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Direito e feminismo - uma difícil e necessária relação

Texto apresentado na Rede Nacional Popular de Estudantes de Direito

16 de julho de 2008

O texto foi apresentado em conferência no 1o Encontro Nacional da


REPED - Rede Nacional Popular de Estudantes de Direito, em Belo
Horizonte, dia 05/07/2008. Texto muito bom que ajuda na luta a partir da
perspectiva da mulheres que, organizadas, lutam por um mundo melhor
(Frei Gilvander Moreira)

DIREITO E FEMINISMO: uma difícil e necessária relação

Mariana Prandini Fraga Assis

Vocês devem estar se perguntando porque intitulei minha fala “Direito e


Feminismo” e não “Direito e Gênero”, já que gênero hoje é um conceito
que, poderíamos dizer, está na moda: é falado nas políticas públicas, é
falado na reforma política, é falado quando o tema é igualdade, enfim,
pesquisadores das mais diferentes áreas do conhecimento acionam o
conceito de gênero quando falam de diferenças entre homens e mulheres.
Mas foi justamente por isso que retomei o conceito de feminismo. Quem de
vocês conhece a trajetória acadêmica das discussões sobre a mulher e como
chegamos ao conceito – na verdade, à categoria analítica – de gênero?

Pois bem, inicialmente, no alvorecer do século XX, por volta dos anos 30,
quando a mulher passou a ser objeto de estudo na academia, obviamente
pelas feministas acadêmicas, o foco das preocupações era exatamente o
sujeito mulher. Assim, nasceu o campo de estudos de mulheres,
profundamente vinculado ao feminismo. Com o passar dos anos, percebeu-
se que estudar exclusivamente a mulher, sem considerar o espaço-tempo
em que ela estava inserida e, mais do que isso, os outros sujeitos que com
ela se relacionavam e a diversidade dentro do próprio grupo das mulheres,
não era suficiente. Joan Scott – uma historiadora inglesa – cunhou, então, o
conceito de gênero, obviamente influenciada pelos estudos pioneiros de
Gayle Rubin, uma antropóloga que, na década de 70, discutindo o
fenômeno a que nós mulheres somos submetidas, por ela chamado de
“Tráfico de Mulheres”, formulou o conceito de sistema sexo-gênero.

Assim, o conceito de gênero é formulado por Scott na década de 80 do


século passado para apontar “como os sujeitos sociais estão sendo
constituídos cotidianamente por um conjunto de significados impregnados
de símbolos culturais, conceitos normativos, institucionalidades e
subjetividades sexuadas que atribuem a homens e mulheres um lugar
diferenciado no mundo, sendo essa diferença atravessada por relações de
poder que conferem ao homem, historicamente, uma posição dominante”
(MACEDO, s. d.).

Contudo, parece-me que esse conceito, sem dúvida, extremamente potente,


acabou sendo “colonizado” e “banalizado” na academia, com isso perdendo
o seu conteúdo contestatório e transformador. De fato, pesquisadores que
desconhecem o feminismo, a história de luta das mulheres por direitos, se
valem desse conceito para, mais uma vez, naturalizar as diferenças entre
homens e mulheres, substituindo, em suas pesquisas, “sexo” (variável
inegavelmente biológica) por “gênero” (variável cultural e relacional). É
por isso que, em minha fala, recorro ao feminismo, que parece andar “tão
fora de moda”.

Não sei se vocês percebem ou sentem isso, mas o feminismo ganhou, no


senso comum, um conteúdo extremamente pejorativo, como se tratasse do
oposto do machismo, de uma revolta das mulheres para restaurar um
matriarcado que, segundo os levantamentos arqueológicos feitos até agora,
sequer se pode afirmar que um dia existiu de fato. Não é esse o feminismo
de onde falo (e é preciso apontar aqui que o feminismo não é um campo
homogêneo e, por isso, dentro dele podemos identificar uma série de linhas
teóricas – práticas e políticas). O feminismo de onde falo é aquele que
formula um projeto de emancipação que tenha as mulheres como
protagonistas e não apenas que inclua as mulheres. O feminismo de que
falo é, então, um projeto de transformação radical, que entende que o
problema vivenciado pelas mulheres na sociedade não é uma questão
meramente de discriminação, mas de dominação – ou seja, trata-se de algo
estrutural. O que está em discussão não é que as mulheres sejam
discriminadas em relação aos homens, apenas. O que estão em questão é
que vivemos em uma sociedade patriarcal que, em sua fundação, a questão
da mulher não foi considerada, não foi colocada. Ou seja, a mulher não
participou do momento de formulação das regras dessa sociedade, regras
essas às quais se encontra submetida.

