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RESUMO - CRIMINOLOGIA 1. SISTEMA PENITENCIÁRIO BRASILEIRO 1.

OS PROBLEMAS RELACIONADOS À SAÚDE NO SISTEMA PENITENCIÁRIO A superlotação das celas, sua precariedade e sua insalubridade tornam as prisões num ambiente propício à proliferação de epidemias e ao contágio de doenças. Todos esses fatores estruturais aliados ainda à má alimentação dos presos, seu sedentarismo, o uso de drogas, a falta de higiene e toda a lugubridade da prisão, fazem com que um preso que adentrou lá numa condição sadia, de lá não saia sem ser acometido de uma doença ou com sua resistência física e saúde fragilizadas. As mais comuns são as doenças do aparelho respiratório, como a tuberculose e a pneumonia. alto o índice da hepatite e de doenças venéreas em geral, a AIDS por excelência. aproximadamente 20% dos presos brasileiros sejam portadores do HIV, principalmente em decorrência do homossexualismo, da violência sexual praticada por parte dos outros presos e do uso de drogas injetáveis. grande número de presos portadores de distúrbios mentais, de câncer, hanseníase e com deficiências físicas (paralíticos e semiparalíticos). Não há tratamento médico-hospitalar dentro da maioria das prisões. Para serem removidos para os hospitais os presos dependem de escolta da PM, a qual na maioria das vezes é demorada, pois depende de disponibilidade. Quando o preso doente é levado para ser atendido, há ainda o risco de não haver mais uma vaga disponível para o seu atendimento, em razão da igual precariedade do nosso sistema público de saúde. dupla penalização: a pena de prisão propriamente dita e o lamentável estado de saúde que ele adquire durante a sua permanência no cárcere. descumprimento dos dispositivos da Lei de Execução Penal, a qual prevê no inciso VII do artigo 40 o direito à saúde por parte do preso, como uma obrigação do Estado. descumprimento Lei de Execução Penal, quanto à saúde do preso, é relativo ao cumprimento da pena em regime domiciliar pelo preso sentenciado e acometido de grave enfermidade (conforme artigo 117, inciso II). a pena não apenas perde o seu caráter ressocializador, mas também estaria sendo descumprindo um princípio geral do direito, consagrado pelo artigo 5º da Lei de Introdução ao Código Civil, o qual também é aplicável subsidiariamente à esfera criminal, e por via de conseqüência, à execução penal, que em seu texto dispõe que "na aplicação da lei o juiz atenderá aos fins sociais a que ela se dirige e às exigências do bem comum". 2. DIREITOS HUMANOS DO PRESO E GARANTIAS LEGAIS NA EXECUÇÃO DA PENA PRIVATIVA DE LIBERDADE As garantias legais previstas durante a execução da pena, assim como os direitos humanos do preso estão previstos em diversos estatutos legais. Em nível mundial existem várias convenções como a Declaração Universal dos Direitos Humanos, a Declaração Americana de Direitos e Deveres do Homem e a Resolução da ONU que prevê as Regras Mínimas para o Tratamento do Preso.

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A Constituição Federal de 1988 reservou 32 incisos do artigo 5º, que trata das garantias fundamentais do cidadão, destinados à proteção das garantias do homem preso. Existe ainda em legislação específica - a Lei de Execução Penal - os incisos de I a XV do artigo 41, que dispõe sobre os direitos infraconstitucionais garantidos ao sentenciado no decorrer na execução penal. No campo legislativo, nosso estatuto executivo-penal é tido como um dos mais avançados e democráticos existentes. Se baseia na idéia de que a execução da pena privativa de liberdade deve ter por base o princípio da humanidade, sendo que qualquer modalidade de punição desnecessária, cruel ou degradante será de natureza desumana e contrária ao princípio da legalidade. No entanto, o que tem ocorrido é a constante violação dos direitos e a total inobservância das garantias legais previstas na execução das penas privativas de liberdade. A partir do momento em que o preso passa à tutela do Estado ele não perde apenas o seu direito de liberdade, mas também todos os outros direitos fundamentais que não foram atingidos pela sentença, passando a ter um tratamento execrável e a sofrer os mais variados tipos de castigos que acarretam a degradação de sua personalidade e a perda de sua dignidade, num processo que não oferece quaisquer condições de preparar o seu retorno útil à sociedade. Dentro da prisão, dentre várias outras garantias que são desrespeitadas, o preso sofre principalmente com a prática de torturas e de agressões físicas que partem tanto dos outros presos como dos próprios agentes da administração prisional. Após serem dominados, os amotinados sofrem a chamada "correição", que nada mais é do que o espancamento que acontece após a contenção dessas insurreições, o qual tem a natureza de castigo. Muitas vezes esse espancamento extrapola e termina em execução, como no caso que não poderia deixar de ser citado do "massacre" do Carandiru, em São Paulo, no ano 1992, no qual oficialmente foram executados 111 presos. Entre os próprios presos a prática de atos violentos e a impunidade ocorrem de forma ainda mais exacerbada. A ocorrência de homicídios, abusos sexuais, espancamentos e extorsões são uma prática comum por parte dos presos que já estão mais "criminalizados" dentro do ambiente da prisão e que, em razão disso, exercem um domínio sobre os demais presos, que acabam subordinados a essa hierarquia paralela. Contribui para esse quadro o fato de não serem separados os marginais contumazes e sentenciados a longas penas dos condenados primários. Os presos que detém esses poder paralelo dentro da prisão, não são denunciados e, na maioria das vezes também permanecem impunes em relação à suas atitudes. Isso pelo fato de que, dentro da prisão, além da "lei do mais forte" também impera a "lei do silêncio". Outra violação cometida é a demora em se conceder os benefícios àqueles que já fazem jus à progressão de regime ou de serem colocados em liberdade os presos que já saldaram o cômputo de sua pena. A sociedade não pode esquecer que 95% do contingente carcerário, ou seja, a sua esmagadora maioria, é oriunda da classe dos excluídos sociais, pobres, desempregados e analfabetos, que, de certa forma, na maioria das vezes, foram "empurrados" ao crime por não terem tido melhores oportunidades sociais.

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O que se pretende com a efetivação e aplicação das garantias legais e constitucionais na execução da pena, assim como o respeito aos direitos do preso, é que seja respeitado e cumprido o princípio da legalidade, corolário do nosso Estado Democrático de Direito, tendo como objetivo maior o de se instrumentalizar a função ressocializadora da pena privativa de liberdade, no intuito de reintegrar o recluso ao meio social, visando assim obter a pacificação social, premissa maior do Direito Penal. 3. AS REBELIÕES E AS FUGAS DE PRESOS A conjugação de todos esses fatores negativos aliados à falta de segurança das prisões e ao ócio dos detentos, leva à deflagração de outro grave problema do sistema carcerário brasileiro: as rebeliões e as fugas de presos. As rebeliões, nada mais são do que um grito de reivindicação de seus direitos e de uma forma de chamar a atenção das autoridades quanto à situação subumana na qual eles são submetidos dentro das prisões. As fugas, podem ser associada à falta de segurança dos estabelecimentos prisionais aliada à atuação das organizações criminosas, e infelizmente, também pela corrupção praticada por parte de policiais e de agentes da administração prisional. De acordo com números do último censo penitenciário, cerca de 40% dos presos estão sob a guarda da polícia civil, ou seja, cumprindo pena nos distritos policiais. Estes não são locais adequados para o cumprimento da pena de reclusão. Isso tem ocorrido em virtude da ausência ou da insuficiência de cadeias públicas e de presídios em nosso sistema carcerário. Nesses estabelecimentos, não há possibilidade de trabalho ou de estudo por parte do preso e, a superlotação das celas é ainda mais acentuada, chegando a ser em média de 5 presos para cada vaga, quando nas penitenciárias a média é de 3,3 presos/vaga. As instalações nesses estabelecimentos são precárias, inseguras, e os agentes responsáveis pela sua administração não tem muito preparo para a função, e muitas vezes o que se tem visto é a facilitação por parte desses funcionários para a fuga de detentos ou para que estes possam ser arrebatados por membros de sua organização criminosa. Ressalte-se ainda que a Lei dos Crimes Hediondos veio a agravar ainda mais essa situação, em razão de que os vários crimes por ela elencados como seqüestro, homicídio e o assalto à mão armada, passaram a não ter mais o benefício legal da progressão de regime, fazendo com que o sentenciado cumpra a pena relativa a esses crimes integralmente em regime fechado. Todos esses fatores fazem com que não se passe um dia em nosso país sem termos notícia da ocorrência de uma rebelião de presos, mesmo que seja ela de pequenas proporções. No que se refere às fugas, em análise à todos as falhas existentes dentro de nosso sistema carcerário e ainda levando-se em conta o martírio pelo qual os presos são submetidos dentro das prisões, não há que se exigir uma conduta diversa por parte dos reclusos, se não a de diuturnamente planejar numa forma de fugir desse inferno. Não se pode olvidar também que a liberdade é um anseio irreprimível do ser humano, não se podendo esperar que por si só, o preso venha a conformar-se com o estado de confinamento, mormente da forma pela qual a privação de sua liberdade é executada em nosso sistema carcerário. 4. A FALÊNCIA DA POLÍTICA PRISIONAL COMO CONSEQÜÊNCIA DO MODELO ECONÔMICO EXCLUDENTE Podemos traçar um paralelo entre a escalada dos índices de criminalidade e o modelo econômico neoliberal Página 3 de 34

por não ter melhores opções. ocasionando assim o aumento da criminalidade. Como exemplo da política neoliberal. é a idéia de que as camadas menos favorecidas da população devem trabalhar e se adequarem ao sistema econômico vigente. O estigma de exdetento e o total desamparo pelas autoridades faz com que o egresso do sistema carcerário torne-se marginalizado no meio social. e. acabam retornando à prisão. o sistema penal e. conseqüentemente. Calcula-se que no Brasil. não permite vislumbrarmos uma expectativa de melhoria do sistema penitenciário e nem uma redução dos índices de criminalidade se não for revisto o modelo de política econômica e social atualmente implementado pelos governantes de nosso país. será a criação de uma grande massa de desempregados. A acepção legal da palavra egresso é definida pela própria Lei de Execução Penal. É inegável que. o que eufemisticamente tem sido de chamado de "flexibilização das relações de trabalho". além da intervenção minimizada da economia. conseqüentemente o sistema prisional têm.adotado por nosso governo. que foi feito para se amoldar à ideologia das classes dominantes. O resultado dessa política neoliberal. ainda que este os trate com descaso. que são os miseráveis que acabam não resistindo à pobreza e acabam sucumbindo às tentações do crime e tornando-se delinqüentes. Trata-se de um pensamento oriundo da filosofia capitalista. Dentro dessa lógica. em média. que na verdade se traduzem em sua maioria nos grandes grupos econômicos e também na elite dominante de nosso país. Essa realidade é um reflexo direto do tratamento e das condições a que o condenado foi submetido no ambiente prisional durante o seu encarceramento. na verdade. o que acaba o levando de volta ao mundo do crime. Também é equiparado ao egresso o sentenciado que adquire a liberdade Página 4 de 34 . que em seu artigo 26 considera egresso o condenado libertado definitivamente. que acabará refletindo num crescimento da demanda do contingente do sistema prisional. pelo fato de o crime tratar-se de um fato social. um caráter eminentemente seletivo. Assim. e que tem como principal resultado a acentuação da concentração de renda e o aumento da desigualdade social entre ricos e pobres. A essência deste pensamento. 5. estando estatística e estruturalmente direcionado às camadas menos favorecidas da sociedade. tanto a lei penal como as prisões. pelo prazo de um ano após sua saída do estabelecimento prisional. podemos citar em nosso país atualmente a intenção do governo em minimizar as normas protetivas ao trabalhador. aliadas ainda ao sentimento de rejeição e de indiferença sob o qual ele é tratado pela sociedade e pelo próprio Estado ao readquirir sua liberdade. estariam servindo de instrumento para conter aqueles não "adequados" às exigências do modelo econômico neoliberal excludente. A REINCIDÊNCIA DO EGRESSO COMO CONSEQÜÊNCIA DA INEFICÁCIA DA RESSOCIALIZAÇÃO DO SISTEMA PENITENCIÁRIO A comprovação de que a pena privativa de liberdade não se revelou como remédio eficaz para ressocializar o homem preso comprova-se pelo elevado índice de reincidência dos criminosos oriundos do sistema carcerário. sendo que estes últimos acabam ficando lançados a sua própria sorte. o Direito Penal. estariam materializando a doutrina de Karl Marx. segundo a qual o direito nada mais é do que instrumento que serviria à manutenção do domínio pelas classes dominantes. assim como as prisões. a falência do sistema prisional e o modelo econômico neoliberal. o que tende a deixar o corpo social ainda mais intranqüilo e marginalizado. 90% dos ex-detentos que retornam à sociedade voltam a delinqüir. Dessa forma. o aumento da criminalidade venha a refletir diretamente a situação do quadro social no qual se encontra o país. que na verdade nada mais é do que a política de deixar os empregados (que são a parte hiposuficente da relação trabalhista) sob o jugo e arbítrio dos empregadores.

