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Gonzalo Torrente Ballester

Crónica do Rei Pasmado

Scherzo em re(i) maior alegre, mas não demasiado

Gonzalo Torrente Ballester Crónica do Rei Pasmado Scherzo em re(i) maior alegre, mas não demasiado
http://groups.google.com/group/digitalsource UMA TERRA SEM AMOS EDITORIAL CAMINHO Gonzalo Torrente Ballester Título

http://groups.google.com/group/digitalsource

UMA TERRA SEM AMOS

EDITORIAL CAMINHO

Gonzalo Torrente Ballester Título original:

Crónica del Rey Pasmado 8ª edição Tradução de António Gonçalves (C) Gonzalo Torrente Ballester, 1989 Direito de tradução para Portugal reservados por Editorial Caminho, SA, Lisboa – 1992

Tal como acontecera já em Espanha, A Crónica do Rei Pasmado foi um grande êxito em Portugal. Nada mais natural. É que este «scherzo em re(i) maior alegre, mas não demasiado», como o próprio autor lhe chama, é um livro particularmente saboroso, hábil e irónico, narrado com a maestria e a sabedoria de um escritor como Ballester. A partir do pasmo extasiado do rei ao ver pela primeira vez uma mulher nua, e ao querer ver nua também a rainha, toda uma intriga se tece na corte, metendo nobres, inquisidores, uma afamada meretriz, um jesuíta português, a superiora do convento; toda uma tela de uma obra que bem justifica o qualificativo de pitoresca, num divertimento de primeira água. De Gonzalo Torrente Ballester, a Caminho publicou, nesta mesma colecção, Fragmentos de Apocalipse, Prémio da crítica 1977, e A Morte do Decano.

Para o meu colega Jesus Ferrero, - fraternalmente G. T. B.

1.

Capítulo I

A madrugada daquele domingo, tantos de Outubro, foi de milagres, maravilhas e surpresas, embora tivesse havido, como sempre, desacordo entre testemunhas e testemunhos. Mais exacto seria, certamente, dizer que toda a gente falou deles, ainda que ninguém os tivesse visto; mas, como a exactidão é impossível, mais vale deixar as coisas como as contam e contarão: foi a cova da rua do Pez, que ficou à vista do mundo durante todo o dia, e o povo acorreu a vê-la e cheirá-la como se fosse a abada. O caso, segundo se relata, foi, por exemplo, assim: uma velha, de madrugada, viu sair uma víbora de debaixo de uma pedra: a víbora desatou a correr para baixo como podia ter desatado a correr para cima; mas o que viu o correeiro da Rua de São Roque já não foi uma víbora, mas sim uma cobra de razoável tamanho, que também desatou a correr para cima ou para baixo, a direcção não consta. A beata que saía de São Ginés, de ouvir a missa da alba, viu um verdadeiro cobrão que, esse sim, ia a caminho do Paço, mais coisa menos coisa; e, finalmente, alguém da Guarda Valona que ia para o serviço ou vinha dele (isto não é muito preciso), o que pôde contemplar, atónito ou esbugalhado, foi uma gigantesca boa que rodeava o Paço, pela parte que assenta na terra ou confina com ela, e parecia apertar o edifício com ganas de o derrubar, ou pelo menos de o espremer, o que parece mais verosímil, pelo menos do ponto de vista da semântica. O guarda valão começou aos gritos na sua língua, mas, como ninguém o entendia, deu tempo a que a gigantesca serpente desistisse do seu propósito, pelo menos aparentemente, e se escapulisse com espantosa mansidão para o Campo del Moro, onde foi procurada em vão durante toda a manhã por equipas de peritos que se revezavam de hora a hora. A história do tesouro de moedas antigas atribuiu-se à sorte de um catraio, mas havia algumas variantes na localização do achado: segundo uns, fora da Portela de Embaixadores, conforme se sai, à direita; segundo outros, à saída da Porta de Toledo, segundo se sai, à esquerda. Nem o tesouro nem o catraio foram encontrados.

Os sinos de Santa Águeda tocando sozinhos, toda a gente os ouviu; mas quem é toda a gente? A história dos gritos angustiantes saindo de uma casa em ruínas veio do bairro de Las Vistillas: uns gritos tremendos e doloridos, de condenados ao fogo eterno ou coisa assim, embora também pudessem corresponder a penitentes do Purgatório: eram, vejam bem, gritos pestilentos. O que pôde ser comprovado por quem o quis fazer foi o caso da rua do Pez: com efeito, havia uma cova que atravessava a rua em linha quebrada, de sul a norte; a princípio, ao que parece, saíam da greta (da furna, segundo as primeiras testemunhas, desconhecidas) gases sulfurosos, pelo que toda a gente pensou, e com razão, que no fundo da greta começava o inferno, sobretudo se se tiver em conta que, com os gases, saíam rugidos de dor e blasfémias horrendas; mas, quando o povo começou a juntar- se e a dar os seus alvitres, a furna já não o era, e não cheirava pior do que a própria rua. Vê- se que os gases se tinham esgotado.

2.

O pároco de São Martinho, o da capa, D. Secundino Mirambel Pacheco, tinha estado em novo nas Índias, e da viagem por mar tinha trazido um óculo, presente de um piloto genovês com o qual travara amizade durante a travessia. Todas as noites, D. Secundino perscrutava o céu com aquele aparelho, se a noite era medianamente clara ou se as estrelas se distinguiam com suficiente fulgor. Durante muito tempo, D. Secundino não passou de perito em estrelas, de que falava aos seus amigos quando tomava o chocolate, à tardinha, e com alguns íntimos; mas as pessoas não pareciam dar mais importância às questões da abóbada celeste do que a aconselhada pelos pregadores, que soíam apresentá-la como exemplo da predilecção que a Divindade tinha pela beleza, e também de obediência, movendo-se como se moviam conforme as ordens recebidas há muitos séculos, não se sabe quantos nem convém investigá-lo. Uma noite, todavia, uma noite de sábado, descobriu, além das estrelas, bruxas, e considerou oportuno dar conta da sua descoberta ao Santo Ofício. Depois de uma sessão secreta, o Inquisidor-mor, em pessoa, encomendou a D. Secundino um relatório semanal sobre a qualidade e o número de bruxas reunidas, e possivelmente dos bruxos que transitavam pela noite sabática da cidade, ainda que fosse apenas por razões de estatística. Naquela manhã de domingo, tantos de Outubro, uma manhã cálida e soalheira, D. Secundino Mirambel redigiu o seu relatório semanal com os habituais escrúpulos e a bela prosa de quem tinha bebido nos melhores clássicos latinos e aprendido o castelhano nos arredores de Écija: se ceceava um pouco, o ceceio não se

transmitia ao papel (O ceceio, em Espanha, é próprio das regiões do Sul do país; Écija é uma cidade andaluza

da actual província de Sevilha. (N. do T.). Saiu de casa pela fresca, entregou o relatório a um fâmulo da Santa Inquisição e regressou a casa depois de dizer missa, de tomar um chocolate e beber um copo de água fresca, como lhe pedia o corpo; deitou-se sem se despir, pois, aos domingos e à cautela, apenas costumava fazer uma curta soneca. O fâmulo da Santa Inquisição passou o escrito a Sua Excelência, de pé desde a madrugada, com a missa já dita e graves problemas no coração e na cabeça. Estava no seu gabinete, anexo ao salão do Conselho. Abriu a carta de D. Secundino, deu-lhe uma olhadela, mas, de repente, alguma coisa lhe deve ter chamado a atenção, porque se pôs a ler atentamente, com o cenho franzido e exclamações intercaladas, tais como:

- Deus nos valha! Onde isto chegou! Anda o demónio à solta!

Acabou de ler, fechou a carta e ordenou que fossem imediatamente ao convento de São Francisco e que se apresentasse frei Eugénio de Rivadesella, sem mais delongas.

3.

O conde da Peña Andrada dava os últimos retoques ao seu penteado diante de um

espelhinho que lhe trouxera Lucrécia. Ela observava-o por trás, observava-os a ele e à sua imagem no espelho. Quando o conde largou o pente, ela deu-lhe um beijo no cabelo e disse-lhe: «Estás lindíssimo.» E foi-lhe buscar a roupeta azul-celeste, para que acabasse de

se vestir.

- Já terá acordado, a tua ama?

- Costuma ser mandriona, e mais aos domingos.

- Pois, ao Rei, haverá que acordá-lo. Vão sendo horas.

- Eu não me atrevo. Acorde-o o senhor.

Aproximaram-se da porta do quarto de Marfisa, e Lucrécia abriu-a cautelosamente. Um raio de Sol atravessava a sala, iluminava os grandes mosaicos, brancos e vermelhos, do pavimento, e chegava até à beira da cama. Na sua penumbra, dormiam duas figuras: a do Rei, à beirinha; a de Marfisa, ao fundo.

O conde aproximou-se em bicos de pés e tocou no ombro nu do monarca.

- Senhor, já são horas.

Sua Majestade abriu os olhos preguiçosamente.

- O que é que há?

- É preciso levantar-se. É tarde.

Começaram

a

dar

as

oito

numa

torre:

as

badaladas

tremiam

no

ar

quente,

prolongavam-se, misturavam-se umas com as outras até parecerem uma só.

- Não é muito cedo, conde?

- Temos que atravessar a cidade.

- A pé?

- Espero que a minha carruagem nos aguarde.

O Rei levantou-se: nu, deixava ver a sua magreza, e esta adivinhar os seus ossos

delicados. Afastou o cobertor de papa e ficou em pelota.

- Dá-me a minha roupa.

O conde obedeceu, em silêncio. O Rei começou a vestir-se.

- Gostaria de me refrescar um pouco.

- Não é impossível, senhor.

O corpo de Marfisa tinha ficado meio a descoberto: deixava ver a cabeleira, as costas,

a fina cintura, o arranque das nádegas. O Rei fitou-a. Com surpresa, com estupefacção.

- Viste coisa mais bela?

- Há muitas coisas belas no mundo.

- Mais do que o corpo de uma mulher?

- Se é o de Marfisa, dificilmente.

- Até ontem à noite, nunca tinha visto uma mulher nua.

- E então?

- O paraíso tem que ser uma coisa semelhante.

O conde torceu o nariz.

- Não creio que os senhores inquisidores aprovassem essa ideia.

- Que saberão os senhores inquisidores de mulheres nuas?

- Segundo eles, tudo.

O Rei já se encontrava meio vestido. O conde pediu a Lucrécia uma bacia com água

fresca. O Rei começou a remexer na escarcela.

- Que procura Vossa Majestade?

- O meio ducado para Marfisa.

- Meio ducado, só?

- É o que indica o protocolo, segundo ouvi dizer.

O conde sorriu.

- Senhor, o protocolo está antiquado, e Marfisa é a puta mais cara da cidade. Pelo

menos dez ducados. O Rei fitou-o, assombrado.

- Não os tenho. Nunca tive dez ducados. Este meio que procuro tive que o pedir ao meu moço de câmara. Depois, vão contá-lo nas suas memórias.

O conde meteu a mão na sua escarcela e tirou uma bolsa de veludo.

- Aqui estão os dez ducados. Trazia-os para Lucrécia.

Lucrécia entrava com a bacia e ouviu a frase do conde.

- Vossa Senhoria a mim não me tem que dar nada. Considero-me paga.

O Rei fitou o conde, e o conde tornou a sorrir.

- A mim - disse o Rei -, Marfisa não me disse isso.

- É que a minha ama, Senhor, fá-lo por ofício, e

eu, por gosto, e o senhor conde

deixou-me satisfeita.

- Podes beijá-la na minha presença, conde.

O Rei salpicou a cara e enxugou-a com a toalha que Lucrécia lhe oferecia. Enfiou o

chapéu, mas o conde manteve-se descoberto.

- Cobri-vos, conde - disse o Rei.

O conde obedeceu.

- Obrigado, senhor.

- Contá-lo-emos no palácio, diante do Valido (Espécie de primeiro-ministro característico dos

reinados dos monarcas espanhóis durante o século XVII. (N. do T.), para que se roa de inveja.

Agora vamo-nos embora. Lucrécia acompanhou-os à porta. Deu um beijo ao conde e chamou-lhe bonitão ao ouvido. A carruagem esperava: pouco sumptuosa, mas sólida e elegante. Lucrécia agitou a mão. A carruagem corria pela rua, cheia de altos e baixos, como pela superfície de um

espelho. O Rei olhava em frente, como se o envolvesse o infinito. Tinha cara de pasmado.

- Que fitais com tanta atenção, Senhor?

- O corpo de Marfisa. Não posso ver outra coisa.

4.

O

moço de câmara que emprestara o meio ducado ao Rei entrou no gabinete pela

porta dos confidentes e ficou quieto, humilde, mas fitando de soslaio o Valido.

- Passa-se alguma coisa, Cosme?

- Vossa Excelência que junte o fio à meada: Sua Majestade não dormiu no palácio,

tem a cama por desfazer e não aparece em parte nenhuma. Ontem, quando me despedi dele, pediu-me meio ducado.

- E que deduzes tu, Cosme?

- Que o Rei foi para a farra, Excelência; meio ducado é o que pagam os Reis às suas putas, conforme sempre ouvi dizer.

- Há coisas, Cosme, que não devem ouvir-se nunca.

- Peço-lhe perdão, Excelência, mas, graças a que não sou surdo, Vossa Excelência recebe-me em segredo.

- Tens razão, Cosme. E saiu sozinho, o Rei?

- Ao certo, ao certo, não sei. Mas, quando eu o deixei, estava com o conde da Peña Andrada.

O Valido ficou em silêncio, a olhar para o friso da parede fronteira que confinava

com o artesoado. Uma loucura de esfinges e de dragões multicéfalos de muito boa factura.

- O conde da Peña Andrada. E quem é esse?

- Não saberia explicar-lho, senhor, a não ser que é um cavalheiro jovem, de muito bom aspecto, que o Rei trata com confiança.

- Retira-te, Cosme. Obrigado.

Cosme inclinou-se e saiu pela mesma porta por onde tinha entrado. Nessa altura, o Valido fez soar a campainha, de som fino, mas penetrante. Entrou um pajem e ficou mudo junto da porta. O Valido escreveu umas letras num papel.

- Leva isto ao chanceler-mor e que traga imediatamente o que lhe peço. Saiu o pajem, o Valido murmurou:

- Com que então às putas, sem eu saber.

A cara do Valido não parecia muito satisfeita, nem muito tranquilo o seu olhar. O

chanceler-mor não tardou muito a chegar.

- Aqui está o que pede, Excelência.

- Custou-te muito encontrá-lo?

- Nada, Excelência. Estava em cima da minha mesa.

- E por que é que lá estava? Fez alguma petição, esse conde, ultimamente?

- Não, que me lembre, Excelência. E é um nome que eu nunca tinha ouvido. Conde

da Peña Andrada. É tudo muito estranho. No entanto

- No entanto, o quê?

- Aí estão os seus papéis. Tudo em regra: é um condado concedido pelo imperador, a

título pessoal, mas declarado hereditário e de Castela pela majestade de D. Filipe II, que além disso concede aos titulares patentes de corso contra ingleses e holandeses, com a

condição de que mantenham uma esquadra de seis navios e entreguem à coroa um quinto das presas. As contas estão em regra, senhor, e pagaram aos reis de Espanha um bom

- o chanceler-mor fez uma pausa e fitou o

Há também um pleito com a casa de Andrade, por questão de limites de

senhorio. O que se disputa é o vale de Valdoviño. A causa está na Real Chancelaria de

Valladolid.

Valido. -

punhado de moedas e outros bens. Há também

- E onde fica esse tal Valdoviño?

- Tem que ser na Galiza, senhor. Terra de bruxas, onde nada é claro. A gente boa que por lá há, ou vem para Madrid, como os de Lemos, ou fica em Salamanca, como os de

Monterrey. Aqui citam-se aldeias e cidades de que ninguém faz ideia: Cedeira, Santa Marta

de Ortigueira

autorizados para essa esquadra

Qualquer coisa como Caraño ou Cariño, não é muito claro. São os portos

O Valido olhou para o volumoso processo, sopesou-o.

- Papéis e mais papéis. Guarde-os Vossa Mercê, mas não os perca de vista. Posso

precisar deles.

O chanceler-mor pegou no cartapácio, fez uma reverência, tornou a reverenciar ao

chegar à porta, e saiu: a sua partida coincidiu com a chegada do padre Germán de

Villaescusa, um capuchinho: tinha entrado pela porta dos confidentes. Fez uma profunda vénia. O Valido levantou-se e beijou-lhe a mão.

- Já está ao corrente, padre?

- Todo o palácio o sabe. E o Rei acaba de regressar. Não disse uma única palavra,

meteu-se nos seus aposentos, sentou-se diante de uma janela, e parece que contempla o

céu.

- Sintomas de arrependimento?

- Como se pode interpretar o olhar de um homem para o horizonte?

- De mil maneiras, metade boas, metade más.

- Esse homem é o Rei.

- Que acaba de passar a noite nos braços do pecado.

- É o que parece, padre, e isso é que é o pior.

- Vossa Excelência tem alguma outra notícia?

- Que o alcoviteiro foi um tal conde da Peña Andrada, que desconheço.

- Eu, em compensação, ouvi o seu nome verdade?

- Assim parece.

Sim, deixe-me pensar. É um galego, não é

- A presença do Apóstolo naquelas terras não parece ter favorecido a causa do Senhor. Sei de muito boa fonte que mais de noventa por cento dos galegos, clérigos incluídos, se condenam.

- Não são muitos réprobos, padre?

- Pode haver algum erro, mas escasso. Digamos oitenta e nove.

- Mesmo assim

- As mulheres, as que não são bruxas, são putas. Os relatórios do Santo Ofício garantem-no. - Deveria haver maneira de o Rei, sem se desfazer dessas terras, se libertar de semelhante gente.

- Pois não me parece difícil

O Valido imaginou o distante Reino da Galiza ardendo pelos quatro costados, num

gigantesco auto-de-fé. O remédio do padre Villaescusa era sempre o mesmo. Ficaram um momento em silêncio, fitando-se.

- O pior, padre, é que se anuncia a chegada de uma frota das Índias e, por outro lado, nos Países Baixos parece iminente uma grande batalha.

O frade persignou-se.

- Se os ingleses nos roubarem o ouro e os holandeses a vitória, haverá que acatar a

vontade de Deus.

- Isso, padre, é evidente. Mas a vontade de Deus é inflexível.

O frade pôs-se de pé.

- Vou-me pôr a rezar, para ver se o Senhor me inspira o remédio. É muito cedo.

Daqui até à missa solene, ainda faltam umas duas horas. O que se pode obter de Deus,

nesse tempo!

- Pois lembre-se também de mim, padre; desde há três dias que a minha esposa está

de novo com as regras

- É um duro fardo das mulheres, do qual se deduz a sua condição inferior em relação

aos homens.

O Valido levantou-se, aproximou-se do frade e pôs-lhe as mãos nos ombros.

- Mas eu preciso de um herdeiro, padre, mais do que da própria vida, que não pode

esgotar-se em mim próprio. E Vossa Reverência conhece as minhas súplicas e sacrifícios.

O Senhor não parece ouvir-nos, nem à minha esposa nem a mim.

- Será porque as suas súplicas não chegam ao céu.

- Teremos que gritar, padre? Gritar publicamente, vestir-nos de penitentes, passar sem comer e sem beber?

- Não posso responder-vos, senhor. Vou rezar. Alguma coisa me há-de inspirar o Altíssimo. Fez nova reverência, um pouco mais curta, e saiu pela porta dos confidentes.

5.

Lucrécia acorreu ao terceiro grito de Marfisa. A verdade era que não tinha gritado tanto como noutras manhãs, em que a ouvia a vizinhança.

- Lucrécia, Lucrécia do demónio, onde te meteste?

Lucrécia entrou compungida.

- Estava a preparar o banho da senhora.

- Ah, isso parece-me bem. Realmente o que me pede o corpo é um banho, mas não

muito quente. Como está o dia?

- Escaldante, senhora. Pode-se estar no pátio graças à sombra da parra. Parece que o

Verão se prolonga. Marfisa estava nua e esparramada em cima da cama, com as roupas aos pés, feitas numa rodilha, como se as tivesse espezinhado.

- E aqueles dois?

- Partiram de manhãzinha, senhora.

- Iam satisfeitos? - E, antes que Lucrécia lhe respondesse, acrescentou: - Pagaram-te?

- Em cima da mesa está uma bolsa com dez ducados de ouro, e a mim o Rei deu-me meio ducado. Creio que não tinha mais. Deu o dinheiro a Marfisa, que o fez tilintar.

- Pelo menos é ouro. Dez ducados, dizes tu? Sai a dois e meio por cada ofensa a

Nosso Senhor, e a bolsa pela nega. É de bom veludo.

- Uma nega, disse a senhora?

- Sim, filha, a quinta já não pôde ser. Empenhou-se em mirar-me e remirar-me, e,

quando se cansou, disse que tinha sono e deixou-me com a água na boca. Precisamente quando me começava a apetecer. E tu?

- Eu passei a noite, senhora, num puro gozo, com o conde sempre em cima de mim,

e aqueles olhos de gato que não deixavam de me fitar. Mais que de gato, de tigre. Os olhos dos tigres devem ser assim. Iluminavam o quarto todo.

- Exageras.

- Juro-lhe pela memória de minha mãe, que também foi puta, mas que se arrependeu

a tempo. E o belo enterro que teve, graças a Deus e às almas cristãs!

- Deixa em paz a memória da tua mãe, e alcança-me uma toalha, para me embrulhar. Enquanto tomo banho, prepara-me de almoçar. Estou morta de fome.

Saltou da cama e embrulhou-se no toalhão que Lucrécia tinha tirado de um arcaz.

Deixava-lhe

contemplava-a.

- Por isso é que as coisas são como são e não como deviam ser. Esse corpo merecia outra sorte.

descoberto as coxas morenas e justas, as pernas esguias. Lucrécia

a

- Queres dizer um marido?

- Deus me livre de tal coisa! Quero dizer melhores amantes.

- Parece-te pouco o Rei, ainda que seja só por uma noite?

- O Rei não a deixou satisfeita, pelo que acabo de ouvir. Em compensação, eu

Enquanto saía do quarto, Marfisa respondeu-lhe:

- O Rei é um catraio. Não sabe da missa a metade, nem nunca tinha visto uma mulher nua. O que aprenderia na minha cama, em sete noites!

- Então, para que é que é Rei?

6.

O Rei deixou de contemplar o horizonte, onde a última mulher nua se tinha

desvanecido, e ficou alguns instantes cabisbaixo, embora com cara de aluado. Depois levantou-se e disse a Cosme, que esperava ao pé da porta:

- Traz-me as chaves da sala proibida. Cosme tremeu visivelmente.

- Isso mesmo, ouviste bem.

- E se mas recusarem, que faço?

- Dizes que é ordem real.

O moço de câmara inclinou-se profundamente e saiu. O Rei hesitou por instantes. Aproximou-se da janela aberta, que dava para a praça de armas. Um pelotão de soldados exercitava-se ao longe. Mais perto, conversavam alguns cavalheiros, e um cavaleiro muito emplumado caracoleava com o seu cavalo perante um grupo de espectadores estupefactos:

tudo sob um sol que começava a ser tórrido. Alguém enxergou o Rei, e fez uma saudação com o chapéu. Os outros saudaram também, e os soldados do pelotão apresentaram armas, mas o Rei não os via: via apenas um imenso vazio: impreciso nos seus contornos, como se fosse feito de nuvens. Mas o céu estava limpo. O Rei fechou os olhos e continuou a vê-lo, e só então se convenceu de que o tinha dentro de si, de que não podia ver outra coisa.

Ficou a contemplá-lo com o rosto imóvel e o olhar fixo, até que chegou o pajem e fez soar

as chaves. O Rei voltou-se e estendeu a mão; o pajem, ao entregar-lhas de joelhos, advertiu:

- Tive que as roubar, senhor.

- Fizeste bem.

O Rei saiu, carregado com as chaves, cujo tilintar enchia a penumbra. Atravessou salas e passadiços, abriu com a chave mais grossa a porta maior e fechou-a por dentro:

tinha entrado num dédalo de corredores ziguezagueantes, interrompidos por escadas que subiam e escadas que desciam. Teve que abrir, ainda, mais duas portas, que também fechou depois de as ter transposto. A sala proibida correspondia a uma torre, a do nordeste. Estava às escuras. Às apalpadelas, encontrou uma janela e abriu-a. A sala não tinha móveis, mas das paredes pendiam quadros. Quando os seus olhos se habituaram à luz escassa, pôde ver que em todos eles havia mulheres nuas, sozinhas ou em companhia. Encontrava-se diante das mitologias que seu avô tinha coleccionado, e que só podiam contemplar-se com uma autorização especial da cúria toledana, assinada pelo punho e letra do primaz: privilégio deste que o Inquisidor-mor lhe disputava e que, como pleito dos que jamais se resolvem, se encontrava em Roma havia lustros. Por sorte, o outro Rei, seu pai, nunca tinha penetrado naquele local, pois de contrário o pleito teria sido decidido pelo fogo.

- Os teólogos mais subtis, Majestade, têm dúvidas de que seu avô, o Grande Rei, se

tenha salvo, só por ter gasto o dinheiro do povo nestas porcarias. As porcarias assinavam-nas, entre outros, Ticiano e um estranho holandês chamado El Bosco, Hierombosc, segundo as cartas do avô às suas filhas mui amadas. O Rei percorreu com o olhar aquela acumulação de corpos ao relento e deteve-se num, onde uma velha alcoviteira recolhia no regaço da sua saia o ouro que Zeus lançava à entreperna de Dafne, a qual, no entanto, algum ouro devia receber no sítio preciso, a julgar pela cara que fazia. Dafne tinha umas coxas esguias e um corpo dourado, semelhante ao de Marfisa. O Rei ficou diante dele, como pasmado, durante muito tempo.

7.

Frei Eugénio de Rivadesella chegou deitando os bofes pela boca, ou, pelo menos, foi o que disse, pois o santo titular da sua ordem não se tinha lembrado de inventar, para os dias cálidos, um hábito mais ligeiro, de maneira que o Inquisidor-mor teve de acudir ao seu sufoco e pedir urgentemente que lhe trouxessem um refresco eficaz, dos que guardavam para estes casos no fundo do poço. Com ele, e com uma aguardente que se lhe seguiu, o

padre Rivadesella ficou bastante tratável, embora continuasse a cheirar a suor, coisa que incomodava o prelado. Mas ofereceu-o em sacrifício pelo perdão dos seus pecados, e passou ao frade o texto do relatório que lhe tinha trazido naquela mesma manhã o pároco de São Pedro.

- Que pensa Vossa Paternidade dessas notícias?

Do padre Rivadesella sabia-se nas altas esferas da cúria e da Santa Inquisição que todas as tardes, ao cair a luz, recebia o Maligno e mantinha com ele saborosas conversas, que se aplicavam depois à maior glória de Deus e da monarquia. O padre Rivadesella, depois de pôr as lentes (que alguém lhe tinha trazido da Holanda, fabricadas certamente por hereges, mas de muito boa visão), meteu-se na leitura e não levantou a vista antes de

ter percorrido a última linha: por sorte, a letra miúda do pároco era das claras e legíveis.

- Fi-lo vir cá tão de manhãzinha, reverendo padre, para ouvir o seu parecer acerca do

que se diz nesses papéis. Vossa Reverência é a única pessoa da corte em cuja opinião me posso fiar, dada a sua conhecida amizade com o Inimigo do género humano e de Deus Nosso Senhor.

