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Extensão universitária - UNI-BH

Novembro de 2008 • Página 

B el o horizonte - novembro de 2 0 0 8 A n o VII - E d i ç ã o 6

P RO J E TO D E E XT E NSÃO DO C E NTRO UNIV E RSITÁRIO D E B E L O H ORI Z ONT E - UNI - B H

“de cá para lá”


“daqui para ali”
A
edição 2008 do Jornal da Rua trata de dois assuntos: o trânsito
em Belo Horizonte e o Morro das Pedras. A escolha do primeiro
tema é óbvia para uma publicação que quer considerar o que
acontece nas ruas da cidade. O trânsito hoje em BH é um dos problemas
que mais afetam a vida das pessoas, deixa todo mundo estressado e
evoca a tranqüilidade de tempos passados. Mas o trânsito tem também
um lado interessante, divertido e coisas estranhas acontecem quando
vamos “de cá para lá” e “daqui para ali”, como diriam os portugueses.
Algumas dessas coisas foram relatadas pelos participantes do jornal.
Nessa época de eleição, por exemplo, fatos inusitados podem ser vistos
nas ruas da cidade. Outro dia mesmo, muita gente pôde ver na Savassi, no
horário do almoço, a Kombi do candidato a vereador Vovô do Rock, coberta por adesivos
nos quais predominava a cor preta, estampando um sugestivo número terminado em 666, ocupada
por três típicos metaleiros e animada por um rock pauleira bem alto cruzar com outro veículo, do candidato
Márcio Lacerda, embalado por um funk cuja letra buscava estimular eleitores. Dada a barulheira provocada na
rua, o efeito pode ser contrário ao desejado pelos candidatos. Mas foi uma demonstração de diversidade musical
digna do Brasil! Quanto ao Morro das Pedras, nessa edição damos continuidade a uma relação que começou há
duas edições atrás. Convidados pelo Léo, que cuidava das políticas para a juventude na Administração Regional
Oeste da PBH, fizemos matérias e uma oficina de comunicação junto com moradores do local, e contamos
especialmente com o seu Darci e o Paulinho, que nos acompanharam e participaram ativamente dos trabalhos.
A Nayara, representante do Núcleo de Apoio Familiar da Regional, também nos deu toda assistência necessária,
com uma simpatia enorme. Obrigado a todos os que ajudaram a fazer mais um Jornal da Rua.

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Novembro de 2008 • Página  Extensão universitária - UNI-BH

Trânsito em Belo Horizonte


fica cada dia mais caótico
Uma visão interna da cidade
Fabiana Cristina preferem se locomover de carro do
Jornalismo. que de ônibus.
E não é sem motivo que levamos
A cidade de Belo Horizonte horas para chegar em um lugar que
está cada vez mais movimen- levaríamos minutos. Na avenida An-
tada ou vias é que diminuem a tonio Carlos, notei que na segunda-
cada dia mais? Bom, a resposta feira o ônibus 1207 levou aproxima-
é fácil, basta parar e observar o damente dois minutos para percorrer
trânsito em Belo Horizonte. E o trajeto e na sexta-feira levou qua-
foi o que fiz entre os dias 16 e tro vezes a mais.
20 de junho. Passei a observar Pedestres e motoristas se arris-
o trânsito às 18h, na Avenida cam e se estressam dentro desse tu-
Antônio Carlos, próximo ao multuado trânsito, os pedestres por
anel rodoviário, entre a BR não terem paciência de esperar, e
262 e o Viaduto São Francis- os motoristas por fazerem manobras
co. que colocam suas vidas e de outras
A análise foi super simples, pessoas em risco. Os campeões de
pois logo na segunda-feira, dia manobras arriscadas no trânsito são,
16, o trânsito estava simples- sem dúvida, os motoqueiros, que
mente ótimo no sentido bairro “costuram’’ dentro das engarrafadas
centro, mas na via oposta o trân- avenidas.
sito seguia com mais lentidão. E Os motoqueiros são campeões
durante todo o restante da se- em sofrer e causar acidentes no trân-
mana o tráfego seguiu da mesma sito, principalmente os motoboys
forma, com exceção da sexta-fei- que geralmente conduzem o veícu-
ra, dia 20. Durante essa tarde o lo em altíssima velocidade e muitas
trânsito estava um caos, os dois vezes nem se preocupam com suas
sentidos da avenida estavam vidas. No momento em que estão no
completamente engarrafados, menos transitável. te emplaca cerca de 12 mil carros por trânsito, lembram apenas da hora da
inclusive a pista destinada aos ônibus.Essa Segundo dados estatísticos do site mês, uma média de 400 carros por dia. entrega e esquecem daquele velho ditado
pode ser uma simples constatação, mas a do Departamento de Trânsito de Minas Esse aumento está aliado ao crescimen- “antes chegar atrasado nessa vida do que
cada dia que passa o trânsito fica cada vez Gerais (Detran-MG), Belo Horizon- to econômico do país, onde as pessoas adiantado na outra’’.

O preparo do futuro
Expediente

Uni-BH

motoqueiro
Reitora:
Profa. Sueli Maria Baliza Dias

Pró-Reitora de Graduação:
Profa. Raquel Parreira Reis Carvalho Entrevista com o instrutor Leandro Martins, da Moto Escola Inlerlagos.

Pró-Reitora de Pós-Graduação, Pesquisa e Extensão: Leandro Martins Álvares da Silva, de 19 anos, é instrutor da Moto Escola Inter-
Profa. Marisa da Silva Lemos lagos há um ano e diz que o aluno precisa ter equilíbrio, noção de espaço e atenção,
“tudo depende do domínio e segurança do aluno e o interesse em aprender é dele,
Pró-Reitor Administrativo-Financeiro meu papel é apenas instruí-lo.”
Prof. Wellington José da Cunha O instrutor afirma também que existem dois tipos de motoqueiros – o que já
caiu e o que ainda vai cair. E que a consciência no trânsito é mais que um preparo,
ela depende muito de cada pessoa e de seu objetivo no trânsito, porque os moto-
queiros são classificados de duas formas – o que usa a moto apenas para transpo-
sição de lugares, como de casa para o serviço e vice-versa, e o motoboy que é um
profissional.
Segundo Leandro o trânsito de Belo Horizonte está caótico porque os carros e
Jornalista responsável: os ônibus atrapalham as motos no trânsito. E ele acha que a lei deveria beneficiar
Profa. Adélia Barroso Fernandes um pouco mais os motoqueiros, com um aumento de vagas rotativas no centro da
MTDF 8561/86 cidade destinadas às motos.

Coordenação do projeto
Profa. Maria Cristina Leite Peixoto

Colaboração:
Profa. Adélia Barroso Fernandes
Profa. Fernanda Agostinho (Jornal Impressão)

Revisão:
Núcleo de Assessoramento e Revisão de Texto

Pesquisa e Redação:
Joana Maria do Nascimento Soares
Fabiana Cristina da Silva
Anna CarolinaTorres Lages
Jacqueline Martins de Moura
Israel Campos O. Souza
Roberto Romero Ribeiro Junior
Virna Fabrini Lagoeiro Lins

Editoração:
Marcos Lourenço/Cristina Leite

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Extensão universitária - UNI-BH Novembro de 2008 • Página 

Atravessar BH é cada dia uma


viagem mais longa
Anna Carolina Torres na visão dos torcedores, significa estádio
Jacqueline Martins de Moura cheio e muita animação.
Fabiana Cristina Na volta, a situação sai mais animada
Jornalismo para um dos dois lados – o que ganhou, é
claro. Aí o trânsito pode ficar sem se mo-
TERRÍVEL. É essa a palavra que está ver por uma hora seguida que ninguém
na boca dos motoristas quando questiona- repara. E tanto faz se, no dia seguinte é
dos sobre o trânsito de Belo Horizonte. E, segunda, e a maioria das pessoas tem que
cada vez mais, cresce o número de carros acordar cedo para trabalhar. Tudo é festa.
que circulam na capital. Basta reparar nas Até quem vai de ônibus não reclama da
ruas, são muitos carros com poucos pas- falta de espaço.
sageiros, grande parte circulando mesmo É uma pena que ainda existam torce-
só com o motorista. Segundo o Depar- dores que insistem em estragar a festa. É
tamento Estadual de Trânsito de Minas comum ouvir falar em brigas, transportes
Gerais (DETRAN-MG), 400 carros são coletivos depredados, roubos e furtos na
emplacados por dia, a estimativa é de que saída do Mineirão. No dia seguinte, além
a frota da capital já ultrapassou 1 milhão dos ônibus lotados, os passageiros são obri-
de veículos e aumentou cerca de 67% em gados a circular em veículos com janelas
dez anos. quebradas e portas estragadas. O bom hu-
Nos horários de pico, a única alterna-
mor no trânsito some como em um passe
tiva é ter paciência ou abrir mão do trans-
de mágica. Afinal, ir para o trabalho cedo
porte e ir andando. A funcionária pública
com o trânsito agarrado não é motivo de
Sônia Vieira vai da Savassi até o centro a
muita festa.
pé, todos os dias, para trabalhar. “Desisti
de usar o carro ou o transporte coletivo.
Venho andando de manhã e reparo que Trânsito parado,
chego, praticamente, junto com o ônibus;
às vezes, ele passa na minha frente, mas, e agora?
logo em seguida, eu o alcanço”, afirma olhar para frente vai ver uma fila enorme recapeamento de 106 vias e 55 interven-
ela. de veículos com suas luzes de freio acesas. ções, como implantação de rotatórias, si- Belo Horizonte ainda não chegou ao
O fluxo de veículos é tão intenso na O jeito é mesmo esperar, pois não há como nais luminosos e repintura de faixas em nível de São Paulo, a maior cidade do
hora do rush que, em certos pontos do hi- fugir da situação. alguns pontos da capital. Brasil, que é líder do ranking de con-
percentro, a velocidade média dos carros é Do lado direito da pista, uma fila de Além de obras para melhorar o tráfego gestionamento medido em quilômetros.
de 21,2 km/h e a dos transportes coletivos transportes coletivos tenta sair do lugar, de carros na cidade, algumas intervenções De acordo com a Companhia de Enge-
é de 6,8km/h. E não há nada nos granda- mas esses veículos se movem com mais visam a melhorias para o transporte co- nharia de Tráfego (CET), há 200 km de
lhões barulhentos que estimule os outros lentidão do que os carros pequenos. Al- letivo. Segundo a prefeitura, o objetivo é congestionamento pela manhã e 230 km
motoristas a saírem do seu carro confor- guns motoristas arriscam sair para outra instalar 680 novos abrigos para os usuários pela tarde na capital paulista. O que as
tável, com rádio e ar-condicionado, para pista, fechando carros de passeio e pio- e diminuir os intervalos de espera pelos pessoas fazem quando o trânsito está, re-
disputar um espaço de um metro quadra- rando ainda mais o trânsito e o estado de ônibus aos domingos. Nenhum cidadão almente, parado?
do com mais seis pessoas. E, além disso, espírito de quem enfrenta, diariamente, a poderá esperar o ônibus por mais de 30 Ouvir música no carro é uma das alter-
a espera pelo transporte coletivo é longa. batalha de dirigir no centro de Belo Ho- minutos. No entanto, essa medida ainda nativas para quem enfrenta uma via con-
A babá Joana Soares sai do trabalho às 18 rizonte. não tem data para ser implantada. gestionada. Nos grandes centros urbanos,
horas e diz que a espera pelo ônibus, no Várias sugestões foram dadas por mo- De acordo com o prefeito Fernando é essencial ter um rádio no carro para evi-
centro da cidade, é grande. “Fico na fila toristas que passavam pelo local. Alguns Pimentel, R$ 56,8 milhões serão investi- tar o impulso de abrir a porta do veículo
do ônibus, em média, quarenta minutos e, acham que a solução é investir no metrô da dos nas obras. As avenidas João Pinheiro, e sair correndo pela rua. Mas a situação
às vezes, tenho que esperar o próximo por- capital mineira. O motorista Élton Vieira Cristóvão Colombo e Nossa Senhora do problemática do tráfego tem despertado
que não cabe mais ninguém. Depois levo o diz que não trocaria seu carro pelo ônibus, Carmo terão faixas exclusivas para os ôni- a criatividade das pessoas. Na internet, é
dobro do tempo para chegar em casa, por mas sim pelo metrô, caso houvesse alguma bus. Alguns dos projetos que serão coloca- possível encontrar dicas sobre o que fazer
causa do trânsito que não anda direito”, melhoria. Há quem afirme que a culpa é dos em prática vão apenas complementar no trânsito parado. Os motoristas de São
afirma ela. do transporte coletivo, que, por usar veí- obras que já estão em andamento pela ci- Paulo já estão realizando algumas ativida-
Se o trânsito anda estressando quem culos de tamanho maior, ocupa muito lu- dade, dentre elas, as do complexo viário des para não perderem tanto tempo den-
vai de casa para o trabalho ou para a es- gar nas pistas, incomodando os motoristas da Lagoinha, que se iniciaram em janeiro. tro dos veículos. Lixar unhas, retocar ma-
cola e é obrigado a voltar no fim do dia, de carros de passeio. “Eu acho que deveria Esse plano para acelerar o trânsito vai quiagem, tirar pêlo da sobrancelha, tudo
imagine para quem trabalha dirigindo tirar um pouco desses ônibus da rua nes- contar também com a internet. A idéia é isso é válido para as mulheres na hora do
pelas ruas da capital. Alguns já se acos- ses horários de pico. Eu não animo a pegar que os motoristas possam consultar os lo- rush. Vale também limpar os espelhinhos
tumaram, ou se resignaram, seria a pala- ônibus porque a passagem está mais cara cais onde o tráfego não flui e buscar uma e o carpete do carro ou descobrir qual a
vra mais correta. O motorista particular do que a gasolina”, conta o gerente de loja via alternativa. O serviço da Empresa de finalidade de todos os botões do painel.
Geraldo Costa não reclama da situação. João Ferreira. Mas os ônibus representam Transporte e Trânsito de Belo Horizonte Se as obras planejadas pela PBH não
“Não tem jeito mesmo, fazer o quê, es- apenas 10% do trânsito da capital minei- (BHTrans) disponibiliza imagens de 22 câ- tiverem início logo, os belo-horizontinos
tressar não adianta nada”, conta ele, ra, e o restante do contingente é destina- meras on-line. já podem ir se preparando para realizar ou-
rindo. Mas não são todos que trabalham do aos carros, porém, esse pensamento de
tras atividades dentro do carro. Sugestões
com esse bom humor. Um motorista de que sair de carro é mais prático deverá ser
não faltam e são das mais criativas. Os
mudado até 2020, de acordo com o site
táxi, que não quis se identificar, negou-se
a comentar sobre o trânsito. “Falar sobre da BHTrans. O contador Marco Aurélio
Trânsito agarrado, motoristas podem deixar para abrir cor-
respondências dentro do carro, ver todos
isso é falar sobre aquilo que me dá menos acha que a solução está na fiscalização dos que ótimo... os e-mails e ler durante a viagem. Mesmo
prazer, é algo frustrante. É como pedir cruzamentos, que, segundo ele, é o que
que sejam e-mails com as mais completas
pra eu me explicar depois da minha pior impede o trânsito de fluir normalmente. Você consegue imaginar um trânsito
bobagens, para gastar o tempo perdido no
broxada, nenhum homem gosta de falar O rodízio de placas também foi sugerido muito agarrado e os motoristas sorrindo
como solução, mas muitos motoristas não trânsito, tudo é válido. Áudio-livros tam-
disso”, justifica ele. E parece que não é só de felicidade? Parece impossível, mas
ele que pensa dessa forma. Vários taxistas concordam com essa alternativa. “O rodí- bém são bastante úteis, pois ler uma histó-
tudo depende do bom humor de quem
se recusaram a falar, e tudo o que fizeram zio não vai funcionar, porque muita gente está no volante. É só pensar na grande ria dirigindo pode não ser uma boa idéia,
foi balançar a cabeça, como se fosse inútil acaba comprando outro carro com placa paixão dos brasileiros que o cenário não mas ouvir alguém lendo para você acaba
e cansativo falar sobre o assunto. diferente só para poder circular. Acaba se torna tão impossível assim: em dia de sendo uma alternativa.
Trânsito parado, carros buzinando, sendo injustiça com quem respeita o siste- grandes jogos de futebol no estádio Ma- Algumas dicas não servem para gas-
ônibus atravessado no meio do cruzamen- ma”, diz o mecânico Carlos Novaes. galhães Pinto, o Mineirão, há trânsito en- tar o tempo com algo útil, mas ajudam a
to, motos passando por espaços estreitos garrafado na certa. distrair e a não perder a paciência. Levar
uma máquina fotográfica e tirar fotos do
entre os veículos, pessoas se arriscando
ao atravessar a rua fora da faixa de pedes-
Programa de Em dia de clássico de Cruzeiro e Atléti-
co, o trânsito flui lentamente pela Avenida que você vê no caminho, acenar para os
tres. Esse é o cenário na Avenida Ama- emergência Antônio Carlos, por onde chegam os atle- ocupantes do carro vizinho ou até mesmo
zonas em uma quarta-feira à tarde. Entre ticanos, e pela Avenida Carlos Luz, local bater um papo com eles, cantar as músicas
17h30 e 18h30, o fluxo de carro é intenso Com tanta confusão envolvendo o de acesso dos cruzeirenses. E, ao contrário do seu rádio ou descobrir o que o motoris-
no local, e não adianta o sinal ficar verde, trânsito da capital, a PBH (Prefeitura de do estresse normal de pessoas em uma via ta ao lado está cantando através da leitura
pois a confusão no cruzamento entre a Av. Belo Horizonte) viu-se obrigada a tomar congestionada, o que se vê são bandeiras labial. Vale até exercitar a matemática. É
Amazonas e a Rua Tupis não permite que alguma providência emergencial. Foi para fora da janela, motoristas conversan- só brincar de somar as placas dos carros,
os carros avancem. O semáforo fecha para lançado, no dia 19 de maio de 2008, um do uns com os outros, música alta e muita dividir pelo número de minutos que você
os veículos, e é preciso aguardar uma nova pacote de obras que visam alcançar me- alegria. A buzinação é grande, mas, nes- já está preso no trânsito, multiplicar pela
chance para tentar sair do lugar conges- lhorias no sistema viário na área central. se caso, não é para xingar ninguém, é só data de aniversário, e por aí vai. Basta ter
tionado. Quem se arrisca a abrir a janela e O pacote de mobilidade da PBH inclui o para fazer festa mesmo. Trânsito agarrado, criatividade.

