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Universidade Paulista (Unip) Instituto de Ciências Sociais e Comunicação Curso de Comunicação, hab. em Jornalismo

Apostila

Ética e Legislação em Jornalismo

Docente responsável: Prof. Dr. Luís Henrique Marques

São Paulo, 2 o semestre de 2011.

Apostila de Ética e Legislação em Jornalismo Prof. Dr. Luís Henrique Marques

Apresentação

O material que se segue é, na realidade, um ensaio que busca apresentar ao

aluno da disciplina Ética e Legislação em Jornalismo do curso de Comunicação Social,

habilitação em Jornalismo, da Universidade Paulista (Unip), os principais temas e/ou

tópicos relacionados a essa área. Toda a argumentação apresentada na discussão de

cada tema está referendada pelo estudo e reflexão de algumas das mais importantes

e atuais obras no que diz respeito à Ética Jornalística e Legislação aplicada à

Comunicação Social.

Os pequenos textos que se seguem não querem ser “a última palavra”

(portanto, não desejam ser doutrinários) nem tão pouco abordam os temas de maneira

exaustiva. A pretensão deste material é servir de subsídio a uma reflexão consistente

do aluno acerca das questões atualmente mais pertinentes no que se refere à prática

ética do jornalismo e à legislação aplicada ao exercício profissional da comunicação.

O autor

Luís Henrique Marques é jornalista com bacharelado e mestrado pela Universidade Estadual Paulista (Unesp), campus de Bauru, e doutorado em História pela mesma universidade, campus de Assis. Possui mais de 20 anos de jornalismo e mais de 15 anos como atuação no magistério superior. Atualmente, é docente do curso de Jornalismo da Universidade Paulista (Unip), membro do Conselho Editorial, repórter- redator e colunista da revista Cidade Nova (www.cidadenova.org.br). Acumula também experiência em assessoria de imprensa, jornalismo comunitário, produção de programas jornalísticos e culturais em rádio e é autor da obra Teoria e pratica da redação para jornalismo impresso (Edusc, 2003), além de diferentes artigos científicos sobre temas a respeito de comunicação religiosa, sua área de pesquisa acadêmico-científica.

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PLANO DE ENSINO

CURSO: Comunicação Social – Jornalismo SÉRIE: 8º/7º semestres TURNO: Diurno e Noturno DISCIPLINA: Ética e Legislação em Jornalismo CARGA HORÁRIA SEMANAL: 2h/aula

I – EMENTA

Ética, concepções filosóficas. Direito, conceitos fundamentais. Direitos Individuais e Direitos da Personalidade. Regulamentação da atividade de jornalista de acordo com o direito positivo. Direito comparado. Propostas de regulamentação.

II – OBJETIVOS GERAIS

Oferecer ao aluno de jornalismo instrumentos de reflexão sobre as questões éticas em que se envolve o profissional da comunicação social, especialmente quando suas atividades estão relacionadas à transmissão de informações. Oferecer ao estudante um panorama a respeito da regulamentação do sistema de direito positivo a respeito das responsabilidades do jornalista profissional, bem como das respectivas propostas de alteração.

III – OBJETIVOS ESPECÍFICOS

Durante o semestre o aluno deverá:

apropriar-se dos modos de reflexão das principais correntes filosóficas de pensamento ético;

identificar as possibilidades de aplicação deste modo de pensar ao cotidiano profissional;

conhecer a diferença entre ética e direito;

identificar os princípios constitucionais que estão relacionados à atividade jornalística;

identificar os principais aspectos da legislação aplicável à regulamentação profissional e ao próprio exercício da profissão;

analisar as propostas de alterações no direito que possam interferir no exercício da profissão.

IV – CONTEÚDO PROGRAMÁTICO.

1. Conceito de ética, de acordo com as principais correntes de pensamento.

2. O papel social do jornalista e aplicabilidade do pensamento ético em sua

definição;

3. Ética e meios de comunicação;

4. Normas jurídicas e normais morais;

5. Estrutura do Direito, Direitos Fundamentais e Direitos de Personalidade;

6. Normas constitucionais aplicáveis à profissão de jornalista;

7. Direito e os meios de comunicação social;

8. Lei de imprensa e legislação correlata;

9. Os códigos de ética do jornalismo no Brasil;

10. Códigos de ética no exterior;

11. Regulamentação da profissão;

12. Propostas de alteração legislativa que possam interferir nos aspectos jurídicos

da profissão de jornalista.

V – ESTRATÉGIAS DE TRABALHO

1.

Aulas expositivas – participativas;

2.

Apresentações de casos;

3.

Debates de casos;

4.

Pesquisas em veículos de comunicação.

VI

– AVALIAÇÃO

1.

Provas individuais;

2.

Pesquisas;

3.

Participação;

4.

Debates e palestras.

VI

– BIBLIOGRAFIA

Bibliografia Básica

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COMPARATO, Fábio Konder. Ética: direito, moral e religião no mundo moderno. São Paulo: Cia. das Letras, 2006. GODOY, Claudio Luiz Bueno de. A liberdade de imprensa e os direitos de personalidade. São Paulo: Atlas, 2. ed., 2008. TÓFOLI, Luciene. Ética no jornalismo. Petrópolis: Vozes, 2007. KARAM, Francisco José. A ética jornalística e o interesse público. São Paulo:

Summus, 2004.

Bibliografia Complementar

ANDRE, Alberto. Ética e códigos da comunicação social. Sagra, 1994. ARISTOTELES, A Ética. Edições Profissionais LTDA, 1996. BARROS F.º, Clóvis de. Ética na comunicação. São Paulo: Moderna, 1995. BASTOS, Celso. Curso de Direito Constitucional. São Paulo: Saraiva, 1994. BERTI, Silma Mendes. Direito à própria imagem. Belo Horizonte: Del Rey, 1993. BUCCI, Eugenio. Sobre ética e imprensa. São Paulo: Cia das Letras, 2000; COSTA, Jurandir Freire. A Ética e o espelho da cultura. São Paulo: Rocco, 1995. JABUR, Gilberto Haddad. Liberdade de pensamento e direito à vida privada:

conflitos entre direitos de personalidade. São Paulo: RT, 2000. MIRANDA, Darcy Arruda. Comentários à lei de imprensa - Lei 5.250/67. São Paulo:

RT, 1995. NASCIMENTO, Amauri Mascaro; PINHO, Ruy Rabello. Instituições de direito publico e privado.São Paulo: Atlas, 1997. NEVES, Ricardo José. Vade mecum da comunicação social. São Paulo: Ridell,

2000.

SILVEIRA, Newton. A Propriedade Intelectual e as Novas Leis Autorais. São Paulo:

Saraiva, 1998. NOGUEIRA, Paulo Lúcio. Em defesa da honra. São Paulo: Saraiva, 1995. NOVAES, Adauto. Ética. São Paulo: Cia das Letras, 1992. NUZZI, Erasmo de Freitas / BARROS F.º, Clóvis de. Globalização, mídia e ética. São

Paulo: Plêiade, 1998. REALE, Miguel. Lições preliminares de direito. São Paulo: Saraiva, 1993. SANTOS, Reinaldo. Vade mecum da comunicação. Edições Trabalhistas, 2001. VALLS, Álvaro L. M. O que é Ética. São Paulo: Brasiliense, 1996. VÁZQUES, Adolfo Sanchez. Ética. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2000.

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Conceito de ética, de acordo com as principais correntes de pensamento

Um conceito geral de Ética

Discutir as conseqüências das opções que o jornalista faz tendo em vista orientar seu trabalho é discutir ética. De fato, é por essa razão que Bucci (2000, p. 15) argumenta que a reflexão ética “é antes um modo de pensar que, aplicado ao jornalismo, dá forma aos impasses que requerem decisões individuais e sugere equações para resolvê-los”. E a propósito das equações, é senso comum que liberdade sem responsabilidade não funciona. Isto é, o que ganha a sociedade e, especialmente, o jornalista com a liberdade de expressão se esta não é utilizada com responsabilidade? Diz Louis W. Hodges (apud ELLIOTT, 1988): ser responsável responder por aquilo que faz. Logo, o material jornalístico (sobretudo informativo) é responsabilidade do jornalista, e uma responsabilidade social porque afeta, muito ou pouco, o público. Antes, contudo, de entrarmos na discussão específica da ética jornalística, é pertinente recorrermos à Filosofia para melhor compreender o próprio conceito de ética. Da compreensão deste conceito, se justifica toda a reflexão ética sobre o exercício do jornalismo. Vejamos o que diz Vásquez (1990, p. 12) ao definir Ética:

A ética é a teoria ou ciência do comportamento moral dos homens em sociedade. Ou seja, é ciência de uma forma específica de comportamento humano.

A

nossa definição sublinha, em primeiro lugar, o caráter científico desta disciplina; isto

é,

corresponde à necessidade de uma abordagem científica dos problemas morais. De

acordo com esta abordagem, a ética se ocupa de um objeto próprio: o setor da realidade humana que chamamos moral, constituído – como já dissemos – por um tipo peculiar de fatos ou atos humanos. Como ciência, a ética parte de certo tipo de fatos

visando descobrir-lhes os princípios gerais. Nesse sentido, embora parta de dados empíricos, isto é, da existência de um comportamento moral efetivo, não pode permanecer no nível de uma simples descrição ou registro dos mesmos, mas os transcende com seus conceitos, hipóteses e teorias. Enquanto conhecimento científico, a ética deve aspirar à racionalidade e objetividade mais completas e, ao

mesmo tempo, deve proporcionar conhecimentos sistemáticos, metódicos e, no limite do possível, comprováveis. Certamente, esta abordagem científica dos problemas morais ainda está muito longe de ser satisfatória, e das dificuldades para alcançá-la ainda continuam se beneficiando as éticas especulativas tradicionais e as atuais de inspiração positivista.

A ética é a ciência da moral, isto é, de uma esfera do comportamento humano. Não

deve se confundir aqui a teoria com o seu objeto: o mundo moral. As proposições da ética devem ter o mesmo rigor, a mesma coerência e fundamentação das proposições científicas. Ao contrário, os princípios, as normas ou os juízos de uma moral determinada não apresentam esse caráter. E não somente não têm um caráter científico, mas a experiência histórica moral demonstra como muitas vezes são incompatíveis com os conhecimentos fornecidos pelas ciências naturais e sociais. Daí podermos afirmar que, se se pode falar numa ética científica, não se pode dizer o mesmo da moral. Não existe uma moral científica, mas existe – ou pode existir – um conhecimento da moral que pode ser científico. Aqui, como nas outras ciências, o científico baseia-se no método, na abordagem do objeto, e não no próprio objeto. Da mesma maneira, pode-se dizer que o mundo físico não é científico, embora o seja a sua abordagem ou estudo por parte da ciência física. Se, porém, não existe uma moral científica em si, pode existir uma moral compatível com os conhecimentos científicos sobre o homem, a sociedade e, em particular, sobre o comportamento humano moral.

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É este o ponto em que a ética pode servir para fundamentar uma moral, sem ser em si

mesma normativa ou preceptiva. A moral não é ciência, mas objeto da ciência; e, nesse sentido, é por ela estudada e investigada. A ética não é a moral e, portanto, não pode ser reduzida a um conjunto de normas e prescrições; sua missão é explicar a moral efetiva e, neste sentido, pode influir na própria moral. Seu objeto de estudo é constituído por um tipo de atos humanos: os atos

conscientes e voluntários dos indivíduos que afetam outros indivíduos, determinados grupos sociais ou a sociedade em seu conjunto.(grifo nosso) Na definição antes enunciada, ética e moral se relacionam, pois, como uma ciência específica e seu objeto. Ambas as palavras mantém assim uma relação que não tinham propriamente em suas origens etimológicas. Certamente, moral vem do

latim mos ou mores, “costume” ou “costumes”, no sentido de conjunto de normas ou regras adquiridas por hábito. A moral se refere, assim, ao comportamento adquirido ou modo de ser conquistado pelo homem. Ética vem do grego ethos, que significa analogamente “modo de ser” ou “caráter” enquanto forma de vida também adquirida ou conquistada pelo homem. Assim, portanto, originariamente, ethos e mos, “caráter”

e “costume”, assentam-se num modo de comportamento que não corresponde a uma

disposição natural, mas que é adquirido ou conquistado por hábito. É precisamente esse caráter não natural da maneira de ser do homem que, na Antiguidade, lhe confere sua dimensão moral. Vemos, pois, que o significado etimológico de moral e de ética não nos fornecem o significado atual dos dois termos, mas nos situam no terreno especificamente humano no qual se torna possível e se funda o comportamento moral: o humano como o adquirido ou conquistado pelo homem sobre o que há nele de pura natureza. O comportamento moral pertence somente ao homem na medida em que, sobre a sua própria natureza, cria esta segunda natureza, da qual faz parte a atividade moral.

A essa revisão do conceito de Ética feita por Vasquez, Eugênio Bucci (2000, p. 17) acrescenta o argumento: “o desafio ético é encontrar, no campo dos costumes, as pistas para o Bem”. Mas a qual Bem devemos nos referir, questiona o próprio Bucci. E ele mesmo aponta uma solução (Ibid, p. 17): “não se trata de um Bem que um sujeito impõe aos outros; trata-se de um Bem que se realiza como projeto intersubjetivo” (grifo nosso), justamente porque, conforme afirmara acima Vásquez (Ibid), os atos morais (e, portanto, objetos da reflexão ética) referem-se a atos dos indivíduos, conscientes e voluntários, que afetam outros indivíduos.