- Eu não diria amizade, Excelência, mas antes mera relação. - Com as lentes na mão,

brincando com elas, o padre Rivadesella acrescentou: - Por agora, Excelência, é a primeira notícia que tenho destes acontecimentos. Por outro lado, devo dizer que, no crepúsculo de ontem, Satanás faltou ao seu encontro comigo. Costumo esperá-lo debaixo de uma azinheira que temos no pátio, de copa tão frondosa que tudo oculta e tudo tapa, de maneira que, sentado debaixo dela, ninguém vislumbra nem as cruzes nem as suas sombras. Satanás sente-se incompatível com umas e com outras, como é sabido. Mas ontem não compareceu, e esperei por ele até tarde, entretendo-me com o fumo dessa erva que se traz das Índias e a que chamam tabaco. Recomendo-lha para as tribulações. - E, durante alguns minutos, cantou as excelências do tabaco e a conveniência de o usar. A seguir, continuou: - Não deixa de ser curioso, Excelência, e digno de ter em consideração, o facto de que esta manhã, com as primeiras luzes da aurora, um formidável dragão, de pelo menos sete

cabeças, mas possivelmente de mais, tenha abraçado as fundações da alcáçova com o propósito de a destruir, segundo declarações de testemunhas que o viram, e como já sabe toda a gente na cidade. De outros prodígios também se fala, embora não de tanta monta. O meu confidente Satanás, que me conta muitas coisas, mas não todas as que maquina, como é óbvio, costuma adoptar a figura de dragão multicéfalo quando quer ser especialmente notado, já que um bicho dessa natureza, que se saiba, não o criou o Senhor.

- O que a mim me interessa, padre Rivadesella, é essa outra metamorfose, que me

parece menos lógica ou, pelo menos, inadequada ao caso. Segundo o relatório que acabais

de ler, de todas as figuras de bruxas e de bruxos que pulularam esta última noite pelo céu da cidade, uma era mais bela do que as restantes, tinha sexo de varão e, ao deslizar pelos ares, deixava um rasto de prata. Segundo o meu entendimento, mais parece figura de anjo,

e não dos menores.

- Não podemos esquecer-nos de que o maior de todos eles foi Lúcifer, e que entre os seus atributos está o da beleza.

- A si apresenta-se-lhe assim, como um formoso mancebo?

- Para comparecer aos seus encontros com este humilde servidor de Deus, Satanás

costuma escolher figuras mais modestas. A mais nobre delas é a de um fidalgo entrado em

anos, com um bigode muito erecto; na outra ponta da escala estão o cão ou o passarinho

que se instalam no meu regaço e falam comigo por sinais. Entre cavalheiro e pássaro, tudo

o que Vossa Excelência se digne imaginar.

- E como sabe Vossa Paternidade que é o Diabo?

- Temos as nossas contra-senhas, e ele explicou-me que adopta uma forma ou outra

por prudência e para não me comprometer. Não se esqueça Vossa Excelência de que as minhas relações com o Maligno, embora sejam conhecidas dos meus superiores hierárquicos e das autoridades competentes, até chegar a Roma, são ignoradas pelos frades do meu convento, apesar de algum vivaço suspeitar delas. Do mesmo modo, Satanás oculta

aos seus sequazes as suas relações comigo. Por alguma razão, ontem, não só não veio, como me ocultou a sua intenção de concentrar, no céu da cidade, essa gentalha que o serve.

- Gente belíssima também, segundo diz o relatório, e dada a toda a espécie de

fornicações.

- Será que Vossa Excelência esperava outra coisa de semelhantes pessoas?

- Esperava que, pelo menos, para o fazerem, tivessem que se deitar. Mas, como

Vossa Paternidade leu, faziam-no mesmo no ar, sem perderem o equilíbrio, e dando cambalhotas. Padre Rivadesella, o Diabo trata tão bem os seus amigos que não me espanta que os tenha. A Vossa Paternidade, faz-lhe algum favor?

O padre Rivadesella ficou um momento pensativo.

- Sim, Excelência, mas gratis et amore, ou pelo menos assim parece. Eu creio que precisa de desabafar com alguém das suas preocupações, e escolheu-me a mim.

- Pela sua discrição, se calhar?

- Poderia ser por isso

E foi nesse mesmo momento que entrou um fâmulo, que se aproximou silenciosamente do Inquisidor-mor e lhe falou ao ouvido. Sua Excelência respondeu-lhe:

- Está bem, que entre. - Depois dirigiu-se ao franciscano. - Não terá Vossa

Paternidade nenhum inconveniente em conviver, embora apenas por alguns minutos, com um frade capuchinho?

- Na presença de tão alto magistrado, as rivalidades adiam-se.

- É o padre Villaescusa.

- Ah, o capelão-mor do palácio! Belo figurão.

- De belo não tem nada, padre Rivadesella, pelo contrário, que nessa matéria não

deve muito à bondade do Senhor. Quanto a figurão, em contrapartida, estou de acordo.

O fâmulo mantinha aberta a grande porta com guarnições de bronze e figuras pagãs

na decoração, apesar de castas. O padre Villaescusa entrou, fazendo reverências cortesãs.

- Que o Senhor acompanhe Vossa Excelência e lhe dê longos anos de vida! - Levou a

mão ao nariz. - Também aqui chegou esse fedor do inferno? Refiro-me, como é óbvio, a

esse cheiro sulfuroso que penetrou na cidade e que nos tem a todos alarmados.

- Pois o meu nariz não deu, até agora, por semelhante pestilência.

- Só o explica o costume, reverendo padre, meu irmão no Senhor São Francisco de

Assis. Mas toda a gente sabe que esta manhã se abriu uma greta na rua do Pez por onde saíam os cheiros do inferno.

- E quais são, Reverendo Padre, esses cheiros?

- Se havemos de acreditar no que diz a tradição, cheiro a enxofre, nem mais nem

menos. - Dizem que

para

desinfectar o ar de espíritos malignos. Os demónios não lhe resistem, por isso o lançam para fora do inferno assim que surge uma oportunidade. O caso da rua do Pez terá sido efeito de uma dessas ventilações.

- E é para falar do enxofre que me visita tão de manhãzinha, padre Villaescusa?

- Não me teria atrevido, Excelência, a incomodá-lo por tão pouco, sobretudo quando

as causas são do domínio público. Mas sucedeu uma coisa esta noite que justifica a minha

visita tão madrugadora, e esta impertinência de vir com questões graves ao domingo. Posso falar sem reservas?

é

um cheiro saudável, e sei de muitos lugares onde se usa

- O que se diz nesta sala, o que nela se ouve, é segredo de confissão.

- Isso tranquiliza-me. Pois o caso conta-se em poucas palavras: Sua Majestade foi às putas a noite passada.

O Inquisidor-mor sobressaltou-se, mas o padre Rivadesella limitou-se a sorrir.

- Que me diz?

-

O que já sabe toda a gente no palácio, Excelência, o que começa a saber-se na

cidade.

O

Inquisidor-mor meneou a cabeça com gravidade doutoral.

- A esse rapaz, teriam que vigiar-lhe as companhias.

- De que maneira, Excelência, se no palácio há saídas secretas e servidores corruptos?

E também há, e a isso venho principalmente, um confessor do Rei octogenário e de vista

grossa, que perdoa tudo com as mais leves penitências e que, como toda a gente sabe, é

tolerante com os pecados da carne, se calhar, e Deus me perdoe se penso mal, porque ele

os cometeu.

- Ele, nesse caso, é o Rei, não é assim, padre Villaescusa?

O capuchinho sentiu-se incomodado com o olhar do Inquisidor-mor, e baixou a cabeça.

- Evidentemente, Excelência. Era ao Rei que me referia. Mas não deixarei por isso

que se perca no esquecimento a questão do confessor. Recordo a Vossa Excelência que se chama padre Pérez de Valdivielso, um converso, sem dúvida.

O Inquisidor-mor tornou a meditar, brevemente.

- Os judeus não se caracterizam pela sua tolerância. Recorde o meu antecessor

Torquemada (Tomás de Torquemada (1420-1498), Inquisidor-mor de Castela e Aragão a partir de

1483, foi o organizador da instituição em Espanha, que dirigiu até à sua morte; judeu converso, distinguiu-se pelo seu zelo brutal e doentio (3000 execuções). (N. do T.).

- Os judeus, Excelência, pretendem a destruição dos reinos de Espanha, e nada

melhor do que começar pela sua cabeça.

- Pela cabeça dos judeus, padre Villaescusa? Desconheço-a. - Fez uma pausa e olhou para os frades. - Já ouvi falar do Grande Sanedrim, mas creio que são lendas.

- E o Grão-turco, também o é?

O Inquisidor-mor tinha começado a brincar com uma pena de faisão cortada para a

sua escrivaninha de prata repuxada, obra, inegavelmente, de mouriscos.

- Não, certamente; mas o perigo não vem daí.

- Com efeito, Excelência: o perigo vem-nos da Inglaterra, da França, dos Países

Baixos, da Alemanha, e da Turquia, além disso. Mas quem senão os judeus os move a todos

contra nós?

O padre Rivadesella, que estava calado havia um bom bocado, interveio:

- Contra si e contra mim, padre Villaescusa? Porque suponho que deixará de fora

dessa conspiração o Senhor Inquisidor.

- Quando disse nós, quis dizer as Espanhas - respondeu com ênfase o capuchinho; e os outros exclamaram:

- Ah!

A manhã tinha-se posto quente e mesmo naquele salão, protegido por grossas paredes, fazia calor. Ao padre Villaescusa escorriam-lhe até à barba, onde ficavam a tremelicar, as gotas de suor. Ao padre Rivadesella, como estava barbeado, não lhe

passavam das faces: ali se acumulavam, dali exalavam o seu fedor. Quanto ao Inquisidor- mor, a esse não lhe suava nada visível, o que lhe permitia manter-se respeitavelmente quieto; talvez também com o espírito razoavelmente frio. Fosse como fosse, o padre Villaescusa tinha ousado puxar de um lencinho de cor esverdeada e enxugava a testa.

- Em resumo, Reverendos Senhores, por um lado a cidade cheira a enxofre, o que

corrobora a presença do Diabo, que me foi denunciada oportunamente por um espião

especializado da minha confiança. E, por outro, temos que o nosso jovem Rei, de apenas vinte anos, foi às putas

- Reduzida a esses termos, Excelência, a coisa não passa de mera anedota. Mas, e o

importante? Poderemos esquecer-nos de que a Armada das Índias está a chegar, e de que na Flandres se prepara uma grande batalha? Vistas dessa maneira, as coisas mudam O Inquisidor-mor, com ar bastante aborrecido, meditou.

- Mudam, com efeito, padre Villaescusa. E que propõe Vossa Paternidade para atalhar o mal? O padre Villaescusa compreendeu claramente, pela primeira vez, o que vinha sentindo no mais obscuro das suas entranhas: que dependia da sua palavra o futuro do mundo. E não se apressou a responder, nem o fez com arrebatamento, mas sim com tranquilidade. - Em primeiro lugar, Excelência, proponho para hoje à tarde uma reunião do Supremo, com a participação dos teólogos mais acreditados da cidade. E, em segundo lugar, como medida de precaução, que se tire do palácio o confessor do Rei, conhecido judeu, e que se meta nas prisões do Santo Tribunal essa Marfisa

- Que não é judia, mas sim cristã velha, e boa cumpridora dos mandamentos da

Igreja. Tenho a certeza de que, a esta hora, obedece ao preceito de assistir à missa

dominical, e de que estará na sua paróquia.

- Proponho que a prendam por suspeitas de endemoninhamento. A atitude do Rei,

desde que chegou ao palácio, esta manhã, é altamente suspeita: anda metido consigo, como

pasmado. E quem, senão ela, pode ser a responsável? Metê-la num calabouço a pão e água parece-me uma sábia medida de precaução. Quanto ao confessor do Rei

- que o senhor distingue com o seu afecto

- Não o amo mais do que pode amar-se um próximo perigoso, reverência.

- Bem se vê: mas eu não posso esquecer que o padre Valdivielso é franciscano.

- O hábito não faz o monge.

- Neste caso, quem sabe?

interveio o padre Rivadesella.

Parecia que os dois frades iam reproduzir a antiga e famosa contenda entre os diversos e inimigos ramos filiais de São Francisco. O Inquisidor-mor atalhou com mão firme.

- Far-se-á tudo o que pede, padre Villaescusa, far-se-á o mais rapidamente possível.

Para já, ficam os dois convocados para a reunião do Supremo, esta mesma tarde, mas não demasiado cedo, por causa da canícula. Digamos às cinco. O padre Villaescusa inclinou a cabeça.

- Parece-me uma hora pouco usual, mas aceito.

- Nesse caso, ide-vos.

Depois de os dois frades se terem despedido, e de supostamente terem abandonado

o edifício do Santo Tribunal, o Inquisidor-mor abanou suavemente a campainha. Entrou um fâmulo.

- Diz ao meu criado Diego que venha cá.

O criado Diego passava dos cinquenta anos, tinha aspecto de beato e, por baixo, um sorriso cínico.

- Sabes onde vive Marfisa. Vai ter com ela e diz-lhe uma única palavra: esconde-te. E faz o recado voando.

- Sim, Excelência.

O criado Diego saiu, sem mudar de sorriso, e o Inquisidor-mor, ajudado pela canícula e pelas boas recordações dos vinte anos que tinha passado em Roma, jovem dominado pela paixão teológica, entregou-se docemente aos prazeres de uma soneca.

8.

Foram encontrar o Rei à porta dos aposentos secretos, a que muita gente chamava também proibidos. A grande chave de ferro continuava na fechadura, e o Rei, encostado à ombreira, parecia em êxtase, o que quer dizer que tinha cara de tolo. Não respondeu aos primeiros chamamentos do seu moço de câmara, e só quando foi sacudido com certa força

é que no seu rosto aconteceu algo de semelhante ao despertar de um sonho. O relógio do

palácio dava as badaladas das onze, e o moço de câmara sussurrou-lhe, primeiro, e gritou- lhe depois:

- Majestade, são horas de ir à missa, e toda a corte espera. Vossa Majestade tem que mudar de roupa. O Rei, ainda meio estremunhado, deixou-se levar.

- Pois, tenho que mudar de fato. Pois, tenho de ir à missa com a corte. Estará lá a

Rainha? O moço de câmara conduziu-o até aos aposentos reais por corredores pouco ou nada frequentados àquela hora do dia, talvez pelo muito que o eram de noite: dali partiam os

passadiços secretos, os meandros pelos quais deslizava o pecado nocturno. Em breve, o Rei viu-se diante do seu grande espelho, e o moço de câmara com dois fatos nas mãos.

- De preto ou de azul-celeste, Majestade?

Quase sem pensar, o Rei respondeu-lhe que de preto, e, quando se achou vestido, pediu o colar de ouro para quebrar um pouco aquela escura monotonia. Já batiam à porta, e perguntavam se o Rei estava pronto.

- Vai num credo! - respondeu o moço de câmara, e apressou-se a abrir a porta.

Uma saleta, e, mais ao fundo, o salão onde esperava a corte: o mais visível, o Valido, mas visível também a Rainha, linda e maliciosa, e também um pouco brincalhona, cujo rosto contrastava com a seriedade que a rodeava. O Rei dirigiu-se para ela, cumprimentou-a e ofereceu-lhe o braço; mas o seu rosto não deixava de parecer esparvoado, e os presentes começaram a cochichar. A caminho da capela, ouviam-se os registos do órgão, e as vozes concertadas do coro. À frente do cortejo, quatro acólitos vestidos de vermelho e branco faziam diabruras com os incensários, e aquele pouco fumo oriental despertava nos cortesãos a sua sensualidade secreta. A capela, que vinha do avô do Rei, era simples e imponente. A corte mal lá cabia. Foram-se instalando como puderam, de acordo com as suas categorias. Os condes e os viscondes ficavam de pé: entre eles o da Peña Andrada, muito aperaltado, vestido à inglesa, rutilante. Toda a gente parecia conhecê-lo, e

cumprimentavam-no com sorrisos. Alguém sussurrou para o lado:

- Dizem que foi ele que ontem à noite foi às putas com o Rei.

- Pois o Senhor pagar-lho-á na sua Glória.

Dizia a missa o padre Villaescusa, e o Núncio de Roma ocupava um cadeirão no presbitério. Talvez fosse o próprio Núncio o mais surpreendido com o espírito críptico e em certo sentido tétrico do sermão do capuchinho, que ninguém percebeu, e, menos do que ninguém, o Rei, sempre com o olhar perdido sabe Deus em que trevas e a expressão de basbaque, que não o tinha abandonado. A única novidade era que, de vez em quando,

dirigia o olhar para a Rainha, mas para o sítio onde devia estar o seu decote, cuidadosamente tapado à espanhola por veludos requintados e jóias discretas. À Rainha, a sua primeira dama dava-lhe de vez em quando uma cotovelada: «Majestade, o Rei está a

olhar para si»; mas, quando a Rainha voltava a cabeça, o olhar do Rei já se tinha desviado para as silhuetas das suas recordações.

- Quer saber se a Rainha tem mamas - exclamou um bobo malicioso, que recebeu na

nádega o castigo de um agudo beliscão.

- Quem se atreverá a perscrutar os mistérios da vontade divina? - troava o padre

Villaescusa. - Os que o tentaram, o Senhor castigou-os com a loucura ou a morte. Ele disse:

Eu sou aquele que sou, e para que não turvássemos a pureza da sua consciência, deixou-

» Dirigiu-se

aparentemente a cada um de nós, mas em cada um de nós está representada a humanidade.

E assim nos deixou, para assombro de todos e exercício de humildade, o mistério das

responsabilidades. Dirige-se a cada um, mas a responsabilidade é partilhada por todos. Se peca o pai, paga-o a família; se o Rei, o seu povo; se o Papa, toda a cristandade Quando falou de fornicar, ninguém se deu por atingido; quando de adultério, muitas damas sentiram-se mais inocentes do que aparentavam, mas quando asseverou que a família pagava os pecados do pai, o Valido pensou na sua mulher, que estava ali, a seu lado,

com um sorriso feliz e os olhos semicerrados. Pensaria, como sempre, nos prazeres da cama? Havia tempo que o Valido se tinha convencido pelos seus próprios meios intelectuais, algo misturados de temor, é certo, de que a esterilidade do seu casamento se devia ao pendor da esposa para os jogos conjugais: enroscava-se-lhe na cama e provocava-

o, arregaçando a camisa de noite mais acima do que o indispensável. Mas, por outro lado, o

seu confessor tinha-lhe dito que nada daquilo era pecado. Ah, que missa aquela! O Núncio

olhava para o pregador e dizia em voz quase audível: «Mas que diz este energúmeno?» Os presentes encontravam nas palavras do padre Villaescusa motivos para declinarem tormentos de consciência. E o conde da Peña Andrada tinha-se ausentado da capela antes da elevação, embora sem fazer ruído: tinha-se escapulido como uma enguia e voltado depois ao seu lugar, ao terminar a comunhão, como se nada fosse. Ao conde da Peña Andrada, no salão, depois da missa, quando fazia a reverência ao Rei, este mandou-o

cobrir-se, para grande estupor da corte inteira e, sobretudo, do Valido. Mas não foi esta grande surpresa que se comentou nas conversas do átrio de São Filipe, mas sim que Sua Majestade, em voz baixa e cautelosa e com certa dissimulação, tivesse sussurrado à camareira-mor da Rainha, a pessoa mais próxima dela segundo o protocolo:

nos o seu decálogo: «

não matarás, não fornicarás, não cometerás adultério

- Diz a Sua Majestade que quero vê-la nua.

- Vossa Majestade está louco.

A cara que fez a dama ultrapassou os limites do estupor, mas restaram-lhe forças

para desabafar com a sua amiga mais próxima, e esta com a sua vizinha, e, assim, a notícia deu imediatamente a volta ao salão, e chegou até ao padre Villaescusa, chegou com a sua carga de horror e de clarividência; o capuchinho compreendeu que, entre tanta gente, só ele tinha a razão do Senhor repartida entre o coração e a cabeça, e só ele sabia como havia de

agir. Não se despiu: com paramentos e casula, permaneceu no altar e, ao descer dele, fez-se preceder pela cruz e pelos ciriais; desta guisa deambulou por corredores e galerias, de modo que, quando o Rei se aproximou dos aposentos da Rainha, com intenção de entrar, ele estava lá. E quando o Rei estendeu a mão para o puxador, a cruz atravessou-se-lhe diante da porta, em ângulo inclinado sobre o eixo vertical, e nos olhos inflamados do padre Villaescusa pôde ler um veto indiscutível. A sua mão largou o puxador, persignou-se e rodou sobre si próprio. O Valido estava ali, e o Rei confiou-lhe:

- Quero ver a Rainha nua.

E afastou-se com o mesmo rosto pasmado, embora nas suas pupilas já brilhasse a

esperança.

9.

Lucrécia foi abrir a porta, alarmada pela força da campainhada; mas, ao ver o criado Diego, desatou a rir.

- És tu, peralvilho?

- Venho ver a tua ama, em segredo e com urgência.

Marfisa encontrava-se no banho, meio adormecida entre as carícias da água morna. A chegada de Lucrécia acordou-a, e o recado da urgente visita do criado Diego pô-la repentinamente em sobressalto, porque os recados do Inquisidor-mor não costumavam ser

tão madrugadores.

- Será pelo calor que faz, e porque hoje é domingo. Atira-me uma toalha que tape a selha, e que entre. Quando o criado do Inquisidor-mor a viu, deplorou que até as putas, incompreensivelmente, sentissem pudor.

- Que te traz por cá? - perguntou-lhe Marfisa, e ele respondeu-lhe:

- Uma única palavra: esconde-te. Fitaram-se. Entenderam-se. Marfisa mal sussurrou:

- Está bem. Vai-te embora.

E o criado Diego fê-lo, sem se atrever a bisbilhotar no que se ocultava por baixo da toalha, naquilo que, alarmada Marfisa, já começava a emergir. Marfisa chamou Lucrécia.

- Depressa. Ajuda-me a vestir. Um fato de homem. E prepara o mais indispensável

numa trouxa leve. Antes que Lucrécia tivesse acorrido com a roupa interior, já Marfisa, nua, embora

enxuta, percorria o quarto e abria os armários.

- Esse não, que é muito espalhafatoso. Este, castanho, que é de mais discrição. Com

a roupa interior não te preocupes: a mais grosseira que houver, a de menos luxo.

Vestiu-se sozinha, e ficou feita um garçon de cabeleira loura, com uma madeixa que lhe toldava os olhos e os dissimulava. Marfisa experimentou dois chapéus: ficou com o que melhor a cobria.

- Agora vou-me embora, e tu fechas a casa e vais ao mentidero, bem velada, que não te

reconheçam, e informas-te do que se conta, e publicas o que se passou ontem à noite nesta casa. Não a tua história com o conde, que isso não interessa a ninguém, e dorme esta noite

em casa de uma amiga, ou de quem quiseres, mas afasta-te dos do Santo Ofício que, se não me encontram à mão, podem contentar-se contigo e submeter-te a tormento, para que digas onde me escondo. Como poderás dizê-lo, senão o sabes? Por isso, como ainda que te

torturem não poderás confessar, será melhor que não te apanhem. Não deixes de ir à missa ao mosteiro de São Plácido, que eu cá me arranjarei para te mandar notícias. À missa das nove, hem? Que não te passe pela cabeça demorares-te na cama com algum bonitão que te atraia ou com algum novo-rico que te pague. Eu, agora, vou-me embora. E tu vai também,

o mais depressa que puderes. Adeus. Marfisa pegou na trouxa, enterrou o chapéu até esconder o rosto debaixo da aba, e saiu. Fazendo um desvio, embora não muito longo, encaminhou-se para o mosteiro de São Plácido. Cruzou-se com gente endomingada que falava dos milagres daquele dia, e pôde saber, por alguém que o comentava aos gritos, que Sua Majestade o Rei tinha expressado o desejo de ver a Rainha nua.

- Onde iremos parar? Se o Rei não dá o exemplo, de quem havemos de o receber?

Ao chegar à portaria do mosteiro, pediu para falar com a abadessa, que no mundo tinha sido uma menina de La Cerda.

- Da parte de quem lhe digo que quer vê-la? - perguntou a rodeira.

- Diga-lhe que da parte de Marfisa. E receba, de passagem, esta esmola para o cepo dos desamparados.

Tilintou o ouro. A rodeira estendeu a mão ávida. Os seus passos ressoaram pelas lajes da portaria e perderam-se em claustros e corredores. Marfisa sentou-se à espera. Fazia calor, e tirou o chapéu para se abanar. Era bela, a cabeleira de Marfisa, e vê-la assim, de garçon, teria feito pecar muitos que reprimiam desejos inconfessáveis. Repetiram-se os passos, desta vez duplos e em sentido contrário: uns soavam com autoridade; os outros, com timidez. A rodeira abriu uma portinha e rogou a Marfisa que entrasse. Atrás dela, fechou a porta com duas voltas. A abadessa esperava-a, sorridente.

- Já sei que te apresentaste com uma esmola esplêndida.

- O produto de uma noite, que ofereço a Nossa Senhora dos Desamparados.

- Que te traz por cá?

- Procuro refúgio contra os aguazis da Santa.

- Meteram-se contigo?

- Vão-se meter.

- Posso mandar a meu primo, o Inquisidor-mor, recado para que te deixe em paz.

- É à sua amabilidade que devo o aviso.

- Então?

- Uma freira mais, neste mosteiro, não chamará a atenção de ninguém. A abadessa pegou-lhe na mão.

- Vem comigo. É uma pena que tenhas que vestir o hábito, porque estás muito

bonita. Mas posso garantir-te que não te exigirei que cortes o cabelo, apenas que não te veja

o capelão, que é um tipo estranho. Sem a largar, passou com ela por uma porta de grandes almofadões e levou-a pelos frescos meandros do mosteiro. Através de uma janela, verdejavam as plantas do jardim e ouviam-se os trinados das avezinhas, recolhidas naquela frescura. A madre rodeira ficou a pensar por que razão metia a abadessa um mancebo tão formoso na clausura, mas, como outras tantas coisas que não entendia, afugentou a pergunta do seu espírito. Também tinha calor, e naquela solidão era-lhe permitido arregaçar o hábito e refrescar um pouco a entreperna com o ar que entrava por algum orifício.

10.

Por causa do calor, as pessoas tinham deixado a capa em casa. Abanavam-se com o que tinham mais à mão, e muitos apareciam ligeiramente esgoleirados, peitos peludos de machos excessivos, uns de preto, outros de cinzento. Os grupos tinham-se reunido aqui e

além, sobre os degraus, ou no meio do átrio, ou aos cantos, até pisarem as próprias pedras do limiar sagrado. Clérigos de barretes pontiagudos iam de cá para lá. E o sol batia com força. O círculo mais concorrido rodeava Lucrécia, bem tapada, que por vezes levantava uma ponta do véu e pedia ao mais próximo que lhe soprasse no pescoço suado. Tinha contado já a aventura de sua ama com o Rei, e começava a descrever com abundância de pormenores a sua com o conde, mas essa não interessava tanto à assistência.

- Com que então quatro pecados mortais?

- E uma nega.

- Pois quatro na mesma noite é o limite que os teólogos põem aos exageros da carne.

- Sabes lá se foram quatro! Tu não estavas lá.

- Mas sei-o de boa fonte.

- E nós sabemos que Marfisa é devota da monarquia. Como havia ela de deixar mal o monarca? Quator cadem nocte é um número que abona qualquer um.

- Para mim, a única coisa crível é a nega - disse um padre narigudo e entrado em

anos. - O resto são fantasias de Marfisa, que abonam, mais do que a sua fidelidade às

instituições, o seu orgulho profissional. Para uma mulher como ela, menos de quatro pecados capitais não seria nada. Ocorrem-me uns versos

- Diga-os lá, D. Luís, se é que os tem na mente!

- Só quatro, de momento, que podem ser os primeiros de uma décima:

Con Marfisa en la estacada entraste tan desguarnido, que su escudo, aunque hendido, no pudo rajar tu espada.

