Vous êtes sur la page 1sur 19

POLÍCIA MILITAR DO ESTADO DO RIO DE JANEIRO

DIRETORIA DE ENSINO E INSTRUÇÃO


ESCOLA SUPERIOR DE POLÍCIA
CURSO DE APERFEIÇOAMENTO DE OFICIAIS

CONDUÇÃO COERCITIVA DE TESTEMUNHAS NO IPM

Leandro Augusto Rasteiro


Alexandre Moreira Soares
Adriano de Siqueira Bulhões
Fabrício Fernandes da Silva Moça
Cláudio Andrade Sucupira Perini
Carlos Henrique Felix da Silva

Trabalho apresentado em
cumprimento a exigência da matéria
de Direito Constitucional.

NITERÓI
2008
2

AGRADECIMENTOS

À Deus, Pai de todos, que está acima de todos, que age para todos e em todos,

nosso criador, que juntamente com seu filho unigênito Jesus, são responsáveis por

nossas vitoriosas trajetórias na vida e nesta bicentenária Polícia Militar do Estado do

Rio de Janeiro.

Para nossos pais, por terem sido responsáveis por garantir com muito amor, carinho

e esforço, a nossa chegada até aqui.

Ao prof. Antonio Calegari, pela dedicação e humildade com que nos conduziu até

esta obra final, agindo como mestre e orientador de conteúdo e pelas sábias lições

ministradas, bem como pelo exemplo da eterna busca do aprimoramento do saber

intelectual.

Ao Exmo Sr. Dr. Juiz de Direito Marcius, a Exma. Sra. Dra. Juiza de Direito Ana

Paula, a Ilma. Sra. Dra. Promotora de Justiça Isabella e a Ilma Sra. Dra. Defensora

Pública Cláudia, que do alto de suas funções e apesar do pouco tempo que lhes é

disponível, prontamente nos atenderam, nos orientaram e nos estimularam a

prosseguir com este trabalho.

A todos que, direta e indiretamente colaboraram para a conclusão deste trabalho.


3

Dedicamos este trabalho as pessoas que estiveram ao nosso lado nesta jornada,

pelo apoio que nos foi dispensado, nos momentos mais difíceis e pelo sentimento de

compreensão em virtude da dedicação demandada nesta empreitada, estejam estas

pessoas ao nosso lado, entre nós ou não.


4

SUMÁRIO

1- Introdução.......................................................................................5

2- Poder discricionário ........................................................................6

3- Princípio da razoabilidiade .............................................................6

4- Uso e abuso de poder ....................................................................7

5- Testemunhas............................................................. ......................9

6- Direitos fundamentais da pessoa humana......................................10

7- Entrevista com os membros do poder judiciário estadual

ligados a Auditoria Militar do Estado do RJ sobre a condução

coercitiva de testemunhas....................................................................11

7.1- Entrevista com a Defensora Pública da AJMERJ...................11

7.2- Entrevista com a Promotora de Justiça da AJMERJ...............13

7.3- Entrevista com o Juiz de Direito da AJMERJ..........................16

6 - Conclusão......................................................................................18

7 - Referências bibliográficas..............................................................19
5