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Novembro de 2008 • Página  Extensão universitária - UNI-BH

Nós e nossos
carros Anna Carolina Torres

O dia-a-dia no

maravilhosos ônibus
25 de abril de 2008, sexta-feira
Horário: 7h25

Primeiro ponto depois do fi-


nal e o ônibus já vem cheio. Ain-
da há lugares, mas não muitos.
No terceiro ponto, já não sobra
banco algum. O resto do pesso-
al vai ter que agüentar a viagem
em pé. E, nesse horário, a viagem
é longa porque a Antônio Car-
los opera no famoso “arranca e
pára”. Normalmente, do meu
bairro até o Centro, pegando o
mesmo ônibus com o trânsito
bom, se gastam 12 minutos. Do
jeito que a coisa anda ultima-
Adélia Fernandes destino fosse a praia eram dois nas auto pistas. mente (ou melhor, não anda),
Profa de jornalismo ou três dias na estrada. Aliás, Em São Paulo há uma luta de manhã, ele tem gastado quase
morar em Brasília é necessitar surda entre motos e veículos, 40. Algumas pessoas vão lendo
Justamente agora que nós de carro. Tudo é longe. Estuda- com códigos que só os paulistas um livro, concentradas, pare-
mulheres alcançamos os homens se num lugar, mora-se noutro, entendem. Por exemplo, os car- ce que nem percebem o que se
no quesito compra de carros, in- compra-se no setor comercial, ros da faixa da esquerda andam passa em volta delas. Outras vão
dicadas nas pesquisas como as os amigos moram espalhados. bem encostados ao meio fio e conversando porque já se conhe-
que escolhem o veículo da fa- Nem preciso falar do transporte abrem uma via para as motos. cem. Nesse horário, as pessoas
mília e investidoras inveteradas coletivo, que isola as pessoas e Um estrangeiro não sabe do são quase sempre as mesmas
em acessórios, o carro é motivo não liga a cidade. A pé? Só se for acordo e fica sem o retrovisor, todos os dias. Mas o que mais
de problema ambiental, de con- doido. Qualquer lugar fica a 20 que é a maneira do motoqueiro eu observo são pessoas encosta-
gestionamento infernal, etc. Pois quilômetros do outro. dizer: se liga mano! das na janela, olhando pra fora,
então que os homens deixem de Ter carro em Brasília é sinô- Em Paris, ao entrar num balão pensando em alguma coisa, que,
dirigir, porque nós mulheres e nimo de liberdade, de poder ir e para contornar, o motorista tem em minha opinião, não deve ter
nossos carros maravilhosos va- vir, não ter hora de voltar para que ser atrevido. Se for cuidado- nada a ver com o ônibus ou o
mos circular. É sempre assim, a casa, fazer carreata para derru- so demais vai ficar horas dando trânsito engarrafado.
culpa é das mulheres que estão bar governos. Fizemos um pro- voltas e ninguém vai atender seu Hoje, é comum ir ouvindo
ganhando mais dinheiro, com- testo emocionante na época das pedido de seta ou mão para fora música dentro do ônibus, com o
prando carros financiados e en- Diretas Já. Ensaiamos com um do veículo. É salve-se quem pu- mp3, mp4, celular etc. Cresce o
tupindo as ruas. Pois tenho uma maestro durante semanas um der. Mas nas ruas é muito tran- número de pessoas com fone de
péssima notícia... Adoramos di- buzinaço, com ritmo. Foi muito qüilo, todo mundo parece não ouvido dentro dos ônibus. É uma
rigir nossos carros (quem já an- barulhento, mas com harmonia. ter pressa: dá passagem, deixa o alternativa para não estressar
dou em ônibus e metrô lotado, Se carro dá uma sensação de pedestre atravessar, espera os que com a demora até o destino ou
com homens pouco educados liberdade para os brasilienses, estão fazendo baliza, não buzina então uma maneira de evitar que
encostando na gente, sabe como para mim essa sensação tornou- no engarrafamento. São muito a pessoa ao lado puxe conversa
é bom ter um carro) e os carros se mais forte depois que me aci- gentis...como motoristas. (pra quem não gosta de conver-
têm cada vez mais detalhes que dentei e fiquei com dificuldades A cultura local também de- sar). Dá pra ir ouvindo música
agradam o jeito feminino de ser para andar. Com pouca mobili- termina a moda das cores e mo- ou o jornal e se informando das
(espelhinho para a motorista, dade, o carro tornou-se minhas delos dos carros. Em algumas notícias do dia. Eu, às vezes, es-
mil porta trecos, ajuste de altura pernas. Que invenção incrível o cidades os motoristas gostam de cuto jornal. Mas, na maioria das
do banco, aliás costurado para automóvel! Ir onde quero, longe preto, noutras a cor mais vista é vezes, vou no ônibus só aprovei-
não rasgar as meias finas). Como ou perto, circular pelas cidades, o vermelho, o verde. Uma amiga tando o tempo pra pensar. Pen-
mudamos e como os carros mu- subir morro. ficou admirada com a quantidade sar à-toa mesmo, já que, hoje em
daram para nos agradar! A cada nova cidade que dia, é tudo tão corrido, que nem
de carros prata em Belo Horizon-
Lembro-me do primeiro carro moro, saio logo de carro. Preci- tempo pra pensar a gente tem
te. Dizem que é mais fácil para
lá de casa. Meus pais compraram so conhecer o trânsito, as ruas, o mais.
revender e como todo mineiro
um fusca azul piscina em 1974. humor dos motoristas, a educa- Bom, voltando ao que acon-
é bom negociante... E os aces-
Uma festa! A criançada toda ção, os acordos sutis. Cada cida- tece dentro do ônibus, chega a
sórios? Tem gente que não tem
passeava no porta bagagem que de tem sua cultura de trânsito e hora da luta. Descer no Centro
carretinha, mas coloca um en-
ficava atrás do banco trasei- só dirigindo para saber. é o mais difícil. Como o ônibus
gate de reboque. Tem gente que
ro. Acho que cabiam duzentas Em Belo Horizonte o trânsito já está lotado e muitas pesso-
nunca viaja, mas tem farol para as descem no mesmo ponto, é
crianças naquele buraquinho. é nervoso, apesar dos motoristas
neblina, bagageiro externo. Tem uma complicação. Todo mundo
Os carros eram tão raros na se dizerem calmos. Não adianta
gente que coloca luz néon em- começa a se levantar, querendo
minha quadra (bairro) que meu dar seta, porque depende do hu-
baixo do carro para iluminar as guardar o melhor lugar na porta
pai e minha mãe tinham o dever mor do motorista para dar ou não
formiguinhas. Todo mundo acha pra pular fora assim que o veícu-
moral de ajudar todo mundo. Le- passagem. Ainda não me acostu-
graça das frases nas traseiras dos lo encostar. E o ônibus andando.
vavam um vizinho ao hospital de mei com o zig-zag das ambulân-
caminhões. Essa moda já está Enquanto um levanta, o outro
madrugada, buscavam alguém cias e carros de polícia. Noutras
na cidade. Vejam os milhares de quer correr e pegar o lugar, e
na rodoviária, conduziam noiva cidades os motoristas caem para
adesivos nos carros. São frases, vira aquela bagunça com bolsa
para a igreja, etc. a direita, deixando a pista da es-
símbolos religiosos, esportivos, pra cá, gente caindo, todo mun-
Quando íamos tirar alguma querda livre. Em BH, cada um
foto, o carro era o pano de fun- arreda para um lado, fazendo partidários, figuras de desenho do pedindo licença (alguns nem
do, a moldura constante (fize- com que a ambulância faça o animado (já viram a Penélope isso pedem). Nesse ponto, o ôni-
mos isso com a televisão colorida serviço de procurar a melhor sa- Charmosa? É lindinha demais), bus volta a encher novamente, e
também, ela aparece em várias ída. Também me assusto com as etc. Nós brasileiros gostamos de aí, creio eu, deve começar tudo
fotos de família). buzinas. Por qualquer coisinha a enfeitar carros, acho que somos de novo.
Sempre achei o espaço do gente escuta buzina. Se engarra- uns mexicanos disfarçados.
As mulheres também têm
carro um pouco mágico. Leva a far já sabe, mete a mão na buzina
suas preferências por marcas e O perfume
gente para mundos distantes e para aliviar.
aproxima a família. É isso mes- Em Brasília a gente pisa no modelos. As montadoras já des-
6 de maio de 2008, terça-feira
mo! Nada melhor do que uma freio. Muito radar e multas al- cobriram isso e adoram quando
Horário: 7h25
viagem longa para uma família tíssimas assustam todo mudo. A um carro é “de mulher”. Aumen-
colocar a conversa em dia, re- pressa desaparece, com quinze tam as vendas e fazem o que os
Não tem nada que me inco-
solver arestas. No começo é uma minutos dirigindo somos obriga- publicitários lutam para conse-
moda mais do que cheiro for-
alegria, depois a gente começa a dos a relaxar e ir devagar. Mas dá guir: a divulgação espontânea do
te de perfume no ônibus. Sou
brigar. Como tem mais estrada uma vontade danada de correr veículo.
alérgica a perfume e parece que
pela frente, fazemos as pazes, bri- naquelas pistas largas e retas. De Pois justamente agora...bem, algumas pessoas não têm muita
gamos de novo, fazemos as pazes. vez em quando alguém se deixa temos que descobrir rápido uma noção da quantidade de líquido
Ou seja, o verdadeiro espírito de levar por essa vontade e entra maneira de não poluir, de esta- cheiroso que devem borrifar na
família. para as assustadoras estatísticas cionar, de colocar nossos carros nuca, braço, roupa e onde mais
Como morava em Brasília, de morte em Brasília. Melhorou na rua, porque nós mulheres elas inventarem.
qualquer viagem era longa. Se o um pouco, mas tem muito pega adoramos dirigir!

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Extensão universitária - UNI-BH Novembro de 2008 • Página 

Diário de ônibus Linha: 8101


Santa Cruz – Alto Santa Lúcia

Hoje, sentou do meu lado um


rapaz com um perfume tão forte
que foi a conta de ele chegar e
eu começar a espirrar. E assim foi
nos 40 minutos até o Centro. Ele
tranqüilo, ouvindo música, e eu
espirrando sem parar. Tentei ler,
ouvir jornal, qualquer coisa para
distrair, mas não funcionou mui-
to. Entre levantar e ir em pé no
ônibus super cheio, preferi ficar
sentada ao lado do rapaz perfu-
moso mesmo.
Hoje, havia duas moças que
não costumam pegar o ônibus
todo dia e resolveram ir conver-
sando. Mas como não estavam
sentadas uma ao lado da outra,
resolveram falar bem alto. E con-
taram foi caso. Eu tentava pres-
tar atenção na conversa (curio-
sidade jornalística), mas a crise
de espirros não ajudou muito. Só
deu pra entender algumas coisas
do tipo “dormiu lá em casa no fi-
nal de semana”, “a mãe dele não
gostou muito de mim”, “vai me
ligar outro dia” e coisas do tipo.
Enfim, metade dos usuários do
transporte coletivo ficou sabendo
de um caso pessoal de uma moça Isto não aconteceu comi- dos lados estava batendo sol, en- licença e ocupei o lugar vago ao têm andado, não sei se existe al-
morena e que falava alto. No go, mas com uma prima: uma tão, a ocupação se deu da forma lado dela. guém “normal” ainda. Talvez ele
final, elas acabaram distraindo senhora, que estava sentada como vou contar agora. Ela olhou meio de lado, só até fosse doido mesmo, mas, pela
alguns passageiros na sua viagem ao lado dela, conseguiu abrir a Primeiro, todos os lugares deu uma balançada na cabeça e empolgação, ele parecia mais
diária de 40 minutos até o Cen- bolsa dela sem que ela notasse da janela, onde não havia sol, olhou para fora de novo. Após feliz do que muita gente que es-
tro de Belo Horizonte. Porque é e saiu levando a carteira. Ela só foram ocupados. Devido ao ca- alguns minutos se remexendo na tava ali com seus uniformes de
muito difícil não prestar atenção percebeu o que havia acontecido lor, o normal seria que as outras cadeira, tirou um celular da bol- trabalho prontos para mais um
em duas pessoas que falam alto quando a mulher já estava des- pessoas se sentassem ao lado das sa, conectou um fone de ouvido e dia. Acho que, no mundo atual,
dentro de um ônibus lotado. cendo do ônibus, quase na rua. que já estavam lá e fugissem do começou a escutar alguma coisa. os loucos são os mais felizes, eles
Por sorte, ela conseguiu alcançá- sol quente. Mas não foi isso o Será que foi coincidência ou foi fazem tudo o que querem e todo
O atraso la depois que ela havia entrado que aconteceu. Todos preferi- uma forma de fingir que eu não mundo justifica: “Coitado, deixa
correndo no Mercado Central. É ram sentar do lado do sol, onde estava ali? Talvez ela tenha acha- pra lá porque ele é doido”.
8 de maio de 2008, quinta-feira cada uma que acontece que todo ainda não havia outras pessoas. do um abuso eu me sentar ao seu Só sei que o tal desconheci-
Horário: 7h25 mundo fica andando por aí meio Fica a dúvida: será que isso é lado enquanto havia tantos luga- do foi cantando até o Centro da
desconfiado! uma preferência enorme pelos res vagos no ônibus. O fato é que cidade e ainda assobiava para
Dia que o ônibus atrasa é bancos ao lado da janela ou, re- ela ficou ouvindo o tal fone até a fazer o ritmo da canção. Foi um
almente, ninguém se sente mui- hora de descer. Levantou e pediu
um problema, e hoje ele resol-
veu atrasar quase meia hora. O
A dinâmica do to à vontade em sentar do lado uma licença tão baixinho que eu
dia mais feliz no ônibus. Todo
mundo trocava olhares e sorrisos
normal é sair um a cada seis mi- ônibus de outro ser humano, enquanto nem sei se foi isso mesmo que ela e comentava alguma coisa a res-
nutos. Quando acontece atraso, existem bancos totalmente de- falou. peito do “cantor do 8101”
tudo fica mais complicado. Do 12 de maio de 2008, segunda-feira socupados? Bom, parece que o ônibus não
final, ele já sai bem cheio e, a Horário: 14h30 Outra coisa que observei foi é um dos melhores lugares para
cada ponto que pára, existe uma a preferência que os jovens têm se fazer amizade, ao menos que Boa vontade
multidão esperando. Hoje eu resolvi reparar em pelos bancos no fundo do ônibus. você dê sorte e encontre uma
As pessoas até animaram a como as pessoas se comportam Em grupo ou sozinhos, a maioria pessoa muito bacana que, pelo 28 de maio de 2008, quarta-feira
conversar umas com as outras ao entrarem no ônibus. No ho- sempre se desloca para lá. Talvez menos, dê um “bom dia” ou “boa Horário: 22h40
mais do que o normal. O assun- rário da manhã, em que todos já seja outra regra sem explicação: noite” quando você se senta ao
to era o mesmo: o absurdo do se conhecem um pouco, as pes- Os jovens devem sentar-se no fun- lado dela. Hoje aconteceu um ótimo
soas entram, dão um “oi” para o do do ônibus, o mais longe possível exemplo de boa vontade comi-
atraso, o horário de bater ponto
da ala dos idosos. go no ônibus. Peguei o 8101,
no serviço, o trânsito que não motorista e o cobrador e, geral-
Eu sempre sento no fundo, e O cantor voltando da faculdade, e não
anda e a superlotação. O que mente, sentam em pares para ir
conversando. sinceramente, não sei explicar o tinha nem um lugar. Eu estava
mais teve hoje foi gente olhando 20 de maio de 2008, terça-feira
No horário da tarde, o ônibus porquê. Talvez dê até para medir de bolsa e com minha pasta na
os relógios com cara de aflição. Horário: 7h25
vai mais vazio e dá para reparar como o tempo tem passado de- mão. Parei ao lado de um banco,
Quem pegava serviço às 8 horas,
melhor em como elas se com- pressa pelo lugar que ocupo no tentando não me desequilibrar, e
já podia ir ligando pra avisar que Hoje, o dia no ônibus foi pro-
ônibus. Hoje, sento no fundo e à fui segurando como podia. Como
ia chegar atrasado. portam dentro do transporte veitoso. Serviu para dar umas
medida que os anos passam vou ninguém que estava sentado se
Eu prefiro nem olhar as ho- coletivo. Poucas pessoas cum- boas gargalhadas. De manhã,
progressivamente me sentando ofereceu para levar minha pasta,
ras, mas, de vez em quando, primentam o motorista, acabam ônibus cheio como sempre, e eu
alguns bancos à frente. Um dia um rapaz em pé, do meu lado,
fico sabendo assim mesmo, por- passando sem nem olhar para lá no fundo. De repente, entra
não precisarei mais passar na perguntou se eu queria que ele
que toda hora alguém pergun- ele direito. O cobrador já é mais um moço baixinho, moreno e de
roleta e sentarei nos bancos ver- carregasse.
ta pra outra pessoa – quantas cumprimentado, mas deve ser bigode e começa a cantar.
melhos reservados para idosos e Minha primeira reação foi
horas, fazendo um favor? – e aí porque a pessoa passa muito pró- Um homem cantando músi-
outros usuários que têm esse di- de surpresa, afinal, ele também
não tem jeito. Sou obrigada a xima dele, e o mínimo a se fazer cas dos Beatles pra todo mundo
reito. Quem sabe até lá eu descu- estava em pé e carregava uma
saber que estou muito atrasada é esboçar um sorriso ou mexer ouvir. E cantava com vontade,
bra o motivo da preferência dos pasta. Falei com ele que não
mesmo. um pouquinho o lábio como se bem alto mesmo. No começo,
jovens pelo fundão do ônibus. precisava, mas ele continuou
Estava reparando, hoje, a tivesse dito alguma coisa. Notei todo mundo ficou procurando
educação das pessoas dentro do também que os usuários que pa- quem era e, depois, todo mundo insistindo. Aí uma moça, sen-
ônibus. Quase ninguém oferece gam a passagem com cartão, cos- O teste começou a achar graça. O moço tada no banco, que devia estar
para carregar as bolsas de quem tumam fingir que não tem uma tinha um vozeirão e cantava com prestando atenção na nossa
está em pé. Mas dá pra pensar se pessoa sentada ali de frente pra 13 de maio de 2008, terça-feira uma paixão imensa na voz. Só conversa, resolveu se oferecer
é falta de educação e de boa von- maquininha e passam direto, as- Horário: 14:30h faltou um instrumento musical para levar o material: o meu e
tade ou se é um receio mesmo. sim como fizeram com o motoris- para acompanhar a serenata no o dele. Outras pessoas que esta-
Eu sempre ofereço pra carregar ta. Enfim, a maioria não parece Depois de ficar me pergun- ônibus. vam perto também se oferece-
sacolas, embrulhos e coisas do muito disposta a dar um sorriso tando o porquê de as pessoas O que mais se ouvia era o ram para carregar alguma coisa
tipo, mas, na maioria das vezes, animador ou um “bom dia” em nunca se sentarem juntas quan- seguinte comentário: “Quem de outros companheiros de via-
quando se trata de bolsa, a pes- alto e bom som. Pelo menos, do não se conhecem, resolvi fa- é esse doido?” O homem que, gem, que não tinham o privilé-
soa se recusa a aceitar. Acho que, poucas pessoas fizeram isso hoje. zer um teste. provavelmente, ninguém ali co- gio de estar sentados.
hoje em dia, os cidadãos confiam Na hora de sentar, parece Peguei o ônibus a alguns nhecia estava sendo chamado A atitude dele, além de le-
tão pouco uns nos outros, que a existir uma “regra”: Nunca sente pontos do final e só havia qua- de doido só porque resolveu ir gal, serviu para mostrar que não
gente já nem se oferece mais pra ao lado de um estranho, a menos tro pessoas nele. Como era de cantando no ônibus de manhã. custa nada levar a pasta, sacola,
carregar a bolsa dos companhei- que não haja outra opção. Não re- esperar, cada uma sentada em Tudo bem que isso não aconte- pacote ou qualquer outra coisa
ros de viagem. Vai que eles pen- parei isso só hoje, sempre acon- uma janela. Cheguei e sentei ao ce todos os dias, mas quem sou de quem está em pé, lutando
sem que estamos com alguma má tece quando, nesses horários, o lado de uma moça que estava só, eu pra chamar alguém de doido. para se segurar com uma mão e
intenção! ônibus vai mais vazio. Hoje, um olhando para fora, distraída. Pedi No ritmo frenético em que todos não cair.