(“Com Marfisa na estacada entraste tão desvalido, que seu escudo, inda fendido, não pôde rachar tua espada.” (N. do T.)

- Muito bons, D. Luís! Prometem uma décima imortal!

- O que diz o padre é uma ignomínia. O Rei pecou quatro vezes e, à quinta, adormeceu. Pobrezinho! Convém não esquecer que, além de Rei, é um rapaz.

- Tu cala-te, alcoviteira. Por que havemos de acreditar em ti, e não em D. Luís? É homem de experiência.

- Gostaria de saber que faria ele na cama com Marfisa.

O chamado D. Luís ergueu as sobrancelhas e sorriu tristemente.

- Tem razão, a moça. Que haveria eu de fazer na cama com Marfisa, a não ser olhar

para ela e procurar umas metáforas? Um soneto também, talvez: mas vamos lá a ver quem

é o valentão que se atreve a pintar, ainda que seja em verso, uma mulher nua!

E fez com as mãos um sinal alusivo à Santa Inquisição.

Foi nesse momento, talvez, ou talvez um pouco mais tarde, que alguém recém- chegado armou rebuliço noutra roda, um rebuliço descomunal que deixou Lucrécia sem clientela e, de momento, sem continuação a décima de D. Luís. O recém-chegado jurava pelos seus mortos que o Rei, não havia nem uma hora, à saída da missa, tinha expressado aos gritos, e sem a menor precaução, que desejava ver a Rainha nua. “Desejo”, disse, ou “quero”? Porque não é a mesma coisa. Foi uma gargalhada geral, uma gargalhada sensual e estentórea, provocada pela maneira como cada um dos presentes imaginou o Rei contemplando a Rainha em pelota:

de dia ou de noite, com sol ou à luz das candeias. Saíram a brilhar, de lábios grossos sob bigodes retorcidos, alusões aos quatro pecados do Rei com Marfisa e à comentada nega, gracejos subidos de tom e suposições desrespeitosas, até que um cavalheiro esguio, de semblante ascético e olhar dogmático, fez calar os risos com um imperioso “Cavalheiros,

moderem-se”, dito em tom tão dramático que, de repente, foi como se o Sol se pusesse. O círculo calou-se e toda a gente olhou para aquele severo enlutado em cuja mão, estendida para o centro da roda, posta sobre o peito a seguir, parecia ter recaído a honra da Rainha. Mas não foi dela que se falou quando o silêncio deu lugar à sua palavra, antes disse:

- Que espécie de insensatos são Vossas Mercês que assim se regozijam com o que

pode trazer-nos calamidades, e as trará de certeza se não se lhe põe remédio? - Ninguém

lhe respondeu, a não ser com olhares e rostos surpreendidos, e ele continuou: - Não é só o protocolo da corte que se opõe a semelhante disparate, também o impedem as leis de Deus

e da Igreja. O homem pode aceder à mulher com fins de procriação e, se os seus humores Lho exigirem, para os acalmar, mas nunca com intenções levianas, como seria a de contemplar nua a própria esposa. Lucrécia, ao ver-se solitária, tinha-se integrado no grupo.

- Pois bem olhava o Rei para Marfisa nua, quando acordou, esta manhã, enquanto ela

dormia!

O cavalheiro da mão ao peito voltou-se para ela.

- Não é a mesma coisa, menina ignorante, olhar para uma prostituta, que para isso

serve, ou para a esposa, recebida em santo sacramento, por muito francesa que seja,

porque, ainda que as francesas sejam levianas por natureza, ao atravessarem os Pirenéus contaminam-se das nossas virtudes e aceitam os nossos costumes e protocolos. O corpo da esposa é sacrossanto; pode-se tocar-lhe, mas não olhar para ele.

- Pois há dedos que têm olhos! – respondeu desavergonhadamente Lucrécia; e o

cavalheiro da mão ao peito fitou-a com um desprezo tão fulminante que a rapariga, apertando o véu com a mão, saiu a correr da roda e da praça, e se perdeu na calle Mayor,

em direcção à Porta del Sol.

- Será uma marafona - disse alguém; e outro desconhecido, ainda que de mui bom

porte, corroborou:

- Uma marafona cuja voz não me é desconhecida! Juraria que é a criada de Marfisa. Toda a gente se voltou para ele, incluindo o cavalheiro da mão ao peito, e todos pensaram que quem assim conhecia a criada, não deveria desconhecer a ama. E invejaram-

no. O cavalheiro distinto cumprimentou e foi-se embora. A roda começou a desfazer-se, uns para aqui, outros para acolá. O clérigo chamado D. Luís partiu em companhia de dois ou três incondicionais.

- E essa décima, D. Luís, já está concluída?

- Esse imbecil da mão ao peito arrebatou-me a inspiração, mas garanto-lhes que a sua conclusão não passará desta noite. Era o que faltava!

1.

Capítulo II

A cela que o Inquisidor-mor ocupava na casa do Santo Ofício não correspondia, nas suas proporções, ao poderio do inquilino, mas sim à sua pessoa: era grande, harmoniosa, de paredes caiadas e vigamento escuro, com móveis enegrecidos pelo tempo, e um quartinho em que o Inquisidor-mor escondia o seu catre, que por ter esse nome não era necessariamente incómodo. Por trás da grande mesa guarnecida de veludo, pendia um quadro em que se apresentava Maria Madalena penitente numa gruta; a grande cabeleira incrível deixava ver os resquícios de um corpo dourado; nas outras paredes, dispostos segundo o princípio de simetria mais absoluto, duas séries de pequenos quadros com a vida e as tentações de Santo Antão, equilibrando o conjunto: uma, à direita, de mão flamenga, onde as mulheres nuas eram feias, e a outra, à esquerda, de mão italiana, onde as mulheres nuas eram belas. O tinteiro, de doze penas, ocupava um canto da mesa, e a braseira, de bronze e couro, tinha sido repuxada por artífices cordoveses, provavelmente mouriscos, mas essas origens duvidosas não inquietavam a consciência do Inquisidor-mor, temperada nas tolerâncias da corte romana. No canto do fundo, com a luz da janela vindo da esquerda, estava instalada a camilha, que usava para comer e para aquecer as pernas no Inverno, desenganado da utilidade, meramente decorativa e um tanto imponente, da grande braseira, que avultava no meio da sala e repelia o visitante com a sua imponência. As toalhas eram sóbridas, embora dignas; a baixela, de boa prata antiga; a comida, pelo que podia ver-se, abundante e simples, mas o Inquisidor-mor servia-se com parcimónia, e o que não comia o criado Diego, dotado de melhor dente e mais manifesta gula, regressava à cozinha para regozijo de ajudantes e outros subalternos. Naquele dia tinha-se servido apenas uma sopa e trutas à navarra, e, como sobremesa, uma das guloseimas de massa folhada e ovos que elaboravam para ele e para outros magnates as Madres de Santa Clara a Velha (as de Santa Clara a Nova tinham-se especializado em escabeches, que não ofereciam, vendiam, porque, sendo mais novas, eram mais pobres. Fosse como fosse, o Inquisidor-mor não ignorava os sabores dos seus bacalhaus, pura delícia para o palato

atribuída à intervenção directa dos anjos, embora não pelo Inquisidor-mor, que, a esse respeito, sabia a que se ater). Havia um pássaro na cela, exemplar talvez perdido da tribo migratória, senão

enganado pela suavidade do ar. Deu umas voltas, chocou aqui e além e saiu para o jardim pela mesma janela por onde tinha entrado. O Inquisidor-mor não teria sabido explicar por que razão seguiu o seu voo com inveja.

O criado Diego, sentado num escabelo, tinha posto de lado a escudela de sopa, já

vazia, e limpava de espinhas a truta com a sua navalha de corno. Tinha também ao lado, no chão, um grande copo de estanho a transbordar de tinto. O Inquisidor-mor, brincando

com a cruz peitoral, parecia ter-se transido, depois do voo do pássaro, de modo que o criado Diego mastigava ruidosamente, sem medo do raspanete. Mas o prelado acordou e chamou-o à ordem.

- Diego, interrompeste-me uma possível sesta, com os estalidos da tua língua e com esse tornado que provocas ao mastigar. Agradecer-te-ia que comesses com mais comedimento.

- E que importa, Excelência, agora que o acordei? Por muito cuidado que se tenha, senhor, ao comer sempre se emitem rumores.

O pássaro, no seu voo, roçou o vidro da janela com rápido, efémero ruído.

- E, a propósito de rumores, Diego, que se diz hoje Pela corte?

O criado acabou de mastigar o pedaço de truta que os seus dedos gordurosos tinham

levado à boca. As mãos do criado eram grandes, e quando remexiam no prato cobriam-no.

- Um frade capuchinho, dos de Medinaceli, tocou a rebate, como se houvesse fogo, e

à gente que se ajuntou, lançou um sermão incendiário contra os pecados dos grandes que cabe ao povo pagar, ou, pelo menos, compensar por meio de penitências públicas pelos danos que não cometeu. Isto tinha também algo a ver com uma serpente boa e com um belíssimo diabo. Garanto-lhe, Excelência, que o povo teria posto fogo ao Paço se o frade lho tivesse ordenado, mas limitou-se a organizar procissões a desoras, uma num bairro,

outra noutro, por aí fora, com cantos penitenciais e ele próprio à frente de uma delas, arrastando uma cruz. Está toda a gente em brasa e não há ninguém que não espere sair à rua carregado de correntes. Isso excita muito as mulheres, e quando voltam a casa, derreados, encontram-nas inquietas, e têm que fazer uma segunda penitência.

- E no mentidero?

- No mentidero, Excelência, tratou-se de três temas, por sua ordem, digamos: ao princípio todos falavam de Marfisa, Vossa Excelência sabe a quem me refiro: se é assim, se é assado, se tem as mamas tesas ou descaídas.

O pássaro que esvoaçava pelo jardim, e que às vezes gritava, não podia sugerir a imagem de umas mamas, nem descaídas nem tesas: Sua Excelência lamentou-o.

- Depois, se o Rei tinha passado a noite com ela, o que fez Sua Majestade subir dois

ou três pontos na estima dos presentes, embora não tenham faltado maledicentes que reduziram a nada a acutilância real; por último, senhor, continuou-se a falar do Rei, mas desta vez porque se disse que tinha pedido aos gritos para ver a Rainha nua. E aqui, senhor, as opiniões dividiram-se, porque alguns, poucos, consideravam-no um mau exemplo e muitos, a maioria, como o exemplo que havia a seguir, e que se deixassem de tretas e considerações. Nisto um cavalheiro bem posto, embora com ar de novo-rico, mais que de fidalgo, proferiu mais ou menos estas palavras: “Se o Rei consegue ver a Rainha nua, todos teremos pretexto para despir as nossas fêmeas, sejam esposas ou queridas, e despir-se-ão todas as destes reinos, e as mulheres das Índias, e acabarão nuas as mulheres do mundo inteiro, se pega a moda, o que vai sendo hora de que aconteça, porque de camisas de noite compridas e de disputas para que as levantem um pouco mais, estamos nós tão cansados como elas. O único perigo, e este meramente imaginário, reside em que se disponham a sair nuas para a rua, ou com trajos tão transparentes que deixem ver tudo, pois são bem conhecidos os desejos que têm as mulheres de publicarem os seus segredos.” Posso dizer a Vossa Excelência que na roda onde se dizia isto não havia padres, e, se algum havia, não vestia roupa talar, e não esteve em desacordo com a opinião do novo- rico.

- Os velhos princípios, Diego, vão perdendo vigência, os tempos mudam e as pessoas pensam de maneira diferente. Não tenho nada contra o nu em privado, sobretudo

às escuras, mas levá-lo para a rua é como tirar o sal à comida. Não sei que vai ser de nós.

- Ao que se diz por aí, e já há algum tempo, abundam os cabrões complacentes; e que acontecerá se a coisa alastra?

- É o que eu te digo, Diego. Que vai ser de nós? De ti e de mim, por exemplo.

- No que a mim me toca, Excelência, resta-me pouco tempo de vida, e, desde que

haja vinho Bebeu o que restava no copo. O Inquisidor-mor fechou os olhos e recordou os velhos tempos de Roma. A ave passou roçando os vidros da janela e escondeu-se no alto

cipreste que ocupava o centro do pátio quadrangular.

Primeiro foi um Te Deum, a quatro vozes mistas, com repetida intervenção do órgão, que umas vezes ficava por baixo, como quem serve de suporte às piruetas melódicas, e, outras, as perseguia na sua complicada ascensão: laudamus, laudamus, laudamus, até chocar e se reflectir nas altas abóbadas; outras, por fim, excluía-as da corrente sonora, e era o único a subir e a encher o espaço com o resfolegar da sua abundante tubagem; uma música de muito mérito, trazida de Roma, concebida para a imensidão do Vaticano, que naquela capela de mediana dimensão ficava um pouco grande: de tal modo que às vezes vibravam as paredes e estremeciam as colunas. Depois, a asfixia do incenso e do calor, de tal modo que alguém desmaiou e foi preciso levá-lo para fora e socorrê-lo com aguardente e ar fresco: era um mercedário seco, especialista na questão De auxilus, que não tinha nada a ver com a ordem do dia, mas que não se podia deixar de fora de uma consulta geral como aquela. Quando terminou o Te Deum, formou-se no claustro a procissão; duas filas de hábitos variados e o Inquisidor-mor atrás: muito teso, embora um pouco distraído, indiferente aos pajens que lhe seguravam a cauda. Cantavam o Veni Creator, segundo o cantochão, que lhes era mais acessível do que aquelas polifonias romanas, ainda que o cantassem com vozes frouxas e bastante ásperas. Não saía muito bem, mas tanto fazia. Nem todos os da procissão entraram, só os que tinham assento no Supremo, quer como membros titulares quer como teólogos convidados; ou seja, consultores, e entre estes figurava um jesuíta português, o padre Almeida, bastante novo ainda, mas de rosto queimado pelos sóis brasileiros. O padre Almeida estava de passagem por Madrid: tinham- no destinado a capelão secreto de uma casa de Inglaterra, porque o outro capelão tinha sido justiçado, o que era o mesmo que admitir que não restava muito tempo de vida ao padre Almeida; mas não parecia acabrunhado nem entristecido, nem tão-pouco entusiasmado com o seu futuro martírio: comportava-se com naturalidade, muito mais do que os seus companheiros, apesar da reputação de teólogo sábio que o seu reitor proclamava na carta de apresentação para o Inquisidor-mor com que justificava a sua presença. O padre Almeida chocava um pouco entre os restantes clérigos, porque usava por cima da sotaina um colarinho à francesa, e porque, ao desabotoá-la por causa do calor, se lhe tinham visto meias pretas e calção. Mas, como estrangeiro, não lho levavam a mal. Depois de instalados na sala de reuniões, de acordo com as categorias e seguindo um critério piramidal, ainda se rezaram mais latinórios, estes sem música, e a coisa ficou como num cenário de teatro: o Inquisidor-mor no topo, embora a cauda do seu hábito descesse até aos níveis inferiores e estendesse sobre as lajes o triplo triângulo do seu remate; depois vinham os juízes proprietários, o padre Pérez, o padre Gómez, o padre Fernández y Enríquez de Hinestrosa, assim até seis, com hábitos brancos, hábitos pretos e hábitos

combinados; uns gordos, outros magros, rechonchudos de cara ou chupados, reservados ou expansivos: tudo o que no mundo se sabia de Deus e de tudo o que lhe diz respeito estava armazenado nas cachimónias daqueles seis, que votavam as decisões, e, em caso de

empate, desempatava o Inquisidor-mor; o qual, além disso, tinha o privilégio de vetar os acordos colegiais e de os substituir pela sua opinião própria, caso que se verificava poucas vezes, sobretudo por causa das más-línguas. Mais abaixo sentavam-se os diferentes peritos:

daquela vez um por cada ordem, incluindo os premonstratenses e algumas ordens novas, como a Societate Iesu, a que pertencia o padre Almeida. Entravam e saíam com discrição, bufos, esbirros e demais gentalha, a que se vedou a entrada um pouco antes do juramento.

A partir deste, a grande sala do conselho ficou encerrada para o exterior: ampla e sombria,

iluminada por candelabros, era dominada por um Cristo entre duas luzes: pouco Cristo e muitas velas para local tão amplo, onde o que avultava era o presidente. Tão refinado, tão

aborrecido, lá em cima, no seu cadeirão, quase nimbado, quase divino sob o barrete de quatro pontas agudas! Costumava ferrar uma soneca depois de receber o juramento dos presentes e fazer o resumo dos temas, ou dos factos que se iam discutir; desta vez acrescentou a notícia de que a suspeita Marfisa, que o Santo Tribunal tinha convocado e mandado prender, não tinha sido encontrada. Certamente, alguém a preveniu, e fugiu. E muitos lamentaram-no, sobretudo o padre Villaescusa, capelão do palácio, que suava no nível dos peritos consultores. Mas naquela tarde o presidente não pôde dormitar, porque os frades menores gritavam, talvez para que o tom elevado das vozes enchesse de razão as suas ideias. Para começar, o padre Villaescusa manifestou o seu desacordo com a exposição que se fizera dos factos, de tal modo redigida que dava a impressão de que se tinham reunido por causa de uns pecados veniais do monarca. Não é que tivessem mentido, ele não dizia isso!, mas tinham-se contado sem intercalar censuras, comentários ou condenações. Nada de pecadilhos! Um verdadeiro adultério e uma verdadeira profanação do santo sacramento do matrimónio! E foi aqui que o padre Almeida, o jesuíta transeunte e destinado ao martírio,

se levantou e pediu a palavra. - É para manifestar as minhas dúvidas de que se tenha cometido adultério. - Vossa Paternidade nega que o Rei passou a última noite nos braços de uma prostituta? - perguntou-lhe o padre Villaescusa, admirado e ao mesmo tempo irritado, e com um tom de voz como se o padre Almeida viesse de outro planeta e se tivesse expressado numa língua desconhecida. - Ou será que Vossa Mercê nega a verdade do que acaba de nos ser lido? Diz-se claramente que o Rei passou a noite nos braços dessa tal Marfisa.

- Deus me livre de semelhante atrevimento!

- Então? Qual é a opinião do padre Almeida?

- Simplesmente, duvido de que Suas Majestades estejam casados, pelo menos perante

o Senhor. Toda a gente voltou os olhos para o jesuíta português, e qualquer coisa como uma rajada de incompreensão colectiva sacudiu aqueles espíritos esclarecidos. Até que o

Inquisidor-mor, da sua altura indiferente, se dignou examiná-lo com curiosidade, e foi precisamente ele que perguntou:

- Que diz o senhor, padre Almeida?

O jesuíta continuava de pé, e aquela convergência de olhares reprovadores não parecia afectá-lo. À pergunta do Inquisidor-mor seguiram-se várias vozes.

- Explique-se, explique-se.

E o padre Villaescusa acrescentou:

- O que acaba de dizer incorre numa dupla sanção, da Igreja e do Estado, porque está

a atribuir aos Reis nada menos do que um concubinato.

- É verdade, ainda que eles o ignorem; mas a Igreja não pode ignorá-lo.

- Insisto, padre Almeida, que seja mais explícito - rogou, com voz apaziguadora, o do

assento eminente. Quando o padre Almeida pediu que lhe permitissem tirar a sotaina, porque fazia muito calor, mais do que com hostilidade, a maior parte dos membros do Supremo fitaram-no atentamente, já não irados, mas estupefactos, e embora quase todos pensassem

que conviria examinar aquele desconhecido em 0matéria de ortodoxia, a maior parte deles tinha admitido, sem graves dificuldades mentais, que não seria necessário o tormento, e que um hábil interrogatório bastaria. E entre eles figuravam bastantes com reputação de hábeis interrogadores. O padre Almeida dobrou cuidadosamente a sotaina e pô-la sobre o seu assento, com o chapéu.

- Reverendos senhores, não vou citar os santos padres nem os textos sagrados.

Apenas me permitirei recordar-vos a unanimidade de todos os moralistas e de todos os teólogos em exigirem, como condição básica do casamento, a liberdade dos cônjuges. Ora bem, seriam os nossos amados Reis livres ao casarem-se?

Passeou os olhos à sua volta. Ouviam-no, mas não pareciam dispostos a responder- lhe, salvo o padre Villaescusa.

- Quem duvida? Foram interrogados de acordo com as formalidades do cerimonial, e ambos disseram que sim.

- E poderiam dizer que não? Rogo a Vossa Paternidade que medite a resposta.

O padre Villaescusa pareceu hesitar um momento. Depois, respondeu:

- Não entendo a pergunta. O padre Almeida é bastante subtil. Não parece jesuíta.

- Subtil, diz Vossa Reverência? Pois eu vejo o caso bem claro: trata-se de dois

príncipes imbuídos desta condição; trata-se de dois adolescentes, que foram educados na obediência a seus pais, que, além disso, são Reis. Como poderiam dizer que não? No entanto, os seus sins estavam condicionados pelo duplo carácter de príncipes e de adolescentes. Não foram afirmações livres. De entre a massa dos peritos saiu uma voz de cana rachada.

- Talvez o padre Almeida não se aperceba de que está a pôr em causa o mais antigo

dos nossos costumes, o de que os pais concertem o casamento dos filhos, bem como o de solicitar a anuência da Igreja.

O padre Almeida voltou-se para o falante, que era um frade velho de uma ordem

secundária.

- Eu não ponho nada em causa. Eu nem sequer julgo. Limito-me a apresentar a

Vossas Paternidades factos indiscutíveis, dos quais, para este caso, e só para este caso, me

permito tirar ilações. O resto é da incumbência deste Santo Tribunal, não da minha.

- Mesmo supondo que o padre Almeida tivesse razão, a ulterior consumação do casamento legaliza-o e santifica-o.

O padre Almeida não precisou de mudar de posição, nem sequer de mexer a cabeça:

o seu interlocutor encontrava-se diante dele, bem visível na sua cólera contida, mas

evidente.

- Rogo ao reverendo padre Villaescusa que imagine por um momento que dizem a

um adolescente: logo à noite tens que entrar no quarto da Rainha, e fazer isto e aquilo. E que dizem à Rainha: logo à noite, o Rei entrará no teu quarto: não lhe oponhas resistência,

porque é a tua obrigação.

- Efectivamente, padre: era essa a sua obrigação.

Quem se atreve a duvidar? A obrigação da esposa é receber o seu esposo no leito e,

como Vossa Paternidade diz, não lhe opor resistência.

- Admito que também fosse a obrigação do Rei; mas quem vai obrigado não vai livre.

- Se seguíssemos a sua doutrina, a maior parte dos casamentos seriam ilegais.

- Isso, reverendo padre, não sou eu que tenho que o concluir. Limito-me a mostrar a

vossas reverências que os sucessivos acessos do Rei ao corpo da Rainha foram fruto do dever, não da liberdade.

- Esquece Vossa Mercê a obrigatoriedade do dever conjugal?

- Do ponto de vista do Rei ou da Rainha? – arguiu rapidamente o jesuíta.

- Eu entendo-o como recíproco - interveio da sua altura um dominicano do Supremo; - ainda que, naturalmente, na maior parte dos casos seja uma obrigação da esposa, que nem sempre está disposta e, no entanto, deve aceder, para evitar males maiores. - Não é esse o nosso caso - respondeu o padre Villaescusa. - O Rei não foi às putas porque a Rainha o tenha repelido. Investiguei tudo: o Rei há várias semanas que não acorre aos aposentos da Rainha. Não houve, pois, rejeição que explique, sem a justificar, uma infidelidade. Foi neste momento que o Inquisidor-mor interrompeu a discussão com um bocejo:

tão grande que quase se lhe desencaixa a mandíbula; tão sonoro que cobriu a resposta do padre Almeida. - Reverências - disse -, não vos parece que o primeiro ponto da discussão está suficientemente debatido? Consta-nos que o Rei foi às putas, mas o padre Almeida, com o seu enorme senso comum, semeou a dúvida de que os Reis nossos senhores estejam efectivamente casados. Eu disse a dúvida, não a certeza. Nomear-se-á uma comissão que estude o caso e emita o seu parecer. Fica de pé um pecado, no ar outro, mas aquele é da incumbência do confessor, não deste alto Tribunal. Observo que Vossas Mercês estão encaloradas. Eu também. Proponho um descanso, enquanto nos refrescamos com umas bebidas frias que mandei preparar. Suspende-se, pois, a sessão por meia hora. Os presentes que tinham estado sentados puseram-se de pé, com rebuliço de hábitos de diversos cortes e cores. Os contendores daquela batalha dialéctica esperaram que o Inquisidor-mor saísse, depois de ter recolhido (o Inquisidor-mor) as longas caudas da sua vestimenta. À saída respeitaram uma rigorosa ordem de hierarquias, de modo que, sem se olharem, o padre Villaescusa e o de Almeida saíram a par. No claustro esperavam-nos os refrescos.

3.

Distribuíram-se por afinidades teológicas e pela preferência por determinadas bebidas: uns pela água de cevada, outros pela salsaparrilha, outros ainda pela popular orchata, salvo o Inquisidor-mor, que preferiu um copo de frio clarete bebido na sua taça etrusca, uma jóia que trouxera de Itália, adquirida após misteriosos e arriscados tratos em que tinham participado um cardeal da Santa Cúria e uma prostituta de clara linhagem, muito afecta aos interesses da Santa Sé, da qual tinha recebido um título de princesa que arrastava por leitos ilustres, ou pelo menos ricos: Sua Excelência acariciava o requintado

cristal enquanto saboreava o vinho, e tanto os seus dedos como a sua língua estremeciam de recordações gloriosas. Olhava, da sua altura, para os seus colegas, e, salvo o padre Enríquez, que era irmão de um grande de Espanha, metido a frade devido a um fracasso amoroso, e o padre Almeida, evidentemente distinguido com a sua preferência, considerava os restantes como labregos empanturrados de textos em latim, malcheirosos alguns, toscos de maneiras os demais, vindos da gleba, fugitivos do arado. Algum deles não tardaria a ser bispo. Meu Deus, oxalá que o fosse de terras longínquas, onde restavam tantos índios por converter, ainda que fosse à chicotada! Tudo menos recebê-los em audiência mês após mês, àqueles frades, para lhe exporem questões de heresias rurais, listas de suspeitos judaizantes e mouriscos, ou de gentes ignaras de estranhas práticas sexuais. Quem não será judeu neste país? E recordou a sua trisavó, conversa de Saragoça, que em tempos do rei Fernando tinha escorado com os seus dobrões uma antiquíssima casa de godos que se desmoronava. Tinha tirado a luva da mão esquerda, luva roxa de arcebispo in partibus, para apreciar melhor a frescura do clarete e o delicado talhe do cristal. Dois dominicanos e dois franciscanos tinham-se posto a discutir sobre os pecados do Rei, à luz das informações chegadas, a uns e a outros, por vias populares. As possibilidades eram três, segundo as ditas informações: quatro cópulas e um fracasso à quinta, as quatro cópulas sem fracasso, e o fracasso como única realidade pecaminosa. O que se discutia não deixava de ser complicado: se as quatro cópulas deviam considerar-se como um único delito, ou como quatro; se o fracasso, isolado ou em conjunto unitário, deveria considerar- se também como pecado mortal em matéria de intenção ou se - dadas certas circunstâncias bastante incertas e difíceis de deslindar, tais como se a intenção tinha sido provocada pela cúmplice ou se tinha obedecido a um impulso real podia entender-se como meramente venial; finalmente, se a cúmplice, sem dúvida alguma sabedora de com quem partilhava o leito e a quem oferecia a sua colaboração para o pecado, devia ou não ser considerada ré de um delito contra o Estado, e não só como habitual pecadora contra Deus, e, portanto, transferida para a jurisdição ordinária para que a julgassem segundo as leis civis. Armavam tal confusão, em latim e em romance, que a maior parte dos presentes tinham acabado por formar uma roda e os escutavam com mostras de aprovação ou de repulsa, salvo o padre Rivadesella, que se ria deles francamente. O padre Almeida não figurava entre os vociferantes: tinha-se encostado a uma pilastra e observava como a luz dourava os ramos das árvores, e como mais abaixo ia morrendo nas flores. O Inquisidor-mor aproximou-se dele, sorridente. - Não é impossível, padre Almeida, que um dia destes tenha de comparecer, em carro fechado e escoltado, para responder às perguntas que este Santo Tribunal queira fazer-lhe

acerca da ortodoxia e da sua doutrina particular; mas, entretanto, quero manifestar-lhe que o senhor me é simpático, que gostaria que almoçássemos a sós antes de ter que o deter, e que lamento que a sua missão em Inglaterra ponha a sua vida em perigo. Não conheço os costumes nem os métodos da justiça inglesa, mas do que tenho a certeza é de que a minha mão não poderá chegar até àquelas terras para lhe aliviar os tormentos. Aqui seria outra coisa.

