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Feminismo, relações de gênero e subjetividades - ST 33

Olívia Candeia Lima Rocha


UFPI
Palavras-chave: Mulheres escritoras - literatura - feminismo.

Escritas desejantes: deslocamentos de fronteiras

No século XIX, as mulheres brasileiras começaram a enveredar pelo cenário literário


ansiosas por obter reconhecimento intelectual e social. Por meio da escrita elas expressavam seus
desejos e anseios, provocando deslocamentos ao inserir suas vozes em espaços de publicação.
Assim, a escrita se configurou em uma instância de desejo e foi usada para dar vazão não somente
às vozes femininas, mas aos desejos que acalentavam em seus corações bem como, a suas reflexões
sobre os lugares sociais que a mulher deveria ocupar na sociedade. Entretanto essa escrita,
enquanto tribuna de expressão era vedada às mulheres, como demonstra Luísa Amélia de Queirós:

A mulher que toma a pena


Para lira a transformar,
É, para os falsos sectários,
Um crime que os faz pasmar!
Transgride as leis da virtude
A mulher deve ser rude
Ignara por condição!
Não deve aspirar a glória!
Nem um dia na história
Fulgurar com distinção!

Mas eu que sinto no peito,


Dilatar-me o coração,
Bebendo as auras da vida,
Na sublime inspiração:
Eu que tenho uma alma grande,
Uma alma audaz que s’expande
No espaço a voejar.
Não posso curvar a fronte
Nesse estreito horizonte
E na inércia ficar!1

Para enveredar pelo espaço literário, considerado inapropriado para as mulheres, elas
lançaram mão de estratégias como a organização de jornais e o uso de pseudônimos. O
posicionamento de Luísa Amélia de Queiroz e a criação do jornal Borboleta (1904-1906), se
inscrevem como práticas que marcam a segunda metade do século XIX e primeiras décadas do
século XX, enquanto expressões da primeira onda feminista e demonstram que essa encontra
ressonância e repercussão no Piauí. O jornal Borboleta representa a criação de um espaço que
passa a permitir que mulheres instruídas, pertencentes a um estrato social privilegiado e a uma elite
cultural, pudessem defender o acesso feminino à instrução, como ilustra Alaíde Burlamaqui:

A mulher, como todos sabem, deve ser instruída, não só porque a instrução lhe dá mais
realce como também porque a habilita para todos os misteres da vida, para o bom
desempenho dos deveres que lhe são inerentes. Muitos pensam que a mulher deve
esmerar-se mais na educação doméstica, eu porém não penso assim, acho que ela não deve
conquistar títulos que não estejam ao seu alcance mais deve estudar e trabalhar muito com
o fim de ter certos conhecimentos seguindo assim o exemplo de Maria Amália Vaz de
Carvalho, Julia Lopes de Almeida, Inês de Sabino e tantas outras têm sabido se impor pela
sua vasta ilustração. A instrução é a base da vida, a mulher instruída tem entrada franca em
toda parte, e finalmente a instrução e um tesouro que todos devem buscar2.

Alaíde Burlamaqui observa que a instrução ampliava as possibilidades femininas, abrindo


portas, pois “a mulher instruída tem entrada em toda parte”. Ela se opunha à restrição feminina ao
espaço privado e às atividades domésticas, mencionando como exemplos a serem seguidos
escritoras atuantes e reconhecidas intelectualmente, como, Maria Amália Vaz de Carvalho, Inês
Sabino e Júlia Lopes de Almeida.
O jornal Borboleta assegurava às mulheres teresinenses espaços para a publicação de seus
textos, opiniões e reivindicações. E dessa forma, atuava no deslocamento das fronteiras que
delimitavam os territórios prescritos para a vida feminina, ampliando-os lentamente pela
constituição de alternativas na construção de lugares próprios, que lhes permitissem protagonizar
no cenário literário e questionar os papéis sociais que as mulheres vinham ocupando, de forma a
traçar novas cartografias.
As décadas de 1910 e 1920 marcam a emergência da segunda onda feminista que tendo
como cerne o estabelecimento de igualdade de direitos entre homens e mulheres, trazia questões
como, o acesso feminino à instrução, a crítica ao casamento enquanto instituição de opressão das
mulheres, a ampliação das possibilidades femininas no mercado de trabalho, e dava maior ênfase à
reivindicação do sufrágio feminino3.
A repercussão das questões levantadas pelas feministas nesse período pode ser observada
por meio de crônicas no jornal O Piauí e Correio do Piauí. A criação de uma associação feminina
no Piauí com a finalidade de defender interesses específicos das mulheres era cogitada. Nessa
perspectiva o feminismo passa a ser debatido por vozes femininas que se ocultavam sob máscaras,
tais como, “Acácia”, “Bonina”, “Camélia”, “Dolores”, “Eglantine”, “Magnólia”, “Martha”,
“Sonia” e “Violeta”. Os posicionamentos expressos nas crônicas eram multifacetados expressando
desejos diferenciados, que faziam aflorar nas páginas dos jornais discordâncias que compunham o
leque da pluralidade dos anseios femininos. Nesse debate, saltam opiniões como a de “Magnólia”
que era contra a restrição das mulheres às atividades domésticas e ao casamento como único
destino feminino, mas para ela o ponto principal do feminismo não devia ser o sufrágio, mas a
instrução feminina:

[...] demais, deixe que lhe diga a verdade. Acompanho com interesse o que as sulistas vêm
fazendo em prol da nossa emancipação. Sou, porém contraria ao ponto essencial por elas
defendido: o sufrágio feminino. Condeno, entretanto, a tendência que temos de nos
restringir (com raras exceções) aos labores domésticos. Cultivemos as letras, as ciências, e
as artes, e procuremos tornar independente nosso futuro, extinguindo, desta forma, o velho
preconceito de que a mulher não pode prescindir do casamento4.

Esse discurso evidencia que os anseios femininos não se restringiam ao casamento e aos
papéis de mãe e esposa, as mulheres ansiavam por uma igualdade entre os gêneros e por
reconhecimento intelectual. Elas percebem a instrução como um caminho a ser trilhado para atingir
seus objetivos, libertando-se da relação de dependência financeira em relação ao amparo
masculino, do pai, do irmão ou do marido, da mesma forma que ganhariam autonomia social para
realizar escolhas e empreendê-las conforme seu interesse e vontade.
Nas décadas seguintes a ampliação do acesso feminino à instrução e sua atuação nos diversos
setores do espaço público resultou no surgimento de novas questões e reivindicações que marcam a
terceira onda feminista. Segundo Ana Alice Alcântara Costa essa fase do feminismo,

surge como conseqüência da resistência das mulheres à ditadura militar, por conseguinte,
intrinsecamente ligado aos movimentos de oposição que lhe deram uma especificidade
determinante, sob o impacto do movimento feminista internacional e como conseqüência
do processo de modernização que implicou em uma maior incorporação das mulheres no
mercado de trabalho e a ampliação do sistema educacional5.

Essas conquistas, reivindicadas na primeira metade do século XX, contribuíram para o


surgimento de novas questões que marcam a terceira onda feminista, entre elas, a politização do
ambiente privado, tangenciando tabus como, a sexualidade, a violência contra a mulher e o
questionamento das desigualdades entre os sexos, aspectos que podem ser sintetizados como uma
crítica à cultura e à moral patriarcal.
Nas décadas de 1960 e 1970 a castidade e a virgindade são desmistificadas pela
reivindicação de liberação do corpo feminino para a vivência do prazer de forma desvinculada da
reprodução. Os contraceptivos tornaram possível essa revolução sexual que lançou novas bases
para a relação das mulheres com o próprio corpo, com a sexualidade e com a maternidade que
deixa de ser para as mulheres uma fatalidade da vida sexual para torna-se uma possibilidade6.
Vivenciava-se, assim, uma emergente liberação de um potencial de desejo reprimido pela cultura
de contenção e controle da sexualidade feminina, rompendo-se com tabus, contra os quais as
autoras anarco-sindicalistas já investiam na década de 1920.
Ednólia Fontenele figura entre as autoras piauienses que a partir da década de 1970, que
ousam extravasar sensualidade em suas poesias, como pode se perceber na poesia “Erotizada”:

Quero tomar banho nua


nas águas dos teus olhos
onde aportam navios
que não alcanço.
Quero
viver meu amor ciumento
violento, devastador e
escrever declarações de amor
de tão verdadeiras
nem eu mesma as sinta.
Quero viver meu amor
- eterno viajante no país do nunca -
sem ansiedades
i ne(m)edidas7.

Nessa terceira fase do feminismo, a reivindicação de liberação da sexualidade feminina


trouxe o corpo para o eixo das reflexões feministas, como lugar de realização e afirmação de uma
singularidade e autonomia, perspectiva que pode ser observada na poesia Circunferência8 de Anna
Miranda:

Deus me fez mulher


Mas dou pernada
No homem que achar que eu vou ser dele.

Pertenço a mim
Fui delimitada em território e espaço
Desde sempre.

Circunscrita nas veias


Do meu próprio sangue
Implantada no espaço
Da minha própria carne

Não sou rei. Nem rainha


Sou de mim
E de nada serei.