1. INTRODUÇÃO

O Oficial da Polícia Militar tem que ter em mente que nossa


Sociedade a cada dia que passa vem se desenvolvendo e que no mundo atual não
cabem mais ações que não estejam adequadas ao profissionalismo e amparadas
pela legislação vigente, principalmente a lei suprema do país, a nossa Constituição
Federal.
Esse Oficial tem a missão, entre inúmeras outras, de ser
Encarregado de IPM e tem que procurar estudar e pesquisar as Leis para que não
acabe cometendo um abuso de Autoridade na ânsia de cumprir com suas
obrigações na busca da verdade ou da elucidação de um crime militar.
Temos pouca Doutrina a respeito de crimes militares e processo
penal militar e talvez alguns oficiais tenham dúvidas sobre a condução coercitiva de
testemunhas no IPM, tema deste trabalho.
Dispõe o artigo 9º do Código de Processo Penal Militar que o
inquérito policial militar é a apuração sumária de fato que, nos termos legais,
configure crime militar, e de sua autoria.
Tem o caráter de instrução provisória, cuja finalidade precípua é a de
ministrar elementos necessários à propositura da ação penal.
Um dos elementos mais importantes é a prova testemunhal, apesar
de que não deva ser vista como prova absoluta, até mesmo porque não podemos
nos esquecer de que a testemunha pode sofrer pressões pelas partes envolvidas no
inquérito ou no processo.
No IPM não há um número limite, mínimo ou máximo, de
testemunhas a serem inquiridas. O encarregado deverá inquirir todas as pessoas
que souberem ou tiverem informações importantes sobre a infração penal
investigada.
Não podemos permitir que a herança ditatorial reinante no Brasil,
presente em um Código de Processo Penal escrito muito antes de nossa
Constituição, ofusque as conquistas de nossa Constituição Cidadã, tampouco venha
constranger a tentativa de incorporar a dimensão legalista da nossa Lei Maior às
ações dos nossos agentes públicos.
Nesse contexto, o presente trabalho tem como escopo defender que
o ato administrativo de condução coercitiva no curso do Inquérito Policial Militar
6

deverá estar de acordo com os princípios norteadores da Constituição Federal de


1988 (CF/88) que definem os direitos fundamentais da pessoa humana e que tal
medida se ajuste aos ditames da nossa Lei Maior desde que emanados do Poder
Judiciário, haja vista a proteção da liberdade e da dignidade da pessoa humana.

2. PODER DISCRICIONÁRIO

Conforme nos ensina Hely Lopes Meirelles Poder discricionário não


pode ser confundindo com Poder Arbitrário. Onde a discricionariedade é a liberdade
de ação administrativa dentro dos limites da lei; arbítrio é ação contrária opu
excedente a lei.
Tem se portanto que a discricionariedade é sempre relativa e parcial,
pois deve atender aos princípios da competência, forma e da finalidade do ato. Ou
seja, o administrador deverá ter competência legal para praticá-lo; dever´pa
obedecer a forma legal para sua realização; e deverá atender à finalidade legal de
todo ato administrativo, que é o interesse público. Caso não sejam atendida uma ou
mais das presentes condicionantes da execução do ato discricionário, este passa a
ser arbitrário e ilegal, portanto.
Temos que o poder discricionário dá ao administrador uma certa
liberdade para “sentir” a realidade dos fatos e decidir o que convém e o que não
convém ao interesse coletivo. Permitindo aos órgãos executivos agir
discricionariamente, quanto aos aspectos em que a Lei permite opção.

3. PRINCÍPIO DA RAZOABILIDADE

Segundo Gordillo (1977:183-184), "a decisão discricionária do


funcionário será ilegítima, apesar de não transgredir nenhuma norma concreta
e expressa, se é ´irrazoável´, o que pode ocorrer, principalmente, quando:
a) não dê os fundamentos de fato ou de direito que a sustentam ou;
b) não leve em conta os fatos constantes do expediente ou
públicos e notórios, ou
c) não guarde uma proporção adequada entre os meios que
emprega e o fim que a lei deseja alcançar, ou seja, que se trate de
uma medida desproporcionada, excessiva em relação ao que se
deseja alcançar".
7

Diogo de Figueiredo Moreira Neto (1989:37-40) dá maior realce


a esse último aspecto ao afirmar que, pelo princípio da razoabilidade, "o que
se pretende é considerar se determinada decisão, atribuída ao Poder
Público, de integrar discricionariamente uma norma, contribuirá efetivamente
para um satisfatório atendimento dos interesses públicos". Ele realça o
aspecto teleológico da discricionariedade; tem que haver uma relação de
pertinência entre oportunidade e conveniência, de um lado, e a finalidade, de
outro. Para esse autor, "a razoabilidade, agindo como um limite à discrição na
avaliação dos motivos, exige que sejam eles adequáveis, compatíveis e
proporcionais, de modo a que o ato atenda a sua finalidade pública específica;
agindo também como um limite à discrição na escolha do objeto, exige que ele se
conforme fielmente à finalidade e contribua eficientemente para que ela seja
atingida".
O princípio da razoabilidade, sob a feição de proporcionalidade entre

meios e fins, está contido implicitamente no artigo 2°, parágrafo único, da Lei n°-
9.784/99, que impõe à Administração Pública: adequação entre meios e fins, vedada
a imposição de obrigações, restrições e sanções em medida superior àquelas
estritamente necessárias ao atendimento do interesse público (inciso VI);
observância das formalidades essenciais à garantia dos direitos dos administrados
(inciso VIII); adoção de formas simples, suficientes para propiciar adequado grau de
certeza, segurança e respeito aos direitos dos administrados (inciso IX); e também
está previsto no artigo 29, § 2º, segundo o qual “os atos de instrução que exijam a
autuação dos interessados devem realizar-se do modo menos oneroso para estes”.