O padre Almeida fez-lhe uma vénia muito gentil, mais francesa do que espanhola.

- Excelência, agradeço-lhe essa prova de deferência, e manifesto-lhe por meu turno a

minha disposição tanto para o ouvir como para partilhar a sua mesa, embora o advirta de

que, depois de tantos anos de ausência do mundo civilizado, é possível que as minhas maneiras não sejam tão refinadas quanto a vossa presença exigiria.

- Isso não importa, padre. Por muitos que tenham sido os seus anos de afastamento

do

mundo, o que se aprende uma vez nunca mais se esquece. Mas advirto-o por meu turno

de

que a minha mesa é frugal. A Santa Inquisição é rica, mas o seu chefe é medianamente

pobre. Ofereço-lhe uma sopa juliana, bem condimentada, é certo, e um lombo de porco de

vinha-d’alhos que o meu cozinheiro, um homem do Norte, prepara com exemplar sabedoria - e ao dizer isto olhou de soslaio para o padre Almeida, que respondeu tranquilamente:

- Não tenho nada contra esse lombo de porco, Excelência. Vai para sete anos que não o provo.

- Nesse caso, acha bem amanhã ao meio-dia?

- E não terá Vossa Excelência que mandar prender-me antes?

- Procurarei evitá-lo.

Um fâmulo abria passagem por entre o grupo de frades em direcção ao Inquisidor- mor. Com a devida licença, aproximou-se dele e disse-lhe qualquer coisa ao ouvido. O Inquisidor-mor respondeu-lhe: “Trá-lo cá imediatamente”, e, muito cortês, esclareceu o padre Almeida:

- É um próprio do Valido. Sabe Deus o que terá acontecido a Sua Excelência.

O fâmulo vinha já com o mensageiro, um cavalheiro respeitabilíssimo, de meia idade,

membro de alguma ordem, a que o fâmulo abriu passagem até o deixar diante do Prelado.

O mensageiro pôs-se de joelhos, beijou a mão que se lhe estendia, ou antes, o anel de

ametista, e deixou nela uma carta selada. O Inquisidor-mor abriu-a, leu-a e pediu ao fâmulo que lhe trouxesse com que escrever. Enquanto esperava, mandou o mensageiro levantar-se,

e disse confidencialmente ao jesuíta:

- Anda toda a gente alvoroçada, pedindo a Deus clemência pelos pecados dos

grandes, e à frente de cada grupo vai um frade exaltado. Mas o que parece tê-los assustado é a presença de uma enorme cobra que muitos dizem ter visto. Uns pensam que vai

derrubar as muralhas da cidade; outros a Alcáçova real, e, a maioria, a sua própria casa, porque todos se sabem pecadores.

- É o que tem a opinião popular, Excelência: há sempre alguém que a cria e a dirige, mas depois cada qual pensa por sua conta. O fâmulo aproximava-se já com uma escrivaninha portátil, que ofereceu ao Inquisidor-mor. Este escreveu no papel: “Pancada a torto e a direito.” Não teria

importância se algum desses frades, com uma perna partida, ficasse três meses de cama para meditar, e passou o escrito ao padre Almeida.

- Não gostaria de estar na pele dos pregadores.

- Também eu não.

O Inquisidor-mor fechou a carta, selou-a e entregou-a ao mensageiro, ao mesmo tempo que lhe oferecia a mão em sinal de despedida. O mensageiro sumiu-se por entre os

frades querelantes e desapareceu.

- A culpa de todo esse alvoroço tem-na o padre Villaescusa. A fé ardente, às vezes, é inadequada para manter a ordem pública.

- Refere-se Vossa Excelência à fé do padre Villaescusa?

- Basta olhar para ele.

- Que Deus me castigue se me engano, mas esse frade não acredita em Deus.

- Que diz o senhor, padre Almeida?

- É desses homens que falam, gritam, agitam, ameaçam, tudo em nome da doutrina

mais pura, mas que jamais se atrevem a olhar para dentro de si próprios. Alguma vez o ouviu referir-se ao Evangelho? Acredita Vossa Excelência que tenha a menor noção de caridade? O padre Villaescusa acredita em tudo o que a Santa Madre Igreja acredita, mas, sobretudo, acredita na Igreja, à qual pertence e que encarrega de acreditar por ele; dentro da

qual espera progredir e, sobretudo, mandar. Suspeita de que nunca chegará a ser Papa, mas não põe de parte vir um dia a ocupar esse cadeirão que Vossa Excelência ocupa, nem que seja apenas para ordenar um auto-de-fé e a seguir morrer. É quase certo que, nessa altura, a morte não o assustaria e que a receberia com o prazer de quem alcançou no mundo tudo o que desejou. O Inquisidor-mor não lhe respondeu imediatamente.

- Padre Almeida, para quem viveu tanto tempo no meio dos selvagens, o senhor manifesta um bom conhecimento dos homens civilizados.

- Foi precisamente porque atingi esse conhecimento que preferi viver entre os índios. Não acreditariam no nosso Deus, mas acreditavam a sério nos deles. Soou uma campainha de prata anunciando que o intervalo tinha terminado. Entraram na sala pela mesma ordem por que tinham saído, e ocuparam os seus cadeirões. O Insquisidor-mor concedeu a palavra ao padre Villaescusa.

- Reverendos padres, foram três as questões que nos congregaram nesta sessão

solene: posta de lado a primeira, cuja solução acato por obediência, embora convencido de que, nessa comissão encarregada de a resolver, haverá oportunidade de ouvir a minha voz, passo a expor a segunda: Sua Majestade o Rei manifestou, dando com isso provas de um

descaramento que só pode tolerar-se por ser régio, o seu desejo de ver a Rainha nua. As leis de Deus opõem-se; as do reino também, ou, pelo menos, os nossos inveterados costumes e protocolos, que têm força de lei. Qual é a opinião de Vossas Paternidades? Respondeu-lhe um silêncio, quebrado finalmente pelo padre Almeida, alguém admitiu na sua consciência que inevitavelmente.

- Penso que, por se tratar de uma questão pessoal, excede as nossas incumbências, a não ser que o padre Villaescusa demonstre o contrário.

- Para o demonstrar - respondeu o capuchinho, com uma ponta de exaltação

temperada pela segurança com que falava -, bastar-me-á enunciar a terceira questão, profundamente relacionada com a segunda e também com a primeira: o Senhor que tudo pode, premiador dos bons e castigador dos maus, torna extensiva aos reinos de Espanha a sua indignação pelos pecados do Rei. O povo sabe-o, e anda receoso de sofrer um castigo

pelos males que não fez. Neste momento espera-se uma grande batalha nos Países Baixos, decisiva para as nossas armas, e a Frota das Índias aproxima-se das nossas costas. É lógico que Deus nos castigue fazendo-nos perder a batalha e deixando que a frota seja assaltada e roubada pelos corsários ingleses.

- Não vejo a lógica em parte nenhuma.

Um frio medular sacudiu os ossos dos presentes, salvo os do Inquisidor-mor, que assistia ao debate com dissimulado regozijo.

- Então, padre, o senhor não crê que Deus castigue os povos pelos pecados dos reis?

- Creio sobretudo que Deus castiga os povos pela sua estupidez e pela dos seus

governantes, e que os ajuda quando estes não são estúpidos. Rogo a Vossa Paternidade que considere o estado dos grandes países nossos vizinhos. A Inglaterra é já uma grande potência, senhora do mar; é-o também, embora só da terra, a França; não o é já o Grão- turco, modelo de desgoverno. Da defunta rainha de Inglaterra, que levou o seu país à prosperidade, não temos informações muito favoráveis acerca dos seus costumes, e menos

ainda da sua fé. O cardeal que governa em França também não é um exemplo de virtudes pessoais, mas parece inteligente e enérgico. De modo que a sua teoria só pode aplicar-se à Espanha.

- Não tenho inconveniente, padre, em aceitar a sua resposta, com a condição de que substitua Deus pelo Diabo.

-

Uma protecção mais forte que a de Deus, ou uma inibição de Deus em benefício do

Diabo?

-

Não estou nos segredos de Deus, não posso dizer como levará a cabo o seu castigo.

A única coisa que sei é que a presença do Diabo é clara, como o é em toda a ocasião em

que os desígnios de Deus são frustrados pelos homens.

- Por um mau governo, por exemplo?

- Ou por um bom governo, que importa?

- E dispõe Vossa Reverência de algum indício que denuncie a presença, ou a intervenção, do Diabo no caso que nos ocupa? O padre Villaescusa, que falava do seu assento, levantou-se solenemente.

- Esta reunião em que nos encontramos é mais do que um indício. O diabo

provocou-a, o Diabo mantém-na, o Diabo suscita muitas das palavras que aqui se pronunciaram e se pronunciarão. E o padre Rivadesella, quase sem se mexer, mas em tom claramente irónico, interveio.

- Pela razão que todos sabemos, a noite passada Lúcifer voou pelos nossos céus na

figura de um belíssimo mancebo cujo voo deixava nos ares um sulco de prata. Há testemunhas.

- Se assim é - falou o padre Villaescusa, sem perder a solenidade -, proponho que se exorcize esta sala imediatamente.

- Refere-se Vossa Paternidade ao espaço em que nos encontramos, ou aos que

compõem a reunião? Aquela inesperada e a todos os títulos impertinente pergunta do Inquisidor-mor

surpreendeu quase todos os presentes, e, mais do que ninguém, o padre Villaescusa.

- Não me referia a ninguém em concreto, Excelência.

- Nesse caso, é de pensar que a presença do Diabo não constitui nenhuma novidade.

O Senhor está em toda a parte, mas o Diabo anda sempre atrás dele

- Mas, às vezes, o Senhor distrai-se.

- O que vem a ser mais ou menos o que eu disse antes. Que o Senhor se inibe, mas a mim custa-me muito acreditar nisso.

Tornou a ouvir-se a voz eminente do Inquisidor-mor.

- Permito-me recordar a Vossas Paternidades que estamos a afastar-nos do assunto

que aqui nos trouxe. Tínhamos ficado em se o Rei tem ou não o direito de ver a Rainha nua, e se isto é ou

não pecado. Rogo a Vossas Paternidades que se pronunciem claramente sobre este ponto.

- Afirmo que tem esse direito e que não é pecado – respondeu com voz segura o

padre Almeida -, afirmo não só isso, mas a conveniência de que isso aconteça para que no casamento dos Reis, não como tais mas sim como cristãos, se realize a Graça do Senhor. O padre Villaescusa saltou como picado por uma vespa.

- Diz Vossa Mercê a Graça do Senhor? Acha que a Graça do Senhor se manifesta no

coito? Ou na contemplação desses horríveis penduricalhos das fêmeas que se chamam peitos? Ou prefere que a contemplação se verifique pelas costas, evidentemente contra

natura? Refiro-me, como é óbvio, à contemplação das nádegas. O padre Enríquez, O. S. D., tinha adormecido uma ou duas vezes; outras, tinha arrebitado a orelha, e, muitas, sorrido. Nesta altura levantou a mão cortesmente.

- Visto que este debate se desenrola em língua romance, permito-me rogar ao sábio e

virtuoso padre Villaescusa que chame as coisas pelos seus nomes. Quero dizer, mamas em vez de peitos, cu em lugar de nádegas. Se bem me lembro, o ilustre poeta padre Léon, na

sua versão do Cântico dos Cânticos, traduz claramente: «A nossa irmã é pequena e mamas não tem. Que será da nossa irmã quando se começar a falar dela?» Recitara-o com evidente complacência, e todos pareciam tê-lo escutado com prazer, menos o padre Villaescusa, que troou:

- E Vossa Paternidade atreve-se a fazer essa citação, sendo dominicano como é?

Embora convenha recordar que em mãos de dominicanos esteve a vida e a morte desse

repugnante marrano, e que foram dominicanos os que furtaram ao Senhor o cheiro da sua carne chamuscada.

- Pois nós, os agostinhos, estamos muito orgulhosos dele (O frade agostinho Luis de

León (1527-1591) foi um importante escritor renascentista espanhol, poeta notável. Provavelmente judeu converso, viu-se acusado de heresia pelos dominicanos, o que, juntamente com a sua tradução do Cântico dos Cânticos, o levou a trocar a sua cela pelas da Inquisição durante cinco anos. (N. do T.) - respondeu-lhe,

com voz segura, o representante da mais antiga das ordens presentes.

- Coisa que não me espanta - acrescentou o padre Villaescusa -, porque todos vós sois suspeitos.

Produziu-se uma série de murmúrios nos diversos escalões do Supremo, ante a ousadia daquele capuchinho febril e colérico. O Inquisidor-mor cortou a barafunda que se avizinhava.

- Deixemos em paz os mortos. Insisto em que o debate não se afaste do seu tema.

- Pois eu mantenho que o Rei não pode ver a Rainha nua sem pecado; e insisto

também em que os pecados dos Reis os paga o povo inocente.

- Observo, pelas caras e pelos murmúrios, que há dissidentes da sua opinião tão

respeitável, padre Villaescusa, de modo que se nomearão outras duas comissões para examinar a complexidade do caso. Uma, que determine se o Rei pode ou não contemplar a Rainha sem vestidos que ocultem, ou pelo menos velem, a sua nudez; outra, que examine à luz das Escrituras e dos Padres se o povo paga ou não paga os pecados do Rei, embora tendo em conta que não se trata dos seus erros de governante, mas sim dos seus pecados

pessoais, não é assim? Porque, que do desgoverno resultem danos para as monarquias, não é necessário discuti-lo.

- Resta saber o que se entende por desgoverno - disse o padre Villaescusa.

- Queimar judeus, bruxas e mouriscos; queimar hereges; atentar contra a liberdade

dos povos; fazer os homens escravos; explorar o seu trabalho com impostos que não

Querem

Vossas Paternidades que prossiga na enumeração? Tinham ouvido estupefactos o padre Almeida: todos, incluindo o Inquisidor-mor. E, como um sussurro, corria de boca em boca: “Este jesuíta tem que ser posto na ordem.” E ia-se levantar a primeira voz de protesto, quando entrou o fâmulo conhecido e falou ao ouvido do presidente.

podem pagar; pensar que os homens são diferentes quando Deus os fez iguais

- Um momento, senhores. Temos uma visita inesperada. – E disse ao fâmulo: - Que

entre esse cavalheiro. Saiu desfazendo-se em salamaleques, cortesia para aqui, cortesia para ali, em todas as direcções; e, pouco depois de sair, tornou a abrir-se a porta e no seu vão apareceu o conde

da Peña Andrada. Ficou parado na soleira, descobriu-se e dedicou aos presentes uma inclinação de cabeça do mais ortodoxo.

- Adiante, conde.

Não o fez o conde sem antes repetir a saudação, desta vez tripla, como se os presentes fossem reis: roçando a alfombra escarlate com a pluma do chapéu; e, ao avançar e passar diante do Cristo iluminado, repetiu-a com gesto mais acentuado. Ergueu-se e encarou o Inquisidor-mor:

- Com o fragor das disputas, certamente que Vossência não se deu conta de que estes

pavios cresceram demasiado, e de que tremem as luzes dos círios. Ao recair o seu tremelicar sobre a cara do Senhor, esta parece que escurece mais. Se Vossência mo permite,

gostaria de os espevitar. Mal lhe respondeu o prelado, com voz um tanto surpreendida, “faça-o, se lhe apraz”, o conde puxou da espada e, com uma espadeirada como um relâmpago, espevitou o círio da direita. Os presentes não tinham tido tempo de manifestar o seu estupor, mas ouviu-se uma voz que sussurrava: “Atreveu-se a desembainhar diante do Crucificado!” e já o conde, de

outra espadeirada, igual, tinha espevitado o círio da esquerda: ficou simétrico com o da direita, ambos da mesma altura, e com luzes de brilho idêntico, sem mais tremor que o necessário.

A seguir, depositou a espada aos pés do crucifixo.

- Estou à vossa disposição, senhores.

E permaneceu postado diante da assembleia, no sítio exacto em que se colocavam as

testemunhas quando vinham depor.

O Inquisidor-mor perguntou-lhe:

- Por que veio Vossa Excelência?

- Fala-se em toda a cidade do que se trata aqui, e julguei cortês oferecer-vos o meu

testemunho, e fá-lo-ei de boamente, mas antes gostaria de cumprimentar um velho amigo

aqui presente.

E, sem esperar anuência, aproximou-se da fila dos consultores e estendeu a mão ao padre Almeida.

- Há muito tempo que não nos vemos, padre.

- Sim, efectivamente, muito tempo.

Enquanto apertavam as mãos, o padre Rivadesella observou-os, e pareceu-lhe que em algo se assemelhavam, embora em algo muito maior diferissem. Procurou uma referência na sua memória, e a única coisa que lhe apareceu foi um galo, não gigantesco, todavia, apenas muito maior do que os vulgares, incluindo os capões; um galo com qualquer coisa de estranho, talvez na crista. Neste interim, o Inquisidor-mor tinha

perguntado de onde se conheciam.

- Em tempos, o padre Almeida socorreu de água fresca e comestíveis as naves da

minha esquadra, nas costas do Brasil, quando por ali exercia o seu ministério.

- E que fazia Vossência por lugares tão longínquos?

- Servia o Rei com os meus barcos, senhor. Um serviço perigoso, em que às vezes

não resta outra saída senão o heroísmo. Mas assevero-lhe que nos meus relatórios apenas me referi ao dos meus marinheiros, que não são obrigados a ser heróis, mas que costumam

sê-lo como a coisa mais natural deste mundo. Em vez de se vangloriarem da sua bravura, não pensam mais nela.

- Então, o senhor é um pirata? - perguntou sem poder conter-se o padre Villaescusa.

- Não exactamente, padre. Sou um corsário e navego com patente do Rei.

- Se assim é, por que não está o senhor a proteger essa armada que navega rumo a Cádis, ameaçada pelos ingleses?

- Não fui informado, nem convidado a fazê-lo. A minha esquadra descansa por estes

dias na sua base, num porto do Norte que Vossas Paternidades não terão certamente ouvido nomear. O padre Almeida, sim. O padre Almeida é português, e sabe mais das

coisas do mar do que Vossas Mercês.

- Eu nasci em Rivadesella, meu pai foi mareante; ainda cheguei a navegar, quando era criança. Claro que não num barco de grande porte, mas em botes a remos.

- E não pôde esquecê-lo, não é verdade? O mar é como uma noiva esquiva e

inatingível, que permanece sempre no coração. Poderia contar-vos a história de uma mulher assim, uma morena de Honolulu, que se recusou a partilhar o comando do meu

navio.

O padre Villaescusa, visivelmente inquieto, deu um passo para o conde.

- Espero que Vossa Senhoria compreenda a incongruência dessa comparação e de

semelhante história neste local, onde todos somos celibatários e provavelmente castos. E espero com fundamento que a sua presença neste Santo Tribunal não terá por finalidade contar-nos as excelências do mar e da vida do mar. Como pode ver Vossa Senhoria, aqui somos gente séria. Ao referir a castidade, tinham-se virado várias cabeças para o padre capuchinho:

umas, melindradas; outras, visivelmente irónicas. O conde apenas sorriu, embora

comedidamente.

- E pensa Vossa Mercê que no mar não somos sérios? Sabe Vossa Mercê o que é um

tornado, e como pode defender-se um barco da sua fúria indomável? O Inquisidor-mor decidiu impor alguma ordem.

- Confesso que gostaria de ouvir dos lábios do senhor conde como é que os barcos

escapam aos perigos do vento e do mar, porque também sou homem de terra adentro, e a viagem que fiz a Itália na minha juventude não foi em galera, mas sim em lombo de mula;

mas concordo com o padre Villaescusa que este não é o local apropriado. E também estou de acordo que o senhor conde não terá vindo aqui para nos contar as suas aventuras.

- Claro, Excelência, vim para ser interrogado, mas até agora ninguém me fez certas perguntas de que estava à espera. Estou à vossa disposição para lhes responder.

- Tenho licença para começar, Excelência? - perguntou o padre Villaescusa ao

Inquisidor-mor. E este deu-lha. Ao padre Villaescusa escorria-lhe o suor pelas faces, fazia-lhe brilhar a testa e a tonsura já quase calva. Limpou-se com o conhecido lenço de cor, que desde o primeiro momento tinha parecido grosseiro ao padre Enríquez, O. S. D.; deve ter-lhe parecido

ordinário, digno de um cristão velho tão ostentoso como o padre Villaescusa. O conde olhava expectante para o capuchinho, e o seu rosto estava seco. O lenço do capuchinho fedia; o conde tirou da manga o seu, branco e rendado, e ofereceu-lho.

O padre Villaescusa, depois de se enxugar com ele, e ao devolver-lho, perguntou-lhe:

- E Vossa Senhoria, por que não sua?

O conde desatou a rir.

- Isso está nos humores, padre. Vê-se que os nossos são diferentes. Embora lhe

convenha não esquecer que os ares marinhos secam a tez e a curtem. Talvez seja por isso.

- Seja pelo que for, tanto se me dá. Sobre o que eu queria interrogá-lo era sobre outra

questão mais delicada. É certo que, como diz a voz do povo, Vossa Senhoria acompanhou o Rei, a noite passada, em certa escapadela?

- É sim senhor, padre. Acompanhei-o a casa de Marfisa, a famosa cortesã da qual os

presentes talvez tenham ouvido falar. Dizem que é a mulher mais bela da corte, e que conta entre a sua clientela grandes senhores de posição elevada. Se não estivesse onde estou, atrever-me-ia a dizer que também se lhe atribuem certas relações com purpurados, mas já se sabe como o povo é mau. É uma mulher cara: dez ducados de ouro por noite, e não costuma fazer descontos, embora seja de supor que, de vez em quando, tenha os seus caprichos. É frequente em mulheres dessa profissão, embora pouco recomendável. Se

Vossa Paternidade deseja saber porquê, posso explicar-lho.

O capuchinho fez um gesto de asco.

- Basta-me a minha ciência, cavalheiro.

- No entanto, convém saber de tudo.

- O caso do Rei foi um desses caprichos?

- Assevero-lhe que não, padre. Os dez ducados tive que pagá-los eu. O Rei não

levava consigo numerário suficiente. Meio ducado de ouro numa fraldiqueira que costuma estar vazia! Por sinal, deveria pensar-se em modificar alguns pormenores do protocolo:

meio ducado para esse tipo de serviços talvez estivesse bem em tempos do Grão-duque da Borgonha; mas, desde aquelas calendas, os preços mudaram muito.

- Pelo que o Rei não deveria pagar um único maravedi! - disse uma voz apaixonada e distante, enquanto o Inquisidor-mor sorria. O padre Villaescusa pediu que não se afastassem do tema.

- Reverências, estamos perante um caso confesso de alcovitice, cujo juízo não nos

compete a nós, mas sim ao braço secular. Enviemos-lhe o senhor conde, que terá que arrostar com uns anos de galeras.

- Fá-lo-ia de boa vontade, se tivesse delinquido, pois passa-se melhor amarrado ao

duro banco do que numa masmorra dos cárceres correntes. Mas recuso-me a aceitar isso da alcovitice.

- Eu creio que é claro - disse o padre Villaescusa - e, além disso, Vossa Senhoria confessou.

- Não, padre. Eu não confessei, contei, e não contei tudo. Porque o que aconteceu foi o seguinte: encontrava-me eu num salão da corte - E que fazia Vossa Excelência num salão da corte, sendo como parece ser o comandante de uma armada?

- Tinha vindo entregar ao fisco o quinto das minhas presas, que cabe ao Rei. Um

saco de ducados, neste caso, ou, mais exactamente, de libras esterlinas, que assim se chama a moeda inglesa. E o Rei descobriu-me, aproximou-se de mim, perguntou-me quem era, e que fazia ali tão sozinho, e eu disse-lho. “Então, se não és daqui, não saberás onde vive uma tal Marfisa, com quem gostaria de passar a noite.” Eu não o sei, senhor, mas posso averiguá-lo. O Rei, então, dirigiu o olhar para os grandes, para os nobres, para todos os cortesãos que, em grupos, falavam e riam, os que não se queixavam ou se aborreciam, no salão. Todos aqueles o sabem. Pois eu não tardarei a sabê-lo. Afastei-me do Rei, pus-me em campo e voltei com as indicações exactas. Haverá nisto algum delito? “Agradeço-te a informação.” Mas Vossa Majestade vai sozinho a um sítio tão conhecido? Ouvi dizer que

as noites da corte são especialmente perigosas. “Se algum daqueles me acompanhasse, amanhã toda a gente o saberia.” A mim ninguém me conhece, senhor, e tenho carruagem e uma espada bem provada em lides mais difíceis do que um assalto nocturno. Ofereço-me para o acompanhar. “Então espera-me logo à noite, com a tua carruagem, na esquina sudeste do Paço. Irei de preto, e tenho a certeza de que me reconhecerás nas sombras.” Não duvide, Majestade. Reconhecê-lo-ia até no próprio inferno. E foi tudo, senhores, o que eu considero um serviço de protecção à pessoa do Rei.

- E, enquanto o Rei fornicava, que fazia Vossa Senhoria?

- Dormia, padre, não tenha a menor dúvida. Dormia num cadeirão incómodo, com o

colarinho esgoleirado, o cinto desapertado e as botas ao lado dos meus pés. E assim fiquei

até que o Rei me acordou, já vestido, e me disse que nos fôssemos embora. Por sinal, vinha de cara pasmada. Perguntei-lhe o que é que tinha. Respondeu-me que, pela primeira vez, tinha visto uma mulher nua e que não suspeitava de que pudesse ser assim, tão diferente e tão bela, o que não deixa de ser estranho num homem de vinte anos que, além disso, é casado.

- Não se esqueça Vossa Senhoria de que o é com uma Rainha.

- Sim, foi o que ouvi dizer, embora não a conheça. De seu pai, tenho algumas

informações. Não era muito escrupuloso em questões de mulheres, de modo que a Rainha não deverá surpreender-se se o marido procurar consolo noutros leitos.

- Vossa Senhoria está a justificá-lo?

- Não, Reverendo Padre. Limito-me a explicá-lo.

- Há explicações que implicam um raciocínio favorável.

- A minha não aspira a tanto.

O padre Enríquez, a quem o debate começava a aborrecer, pediu a palavra. E, quando lha deram, lançou ao conde da Peña Andrada:

- E Vossa Senhoria crê que essa ideia do Rei de ver a Rainha nua tem alguma relação com o que acaba de nos contar?

- Creio, Reverência, que é efeito desta causa. Um efeito lógico. E, além disso,

necessário. Os jovens que andam por esse mundo não devem ser inocentes, mas sim experimentados. E que menos pode pedir um esposo do que saber como é o corpo de sua esposa? Interveio o padre Villaescusa, receoso de que o padre Enríquez, com a fama de tolerante que tinha, lhe arrebatasse a primazia.

- Vossa Senhoria viu muitas mulheres nuas? Viu-as com complacência?