A poesia de Anna Miranda apresenta-se como um discurso feminista, que se opõe à idéia de
que a mulher naturalmente tem que ser submissa, mas pelo contrário marca sua autonomia ao
enfatizar que pertence a si mesma.
Acompanhando os recortes que marcam a emergência das ondas feministas, verifica-se que
os anseios femininos por ampliação de direitos e de possibilidades de atuação e realização pessoal
transformam-se e redirecionam-se. Os discursos feministas que circularam na sociedade brasileira
nos séculos XIX e XX foram acompanhados pelas mulheres piauienses como se percebe nos
questionamentos expressos sobre o lugar social feminino, bem como, na subversão de interdições
sociais, culturais e literárias.
O desvelar de transgressões que perpassam o enveredamento pelo cenário literário, a
reivindicação de novas perspectivas de atuação e reconhecimento para as mulheres, além do
estabelecimento de novas relações com o dizível revelam a configuração de práticas na sociedade
piauiense que nos permitem falar na existência de uma produção escriturística feminista no Piauí.
Ao mesmo passo, que se percebe a configuração de um discurso feminista liberal que privilegiou o
acesso feminino à educação como meio de ampliar os espaços de atuação e reconhecimento das
mulheres na sociedade, em detrimento da articulação de um movimento sufragista.
Descortina-se assim, a circulação de idéias feministas pelas searas piauienses. Guardadas as
singularidades do contexto local desvela-se o véu de silêncio que encobre a produção de mulheres
que deixaram vazar em seus escritos seus desejos por reconhecimento intelectual e romperam com
o silêncio que se colocava sobre suas vozes questionando a sociedade e o relacionamento entre
homens e mulheres.

Referências
A.B. O adorno da mulher. Borboleta, Teresina, 29 dez. 1905, p.1.
ALVES, Branca M. PITANGUY, Jacqueline. O que é feminismo? São Paulo: Abril Cultural,
brasiliense, 1985. (Coleção Primeiros Passos; 20).
COSTA, Ana Alice Alcântara. O Movimento Feminista no Brasil: dinâmicas de uma intervenção
política. Labrys: estudos feministas. jan. / jul. 2005. Disponível em:
http://www.unb.br/ih/his/gefem. Acesso em: 18 nov. 2005.
FONTENELE, Ednólia. Erotizada. IN: ADRIÃO NETO. (Org.). A Poesia Parnaibana: antologia.
2ª ed. Teresina: FUNDEC/COMEPI, 2001.
MAGNÓLIA. Correio elegante. Correio do Piauí, Teresina, 14 mar. 1922, p. 4.
QUEIRÓS, Luísa Amélia de. Flores Incultas. Parnaíba, PI: s.n., 1875.
RAGO, Margareth. Adeus ao Feminismo. Cadernos AEL - Arquivo Edgard Leuenroth: mulher,
história e feminismo, n. 3/4, Campinas, SP: AEL, 1995, 1996, p. 11- 43.
SCHUMAHER, Schuma. SCHUMAHER, Schuma. Primeira onda Feminista. Disponível em:
http://www.mulher500.org.br. Acesso em: 28 mai. 2005.

1
QUEIRÓS, Luísa Amélia de. Flores Incultas. Parnaíba, PI: s.n., 1875. p. 71.
2
A.B. O adorno da mulher. Borboleta, Teresina, 29 dez. 1905, p.1.
3
RAGO, Margareth. Adeus ao Feminismo. Cadernos AEL - Arquivo Edgard Leuenroth: mulher, história e feminismo,
n. 3/4, Campinas, SP: AEL, 1995, 1996, p. 11- 43.
4
MAGNÓLIA. Correio elegante. Correio do Piauí, Teresina, 14 mar. 1922, p. 4.
5
COSTA, Ana Alice Alcântara. O Movimento Feminista No Brasil: dinâmicas de uma intervenção política. Labrys:
estudos feministas. jan. / jul. 2005. Site: //www.unb.br/ih/his/gefem. Acesso em: 18 nov. 2005.
6
ALVES, Branca M. PITANGUY, Jacqueline. O que é feminismo? São Paulo: Abril Cultural, brasiliense, 1985.
(Coleção Primeiros Passos; 20).
7
FONTENELE, Ednólia. Erotizada. IN: ADRIÃO NETO. (Org.). A Poesia Parnaibana: antologia. 2ª ed. Teresina:
FUNDEC/COMEPI, 2001, p. 176.
8
Poesia repassada pela autora. O acesso a esse trabalho de Anna Miranda ocorreu por ocasião de colaboração para a
organização de uma antologia poética de autoras piauienses a ser publicada pela FUNDAC - Fundação Cultural do
Piauí.