhar desaprovador dos mongóis.
que sórdido espetáculo estamos a dar! apesar de o estômago lho pedir, eximiu-se de
tocar no repasto. queria concentrar a atenção na conversa.

o chefe do grupo que se encontrava em frente deles dirigiu-se ao sultão, falando em


breves termos.

- compreendeste o que ele disse, timóteo.

- sim, padre, compreendi. ele está curioso acerca da nossa presença e quer saber o
que fazemos aqui. acho que não lhe agrada muito ver-nos aqui também.

o sultão sorriu abertamente e falou com caloroso entusiasmo.

- segundo parece, sua majestade está a brincar com nós todos - disse o irmão
andrew.

timóteo continuou:

- o sultão diz que o sábio e generoso deus lhe concedeu uma honra que nunca havia
experimentado, pois que os nossos dois grupos vieram de diferentes terras, com
diferentes crenças, mas ambos em busca da mesma coisa.

- da mesma coisa! - exclamou gonsção, trocando um olhar apavorado com o


príncipe mongol. era o que sadrinho receava. os mongóis já sabem da existência do
pó da ressurreição. ai portugal! se akbar encontra a fonte do pó, goa está perdida! ai
cristandade! se o islão a encontra, estamos perdidos!

- o sultão diz que o mirzá foi enviado para confirmar a lenda de uma rainha imortal
que vive numa fortaleza escondida.

- diz-lhe que nós ouvimos falar de uma deusa pagã. o chefe mongol falou e timóteo
traduziu:

- o mirzá diz que eles ouviram falar da mesma coisa e pergunta se nós sabemos
onde ela está. que lhe vou dizer?

gonsção fez uma pausa. essa é uma informação que eu não desejo partilhar.
quererá o sultão ajudar os mongóis, sendo seus inimigos? como é que terão sabido
do pó? terá a misteriosa aditi seduzido, também, o imperador deles?

- diz-lhes que soubemos da existência do pó por um feiticeiro de goa e que este o


soube por uma mulher chamada aditi.

o ligeiro tremor da mão adornada de jóias do sultão revelou que ele conhecia aquele
nome. entre os mongóis, porém, gonsção não notou nenhuma reação.

- o sultão pergunta se essas pessoas indicaram qual a localização da cidade


escondida.
- diz-lhe que sabemos onde procurar.

o sultão falou, de novo, longamente, com expansivos gestos, baixando a cabeça e


sorrindo a cada um dos grupos. e timóteo traduziu:

- o sultão diz que ainda bem, pois os mongóis precisam dessa informação e, em
contrapartida, podem assegurar-nos proteção. o decão é uma região muito perigosa
para os estrangeiros e o mirzá dispõe de uma força de quinhentos homens. se a
nossa expedição se juntar a eles, nada teremos a temer.

quinhentos homens! meu deus, acudi-nos! como é que vou evitar que essa multidão
descubra a fonte do pó?

- agradece ao sultão a sua preocupação com a nossa segurança, mas diz-lhe que
nós dispomos da proteção de nosso senhor jesus cristo e do seu divino pai e não
precisamos de mais nenhuma.

enquanto timóteo traduzia, gonsção viu o homem de cabelo desgrenhado a apontar


para ele e a falar com o mirzá. o irmão andrew pôs-se a rir.

- o que é que vos diverte tanto? - perguntou gonsção, carrancudo.

- aquele sujeito, padre, é um sufi, um místico maometano, e diz que vós sois
também um sufi, por causa do vosso hábito de lã branca, como o dele. É que ”sufi”,
em árabe, quer dizer ”lã”.

gonsção lançou o olhar carrancudo para o místico.

- por favor, desenganai-o. dizei-lhe que nosso senhor jesus cristo também usava
uma túnica de lã branca.

o irmão andrew sorriu maliciosamente e falou para o místico. o sufi sorriu e


respondeu para gonsção, na sua linguagem incompreensível.

- ele diz que é natural, pois o nazareno era um sábio, como o profeta, maomé, o qual
também vestia túnicas de lã branca. diz que lhe apraz que tenhamos algo em
comum.

gonsção suspirou e desviou o olhar do sufi. entretanto, o sultão tornou a falar e


timóteo traduziu.

- sua majestade está muito satisfeita por termos encontrado elos de ligação entre
nós. diz que sempre acreditou que povos de diferentes lugares e de diferentes
crenças podem aprender uns com os outros.

- isso é um absurdo! - exclamou gonsção. - como é que os homens poderiam


distinguir a verdade, se todas as crenças e costumes tivessem a mesma validade?

timóteo ergueu o sobrolho, mas traduziu para o sultão.


- sua majestade afirma que o melhor pão é o que se faz amassando todos os grãos
juntamente e cozendo-os no mesmo forno.

- diz-lhe que a verdade é como poalha de ouro misturada nesses grãos. se for
peneirada no meio dos grãos, um grande tesouro se perde. deve ser mantida
separada e pura para manter o seu valor.

o místico em frente deles tornou a linguajar e o irmão andrew disse:

- o nosso amigo sufi sugere que o pão é mais valioso do que o ouro e que um pão
feito de grãos diversos é mais saudável do que o de um só grão.

- o homem é louco! até os seus companheiros mongóis o reprovam.

- os místicos são muitas vezes tomados por loucos, padre. o sultão bateu as palmas
das mãos, sorrindo. timóteo traduziu:

- sua majestade gostou muito da nossa discussão filosófica e diz que é um bom
augúrio para a nossa expedição. e pergunta o que pode ele fazer para ajudar a levar
os nossos planos a bom termo. isto é idiotia!

- ele não terá percebido, timóteo, que declinamos a sua sugestão. por favor, explica-
lhe bem.

- esperai! - exclamou o irmão andrew, antes que timóteo começasse a falar. - padre,
se me permitis um conselho, digo-vos que não me parece prudente insultar o sultão,
recusando-nos a viajar com os mongóis. não sabemos que arranjos terá feito com
eles, nem...

- isso é coisa que não nos interessa.

- por favor, escutai-me, padre. enquanto os nossos protetores maometanos acharem


que lhes somos úteis, eles serão corteses e hospitaleiros. e devo salientar que, se
partirmos sozinhos, o exército do mirzá pode, sempre, vir atrás de nós. por outro
lado, tendo-nos o sultão colocado sob a sua proteção, se, acaso, nos atacassem,
incorreriam na sua ira, para além de violarem a sua própria tradição de
hospitalidade, tradição que eles tomam muito a sério. acresce que, viajando com
eles, pode-nos surgir a oportunidade de evitar que eles se apoderem do pó, coisa
que não acontecerá se viajarmos sozinhos.

gonsção soltou um suspiro. abençoado todo-poderoso que protegestes daniel na


cova dos leões, protegei-nos agora!

- haveis argumentado de forma excelente, irmão andrew. nada posso opor, por muito
que isso me aborreça. timóteo, por favor, diz a sua majestade que agradecemos que
nos ajude, proporcionando-nos mantimentos e informações acerca do decão e que,
com muito gosto, aceitamos os mongóis como nossos aliados na busca comum.

o sultão, radiante, abriu os braços, soltando vibrantes exclamações de regozijo.


depois, voltou-se para o mirzá mongol e falou-lhe demoradamente.
estabeleceu-se uma discussão entre os mongóis, que gonsção imaginou idêntica à
deles. tanto o místico, como o outro homem sentado ao lado do mirzá lhe falavam
acalorados. o mirzá, porém, manteve-se sereno, cofiando a barba, até que os dois
homens esgotaram os seus argumentos. por fim, voltou-se para o sultão e, com uma
vênia, apresentou-lhe a sua resposta.

o sultão, então, ergueu-se e entoou louvores a alá, perante o que gonsção deduziu
que os mongóis também concordavam em unir as forças. ibrahim desceu do
baldaquim e estendeu uma mão para cada um dos grupos.

compreendendo o gesto, gonsção levantou-se e tomou a mão que ele lhe estendia.
o mirzá fez o mesmo, os outros mongóis olhando para ele como se fosse louco. o
sultão juntou as mãos do inquisidor e do mirzá - parecia um casamento - e soltou
mais exclamações encomiásticas. timóteo traduziu:

- sua majestade diz que estamos a assistir a uma verdadeira obra do divino, dois
grupos de homens, de pensamentos e costumes estranhos uns dos outros, unindo-
se na busca do sagrado e do belo. garante toda a sua ajuda na abençoada busca e
pede, apenas, que o mantenhamos informado dos nossos progressos, de tal forma
que, também ele, possa aprender com as maravilhas que, juntos, descobrirmos.

isso faz parte do esquema dele, pois claro, pensou gonsção. com uma inclinação da
cabeça, fixou o general mongol nos olhos, tentando aperceber-se com que tipo de
homem ia ter de tratar, mas o rosto escuro e fechado do mirzá não lhe deu nenhuma
pista.

- sua majestade agradece-vos e dispensa-vos, de modo a que possais regressar aos


vossos alojamentos e preparar-vos para a partida. não quer demorar-vos mais e vai
assegurar-se de que partireis bem providos.

o sultão voltou-se para os mongóis e, com um gesto da mão, despediu-os,


permitindo que fossem os primeiros a sair. os mongóis saíram da plataforma
lançando olhares sombrios aos goeses, à medida que por eles passavam.

gonsção fez uma vênia, aguardando ser também despedido, mas o sultão falou para
ele.

- sua majestade diz que também podemos sair e que deus esteja conosco e nos
aconselhe. pede, contudo, que o de cabelo amarelo chamado tamas chinneri aqui
fique, para uma audiência particular.

gonsção voltou-se para encarar o inglês. o jovem pestanejou, mas a sua surpresa
parecia ser falsa. como é que tramastes esta pequena traição?

- parece que o sultão se interessa por vós, mestre chinnery. tendes grande perícia
em cativar os nativos destas terras!

- não há razão para suspeitas, padre - apressou-se o irmão andrew a dizer. -


thomas, muito simplesmente, tem algumas questões específicas a colocar ao sultão,
acerca das pistas que de cartago lhe confidenciou.

- achais? fareis, também vós, parte desta trama

- É isso, sim, padre - disse timóteo. - ele vai falar com o sultão a respeito das
armadilhas com que devemos ter cautela e talvez consiga que o sultão revele o que
sabe acerca do pulvis mirificus.

mestre chinnery sorriu timidamente e aquiesceu com a cabeça.

- claro, é isso, padre.

- pois bem - disse gonsção -, nesse caso, timóteo ficará convosco para vos servir de
intérprete, já que o irmão andrew não fala a língua do sultão.

o jovem inglês ficou com um ar apavorado: nitidamente, os acontecimentos


tomavam um rumo inesperado. gonsção decidiu ampliar a vantagem.

- e calha bem, pois eu próprio preciso de falar com o irmão andrew. tenho de saber
umas coisas acerca da política e dos costumes locais, agora que vamos viajar com
os mongóis. mas ficai tranquilo, mestre, não vou deixar-vos desprotegido. joaquim
ficará aqui, para garantir que o sultão não vos inflija nenhum mal.

- mas, padre - disse o irmão andrew -, timóteo, bom intérprete, embora, como
acabou de provar, pouco sabe dos costumes locais e pode, sem intenção, ofender o
sultão.

- se isso acontecer, acredito que o sultão o desculpará, dada a sua pouca idade. e,
além disso, acho que timóteo, tendo vivido toda a sua vida neste continente, sabe
mais acerca dos costumes desta gente do que um escocês recém-chegado, não vos
parece? vamos, não macemos mais o sultão com a nossa presença. mestre
chinnery, fico a aguardar, ansiosamente, o relato da vossa conversa.

gonsção notou o pesar nos olhos do inglês pousados em timóteo. portanto, a opinião
do rapaz ainda vos incomoda. que possais ver a dor da vossa traição na cara do
rapaz, quando ele traduzir as vossas palavras ao sultão, e que essa dor tenha eco
no vosso coração!

fazendo sinal aos soldados para o seguirem, gonsção desceu da plataforma, os


pensamentos revoltos no seu espírito, tais nuvens numa tempestade.
capítulo xvii

jaspe: esta pedra é uma calcedônia verde, raiada de veios vermelhos. há quem diga
que os veios vermelhos são o sangue de cristo que. pingando da cruz, caíram sobre
jaspe verde. usado como amuleto, à volta do pescoço, cura as hemorragias. numa
cataplasma, misturado com mel, reduz os inchaços e os tumores. dizem que quem
se adorna com jaspe distingue as mentiras e as ilusões, fazendo, porém, acreditar
em tudo o que diz quem o ostenta. implanta a paz no meio do caos e apazigua a ira
dos reis. nenhum poder ou obstáculo impede quem o usa de cumprir o seu destino,
proporcionando, ainda, visões do futuro. contudo, o jaspe também atrai
tempestades, terremotos e destruição...

tomas observou o padre e lockheart a saírem da plataforma de audiências do


sultão. uma névoa de confusão cobria-lhe o espírito, como se o mundo, naquele dia,
fosse completamente diferente do mundo em que vivera na noite anterior. ontem era
tudo esperança e beleza, hoje é só melancolia e ilusões perdidas.

doía-lhe a cabeça do abuso da bebida e os braços doíam-lhe como sempre, desde


que partira de goa. não comera nada do estranho repasto servido pelos criados do
sultão. o palácio de conto de fadas parecia-lhe, agora, hostil e grotesco... pavoroso
na sua discrepância. apetecia-lhe saborear uma tigela de sopa à lareira de uma
cozinha e passear numa rua lamacenta e encharcada de londres, numa fria e
chuvosa manhã de novembro, ouvindo à sua volta uma língua que conhecia.

- tomás - disse timóteo, puxando-lhe uma manga - o sultão diz que está disposto a
ouvir-vos.

- sede gentil com ele, irmãozinho - disse joaquim, com um sorriso matreiro -, o nosso
tomás provou ontem muitas daquelas belas coisas e agora está a pagar por isso.
- as minhas desculpas - disse tomás, tentando prestar atenção ao que o rodeava. -
eu estou bem, eu estou bem.

avançou para o tapete em frente do cadeirão do sultão, ajoelhou-se e fez uma vênia
à maneira hindu. joaquim e timóteo ajoelharam-se a cada um dos lados dele. thomas
sentiu-se confinado no meio deles como se, de novo, se encontrasse numa cela de
pedra e de grades de ferro.

o sultão dispensou o historiador e o poeta, conservando apenas junto de si o músico


cego. depois, inclinou-se para a frente e falou para thomas. timóteo olhou
repentinamente para thomas, chocado.

- tomás, sua majestade diz que alguém lhe disse que desejais entrar ao seu serviço
e abandonar a expedição. isto não pode ser verdade, pois não?

thomas suspirou e olhou para baixo, para os retorcidos arabescos do tapete. vou
perder a confiança deste rapaz pela ilusão de que posso ficar aqui? o que é que se
apossou de mim ontem à noite? os meus braços são inúteis. não posso ser um
soldado, pois não percebo nada de assuntos militares. a minha única perícia é
administrar ervas que crescem a milhares de milhas de distância. aditi quer que eu
conheça a deusa, andrew quer que eu encontre o pó por razões comerciais, joaquim
para obter a liberdade, timóteo e o padre por razões divinas. quem sou eu para os
trair a todos? que tenho eu para oferecer ao sultão, em troca do auxílio para
regressar a casa? e, se o tentar fazer sozinho, posso tornar-me um homem com a
cabeça a prêmio e um cadáver esquecido numa qualquer vereda de uma selva.

atraiçoar a confiança de timóteo era, acima de tudo, o mais doloroso. thomas nunca
fora tão abertamente admirado, tão considerado por mais ninguém, em toda a sua
vida. timóteo vai ficar a saber, mais cedo ou mais tarde, que o mundo é malévolo e
cruel, mas que o não saiba por mim.