Ano III. 1999. São Paulo. Revista Consulex. ou a cessação do período de prova.br/new/jengine. 44-46. os quais não tem lhe dado a importância merecida. 31. 19-21. Representante na cidade de Londrina da Associação Brasileira de Advogados ABA. Revista Consulex. BOLSANELLO. 1998. A incumbência da efetivação desses direitos do egresso é de responsabilidade do Patronato Penitenciário. tem como finalidade principal promover a sua recolocação no mercado de trabalho. ed. 20. pois os fatores que ocasionam esse problema são em grande parte devidos ao ambiente criminógeno da prisão durante o período de encarceramento. A sociedade e as autoridades devem conscientizar-se de que a principal solução para o problema da reincidência passa pela adoção de uma política de apoio ao egresso. Forense. Panorama dos processos de reabilitação de presos. 24-28. n. 1. São Paulo. Augusto. https://secure. p. n. p. o egresso desassistido de hoje continuará sendo o criminoso reincidente de amanhã. n. Cézar Roberto. 1991. 1999. Credenciado pela OAB/PR E10. p. tendo seus direitos previstos nos artigos 25. A assistência pró-egresso não é uma solução ao problema da reincidência dos ex-detentos.exe/cpag?p=jornaldetalhedoutrina&ID=35708&Id_Cliente=29795 2. Sistema penal brasileiro: execução das penas no Brasil. 2. 6.jurid.433. 2002. Graduando em Direito pela Faculdade Metropolitana IESB (Instituto de Educação Superior de Brasília. ed. ed. de. ed. 1. D'URSO. Página 5 de 34 . ed. Rio de Janeiro. Revista dos Tribunais. Rene Ariel. Cesare. JUNIOR. 26 e 27 da Lei de Execução Penal. 1998. 1. Edipro. O egresso tem um amplo amparo. Dos delitos e das penas. 3. bem como a assistência legal dela advinda. Ago. São Paulo. Damásio E. Bases alternativas para um sistema de penas. João Tavares de Lima. REFERÊNCIAS BECCARIA. DOTTI. João Marcelo de Araújo. não lhe destinando os recursos necessários. Notas: * Rafael Damaceno de Assis. fazendo com que seja efetivado o previsto na Lei de Execução Penal. esse homem perde então a qualificação jurídica de egresso. o trabalho sistemático sob a pessoa do egresso minimizaria os efeitos degradantes por ele sofridos durante o cárcere e facilitaria a readaptação de seu retorno ao convívio social. Rio de Janeiro. 1997. Ruan. ABOLICIONISMO CRIMINAL ANTONIO DE PÁDOVA MARCHI JUNIOR. A Questão penitenciária. Após o decurso do prazo de um ano. pois a permanecer da forma atual. Revista Consulex. No entanto. Privatização de Presídios. Privatização das prisões. PROCURADOR DE JUSTIÇA MESTRANDO EM CIÊNCIAS PENAIS PELA UNIVERSIDADE FEDERAL DE MINAS GERAIS. Jul. assistência social para auxiliar-lhe na obtenção de emprego e inclusive alojamento e alimentação em estabelecimento adequado nos primeiros dois meses de sua liberdade. Luiz Flávio Borges. O Patronato. Revista dos Tribunais.) Vice-Presidente do Centro Acadêmico Dr. Elio. Ano I.condicional durante o seu período de prova. Falência da pena de prisão. órgão do poder executivo estadual e integrante dos órgãos da execução penal. BITENCOURT. Ano II. impossibilitando assim que ele efetive suas atribuições previstas em lei. JESUS. 3. a prestação de assistência jurídica. É um órgão que tem um papel fundamental dentro da reinserção social do ex-detento. 1993.com. Esses dispositivos prevêem orientação para sua reintegração à sociedade. THOMPSON. O cumprimento do importante papel do Patronato tem encontrado obstáculo na falta de interesse político dos governos estaduais. Jan. pedagógica e psicológica.

enquanto não abolida. propondo não apenas a extinção da pena. Neste sentido. Partindo da premissa de que os conflitos sociais só podem ser solucionados a partir do envolvimento de todas as partes neles envolvidas. Tal pensamento conceitua o sistema penal como um mal social que cria mais problemas do que resolve. assinala Zaffaroni a preferência marxista de Thomas Mathiesen. que. devendo. tal como a instituição policial. o abolicionismo recusa validez e legitimidade a todos os princípios ligados à teoria do delito. nem o limpa de culpa para um retorno à vida da sociedade. As doutrinas abolicionistas impugnam como ilegítimo o direito penal e consideram vantajosa a abolição da forma jurídico-penal da sanção punitiva para dar lugar às medidas pedagógicas e outros meios informais de controle social. Introdução O sistema penal. a reparação do dano causado tanto à vítima como à comunidade e. o encarceramento do homem não o melhora. ou do direito penal. A proposta abolicionista procura satisfazer diversas expectativas sociais durante a solução do problema criminal. tais como a conciliação entre os envolvidos. A proposta abolicionista. a pacificação das relações sociais. ser ansiosamente desejada para o futuro. contra-arrestou os pilares de sustentação do sistema penal. devendo ser abolido para dar vida às comunidades. A latente legitimidade moral das doutrinas penais dominantes permaneceu incólume até o surgimento do ponto de vista abolicionista. exigindo réplicas moralmente satisfatórias e logicamente pertinentes ao raciocínio pelo qual se conclui que a soma dos sacrifícios que requer é superior às vantagens que proporciona. deve corresponder ao princípio da intervenção mínima. às instituições e aos homens. fracassou nos mais diversos países e em diferentes épocas. de suscitar suas investigações acerca da origem sociocultural do desvio e da relatividade histórica e política dos interesses penalmente protegidos. exigindo o aprimoramento das instituições e absoluto respeito às garantias do homem. Conceito. cujos contornos principais foram também abordados. não se encontra suficientemente madura para ser executada nos dias de hoje. o Ministério Público.I. a instituição judiciária e a instituição penitenciária. por haver se posicionado ao lado de quem sofre a dor da pena. a fenomenológica de Louk Hulsman. contudo. teve o mérito de favorecer a autonomia da criminologia crítica. a estruturalista de Michel Foucault e a fenomenológico-historicista de Nils Christie. nem o aperfeiçoa. embora correta. Deslegitimando o direito penal os abolicionistas impõem ao direito penal uma grande "carga de justificação". como método para prevenir o crime e ressocializar o criminoso. nem corrige a falha cometida. a solução punitiva. mas a abolição de todo o sistema de justiça penal. II. O abolicionismo. Para Evandro Lins e Silva. Página 6 de 34 . Por importar sempre num grau considerável de violência e de irracionalidade. principalmente. Por sistema penal entendemos o grupo de instituições encarregadas de realizar o Direito Penal. As propostas abolicionistas variam de acordo com os métodos e pressupostos filosóficos de seus defensores. inadmitindo qualquer fim justificador dos sofrimentos por ele ocasionados.

Pretende-se substituir o sistema penal por instâncias intermediárias ou individualizadas de solução de conflitos que atendam às necessidades reais das pessoas envolvidas.) ou predominantemente não-legal. de assistência material ou psicológica. é preciso procurar um médico. da convicção de que o crime é um conflito interpessoal e que sua solução efetiva. subscrevendo-se sob a política soberana do medo. etc.". para permitir um gesto como esse. conciliação. o abolicionismo investe na prática analítica da persuasão que privilegia o acordo generoso baseado na argumentação. administrativo. o movimento abolicionista não se refere a sanções alternativas mas em alternativas para o processo de justiça criminal. O estudante número dois. responde. sempre através de vias alternativas ao sistema legal. mediação e reparação passam a um primeiro plano como mecanismos substitutivos e alternativos. O exemplo demonstra que se deixarmos a solução de um conflito para as pessoas diretamente envolvidas vários estilos de controle social surgirão ao lado do modelo punitivo. deve ser encontrada pelos próprios implicados em lugar de ser imposta pelo sistema legal com critérios formalistas e elevado custo social. que não se reduz à instrumentalidade técnica.Tal modelo prevê considerável flexibilidade quanto aos procedimentos adotados para a consecução do objetivo almejado. O quarto estudante. grita: "Ele está evidentemente doente. que podem ser de natureza predominantemente legal (direito civil. analisando o acontecido à sua maneira. mas alguma coisa deve estar errada em nossa comunidade. pois. um deles se arremessa contra a televisão e a danifica. educativas. Como se percebe. No pensamento abolicionista. reivindicando um tratamento civilizado do delito (à margem do sistema legal) com critérios não-repressivos. Parte-se. O movimento abolicionista propõe como alternativas ao direito penal a criação de microorganismos sociais baseados na solidariedade e fraternidade. etc. reparatórias. que nenhum deles vai ficar contente. senão reparatórios. pacificadora. cuja aplicação exclui qualquer outra solução. Os modelos de solução de conflitos apresentados. redefinindo as categorias de "crime" e "criminalidade". Salete Magda de Oliveira observa que "enquanto o sistema penal proclama os benefícios do ‘efeito dissuasivo da punição’. furioso. poderá adotar uma atitude diferente. Como reagem seus companheiros? É evidente. objetivando a reapropriação social dos conflitos entre agressores e ofendidos e a criação espontânea de métodos ou formas de composição. quebrando também alguns pratos. Vamos fazer juntos um exame de consciência". mesmo que transitórios. podem ser aplicados isolada ou cumulativamente. diversamente do modelo punitivo. que passariam a ser entendidas como "situações problemáticas" para possibilitar o ajuste efetivo entre elas. Mas cada um. não sendo necessariamente excludentes. à intervenção do Direito Penal clássico e do sistema legal. A "devolução" do conflito às pessoas diretamente implicadas no mesmo e sua solução com recursos extraoficiais não-punitivos são duas propostas-chave em um ideário que proclama a complexidade e diversidade dos conflitos da realidade social cotidiana. entendido como Página 7 de 34 . levá-lo a um psiquiatra. admitindo soluções informais. mas amplia a possibilidade de discussão no cotidiano. tal como medidas terapêuticas. desinstitucionalizadas e comunitárias. Hulsman figura hipótese bastante ilustrativa: cinco estudantes moram juntos e. O último ainda sussurra: "A gente achava que se entendia bem. dirá que não quer morar com o primeiro e fala em expulsá-lo da casa. num determinado momento. traumatizado com o que acabou de presenciar. etc. o terceiro declarará: "O que se tem que fazer é comprar uma nova televisão e outros pratos e ele que pague". Como exemplo das várias reações possíveis em uma dada "situação problemática".

vem conquistando. acabou sendo podado por alguns de seus seguidores. Já no final da década de 80. Por outro lado. IV. III . variando desde o neo marxismo até o liberalismo. como verdadeira medida de segurança contra delinquentes perigosos. um Centro Abolicionista onde promove seminários. o mesmo esteve no Brasil para participar do 1º Encontro Nacional de Execução Penal. substituiu o padrão "etiológico" utilizado pela criminologia positiva pelo padrão do "controle social". preservando o movimento que passou a se mostrar pluralista. discriminação sexual. novos adeptos e retornando ao centro das discussões. A maioria das alternativas para a justiça penal é de natureza não-legal. rompendo com a criminologia positiva e sob a inspiração de teorias sociológicas das mais diversas tendências. que propôs a adoção de penas alternativas em substituição à pena de prisão. belicismo e delitos ecológicos. A resposta dada em uma alternativa à justiça criminal é. a qual. feministas e alternativos. com destaque para Marc Ancel. que veremos adiante. cursos e estudos sobre o movimento. Louk Hulsman construiu em sua casa. Ao contrário. Gramatica deixou ressalvado que não abdicava de suas convicções pessoais acerca do abolicionismo. além de inegável influência tanto na descriminalização de figuras típicas como na aceitação geral do princípio da intervenção mínima. imperialismo. o movimento abolicionista promove regularmente conferências internacionais sobre abolição penal. além de percorrer vários países proferindo palestras. portanto. do racismo. realizado em Brasília/DF. que não prescreve limites para si mesmo ou para a convivência com o risco". A teoria abolicionista não durou muito para que entrasse em processo de crise. tal como ocorre atualmente com os delitos que integram a "cifra negra" da criminalidade. que seria utilizada somente em casos extremos. Origem e desenvolvimento do abolicionismo. paulatinamente. aplicadas pelos próprios indivíduos envolvidos direta ou indiretamente nos eventos problemáticos. A formação dos principais idealizadores do Abolicionismo é muito distinta. que provocaram novas reivindicações de intervenção penal. surgiram movimentos progressistas.prática do próprio pensamento criativo. Em agosto do ano passado. uma resposta a uma situação que tem um "formato" diferente e diferentes "dinâmicas" em relação aos fatos como eles aparecem num contexto da justiça criminal. O movimento iniciado por Gramatica. desde 1983. Em que pese as objeções contemporâneas. Principais críticas formuladas pelo movimento abolicionista ao sistema penal. Embora tenha acatado a proposta da corrente majoritária. em favor do princípio da intervenção mínima. desde o humanismo até o "anti-humanismo". centrados nos grupos ecológicos. sendo certo que a metodologia e a estratégia propostas são também muito diversificadas. a doutrina abolicionista está longe de ser definitivamente suplantada. destacando-se o impulso ao estudo da criminalidade do colarinho branco. Outros autores consideram o abolicionismo penal uma vertente da chamada nova criminologia ou criminologia crítica. Tamanho esforço já provocou alguns avanços sobre a justiça criminal. Página 8 de 34 . quando mais uma vez defendeu seu pensamento. em Dordrecht/Holanda. surgida nos Estados Unidos por volta dos anos 60 e 70.

sendo forçoso reconhecer que a proposta abolicionista é tacitamente admitida ou tolerada. O sistema. resolve os conflitos da maioria das pessoas envolvidas em eventos criminalizáveis. 2. 4. conservando a estrutura vertical de dominação e poder. devem ficar imunes ao processo de criminalização. são de um modo ou outro resolvidos pelas partes envolvidas. etc. A seletividade é uma realidade que deslegitima o sistema penal. que todos nós seríamos reincidentes em práticas delituosas caso a lei fosse cumprida à risca. O sistema penal está estruturado para que. deve-se ao caráter fragmentário do Direito Penal. que é violada de forma aberta e extrema. O processo de seleção começa antes da intervenção do sistema penal. A "cifra negra" da criminalidade. O cárcere representa a "consolidação de uma carreira criminal". injusta. a punição do criminoso como realização da justiça – desmoronam. de fato. Os denominados "crimes do colarinho branco". sem qualquer respaldo legal. escolas. as camadas mais frágeis da população. apesar de perceberem que o desvio de dinheiro público impede a concretização de obras sociais básicas (hospitais. com a discriminação social e escolar. pelo altíssimo número de fatos violentos e de corrupção praticados pelos próprios órgãos do sistema penal. praticados frequentemente por integrantes das classes privilegiadas. transporte. e. correspondentes à denominada cifra negra. sendo impossível determinar-se estatisticamente o número de delitos cometidos que deixam de ingressar no sistema. Eventos criminalizáveis que não são efetivamente criminalizados. etc. O sistema penal atinge. que costumam fundamentar a intervenção do sistema penal – a igualdade perante a lei. com a intervenção dos institutos de controle da desviação dos menores. ou seja.1. não funcione. O sistema penal não atua de acordo com a legalidade.). por isso. a supressão do sistema penal iria unificar a solução adotada diante de um fato definido como crime. atingindo basicamente as pessoas mais vulneráveis do meio social. na prática. os crimes não atingidos pelo sistema penal. Todos os valores ou princípios. basicamente. pois tais eventos não são desconhecidos pelas autoridades responsáveis pelo funcionamento do sistema. Tal constatação. a segurança. não se sensibilizam com a dor e o sofrimento dos integrantes mais débeis da sociedade. Ambos os delitos. cria e reforça as desigualdades sociais. diante desta sua aplicação excepcional. Podemos afirmar. Página 9 de 34 . portanto. enfim. O sistema penal não previne a prática de novos delitos. 3. que atuam mediante uma pré-seleção. sempre receberam tratamento benevolente por parte do legislador. o que se convencionou denominar "cifra negra" da criminalidade. importando-se apenas com seu enriquecimento ilícito. cujos autores. estendendo à parcela minoritária que é alcançada pelo sistema o tratamento não penal que. O sistema penal somente intervém num reduzidíssimo número de casos. que pune intensamente condutas que são típicas dos grupos marginalizados e deixa livre de pena comportamentos gravíssimos e socialmente onerosos só porque seus autores pertencem à classe hegemônica e. se houvesse aparelhamento adequado para combater todos os atos classificados como crimes. aumenta-se o arbítrio seletivo de seus agentes. Por sua vez. O sistema penal tende a privilegiar os interesses da classe dominante. Como resultado do alargamento do campo de atuação do sistema penal. Em outras palavras. pois tipifica uma quantidade de condutas muito superior à capacidade operativa dos órgãos incumbidos da repressão criminal. a um reduzido número de selecionados violadores da lei penal. da assistência social.