Carole Pateman, uma cientista política feminista, escreveu um livro


brilhante relatando uma história que, segunda ela, tem sido sufocada: a do
contrato sexual. A narrativa do contrato social como mito fundador da
sociedade civil moderna e do direito político todos e todas nós
conhecemos. Mas, para Pateman, antes desse contrato, firmou-se um outro
“contrato” entre homens e mulheres e a história desse “contrato sexual é
sobre relações (hetero)sexuais e sobre mulheres personificadas como seres
sexuais” (PATEMAN, p. 36). Para ela, “a história da gênese política precisa
ser contada novamente, a partir de outra perspectiva. Os homens que,
supostamente, fazem o contrato original são homens brancos, e seu pacto
fraterno tem três aspectos: o contrato social, o contrato sexual, [que
legitima o domínio dos homens sobre as mulheres] e o contrato de
escravidão, que legitima o domínio dos brancos sobre os negros”
(PATEMAN, p. 324). Nesse sentido, “somente os homens – que criam a
vida política – podem fazer parte do pacto original, embora a ficção política
fale também às mulheres por meio da linguagem do 'indivíduo'. Uma
mensagem curiosa é enviada às mulheres, que representam tudo o que o
indivíduo não é, mas a mensagem deve ser continuamente transmitida
porque o significado do indivíduo e do contrato social depende das
mulheres e do contrato sexual. As mulheres têm que reconhecer a ficção
política e falar sua língua, mesmo quando os termos do pacto original as
exclui das conversações fraternais” (p. 325).

É por isso que a superação do patriarcado moderno, institucionalizado pelo


pacto social e pelo direito - que nasce burguês, conforme demonstram
Engels e Kaustky em seu Socialismo Jurídico e patriarcal, como aponta
Pateman – só pode se dar por meio da criação de uma sociedade livre, na
qual as mulheres sejam cidadãs autônomas. E isso requer o abandono dessa
história (do pacto social) e da construção de uma nova história, da qual as
mulheres façam parte na condição de autoras. Essa é a pauta do feminismo
que advogo. Um feminismo que se preocupa, em todos os campos do
conhecimento, em não apenas descrever a realidade, mas analisá-la
criticamente, apontando como ela tem operado de modo a excluir ou a criar
as condições necessárias à liberdade e autonomia das mulheres.
Nesse sentido, o questionamento colocado pela crítica feminista ao direito
moderno diz respeito justamente ao fato de que o universalismo por ele
postulado não tem se concretizado, ou, pelo menos, não no ritmo desejado
por aquelas que dele se encontram excluídas. E essa é certamente uma das
razões pelas quais muitas das reivindicações e discussões conduzidas pelo
movimento feminista, em todo o mundo, têm como elemento central a
condição cívica e legal das mulheres.

A apropriação do discurso jurídico pelas feministas, no campo acadêmico,


se deu, conforme aponta Nicola Lacey (2004), em um processo
caracterizado por três diferentes fases. A primeira delas denunciou a
completa ausência da mulher e de seus problemas da agenda do estudo do
direito. Com isso, conseguiu-se a abertura da teoria do direito para o exame
de questões como violência doméstica e sexual, condições desiguais de
trabalho da mulher, discriminação produzida pelo sistema tributário, dentre
várias outras. Um segunda fase se caracterizou pela inserção do conceito de
gênero no debate jurídico, operando-se, a partir daí, a distinção entre o
sexo, como uma categoria biológica, e o gênero, como uma construção
social das diferenças sexuais entre os sujeitos (SCOTT, 1990). Houve,
assim, um movimento de uma produção teórica que tinha como foco “a
mulher e o direito” (primeira fase) para “gênero e o direito” (segunda fase).
Finalmente, uma terceira fase desse movimento produziu o que hoje se
conhece como “teoria feminista do direito”, construída sobre uma base de
reivindicações próprias de fundo analítico, metodológico e ético-político.

Do ponto de vista analítico, a teoria feminista do direito, assim como os


demais campos do feminismo acadêmico, estatui que sexo/gênero é um
importante modo de estruturação social que caracteriza e influencia a sua
produção, conteúdo e interpretação. Da perspectiva ético-política, afirma-se
que a diferenciação socialmente produzida a partir das diferenças
biológicas colocaram a mulher em um lugar subordinado, oprimido e
inferiorizado, e o direito funcionou (e funciona) como importante
instrumento de produção e reprodução da desigualdade de gênero. E,
finalmente, em relação à metodologia, a teoria feminista do direito não
assume uma postura dogmática diante de seu objeto de análise. Ao
contrário, ela se caracteriza por um exame crítico do sistema e das práticas
legais, proporcionado pela vinculação sempre presente entre teoria e
prática.