4. USO E ABUSO DE PODER.

Todo agente público, político ou administrativo, exerce poder


administrativo conforme a sua investidura legal e sua esfera de competência. Sua
autoridade é prerrogativa da função pública exercida e está inserida nas funções do
órgão público a que se integra.
Estes agentes devem ter em mente o que prescreve a Constituição,
mais especificamente o art. 37 que prevê o princípio da impessoalidade da
administração pública, ou seja, os atos administrativos são imputáveis não aos
8

funcionários que os pratica mas ao órgão ou entidade administrativa em nome do


qual age o funcionário, por conseguinte, o administrado não se confronta com o
funcionário que executou o ato, mas com a entidade cuja vontade foi manifestada
por ele.
O poder administrativo representa uma prerrogativa especial de
direito público outorgada aos agentes do Estado. Cada um destes terá a seu cargo a
execução de certas funções. Devem eles exerce-las, pois que seu exercício é
voltado para beneficiar a coletividade. Ao fazê-lo, dentro dos limites que a lei traçou,
pode dizer-se que usaram normalmente os seus poderes.
Uso de poder, portanto, é a utilização normal, pelos agentes
públicos, das prerrogativas que a lei lhes confere.
Usar normalmente o poder é empregá-lo segundo as normas legais,
a moral da instituição, a finalidade do ato e as exigências do interesse público.
Os poderes administrativos são outorgados aos agentes do Poder
Público para lhes permitir atuação voltada aos interesses da coletividade e estes
poderes são irrenunciáveis e devem ser obrigatoriamente exercidos pelos titulares.
O abuso de poder é quando se emprega o mesmo fora da lei, sem
utilidade pública. O poder é confiado ao administrador público para ser usado em
benefício da coletividade administrada, mas usado nos justos limites que o bem
estar social exigir. É a conduta ilegítima do administrador quando atua fora dos
objetivos expressa ou implicitamente traçados na lei.
A utilização desproporcional do poder, os empregos arbitrários da
força, da violência contra o administrado, constituem formas abusivas do uso do
poder estatal, não toleradas pelo Direito.
O abuso de poder pode se apresentar na forma ostensiva, como a
truculência ou dissimulada como o estelionato ou encoberta na aparência ilusória
dos atos legais. Em qualquer desses aspectos o abuso de poder é sempre uma
ilegalidade invalidadora do ato que a contém.
O abuso de poder segundo Hely Lopes Meirelles poderá ocorrer na
forma comissiva ou omissiva. São capazes de afrontar a lei e causar lesão a direito
individual do administrado, asseverando também que “a inércia da autoridade
administrativa ocorre quando o agente deixa de executar determinada prestação de
serviço a que por lei está obrigado, lesa o patrimônio jurídico individual”.
9

Nem sempre o poder é utilizado de forma adequada pelos agentes


do Estado. Como a atuação destes deve sujeitar-se aos parâmetros legais, a
conduta abusiva não pode merecer aceitação no mundo jurídico, devendo ser
corrigida na via administrativa ou judicial. A utilização do poder, portanto, deve
guardar conformidade com o que a lei dispuser.
O comportamento abusivo de autoridades públicas só pode ser
eficazmente combatido pelo instrumento do controle, seja qual for o poder estatal em
que seja exercido. A ausência de controle rende ensejo a prática de abuso de poder.
Necessário se torna a criação de mecanismos adequados a identificação do abuso e
de seu autor, bem como das conseqüências jurídicas a uqe estará sujeito o
responsável pela ilegalidade.