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Novembro de 2008 • Página  Extensão universitária - UNI-BH

8101
Linha:
Santa Cruz – Alto Santa Lúcia Diário de ônibus
quem está em pé, assim evita- Muitos passageiros usam a
ríamos um transtorno para nós linha no mesmo horário dos es-
mesmos. tudantes com destino a seus ser-
viços e, geralmente cansados,
não podem sentar nem ter um
O cheiro mínimo de paz para destinarem-
se a mais uma batalha diária.
A principal coisa que noto Para mim, essa deveria ser
quando entro em um ônibus é mais uma sugestão de gentile-
o perfume das pessoas. Nossa! E za urbana a circular nos ônibus.
como não passar despercebido Os estudantes deveriam ter mais
aquele forte e insuportável per- consciência e respeito com os
fume logo pela manhã! Parece outros passageiros que depen-
que algumas pessoas não têm dem do transporte coletivo tanto
nariz, ou então gostam de sentir quanto eles.
aquele perfume que, de tão forte
e doce, se torna um odor.
É pior ainda quando esse Mães e filhos
tenebroso cheiro surge no iní-
cio da tarde, bem na hora do Notei que a maior parte das
almoço, e vem acompanhado crianças que usam o transporte
do aroma de pastel frito. Nesse coletivo estão acompanhadas
momento, juro que seguro o es- por mães e não por pais. E que
tômago com as mãos e começo também essas mulheres, em ato
a pensar em outras coisas para de proteção, deixam suas crian-
dar conta de chegar em casa ças assentarem no banco da ja-
sem passar mal. nela – creio que com o intuito
de que ninguém nelas esbarre e
as machuque. Essa é não só uma
Estudantes atitude feminina, mas, princi-
palmente, materna. A proteção
A linha 8101 é o principal ve- é um ato de legitimar a relação
ículo de transporte dos estudan- familiar entre mãe e filho.
tes de ensino médio da Escola Os filhos, por sua vez, sen-
Fabiana Cristina cômodo causado a passageiros Assim, fica quase impossível Estadual Central. E os estudan- tem-se aconchegados, mesmo
Jornalismo do transporte coletivo. É incrí- passar pelos apertados corredo- tes, logo por volta das 6 horas da que não percebam isso, pois, em
vel como a maioria delas nem res dos ônibus. manhã, lotam o ônibus e, não qualquer ameaça de perigo, logo
nota que está jogando o peso de Se as pessoas tivessem um contentes com isso, fazem ques- podem ser abraçados por suas
Bolsas e mochilas suas enormes bolsas no rosto de pouquinho mais de gentileza, tão de conversar bem alto, rir e mães. E são, principalmente, os
quem está sentado. E quando esse incômodo poderia ser evita- fazer brincadeiras, o que, muitas filhos do sexo masculino que
São, principalmente, as entram pessoas carregando mo- do. A solução seria apenas fazer vezes, causa raiva e incômodo aparentam gostar mais de se sen-
mulheres as autoras desse in- chilas nas costas, então, nossa! o favor de segurar a bagagem de aos outros passageiros. tar no canto da mãe.

Linha: SC01
Circular Observação nos ônibus
Joana Maria Nascimento
Jornalismo
ro 8.000 da Contorno para uma
consulta com meu ortodontista.
que propicia pequenos aborreci-
mentos.
Brasil Mosaico nas, pessoas de origem européia,
asiática, entre outros. Será que
Cumprimento o motorista, coi- Uma outra coisa que pensei 26 de abril - 15:30 – SC01 estamos numa convenção inter-
7 de abril – 14:45 – Linha SC01 sa que a minoria dos passageiros foi que o humor de cada passa- nacional de alguma coisa? Não,
faz. Faço o mesmo com o troca- geiro depende de qual é seu des- Talvez, no interior de um não se trata de nenhuma grande
Embarco no ônibus rumo ao dor enquanto ele me dá o troco: tino ao desembarcar e o que ele ônibus, transporte público mu- ocasião. É apenas uma pequena
núme - um sorriso amistoso. irá fazer depois disso. Pelo horá- nicipal, existem mais reflexões a viagem intramunicipal.
Depois de pagar a minha pas- rio de uma segunda-feira, aquele serem feitas do que nossa cabeça
sagem, ando até o fim do ôni- ônibus não estava composto de pensante possa imaginar. 30 de junho – 18:00 – Linha 1207
bus e sento bem no fundo. pessoas que, ao descerem em É um bom ambiente também
Um ótimo lugar para ob- seus respectivos pontos, fossem para se observar a diversidade Dia 30 de junho de 2008,
A maioria servar os outros passa-
geiros. A maioria não
praticar uma atividade de lazer. existente em cada pedacinho do trânsito caótico na Avenida Pre-
Provavelmente, aquele era um sidente Antônio Carlos, hora do
não gasta gasta nenhum esbo- transporte que os levava para
nosso país.
A cada ponto em que para- rush, pista especial de ônibus lo-
nenhum esboço de ço de sorriso sequer,
nem que seja com o
cumprir alguma obrigação. mos, um número de pessoas en- tada. Os ônibus abarrotados de
Sem conversas de desconhe- passageiros, em pé, sentados.
sorriso sequer, nem motorista, cobrador cidos, sem simpatia ou gestos
tra no ônibus. E nem precisa ob-
servar muito para percebermos Fim da longa jornada de tra-
que seja com o ou passageiro que
estará ao seu lado du-
amistosos. Diferente foi a via- tantas diferenças. balho diária e as pessoas pre-
gem dos de lá da roleta. O can- Nosso país é eclético no que
motorista rante o trajeto. Acho
tinho reservado aos idosos era tange a etnias, ascendências e
cisam esperar, dentro de um
transporte público, que o trajeto
que quem entra num descendências.
mais agradável; eles costumam se descongestione para chegar
transporte coletivo já No primeiro ponto, uma fila
cumprimentar uns aos outros ao descanso do lar.
tem a idéia preconcebida de passageiros sobe. Nesse núme-
e até arriscam trocar algumas A paciência, nesse caso, é
de que aquilo é uma situação ro podiam estar negros, indíge-
frases. quase inalcançada.

1207
Linha:
Betânia – Santa Mônica Um engarrafamento, uma amizade
No fim do carro, perto das A primeira afinidade que brindo mais afinidades entre si. descer, uma despedida calo- Duas adolescentes voltam
duas últimas poltronas e da esca- surge entre ambos: a condição De repente, aquele mo- rosa entre os dois. Telefones da aula de mochilas nas costas,
da da porta traseira, um homem de terem que enfrentar um trá- mento não mais se resume em trocados. Um sorriso amável gargalhadas trocadas. A cumpli-
se recosta, já que não há mais lu- fego praticamente intrafegável. um trajeto num transporte pú- de despedida. Uma amizade cidade no olhar. Estudam juntas,
gar disponível para sentar. Disso, um assunto é gerado. A blico. Algo maior está aconte- criada. vão embora juntas. Aprendem
Em certo ponto, junta-se a pauta: a dificuldade, cada dia cendo. Algo que, realmente, juntas, se divertem juntas. E sor-
toda essa gente mais uma mu- mais aumentada, de se locomo- compense estar preso naquela 18 de julho – 14:15 – Linha 9104 riem naquela grande cidade.
lher. Ela escolhe como lugar para ver na capital mineira. fila de ônibus que andam a 10 Uma senhora carrega uma sa-
aguardar a chegada do seu ponto Como há tempo de sobra, km/h. Lá fora, vidas que acontecem. cola de maçãs. São muitas maçãs,
o assento próximo ao homem re- outros elementos aparecem na Mais de uma hora depois, Não diferente daqui de dentro. talvez um quilo delas. O semáfo-
costado. prosa dos dois, que vão desco- chega o ponto da mulher. Ao Lá fora, movimento. Ação. ro está aberto para pedestres. Do

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Extensão universitária - UNI-BH Novembro de 2008 • Página 

9104
Pela janela do ônibus Linha:
Sagrada Família – Luxemburgo

lado dela, um rapaz – office boy, pura.


aparece. Ele lhe estende a mão, Um pai apressado leva, nos
pega a sacola, alivia a senhora ombros, seu filhinho de apro-
daquele peso. Atenciosamente, ximadamente quatro anos. A
a ajuda a fazer a travessia. Já que criança tem, na mão, uma me-
as pernas da anciã não se loco- rendeira e, nas costas, uma mo-
movem tão rapidamente como chila. Provavelmente, volta da
os carros que esperam no sinal aula. Sua expressão de euforia
gostariam. revela: ele conta ao seu pai como
No ponto de ônibus, um ca- foi mais um dia de aventuras
sal se despede com semblantes na sua vida. O pai, mesmo com
de pesar. Talvez seja sentimento pressa, empresta seus ouvidos à
demais para que fiquem separa- sua criança. E se orgulha do mes-
dos por algum espaço de tempo. mo.
Um beijo longo. E um abraço
sincero.
Quatro garotas andam, cal-
mamente, ao lado umas das ou-
Lá fora, vi
tras. Todas com um sorvete na
mão. Falam ao mesmo tempo. acontecem das que
. Não dife
Atropelam os casos umas das ou-
tras. Sorriem juntas. Desfrutam, daqui de d rente Lá fora, o amor existe. Não
alegremente, de um momento entro. diferente daqui de dentro. Da-
é observado. E quem, um dia, irá
dizer que só existe hostilidade
simples, especial, de amizade qui de dentro, o amor lá de fora neste mundo?

Um dia de tormenta e calmaria Linha: 8205


Maria Goreti – Nova Granada

16 de maio – 17:20 – Linha 8205 sos. Alguns deles até sofrem de


maus-tratos, discriminação. Pre-
Desconsolada, subo os de- cisam viver apenas da aposenta-
graus daquele ônibus. Com um doria que o governo lhes garan-
aparelho que toca mp3 nos ou- te, mas que, muitas vezes, não
vidos, passo a roleta e procuro o lhes é suficiente para uma vida
lugar mais isolado para me sen- confortável.
tar. A última poltrona está vazia. Uma mãe sozinha de menos
Não preciso nem dividi-la ainda de vinte anos de idade se senta
com ninguém. com seu bebê. Estão voltando do
Caso alguém me desse um pediatra, talvez a criança esteja
“boa tarde” sequer, desabaria doente. Nas mãos da mãe, uma
em choro. Por que o motivo do sacola de farmácia. No rosto do
desespero? Insatisfação generali- bebê, uma expressão de dor. A
zada. Uma estudante, na maiori- mãe chora com a criança, talvez
dade, que ainda não tem um em- por inexperiência ou desespero.
prego não deve se sentir infeliz? Muitas vezes, nosso descon-
Amplio meu raio de visão tentamento com a vida não pas-
e paro de olhar somente para sa de ingratidão. Basta um olhar
meu próprio umbigo. Ali, nesse humano ao redor de nós e perce-
ônibus, há um monte de pesso- bemos que problemas estão pre-
as sentadas. Num instante de sentes na vida de todas as pesso-
sobriedade, penso: será que não as. Já dizia alguém: “A cada um
existe alguém ali com problemas de acordo com sua necessidade,
muito superiores ao meu? de cada um de acordo com sua
Antes da roleta, estão ido- capacidade.”

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Novembro de 2008 • Página  Extensão universitária - UNI-BH

Um exemplo de
Jacqueline Martins de Moura
Jornalismo

Antonina Valdez, mais conhecida Perfil


como Juma, é cobradora de ônibus da li-
nha 4310 na empresa Luziense. Trabalha Nome: Antonina Valdez
na função de cobradora há quase 6 anos. Data de Nascimento: 10/05/1969
Juma desempenha a função com muito
amor e dedicação. E é sempre elogiada por Natural de: Ponta Porã - MS
seus passageiros. Estado civil: Solteira
Com um jeito especial de tratar seus
passageiros, é injustiça definir a função Filhos: 4
de Juma apenas como cobradora do ôni- Hobby: Praticar handebol e tae-kwon-do, correr e fazer musculação.
bus. O mais correto seria defini-la como
Profissão: Cobradora / Treinadora
agente de bordo. O agente de bordo, além
de cobrar passagem, tem a função de ter Qualidades: Solidária, gosta de ajudar as pessoas.
um bom relacionamento com os passagei- Defeito: Perfeccionista
ros, procurar atender a suas necessidades
e tratá-los da melhor maneira possível, o Paixões: Crianças, esportes e Deus.
que agrega valor à empresa que presta o Frase como lema de vida: “Retroceder nunca, render-se jamais” e “Deus é minha
serviço do transporte coletivo. fortaleza e meu refúgio”.
A seguir, seguem relatados algumas ati-
tudes e comportamentos da cobradora, que
foram observados durante quatro meses.