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Para refletir:

O jornalista Mario Mazzei Guimarães (1998), propõe, de forma bem-humorada, outra forma para distinguir moral de ética. Diz ele:

“Ética seria a parte da filosofia que, segundo o inglês Bertrand Russel, enfeixa ‘princípios gerais que nos auxiliam a determinar regras de conduta’. Mas ele mesmo não gostava muito do conceito, devido ao preconceito de filósofo contra a inclusão da ética no campo filosófico. Não seria muito ‘ético’ Mas no Sindicato dos Jornalistas de São Paulo está funcionando uma Comissão de Ética, por recomendação estatutária e para fazer cumprir, na respectiva área, regras de conduta no exercício da profissão. O articulista é membro da Comissão de Ética, eleito por Assembléia Geral, e judia muito da cuca para concluir pelo que é ético, pelo que não é e pelo que fica no escuro.

Moral, o estorvo Começa pelo enfrentamento da moral com a ética. No que diferem. Dizem que a ética é um conjunto de princípios morais que devem reger a sociedade. No caso da

nossa profissão, o que é ético seria moral. E o que seria moral? Aí parece que está a diferença, a ética sendo uma ciência, sujeita a mudanças no tempo e no meio, mas

procurando, o mais possível, manter princípios gerais permanentes. Já a moral

ético, por exemplo, aceitar a regra moral que justifica queimar gente, como na Inquisição da Santa Madre? E será ético os EUA condenarem a Índia e o Paquistão

pela bomba atômica, se foram eles os primeiros a lançarem mão dela?

Como quer que seja, para simplificar, este servo da Ética entende que

ela é mais geral, menos transformista, apegada ao princípio acima das injunções; já a moral estorva, compactua com os interesses da raça, do

Vejam a questão das saias: no tempo das

nossas avós, de saias cumpridas e sutiãs (corpetes) bem protetores. Não era imoral a saia feminina de um a dois palmos acima do joelho e a blusa decotada entremostrando os seios de modo aliciador? Ó tempos, ó costumes. Pelo sim, pelo não, a ética é uma ciência, descendo um pouco da altura das estrelas, e a moral, vamos dizer, é um hábito, mutável com a geografia e a história. A nudez

dos índios, tão castos, talvez pudesse explicar melhor”.

ambiente, da religião, do tempo

Seria

A ética na perspectiva da atividade jornalística

“Refletir sobre ética em uma atividade é, além de um tormento pessoal, um exercício de afastamento da prática imediata, de complexificação da moral profissional e de inscrição da profissão na contemporaneidade, com previsíveis complicações de tal tentativa”. (Francisco José Karam)

De maneira perspicaz, Bucci adverte para pelo menos duas visões que costumam permear o debate ético envolvendo a imprensa. A primeira delas é confundir ética com etiqueta. “Cultivar a idéia de que bons modos – e as boas consciências – resolvem por si os impasses que se apresentam é ajudar a tecer a cumplicidade entre o jornalismo e o poder é reduzir os graves problemas da ética jornalística e dos meios de comunicação a uma questão de etiqueta”, escreve Bucci (2000, p. 11). Pelo contrário, continua Bucci (Ibid), “o jornalismo é conflito, e quando não há conflito no jornalismo, um alarme deve soar”. “Onde a etiqueta cala, a ética pergunta”, completa. Outra visão – se não equivocada, ao menos ingênua – que permeia o debate sobre a ética jornalística é resumir as posições entre certas e erradas, o que tal

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discussão, novamente segundo Bucci (Ibid), não passaria de uma trivialidade ou seria facilmente administrada por legislação realmente democrática. Quando posturas são facilmente identificadas como certas ou erradas, não há debate ético. O debate surge justamente em relação àquelas questões que são, em si e por princípio, corretas ou lícitas. Decidir entre uma delas consiste, de fato, num debate sobre ética jornalística.

Teleologia e Deontologia

A Teleologia e a Deontologia consistem em duas correntes básicas presentes no estudo sobre jornalismo, especificamente sobre a ética jornalística. A Teleologia leva em conta as conseqüências do ato moral. Busca, pois, evidenciar o que traz mais benefícios éticos para as pessoas, razão pela qual é considerada dentro de um modelo filosófico utilitarista. No contexto do jornalismo, apresenta um problema elementar: como pode um profissional (ou mesmo que seja uma equipe) prever com tanta eficácia as conseqüências de seus atos profissionais? “Jornalistas não são profetas”, sentencia Bucci (Ibid, p. 22). Ele avalia: “uma ética que depende, então de cálculos que levam em sua receita uma boa dose de futurologia tem seus limites”. A Deontologia, por sua vez, considera que uma conduta só pode ser eticamente aceita se for universal (conforme conceito filosófico definido por Kant), isto é, que os atos se apóiem em princípios válidos para todos. Em geral, mais aceita por jornalistas e comunicadores em geral, a Deontologia também esbarra em problemas. Por exemplo: ela não parece resolver o real entrave ético, ou seja, quando o profissional deve escolher entre duas atitudes de valores equivalentes. Além disso, tal corrente pressupõe que os chamados códigos deontológicos (confira Código Brasileiro de Ética Jornalística nos Anexos) são imutáveis, aistóricos (desconsideram os contextos históricos que mudam, indiscutivelmente), quando, na realidade e conforme a História demonstra, nenhum princípio ético (ou moral) é eterno.

A regra de ouro

Considerada pelo próprio Bucci (2000) como uma terceira alternativa (à teleologia e deontologia), a chamada “regra de ouro” (professada pelas religiões em geral) consiste no princípio do “faço ao outro aquilo que gostaria que ele fizesse a si mesmo”. Bucci, para quem, nesse caso “o que fala mais alto é a preocupação com o próximo”, a considera inviável ao jornalismo. Para justificar sua posição, ele analisa a seguinte situação hipotética:

Como aplicar a “regra de ouro” em relação a um político que visita a redação para pedir que uma reportagem sobre um caso de corrupção não seja publicada? Deve-se tratá-lo com cortesia, o que ele entenderá como um sinal verde para voltar outras vezes com pretensões similares? Ou deve-se expulsa-lo da redação, com rispidez, dedicando-lhe um tratamento que ninguém gosta de receber? (BUCCI, Ibid, p. 23)

O posicionamento de Bucci é discutível, assim como é discutível seu exemplo. Primeiro, dizer “não” a alguém não implica em não fazer o bem ao próximo. Basta pensar o quanto certos “não”, num futuro, não implicaram no bem daqueles que os receberam um dia. Além disso, não é preciso ser ríspido ao dizer um não, bem como é bastante digno – como, por vezes, dá resultado – agir delicadamente com as pessoas, mesmo as indignas e enfurecidas.

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Ética Profissional

(http://www.unai.ada.com.br/etica/index_etica_profissional.htm)

Muitos autores definem a ética profissional como sendo um conjunto de normas de

conduta que deverão ser postas em prática no exercício de qualquer profissão. Seria a ação "reguladora" da ética agindo no desempenho das profissões, fazendo com que o profissional respeite seu semelhante quando no exercício da sua profissão.

A ética profissional estudaria e regularia o relacionamento do profissional com sua

clientela, visando a dignidade humana e a construção do bem-estar no contexto sócio- cultural onde exerce sua profissão. Ela atinge todas as profissões e quando falamos de ética profissional estamos nos referindo ao caráter normativo e até jurídico que regulamenta determinada profissão a partir de estatutos e códigos específicos. Assim temos a ética médica, do advogado, do biólogo, etc.

Acontece que, em geral, as profissões apresentam a ética firmada em questões muito relevantes que ultrapassam o campo profissional em si. Questões como o aborto, pena de morte, seqüestros, eutanásia, AIDS, por exemplo, são questões morais que se apresentam como problemas éticos - porque pedem uma reflexão profunda - e, um

profissional, ao se debruçar sobre elas, não o faz apenas como tal, mas como um pensador, um "filósofo da ciência", ou seja, da profissão que exerce. Desta forma, a reflexão ética entra na moralidade de qualquer atividade profissional humana. Sendo a ética inerente à vida humana, sua importância é bastante evidenciada na vida profissional, porque cada profissional tem responsabilidades individuais e responsabilidades sociais, pois envolvem pessoas que dela se beneficiam.

A ética é ainda indispensável ao profissional, porque na ação humana "o fazer" e "o

agir" estão interligados. O fazer diz respeito à competência, à eficiência que todo

profissional deve possuir para exercer bem a sua profissão. O agir se refere à conduta do profissional, ao conjunto de atitudes que deve assumir no desempenho de sua profissão.

A Ética baseia-se em uma filosofia de valores compatíveis com a natureza e o fim de

todo ser humano, por isso, "o agir" da pessoa humana está condicionado a duas premissas consideradas básicas pela Ética: "o que é" o homem e "para que vive", logo toda capacitação científica ou técnica precisa estar em conexão com os princípios essenciais da Ética. (MOTTA, 1984, p. 69) Constata-se então o forte conteúdo ético presente no exercício profissional e sua importância na formação de recursos humanos.

INDIVIDUALISMO E ÉTICA PROFISSIONAL

Parece ser uma tendência do ser humano, como tem sido objeto de referências de muitos estudiosos, a de defender, em primeiro lugar, seus interesses próprios e, quando esses interesses são de natureza pouco recomendável, ocorrem seríssimos problemas.

O valor ético do esforço humano é variável em função de seu alcance em face da

comunidade. Se o trabalho executado é só para auferir renda, em geral, tem seu valor

restrito. Por outro lado, nos serviços realizados com amor, visando ao benefício de terceiros, dentro de vasto raio de ação, com consciência do bem comum, passa a existir a expressão social do mesmo. Aquele que só se preocupa com os lucros, geralmente, tende a ter menor consciência de grupo. Fascinado pela preocupação monetária, a ele pouco importa o que ocorre com a sua comunidade e muito menos com a sociedade. Para ilustrar essa questão, citaremos um caso, muito conhecido, porém de autor anônimo.

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Dizem que um sábio procurava encontrar um ser integral, em relação a seu trabalho. Entrou, então, em uma obra e começou a indagar. Ao primeiro operário perguntou o que fazia e este respondeu que procurava ganhar seu salário; ao segundo repetiu a pergunta e obteve a resposta de que ele preenchia seu tempo; finalmente, sempre repetindo a pergunta, encontrou um que lhe disse: "Estou construindo uma catedral para a minha cidade".

A este último, o sábio teria atribuído a qualidade de ser integral em face do trabalho,

como instrumento do bem comum.

Como o número dos que trabalham, todavia, visando primordialmente ao rendimento,

é grande, as classes procuram defender-se contra a dilapidação de seus conceitos,

tutelando o trabalho e zelando para que uma luta encarniçada não ocorra na disputa

dos serviços. Isto porque ficam vulneráveis ao individualismo.

A consciência de grupo tem surgido, então, quase sempre, mais por interesse de

defesa do que por altruísmo. Isto porque, garantida a liberdade de trabalho, se não se regular e tutelar a conduta, o

individualismo pode transformar a vida dos profissionais em reciprocidade de agressão. Tal luta quase sempre se processa através de aviltamento de preços, propaganda enganosa, calúnias, difamações, tramas, tudo na ânsia de ganhar mercado e subtrair clientela e oportunidades do colega, reduzindo a concorrência. Igualmente, para maiores lucros, pode estar o indivíduo tentado a práticas viciosas, mas rentáveis. Em nome dessas ambições, podem ser praticadas quebras de sigilo, ameaças de revelação de segredos dos negócios, simulação de pagamentos de impostos não recolhidos etc. Para dar espaço a ambições de poder, podem ser armadas tramas contra instituições de classe, com denúncias falsas pela imprensa para ganhar eleições, ataque a nomes de líderes impolutos para ganhar prestígio, etc. Os traidores e ambiciosos, quando deixados livres completamente livres, podem cometer muitos desatinos, pois muitas são as variáveis que existem no caminho do prejuízo a terceiros.

A tutela do trabalho, pois, processa-se pelo caminho da exigência de uma ética,

imposta através dos conselhos profissionais e de agremiações classistas. As normas devem ser condizentes com as diversas formas de prestar o serviço de organizar o

profissional para esse fim. Dentro de uma mesma classe, os indivíduos podem exercer suas atividades como

empresários, autônomos e associados. Podem também dedicar-se a partes menos ou mais refinadas do conhecimento.

A conduta profissional, muitas vezes, pode tornar-se agressiva e inconveniente e esta

é uma das fortes razões pelas quais os códigos de ética quase sempre buscam maior

abrangência.

Tão poderosos podem ser os escritórios, hospitais, firmas de engenharia etc, que a ganância dos mesmos pode chegar ao domínio das entidades de classe e até ao Congresso e ao Executivo das nações.

A força do favoritismo, acionada nos instrumentos do poder através de agentes

intermediários, de corrupção, de artimanhas políticas, pode assumir proporções asfixiantes para os profissionais menores, que são a maioria. Tais grupos podem, como vimos, inclusive, ser profissionais, pois, nestes encontramos

também o poder econômico acumulado, tão como conluios com outras poderosas organizações empresariais. Portanto, quando nos referimos à classe, ao social, não nos reportamos apenas a situações isoladas, a modelos particulares, mas a situações gerais.

O egoísmo desenfreado de poucos pode atingir um número expressivo de pessoas e

até, através delas, influenciar o destino de nações, partindo da ausência de conduta virtuosa de minorias poderosas, preocupadas apenas com seus lucros. Sabemos que a conduta do ser humano pode tender ao egoísmo, mas, para os

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interesses de uma classe, de toda uma sociedade, é preciso que se acomode às normas, porque estas devem estar apoiadas em princípios de virtude. Como as atitudes virtuosas podem garantir o bem comum, a Ética tem sido o caminho justo, adequado, para o benefício geral.

VOCAÇÃO PARA O COLETIVO

Egresso de uma vida inculta, desorganizada, baseada apenas em instintos, o homem,

sobre a Terra, foi-se organizando, na busca de maior estabilidade vital. Foi cedendo parcelas do referido individualismo para se beneficiar da união, da divisão do trabalho, da proteção da vida em comum.