- Reverendo padre, mais de metade das mulheres que há no mundo andam sem

roupa. Não só nos mares do Sul, que não se sabe se são mulheres ou sereias, mas também noutras terras. Pergunte ao padre Almeida.

O padre Almeida aproveitou a deixa com seriedade.

- O conde tem razão. As mulheres das tribos que eu cristianizei também andavam nuas, e suponho que assim continuarão. O padre Villaescusa voltou-se para ele com fúria.

- E Vossa Paternidade não as obrigou a vestirem-se? Não era essa a primeira missão do seu ministério?

- Eu, padre, ensinei-lhes que o filho de Deus tinha morrido por todos os homens, também por eles, e que os esperava no paraíso.

- Um paraíso para gente nua?

- Não sabemos como estarão no paraíso aqueles que o mereceram, mas suspeito de

que não terão levado as suas roupas consigo. Tinha escurecido e, à escassa luz dos círios, todas aquelas caras pareciam fantasmas. Mas em fantasmas já ninguém acreditava. E, menos do que ninguém, o jesuíta e o conde.

Capítulo III

1.

O

padre Villaescusa entrou no gabinete do Valido o que se chama derreado: pelo

trabalho mental daquela tarde, pelo calor, que não passava com o sol, antes persistia como

uma recordação de chumbo: arrastava os pés pela rua fora e, de tantos em tantos passos,

parava para enxugar o suor com o grande lenço verde. Assim que transpôs a porta por onde entravam os confidentes, deixou-se cair num cadeirão e pediu água e qualquer coisa para se abanar: deram-lhe um processo de nobreza dos que se amontoavam sobre a mesa do Valido, mas a água tiveram que lha ir buscar; no interim, o Valido supriu a demora com um cálice de aguardente da que bebia nos momentos de depressão, quando desesperava de ter um filho, quando as más notícias dos reinos lhe punham a cabeça à roda e lhe apertavam o coração. A chegada da água pareceu descolar a língua do padre Villaescusa do palato a que tinha aderido, e de que nem a aguardente bastara para a libertar, acaso por razões de estrita moralidade. Emitiu um suspiro prolongado. - Isto vai mal, Excelência - disse ao Valido. E o Valido respondeu perguntando-lhe:

- Isto, o quê? - porque naquela cabeça e naquele momento, havia muitas

preocupações que se podiam designar pelo mesmo pronome demonstrativo. - Refiro-me, Excelência, aos pecados do Rei; mas, pensando bem, há algo de muito mais grave: o Santo Tribunal da Inquisição está em mãos sem força, não por fraqueza, mas por indolência. Toda a gente sabe muito, mas ninguém acredita em nada, nem sequer no que sabe. Imagina Vossa Excelência qual foi o resultado de uma tarde inteira de disputas? A nomeação de quatro comissões encarregadas de averiguar se, de acordo com a doutrina, os Reis Nossas Majestades estão realmente casados; se houve ou não houve adultério nos devaneios do Rei, Nosso Senhor; se é ou não pecado que o Rei veja a Rainha nua e, assombre-se Vossa Excelência!, se os pecados do monarca têm ou não têm influência na fortuna ou infortúnio destes reinos. Nos tempos que correm já não há doutrinas estáveis. É de enlouquecer.

O Valido, que se encontrava de pé junto da sua mesa, deu alguns passos em silêncio até à janela aberta, respirou o ar que ascendia do Campo del Moro e deteve-se até alguns instantes na contemplação do horizonte, onde um clarão avermelhado assinalava o sítio por onde o Sol acabava de se pôr; depois voltou para onde estava antes.

- E Vossa Paternidade propõe algum remédio?

- A longo prazo, Excelência, substituir o Inquisidor-mor, no caso de aparecer alguém

disposto a semelhante sacrifício, com a balbúrdia que o espera! Mas o remédio a curto prazo tem que ser acordado agora mesmo entre Vossa Excelência e eu.

- De que remédio se trata?

- De impedir que o Rei veja a Rainha nua. Os pecados da noite passada são suficientes para pôr em perigo a monarquia e, com ela, a verdadeira cristandade; se a isto acrescentarmos essa monstruosa contemplação proibida pelas leis humanas e divinas, não me atrevo a imaginar o que será de nós.

- Refere-se Vossa Paternidade a si e a mim?

- Refiro-me, como Vossa Excelência pode compreender, ao futuro do único país que no mundo defende a doutrina de Deus e da sua santa Igreja.

- São palavras sonantes, as que utilizou.

- São as que se ajustam ao caso.

O Valido tornou a percorrer a distância entre a descomunal e sobrecarregada mesa e a janela, e o seu olhar pareceu resvalar pelos céus abertos até se perder na linha rosada do poente: a verdade é que tentava desalojar do espírito a recordação da sua esposa, nua na cama, pedindo-lhe que se despisse também.

- E diz Vossa Paternidade que o Inquisidor-mor vacila?

- É a Santa Inquisição inteira, Excelência, que deixou de ser a mão dura do Senhor

para se transformar num salão onde se conversa em castelhano sem que ninguém se apaixone pelo que se discute, e onde se dão refrescos aos que parecem cansados, em vez de se dar vazão à santa ira!

- Isso, bem vê, em tardes como a de hoje, não me parece mal. Até a mim me apetecia

agora mesmo um pouco de aguardente com água gelada. A tarde foi de muitíssimo trabalho, apesar de ser domingo. Sabe que as notícias da frota tardam a chegar? E que não

sabemos nada da guerra da Flandres? Os banqueiros genoveses apertam-nos e, se a frota se atrasa, ou no-la roubam, não teremos dinheiro para dar de comer ao Rei. O capuchinho persignou-se ostensivamente, persignou-se com o grosso crucifixo que pendia do seu rosário.

- Louvado seja Deus! Que Ele me perdoe se há soberba nas minhas palavras, mas

não faria mal ao Rei, e à corte inteira, uma semana de jejum, e até de penitência, com cilícios e disciplinas.

- É possível que tenha razão, padre; mas que pensariam de nós nas cortes

estrangeiras? Mais que não seja, pelo decoro da monarquia Pela janela aberta entrou, voando, um passarinho. Vinha sem forças, e foi pousar no

regaço do padre Villaescusa: mexia as asas cansadas e respirava ofegante pelo bico aberto.

- Está morto de sede - explicou o frade, e o Valido respondeu-lhe:

- Tínhamo-nos esquecido da água e do bagaço. É das minhas vinhas de Loeches, e bastante saboroso.

O frade acariciava o corpo do passarinho, e ajudava-o a mexer as asas. O Valido

chamou, e um pajem trouxe a água gelada: um jarro grande, de prata, e dois copos de cristal. O passarinho bebeu avidamente, ensaiou uns voos pela sala e saiu pela janela. O

padre Villaescusa, com o copo na mão, e a água turva pelo jorro de aguardente, viu-o partir

e estendeu-se em considerações sobre a liberdade das aves e o seu descuido, a que Cristo se tinha referido. O copo do Valido repousava a um canto da mesa, já meio vazio, e com a água mais turva que a do frade.

- Podíamos continuar a falar do nosso caso, agora que refrescámos os gorgomilos.

- De qual deles, Excelência? Não os gorgomilos, os casos.

- Eu não vejo mais do que um, ou a um só se pode reduzir a múltipla aparência.

Aconselha-me Vossa Paternidade que mande chamar o Núncio e lhe peça a substituição do

Inquisidor-mor?

O frade levou as mãos à cabeça, embora sem largar o copo.

- Não faça Vossa Excelência semelhante disparate! O Núncio é italiano, e o seu

palácio goza de má reputação na cidade. E o Inquisidor-mor passou em Itália os seus anos de juventude, e ali se contagiou da indolência romana. Eu despacharia um correio especial ao nosso embaixador com a missão de conduzir pessoalmente, e em segredo, as diligências.

Haveria que enviar um relato fidedigno de todos os factos, mas não encomendado à pena de nenhum tabelião, e menos ainda de um amanuense, por boa letra que tenha, porque, senhor, o resultado seria a interpretação das minhas palavras recebidas por Vossência, transmitidas a um secretário, e deste ao escriba. Que restaria do meu relato?

- Propõe-me Vossa Paternidade a redacção directa do documento?

- Pelo menos, senhor, da sua parte narrativa. Sou uma testemunha de boa memória.

- Posso acrescentar-lhe, caro padre Villaescusa, que com essa narração dos factos irá

a proposta de que seja o senhor o nomeado para o cargo.

O padre Villaescusa caiu de joelhos. E não pôde reprimir um gesto de comoção,

entre estupefacto e alegre.

- Excelência! Não são tantos os meus méritos! Não sei se a minha humildade me

permitirá aceitá-lo.

- Se vier da Santa Sé, assinado e selado pelo Papa, não lhe restará outro remédio. Mas

isso demorará alguns meses

sigilosas? Partilho com Vossa Paternidade a pressa por sair do imbróglio. Que é o que me propõe?

O padre Villaescusa, que já se tinha levantado, embora com semblante menos

Duas viagens de correios, quanto tempo de diligências

humilde, com o semblante do preconizado Inquisidor-mor, respondeu com voz bastante cava.

- Excelência, nas vossas mãos estão os recursos palacianos. Eu, pela minha parte, manejarei os espirituais, se tiver autorização para isso.

- Dê-a por concedida.

O padre Villaescusa, a partir daquele momento, deu rédea solta aos muitos devaneios

que o seu espírito tinha elaborado, e que se precipitavam para a realização imediata. Mas não pôde deixar de se imaginar como um grande polvo cujos tentáculos abarcavam o Valido e o Rei, a monarquia e o mundo. Pensou que aquela imagem vinha do Diabo, mas

não a repeliu, e sentiu-se polvo revestido de púrpura, e com poderes de Inquisidor-mor.

2.

Mademoiselle Colette, que não aparentava ser a quarentona que de facto era e que, em certos meios palacianos, tinha reputação de muito alegre na cama, de verdadeiramente brincalhona, preparava-se para sair, quando a Rainha a viu pelo espelho e a chamou. Encontrava-se a Rainha no seu toucador, cheio de coisas de França, frívolas e alegres, que nenhuma das suas damas espanholas podia ver, porque não as achavam elegantes: o espelho com moldura de prata, a cómoda pintada de amorzinhos nus e, sobretudo, aquele

com tudo ao léu.

armário em cujas portas campeavam Adão e Eva sem folhas de parra

Nem o Rei se tinha atrevido nunca a mostrar aquele descaramento, porque o Rei, a maior parte dos dias, costumava vestir de preto, tão severo!

- Aproxima-te - disse a Rainha à sua donzela de confiança, que a tinha acompanhado

desde Paris, que em Paris de França a tinha tido ao seu cuidado durante alguns anos. - Aproxima-te mais, Colette, e fala com cuidado.

- Ninguém entende o francês, dos que podem estar por perto

- Mesmo assim

- Como Vossa Majestade desejar.- Também te podes sentar, aqui ao meu lado, nesta

Nos palácios dos reis há sempre mais bufos do que ratazanas.

cadeira. O mais perto possível.

Colette sentou-se, muito satisfeita.

- Sim, Majestade. Obrigado.

- Agora, fala-me do que toda a gente fala.

- Não posso acrescentar nada que a Rainha não saiba. Que o Rei anda murcho, já lho comuniquei.

A Rainha suspirou, e deixou sobre o boudoir que fora de sua mãe o pente de prata

com que se tinha penteado.

- Pobre marido meu, as coisas que lhe acontecem! Tu, no meu lugar, que farias?

- Despia-me na cama, sem pensar duas vezes. - Alguma vez o fizeste?

- Desde que tenho o uso da razão, Majestade, não deixei de me despir quando houve

oportunidade. Minha mãe ensinou-me que as coisas devem fazer-se bem. Por isso sirvo Vossa Majestade com a perfeição com que o faço.

- Não tenho queixa de ti, Colette, já to disse muitas vezes. Mas isso de se despir na

cama, sabes se o fazia a Rainha de França?

- O Rei defunto, seu pai, que Deus tenha na sua glória, não o fazia de outra maneira.

- Sabe-lo porque to contaram, ou porque o viste? Eras muito nova quando morreu meu pai, o Rei

- Não tão nova como isso, senhora, que o Rei seu pai, que Deus tenha recebido no

seu seio, como huguenote ou como católico, de cada vez que me encontrava a sós, e foram

muitas, não me deixava mais do que os sapatos, porque meias nunca as usei. Nem com o frio desta corte.

- Não és muito descarada, Colette?

- Como quer Vossa Majestade que eu seja, vivendo sempre no palácio? Por estes corredores não prospera a decência.

A Rainha fitou-a um momento e depois voltou a cara para o espelho, iluminado por

dois candelabros carregados de velas.

- Que tal te pareço, Colette?

- Como nunca, senhora.

- Achas que agradaria ao Rei, assim como estou, sem pintar a cara?

- Vossa Majestade deveria pôr de parte o rouge de uma vez por todas. Já lho disse muitas vezes.

A Rainha examinou os seus olhos, multiplicados no espelho pelas luzes.

- De maneira que pensas que devo esperar o Rei nua na cama?

Colette deu um gritinho.

- Isso nunca, Majestade! Que se dê ao trabalho de a despir.

- Sem me fazer muito rogada?

- Só o necessário, e sem insistir demasiado.

A Rainha meditou um momento, sem deixar de olhar para os seus olhos.

- Colette, logo que me sente a jantar com essas harpias que me acompanham, vais à

procura do Rei e dizes-lhe que o espero às onze. Parece-te boa hora, às onze? Os corredores costumam estar vazios, a essa hora da noite.

Colette levantou-se e fez uma vénia.

- Majestade, para um encontro de amor todas as horas são boas.

Deu um passo atrás, repetiu a vénia e saiu do toucador. De entre as muitas imagens

que o espelho lhe devolvia, a Rainha escolheu a mais favorecida.

3.

A

duquesa viúva do Maestrazgo (Região a nordeste de Valência. (N. do T.), camareira-mor

da Rainha, tinha-o sido também da Rainha anterior; e se, ao chegar a nova de França, tinha

continuado no cargo, devia-o ao seu grande conhecimento das coisas do palácio; embora fosse certo que não tinha estado na sua mão ajudar o primo a ascender ao cargo de Valido, isso não lhe fazia diferença nenhuma, porque se davam bem, tinham brincado juntos em criança e, provavelmente, as primeiras coxas de mulher vistas por aquele que já se encaminhava para todo-poderoso quando ainda não sabia em que é que se distinguiam das dos homens, tinham sido as dela. A duquesa viúva do Maestrazgo mandava com modos absolutos no mundo feminino do palácio, e entre ela e o primo havia o acordo tácito de que o fazia por delegação igualmente tácita, com troca de segredos e partilha de benefícios.

A duquesa viúva do Maestrazgo era apenas um ano mais velha do que o Valido e, ao

enviuvar, teria sem dúvida alguma casado com ele, se ele não tivesse tido tanta pressa em fazê-lo com Dona Bárbara, e não por razões honestas de conveniências familiares ou

pessoais, mas apenas porque gostava de Dona Bárbara e queria deitar-se com ela. Apesar disso, a duquesa viúva não guardava rancor à mulher do primo, e lamentava do coração que

o céu não lhes desse descendência. “Em apenas dois anos que estive casada com meu marido, dei ao mundo duas lambisgóias que não há quem as eduque; casada com meu primo, teria dado talvez uma dúzia e, ainda que alguns morressem, ficaria sempre uma reserva para satisfazer as ânsias de paternidade do meu pobre primo. Em troca, eu mandaria em minha casa, e no palácio de Loeches, e em dois ou três sítios mais, mas não no paço. Quando recebeu o pedido do Valido para que fosse vê-lo ao seu gabinete quando os seus trabalhos lho permitissem, apressou-se a satisfazê-lo: estava bonita, naquela tarde escaldante de domingo, com roupas leves e um decote algo mais generoso do que o seu confessor lhe permitia; mas o seu confessor já punha limites ao seu decote contando que

haveriam de ser ultrapassados. O Valido estava ensimesmado, e tardou a aperceber-se de que sua prima tinha entrado, e de que esperava sorrindo e talvez rindo-se dele, que tomava tão a peito as coisas do governo e de Suas Majestades os Reis.

- Sabes para que é que te pedi que viesses cá?

- Suponho.

- Estarás a par do capricho do Rei.

- Está-o todo o palácio, a cidade inteira, e em breve também os reinos desta monarquia.

- E que pensas tu disso?

- Que estás a dar demasiada importância a isso a que chamas um capricho. Que dois

esposos durmam nus na cama, são coisas, penso eu, que não deveriam passar das paredes

do seu quarto.

- Mas, como vês, passaram. E se, por um lado, o protocolo se opõe, os padres querem meter o bedelho no assunto.

- O protocolo está antiquado, e não se pode deixar que os padres se metam onde não são chamados.

- Mas fizeram-no.

A duquesa tinha-se sentado num cadeirão, de perna aberta, em frente da janela, e, nas costas do Valido, arregaçara os saiotes e arejava as suas interioridades encaloradas. Mesmo assim, falava com dificuldade e abanava o rosto com a mão. O Valido ofereceu-lhe um

refresco, e ela aceitou-o. O Valido levou-lhe a taça de água fria, com um fiozinho de aguardente, e ela, ao sentir que ele se aproximava, baixou rapidamente as saias. Só depois de ter refrescado a goela por duas ou três vezes é que perguntou:

- Chamaste-me só para estes comentários, ou queres alguma coisa de mim?

- Quero. Quero que evites que o Rei durma com a Rainha, pelo menos enquanto não chegarem notícias da frota e da guerra da Flandres.

A camareira-mor devolveu-lhe o copo vazio.

- Enche-me outra vez isto e duplica a ração de aguardente. Que tem que ver o capricho do Rei com a frota e com a guerra da Flandres?

- Que a frota chegue a Cádis, que se ganhe ou se perca na Holanda, depende dos pecados do Rei.

A camareira-mor riu francamente.

- Não consigo compreender como é que o país está cheio de imbecis que acreditam

nessas coisas.

-

Dizem-no os teólogos.

-

Nem que o diga o Papa.

-

Eu não posso opor-me aos ditames da Igreja.

-

É sempre possível encontrar um grupo de frades que opinem o contrário de outro

grupo.

 

O

Valido arrastou um escabelo e sentou-se diante da prima, de costas para a janela.

- O pior é que isso já aconteceu, e deixa-nos de mãos atadas.

- Pois eu, no teu lugar, procurava um terceiro grupo de frades e, antes de os

consultar, enchia-lhes a barriga.

- Tu vês tudo muito fácil, mas as coisas são mais complexas do que tu julgas.

- E por isso, por serem complicadas, vais privar esses catraios de darem pinotes nus?

- Fizeste-o tu, com o teu marido?

A camareira-mor, antes de lhe responder, emborcou uma boa golada de água com

bagaço: já não estava fria, mas a aguardente reanimava os membros cansados.

- Em primeiro lugar, quando casou comigo, o duque já não era nenhum rapaz, e o

reumático contraído na vida do mar não lhe permitia mexer-se à vontade. Em segundo lugar, as galeras que comandava, e o Grão-turco, e todas essas coisas, importavam-lhe mais do que eu. Quando casámos, assim que ficámos a sós, empurrou-me para um canto e deixou-me prenha. Com isso considerou que tinha cumprido o seu dever, e voltou para as galeras. E, de uma vez que fui ter com ele a Valência, tornou a empurrar-me, dessa vez para

um canto da sua câmara de capitão-general, e a deixar-me prenha. À saída de Valência esperavam-no os turcos, e uma bala não sei de que corsário perfurou-lhe a popa e afundou- lhe a galera. Como não sabia nadar, morreu afogado. Devo acrescentar-te que, embora não pudesse viver sem o mar, a água doce e o sabão nunca mereceram a sua simpatia. Cheirava a galés, o condenado, e, se cheirava vestido, o que não seria em pelota! Além disso,

segundo o que acabo de te contar, não me deu tempo, de nenhuma das vezes, a insinuar- lhe que se despisse.

- No entanto, é a ele que deves o que és.

- Isso nunca o neguei. A verdade é que o devo ao pobrezinho, mas só porque morreu. Se chega a saber nadar O céu tinha escurecido, e a camareira-mor só via do primo a escura silhueta. O

Valido, de repente, levantou-se: ela ouviu-o raspar a pederneira sobre a isca, e apareceu uma hesitante claridade amarelenta.

- Não te parece que entra demasiado fresco pela janela?

- Fecha, se quiseres.

O Valido fechou. A duquesa tinha-se levantado, tinha arrastado o cadeirão para ao pé

da mesa, e tornou a sentar-se.

- Bom, vamos ao nosso assunto.

- E o nosso assunto, o que é?

- Que impeças por todos os teus meios que o Rei visite a Rainha logo à noite. Eu

farei o mesmo, com os meus. Ela levantou-se.

- Parece-me muito bem. Convém sempre precaver-se.

- Que é que podes fazer?

- Há um corredor, com três portas, que vai de uma câmara a outra. Tradicionalmente,

o fechamento de cada uma dessas portas tem o seu significado. Será a primeira vez que se

fecham as três, pelo menos que eu saiba.

O Valido levantou-se.

- Bom. Eu encarrego-me das outras entradas.

E manter-te-ei ao corrente.

- E quando amanhã a Rainha me interrogar?

- A resposta é contigo. Não te será difícil inventar alguma mentira.

- Difícil? Não faço outra coisa, todos os dias.

- A mim também?

A duquesa aproximou-se do Valido e deu-lhe um beijo na face.

- Nunca foste uma excepção no palácio.

O Valido ficou sozinho, sentado diante da sua mesa, com a sensação de que aquele

era o primeiro beijo casto que a prima tinha dado na sua vida.

4.

O padre Fernán de Valdivielso tinha a sua cela num quartinho arredado, para as bandas da torre do noroeste, lugar a que o tinham destinado por causa do frio para ver se morria de vez: porque o padre Fernán de Valdivielso durava demasiado, com mais de oitenta anos em cima, e um remoto passado militar distinguido em todas as guerras do império, sob o comando remoto de Sua Majestade D. Filipe II, o Grande. Por que se tinha metido a frade ninguém o sabia, mas a verdade era que, ao ser escolhido para confessor real, a ordem a que pertencia se tinha desembaraçado dele com inteira satisfação das suas autoridades, porque um homem, por muito frade que fosse, que se tinha deitado com italianas, flamengas, francesas e turcas (que se soubesse) não podia servir de exemplo a quem só tinha à mão espanholas, e do mais pacato. O padre Fernán de Valdivielso havia vários anos que dirigia a consciência do Rei, e fazia-o com a vara larga do antigo soldado, bom conhecedor de comportamentos e consciências, e que, de cada vez que se lhe apresentava um problema difícil, em lugar de consultar os livros ou os mestres vivos, lançava mão das suas recordações. Ao padre Fernán de Valdivielso, os que desejavam que o Rei continuasse pelo caminho de perdição que levava, desejavam-lhe longa vida, mas os que aspiravam a apoderar-se da consciência do Rei, e a dirigi-la, esperavam a sua morte e usavam de todos os meios legais para que acontecesse quanto antes. Por isso, de uma cela soalheira que dava para o pátio de armas, tinham-no relegado para aquele cubículo gélido a que nunca chegava o sol. O padre Fernán de Valdivielso defendia-se à sua maneira, com mantas e braseiras. Como estava muito velho, passava da cama para o cadeirão, e vice- versa, sem mais itinerários do que os indispensáveis para se manter em ordem com a natureza, mas sabendo que num desses passeios lhe chegaria a sua hora e ficaria pelo caminho. O Rei tinha carinho ao velho capitão, e muitas manhãs, em vez de lhe contar os seus pecados, o que fazia era ouvir dos seus lábios o relato de antigas batalhas, quando as tropas do Rei pelejavam com a certeza da vitória. Belos tempos, aqueles! Apesar disso, o padre Fernán de Valdivielso tinha chegado à conclusão de que as guerras eram uma monstruosidade, e de que esventrar huguenotes era uma operação desagradável, por mais abençoada que fosse pela Igreja. Na realidade, o padre Fernán de Valdivielso, se não se tivesse refugiado naquele antro da torre noroeste, teria acabado na fogueira. Quando, naquela tarde escaldante de domingo, o Rei bateu à sua porta, o padre Fernán dormitava, nada incomodado com o calor, que lhe aquecia os ossos. Não ouviu a suave pancada dos nós dos dedos do Rei, de maneira que este abriu a porta e meteu a cabeça esgrouviada, de cujo pescoço pendia um cordãozinho com o Tosão de Ouro. O

frade não se mexeu. O Rei aproximou-se do cadeirão e zocou na mão do frade: este entreabriu os olhos.

- Julguei que tinhas morrido - disse-lhe o Rei, e o frade respondeu-lhe:

- Pode acontecer-me a qualquer momento, ir desta para melhor. Bastará um ruído

um pouco forte, ou um espirro. O Rei aproximou um escabelo e sentou-se. Olhava com ternura para o confessor.

- Falarei baixo.

- Que acontece no palácio, para que venha Vossa Majestade a estas horas?

- No palácio, o mesmo de sempre.

- Então

- Quero-me confessar.

O rosto do padre Fernán manifestou toda a surpresa possível numa cara quase inteiramente imóvel.

- Confessar-se, num domingo à tarde? Não terá feito Vossa Majestade alguma das

suas?

- Em todo o caso, padre, o mesmo de sempre. Passei a noite com uma prostituta.

- Tendo uma mulher tão bonita!

- É como se a não tivesse. Só me deixam vê-la de vez em quando, e dormir com ela

quando há que engravidá-la, porque assim convém ao Estado. E isso não o decido eu, mas sim os que mandam.

- O costume cristão de os esposos dormirem juntos evita muitos males. Os corpos conhecem-se e sabem quando um precisa do outro.

- Mas está malvisto entre certas pessoas.

- E se Vossa Majestade se lembrar de?

- Lembro-me muitas vezes, mas há pelo meio portas e formalidades.

O padre Fernán ergueu os braços, na medida das suas possibilidades.

- Valha-nos Deus!

- É que, além disso

- Existe um além-disso?

- Sim, padre. Eu queria ver a Rainha nua.

- E depois?

- Está proibido por todas as leis, divinas e humanas.

- Das humanas não entendo muito, mas, das divinas que um homem e uma mulher se uniram estavam nus?

- Mas, padre, não foi esse o pecado original?

Já pensaste que a primeira vez

- Isso dizem-no os que não entendem nem desse pecado nem de outros. Comer da

árvore do bem e do mal nunca quis dizer fornicar. Isso, certamente, já o vinham fazendo Adão e Eva com toda a regularidade, desde que se viram juntos pela primeira vez. Tenho a

certeza de que foi a primeira coisa que fizeram. É normal, não? Para isso é que Deus os tinha feito.

- Pois esta manhã, quando tentei entrar nos aposentos da Rainha, interpôs-se-me

uma cruz. E eu, claro

- Que exagero! Que abusadores!

- Mas eu encontro-me à mercê deles.

- A mim não me é dado abrir nem fechar portas, mas se de alguma coisa lhe valem as

minhas palavras, contemple Vossa Majestade a Rainha como lhe der na gana, vestida ou despida. É a Rainha, é certo, mas também é a esposa de um moço jovem

- Receio que a tranquilidade da minha consciência não me sirva de nada. Em primeiro lugar, porque ignoro o que ela pensa. O que é que podem ter-lhe dito? Em segundo lugar, essas portas. O padre Fernán fez um esforço inútil para se erguer um pouco.

- Ponha-se de joelhos, Majestade, que vou absolvê-lo. Só lhe recomendo que, se

fracassar esta noite, espere por outra, e que em caso algum lhe passe pela cabeça tornar a ir

às putas. O Rei baixou o semblante, uma espécie de mancha loura e franzina no meio da penumbra. Depois ajoelhou-se, e o frade deu-lhe a absolvição.