5. TESTEMUNHAS

Testemunha é toda pessoa estranha ao litígio, que depõe sobre suas


percepções sensoriais, a respeito de fatos que constituem objeto do processo.
Apesar de ser conceituado o testemunho por alguns autores como “a prostituta das
provas”, por outros como “os olhos e ouvidos da Justiça”, ou ainda “olhos que vêem
e ouvidos que não escutam”, sua credibilidade em face do livre convencimento do
juiz na avaliação da prova, é considerada na proporção do conjunto das provas
produzidas e como não há prova absoluta, o testemunho também tem valor relativo,
não somente quanto a seu conteúdo, como também levando-se em consideração a
idoneidade de quem o presta.

6. DIREITOS FUNDAMENTAIS DA PESSOA HUMANA

Os agentes públicos no cumprimento de seu dever de preservação


da ordem pública devem se manter alertas para que em nome desta ordem pública
não venham a praticar arbitrariedades e tampouco desrespeitar direitos
fundamentais da pessoa humana assegurados pela Constituição Federal.
Devemos observar quando na confecção do IPM, especialmente
quanto à inquirição de testemunhas que há um limite muito tênue entre
discricionariedade e arbitrariedade.
10

Que fique claro que a condução coercitiva determinada pelo


encarregado de IPM não encontra guarida na ordem constitucional vigente, cuja
ação de qualquer agente público, especialmente na seara penal e penal militar, deva
respeitar a liberdade e a dignidade da pessoa humana como valores da nossa Lei
Maior.
Há uma necessidade de se analisar os dispositivos legais sob a ótica
da Constituição Federal, notadamente o respeito à dignidade da pessoa humana, à
liberdade e à justiça como corolário do Estado Democrático de Direito, “... destinado
a assegurar o exercício dos direitos sociais e individuais, a liberdade, a segurança, o
bem-estar, o desenvolvimento, a igualdade e a justiça como valores supremos de
uma sociedade fraterna, pluralista e sem preconceitos, fundada na harmonia social e
comprometida, na ordem interna e internacional, com a solução pacífica das
controvérsias." (Preâmbulo da Constituição Federal).
A República Federativa do Brasil tem como um dos seus
fundamentos a dignidade da pessoa humana (art. 1º, III) e garante a inviolabilidade
do direito à vida, à liberdade e à segurança (art. 5º, caput).
Qualquer dispositivo legal deve obediência aos princípios e normas
estabelecidos na CF/88.
O mandado de condução coercitiva expedido por autoridade policial
atenta contra os princípios da liberdade de locomoção e da dignidade da pessoa
humana, haja vista a possibilidade de se utilizar da violência física e psicológica para
conduzir sujeitos de direitos sem que o Poder Judiciário aprecie a ameaça ou lesão
desses direitos (art. 5º, XXXV), sob o pretexto da auto-executoriedade dos atos
administrativos de Poder de Polícia. Ressalte-se também que é assegurado ao
indiciado, ao ofendido e às testemunhas ficarem em silêncio quando da oitiva (art.
5º, LXIII).
O silêncio, no inquérito policial, não tem valor probatório, mas
informativo, não melhora ou piora a situação dos possíveis envolvidos na infração
penal. Então seria constitucional uma autoridade policial forçar/constranger uma
pessoa a sair de sua residência ou trabalho ou aonde se encontrar e conduzi-la a
uma sede policial militar para prestar esclarecimentos quando a Carta Magna lhe
reserva o direito de permanecer calado?
Acreditamos que não. Somente o Poder Judiciário tem tal
competência. Portanto, a autoridade policial, dentro do regime democrático e de
11

direito hoje postos, solicitaria ao Poder Judiciário o competente mandado de


condução coercitiva.
A nossa carta Magna garante a inviolabilidade do direito à liberdade
de locomoção. Privar alguém desse direito só seria permitido quando do flagrante
delito ou por ordem judicial escrita e fundamentada (art. 5º, XLI), precisamente à
pessoa do agente ativo.

7. ENTREVISTA COM OS MEMBROS DO PODER JUDICIÁRIO


ESTADUAL LIGADOS A AUDITORIA MILITAR DO ESTADO DO RJ
SOBRE A CONDUÇÃO COERCITIVA DE TESTEMUNHAS.