Com efeito. cabendo unicamente ao Estado a persecução e aplicação da sanctio juris. enfim.O sistema penal encontra como uma das principais justificativas para a sua existência o que se convencionou chamar de "prevenção geral". uma das funções do sistema penal seria a de impedir uma pseudo vingança particular. pretendendo impor um padrão de conduta ao invés de privilegiar o diálogo. Revelando sua incapacidade de persuadir pelo argumento. todos ficariam intimidados e. o que efetivamente não corresponde à realidade. temerosa de que a abolição do sistema penal possa trazer consequências piores do que as vivenciadas hodiernamente. Isto se deve em boa parte pela maneira como o sistema penal encontra-se arraigado na consciência popular. por apresentar resposta violenta e pública. principalmente nos presídios. de promover um encontro entre as partes envolvidas. O sistema penal intervém de maneira estereotipada tanto sobre o acusado como sobre a vítima. impõe a violência e exibe sua fraqueza. como instância formal de regulação de conflitos. dando ao fenômeno criminal uma resposta insatisfatória e irracional. não há ainda notícias de um Estado que tenha abolido por completo as leis penais. têm razão os criminólogos que se filiam ao grupo denominado "realistas de esquerda" quando afirmam que a supressão do controle social penal atingiria em primeiro lugar a classe dos Página 10 de 34 . ele acaba por estimular a própria violência em outros campos. Prevendo-se a punição em razão da prática de determinados atos. mesmo a opinião do ofendido não possui qualquer relevância para o desfecho do processo criminal. Parte-se do pressuposto de que toda pessoa vitimada deseja vingar-se do agressor. muito embora a vontade do ofendido jamais seja questionada no caso concreto. V – Os principais óbices do movimento abolicionista. proporcionaria maior possibilidade de composição do conflito. mostrando-se incapaz de prevenir a prática de novos delitos. sem uma sociedade que proporcione condições de vida semelhante para a população. o convencimento. Dessa maneira. o povo contenta-se com a idéia de que "lugar de criminoso é na cadeia". ao mesmo tempo que reconhece o mérito da causa abolicionista. desconsiderando a singularidade de cada um. congela no tempo o delito e seus protagonistas. Assim. por isso. Os abolicionistas entendem que este princípio busca educar através do medo. a grande maioria da doutrina lhe formula graves objeções. considerado por muitos como verdadeira "escola do crime". não agiriam da forma considerada reprovável. O sistema penal. com uma equilibrada distribuição de renda e oportunidades. Apesar da proposta sedutora do movimento. Ao lado disso. De fato. o direito penal. torna-se perigoso deixar de defender o regime das garantias legais e constitucionais que regulam o exercício da junção penal no estado de direito. Argumenta-se que o sistema penal supõe que todos os envolvidos (réus e vítimas) têm as mesmas reações e necessidades. atualmente existe um nítido predomínio da concepção de natureza pública do conflito de interesses penal. valorando especialmente a expectativa do ofendido. os abolicionistas entendem que. insensível à falência dos princípios que legitimam a pena e distante dos problemas decorrentes da prisão. Nesse aspecto. 5. sendo a sanção pública de atribuição estatal. A proposta abolicionista. dando ênfase ao caráter vingativo da punição. Na verdade. na grande maioria dos casos. a argumentação. Além de rejeitar o sistema penal como inibidor da criminalidade.

diante do mal praticado. porque o agressor pode ser absolvido. conflitiva e desigual. o controle social seja regido por técnicas mais repressivas e irracionais. se a proposta abolicionista falhar haverá um inevitável retrocesso com a perda de importantes conquistas obtidas duramente ao longo dos anos. sem que isto. administrativo e outros. coletiva. Outra objeção feita ao abolicionismo prevê a eclosão de reações vingativas descontroladas contra crimes praticados com violência. o que de certa forma contraria o argumento dos adversários do abolicionismo. atuando após o fato-crime. atinge apenas o agente que espontaneamente optou por realizar a conduta proibida por lei. formada por cidadãos capazes de resolver seus conflitos de maneira racional. como o princípio da legalidade e do devido processo legal. Página 11 de 34 . estupro. o controle social exigiria tamanha intervenção disciplinar que restringiria a liberdade e a privacidade de todos. diante das enormes dificuldades impostas pela atual estrutura de poder à proposta abolicionista. apesar do sofrimento imposto pelo sistema penal. pode ser apenas simbólica. o direito penal mínimo é uma alternativa progressista frente a proposta abolicionista. Nesse aspecto. se traduza numa repressão maior. Da inaplicabilidade momentânea do abolicionismo penal. Esse novo modelo deve anteceder a abolição do sistema penal. não negocia nem faz pacto quem quer. em segundo lugar. uma vez que. Nas duas hipóteses acima (absolvição do réu e condenação simbólica). as soluções privadas não costumam restabelecer o equilíbrio real entre os implicados. porque a pena eventualmente aplicada. receia-se que. não assistimos a uma desenfreada vingança privada. pois somente através de uma sociedade fraterna e igualitária. com a supressão do Direito Penal. sequestro. uma vez que. uma vez suprimido o sistema penal. necessariamente. como o controle psiquiátrico. é que podemos imaginar a supressão do direito penal como instância reguladora de conflitos sociais. além favorecer a execução de vinganças por mãos individuais ou estatais. devemos considerar que o sistema penal não satisfaz plenamente os anseios daqueles que sofrem a violência. Para ele. etc. Na verdade. aumentando a dor daqueles que suportaram as consequências do crime e. preparando o terreno para sua implementação. bastante frequentes em nosso Direito Penal. Com a abolição do sistema penal. são eles também que suportam as drásticas consequências das ações delitivas. através de "técnicas de vigilância total" em forma policial ou em forma de controle tecnológico. Após lembrar que as críticas de Ferrajoli e seus seguidores parecem ignorar que o abolicionismo propõe um novo modelo de sociedade. A resposta adequada para os crimes violentos e revoltantes (homicídio. com menor distanciamento entre seus setores. Ou seja. insignificante. realizando o controle social sem atingir a liberdade dos demais cidadãos. pois os modelos não-punitivos apresentados certamente vão encontrar firme resistência por parte da vítima. de seus familiares e da própria sociedade. As críticas de Ferrajoli acentuam-se quando prevê. em outras palavras. ou ainda. em mãos estatais. Em uma sociedade pluralista. ao contrário. o "disciplinarismo social" mediante a "internalização de rígidos controles" que atuam sob forma de autocensura ou como expressões de polícia moral.desassistidos.) constitui-se hoje no maior desafio para o movimento abolicionista. VI. Zaffaroni acrescenta que não existe razão pela qual não se possa conceber uma sociedade onde os conflitos possam ser resolvidos independentemente de penas e de uma instância punitiva formal. mas quem pode. Primeiro.

com a eclosão de um sem número de delitos graves. deixando para os outros ramos do Direito ou instâncias não formais de solução de conflitos as perturbações mais leves de tais bens. mais generosas e. Há que se lançar mão. próprias de pessoas bastante evoluídas. por meio da Lei n. nega legitimidade ao sistema mas. perdeu sua legitimidade como instrumento de controle social. Por princípio da intervenção mínima. O abolicionismo surgiu a partir da percepção de que o sistema penal. Todavia. VII . que mantinha a privação da liberdade. O minimalismo penal. por um lado. todavia. deve-se entender que o Direito Penal somente deve intervir nos casos de ataques muito graves aos bens jurídicos mais importantes. "que o legislador enriqueça. ensejando dupla punição. propõe sua aplicação mínima como mal menor necessário. hodiernamente não podemos conceber tal compreensão por parte de quem venha a sofrer as consequências de um ato violento. Desaparecendo o sistema jurídico penal no estágio em que se encontra nossa sociedade. pensamos que o mesmo não parece apropriado. caput). ao denunciar essa perda de legitimidade. para tanto. respeitando a dignidade humana e afirmando as normas fundamentais possibilitadoras da convivência social. não simplesmente um castigo. que impõe. inclusive de alguns abolicionistas que passaram a enxergar nele um estágio em direção a abolição da pena. mais humanitárias. do princípio da preferência pelas reações não detentivas.209. não conseguiu propor um método seguro para possibilitar a abolição imediata do sistema penal. a panóplia das alternativas à prisão posta à disposição do julgador". ao invés de postular sua abolição e a solução de conflitos por instâncias ou mecanismos informais. inciso VI. desviar-se dos ideais de construção de sociedades melhores. Na Constituição de 1988 podem ser extraídos. para dar resposta viável à criminalidade violenta. até ao limite possível.O princípio da intervenção mínima como alternativa possível à proposta abolicionista. pois. VIII – A opção do legislador brasileiro pelo princípio da intervenção mínima A reforma da parte geral do Código Penal. refletiu a escolha do legislador pátrio pelo caminho modernamente preconizado. mais justas. cada passo no caminho da abolição do sistema penal deve ser dado com muita cautela. através da inserção ao sistema de penas das denominadas restrições de direitos. sem. atendendo à noção de que a pena somente é uma necessidade. "a preterição da pena de prisão em favor de penas não detentivas. por isso mesmo. tais como o da igualdade (artigo 3º. princípios característicos do recitado abolicionismo moderado. de outra banda.º 7. no concreto mundo de hoje. Em presença de tais receios. rompendo-se com a idéia de penas acessórias. que havia significado um enorme avanço da humanidade contra a ignomínia das torturas e contra a pena de morte. Diante de tal impasse. o princípio da intervenção mínima conquistou rapidamente ampla adesão da maioria da doutrina. cujos rituais macabros encontram-se retratados na insuperável obra de Michel Foucault.Em nossa opinião. Será sempre indispensável ter uma margem de penas e medidas alternativas ou substitutivas. posto que estaria suprimida a função inibitória da pena. o da Página 12 de 34 . o movimento abolicionista. a exemplo do abolicionismo. bem acima do "homem médio". alternativas à sanção de prisão. correríamos o risco de ver crescer as injustiças. sempre que estas se revelem suficientes. contudo. e artigo 5º. para realização das finalidades da punição" e exige. que afastem a pena privativa de liberdade para fatos infracionais de pouca gravidade. in casu. expressa ou implicitamente. havida em 1984. Revisados alguns conceitos decisivos do movimento abolicionista.

o da proporcionalidade (artigos 1º. XXXV. Isto se deu em especial com a edição da Lei n. endurecendo o tratamento penal. 1990. o de humanidade (artigo 5º. Página 13 de 34 . Lisboa: Aequitas. incisos III e XLVII)..º 9. que. objetivando a reapropriação social dos conflitos entre agressores e ofendidos e a criação espontânea de métodos ou formas de composição. 4. Taipa de Carvalho. segundo Américo A. 3. 1993. Da responsabilidade penal e da isenção da pena. de forma a viabilizar a aplicação de mecanismos não penais de controle social e privilegiar medidas preventivas de atuação sobre as causas e as origens estruturais de conflitos e situações socialmente negativas.099/95. nos termos do artigo 5º. Vigiar e punir. o do juiz natural (artigo 5º. II.ª ed.º 9. construído sobre pilares orientados para o mesmo fim. seus conceitos não parecem apropriados para dar resposta viável à criminalidade violenta diante do atual estágio evolutivo de nossa sociedade. Belo Horizonte: Editora Del Rey. inciso XLIII./98. soa totalmente falso se falar em reeducação. Michel. Petrópolis: Vozes. Tal proposta prevê ainda a criação de microorganismos sociais baseados na solidariedade e fraternidade. em diversas oportunidades o legislador demonstrou haver se apartado da visão constitucional. Em que pese o inegável mérito da crítica abolicionista. O princípio da intervenção mínima no direito penal.º 8. Os processos de descriminalização.. BITENCOURT. Raúl. I. cabe ao trabalhador do direito respeitar os princípios fundamentais da dogmática jurídico-penal e da política criminal traçada pelo constituinte. que dispôs sobre os Juizados Especiais Criminais. 5º. inciso III). A incoerência acima citada desvela que ao revés de um sistema jurídico uniforme. Do caráter subsidiário do direito penal. incisos XXXVII e LIII) e o da individualização da pena (artigo 5º. Bases e alternativas para o sistema de penas. cedendo à pressão dos adeptos do denominado movimento da lei e da ordem. com expressa vedação da progressão de regime. São Paulo: Revista dos Tribunais. 1998. inciso LIV). está-se edificando um arcabouço legislativo ilógico. 1995. CALLEGARI. inciso III. BATISTA. ressocialização.714/98. 1995. São Paulo: Revista dos Tribunais. ed. CERVINI. reinserção. Jorge de Figueiredo. Apesar dos contornos minimalistas da lei suprema. Direito penal português: as conseqüências jurídicas do crime. Editorial Notícias. no âmbito da execução da pena. 15. Lições de direito pena: parte geral.. Lydio Machado. Boletim do IBCCrim. Luigi. que dispõe sobre os crimes hediondos e assemelhados. a exemplo do previsto no artigo 2º. Conclusão. ou outra coisa pertencente ao grande conjunto de fins propostos que jamais foram alcançados. Operando com tal conjunto legislativo. DIAS. Criminologia crítica y crítica del derecho penal. repersonalização. A indústria do controle do crime.072/90. evitando a desagregação do sistema e a corrosão da lógica jurídica. lesivas aos direitos e garantias fundamentais dos cidadãos e provocadoras de insegurança social. inciso XLVI).dignidade (artigo 1º. harmonizando os textos legais de modo a que sejam aplicados congruentemente. André Luiz. casuístico. Nilo. Porto Alegre: Livraria do Advogado. Alessandro. Siglo Veintiuno. caput. "contraria a dignidade e correspondente responsabilidade do legislador enquanto órgão (função) nuclear do Estado-de-direito". modificadora do tratamento dispensado às penas restritivas de direitos. 1962. Rio de Janeiro: Forense. Acabaram-se as ilusões sobre o discurso que ainda hoje legitima o sistema penal. 1993. apud QUEIRÓZ. irreflexivo. Nils. set.. FOUCAULT. Dentro dessa realidade o abolicionismo acontece para propor a extinção do sistema penal. Rio de Janeiro: Revan.). LIV etc.ª ed. Derecho y razón: teoría del garantismo penal. BARATTA. ed. 1998. o do devido processo legal (artigo 5º. da Magna Carta. DOTTI. Cézar Roberto. Introdução crítica ao direito penal brasileiro. § 1º. CHRISTIE. 1997. com destaque para a Lei n. René Ariel. uma vez que. Madrid: Editorial Trotta. FERRAJOLI. em cujo texto podem ser encontrados dispositivos absolutamente contraditórios à idéia do Direito Penal mínimo. 1998. 3º. 2. Paulo de Souza. e a Lei n. Recentes leis revelam a observância da regra fundamental do minimalismo penal. FONTES BIBLIOGRÁFICAS BANDEIRA DE MELLO. Belo Horizonte: Bernardo Álvares. 1998. estipulador do cumprimento da pena privativa de liberdade em regime fechado.