No meu modo de entender o campo do direito brasileiro hoje, ainda


estamos na primeira fase, ou seja, no momento de inserção de temáticas
sensíveis à mulher nos estudos do direito, como violência contra mulher,
discussão sobre direito de família, direitos sexuais e reprodutivos,
desigualdades nas relações de trabalho. Mas isso tem se dado de modo
pontual, não sistemático. Vejamos aqui quem, durante sua formação
acadêmica, teve alguma discussão sobre o feminismo ou a questão da
mulher? Isso, sem dúvida, é reflexo de muita coisa e acaba produzindo uma
série de outras dificuldades. Certamente, isso é um reflexo do fato de que,
só muito recentemente, as mulheres conquistaram, efetivamente, no plano
jurídico, o estatuto de “igualdade” em relação aos homens. Quando isso se
deu? Em 1988, quando então a Constituição da República acabou com a
noção de poder patriarcal que ainda vigorava no Código Civil de 1916.

Uma série de conceitos absurdos só muito recentemente foram retirados do


execrável Código Penal (como, por exemplo, “mulher honesta”) e também
é recente a não aceitação, pelos tribunais brasileiros, da defesa de legítima
defesa da honra no caso de assassinatos de esposa, supostamente adúlteras,
pelos seus maridos. Obviamente, o período que precede a atual
Constituição foi de execrável ditadura militar, em que o fim das liberdades
civis atingiram igualmente homens e mulheres. Mas o fato é que as
mulheres não tinham, a essa época, todas essas liberdades civis que foram
retiradas. E, se hoje o têm, é fruto de muita luta e combate de movimentos
feministas e de mulheres que, a duras penas, conquistaram esses direitos.

Nesse sentido, entendo que a ausência de uma reflexão feminista no campo


do direito, enquanto ciência, decorre, no Brasil, fortemente da conquista
tardia dos plenos direitos das mulheres. E não tão plenos assim, pois há
ainda muito o que conquistar. A discussão sobre o aborto, por exemplo,
parece varrida do campo político em função das poderosas argumentações
da Igreja, especialmente a Católica. E, mais do que isso, conforme me
relatou uma companheira da Marcha Mundial de Mulheres, essa luta vem
sendo criminalizada pelo Estado. No Mato Grosso do Sul, mais de 10.000
companheiras que foram vítimas de aborto clandestino estão sendo
indiciadas. Outra faceta da criminalização é dizer que nós, feministas,
fazemos apologia ao aborto e que isso é crime. Há também a tentativa de se
criminalizar o uso da pílula seguinte no Chile, no interior de São Paulo e
em vários outros lugares. Essa criminalização é vivenciada, e muito
fortemente, não apenas no Brasil, mas em vários países da América Latina.

Por outro lado, a ausência de uma reflexão propriamente feminista no


campo da teoria do direito faz com que as conquistas de direitos, do ponto
de vista formal, ganhem pouca ou nenhuma eficácia quando se passa ao
momento de sua aplicação. Um exemplo muito claro disso é a Lei Maria da
Penha. Tem-se discutido muito a questão do encarceramento, mas a
legislação traz uma série de outras medidas que funcionariam como
instrumentos importantes no combate ao machismo arraigado em nossa
sociedade. Não sei se todos aqui têm conhecimento dos dados acerca da
violência doméstica, mas um levantamento feito pela Fundação Perseu
Abramo aponta que, a cada 15 segundo, uma mulher é espancada no Brasil.

Ou seja, trata-se de um problema estrutural, que atinge toda a população,


sem preferência de classe ou cor. E, portanto, era urgente pensar-se em
medidas de enfrentamento ao problema. Assegurar às mulheres um lugar
onde se abrigarem, meios de garantir sua sobrevivência e de seus filhos é
indispensável e o que vemos na realidade do país é uma completa ausência
de meios para isso.
Um outro problema, que atinge de modo muito cruel as mulheres das
camadas pobres e miseráveis da população brasileira, é a questão da pensão
alimentícia. Os filhos e filhas são considerados apêndices das mães. No
processo de separação do casal, é algo natural que eles permaneçam sob o
guarda da mãe. E as mães que se recusam a fazê-lo são tratadas como
verdadeiras aberrações: mas como pode uma mãe não querer cuidar do
próprio filho? Eu pergunto: como pode um pai não querer cuidar do próprio
filho? E então, a partir da definição da guarda para a mulher, inicia-se a
saga da pensão alimentícia. Os pais/ex-maridos, na maior parte das vezes,
não contribuem voluntariamente para o sustento do filho. Por que? É um
problema (apenas) econômico? Não, no meu modo de entender essa
relação, trata-se de mais um reflexo do patriarcado: a partir do momento
que se dissolveu o vínculo conjugal, o filho não é mais dele (“quem pariu
Mateus que o balance”) e as mulheres se tornam chefes de família abaixo
da linha de pobreza.