A presente entrevista tem por objetivo tão somente apresentar,


dentro do trabalho, os diferentes pontos de vista sobre o tema acima, a partir
daqueles que operam o Direito na prática:

7.1. Entrevista com a Ilma. Sra. Dra. Cláudia Valéria Taranto, Defensora
Pública da AJMERJ:
−membro da Defensoria Pública desde 1994;
−atuando na AJMERJ por aproximadamente 8 anos;
−As repostas da presente entrevista nos foram entregues prontas pela Ilma
entrevistada.

1. Existe alguma forma de constrangimento ou abuso de poder na condução


coercitiva de testemunhas no curso do IPM?
É desafiador sugerir um ponto de vista tão divergente sobre o tema
consolidado, mas não unânime, no cotidiano de abnegados Delegados de polícia e
Encarregados de Inquéritos Policiais Militares, na doutrina e jurisprudência pátrias.
O combate ao crime, a falta de estrutura no nosso aparelho de
Segurança Pública, notadamente das nossas Polícias, aliado à herança ditatorial
reinante no Brasil impede, na maioria das vezes, as conquistas da Constituição
cidadã, bem como constrange a tentativa de incorporar a dimensão holística da
nossa Lei maior às ações dos nossos agentes públicos.
Nesse sentido, o parágrafo único do art. 201 do CPP discrimina: “se
intimado para esse fim (perguntado sobre as circunstâncias da infração),
12

deixar de comparecer sem motivo justo, o ofendido poderá ser conduzido a


presença da autoridade”. (grifos nossos)
No mesmo sentido, o art. 260, caput: “se o acusado não atender a
intimação para interrogatório, reconhecimento ou qualquer outro ato, sem ele,
não possa ser realizado, a autoridade poderá mandar conduzi-lo à sua
presença.”(grifos nossos)
Pois bem, a leitura fria desses dispositivos legais não importa em
flexibilização ou interpretação. A autoridade policial, dentro de suas atribuições
legais, tem a faculdade jurídica de expedir mandado de condução coercitiva para o
acusado, as testemunhas e até mesmo o ofendido compareçam à respectiva
delegacia ou OPM para prestar os esclarecimentos devidos.
Entretanto, essa concepção restritiva não encontra mais guarida na
ordem constitucional vigente, cuja ação de qualquer agente público, especialmente
na seara penal, deva respeitar a liberdade e a dignidade da pessoa humana como
valores supremos da nossa Lei Maior.
Em assim sendo, entendo que há sim forma de constrangimento na
condução coercitiva de testemunhas e outros sujeitos envolvidos no curso do IP ou
IPM, vez que, à frente da Constituição de 1988, institui-se o Estado Democrático de
Direito, “...destinado a assegurar o exercício dos direitos sociais e individuais, a
liberdade, a segurança, o bem-estar, o desenvolvimento, a igualdade e a justiça
como valores supremos de uma sociedade pluralista e sem- preconceitos, fundada
na harmonia social e comprometida, na ordem interna e internacional, com a solução
pacífica das controvérsias...” – preâmbulo da Constituição da República de 1988.
2. Qual a orientação majoritária do Tribunal de Justiça sobre o tema?
Claramente, percebe-se a contradição entre os dispositivos do CPP
e do CPPM e a garantia do direito à liberdade do cidadão. O que adiante a nossa
CF garantir à liberdade se o CPP e CPPM (normas infraconstitucionais) a cerceia
sob pretexto da apuração da infração penal em processo administrativo, sem
contraditório e a ampla defesa?
Dessa forma, a orientação a ser seguida, é que os dispositivos do
CPP e do CPPM devam ser interpretados e aplicados sob a ótica da Constituição
Federal de 1988, até porque, a Constituição Federal é absolutamente Superior sobre
as demais normas, e dela irradiam-se os subseqüentes dispositivos legais.
Portanto, nossa Constituição é rígida e, como conseqüência, é a lei fundamental e
13