072/98 (penas alternativas). 2ª ed. Penas perdidas. o final da década de oitenta se caracteriza. KARAM.099/95 (juizados especiais) e 9. 1997. na qual são albergados inúmeros direitos.. Américo A. 2. Jacqueline. 2. 1997. Criminologia: introdução a seus fundamentos teóricos. La abolición del sistema penal. no campo político brasileiro. e BERNART DE CELIS. O Direito penal mínimo.br Principalmente a partir da década de 70. GRECO.ª ed. principalmente a partir da falência do Estado de bem-estar social. Sucessão de leis penais. 1999. TAIPA DE CARVALHO. cujas características principais repousam na idéia de que o Direito penal deve representar um instrumento de combate à criminalidade.com. é constituída pelo aproveitamento das discussões que se faziam em termos acadêmicos e recebeu encômios de vários juristas nacionais e estrangeiros.. Apesar das produções legislativas mencionadas (Lei 7. cujas premissas básicas confrontavam totalmente com a perspectiva cunhada na legislação brasileira. no Brasil. HULSMAN. Mauricio Martínez. 1998. Brasília: FAP/DF. 1998. 1995. QUEIRÓZ. Buenos Aires: Editorial Universidad. Eugenio Raúl. Em busca das penas perdidas: a perda de legitimidade do sistema penal. O sistema penal em questão. São Paulo: IBCCrim.. Anais do 1º Encontro Nacional da Execução Penal. in Conversações abolicionistas: uma crítica do sistema penal e da sociedade punitiva. nascido a partir das propostas elaboradas principalmente na década passada pelo autor mencionado e por Alessandro Baratta./98. sendo que para tal há que se instituir uma ordem penal o máximo possível repressiva. São Paulo: Revista dos Tribunais. PRADO. César Barros. Belo Horizonte: Cultura. LEAL. empecendo. as discussões sobre a mudança de rumos do Direito penal. ainda maior. Sérgio Salomão. Roberto e ARAÚJO JÚNIOR. Utopia transformadora e abolição do sistema penal. Este Movimento passa a dominar o cenário político-social. Evandro Lins. 1998. Maria Lúcia. 2.FRANCO. 1998. SILVA. LYRA. Poucos anos depois. às conquistas carreadas desde então. Oscar Emilio. todas as outras normas penais que foram editadas após a Constituição Federal estão carregadas da ideologia do Movimento de Lei e Ordem. Eugênio Raúl. SARRULLE. Direito Penal. Uma visão global da história da pena. La crisis de legitimidad del sistema jurídico penal: abolicionismo o justificación. 4. Rio de Janeiro: Forense. Belo Horizonte: Editora Del Rey. entretanto. 1997. Conversações abolicionistas: uma crítica do sistema penal e da sociedade punitiva (apresentações). Do caráter subsidiário do direito penal. José Henrique. Louk. Luiz Flávio. Rio de Janeiro: Lumen Juris. expressão difundida por Luigi Ferrajoli.ª ed. consubstanciada pela Lei 7. Salete Magda. Coimbra : Coimbra Editora.85. Belo Horizonte: Del Rey. Sistema acusatório: a conformidade constitucional das leis processuais penal.209/84 e Constituição Federal de 1988). Aliado a isto. o qual vinha ganhando força na Europa. Alberto Silva. Santa Fé de Bogotá: Temis. 1995. bem como de embates sobre a feição dogmática que o Direito penal deveria assumir. 1996. a acomodação ideológica da matéria penal. 1997. Prisão: crepúsculo de uma era. ZAFFARONI. São Paulo: IBCCrim. garantias e princípios de cunho penal e processual penal. 1997. 1998. Geraldo.ª ed. Pode-se dizer. a mentalidade dos aplicadores do Direito não se abriram para esta nova perspectiva. sobremaneira.direitocriminal. 3. A nova parte geral do Código Penal. o Estado brasileiro é brindado com a Constituição de 1988. SHECAIRA. também. reduzindo cada vez mais os benefícios de ordem penal e processual penal. São Paulo: Revista dos Tribunais. Boletim do IBCCrim. Um desafio à dissuasão penal. tendo sido responsável pela edição de inúmeras leis. o que representa um reforço. OLIVEIRA. ZAFFARONI.209/84. Rogério. set. Manual de Direito Penal Brasileiro. 1997. do Movimento de Lei e Ordem.07. tendo sido considerada uma conquista do Direito penal liberal. Niterói: Luam.ª ed. e que entrou em vigor em 11.. Criminologia. foram se acentuando. que os anos oitenta foram marcados por encaminhamentos mais sólidos acerca da política criminal a ser adotada. e GOMES. SÁNCHEZ. Rio de Janeiro: Revan. GARCÍA-PABLOS. São Paulo: IBCCrim. Com exceção das Leis 9. pela acolhida. in Conversações abolicionistas: uma crítica do sistema penal e da sociedade punitiva. Paulo de Souza.. vai se tornando referência para vários juristas que passam a elaborar suas teorias com vistas às premissas instituídas por Página 14 de 34 . e PIERANGELI. 1997. João Marcelo. Há produto novo na praça. A concepção minimalista do Direito penal Alice Bianchini Doutora em Direito Penal pela PUC-SP Diretora do Conselho Editorial do www. Antonio de Molina.

Portanto. pode-se conferir o contorno do Direito penal brasileiro. efetivamente. o Direito penal há que se mostrar capacitado para alcançar o fim de reduzir as cotas de violência (princípio da adequação). que conforma o Estado a um modelo social e democrático de direito. ainda. menos onerosos (princípio da necessidade). Ambos os princípios. c) a criminalização de determinada conduta que ofenda bens ou valores fundamentais de forma grave ou que os tenha exposto a perigo idôneo. é que a utilização do Direito repressivo. excluída de qualquer possibilidade de incriminação aquelas ofensas (ou risco) de pequena monta. por propostas que remetem ao Direito penal. deve ser analisado se a ofensa irrogada causou um abalo social e se foi de tal proporção que justifique a intervenção penal. idôneo que seja. efetivamente. incomodações de pequena monta.estes autores. O que se vê. quando não puder compensar os custos. só se justifica se a controvérsia não pode ser resolvida por outros meios de controle social. amealhado força. quando se está buscando contemporizá-lo. Aqui surge a preocupação com a dignidade do bem jurídico. o que caracteriza o Direito penal como sendo subsidiário. Em um contexto minimalista e preocupado com direitos e garantias do indivíduo. Página 15 de 34 . deve-se reputar legítima a intervenção penal. Indubitavelmente. Assim. a criminalização de condutas é dependente de um complexo processo que se guia pelos fins atribuídos ao Direito penal. concorre para a não implementação satisfatória do princípio da intervenção mínima o fato de seus pressupostos serem excessivamente vagos e. mesmo. somente podem ser erigidas à categoria de crime. são consideradas como desprovidas de relevância penal. a sua resolução relegada a outros mecanismos formais ou informais de controle social. ou que causem diminutos dissabores. tem. d) mesmo à falta de outro meio de controle menos gravoso que possa ser utilizado. entretanto. a ponto de todo e qualquer problema que surja na sociedade vir acompanhado. Apesar das inúmeras versões que este modelo de Direito penal congrega. ficando. A partir de uma abordagem constitucional. são vários os seus pontos de conversão. condutas que. A grande dificuldade que se pode encontrar é a de determinar quando. decorrem do caráter fragmentário do Direito penal. não se encontrará legitimado (princípio da proporcionalidade em sentido estrito). o que concebe ao Direito penal um caráter fragmentário. ambíguos. Há consenso de que apenas bens de elevada valia devam ser tutelados pelo Direito penal. obstruam o satisfatório conviver em sociedade. deva-se obediência aos seguintes condicionantes: a) só podem ser tutelados aqueles bens e valores imprescindíveis ou fundamentais para a sociedade ou para o indivíduo (princípio da exclusiva proteção de bens jurídicos). Decorre desta feição a máxima utilidade possível com o mínimo de sofrimento necessário. muitas vezes. e) esta capacidade encontra-se condicionada. Além da verificação a respeito do grau de importância do bem — sua dignidade —. nas quais subsiste uma escassa danosidade social (princípio da insignificância). dado que o Direito penal só deve atuar na defesa dos bens jurídicos imprescindíveis à coexistência pacífica dos homens. Um Direito penal assim amoldado conduz a que. no concernente à decisão de se criminalizar determinada conduta. da mesma forma que o anterior. pela verificação dos custos sociais e individuais que os instrumentos utilizados acarretam. de forma que um meio. cada vez mais. Isto porque a utilização de recurso tão danoso à liberdade individual somente se justifica em face do grau de importância que o bem tutelado assume. que deveria ser caracteristicamente contida. seja formal ou informal. b) as condutas a serem criminalizadas hão de ofender ou colocar em perigo bens ou valores fundamentais para a sociedade ou o indivíduo (princípio da ofensividade). em razão disto.

como no abolicionismo. Entendem seus defensores que numa sociedade repleta de desigualdades nas relações de poder. Se é obrigação do Estado cuidar de intervir tão pouco quanto baste. a partir de conceitos estratificados na lei. Por outro lado. Houve importantes trabalhos acerca da conduta desviada e do controle social realizados por Nagel. substituindo-o por intervenções comunitárias e institucionais de caráter alternativo. liberdades e garantias individuais e coletivas. consolidou-se três correntes. estudos científicos de cunho político-culturais levando ao extremo as indicações metodológicas dos teóricos da reação social e do conflito. A Criminologia Crítica tem seu marco imediato no movimento estudantil de 1968. face a revolta universitária aos interesses e preconceitos do neocapitalismo.Mas se. vale dizer Página 16 de 34 . que fulcrada no pensamento positivista. não podem ser utilizados sem que se estabeleçam critérios rígidos e racionais. direitos. Taylor. sendo sinônima de Nova Criminologia. no qual se insere o Direito penal. Walton e Yong. Este é um conflito marcado pela coexistência de perda e ganho de liberdade no lidar com a liberdade. PRECEITOS BÁSICOS PARA A CRIMINOLOGIA CRÍTICA ROGÉRIO ZEIDAN ADVOGADO EM GOIÁS. um sistema informal e comunitário de solução de situações problemáticas e conflitivas contribuiria em muito para diminuir essas desigualdades. 4. o Sistema Penal se destina apenas a reforçar essas diferenças. Economia Política do Crime e Criminologia Moderna. a Criminologia do Minimalismo ou do Direito Penal Mínimo e a Criminologia do NeoRealismo de Esquerda. e do paradigma etiológico. ou teve uma contribuição diminuta que não compensa os custos provocados por tal intervenção. após a criminalização de determinada conduta puder-se concluir que a sua inscrição no âmbito penal nada concorreu para a diminuição da violência. Criminologia Radical. posto que a sua limitação deve agir em favor da sua salvaguarda. dando lugar à rica discussão acerca do processo de criminalização e sobre a legitimação e funcionamento do Sistema Penal. liberdades e garantias do indivíduo. também. que o Sistema penal é fragmentário e seletivo. já que eles atuam na restrição de direitos. seus instrumentos de controle social. impõe-se a sua imediata descriminalização. denominada de a Criminologia Abolicionista. Trata-se de um movimento criminológico que propõe abolir as prisões e o próprio Direito Penal. apesar do empenho em se cumprir todas estas exigências. A Criminologia Crítica teve sua influência nas correntes mais progressistas da criminologia liberal: a teoria organizacional ou de rotulação. Reconhece. a fim de garantir a máxima liberdade do cidadão. fundamentais à vida em sociedade. desenvolvendo-se. PROFESSOR DE DIREITO PENAL E PROCESSO PENAL NO CENTRO DE ENSINO SUPERIOR DE CATALÃO . Defende-se a idéia de um direito penal de conteúdo mínimo destinado à preservação dos direitos humanos fundamentais. a teoria da reação social da qual podemos citar grandes nomes como LOLA ANIYAR DE CASTRO e ALESSANDRO BARATTA. Cuida de um movimento criminológico que importa numa reação à chamada Criminologia Tradicional. Criminologia Minimalista 3. preocupa-se apenas com a etiologia do delito e com os aspectos psicológicos da passagem ao ato. quer dizer. a partir daí. não foi eficaz. A Criminologia Abolicionista 2. Etimologicamente a expressão Criminologia Crítica tem sentido amplo.CESUC Noções Gerais 1. embora no intento de colocar a salvo. A partir da Nova Criminologia (1975).

se estabelecia uma relação de causalidade entre desordem e criminalidade. obrigando o cidadão de bem a trancar-se dentro de sua própria casa. podemos notar que a partir desse movimento houve uma acentuada suspensão de institutos jurídicos que possam amarrar o delinqüente. JANELAS QUEBRADAS. não se sabe qual a sua origem e o que. nos Estados Unidos encontra-se em pleno andamento uma extraordinária experiência de redução de criminalidade. Sabe-se que foi aplicada em Nova Iorque. a severidade da pena tornou-se crescente assim como a criminalização de condutas. e as autoridades responsáveis pela política de segurança pública em nosso país parecem simplesmente não saber que rumo tomar. TOLERÂNCIA ZERO E CRIMINALIDADE TEXTO EXTRAÍDO DO JUS NAVIGANDI http://jus2.com. o cientista político James Q. vale dizer que a pobreza não se relaciona com a percentagem dos delitos. ocupa-se do estudo do delito. Dispondo de uma estratégia realista.asp?id=3730 DANIEL SPERB RUBIN PROMOTOR DE JUSTIÇA EM PORTO ALEGRE (RS) INTRODUÇÃO Enquanto os índices de criminalidade no Brasil atingem níveis intoleráveis. é inegável que o efeito dessa estratégia de atuação punitiva não trouxe a diminuição das infrações delitivas. desta forma critica as teorias criminológicas existentes e surgidas nos anos oitenta. expressão que "a carência relativa produz inconformidade. No campo prático das modificações. Seu propósito principal é ser leal à realidade do delito. a reação social contra o delito e sobre o próprio comportamento delitivo. inconformidade mais falta de solução política. 5. cujo título era The Police and Página 17 de 34 . Atuava através dos movimentos denominados "Lei e Ordem". significa. produz o delito".que o sistema punitivo representa. mas. das relações de poder e propriedade existentes. na broken windows theory (teoria das janelas quebradas). pois é tão acirrada e incutida a obsessão em punir que atropela-se direitos e garantias fundamentais da pessoa humana. desde uma perspectiva socialista. pela primeira vez. ambos americanos. Ouve-se falar. igualmente. foi denominada de esquerda em repúdio ao realismo de direita.br/doutrina/texto. também. o autor. Naquele estudo. tão somente. Todavia. publicaram na revista Atlantic Monthly um estudo em que. durante a gestão do Prefeito Rudolph Giuliani. os índices de criminalidade nas grandes cidades dos EUA apresentam substancial redução (1). mas sim o seu aumento. Mas não se sabe exatamente quais seus fundamentos teóricos. Broken Windows Theory – Origens e Fundamentos Em 1982. Criminologia do Neo-Realismo de Esquerda 4 O neo-realismo de esquerda é liderado por alguns criminólogos críticos da Inglaterra e dos Estados Unidos da América. A que se deve isso? Ouve-se falar na política criminal de tolerância zero. Pela primeira vez depois de trinta anos de aumento contínuo. um sub-sistema funcional de reprodução material e ideológica do sistema social global. exatamente. Desta forma.uol. isto é. em reação ao pensamento idealista que no início dos anos oitenta dominava os horizontes da Criminologia Crítica. centrando sua atenção sobre a vítima. Wilson e o psicólogo criminologista George Kelling. Entendem que o Direito Penal não é seletivo.