- tomás - disse-lhe joaquim em voz baixa ao ouvido -, estais a dormir? por favor,
respondei ao irmãozinho, e certificai-vos de que lhe dais a resposta certa.

- desculpai-me, timóteo. por favor, dizei ao sultão que foi mal informado. eu desejo
falar com ele, mas é para saber coisas desta região, especialmente acerca do decão
que fica para sul e para leste e da deusa que produz o pó que devolve os mortos à
vida.

timóteo sorriu, visivelmente aliviado, e traduziu as palavras de thomas para o sultão.

ibrahim, ao ouvir o que o rapaz goês dizia, recostou-se para trás. pôs-se a cofiar a
barba, fixando o de cabelo amarelo. estaria aquele estrangeiro a tomá-lo por parvo?
o jovem parece sóbrio, embora doente. houve uma certa consternação entre eles,
antes de o padre sair, e o soldado ao lado dele tem um sorriso ameaçador. ter-me-ia
aditi mentido?

o sultão voltou-se para gandharva e perguntou-lhe, em voz baixa:

- o que é que pensas disto?


- talvez o jovem tenha mudado de opinião, majestade.

- não!

subitamente, a revelação apresentou-se a ibrahim, como se a própria sarasvati lha


tivesse soprado ao ouvido. aditi quere-o afastado da expedição. mas porquê? ele diz
que quer saber coisas acerca do decão, terá ele conhecimento de alguma coisa sem
a qual a expedição falhará? o padre, porém, diz que o que sabe da mahadevi
provém de aditi. quererá ela proteger secretamente o jovem, planeando a
aniquilação dos outros ocidentais? ou pretenderá aniquilá-lo a ele, ajudando os
outros? tenho de saber o que é que a liga a estes goeses.

- ele está seguro do que diz? - perguntou ibrahim ao rapaz. - a minha corte está
aberta a gente culta e a viajantes de todo o lado. e eu posso garantir-lhe proteção,
se ele sente que o inibem de ficar aqui.

o jovem teve uma ligeira hesitação e um relancear de olhos ao soldado à sua


esquerda, antes de responder que estava seguro.

portanto, o rapaz está a ser coagido e está cativo. talvez aditi o queira libertar. tenho,
necessariamente, de falar com aditi outra vez. mas porque é que o padre goês falou
nela? misericordioso, que grande emaranhado!
voltando-se para gandharva, ibrahim murmurou-lhe:

- verifico, cada vez mais, que preciso de falar de novo com sri aditi. vai ao seu
alojamento e diz-lhe que se me apresente o mais depressa possível. faz isso sem
que ninguém te ouça e por forma que não a alarmes.

- decerto, majestade - disse gandharva erguendo-se e fazendo uma vênia. -


contudo, deveis compreender que, sendo limitado nas minhas capacidades,
demorarei algum tempo.

- faz o que puderes - disse ibrahim.

- majestade - disse gandharva com nova vênia, saindo pelo cortinado do baldaquim.

- pois bem - disse ibrahim, voltando-se para o moço frade goês -, pouco vos posso
dizer acerca das terras que ficam para sul e para leste. são terras desoladas,
habitadas apenas por camponeses pobres, segundo me dizem. não percebo como é
possível que alguém possa acreditar que aí viva uma rainha. especialmente vós, que
sois cristãos e que adorais um deus Único, como os da minha fé.

o jovem de cabelo amarelo falou com o rapaz durante bastante tempo, antes de o
rapaz traduzir.

- majestade, tendes muita razão. nós não acreditamos que exista uma rainha, mas
sri chinenri conhece uma lenda acerca da chamada pedra filosofal, a qual
proporciona sabedoria e imortalidade. É muito possível que alguém tenha
descoberto essa maravilha e a utilize em proveito próprio, atribuindo esse poder a
uma deusa, a fim de cativar os pagãos.

ibrahim coçou o queixo barbudo.

- eis uma... interessante suposição. - e se a mahadevi não passasse de um logro?


aditi e gandharva podem andar a mentir-me, ou terem sido, eles próprios, induzidos
em erro. talvez por isso nunca me tenham permitido visitar a cidade escondida.
talvez não haja cidade escondida nenhuma. contudo, a minha filha foi devolvida à
vida. terá sido o poder de algum mineral, não de uma divindade, que a ressuscitou?
É embaraçante pensar que os clérigos que se opunham tinham razão.

tentando evitar que a sua crescente angústia se lhe espelhasse na cara, ibrahim
prosseguiu:
- em boa verdade, meu jovem amigo, acho que vós e o mirzá ali akbarshah
empreenderam uma busca louca. no entanto, como quero ser hospitaleiro, não a
impedirei de nenhum modo.

- estamos reconhecidos por toda a ajuda que sua majestade se digna prestar-nos -
foi a resposta do jovem de cabelo amarelo que o rapaz traduziu.

- só vos peço mais uma coisa - disse ibrahim. agora que gandharva aqui não está,
vejamos o que posso obter deles. - eu não conheço as vossas línguas ocidentais e
tenho aqui uma missiva que não consigo ler e que gostava que me traduzissem. far-
me-eis o favor de me dizer o que lá está escrito?

o jovem de cabelo amarelo aquiesceu e ibrahim retirou de uma dobra da túnica um


pedaço de folha de palma. era o mesmo que os criados diziam ter recolhido de um
pombo-correio lançado por gandharva. nenhum dos seus conselheiros conseguira
ler o que nela estava escrito, embora o seu historiador tivesse aventado que se
tratava de uma língua ocidental. ibrahim estendeu a folha ao criado que, por sua
vez, a entregou ao moço frade. o rapaz ficou de olhos arregalados e entregou a
folha de palma ao de cabelo amarelo, falando com grande excitação.

o jovem de cabelo amarelo olhou para a folha de palma bastante tempo, sem que
ibrahim nada lhe conseguisse ler na expressão. por fim, devolveu a folha de palma
ao rapaz, falando-lhe em voz baixa, mas enfaticamente.

o rapaz devolveu a folha de palma ao criado e disse:

- sri chinneri diz que está escrito em grego, mas que é apenas uma oração.

- e a que divindade se dirige a oração?

o rapaz consultou o jovem de cabelo amarelo e respondeu:

- a mensagem não especifica, majestade.

- o que é que o impetrante roga à sua divindade?

- apenas boa saúde e boa sorte, majestade.

ibrahim observou o jovem de cabelo amarelo alguns instantes, mas o estrangeiro


conservava os olhos no chão, não o encarando. está a mentir. sabe alguma coisa,
mas não me quer dizer. presumo que gandharva enviava uma mensagem à
mahadevi, ou alguém que finge ser a mahadevi, mas com que finalidade? a pedir
ajuda ou a relatar os meus atos? aditi e ele serão aliados, ou opor-se-ão? estaria ele
a informar a mahadevi da traição de aditi, ou estaria a pedir auxílio para uma trama
contra mim? o que é que a mahadevi irá fazer? tenho de confrontar gandharva com
isto, logo que ele chegue. embora me seja penoso, pois é um bom músico e eu
julgava que era meu amigo.

- tenho, então, de me contentar com isso - disse ibrahim, suspirando e erguendo-se


do cadeirão. - vinde, deixai-me mostrar-vos um pouco do gagan mahal, no caminho
de regresso ao vosso alojamento. este palácio é considerado uma maravilha de
arquitetura, nesta região, e eu nunca me canso de a partilhar com os visitantes.

- tens a certeza? - insistiu aditi com a sua nova criada, a jovem pramlocha.

- absolutamente. esta mensagem veio do alojamento dos ocidentais, para vós, sri
aditi.

aditi desdobrou o pedaço de pergaminho e verificou que a mensagem nele escrita,


curiosamente, era em latim e não em grego.

querida aditi

vinde imediatamente ao nosso alojamento. eu falei com o sultão e preciso de falar


convosco. estarei sozinho.
o vosso admirador

aditi não sabia se era a caligrafia dele, mas o pergaminho era uma indicação de que
a mensagem era de tamas.

- levas-me lá? - perguntou a pramlocha. a rapariga hesitou e olhou para o lado.

- eu não devo deixar-vos vaguear.

- não te ajuda nada insultares um hóspede do sultão com uma recusa e, além disso,
eu não vou vaguear, vou a um sítio só.

pramlocha ficou embaraçada, mas não se demoveu.

- eu não gosto desses estrangeiros, eles cheiram mal.

- isso é verdade, mas este tem algo importante a dizer-me, talvez alguma coisa que
interesse ao sultão. para saber o que é tenho de falar com ele. o sultão não iria ficar
nada satisfeito se uma informação importante se perdesse porque uma criada não
gosta do cheiro de um hóspede dele.

com um profundo suspiro, a rapariga exclamou:

- bem, acho que tenho de ir lá!

aditi, fingindo não conhecer o caminho, seguiu a nova criada, a qual escolheu um
percurso discreto. À distância, viu passar gandharva, dirigindo-se lentamente para
os aposentos dela. pois bem, terá de esperar que eu volte, se quiser falar comigo.

sentia-se frustrada, ansiosa e intranquila. por causa do dossel que cobria o


baldaquino do sultão não pudera ver, do seu quarto, com quem o sultão tinha estado
a falar.

talvez tamas me queira contar o que o sultão lhe disse. talvez ele me explique
porque é que deu o pó ao sufi e como se conheceram. talvez o mate, se estiver
realmente sozinho. porém, se ibrahim o tomou ao seu serviço, essa morte suspeita
ia despertar demasiada curiosidade. não posso fazer nada que aumente a
desconfiança de ibrahim. acho que tamas vai continuar vivo.

estranhamente, sentiu-se aliviada ao chegar a essa conclusão. a raiva da noite


anterior esbatera-se, deixando-a apenas confusa e com um amargo pesar. talvez
tamas se esqueça da mahadevi. ou, quem sabe, um dia, quando ele estiver
preparado, o leve a ela. ou, quiçá, ele volte à pátria, como diz. dado que a mahadevi
não me guia, tenho de deixar tudo nas suas mãos.

era irritante ter sempre junto de si a silenciosa e obstinada pramlocha, pois não
estava nada interessada que alguém que, muito provavelmente, servia de espia a
ibrahim, assistisse à sua conversa com tamas. É tão má como krodha. se, ao
menos, eu me pudesse livrar dela! mas já não tenho rasa mahadevi e krodha deve
tê-la avisado dos riscos que corria comigo.

chegaram à porta do alojamento dos goeses e pramlocha colocou-se de lado,


cobrindo a cara com o xale. pelo comportamento da rapariga, aditi compreendeu que
ela estava inquieta.

- tens medo, pramlocha?

- não - respondeu a rapariga muito depressa.

- não é vergonha nenhuma, se tiveres medo. eu vivi em goa e sei quão bárbaros são
estes ocidentais. e são, designadamente, muito grosseiros com as mulheres. não
me admira nada que um deles te agarre e se atire para cima de ti, mal entremos.
tens de estar preparada para isso.

pramlocha lançou um apavorado, furtivo olhar à porta, os lábios apertados.

- ah, não te disseram que isso fazia parte do teu serviço? ibrahim, por vezes, é muito
insensível e não compreende os receios de uma mulher. coitada de ti! a tua família
quer casar-te bem e isso será difícil se fores conspurcada. especialmente por
ocidentais.

a rapariga soltou um longo suspiro, torcendo as mãos.

- É, na verdade, muito injusto, pois tu nem ias compreender nada da minha conversa
com os goeses. sua majestade expõe-te a perigos desnecessários.

a rapariga olhou fixamente para aditi.

- e vós, não tendes medo?

- já te disse que convivi com eles em goa e conheço-os bem. além disso, eu sou
velha. tenho vinte e oito anos e nunca me casarei. ninguém se vai preocupar, se os
goeses me tocarem.

- eu... eu tenho ordens para nunca vos deixar sozinha.


- ninguém precisa de saber. vamos fazer o seguinte: tu vais ali para o jardim e
escondes-te atrás daquele loureiro, onde ninguém te vê. e, eu, logo que terminar a
conversa, venho ter contigo e, se isso te consola, conto-te tudo. para quê sofreres
por causa de uma tagarelice? não te agrada, a minha sugestão?

pramlocha parecia, ainda, suspeitosa, mas, também, aliviada.

- não me envergonhareis, fugindo de mim? vireis ter comigo, logo que terminardes?

- não to prometi? vai, esconde-te depressa, antes que os goeses te vejam.

a rapariga puxou ainda mais o xale para a cara e correu para o jardim.

aditi concedeu-se um pequeno sorriso de vitória, ao bater à porta dos goeses.

- “venite” - disse uma voz de homem lá de dentro. aditi pestanejou, surpreendida, e


abriu a porta. a enorme

sala estava vazia, apenas se vendo algumas peças de roupa e armas junto das
paredes. ao fundo, sentado num tapete, entre duas velas, encontrava-se o padre da
orlem gor. sorriu quando aditi entrou, mas não era um sorriso prazenteiro.

todos os instintos de aditi lhe gritaram para fugir de imediato, sem lhe dizerem de
que perigo. aditi avançou lentamente, a mão no punho do punhal que trazia à
cintura. não enxergou nenhum dos soldados goeses, sentindo, contudo, que não
estavam longe. acaso fui precipitada em afastar pramlocha.

o padre ergueu-se quando ela se aproximou e estendeu-lhe as duas mãos.

- domina aditi - disse ele em latim - estou muito contente por terdes aceitado o meu
convite. sentai-vos aqui comigo. há muito tempo que desejava falar convosco.

portanto, foi ele que mandou o bilhete e não tamas. a cara dele é uma máscara e os
olhos não exprimem prazer nenhum na vida.

segundo a experiência de aditi, havia os que aceitavam a ressurreição como uma


grande dádiva da deusa, como gandharva, e outros que, muito simplesmente,
achavam que tinham tido sorte em continuar vivos. alguns, porém, achavam que a
sua nova vida fora roubada aos deuses, que os planos divinos haviam sido
adulterados ou que não o mereciam.

o padre da orlem gor deve ser um dos que detestam ter voltado à vida.

aditi tinha pena dele, mas receava-o, também. um homem que acreditava ter
roubado o céu consideraria não haver maior crime na terra.

aditi não tocou nas mãos do padre, mas sentou-se na ponta mais afastada do
tapete, permanecendo calada.
- devo prestar homenagem à vossa inteligência, domina
- prosseguiu o padre -, pois nós, da santa inquisição, bem vos procuramos, mas em
vão. e, devo confessar, bem me ludibriastes com o vosso papel de domina
agnihotra. embora não consiga entender por que razão haveis tido a bondade de
nos guiar até aqui. alguma coisa que tem a ver com mestre chinnery, penso eu.

aditi ia abrir a boca para perguntar onde estava tamas, mas conteve-se. continuou
calada, fitando o padre.