suprema do Estado brasileiro. Toda autoridade nela encontra fundamento e só dela


confere poderes e competências governamentais.
Nesse mesmo diapasão, qualquer dispositivo legal deve obediência
aos princípios e normas estabelecidos na CF/88.
A República Federativa do Brasil tem como um dois seus
fundamentos a dignidade da pessoa humana (art. 1°, III) e garante a inviolabilidade
direito à vida, à liberdade e à segurança (art. 5°, caput).
Assim, não é nosso objetivo pormenorizar o conteúdo dos princípios
constitucionais citados, entretanto, acreditamos que o mandado de condução
coercitiva expedido por autoridade policial atenta contra os princípios da liberdade
de locomoção e da dignidade da pessoa humana, haja vista a possibilidade de se
utilizar violência física e psicológica para conduzir sujeitos de direitos sem que o
Poder Judiciário aprecie a ameaça ou lesão desses direitos (art. 5°, XXXV), sob o
pretexto da auto-executoriedade dos atos administrativos.
O silêncio, no IP ou IPM, não tem valor probatório, mas informativo;
nem melhora ou piora a situação dos possíveis envolvidos na infração penal, de
forma genérica. Então, indaga-se: seria constitucional uma autoridade policial forçar
/constranger uma pessoa a sair de casa ou trabalho ou aonde se encontrar e
conduzi-la a uma DP ou Unidade Militar para prestar esclarecimentos quando a
Carta Magna lhe reserva o direito de ficar calada?
Acredito que não. Somente o Poder Judiciário tem tal competência.
Assim, a autoridade policial, dentro do regime democrático e de direito hoje postos,
solicitaria ao Poder Judiciário o competente mandado de condução coercitiva.
A CF, ressalte-se mais uma vez, garante a inviolabilidade do direito à
liberdade de locomoção. Privar alguém desse direito só seria permitido quando do
flagrante delito ou por ordem judicial escrita e fundamentada (art. 5°, XLI),
precisamente à pessoa do agente ativo.
3. Em que casos pode, ou deve ser, realizada a condução coercitiva de
testemunhas no curso do IPM?
Como já dito acima, em nenhum caso, salvo se em flagrante delito
alguém pode ser conduzido à autoridade policial, ou por ordem expressa da
autoridade judicial competente.
Concluindo, tentamos passa a V. as. Uma visão mais humana dessa
conturbada questão, notadamente, da condução coercitiva de pessoas para
14

prestarem esclarecimentos, informações e testemunhos na elucidação das infrações


penais e/ou militares e da respectiva autoria.
Portanto, entendemos que somente ao Poder judiciário é dada a
competência constitucional para expedir tal mandado cerceador da liberdade de
locomoção e altamente constrangedor. Alie-se, ainda, a ineficácia da condução
coercitiva no curso dos inquéritos policiais, haja vista o direito de permanecer calado
e os diversos mecanismos de coleta de provas realizada pela polícia científica,
atualmente em todos em bastante evidência. E, desta forma, os dispositivos do CPP
e do CPPM devem ser interpretados e aplicados sob a ótica da Constituição Federal
de 1988.

7.2. Entrevista com a Ilma. Sra. Dra. Isabella Pena Lucas, Promotora
de Justiça da 1ª Promotoria da AJMERJ:
−membro do Ministério Público desde 2000;
−atuando na AJMERJ desde 2004;
−as respostas nos foram apresentadas de forma oral, pela Ilma entrevistada.

Entende a Ilma entrevistada que deve ser aplicada uma “analogia


limitada” do previsto no art. 301 do CPPM, onde se lê: “Art. 301. Serão observadas
no inquérito as disposições referentes às testemunhas e sua acareação, ao
reconhecimento de pessoas e coisas, aos atos periciais e a documentos,
previstas neste Título, bem como quaisquer outras que tenham pertinência
com a apuração do fato delituoso e sua autoria.” (grifo nosso)
Que permite trazer ao inquérito o previsto nos artigos abaixo do
mesmo dispositivo legal:
Art. 347. As testemunhas serão notificadas em decorrência de
despacho do auditor ou deliberação do Conselho de Justiça, em que será
declarado o fim da notificação e o lugar, dia e hora em que devem comparecer.
Comparecimento obrigatório
§ 1º O comparecimento é obrigatório, nos termos da
notificação, não podendo dele eximir-se a testemunha, salvo motivo de força
maior, devidamente justificado.
Falta de comparecimento
15