Diário do ônibus Quinta-feira, 03/04/2008


alguns passageiros para fazer comentários
maldosos sobre a conquista dela, como
guém havia ligado para a garagem e recla-
mado que o motorista ficava parando fora
“Essa medalha foi comprada onde?”. A dos pontos. Disse que, se déssemos sinal
Estava no ponto esperando o ônibus, alegria era tanta que Juma ignorava esses fora do ponto e ele não parasse, a culpa
Sexta-feira, 28/03/2008
quando ouvi algumas meninas que “pe- tipos de comentários. não seria dele, mas de alguém que tinha
gam” o mesmo comentando sobre algo que A cobradora ainda disse que teria reclamado.
Como de costume, estava esperando o
aconteceu na véspera. No dia anterior, eu mais. Na Meia-Maratona de Betim, ela Víamos certa revolta no olhar de Juma,
ônibus para ir embora pra casa. Já eram
havia ido embora mais cedo devido a um iria correr e, se chegasse entre as cinco que estava muito nervosa e não se con-
quase 23 horas quando avistei o “meu
jogo do Galo no Mineirão, por isso, não primeiras, iria disputar a Meia-Maratona formava com aquilo. Disse que a pessoa
ônibus” da linha Machado de Assis, ago-
sabia do que se tratava. Internacional do Rio de Janeiro. Ela não deveria chegar em casa cedo e não deveria
ra com a numeração alterada para 4310,
Uma das meninas é minha conhecida, deixou dúvidas de que iria batalhar muito ter filhos que estudassem à noite e corres-
aproximando-se do ponto. Ainda pensei
por isso, tratei logo de saber o que tinha para que isso acontecesse. sem risco nos pontos, esperando ônibus,
comigo: “Graças a Deus que hoje ele está
acontecido. Minha colega começou a con- para ter feito tal reclamação.
vindo!”. Como há poucos ônibus na linha,
já sei que o motorista do horário é o Perei- tar o ocorrido com a voz um pouco exal- Segunda-feira, 12/5/2008 A maioria do pessoal que estuda e volta
ra e a cobradora é a Juma. tada, como se estivesse inconformada com pra casa no ônibus com a Juma e o Pereira
No dia anterior, ocorreu um acidente alguma coisa. Nesse dia, passei em casa antes de ir ficou realmente chateada. Algumas vezes,
na Pampulha e o ônibus não passou como Começou a falar que naquele dia, para a faculdade. Por saber o quadro de não dá tempo de chegar ao ponto, mas era
de costume. Então, eu e duas colegas fo- quando o ônibus parou no ponto que fica horários do ônibus, certamente iria no que só dar sinal que eles paravam. Agora, eles
mos para o centro de BH para tentarmos próximo ao Mineirão, vários atleticanos passava às 18 horas, tinha a Juma como não podem parar e, se alguém perder o
outras linhas. entraram. Logo que entraram, Juma per- cobradora. Além de ter atrasado uns dez transporte, o próximo só passa depois de
Ao entrar no ônibus, cumprimentei o cebeu que eles iam pular a roleta; levan- minutos quando apareceu, veio acompa- quase 1 hora.
motorista, a cobradora e me sentei. Al- tou-se do lugar e ficou na frente da roleta nhado de uma viatura.
guns minutos depois, Juma chamou algu- para impedir a passagem. Foi um verdadei- Entrei no ônibus um pouco assustada, Segunda-feira, 07/06/2008
mas pessoas na roleta, inclusive a mim, e ro bate-boca. então, a cobradora já me indagou sorrin-
pediu o número do celular de cada um. Ela Os torcedores queriam pular de qual- do: “Gostou da companhia, Jacky?”. Ape- Nesse dia, sabia que, no ônibus, seria
pegou os números com a intenção de nos quer forma, mas Juma continuou firme nas sorri para ela e questionei o motivo de uma festa. Já sabia que Juma havia che-
avisar quando ocorrer outro imprevisto; no lugar onde estava. Alguns passageiros a polícia acompanhar o ônibus. gado em 5º lugar e havia sido classificada
assim, não esperamos em vão. A garagem, ficaram assustados, outros ficaram com Segundo Juma, ao vir do Centro para para a Meia-Maratona do Rio de Janeiro.
no dia anterior, mandou que os ônibus se medo do que os torcedores poderiam fazer. o bairro, dois adolescentes entraram no De fato, foi uma festa. Juma levou a meda-
recolhessem; isso sem se preocupar com as Estes ameaçaram a cobradora, que não se ônibus e se sentaram na parte da frente. lha. Chegou em 5º lugar na tropa de elite
pessoas que precisam do transporte para intimidou diante da situação em que se Procurando fazer o seu trabalho, ela logo e mostrava a medalha para todos os passa-
voltar pra casa. encontravam. foi cobrando a passagem dos garotos, que geiros que entravam no ônibus.
Confesso que achei surpreendente a Nesse dia, quando entrei no ônibus, se recusaram a pagá-la. A cobradora en- Ela estava muito feliz e contou que a
iniciativa dela, porque se preocupar com Juma já me abordou para contar o que ha- tão solicitou aos dois que descessem do corrida teve algumas partes engraçadas.
os passageiros é raridade. Nesse dia, come- via acontecido na véspera. Cada vez que coletivo, e eles, aos gritos, a ameaçaram Disse que ela passava correndo e alguns
cei a prestar mais atenção em suas atitu- entro e é a Juma que está no banco do antes de descer, dizendo que sabia que ela homens e mulheres mexiam com ela – “...
des e percebi que ela não é apenas uma “agente de bordo”, a emoção de ouvir ou iria para o bairro e voltaria pelo mesmo Eu passava e uns homens gritavam ‘ô gosto-
cobradora, mas sim uma agente de bordo presenciar uma nova história é inédita. local. Disseram que estariam esperando sa!’, e eu ficava me achando; teve uma hora
que dá atenção aos passageiros. por ela. também que eu passei e uma mulher gorda e
Juma conhece o rosto de todos os seus Segunda-feira, 07/04/2008 Como Juma é do bairro, ela conhece feia gritou comigo, dizendo que estava cheia
passageiros, conversa com quase todo a maioria dos passageiros. Um dos garo- de celulite. Aí eu não agüentei, disse pra ela ir
mundo, percebe com facilidade e comen- Além de Juma trabalhar como cobrado- tos que a ameaçaram tinha um irmão que, ali correr então no meu lugar...”
ta quando há algum “novato” ou quando ra, ainda encontra tempo para correr. Aos dias antes, havia saído da prisão. Por te- Juma estava muito satisfeita com o seu
falta alguém. Sabe a maioria dos pontos 39 anos, é uma maratonista acostumada mor à segurança do motorista e dos pas- desempenho na corrida, que lhe rendeu a
em que cada passageiro desce do ônibus; a ganhar medalhas. Ao entrar no ônibus, sageiros, pois ela mesma diz não ter medo, oportunidade de correr em outro estado e
se tem algum dormindo, quando está pró- todos viram a alegria estampada no rosto resolveu avisar a polícia, que escoltou o já estava fazendo planos para a próxima
ximo do ponto, ela o acorda. de Juma por ter conquistado uma medalha ônibus, garantindo a segurança das pesso- corrida, que será em setembro.
A cobradora trabalha na linha já vai fa- na maratona da Linha Verde. Chegou em as que estavam a bordo.
zer 4 anos e é uma profissional que cumpre
à risca os seus afazeres sem se deixar inti-
12º lugar na tropa de elite e em 5º lugar na
categoria de 35 a 39 anos. Quarta-feira, 28/05/2008
A palavra da
midar por alguma coisa. Ninguém fica no Juma treina pesado todos os dias. Corre personagem
ônibus sem pagar, a não ser os passageiros na orla da lagoa da Pampulha e ainda faz Depois de mais um dia de trabalho e
que têm o cartão de passe livre em mãos. academia para, segundo ela, não ganhar aula, entro no ônibus para ir para casa; no Antonina Valdez - a Juma
Se entra algum desconhecido no ônibus e quilinhos indesejáveis que possam intervir volante, o Pereira e, no assento de cobra-
se assenta nos lugares à frente da roleta, em suas atuações. dor, a Juma, como de costume. Cumpri- São as pessoas que reconhecem meu
ela já se levanta e cobra a passagem; se a A maioria dos passageiros que entra- mentei os dois e eles apenas responderam. trabalho que me fazem trabalhar da mes-
pessoa se recusa a pagar, ela pede para o vam no coletivo eram surpreendidos pelos Nesse dia, eu vi que o “clima” não estava ma forma como quando entrei na empresa,
motorista parar no próximo ponto. gritos de felicidade da cobradora, que exi- muito bom, tinha acontecido alguma coi- com a mesma empolgação, com a mesma
Quando fui descer do ônibus, ela se des- bia a sua medalha com um orgulho imen- sa. força e garra, cuidando dos meus passagei-
pediu com um “Tchau, vai com Deus e bom so. Os passageiros a cumprimentavam pelo Quando o coletivo já estava cheio, ros como se fossem de bibelô.
descanso!”, como fez com todos os outros feito, o que a deixava ainda mais empol- quase chegando à entrada do bairro, Juma Trato todos os meus passageiros com
passageiros que desceram antes de mim. gada na comemoração. Claro que havia pediu a atenção de todos e disse que al- muito carinho. Para meus idosos terem

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Extensão universitária - UNI-BH Novembro de 2008 • Página 

agente de bordo

Para meus idosos terem seus direitos respeitados,


eu trago sempre comigo a cartilha dos idosos.

seus direitos respeitados, eu trago sempre Já aconteceram casos de vândalos do Essas pessoas aí têm cheiro para mim. ponto para ver se não tem ninguém cor-
comigo a cartilha dos idosos, deficientes fí- Mineirão – claro que nem todos que vão Quando entrei na empresa, fui treinada rendo atrás do ônibus ou dormindo no
sicos e todos que têm direito à prioridade. ao Mineirão são vândalos! – entrarem no pelos melhores – o cobrador Araújo e o ponto. As pessoas se confundem, são
Isso é para que, se alguém normal achar ônibus e quererem pular a roleta e quebra- Anderson, que já viraram motoristas, distraídas, ficam pensando na vida e não
que tem mais direito que eles, eu mostrar rem o carro e eu impedi. Entrei na frente a Bete e o Bispo, que eram motoristas, vêem o ônibus. Nesses casos, eu entro
minha cartilha, e, às vezes, pergunto se deles e fiquei na frente da roleta; e eu es- mas já saíram da empresa, e os fiscais em ação. Já fiz o motorista parar uma vez
eles não têm mãe, pai, vó, vô ou esposa. tava grávida de seis meses. Até hoje, não Valdir e Roberto, que também deixaram e falar para a pessoa: “E aí, vamos para
Então, as pessoas pensam duas vezes antes deixo pular a roleta de forma alguma. a empresa. Coloco em prática tudo que casa hoje ou você não vai?”. A pessoa
de responderem ou se recusarem a ceder Uma vez, entrou gente no carro chei- aprendi com eles. Estou onde estou hoje assusta, entra no ônibus e agradece por
o lugar. rando cola, junto com três grávidas que graças a eles, a mim, a Deus e aos espor- não ter deixado ela no ponto.
A frente do ônibus que eu trabalho estavam sentadas na parte da frente do tes que eu pratico, pois o esporte não me Uma vez, fiquei muito triste, porque
está sempre vazia. É engraçado que, sem- ônibus, e coloquei-os para correr. Ainda deixa estressar e nem levar para casa os o trânsito estava congestionado e alguns
pre quando o ônibus está cheio e só tem tem aqueles caras que entram no carro problemas do trabalho e vice-versa. alunos, que voltam da faculdade ou es-
os lugares da frente, algumas pessoas me com a namorada, geralmente sexta-feira Eu desconto minhas chateações sem- cola comigo, ficaram no ponto até qua-
pedem até permissão para se sentarem. à noite, todos engomadinhos com cara pre nas pessoas que me provocam e não se meia- noite esperando ônibus. Ficar
Isso não quer dizer que eu me descuido de festa, virar para mim e falar que não nas pessoas agradáveis, mas, quando não mofando no ponto ainda nesse horário
dos passageiros que passam a roleta, afi- têm dinheiro para pagar passagem. Eu não consigo, coitado do meu professor de não é mole! Agora tenho o número do
nal, são eles que pagam o meu salário e o brigo; apelo pro lado da garota e pergunto tae-kwon-do, do saco de areia do boxe, celular deles; se isso ocorrer novamente,
do meu motorista. Procuro sempre ajudar ela: ‘Como você tem coragem de sair com um dos aparelhos de musculação ou do meu vou poder avisá-los.
a todos da melhor maneira possível, com cara que não tem dinheiro nem para pagar a tênis de corrida, pois, na maioria das ve- Vocês devem ter percebido que me
educação, e ajudando com sacolas pesa- passagem? Com certeza, sua mãe não te criou zes, são neles que desconto minha raiva. refiro ao ônibus, ao motorista e aos pas-
das, mochilas e até com crianças de colo. para isso, você merece coisa melhor, tão boni- Às vezes, choro, também sou feita de sageiros como ‘meu ônibus’, ‘meu mo-
Às vezes, tenho até que sair do lugar para ta...’. Elas ficam putas da vida e começam carne e osso, mas não deixo transpare- torista’ e ‘meus passageiros’, mas é isso
ajudar as pessoas embarcar ou desembar- a brigar com eles e descem do carro. cer; as pessoas não têm nada a ver com mesmo. Sou muito egoísta e esse é meu
car do carro... Sem falar naqueles caras que entram os meus problemas. jeito carinhoso de falar deles.
Não aceito engraçadinhos no meu no ônibus pingando cachaça, viram pra Procuro ajudar a todos da melhor ma- Faço um trabalho voluntário no
carro ou vândalos que possam prejudicar mim e falam que não têm dinheiro e que neira, com um sorriso, ou com um “Tudo Núcleo de Assistência Caminhos para
a viagem das pessoas de bem. Eu sempre foram assaltados. Eu digo pra eles desce- bem?” ou um “Como você está?”; é mui- Jesus, onde cuido de idosos e crianças
falo que eu e meu motorista só carrega- rem do ônibus e voltarem para o bar no to bom ouvir isso, ainda mais quando com deficiência três vezes por sema-
mos passageiros filé, as melhores pessoas qual eles foram assaltados. você teve um dia daqueles. Meus pas- na. Minhas paixões e alegrias e meus
do mundo. Os vândalos e maus pagadores Os que dão mais trabalho são aqueles sageiros sempre me perguntam se eu amores se resumem em meus filhos, as
eu deixo para quem gosta de carregar, ou que sobem e sentam atrás do motorista, não tenho problemas nunca, pois estou crianças e idosos da instituição e meu
finge que não está nem aí com o que vê, com o cabelo amarelo, espetado, de boné, sempre sorrindo, brincando, ajudando a trabalho e meus esportes. Juntando
só pensam na empresa nos dias 5 e 22 para bermuda e camiseta. Eles acham que estão todos, fazendo o melhor para melhorar o tudo isso, tenho a satisfação e o senti-
receberem, sem olhar para os lados para se escondendo do motorista, mas a peli- resto do dia dos meus passageiros. mento de dever cumprido, com a ajuda
ver as necessidades dos passageiros. nha sou eu. Estou sempre atenta na rua ou no de Deus.

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Especial Morro da Pedras


No NAF/CRAS as coisas acontecem

Joana Maria Nascimento Constituição, se transformou em ção básica. O CRAS também tem mília procura o NAF/CRAS, ela é de recreação.
Jornalismo dever do Estado e direito de todo grande papel de articulação com encaminhada para serviços que a O Programa Agente Jovem,
cidadão. Ela compõe o tripé da se- as demais políticas sociais além da atendam nessa lógica de proteção para adolescentes de 15 a 18 anos,
O NAF/CRAS (Núcleo de guridade social junto com a previ- saúde. Tal como a educação. Pre- social básica. é um espaço para a sociabilidade
Apoio Familiar/Centro de Refe- dência e com a saúde. vine situações de risco e não tem A Casa do Brincar atende a fa- do jovem, que, com atividades em
rência em Assistência Social) é Em 2004, a Política Nacional atendimento universal, porque mílias com crianças de 0 a 6 anos. grupo, visa à inserção do mesmo
um equipamento da política mu- de Assistência passou por um pro- cada território possui seu próprio Trabalha a questão do vínculo fa- no mercado de trabalho. Também
nicipal de assistência social. O cesso de reorganização. Existem núcleo. Em Belo Horizonte, são miliar, da importância do brincar trata do protagonismo juvenil, que
CRAS foi o ponto de apoio da duas grandes lógicas de proteção 15 NAFs/CRAS, que estão locali- no desenvolvimento infantil. faz com que o jovem, desenvolva
equipe do Jornal da Rua para fazer social: uma é a proteção social bá- projetos sociais.
as matérias sobre o Morro da Pe- sica, e a outra é a proteção social O Grupo de Convivência para
dras. Eliete Resende Costa, forma-
da em Serviço Social, coordenou
especial. A violação de direitos e
o risco social são o que difere uma
O NAF/CRAS é um equipamento a terceira idade ressalta a impor-
tância da convivência especifi-
esse Centro na Regional Oeste da da outra. da política municipal camente para essa etapa da vida.
PBH e falou ao Jornal da Rua so-
bre as atividades do CRAS.
A proteção básica tem uma
rede de serviços que trabalha na
de assistência social. Esses são os cinco serviços da pro-
teção social básica.
A assistência se estrutura como lógica de prevenção, parece com o Existe outro eixo também que
prestação de serviço em um siste- SUS no sentido de esse ser a por- zados em territórios de maior vul- O Programa de Socialização é a inclusão produtiva, que se dá
ma – Sistema Único de Assistência ta de entrada para a procura de nerabilidade. Tal característica é Infanto-Juvenil é para crianças na pela assistência social por meio de
Social (Suas). Esse sistema atende recursos na saúde. O CRAS tem mapeada por indicadores pesqui- faixa etária de 6 a 14 anos, que, cursos de qualificação profissional
a famílias que vivem na demanda essa mesma função. É através dele sados no município. depois do horário da escola, vão executados pelo Qualificart, e é
da assistência social, que é uma que a família passa a ter acesso a Em 2002, eram 9 NAFs/CRAS; para uma ONG e lá desenvolvem através do NAF que a pessoa tem
obrigação pública que, a partir da uma série de serviços de prote- hoje, já são 15. Quando uma fa- várias atividades socioeducativas acesso a esses cursos.