- tendes, porém, de admitir, domina, que, por fim, a santa inquisição levou a melhor,
desfazendo a vossa cabala. domine resgate confessou e o pobre mestre de cartago,
apesar dos cuidados que lhe dispensamos, finou-se irredento.

aditi cerrou as mãos com força, mas permaneceu silenciosa. o que é que ele espera
que eu diga? esperaria que eu discutisse? que me vangloriasse? que o acusasse de
assassínio? os ocidentais estão habituados a vomitar torrentes de palavras, mas eu
não.

- noto que algum demônio vos roubou a língua. acaso não vos sentis segura, aqui,
mas isso é uma tolice. estamos muito longe da santa inquisição, bem no interior da
vossa terra. acaso acreditais nas mentiras que espalham acerca da natureza da
minha missão. talvez vos surpreenda saber que, todos nós, os da santa inquisição,
fazemos o voto de não matar. nada tendes a recear da minha parte.

sim, mas é tão fácil provocar a morte indiretamente! este homem pensa que eu sou
tonta!

o padre fez uma pausa e coçou o queixo.

- creio que não estais a ver a oportunidade que se vos apresenta, domina. vós
desejais dar a conhecer a existência dessa deusa e eis-me aqui eu, em busca desse
divino poder. devíeis, pois, dispor-vos a guiar-nos e a levar-nos à presença dessa
mahadevi, cujo nome é força. eu sou, como sabeis, uma pessoa influente na santa
inquisição e, portanto, se eu ficar convencido do seu caráter divino, posso espalhar
essa nova no maior reino da europa. mas, afinal, talvez tenha sido sempre essa a
vossa intenção e eu, muito simplesmente, não a tenha entendido.

ah, sim, eu gostaria imenso de vos levar à presença da mahadevi, pois não
sobreviveríeis à experiência, mas nunca foi minha intenção submetê-la ao vosso
espírito malévolo!

o padre suspirou profundamente, pegou num jarro e começou a encher uma caneca
de leite.

- não consigo discernir a razão desse vosso silêncio. sei que me compreendeis, pois
não há, agora, nenhuma razão para sermos inimigos. se estais preocupada com o
vosso amante de cabelo amarelo, digo-vos que ele ficou a falar com o sultão e que
deve estar a chegar. vamos beber à paz entre nós e ver como nos poderemos ajudar
mutuamente.
dizendo isto, o padre colocou a caneca de leite no tapete, em frente de aditi. esta,
curiosa, pegou na caneca e levou -a aos lábios, o padre a fitá-la intensamente. aditi
cheirou o líquido e reconheceu o odor amargo da datura. o homem pensa,
realmente, que eu sou uma tonta! queria drogar-me, para me interrogar. não
estamos, afinal, muito longe da orlem gor! encarando o padre, aditi, sempre
lentamente, pousou a caneca no tapete. o padre ficou carrancudo.

- lastimo muito que não aceiteis a minha oferta de paz disse o padre, batendo as
palmas das mãos.

aditi ouviu homens a correr para ela. de um salto, pôs-se de pé e voltou-se, punhal
na mão. eram, porém, quatro os soldados, empunhando compridas espadas. um
deles deu uma espadeirada no punhal, fazendo-o voar da mão de aditi. esta
começou a gritar por socorro, em marata, mas um dos soldados agarrou-a por trás e
tapou-lhe a boca com uma mão. cada um dos seus braços foi agarrado por um
soldado, tão brutalmente que os braceletes caíram tilintando para o chão. aditi
debateu-se um bocado, para avaliar a força dos captores, e ficou a saber que não se
poderia libertar.

- vamos começar de novo - disse o padre, passeando em frente dela. - eu disse-vos


que a santa inquisição não mata, mas pode tornar a vida... muito desagradável. nós
descobrimos que a dor acutila o espírito, fazendo-o distinguir muito claramente as
prioridades. tenho pena que me hajais forçado a este extremo, domina. como vedes,
teria sido melhor ter-vos disposto a ser minha aliada, em vez de minha inimiga.

aditi olhou para o soldado à sua direita, revolvendo os olhos, como que receosa da
lâmina que ele lhe apontava ao pescoço. o soldado sorriu e aproximou mais a
lâmina da espada.

- ela está cheia de medo, padre. aposto que vos dirá tudo o que quiserdes - disse o
soldado, em português.

o padre olhou para aditi com um olhar avaliador.

- não, ela, agora, só nos diria mentiras, para evitar a tortura. tem de experimentar a
dor, para termos a certeza de que nos diz a verdade.

- e se o sultão vem a saber, padre?

- que importa? dir-lhe-emos, muito simplesmente, que ela tentou matar um de nós.
ela empunhou um punhal, não foi? o sultão está desejoso de nos ver partir, acho que
não ia perder tempo com um julgamento, por causa dos danos infligidos a uma
bailarina, pagã fanática e espia.

o padre aproximou-se mais e fixou os olhos de aditi.

- acaso pensais, domina, que mestre chinnery, quando voltar, vos prestará auxílio.
pois bem, aconselho-vos a afastar esse pensamento do vosso espírito, pois ele não
tem grande força nos braços e facilmente lhos machucamos de novo. e, se não me
disserdes nada, talvez o ver-vos em perigo lhe solte a língua e o torne mais
compreensivo. estou farto dos segredos dele e congratulo-me por dispor, finalmente,
de uma alavanca para lhe abrir a boca.

aditi conteve-se, para reunir forças. portanto, eis o meu castigo para o que krodha
chamava o meu pecado. se eu não ceder à sua tortura, ele vai utilizar-me para
tamas lhe dizer o que sabe. embora eu pense que ele não sabe grande coisa, não
vou permitir que estes porcos ocidentais me envergonhem, nem a tamas, nem que
gozem com a nossa agonia. É, talvez, este o exame final a que a mahadevi submete
a minha coragem. pois bem, não vou continuar a saltitar de erro em erro. chegou a
altura de me sacrificar. que consigas cumprir o teu destino, tamas! grande mãe,
perdoai-me e, se achais que o mereço, deixai-me entrar no vosso paraíso!

aditi distendeu-se, como que abatida. sentiu o aperto do homem que a segurava
afrouxar, embora apenas ligeiramente. era quanto lhe bastava. mordeu com força a
mão que lhe tapava a boca. enquanto o soldado gritava e retirava a mão, aditi
inclinou-se para o lado com toda a força que tinha, atirando o pescoço contra a
lâmina da espada do outro soldado.

surpreendido, o soldado retirou a espada bruscamente, aprofundando ainda mais o


golpe. o sangue escorreu em abundância pelo pescoço e pelo peito de aditi. doía-
lhe, mas não tanto como pensara. conseguiu, ao cambalear para a frente, inclinar a
cabeça para o outro lado, por forma a abrir mais a ferida. por um breve momento, viu
o olhar horrorizado do padre e recompensou-o com um sorriso gelado. depois, a
náusea e a escuridão invadiram-na e caiu para o chão.

pramlocha corria cada vez mais depressa, para longe do alojamento dos ocidentais,
torcendo as mãos. que vou eu fazer? tenho a certeza de que era sri aditi que gritava.
mas com quem vou eu falar? e como posso contar isto sem revelar que não estava
com ela? não a devia ter deixado sair dos aposentos, não me devia ter deixado
enganar. mas não terá ela o que merece? não, isso é injusto. ah...

pramlocha viu o músico cego, gandharva, ao fundo do corredor. tinha já conversado


com ele, nos saraus musicais, e ele fora sempre amistoso e cordial. correu para ele.

- bom dia, bom gandharva. sou eu, pramlocha, já temos conversado.

o som da voz da rapariga pareceu suavizar a expressão carregada de gandharva,


imprimindo-lhe um sorriso.

- ah, a que cheira a mel, lembro-me bem de ti. mas a tua voz treme, qual é o
problema?

como ele fixa tudo!

- na verdade, sri gandharva, receio que se trate de um grande problema. conheceis


uma senhora chamada aditi?

gandharva voltou a ficar com uma expressão carregada.

- conheço, sim, minha filha, e até ando à procura dela. saberás tu onde a poderei
encontrar?

- eu... na minha parvoíce, deixei-a ir falar com os goeses e não a acompanhei ao


interior do alojamento deles. depois, ouvi um grito e receio que eles lhe tenham feito
algum mal.

o cego inspirou fundo, as mãos apertando a vina que trazia ao ombro.

- leva-me lá.

pramlocha agarrou-lhe um braço e pôs-se a guiá-lo.

- eu fui tão parva! e não sabia com quem ir falar...

- com medo que te castigassem? não te preocupes, minha filha, a culpa não é tua.
não foi aditi que te disse para não entrares?

pramlocha aquiesceu.

- sim, ela disse-me que os goeses eram muito brutos, mas que ela estava
acostumada com eles.

- estás a ver, ela quis afastar-te do perigo, não tens que te sentir culpada. não
podemos ir mais depressa? eu sou mais resistente do que pareço.

- desculpai-me, gandharva, mas vem aí gente. parece que são os goeses - disse
pramlocha, agarrando-se-lhe ao braço com mais força.

- eu estou a ouvir. consegues vê-los?

- ainda não. estão a vir de outro corredor.

- não há por aqui um sítio onde nos possamos esconder? pramlocha olhou em volta
e viu um muro baixo, decorado com azulejos.

- sim, venha. temos de saltar um muro.

a rapariga guiou as pernas do músico, primeiro uma, depois a outra. quando ela
própria saltou, viu aparecer no corredor o primeiro goês.

- baixe-se, depressa - segredou ela, puxando gandharva para baixo e agachando-se


junto dele.

- consegues ver o que eles fazem? - perguntou gandharva. - tenta espiá-los sem que
eles te vejam?

- vou tentar - disse pramlocha, engolindo em seco.

pôs-se a espreitar por cima do muro e viu os goeses passar, carregando uma coisa
volumosa enrolada num tapete. não conseguia entender o nervoso segredar deles,
mas estava certa de ter ouvido o nome aditi. sentiu, então, um puxão na saia.

- que estão eles a fazer? - perguntou gandharva, num murmúrio.

- chiu.

pramlocha tornou a espreitar por cima do muro e viu os homens entrarem para um
jardim interior, onde havia uma moita de altos e grossos bambus.

- eles estão a transportar qualquer coisa enrolada num tapete e, agora, estão a
esconder o tapete atrás de uns bambus. estão com pressa e com medo de serem
vistos.

um dos goeses olhou na direção de pramlocha e esta agachou-se outra vez.


ouviram-se passos a aproximarem-se e o som de vozes a segredar, mas passaram,
afastando-se. pramlocha suspirou de alívio, encostando-se ao ombro de gandharva,
a chorar. o músico ergueu-se, envolvendo-a com os braços.

- agora, calma, minha filha, nada de choros.

- mas ela... é tudo culpa minha!

- ainda não sabemos o que aconteceu. podem não lhe ter feito mal nenhum. os
goeses podem ter, tão-somente, roubado um tapete.

- mas eu vi as pontas dos sapatos dela a aparecerem.

- ah, isso, então, é muito pior.

- o que é que vamos fazer, gandharva? se ela está morta e se se vem a saber o que
eu fiz, mandam-me para casa e os meus pais vão bater-me, pela vergonha pela qual
os faço passar. ou... até posso ser executada!

- não necessariamente, minha filha. tu, agora, vais para os aposentos de aditi e
esperas lá por notícias minhas. se alguém te perguntar alguma coisa, dirás que eu te
levei aditi e que não sabes para onde. deita a culpa para cima de mim, mas não te
preocupes, pois o sultão é meu amigo e aceitará o que eu lhe disser.

- sois tão bondoso, gandharva! mas o que fareis vós? e sri aditi?

- É melhor que não o saibas, minha filha. fica, porém, sabendo que, se eles mataram
sri aditi, será feita justiça. a mahadevi não olhará com bons olhos quem lhe matou a
filha.
capítulo xviii

topÁzio: É uma pedra frequentemente de cor dourada, ou de um tom acastanhado.


usada ao pescoço, como amuleto, incute razão no meio da confusão, indica a
presença de veneno e quebra os encantamentos. provém de s. mateus e é a pedra
da honestidade. entre os hindus, dizem que o topázio é frio e amargo, mas que
conserva a juventude e que mata a sede. usado na mão esquerda, o topázio
desvanece o pesar, evita o mal e acresce a coragem e a inteligência...

tomas acompanhava o sultão através dos corredores do gagan mahal, ansiando por
escapar à expansiva hospitalidade do monarca. o sultão ia apontando
orgulhosamente os seus tesouros: um salão com enormes tapetes coloridos, tecidos
com a mais fina lã; outro cujas paredes estavam cobertas de quadros minúsculos,
retratos de ibrahim e de outros nobres da sua família; uma câmara cheia de
instrumentos musicais, tambores, flautas e monstruosidades de cordas. havia um
salão com grandes jarrões de porcelana da china, tão grandes que lá cabia um
homem; outra sala com biombos representando cenas, cravejados a jade e a
calcedônia e debruados a ouro e prata. muitas salas tinham paredes de madeira
delicada, com incrustações rendilhadas de pedras preciosas, partes das quais,
tocando em determinada pedra, deslizavam, abrindo passagem para outra sala. uma
sala era inteiramente coberta de azulejos, pintados com arabescos tão intrincados
que faziam a cabeça andar à roda, quando se olhava para as paredes e para o teto.

era um estonteante labirinto de conto de fadas, cujas paredes e portas eram,


simultaneamente, visíveis e invisíveis: uma palavra adequada, um gesto adequado,
um passo numa determinada direção conduziam a um mundo completamente
diferente. quem me dera conhecer as chaves deste labirinto! mas não é o que cada
um de nós deseja, conhecer antecipadamente o passo que leva à felicidade
presente, ou ao pesar futuro?

- É uma pena que não possais aceitar uma colocação na corte de sua majestade -
disse joaquim ao ouvido de thomas. poderíeis, então, viver neste esplendor. pensai
nas belas bailarinas com que vos podíeis regalar, hem? mas, nesse caso, eu e os
meus companheiros teríamos de vos matar, cheios de inveja.

- horrível coisa eu faria - disse thomas -, obrigando-vos a cometer um pecado mortal.

timóteo olhou para eles, alarmado.