§ 2º A testemunha que, notificada regularmente, deixar de


comparecer sem justo motivo, será conduzida por oficial de justiça e multada
pela autoridade notificante na quantia de um vigésimo a um décimo do salário
mínimo vigente no lugar. Havendo recusa ou resistência à condução, o juiz
poderá impor-lhe prisão até quinze dias, sem prejuízo do processo penal por
crime de desobediência.
Que tratam da condução coercitiva durante o processo, e não
durante o inquérito.
Tal analogia limitada, ocorreria pois no entendimento da Ilma
Promotora, a condução coercitiva não é plenamente acolhida pela Constituição
Federal de 1988, já que o CPPM é anterior e inferior a CF/88.
Há ainda de se levar em consideração outros aspectos da questão.
Muitas vezes as testemunhas já se sentem amedrontadas ou
intimidadas por terem de depor em um inquérito, a condução coercitiva só iria
agravar ainda mais a sensação de intimidação das testemunhas.
Mas não se deve deixar de considerar que um inquérito sem
testemunhas pode acabar por tornar-se um inquérito vazio, por isso é essencial uma
forma de trazer a apreciação do encarregado o depoimento das testemunhas.
Por isso entende a Ilma Dra que a condução coercitiva de
testemunhas poderia ocorrer de forma comparada as demais medidas cautelares,
mesmo sendo ato ordinário, onde, caso o encarregado avaliasse ser essencial para
elucidação do fato, o depoimento de uma testemunha, que o citado venha a
presença do M.P., solicitar que seja expedido o referido mandado de condução, ou
seja, ocorreria mediante solicitação judicial.

7.3 Entrevista com Exmo Sr Dr Juiz de Direito da Costa Ferreira, da 2ª


Vara da Infância e da Juventude:
−Magistrado desde 1999;
−Atuou como Juiz da AJMERJ, por aproximadamente 7 anos, até março de 2008.
−As respostas nos foram apresentadas de forma oral pelo Exmo Entrevistado.

O Exmo Juiz de Direito, iniciou a entrevista posicionando-se contra a


condução coercitiva de testemunhas durante o inquérito por parte do encarregado.
16

Uma vez que na fase investigativa não foi oferecida denúncia crime
contra ninguém, portanto, o bem maior a ser protegido nesse caso são os direitos
individuais das testemunhas no inquérito.
Caso haja a necessidade insuperável de fazê-lo que o seja através
de solicitação judicial ao M.P.
O inquérito visa embasar o Juízo no oferecimento ou não da
denúncia, por isso, tem o encarregado o dever de instruir adequadamente o
inquérito, ou seja, tem o dever de tentar ouvir todas as testemunhas, mas caso
alguma testemunha tenha deixado de ser ouvida no curso do inquérito, é obrigação
do encarregado fazer constar em seu relatório que a testemunha “X” deixou de ser
ouvida, mas é essencial para o esclarecimento dos fatos, dando base para que seja
iniciado o processo e que tal testemunha seja ouvida no curso do processo, ainda
que seja necessário ao Magistrado, aí sim, determinar a condução coercitiva da
referida testemunha.
Deixando claro que entende ser prerrogativa do Judiciário, avaliar a
real necessidade de tal ato, e executá-lo.
Entende que na fase de inquérito a condução coercitiva da
testemunha fere os direitos individuais consagrados na Constituição Federal de
1988, e poderia gerar uma ação cível ou criminal contra o encarregado.
Já em fase processual o bem a ser preservado é o interesse da
coletividade, em punir um crime, que se torna um bem maior em detrimento da
proteção individual dos envolvidos no processo.
O Exmo entrevistado também fez questão de enfatizar que o
Magistrado não se pronuncia no inquérito.
Destacou ainda que o constrangimento causado por uma condução
coercitiva poderia aumentar ainda mais a sensação de medo da testemunha.
Em relação a pergunta formulada de qual seria a orientação
majoritária do Tribunal de Justiça sobre o tema, respondeu que a AJMERJ por se
tratar de um juízo único, facilita muito o trabalho do Magistrado, uma vez que cuida
de tema muito específico do Direito, gozando de “relativa” independência, em
relação ao T.J. que deixa o tratamento do Direito Militar a cargo daqueles que o
operam diretamente, ou seja, os membros da AJMERJ.