mais tarde. também. sempre repetida e jamais comprovada. Uma propriedade é abandonada. sem laços com a família. ele conhece a comunidade. e este vínculo. com base em pesquisas e entrevistas com cidadãos que o medo da criminalidade estava fortemente relacionado à existência de desordem nas comunidades. registre-se. E aqui reside outro fundamento da broken windows theory. medo. embriaguez pública. Adultos. as pessoas que por ali passassem concluiriam que ninguém seria responsável por aquele prédio e tampouco pela rua em que se localizava o prédio. tornam-se mais desordeiras. falta de oportunidades. criminalidade violenta e decadência urbana. causando a sua decadência e a conseqüente queda da qualidade de vida. ou pessoas com tendências criminosas. poderia transformar-se. encorajadas. imprudentes. Logo. A raiz do aumento da violência nos EUA na segunda metade do século XX está. Então. não obstante as evidências que indicam o seu acerto. pobreza. etc. aos poucos. Pessoas começam a embriagar-se em frente aos bares. permite Página 18 de 34 .Neigborhood Safety ( A Polícia e a Segurança da Comunidade). O mato cresce. Pequenas desordens levariam a grandes desordens e. Durante três décadas. deixando o bairro à mercê dos desordeiros. todas as janelas estariam quebradas. Kelling e Wilson sustentavam que se uma janela de uma fábrica ou de um escritório fosse quebrada e não fosse imediatamente consertada. especialmente diante da afirmação. No entanto. em uma selva assustadora. Agora. esta relação foi ignorada até o início dos anos 80 e. apenas os desocupados. Originalmente. tais como a pobreza ou o fato de a comunidade abrigar uma minoria racial. Analogicamente. entranhar-se na comunidade. jogos ilegais. O lixo se acumula. O modelo americano de combate à criminalidade falhara porque não reconhecia a relação de causa e efeito entre desordem. Estas. Uma janela é quebrada. Brigas ocorrem. infiltrar-se numa comunidade. Adolescentes desordeiros começam a se reunir na frente da loja da esquina. Eles recusam. Em razão da imagem das janelas quebradas. um relatório (2) preparado para uma comissão criada pelo então Presidente Lyndon Johnson para o estudo de estratégias de combate à criminalidade (Commission on Law Enforcement and Crime) já apontara. Iniciava-se. ao crime. preparando o terreno para a ascensão da criminalidade. a decadência da própria rua e daquela comunidade. uma comunidade estável. na qual as famílias cuidavam de suas casas. Em 1967. mudam-se para aquela comunidade. as pessoas que por ali passassem concluiriam que ninguém se importava com isso e que. O policial deve fazer parte da comunidade. voltaremos ao assunto. assim. o estudo ficou conhecido como broken windows. Um bêbado deita na calçada e lá permanece. famílias mudam-se daquela comunidade. se preocupavam com as crianças dos outros e desconfiavam de estranhos.). Adultos deixam de repreender crianças e adolescentes desordeiros. e lidar com as condições que criam o crime (desordens de todo o tipo. Cria-se um vínculo entre a comunidade e a autoridade policial. A prevenção do crime era feita com a presença constante da polícia no seio da comunidade. os autores usaram a imagem de janelas quebradas para explicar como a desordem e a criminalidade poderiam. a criminalidade só fez aumentar nos EUA. etc. sob o nome de "tolerência zero". não havia autoridade responsável pelo manutenção da ordem. Assim. sentir-se-iam à vontade para ter algum negócio ou mesmo morar na rua cuja decadência já era evidente. O comerciante pede que se retirem. nesta mudança de estratégia da polícia. de que a principal causa da criminalidade reside nas injustiças sociais. e veio a lançar os fundamentos da moderna política criminal americana que. Em pouco tempo. A desordem se estabelece. em meados da década de noventa. ou até mesmo meses. algumas pessoas começariam a atirar pedras para quebrar as demais janelas ainda intactas. Esta conclusão é de fundamental importância. quando analisarmos às objeções a broken windows theory e à tolerância zero. Mais adiante. A esta altura. O passo seguinte seria o abandono daquela localidade pelas pessoas de bem. desemprego. e é conhecido por ela. A relação de causalidade entre desordem e criminalidade era mais forte do que a relação entre criminalidade e outras características encontradas em determinadas comunidades. o papel da polícia americana era o de manter a paz e prevenir o crime. naquela localidade. em poucos anos. continua a ser contestada (e ainda ignorada em muitos países). foi implantada com tremendo sucesso em Nova Iorque.

Esta lógica perversa precisa. Portanto. Assim. também. Tanto David Dinkins (então Prefeito) como Rudolph Giuliani (um ex-Promotor Federal que viria a ser eleito) prometiam um combate incessante contra a atuação destes grupos. As gangues se proliferavam. normalmente jovens e atuando em grupo. ser quebrada. por Juízes e Promotores. As pichações não eram reprimidas. como metrôs. Tudo isso levava a um aumento constante da criminalidade. Pequenos delitos como ingressar no metrô sem o pagamento da passagem. simplesmente porque esta era uma das principais reclamações dos nova-iorquinos que viam na atuação daquelas pessoas a ausência de ordem e autoridade. sob argumentos diversos. Em abril de 1990. Sob esta estratégia. A presença física do agente policial na comunidade inibe a desordem e a criminalidade. O policiamento comunitário. que preze a manutenção da ordem. por conta do equívoco da estratégia adotada. expulsá-lo de lá. George Página 19 de 34 . No Brasil. repete o equívoco cometido nos EUA e é uma das principais causas do aumento avassalador da criminalidade violenta em nosso país. e lá fizessem suas necessidades. mas investir todos os seus esforços apenas no combate ao crime. as pequenas janelas quebradas não mais eram reparadas. até que chegou-se a um ponto insustentável onde a criminalidade aumentou nos centros urbanos. em 1993. Antes. o policiamento comunitário. Não se os obrigava a recolherem-se aos abrigos públicos. Na verdade a decadência urbana de Nova Iorque desenvolvera-se de maneira lenta e constante ao longo dos anos 70 e 80. Nos EUA criou-se a idéia de que a polícia não devia mais zelar pela ordem pública. e uma relação de confiança entre a comunidade e a polícia. e unindo forças. eles passavam a mendigar de maneira cada vez mais agressiva e ameaçadora. Não é mais possível ignorar esta extraordinária vitória contra o crime. Mas para isso é preciso uma comunidade organizada. A Operação Tolerância Zero – A Retomada do Metrô e das Ruas para o Povo de Nova Iorque Um dos principais temas de debate durante a campanha para as eleições à Prefeitura de Nova Iorque. bem como uma ameaça constante. Assim. adotada tanto pela Polícia como. passando pela alegação de o crime tem causas sociais. mais tarde. para "resolver o problema do metrô". que levava ao medo e à decadência da qualidade da vida urbana. de modo que ambos se auxiliem mutuamente. para que se combatesse apenas os crimes mais graves. em algum momento. que vão desde a falta de recursos até a desnecessidade de reprimir comportamentos que configuram não mais do que um mero ato de desordem ou uma pequena contravenção. tanto a comunidade como a polícia podem imediatamente identificá-lo. levarão à criminalidade violenta. diante da tolerância com a desordem e os pequenos ilícitos. ou mesmo prendê-lo se o mesmo for apanhado no exercício do tráfico.que ambos juntem forças para evitar o surgimento da desordem e de pequenos delitos que. pessoas. que mediante ameaças veladas. como a seguir se verá. pode-se dizer. A Broken Windows Theory aponta um caminho para a redução da criminalidade. foi o que fazer contra os "esqueegeemen". pulando a catraca. cria-se um círculo vicioso que retroalimenta a criminalidade violenta. ou nem tanto. parques e praças. que já teve efeitos positivos nos EUA. e que tem como base a repressão à desordem e aos pequenos delitos e. William Bratton. Não se combate a desordem e os pequenos delitos porque deve-se priorizar o combate à criminalidade violenta. a criminalidade violenta é justamente resultado da falta de combate à desordem e aos pequenos delitos. tendo se destacado principalmente por sua atuação frente à polícia de trânsito daquela cidade. é fundamental na prevenção do crime. extorquiam dinheiro de motoristas após terem lavado os párabrisas dos carros sem que tivessem sido solicitados a fazê-lo. foi contratado pela Polícia de Trânsito de Nova Iorque. já chegamos a este ponto há muito tempo. portanto. desordens e pequenos ilícitos foram deixados de lado. quase não eram mais reprimidos. Permitia-se que os sem-teto ocupassem espaços públicos. se algum traficante tenta imiscuir-se naquela comunidade. A "estratégia das prioridades". Além disso. um policial que fizera carreira rápida e brilhante na polícia de Boston. No entanto. e que consiste em priorizar o combate à criminalidade violenta.

A criminalidade no metrô aumentava e tornava-se mais violenta. Como não havia efetivo suficiente para efetuar as prisões em todas as estações. olhava para os lados e não via nenhum policial uniformizado. O medo da prisão começou a alterar o comportamento daqueles que não pagavam a passagem. Prevenção aos crimes graves. Começava-se a demonstrar. Um desordeiro entrava na estação. estava-se prevenindo a desordem e também que elementos criminosos entrassem no sistema subterrâneo de trânsito.Kelling já havia sido contratado e. numa espécie de demonstração pública. Além disso. a Polícia de Trânsito não prendia em grande número aqueles que pulavam as catracas. No seu entendimento. como se fossem passageiros esperando o metrô. Em algumas estações. A imensa maioria das pessoas simplesmente pulava por elas. isoladamente. eles achavam que o seu trabalho era combater o crime e não a desordem ou o não pagamento de passagens. Afinal de contas. Bratton imediatamente identificou os três principais problemas do metrô: passageiros que pulavam a catraca e não pagavam a passagem. com a proliferação de gangues juvenis. era como se não houvesse catracas. menos vítimas. pouco mais de um dólar. O não pagamento da passagem havia se tornado epidêmico. Repressão à desordem e aos pequenos delitos. Os desordeiros simplesmente pulavam as catracas. na prática. jamais deveria merecer a menor atenção da polícia. estimulavam e elogiavam os policiais. Isto. ele começou a aplicar a broken windows theory ao problema do metrô. cada vez mais usando armas de fogo e simplesmente assaltando as pessoas. Bratton começou a aplicar uma estratégia de fazer pequenas prisões em massa. ao verem as prisões sendo efetuadas. Aqueles que pagavam sentiam que estavam entrando em um local onde não havia lei e a desordem imperava e começavam a se perguntar se valia a pena continuar respeitando a lei. policiais a paisana apenas esperavam as ondas de dez ou vinte "saltadores de catraca" para então prendê-los. Atacando o problema do não pagamento das passagens. Rudolph Giuliani nomeou Bratton para chefiar o Departamento de Polícia. como policiais. Depois do metrô. talvez mais importante. Menos armas. Isto era considerado um delito menor. e que. passou a "alimentá-lo" com idéias e material de leitura. A primeira grande janela quebrada estava sendo consertada. Quando venceu as eleições para a Prefeitura de Nova Iorque em 1993. o não pagamento da tarifa era a principal janela quebrada no sistema subterrâneo de trânsito. Mesmo às três horas da madrugada. obviamente. e em consonância com a política de segurança pública até então adotada. era hora de devolver as ruas aos novaiorquinos. muitas das pessoas detidas. ou carregavam armas consigo. Pulava a catraca e era imediatamente preso pelos policiais à paisana. Àquela altura. segundo muitos "entendidos". eram feitas prisões em massa e os detidos eram levados ao Yankee Stadium. Bratton teve imensas dificuldades no sentido de mostrar aos policiais sob o seu comando a necessidade de combater-se a desordem e o não pagamento das passagens. mediante um trabalho que era. a relação entre desordem e criminalidade no interior do metrô. Pagar a passagem começava novamente valer a pena. ou eram pessoas procuradas com mandados de prisão expedidos contra si. Até então. a Polícia de Trânsito de Nova Iorque alternava dias e horários. Nesta situação. policiais à paisana postavam-se nas estações. os desordeiros e criminosos começaram a deixar suas armas em casa. Depois de um tempo. Vencida esta barreira. E. com a chegada de Bratton. desordem e crime. E tudo isto apenas pela repressão a um delito patrimonial que custava. A quantidade dos que não pagavam começou a declinar significativamente. em nada alterava a situação. Apenas uma ou duas vezes por ano. de estação em estação. ao mesmo tempo de repressão e de prevenção. menos assassinatos. Os poucos que ainda pagavam a passagem. menos assaltos. Página 20 de 34 . menos roubos. O prejuízo da municipalidade girava em torno de oitenta milhões de dólares por ano. já estava ficando claro para Bratton que a grande maioria das pessoas detidas por não pagarem a passagem eram justamente aquelas que causavam desordem no interior do metrô.

e lá lotando um maior número de policiais. Desde 1994. pela primeira vez em trinta anos. O resultado da aplicação da broken windows theory pelo Departamento de Polícia de Nova Iorque foi a diminuição. Começou-se a fazer. visando ao estabelecimento de uma relação de confiança e cooperação mútua. estas pessoas não podiam ser presas. E para os que ainda acham que um maior número de policiais nas ruas e entranhados nas comunidades não faz muita diferença. algumas vezes. aquilo que durante anos atormentara a vida dos motoristas de Nova Iorque teve fim em poucas semanas. Era. geralmente em grupos. prevenir o crime simplesmente com a sua presença física". O que poderia parecer. Outro fundamento da broken windows theory. O que Bratton fez foi aperfeiçoar o plano. Bratton foi. identificando as áreas de maior criminalidade e desordem. os intimados não compareciam a juízo e isto (o não atendimento à intimação) autorizava que fossem presos. na verdade. O debate contemporâneo na área policial gira em torno de como viabilizar a parceria entre polícia e comunidade na tarefa de prevenção ao crime. sobretudo. descobriu-se que carregava duas armas consigo e tinha várias outras em seu apartamento. A Legislação e a Jurisprudência Americanas – Um pequeno apanhado Página 21 de 34 . informando que a proposta é um estilo diferenciado de policiamento. (4) Tanto a broken windows theory. algo com que a polícia sequer deveria se preocupar. abarcam estes três itens. Uma de suas primeiras iniciativas foi atacar a conduta daqueles grupos de jovens que. na verdade. sou partidário da concepção – que surgiu na América do Norte e pouco a pouco ganha mais partidários na Alemanha -. o policiamento comunitário. com a contratação de mais policiais para trabalharem nas ruas e nas comunidades. mas apenas intimadas a comparecer em juízo. em um primeiro momento. como a operação tolerência zero. revistado.. que se sentiam constantemente ameaçados. extorquiam dinheiro de motoristas após terem lavado os pára-brisas dos carros sem terem sido solicitados a fazê-lo. tais índices vêm diminuindo. um motociclista foi detido por andar sem capacete. quando ele assumiu a chefia do Departamento de Polícia. Outras pequenas vitórias contra pequenos ilícitos confirmavam a teoria de Kelling: uma pessoa foi presa por urinar num parque. mas tendo como uma das premissas básicas sempre os postulados da broken windows theory. No início. aos poucos. Então prisões foram feitas. Tendo em mente sempre a necessidade de coibir a desordem e reprimir os pequenos delitos. tal plano já estava em andamento. uma janela quebrada. depois de questionada levou a polícia a um receptador de armas roubadas. atormentando os motoristas. dos índices de criminalidade naquela cidade. Bratton é explícito ao afirmar que "os policiais comunitários podem identificar as preocupações da comunidade e. é o insuspeito Claus Roxin quem diz: ". 3) maior interação entre policiais e cidadãos. quando questionada sobre outros problemas deu informações à polícia que resultaram na localização de um esconderijo de armas. estava. 2) descentralização dos procedimentos de planejamento e prestação de serviços para que as prioridades e estratégias policiais sejam definidas de acordo com as especificidades de cada localidade. Em verdade. foi uma profunda reestruturação do Departamento de Polícia de Nova Iorque. Com a certeza da punição.O que Bratton fez. em verdade.. uma pessoa vendendo mercadoria de origem suspeita. também foi aplicado por Bratton em Nova Iorque. de maneira velada ou não. devolvendo as ruas ao povo. Ocorre que nem isto vinha sendo feito. punida apenas com serviços comunitários. caracterizado por: 1) uma concepção mais ampla da função policial que abrange a variedade de situações não-criminais que levam o público a invocar a presença da polícia. de que a polícia faz falta na rua e não nos gabinetes públicos" (3). Como esta conduta constituia uma infração menor.

