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HABITAÇÃO INDÍGENA PARA A ALDEIA MBYÁ GUARANI DA LOMBA DO PINHEIRO

Juliana Tassinari Cruz (1); Júlio H. Pinto Cruz (2) Faculdade de Arquitetura e Urbanismo – Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Porto Alegre – Brasil/ emails: (1) jucruz@ufficioarquitetura.com (2) cruzecruz@uol.com.br

1. RESUMO

Este trabalho tem por objetivo discutir o real significado da participação dos estudantes na Universidade pública e gratuita brasileira. A necessidade de demonstrar retribuição à sociedade mantenedora desta instituição faz com que, através da elaboração de projetos acadêmicos - estudos preliminares - se permita encaminhar às comunidades menos privilegiadas, trabalhos que precedem a execução do projeto. Neste sentido, se faz premente estabelecer parcerias entre a Universidade e entidades públicas ou privadas, com o objetivo de colocar em prática o exercício desenvolvido. Portanto, dentre as estratégias adotadas neste trabalho está a participação da Secretaria de Coordenação e Planejamento do Estado do Rio Grande do Sul. Compete a este órgão o “Programa de Inclusão Indígena nas Políticas Públicas” que engloba a busca por soluções adequadas ao complexo projeto de suas unidades habitacionais. É sabido que temos grande dívida com as comunidades indígenas, uma dívida que jamais poderá ser totalmente paga. Todavia, poderá ser diminuída, na medida em que compreendamos o modus vivendi destes povos e passemos a nos envolver com tal problemática. A pesquisa desenvolvida teve como fonte de dados a bibliografia sobre povos indígenas, discussões em mesas redondas e contatos com suas comunidades, assim como através de informações técnicas com o Departamento de Projeto da Secretária de Habitação do Estado do Rio Grande do Sul, com especialistas oriundos do NORIE - UFRGS - e do Núcleo de Estudos e Pesquisa Indígena - PUC/RS, bem como as informações disponibilizadas por especialistas em técnicas alternativas na área da construção - Universidade de São Carlos/SP e da FAUUSP, e a posterior sistematização dos conceitos e recomendações construtivas, fortalecendo as decisões de projeto adotadas. Acredita-se que a presente contribuição signifique a real possibilidade de continuidade de investigação para o aprimoramento dos critérios até então adotados e que suscite, no âmbito universitário, que um mundo melhor pode ser construído.

2. INTRODUÇÃO

O presente trabalho pretende dar significativa contribuição, no sentido da minimização de algumas das

conseqüências negativas do processo de aculturação pelo qual vêm passando os diversos grupamentos sociais indígenas brasileiros, especificamente o subgrupo Mbyá Guarani, desde as históricas ações colonizadoras até as práticas mais recentes de tentativa de socialização e integração à cultura branca ocidental. Destituídos, na maioria das vezes, das condições necessárias para colocar em prática o modo

de vida tradicional – só possível em faixas de terra com abundância de recursos naturais específicos – e,

por outro lado, sem as condições minimamente dignas para os padrões de habitação do homem branco, os indígenas passaram a conviver com os problemas próprios das parcelas mais pobres da população não indígena, como a falta de moradias, de saneamento básico e higiene, mortalidade infantil, alcoolismo e outras doenças. Recentemente, a questão da habitação indígena vem sendo tratada pelo Governo através de iniciativas como o “Programa de Inclusão Indígena” desenvolvido pela Secretaria de Coordenação e Planejamento do Estado do Rio Grande do Sul. No entanto, a complexidade dessa problemática requer investigações e estudos aprofundados, a fim de viabilizar edificações que considerem as diferenças sócio-culturais, ao mesmo tempo atendendo adequadamente princípios de qualidade estética, ambiental e funcional. Desta forma, a participação da Universidade através da constituição de grupos de pesquisa e discussão, contando com a importante contribuição de antropólogos, arquitetos, lideranças indígenas e representantes do Governo, visa determinar diretrizes de projeto capazes de intervir de forma positiva na qualidade de vida das comunidades estudadas. Este trabalho se eleva em importância à medida que traz

em sua base a abordagem de aspectos culturais específicos da população em questão e justifica o papel social da Universidade Pública e sua relação com a sociedade.