A organização social foi um progresso, como continua a ser a evolução da mesma, na

definição, cada vez maior, das funções dos cidadãos e tal definição acentua, gradativamente, o limite de ação das classes. Sabemos que entre a sociedade de hoje e aquela primitiva não existem mais níveis de

comparação, quanto à complexidade; devemos reconhecer, porém, que, nos núcleos menores, o sentido de solidariedade era bem mais acentuado, assim como os rigores éticos e poucas cidades de maior dimensão possuem, na atualidade, o espírito comunitário; também, com dificuldades, enfrentam as questões classistas. A vocação para o coletivo já não se encontra, nos dias atuais, com a mesma pujança nos grandes centros. Parece-me pouco entendido, por um número expressivo de pessoas, que existe um bem comum a defender e do qual elas dependem para o bem-estar próprio e o de seus semelhantes, havendo uma inequívoca interação que nem sempre é compreendida pelos que possuem espírito egoísta. Quem lidera entidades de classe bem sabe a dificuldade para reunir colegas, para delegar tarefas de utilidade geral. Tal posicionamento termina, quase sempre, em uma oligarquia dos que se sacrificam,

e o poder das entidades tende sempre a permanecer em mãos desses grupos, por longo tempo.

O egoísmo parece ainda vigorar e sua reversão não nos parece fácil, diante da

massificação que se tem promovido, propositadamente, para a conservação dos grupos dominantes no poder.

Como o progresso do individualismo gera sempre o risco da transgressão ética, imperativa se faz a necessidade de uma tutela sobre o trabalho, através de normas éticas.

É sabido que uma disciplina de conduta protege todos, evitando o caos que pode

imperar quando se outorga ao indivíduo o direito de tudo fazer, ainda que prejudicando terceiros.

É preciso que cada um ceda alguma coisa para receber muitas outras e esse é um

princípio que sustenta e justifica a prática virtuosa perante a comunidade.

O homem não deve construir seu bem a custa de destruir o de outros, nem admitir que

só existe a sua vida em todo o universo. Em geral, o egoísta é um ser de curta visão, pragmático quase sempre, isolado em sua perseguição de um bem que imagina ser só seu.

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Ética nas comunicações sociais 1

É fato de que são as pessoas que escolhem usar os meios de comunicação de massa para finalidades positivas ou negativas, de modo reto ou incorreto. Estas opções, essenciais para a questão ética, são feitas não só por aquele que recebem as comunicações – espectadores, ouvintes e leitores – mas especialmente por aqueles que controlam os instrumentos de comunicação social e determinam as suas estruturas, linhas de conduta e conteúdo. É fato também que as pessoas, com freqüência, identificam a própria vida com

a experiência mediática. Com efeito, dependendo do uso que fazem do mass media, as pessoas podem sentir simpatia ou compaixão, ou isolar-se num mundo narcisista, que tem a si mesmo como ponto de referência, feito de estímulos cujos efeitos são semelhantes aos dos narcóticos. Nem sequer aquele que evita os mass media pode eximir-se dos contatos com os outros que são profundamente influenciados por eles. Nesse sentido, vem à tona uma das mais essenciais entre as questões levantadas pelo progresso tecnológico da mídia, ou seja, se, como resultado disto, o ser humano “se torna verdadeiramente melhor, isto é, mais amadurecido do ponto de vista espiritual, mais consciente da dignidade da sua humanidade, mais responsável, mais aberto para com os outros, em particular para com os mais necessitados e os mais fracos, e mais disponível para proporcionar e prestar ajuda a todos” (Papa João Paulo II, Redemptor hominis, 15) Tendo em vista essa questão essencial, é importante considerar alguns entre os tradicionais benefícios e problemas econômicos, políticos, culturais e educativos provenientes do uso dos meios de comunicação social:

Benefícios

* Econômicos: o mercado não é uma norma de moralidade ou uma fonte de

valor moral, e a economia de mercado pode ser alvo de abusos; mas o mercado pode servir a pessoa e os mass media desempenham um papel indispensável numa economia de mercado. A comunicação social apóia os negócios e o comércio, ajuda a estimular o crescimento econômico, o emprego e a prosperidade, encoraja os aperfeiçoamentos na qualidade dos bens e serviços existentes e o desenvolvimento de outros novos, promove a concorrência responsável que serve o interesse público e torna as pessoas capazes de fazerem opções informadas, falando-lhes acerca da disponibilidade e das características dos produtos. * Políticos: a comunicação social beneficia a sociedade, facilitando a participação de cidadãos informados no processo político. Os mass media são indispensáveis nas sociedades democráticas de hoje. Eles oferecem informações sobre temas e eventos, sobre os detentores dos cargos e os candidatos aos mesmos. Tornam os governantes capazes de se comunicarem rápida e diretamente com o público acerca de questões urgentes.

* Culturais: os meios de comunicação social oferecem às pessoas o acesso à

literatura, ao teatro, à música e às artes, que diversamente não lhes são disponíveis, e

assim promovem o desenvolvimento humano no que concerne à ciência, à sabedoria

e à beleza. Isso inclui o divertimento sadio popular e as informações úteis que reúnem as famílias, ajudam as pessoas a resolver os problemas cotidianos, animam o espírito dos enfermos, dos inválidos e dos idosos, e aliviam o tédio da vida.

* Educativos: os massa media são instrumentos modelos de educação em

muitas salas de aula. E, para além das paredes das salas de aula, os instrumentos de comunicação, inclusivamente a Internet, superam barreiras de distância e de

1 Texto baseado no documento “Ética nas comunicações sociais – mensagem do Pontifício Conselho para as Comunicações Sociais”, publicado por ocasião do Dia Mundial das Comunicações Sociais e Jubileu dos Jornalistas, em 2000.

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isolamento, levando oportunidades de conhecimento a áreas remotas, a quem está em casa, aos prisioneiros e a muitos outros. Uma comunicação que produz esses benefícios é aquela que, enfim, busca o bem-estar e a realização dos membros da comunidade, no respeito pelo bem comum de todos. Mas, para tanto, são necessários a consulta e o diálogo para discernir este bem comum. Portanto, é imperativo que os participantes na comunicação social se empenhem no diálogo e se sujeitem à verdade acerca do que é bom.

Problemas

Os mass media podem também ser usados para obstruir a comunidade e prejudicar o bem integral das pessoas: alienando os indivíduos ou marginalizando-se e isolando-os; atraindo-os para comunidades perversas, organizadas à volta de valores falsos e destruidores; fomentando a hostilidade e o conflito, exorcizando os outros e criando uma mentalidade de “nós” contra “eles”; apresentando o que é vil e degradante numa luz fascinante, e ao mesmo tempo ignorando ou menosprezando aquilo que exalta e enobrece; difundindo informações errôneas e desinformação; promovendo a trivialidade e a banalização. Os estereótipos – assentes em fatores de raça e de etnia, de sexo e de idade, bem como em outros ainda, inclusive de religião – são tristemente comuns nos mass media. Outros problemas:

* Econômicos: às vezes os mass media são utilizados para edificar e sustentar

sistemas econômicos que promovem o consumismo e a avareza. Diante das graves injustiças, não é suficiente que os comunicadores digam que o seu trabalho consiste

em narrar as coisas como elas são. Sem dúvida, este é o seu trabalho. Mas algumas instâncias do sofrimento humano são amplamente ignoradas pelos mass media, enquanto outras são difundidas; enquanto isto reflete uma decisão dos comunicadores, espalha também uma seleção injustificável.

* Políticos: políticos inescrupulosos utilizam os mass media para a demagogia

e o engano, em benefício de políticas injustas e de regimes opressivos. Desvirtuam os adversários e sistematicamente deturpam e suprimem a verdade mediante a propaganda e a “manipulação”. Assim, em vez de aproximar as pessoas, os mass media servem para as separar, criando tensões e suspeitas que preparam o campo para o conflito.

* Culturais: não raro os críticos desvalorizam a superficialidade e o mau gosto

dos mass media, e embora eles não devam ser obrigatoriamente sombrios e inexpressivos, também não podem ser mesquinhos e humilhantes. Não é uma desculpa dizer que os mass media refletem os padrões populares, pois também esses influem vigorosamente os modelos populares, e assim têm o grave dever de os elevar, não de os degradar. O problema adquire várias formas. Em vez de explicar questões complexas de modo cuidadoso e verdadeiro, os noticiários evitam-nas ou então simplificam-nas demasiadamente. Os mass media voltados para o entretenimento apresentam programas de corrupção e desumanizaçào, inclusive tratamentos exploradores da sexualidade e da violência. Além disso, em nível internacional, a dominação cultural imposta através dos meios de comunicação social é também um problema sério e grave.

* Educativos: em vez de promover o conhecimento, os mass media podem distrair as pessoas e fazê-las perder tempo. Desta forma, as crianças e os jovens são particularmente prejudicados, mas também os adultos sofrem ao serem expostos a programas banais e desprezíveis. Entre as causas deste abuso de confiança por parte dos comunicadores está a ganância que coloca o lucro antes das pessoas.

Alguns princípios éticos relevantes

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Os princípios e normas éticas, relevantes nos outros campos, também se aplicam à comunicação social. Os princípios da ética social como a solidariedade, subsidiariedade, justiça, equidade e credibilidade no uso dos recursos públicos e no desempenho de cargos públicos de confiança são sempre aplicáveis.

A dimensão ética está relacionada não só ao conteúdo da comunicação (a

mensagem) e o processo de comunicação (o modo de comunicar), mas nas questões fundamentais das estruturas e sistemas, que com freqüência incluem grandes problemas de política que dependem da distribuição de tecnologia e produtos sofisticados (quem serão os ricos de informação e os pobres de informação?). Nas áreas da mensagem, processo e problemas de estrutura e sistema de comunicação, o princípio ético fundamental é este: a pessoa e a comunidade humanas são a finalidade e a medida do uso dos meios de comunicação social; a comunicação deveria fazer-se de pessoa a pessoa, para o desenvolvimento integral das mesmas. Nesse sentido, os comunicadores e os responsáveis pelas políticas da comunicação devem servir as necessidades e interesses reais tanto dos indivíduos como dos grupos, em todos os níveis e de todos os gêneros. Embora um dos princípios éticos fundamentais, a liberdade de expressão carece de limites. De fato, existem instâncias óbvias – por exemplo, a calúnia e a difamação, mensagens que procuram fomentar o ódio e o conflito entre indivíduos e grupos, a obscenidade e a pornografia, a descrição mórbida da violência – onde não existe o direito à comunicação. Naturalmente, também a livre expressão deveria observar princípios como a verdade, a justiça e o respeito pela privacidade. Por conta disso, os comunicadores profissionais deveriam estar ativamente comprometidos no desenvolvimento e no revigoramento de códigos éticos de comportamento para a sua profissão, em cooperação com os representantes públicos. Os organismos religiosos e outros grupos merecem igualmente ser parte integrante

deste esforço contínuo. Outro princípio relevante diz respeito à participação pública nos atos decisórios acerca da política das comunicações. Em todos os níveis, esta participação deveria ser organizada, sistemática e genuinamente representativa, não inclinada ao favorecimento de grupos particulares. Este princípio aplica-se até mesmo, e talvez de modo especial, onde os mass media são privadamente possuídos e operados em vista do lucro.

A circulação, os índices de transmissão e a “bilheteria”, juntamente com a

sondagem de mercado, são por vezes considerados como os melhores indicadores do

sentimento público – com efeito, são os únicos necessários para fazer da lei de mercado funcionar. Não há dúvida de que a voz do mercado pode ser ouvida desta maneira. Todavia, as decisões sobre o conteúdo e a política dos mass media não

devem ser deixadas unicamente aos fatores do mercado e da economia – do lucro – uma vez que não se pode contar com eles para a salvaguarda do interesse público em geral ou, de forma especial, dos interesses legítimos das minorias.

E mais: os comunicadores profissionais não são os únicos que têm deveres

éticos. Os auditórios – os receptores – também têm obrigações. O primeiro dever dos

receptores da comunicação social consiste em discernir e selecionar. Eles hão de informar-se acerca dos mass media – das suas estruturas, dos modos de operar, dos seus conteúdos – e fazer opções responsáveis, de acordo com critérios éticos eticamente sólidos, sobre o que ler, assistir ou escutar. Hoje, todos precisam de algumas formas de educação midiática permanente, mediante o estudo pessoal ou a participação num programa organizado, ou ambos. Mais do que meramente ensinar técnicas, a educação midiática ajuda as pessoas a formarem padrões de bom gosto e de verdadeiro juízo moral, um aspecto da formação da consciência.

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Ética e a responsabilidade social do jornalista

“No dia em que o jornalista tiver a noção completa de sua responsabilidade e de sua atuação social, provavelmente se sujeitará a normas escrupulosas de ética”. (Barbosa Lima Sobrinho)

É consenso entre a maioria dos jornalistas – isso sem falar em juristas, estudiosos e público em geral – que a atividade da imprensa deve ser exercida segundo normas morais (ou éticas, se preferirem) que observem, entre outras exigências, a liberdade de expressão, a correta de divulgação da informação, o respeito à pessoa e sua privacidade, e o respeito à categoria profissional, entre outras exigências dessa natureza. A seguir, apresentamos algumas entre as principais exigências para o exercício ético e responsável do jornalismo. Estas tratam, dessa forma, dos mais importantes temas que permeiam a discussão da ética jornalística 2 .

Independência editorial

Uma exigência ética fundamental no exercício do jornalismo é a independência editorial cujo propósito é garantir, o quanto possível, que os interesses do público (portanto, da maioria) sejam contemplados 3 . De acordo com Eugênio Bucci (2000), a

2 Marcondes Filho (2000, p. 137) sinaliza para aqueles que considera os “principais deslizes éticos da prática jornalística”:

1. Apresentar um suspeito como culpado.

2. Vasculhar a vida privada das pessoas, publicar detalhes insignificantes de personalidade, de autoridades para desacreditá-las.