- Feche a porta com cuidado, Majestade. Já lhe disse que um ruído forte pode matar-

me. Ainda que, para viver assim Depois de o Rei ter descido meia dúzia de degraus, apareceu lá em cima, perto das vigas do tecto, uma cabeça rapada e astuta, a cabeça de um homem que desceu rapidamente por outras escadas, por sinal nada seguras; umas escadas que rangiam e oscilavam, embora ambas as coisas discretamente. O espião da cabeça rala desceu-as sem grandes precauções e, quando o Rei chegou ao dédalo dos corredores e começou a orientar-se neles, subiu pela mesma escadinha um arcabuzeiro pachorrento, com a sua espingarda ao ombro, parou diante da porta do padre Fernán de Valdivielso e disparou um tiro para o vigamento do

coruchéu, um disparo de pólvora sem chumbo. Pôs a espingarda fumegante ao ombro e desceu. O estampido percorreu os espaços vazios, atravessou as paredes mais finas e surpreendeu o Rei diante de uma encruzilhada de corredores, hesitante quanto ao caminho que devia tomar. “Já aí está a tormenta! Não apanhará desprevenido o meu confessor?” E

escolheu o corredor da esquerda, que o deixou precisamente diante da entrada dos seus aposentos. Os soldados que a guardavam apresentaram armas.

5.

Entrou um pajem no gabinete do Valido, pela porta secreta, ou talvez apenas das traseiras; tossiu e, quando o Valido voltou a cabeça, fez a reverência.

- Já aí está o frade - disse.

- Quer-me ver?

- Foi o que disse, pelo menos.

- Pois que entre.

O padre Villaescusa tardou a entrar, entravado com vénias e rosários.

- Passa-se alguma coisa, padre?

- Uma desgraça imensa, Excelência. Quando foram levar o jantar ao padre

Valdivielso, que faz tudo no seu aposento, encontraram-no morto.

- De morte natural?

- É o que parece, Excelência. Estava no seu cadeirão, embrulhado numa manta, como sempre. Numa manta, com uma tarde destas! É muito possível que tenha morrido de calor.

Se o Valido percebeu a ironia da resposta do frade, não se deu por achado.

- Façam-lhe o funeral e enterrem-no dígnamente.

- Estamos a tratar disso, Excelência.

- Alguma coisa mais, padre?

- Há que substituir o defunto.

- As formalidades são longas, como o senhor bem sabe. Antes de mais, tem que falar

o Rei.

- É muito possível que o Rei ainda o ignore. Por sinal, entrou há pouco nos seus aposentos.

- Enquanto permanecer neles, temo-lo seguro.

- Dá-me, pois, licença para me retirar?

O Valido levou alguns instantes a responder, parecia absorto, e o frade respeitou o

seu silêncio. Por fim, disse:

- Padre Villaescusa, quer-se sentar?

- A minha humildade, Excelência

- Deixe-se de cortesias. Aí tem o seu cadeirão, ponha-o em frente do meu e ocupe-o.

- Se Vossa Excelência manda! O capuchinho ficou sentado diante do Valido, com a enorme mesa entre os dois.

Ficou sentado, de cabeça baixa, mas olhando de soslaio para o Valido. Este parecia ter voltado ao seu mutismo. Enquanto durava, o capuchinho deitou mão ao rosário e começou a bichanar ave-marias.

- Deixe-se agora de rezas, padre, que não lhe há-de faltar tempo para elas. Tenho que

lhe fazer uma consulta. Na realidade, o senhor conhece os antecedentes. O que lhe quero perguntar é se já pensou sobre o meu caso.

- Não rezo por outra coisa a não ser pela sua solução.

- E o que é que lhe ocorreu?

- Que, visto que a Providência não leva em conta as nossas súplicas, haverá que

forçá-la.

- A Providência?

- Sim.

- Mas isso não é um sacrilégio?

- São-no porventura as penitências, os sacrifícios?

- Não. Nunca ouvi dizer tal coisa.

- O remédio que eu encontrei, aquilo a que acabo de chamar forçar a Providência, é um sacrifício.

- Teria que ser mais explícito, padre.

- Sê-lo-ei, se Vossa Excelência me autorizar a fazer-lhe certas perguntas.

- Essa autorização está implícita na natureza desta entrevista. Consulto-o como teólogo e moralista. O capuchinho abandonou o rosário que ainda permanecia entre os seus dedos e cruzou as mãos à altura do peito. E, por sua vez, entregou-se a um mutismo profissional que fez esperar o Valido, ansioso, até que o padre Villaescusa disse:

- Quando Vossa Excelência chega ao leito de sua esposa e coabita com ela, obtém

algum prazer?

- O mesmo que toda a gente, nem mais nem menos do que toda a gente.

- E ela?

- A julgar pelos sintomas, padre, creio que sim. Ou antes, tenho a certeza que sim e, a

maior parte das vezes, mais ainda do que eu. Nisso, como Vossa Paternidade sabe ou terá

ouvido dizer, as mulheres são um pouco mais exageradas do que os homens. Pelo menos gritam mais.

O capuchinho levou as mãos à cabeça.

- Meu Deus! Meu Deus! É tolerável que os homens gozem do prazer carnal, mas as

mulheres devem ignorá-lo, pelo menos as decentes, digam os moralistas o que disserem,

que não são gente de fiar. E também se terá despido alguma vez, ou não?

- Provavelmente mais do que uma, padre. Se ela mo pede, como hei-de eu recusar-

lho? Quando me casei, informaram-me da minha obrigação de manter a harmonia conjugal,

e também me avisaram que as mulheres são mais fracas, e que temos que as compreender.

O capuchinho fitou-o com dureza, como se todas as cóleras de Jeová se tivessem

concentrado no seu olhar.

- E, nessas condições, espera obter do Senhor a mercê da descendência? Aspira a

conceber esses filhos do pecado a que alude o salmista quando diz: Et in peccato concepit me mater mea?

O Valido devolveu-lhe o olhar, não de ira, de incompreensão.

- Também fui informado, padre, acerca dos lícitos prazeres do casamento.

- Eu não culpo Vossa Excelência, mas sim os que têm a seu cargo a salvação da sua

alma. É jesuíta, o seu confessor?

- Foi-me recomendado pelo Senhor Cardeal Primaz.

- Gente duvidosa, os jesuítas. Querem conquistar o poder do mundo tolerando as

fraquezas humanas. Para os jesuítas, tudo é pecado venial, mesmo no pior dos casos. No relatório que estou a redigir para Vossa Excelência acerca da sessão do Santo Tribunal de que falámos, estendo-me longamente sobre a actuação de um padre jesuíta, um português chamado Almeida, que não sei de onde vem nem para onde vai. Foi o único dos presentes que justificou os devaneios do Rei. Que, por sinal, coincidem de certo modo com o que Vossa Excelência acaba de me confessar.

- É que, padre, o protocolo do palácio não exerce influência sobre a minha vida

privada, não me afecta, e não creio que os meus pecados pessoais alterem o destino dos súbditos destes reinos. O Rei e os seus pecados, são outra coisa.

O capuchinho meditou, enquanto a sua mão direita procurava o crucifixo do seu

rosário e se agarrava a ele.

- Efectivamente, o Rei e os seus pecados são outra coisa, e as leviandades de Vossa

Excelência não afectam o destino da monarquia. Mas, e o seu destino pessoal? Não comunicaram também a Vossência que existe uma moral para o povo e outra para os que o dirigem? O povo precisa de um aliciante para procriar, porque sem isso não teríamos soldados. Mas aos grandes exige-se outro comportamento. Aos grandes, o abuso, até o uso,

dos prazeres da carne, leva-os à decadência. Poderia dar a Vossa Excelência muitos exemplos, até dentro da sua própria família.

- Mas, padre, eu não procurei o prazer fora do casamento. Pelo menos desde que

estou casado.

- Não duvido de que os costumes de Vossência sejam exemplares, mas repare que o

exemplar pode não ser o moral, nem sequer o conveniente. O exemplar é o que se vê de

fora. E o que é que se vê de fora? Que Vossência não tem queridas nem vai para a farra. Isso está bem, mas não basta. É preciso ser-se exemplar, além disso, ante a face do Senhor, que é quem castiga ou premeia. O Senhor não dá filhos a Vossência. Porquê?

- Isso digo eu: porquê?

O capuchinho ergueu no ar, face à luz das velas, o Cristo de metal que a sua mão

direita agarrava.

- Aí o tendes, crucificado por nós. Que faz Vossência, em paga desse sacrifício?

O Valido olhou para o Cristo erguido; a seguir inclinou a cabeça e abanou-a: para a

esquerda e para a direita.

- Nada de especial. Sou um homem como todos os outros.

- Os mortais nunca poderão saber como pensa o Senhor, mas nós, os entendidos,

alguma coisa podemos deduzir da situação. Por isso, Excelência, é que eu disse que há que

forçar o Senhor.

- E eu não o entendi.

- Porventura eu próprio também não. Se é certo que o penso, não o entendo, mas

por alguma razão o disse, e não o disse em vão: vamos forçar o Senhor, mas com a condição de que Vossência, e, sobretudo, vossa esposa, renunciem ao prazer. Com essa condição, atrever-me-ei a fazer uma coisa de que espero o remédio.

- Uma coisa, o quê?

- Se Vossência me permitir, dir-lho-ei amanhã. Até lá, guarde castidade.

6.

O

convento dos franciscanos tinha sido construído em torno de uma azinheira, que

oferecia desde então em redor do seu tronco um banco de madeira para aliviar, ainda que não demasiado, as nádegas dos que ali procurassem abrigar-se do sol. Eram sobretudo os jovens que acorriam àquela sombra, mas, depois do entardecer, ninguém ousava sentar-se ali, nem quase atravessar o claustro, porque corria o rumor de que só depois do pôr do Sol

é que o padre Rivadesella mantinha as suas entrevistas com o Maligno, naquela penumbra:

por sinal, àquele que aqui se designa por o Maligno, jamais o padre Rivadesella chamava assim, mas antes o meu Interlocutor Misterioso, ainda que algumas vezes se permitisse brincadeiras denominativas, embora mentais, aprendidas em criança nas suas Astúrias distantes, tais como chamar-lhe Trasgu. Naquela tarde de Outono por causa da sessão, do Santo Tribunal, o padre tinha-se atrasado e, quando atravessou as areias do jardim, ia receoso de que o Trasgu se tivesse ido embora, impaciente com tanta espera. De qualquer forma, sentou-se na parte mais sombria, e teve tempo de rezar e de pedir ao Senhor a protecção de que a sua alma precisava, e talvez também o seu corpo, para permanecer junto do diabo sem dano de maior. Não era uma oração longa, mas fervorosa; e ainda lhe restou tempo para desesperar e tomar a decisão de esperar um tempo, digamos, de cortesia,

e ir-se embora depois. O seu olhar percorria a escuridão, perfurava-a, à procura de algo em cuja forma ou corpo o Trasgu pudesse ter-se instalado, pois nunca se apresentava sob o mesmo aspecto, embora nunca o tivesse feito servindo-se de objectos desagradáveis ou vis:

um galo que subia ao banco e aninhava a sua crista no hábito do frade; um passarinho que se acolhia à protecção do seu regaço; um cão de bom tamanho que lhe lambia as sandálias. De uma vez, tinha sido o ramo mais comprido da azinheira; de outra, um remoinho de vento, quase corpóreo. Nunca um verme, nem um sapo, nem uma centopeia. O convívio daqueles dois, pelo menos da parte do Trasgu, tinha sido sempre delicado. O padre Rivadesella, em compensação, supondo que o diabo fosse privado de olfacto, não se coibia de se bufar, quando sentia vontade de o fazer. Já se ia embora, o frade, quando lhe pareceu que, à sua esquerda, a escuridão se tornava mais compacta e adquiria uma forma vagamente humana, embora de um homem muito alto e muito magro que se tivesse sentado a seu lado, e cruzado uma perna sobre a

outra. O padre Rivadesella benzeu-se e disse em voz alta: Ave Maria Santíssima, e o Trasgu respondeu-lhe:

- Não sejas imbecil. Se fosse fé, punha-me a tremer; como é superstição, não me incomoda.

- O costume é o costume.

- Às vezes esqueces-te. Era verdade, mas só até certo ponto: o hábito daquelas entrevistas tinha tirado ao padre Rivadesella o medo do inferno e, à cena, todo o dramatismo: falava com o diabo com a mesma tranquilidade com que conversaria com um velho amigo, e as palavras que trocavam tinham mais a ver com a linguagem do braço secular do que outra coisa; de modo que o frade meteu as mãos nos bolsos e coçou as coxas, que lhe picavam de calor.

- Já terás visto o rebuliço que provocaste nas últimas horas.

- Tenho uma ideia, mas não fui eu que o provoquei.

Venho de uma viagem longa e ainda estou cansado e convencido, se o não estivesse já, de que os homens são estúpidos em todas as latitudes.

- Pois a tua presença na corte manifestou-se de diversas maneiras, por assim dizer,

para que as entendessem todas as cabeças. O pároco de São Pedro viu-te a noite passada

flutuando nas alturas, e não te podes queixar, pois pareceste-lhe um formoso mancebo que deixava no ar, ao sulcá-lo, um rasto de prata.

- O pároco de São Pedro é um velho gagá que tem visões. A noite passada, nem

flutuei pelos ares, nem houve pares de bruxos fornicadores nem nada do que esse pobre velho disse ter visto. O que acontece é que, com esse óculo de que desfruta, ao vê-las mais de perto, as nuvens se lhe afiguram monstros de sete cabeças. Posso-te garantir que, a noite passada, o céu da corte esteve livre de demónios.

- E aquela fenda da rua do Pez por onde saíam os enxofres pestilentos do inferno?

- O inferno não está no centro da Terra, como vos dizem, como tu próprio dizes quando pregas, nem tem nenhuma espécie de combustíveis. O inferno é frio. O padre Rivadesella sentiu um calafrio que o deixou calado. Quando pôde, perguntou:

- Então, onde está?

- O inferno não está, é. Tal como o céu.

- Pois não entendo.

Tinha aparecido a Lua, que dividia em dois o ambiente: metade do claustro nas trevas, a outra metade iluminada, e o clarão permitia ao padre Rivadesella enxergar os contornos da sombra que, à sua esquerda, se mantinha com as pernas cruzadas, mas que

mexia as mãos. Talvez tivesse barba pontiaguda, talvez não; talvez tivesse a cabeleira caída sobre os ombros, como qualquer cavalheiro.

- Se eu defendesse essa tese perante um tribunal, mandavam-me para a fogueira.

- Depende. Se o debate se desenrolasse em latim, é possível; mas, em língua romance, as diferenças entre o ser e o estar são muito evidentes.

- Está bem; mas os debates teológicos desenrolam-se em latim.

- Nessa língua também é possível distinguir entre o ser e o estar.

- Mas não tão claramente. O frade remexeu-se no seu assento, como inquieto.

- É esse o tema da nossa reunião de hoje?

- O tema, és tu que o propões.

- Pois o que hoje nos preocupa, a todos nós, teólogos, é a ideia do Rei de ver a

Rainha nua.

- Do meu ponto de vista, a coisa carece de significado. Que importância tem que a

veja nua ou em camisa?

- Mas, a sério que não é pecado?

- Só é pecado o que se faz como pecado, e na consciência do Rei não existe

semelhante intenção. Trata-se de uma simples curiosidade e de um desejo legítimo.

- Legítimo?

- Por que não? A mim, pelo menos, tanto se me dá como se me deu, e suponho que

com o Outro será a mesma coisa. Nessas questões, costumamos estar de acordo.

- Então, que o Rei veja ou não a Rainha nua, não tem influência sobre a chegada da armada a Cádis, ou sobre a derrota das nossas tropas na Flandres?

- A chegada dos barcos a Cádis só depende de que os ingleses vão a tempo de a

impedir, e a derrota das armas espanholas nas Flandres tem bastante a ver com a qualidade do armamento, com a disciplina das tropas e com a posição dos contendores. Dados esses

factores, ganhará o general que melhor os souber usar.

- Então, a oração não tem influência? Em todas as igrejas destes reinos, pede-se pela sorte da monarquia.

- Pois. Sem pensar se aquilo a que vós chamais a sorte da monarquia é justo ou

injusto. O Senhor só ouve as preces que imploram a piedade e a justiça, e vós não sois

justos nem piedosos. Sois apenas católicos.

- E tu não o és?

- Sim, mas à minha maneira. Quero dizer que o sou, mas do lado oposto.

O padre Rivadesella coçou a cabeça, e fê-lo em silêncio, mas na sua mente ia abrindo

caminho, a custo, uma pergunta arriscada. Mais do que uma pergunta, uma corroboração.

- Então, que o Rei veja ou deixe de ver o umbigo da Rainha, é um acto irrelevante.

- Tanto para Deus como para mim, não há reis nem vassalos, apenas homens e

mulheres. Também não há Estados, nem monarquias. Tudo isso fostes vós que o inventastes, e pretendeis enredar-nos nas vossas querelas. Mas, para nós, não há huguenotes nem católicos, nem cristãos nem turcos, apenas homens de boa ou de má

vontade. Os de má vontade são os que me cabem a mim, e já estou farto. O padre Rivadesella benzia-se repetidamente, e quando o Maligno acabou a sua arenga, ia a meio de um sinal da cruz.

- Leste Santo Agostinho? - perguntou ao Diacho, e este respondeu-lhe:

- Esse foi um que me escapou das mãos por puro milagre. Sim, li-o, e embora em

parte tenha razão, em parte não a tem.

- Negas a Providência?

- Entendo-a de outra maneira, que é a correcta, tanto quanto sei, e não te esqueças

que posso ter perdido o favor do Outro, mas que as minhas boas qualidades subsistem. A seguir a Ele, sou o mais inteligente dos seres. Fez-se um grande silêncio, que escureceu mais ainda o recinto do jardim, talvez porque uma nuvem furtiva tivesse tapado a lua. O padre Rivadesella regozijava-se no seu íntimo pelas circunstâncias que lhe permitiam dialogar, tu cá tu lá, com o ser mais

inteligente da Criação, depois de Deus, sem necessidade daquelas peias, asceses e sacrifícios a que se submetiam os que falavam com Deus: colóquios de que não deviam tirar grande coisa, pelo menos de ordem conceptual, a julgar pelo que escreviam depois, que tudo se reduzia a êxtases e arroubos, como se Deus não fosse inteligente, mas apenas amoroso. O coração do padre Rivadesella não era dos que se comoviam facilmente, ao passo que a sua inteligência, a partir de agora, ficaria preocupada com aquele modo de conceber a História que excluía Deus e o Diabo da Grande Batalha. De súbito, disse a Trasgu:

- Tudo o que estás a pensar, pode levar-te a conclusões erróneas. Deixa lá isso, noutro dia continuaremos. Agora tenho que ir a Roma.

- Que negócios te reclamam por lá?

- Tenho a minha inteligência abandonada, e as coisas do meu delegado não vão bem. Quero dar-lhe uma ajuda.

- Mas, não te basta querê-lo, para que tudo se arranje?

O Trasgu levantou-se; a escuridão mais compacta do seu corpo revelava uma figura esbelta e, por pouco que se movesse, garbosa. Fez lembrar qualquer coisa ao padre

Rivadesella, mas, tal como naquela tarde na sala dos conselhos do Santo Tribunal, a única coisa que se apresentou no seu espírito foi a figura de um galo.

- Os milagres menores estão-me vedados. Se quero ajudar alguém tenho que o fazer pelos meios correntes, e não é nada fácil.

7.

Estava tudo em ordem, no palácio e na monarquia: até os cortesãos, reunidos num salão onde tocava música um quinteto napolitano. O Valido deu uma vista de olhos à posição dos seus papéis em cima da mesa: fazia-o todas as noites, antes de sair. para no dia

seguinte saber se alguém tinha mexido neles, e em quais. Os acessos do gabinete ficavam fechados por dentro, e ele saiu por uma portinha cuja chave lhe cabia na escarcela. Na antecâmara dormitavam dois pajens; acordou-os vagamente, ao dizer: “Até amanhã!” À sua passagem pelos corredores houve várias chapeladas, mas os guardas não bateram no chão com as alabardas, porque quem passava não era ainda Grande e, perante o Rei, tinha que arrastar as plumas do chapéu. No entanto, era saudado com respeito e olhado com medo.

Na escada que descia para o vestíbulo, encontrou-se com sua prima, a camareira-mor, que também saía. Perguntou-lhe se tinha coche; ela respondeu-lhe que sim; perguntou-lhe se tinha escolta; ela respondeu-lhe que não.

- Pois vem na minha carruagem, e levar-te-ei a casa. A estas horas, as ruas da corte não são nada seguras. Ela aceitou, o Valido segurou-lhe o estribo, e um dos guardas que ajudavam deu

indicação à carruagem da duquesa para que os seguisse. Da sua, pela janela aberta, o Valido deu as últimas ordens.

- Se chegarem correios da Andaluzia ou da Flandres, que vão a minha casa, seja a que horas for. Fechou a janela e voltou-se para a prima.

- Da mensagem que esses dois trouxerem, depende a sorte da monarquia, e também

a nossa, porque se a armada não chegar a Cádis, nem tu nem eu receberemos os nossos emolumentos. Os cofres do Rei estão vazios.

- Pois gostaria de saber em que é que se gasta o dinheiro, porque os soldos são

baixos, a comida é má, e os vestidos da Rainha, do mais barato que se encontra no mercado.

- Não sabes o que se consome em pagamento de juros! Mais de metade do que chega, levam-no os credores.

- E as guerras?

- Bah! Os nossos soldados vivem do que pilham.

A carruagem, escoltada por quatro arcabuzeiros a cavalo, tinha dado a volta à praça

de armas do Paço e transpunha a porta. Gente em grupos não se dignava olhar para ela:

aqui, uns quantos mariolas jogavam aos dados; mais além, um cego, com a sua guitarra,

cantava sátiras em verso e, quando não eram sátiras, milagres. Noutras rodas de esfomeados, provavelmente murmurava-se, e na indiferença à passagem das carruagens mostravam o seu desprezo. O Valido comentou:

- Ninguém nos ama.

E a duquesa respondeu-lhe:

- Não lhes damos motivos para nos amarem.

- São assim as coisas.

- Pois eles, tal como nós, procuram não ser apanhados.

Ficaram em silêncio. A carruagem dava solavancos pelas ruas mal empedradas. De

candeia deixava cair uma centelha fugaz sobre os

vez

retardatários, frente a frente: o Valido persignava-se; a duquesa não.

em quando, a

luz

de

uma

- E que se passa nos aposentos da Rainha? - perguntou, por fim, o Valido.

- Lá ficou, à espera de um banho morno.

- De um banho, dizes tu?

- Sim. A pobre julga que o marido a visitará esta noite.

- Terás deixado tudo bem preparado.

- No que me toca, sim, e com grande dor de alma. Não é que ame a Rainha com

amor sublime, mas faz-me pena ver a pobre moça composta e sem noivo, por assim dizer.

- As coisas não podem ser de outra maneira.

- O que não consigo compreender é com que direito vos meteis nessas intimidades.

Se os Reis querem dormir juntos, é lá com eles. Se se querem despir, será porque lhes apetece. Eu, se as coisas me correrem de feição, também penso fazê-lo logo à noite.

- És uma viúva decente. Vê lá se te metes em maus lençóis; se se sabe, podes perder o teu posto.

- Também sou uma viúva jovem, e estas noites escaldantes não convidam à solidão.

As frias de Inverno também não, é certo. No Inverno, o corpo pede o calor de um

companheiro.

- E também te banhas?

- Também.

- Não tens medo que te denunciem?

- A açafata que me ajuda também se banha, e também não dorme sozinha. Quanto às

minhas criadas e criados, os que não são mouriscos ou judaizantes são da seita iluminada,

de modo que se calarão por interesse próprio.

- A isso chama-se rodear-se de precauções.

- Não resta outro remédio senão fazê-lo. Tu dizes que as ruas da corte não são seguras. Mas haverá alguma coisa segura na corte? Tu, de quem se diz que serás o homem mais poderoso da monarquia, estás seguro? Nem sequer o Rei o está! Lá fora soou um “ôôô!”, autoritário e prolongado, e a carruagem deteve-se. Os

quatro arcabuzeiros flanquearam-na, junto às janelas. O Valido deitou a cabeça de fora.

- Passa-se alguma coisa?

- Uma procissão, Excelência.

Tinham chegado a um cruzamento e, pela rua transversal, passavam duas filas de frades com archotes e, no meio, penitentes com troncos, com correntes nos pés, com

disciplinas que lhes marcavam as costas de sangue. Rezavam a meia-voz e, de tantas em tantas ave-marias, queixas, gritos de dor, exclamações:

- Tem piedade de nós, Senhor! Afasta de nós essa serpente maligna! Não castigues o

teu povo inocente! Fechava a dupla fila o padre Villaescusa, de sobrepeliz e barrete, com uma cruz negra erguida e apoiada na cintura. Demoraram um bocado a passar. Depois a carruagem do Valido seguiu o seu caminho, até à residência da duquesa.

8.

O Rei atreveu-se a dar uma olhadela ao espelho, de soslaio, e, apesar do medo que o fazia tremer, medo ou porventura desejo, aprovou, pelo menos em primeira instância, a imagem que o espelho lhe devolvia. Então olhou-se, de frente e com franqueza: tinha vestido um fato branco, sem outros adornos além dos bordados do tecido, e conseguira dominar, à força de água e pente, o cabelo rebelde e claro que, assim acachapado, rematava bem a sua figura. Tinha pendurada ao pescoço uma miniatura do Tosão, e esteve quase para a tirar também, mas, como pensava dar uma volta pelo salão, onde àquela hora ainda restavam alguns cortesãos, preferiu deixá-la, ainda que mais tarde a guardasse na escarcela. Sorriu para si próprio, e saiu. Quando chegou ao corredor mais largo, ouviu a música que vinha do lado do salão, e para lá se dirigiu. Não abriu a porta de roldão, nem permitiu que o anunciassem; começou por entreabri-la, e pôde ver as pessoas dançando e, ao fundo, em cima do estrado, uma trupe de músicos e cantores. Pareceu-lhe um bom presságio, entrou e deslizou colado a uma das paredes, sem que ninguém o tivesse descoberto, ou, pelo menos, sem que ninguém desse mostras de o ter visto entrar. Abrigou-se no vão de uma janela, quase tapado pelas cortinas, mas havia alguém ali, ou encoberto, ou escondido. Quem ali estava descobriu-se, e fez-lhe uma chapelada. O Rei reconheceu-o de imediato.

- Esta manhã, conde, mandei-vos cobrir.

- Mas Vós, Majestade, estais agora descoberto, e não me parece cortês

- Obrigado, conde. O que é que se passa?

- A menina de Távora dança sozinha no meio daquela roda, e fá-lo tão bem que a observam e lhe marcam o ritmo com as palmas.

- É bela, além disso.

- Sim, Majestade, muito bela e frívola, segundo dizem.

- Há tantos boatos na corte.

- Alguns com fundamento.

- E não vos tenta, dançar? Ou será que a vida do mar não vos deu azo a aprendê-lo?

- Se Vossa Majestade consentir, gostaria de fazer frente àquela portuguesa.

- Só no caso de poder vê-lo daqui, sem cerimónias.

- Prometo a Vossa Majestade a maior discrição.

O conde da Peña Andrada fez uma vénia e saiu do esconderijo. Ninguém deu pela

sua chegada, até que furou a roda dos cortesãos e se postou diante da de Távora. Fez uma vénia e atirou o chapéu ao ar; mas o chapéu, como um bumerangue, voou pelo salão e voltou para a cabeça de onde tinha saído. Os cortesãos, unânimes, disseram Oh! e a dama portuguesa deteve-se na sua dança.

- Permitis-me que dance convosco?

- Se fordes capaz

Os músicos tinham suspendido a tocata, mas a um sinal do conde, reataram-na. A roda alargou-se.