1.1 OBJETIVO

O objetivo geral desse trabalho é o estudo de técnicas e estratégias construtivas para a execução de

habitações eficientes, ponderando as restrições em termos de orçamento e mão-de-obra para execução das mesmas, assim como considerar o impacto ambiental dos materiais utilizados. Todavia, se tratando de uma comunidade que contém um traço cultural específico, como foi possível verificar na etapa de pesquisa bibliográfica realizada, é necessária a proposição de anteprojetos de habitações que integrem aspectos tradicionais e culturais da habitação Mbyá Guarani. Assim como,

através da verificação das características das áreas onde estas comunidades estão vivendo, verificou-se

a necessidade de avaliar a execução adequada das redes básicas de infra-estrutura da habitação contemporânea (água, luz e esgoto) nas habitações a serem projetadas.

1.2 MÉTODO DE PESQUISA

A pesquisa desenvolveu-se, basicamente, em três fases distintas: Fase de Conceituação, Fase de

Desenvolvimento e Fase de Projeto. No desenvolvimento da primeira etapa, ou Fase de Conceituação, foram realizados os primeiros contatos com o Órgão Público, entrevistas com antropólogos, entrevistas com caciques indígenas, visitas as aldeias indígenas do Estado, elaboração de imagens fotográficas e coleta de dados bibliográficos. Trata-

se de uma fase fundamental importância, na qual se identifica o domínio do conhecimento. Nesta etapa o

fortalecimento de laços de confiança entre a comunidade e a universidade teve fundamental importância.

O contato entre os mesmos facilitou o reconhecimento das dificuldades enfrentadas pelos indígenas,

assim como as especificidades da sua cultura, ambos verificados no local.

A segunda fase, ou Fase do Desenvolvimento, diz respeito à aquisição detalhada do conhecimento, de

modo a permitir o lançamento de propostas que venham a encaminhar o partido geral, o conceito técnico- construtivo e a proposição formal da habitação em questão, tendo por objetivo democratizar o acesso ao conhecimento e buscar um sistema educativo inovador, por sua sistemática e recursos instrucionais. O contexto no qual estava inserida a proposta da habitação Guarani, considera alguns critérios definidos pela Secretaria de Coordenação e Planejamento do Estado do Rio Grande do Sul, no que diz respeito a materiais disponíveis, estruturas e recursos para execução do projeto.

A terceira fase, ou Fase de Projeto, tem início a partir da conclusão da pesquisa, e diz respeito ao

produto final gerado através do conhecimento pleno do perfil do usuário, conquistado pela insistente busca de informações culturais, da disponibilidade de materiais construtivos, do contexto territorial e da tecnologia de construção Guarani.

3.

PROGRAMA DE INCLUSÃO INDÍGENA NAS POLÍTICAS PÚBLICAS, PROPOSTO PELO GOVERNO DO ESTADO / RS

3.1 APRESENTAÇÃO

O Programa de Inclusão Indígena nas Políticas Públicas é um programa prioritário do Governo do Estado

do Rio Grande do Sul (2002/2006) que pretendeu integrar as comunidades indígenas às políticas públicas do Estado, com o objetivo de atender as necessidades básicas das diferentes comunidades indígenas gaúchas, proporcionando melhorias nas condições de vida a cada grupamento indígena.