3. Construir uma história falsa, seja em apoio a versões oficiais, seja para justificar uma suspeita.

4. Publicar o provisório e o não-confirmado para obter o furo. Transformar o rumor em notícia.

5. Filmar ou transmitir suicídio ao vivo.

6. Expor pessoas para provar um flagrante.

7. Aceitar a chantagem de terroristas.

8. Incitar “rachas”.

9. Maquiar uma entrevista coletiva ou exclusiva.

10. Comprar ou roubar documentos.

11. Gravar algo à revelia, instalar microfones escondidos.

12. Omitir que se é jornalista para obter confidências. A essa lista acrescentam-se algumas clássicas “armadilhas” as quais, segundo Ricardo Noblat (2004, p. 123), se impõem no caminho do jornalista: 1. Sentir-se poderoso (“O poder do jornalista é relativo, ocasional e temporário); 2. Aceitar presentes, convites e favores (“A maioria das empresas jornalísticas não definiu ainda uma política sobre presentes, convites e favores que seus jornalistas devam ou possam aceitar”. Para Noblat, é aconselhável aceitar os que não comprometam a obrigação de exercer o jornalismo crítico, livre e, se necessário, impiedoso”, além dos que “não possam ser usados depois para produzir danos à imagem” do profissional); 3. Tornar-se amigo das fontes de informação (“Não dá certo fazer amizade com fontes de informação”, principalmente com as aquelas sobre as quais poderão escrever um dia. Nesse caso, se não forem poupadas, estas se sentirão traídas e acumularão mágoas); 4. Achar que já sabe tudo (“O mais inteligente é achar que tudo que sabem é que nada sabem”).

3 A esse respeito, Ricardo Noblat chama a atenção para a necessidade de se diferenciar interesse público de interesse do público. Diz ele (2004, p. 24): “O que interessa ao público nem sempre é de interesse público. Infelizmente, estimular os baixos instintos do ser humano, por exemplo, interessa a uma expressiva fatia do público. Aumenta as vendas de um jornal. E amplia a audiência de uma emissora de televisão. Mas proceder assim é condenável porque

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independência editorial é o resultado da tensão entre o grau de cultura democrática e

a lógica do capital. Os problemas que dificultam a independência editorial são, basicamente, os seguintes:

a) a influência do poder político;

b) interesses políticos, ideológicos e mercadológicos da própria imprensa enquanto empresa (o que pode ser traduzido no conflito de interesses entre os leitores e os anunciantes de um jornal, por exemplo) 4 ;

c) a prática jornalística determinada pelas relações capitalistas de produção e de

consumo (o jornal, enquanto produto, deve ser vendido, o que implica, por exemplo, no uso de recursos que exerçam sedução junto ao público). Ainda segundo Bucci (Ibid), o que pode ser indicado como um princípio de solução para tais problemas é apostar que a garantia de credibilidade do jornalismo produzido por uma empresa será proporcional ao seu sucesso, inclusive publicitário.

Objetividade, imparcialidade e neutralidade

Como é o consenso entre muitos jornalistas e estudiosos da comunicação, objetividade, imparcialidade e neutralidade consistem em mitos do jornalismo ocidental, idealizados pelo modelo norte-americano. Marques de Melo (1986) lembra que “a ‘doutrina da objetividade’ toma corpo no jornalismo norte-americano nas primeiras décadas deste século (refere-se ao século 20) como um movimento de preservação dos valores inerentes à atividade jornalística, em face da sua deterioração nas últimas décadas do século XIX”. Melo explica que

a imprensa nacional [norte-americana], atingindo o clímax do mercantilismo, que fez explodir as tiragens e transformar o jornal diário num produto de consumo popular, conduziu as empresas a produzir a “notícia pela notícia”. O jornalismo deixava de se conduzir como um “serviço público”, comprometido com os interesses da sociedade, e se tornava um “negócio altamente lucrativo”. (MELO, Ibid, p. 98)

Daí para o sensacionalismo foi apenas um passo 5 . Isso provocou uma grande reação da sociedade norte-americana que obrigou a imprensa a rever sua prática. A proposta da objetividade é retomada, hoje, com outro significado: tornar-se um “referencial para a apuração correta dos fatos, para a identificação dos acontecimentos verazes” (MELO, 1986, p. 99). Ser objetivo passa a significar “ser fiel

à realidade, evitando-se a interferência da instituição jornalística na sua configuração para ‘criar notícias’” (MELO, Ibid, p. 99).

em vez de contribuir para a elevação dos padrões morais da sociedade, o jornalismo os rebaixa”. 4 Segundo Noblat (Ibid, p. 26), “jornal é um negócio como qualquer outro. Se não der lucro, morre. Por isso deve estar sempre atento às necessidades dos leitores”. No entanto, o mesmo Noblat contrapõe: “Mas jornal também é um negócio diferente de qualquer outro. Existe para servir de tudo ao conjunto de valores mais ou menos consensuais que orientam o aperfeiçoamento de uma determinada sociedade. Valores como a liberdade, a igualdade social e o respeito aos direitos fundamentais do ser humano”. 5 Barbosa Lima Sobrinho (1997, p. 53) assim “justifica” a existência do jornalismo sensacionalista (a chamada “imprensa amarela” nos EUA ou “imprensa marrom”, como é costume ser chamada no Brasil): “Se o espírito público se impressiona com os ataques rudes, se aprecia as notícias sensacionais, se admira a grosseria da linguagem e a falta de escrúpulos nas acusações, a imprensa amarela virá fatalmente atendendo às solicitações do meio em que está destinada a viver e de cujo apoio precisa para a sua própria subsistência”.

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Há de considerar também um complicador no que tange à fidelidade à realidade: a visão fragmentada (seja por questões inerentes à condição limitada do ser humano, seja por influências de sua própria socialização) com que o jornalista – assim como qualquer outro ser humano – quase que obrigatoriamente encara o real. A esse respeito, afirma Karam (1997) que a cobertura jornalística apresenta a realidade social, obrigatoriamente, a partir de uma concepção de mundo contraditória e fragmentada. E diz ainda:

O problema de lidar com princípios morais, no jornalismo, é que eles

expressam, em sua generalidade e ambição de universalidade, na maioria das vezes, concepções políticas particulares, que geram ações jornalísticas e coberturas bastante parciais, embora aqueles que as produzem achem, em geral, que a verdade, a imparcialidade, a honestidade, a responsabilidade, o compromisso social, a exatidão, a relevância pública ou interesse público estão, enfim, ali revelados, naquela página de jornal ou revista, naquele espaço de rádio ou televisão. (KARAM, Ibid, p. 52)

É por conta disso que Ricardo Noblat (2004, p. 38) adverte para o fato de que, embora, desde cedo, os jornalistas aprendam “que devem perseguir a verdade”, na prática, descobrem que a essência da sua missão não consiste em “escrever a verdade”, mas em “escolher a verdade”. Nesse sentido, a alternativa que Noblat vê para busca da verdade – especificamente no caso do jornalismo impresso – está na superação da superficialidade dos textos através da apuração cuidadosa de fatos e dados. Diz Noblat:

A pressa é a culpada, nas redações, pelo aniquilamento de muitas

verdades, pela quantidade vergonhosa de pequenos e grandes erros que borram as páginas dos jornais e pela superficialidade de textos que desestimulam a reflexão. (NOBLAT, Ibid, p. 38)

O mesmo Noblat adverte também para uma das mais freqüentes armadilhas que essa busca da verdade a qual o trabalho do jornalista está sujeito:

Acreditamos no que queremos acreditar, essa que é a verdade! E, diante de uma história que nos pareça tão boa, tudo fazemos para acreditar nela. Queremos que seja verdadeira – e por isso saímos atrás de indícios que a confirmem. Não saímos atrás de indícios que provem sua veracidade ou que simplesmente a neguem. Cegamos com muita freqüência diante de indícios que põem a história em dúvida. (NOBLAT, Ibid, p. 56)

Já Marques de Melo (Ibid) propõe, afinal, retomar a questão da objetividade na atual conjuntura sob o argumento disto significar o resgate do sentido ético da atividade jornalística. Diz ele:

A objetividade jornalística converte-se novamente à sua dimensão

ética. Na medida em que o jornalista assume o papel de agente social, responsável pela observação da realidade, ele se torna mediador entre os fatos de interesse público e a cidadania. Por isso, resgatar a objetividade jornalística, depurando-a das distorções tecnicistas (síntese atomizada dos acontecimentos) ou ideologizantes (neutralidade, imparcialidade, apolicitismo), significa buscar novos padrões de expressão jornalística, possibilitando a difusão de diferentes versões dos fatos, honestamente construídas. Todo acontecimento envolve múltiplas variáveis, distintas motivações: é

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necessário desvendá-lo completamente, mostrando ao cidadão sua fisionomia integral. (MELO, 1986, p. 105)

Entretanto, para Bucci (2000) tal empreendimento se revela bem mais complicado do que aparenta. De fato, segundo ele, o drama do jornalismo começa justamente em definir quem é o sujeito (o personagem) e o que é objeto (o fato) da notícia. Ao contrário do que parece acontecer na ciência (ao menos, nas ciências chamadas exatas e biológicas), no jornalismo não há distância entre o sujeito e o objeto da notícia. Em outras palavras: ambos se confundem. Com efeito, para Bucci (Ibid), a objetividade (mais um idealismo que uma realidade possível) depende de iniciativas subjetivas dos que geraram o fato a ser noticiado (fontes) e dos que noticiaram (jornalistas). É ético para Bucci, no lugar de idealizar uma postura isenta (a qual considera improvável), levar em consideração, por assim dizer, todas as “subjetividades” envolvidas no contexto da notícia. É o que ele considera como “objetividade possível”, definida pela mais justa, transparente e equilibrada apresentação da intersubjetividade (grosso modo, as opiniões médias do público). Cabe ao jornalista, nesse sentido, criar as condições para que o debate público seja produzido, cujos resultados deverão ser considerados por cada cidadão e pela comunidade como um todo, tendo em vista eventuais tomadas de decisões ante as questões debatidas 6 . Isso implica – como veremos a seguir – em buscar garantir a exigência democrática do pluralismo (de veículos e posicionamentos). Nessa mesma linha de raciocínio, Eugênio Bucci aponta a neutralidade como razão para um “pecado” do jornalismo ocidental contemporâneo. Ao contrário de um posicionamento positivista, o jornalista e escritor optam por uma postura que julga mais coerente por parte do profissional: este deve deixar claras as suas opções e posicionamentos no exercício de sua função (especialmente no que se refere ao trabalho de crítica) no lugar de uma pretensa (e falsa) isenção. Assim, no lugar de executar a impossível tarefa de apresentar “a” verdade, ao menos o jornalista é capaz de garantir sua confiabilidade junto ao público. E confiabilidade caminha junto com credibilidade. Karam reforça o argumento de Bucci:

O jornalismo, que lida diariamente com esta carga enorme de conflitos social, lida igualmente com a carga moral que integra estes conflitos. E o jornalista possui, também, uma certa reflexão preliminar (mesmo que reprodução dos padrões comuns da sociedade) sobre o mundo e sobre os fatos que acompanha. Estes fatos também o atingem. (grifo nosso) (KARAM, 1997, p. 62)

Ainda sobre a objetividade jornalística, citando Philip Meyer, Karam (Ibid), aponta algumas regras pragmáticas na conquista da mesma:

a) regra da atribuição: fornecer todas as fontes relacionadas a todos os fatos referentes à matéria jornalística;

b) regra do obtenha-o-outro-lado-da-história: pluralidade de posicionamentos capaz de garantir, no mínimo, dois pontos de vista sobre o evento a ser noticiado;

c) regra do espaço igual: os espaços dados às diferentes fontes na matéria devem ser equivalentes;

6 Karam (Ibid, p. 47) afirma também: “o jornalismo não pode deixar de ser crítico, de traduzir a diversidade e conflitos”. E ainda: “Isso só será possível se escondêssemos a humanidade de si mesma e a cotidianidade de todos nós. É o que tentam fazer as ditaduras, o jornalismo liberal submetido à lógica de mercado, as censuras, autocensuras e o caminho moral pelo qual vai adentrando Janet Malcolm em sua condenação genérica do jornalismo. Este caminho também subsidia teorias sobre o jornalismo que amparam uma ética essencialmente particularista”.

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d) regra do acesso igual: interesses diferentes da comunidade devem ter oportunidade igual de acesso aos meios de comunicação.

No entanto, como também lembra Karam, é o próprio Philip Meyer quem dverte para os problemas decorrentes da aplicação dessas regras. São eles:

a) a citação demasiada de fontes pode quebrar o ritmo da história (e da própria dinâmica do texto jornalístico);

b) ouvir os dois ou mais lados de um acontecimento ou tema de maneira igual pode implicar num nivelamento de declarações das fontes que são efetivamente desiguais em importância e representatividade no contexto da notícia;

c) “espaços” e “acessos” iguais podem também levar ao nivelamento de fatos e interesses desiguais por sua importância no contexto da notícia.

Ricardo Noblat, por sua vez, propõe uma postura clara a respeito da questão sobre a publicação das versões no jornalismo:

Na maioria das vezes, não testemunhamos os fatos sobre os quais escrevemos. Publicamos o que nos contam a respeito deles. Podemos publicar opiniões divergentes sobre um mesmo fato. Versões divergentes, não. É pecado mortal.

O que fazer diante de contradições? Apurar, apurar, apurar. Até que

todas ou quase todas tenham sido eliminadas. Até que nos reste apenas uma história da qual possamos acreditar. (NOBLAT, 2004, p.