evitando as alegações de imprecisão que também podem levar à inconstitucionalidade. portanto. etc. O próximo passo na busca de uma legislação que coibisse a desordem foram as "Loitering For the Purpose of Laws". o simples ato de perambular ou vagar de lugar em lugar não era tipificado. há veementes críticos desta política criminal. impedindo-se. dentre outras. Num primeiro momento. então a lei não seria inconstitucional. os necessitados e as minorias. o que ocorre é uma tensão ou um choque entre os direitos individuais daqueles que alegam que suas condutas supostamente desordeiras nada mais configuram do que o seu mero direito de expressão. Trata-se de evidente equívoco. levadas ao Judiciário americano. Os que se contrapunham ao direito de se reprimir legalmente algumas condutas tidas como atos de desordem. que nunca usou o metrô para dizer aos Nova Iorquinos o que eles devem agüentar"? Não há consenso. por vezes.Nos EUA já existiam. foram vistas apenas como meros atos de desordem. Ainda assim. A tendência é que o legislador aperfeiçoe cada vez mais a técnica legislativa. Página 22 de 34 . sem-teto. assim. o uso apropriado dos parques e ruas da cidade. acerca destas leis cujo principal objetivo é manter ou restaurar a ordem a fim de evitar o avanço da desordem e da criminalidade. durante muito tempo. se tal ato tivesse por finalidade um outro ato proibido pelo ordenamento jurídico. Tais leis acresciam uma particular finalidade ao ato de vaguear. No entanto. A autoridade para regular e reprimir legalmente comportamentos como mendicância agressiva. fundamentalmente. embriaguez pública. nem todas as Cortes americanas aceitaram a constitucionalidade das mesmas. a fim de que a lei resista aos testes de constitucionalidade. e o direito da comunidade. mas sim uma condição (ou um status). algo que pode ser definido como "leis anti-vadiagem" e "leis contra o ato de perambular. As "Loitering For the Purpose of Laws" representaram um avanço. Esta tendência aponta. Crítica: Os Pobres e as Minorias como Alvo Não obstante o extraordinário sucesso da "Operação Tolerância Zero" na diminuição da criminalidade em Nova Iorque. tinham. eventualmente. a proliferação da desordem e a ascensão da criminalidade. Houve editorial que perguntou "quem é esse Juiz suburbano. a fim de que a ordem possa ser mantida na comunidade. Em verdade. leis que criminalizavam determinadas condutas que. e a segunda era de que tais leis. viciado. vagar sem destino". a segurança e a qualidade de vida dos cidadãos. não reprimiam uma conduta. as tentativas de se reprimir legalmente tais comportamentos podem ser resumidas em dois tipos de leis: as "vagrancy laws" e as "loitering laws". como a própria mendicância que se faz de uma maneira agressiva (6). segundo Kelling e Coles. obstrução de calçadas. estão em vigor nos EUA leis tipificando objetivamente determinados comportamentos que levam à desordem e à criminalidade. em verdade. duas restrições: a primeira era quanto à tipificação dos comportamentos. No entanto. em muitos estados americanos tais leis estão em vigor. no sentido de especificação de determinados comportamentos. e sendo aplicadas. Tais restrições foram. a condição de pobre. reside no poder constitucional do estado em prover a saúde. não podendo alegar-se que é vaga ou imprecisa e tampouco que ofende a primeira emenda à Constituição. algo equivalente ao elemento subjetivo do tipo do direito brasileiro. Os críticos sustentam que tal política criminal oprime apenas os pobres. A decisão foi duramente criticada pela imprensa. Neste sentido. Assim. devem dar lugar aos valores comunitários. que alegavam ser vaga e imprecisa. bem antes do advento da broken windows theory e da "operação tolerância zero". também. embriaguez pública e vandalismo. para a qual os direitos individuais. demorar-se em um local.

por exemplo. em verdade. a contratação de segurança privada. e. uma ênfase nas necessidades e direitos individuais e a crença de que tais direitos seriam absolutos. quando a violência anda solta nos grandes centros urbanos. uma rejeição a uma moralidade média dos cidadãos americanos. isto sim. a comportamentos que violam padrões de comportamento largamente aceitos por uma comunidade. lavagens de párabrisas não solicitadas. estas são justamente as que mais precisam de ordem a fim de evitar o aumento da criminalidade. não sendo a única causa.Keeling e Coles são claros ao afirmarem que o problema não é a condição das pessoas. a restauração e manutenção da ordem. O que se busca coibir é o comportamento que causa desordem e que prepara o terreno para a ascensão da criminalidade. Portanto. a desordem tem conseqüências mais graves em comunidades pobres e. que exigiram a restauração da ordem e da segurança. mas sim sua conduta. onde incluem a "tolerância zero" e a importância da comunidade como elementos de combate ao crime. É muito mais fácil consertar uma janela quebrada em uma comunidade rica do que em uma comunidade pobre. a restauração da ordem é imprescindível. se expandiu e foi tolerada porque virtualmente todas as formas de desvios comportamentais não claramente violentos foram considerados sinônimos de expressão individual. mas sim uma variedade de fatores. como tal. No entanto. Uma comunidade rica tem certas condições de manter um estado de ordem que uma comunidade pobre não tem. Para o controle da criminalidade nestas comunidades. alguns independentes. vêm em seu auxílio. Não há uma explicação única para a diminuição da criminalidade verificada nos EUA na década de 90. por fim. A desordem cresceu. Kelling e Coles afirmam que a demanda por ordem permeia todas as classes sociais e grupos étnicos. Quando os usuários do metrô exigiram a restauração da ordem nas estações subterrâneas não eram os banqueiros ou os tubarões de Wall Street que estavam reclamando. por certo. e outros que. a política de combate ao crime. afinal. Página 23 de 34 . a noção de que considerar indivíduos como criminosos os estigmatizaria e os tornaria realmente criminosos. portanto. principais usuários do sistema. antes de oprimir os pobres e minorias. o controle do uso de armas de fogo. interagindo entre si. Produtos deste crescimento seriam a primazia do indivíduo e o seu direito de ser diferente. E. Estes. não foi apenas a ausência de combate à desordem que fez com que a criminalidade crescesse ininterruptamente durante três décadas nos EUA. Na arena judicial as cortes americanas desenvolveram um corpo de precedentes legais nos quais os interesses da comunidade não podem sobrepor-se aos direitos e liberdades individuais de uma pessoa. o incremento da economia. étnica ou de classes. os críticos questionam porque se preocupar com mendicância agressiva. a única causa do aumento da criminalidade. Além disso. o aumento do número dos estabelecimentos prisionais (e das prisões) as alterações demográficas e. embriaguez pública. supostamente protegidas pela primeira emenda. As mudanças com relação ao tráfico de drogas. mas sim o seu comportamento. Os que advogam a restauração da ordem não estão propondo alguma forma de tirania da maioria. e. foram importantes para o resultado final. Foram os trabalhadores. O objetivo de manter a ordem nada mais significaria do que uma forma de opressão aos pobres e às minorias o resultado de décadas do crescimento de um individualismo sem limites. Pobreza não deve necessariamente significar crime e desordem. como. e sobre os quais há um consenso. Referem-se. Criminalidade: Causas Multifatoriais A desordem e a ausência de repressão a pequenos delitos não são. Não importa. a condição da pessoas. No entanto. portanto. sem qualquer conotação racial. tinham outras alternativas. por fim. portanto.

letra "a"). Ao tratarem especificamente da aplicação da broken windows theory e da "tolerância zero" como política criminal que levou à redução vertiginosa do crime em Nova Iorque. ainda que o aumento das prisões não tivesse ocorrido na escala em que ocorreu.O grande aumento da criminalidade nos EUA verificado em meados da década de 80 estaria diretamente relacionado ao aumento do tráfico de cocaína e crack. mas sim porque a ofensa a estes bens jurídicos sem a devida repressão configura as primeiras janelas quebradas que. em basicamente três períodos: o período da heroína (1960/73). mais tarde. A Situação Brasileira Não se advoga a implantação pura e simples do modelo americano à realidade brasileira. de modo que cause escândalo ou ponha em perigo a segurança própria ou alheia). A criminalidade teria caído de qualquer maneira. Mas não apenas pelo valor intrínseco de cada um destes bens jurídicos. e o período da maconha/blunt (esta última uma nova "moda". solapar todo o sistema de segurança pública. Se o crime tem causas multifatoriais. como. que esta é uma questão aberta. antes do advento da Lei n° 9099/95) o que se notava. não consertadas. embriaguez (art. reconhecendo. igreja). Mudaram. Assim. período iniciado por volta de 1990). apresentar-se publicamente em estado de embriaguez. recusa de dados sobre própria identidade ou qualificação (art. Os autores terminam por concluir que ainda é cedo para aquilatar-se o real impacto da "operação tolerância zero" e da broken windows theory na redução da criminalidade em Nova Iorque. irão. perturbação de tranqüilidade (art. as soluções também são multifatoriais. levando ao aumento da criminalidade. como forma de manutenção da ordem e prevenção aos crimes graves. provocação de tumulto e conduta inconveniente (art. Não apenas questões culturais e legais impediriam isso. Até pouco tempo atrás (leia-se. Alguma condutas tipificadas pela lei das contravenções penais há muito tempo haviam deixado de ser reprimidas. O que realmente podemos e devemos aprender com a experiência americana é a necessidade inadiável de repressão às contravenções e aos pequenos delitos. 42). mas devem ser encarados como um importante elemento no combate à criminalidade. 65). resultante da colocação da erva no envoltório de cigarros baratos no lugar do próprio fumo. pois ela não é uma instituição isolada. todas elas respondendo ao crime. 40). concluindo também que não apenas a polícia deve "levar os louros" pela vitória contra o crime. mas sim parte de uma rede de instituições. Subculturas de violência em relação ao tráfico de cada tipo de drogas e "eras" de apogeu do comércio de entorpecentes. e não pode perder tempo com delitos de pouca gravidade. Blumstein e Wallman elencam uma série de opiniões de estudiosos que sustentam ou negam a importância desta política criminal da redução da criminalidade naquela metrópole. 62. a "tolerância zero" e a broken windows theory não são a panacéia de todos os males. Mas nos perguntamos se alguns dos bens jurídicos que elas protegem por acaso não mais merecem a proteção da norma penal. Tais contravenções não podem mais ser vistas pelas lentes do intérprete de 1942. deve priorizar a investigação de crimes graves. A polícia reza esta estratégia. no entanto. era a virtual paralisação do sistema quando se tratava de reprimir contravenções e pequenos delitos. perturbação do trabalho ou do sossego alheios (art. por exemplo. 60. par. senão que a simples falta de dinheiro para a implementação de uma política criminal nos moldes da que foi implementada em Nova Iorque configura uma barreira quase que intransponível para que se repita aquela experiência exatamente como aconteceu. 68). embora não o único. porém. O trabalho e o sossego alheios não mais merecem ser protegidos contra a perturbação? A ordem pública não mais merece ser protegida contra a provocação de tumulto e condutas inconvenientes? A tranqüilidade não mais merece ser protegida contra a perturbação? A nosso sentir a resposta deve ser sim. Isto explicase pela já referida estratégia de prioridades. único. mendicância ameaçadora (art. algumas formais (tribunais e escolas) e outras informais (família. o período da cocaína/crack (com pico em 1984/89). Página 24 de 34 . por outros fatores.

nos últimos anos e décadas. Inocorrência: Inexiste crime de dano na modalidade ‘deteriorar’. Elas inevitavelmente o serão. Data: 05. bem ao contrário. o Direito Penal só deve atuar na defesa dos bens jurídicos imprescindíveis à coexistência pacífica dos homens e que não podem ser eficazmente protegidos de forma menos gravosa. deteriora a pintura de prédio municipal. a sua criminalização é inadequada e não recomendável. exigindo determinadas intenções e tendências. e em 2003. em nosso entender. a seu turno. certamente. Quando as pequenas janelas estão quebradas. Processo n° 1199469/1. a seguinte questão: não é razoável utilizar-se o direito penal para proteger minimamente a comunidade de condutas que criam um clima propício. excluindo a punibilidade da prática imprudente em alguns casos. 9ª Câmara. certamente são outros. Mas isto. em 1942 eram um. assim como uma janela quebrada deve ser imediatamente consertada. não adianta invocar o Direito Penal para cuidar dos crimes violentos quando desprezou-se seu poder de coerção com relação a crimes menores. os conceitos de sossego. em muito contribuiu para isto. O princípio da fragmentariedade. Configuração. O resultado só pode ser o aumento da criminalidade. Portanto. mas também porque protegendo-os. Tal princípio apresenta-se sob três aspectos: em primeiro lugar. ao menos. Processo n° 1188271/2. corolário do princípio da intervenção mínima.200) "Dano. Configuração – Configura o crime previsto no art. condutas inconvenientes. que. da mesma maneira que é mais fácil quebrar uma janela quando outras já estão quebradas. preconizando que a criminalização de uma conduta só se legitima se constituir meio necessário para a proteção de determinado bem jurídico. está-se evitando a ascensão da criminalidade violenta. tipificando somente parte das Página 25 de 34 . Relator: Evaristo dos Santos. do CP. o sossego alheio e a tranqüilidade são bens jurídicos que merecem a proteção da norma penal não apenas pelo seu valor intrínseco. invocando-se princípios como o da intervenção mínima. uma vez que não houve deterioração" (Recurso em Sentido Estrito. em segundo lugar. base do movimento penal que terminou sendo conhecido como "direito penal mínimo". deveria. Esta segunda ementa é particularmente interessante na medida em que refere uma pichação em um muro já deteriorado. etc.04.2000). Ou seja. defende o bem jurídico somente contra ataques de especial gravidade. Agente que. deteriora a pintura de prédio municipal " (Recurso de Apelação. III. garantir sua sobrevivência ao longo dos tempos. e quase irresistível.também. ainda. antes de tornar o dispositivo legal letra morta. Isto significa atuar apenas no resultado e não na prevenção. Data: 19. "Dano qualificado.06.. Agente que faz pichações sobre muro já parcialmente pichado. 12ª Câmara. (8) Se outras formas de sanção ou outros meios de controle social revelarem-se suficientes para a tutela desse bem. A estes fica. é mais fácil (e há até um certo estímulo) pichar um muro já deteriorado do que um muro limpo. um muro pichado deve ser imediatamente limpo. que não desconhecemos o entendimento dos que sustentam que os bens protegidos pela criminalização das condutas contravencionais sequer deveriam ser protegidos pelo direito penal. Registre-se. Ainda segundo tal princípio. Há que se reconhecer que uma visão. mediante pichação. a conduta do agente que. orienta e limita o poder incriminador do Estado. O princípio da intervenção mínima. para a ascensão da criminalidade violenta? Mas não é apenas a estratégia das prioridades policiais que levou à ausência de repressão a tais contravenções e delitos em que não se verifica violência ou grave ameaça à pessoa. 163. sustenta que apenas as ações ou omissões mais graves endereçadas contra bens valiosos podem ser objeto de criminalização (9). na conduta do agente que faz pichações sobre muro já parcial e anteriormente pichado com propaganda eleitoral ou semelhante. parágrafo único. equivocada do Direito Penal. A ordem. Ou seja. não adianta correr para tentar evitar que as grandes janelas sejam quebradas. Relator: Amador Pedroso. tranqüilidade. mediante pichação.