- estamos a brincar, irmãozinho - sossegou-o joaquim. thomas pôs-se a pensar se o


sultão se teria apercebido de

que lhe mentira, ao traduzir-lhe a mensagem em grego da folha de palma. o orgulho,


ou o receio de embaraços, afastara-lhe a língua da verdade. mais um pecado. acho
que vou cometer o rol completo antes de esta viagem chegar ao fim. o que ele lera,
na realidade, fora:

“para aquela que é força: a vossa filha pede-vos auxílio, quer saber o que desejais, a
quem ajudar e a quem aniquilar, entre aqueles que vos buscam. dai notícia, pois o
amor fê-la tão cega quanto eu.”
claramente, aditi tem alguma coisa a ver com esta mensagem e eu devo ser o amor
que a cegou para a sua missão.

thomas sentia-se dividido perante a revelação. desde logo, o coração pulsava-lhe de


alegria por saber que ela o amava. contudo, estava perplexo, pois não sabia o que
fazer com ela.

com o seu amor, ela pode fazer-me uma grande dádiva, conduzindo-me à fonte do
pó da ressurreição ou da pedra filosofal ou do quer que seja, e isso pode
proporcionar-me fortuna e fama. mas, e depois? vou levá-la para inglaterra? ela
sentir-se-ia lá tão mal, como eu aqui!

durante a excursão, o sultão ia, gentilmente, interrogando thomas acerca da família,


da inglaterra, das razões que o haviam levado a bijapur. thomas respondia que a sua
pátria era uma pequena e simples ilha, nada comparável em beleza e prosperidade
com o que ele via em bijapur e que ali viera apenas para comerciar. o sultão, porém,
não parecia inteiramente satisfeito com as suas respostas.

acaso pensa que eu sou um espia e receia uma invasão, mas eu não sei como
sossegá-lo.

por fim, o sultão lançou uma pergunta que fez timóteo franzir a testa, ao traduzir.

- sua majestade deseja saber como é que apareceis associado a uma certa domina
aditi. É a bailarina que ontem falou convosco, não é?

- sim. dizei a sua majestade que ela viajou conosco desde goa, no séquito da chefe
da nossa caravana, e que eu falei com ela apenas algumas vezes. - e isto é a pura
verdade.

- mas eu nunca a vi! - exclamou timóteo.

- nunca a vistes porque ela passava a maior parte do tempo junto da senhora
agnihotra, na liteira.

enquanto timóteo traduzia, joaquim olhou, desconfiado, para thomas, mas nada
disse.

- sua majestade pergunta se a senhora gostou de goa. pergunta difícil.

- eu acho que não, e foi por isso que ela partiu. goa é um lugar perigoso para os
estrangeiros.

o sultão concordou com a cabeça, cofiando a barba.

um rapaz de turbante, envergando uma jaqueta de um azul-brilhante, correu para


eles, fazendo uma grande vênia. depois, falou desenvolto para o sultão, apontando
para o átrio central. ibrahim bateu as palmas das mãos, tal criança que recebe um
presente desejado, os olhos espelhando regozijo.
- sua majestade pede desculpa, mas diz que acabam de chegar uns músicos de
bengala que tem de ir ouvir de imediato. acrescenta que, seguindo este corredor,
virando depois à direita, chegamos ao nosso alojamento.

thomas e joaquim inclinaram-se para o sultão, à maneira européia, quando ele se


afastou. ao endireitar-se, thomas soltou um suspiro de alívio.

- haveis-me surpreendido, tomás - disse joaquim, quando se puseram a caminhar


pelo corredor em arcada. - eu receava que cometêsseis a asneira, embaraçosa para
nós, de procurar refúgio junto do sultão, mas não o fizestes.

- claro que não - disse timóteo, uma expressão convincente no rosto. - não foi ele
que curou o padre e nos fez chegar aqui? ele nunca permitiria que uns cobardes
como vocês abandonassem a nossa busca, regressando a goa...

- cuidado, irmãozinho - interrompeu-o joaquim, irado. se não fôsseis uma criança e


frade, leváveis já um bofetão por esse insulto. É uma imprudência chamar cobarde a
um soldado, especialmente quando isso é verdade. eu e os meus companheiros não
o suportamos.

- além disso, timóteo - disse thomas, colocando uma mão no ombro do rapaz -, eu
não mereço esses vossos elogios. mas onde estão os vossos companheiros,
joaquim? costumam andar aqui pelo jardim, mas hoje não os vejo.

- o padre deve tê-los chamado para lhes dar uma preleção, ou, então, estão a
comer. É a coisa mais interessante aqui, nunca nos deixam com fome.

mal entrou no alojamento, thomas apercebeu-se de que alguma coisa se passara.


os soldados haviam empilhado o equipamento ao fundo da sala e o tapete havia
desaparecido. no ar havia um intenso cheiro a sangue. dois soldados esfregavam
afanosamente o chão com as camisas e um outro tinha uma ligadura manchada de
vermelho na mão. o padre gonsção movia-se no meio deles com uma expressão de
pasmo.

- que aconteceu, padre? - perguntou thomas.

- ha? ah, foi o carlos que se feriu, ao limpar a espada. sangrou que se fartou, mas a
ferida não parece ser grave.

thomas encaminhou-se para o soldado.

- deixai-me ver a ferida, talvez eu ou timóteo possamos ajudar.

- não! - exclamou o padre gonsção, interpondo-se entre thomas e o soldado. - já a


limpamos e ligamos e eu tenho rezado pela sua recuperação. nada mais há a fazer
e não vou permitir que lhe apliqueis os vossos venenosos unguentos.

- mas, padre... - começou timóteo.


- eu disse não e está dito por uma vez.

- como desejardes - disse thomas, franzindo a testa e afastando-se, passando outra


vez pelos soldados que esfregavam o chão e que lhe lançavam olhares furtivos.

isto não bate certo. se todo este sangue proviesse do desastrado carlos, ele não se
aguentava em pé.

thomas recuou até junto do empilhado equipamento dos soldados, quase


tropeçando nele. ao equilibrar-se, viu um objeto de prata a brilhar ao lado de um
elmo. baixou-se e apanhou um bracelete em forma de serpente mordendo a cauda.
thomas sentiu um aperto no coração.

- domina aditi esteve aqui? isto é dela, tenho a certeza.

o padre voltou-se para thomas, bruscamente.

- esteve aqui uma bailarina à vossa procura. É capaz de ser a que vós chamais aditi,
mas foi-se embora. não quis falar comigo e não deixou nenhuma mensagem.

- ah, foi isso? - disse thomas, encarando o padre. - há quanto tempo é que ela
partiu?

- há pouco tempo, não sei bem. desculpai-me, mas eu tenho estado preocupado
com outras coisas.

receando o pior, thomas insistiu.

- para que lado foi ela?

- não me lembro, não notei. mas, mestre, não tendes mais em que pensar senão em
namorar com uma bailarina?

- neste momento, acho que não. acho que ela deve ter algo importante a dizer-me -
disse thomas brandamente, voltando-se e saindo rapidamente porta fora.

ouviu o soar de botas no chão de pedra e olhou para trás: os quatro soldados
vinham atrás dele, para o agarrar. ah, não querem que eu a encontre, nem que
descubra o que lhe fizeram. pois bem, talvez eu possa tirar partido da excursão que
fiz com sua majestade.

thomas estugou o passo até chegar a um corredor lateral, para onde virou, pondo-se
a correr desalmadamente. ouviu gritos atrás dele: ”alto! pare!” era como nos seus
pesadelos, só que, desta vez, não eram mulheres frenéticas, mas homens
desesperados.

prenunciariam os meus sonhos este momento? coisa estranha, se assim fosse!

ao dobrar para outro corredor, topou com um grupo de mulheres de saris escarlates,
não vendo aditi entre elas. continuou a correr, rodeando-as e ouvindo os seus gritos
à passagem dos soldados, que as empurravam.

thomas tornou a dobrar uma esquina e viu-se no salão dos biombos pintados.
meteu-se no meio deles, caminhando o mais silenciosamente possível. os soldados
passaram a correr, mas, quando chegava ao fundo do salão, thomas apercebeu-se
de que haviam voltado para trás e também lá entravam.

esperou até os ver junto da primeira fila de biombos, dando, então um forte
empurrão ao biombo junto dele, fazendo cair os biombos, com sonoros estalidos,
uma fila após outra, até que a primeira fila caiu sobre os soldados. enquanto os
goeses gritavam, praguejando, thomas voltou-se para a parede rendilhada atrás de
si. por sorte, era uma das que tinham um painel deslizante e, após uns momentos,
conseguiu encontrar a pedra que o acionava. passou pelo painel enquanto os
soldados se erguiam, pisando os biombos caídos, e, fechando de novo o painel,
continuou a correr, agora mais devagar.

embora dobrando corredores um após outro, thomas não tinha a certeza de ter
iludido os seus perseguidores. por fim, encontrou-se no salão das porcelanas da
china e viu aí a sua oportunidade de escapar à perseguição. escolhendo um jarrão
no centro do salão, ergueu-lhe a tampa e meteu-se lá dentro, agachando-se e
colocando de novo a tampa no jarrão.

não era nada cômodo estar agachado no escuro, imóvel como uma estátua, para
não fazer tombar o jarrão, mas thomas forçou-se a ser paciente. já suportei a
estrepada da santa inquisição, posso, perfeitamente, suportar isto.

ouviu vozes por perto: os soldados tinham ali chegado, afinal. porém, soaram
também outras vozes, em língua nativa, gritando para os portugueses. por fim, o
som das vozes diminuiu, afastando-se.

- ah, os criados do sultão devem ter descoberto os estragos no salão dos biombos e
enxotaram os soldados para o seu alojamento. deus queira que assim seja!

thomas esperou algum tempo de silêncio, antes de erguer a tampa do jarrão e


espreitar para fora. estava sozinho no salão. saiu, então, cuidadosamente do jarrão,
recolocou a tampa e voltou ao corredor. não havia soldados, mas duas pessoas
entravam no corredor do lado norte: uma rapariga de saia verde e de xale, guiando
um cego pelo ombro.

o músico... eu vi-o ontem a tocar, quando aditi dançava. e estava esta manhã
sentado ao pé do sultão... o amor fê-la tão cega como eu... thomas recordou-se da
mensagem na folha de palmeira. será possível, será o aliado de aditi?

- esperai, esperai! - gritou thomas, em grego. - por favor, parai!

o músico parou e voltou-se um pouco. a rapariga olhou para trás, para thomas, e
segredou qualquer coisa ao ouvido do cego. o músico falou, afagando a mão da
rapariga, e esta, relutantemente, deixou-o e prosseguiu sozinha, corredor fora.

thomas correu para junto do músico cego.


- obrigado - disse thomas, ofegante. - preciso de falar convosco.

o músico inclinou a cabeça.

- quem é que me fala no antigo helênico?

- eu sou thomas chinnery, de inglaterra. vim com os goeses.

- ah, tamaschinri, o de cabelo amarelo. vós falastes com despos ibrahim esta
manhã. É uma honra conhecer-vos - disse o cego, com uma vênia. - eu chamo-me
gandharva e sou um músico-viajante e contador de histórias de profissão.

- sim, eu lembro-me, vós estáveis sentado junto do sultão. tereis, acaso, visto aditi, a
mulher de olhos azuis que ontem à noite dançava, enquanto vós tocásseis?

gandharva sorriu.

- há muitos anos que não vejo ninguém, meu jovem amigo.

- não, não, perdoai-me. eu queria dizer...

- se tenho notícias dela? tenho, sim. se quereis saber o cego aproximou-se de


thomas -, ela falou-me de vós e, uma vez, disse-me que sentia que as vossas vidas
estavam de algum modo ligadas. e eu começo a acreditar que ela tinha razão.

para quê tanta tagarelice?

- por favor, dizei-me onde é que ela está e se posso falar com ela. receio que os
meus companheiros de viagem a tenham maltratado.

gandharva fez que sim com a cabeça.

- maltrataram-na, sim. possivelmente, maltrataram-na muito. thomas crispou os


punhos.

- dizei-me, então, se sabeis, onde a posso encontrar. está alguém a tratar dela? eu
conheço as ervas medicinais e posso ajudá-la.

o músico aproximou-se ainda mais, tão perto que thomas sentiu-lhe o cheiro anisado
do bafo.

- vai ser preciso um grande esforço para a ajudar. mas talvez vós sejais a pessoa
indicada para isso. talvez seja essa a intenção da mahadevi.

ah, ele também acredita na deusa! deve ter sido ele quem escreveu a mensagem
que o sultão me mostrou.

recordando a expressão utilizada por aditi e por de cartago, thomas disse:


- ela é força.

o músico aquiesceu.

- É isso mesmo. aditi disse-me que esperava que vós descobrísseis a via para a
mahadevi.

- mas, por favor, onde é que ela está?

- podeis encontrá-la num jardim interior que tem uma moita de altos e grossos
bambus. eu venho, agora, de lá. alguns dos vossos goeses deixaram lá alguém
embrulhado num tapete, escondido entre os bambus e, pelo que diziam, tenho
razões para acreditar que seja aditi.

- embrulhada num tapete?

thomas sentiu uma dor no peito como se tivesse sido trespassado por uma lança de
gelo.

- sim, e receio que não esteja viva.

thomas deu um passo atrás, preparando-se para se pôr a correr.

- eu vou à procura dela.

- esperai! - exclamou gandharva. - deixai-me ir convosco. preciso de saber se é,


realmente, ela e o que lhe fizeram.

com o auxílio de gandharva, thomas não teve dificuldade em encontrar o jardim da


moita de bambus. verificando se alguém os observava, meteu-se entre os grossos e
folhudos troncos, gandharva agarrado a ele. alguns dos bambus estavam
arrancados ou partidos, indicando uma passagem. o tapete estava no meio da
moita, com um pouco de terra por cima.

- cá está o tapete!

- e é ela? - perguntou gandharva, baixando-se, para ficar escondido.

thomas abriu o tapete o suficiente para ver os olhos azuis sem brilho de aditi e a
sangrenta ferida do pescoço.

- É ela, é - disse thomas num suspiro.

ah, pobre aditi! trouxeste-nos a bijapur por minha causa e eis a tua recompensa.

gandharva soltou também um suspiro, a cabeça caindo-lhe para os joelhos.

thomas inclinou-se para a frente e fechou-lhe as pálpebras.

- sabeis quem terá feito isto, gandharva?


- não sei, não. os homens que eu ouvi a falar não o revelaram.

- porque é que não destes alarme, chamando a guarda do sultão?

gandharva passou a mão pelo queixo.

- para proteger uma inocente. a vida na corte é cheia de perigos, meu amigo, e a
espada da justiça pode ferir o culpado, como o inocente.

- sim, é o que dizem. mas eu acho que sei quem é o culpado disto. É o padre. com
que rancor a olhou quando ouviu o nome dela! a santa inquisição tinha de ter a sua
vingança, mesmo a esta distância. e a culpa foi minha, ao falar dela, com a minha
bebedeira. para que raio fui eu dar o pó ao padre, para ele vir a matar aquela que
nos conduzia à sua fonte!

um raio de esperança surgiu de repente no espírito de thomas.

- vós sois um seguidor da mahadevi, gandharva, será possível... nunca ouvistes falar
de um pó chamado...

- o sangue da deusa? tivesse eu algum e já lho teria aplicado sem demora. por
infeliz circunstância, não disponho de nenhum.

- ah, mas o sufi masum tem algum, que eu lhe dei quando o encontrei no
caravansará.

- e era muito?

- era só o que estava agarrado ao interior de uma bolsinha. gandharva abanou a


cabeça.

- isso é quanto basta para envenenar, mas não para ressuscitar. para isso,
precisamos de uma quantidade assim disse ele, indicando a falangeta do dedo
mínimo.

- eu dei muito mais do que isso ao padre. se soubesse, não tinha gasto tanto. mas
não sabeis de alguém que o tenha?