O Programa tem como fundamento a execução integrada de ações, a focalização e a articulação dos

órgãos executores, estaduais e municipais. Está dividido em três sub-programas: Habitação, Infra- estrutura e Social, integrados através de um único Comitê Executivo. Com este Programa, o Governo tinha por objetivo zerar, até o final de 2006, o déficit habitacional indígena no Estado do Rio Grande do Sul, estimado pelo CEPI – Conselho Estadual dos Povos Indígenas em 1.607 unidades corresponde a 44% do total das famílias indígenas do Rio Grande do Sul no ano de 2005, sendo 239 casas para as comunidades Guaranis.

Os objetivos propostos pelo programa buscam dotar as comunidades indígenas de infra-estrutura básica, garantindo os direitos constitucionais de acesso à saúde e educação e promovendo o desenvolvimento sustentável, respeitando as especificidades de cada cultura indígena.

3.2 SUBPROGRAMA HABITAÇÃO

Tem por objetivo a construção de unidades habitacionais e centros comunitários de acordo com os hábitos e costumes da população indígena. A Secretaria da Habitação e Desenvolvimento Urbano, a Secretaria da Agricultura e Abastecimento e a Companhia Estadual de Energia Elétrica foram os órgãos responsáveis. Cada um dos órgãos responsáveis pelo desenvolvimento deste sub-programa de habitação teve suas atribuição conforme especificado abaixo:

Secretaria de Habitação e Desenvolvimento Urbano:

o

Desenvolver e implantar os projetos habitacionais nas comunidades indígenas de acordo com as diretrizes do Programa de Habitação Indígena, e a definição do Comitê Executivo do Programa.

o

Acompanhar, supervisionar e fiscalizar a execução das obras.

o

Realizar convênios com Prefeituras Municipais para manutenção da infra-estrutura colocada à disposição das comunidades indígenas.

Secretaria da Agricultura e Abastecimento:

o Adquirir, através do Programa RS Rural, telhas, pregos e dobradiças necessárias para a construção das casas. Conforme definido pelo Comitê Executivo do Programa.

Companhia Estadual de Energia Elétrica

o

Disponibilizar a madeira necessária para a construção das casas de acordo com o cronograma estabelecido pelo Comitê Executivo do Programa.

o

Fazer o transporte das madeiras desde o horto florestal às aldeias indígenas, conforme cronograma definido pelo Comitê Executivo do Programa.

3.3 O PROJETO DA CASA DO ÍNDIO PROPOSTA PELO GOVERNO

O projeto desenvolvido, calcado em reuniões realizadas com as comunidades indígenas, utiliza a madeira

de eucalipto como material construtivo. Segundo o memorial descritivo e projeto arquitetônico, o modelo Casa do Índio possui 45 m², apresentando cinco metros de frente por nove metros de comprimento. A

casa é dividida em quatro ambientes distintos: o primeiro, a varanda, com área de 15 m², possui um peitoril de madeira e piso de chão batido; o segundo é uma área interna para o convívio reservado, com 15 m², separada da varanda por uma porta, piso de madeira, impedindo o uso do fogo neste ambiente; os outros dois ambientes são dormitórios, com 7,5 m² cada um, configurados por paredes de madeira e piso, também de tábuas, elevado 17 cm do solo. Os dormitórios possuem portas encerrando os ambientes. As esquadrias foram confeccionadas na obra, também com eucalipto, e fixadas por dobradiças (ZANIN,

2006).

A estrutura composta por pilares de toras de eucalipto, que receberam tratamento superficial com asfalto

(piche). Na fundação são utilizadas toras de madeira de 20 cm de diâmetro e 100 cm de comprimento, ficando enterradas 70 cm. Acima delas são colocadas vigas, onde se engastam os pilares entalhados; fechamento das paredes com tábuas de madeira beneficiadas, vedadas com mata-junta, pelo lado externo; piso de assoalho elevado do solo. A cobertura, em telha francesa de barro cozido, é estruturada em tesouras, unidas por vigas e caibros roliços de eucalipto, e apoiadas em ripas. Não apresenta forro. A madeira utilizada na estrutura é proveniente do horto da CEEE (madeira de reflorestamento), tratada, segundo especificações da empresa (CEEE, 2006), com preservativos hidrossolúveis ou óleo solúvel, que podem apresentar riscos à natureza e ao homem (ZANIN, 2006 apud. FAGUNDES, 2003).