52)

A responsabilidade social do jornalista (o problema da auto-suficiência do jornalista)

Para o professor José Coelho Sobrinho, também docente da ECA/USP, para quem pouco adianta ter códigos de ética, uma das chaves para que o jornalista adquira a postura ética é ele mesmo. Isto é, o problema ético é um problema

individual. É como se limitar ao ditado segundo o qual “para cada cabeça há uma sentença”. Nesse sentido, o norte-americano Deni Elliott (1988) opta pela definição de responsabilidade segundo a qual esta implica em assumir valores nascidos das próprias convicções pessoais do jornalista, conforme posição do jornalista Eugênio Bucci apresentada anteriormente. Uma idéia bem a gosto do liberalismo, mas que tem implicações complicadas se considerado o poder de influência do jornalista junto à opinião pública. O que dizer, por exemplo, se tais convicções são racistas? John C. Merril (apud ELLIOTT, Ibid) contesta a posição do colega norte- americano com um argumento evidente, embora não menos importante: o que é

responsabilidade para uns, pode ser irresponsabilidade para outros

Outro

argumento, do jornalista Eugênio Bucci, reforça a crítica ao excesso de uma ética individualista no jornalismo: o jornalista precisa aprender a analisar o seu produto. E isso ele fará melhor se for em equipe. E aí está o “nó” da questão: para Bucci, “nós jornalistas somos muito arrogantes”. Essa arrogância – que gera uma espécie de

“auto-suficiência ética” - impede a autocrítica e mais ainda a crítica alheia. O preço dessa atitude, muitas vezes, acaba saindo caro demais. Enfim, em sua obra Sobre ética e imprensa, Bucci afirma:

A ética jornalística não é apenas um atributo intrínseco do profissional

ou da redação, mas é, acima disso, um pacto de confiança entre a

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instituição do jornalismo e o público, num ambiente em que as instituições democráticas sejam sólidas. (BUCCI, 2000, p. 24)

Com efeito, para Bucci (Ibid, p. 37), “o primeiro obstáculo que se apresenta para quem quer investigar, entender e discutir a ética dos jornalistas são os próprios jornalistas”. Ricardo Noblat (2004, p. 28) brinca que “enquanto médico pensa que é Deus, jornalista tem certeza”. Mas ele adverte, especialmente no que diz respeito à cobertura de denúncias e temas polêmicos: o jornalista “não tem mandato conferido por ninguém para atuar ao arrepio de códigos e normas socialmente aceitas”, o que significa que não basta a regra do “vale-tudo” na cobertura dos fatos e na conquista de “furos” de reportagem. “Irmãs” da auto-suficiência, a vaidade e a ignorância costumam fazer com que o jornalista valorize mais o “furo” de reportagem ao fato de que o leitor dá mais importância à informação correta. “Não se sai melhor quem publica a notícia primeiro, mas quem publica a melhor notícia – a mais completa, mais precisa e, portanto, a mais confiável”, avalia Noblat (2004, p. 61). Além da auto-suficiência do próprio profissional de imprensa, um entre outros motivos clássicos que constituem esse quadro é a natural “saia justa” em que se encontra o profissional ao se indispor, por conta de uma matéria, – por razões éticas – com o seu patrão ou chefe de redação. E esse quadro é realmente complicado, uma vez que o poder de decisão, no Brasil, está concentrado nas chefias dos veículos de comunicação, o que não é de se espantar, uma vez que a história recente deste País sofreu com a influência do autoritarismo. Não existe, pois, também nas redações, uma cultura democrática consolidada, mas o domínio feroz da lógica do mercado que, por vezes, é convenientemente confundida com o direito de autonomia dos jornalistas e veículos. Enfim: todos podem ser alvo do julgamento da imprensa, mas esta não se permite ser alvo de ninguém. Trata-se, pois, de uma incoerência flagrante do jornalismo e dos jornalistas. Diretamente relacionada a essa notória e freqüente falta de humildade dos profissionais, está a incapacidade (ou falta de coragem?!) destes reconhecerem e admitirem seus erros ante o público. É o que analisa Noblat:

Por orgulho, soberba, vaidade ou ignorância, jornais e jornalistas procuram fazer de conta que só acertam. E, quando são pilhados em erro, custa-lhes admitir que erraram. Os jornalistas temem ser punidos por seus chefes. Os jornais temem perder leitores. Assim como não se deve brigar com a notícia, muito menos se deve brigar com o erro. Erro existe para ser confessado. Os leitores sabem que os jornais erram. E na maioria das vezes, estão dispostos a perdoar os erros – desde que admitidos. E desde que também errem tanto quanto costumam errar. (NOBLAT, 2004, p. 40)

Porém, se é possível dar “receitas” no campo da ética jornalística, uma das melhores para o exercício ético dessa profissão passa, indiscutivelmente, pela valorização do pluralismo.

O pluralismo e o direito à privacidade

“Acusa-se o jornal como boateiro, disseminador constante de notícias infundadas. Entretanto, circulam mais novidades falsas no período em que a imprensa se cala”. (Barbosa Lima Sobrinho)

Louis W. Hodges (apud ELLIOTT, 1988) questiona a quem cabe estabelecer a responsabilidade do jornalista: ele mesmo, o governo, as empresas ou os

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consumidores da notícia? Como resposta, Hodges propõe uma alternativa democrática: o resultado da reflexão conjunta desses segmentos. Esta parece ser a opção de muitos profissionais e estudiosos, sobretudo no mundo ocidental, em tese, democrático: o pluralismo. Daniel Cornu assim abordou a questão do pluralismo nos meios de comunicação:

O pluralismo dos meios de comunicação sustenta-se, teoricamente,

sobre os pilares: a existência de mídias generalistas, que tratam de assuntos numerosos e diversificados; a existência de publicações variadas, mais especializadas, que permitem o acesso do público a informações e opiniões específicas. (CORNU, 1998, p. 120)

Especificamente no caso da atividade jornalística, Ricardo Noblat – de forma bastante simples – justifica a vocação pluralista e democrática do jornal:

Um jornal é ou deveria ser um espelho da consciência crítica de uma

comunidade em determinado espaço de tempo. Um espelho que reflita com nitidez a dimensão aproximada ou real dessa consciência.

E que não tema jamais ampliá-la. Pois se não lhe faltarem talento e

coragem, refletirá tão-somente uma consciência que de todo ainda não amanheceu. Mas que acabará por amanhecer. Jornalismo não é obra exclusiva de jornalistas. Tanto quanto nós, os leitores são também responsáveis pelo bom ou mau jornalismo que fazemos. Porque eles têm o poder, e todo o poder. Podem comprar um jornal se quiserem. E se quiserem, podem deixar de comprá-lo. (NOBLAT, 2004, p. 21)

Já Casado vai além do argumento de Cornu, definindo “o pluralismo como bem social”:

Existe hoje a tendência de considerar o pluralismo como um avanço. Por isso, não só deve ser permitido como alimentado. A diversidade que a pluralidade de opiniões encerra é tida como um enriquecimento cultural. Os países que se julgam democráticos necessitam incrementar os debates abertos e o confronto entre os diversos pontos de vista transmitidos pelos meios de comunicação de massa. Desta maneira, os destinatários podem cotejar distintos pontos de vista e formar uma opinião própria. Assim é possível confrontar a própria experiência vital e as próprias convicções com as experiências e as opiniões dos outros. (CASADO0, 1987, p. 71)

Como um dos principais possibilitadores do pluralismo está o jornalista 7 . Isso nos remete aos capítulos iniciais deste curso quando abordamos o direito que todo cidadão tem à informação e, mais ainda, à comunicação. Ralph D. Barney (apud ELIOTT, Ibid) adverte, no entanto, que o pluralismo pressupõe uma sociedade participativa. Olhando para o Brasil, especialmente, para sua história mais recente, a participação do povo está altamente comprometida pelo seu baixíssimo nível de instrução, de acesso ao saber e pela pouquíssima experiência de participação, conforme análise de Marques de Melo em Comunicação: direito à informação (1986).

7 A esse propósito, o pluralismo é um ideal a ser alcançado no interior das próprias redações nas quais o profissional tem o direito e dever de atuar em equipe. ”É preciso resolver qual informação será publicada, com que destaque, com que fundamento – e, ao resolver esses dilemas, uma redação está determinando quem pode sair ferido e quem pode levar vantagem”, argumenta Bucci (Ibid, p. 43), justamente no que se refere ao trabalho e responsabilidade coletivos dos jornalistas.

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Entretanto, conforme já abordado nesta apostila, o problema da independência editorial e o imperativo mercadológico impõem-se como obstáculos ao pluralismo real. É o que argumenta Karam (1997, p. 48): “No Brasil, onde prevalece, hegemonicamente, na informação, a lógica do mercado e dos empresários de comunicação, também é preciso que a mediação jornalística saia da pluralidade aparente para a pluralidade real”. Outro aspecto delicado da atuação do jornalista e do comunicador social em geral – e que, de certo modo, emperra o ideal do pluralismo - diz respeito ao problema ético sobre o direito à privacidade, conforme define Karam:

Um dos grandes problemas que aparecem quando há coberturas jornalistas delicadas que exigem investigação é que há posições diferentes com relação ao limite entre espaço público e espaço privado de movimento do indivíduo. E, da mesma forma, controvérsias sobre os limites daquilo que pode ser de domínio público e daquilo que deve ser respeitado como propriamente privado. (KARAM, Ibid, p. 86)

A respeito dessa questão, o fato é que o impasse permanece, inclusive porque não é fácil sequer definir conceitos como intimidade, vida privada e esfera pública, conforme argumenta Karam (1997). Ele parece indicar como alternativa, ante a essa questão polêmica, o princípio norteador da “transparência” (leia texto complementar a seguir):

O

jornalismo, que mostra a história humana em sua emergência nova

e

cotidiana, precisa mostrá-la em sua dimensão mais significativa,

revelando radicalmente a moralidade social dispersa, mas expressa, muitas vezes, em preconceitos morais de fontes e do público. (KARAM, Ibid, p. 89)

Denuncismo e direito de resposta

“Denúncia não é notícia. Notícia é a denúncia com fundamento”. (Ricardo Noblat)

Diretamente ligado ao desrespeito ao direito à privacidade, está um dos, por assim dizer, maiores “pecados” da imprensa na atualidade: o denuncismo, prática que atinge a todos, do público ao privado. Essa prática consiste no uso da imprensa para destruir a reputação de homens públicos ou mesmo cidadãos comuns devido a suspeitas de práticas ilegais ou imorais. “No que diz respeito ao setor privado” – afirma Castilho (2004, p. 10) – “acusações precipitadas e falsas, bem como condenações sumárias pela imprensa impedem, temporariamente ou não, que as vítimas gozem, em plenitude, seus direitos civis como qualquer cidadão comum”. Ainda de acordo com Castilho (Ibid, p.10), “estes, muitas vezes, acabam sofrendo represálias de todo tipo, seqüelas psicológicas, traumas, quando não ficam completamente marginalizadas pela sociedade”. O denuncismo se relaciona diretamente ao sensacionalismo sobre o qual foi abordado anteriormente nesta apostila e costuma ter, entre suas marcas, aquilo que Barbosa Lima Sobrinho chama de “linguagem violenta”. Afirma o jornalista:

Todas as seduções e todos os motivos excitam a imprensa à

Escrita para o povo, (a notícia) escraviza-se

às suas paixões e cede a essa impetuosidade que faz delícias dos instintos por que a massa se orienta. (SOBRINHO, 1997, p. 41)

linguagem violenta. (

)

Diante desse e dos demais “pecados” da imprensa, a própria sociedade – ao longo do tempo – tem buscado encontrar alternativas para contrapor o grande poder

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(para alguns, “o quarto” poder, além do Executivo, Legislativo e Judiciário) conferido ao jornalismo. Uma delas e, possivelmente, a mais clássica delas é o uso do direito de resposta. Isto é, o direito a qualquer pessoa denunciada ou acusada de, através da imprensa, apresentar sua versão dos fatos e se defender das acusações. “Na ética do jornalismo”, afirma Barbosa Sobrinho (1997, p. 172), “ainda hoje se reconhece o direito de resposta”. Segundo ele, “raramente se negará acolhida a uma carta moderada retificando trechos de notícia, ou artigo de jornal”. Pode ser. Mas, em geral e, sobretudo, ante certas notícias estampadas em primeira página ou amplamente exploradas, o espaço concedido ao direito de resposta é muito limitado e incapaz de obter o mesmo efeito que a matéria que originou a resposta. Com efeito, o próprio Barbosa Lima Sobrinho afirma:

Em tese, esse direito não parece tão eficaz como geralmente o crêem. Não se pode conseguir que a resposta chegue a todas as pessoas que viram o ataque. Basta a variação quotidiana no público das gazetas para que se percam todos os cuidados legais, aquelas exigências do mesmo lugar e do mesmo tipo para as publicações de resposta. Vale também considerar a impossibilidade de dar à resposta a mesma eficiência do ataque, o que resulta, de resto, impraticável, quando se considera no espírito público a maior acessibilidade à ofensa do que à defesa. (SOBRINHO, Ibid, p. 173)

Vale salientar ainda – e justamente na contramão do denuncismo – que não só de denúncias e notícias negativas pode viver a imprensa. É o que defende Ricardo Noblat. Embora ele reconheça que só de notícias positivas não veículo que resista ao tempo, segundo o jornalista, não custa muito, porém, “abrir os olhos para a necessidade que as pessoas têm de receber boas notícias” (2004, p. 31). “Nada custa

e, creio, até será capaz de ajudar nas vendas e na disputa pela audiência”, aposta.