A luta de uma mãe


Anna Carolina Torres força para sugar. Ela lembra que o cializada do INSS, onde Caio es- ao pedido da afilhada, ela foi até o mava Maria Aparecida. Eu não
Jornalismo filho tinha baixa resistência e fica- tudou por algum tempo. Mesmo Fórum para tentar adotá-la. Foi aí consegui adotá-la, e as duas vezes
va doente com muita freqüência. assim, ele não se adaptou bem e que sua história e a de Caio come- em que fui até o Fórum tentar só
Dona Maria, antiga moradora Para cuidar dele, dar os remédios a mãe não teve outra escolha a çaram a mudar. serviram para me mostrar o cami-
do Morro da Pedras, nunca tinha e não deixá-lo sozinho, ela e o ma- não ser tirá-lo da escolinha. “Ele Caio sempre ia com a mãe para nho para o futuro do Caio”, afirma
ouvido falar em síndrome de Down rido se revezavam durante a noite. ficava em casa comigo e eu sempre qualquer lugar. Uma funcionária Dona Maria.
até o dia em que seu primeiro filho “Eu dormia um pouco e acordava me preocupei em dar tarefas para do Fórum, vendo-o, perguntou a Na Imprensa Oficial, Caio
nasceu. Na época, ainda não era meia-noite para ficar com ele; en- ele. Não queria que ele fosse uma D. Maria por que ela não colocava não recebia salário no início; o
possível saber se a criança era por- quanto isso, meu marido dormia. pessoa inútil. Ele lavava vasilha, Caio para trabalhar na Imprensa trabalho era apenas um estímulo
tadora de necessidades especiais De manhã é que eu podia dormir cortava papel e até ia com o pai Oficial. Deu a ela uma carta, en- para o seu desenvolvimento. A
durante a gravidez. Dona Maria de novo”, conta ela. dele ajudar a consertar barracões. caminhando Caio para um tra- mãe é quem dava o dinheiro para
deu a luz a Caio através de uma Foi só aos três anos que Caio Uma vez, ele chegou com o pai balho. “Eu achava que não ia dar que a empresa entregasse para ele
cesariana e foi aí que o médico lhe conseguiu dar seus primeiros pas- com as unhas cheias de cimento, certo, que eles não iam querer ele como se fosse o pagamento. Dona
informou que seu filho era uma sinhos e isso foi uma vitória para e eu olhei para ele e me deu uma lá”, diz Dona Maria. Maria lembra que Caio gostava
criança que precisaria de cuidados Dona Maria. “Mães que cuidam dor no coração, dessas dores que Mesmo assim, ela não desani- de muito dinheiro e, por isso, ela
especiais. Explicou que Caio iria de crianças como ele têm que ter a gente não conta pra ninguém. mou e, saindo do Fórum, foi com o juntava muitas notas de um real
se desenvolver mais lentamente, garra, muita garra, que a recom- E eu pedi a Deus que já que ele filho até a Imprensa. Nessa época, para dar um pacotão. “Ele ficava
ter algumas dificuldades, e que era pensa acaba chegando. Houve um tinha me dado ele assim, que ele ele tinha 14 anos e não foi acei- numa felicidade só quando rece-
preciso muito cuidado e paciên- dia em que me olhei no espelho e abrisse uma porta para ele”, conta to para o trabalho. “Eles disseram bia o tal pagamento”, lembra ela.
cia. Nesse dia, começou a luta de estava acabada, magra, com os os- Dona Maria, emocionada. que ele era muito pequeno ainda, No início, era preciso levar e bus-
Dona Maria, que reuniu todas as sos tudo para fora de tanto correr Um dia, Dona Maria, que é que não alcançava as mesas e que car o garoto todos os dias, e foi
suas forças para cuidar do filho. para lá e para cá. Mas não medi muito querida por todos os mora- era para voltar depois de um tem- assim durante os seis primeiros
Desde o início, as dificuldades esforços para cuidar dele, nunca dores do Morro das Pedras, bati- po. Saí de lá muito triste”, conta. meses. “Mas eu tinha que deixá-
surgiram no caminho de Dona Ma- pensei em desistir”, afirma ela. zou uma criancinha, que acabou Um dia, Dona Maria voltou lo andar com as próprias pernas,
ria, pois ele era seu primeiro filho Conseguir escola para ele foi sendo adotada por um casal sem ao Fórum, e a moça que havia lhe não podia fazer dele uma pessoa
e ela era ainda inexperiente. Caio um problema, já que Caio não filhos. A mãe adotiva ficou cega, e dado a carta perguntou se o traba- completamente dependente. Co-
não conseguiu mamar no peito, e conseguia acompanhar as outras a menina, que ia muito à casa de lho havia dado certo. Contando o mecei a ensiná-lo a atravessar
era preciso tirar o leite e colocar na crianças da sua idade. A solução Dona Maria, pediu que ela tomas- que havia acontecido, a funcioná- as ruas, olhar para os dois lados
mamadeira porque ele não tinha veio através de uma escola espe- se conta dela. Resolvendo atender ria disse que era para ela voltar lá e pegar o ônibus correto”, conta
novamente, levando a mesma car- a mãe. Durante três meses, ela
ta da outra vez. A mãe de Caio, acompanhou o filho de longe para
mais uma vez, voltou à Imprensa ter certeza de que ele faria tudo
Oficial em busca de uma oportu- certo. Quando teve certeza de
nidade para o filho. que ele havia realmente aprendi-
Chegando lá, havia um novo do, ela parou de acompanhá-lo e
diretor, e Dona Maria explicou a afirma que ele precisa dessa liber-
situação a ele, que disse que Caio dade para se desenvolver como
teria que passar por um teste. “No qualquer criança.
dia do teste, eu levei o Caio e ele Com o tempo, Caio acabou
já chegou cumprimentando o ra- sendo efetivado na Imprensa Ofi-
paz que conversaria com ele. Eles cial e, com 27 anos de serviço, ele
estavam em uma sala e o telefo- já está quase aposentando. “Eu me
ne tocou. Como estava perto do sinto compensada, feliz, por ver
Caio, ele atendeu e entregou para que ele chegou até aqui. Vê-lo fe-
o moço. A iniciativa dele surpre- liz é minha maior alegria. A gente
endeu o rapaz”, lembra a mãe. nunca deve negar aquilo que Deus
Uma semana depois, a opor- manda pra gente. Se a gente abra-
tunidade que Dona Maria tanto ça com amor, Ele mostra o cami-
esperava para o filho se concreti- nho, dá o retorno”, conta a mãe,
zou. Ligaram da Imprensa Oficial sorrindo.
falando que Caio havia sido apro- Hoje, Dona Maria tenta ajudar
vado para trabalhar lá. “Eu acredi- outras mães que têm filhos com
to que a menina que tentei adotar síndrome de Down, contando sua
foi Nossa Senhora Aparecida que história e a vitória de Caio, que
passou por minha vida, abrindo atualmente, com 48 anos, é uma
uma porta para o meu filho. Ela pessoa carinhosa, trabalhadora e
era negra como a santa e se cha- bem-sucedida.

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O Congado no Morro das


Pedras é motivo de orgulho
Fabiana Cristina a gostar. No Grajaú, existia uma ’’Meu marido e os ir-
Jornalismo sede do Congado, que era che- mãos dele tomavam
fiada por Sr. Ozório, e os nossos banho lá, e minha
Dona Maria José da Silva Sou- santos de devoção são Nossa Se- mãe lavou muita
za tem 68 anos e mora no Morro nhora do Rosário, São Jorge e São roupa nesse córrego.”
das Pedras desde os quatro anos Benedito. E o que eu mais gostava Ela também conta
de idade. Seus pais eram da cidade de fazer era desfilar no Congado. que era muito bom
de Ressaquinha e, quando se ca- O Congado saía lá pelas onze ho- quando sua mãe la-
saram, vieram morar em Belo Ho- ras da noite para buscar a rainha, vava roupas para os
rizonte. ‘’Aqui no Morro, as casas rezar terço, essas coisas de conga- padres, e ela ficou
podiam ser contadas nos dedos, do, né!’’ Ela completa que o mais fazendo isso por uns
não tinha ônibus e nem a Igreja interessante do Morro ainda é o 30 anos. Foi por esse
Sagrado Coração.” Congado. motivo que sua famí-
Sra. Firmina, mãe de Dona Relembrando os velhos tempos lia ficou muito amiga
Maria José, faleceu aos 91 anos, no Morro, Dona Maria diz que as dos padres.
há aproximadamente dois anos. pessoas se conheciam mais, que Atualmente,
Ela era benzedeira, e muita gente todo mundo era comadre e com- Dona Maria mora
vinha de longe para tirar mau- padre e confessa que muita coisa no bairro Regina, em
olhado, quebranto e cobreiro. melhorou, vieram o ônibus e a luz, Ibirité, mas diz que
“Também vinham muitas pesso- por exemplo. Mas, com essa me- não fica sem ir ao
as com dores para a minha mãe lhoria, algumas coisas pioraram, aglomerado, princi-
benzer – porque é a fé que cura, como a violência, as brigas cons- palmente porque fre-
né! Mas ninguém da minha casa tantes e as mortes. ‘’Inclusive a qüenta, pelo menos saudável e limpa.” E esse também mãe, por isso, ela achou necessá-
aprendeu a benzer com a minha Padaria Maru está fechada nesta duas vezes por semana, as palestras é um dos motivos por que Dona rio ter uma casa maior e com mais
mãe, porque eu acho que benzer semana por causa dessa violência. no Centro de Vivência Agroecoló- Maria diz não ter preguiça de sair quartos. “Mas tudo que eu vivi
é um dom.” Ninguém pode ficar até mais tarde gica (Cevae), onde pode desfrutar de onde mora, atualmente, para aqui nunca vou esquecer, porque
A entrevistada diz ter muita na rua, a gente tem medo até de de muita alegria e companheiris- poder ir ao Morro das Pedras. foi aqui que eu morei dos qua-
lembrança boa do Morro. “Meu sair de casa.” mo. “Lá, nós podemos participar O Morro das Pedras proporcio- tro aos dezesseis anos, casei, criei
pai, Francisco Lindolfo, mais co- Dona Maria ainda conta que, de aulas de informática e culiná- nou a Dona Maria boas lembran- meus primeiros filhos, e morei por
nhecido como Chiquinho, era onde hoje é a Avenida Barão Ho- ria, e, na época de Páscoa, a gente ças, e ela só diz ter saído da região mais dezessete anos. E eu ainda te-
rezador de terço e fogueteiro do mem de Melo, era um córrego, e aprende a fazer ovos de chocolate. porque sua família foi crescendo e nho dois irmãos e alguns parentes
Congado e foi assim que comecei ela buscava água para a família lá. Temos também verdura fresca, ela morava nos fundos da casa da do meu marido por aqui.’’

Mania de ter fé na vida


Dona Maria, da padaria Maru

Muitos moradores não conhe- da comunidade. Mas ainda cami- minha padaria a porta de entrada
cem a história do próprio bairro nhávamos uma boa distância até do morro.
ou comunidade onde vivem. Prin- o ponto. O problema era o barro Os moradores mais antigos
cipalmente os mais jovens. Eu, quando chovia. As ruas não eram mesmo não moram mais aqui. Al-
por exemplo, moro na favela há asfaltadas. Precisávamos descer de guns morreram e outros simples-
46 anos, na mesma casa onde criei chinelo e trocar de sapato den- mente mudaram de bairro. Pra fa-
meus filhos. E posso dizer que co- tro do ônibus. Carregávamos um lar a verdade, muita coisa mudou
nheço gente de perder de vista que pano úmido na bolsa, dentro de nos últimos anos. Apesar de todo
mora por essas bandas. A minha um saco plástico, pra limpar os pés mundo ser conhecido e amigo um
casa, que hoje é grande, já foi um de lama. Só alguns anos depois e do outro por aqui, a confiança
barraco de quatro cômodos que, com muita luta é que conseguimos que se tem hoje nas pessoas não é
no decorrer dos anos, eu conse- fazer com que algumas linhas de mais a mesma. Sem falar na falta
gui ampliar, construindo mais um ônibus subissem até a entrada do de segurança. A violência não fa-
pedacinho aqui, outro ali. Como Morro. zia parte da vida na comunidade.
eu sou de Bom Despacho, e no Quem tem comércio aqui sem- Hoje, quando dão oito horas da
interior não existe favela, eu não pre exerceu muita influência na noite, você não vê mais ninguém
sabia o que era uma favela quando comunidade. As pessoas que me nas ruas. Quando eu vendia café Dona Maria e Sr. Maru têm orgulho de morar no Morro das Pedras
vim morar no Morro das Pedras, conhecem, por exemplo, sabem da manhã, e mesmo quando eu
com dois anos de casada. Lembro que podem contar com o meu te- tive o bar, podíamos andar por pra dar, a família caminha junto e aconteceu por aqui foi a instalação
as recomendações do meu marido lefone, como referência, quando aí, a qualquer hora, sem medo. a comunidade respeita. Como eu da luz elétrica, que meu marido
quando ele saía pra trabalhar. Mas são candidatas à vaga de um em- Só a minha padaria foi assaltada soube educar meus filhos, nenhum ajudou a trazer pra comunidade.
aqui era muito calmo, muito tran- prego, ou na compra de um mó- mais de vinte vezes no período de deles tem vício e todos trabalham. É verdade. Com a rede de esgo-
qüilo. Eu não precisava ter medo vel ou outra mercadoria qualquer. um ano. Mas isso há quatro anos. Outra coisa que me faz muito feliz to aconteceu a mesma coisa. E a
de nada. E meus filhos ainda perguntam: Passávamos o mês praticamente é morar ao lado do ponto de ôni- água encanada também. Isso sem
Sempre ganhamos a vida no mãe, por que a senhora anda sem- aguardando o dia de sermos assal- bus. Daqui no Centro da cidade falar na Associação dos Morado-
Morro. Começamos com um bar- pre ocupada? É porque o telefone tados. De quinze em quinze dias, são quinze minutos de viagem. res, na Associação das Donas-de-
zinho, que servia café da manhã não pára de tocar. Sempre que al- mais ou menos, acontecia um as- E mais, não tem quem passe por casa e na Creche Dona Benta, a
bem cedinho. Nessa época, não guém pisa na padaria, eu tenho um salto. Diziam que tinha a ver com mim que não me cumprimente. primeira a ser construída desse
existia nada aqui. Onde hoje é a recado pra dar. Essa é a maneira a rivalidade entre gangues de um Eu fico até com vergonha. É Dona lado do morro. Tudo com a ajuda
Avenida Silva Lobo e a Avenida que encontrei de ajudar a comu- lado e de outro do morro. Foram Maria pra cá, Dona Maria pra lá, dele, que só parou depois de sofrer
Barão Homem de Melo passavam nidade. Eu gosto de muita gente tantas ocorrências que eu até perdi o tempo todo. É esse carinho das um derrame cerebral. Meu mari-
dois córregos poluídos. E o restante aqui que também gosta de mim. E as contas. Hoje diminuiu bastante. pessoas que me faz realmente fe- do, Maru, é parte muito importan-
era mato. Só existia a Raja Gaba- a minha padaria não é um ponto Acho que o policiamento ajudou. liz. Mas confesso que não é fácil. te da história desta comunidade. E
glia, que também era bem menor de referência em função, somente, Além, é claro, da mobilização dos Às vezes, eu fico cansada só com assim vimos a favela crescer, aju-
do que é hoje. Ônibus não circu- do telefone. É também uma refe- comerciantes, que chamou a aten- a quantidade de recados que eu dando no seu desenvolvimento,
lava por aqui. O ponto mais próxi- rência de afeto, um ponto que as ção da televisão e ajudou a trazer tenho pra dar. acompanhando cada mudança. E
mo ficava na Avenida Amazonas. pessoas freqüentam pela amizade o policiamento pra cá. Era uma A única coisa da qual sinto parece que foi ontem.
E o único comércio que existia só construída ao longo desses anos, e dupla de policiais durante o dia e falta na comunidade é a liberdade Com relação às obras do PAC
vendia cereal. Quem quisesse pão que só fez aumentar com o passar uma à noite. de ir e vir. Sem falar nos jovens de (Programa de Aceleração do
e leite, comprava na minha mão. do tempo. Eu sempre gostei e continuo hoje, que vivem deprimidos, sem Crescimento), eu espero que se-
Com o tempo, transformamos o Como não existia uma asso- gostando muito de morar aqui. ter o que fazer, sem lazer. Nem a jam cumpridas e tragam melhorias
barzinho do café da manhã num ciação comunitária do bairro, a Eu penso que qualquer lugar pra festa junina, que um dos meus fi- pra comunidade. Eu sou a favor
bar de verdade, até construirmos minha padaria, que também fica se morar, pra se viver, só pode ser lhos ajudava a organizar, perto de das obras e só estou esperando pra
a padaria que temos hoje. na entrada da favela e sempre bom quando temos fé em Deus e casa mesmo, existe mais. Aliás, ver o que vai dar. Novas moradias,
Conseguimos, nessa época, funcionou das seis da manhã às somos muito firmes com a gente festa era o que não faltava. Disso centros de aprendizagem e lazer,
por meio de abaixo-assinado, tra- dez da noite, virou esse ponto de mesmo. Quando somos pessoas eu também tenho saudade. mais ruas asfaltadas, é tudo o que
zer uma linha de ônibus pra perto referência que é hoje. Considero a direitas e temos um bom exemplo A coisa mais marcante que já eu gostaria de ver acontecer.