3.3.1 PROPOSTA ARQUITETÔNICA

Figura 1: Planta Baixa da unidade habitacional proposta pelo Governo RS Figura 2: Corte Figura

Figura 1: Planta Baixa da unidade habitacional proposta pelo Governo RS

Baixa da unidade habitacional proposta pelo Governo RS Figura 2: Corte Figura 4: Vista frontal e

Figura 2: Corte

habitacional proposta pelo Governo RS Figura 2: Corte Figura 4: Vista frontal e lateral da habitação.

Figura 4: Vista frontal e lateral da habitação.

2: Corte Figura 4: Vista frontal e lateral da habitação. Figura 3: Fachada Figura 5: Vista

Figura 3: Fachada

Figura 4: Vista frontal e lateral da habitação. Figura 3: Fachada Figura 5: Vista dos fundos

Figura 5: Vista dos fundos e lateral da habitação

4.

PROPOSTAS DESENVOLVIDAS NA UNIVERSIDADE

No primeiro semestre de 2005 foi apresentada a proposta de desenvolvimento de estudos preliminares para a habitação Mbyá Guarani aos dez estudantes matriculados na disciplina ARQ 01020 da Faculdade

de Arquitetura e Urbanismo / UFRGS. Dentre estes, o trabalho realizado pelo estudante Oliver Heizmann,

posteriormente denominado CASA TATU, foi selecionado pela comunidade daquela etnia e pelo Governo do Estado do Rio Grande do Sul para ser executado na aldeia Anhetenguá, localizada na Lomba do

Pinheiro – Porto Alegre / RS / Brasil.

4.1 CASA TATU

A proposta do estudante teve como inspiração as formas arquitetônicas indígenas encontradas na

bibliografia (figura 6), as formas de animais que representam a tradição Mbyá Guarani (figura 7), caracterizando sua forte conexão com os elementos naturais, assim como a utilização de matérias-primas

também naturais (figura 8).

de matérias-primas também naturais (figura 8). F i g u r a 6 : H a

Figura 6: Habitação Yawalapiti

H a b i t a ç ã o Y a w a l a p

Figura 7: Tatu

a ç ã o Y a w a l a p i t i Figura 7:

Figura 8: Materiais naturais - arquiteto Irme Macovecz, Hungria

Os aspectos construtivos adotados contemplam a estrutura de madeira de eucalipto, executada com tábuas pregadas duas a duas, configurando pórticos que fazem a estrutura da cobertura e das paredes (figura 9) sendo estes, fixados sobre dois pilares de madeira - tratados em autoclave pela CEEE - enterrados no solo. A base da construção proposta com a utilização de super-adobe (figura 10), técnica que utiliza barro ensacado e compactado. As paredes poderiam receber o revestimento em barro, técnica denominada taipa de mão (figura 11), muito utilizada pelos Mbyá Guarani na construção de suas casas tradicionais ou o mesmo material definido para a cobertura, capim Santa Fé ou cavacos de madeira (figura 12).

capim Santa Fé ou cavacos de madeira (figura 12). Figura 9: Forma estrutura Figura 10: Figura
capim Santa Fé ou cavacos de madeira (figura 12). Figura 9: Forma estrutura Figura 10: Figura
capim Santa Fé ou cavacos de madeira (figura 12). Figura 9: Forma estrutura Figura 10: Figura
capim Santa Fé ou cavacos de madeira (figura 12). Figura 9: Forma estrutura Figura 10: Figura

Figura 9: Forma estrutura

Figura 10:

Figura 11: Taipa de mão

Figura 12: Cavacos de madeira

Super-adobe

4.1.1 PROPOSTA ARQUITETÔNICA

Figura 13: Planta baixa Figura 14: Corte longitudinal Figura 15: Corte transversal - dormitório