- só a própria fonte, a mahadevi. thomas fixou o olhar no músico cego.

- conheceis a fonte do rasa mahadevi?

- conheço, sim, tamaschinri, mas está muito longe e eu estou mal equipado para lá ir
sozinho.

thomas agarrou gandharva pelos ombros, ignorando a dor que causava aos seus.

- talvez eu possa ajudar! não podemos lá levar o corpo dela e ressuscitá-la?


- sim e não, meu amigo. a cidade escondida da mahadevi está a alguns dias de
viagem e, quando lá chegássemos, o corpo de aditi estaria em muito más condições.
ela iria sofrer muito e, se ressuscitasse, talvez não fosse por completo. não iria,
decerto, agradecer o retorno a semelhante vida.

- e não há outra fonte mais próxima? não há outro meio de a fazer voltar à vida?

- não, mas... - o músico inclinou a cabeça, como se ouvisse um som distante, e


depois sorriu. - talvez possamos trazer a fonte para mais próximo de nós.

- não compreendo.

thomas começava a sentir a cabeça a andar à roda. meu deus, estarei a falar com
um louco, ou com um tratante? mas ele conhece, de fato, a fonte...

- a caravana conjunta dos goeses e dos mongóis está prestes a partir. poderemos
receber uma provisão de pó, antes de partirmos?

- não, isso ia levar alguns dias. aditi terá de seguir na vossa caravana. e, quem
trouxer o pó, encontrar-se-á conosco a meio da viagem.

- sim - disse thomas -, isso é um bom plano. mas como é que vamos esconder o
corpo dela?

- tendes de pedir um carro de bailarinas, para vos acompanhar na expedição. É


coisa usual, aqui, e o sultão não deixará de satisfazer o pedido.

- mas o padre nunca faria semelhante pedido e eu não lhe vou falar nisso, nem me
disponho a falar em nome dele.

- suspeitais que foi o padre da orlem gor quem matou aditi?

- sim, tenho a certeza disso.

- ainda bem que sabeis. mas, se o padre não o pede, o mirzá pode muito bem fazê-
lo. eu indico-vos onde os mongóis estão alojados e, segundo ouvi, o vosso
companheiro de viagem lockheart está lá com eles.

- ainda bem, pois pode servir-me de intérprete. gandharva, se me ajudardes nisto,


ficar-vos-ei eternamente grato.

- mas não falemos de gratidão por enquanto, pois, no fim de contas, vós ireis ajudar
a que se faça justiça a aditi e ajudar-me, a mim, a regressar a casa.

como isto é maçador, pensava o mirzá akbarshah, observando o ocidental lockheart


a beber a quinta chávena de chá. falamos um para o outro em circunlóquios,
nenhum de nós se abrindo muito e tentando, ambos, obter do outro o máximo
possível de informações. o mirzá nunca ouvira falar da s’cotland, donde lakart dizia
ter vindo. sem embargo, o homem havia aprendido o persa em qualquer lado. e, ao
menos, não é tão temperamental como dizem ser os goeses. o homem, porém,
continuava a lançar olhares para a ala oriental do gagan mahal, como se o seu
pensamento estivesse noutro lado.

- o pensamento dele é como um leopardo preso numa jaula - disse masum em voz
baixa ao mirzá, em urdu. - o que não diria ele, se estivesse em liberdade?

- ha? - exclamou lockheart, a atenção novamente desperta. o que é que o nosso


amigo disse? não o percebi bem.

- comentávamos que parecíeis... distraído. masum gostava de saber o que é que


atrai tanto a vossa atenção.

- ah, tendes razão, alteza - disse lockheart, com um sorriso pesaroso. - eu estou
preocupado com o jovem inglês, thomas. se quereis saber, eu prometi à família dele
que olharia por ele e que o protegeria na viagem. cometi já algumas falhas a este
compromisso e receio não estar, de novo, a cumprir bem o meu dever.

o mirzá balançava a cabeça, compreensivo.

- É prática usual, entre nós, entregar um filho a um guardião. ele é um primogênito?

- sim, e o pai tem... planos importantes para ele.

- o primeiro filho é um tesouro muito valioso numa família. esse vosso encargo é
muito pesado.

- se é, se é! - disse lockheart, os olhos no chão.

o mirzá fez uma pausa, tentando avaliar o estado de espírito do seu hóspede.

- nada tendes a recear da nossa parte, em relação a ele. se for pacífico e


respeitador, trata-lo-emos com toda a cortesia.

lockheart ergueu os olhos, encimados pelas sobrancelhas pretas.

- não sois vós, alteza, nem os vossos homens, que eu receio. ah, temos dissensão
entre os goeses. isso pode revelar-se útil.

inclinando-se para a frente, o mirzá disse:

- se pensais que o vosso pupilo corre algum risco, se ele possui alguma coisa que
lhe queiram roubar ou usar indevidamente, eu posso oferecer-vos proteção. os meus
homens dominarão facilmente cinco soldados goeses mal treinados.

o ocidental fez, por sua vez, uma pausa, como se pesasse a oferta com outro
qualquer fator.

- se vier a ser necessário, alteza, aceitarei a vossa oferta. por ora, porém, os meus
receios podem não passar de sombras, produzidas pelo bruxuleio de uma candeia.
- esperemos que não passem disso. e espero, também, que não vos ofenda serdes
ajudado por quem não é cristão, assumindo que vós o sois. considerai, de todo o
modo, a minha tenda aberta, sempre que necessitardes de alguma coisa.

lockheart recostou-se um pouco, um laivo de reserva estampado na cara.

- não costumo discutir a minha fé com ninguém, mas posso afiançar-vos que não me
ofenderia procurar a vossa tenda se precisasse do vosso auxílio.

estranho, muito estranho! será ele um parse e, portanto, com medo dos cristãos e
dos muçulmanos? ou será judeu? por ora, não vou insistir na questão.

ouviu-se bater à porta rendilhada. um criado fez uma vênia, à entrada.

- sri tamas chinneri procura sri andrew lockheart.

- ah! - exclamou lockheart -, aí está o encargo de que vos falei. por favor, desculpai-
me, alteza.

lockheart levantou-se, fez uma vênia e dirigiu-se para a porta.

- um homem estranho - murmurou o mirzá.

- dominado por um demônio - disse masum.

- achais? e sabeis de que descendente de satã se trata?

- como já vos disse, não sou nenhum xeque - respondeu masum -, mas não é do
padre goês, nem dos soldados que ele tem medo. ele tem medo é de si próprio.

thomas olhava continuadamente de um lado para o outro, para ter a certeza que
nenhum dos soldados o descobrira. devem estar remetidos ao alojamento, depois
dos estragos que causaram. ainda bem, para mim.

suspirou de alívio, ao ver lockheart surgir do alojamento do mirzá.

- ah, andrew, ainda bem que vos encontro!

- encontraste-me, pois, mas que é feito dos teus outros guardas? o padre anda a
descurar o seu dever.

- eu escapei-lhes - disse thomas em voz baixa - e os homens do sultão obrigaram-


nos a permanecer no alojamento, por terem danificado haveres de sua majestade.

lockheart fez uma pausa, o sobrolho erguido.

- e tu, agora, és um homem do sultão? thomas abanou a cabeça.

- o meu lugar não é aqui e não há nenhuma razão para eu o servir. e, agora, a deusa
da sorte fustiga-me com um chicote sangrento.
- não me digas? e de quem é o sangue que mancha o látego?

- É de aditi. mataram aditi.

lockheart inspirou fundo, os dentes cerrados.

- como é que foi isso?

- assassinaram-na. eu não sei quem foi, mas deve ter sido o padre ou um dos
soldados.

- o padre? com toda aquela jactância de a santa inquisição não matar? não posso
acreditar, meu rapaz.

- tão-pouco eu o julgaria capaz disso, pois é um homem de arraigada crença e um


filósofo. contudo, começo a perceber que, quando um filósofo perde o bom senso,
se torna capaz das maiores vilanias.

- ou dos atos mais generosos. isso porque, ao esforçar-se por ser melhor do que os
animais, consegue sê-lo tanto para o bem como para o mal. decerto, porém, terás
melhor prova do que a sua filosofia, para acusares o padre?

- e tenho. quando regressei ao alojamento, depois de falar com o sultão, o


comportamento do padre era muito estranho e havia muito sangue no chão. os
próprios soldados também não se comportavam como habitualmente. e eu fui
encontrar o corpo de aditi numa moita de bambus, próximo do alojamento, o
pescoço cruelmente cortado.

- tudo isso é, na verdade, muito estranho, embora não prove nada. É uma pena que
tenhas gasto todo o meu pulvis mirificus, pois poderias saber a verdade da boca da
própria infeliz senhora.

- foi o que eu pensei, mas há uma maneira de a salvar. lockheart fez uma pausa,
encarando-o.

- há alguém em bijapur que tem o pó? ou encontraste outra fonte?

- não, aqui não, mas na própria fonte que procuramos. se eu tivesse aceitado uma
posição junto do sultão, ver-me-ia, agora, obrigado a resignar e a prosseguir a nossa
viagem.

no rosto de lockheart surgiu um arreganho de sorriso.

- É o destino, como já te disse. as gentes destas terras, hindus ou muçulmanos, têm


grande fé nos augúrios, como sabes. acreditam que, quando a mão do divino aponta
o caminho, ai de quem o não segue, pois essa mão agarra a pessoa pelo pescoço e
empurra-a para a frente. embora pareça indelicado, eu devia regozijar-me com a
morte de aditi, dado que te torna mais resoluto. qual é o teu plano, afinal? vamos
agarrar no corpo dela, nós os dois, e escapar ao abrigo da noite, sem o padre
assassino nem os soldados saberem?

thomas abanou a cabeça, negando.

- não íamos conseguir passar as portas da cidade sem que nos vissem. e nós os
dois, sozinhos, não podíamos bater-nos com um bando de perseguidores armados.
além disso, não conhecemos a região e podíamos cair nas mãos de bandidos...

- basta, rapaz, já percebi. que vamos, então, fazer?

- vamos continuar a viagem como se nada tivesse acontecido. vamos fingir que não
sabemos da morte de aditi, deixando as duas caravanas juntarem-se, como o sultão
pretende. desse modo, ficaremos protegidos, pelos homens do mirzá, das ameaças
externas e internas.

- ah, estou a ver. e, passados alguns dias, desaparecemos, é isso?

thomas fez uma pausa.

- vamos ver o que acontece e aproveitaremos uma oportunidade favorável que se


nos apresente. - e não sei, ainda, se vos deixo fazer parte do plano.

lockheart riu-se.

- És um rapaz prudente, tenho de reconhecer.

- mais uma coisa: temos de pedir ao mirzá para incluir um carro com músicos e
bailarinas, no equipamento que vai solicitar ao sultão.

- bailarinas?

- É nesse carro que transportaremos aditi. isso é o mais importante. o padre nunca
faria semelhante pedido, mas o sultão não ficará surpreendido que o mirzá o faça.
quereis fazer o favor de solicitar isso ao mirzá?

lockheart deu um passo atrás e estendeu o braço para a porta rendilhada.

- vem daí, que eu apresento-te ao mirzá. serei o teu intérprete e vou orientar-te no
que precisares.
capítulo xix

amor-perfeito: esta pequena planta tem folhas dentadas ou redondas, dá flores


roxas e amarelas, no verão, e oferece-se a quem se lamenta de um amor perdido.
diz-se que se inclina para o chão porque cresceu à sombra da cruz de cristo. os
antigos acreditavam que as flores eram bailarinas que vênus, ciumenta,
transformara. as flores secas curam as náuseas e as indisposições do fígado. uma
cataplasma feita das folhas reduz os inchaços e as borbulhas da pele. os antigos
usavam grinaldas de amores-perfeitos para terem um sono descansado e afastarem
os pesadelos e a ira. quando vamos ao cemitério, é aconselhável levar conosco
ramos de amores-perfeitos, para nos protegermos dos mortos inquietos...

o sultão ibrahim adilshah, sentado na sala do conselho, enfastiado, mirava os raios


do sol poente que se arrastavam nos arabescos do tapete. os ministros zumbiam,
tais insetos na selva, aumentando o calor abafado que os leques de penas,
abanados pelos criados, não conseguiam minorar. há muito que os deixara de ouvir.

a porta ao fundo da sala abriu-se e ibrahim endireitou-se, na esperança de uma


ansiada interrupção. gandharva entrou, suavemente, e fez a vênia.

- basta, deixai-nos! - lançou ibrahim ao ministro zumbidor. depois, olhou para os


outros nobres presentes, indicando que a ordem também os incluía.

- mas, majestade... a distribuição das casas aos canarins...

- fica para depois.

- não está a vossa reputação já bastante maculada - resmungou alim hassan - para
que continueis a preferir a companhia de músicos, descurando os negócios do
reino? atentai que alá é o que tudo vê...

- e, por isso, o que tudo sabe compreende porque tenho de falar com este homem e
em privado, pois ele traz-me informações vitais para o reino. ide, todos vós, até que
vos convoque de novo.

resmungando entre si, os ministros e os ulemás agarraram nas túnicas e ergueram-


se, lançando olhares hostis a gandharva, ao passarem por ele, lentamente, a
caminho da saída. ibrahim fez sinal, também, aos criados, rapazinhos que, todos
contentes, logo largaram os leques, correndo atrás dos ministros. não há dúvida de
que gostam da sala do conselho ainda menos do que eu. quando o último fechou a
porta depois de sair, ibrahim voltou-se para gandharva que, pacientemente,
aguardava, ao fundo da sala.

- aproxima-te, gandharva. cuidado com os almofadões!

- agradeço a vossa majestade, embora não seja necessário preocupar-se comigo.

avançando cautelosamente, gandharva foi abrindo caminho pelo montão de


almofadões, indo sentar-se aos pés de ibrahim.
- honrais-me muito, majestade, ao dispensar o vosso conselho para ouvir o meu
singelo pedido.

- não sejas tonto, gandharva. desejoso estava eu de ter um pretexto para pôr fim ao
conselho.

ibrahim agarrou num dos leques e abanou-o vivamente, mas o fresco que lhe
chegou à cara era frustrantemente ligeiro.

- então, sinto-me muito honrado por ter proporcionado alívio a vossa majestade.

- ah, sim? espero que mo proporciones mais vezes, porque, ultimamente, nem por
isso.

- por favor, majestade, dizei-me em que é que eu posso ter-vos ofendido?

- não me trouxeste aditi, como te pedi.

- ah, mas é por isso que aqui estou, majestade. eu percorri o palácio à procura dela
e vim a saber que ela tinha partido.

- partido? para onde é que ela foi?

- quanto a isso, nada sei, majestade.

ibrahim, exasperado, conteve o ímpeto de golpear o músico com o leque.

- quem é que te disse que ela tinha partido?

- uma das criadas do palácio, e foi confirmado pelo ocidental tamaschinri.

- ah, portanto, ela anda a ajudar os goeses?

- majestade, posso garantir-vos, com toda a honestidade, que, agora, ela não está a
ajudar ninguém. na verdade, agora que ela partiu, posso dizer-vos que ela não tinha
nenhum plano que não fosse seguir os vossos. durante a breve conversa que tive
com ela ontem à noite, pareceu-me... confundida. a mahadevi não lhe enviara
nenhuma mensagem, nem lhe dera nenhum sinal quanto à forma de proceder com
os recém-chegados.

talvez porque a oração em grego não chegou à mahadevi?