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Novembro de 2008 • Página 12 Extensão universitária - UNI-BH

Paulo Cesário da Silva


o Paulinho do “Dois Toque na Bola”

Paulo Cesário da Silva, mais didato para a associação de mo- medida que você dá ouvido a ele da. Até hoje tem isso ainda, não o vôlei, o basquete e várias outras
conhecido como Paulinho, tem 51 radores estava com 33 anos. E na e ouve o que ele está falando para tem o controle, é uma coisa muito atividades. A gente conseguiu
anos, é casado e tem dois filhos. época foi interessante, por que fui criar uma proposta, você passa a complicada. Ai eu resolvi de vez uma parceria com o CEFET, então
Mora no Morro das Pedras desde um dos presidentes mais bem vo- ter uma credibilidade com esse jo- me envolver nesse mundo. Resol- usamos o espaço físico do campo
os 5 anos de idade. Diz que veio tados aqui na região. Foram mil vem. Aí você passa a ser a referên- vi ver o mundo com outro olhar, e do ginásio de lá, coisa que aqui
morar no local por falta de recur- e trezentos votos, foi uma parti- cia. E hoje, em vários aglomerados não aquele do passado. A gente vê no morro infelizmente não tem. É
sos financeiros. Como o aluguel cipação muito legal da comuni- não tem esse tipo de pessoa. En- a necessidade de fazer muito mais. isso mesmo, um campo oficial que
era mais barato, mudou-se para dade. Olha, quando eu assumi tão o jovem fica aí à mercê, enten- Hoje estamos com 140 crianças, tinha arquibancada, era fechado,
a favela. Ele, que é uma das lide- e peguei essa bandeira que foi da deu?... Expõem-se demais, toda adolescentes e jovens, trabalhan- tinha vestiário e água. É o básico!
ranças locais, contou um pouco da minha mãe, eu dei continuidade hora. Vem o interesse pelo dinhei- do e envolvidos com a gente, Eu acredito muito nesse trabalho
sua história para o Jornal da Rua: ao trabalho dela, que é um pro- ro, moto, tênis, marcas e essas coi- mas é muito pouco ainda, porque preventivo, pois para combater
“Na favela você tem isenção cesso de melhoria de vida para sas todas. Aí o envolvimento dele essa aproximação nossa com o jo- a violência, a criminalidade, o
de aluguel e impostos. Nós éramos essa comunidade. Até então eram é muito grande... para o lado do vem dá para a gente o seguinte: a tráfico e essas coisas todas, você
7 irmãos e a minha história no poucas famílias que tinham luz e crime. Eu até tô falando um pou- oportunidade de conhecer melhor tem que ter equipamento público,
Morro foi assim – tínhamos uma água, e nós demos prosseguimento co do passado, mas hoje eu tenho aquela família. A única forma que para dar condições às pessoas. Se
vida muito complicada e muito di- a esse trabalho, a rede de esgoto vários trabalhos com jovens e des- nós achamos foi através da bola. você colocar um ginásio poli-es-
fícil na época, nós mal nascemos e era a céu aberto, então não tinha sa forma tenho uma outra visão. Então a gente usa a bola como portivo, além de ser usado para
já encaramos uma dura realidade nada aqui no Morro. A gente con- Meu primeiro trabalho foi na Cera uma forma para aproximar da si- praticar esportes, pode ser usado
no mundo, que era ajudar a fa- seguiu através de muita luta, com Inglesa, eu comecei lá de forma tuação real da família. ‘Dois toque para outros trabalhos, como o dos
mília. Eu, com os meus 12 anos, a participação da comunidade me- muito complicada como ajudante, na bola’ veio do Atlético Mineiro, Arautos do Gueto que existe há
tinha que ir pra escola e trabalhar lhorar um pouco esse perfil. Ah! daí para cá eu comecei a melhorar tinha um tal de Zé das Camisas. 11 anos. A própria comunida-
como engraxate para manter as Foi muito legal, a gente conseguiu e passei para conferente e cheguei Esse camarada andava nas favelas de pode fazer eventos nos finais
despesas, né? Aí, de lá para cá, co- melhorar a urbanização de vários como chefe de transporte. Acabei e dava oportunidade para crianças de semana para arrecadar fun-
meçou o aterro sanitário de Belo becos, o asfaltamento, como por aposentando lá, isso através de e adolescentes, chamando para dos para dar sustentabilidade às
Horizonte, alí na rua da Pedreira, exemplo, a rua Bento que tinha méritos e não de indicação. O lixo fazer teste no Atlético. E eu fui ações, então ele serve para muita
e alí grande parte do pessoal fazia muitos buracos, ela foi asfaltada, tem muito a ver com a Cera In- um dos beneficiados, joguei no coisa. É um ponto de encontro. E
reciclagem do lixo para a gente como vários outros pontos. Mas glesa. Quando eu comecei a traba- time um bom tempinho, na épo- o estádio realmente iria unir essa
vender. Nós separávamos o vi- o grande avanço, foi a construção lhar lá, imediatamente eu propus ca do estádio Antônio Carlos, alí molecada toda através do espor-
dro, alumínio, ferro tudo que ser- do movimento jovem, nós conse- comprar as latas usadas do pessoal na Olegário Maciel, onde hoje é te. O que me chama a atenção
via como material reciclável. Isso guimos um grupo de jovens muito pra fazer reciclagem. A Cera In- um shopping. Ali era o campo do é o crescimento das meninas no
dava um dinheirinho para ajudar atuantes, os meninos participa- glesa comprava as latas, reciclava Galo. Então ele andava nas fave- futebol, o time aí disputou a “Taça
a família! E com isso também, au- ram da associação junto conosco, e fazia outras para vender a cera. las e dava oportunidade para jo- BH” e vamos disputar agora a copa
mentou muito o número de mora- sabe? Então vens e ado- centenária. É uma organização da
dores aqui na comunidade, vieram era muito lescentes e Federação Mineira de Futebol,
muitas pessoas de Almenara. Pa- legal. O jovem de hoje eu vejo de forma um pouco eu achava sendo apenas para o campeonato
rece que eles foram falando para Quanto o trabalho feminino. Já aconteceu. Esse foi
os outros e aí muitos vieram de ao estudo diferente. Na medida que você dá ouvido dele muito o primeiro ano que disputamos,
lá para cá. Assim, o aglomerado
foi se formando. Aqui tem muita
eu não fiz o
ensino mé-
a ele e ouve o que ele está falando para interessan-
te. Ele não
ficamos em último lugar. Porque
na verdade começamos a jogar
gente do interior por isso. O que dio comple- criar uma proposta, você passa a ter uma falava “dois com o Atlético e o Nacional que
eu posso falar sobre o Morro é que
nós temos uma história bastante
to, é uma
falta em
credibilidade com esse jovem. toques” e
sim “dois to-
são times mais estruturados, ai é
mais complicado. Até brinco com
interessante, desde a construção mim. Isso é que na bola” elas, pois enquanto a gente esta-
da Praça da Liberdade - eles tira- assim, é uma história que eu tenho Então, alí naquela empresa, eu era o jeito dele errado de falar, era va com água quente, eles bebiam
vam pedras daqui, principalmente do passado e estou sofrendo agora, consegui conciliar o meu trabalho, para a gente dominar a bola e pas- suco natural, eles tinham médi-
da rua da Pedreira, para construir pois eu não dei continuidade aos a associação e a família. O meu sar para o colega. E aquilo ficou cos, massagistas. E quando nós
Belo Horizonte. Então, a gente meus estudos. Já os meus filhos, tempo era coisa de louco. Mas na minha cabeça, quando a gen- chegamos com um ônibus escolar,
tem uma história muito interes- graças a Deus, todos estarão for- quem ficou prejudicada foi a mi- te criou esse projeto eu coloquei eles chegaram com dois “Marco
sante, muito rica culturalmente. mados, inclusive a minha filha . nha família, pois o tempo para ela em processo de votação, o pessoal Pólo”, é complicado. Só de ver
Essa história é muito pouco co- Eu não quero que meus filhos se- era só um tiquinho. Eu tinha um participou e achou legal o nome. tudo isso a gente já começa a per-
nhecida, mas o pouco que eu sei jam doidos como eu. bom tempo dentro do emprego, o Eu expliquei, porque o nome era der o jogo. Tomamos uma golea-
eu acho que é o suficiente, pois Mas o que eu gostava mesmo outro para a comunidade e o res- uma forma de homenagear uma da lá que não teve jeito não. Mas
exploravam a terra e as pedras era de pegar no pé da prefeitura, to para a família. Então depois eu pessoa que fez um trabalho fantás- foi legal, nós perdemos de 10 a 1.
daqui! Parece-me que era aqui e na época do Sérgio Ferrara. E na resolvi dar um tempo da associa- tico e que não foi reconhecido, a Mas foi bom, pois tivemos experi-
na Pedreira Prado Lopes, são dois época, Deus me livre e guarde, do ção, reavaliar e fazer a coisa certa. mídia não focou muito na morte ência, estávamos começando um
pontos que atendiam a essa de- governador Newton Cardoso. Mas Ai depois eu sentei, parei, discuti dele, um cara que foi esquecido, processo novo de trabalho. Eu sou
manda de Belo Horizonte, porque houve vários trabalhos, inclusive com o pessoal, com a minha famí- mas que teve um grande trabalho, coordenador e a gente é formado
as ruas eram de calçadas, não de um muito falado no governo do lia e vi que o Morro tava tomando já que várias revelações do futebol por uma equipe de 16 voluntários.
asfalto e grande parte era de terra. Newton Cardoso, pois foi ele que uma direção muito complicada, o brasileiro foram reconhecidas por São pessoas daqui e de vários pon-
Então, eles tiravam todo material deu o aval dessa iluminação toda jovem a cada dia que passava es- ele. Sabe o Toninho Cerezo, saiu tos, a equipe é formada assim: o
daqui, para a construção de Belo aqui no Morro das Pedras, e o da tava se envolvendo mais com o aqui do Morro do Querosene.... primeiro coordenador sou eu, tem
Horizonte. implantação da água, né? Era tudo crime, e não adiantava eu ficar Aquele outro que virou deputado, a segunda coordenadora que é a
Bom, sobre a vida política eu obrigação dele! Então, eu nem de braços cruzados só criticando não lembro o nome... Tudo é cria Shirley, que mora aqui em baixo
posso dizer que minha mãe se gosto e nem deixo de gostar dele. e lembrando do passado. Eu tinha desse seu Zé das Camisas... E eu na Silva Lobo; o tesoureiro, o se-
envolveu no movimento comu- Ele fez apenas a parte dele. E com que fazer algo! Então a gente criou na época treinei com esses caras. gundo tesoureiro, os conselheiros
nitário, ela foi uma grande líder a rede de água nós conseguimos o esse projeto, que se chama ‘Proje- Mas não tive sorte, pois eu apelei e tal. A gente tem parceria com
comunitária, fez um trabalho sen- primeiro negócio que era a titula- to social Dois toque na bola’. Pois é, lá na época, o cara me deu uma o pessoal da Newton Paiva, com
sacional, e eu, naquela onda de ção, que é o título de apropriação nós iniciamos esse trabalho com o pancada e eu acabei dando outra, os alunos da Psicologia e também
acompanhar o embalo da mãe, da comunidade. Então, na época intuito de dar mais oportunidade me chamaram a atenção e então agora a gente tá fechando com
fiquei envolvido e gostando da foram 97 famílias que consegui- para o jovem, para que ele possa se eu saí fora do time. Mas a gente o o pessoal da Fisioterapia. Então
história. Ela entrou nesse movi- ram esse título de propriedade, a aproximar mais da familia, porque homenageia com o maior orgulho, está muito legal, muito gostoso
mento pela necessidade, pois aqui regularização da propriedade. Isso estava muito esquecido, geralmen- dando esse nome pro projeto. de trabalhar, falta apenas recurso
no aglomerado não havia luz elé- prosseguiu e parou na gestão do te o filho mal conhecia o pai, e a Voltando ao Morro...Na verda- financeiro. Segundo os moradores
trica, não tinha água, era uma ca- Eduardo Azeredo. gente tem uns dados interessantes de quando acabou o campo de São daqui, através de uma pesquisa,
rência total, muitos buracos, tudo Somos o terceiro maior aglo- aqui que mostram que a maioria Jorge, um campo que tinha aqui, nosso projeto ficou em segundo
de ruim. Então ela resolveu levan- merado de Belo Horizonte. E isso dos meninos são criados pela pró- deve ter uns 4 ou 5 anos, o futebol lugar como um dos mais bem acei-
tar a bandeira em prol da comuni- aumentava os interesses políticos, pria mãe. Toda vida eu sempre aqui no aglomerado parou. En- tos aqui na região. Parece que o
dade. E eu adorava participar das aí começou a implantação de cur- achei importante a presença do tão o projeto “Dois toque na bola” primeiro foi o projeto da Polícia
reuniões, o que eu mais gostava rais políticos, pois a gente da presi- pai, é muito interessante, mesmo veio para resgatar essa atividade Militar. Não é o Fica Vivo não, é
era das brigas, o pessoal briga- dência da associação era indicado que eles não façam nada. Mas se que é muito importante. Desde um projeto que eles fazem dentro
va. Eu achava muito doido como pelo vereador e com isso tirou a são presentes, é como um ato de que começou, nesse curto tempo, das escolas contra a droga, foi um
ela agüentava e suportava aquilo parte mais importante que era a segurança. E grande parte desses o projeto agora está fazendo cin- trabalho muito bem reconhecido.
tudo, às vezes umas cobranças in- participação da comunidade no meninos aí não tem essa presença co anos de trabalho, nesse curto Mas na verdade são pessoas que
justas que o pessoal fazia, mas sei processo seletivo da associação. paterna. E tem também a questão tempo nós conseguimos resgatar vão às escolas semestralmente
que fazia parte. O jovem de hoje eu vejo de da gravidez precoce, são várias o esporte aqui, não só através do para pegar uma avaliação desses
A primeira vez que eu fui can- forma um pouco diferente. Na crianças e é uma confusão dana- futebol. A gente conseguiu trazer alunos, para a gente acompanhar

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Extensão universitária - UNI-BH Novembro de 2008 • Página 13

A Equipe do Jornal da Rua é bem recebida na casa de Dona Maria. Paulinho é o último à direita.