Texto complementar

O mito da transparência 8

Na época das grandes polêmicas e debates da imprensa político-literária (começo do século 19), o jornalismo era o campo de batalha dos políticos, partidos, movimentos sociais, sindicatos, agremiações. Todos queriam publicar suas posições

e entrar na quermesse das opiniões. Cada um possuía uma verdade sobre cada

coisa. Ninguém podia falar, neste contexto, de “objetividade”. Objetividade, na perspectiva de Kant, seria uma representação correta da realidade e não, como se crê, aquilo que existe independente do espírito humano e que é posto ao mundo aparente, irreal, ilusório (subjetivo). Esta segunda acepção não tinha, para ele, bases, pois “aquilo que não existe para ninguém não pode ser conhecido, e sobre isso nada se pode dizer, em todo caso, nada de certo. Tampouco ela tem o caráter de ‘representações capazes de suscitar algum consenso’, pois pode- se muito bem delirar ou sonhar coletivamente”. Pois bem, em torno dessa “representação correta da realidade” e influenciada pela filosofia das Luzes, armou-se, posteriormente, uma concepção em torno do jornalismo como uma atividade de “busca da verdade”, ou seja, como uma forma de objetividade. Por aí se desenrolou o debate ideológico do século 19, principalmente pela oposição entre uma visão de mundo liberal e uma visão de mundo socialista, ambas reivindicando para a si a verdade. A crise das ideologias do século 20, contudo, desmoronou as bases filosóficas desse debate: não havendo mais projetos políticos por que se bater – o liberalismo

8 Texto extraído da obra Comunicação e jornalismo: a saga dos cães perdidos, de Ciro Marcondes Filho (Hacker Editores), 2000, páginas 110 a 112 e 138 a 139.

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absorvido pelo capitalismo monopolista, depois pelo neocapitalismo e o socialismo se decompondo com a Queda do Muro – jornalistas ficaram apenas com seu esqueleto instrumental: a busca da transparência em si, como valor único, “valor de verdade”.

A partir dos anos 80, com a introdução da informatização em todos os campos

da sociedade, termina a chamada Era da Modernidade, em que o humanismo era o valor principal e a lutar por uma utopia social ocupava o centro dos confrontos

políticos. Os novos tempos são o período sem a “agonística geral”, de que se falou no primeiro capítulo. Não há mais o confronto estrutural entre capitalismo e socialismo e em seu lugar instala-se um regime econômico-social do neoliberalismo, padrão único para todos os países sob o princípio da “globalização”. O neoliberalismo e sua filosofia de mundo administrado e controlado pelos países mais ricos tem como infra-estrutura de organização e suporte as tecnologias de comunicação e informação. Segundo esse novo regime econômico, criticar as tecnologias de comunicação é o mesmo que rejeitar o progresso e se sintonizar nostalgicamente com mundos desaparecidos. Isso porque o neoliberalismo não deixa saídas: este mundo ou nenhum outro, a sociedade tecnologicamente informatizada ou o atraso pré-industrial, a aceitação da realidade única planetária ou a barbárie. Nesse quadro, a ideologia da transparência é o único horizonte possível da imprensa; segundo ele, o que importa hoje, em termos de jornalismo, é “ver claramente a realidade, o sentido”, isto é: bom é tudo aquilo que é diáfano, translúcido, visível; todos os espaços, territórios, processos que se deixam ver. Na origem está a idéia do panóptico, de Bentham, um sistema de vigilância das instituições presidiárias, em que cada preso seria observado permanentemente. O mesmo princípio encontra-se na ficção 1984, de George Orwell.

A ideologia da transparência é, assim, a resposta atualizada do jornalismo aos

novos tempos de “visibilidade total”. Não importa mais a concepção política que eu tenho, a ideologia, minhas idéias subversivas ou meus planos de revolução. Tudo isso é neutralizado pela informação gratuita, volumosa, massacrante, na qual qualquer um pode falar o que quiser, sem prejudicar ninguém. Importa que cada um possa ser “radiografado”, porte um chip com todos seus dados, sua história e sua inserção social e econômica. Nessa cruzada pela “limpeza dos obstáculos à verificação”, a bandeira do jornalismo – sua última – é pela conformidade de todos ao regime da transparência, pelo fim do segredo e da alteridade.

(

)

O equívoco da ideologia da transparência é o de considerar que não há limites,

que todos têm obrigação de se mostrarem nus. Nesse ponto, a transparência invade o terreno da subjetividade, do direito individual ou privado. Por isso ela é totalitária, ao

desrespeitar – em nome do jornalismo – territórios que transcendem seu campo de trabalho. Há domínios que não convêm, que não precisam ser expostos: as carnificinas de guerra, a violência de “mau gosto” das fotos, dos filmes, dos relatos incômodos, intragáveis, embaraçosos que chegam ao detestável e ao abominável. Pela busca não-criteriosa do sensacional tudo chega às telas, até aquilo que as pessoas não precisam ver, não querem ver, se enojam.

O que é diferente da necessidade humana de se informar, de entretenimento e

lazer. Assim como é também diferente do princípio do segredo, oposto do princípio da devassidão, que é fonte da paixão e do fascínio, território da literatura, do mistério, do estranho. O totalitarismo da transparência existiu mais recentemente no Estado

fascita alemão e no Estado soviético, ficcionalmente caricaturado no Estado orwelliano de 1984: transparência total (como panóptico), sistemas de observação e vigilância em cada residência, espionagem, proibição de reuniões, escuta telefônica, abertura de correspondência. Traços atualmente reconhecíveis no mundo da “transparência total” dos recentes ambientes eletrônicos. Sistemas que sufocam as diferenças, os inconformismos, as inadaptações, que são vistos como heresias, práticas obscuras e secretas.

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A paixão detém um mistério: mistério da mulher amada, do corpo

desconhecido, do prazer da descoberta, da estranheza, da alteridade. Está no território dessa alteridade a fonte da fascinação, dos sentimentos, o verdadeiro sistema de produção de emoções fortes, de desejos, de envolvimento pleno. Mas tudo isso desaparece com a luz, com os potentes holofotes da transparência, que deseja tudo controlar, tudo vasculhar, tudo expor.

Os códigos de Ética no Exterior e no Brasil

Breve histórico dos códigos deontológicos de comunicação e jornalismo

Os códigos deontológicos de imprensa são conjuntos de princípios, normas e

preceitos concretos, apresentados de forma lógica e sistematizada, elaborados por iniciativa das próprias entidades de classe dos jornalistas (no caso do Brasil, a Federação Nacional dos Jornalistas-Fenaj), com o objetivo de orientar eticamente o

exercício da profissão. Para Niceto Blásquez:

Além de protegerem o público contra as más informações, os códigos deontológicos servem para identificar o grupo profissional diante do seu público. Para isso estabelecessem regras de comportamento interno, evitando competição desleal, mas sem concessões aos incompetentes ou inescrupulosos e irresponsáveis. (BLÁSQUEZ, 1999, p. 118)

Não obstante seus evidentes limites estruturais, a utilização de códigos de ética para o jornalismo e os meios de comunicação em geral – os chamados códigos deontológicos – tornou-se habitual no mundo. Uma das razões para a proliferação desses códigos no século 20, afirma Blásquez (Ibid, p. 111), seria persistente desconfiança das sociedades nos profissionais de comunicação. Ainda de acordo com Blásquez (Ibid, p. 114) esses códigos pretendem apenas sensibilizar profundamente os profissionais de imprensa “sobre a conveniência e necessidade de serem honestos e responsáveis na forma de servirem o público”. Para esse autor, o serviço ao público é “a melhor garantia de autocontrole e de prestígio profissional que rechaça as pressões políticas e financeiras, assim como qualquer forma de manipulação voluntária” (p. 115). Francisco José Karam (1997) afirma que, até o final da década de 1990, existiam, na ocasião, mais de 70 países nos quais os jornalistas possuíam seu próprio código de ética, além de normas e legislações (nacionais e de organizações supranacionais, como a ONU e Unesco). Sobre esses códigos é preciso considerar:

têm um grande valor para articular princípios fundamentais de

e para iluminar preferencialmente áreas

específicas a possíveis dificuldades tais como situações que impliquem qualquer conflito de interesses ou um conflito aparente. Mas os códigos têm uma utilidade limitada. Podem ajudar a esclarecer e a guiar, mas carecem de meios para se imporem. Os códigos incluem declarações muito vagas relativas à sua aplicação obrigatória. Mas podem ajudar a definir e a dirigir o trabalho dos jornalistas. (apud BLÁSQUEZ, Ibid, p. 38)

conduta no jornalismo (

)

Também segundo Karam (Ibid), há estudiosos que atribuem o surgimento do primeiro código deontológico ao ano de 1918, criado pelo Sindicato dos Jornalistas Franceses. Outros autores, no entanto, indicam que o primeiro código dessa natureza pertenceu à Associação Editorial de Kansas (EUA) e teria sido criado em 1910 por Wills E. Miller. É fato que o surgimento de muitos desses códigos tiveram início após a

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Segunda Guerra Mundial e, especialmente, a partir da iniciativa das Nações Unidas que, em 1950, criou um conjunto de normas sobre a liberdade de informação e de imprensa para profissionais e organizações em geral que trabalhassem com a informação. Mas em 1983, através da ação da Unesco, é que foi criado um código mais específico para jornalistas intitulado Os princípios internacionais da Ética Profissional dos Jornalistas. Esse código serviu de inspiração e base para os diversos códigos nacionais nessa área. Vale salientar que, antes disso, em 1978, a própria Unesco havia criado sua Declaração sobre os meios de comunicação. A história registra que sempre houve problemas na elaboração desse tipo de código, os quais se devem à diversidade dos participantes nesse empreendimento – profissionais, empresários, governos, entre outros - cujos interesses e posicionamentos ideológicos costumam ser igualmente divergentes. Além disso, tais códigos têm demonstrado evidente fragilidade por não terem força legal – e mesmo a aplicação da lei, por sua vez, esbarra em diferentes interpretações -, além de um texto que, ora se perde em subjetividades, ora demonstra uma desvinculação com a realidade concreta e cotidiana 9 . No Brasil, o primeiro Código de Ética de jornalismo foi aprovado em 1949, durante o 2º Congresso Nacional de Jornalistas. O segundo foi aprovado em 1968, durante a décima-segunda edição desse mesmo congresso. Em seguida, o texto de 1968 foi substituído em 1985, durante o Congresso de Jornalistas realizado no Rio de Janeiro, sendo o texto final aprovado no ano seguinte, em São Paulo, durante o 21º Congresso Nacional dos Jornalistas. A versão atual do Código de Ética para Jornalistas Brasileiros foi aprovado em congresso da Fenaj, em Vitória, em agosto de 2007. (Confira arquivo com o texto integral deste código no blog http://profluismarques.blog.terra.com.br/)

Normas jurídicas e normas morais

São normas morais, por exemplo, os códigos deontológicos de comunicação ou de imprensa, enquanto as normas jurídicas (ou do Direito) referem-se a toda espécie de legislação.

Moral e Direito pertencem ao mesmo campo filosófico: ambos são conjuntos de normas que regulam a vida social do ser humano.

Já no antigo Estado romano, constatou-se que nem tudo que está de acordo com o Direito (é lícito), chega a estar de acordo com a Moral (é honesto).

Não há diferenças essenciais entre Moral e Direito. As diferenças são apenas de grau: de campo de atuação e aplicação da sanção.

A Moral possui um campo mais amplo que o do Direito. Já a sanção (ameaça que acompanha a norma e imposta a quem desrespeita a norma), no caso da norma moral, costuma ser a reprovação social enquanto, no caso da norma jurídica, pode variar muito de tipo (as mais comumente lembradas são a restrição da liberdade e a multa). Por isso, em geral, a sanção moral é mais branda. Além disso, a sanção da norma jurídica conta com um instrumento a mais a seu favor: a força impositiva do Estado.

Isso significa dizer que, em essência, o ato praticado pode ser o mesmo, a norma jurídica e a norma moral podem ter o mesmo enunciado lógico, mas as conseqüências do desrespeito a uma ou a outra podem ser bem diferentes.

9 Nesse sentido, afirma Karam (Ibid, p. 63): “a amplitude dos temas abrangidos pelos códigos, junto com a complexidade ideológica, cultural e política de alguns conceitos já são aspectos suficientes para debates polêmicos e intermináveis”. Além disso, Blásquez (Ibid, p. 78) chama a atenção para o fato dos códigos deontológicos “se basearem excessivamente nas virtudes individuais e mal darem importância às organizações jornalísticas, quando o que de fato acontece é que o jornalismo funciona fundamentalmente mediante organizações.

Estrutura do Direito

Formas de expressão do Direito

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São quatro as formas de expressão (fontes) das normas jurídicas: a lei, o costume, a jurisprudência e a doutrina. As duas primeiras são consideradas formas diretas de expressão e as duas últimas formas indiretas.

Costume

 

Conceito: é a norma jurídica espontânea da vida social (não escrita),

 

caracterizada por uso contínuo e geral, e considerada necessária pelos membros da sociedade. O costume foi muito usado na Antiguidade. No Brasil,

as

raras oportunidades de ver o costume se tornar forma de expressão do

Direito, são encontradas quase sempre na área comercial. Isso não acontece

no

âmbito do Direito da Comunicação.

 

Condições para que o costume seja uma forma de expressão do Direito: deve ser uma norma de uso contínuo (e não circunstancial); deve representar a característica de uma sociedade toda e para ser invocado é preciso que não haja nenhuma lei aplicável ao caso.

Lei

 

É

a principal forma de expressão de direito.

Conceito (para o mundo jurídico): texto escrito que contém normas jurídicas criadas por órgãos dotados de competência para gerar o direito (Poder Legislativo).

A hierarquia das leis brasileiras

I - Emendas à Constituição

II – Leis Complementares

III – Leis Ordinárias

IV – Leis Delegadas

V – Medidas Provisórias

VI – Decretos Legislativos

VII - Resoluções

Emendas à Constituição

Normas que uma vez aprovadas, adquirem a mesma importância das regras constitucionais, exigindo 3/5 dos votos dos membros para aprovação. Não pode ser objeto de deliberação emendas tendentes a abolir: a forma federativa de Estado; o voto direto, secreto, universal e periódico; a separação dos poderes; os direitos e garantias fundamentais.

Leis Complementares

Espécie normativa autônoma, expressamente prevista no inc. II do art. 59 da CF que versa sobre matéria subtraída ao campo de atuação das demais espécies normativas de nosso direito positivo, demandando para a sua aprovação um quorum especial de maioria absoluta dos votos dos membros das duas Casas que compõe o Congresso Nacional, com caráter paraconstitucional.