Figura 13: Planta baixa

Figura 13: Planta baixa Figura 14: Corte longitudinal Figura 15: Corte transversal - dormitório

Figura 14: Corte longitudinal

Figura 13: Planta baixa Figura 14: Corte longitudinal Figura 15: Corte transversal - dormitório

Figura 15: Corte transversal - dormitório

Figura 16: Corte transversal - área social Figura 17: Fachada Figura 18: Fachada lateral

Figura 16: Corte transversal - área social

Figura 16: Corte transversal - área social Figura 17: Fachada Figura 18: Fachada lateral

Figura 17: Fachada

Figura 16: Corte transversal - área social Figura 17: Fachada Figura 18: Fachada lateral

Figura 18: Fachada lateral

Figura 19: Processo construtivo “Passo a passo” Figura 20: maquete 4.1.2 EXECUÇÃO Após o desenvolvimento

Figura 19: Processo construtivo “Passo a passo”

Figura 19: Processo construtivo “Passo a passo” Figura 20: maquete 4.1.2 EXECUÇÃO Após o desenvolvimento do

Figura 20: maquete

4.1.2

EXECUÇÃO

Após o desenvolvimento do estudo preliminar, o projeto acadêmico foi apresentado para o representante das comunidades Mbyá Guarani do Rio Grande do Sul e para o órgão competente. Para dar início à execução, o projeto executivo foi detalhado e quantificado pela Secretaria de Habitação. Esta etapa teve início em 2006, sendo o financiamento para execução da obra proveniente de recursos disponibilizados pelo Governo. Ao final do ano de 2006, devido a troca de gestão no Estado, a obra foi paralisada e permanece inacabada.

no Estado, a obra foi paralisada e permanece inacabada. Figura 21: Definições de marcação da obra

Figura 21: Definições de marcação da obra

inacabada. Figura 21: Definições de marcação da obra Figura 25: Montagem Figura 22: Marcação da obra

Figura 25: Montagem

21: Definições de marcação da obra Figura 25: Montagem Figura 22: Marcação da obra Figura 26:

Figura 22: Marcação da obra

da obra Figura 25: Montagem Figura 22: Marcação da obra Figura 26: Pórticos Figura 23: Execução

Figura 26: Pórticos

Montagem Figura 22: Marcação da obra Figura 26: Pórticos Figura 23: Execução das fundações Figura 27:

Figura 23: Execução das fundações

Figura 26: Pórticos Figura 23: Execução das fundações Figura 27: Pilar e pórticos Figura 24: Fundações

Figura 27: Pilar e pórticos

Pórticos Figura 23: Execução das fundações Figura 27: Pilar e pórticos Figura 24: Fundações Figura 28:

Figura 24: Fundações

Pórticos Figura 23: Execução das fundações Figura 27: Pilar e pórticos Figura 24: Fundações Figura 28:

Figura 28: Ripamento

Figura 29: Vista frontal Figura 30: Vista lateral F i g u r a 3

Figura 29: Vista frontal

Figura 29: Vista frontal Figura 30: Vista lateral F i g u r a 3 1

Figura 30: Vista lateral

Figura 29: Vista frontal Figura 30: Vista lateral F i g u r a 3 1

Figura 31: Detalhe executivo

3 1 : D e t a l h e e x e c u t

Figura 2: Estágio atual

5. DEPOIMENTOS DE DOIS DOS ESTUDANTES MATRICULADOS NA DISCIPLINA ARQ 01020

5.1 CECÍLIA ROCHA

“O trabalho desenvolvido na turma C da disciplina de Projeto Arquitetônico VII no semestre de 2005/1 (FA/UFRGS) constitui um exercício de projeto singular e atípico, se comparado àqueles realizados nas Disciplinas de Projeto anteriores. Inicialmente, o tema em si (unidade habitacional indígena) pareceu simples e até mesmo singelo demais para ser desenvolvido por estudantes de arquitetura, em final de curso. No entanto, as particularidades envolvidas nesse trabalho (como por exemplo, entendimento e avaliação dos traços fundamentais e características da sociedade Mbyá Guarani), assim como as restrições financeiras e técnicas envolvidas no trabalho, fizeram com que o projeto se tornasse bastante complexo e ao mesmo tempo mais instigante do que inicialmente esperado. A existência de todos esses condicionantes de diferentes naturezas, fez com que o trabalho fosse desenvolvido embasado em muita pesquisa técnica sobre os mais diversos temas, de forma que todas as decisões de projeto estivessem conceitualmente e tecnicamente bem fundamentadas. Cada decisão arquitetônica deveria considerar

minuciosamente os prós, os contras e suas conseqüências e, sobretudo, possuir uma justificativa objetiva

e racional para tal. Com isso, esse trabalho exigiu um grande envolvimento e dedicação, assim como

uma pesquisa e revisão bibliográfica intensas. Considero que foi uma experiência válida e proveitosa,

especialmente por ter explorado o processo de pesquisa e fundamentação teórica e técnica, fundamental para o processo de desenvolvimento de projetos.”

5.2 OLIVER HEIZMANN

“A experiência de conhecer uma cultura completamente diferente foi muito interessante. Nós conhecemos

um outro modo de pensamento e de vida e precisamos aderir, parcialmente, a novas necessidades. Diante disso, temas como estética e conforto mostram um aspecto diferente. Ao mesmo tempo as

reflexões da arquitetura contemporânea de nossa cultura "civilizada" se enriquecem de aspectos novos.

O intercâmbio com representantes da tribo Guarani e com especialistas em construções de madeira,

bambu e terra foi muito esclarecedor e interessante, e foi para os estudantes um bom exercício para

executar projetos em diferentes áreas que necessitaram de um planejamento integrado. Penso que para este projeto seja importante a elaboração de conceitos sustentáveis, que levem em conta todas as fases da obra. A integração dos próprios indígenas nas próximas fases de realização seria importante e desejável. Assim, partes da produção poderiam ser realizadas pelos Guarani, criando uma maior identificação com a sua própria obra. Tanto os trabalhos de técnicas em taipa de mão, sapé e capim, quanto à produção e montagem dos cavacos da madeira, serviriam para a integração do povo indígena. Naturalmente, dever-se-ia considerar uma remuneração adequada para cobrir custos. Espero que com minha proposta tenha prestado uma pequena contribuição neste projeto. Gostaria, também, de agradecer

a todos que estiveram engajados na disciplina, pela cooperação e apoio, permitindo assim minha participação.”

6. CONCLUSÃO

“O indígena brasileiro tem pouca chance de sobreviver. Cerca de mais de dois milhões de indivíduos na época do descobrimento estão reduzidos a 180 mil, atualmente. Das tribos que existiam, temos hoje

Desse total, pouco mais de ¼ (27%) conservam-se

isolados e enquanto assim se mantiverem poderão resistir. Os demais, massacrados pela sociedade de consumo, inseguros pela ridicularização de seu patrimônio cultural, espoliados de suas terras, vivem acuados, esmolando pelas estradas, à espera de um fim que não demorará. Embora a extinção do índio

seja feita à revelia do governo, que oficialmente nega esse extermínio, é difícil tentar impedi-la. Suas terras são disputadas por companhias multinacionais de agropecuária que dispõem de meios sutis para expulsá-los e assim levá-los à mingua. Outras vezes, sua localização geográfica fere os ‘interesses