mais ou menos esse gráfico de muito bacanas. Então a mãe fala- ta para mim, porque até hoje.... e eu vejo que tem muito a ver presidente Lula que criou a bolsa
produtividade; a gente foca muito va para o filho que o pai dele cha- A realidade do mercado é essa! com essa cultura. E eram jovens família, eu acredito na minha lei-
nessa questão da educação. Tem mava Antonio, ai o menino falava Pois um cara de 40 anos já mor- mais soltos, participavam mais. A tura desse programa que ele in-
um caso em especial de um me- para a gente em reunião, mais em reu, eles não querem porque ele partir do momento que começou centiva a menina a engravidar e
nino que a mãe estava presa, o particular comigo. ‘ minha mãe já está velho... a crescer o lado evangélico aqui produzir mais! Porque o governo
irmão dele é envolvido com dro- falou que meu pai é fulano’ e daí Sobre a cultura, hoje aqui no aglomerado, esse jovem virou está financiando e contribuindo
gas e a irmã dele também estava a gente, conhecendo várias pes- continua a movimentação cultu- uma pessoa que não tem muito com mais dinheiro. Desde que eu
envolvida com traficante. O que soas daqui, acabava localizando. ral, junto com o esporte. Dentro poder de decisão. A não ser pegar me aprofundei nesse programa eu
a polícia fez, prendeu a mãe dele e Aí o que acontece, esse projeto do projeto nós criamos o “Palco um revólver e dar um tiro ou ir achei a coisa mais errada que tem.
deixou esse menino, na época ele “Dois toque na bola” tem que de Arte” com intuito de abrir o par o tráfico de drogas. Mas não Porque podia ser feito de uma for-
estava com 12 anos, solto. Aí eu ter continuidade junto com uma leque para grupos culturais. Há tem uma outra visão de mundo ma contrária. Podia aumentar o
conversei com a minha mãe e falei cooperativa de prestação de ser- inúmeras manifestações culturais, de jeito nenhum. Como brasilei- valor dessa bolsa pra quem tem
para ela, já que a casa dela era um viço. A cooperativa vem para que tem o congado que eu tenho um ro da Silva dos Santos, eu vejo menos filho, assim teríamos um
lugarzinho que eu tinha deixado, haja oportunidade para o jovem. carinho muito grande, eles foram por um lado bem preocupante. país mais justo. Mas com esse in-
propus a ela da gente acolher esse É aquela antiga história: o pai era a primeira manifestação cultural Mas por outro lado, a gente tem centivo que está acontecendo, eu
menino, pois ele não podia ficar aí pintor e o filho também queria aqui no Aglomerado, junto com que ter essa esperança que coisas vejo uma menina de 19 anos que
solto na rua. Aí a gente o colocou ser. Então tinha um processo de o centro espírita. Então há mui- melhores virão, senão a vida não mora aqui perto que já tem 5 fi-
trabalhando numa padaria aqui construção profissional, e hoje ta coisa interessante. Olha, por tem sentido. Mas veja bem: an- lhos. Aos 14 anos ela já começou,
perto, escondido, pois no Brasil não tem. Existem vários cursos, incrível que pareça o evangélico tes existia um tipo de sofrimento, é praticamente um por ano.
é proibido menor trabalhar. Mas mas cursos não garantem nada, está dominando a situação aqui. tínhamos problema com a polícia, Que país é esse que vota nos
roubar eles podem! Ai, ele ficou não garantem mercado para ele Nem quero entrar muito nesse repressão e vários conflitos. Mas mesmos políticos? Apesar disso
trabalhando lá e entrou no proje- e grande parte dos meninos não assunto de religião não, pois sou hoje, o jovem não sabe mais usu- tudo, eu tenho que ter esperança
to, e dentro dele teve um desem- está tendo aquela empolgação bastante neutro; eu tenho o meu fruir da liberdade, ele não foi pre- e uma expectativa para o futuro.
penho bastante interessante. A para fazer cursos. Vários dos nos- Deus, tenho minha religião. Sou parado para essa liberdade. Nós, Quando eu estou lá no “Dois To-
auto-estima dele melhorou, hoje sos meninos fizeram cursos, fi- católico. Mas o crescimento dos mais antigos, somos brasileiros que na Bola” e fico brincando com
nós temos ele aí na coordenação; zeram todos, mas mesmo assim evangélicos está me assustando, e fomos formados dentro de um a criançada, driblando e marcando
ele é uma referência, a gente usa a não tiveram oportunidade. Então a cada esquina você encontra um curral, você era preso e fazia tudo uns golzinhos, participo daquela
história dele como referência para nossa cooperativa veio para cobrir templo. Aqui tem o Centro Espí- o que eles mandavam e não o que felicidade Quando você pega um
todos. Em todos os debates que eu isso, temos vários associados que rita, que eu não posso ver como você pensa. Não tinha o direito menino daqueles e abraça, ele vai
vou, eu sempre o levo, para que trabalham na construção civil, uma religião, vejo com uma ma- de falar, discutir e debater nada. se tornando outra pessoa. A gente
fale um pouco do seu sentimen- nós os inserimos no mercado de nifestação cultural. É muito legal, Hoje eles têm esse direito, mas percebe a carência dessas crianças.
to. Temos vários meninos aí que trabalho e lá ele têm capacitação pois não tem só a ver com o Con- isso não foi trabalhado com eles Isso é resultado da família, pois
se encontram sem pai e cada caso para ganhar um salário normal. E gado, o pessoal do centro espírita e eu acho que é a grande preocu- veja bem: a mãe está trabalhan-
é diferenciado. Tivemos casos é por aí que a gente vai fazendo tinha uma manifestação muito pação do futuro. Eu estou direto do, ela chega lá na escola, joga os
que os meninos encontraram o esse jovem melhorar. É complica- boa e você acredita que acabou nas escolas, vivo o dia-dia e vejo meninos e pensa assim: se virem!
pai que nem conheciam e passou do! Criaram o “Primeiro Empre- tudo? No lugar onde eram os que não adianta manter esse tipo Chega do serviço cansada, sem se
a conhecer através do projeto. Ai go”, mas sendo honesto, aqueles centros espíritas agora ficam os de ensino público, pois desse jei- esquecer que nessas famílias não
está a vantagem, pois o menino que estão nessa luta da busca do templos. É uma coisa complicada to, isso não vai a lugar nenhum. tem a figura do pai. A mãe ainda
falava que o seu pai era fulano de emprego dificilmente conseguem. e preocupante. Enquanto você Eu acredito que nesse ano, ou no tem que arrumar a casa e preparar
tal, e às vezes a gente conhecia. Eu fico me perguntando que pri- perde sua identidade, você dei- ano que vem, nós vamos ter um o jantar. Que tempo essa mãe tem
Daí facilitava essa aproximação, meiro emprego é esse? As empre- xa de ser brasileiro. Mas quando bando de adolescentes sem saber para dar carinho pro seu filho?
pois a gente conversava com o pai sas não pegam os jovens, pois não aconteceram essas manifestações ler e escrever. Mais do que no Além disso, vem aqui num fim de
e dizia que o seu filho estava com tem experiência e não pegam os culturais do Congado, através dos passado! semana para ver, está todo mun-
a gente. Às vezes ele nem sabia que têm acima de 40 anos, pois espíritas, apareceu aqui no Aglo- Hoje existe um sistema covar- do no boteco, todo mundo. Desse
que o filho existia. É uma coisa estão velhos demais. Gostaria que merado manifestações de Pagode, de, você não pode falar, pois na jeito é difícil mesmo dar referência
muito interessante, são histórias alguém viesse com alguma respos- Samba, Funk, envolvendo jovens, primeira esquina eles te matam. O pra criança!

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Novembro de 2008 • Página 14 Extensão universitária - UNI-BH

Em meio aos problemas, há luz


Roberto Romero na cidade. Órfão de pai aos cin- tranqüilidade. A criminalidade e mando eles de marginais, de ban- Outros fatores também não
Jornalismo co anos, Zé da Luz começava ali a violência fazem parte do coti- didos, me desculpa, mas bandidos escapam à análise do Sr. José
uma fase de sua vida da qual se diano das famílias que vivem no não são eles, mas quem tira deles da Luz, como o crescimento do
Algumas ruas morro acima e queixa apenas da falta de escla- morro. E são os jovens, geralmen- o pão para comer”, defende em número de mães solteiras na co-
chegamos até o estreito portão de recimentos e de uma autoridade te, os mais facilmente cooptados tom de desabafo. munidade, o que ele explica pela
uma casa localizada na Rua Es- que lhe colocasse obrigações. pelas atividades criminosas, como Seu Zé da Luz diz tudo isso oferta que é feita da imagem da
trada Nova, onde vive o Sr. José “A nossa preocupação era o tráfico de drogas. pela experiência de vida que pos- mulher na televisão, e o conflito
Evangelista da Luz, ou simples- conseguir um emprego e viver Sobre essa questão, tão explo- sui. Para ele, os jovens de hoje vivido pelos jovens da periferia,
mente Zé da Luz, como é conhe- aquela vida que era possível vi- rada pelos meios de comunicação diferem daqueles de sua época na que partilham das mesmas von-
cido um dos moradores mais anti- ver”, conta ele. A vida que era e debatida pela sociedade brasilei- falta de amor com que são trata- tades de um jovem de classe mé-
gos do Morro das Pedras. Desde o “possível viver” não era fácil. ra, o Sr. José da Luz tem o parecer dos. “Hoje só ficou o ser, acabou dia, porém, não possuem recursos
dia 8 de dezembro de 1951, quan- Seu Zé da Luz é de um tempo em de quem sempre viveu de perto a o amor”, diz. Mas não só a isso ele para satisfazê-las. “Eles querem
do, aos quatorze anos, desembar- que a região era conhecida como situação. Longe de atribuir aos jo- atribui a situação que os mora- sair, querem comprar uma roupa
cou do ônibus onde atualmente a do “faz quem qué”, tamanha a vens os adjetivos comumente uti- dores da comunidade enfrentam bonita, ter uma namorada, ou até
fica o bairro Grajaú, em Belo Ho- facilidade de ocupação e cons- lizados, como “desinteressados”, diariamente. O crescimento da duas... e vai tirar dinheiro para
rizonte, Seu Zé da Luz viu muitas trução, ainda que improvisadas. “cabeças-fracas” ou “marginais”, população do Morro das Pedras isso de onde?”, questiona.
coisas acontecerem. Coisas que a Eletricidade, água e asfalto eram ele demonstra uma percepção também é apontado por ele como E é assim, defendendo posi-
maioria dos 21.298* moradores realidades ainda muito distantes. social que ultrapassa a de muitos um fator de complicação. Hoje, ções extremamente coerentes e
da comunidade registrados no úl- Para chegar ao centro da cidade, políticos nativos. as pessoas se conhecem pouco e que revelam a consciência social
timo censo desconhece. por exemplo, era necessária uma “Como o homem que ganha isso, como reconheceriam os so- que possui que segue o Seu Zé
Quando desceu do trem na caminhada longa até alcançar R$10 mil por mês quer que o ou- ciólogos, dificulta a solidariedade da Luz. O sobrenome, curiosa-
Praça da Estação, vinha com os o meio de condução popular na tro viva com R$500 ou nem isso? entre os membros da comunida- mente, não está relacionado a
irmãos de uma cidade do interior época, o bonde. Como ele quer que acabem os as- de. nenhum feito seu relacionado à
de Minas Gerais para visitar a Com o tempo, a realidade foi saltos e seqüestros? Porque exis- Além disso, o antigo morador chegada de energia elétrica ao
mãe, que, por motivos de saúde, já mudando e depois de muito es- tem dois fatores: o amor e o de- afirma que, embora a oferta de morro. É herança familiar do pai,
morava em Belo Horizonte, onde forço da comunidade, a luz co- sespero. Se você pegar um jovem “capacitação intelectual” tenha o Sr. João Evangelista da Luz. Na
realizava tratamento médico no meçava a iluminar algumas casas, e cuidar dele com amor, ele vai melhorado (muito diferente de idade de cinco anos, a mesma
Hospital Morro das Pedras*. O a água já chegava pela torneira e crescer com amor e saberá res- educação, pois “tem muito dou- em que o perdeu, diz ter se dado
primeiro contato com a capital o asfalto forrava as principais vias peitar com amor, mas não cuide tor mal-educado por aí”) com a conta do que era o mundo: “Ah!
foi uma “coisa fantástica” para o de acesso ao Morro das Pedras. dele com menosprezo, como tem facilidade de ingresso nas escolas É isso aqui que é o mundo, né?!”
jovem que até então desconhecia Avanços que o Seu Zé da Luz ob- acontecido hoje... O garoto tem do ensino público, os jovens que Nunca passou por um banco de
tudo aquilo. Ainda melhor era re- servou somente a partir de fins da 10 anos, nunca teve cama para se formam não são absorvidos universidade. É a prova de que
encontrar a mãe, de quem ficara década de 1980. dormir, café da manhã para to- pelo mercado de trabalho, o que ninguém melhor do que quem
afastado por sete anos, e viver a Se os recursos e condições mar, ou mesmo um almoço... Vê acaba por conservar a situação vive uma realidade para poder
experiência já esquecida de po- materiais eram precários, aquela o irmão de 15 que também nunca complicada. Por não resolverem identificar nela as suas causas e
der deitar em seu colo e receber época ainda oferecia muito de um teve, ou o de 18, ou o pai, ou o esse problema, ele critica os pro- saídas.
suas carícias. Foi o suficiente para bem que hoje se tornou raro para avô... Os governos e a sociedade jetos sociais que, em sua opinião,
que pedisse a ela para ficar de vez os moradores do aglomerado: tapam o sol com a peneira, cha- possuem efeito apenas paliativo. *Fonte: IBGE. Censo Demográfico 2000.

Os troféus lembram os bons


tempos: futebol e festa

ck. Depois que acabou o campo, foram para ziam uso lá de baixo. O pai de Peninha cha- time principal, era organizado pela Federa-
Joana Maria Nascimento onde é a área na qual fizeram os prédios. Era mava-se Gildásio e era muito conhecido no ção Mineira. O time ganhou dois títulos da
Jornalismo uma área particular, tinha uma concessão de Morro das Pedras. Quando ele se mudou de Copa Itatiaia e dois campeonatos amadores.
20 anos e quase ninguém sabia disso. Nesse lá, eu peguei o bar. Então, foi interessante Todos os domingos tinham partida. Num,
Há 37 anos, Peninha, ou Valcimar Go- período, existia o time de São Jorge, as es- que o time principal também viesse para o o jogo era no morro, no outro, era fora. No
mes, mora no morro. Foi para lá aos 6 anos colinhas, e o pessoal não tinha onde trocar bar. Para isso, Peninha conversou com o pre- bar de Peninha, havia um quadro onde os
de idade, com a família de Teófilo Otoni. de roupa. Aí eles passaram a utilizar o bar sidente do time e ele aceitou. Desde daí, o jogos eram divulgados; além desse quadro,
Quando chegou a Belo Horizonte, já existia do pai do Peninha para isso. Quem usava domingo era uma festa no bar. Vinham al- era possível acompanhar a agenda dos jogos
o time São Jorge Esporte Clube. O campo era mais o bar eram as crianças e o pessoal mais guns times de fora jogar bola. O campeonato pelos jornais e pela Rádio Itatiaia, cujos pro-
onde hoje funciona a escola Hugo Werne- velho. Os jogadores do quadro principal fa- amador de Belo Horizonte, disputado pelo fissionais visitavam muito o bar.

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Extensão universitária - UNI-BH Novembro de 2008 • Página 15