Leis Ordinárias

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Normas elaboradas pelo Poder Legislativo em suas atividades típicas e normais. Código: é uma lei ordinária que costuma regular toda uma área do Direito e, por conseqüência, é mais extensa, contendo um elevado número de artigos. Consolidação: temos no Brasil a Consolidação das Leis do Trabalho, texto legal que reúne muitas leis, constituindo, desse modo, um corpo único de normas. Decreto-lei: equivale, na prática, a uma lei ordinária. Durante a fase ditatorial do governo Getúlio Vargas e, posteriormente, durante o período dos governos militares, ocorreu um enorme fortalecimento do poder executivo e este poder passou a baixar textos com força de lei. Mesmo com a volta do País ao regime democrático, esses decretos-leis continuaram a vigorar.

Leis Delegadas

Norma editada pela Presidência da República com autorização do Poder Legislativo, veiculada por meio de resolução do Congresso Nacional.

Medidas Provisórias

Norma editada em caso de relevância e urgência, pelo Presidente da República, devendo ser submetida de imediato ao Congresso Nacional, com força de lei. Após aprovada converte-se em lei. Em caso de não aprovação no prazo de 30 dias após publicação perde sua eficácia. O texto final do Projeto de Lei que analisa estas questões tramita pelo Congresso Nacional.

Decretos Legislativos

Normas aprovadas pelo Poder Legislativo sobre matéria de sua competência exclusiva.

Resoluções

Atos de competência privativa do Congresso Nacional, apresentando como conteúdo a delegação: a suspensão de lei declarada inconstitucional, a fixação de alíquotas. Não está sujeita à sanção presidencial, sendo promulgada pela Mesa da casa que a expedir. A hierarquia pode ser estabelecida entre normas de igual força, mas em poderes institucionais diferenciados, a título de exemplo Lei Ordinária Federal de ser respeitada pela Estadual e também pela Municipal.

A Constituição

A Constituição é a lei máxima e fundamental de qualquer Estado, constando normas que constituem a estrutura jurídica, política, social e econômica. É a declaração de vontade política de um povo, efetuada por intermédio de seus representantes. Declaração solene expressa através de um conjunto de normas superiores a todas as outras e que estabelece os direitos e deveres fundamentais das pessoas (indivíduos, entidades, governo). A CONSTITUIÇÃO se impõe sobre todas as leis, determinando regras para todas as outras leis, infraconstitucionais. QUANTO AO PODER CONSTITUINTE Poder Constituinte Originário – Constituição – Assembléia Constituinte. Poder Constituinte Reformador – Emenda

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CONSTITUIÇÃO OUTORGADA Decorre de um processo ilegítimo, sendo impostas pelo Chefe de Estado. Constituições Brasileiras: 1824 - 1937 – 1967 – 1969 (Emenda Constitucional) CONSTITUIÇÃO PROMULGADA Advém de um processo legítimo com a devida do povo na sua elaboração através de Assembléia Constituinte. Constituições Brasileiras: 1891 – 1934 – 1946 - 1988.

Jurisprudência

É a orientação interpretativa do Direito firmada, na esfera judicial, pela sequência de julgamentos dos tribunais. Trata-se, pois, de um “costume” do judiciário.

Para entender: o legislador escreve as leis para o povo, uma entidade abstrata, enquanto o juiz tem à sua frente seres humanos de carne e osso. Nas falhas do legislador, é o tribunal que acaba remediando a situação, por meio da criação de uma jurisprudência adequada.

Doutrina

É composta pela soma das opiniões dos estudiosos do Direito e se apresenta em livros e artigos.

Muitas vezes, as críticas e opiniões externadas pelos especialistas em seus livros e artigos desencadeiam reformas legais e, diariamente, contribuem para moldar e robustecer a convicção dos julgadores, Mas, fique claro: essas críticas e opiniões, só por estarem escritas nos livros, não criam a norma jurídica, pois não são dotadas de coercitividade. Elas somente servirão para criar norma jurídica na medida em que sejam utilizadas pelo legislador ou pelo julgador.

O universo judiciário e as fases do processo

Quem julga no Brasil: o júri, órgão de julgamento composto por pessoas quaisquer do povo, só é utilizado entre nós no julgamento de homicídio, infanticídio e aborto dolosos. Todos os demais casos, criminais ou não criminais, correm perante um julgador de primeira instância que é o juiz da comarca.

Comarca: é a unidade da divisão judiciária do Estado. Uma comarca e um município podem coincidir geograficamente ou não. Uma comarca pode, por exemplo, englobar vários pequenos municípios vizinhos. Dependendo do seu porte, uma comarca pode ter vários juízes, que dividirão entre si o trabalho judicante.

Vara: é o nome que a lei dá ao cargo de juiz de primeira instância. Perante esse juiz são propostas todas as ações que competem à respectiva comarca, como também se desenrolam as várias fases do processo.

A grande maioria dos processos judiciais contém as seguintes fases:

1. Fase postulatória

Nesta primeira fase, define-se aquilo que estará sendo postulado, isto é, pleiteado perante o juízo. Quem acredita ser detentor de um direito contra alguém apresenta ao juiz uma petição, isto é, um texto escrito, no qual se qualifica, relata os fatos ocorridos, invoca a lei aplicável e pede a condenação da outra parte. Esse texto chama-se petição inicial, em uma ação cível; denúncia, em uma ação penal movida pelo promotor de justiça; queixa, em

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uma ação penal movida pela própria vítima; reclamação, em uma ação trabalhista etc. Citação: ato processual por meio do qual se dá conhecimento a uma pessoa de que uma ação foi proposta contra ela. Feita a citação, o réu pode apresentar sua defesa, que se chamará contestação nas ações cíveis, e defesa prévia, nas ações penais. Nessa peça, também escrita, o réu conta a sua versão dos fatos, invoca a lei que lhe pareça aplicável ao caso e pede absolvição, ou que mais lhe convenha.

2. Fase probatória

Nesta segunda fase, as partes apresentam ao juiz as provas de que dispõem para comprovar suas alegações. As principais provas são as seguintes:

Documento: todo o substrato material no qual se contenha alguma informação que possa interessar à elucidação do processo. Testemunha: qualquer pessoa sabedora de algo que possa interessar à Justiça. Pode ser presencial (assistiu o desenrolar dos fatos em questão) ou de antecedentes (traz informações a respeito da conduta do réu). Os depoimentos verbais das testemunhas, após serem ouvidos pelo juiz, são transformados em textos escritos. Perícia: prova que demanda conhecimento especializado. Se a avaliação do caso exigir informações técnicas que somente um especialista pode fornecer, o juiz nomeará um perito a quem incumbirá apresentar essas informações. Laudo: as informações de caráter técnico também se converterão à forma de texto escrito.

3. Fase decisória

É quando o juiz emite uma sentença (decisão de um juiz de primeira instância,

também apresentada na forma de um texto escrito e que passa a integrar o processo). Recorrer da sentença consiste na iniciativa da parte não satisfeita com a sentença em pedir um novo julgamento, agora, numa segunda instância. Se as

duas partes estiverem insatisfeitas, ambas poderão apresentar recurso. Nesses dois casos, será necessário observar um prazo previsto em lei.

A segunda instância é constituída, em nível estadual, pelo Tribunal de Justiça

do Estado e, em nível federal, pelo Tribunal Regional Federal. Nesse momento,

o processo será analisado e julgado por uma câmara composta por três juízes,

usualmente chamados desembargadores. A decisão dos desembargadores – também feita por escrita – é denominada acórdão. Há casos em que a lei permite recurso para o Superior Tribunal de Justiça ou mesmo ao órgão máximo e último de julgamento, o Supremo Tribunal Federal. Não cabendo nenhum recurso, a decisão “transita em julgado”, isto é, torna-se definitiva.

4. Fase executória

Nesta fase, executa-se, na prática, aquilo que ficou determinado na decisão definitiva.

Instituições (Estrutura) do Direito

O Direito está organizado em diversos ramos, considerados sob o prisma de

Direito Público e de Direito Privado. Alguns autores defendem a existência de direitos Mistos que apresentam características públicas e privadas. A seguir, apresentamos as subdivisões do Direito Público e do Direito Privado:

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Direito Público

Direito Privado

Direito Interno Público:

Direito Civil Direito Processual Civil Direito Comercial Direito Econômico Direito Internacional

Direito Constitucional Direito Eleitoral Direito Administrativo Direito Financeiro Direito Penal

 

Direito Processual Penal Direito Externo Público:

Direito Internacional Público

Direito Diplomático

Direito Misto: Direito do Trabalho; Direito Processual do Trabalho; Direito Sindical; Direito da Família e Direito Falimentar.

Definições fundamentais:

Direito Constitucional: regula a estrutura básica do Estado fixada na Constituição, que é a lei suprema da Nação.

Direito Administrativo: regula a organização e funcionamento da Administração Pública e dos órgãos que executam serviços públicos.

Direito Penal: regula os crimes e contravenções determinando as penas e medidas de segurança.

Direito Eleitoral: regula as normas destinadas a assegurar a organização e o exercício de direitos políticos precipuamente os de votar e de ser votado.

Direito Falimentar (ou de Falência): Disciplina sobre a situação econômico-financeira do comerciante e de suas múltiplas repercussões, em face de quebra efetiva ou virtual, perante toda a coletividade.

Direito Financeiro: conjunto de normas jurídicas que regulam a atividade financeira do Estado.

Direito Tributário: conjunto de normas e princípios centralizados no tributo que é toda prestação pecuniária compulsória em moeda ou cujo valor nela se possa exprimir que não constitua sanção por ato ilícito, e instituída em lei e cobrada mediante atividade administrativa plenamente vinculada.

Direito Processual (Civil, Penal e Trabalhista): regula as atividades do Poder Judiciário e das partes em conflito no decorrer do processo judicial.

Direito Internacional:

Público: regula as relações entre Estados, por meio de normas aceitas como obrigatórias pela comunidade internacional. Privado: regula os problemas particulares ocasionados pelo conflito de leis de diferentes países.

Direito Civil: regula, de um modo geral, o estado e a capacidade das pessoas e suas relações no que se refere à família, às coisas, às obrigações e sucessão patrimonial.

Direito Comercial: ramo do direito que regula a atividade do comerciante e das sociedades comerciais, bem como a prática dos atos de comércio.

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Direito do Trabalho: regula as relações de trabalho entre empregado e empregador, preocupando-se, ainda, coma condição social dos trabalhadores.

Direitos Fundamentais e Direitos da Personalidade/ Direito e meios de comunicação

Direitos Fundamentais

Os direitos do homem são direitos válidos para todos os povos e em todos os tempos. Esses direitos advêm da própria natureza humana, daí seu caráter inviolável, intemporal e universal (dimensão jusnaturalista-universalista).

INTRODUÇÃO

Flavia Martins André da Silva

O primeiro código de leis escrito de que se tem notícias, foi o Código de Hamurabi,

que foi gravado em uma stela de basalto negro por volta do século XVIII a.C, que hoje

se

encontra no museu do Louvre, em Paris.

O

Código de Hamurabi defendia a vida e o direito de propriedade, e contemplava a

honra, a dignidade, a família e a supremacia das leis em relação aos governantes. Esse código contém dispositivos que continuam aceitos até hoje, tais como a Teoria da imprevisão, que fundava-se no princípio de talião: olho por olho, dente por dente. Depois deste primeiro código, instituições sociais (religião e a democracia) contribuíram para humanizar os sistemas legais. Mais tarde com a junção dos princípios religiosos do cristianismo com os ideais libertários da Revolução Francesa, deram origem à Declaração Universal dos Direitos do Homem, assinada em Paris em 10/12/1948. Representou a primeira tentativa da

humanidade de estabelecer parâmetros humanitários válidos universalmente para todos os homens, independentes de raça, sexo, poder, língua, crença etc., e foi adotada e proclamada pela Resolução n. 217 da Organização das Nações Unidas, e o Brasil, nesta mesma data, assinou esta declaração. Os Direitos Humanos são

conquistas da civilização, uma sociedade é civilizada se seus Direitos Humanos são protegidos e respeitados.

A Constituição Federal de 1988, espelhou-se na Declaração Universal dos Direitos

Humanos da ONU. Os cidadãos têm que participar e vigiar os Direitos Humanos, não delegando apenas ao Estado a proteção e aplicação desses direitos.