8. CONCLUSÃO
17

A Corporação exige cada vez mais de seus profissionais,


principalmente de seus Oficiais, pois como profissionais da área de Segurança
Pública devemos nos aprimorar para que possamos prestar um serviço de qualidade
para nossa Sociedade Fluminense.
Concluímos esse trabalho a partir de uma visão mais humana da
atividade policial militar, notadamente, da condução coercitiva de pessoas a
prestarem esclarecimentos, informações e testemunhos na elucidação das infrações
penais militares e da respectiva autoria.
Fica claro que não podemos deixar nos levar somente pelo princípio
da auto-executoriedade do poder de polícia, em nossa sociedade atual, onde a
população vê o poder público com desconfiança, uma vez que como o próprio nome
já diz, a condução coercitiva pode ser vista pela testemunha mais como uma forma
de intimidação do que como os meios legais para se chegar à autoria de um crime.
Conforme exposto anteriormente devemos levar em consideração o
poder discricionário e o princípio da razoabilidade a fim de atender preceitos
constitucionais de proteção ao indivíduo.
Ponderamos que somente ao Poder Judiciário é dada a competência
constitucional para expedir tal mandado cerceador da liberdade de locomoção e
altamente constrangedor. Bem como, asseveramos a ineficácia da condução
coercitiva no curso do inquérito policial militar, haja vista o direito de permanecer em
silêncio, além do depoimento “vazio”, que uma testemunha coagida, mesmo sob o
risco de perjúrio, pode praticar. Porque não lembrar que o Encarregado de IPM
poderá se utilizar de diversos mecanismos de coleta de provas realizada pela Polícia
Científica.
Vemos ainda a partir das respostas do Exmo Sr Dr Juiz de Direito
Marcius da Costa Ferreira, titular da 2ª. Vara da Infância e Juventude, e da Ilma Sra
Dra Promotora de Justiça e da Ilma Sra Dra Defensora de Justiça, ambas da
AJMERJ, nas entrevistas acima, que já é do entendimento daqueles que operam o
Direito Penal Militar e Processual Penal Militar, a aplicação nos inquéritos e
processos da justiça militar justamente na forma do exposto no corpo do trabalho e
ainda nas conclusões acima, é imprescindível ressaltar que os três membros do
judiciário apesar de atuarem em situações teoricamente antagônicas, mas ainda
assim complementares, concordaram plenamente entre si, tanto na fundamentação
18

teórica como na aplicação dos princípios e direitos administrativos e constitucionais,


reforçando que a prática do direito, apesar de ainda não ser uma doutrina
plenamente estabelecida, já é esta.
Ante a toda proposição acima nas respostas dos entrevistados fica
claro o embasamento legal e doutrinário utilizados por eles para esse modelo de
aplicação da Lei, na forma de não conduzir coercitivamente testemunhas, pois tal
ato constrange a testemunha, anulando com isso o atendimento do bem jurídico a
ser tutelado por tal ato administrativo, uma vez que o ato perde sua capacidade de
atender ao interesse público, ele não perde sua legalidade, mas perde totalmente
sua eficácia, tornando sem sentido sua auto-executoriedade.
Se ele não é eficaz, e portanto perdeu sua auto-executoriedade,
mas mantém sua legalidade, como aplicá-lo se cabe ao agente público, pelo
princípio da indisponibilidade e da legalidade, agir no interesse da coletividade?
Tal aplicação se faz por analogia conforme já explicado, mediante
solicitação ao judiciário.
19

8. REFERENCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BRASIL. Constituição (1988). Constituição da República Federativa do Brasil.


27.ed. atual. e amp. São Paulo: Saraiva, 2001.

CAPEZ, Fernando. Curso de Processo Penal.13 ed. São Paulo, 2006.

MORAES, Alexandre de. Direito Constitucional. 16 ed. São Paulo: Atlas, 2004.

CARVALHO, José dos Santos Filho. Manual de Direito Administrativo. 15 ed. Rio de
Janeiro: Lúmen Júris, 2006.

RANGEL, Paulo. Direito Processual Penal. 11 ed. Rio de Janeiro: Lúmen Juris,
2006.

PMERJ. Manual de Inquérito Policial Militar.

DI PIETRO, Maria Sylvia Zanella. Direito Administrativo. 20ª ed. São Paulo: Editora
Atlas, 2007.