- ela preocupava-se apenas com um dos nossos visitantes - prosseguiu gandharva.

- o de cabelo amarelo.

- exatamente.

- e sabes porquê? porque se interessam tanto por esse estranho jovem? esta
manhã, os goeses andaram a correr o palácio atrás dele e partiram onze dos meus
biombos chineses. espero que as gemas e a prata da bíblia que me ofereceram
cubra a despesa.

- a perda dos vossos tesouros é uma infelicidade, majestade, mas acho que o valor
que tamaschinri tinha para aditi era, apenas, o que krishna outorga.

- ela está apaixonada por ele? - ibrahim soprou o ar pelos lábios. - custa-me a
acreditar. no coração de uma fanática não há lugar para outro amor que não o do
divino.

- por vezes, majestade os desejos da alma humana sobrepõem-se à vontade do


divino.

- hum, se for verdade, isso altera a opinião que tenho dela. estou a pensar que
talvez seja melhor reter aqui o cabelo amarelo, com um qualquer pretexto, para
evitar que ele siga na expedição. mantendo-o aqui fico com alguma coisa para dar
em troca, se tiver de negociar com ela.

- não, majestade! mantê-lo aqui não seria prudente.

- porque dizes isso?

- os goeses não partirão sem ele. eles suspeitam que ele detém informações que os
podem conduzir ao que procuram. e se o mirzá se apercebe de que vós dificultais a
sua missão...

- sim, sim, o imperador paxá não ficava nada satisfeito. mas, então, que devo fazer
em relação a ele?

- em minha opinião, majestade, deveis manter o que haveis planeado. não duvideis
da vossa própria sabedoria.

- porém, se o cabelo amarelo os levar à cidade escondida, não irei incorrer na ira da
mahadevi?

gandharva abanou a cabeça negativamente.

- na verdade, ele não detém as informações que eles julgam que ele tem. ele não os
pode conduzir à mahadevi. e os goeses e os mongóis não vão cooperar durante
muito tempo. confiai na vossa visão, majestade. É melhor deixá-los partir, para se
digladiarem longe daqui, do que fazer perigar bijapur, mantendo-os próximo.

- como sempre, falais persuasivamente. - só queria era saber qual é o vosso jogo e
que parte me cabe nele.

- há mais um pormenor, majestade. os mongóis vão pedir-vos um carro com músicos


e bailarinas.

- isso não me surpreende. o meu general já me relatara que os homens do mirzá


estão bem treinados, mas que sofriam com a falta de entreténs.
- É isso. satisfazei, então, a solicitação do mirzá, majestade, e, entre os músicos...
enviai-me a mim.

- tu? porquê?

- para ser os vossos ouvidos e garantir que tudo se passa de acordo com a vossa
vontade.

- mas vós próprio tendes consciência das vossas limitações.

- as pessoas, geralmente, não desconfiam dos deficientes, pois acham que são
demasiado fracos, ou de confiança, ou como que inexistentes. isso constitui uma
vantagem.

- hum! - ibrahim levantou-se e dirigiu-se à janela mais próxima, na esperança de


uma brisa refrescante. - por vezes, gandharva, ponho-me a pensar a quem é que
realmente serves, se a mahadevi, se a mim?

- não há nenhum conflito em servir ambos, pois os vossos desejos são os mesmos.

- serão?

- atentai, majestade. por que estranha razão iria a mahadevi desejar enfraquecer o
vosso reino, atraindo à vossa porta o flagelo do poder de akbar, ou as hordas
rapaces dos ocidentais? ela só pode desejar uma bijapur forte, a servir-lhe de
baluarte contra a invasão do mundo exterior.

ibrahim mirava as cúpulas brilhantes, os minaretes, as muralhas e as altas palmeiras


de bijapur.

- gandharva, eu dediquei a minha vida a fazer desta cidade um lugar de paz e de


beleza.

- sem dúvida, majestade, e com grande sucesso. bijapur é justamente considerada a


mais esplêndida cidade do decão. e a mahadevi não tem, decerto, nenhum interesse
em vê-la destruída. se necessário for, eu bem a louvarei, em alto e bom som, aos
próprios ouvidos da mahadevi. serei o vosso advogado junto dela. e não revelarei
nenhuma informação útil ao mirzá, nem ao padre. pelo contrário, tudo farei para os
iludir. deixai-me ir, majestade.

ibrahim voltou-se. há aqui um mistério que não consigo discernir. estarei mais
seguro convosco junto de mim, ou afastado da minha corte?

- penso, muita vez, que há mais verdade no vibrar das cordas de uma vina do que
nas palavras de mil homens doutos. e tu tocas como eu nunca ouvi outro algum
tocar. vou sentir a tua falta, gandharva.

o cego sorriu e fez a vênia.


- que eu seja digno da vossa sabedoria, majestade.

timóteo estava sentado a um canto da sala, remexendo-se, incômodo. isto é injusto!


algo de terrível se passou aqui, tenho a certeza, mas não me dizem nada porque
acham que eu sou uma criança.

o padre gonsção dissera aos soldados para agarrarem tomás, mas, depois,
ajoelhara-se, todo encolhido, diante do crucifixo, a rezar, sem responder às
perguntas de timóteo. o rosto do padre não ostentava o ar sereno de quem
comunica com deus, antes se mostrava vincado e carregado, como se receasse que
deus não o ouvisse.

joaquim declarara-se confundido com o comportamento dos seus companheiros e


timóteo, por uma vez, acreditara nele.

quando os outros soldados regressaram da perseguição, escoltados por


carrancudos guardas do palácio, e sem tomás, fora ainda pior. eles haviam sempre
tratado timóteo com um afável desdém, metendo-se com ele e tentando chocá-lo,
mas, agora, evitavam-no ostensivamente, ocupados a limpar os pertences,
segredando entre eles, voltando-lhe as costas, quando timóteo tentava perguntar-
lhes alguma coisa.

o fato de tão-pouco nada dizerem a joaquim, não lhe servia de consolação.


comportam-se como crianças culpadas de uma maldade. não saberão que deus
tudo perdoa, se lhe abrirem o coração? era uma loucura. os guardas mantinham-se
à porta do alojamento, para que dali não saíssem, e tomás não voltava.

como é que podem fingir que nada aconteceu? o soldado ferido, carlos, continuava a
não deixar que timóteo o tratasse, embora houvesse, no jardim ao lado, várias ervas
indicadas para o sarar.

tomás pensa que a senhora chamada aditi foi ferida. talvez ela tenha conseguido
ferir carlos e eles não queiram falar por orgulho. todos me querem manter inocente
do conhecimento do pecado. mas eu vou ser padre, vou ter de compreender o
pecado. santa maria, ajudai-me!

a porta abriu-se e os guardas deixaram entrar tomás e o irmão andrew, fechando de


novo a porta.

- padre! - exclamou timóteo, levantando-se. - tomás voltou!

o padre, porém, apenas ergueu os olhos, fixando tomás, nem sequer o saudando.

timóteo correu para o inglês, quase o abraçando.

- tomás, ainda bem que voltastes. está tudo bem?

o inglês respondeu com um sorriso desajeitado, os olhos cheios de pesar.

- está tudo tão bem quanto possível, irmãozinho.


o irmão andrew pousou uma mão no ombro de tomás.

- ele andava perdido, mas já se encontrou.

- assim - disse joaquim -, o coelho volta à toca das raposas, mas acompanhado por
um lobo.

- encontrastes a vossa bailarina? - perguntou timóteo. toda a gente na sala ficou


silenciosa, aguardando a resposta. tomás olhou para o chão.

- não. aparentemente, ela foi-se embora.

todos na sala pareceram ter recuperado a respiração. timóteo abanou a manga de


tomás.

- não fiqueis triste, tomás. talvez a torneis a encontrar. o inglês sorriu ligeiramente.

- talvez, timóteo, quem sabe?

o irmão andrew foi para junto do padre e pôs-se a contar-lhe o que o mirzá lhe havia
dito. quando tomás se dirigiu para junto do rolo da sua cama, timóteo acompanhou-
o, na esperança de que o inglês se abrisse com ele.

- tomás, algo de muito estranho e terrível se passou aqui, mas ninguém me quer
dizer o que foi.

- eles falaram nos estragos que causaram aos biombos chineses do sultão?

- sim, eu até traduzi ao padre o que os guardas do sultão diziam. mas há mais
qualquer coisa, não vos parece?

tomás suspirou e sentou-se, encostando-se à parede, fazendo uma pausa, antes de


responder.

- nós andamos todos muito inquietos, por termos de juntar a nossa expedição à do
mirzá. quando vi que os soldados me perseguiam, decidi brincar com eles e fugi,
tentando iludilos. mas fiquei cansado e perdi-me no palácio, até que o irmão andrew
me encontrou e me guiou de volta.

está a mentir, pensou timóteo friamente. até ele me mente, e eu a pensar que ele
era meu amigo! depois de eu lhe ter contado tanta coisa que eu sabia, depois de eu
lhe ter salvado a alma na santa inquisição!

- e o sangue, tomás? e a ferida do carlos?

- o que é que o padre diz a respeito disso?

- o padre nada me diz!


tomás afastou o olhar de timóteo.

- irmãozinho, não deveis preocupar-vos com essas coisas. em breve deixaremos


este pesadelo e teremos de enfrentar outros perigos. ide orar, se quereis ser útil. por
ora, é o melhor que podeis fazer por nós.

timóteo sentiu a raiva apoderar-se dele. desde há muito que não sentia tão grande
vontade de partir qualquer coisa. até vós me ocultais a verdade. pois bem, eu
também sei guardar segredos, tomás. segredos que eu desejava partilhar convosco.
esperai, tomás, esperai até encontrarmos essa deusa monstruosa que procuramos e
ela pousar o seu olhar hediondo sobre vós, transformando-vos em pedra. eu sei, eu
li os registros da santa inquisição. o padre não me acredita. acha que o meu avô me
contou demasiadas lendas. talvez os muçulmanos me ouvissem. mas eu serei
poupado, pois tenho um espelho e não verei as serpentes na cabeça do monstro. e
vou falar com ela, falar-lhe-ei da glória de deus, enquanto todos vós ficareis
reduzidos a pó a seus pés. e salvar-lhe-ei a alma, enquanto todos vós gritareis nas
profundezas ígneas do inferno!

thomas observou timóteo a afastar-se, com um laivo de remorso. perdoai-me,


irmãozinho, mas é preferível que ignoreis. permanecei inocente enquanto puderdes.
encontrou o rolo da sua cama e deitou-se nela, sentindo que o calor da tarde lhe
fazia escoar a força do corpo. uma noite mal dormida e um dia de muita excitação
cobravam agora o tributo, mergulhando thomas num sono profundo.

viu-se num campo cheio de vapores nauseabundos, não conseguindo enxergar


senão alguns metros em redor. próximo dele, surdiam fumarolas, mas tudo o resto
visível eram pedras e imundície. o ar era pesado e parecia colar-se-lhe à pele. o
suor escorria-lhe da testa.

cá está o meu pesadelo, pensou, esperando ouvir os gritos das caçadoras. tudo,
porém, era silêncio, ouvindo-se apenas um distante borbulhar e chiar.

algo se moveu, no meio do vapor e do fumo. uma figura feminina, envolta em névoa
pálida, passou por ele, mal se distinguindo. “aditi?”

parecia-lhe a figura que havia seguido na selva, próximo de goa. thomas seguiu a
figura no meio do vapor acre. de repente, a figura desapareceu e a névoa,
desvanecendo-se, revelou a entrada de uma caverna numa montanha. com a
certeza que temos nos sonhos, thomas sabia que devia entrar e foi o que fez.

viu-se, então, numa ampla câmara rochosa. havia uma fissura a um dos lados,
donde também saíam vapores, mas estes cheiravam a incenso e a folhas
queimadas. no centro da caverna estava a mulher, sentada numa cadeira de modelo
muito antigo. thomas não conseguia distinguir-lhe bem o rosto, pois as névoas que a
rodeavam pareciam, por vezes, asas de anjos, outras vezes enroscavam-se-lhe no
corpo tais serpentes e, outras vezes, ainda, pareciam formar uma negra e ocultante
capa com capuz.

- tenho uma mensagem para vós - disse a mulher.


- estou a ouvir - disse thomas sonhador.

a mulher estendeu um braço e apareceu diante dela uma braseira. as chamas


subiram da bacia de bronze, por momentos envolvendo-lhe a mão. depois
esvaneceram-se e a mulher segurava, agora, um pedaço de pergaminho
incandescente. olhou para o pergaminho e leu: “acautelai-vos, filho da luz e da
escuridão, pois não podeis escapar ao vosso destino. a vossa vida está votada a
outra, que vai ser tomada. apreciai a vida e preparai-vos para a morte.”

À figura esvaneceu-se e a caverna ficou em completa escuridão. por cima dele,


ouvia o esvoaçar dos morcegos. os seus gritos agudos foram-se tornando palavras.
“assassino! assassino! não podes escapar, assassino!”

uma garra cravou -se-lhe no ombro e sentiu na cara um bafo quente. pôs-se a gritar
e, com um estremeção, acordou.

lockheart estava a olhar para ele, uma mão no seu ombro.

- desculpa, rapaz, mas apareceram os guardas do sultão. já não somos hóspedes


desejados e vamos alojar-nos, de novo, no caravansará, esta noite. o sultão
acelerou as coisas e vamos partir amanhã de manhã. junta as tuas coisas.

- e quando é que os vamos matar? - perguntou jaimal.

- meu senhor! - protestou masum.

- calma, calma a ambos - disse o mirzá ali akbarshah. eles podem dispor de
informações que nos sejam úteis e, por isso, é do nosso interesse tratá-los bem. se
nos causarem problemas, ou pareçam querer interferir com a nossa expedição,
então veremos.

- o pedido do carro de músicos e bailarinas não prova que querem interferir? - disse
jaimal. - ou, pelo menos, que desejam embaraçar-nos?

- porém - disse masum -, se, como tamas nos disse, a rainha imortal que
procuramos aprecia a música e a dança, então estaríamos a prejudicar a nossa
missão se não lhe levássemos esse presente.

- portanto, achais que o ocidental está a mentir? - disse jaimal.

- É fácil acreditar - disse masum - que uma mulher de avançada idade e de grande
saber aprecie a beleza das artes.

- sorte a nossa, então, por termos conosco um poeta como vós.

- basta! - exclamou o mirzá. - É verdade que os ocidentais se nos afiguram


estranhos, mas vamos ter muito tempo para os observar e verificar se as suas
intenções são boas ou más.

- mas porque é que o de cabelo amarelo pediu para o rapaz frade viajar no vosso
howdah? - disse jaimal. - não será presunção?

- não, não - retorquiu masum -, como vos disse, o rapaz estava fascinado com o
elefante, quando estávamos no caravansará. eu vi-o a observá-lo e a afagá-lo.
claramente, trata-se de uma gentileza de tamas para com o rapaz.