desde Policiais. fonte de criminalidade e deve ser rigorosamente combatida. a raiz da criminalidade violenta que. 1967) 03. medo e. A norma penal deve proteger. há outras alternativas. 06. ao arquivamento do inquérito pelo Promotor de Justiça. em junho de 1993. Mal percebem que ali está o ovo da serpente. Para condutas menos graves. da LCP) 07. p. que não justifica a imposição de uma sanção penal. não se pode ignorar exemplos vitoriosos de combate à criminalidade. ou cerceando a liberdade de expressão. e não preventivamente em relação à criminalidade violenta. "Policiamento Comunitário e Controle sobre a Polícia – a experiência norte-americana". pág. "O Congresso não legislará no sentido de estabelecer uma religião. n° 4. padrões estes largamente aceitos e que reclamam proteção. criminalidade. tal como as sanções meramente administrativas. Nenhum direito pode ser exercido de forma absoluta. portanto. sustentam. Conclusão Quando se está às voltas com índices de criminalidade que há muito já ultrapassaram o limite do tolerável. deixando sem punição condutas meramente imorais como a mentira. A obra "The Crime Drop in América" (A Queda do Crime na América) anota que. atuando. "Problemas Atuais de Política Criminal". sob o argumento de que trata-se de um ilícito menor. não se deve hipertrofiar os direitos individuais em claro prejuízo aos direitos de uma comunidade de levar uma vida dentro de mínimos padrões de ordem e segurança. "a". Revista Ibero-Americana de Ciências Penais. A broken windows theory e a "operação tolerância zero" são. mais tarde.Departamento de Justiça Americano (Washington D. Observa-se. muito mais políticas de prevenção à criminalidade violenta. 15. em meados da década de 90 a criminalidade violenta caiu em níveis que não se viam desde a década de 60) 02. até Promotores e Juízes. A desordem é. O pensamento que se convencionou chamar de "Direito Penal Mínimo" peca ao considerar como dignos de proteção pela norma penal apenas condutas que configurem atos de violência grave exercida contra a pessoa.condutas que outros ramos do direito consideram antijurídicas e. mais tarde. do que propriamente política criminal de repressão. Página 26 de 34 . pelo Juiz. Tal pensamento. no Direito Penal. 14.C. ou o direito do povo de se reunir pacificamente. aqueles bens cuja violação gera desordem. Notas 01. hoje. e de dirigir ao Governo petições para a reparação de seus agravos". ao contrário do que normalmente se pensa. São Paulo. IBCCRIM. no mínimo. 05. ao não recebimento da denúncia ou à absolvição. conforme citado por Kelling. mesmo quando o delito está presente. repetido exaustivamente. também. ou de imprensa. US Government Printing Office. Seus inúmeros defensores não se cansam de repetir que a repressão penal deve ser utilizada apenas em caso de crimes graves. comprovadamente. publicado no ABA Journal. Conforme a Primeira Emenda à Constituição Americana. deve. ou sequer a instauração da ação penal.O exemplo americano. 2000. Report on a Pilot Study in the District of Columbia on Victmizacion and Attitudes Towards Law Enforcement . Portanto. "Leis Contra Mendicância Agressiva. fez e vem fazendo com que inúmeros operadores do direito na área penal. ser levado em consideração. não terão condições de combater eficazmente. finalmente. apenas repressivamente. levando à não instauração do inquérito pela autoridade policial. ou proibindo o livre exercício dos cultos. simplesmente desprezem os delitos de menor gravidade. A Lei das Contravenções penais brasileira tipifica a medicância feita mediante ameaça (art. 60. 04. não podendo isto ser visto como uma ofensa aos direitos individuais. pois. quase que um pensamento único com relação à doutrina do Direito Penal Mínimo. Estas leis violam a Constituição: Sim: Silenciando os Sem-Teto".

in Princípios Políticos do Direito Penal. 11. inimigo (Hobbes). ob. terroristas. Contra ele não se justifica um procedimento penal (legal). prospectivo. 753 e ss. não pode participar dos benefícios do conceito de pessoa. (d) quem ameaça constantemente a sociedade e o Estado. Resumidamente podemos extrair o seguinte: Quem são os inimigos?: criminosos econômicos. passando a empunhar (desde 1999. 1985. como por exemplo o de se comunicar com seu advogado constituído. foi o criador do funcionalismo sistêmico (radical) que sustenta que o Direito Penal tem a função primordial de proteger a norma (e só indiretamente tutelaria os bens jurídicos mais fundamentais). o futuro (o que ele representa de perigo futuro). sim. Introdução al Derecho Penal. (c) em casos de alta traição contra o Estado. 2000. 10. Abandonou claramente sua postura descritiva do denominado Direito Penal do inimigo (postura essa divulgada primeiramente em 1985. Quem não oferece segurança cognitiva suficiente de um comportamento pessoal. mas inequivocamente a partir de 2003) a tese afirmativa. Editorial Trotta. não só não deve esperar ser tratado como pessoa. senão como * Doutor em Direito Penal pela Faculdade de Direito da Universidade Complutense de Madri. (b) quem abandona o contrato do cidadão perde todos os seus direitos (Fichte). cit. deve morrer como tal (Rousseau). DIREITO PENAL DO INIMIGO (OU INIMIGOS DO DIREITO PENAL) 1 LUIZ FLÁVIO GOMES* JAKOBS E O DIREITO PENAL DO INIMIGO Günter Jakobs. na Revista de Ciência Penal . Em poucas palavras. senão consoante sua periculosidade. quem não aceita o “estado comunitário-legal”. tido como um dos mais brilhantes discípulos de Welzel. logo. 09. ob. cit. O inimigo. “ainda que de modo juridicamente ordenado – p. p. n.). deixa de ser membro do Estado. sim. (b) não deve ser punido de acordo com sua culpabilidade. deve ser tratado como inimigo (Kant). está em guerra contra ele. Fundamentos (filosóficos) do Direito Penal do inimigo: (a) o inimigo. o criminoso não deve ser castigado como súdito. sim. Maurício Antônio Ribeiro Lopes. (d) não é um Direito Penal retrospectivo. ao infringir o contrato social. Consultor e Parecerista. Barcelona. com medida de segurança. p. Página 27 de 34 . 6. 72. ed. (c) as medidas contra o inimigo não olham prioritariamente o passado (o que ele fez). senão que o Estado não deve tratá-lo como pessoa (pois do contrário vulneraria o direito à segurança das demais pessoas). um procedimento de guerra. delinqüentes organizados. (e) o inimigo não é um sujeito de direito.. 47) dessa linha de pensamento. p. objeto de coação. 1999. Conforme Maurício Antônio Ribeiro Lopes. Secretário-Geral do IPAN (Instituto Panamericano de Política Criminal). 45” (sic). O autor cita o fatídico 11 de setembro de 2001 como manifestação inequívoca de um ato típico de inimigo.08. sim. Cabe ao Estado não reconhecer seus direitos. p. é inimigo quem se afasta de modo permanente do Direito e não oferece garantias cognitivas de que vai continuar fiel à norma. Mestre em Direito Penal pela USP. 2ª ed. não pode contar com direitos processuais. Bosch. sim.ZStW. Como devem ser tratados os inimigos? O indivíduo que não admite ingressar no estado de cidadania. p. 97.. 478.. Características do Direito Penal do inimigo: (a) o inimigo não pode ser punido com pena. logo. 93. legitimadora e justificadora (p. por conseguinte. autores de delitos sexuais e outras infrações penais perigosas (Jakobs. Derecho Y Razon – Teoria del Garantismo Penal. não é um sujeito processual. 92. 4ª Ed. p. RT. 39).

(g) o Direito Penal do cidadão mantém a vigência da norma. (c) A função da pena no Direito Penal do cidadão é contrafática (contrariedade à sua violação. o Direito Penal do inimigo é contra aqueles que atentam permanentemente contra o Estado: é coação física. continua com o status de pessoa. o Direito Penal do inimigo combate preponderantemente perigos. O Direito Penal do cidadão é um Direito Penal de todos. para ele vale na integralidade o devido processo legal. (f) exagerada antecipação da tutela penal. ainda assim. que deve ser eliminado pelo maior tempo possível. oferece garantias de que se conduzirá como pessoa que atua com fidelidade ao Direito. a pena reafirma contrafaticamente a norma).).(f) o cidadão. leia-se. Dois Direitos Penais: Pela tese de Jakobs. em relação ao inimigo (terrorista. justifica-se a antecipação da proteção penal. a norma segue vigente e válida para a configuração da sociedade. portanto. há prevenção do delito (em relação a delitos que poderiam ser cometidos fora do presídio). (b) a pena não se dirige ao criminoso. por exemplo). simbolicamente. (c) aumento desproporcional de penas. espera-se que ele exteriorize um fato para que incida a reação (que vem confirmar a vigência da norma). no estágio prévio. Cidadão é quem. a pena impede que o sujeito pratique crimes fora do cárcere. (b) inobservância de princípios básicos como o da ofensividade. um ataque à sua vigência. o Estado pode proceder de dois modos contra os delinqüentes: pode vê-los como pessoas que delinqüem ou como indivíduos que apresentam perigo para o próprio Estado. como meio para intimidar outras pessoas. colaboração premiada etc. mesmo depois de violada. sim. Bandeiras do Direito Penal de inimigo: o Direito Penal do inimigo. deve ser interceptado prontamente. (d) no Direito Penal do inimigo procura predominantemente a eliminação de um perigo. (e) quanto ao significado físico. tem função preventiva integradora ou reafirmadora da norma. ao cidadão que atua com fidelidade ao Direito. (i) flexibilização da prisão em flagrante (ação controlada). Página 28 de 34 . já o inimigo perde esse status (importante só sua periculosidade). (j) quanto ao cidadão (autor de um homicídio ocasional). (j) infiltração de agentes policiais. como se vê.. para alcançar os atos preparatórios. (i) mesmo que a pena seja intensa (e desproporcional). (g) corte de direitos e garantias processuais fundamentais. necessita da eleição de um inimigo e caracteriza-se ademais pela oposição que faz ao Direito Penal do cidadão (onde vigoram todos os princípios limitadores do poder punitivo estatal). o outro é o Direito Penal do inimigo. A pena de prisão tem duplo significado: um simbólico e outro físico: (a) o fato (criminoso) de uma pessoa racional significa uma desautorização da norma. (d) criação artificial de novos delitos (delitos sem bens jurídicos definidos). (h) o Direito Penal do inimigo deve adiantar o âmbito de proteção da norma (antecipação da tutela penal). (e) endurecimento sem causa da execução penal. diz que é irrelevante ter praticado essa conduta (para o efeito de se destruir o ordenamento jurídico). da imputação objetiva etc. até chegar à guerra. Dois. a pena. Suas principais bandeiras são: (a) flexibilização do princípio da legalidade (descrição vaga dos crimes e das penas). que deve ser respeitado e contar com todas as garantias penais e processuais. mesmo depois do crime. portanto. da exteriorização do fato. Este deve ser tratado como fonte de perigo e. (h) concessão de prêmios ao inimigo que se mostra fiel ao Direito (delação premiada. mesmo depois de delinqüir. Enquanto ele está preso. por seu turno. seriam os Direitos Penais: um é o do cidadão. Inimigo é quem não oferece essa garantia. em razão de sua periculosidade.

Esse Direito Penal “do legislador” é abertamente punitivista (antecipação exagerada da tutela penal. como se pune a periculosidade. contra ela só se justifica o Direito Penal da normalidade (leia-se: do estado de direito). é um Direito Penal prospectivo. o Direito Penal do inimigo relembra esse trágico período. mas essa lógica “de guerra” (de intolerância. causa grande clamor midiático e às vezes popular. para questionar a legitimidade do sistema (desproporcionalidade.). desse modo. 2. de outro lado. na atualidade. hoje a esquerda punitiva se aliou à direita repressiva. A lógica da guerra (da intolerância excessiva. que pune o agente pelo que ele “fez”. trad. d. n. b. do “vale tudo”) conduz a excessos. não um ato de guerra. não se reprovaria (segundo o Direito penal do inimigo) a culpabilidade do agente. joalheiros. é fruto. Destrói a razoabilidade e coloca em risco o Estado Democrático.. ao contrário. c. o Direito Penal do inimigo não repele a idéia de que as penas sejam desproporcionais.). do Direito Penal simbólico somado ao Direito Penal punitivista (Cancio Meliá). não entra em jogo a questão da proporcionalidade (em relação aos danos causados). entre a direita e a esquerda punitivas (houve época em que a esquerda aparecia como progressista e criticava a onda punitivista da direita. mas esse Direito Penal do inimigo é claramente inconstitucional. a criminalidade etiquetada como inimiga não chega a colocar em risco o Estado vigente. Com isso pena e medida de segurança deixam de ser realidades distintas (essa postulação conflita diametralmente com nossas leis vigentes. advogados. de “vale tudo” contra o inimigo) não se coaduna com o estado de direito. RT. que se caracteriza pela imposição da pena de prisão sem as garantias penais e processuais.) e muitas vezes puramente simbólico (é promulgado somente para aplacar a ira da população). mas não chega a colocar em risco a própria existência do Estado). Ferri e Garófalo que propugnavam (inclusive) pelo fim das penas e imposição massiva das medidas de segurança). fruto disso é o Direito Penal do inimigo). São Paulo. flexibilização de garantias. m. em lugar do retrospectivo Direito Penal da culpabilidade (historicamente encontra ressonância no positivismo criminológico de Lombroso. as manifestações do Direito Penal do inimigo só se tornaram possíveis em razão do consenso que se obtém. é nada mais que um exemplo de Direito Penal de autor. logo. que lamentavelmente está presente em muitas legislações penais.(l) uso e abuso de medidas preventivas ou cautelares (interceptação telefônica sem justa causa. O que Jakobs denomina de Direito Penal do inimigo. A expansão do Direito Penal (Silva Sanchez. urge concluir que “Direito Penal do cidadão é um pleonasmo. i. f. não se segue o processo democrático (devido processo legal). ademais. temos afirmar que seu crime é uma manifestação delitiva a mais. um verdadeiro procedimento de guerra. sua periculosidade. nem suas instituições essenciais (afetam bens jurídicos relevantes. CRÍTICAS À TESE DO DIREITO PENAL DO INIMIGO DE JAKOBS a. visto que só se podem conceber medidas excepcionais em tempos anormais (estado de defesa e de sítio). enquanto Direito Penal do inimigo é uma contradição”. A expansão do Direito Penal. um direito de terceira velocidade. h. g. 2002) é o fenômeno mais evidente no âmbito punitivo nos últimos anos. se Direito Penal (verdadeiro) só pode ser o vinculado com a Constituição Democrática de cada Estado. O Direito penal do inimigo é um “não Direito”. desproporcionalidade das penas etc. o Direito Penal do inimigo constitui. e. (m) medidas penais dirigidas contra quem exerce atividade lícita (bancos. bens jurídicos indeterminados. Não é boa companheira da racionalidade. j. tratar o criminoso comum como “criminoso de guerra” é tudo de que ele necessita. que só destinam a medida de segurança para agentes inimputáveis loucos ou semi-imputáveis que necessitam de especial tratamento curativo). de Luiz Otávio Rocha. leiloeiros etc. desse modo. a soma dos dois está gerando como “produto” o tal de Direito Penal do inimigo. sim. sim. quebra de sigilos não fundamentados ou contra a lei). A máxima expressão do Direito Penal de autor deu-se durante o nazismo. l. p. k. que pune o sujeito pelo que ele “é’ e faz oposição ao Direito Penal do fato. processo antidemocrático etc. 59 e ss. Página 29 de 34 .). é uma nova “demonização” de alguns grupos de delinqüentes. perdem lugar as garantias penais e processuais. como bem sublinhou Cancio Meliá (ob cit.