E, como se não bastasse, encontramos ainda no direito uma resistência


muito forte à conquista dos direitos das mulheres. Ainda se fala em
planejamento familiar como medida de intervenção e controle do Estado
sobre o corpo da mulher. Ainda encontramos juízes, como um de Sete
Lagoas, cuja sentença em um processo versando sobre a Lei Maria da
Penha ficou famosa, que afirmam:” Esta “Lei Maria da Penha” — como
posta ou editada — é portanto de uma heresia manifesta. Herética porque
é anti-ética; herética porque fere a lógica de Deus; herética porque é
inconstitucional e por tudo isso flagrantemente injusta.

Ora! A desgraça humana começou no Éden: por causa da mulher — todos


nós sabemos — mas também em virtude da ingenuidade, da tolice e da
fragilidade emocional do homem. Deus então, irado, vaticinou, para
ambos. E para a mulher, disse: “(...) o teu desejo será para o teu marido e
ele te dominará (...)”

[...] Por isso — e na esteira destes raciocínios — dou-me o direito de ir


mais longe, e em definitivo! O mundo é masculino! A idéia que temos de
Deus é masculina! Jesus foi Homem! Á própria Maria — inobstante a sua
santidade, o respeito ao seu sofrimento (que inclusive a credenciou como
“advogada” nossa diante do Tribunal Divino) — Jesus ainda assim a
advertiu, para que também as coisas fossem postas cada uma em seu
devido lugar: “que tenho contigo, mulher!?”
A mulher moderna — dita independente, que nem de pai para seus filhos
precisa mais, a não ser dos espermatozóides — assim só o é porque se
frustrou como mulher, como ser feminino. Tanto isto é verdade —
respeitosamente — que aquela que encontrar o homem de sua vida, aquele
que a complete por inteiro, que a satisfaça como ser e principalmente
como ser sensual, esta mulher tenderá a abrir mão de tudo (ou de muito),
no sentido dessa “igualdade” que hipocritamente e demagogicamente se
está a lhe conferir. Isto porque a mulher quer ser amada. Só isso. Nada
mais. Só que “só isso” não é nada fácil para as exigências masculinas.
Por isso que as fragilidades do homem tem de ser reguladas, assistidas e
normatizadas, também. Sob pena de se configurar um desequilíbrio que,
além de inconstitucional, o mais grave, gerará desarmonia, que é tudo o
que afinal o Estado não quer. Ora! Para não se ver eventualmente
envolvido nas armadilhas desta lei absurda o homem terá de se manter
tolo, mole — no sentido de se ver na contingência de ter de ceder
facilmente às pressões — dependente, longe portanto de ser um homem de
verdade, másculo (contudo gentil), como certamente toda mulher quer que
seja o homem que escolheu amar. [...] Não! O mundo é e deve continuar
sendo masculino, ou de prevalência masculina, afinal. Pois se os direitos
são iguais — porque são — cada um, contudo, em seu ser, pois as funções
são, naturalmente diferentes. Se se prostitui a essência, os frutos também
serão. Se o ser for conspurcado, suas funções também o serão. E instalar-
se-á o caos. É portanto por tudo isso que de nossa parte concluímos que
do ponto de vista ético, moral, filosófico, religioso e até histórico a
chamada “Lei Maria da Penha” é um monstrengo tinhoso. E essas
digressões, não as faço à toa — este texto normativo que nos obrigou
inexoravelmente a tanto. Mas quanto aos seus aspectos jurídico-
constitucionais, o “estrago” não é menos flagrante.”

Então, afirmações como essas, e tantas outras que encontramos entre os


juristas, certamente têm forte relação com o fato de não termos, no Brasil,
no campo do Direito, uma preocupação sistemática com a mulher e a
opressão e dominação a que ela é submetida. Entendo que é nossa tarefa,
enquanto estudiosos ou operadores do Direito, começar a forjar esse
campo, problematizando os elementos que ainda caracterizam o direito
como patriarcal.

E denunciando, em nossa prática militante, os absurdos sexistas que ainda


vigoram entre os juristas. Se Simone de Beauvoir estava certa ao afirmar
que “não se nasce mulher, torna-se mulher”, é necessário pensar como o
direito intervém na produção desse sujeito mulher, vinculado às tarefas do
cuidado, à domesticidade, à docilidade, à procriação, à esfera privada e
como ele pode ser utilizado como instrumento de alteração de um tal
quadro naturalizador e opressor do todo complexo que constitui a
experiência feminina.