- tende cuidado, meu senhor, pois o rapaz pode ser maçador, tentando converter-
vos.

- se isso acontecer - disse o mirzá -, masum, então, fará tudo para converter o rapaz
à nossa fé e isso tornará a viagem bem divertida. e não consideraste a possibilidade
de o rapaz nos estar a ser entregue como refém?

jaimal franziu a testa.

- e por que razão fariam eles uma coisa dessas?

- posso apontar variadas razões. lakart conhece alguma coisa dos nossos costumes
e pode estar a fazê-lo como prova de confiança e de boa-fé. por outro lado, já
verificamos que há dissensões entre os ocidentais, lakart e tamas podem pretender,
assim, garantir a cooperação dos goeses conosco. agora basta, vem aí alguém.

bateram à porta e apareceu um rapaz de vestimenta garrida, com uma jama às


riscas e um turbante emplumado, que se inclinou numa vênia solene.

- o que é que se passa? - disse o mirzá.

- mui nobres senhores - entoou o rapaz -, o sultão considera a vossa missão de


suma importância e não deseja demorar-vos mais. deveis abandonar o palácio esta
noite e juntar-vos às vossas forças acampadas, partindo amanhã de manhã.

- amanhã! - exclamou jaimal.

o mirzá levantou a mão para calar o subordinado.

- e que mais? - disse ele para o rapaz. o rapaz pestanejou e acrescentou:

- todas as provisões reunidas até essa altura estarão à vossa disposição, bem como
o carro com bailarinas que haveis requerido.

- isso é muito interessante - disse o mirzá -, considerando que eu ainda não o


requeri.

o rapaz tornou a pestanejar.

- bem, o sultão é sábio e presciente e previu o vosso pedido.

- ou alguém o fez em nosso nome - murmurou jaimal. o mirzá ignorou-o.

- muito bem. dirás a sua majestade que estamos muito gratos pela sua
generosidade e que todas as provisões que nos puder fornecer serão bem-vindas. o
shahinshah akbar tomará conhecimento da grande hospitalidade de adilshah.

o rapaz tornou a fazer uma vênia, as plumas do turbante varrendo o chão.

- assim lhe direi, meu senhor. em breve vos será enviada uma escolta.

- fico-te agradecido.

o mirzá lançou uma moeda de prata para o rapaz que, apanhando-a com um sorriso
nos lábios, com uma última vênia desapareceu pela porta.

- não tereis exagerado, senhor? - disse jaimal.

- a gentileza - disse masum - abre mais portas que a desconfiança e a dureza.

- a gentileza - disse jaimal - é muitas vezes indício de cabeça vazia. estou inclinado
a pensar, ó tagarela de língua sempre pronta, que estais ansiando por viajar com os
ocidentais.

- estou, pois - retorquiu masum, sorrindo. - o amor do divino vê-se acrescido quanto
mais sabemos acerca das suas criações.

- mesmo quando essas criações negam a verdadeira fé?

- mesmo com essas, pois a verdade mais brilha no meio do erro e no meio da
escuridão melhor se enxerga a luz.

- mesmo se essa luz é apenas a chama de uma vela e a rainha que procuramos não
passa de uma feiticeira lendária?

- procurar a rainha sábia, bilqis, é procurar a luz maravilhosa, a sofia eterna. essa
procura nunca é estulta, pois é ela que nos permite vir a contemplar a face de deus.

- lamento - disse o mirzá - ter de interromper a vossa discussão filosófica, mas nós
temos muito que fazer. É melhor chegarmos ao acampamento antes da oração da
noite.

em boa verdade, porém, o mirzá pôs ponto final à discussão porque esta o
perturbava. e se a finalidade da nossa viagem for espiritual e não material? serei eu
capaz de o reconhecer, aceitando a revelação, se for caso disso? confesso que
preferia que o nosso objetivo se revelasse ser uma rainha anciã e rica, vivendo
numa caverna, e não um tesouro espiritual que, possivelmente, não conseguirei
agarrar.

thomas não conseguia dormir no quarto do caravansará. não queria voltar aos
sonhos inquietantes e aos seus augúrios malignos. tão silenciosamente quanto
pôde, para não perturbar timóteo, nem o padre gonsção, levantou-se da cama e saiu
do quarto, vagueando ao longo do varandim, em busca de um local adequado para
urinar. viu, então, no topo da grossa torre de menagem, no canto sudoeste do
caravansará, um homem de braços abertos para a lua. parecia que agarrava o arco
de prata com os braços, à medida que ele descia.

ao princípio, thomas julgou que era algum maometano a orar, mas não era. o
homem cantava baixinho, numa língua que não era árabe, antes soava mais a
grego.

É andrewl que estará ele ali a fazer, a esta hora?

congratulando-se por não estar calçado, thomas caminhou mansamente para a torre
e, em silêncio, subiu a escada em caracol. que será feito dos guardas que
costumam estar aqui? por quê este silêncio?

no cimo da torre, thomas saiu da escada. fossem quais fossem as orações que
lockheart entoava, estava tudo, agora, silencioso. a luz do luar cintilava em duas
taças colocadas sobre um pano branco, em cima de uma das ameias. entre as
taças, via-se uma folha de carvalho. uma das taças tem vinho, a outra grãos de trigo.
como é que eu sei isto?

foi invadido por recordações. em criança, estendido numa mesa branca, flanqueado
por duas taças idênticas. vagueando numa floresta, rodeado de mulheres em
camisas de noite, acompanhado por galgos que ganiam e lhe lambiam as mãos. o
pai vestido de vermelho, de chapéu alto, um punhal na mão.

thomas deu mais um passo e uma prancha rangeu. lockheart rodopiou, os braços
erguidos, pronto a desferir um soco.

- andrew!

o escocês suspirou, baixando os punhos.

- por jeová, tom, assustaste-me. não devias ter aparecido assim.

- vós seguis os ritos da casa do meu pai, pelo que vejo.

lockheart aquiesceu com a cabeça.

- agora já acreditas que foi o teu pai que me enviou?

- acredito, sim. mas esses ritos estão enterrados na minha memória há muitos anos
e pouco me lembro deles. o que é que eles significam? não querereis dizer-me?

lockheart fez uma pausa, coçando o queixo barbudo.

- talvez, talvez seja a altura. agora já não haverá problema. a vossa família e eu, e
outros, seguimos velhos costumes, meu rapaz. costumes há muito condenados pela
santa madre igreja. costumes mais antigos do que cristo e do que o diabo.

- ah, sois pagãos - disse thomas, quase a sorrir. lockheart encolheu os ombros.
- chama-lhe o que quiseres.

- e adorais a lua.

- a lua é o símbolo da caçadora imortal, a curandeira, diana ou artemis, a que dá


vida a todas as plantas e criaturas ao cimo da terra.

- ah, por isso é que vos interessastes tão prontamente pela nossa busca. não
procurais a pedra filosofal, antes acreditais que a mahadevi é a vossa deusa.

- eu não sei o que iremos encontrar no final da nossa viagem, meu rapaz. pode ser
um simples mineral, ou o sangue de um animal que tem a propriedade de restituir a
vida aos mortos. embora deva confessar que acho fascinante a possibilidade de
virmos a encontrar, como tu dizes, a minha deusa. e tua também, meu rapaz, pois tu
foste-lhe votado, quando criança.

thomas sentiu arrepios na pele.

- nos sonhos dizem-me que a minha vida pertence a outrem. mas porque é que o
meu pai nunca me contou isso?

- na nossa terra a nossa crença é muito perigosa e as crianças não sabem guardar
segredos. o teu pai quis poupar-te, até chegar a altura de te revelar tudo.

- quer dizer que tenho de me converter uma vez mais, de cristão a papista e de
papista a pagão?

- isso não é necessário, meu rapaz. tu pertences-lhe e ela tomar-te-á, por fás ou por
nefas.

porque é que o mundo não se vira ao contrário, porque é que a minha cabeça não
anda à roda? a minha alma não sabe, decerto, para onde se voltar, nem a que
paraíso está destinada. ou talvez eu tenha nascido no meio de doidos e não lhes
deva dar crédito.

thomas caminhou até à muralha da torre que dava para o escuro pátio do
caravansará e encostou-se a ela.

- eu não sei em quem acreditar, andrew, e não estou convencido que seja em vós.

- isso não interessa. dá tempo ao tempo. a verdade revelar-se-á a si própria. os


nossos destinos estão ligados e inscritos na pedra do olimpo. tens visto como temos
sido guiados certeiramente.

- talvez, mas vou esperar pelas vossas provas. e sabeis que o padre pretende
destruir o que encontremos.

- isso é o que ele diz, mas acho que ele vai encontrar uma presa muito mais forte do
que a seta que lhe possa disparar. acho que ele pode ser o destruído, não o
destruidor.
- achais que sim? atentai que ele já provou ser capaz de matar. eu não o
menosprezaria, por enquanto. mas porque é que está tão escuro? onde é que se
meteram os guardas?

- foram subornados para se manterem lá dentro uma ou duas horas.

- eu sozinho, não, mas olhai para o pátio.

no meio das sombras, junto da porta do caravansará, thomas distinguiu uns homens,
conduzindo cavalos pela rédea. o luar refletia-se nos elmos e nas couraças de
metal.

- os soldados goeses! - exclamou thomas. - onde é que eles vão?

quando a porta se abriu para deixar passar os homens um a um, lockheart explicou:

- vão regressar a casa, meu rapaz. dois deles morreram de febre e os restantes
acham que o padre enlouqueceu. não há dúvida de que a história da morte da vossa
amada piorou muito as coisas.

thomas tentou contá-los, mas não conseguia distinguir claramente.

- não devíamos avisar o padre?

- para lhe perturbar o sono, quando ele nada pode fazer para os travar? não, tem
tempo para saber a má notícia amanhã de manhã, quando estiver mais repousado.
isto é vantajoso para nós, tom. com menos homens a espiarem-nos, ficaremos mais
libertos.

- mas ficaremos, também, sem proteção contra os mongóis.

- dez homens contra quinhentos fraca proteção seria, meu rapaz. ficamos melhor só
com a ajuda dos mongóis, com quem já começamos a estabelecer laços de
amizade.

- esperemos, então, que esses laços não sejam quebrados.

- eu olharei por isso, fica descansado.

mas não fico descansado convosco, andrew, até que vos conheça melhor. vou ter de
levar aditi ao encontro do pó da ressurreição na companhia de um inquisidor louco,
de um músico hindu cego, de um possivelmente louco escocês pagão, de um rapaz
frade e de um exército de quinhentos maometanos. espero ser, de fato, o protegido
de uma boa e poderosa deusa, pois vou precisar de todo o auxílio divino que
consiga adregar.
capítulo xx

laranjeira: esta árvore de fruto tem uma casca acastanhada e pevides nos gomos do
seu fruto. dá umas flores brancas de agradável fragrância. É considerada uma
dádiva do oriente, pois tomou-se conhecimento dela através das cruzadas. a casca
seca do fruto cura as indisposições do estômago e dos pulmões. a infusão das flores
é um excelente tônico, embora o óleo das pétalas esmagadas produza letargia. no
oriente, a laranja é presságio de fortuna e de amor duradouro. contudo, diz-se que
as bruxas a usam como vingança, pois, invocando que a laranja é o coração da
pretendida vítima, espetam-lhe alfinetes e escondem-na num local escuro, para
provocar a doença e a morte. espetada com cabeças de cravinho, em vez de
alfinetes, o fruto liberta um aroma agradável que, de outro modo, seria malfazejo...

o sol nascente era uma bola de fogo, mal distinta no nevoeiro matinal. o padre
gonsção vagueava no meio da tropa mongol, pasmado, sentindo-se como que
transportado para uma terra fantasmagórica e perigosa. cavalos graciosos, os
guizos a soar, apareciam-lhe de repente ao lado, como se os homens que os
conduziam fossem feiticeiros, materializando-os a partir dos vapores. de quando em
vez, um mastodonte, um elefante, assomava no meio do nevoeiro. homens de
turbante, de passos silenciosos, gritavam uns para os outros na sua linguagem
musical.

a notícia de que os soldados o haviam abandonado durante a noite pouco o


apoquentara, como se já o esperasse. apercebera-se, mesmo, de que preferia ver-
se livre daqueles resmungões arrogantes.

deixai-os aventurarem-se a regressar a goa, com o desagradado sadrinho a recebê-


los. tenho o caminho livre e não me desviarei dele.

vozes familiares aproximavam-se e do nevoeiro apareceram cinco cavaleiros, o


irmão andrew, mestre chinnery e, para grande surpresa do padre, três soldados:
joaquim, carlos e estêvão.

- olá! - exclamou gonsção para eles. - quer dizer que vocês não fugiram da minha
loucura?

joaquim encolheu os ombros.

- o sargento não gostava de mim e estes dois arriscavam-se a ser enforcados, mal
os vissem em goa: carlos por contrabando e estêvão por homicídio. se não vos
importais de ter estes pecadores convosco, padre, estamos ao vosso dispor.

- se nosso senhor, no seu martírio, não se importou de ter a companhia de dois


pecadores, como me vou eu importar? regozijo-me por terdes ficado. algum de vós
viu o irmão timóteo?

- nós vimo-lo a correr para aquele lado - disse o irmão andrew, apontando para trás
do padre. - andava à procura dos elefantes, parecendo muito contente.

gonsção enfiou as mãos nas mangas do hábito, para as proteger do frio da manhã.
- espero que nada de mal lhe aconteça. É ainda uma criança e acha tudo isto uma
aventura.

- que mal receais que lhe aconteça, padre? físico ou espiritual?

gonsção estudou o rosto do jovem inglês e sentiu-se inquieto com o que lá discerniu.
há acusação naqueles olhos. saberá o que aconteceu a aditi? ou apenas suspeita?
para quê apoquentar-me? ela não morreu às minhas mãos! coisa que posso garantir
com toda a honestidade.

- ambos, mestre, ambos, como todos nós devemos recear.

- os elefantes são criaturas de deus - disse o jovem inglês. - que perigo espiritual
podem eles constituir para um rapaz?

gonsção franziu o sobrolho. como é que eu vou explicar a este estrangeiro que o
espírito pode ser contaminado por coisas estranhas?

- os hindus idolatram-nos.

- esse é o erro deles. há, porém, uma grande diferença entre idolatrar e admirar. o
interesse de timóteo não é, decerto, pior do que, digamos, admirar um camelo a
primeira vez que o vemos.

gonsção teve um sorriso mal-humorado.

- talvez devêsseis, mestre chinnery, envergar as vestes que o irmão andrew


abandonou. começais a argumentar como um jesuíta.

- aí estão elas, tomás - disse joaquim, apontando para o extremo das atarefadas
forças mongóis.

gonsção voltou-se e viu ao longe um carro garridamente pintado, puxado por uma
junta de bois.

- o que é aquela monstruosidade?

- É o carro das bailarinas - informou o irmão andrew. É uma gentileza do sultão. todo
o exército mongol que se preze tem um, segundo dizem. mas não vos inquieteis,
padre, porque, com uma agradável diversão, os maometanos vão preocupar-se
menos com a nossa irritante presença.

- sois pragmático, como sempre, irmão andrew, embora eu receie que, mais uma
vez, estejais a encontrar virtude num pecado. mas porque estáveis à espera deste
carro, mestre chinnery?