A iniciativa pertencia à menina de Távora, mas o conde seguia-a sem um erro; até

que foi ele quem tomou a dianteira e a menina de Távora seguia-o, ágil, esbelta, descarada, porquanto às vezes levantava as saias e deixava a descoberto a formosura das suas pernas, envoltas em meias roxas. O Rei, do seu esconderijo, não perdia pitada, e gozava com a agilidade e destreza dos dançarinos e com as figuras e passos até então nunca vistos na corte, a que se entregavam. Até que alguém lhe bichanou: Colette, a açafata da Rainha, estava ao pé dele. Não lhe fez vénia, nem nenhuma espécie de saudação. Limitou-se a aproximar-se até poder colar a boca à sua orelha (o Rei tinha-se inclinado), e dizer-lhe:

- Logo à noite, senhor, às onze em ponto. Não se atrase, Majestade.

E escapuliu-se, a açafata, até se perder na escuridão de uma porta grande. Os

bailarinos continuavam o seu louco jogo de idas e voltas, de toma lá dá cá, de oferta e de fuga, de sedução e entrega; até que a mademoiselle não pôde mais e se deixou cair, embora tendo o cuidado de manter a compostura, pois não se lhe viu nada que não pudesse ser

visto. A roda dos cortesãos aplaudiu, o conde da Peña Andrada ajudou-a a levantar-se e, na operação de a ajudar, ela sussurrou-lhe ao ouvido que o esperava naquela noite para uma dança mais íntima.

- Por volta das onze, mais ou menos.

Quando se pôs de pé, a menina de Távora fez uma vénia ao público, tornaram a aplaudi-la. Mas naquele momento o Rei tinha saído do seu esconderijo e aproximava-se do círculo dos cortesãos. Inclinaram-se todos, mas o Rei foi direito a Dona Francisca e disse- lhe, enquanto ela se inclinava:

- Dançais maravilhosamente, menina.

E ela respondeu-lhe:

- Pois o meu par também não dançou mal. - E, dirigindo-se ao conde, perguntou-lhe:

- Onde é que haveis aprendido?

- Em todas as ilhas perdidas desses mares onde os homens e as mulheres dançam, mas muito especialmente no Norte de Portugal. Uma lágrima de saudade toldou os olhos de Dona Francisca.

- Devia ter imaginado. Só ali se bailam esses passos e essas figuras.

- Um pouco mais acima, menina, também.

- Acaso sois de lá?

- Não mo notais no acento?

- Só tinha notado que cantais ao falar.

O Rei perguntou: Que horas são? E responderam-lhe que pouco passava das dez. Siga a dança!, ordenou, mas o conde da Peña Andrada afastou-se dos dançarinos e ficou ao

lado do monarca.

- Estás cansado?

lenta, cerimoniosa e

aborrecidíssima pavana, em que Dona Francisca não tomou parte: escapuliu-se para o interior do palácio.

O conde da Peña Andrada foi empurrando suavemente o Rei, até o afastar. Mantinha

o chapéu na mão, e começou a descrever as danças de mulheres nuas que tinha presenciado nas ilhas dos mares do Sul, e o que delas tinha aprendido.

Por

respeito

pela

presença

do

Rei,

iniciou-se

uma

- E essas mulheres andam nuas todo o dia?

- Sim, Majestade. A suavidade do clima permite-o.

O conde pensou que, naquele momento, o Rei lamentava não o ser de uma daquelas

ilhas. Para lhe poupar tristezas, mudou de conversa.

9.

- E o Rei, o que é que te disse?

- De boca, nada, mas iluminou-se-lhe o rosto como se se lhe tivesse acendido dentro uma luz. Também endireitou o corpo, que parecia um pouco decaído. Foi como se o recado fizesse dele outro homem.

- Não dançava com os outros?

- Observava-os de um canto, e não parecia muito divertido.

- Então, achas que virá?

- Tenho a certeza absoluta.

Em cima da cama da Rainha, com capacidade para quatro, onde a loura, frágil inquilina ocupava apenas um cantinho, estavam estendidas meia dúzia de camisas de noite, diferentes no corte, na matéria do tecido, na intenção moral. A mais aparatosa delas, pesada de textura e com muito realce de bordados, rígida a ponto de se aguentar de pé sem necessidade de suporte, mostrava, a certa altura, um orifício debruado, e por cima, uma cruz encarnada, e esta legenda em letras escuras: Vade retro, Satanás., A Rainha apontou para ela.

- Achas que vista esta? Todos os confessores a aconselham, e sei de algumas das

minhas damas que as usam parecidas. - Com essa rigidez, senhora, será um embaraço tirá-la. Além disso, essa legenda afugenta o mais afoito.

- Qual delas me aconselharias tu?

A açafata apontou para uma de seda suave e quase transparente, pouco folgada de

largura e curta, que daria à Rainha pelo meio da coxa.

- Esta, sem dúvida.

A Rainha tapou os olhos com as mãos.

- Mas, se quase não tapa nada!

- Senhora, se bem entendi, trata-se de acabar por mostrar tudo.

- Sim, mas só no fim. Primeiro penso fazer uma ou duas cenas ao Rei. Pelo menos uma, não lhe escapa: ontem saiu do palácio e dormiu com uma marafona.

- Vossa mãe, minha senhora a Rainha de França, tinha provas fidedignas de que o

Rei, vosso pai e meu senhor, a enganava com todas as mulheres que encontrava pelo caminho e, todavia, jamais lho recriminou. Vossa mãe, a Rainha minha senhora, pode ser

um bom exemplo neste caso.

- É que também não posso tirar a camisa de noite assim sem mais nem menos, só

porque ele mo peça. Terá que brigar um pouco.

- Nesse caso, minha senhora, estou de acordo, com a condição de que todos os nãos que Vossa Majestade pronuncie valham por outros tantos sins.

- Em espanhol ou em francês?

- Eu alterná-los-ia.

A Rainha pegou na camisa de noite escolhida por Colette: cabia-lhe numa mão

fechada, de tão fina; e, quando a abriu no ar, via-se Colette através do tecido.

-

Se vestir isto - disse a Rainha -, receio bem que o Rei não tenha necessidade de me

despir.

-

Esse facto, Majestade, é um símbolo, e os símbolos também se destroem.

A Rainha começou a recolher as outras camisas de noite e entregou-as a Colette.

- Guarda isto. Como estará o banho?

- Não muito quente, tenho a impressão.

- A noite pede algo de fresco para o corpo. Estão bem fechadas, as portas?

- Não se preocupe, Majestade: sei de muitas e boas damas do palácio que também se banham, e que, além disso, se perfumam. Assim agradam mais aos homens.

- Também eles poderiam lavar-se um pouco e cheirar melhor.

A açafata abriu uma portinha e precedeu a Rainha, com o candelabro ao alto. Havia,

no meio da sala, uma selha vagamente antropomorfa, cheia de água. A açafata examinava a Rainha com atenção, sem largar o candelabro.

- Não olhas demasiado, Colette?

- Ninguém diria que Vossa Majestade teve um filho.

A Rainha, sem lhe responder, meteu-se na água: cuidadosamente, primeiro isto,

depois aquilo, a seguir até à cintura, finalmente até ao pescoço. Colette deixou a luz em

cima de um arcaz.

- Vou buscar a toalha.

E saiu sem ruído.

10.

Com um óculo como aquele, trazido de presente por algum almirante vencido, via-se claramente, da janela do salão, o mostrador do relógio da torre de São Pedro, àquela hora iluminado pela lua. O Rei esperou que faltassem só cinco minutos, deixou o óculo em qualquer sítio e saiu para a antecâmara, onde os guardas tinham adormecido; passou em bicos de pés, fechou com cuidado e, já no seu quarto, empurrou o puxador que abria a porta daquele corredor, que comunicava com os aposentos da Rainha; o puxador obedeceu, mas não a porta, certamente fechada à chave. Fez, no entanto, mais duas ou três

tentativas inúteis, e só à terceira arrepiou caminho, mas saindo para um corredor cheio de sombras, que percorreu quase até ao fim. Ali, a porta cedeu: era a mesma que, naquela manhã, o padre Villaescusa tinha atravessado com a cruz. Entrou numa antecâmara na penumbra e, ao fechar a porta atrás de si, ouviu como um rumor de preces. Abriu outra porta, e encontrou-se numa sala iluminada pelos quatro círios que marcavam as quatro esquinas de um ataúde pousado no chão, sobre um tapete negro. Ao fundo, um grupo de frades rezava a meia voz, com os capelos postos. Os círios iluminavam suficientemente o caixão, de modo que o Rei pôde ver o rosto do seu confessor, vestido com o seu hábito, as mãos cruzadas sobre o peito, e, entre elas, uma cruzinha de madeira lisa. O Rei, depois de uma hesitação, ajoelhou-se, contemplou o morto, tapou os olhos com as mãos e rezou um pai-nosso perturbado por imagens lascivas, metade recordações, metade esperanças. Pensou que estava a pecar, mas reflectiu que imaginar a sua mulher nua não era pecado.

Levantou-se, benzeu-se e dirigiu-se para a porta do fundo; mas os frades tinham-se juntado diante dela num grupo compacto e continuavam a rezar, imóveis; deu várias voltas, à procura de um espaço por onde penetrar, e acabou por dizer: “Deixai-me passar, sou o Rei.” Mas eles não se mexeram, nem lhe responderam, nem deixaram de rezar. Tentou abrir caminho, mas pareciam de pedra, não só imóveis, pesados. Ficou, com a sua cara pasmada, no espaço vazio entre o caixão e os frades rezadores, sem saber que fazer. O pouco latim que sabia permitia-lhe reconhecer, nas rezas, os salmos penitenciais, embora sem a ladainha, e sentiu vontade de se juntar a eles e de rezar também. Mas pareceu-lhe que o olhar do defunto trespassava as pálpebras e o fitava como o fizera naquela tarde, quando lhe disse que não era pecado ver a sua mulher nua, e que, em vez de terem os leitos e os aposentos separados, deviam dormir na mesma cama, como as pessoas simples, para que os corpos se conhecessem e se acostumassem um ao outro: assim o mandava a lei de Deus. Genuflectiu diante do caixão e saiu daquela sala por onde tinha entrado; atravessou a antecâmara na penumbra e encontrou-se pela segunda vez no imenso corredor. Havia muitas portas: foi-as experimentando uma a uma, mas estavam todas fechadas. E teve a sensação de que o mundo estava fechado para ele, de que o tinham rodeado de solidão e de silêncio, e de que os aposentos e o corpo da Rainha eram inacessíveis. Desatou a chorar.

- Chorando não se vai a lado nenhum, senhor - disse, junto ao seu ouvido, uma voz ténue: reconheceu o conde da Peña Andrada.

- Que fazeis aqui?

- Vou a um encontro, como Vós.

- As portas estão todas fechadas.

- A minha não, Majestade.

- E por que gozas tu desse privilégio?

- Não sou o único, senhor. Por trás de cada porta fechada há uma cama e um par.

Alguns são legais. A maior parte, não. O que me espera, obviamente, não o é.

- Deve ser essa doidivanas de Dona Paca de Távora (Paca é diminutivo de Francisca. (N.

do T.).

O conde respondeu-lhe com uma ligeira inclinação de cabeça.

- É mui formosa, Majestade.

- A Rainha não nutre simpatia por ela.

- É natural, senhor. Uma refinada francesa e uma exuberante portuguesa não estão

destinadas a entender-se. É como se Vossa Majestade comparasse Camões com Ronsard.

- De Camões li muitos versos, mas a esse outro nunca o ouvi nomear.

- Certamente, senhor, Sua Majestade a Rainha sabê-lo-á de cor.

O Rei ficou pensativo.

- Sabes que a Rainha deve estar à minha espera?

- Calculo.

- Sabes que me fecharam todas as portas que conduzem aos seus aposentos?

- Se assim não fosse, Majestade, não vos teria encontrado a chorar nesta solidão.

- E que te parece? Encontravam-se ao fundo do corredor, ao pé de uma janela fechada. O conde abriu as portadas, e entrou uma difusa claridade lunar.

- Se abrirmos as vidraças, ouviremos bater o coração da cidade adormecida.

- Abre-as.

As vidraças ficaram escancaradas e, à vista, uma parte da corte, adormecida e banhada pela lua. Estava tudo em silêncio.

- Não oiço esse bater de que falas, conde.

- Há que levantar o silêncio como se levanta um cobertor. Então chegará até nós um

bulício distante feito de mil ruídos diferentes, desde o grito daquele que assassinam na escuridão uns rufiões a soldo, até ao gemido de prazer de uma rapariga que acaba de descobrir o amor, porque o seu marido foi de viagem e ela decidiu, por fim, receber como amante o homem que a cortejava. Sabe Vossa Majestade que esse homem lhe pedirá que se dispa? Mas também há maridos que expulsam as suas mulheres da cama por pretenderem despir-se. Os homens e as mulheres desta corte não pensam hoje noutra coisa, porque se disse que o Rei, Nosso Senhor, queria ver a Rainha nua. Disse-se em todos os círculos, em todas as esquinas, em todos os locutórios. Não se disse, mas aludiu-se, nos púlpitos, e

andam pela cidade procissões de penitentes a pedir que não os atinja a vingança do Senhor pelos pecados do Rei. Uma mão fina e branca interrompeu-o.

o meu confessor morreu

esta mesma tarde. Não achas suspeito?

- A vida do padre Valdivielso estava por um fio, e um disparo de pólvora sem bala

quebrou-lho. Muita gente julgou que se tratava de um trovão, eu entre outros, mas lembrei- me de bisbilhotar, e conheço muito bem o cheiro da pólvora.

- O meu confessor disse-me que não era pecado. Por sinal

- Que pensas de tudo isto?

- O Inquisidor-mor nomeou esta tarde nada menos do que quatro comissões para

que decidam sobre o caso. Porque aquilo que para Vossa Majestade é simples e legal, a eles afigura-se-lhes, sobretudo, questão de Estado. Eles vêem o diabo por toda a parte, salvo

alguns que não acreditam nele, mas que se vêem obrigados a fingir que acreditam porque, senão, queimam-nos. O Rei tornou a ficar silencioso. Ouvia-se a si próprio, mas via-se que aquela operação tinha algo a ver com o cobertor, porque disse:

- Agora, efectivamente, ouço um leve rumor

- Deixemos isso, por agora. Se Vossa Majestade quer saber o que acontece de noite

na cidade, peça um relatório ao senhor Valido, que está bem informado. Ele sabe que há gente que mata por dinheiro, e sabe que, em baiucas profundas como masmorras, há putas velhas que dançam nuas em cima das mesas. Sabe quem rouba à mão armada, e quem desfalca os cofres do Estado. Também não ignora em que conventos de freiras se ama a Deus, e em quais se amam os cortejadores de grades. Escapam-lhe, naturalmente, as violações, os adultérios, as virgens vendidas a velhos ricos e lúbricos, e todas as sujidades, e todas as vinganças, e todas as adulterações da verdade. Mas nada disso importa. O que o preocupa é que os pecados de Vossa Majestade impedem a chegada da armada a Cádis e a vitória das nossas armas na Flandres.

- Mas que têm os meus pecados a ver com isso?

- É precisamente isso que hão-de deslindar as quatro comissões de teólogos de que acabo de vos falar.

- E tu, estás de acordo?

- Com o Valido? Deus me livre! Com a Inquisição? Vossa Majestade bem o sabe, por

Deus!

Pareceu-lhes que uma ratazana grande se remexia nas sombras de um canto escuro. O conde fez o gesto de puxar da espada, mas o Rei deteve-o.

- Há muitas no palácio.

- Destas, não tantas como Vossa Majestade julga.

Aproximou-se do recanto, deu um pontapé no escuro, e a ratazana, grande como um

ursinho, fugiu a correr.

O Rei ficou outra vez em silêncio.

- Não me parece que isso seja possível.

- Prometo-o pela minha honra, com a condição de que a Rainha esteja avisada e não

se oponha. Amanhã, logo de manhãzinha, Colette, a sua açafata, virá certamente pedir a Vossa Majestade que justifique a sua ausência de hoje à noite.

- Já terão percebido que estão fechadas.

- Mesmo assim, Majestade

A Rainha deve ser prevenida logo de manhãzinha. Sei lá

a que horas poderei preparar o encontro. Só tenho uma ideia

- Vais amadurecê-la nos braços de Dona Paca?

- Quem sabe, Majestade? As soluções costumam vir pelos caminhos mais

inesperados.

- Não gostaria que a portuguesa soubesse que me encontraste a chorar.

- Não o saberá, prometo-o. Mas, como toda a gente na corte, a estas horas não ignora que o Rei não pôde chegar aos aposentos da Rainha. Isso já se sabia de antemão

quando dançávamos no salão.

- Todos cúmplices, portanto?

- De certo modo, é verdade.

Abriu-se uma porta do corredor e apareceu a figura branca de uma mulher, com um candelabro ao alto, que olhava para um lado e para o outro.

- Dona Paca inquieta-se, Majestade. Tenho que me ir embora.

- Que tenhas sorte.

O conde fez mais uma vénia.

- Amanhã espere-me, Majestade. Não saia do paço por motivo nenhum.

Mergulhou nas sombras, em direcção à porta onde a mulher de branco começava a retirar-se. O Rei ouviu qualquer coisa como: “Espera por mim, estou aqui.” A porta fechou-se. O Rei pôs-se à janela, a ouvir a noite, e a sombra da ratazana como um ursinho

deslizou ao longo do corredor, colada à parede, sem fazer barulho.

A mesa a que jantavam o Valido e Dona Bárbara era de madeiras finas, trazidas das

Índias e trabalhadas por bons carpinteiros. Alongava-se, naquela sala comprida, e eram precisos quatro candelabros para a iluminar medianamente; nos dias de visitas colocavam- se oito. E uma imensa toalha de linho, trazida clandestinamente da Irlanda por católicos fugidos, cobria-a e pendia dos lados. Das vinte cadeiras, só duas, postas às cabeceiras, estavam ocupadas: decorados os seus respectivos espaldares com as armas de

secundogénito do Valido, e com as armas de infançoa de sua esposa. Outros sinais de nobreza multiplicavam-se pelas paredes, em reposteiros e outras tapeçarias. Os quatro criados de serviço, dois atrás dela, dois atrás dele, usavam as librés do dono da casa, bem conhecidas na corte, embora há pouco tempo. A distância, as luzes interpostas, impediam- nos de dialogar, mas não de trocar olhares, de ardor os dela, de forçada frieza os dele. Quando dobraram os guardanapos, ela levantou-se, percorreu o caminho que a separava do marido, deu-lhe um beijo na face e sussurrou:

- Não demores.

E ele respondeu-lhe:

- Não me esperes. Tenho muito trabalho. Será melhor que rezes.

Entristecida, ela retirou-se, disposta a rezar até adormecer, disposta a rezar boa parte da noite. O Valido levantou-se, depois de ela ter desaparecido, e saiu pela porta oposta,

precedido de dois criados com luzes. Abriu a porta do seu gabinete e mandou-os entrar. Depois de terem iluminado a sala, mandou-os embora com esta advertência:

- Espero notícias. Seja quem for que chegue, acordem-me, se me tiver deitado.

Em cima de uma mesa enorme, tinha desdobrado dois mapas. Um, da costa de Cádis: abarcava mais ou menos desde o sul de Lisboa até ao estreito; o outro, da Flandres. Havia em ambos círculos e sinais vermelhos e pretos, indicando onde estavam as esquadras, onde estavam os exércitos. Diante do mapa marítimo, o Valido, com um compasso, calculou as milhas de oceano que separavam de Cádis a frota que tinha partido das Canárias e a inglesa avistada dias antes por altura de Cascais. Eram distâncias iguais.

Razoavelmente, tinham que se encontrar. Mas, diante do mapa da Flandres, o Valido sentia-se mais azelha, porque não percebia de tácticas nem de estratégias terrestres, e o compasso que tinha nas mãos não lhe esclarecia nada. Pontos vermelhos, pontos pretos, mais pontos vermelhos do que pretos. Já se tinha esquecido, ou pelo menos hesitava, na sua confusão, de quem eram uns e de quem eram os outros. Deveria ter trazido consigo alguns daqueles militares reformados, coxos ou mancos, que havia meses que esperavam para serem recebidos a fim de que lhes reconhecessem os seus serviços, de marechal

alguns, de meros capitães a maioria. Mas nunca pensara que lhe pudessem servir para alguma coisa. Tentou recuperar as imagens da esquadra, desbaratada; do ouro afundado no mar, das praças tomadas de assalto, dos soldados famélicos e fugidos; tentou retê-las na mente, com a ajuda daqueles mapas estendidos sobre a mesa, mas foram rapidamente eliminadas pelas da esposa esperando-o na cama, talvez gemendo, talvez nua para o atrair mais, e,

apesar de se benzer para as expulsar, as imagens persistiam, moviam-se, ouvia-as. Procurou remédio num livro piedoso, mas não via as letras, apenas as imagens que se sobrepunham, insistentes, sedutoras. Passou-lhe pela cabeça, como remédio, mortificar-se, e levantou-se para ir buscar uma corda com que pudesse açoitar as costas, ainda que fosse vestido, mas foi nesse momento que bateram à porta. As imagens desapareceram de repente. Disse Adiante, e entrou um criado.

- Está ali um frade, senhor. E, como o senhor disse que se recebesse qualquer visita

- Um frade, a estas horas?

- Sim, excelência. O padre Villaescusa, um capuchinho.

- Trá-lo cá imediatamente.

Sentiu-se, de repente, tranquilo, certo de que, com o padre Villaescusa diante de si, o seu espírito ficaria limpo de desejos impuros. Ouviu as sandálias do frade pisando

suavemente as lajes da antecâmara, e a sua figura apareceu à porta: humilde, as mãos enfiadas nas mangas, a cabeça descoberta.

- Excelência!

Mandou-o sentar-se, e o frade fê-lo com relutância.

Perguntou-lhe se desejava beber alguma coisa, e o frade disse que não.

- A que se deve, a estas horas, a sua visita?

O frade tinha mantido a cabeça inclinada, como enterrada no peito. Levantou-a imediatamente, como um galo que se encrista.

- Todo o nosso plano, Excelência, vai por água abaixo.

- Será que o Rei encontrou uma porta aberta?

- Não, Excelência. O Rei divaga pelos corredores do palácio, à espera de um milagre

do demónio. Mas o milagre vai-lhe chegar por outro lado. Aquele infernal conde da Peña

Andrada prometeu arranjar-lhe um encontro com a Rainha fora do palácio. Amanhã, precisamente amanhã.

- Por que lhe haveis chamado infernal?

- Porque é, sem dúvida, um instrumento do diabo.

- Do diabo defende-se o crente com orações.

- Sim, Excelência; mas o ditado di-lo bem claro: A Deus rogando e com o maço

dando. (O contexto não permite, ou não aconselha a transposição do ditado espanhol para o rifoneiro português, mas o seu sentido é equivalente ao dos nossos «Deus dá as nozes, mas não as parte, ou Deus dá

o pão, mas não amassa a farinha». (N. do T.)

- Não duvido, padre, de que o ditado tenha razão, sobretudo quando vós o invocais. Mas qual é o maço e onde há que bater?

- O conde da Peña Andrada folga neste momento com uma dama do palácio. Seria

fácil apanhá-lo com uma ordem de prisão. É o que venho rogar-lhe.

- Sabeis que o Rei, ainda não há muitas horas, mandou cobrir o conde?

- Sabe-o toda a gente, Excelência. É a paga das suas alcovitices. De resto, o Rei não

precisa de o saber. Conheço os sítios da alcáçova onde o conde pode ficar discretamente preso, e eu próprio me encarregaria de o levar.

- E depois?

- Quando a Santa Inquisição tiver tomado as suas decisões, tomaria conta dele.

Discretamente também. Há gente nas masmorras da praça de São Domingos cuja família já

deu por morta, e dizem-lhes missas. - Disso não sei eu nada.

O Valido aproximou-se de uma escrivaninha, escreveu qualquer coisa num papel,

esperou que secasse e entregou-o, sem dobrar, ao frade. - Parece-lhe bem assim?

O frade leu em voz alta:

- Pelo melhor serviço da monarquia, e ordem de Sua Majestade, o Rei Nosso Senhor,

disponho que Sua Excelência o conde da Peña Andrada seja detido e encarcerado, no maior segredo, até nova ordem. - O frade ergueu a vista. - Por ordem de Sua Majestade o

Rei?

- É a fórmula.

O frade dobrou o papel e guardou-o.

- Agora, Excelência, restam duas coisas. É certo que uma delas pode esperar até

amanhã; a outra, não. A outra ter-me-ia obrigado a vir aqui a estas desoras, mesmo correndo o risco de incomodar Vossa Excelência.

- Qual é a que pode esperar?

- Este relatório, senhor. A relação fiel do que aconteceu esta tarde no Supremo da Santa Inquisição. Puxou de um rolo de papéis e estendeu-o ao Valido. Este depositou-o em cima da mesa, sem olhar para ele.

- Que espere, pois, até amanhã. E a outra questão?

- Amanhã, às dez da manhã, deve estar Vossa Excelência, acompanhado de sua

senhora, na igreja do mosteiro de São Plácido. Eu estarei lá para vos confessar. O que

acontecer depois, melhor dito, o que há que fazer, ser-vos-á indicado a seu tempo.

- Porquê São Plácido?

- Porque Vossa Excelência é patrono do mosteiro e porque a madre abadessa, por algumas razões que eu cá sei, se prestará a ajudar-nos.

O Valido pensou na vergonha que passaria a sua mulher tendo que confessar as suas

fraquezas conjugais àquele frade implacável.

- É indispensável tudo isso, padre?

- Disse-vos esta manhã, Excelência, que havia que forçar a Deus. E estou certo de que o próprio Deus me inspirou o remédio.

- Se assim o asseverais, padre

O frade levantou-se.

- Às dez em ponto, na igreja da Rua de São Roque.

E não por passadiços secretos, que sei que existem, mas sim à luz do dia, na vossa

carruagem. Sem vos ocultardes, mas sem dar explicações a ninguém, nem sequer à vossa esposa.

O frade fez como se fosse retirar-se, mas o Valido deteve-o.

- Esperai, padre. As ruas da cidade são perigosas. A minha carruagem levar-vos-á ao

palácio, com uma escolta.

O frade inclinou-se e agradeceu.

A praça da alcáçova estava às escuras. A carruagem e os quatro arcabuzeiros entraram como sombras naquele reino de sombras. Quando chegaram diante da porta

principal, abriu-se um postigo.

O capuchinho meteu a cabeça pela janela.

- Mensagem de Sua Excelência o Valido para o chefe da guarda.

Alguém veio segurar-lhe o estribo, e o frade desceu do coche; o cocheiro perguntou- lhe se deveria esperá-lo.

- Não. Pernoitarei no palácio.

O postigo tinha-se iluminado, e apareceu nele o oficial, apertando as calças. O padre

Villaescusa, sem lhe dar as boas-noites, entregou-lhe o papel. O oficial pediu luz para o ler, e levaram-lhe um archote. Entretanto, a carruagem e os arcabuzeiros afastavam-se.

- Onde é que se há-de procurar este cavalheiro?

- Está no Paço, e eu guiar-vos-ei até ele. Acompanhai-me com meia dúzia de soldados.

- Tantos, reverendo padre?

- Não sabeis de que espécie de demónio se trata. Se fossem oito, iríamos mais seguros. Oito soldados com arcabuzes.

- Disso não tenho, padre. Só com alabardas.

- Pois venham as alabardas, mas que as levem braços robustos.

- Todos os da guarda o são.

E deu uma ordem, o oficial, pedindo um piquete de oito alabardeiros. Em duas filas

de quatro, o oficial e o frade no meio, iniciaram a subida da grande escadaria.

12.

Bateram na grossa porta com instrumentos contundentes, e uma voz que fingia aspereza gritou:

- Abram, em nome do rei!