Quilombo dos Luízes


Miriam Aprígio Pereira, quilom- vê contemplado –, o agora ex-es- característica o fato de todos os ministrativa e legal [...]” é a de- moradores como o tijolo feito de
bola e historiadora dos Luízes cravo, Nicolau Nunes Moreira. seus componentes se constituírem finição que se enquadra dentro “adobe” e telhas de barro molda-
Na região conhecida como Vale enquanto descendentes de rema- do contexto político e pelo viés das na coxa da perna, conhecidas
O Morro das Pedra tem como do Sereno, vivia o senhor Nico- nescentes de escravos, de uma sócio-cultural, recebe a seguinte como “cumbuca”. Outra carac-
companheiros de jornada, des- lau junto com seus familiares, única matriz familiar. Sua trajetó- conceituação proposta pelo autor terística preservada ao longo do
de a gênese de sua formação, quando recebeu uma proposta de ria tem como marco inicial de sua Abdias do Nascimento em sua tempo é o ecossistema. A área
os moradores do Quilombo dos troca de terras por parte de uma história mais recente a ocupação obra intitulada “O Quilombo- ainda muito arborizada se consti-
Luízes, de acordo com relato dos companhia mineradora. A troca em terras pertencentes à nova lismo”, “quilombo não significa tui enquanto um dos últimos re-
moradores mais antigos. Ainda se processaria em um terreno na capital, no ano de 1897, história escravo fugido. Quilombo quer dutos verdes da região. E a comu-
na atualidade, nas diversas ma- nova capital – antigo Curral Del essa que perdura até a atualidade, dizer reunião fraterna e livre, so- nidade adotou como símbolo uma
nifestações culturais praticadas Rei, futura Cida- lidariedade, convivência, frondosa árvore que, segundo os
no morro, alguns dos Luízes são de de Minas já em comunhão existencial.” mais antigos moradores, possui
membros ativos dentro desta
dinâmica. Além de relações de
construção. Proje-
tada para atender
Outra característica A importância do
Quilombo na atualida-
algo em torno de cem anos, e é
sob a mesma que se processam as
amizade entre membros desta aos anseios repu- preservada ao longo do tempo de, frente ao fenômeno atividades culturais, religiosas e
comunidade, as relações co-
merciais se processam cotidia-
blicanos de então,
a partir do ano de
é o ecossistema. A área, ainda da globalização, que vem
conduzindo a sociedade
sociais da comunidade, tais como,
brincadeiras, que são repassadas
namente. Não fosse o bastante, 1901 passa a ser co- muito arborizada, se constitui a uma crescente massifi- de geração para geração, costu-
alguns Luízes foram acolhidos nhecida como Belo cação cultural, possibilita mes como almoços comunitários,
pelo morro, no qual residem há Horizonte. enquanto um dos últimos uma análise de como se servidos a visitantes que vêm co-
muitas décadas. Ocorre desta redutos verdes da região. dá a preservação de uma nhecer o modus vivendi de seus
Segue um breve relato sobre forma a migração cultura, uma vez que esta ocupantes. Através destes encon-
a história dos Luízes, (que assim de uma família de comunidade, através de tros seu folclore é difundido pelo
como o Congado, cuja igrejinha remanescentes de sua luta por uma afirma- repasse de suas lendas, fundadas
do Rosário se localiza no seio do escravos com o intuito de se esta- uma vez que sua tradição cultural ção de sua identidade étnica e cul- não se sabe quando, mas que ocu-
Morro das Pedras, a capoeira, belecer um novo e diferenciado vem sendo repassada, através da tural, preserva suas características pa espaço na memória de todos os
dentre outros valores culturais e modo de vida, baseado no cultivo oralidade, de geração em geração, no meio urbano de uma grande membros da família, desde a pri-
artísticos do morro, herança da agrícola, em terras que acolhes- destacando-se em tal contexto o cidade. meira até a quinta geração.
cultura negra) que tem sua cons- sem o novo ideal republicano. De fato de que a citada comunidade Dentre as manifestações que a Como se percebe, a oralida-
tituição histórica atrelada à his- acordo com o Registro de Escritu- não possui registro escrito de sua tradição familiar dos Luízes pre- de representa o traço marcante
tória de formação do Morro das ra de Terras, lavrado no cartório história. serva encontram-se as de cunho desta comunidade; “trabalhar
Pedras, devendo ser resgatada, de Sabará, em 1896, a família de Quanto à denominação, esta religioso, como a festa de Santa- com a memória é recuperar, em
mantida e preservada na contem- ‘Nicolau Nunes Moreira’ instala- tem sua origem na forma de re- na, comemorada no mês de Julho, certo sentido, as representações
poraneidade. se na região atualmente conheci- verenciar os últimos escravos da na qual se processa o sincretismo que os grupos modelam deles
De acordo com informações do como bairro Grajaú, e que na família que tinham como “Luiz” religioso entre o congado e a Igre- próprios[..]”. Enfim, esta é a “Co-
extraídas do livro Os Luízes de ocasião da compra, corresponde o sobrenome. Já a qualificação ja Católica. Trata-se de uma festa munidade dos Luízes”, lugar pri-
Maria Luzia Sidônio, durante o a uma gleba de terras da fazenda quilombola se dá pelo fato de que reúne, além de membros da vilegiado de memória, que deve
século XIX, na região de Nova Calafate. A denominação Cala- que, apesar dos membros desta comunidade, moradores de bair- ter assegurada a sua história, não
Lima, em Minas Gerais, havia fate, atualmente atribuída a um comunidade tradicional e fami- ros próximos e também distantes permitindo que ela se perca com
um bandeirante que vivia da ex- nome de bairro faz parte do pro- liar não estarem mais sob escravi- do lugar, bem como pessoas que o tempo, uma vez que ela, a me-
tração do ouro, cujo nome era jeto original da cidade, elaborado dão, quando da ocupação de suas vêm de outras cidades para par- mória, é o componente definidor
Pedro Luís Lopos. Após a aboli- pelo engenheiro Aarão Reis. terras, este grupo étnico, é o que ticipar. Os moradores preservam de identidade: [...] a memória
ção da escravatura, este resolve Inicia-se desta forma, a história propõe o conceito antropológico; casebres que foram construídos é um elemento constituinte do
dividir uma sorte de terras entre de ocupação da “Comunidade dos “[...] ato de nomeação oficial que através da antiga utilização de sentimento de identidade, tanto
sues escravos, atitude da qual se Luízes”, que tem como marcante fixa uma identidade política, ad- material produzido pelos próprios individual como coletiva.”

Tia Lucy e sua relação com


os moradores do Morro das
Pedras
Fabiana Cristina foi apenas na década de 1950 que sua casa. Mais tarde, foi constru- enquanto ela aplicava injeção Os primeiros proprietários do
Jornalismo Frei Arnaldo apareceu e trouxe ído um posto médico e uma sala nos enfermos.’’ Ela cuidava de aglomerado tiveram carta de doa-
melhorias para os moradores da de aula, que deu origem à Escola todos da comunidade, inclusive ção concedida por Otacílio Negrão
Vicente Nery Lima e Lucy região. Foi ele que possibilitou o Hugo Werneck. passava noites em claro cuidan- de Lima, e foi assim que a violên-
Nery Lima, mais conhecida como trabalho para crianças do aglo- Tia Lucy lutou muito pelo do de crianças e bebês quando a cia chegou à região, com a vinda
tia Lucy, tiveram seis filhos, e o merado, “inclusive eu, que co- posto de saúde até se aposentar. mãe estava doente. ‘’Minha mãe de pessoas de fora. ‘’Porque os mo-
Sr. Braz é o penúltimo deles. Sr. mecei a trabalhar também fundou a creche radores daqui foram vendendo os
Braz tem 60 anos e sempre morou como jornaleiro e que leva seu nome, e nós, pedaços dos lotes – inclusive eu
no Morro das Pedras. Trabalhou
como autônomo em pintura de
engraxate”, disse o
Sr. Braz.
“Minha mãe levava os filhos como filhos, sentimos
muito orgulho dela.’’
comprei um – e muitos estranhos
passaram a morar por aqui. ’’
ônibus durante toda a vida, mas, Ele lembra-se para segurarem a lamparina Antigamente, a Rua Quando questionado sobre a
há dez anos, tornou-se comercian-
te de materiais de construção.
da mãe, Tia Lucy,
que atualmente está
enquanto ela aplicava injeção Oscar Trompovisck era
aberta só até a metade,
violência da região, Sr. Braz diz
que, depois da chegada do Bata-
O comerciante diz que antes adoentada, mas, em nos enfermos.’’ e, quando chovia, tinha lhão da Polícia Militar, ela dimi-
havia pouca gente no Morro, e seus tempos áureos, muito barro. Então, a nuiu muito. Antes, havia muitos
os recursos eram mínimos para foi grande batalha- Prefeitura emprestou um assassinatos e balas perdidas, po-
a população. Os primeiros mo- dora por melhorias caminhão para os mo- rém, segundo ele, lá para cima no
radores do aglomerado surgiram para a população, radores, que se reuniam Morro, ainda há muita violência.
com invasões ocorridas durante o que, em sua maioria, lembra-se, E, dois anos depois, fez um cur- todo domingo para jogar cascalho ‘’E é por esse motivo que faço
governo de Jorge Carone, mas os com muito carinho, de Tia Lucy. so de Enfermagem na prefeitura na rua, porém, foi apenas durante questão que meus filhos, Danilo,
primeiros proprietários tiveram Ela foi a fundadora do primeiro e passou a cuidar dos doentes da o governo de Amintas de Barro de 23 anos, e Marcela, de 20 anos,
carta de doação concedida por posto médico do Morro, instala- região. “Minha mãe levava os fi- que o restante da rua foi aberto e fiquem em casa estudando. Eles
Otacílio Negrão de Lima; porém, do, durante dois anos, na sala de lhos para segurarem a lamparina asfaltado. saem só daqui para baixo.’’

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Novembro de 2008 • Página 16 Extensão universitária - UNI-BH

Música boa pra quem quiser


Cristina Leite de discos de vinil que guarda hoje ticipação de Juscelino Kubitschek,
Profa. de Sociologia com muito carinho. Esses discos governador do estado de Minas
Jacqueline Martins de Moura estão catalogados a partir de uma Gerais naquela época.
Jornalismo lógica especial, tudo registrado em Lá pelos anos de 1950, seu Wa-
um caderno, junto com um ma- shington resolveu fazer um passeio
Durante o processo de cons- nuscrito da história dos discos no em Belo Horizonte, pois ainda não
trução do Jornal da Rua 2008 ti- Brasil, de sua autoria, lido para a conhecia a capital. Chegou à ma-
vemos o prazer de conhecer uma equipe do jornal pra que a gente drugada de uma sexta-feira e pro-
pessoa especial: o seu Darci. Ele pudesse entender um pouco da curou abrigo em uma pensão que
é uma daquelas pessoas de bem evolução da música no país, as- existia na Rua Tupis, próximo à
com a vida, gosta de contar casos, sunto pelo qual tem paixão. Avenida Afonso Pena. A pensão
tem orgulho da família, participa Seu Washington aprendeu sozi- já não tinha mais vaga, mas a pro-
de trabalhos comunitários e tem nho a tocar violão, motivado pela prietária conseguiu arrumar lugar
gosto especial pela música e pela música interpretada pelo Quarte- em um dos quartos que, por uma
dança. Faz também uma imitação to Quitandinha, “Malaguenha”, grande coincidência, estava ocu-
perfeita do Cauby Peixoto. Desde mas não parou por aí, continuou pado pelos dois companheiros do
o primeiro encontro, esse senhor aprendendo a tocar músicas no- conjunto musical, segundo nos
acompanhou a equipe do jornal vas. Durante nossa conversa, pra contou. Os companheiros, ao vê-
com uma cara boa de dar gosto e mostrar pra gente o quanto a Ma- lo, ficaram entusiasmados e o cha-
foi ele que nos apresentou a uma laguenha foi importante na forma- maram para tocar no programa de
outra pessoa, tão legal quanto ele ção do seu gosto pela música, ele e Rômulo Paes, na rádio Guarani.
e com gostos parecidos. seu Darci, com violão e acordeon, Tocaram no programa e “o pú-
O amigo do seu Darci é Wa- executaram a canção de ritmo an- blico foi à loucura” com a música
shington Luís de Oliveira Silva, daluz com todo entusiasmo e leva- “Malaguenha”, uma das canções
tem quase 80 anos de idade e é ram a equipe do jornal ao delírio. preferidas do trio. Depois do show,
dono de uma preciosidade tre- Quando completou 18 anos o diretor da rádio contratou o trio
menda, guarda em sua casa cerca Seu Washington alistou-se no Seu Washington só aceitou fechar
de 15 mil discos de vinil, além de exército e aos 19 resolveu tentar a o contrato na condição de ter
fitas cassete, alguns CDs e equipa- vida na cidade de Curvelo (MG). um outro emprego em BH, pois
era ele quem sustentava a família
e só o dinheiro da rádio não era
o bastante. Arranjaram-lhe um
emprego nas Lojas Normandi, na Sr. Darcy é companheiro do Sr. Washington nas rodas musicais
avenida Afonso Pena, que junto
com a Sibéria, Sloper e Guanabara a cantoria dos passarinhos criados jornal Estado de Minas confirma
formavam o comércio chique no pelo seu Washington (ele já parti- a importância da iniciativa de seu
centro da capital. Seu Washing- cipou de competições), junto com Washington.
ton trabalhou ainda na Caixa o prazer com que mostra os discos, A discoteca de seu Washing-
Econômica Estadual e depois foi canta as músicas e recebe as pes- ton foi toda organizada e catalo-
dono de uma loja que vendia ma- soas para falar do assunto, confir- gada por ele mesmo, há discos de
terial escolar, brinquedos e artigos maram que aquela é mesmo uma cantores que vão das letras A a
para presentes, no bairro Sagrada casa musical. Z. Questionado sobre suas prefe-
Família. Mas depois de ser assal- A coleção de discos, inicia- rências musicais o colecionador
tado achou melhor vender a loja da ainda quando criança, guarda e músico disse ser “da música
e mudar-se para um sítio, onde preciosidades da música popular popular brasileira, do samba e da
permaneceu até mudar-se para o brasileira. Dentre elas está um dis- seresta...”. Seu Washington afir-
local onde vive hoje, próximo ao co de 78 rotações, gravado entre ma ser amigo de muitas pessoas
Morro das Pedras. O trio musical 1902 e 1905 da banda de Chiqui- do Morro, mas seu Darci é espe-
Sr. Washington: músico e colecionador
se desfez mas, felizmente, seu Wa- nha Gonzaga tocando e cantando cial já que, como ele, gosta de
mentos antigos de som de marcas No segundo dia em que estava na shington conseguiu recuperar o “Ô abre alas”, a gravação original apreciar uma boa música, tocar
que nem existem mais, inclusive nova cidade encontrou um vio- único disco gravado, encontrado de “Pelo o telefone”, primeiro e cantar. Os dois fazem questão
um gramofone. Natural da cida- lão encostado numa loja e pediu jogado na casa de um dos canto- samba gravado no Brasil (Don- de colocar pra tocar as raridades
de de Barbacena (MG), desde ao dono da loja para tocá-lo, o res, todo prejudicado. Depois de ga e Mauro Almeida), em 1916. do acervo e arriscam pedir pra
criança já alimentava o gosto pela que foi imediatamente autoriza- desamassá-lo, foi convertido para Quando já contava com cerca gente escolher uma música que
música.Ele tinha um tio que fre- do. Nesse dia ele foi convidado a cd e a gente pôde ouvir as canções de 8 mil discos, o acervo foi in- gostaríamos de ouvir, dentro dos
qüentemente vinha a Belo Hori- fazer parte de um conjunto musi- no antigo estilo country norte- crementado por mais 7 mil discos estilos referidos, já que a chance
zonte a trabalho e perguntava que cal, formado por um trio, e que fez americano, com a superposição comprados de um amigo que pre- dela compor o conjunto de dis-
presente ele queria da capital. Seu muito sucesso na cidade. Ele ain- de vozes masculinas, muito ruído cisava do dinheiro para pagar um cos é grande. Pedimos pra ouvir
Washington não pensava duas ve- da lembra com orgulho quando o ao fundo, dadas as condições em tratamento hospitalar. Na parede a Clara Nunes cantando “Feira
zes e sempre pedia um disco. Foi seu conjunto abriu uma exposição que o disco foi encontrado, e o do cômodo onde estão guardados de Mangaio” e lá estava o LP,
assim que nasceu o grande acervo agropecuária que contou com par- tradicional “tiroleite”. Ao fundo, os discos, uma matéria grande do com ela sorrindo na capa!

Os jovens se organizam no Grêmio da


Escola Municipal Hugo Werneck
Bruno Pedralva, estudante e da PM, o preço das contas de luz ação são os projetos EJA (Educa- bela (coordenadora de Esportes).
morador do Morro das Pedras e água etc) e da Escola Municipal ção de Jovens e Adultos) e a Es- Mas é muito importante e neces- Contatos:
Hugo Werneck (pouco dinheiro cola Integral. E o Grêmio também sário que mais estudantes da Esco-
Todos os dias na Escola,
Meu nome é Bruno Pedralva, investido, estudantes com proble- está participando da questão do la venham construir o Grêmio! As
no turno da noite, com os
sou estudante da UFMG e, junto mas que dificultam seu aprendi- PAC (Programa de Aceleração do portas estão sempre abertas!
membros do Grêmio. Nos-
com o companheiro Leandro, es- zado etc). Acreditamos que a ju- Crescimento) e da luta para baixar Hoje, estamos reorganizando
sas reuniões são às sextas-
tudante da PUC, temos a função ventude do Morro das Pedras tem o preço da conta de luz da Cemig. e renovando o Grêmio. Estamos
feiras, às 19h.
de ajudar na organização do Grê- muito para contribuir na mudança Mas o mais importante é lembrar refazendo um mural na Escola
Elaine Silva dos Santos,
mio da Escola Municipal Hugo real da situação da escola, da co- que mais alunos da escola têm que e convidando novas pessoas pra
moradora da Vila São Jorge
Werneck e na sua articulação com munidade, de Belo Horizonte e do participar do Grêmio! participar. Além disso, estamos
II – Morro das Pedras
outros movimentos de estudantes Brasil. Por isso, estamos aqui. Estamos em um momento di- fazendo a Campanha para Baixar
Coordenadora do curso pré-
e da comunidade. Oficialmente, o Grêmio foi fícil. Os mais antigos do Grêmio o Preço da Luz da Cemig, cons-
vestibular Comunitário;
Leandro e eu, além de estu- fundado em setembro de 2007. (Cleciane, Ridalina e Marcus) truindo um grupo com o pessoal
Idealizadora e representan-
dantes, somos jovens que acredi- Mas estamos aqui na Escola desde saíram da Escola e foram estudar do cursinho pré-vestibular Comu-
te da Biblioteca Comuni-
tam que o Brasil precisa mudar. o início de 2007. E ouvimos histó- na Escola Estadual Belo Ramo. nitário, do projeto Maria Maria
tária da Vila São Jorge II
Até hoje, os governos sempre pri- rias de que existia um grêmio aqui Sobraram apenas a Maria Helena – Cufa/BH (Central Única das
– Espaço Cultural Fala Bem
vilegiam os grandes empresários e antigamente, mas nada oficial. (que hoje é coordenadora geral), Favelas), projeto “Dois Toque na
Morro!;
dão migalhas pra nós, povo pobre Os estudantes da Escola estão o Francisco (coordenador de Fi- Bola, o projeto Arautos do Gueto,
Responsável pelo Núcleo
e trabalhador. E isso tem tudo a reivindicando melhoria na quali- nanças), a Lícia (coordenadora de e o Flor do Cascalho (de Capoeira
Maria Maria - Cufa/BH.
ver com o dia-a-dia do Morro das dade das aulas e do ensino, prin- Comunicação), o Juliano (coorde- da Angola) para debater proble-
Pedras (basta vermos as injustiças cipalmente. Os temas de debate e nador de Comunicação), e a Isa- mas do PAC (Projeto Vila Viva).

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