- talvez porque o nosso bom amigo tenha a esperança de encontrar nele a sua
amada bailarina? - disse joaquim.
- a esperança nunca morre - disse o jovem inglês.

- era bem melhor que a esquecêsseis e prestásseis atenção a outras coisas - disse
gonsção. - as mulheres são criaturas fracas e o contato com elas só serve para
meter a alma num atoleiro.

- ah! - exclamou o irmão andrew. - a vossa mãe não era, portanto, um pântano, já
que a contactastes dentro dela e escapastes sem lama, padre.

o padre ficou carrancudo, enquanto os outros riam.

- devo recordar-vos que temos à nossa frente uma viagem cheia de perigos e eu
ficaria mais descansado se soubesse que pensáveis nisso e não em frivolidades.
olhai à vossa volta, para este mar bravo de gente, de aço e de animais em que
estamos metidos. devemos ter cuidado para não sermos engolidos por ele.

- mas não há necessidade de pensar assim, padre - disse o irmão andrew. - pode
não ser um mar bravo, nem um rochedo desprendido que nos esmague. olhai esta
multidão como uma coisa fluida, padre, como as dunas inconstantes de um deserto,
ou a água num tanque. pode fluir para todo o lado. o nosso grupo pode ser a suave
brisa que arrasta a areia, ou a mão que agita a água do tanque, espalhando-a. a
nossa própria fraqueza pode ser a nossa força. pensai nisso, padre, e afastai os
vossos receios.

o falso monge parece muito bem-disposto. não lhe devia ter pedido para sondar os
mongóis. quem sabe o que terá tramado com eles? bem, seja o que deus quiser.

- falais convincentemente, irmão, e eu não vou esquecer o que dizeis. entretanto, o


mirzá vai, decerto, perguntar-me se sabemos para que lado este caudal de homens
deve fluir e eu preciso de saber o que responder-lhe.

- dizei-lhe que devemos seguir para sudeste - disse mestre chinnery. - por ora, isso
basta. não devemos, de início, dizer-lhe tudo, nem, tão-pouco, qual de nós tem
conhecimento do caminho a seguir.

e isso, por enquanto, é o que eu vi no mapa do feiticeiro de cartago. por ora, pelo
menos, não está a tentar desviar-nos.

- isso é razoável - disse gonsção. - agora, o melhor que tenho a fazer é ir à procura
de timóteo, antes que ele se afaste demasiado. carlos, estêvão, querem
acompanhar-me?

os soldados dirigiram os cavalos para junto de gonsção. este despediu-se do irmão


andrew e de mestre chinnery, antes de se afastar, aliviado por se ver livre da
companhia do jovem inglês. não posso perder a autoridade perante estes homens,
nem o comando da expedição, apesar de mestre chinnery agora desconfiar de mim
e de os soldados me vigiarem, para ver se apresento sinais de loucura.

thomas, lockheart e joaquim acercaram-se do carro das bailarinas, saudados pelos


risos de mulheres jovens, vestidas com coloridas saias e véus garridos, sentadas no
teto do carro.

- se isto é um atoleiro de pecado - disse joaquim - bem gostaria de mergulhar nele.

thomas sorriu e gritou:

- gandharva está aí?

- elas não vos compreendem, tomás.

as raparigas, porém, puseram-se a bater alegremente nas partes laterais do carro,


gritando: “gandharva! gandharva!” as portas do carro abriram-se e gandharva
apareceu.

- cá está ele! - exclamou thomas. - gandharva, sou eu, tamas.

o cego sorriu e, num latim musical, perguntou:

- o jovem mestre quer ouvir uma canção?

- este hindu fala latim! - disse joaquim, admirado.

- ele é um homem com muitos talentos - disse lockheart.

- sim, cantai-me uma canção da minha bem-amada - respondeu thomas.

- escutai, então - disse gandharva, posicionando a vina por cima do ombro.


dedilhando as zumbidoras cordas, pôs-se a cantar, em grego:

a vossa amada jaz adormecida, em mel como ela doce mergulhada, como alexandre
de ação destemida, À corrupção da morte jaz poupada.

espera pois em dourado esplendor, neste carro serena a repousar, que o amor da
mãe a tire do torpor e ao peito torne doce anelar.

não chores, ó jovem apaixonado, nem lances à amada triste olhar, muito em breve
sereis agraciado e vereis, de novo se põe a bailar.

- o jovem mestre gostou da canção? - perguntou gandharva, quando terminou.

- gostei muito, gostei muito, cantais muito bem. o cego inclinou-se sobre o
instrumento.

- É um prazer servir-vos.

lockheart olhou para thomas com admiração.

- o esquema funcionou melhor do que eu esperava.

- que disparate é este? - exclamou joaquim. - devem estar a brincar comigo. o


homem canta numa língua estranha e toca num alaúde com as cordas soltas, como
é que o podem elogiar.

- talvez, como o padre receia - disse thomas -, eu tenha começado a gostar das
coisas nativas.

- que eu nunca adquira esse gosto - retorquiu joaquim pois isso seria sinal de
loucura. embora - acrescentou, olhando para as raparigas no teto do carro - haja
aqui belas formas de ficar louco.

- irmão andrew! senhor chinnery!

carlos cavalgou até junto de lockheart e falou-lhe em português, em voz baixa.

- segundo parece - disse lockheart -, timóteo meteu-se em sarilhos. o padre pede-


nos auxílio.

deve ter a ver com o elefante do mirzá, pensou thomas. timóteo esta manhã não me
falou, espero que a oportunidade de montar no elefante lhe apazigue a zanga.

- eu vou convosco - disse joaquim. - quero ver em que sarilho se meteu o


irmãozinho, sempre é mais interessante do que ouvir a lamúria desta criatura cega.

dirigiram as montadas para o que se estava a tornar a nascente do rio de homens e


animais e viram timóteo ao lado do elefante com palanquim que tinham visto no
caravansará. o mirzá estava ao lado de timóteo, a alta estatura inclinada para ele,
uma mão no ombro do rapaz.

quando lockheart desmontou, o padre gonsção dirigiu-se para ele.

- ainda bem que vieram. eu não consigo perceber o mirzá, nem ele me percebe a
mim, e, embora timóteo fale um pouco a língua dele, nesta circunstância prefiro um
intérprete mais adulto.

thomas observou timóteo, cuja disposição parecia ter mudado bastante, pois estava
de olhos bem abertos, quase dançando de um pé para o outro, impaciente.

lockheart fez uma vênia e falou com o mirzá um momento, depois disse:

- padre, trata-se apenas de um convite. o mirzá convida timóteo a viajar com ele no
elefante.

- por favor, padre! - exclamou timóteo. - deixai-me ir, por favor!

a expressão preocupada do padre não se alterou.

- isso percebo eu, mas não vou deixar o rapaz sob a influência dos mongóis. não
posso permitir tal coisa.

- padre - disse lockheart firmemente -, nós temos de viajar com esta gente e isso
significa aceitar a sua hospitalidade com delicadeza. É uma grande honra que o
mirzá nos faz.

- hospitalidade! honra! este homem pretende guardar timóteo como refém!

lockheart aquiesceu com a cabeça.

- isso é, para eles, uma tradição. o mirzá não tem nenhuma intenção de magoar o
rapaz, é, apenas, uma forma de assegurar a paz entre nós.

- por favor, padre! - pediu timóteo, as palmas das mãos juntas, a implorar.

thomas debruçou-se do cavalo até chegar junto do ouvido do padre.

- recordo-me da história de um rapaz que queria montar um camelo e como ficou


triste por o não deixarem fazê-lo. dissestes vós próprio, padre, que esta viagem ia
ser longa e traiçoeira, porque não, então, permitir que timóteo retire dela algum
prazer, ao mesmo tempo estabelecendo uma boa relação com o mirzá.

o padre olhou fixamente para thomas.

- continuais a trinar essa corda da guitarra.

- se vós a ouvis, padre, vou continuar a tocá-la alto e bom som.

- sois tal qual um jesuíta. pois bem, vou deixar timóteo subir para o elefante com o
mirzá, mas vós ficareis responsável se alguma coisa acontecer ao rapaz.

lockheart, com um sorriso nos lábios, traduziu a autorização do padre para o mirzá.
o mongol sorriu também e fez uma vênia ao padre.

timóteo pôs-se a saltar de alegria.

- obrigado, padre! muito obrigado! deus seja louvado! também o ireis experimentar,
não é?

- talvez, timóteo, mas agora não.

timóteo olhou para thomas com um sorriso relutante.

- bem - segredou thomas para lockheart -, acho que estou perdoado.

- tem cuidado, timóteo - disse o padre brandamente.

- sim, padre, ficai descansado - disse timóteo.

o homem sentado à cabeça do elefante atirou uma escada de corda para baixo,
segurando-a firmemente enquanto timóteo subia, ágil como um macaco. thomas
sentiu inveja dele. que ao menos um de nós encontre prazer nesta viagem.
o mirzá falou de novo com lockheart.

- sua alteza - traduziu o escocês - oferece-nos, agora, um dos seus para viajar
conosco, para trocarmos impressões e estabelecermos relações de amizade.

- ah sim? - resmungou o padre. - e quem é esse herético que o mongol escolheu


para nos fazer companhia?

- vou perguntar-lhe - disse lockheart, falando, depois, para o mirzá.

o mirzá acenou com a cabeça, com ar divertido, gritando depois para a multidão de
mongóis:

- masum!

o delgado e mal-amanhado sufi, de túnica branca e turbante, emergiu da multidão e


aproximou-se.

- santa maria, esse não! - murmurou o padre para si próprio.

thomas não pôde deixar de sorrir.

- parece que vou ter outra oportunidade para aprender a ervanária local.

- o mirzá honra-nos de novo - disse lockheart -, pois oferece-nos o seu conselheiro


sufi para nos acompanhar. os sufis são sumamente apreciados pelos nobres
muçulmanos, como hábeis filósofos e guias espirituais.

- sua alteza honra-nos por de mais - resmungou o padre. o sufi dirigiu-se a thomas,
falando-lhe, com uma vênia.

thomas, da sela, retribuiu a vênia.

- o que é que ele disse, andrew?

- ele fala de uma maneira estranha, mas acho que disse que se regozija por
acompanhar a dádiva divina. não percebo, porém, o que é que ele quer dizer com
isso.

- quer dizer que ou sou uma dádiva dos deuses, ou que sou um cabrão destinado ao
sacrifício.

lockheart lançou-lhe um olhar carrancudo.

- estava a brincar, andrew, sem ofensa para a vossa crença.

- está bem, tom, mas deve-se ter cuidado com o que se brinca.

como ficou irritado com uma simples frase!


uma pomba branca esvoaçou sobre eles, as asas brilhando ao sol da manhã. alguns
mongóis soltaram exclamações de regozijo, apontando para a pomba, a qual voava
para sudeste.

- os maometanos estão a dizer que a pomba é um bom augúrio - disse lockheart,


montando de novo. - dizem que é sinal da bênção de alá, dado que voa na direção
da nossa viagem.

- É, também, sinal do espírito santo - disse o padre - e de paz.

- como vedes - disse thomas, sorrindo - até o céu, padre, aprova o nosso
comportamento desta manhã. isso deve tranquilizar-vos.

não lhes vou , decerto, dizer, que se trata do pombo-correio de gandharva. voa,
criatura benfazeja, voa até à oculta cidadela da mahadevi. as minhas esperanças
estão presas às tuas asas. fala docemente à tua deusa, rainha da vida e da morte,
cujo nome é força. diz-lhe que a filha precisa que. ela lhe envie o pó da vida, desse
modo pondo fim à minha infeliz viagem.

fim.
nota da autora

no século xvi, bijapur era uma encruzilhada de religiões e de culturas, no centro da


índia setentrional. embora não tivesse ainda sido conquistada pelo imperador akbar,
era, em muitos aspectos, semelhante ao vasto império mongol, particularmente no
empenho que punha na sincrética coexistência das religiões e na integração de
estilos arquitetônicos e de outras formas de arte.

a duas figuras históricas lancei eu mão, neste volume de o sangue da deusa, são
elas chand bibi, sultana de ahmadnagar, e ibrahim adilshah ii, seu sobrinho e sultão
de bijapur. chand bibi foi uma das poucas rainhas guerreiras da índia historicamente
documentadas, célebre pela sua capacidade como estratega e, bem assim, pela
habilidade em escapar a inúmeras tentativas de assassínio, historicamente
atribuídas aos filhos ambiciosos. embora o príncipe murad, que assolou o seu reino,
tivesse sucumbido ao alcoolismo em 1599, ahmadnagar não resistiu por muito
tempo ao poderio do império de akbar, caindo em 1600, não obstante a esforçada
defesa de chand bibi. do mesmo modo, a sua perícia em sobreviver tão-pouco podia
durar para sempre e, em abril de 1600, sucumbiu assassinada.

o próprio imperador akbar, com toda a sua sabedoria e todo o seu poderio, não era
imune às tramas políticas da família e morreu em 1605, envenenado pelo filho salim.

ibrahim ’adilshah ii era, como é retratado em bijapur, um amante das artes,


especialmente da música. a história de a vida ter sido restituída à filha por um iogue
pagão encontra-se em relatos históricos - um exemplo do gênero de coincidências
entre investigação e lenda que tornam o romance histórico uma escrita fascinante - e
a ela se atribui o enamoro de ibrahim pelo paganismo, apesar da pesada influência
islâmica em bijapur.

a descrição da viagem entre bicholim e bijapur baseia-se em the traveis ofabbé


carré, um clérigo francês que fez a viagem em 1672, o único relato quase
contemporâneo que consegui encontrar acerca dessa estrada.

embora só muito mais tarde a inglaterra se tenha estabelecido na índia, ingleses


como ralph fitch, peter mundy e sir thomas roe visitaram a índia nos finais do século
xvi, principalmente por motivos de comércio. muitos pormenores dos seus diários de
viagem foram utilizados em bijapur, designadamente as descrições da comida, das
bebidas e das plantas locais.

ao longo do processo de escrita desta obra, apercebi-me de que a índia é tema de


estudo para uma vida inteira, ou diversas vidas, na verdade, por isso que se trata de
um continente com milênios de história, com uma superfície de cerca de cinco
milhões de quilômetros quadrados, uma grande variedade de culturas e de religiões
e mais de setecentas línguas e dialetos. contudo, o autor, a certa altura, tem de pôr
de lado a investigação e tem de sentar-se a escrever. daí que quaisquer erros que
se tenham insinuado no texto devam ser atribuídos apenas a mim, devido à falta de
tempo e de investigação.

quero, uma vez mais, agradecer a denny lien, da biblioteca edwin o. wilson, da
universidade de minnesota, o auxílio que me prestou, anos atrás, reunindo material
de pesquisa para mim. quero, também, agradecer ao meu antigo grupo de
escritores, os rabiscadores - steven brust, emma buli, pamela dean e will shetterly -,
as suas críticas à primeira encarnação desta obra, ao meu marido, john barnes, a
sua paciência, e aos inúmeros outros cujas sugestões de pormenores históricos e
culturais tanto enriquecem um trabalho deste gênero.