O conde da Peña Andrada ergueu-se rapidamente.

- É a mim que procuram.

- Como é que sabes? - perguntou-lhe, também soerguida, asmamas ao léu, Dona Paca. E ele respondeu-lhe:

- A justiça do Rei não tem nada contra ti.

- Mas tu és amigo dele.

- Sim, mas, do Rei para baixo, não tenho protectores. Ainda que o Rei exiba a justiça, os que a exercem agem como se ignorassem os seus desejos.

- Vais deixar-te prender?

- Espero que haja uma escapatória. Para já, levanta-te, que eu farei o mesmo. Saltaram da cama, cada um por seu lado, e o conde começou a vestir-se rapidamente, enquanto ela lhe perguntava o que é que devia fazer.

- Veste esse roupão branco e pega no candelabro maior que haja nos teus aposentos. Recebe-os com ele ao alto, quando eu tiver aberto a porta. Lá fora repetiam-se as pancadas e as ordens.

- Diz-lhes que esperem.

- Estou a vestir-me, senhores. Tende paciência.

O conde encontrava-se já inteiramente vestido.

- Quando eu tiver corrido os ferrolhos, manda-os entrar. Assim o fez. Os ferrolhos, bem oleados, não rangeram.

- Entrai.

A porta abriu-se e tapou o conde. Apareceram o frade e o oficial, na penumbra do corredor; ficavam de fora os soldados, com as suas alabardas. O oficial disse:

- Trago uma ordem de detenção contra o conde da Peña Andrada.

- E por que vindes procurá-lo aqui? Não conheço esse cavalheiro, nem costumo

receber ninguém a estas horas. Adiantou-se, ousado, o frade.

- Temos a certeza de que se esconde aqui.

- Pois procurai-o. - E, como o frade estendesse a mão para a afastar, Dona Paca

acrescentou: - Mas sem me tocardes num cabelo. Àquele que me tocar, queimo-lhe os

olhos. - O seu olhar deteve o frade.

- Permiti-me que entre.

- Tendes a porta franca.

Entraram também os soldados, e Dona Paca, qual estátua muda da ira, voltou-se de costas para a porta, como alumiando-lhes o caminho. Dois soldados, no entanto, tinham ficado de guarda, enquanto os outros, bem como o oficial e o frade, vasculhavam tudo à

procura do conde ou de sinais dele. Não encontraram nada.

- Tereis que nos acompanhar, senhora, para prestar declarações - ousou dizer o frade.

- Também tendes uma ordem contra mim?

- Não, mas uma coisa deduz-se da outra.

- Sou dama de honor da Rainha e membro da Casa de Távora. Ninguém me pode

deter, apenas expulsar-me do país, se Sua Majestade assim o ordenar. Mas os trâmites para

chegar à expulsão são muito longos, portanto ide com Deus e deixai-me dormir tranquila. Amanhã protestarei como é devido, e veremos o que acontece. Tinha falado com tal energia e autoridade que o oficial olhou para o frade, e ambos recuaram até à porta, seguidos pelos soldados, e saíram. Dona Paca pousou a luz a um canto da mesa e começou a procurar o conde e a chamá-lo em voz baixa.

- Onde estás? Já se foram embora, podes sair.

Chegou assim até à porta que acabavam de fechar e ao pano de parede onde o conde ficara quando o frade e os seus sequazes tinham aberto. Pareceu-lhe ver na parede a silhueta de um homem alto, com espada e chapéu de longa pluma, como o conde: a silhueta que teria deixado alguém ao infiltrar-se pela parede, não muito clara, obviamente. Aproximou a luz e a silhueta desvaneceu-se, mas, ao afastá-la, viu-a de novo, galharda, com

os contornos mais definidos quando a olhava de frente, e desvanecendo-se ao olhá-la de lado; e, quando a via, o conde parecia sorrir-lhe do fundo dos tempos. Deu um grito: “É o demónio!”, um grito cheio de pavor. “Deitei-me com o demónio!”, E Dona Paca de Távora correu desgrenhada pelos seus aposentos, gritando: “É o demónio! É o demónio!” até acabar estendida na cama, rezando e gemendo, sem reparar que, ao atirar-se para cima da cama desfeita, lhe tinham ficado as coxas ao léu.

13.

- Já não é cortês tanta demora - disse a Rainha; e Colette repetiu:

- Não, não é cortês.

- Queres procurar o Rei, Colette? Diz-lhe que sua esposa o espera, ofendida, mas que ainda o espera.

- Parecem-me demasiadas contemplações, mas obedeço.

Colette saiu do quarto e foi à porta por onde o Rei deveria ter chegado, mas encontrou-a fechada. Examinou as outras por onde se podia sair daqueles aposentos invioláveis, mas estavam todas igualmente fechadas. Abanou-as com força, uma após outra,

mas mostravam-se renitentes e seguras: por trás de uma delas, pareceu-lhe distinguir uma salmodia rezada. “Meu Deus!” disse no seu francês natal. E correu para o quarto.

- Estamos presas, senhora! As portas não se abrem, nem por dentro nem por fora!

Nem eu posso sair, nem o Rei entrar!

- Mas porquê, Senhor, porquê?

- Nesta corte, Majestade, manda o demónio, ainda que eles pensem que manda Deus.

Mas deve haver alguém muito poderoso a quem interessa impedir que o Rei venha visitar- vos esta noite.

- Mas porquê, Senhor, porquê?

A Rainha estava a chorar, sentada no amplo leito, vestida com a camisa fina que tinha escolhido para aquela entrevista.

- O pior, Majestade - disse Colette -, é que eu também tinha um encontro às onze, e não posso ir.

O conde da Peña Andrada saltou da carruagem e bateu com os nós dos dedos no

postigo da sua porta. Abriu-lhe imediatamente um criado, portador de uma luz.

- Alguém perguntou por mim? Estiveram cá soldados?

- Não, Excelência. Só uma mulher, que espera no vestíbulo.

Lucrécia adormecera no cadeirão que lhe tinham oferecido para esperar. O conde tocou-lhe e ela acordou, sobressaltada.

- Que fazes aqui?

- Senhor, os esbirros da Inquisição fecharam e selaram a casa da minha ama. Passei a

tarde à procura de onde dormir, e não encontrei lugar seguro. Por isso me acolhi à sua

hospitalidade.

O conde pegou nela em braços.

- Dormirás em boa cama, sozinha ou acompanhada, como quiseres.

E disse ao criado:

- Queres alumiar-nos?

O criado correu escadas acima, largas escadas de pedra clara e complicados ornatos.

Entrou nos aposentos do conde e deixou a luz no sítio devido. O conde depositou Lucrécia no chão e indicou-lhe a cama.

- Aí tens. Podes esperar de olhos abertos ou fechados.

- Abertos, senhor, bem abertos, se não se importa.

- Isso é contigo. Eu vou procurar um jesuíta, com quem tenho que falar. Voltarei

logo que possa. Lucrécia começou a despir-se: ia deixando as roupas em cima de uma cadeira, até que caiu a última. Então, benzeu-se rapidamente e deitou-se. Ao longe, embora dentro de casa, bateu uma janela. Depois começou a silvar o vento: descia da serra como uma manada de cavalos que tivessem soltado de repente: desciam uivando pelas esquinas e arrefecendo o ar quente da noite. Lucrécia, estremunhada, aninhou-se como pôde.

1.

Capítulo IV

Marfisa tinha ouvido amodorrada, embora com agrado, os cantos da hora terça. Ajoelhava-se, levantava-se, sentava-se mecanicamente, obedecendo às marteladas que a madre abadessa dava na madeira do seu cadeirão para indicar a posição pedida pelas preces:

olhava para o que as outras freiras faziam, e imitava-as. Quando a oração terminou, formou numa das filas e, ao fim de um tempo de percorrer os claustros, achou-se sozinha neles. Então procurou a sua cela. Ao abri-la, viu um cavalheiro vestido de preto, que se levantou imediatamente. Marfisa não passou da soleira.

- Que faz o senhor aqui?

- Entre, não se assuste. Sou o padre Almeida, da Companhia de Jesus, e temos que

falar.

- Como chegou até aqui? Com que autorização?

- Por necessidade e seguindo os passadiços secretos. Não ouviu falar deles? Na corte toda a gente os conhece, e creio que na cidade também.

- Os famosos passadiços! Então é verdade que existem?

- Aqui me tem.

Marfisa pôs a chave na porta e avançou até ao meio da sala.

- Para já, sente-se, se é um jesuíta como diz. A seguir, fale em voz baixa. Estas paredes são grossas, mas toda a gente ouve o que se diz por trás delas.

- O que lhe venho dizer, não convém que ninguém ouça.

- Nem eu própria?

- A si convir-lhe-á esquecer tudo, depois de ter acontecido.

- Tudo, o quê?

- Já vai sabê-lo. Marfisa sentou-se na beira do catre.

- Desembuche de vez.

Marfisa tinha puxado a touca muito para cima do rosto, mas não tanto que não lhe ficasse uma nesga por onde visse à vontade o padre Almeida, tão formoso e de tão bom aspecto. Não se atrevia a pensar que tivesse vindo ao mosteiro para lhe fazer uma proposta

profissional, mas desejava-o, ainda que, vendo bem, o tonsurado não tivesse cara de malandro, mas sim de anjo. “Mas não saberá quem eu sou”, disse para si própria, quando decidiu afastar os desejos e pensar noutra coisa. O jesuíta mantinha-se correcto e distante. Não olhava para ela. E, ao falar-lhe, fê-lo como se procurasse interlocutora no ar.

- A senhora conhece o Rei, não é verdade?

- Como é que sabe?

- Isso agora não importa. Venho dizer-lhe que no Paço há uma conspiração para que

o Rei não durma com a Rainha, e que algumas pessoas, entre elas eu, tentam remediar o caso.

- E quem é que o mandou vir aqui?

- O seu amigo, o conde da Peña Andrada.

- Esse tunante! - exclamou Marfisa, e deixou que o véu lhe descobrisse o rosto. -

Alcovitou o Rei para que dormisse comigo, e agora quer devolvê-lo ao leito conjugal. Pois podia tê-lo pensado antes e, sobretudo, não me meter ao barulho. Depois tudo se vem a saber, e quem paga as favas somos nós.

- O seu caso já não tem remédio. A Santa Inquisição anda à sua procura, e não tardarão a descobrir o seu esconderijo. E, como o conde e eu também seremos perseguidos, pensámos levá-la connosco, ainda que apenas até certo sítio, a partir do qual a senhora irá por um lado e nós por outro. Mas deixá-la-emos bem entregue.

- Olha que bem! Os cavalheiros projectam abandonar-me no meio do deserto, para que purgue os meus pecados. Pois não contem comigo.

- Disso falaremos depois. Agora, do que se trata é de que os Reis possam encontrar- se a sós.

- A minha casa, como o senhor sabe, está fechada e selada pelos esbirros da Santa.

- Pensámos que a entrevista se poderia efectuar aqui.

- Aqui? No mosteiro?

- Aqui, menina, quer dizer nesta cela. Marfisa deu uma olhadela à sua volta.

- Não haja dúvida de que é um bom lugar para os Reis se encontrarem!

- Para eles será tão belo como o paraíso!

Marfisa pareceu meditar, ou talvez simplesmente evocasse alguma coisa.

- Olhe, padre, nem no meio do mais belo jardim, o Rei saberá que fazer com a Rainha.

- Ela também não é muito experiente.

- Mas qualquer mulher, até as virgens jovens, espera algo que o Rei não pode dar.

- Disso, nem a senhora, nem eu, nem o conde da Peña Andrada temos culpa. Marfisa baixou a cabeça e sussurrou-lhe:

- Umas quantas noites mais, e eu tê-lo-ia remediado.

- Mas esse remédio, menina, nem o recomenda a moral nem o autoriza o protocolo

do palácio. Não sabe como são chatos, os do protocolo! Boa parte da culpa do que se

passa, têm-na eles.

- E a outra parte, eu.

- Como é que sabe?

- Não é que o saiba, farejo-o. Por certas coisas que aconteceram

- Por causa dessas coisas é que o Rei está empenhado em ver a Rainha nua.

- E tem que ser aqui?

- Depois de muito discutir, foi a conclusão a que chegámos, o conde e eu.

- Olha que dois!

Com um movimento inesperado, Marfisa arrancou a touca: sacudiu a cabeça e caiu-

lhe pelos ombros a cabeleira dourada.

- Como, afinal, sabe quem eu sou

O jesuíta pareceu entretido com uma mosca tonta que zumbia num canto do tecto.

- Bom, diga lá o que querem de mim.

- Decidimos que a senhora se encarregue de ir buscar a Rainha ao Paço e de a trazer

para o mosteiro. Para isso, é indispensável que a madre abadessa dê o seu consentimento, mas não duvidamos da sua boa vontade nem da sua devoção aos monarcas. Não se esqueça que é de sangue real. Por outro lado, e segundo certos indícios, ela, ao meio-dia, estará muito atarefada com outro encargo, não tão recomendável, mas a que não poderá furtar-se. Talvez mesmo mais escandaloso. Como tudo se sabe, e a senhora bem disse, os mexeriqueiros da corte terão que escolher com que é que se hão-de escandalizar ou divertir, duplamente.

- E isso de ir buscar a Rainha, como é que?

- Eu esperá-la-ei a si numa carruagem escura, à esquina do mosteiro, aí na praça. Se a

hora do encontro dos Reis for ao meio-dia, bastará que a senhora apareça na praça às onze

e meia.

-

E como saio eu do convento? É de clausura, como o senhor deve saber.

- Pois é muito simples: abre a porta e sai.

- Claro, não me tinha ocorrido. Muito simples. Abro a porta e saio.

- E, se encontrar muita gente à saída, não se preocupe, que ninguém se espantará por ver uma freira fora do mosteiro.

- Claro. O mais normal é ver-se uma freira pelas ruas à procura de uma carruagem.

- A si não lhe parece, mas vai ver como é assim.

O padre Almeida levantou-se, fez uma curta reverência a Marfisa e dirigiu-se para a porta. Ela seguiu-o, e viu-o afastar-se pelo claustro, muito tranquilo, muito seguro de si. Depois de o padre Almeida ter, certamente, entrado nos passadiços secretos, Marfisa encaminhou-se para a câmara abacial; mas uma freira disse-lhe que a madre abadessa se encontrava numa entrevista secreta com um padre capuchinho de muitos arrebiques:

Marfisa manteve-se à margem e pôs-se a fazer tempo.

2.

O padre Villaescusa tinha exibido perante a atenção atónita da madre abadessa todos os argumentos da razão de Estado e da conveniência particular em virtude dos quais conviria forçar a Providência para que a esposa do Valido parisse um filho, ou, pelo menos, uma filha, e acrescentou, além disso, que o Senhor, na Sua Divina Sabedoria, lhe teria indubitavelmente inspirado o processo para que a esposa do Valido ficasse definitivamente grávida; do que derivariam grandes bens para a República e para a família dos Guzmanes, na sua linha segunda, não a da Andaluzia, a daqui, que sem aquela mercê de Deus se esgotaria em si própria e as mercês que o Valido esperava receber do Rei passariam para os ramos colaterais, com os quais o primeiro interessado não se encontrava em boas relações. Mas o único argumento que convenceu a madre abadessa foi o de que o Valido protegia o seu mosteiro, e parecia-lhe natural que fosse a sua igreja a escolhida para aquela experiência tão arriscada a que o padre Villaescusa chamava forçar a Providência, mas a que ela, na sua linguagem simples, chamava descaramento sacrílego. Puseram-se finalmente de acordo quanto ao modo e à hora, e o padre Villaescusa saiu do mosteiro e encaminhou a carruagem que o tinha trazido tão de manhãzinha para o palácio do Valido, onde um casal ansioso esperava a sua última decisão. Marfisa viu-o sair, muito satisfeito, e só depois de o frade se ter afastado é que se atreveu a bater à porta da câmara abacial. A madre De la Cerda disse-lhe que entrasse.

- Que te traz por cá tão de manhãzinha?

Marfisa, de repente, sentiu-se acanhada e tardou a declarar à madre abadessa a missão de que o padre Almeida a tinha encarregado.

- Não sei que terá o meu mosteiro, que toda a gente o escolhe como o sítio adequado para resolver as suas embrulhadas.

- Posso garantir a Vossa Maternidade Reverenda que no Paço há uma verdadeira

conspiração para que os Reis não possam encontrar-se a sós.

- E que ganho eu com todo este rebuliço?

- Sugiro a Vossa Maternidade que peça ao Rei um relógio novo para o mosteiro.

Reparei que o existente anda ao deus-dará.

- Pois não é má, a tua ideia, Marfisa. Mas, conforme me apresentas as coisas, não

terei oportunidade de ver o Rei: estarei ocupada com outro caso muito delicado, precisamente a essa hora.

- Se Vossa Maternidade me autorizar, eu própria farei o pedido ao Rei.

A madre abadessa, nascida De la Cerda, de sangue real indiscutível, meditou alguns instantes.

- É o menos que meu primo, o Rei, pode fazer por este mosteiro. Não te esqueças de lhe dizer quem eu sou, que se calhar já se esqueceu.

- Ou nunca o soube, Madre Reverendíssima.

- E, depois de tudo isto, que vais tu fazer?

- Por agora, sairei do mosteiro, de modo que Vossa Reverência, se a interrogarem,

pode fazer-se de Lucas. Depois, quem poderá sabê-lo? As mulheres do meu ofício não têm

o destino muito claro.

- Tu mereces o melhor, Marfisa. Se alguma vez te cansares da tua vida e precisares de

um refúgio tranquilo, não deixes de te lembrar de mim. Poderás viver e morrer neste

mosteiro sem que ninguém suspeite do teu passado.

- O meu passado? Do que eu gostaria era de conhecer o meu futuro.

- Bom. Assentamos em que, enquanto todas as freiras do mosteiro estiverem no coro, por volta do meio-dia, tu meterás a Rainha na tua cela, e a seguir o Rei, e o que acontecer entre eles, é lá com eles. Era isto que te queria dizer.

3.

Indubitavelmente, o padre Villaescusa ia possuído pelo espírito da pressa: um espírito benéfico, sem dúvida. A sua carruagem corria pelas ruas da cidade, como se as rodas e os

cascos dos cavalos não pisassem o empedrado irregular, cheio de altos e baixos e de poças malcheirosas, como se fossem voando. Chegou ao palácio e, sem se apear, deixou recado para o senhor Valido de que estava tudo a postos e de que o encontro no mosteiro de São Plácido era às dez. A seguir regressou ao mosteiro e começou a dar ordens. Nem os bispos nem os padres visitadores as tinham dado nunca com tanta autoridade.

A carruagem do padre Almeida não lhe ficava atrás, mas, em vez de se deter diante

da porta principal do Paço, continuou até uma portinha lateral, pela qual o deixaram entrar depois de ouvirem a contra-senha. Viu-se no meio de corredores intermináveis, iguais para a frente e para trás. Conseguiu orientar-se e chegar até à porta solene; abriu-lha Colette. - Que procura Vossa Paternidade? - perguntou-lhe, meio em francês, meio em espanhol.

O jesuíta respondeu-lhe em bom francês.

- Diz à tua senhora que, por volta das onze e meia, se encontre vestida com um fato

modesto e preparada para um percurso em carruagem para se encontrar com o Rei, Nosso Senhor, num sítio discreto, longe das conspirações da corte. Eu próprio virei buscá-la, acompanhado por uma freira. Convence-a a fazê-lo, e que não desconfie. Por baixo da roupa modesta, pode vestir a sua melhor roupa interior, a mesma que trouxe de Paris e que aqui não a deixam usar. Que não perca a esperança.

- E o senhor, padre, que tem a ver com tudo isto?

- Eu estou aqui para que o Rei e a Rainha possam ver-se e amar-se como marido e mulher, não como Rei e Rainha. O resto pertence à Providência.

- Dos que mencionam a Providência, desconfio.

- Pois, neste caso, podes estar tranquila. Por fim, os Reis encontrarão um sítio para estarem a sós.

- E o Rei, que sabe disto?

- Sabe tudo, e está de acordo.

- Pois sabe Vossa Paternidade que não me fio nesse rapazola? É demasiado brando.

Se tivesse outro carácter, não seria preciso nenhuma destas manigâncias. Onde é que já se viu que, para que um marido se encontre a sós com a sua mulher, tenha que intervir o protocolo, e até o clero?

- Na parte do mundo em que estás, essas e outras maravilhas são coisa corrente. Não percas a noção da realidade

- De acordo, padre; mas não me desagradaria que tudo isto acontecesse em Paris.

- Ah, Paris!

4.

O Valido saiu do seu gabinete pela portinha dos confidentes, depois de ter dado ordens para que ninguém o incomodasse. Abandonou o Paço por uma saída das pouco usadas, embora pelo lado oposto à que o padre Almeida tinha utilizado. Num coche vulgar

que tinha à sua espera, dirigiu-se para casa, a cuja porta o aguardavam a sua carruagem brasonada e o cortejo habitual: arcabuzeiros a cavalo, criados a pé, servidores aperaltados com a sua libré. Tinha-se juntado a arraia-miúda, para assistir ao espectáculo: todos viram como o Valido se apeava e entrava no seu palácio, para depois sair dando o braço à esposa, toda vestida de preto, sem jóias nem plumas que realçassem a sua beleza. Um pouco triste, mas também um pouco esperançada. A senhora do Valido era medianamente alta, e o fato que levava vestido, apesar de severo, não lhe dissimulava as formas. Os homens do povo gostavam daquela mulher gorducha e de andar ondulante. Imaginavam-na na cama, embora nem a si próprios o confessassem. Que mulheraça!

A manhã estava fria. Ao entrar na carruagem, o Valido espirrou.

- Tens frio? - perguntou à mulher; e ela respondeu-lhe:

- Não te preocupes. Venho bem agasalhada.

A carruagem arrancou, escoltada e seguida pelos criados a pé. Iam em silêncio, sem

olharem um para o outro. Ao fim de um bom bocado de solavancos pelas ruas, ela pegou-lhe na mão e disse-

lhe:

- Seremos capazes?

E ele respondeu-lhe:

- Difícil será. Mas Deus há-de ajudar-nos.

Ela suspirou e tornou ao seu mutismo. Chegaram assim ao mosteiro. Os criados a pé tinham expulsado os curiosos. Desceram e entraram na igreja, de mãos dadas. A igreja estava vazia, muito branca, embora negros os santos e as suas peanhas. Só ao fundo, junto do altar, os esperava uma figura escura, mas não negra: um frade corpulento, calvo e de perfil aquilino, um verdadeiro perfil de César. O Valido pensou, enquanto avançava pelo centro, com a esposa pela mão, que aquele frade estava feito para mandar, e que o que procurava era o mando. Não achou muita graça. Continuou, todavia, para diante, e ajoelhou-se nos degraus. A esposa fê-lo imediatamente a seguir. O frade não se tinha mexido. O Valido e a mulher inclinaram as cabeças e começaram a rezar: ele iniciava a oração, ela respondia. O frade

escutou-os um momento, e depois desapareceu. A igreja continuava vazia. “Adjutorium nostrum in nomine Domini. Qui fecit caelum et terram.”

5.

Marfisa achou que a sua cela estava fria e escura. Foi ter com a madre abadessa, pediu-lhe autorização para remediar o caso e passou bastante tempo a arranjar candelabros, uma braseira acesa e duas ou três mantas de reserva. Foi ao jardim, cirandou por tufos e canteiros e conseguiu apanhar um punhado de flores humildes: meteu-as numa jarra com água e pô-las a um canto da sua mesa. Também varreu o chão, e deixou-o sem mancha de pó. Faltava acender os candelabros, mas isso deixou-o para mais tarde. Deu uma olhadela à cela e pareceu-lhe que, como alcova nupcial, deixava muito a desejar. Mas não tinha encontrado nada mais à mão com que a guarnecesse e lhe tirasse um pouco da sua severidade e nudez: os paramentos da igreja estavam à guarda do capelão, e Marfisa, não só não queria relacionar-se com ele, como não desejava pô-lo ao corrente das modificações introduzidas na decoração da sua cela, e menos ainda da sua finalidade. Tinham dado as onze. Despiu o hábito, vestiu-se de mancebo e enfiou o hábito por cima. Não encontrou onde esconder o chapéu, e levou-o consigo, com intenção de o deixar em qualquer banco da igreja. Esperou pela meia hora, não pela que dava o relógio do mosteiro, sempre atrasado. Ao entrar na igreja, viu no presbitério uma figura de homem ajoelhada: não era o Rei, evidentemente. Abandonou o chapéu e encaminhou-se para a porta. Na rua havia pessoas e cavalos, além de uma carruagem luxuosa. As pessoas falavam, ou esperavam encostadas à parede, e dois rapazolas jogavam aos dados sobre a terra. Marfisa avançou, colada à parede do mosteiro. Ninguém reparou nela ou, pelo menos, ninguém lhe ligou importância. Ao dobrar a esquina, viu a carruagem do jesuíta. Entrou nela, e a carruagem começou a andar lentamente.

6.

O Valido, aparentando firmeza, aproximou-se do padre Villaescusa, cujo rosto parecia acumular toda a seriedade de que era capaz, até atingir as qualidades da pedra, imóvel e áspera.

- Ajoelhe-se.

O Valido fê-lo no escabelo forrado de felpa encarnada.

- Ante o Santo Tribunal da Penitência, não há graus nem títulos. Não há senão um

penitente humilhado e o representante do poder da Igreja, que tudo une e desune.

O que vós unirdes na terra, unido ficará no céu, etcetera.

- Sim, padre.

- Confessa todos os pecados que tenhas cometido na tua vida.

- Todos, padre?

- Todos os que recordes, pelo menos.

- Sim, padre.

O Valido tentou recordar a sua infância, mas o que lhe vinha à cabeça eram os seus

anos de estudante em Alcalá, os seus anos de reitorado. Foi dizendo desordenadamente as

O padre

Villaescusa permanecia de rosto imóvel, com o olhar fixo na figura feminina que esperava, contrita, nos degraus do presbitério. Depois, o Valido passou brevemente em revista a sua vida na corte; passou por alto as intrigas que o tinham levado ao cargo de Valido, por achar que não eram pecado; mas o frade interrogou-o sobre elas: teve que as confessar. A ladainha mais pormenorizada, as intervenções mais inquisitivas do confessor aconteceram

suas recordações: frivolidades, farras, brincadeiras de mau gosto, injustiças

quando começou a relatar a sua vida matrimonial, e antes ainda, desde a altura em que tinha conhecido aquela que viria a ser sua esposa e a tinha desejado. Chegou um momento em que disse:

- É-o tudo o que faz um homem que não está na graça de Deus, até a sua própria respiração.

À terceira vez que o penitente disse Não, o confessor tomou a palavra e disse-lhe que

os seus pecados eram tantos que uma vida inteira de penitência não bastaria para que lhe fossem perdoados; que não só havia que recear os tormentos do inferno, mas também o inferno nesta vida, os sofrimentos morais, e até físicos, acarretados pela má consciência

sem arrependimento; mas que ele, em nome da Igreja, lhos perdoava todos, com a

condição de que

fizesse isto, aquilo e aqueloutro. O aqueloutro era a renúncia para toda a

vida aos prazeres sensuais, levar por diante, até ao fim, um casamento casto e exemplar.

“Em nome do que, Ego te absolvo ab peccatis tuis. In nomine Patris ”

O Valido permaneceu ajoelhado e silencioso um bom bocado; a seguir levantou-se,

saudou e regressou ao presbitério, onde a mulher esperava ajoelhada. Ao senti-lo chegar,

ela levantou-se e encaminhou-se para o confessionário, coberto o rosto com um véu. O Valido tentou meditar sobre os pecados que lhe tinham sido perdoados com tão duras

condições, mas começou a imaginar a mulher rememorando a sua vida, d