(z) difunde-se o terror e o terrorista passa a ser o novo inimigo. é pura propaganda. Isso se coaduna com a política econômica neoliberal. (b) quando o poder não conta com limites. mortos. os feiticeiros. sobretudo a partir da Queda do Muro de Berlim. isso significa que pelo menos dezoito milhões de pessoas vivem às custas desse sistema. para controlar os miseráveis e seus delitos). (s) até 1980 os EUA contava com estatísticas penais e penitenciárias iguais às de outros países. os países da América Latina não podem fazer a mesma coisa que os EUA: não possuem a máquina de fazer dólares. (c) o sistema penal. (f) em nome de Cristo começaram a queimar os inimigos. (m) para se controlar os pobres e miseráveis cria-se uma nova instituição: a polícia (que nasceu. cadáveres etc. Quem Página 30 de 34 . (x) das TVs é preciso “sair sangue” (com anúncios de guerras. (r) no final do século XX o centro do poder se consolida nas mãos dos EUA. para que seja exercido permanentemente. é promocional e emocional: fundamental sempre é projetar a dor da vítima (especialmente nos canais de TV). isso ficou patente nas várias doutrinas de segurança nacional. (ff) os juízes estão apavorados. (cc) o político apresenta o Direito Penal como o primeiro 5 remédio para isso. fascismo etc. (v) o Direito Penal na atualidade é puro discurso.3. incrementa-se) a divisão de classes: riqueza e miséria continuam tendo que conviver necessariamente. portanto. (dd) o Direito Penal tornou-se um produto de mercado. (ee) o Direito Penal na atualidade não tem discurso acadêmico. o poder dominante tem que ter estrutura e ser detentor do poder punitivo. transforma-se em estado de polícia (que se opõe. os curandeiros etc. com isso o índice de desemprego foi reduzido. um sistema penal paralelo). (h) quando a burguesia chega ao poder adota o racismo como novo Satã. (bb) o Direito Penal surge como solução para aniquilar o inimigo.). REAÇÃO DE ZAFFARONI AO DIREITO PENAL DO INIMIGO O debate sobre o denominado Direito Penal do inimigo só está começando. como se vê. (u) hoje os EUA contam com cerca de 5 milhões e 300 mil presos. (l) durante a Revolução Industrial não desaparece (ao contrário. o inimigo nesse período foi o comunismo e o comunista. é a mídia que domina o Estado. não o Estado que se sobrepõe a ela. (q) o nazismo exerceu seu poder sem leis justas (criaram.). ao estado de direito). (j) o criminoso é um ser inferior. (o) no princípio do século XX a fonte do inimigo passa a ser a degeneração da raça. passou a dizer que vítima era ele (com isso neutralizou a verdadeira vítima do delito). o sistema penal vem sendo utilizado para encher os presídios. Cabe considerar que desde essa época vem se difundindo o fenômeno da privatização dos presídios. sobretudo). (n) na Idade Média o processo era secreto e o suplício do condenado era público. é puro discurso publicitário. juiz garantista tem de enfrentar a mídia. seis milhões de pessoas estão trabalhando no sistema penitenciário americano. especialmente nos EUA. pode-se concluir: desde 1980. a partir da Revolução Francesa público é o processo. (t) com Reagan começa a indústria da prisionização. (i) conta para isso com apoio da ciência médica (Lombroso.. o castigo passa a ser secreto. (aa) a população está aterrorizada. (d) o Estado. (e) seus primeiros inimigos foram os hereges. E como os EUA podem sustentar todo esse aparato prisional? Eles contam com a “máquina de rodar dólares”. (p) nascem nesse período vários movimentos autoritários (nazismo. pouco evoluído. inimigo (do estado de polícia) desde essa época é o marginalizado. (g) para inventar uma “cruzada” penal ou uma “guerra” deve-se antes inventar um inimigo (Bush antes de inventar a guerra contra o Iraque inventou um inimigo: Sadam Hussein). a difusão do medo é fundamental para o exercício do poder punitivo. De tudo quando foi resenhado em relação ao pensamento de Zaffaroni. claro. sempre está procurando um inimigo (o poder político é o poder de defesa contra os inimigos). num determinado momento. Frente a ele já reagiu o mestre Zaffaroni (em agosto de 2004) sublinhando o que segue: (a) para dominar. um animal selvagem.

interconexão. as reflexões propostas pelo modelo restaurativa permitem visualizar e reconfigurar a forma como atuamos nas atividades exercidas cotidianamente em nossos relacionamentos. as necessidades da vítima e as possibilidades do ofensor. humildade. OBJETIVO Restabelecer os laços rompidos pelo delito. Considerando-se a dificuldade de se encarcerar gente das classes mais bem posicionadas. EM QUE CASOS SE APLICA Além do campo da justiça institucional. expondo os prejuízos emocionais. pobres etc. incrementou-se a incidência do sistema penal sobre os excluídos. as pessoas envolvidas em situações de violência ou conflito. O movimento “tolerância zero” (que significa tolerância zero contra os marginalizados. empoderamento e esperança. para que gere os efeitos desejados no processo convencional. compensando danos. um modo de reparar a dor. diferente do processo convencional. Esse encontro é chamado de Círculo Restaurativo e. com a mútua compreensão dos sentimentos tornando a vida das pessoas envolvidas mais tranqüila e compensada pelos sofrimentos decorrentes do conflito. abordando a resolução dos conflitos de forma democrática. visando estabelecer um plano restaurativo de forma a construir um acordo que atenda às necessidades criadas pelo conflito. o respeito. JUSTIÇA RESTAURATIVA CONCEITO Novo modelo de Justiça. Quem antes não tinha (mesmo) lugar para ir. O procedimento da justiça restaurativa só será adotado quando as partes envolvidas no conflito quiserem conversar e entender a causa real do conflito. seus familiares. seus amigos e a sua comunidade se reúnem com um ou mais mediadores ou facilitadores que dialogarão sobre o ocorrido e suas conseqüências. com ações construtivas que beneficiam a todos. O Direito Penal da era da globalização caracteriza-se (sobretudo) pela prisionização em massa dos marginalizados. assim.constrói ou administra presídios precisa de presos (para assegurar remuneração aos investimentos feitos). Pelo menos agora os pobres cumprem uma função socioeconômica! Finalmente (a elite político. gerando compromissos futuros e responsabilidade. com garantia de sigilo dos conteúdos tratados no encontro. Página 31 de 34 . 7.) é manifestação fidedigna desse sistema penal seletivo. agora já sabe o seu destino: o cárcere. estabelecendo. de forma coletiva e integrada com a comunidade.econômica) descobriu uma função para eles. a fim de restaurar a harmonia e o equilíbrio entre todos. durante a sua realização. assim como os seus apoiadores. Optou claramente pelos pobres. resgatando a convivência pacífica no ambiente afetado pelo conflito. a dignidade entre as partes. promovendo a participação social. por meio da valorização dos sentimentos de honestidade. os traumas. COMO FUNCIONA No procedimento da Justiça Restaurativa. eliminando-lhes a liberdade de locomoção. o facilitador coordena e orienta as pessoas diretamente envolvidas. morais e materiais causados. voltado para solucionar os problemas resultados das relações pessoais prejudicadas por situações de violência (criminal ou não). O espaço oferecido pela Justiça Restaurativa é seguro para a abordagem dos problemas e constituição das soluções pacíficas para o futuro. O acordo restaurativo celebrado deve respeitar os limites da lei. a auto estima da vítima e os danos materiais sofridos. valorizando o diálogo.

g) Responsabilizar o ofensor pelos seus atos em relação à vítima e à própria comunidade. d) Facilitar o entendimento entre os envolvidos. considerados em sua integralidade biopsicossocial. c) Agir por meio da escuta compassiva. a comunidade. assim como a inclusão social do ofensor. os delinquentes. ameaças. aqueles que envolvam conflitos que traumatizaram as partes a nível de suas relações pessoais e existenciais. neutralizando a intervenção penal formal do Estado. 8. constrangimentos ilegais. MOVIMENTO LEI E ORDEM Originou-se nos Estados Unidos na década de setenta. psicológicas e social. crimes contra a honra. necessária para que o trabalho da equipe multidisciplinar seja efetivo e humano. merecedoras de proteção legal. Brigas de vizinhos. A filosofia do “Movimento Lei e Ordem” separa a sociedade em dois grupos:  O primeiro. h) Apoiar e controlar o cumprimento do acordo firmado pelas partes no círculo restaurativo. lesões corporais. b) Utilizar uma metodologia pluridisciplinar que possibilite vias alternativas de resolução do conflito gerador do delito. enfim. à luz dos parâmetros legais e éticos. com a idéia de repressão máxima e alargamento de leis incriminadoras. QUEM PARTICIPA Todos os envolvidos: a vítima. oferecendo a dimensão ampliada do conflito.”A pena. composta de profissionais das áreas jurídicas.  O segundo. acidentes de veículos. ofensor e dos círculos restaurativos de consenso. a punição e a penalização de grande quantidade de condutas ilícitas são seus objetivos”.nos ambientes de trabalho. composto por pessoas de bem. Pilares Pena = Castigo Penas Severa Para Crimes Violentos Regime Penitenciario Especial Para Crimes Mais Graves Resposta Imediata Ao Delito (Ampliação Da Prisão Preventiva) Controle Da Execução Das Penas A Cargo Das Autoridades Penitenciarias Página 32 de 34 . na vizinhança e na família. revelando grande avanço na pacificação social. aos quais se endereça toda a rudeza e severidade da lei penal. a prisão. perturbações do sossego e da tranqüilidade alheios. na escola. que realizam o atendimento às partes. de homens maus. a família e pessoas indiretamente envolvidas com o fato e a equipe de facilitadores. da mediação vítima. o ofensor. e) Prestar apoio a vítima f) Promover a restauração da vítima. MISSÃO a) Ter como referencial de ação as práticas restaurativas.

Art. seguidamente. Da Lei de crimes hediondos • • • • • • • • Página 33 de 34 . corrupção. e suas alterações. Inciso XLIII “XLIII . 8.A lei considerará crimes inafiançáveis e insuscetíveis de graça ou anistia a prática de tortura. em 1998 acontece o vergonhoso fato da "pílula de farinha" (a falsificação do anticoncepcional Microvlar). os executores e os que."falsificação. 5º. sob a pressão dos acontecimentos. por eles respondendo os mandantes. o terrorismo e os definidos como hediondos.A Política Criminal tem se ocupado em preservar os bens tutelados onde apresenta o Sistema Penal como igualitário quando na verdade é seletivo. foi seqüestrado no Rio de Janeiro o publicitário Roberto Medina. • • • • • A pena se justifica como um castigo e uma retribuição no velho sentido.072/90 (através da Lei n. quase exclusivamente das autoridades penitenciarias. justo quando de fato seu desempenho é repressivo. 2º. Deve haver uma diminuição dos poderes individuais do Juiz e o menor controle judicial na execução que ficará a cargo. Lei 1. bem como o legislador ordinário. O âmbito da prisão provisória deve ampliar-se de forma que suponha uma imediata resposta ao delito. e. LEI DE CRIMES HEDIONDOS • • Constituição federal de 88. as chacinas da Candelária e de Vigário Geral. acrescendo à lista de crimes hediondos o "homicídio. que teve ressonância até meados da década de oitenta em todo o continente. podendo evitá-los.” É nítido que o legislador constitucional. 8. foi incluído no rol dos Crimes Hediondos o seguinte fato típico . altera o artigo 1º da Lei n.164 de 28 de março de 2007. adulteração ou alteração de produto destinado a fins terapêuticos ou medicinais". mais um crime escandalizou o país. As penas privativas de liberdades impostas por crimes violentos hão de cumprir-se em estabelecimentos penitenciários. e homicídio qualifIcado“. 8. Em 06 de junho de 1990.comprometido com a proteção da dignidade humana quando na realidade é estigmatizaste. visando não só adequar o preceito constitucional à norma penal como também atender a imperativos de ordem jurídico-social.072/90. Congresso Nacional. trata-se do assassinato da atriz Daniela Perez. quando praticado em atividade típica de grupo de extermínio. Com isso. ao regulamentar esse preceito através da Lei n. ainda que cometido por um só agente.930/94). o tráfico ilícito de entorpecentes e drogas afins. se omitirem. Em 1992. O chamado delito grave há de castigar -se com penas severas e duradouras.072/90. Lei n. altera o Inciso II do Art. agiram apressada e emocionalmente na lógica do "Movimento da Lei e da Ordem". ficando 16 dias sob o poder dos seqüestradores. 8.

. tentava tirá-la do carro. assassinaram os pais de Suzane. de 7 de dezembro de 1940 .• • Suzane Von Richthofen. da Lei de crimes hediondos bem como o Título VI da Parte Especial do Decreto-Lei no 2. juntamente com namorado e cunhado. corrupção. A criança ficou presa ao cinto de segurança quando a mãe.Código Penal Repercussão midiática da CPI da Exploração sexual de menores do Congresso Nacional e suas repercussões na sociedade • • TIPIFICAÇÃO DE CRIMES HEDIONDOS  Homicídio  Latrocínio  Extorsão qualificada pela morte  Extorsão mediante sequestro  Estupro simples e qualificado  Atentado violento ao pudor  Genocídio.848. adulteração ou alteração de produto destinado a fins medicinais TIPOS EQUIPARADOS A CRIMES HEDIONDOS  Tortura  Tráfico Ilícito de Entorpecentes e Drogas Afins  Terrorismo “Não é a crueldade das penas um dos maiores freios dos delitos. tentado ou consumado  Falsificação.015 de 07 de agosto de 2009 altera o Art.)” BECARIA Página 34 de 34 . Lei 12. Os bandidos saíram em disparada e o menino foi arrastado pendurado ao carro por 7 quilômetros.. ao ser rendida pelos bandidos. 1º. adentraram sua residência em 31 de outubro de 2002. Dois ladrões de carro mataram o menino João Hélio Fernandes. de 6 anos. senão a infalibilidade delas(. e utilizando barras de ferro.