nacionais’ e por isso são transferidos das terras que ocupam

vezes bem sucedida”. (Antunes, C., Calendário Julho, Paulinas Editora, 1980). Ao término da elaboração da pesquisa constata-se, de uma maneira geral, que estudos de novas alternativas para a execução de projetos habitacionais indígenas se fazem prementes. Face à necessidade da ampliação do conhecimento nesta obscurecida área, não permite demora o desenvolvimento de novos estudos, de tal forma que o alargamento de informações repercutam no aprimoramento qualitativo de projetos alternativos habitacionais e, por conseqüência, no aprimoramento da qualidade de vida dos índios Mbyá Guarani, foco desta proposta. Para que sejam alcançados estes objetivos pode-se sugerir o desenvolvimento de novos estudos, tais como:

e essa transferência tem sido poucas

apenas 91 grupos conhecidos na Amazônia

Investigação junto às Instituições de Ensino Superior sobre a problemática da habitação indígena; Avaliação dos conceitos emitidos pelos pesquisadores das IES responsáveis pelos estudos a respeito da civilização Guarani e avaliação da abrangência de sua discussão;

Procedimentos sugeridos pelos docentes das IES em relação às unidades habitacionais Guarani;

Levantamento do nível de informações, junto aos corpos docentes das IES, dos estudos realizados a respeito da habitação para os Mbyá Guarani;

Investigação dos trabalhos desenvolvidos pelas IES quanto aos conceitos utilizados nos projetos de habitação indígena Mbyá Guarani: observância aos preceitos culturais, sociológicos e religiosos, anseios das comunidades, tradição tecnológica indígena, discriminação dos materiais e aspectos construtivos.

7. BIBLIOGRAFIA CONSULTADA

BORGES, Paulo Humberto Porto. Caderno CEDES 56 – UNICAMP. COSTA, C.Z. O desenho cultural da arquitetura guarani. In: Pós: Revista do Programa de Pós-graduação em Aquitetura e Urbanismo da FAUUSP. São Paulo, n. 4, p. 113-130, dez. 1993. DE ALMEIDA, Rubem F. Thomaz. Relatório sobre a situação dos Guarani-Mbyá do Rio Grande do Sul: a questão de terras. Rio de Janeiro: Fundação Nacional do Índio, datilografado. 1985. FELIPIN, Adriana Perez: O sistema agrícola mbyá e seus cultivares de milho. Escola Superior de Agricultura “Luiz de Queiroz”, Universidade de São Paulo, 2001. Tese de mestrado. Orientador: Dr. Oriowaldo Queda. GARLET, Ivori José. Mobilidade Mbyá: História e Significação. Porto Alegre, 1997. LADEIRA, M.; MATTA, P. Terras Guarani no Litoral: as matas que foram reveladas aos nossos antigos avós. São Paulo: Centro de Trabalho Indigenista, 2004. LADEIRA, Maria Inês. Necessidades de novas políticas para o reconhecimento do território Guarani. /Apresentado ao 49º Congresso Internacional de Americanistas, Quito, 1997. LADEIRA, Maria Inês. O Caminhar Sob a Luz – O Território Mbyá à Beira do Oceano. São Paulo, 1992. MELIA, Bartolomeu. GRUNBERG, George. GRUNBERG, Friedl. Los Pai-Tavyterã – etnografia guarani del Paraguay contemporâneo. Asunción: Centro de Estudos Antropológicos, 1976. NOVAES, Sylvia Caiuby (org). Habitações Indígenas. São Paulo: Nobel, 1983. PROJETO HABITAT INDÍGENA. Caderno Projeto Habitat Indígena. 2000. RIBEIRO, Darcy. O Povo Brasileiro. São Paulo: Companhia das Letras, 1996. SCHADEN, Egon. Aspectos fundamentais da cultura Guaraní.Teoria psicológica retirada dos Mbyá da aldeia de Rio Branco. ZANIN, N.Z.; SATTLER, M.A. Abrigo na natureza: sustentabilidade na habitação Mbyá-Guarani frente às intervenções externas. Artigo para o XI Encontro Nacional de Tecnologia do Ambiente Construído (ENTAC). Ago. 2006.