DIREITOS FUNDAMENTAIS NA CONTITUIÇÃO FEDERAL DE 1988

A Constituição Federal de 1988 trouxe em seu Título II, os Direitos e Garantias

Fundamentais, subdivididos em cinco capítulos:

a- Direitos individuais e coletivos: são os direitos ligados ao conceito de pessoa humana e à sua personalidade, tais como à vida, à igualdade, à dignidade, à segurança, à honra, à liberdade e à propriedade. Estão previstos no artigo 5º e seus

incisos;

b- Direitos sociais: o Estado Social de Direito deve garantir as liberdades positivas aos

indivíduos. Esses direitos são referentes à educação, saúde, trabalho, previdência social, lazer, segurança, proteção à maternidade e à infância e assistência aos desamparados. Sua finalidade é a melhoria das condições de vida dos menos favorecidos, concretizando assim, a igualdade social. Estão elencados a partir do artigo 6º;

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c- Direitos de nacionalidade: nacionalidade, significa, o vínculo jurídico político que liga um indivíduo a um certo e determinado Estado, fazendo com que este indivíduo se torne um componente do povo, capacitando-o a exigir sua proteção e em contra partida, o Estado sujeita-o a cumprir deveres impostos a todos; d- Direitos políticos: permitem ao indivíduo, através de direitos públicos subjetivos, exercer sua cidadania, participando de forma ativa dos negócios políticos do Estado. Esta elencado no artigo 14; e- Direitos relacionados à existência , organização e a participação em partidos políticos: garante a autonomia e a liberdade plena dos partidos políticos como instrumentos necessários e importantes na preservação do Estado democrático de Direito. Esta elencado no artigo 17. Todo ser humano já nasce com direitos e garantias, não podendo estes ser considerados como uma concessão do Estado, pois, alguns estes direitos são criados pelos ordenamentos jurídicos, outros são criados através de certa manifestação de vontade, e outros apenas são reconhecidos nas cartas legislativas. As pessoas devem exigir que a sociedade e todas as demais pessoas respeitem sua dignidade e garantam os meios de atendimento das suas necessidades básicas. Os direitos humanos têm uma posição bidimensional, pois por um lado tem um ideal a atingir, que é a conciliação entre os direitos do indivíduo e os da sociedade; e por outro lado, assegurar um campo legítimo para a democracia. Os Direitos Fundamentais, ou Liberdades Públicas ou Direitos Humanos é definido como conjunto de direitos e garantias do ser humano institucionalização, cuja finalidade principal é o respeito a sua dignidade, com proteção ao poder estatal e a garantia das condições mínimas de vida e desenvolvimento do ser humano, ou seja, visa garantir ao ser humano, o respeito à vida, à liberdade, à igualdade e a dignidade, para o pleno desenvolvimento de sua personalidade. Esta proteção deve ser reconhecida pelos ordenamentos jurídicos nacionais e internacionais de maneira positiva. As principais características dos direitos fundamentais são:

a- Historicidade: os direitos são criados em um contexto histórico, e quando colocados na Constituição se tornam Direitos Fundamentais; b- Imprescritibilidade: os Direitos Fundamentais não prescrevem, ou seja, não se perdem com o decurso do tempo. São permanentes; c- Irrenunciabilidade: os Direitos Fundamentais não podem ser renunciados de maneira alguma; d- Inviolabilidade: os direitos de outrem não podem ser desrespeitados por nenhuma autoridade ou lei infraconstitucional, sob pena de responsabilização civil, penal ou administrativa; e- Universalidade: os Direitos Fundamentais são dirigidos a todo ser humano em geral sem restrições, independente de sua raça, credo, nacionalidade ou convicção política; f- Concorrência: podem ser exercidos vários Direitos Fundamentais ao mesmo tempo; g- Efetividade: o Poder Público deve atuar para garantis a efetivação dos Direitos e Garantias Fundamentais, usando quando necessário meios coercitivos; h- Interdependência: não pode se chocar com os Direitos Fundamentais, as previsões constitucionais e infraconstitucionais, devendo se relacionarem para atingir seus objetivos; i- Complementaridade: os Direitos Fundamentais devem ser interpretados de forma conjunta, com o objetivo de sua realização absoluta. Os Direitos Fundamentais são uma criação de todo um contexto histórico-cultural da sociedade.

(

)

Fonte: http://www.direitonet.com.br/artigos/exibir/2627/Direitos-Fundamentais

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OS DIREITOS DA PERSONALIDADE

MIGUEL REALE

O novo Código Civil começa proclamando a idéia de pessoa e os direitos da personalidade. Não define o que seja pessoa, que é o indivíduo na sua dimensão ética, enquanto é e enquanto deve ser.

A pessoa, como costumo dizer, é o valor-fonte de todos os valores, sendo o

principal fundamento do ordenamento jurídico; os direitos da personalidade correspondem às pessoas humanas em cada sistema básico de sua situação e atividades sociais, como bem soube ver Ives Gandra da Silva Martins. Segundo os partidários do Direito Natural clássico, que vem de Aristóteles até nossos dias, passando por Tomás de Aquino e seus continuadores, os direitos da

personalidade seriam inatos, o que não é aceito pelos juristas que, com o Renascimento, secularizaram o Direito, colocando o ser humano no centro do mundo geral das normas ético-jurídicas. Para eles trata-se de categorias históricas surgidas no espaço social, em contínuo desenvolvimento. Não cabia ao legislador da Lei Civil tomar partido ante essas divergências teóricas, ainda que fazendo referência também ao Direito Natural Transcendental, na linha de Stammler ou de Del Vecchio.

O importante é saber que cada direito da personalidade corresponde a um valor

fundamental, a começar pelo do próprio corpo, que é a condição essencial do que

somos, do que sentimos, percebemos, pensamos e agimos.

em razão do que representa nosso corpo que é defeso o ato de dele dispor,

salvo por exigência médica, quando importar diminuição permanente da integridade física, ou contrariar os bons costumes, salvo para fins de transplante. Estatui o Código Civil que é válida com objetivo científico, ou altruista, a disposição gratuita do próprio corpo, para depois da morte, ninguém podendo ser constrangido a submeter-se, com risco de vida, a tratamento médico ou a intervenção cirúrgica. Eis aí os mandamentos que estão liminarmente na base dos atos humanos, como garantia principal de nossa corporeidade, em princípio intocável. Vem, em seguida, a proteção ao nome, nele compreendido o prenome e o sobrenome, não sendo admissível o emprego por outrem do nome da pessoa em publicações ou representações que a exponham ao desprezo público, ainda quando não haja intenção difamatória. É o mesmo motivo pelo qual, sem autorização, é proibido o uso do nome alheio em propaganda comercial. Em complemento natural a esses imperativos éticos, são protegidos contra terceiros a divulgação de escritos de uma pessoa, a transmissão de sua palavra, bem como a publicação e exposição de sua imagem. São esses os que podemos denominar direitos personalíssimos da pessoa, assim como a inviolabilidade da vida privada da pessoa natural, devendo o juiz, a requerimento do interessado, adotar as providências necessárias para impedir ou fazer cessar ato contrário a esta norma. Nada mais acrescenta o Código, nem poderia enumerar os direitos da personalidade, que se espraiam por todo o ordenamento jurídico, a começar pela Constituição Federal que, logo no artigo 1º, declara serem fundamentos do Estado Democrático do Direito a cidadania, a dignidade da pessoa humana, os valores sociais do trabalho e a livre iniciativa. Enquanto titular desses direitos básicos, a pessoa deles tem garantia especial, o que se dá também com o direito à vida, a liberdade, a igualdade e a segurança, e outros mais que figuram nos Arts. 5º e 6º da Carta Magna, desde que constituam faculdades sem as quais a pessoa humana seria inconcebível. Não há, pois, como confundir direitos da personalidade, que todo ser humano possui como razão de ser de sua própria existência, com os atribuídos genérica ou especificamente aos indivíduos, sendo possível a sua aquisição. Assim, o direito de

É

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propriedade é constitucionalmente garantido, mas não é dito que todos tenham direito a ela, a não ser mediante as condições e processos previstos em lei. Poderíamos dizer, em suma, que são direitos da personalidade os a ela inerentes, como um atributo essencial à sua constituição, como, por exemplo, o direito de ser livre, de ter livre iniciativa, na forma da lei, isto é, de conformidade com o estabelecido para todos os indivíduos que compõem a comunidade. Como já disse, cada direito da personalidade se vincula a um valor fundamental que se revela através do processo histórico, o qual não se desenvolve de maneira linear, mas de modo diversificado e plural, compondo as várias civilizações, nas quais há valores fundantes e valores acessórios, constituindo aqueles as que denomino invariantes axiológicas. Estas parecem inatas, mas assinalam os momentos temporais de maior duração, cujo conjunto compõe o horizonte de cada ciclo essencial da vida humana. Emprego aqui o termo horizonte no sentido que lhe dá Jaspers, recuando à medida que o ser humano avança, adquirindo novas idéias ou ideais, assim como novos instrumentos reclamados pelo bem dos indivíduos e das coletividades. Ora, a cada civilização corresponde um quadro dos direitos da personalidade, enriquecida esta com novas conquistas no plano da sensibilidade e do pensamento, graças ao progresso das ciências naturais e humanas. O último valor adquirido pela espécie humana é o ecológico, por força do qual estabelece o Art. 225 da Lei Maior que “todos têm direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado, bem de uso comum do povo e essencial à sadia qualidade de vida, impondo-se ao Poder Público e à coletividade o dever de defendê- lo e preservá-lo para a presente e futuras gerações”. Trata-se já agora de novo direito da personalidade. O que podemos esperar, sob a perspectiva histórico-cultural aqui exposta, é que, no futuro, novas aquisições aconteçam, transformando em direitos da personalidade as que ainda constituem possibilidade de ser e de agir para o maior número de seres humanos.

Fonte: http://www.miguelreale.com.br/artigos/dirpers.htm

Direito e meios de comunicação

Direito da Comunicação: conjunto de normas gerais e coercitivas que regulam a existência e a atuação dos meios de comunicação, o que implica, por exemplo, a disposição sobre os modos de criação e atuação dos veículos de comunicação no Brasil.

Essa área do Direito é composta por três tipos de leis: Constituição, Leis específicas para a área de Comunicação e Leis não específicas para a área de Comunicação. Essa área, embora delimitada, não possui status de disciplina como acontece, por exemplo, com o Direito Civil, o Direito Trabalhista, o Direito Penal etc.

São divisões internas do Direito da Comunicação:

Direito da Informação: compreende normas jurídicas preocupadas, sobretudo, com o conteúdo do processo comunicacional. Direito da Telecomunicação: composto por normas jurídicas relativas, principalmente, à criação e à disciplina técnica dos veículos eletro-eletrônicos de comunicação (audiovisuais).

Em termos de questões fundamentais relativas à comunicação social, a

Constituição brasileira em vigor estabelece os seguintes princípios legais:

Art. 5.: todos são iguais perante a lei; é livre a manifestação do pensamento, sendo vedado o anonimato; é assegurado o direito de resposta e é livre a expressão da atividade intelectual, artística, científica e de comunicação,

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independentemente de censura ou licença, bem como são invioláveis a intimidade, a vida privada, a honra, e a imagem das pessoas. Sigilo: esse artigo defende o sigilo das comunicações como parte das garantias do cidadão. A lei regula os casos em que, excepcionalmente, é permitida a escuta telefônica: quando acontece uma investigação criminal. Direito autoral: o tema também encontra-se no Art. 5. da Constituição, no seguintes incisos:

XXVII – aos autores pertence o direito exclusivo de utilização, publicação ou

reprodução de suas obras, transmissível aos herdeiros pelo tempo que a lei fixar;

XXVIII – são assegurados, nos termos da lei:

a)

a

proteção às participações individuais em obras coletivas e à reprodução da

imagem e da voz humanas, inclusive nas atividades desportivas;

b)

direito de fiscalização do aproveitamento econômico das obras que criarem ou de que participarem aos criadores, aos intérpretes e às respectivas representações sindicais e associativas;

o

XXIX – a lei assegurará aos autores e inventos industriais privilégio temporário

para sua utilização, bem como proteção às criações industriais, à propriedade das

marcas, aos nomes das empresas e a outros signos distintivos, tendo em vista o interesse social e o desenvolvimento tecnológico e econômico do País; ( ) Direito do Consumidor: a base legal para a constituição do Código de Defesa do Consumidor está dada nos seguintes incisos, também do Art. 5 da Constituição:

XXXII – o Estado promoverá, na forma da lei, a defesa do consumidor;

XXXIII – todos têm direito a receber dos órgãos públicos informações de seu interesse particular, ou de interesse coletivo ou geral, que serão prestadas no

prazo da lei, sob pena de responsabilidade, ressalvadas aquelas cujo sigilo seja

imprescindível à segurança da sociedade e do Estado; ( ) Contra discriminação e racismo:

XLI – a lei punirá qualquer discriminação atentória aos direitos e liberdades

fundamentais;

XLII – a prática do racismo constitui crime inafiançável e imprescritível, sujeito à

pena de reclusão, nos termos da lei; ( ) Sobre a exploração dos serviços de telecomunicações:

Art. 21. Compete à União:

( )

XI – explorar, diretamente ou mediante autorização, concessão ou permissão, os

serviços de telecomunicações, nos termos da lei, que disporá sobre a organização

dos serviços, a criação de um órgão regulador e outros aspectos institucionais;

XII

– explorar, diretamente ou mediante autorização, concessão ou permissão:

a)

Os serviços de radiodifusão sonora e de sons e imagens; ( )

XVI

– exercer a classificação, para efeito indicativo, de diversões públicas e de

programas de rádio e televisão; ( ) Limitações constitucionais às liberdades: em momentos de graves crises, a Constituição admite a suspensão temporária e controlada de alguns direitos e garantias fundamentais. Trata-se, em última análise, de um fortalecimento

provisório do Poder Executivo, que, dotado de maiores poderes, poderá vencer

a crise mais rápida e eficientemente. As hipóteses dessa natureza previstas

pela Constituição (Art. 136) são: o estado de defesa (causado por instabilidade institucional grave e imediata e calamidades de grandes proporções na natureza) e o estado de sítio (causado por comoção grave de repercussão nacional; ineficácia da medida tomada durante o estado de defesa ou declaração de estado de guerra ou resposta à agressão armada estrangeira).

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O conjunto de normas jurídicas mais específicas a respeito da comunicação social em vigor, hoje, no Brasil está contido no capítulo 5º da Constituição Federal, conforme apresentado a seguir:

CONSTITUIÇÃO FEDERAL DO BRASIL CAPÍTULO V Da Comunicação Social

Art. 220. A manifestação do pensamento, a criação, a expressão e a informação, sob

qualquer forma, processo ou veículo não sofrerão qualquer restrição, observado o disposto nesta Constituição.

§ 1.º Nenhuma lei conterá dispositivo que possa constituir embaraço à plena liberdade de informação jornalística em qualquer veículo de comunicação social, observado o disposto no art. 5.º,IV, V, X, XIII e XIV.

§ 2.º É vedada toda e qualquer censura de natureza política, ideológica e artística.

§ 3.º Compete à lei federal:

I - regular as diversões e espetáculos públicos, cabendo ao poder público informar

sobre a natureza deles, as faixas etárias a que não se recomendem, locais e horários

em que sua apresentação se mostre inadequada;

II - estabelecer os meios legais que garantam à pessoa e à família a possibilidade de

se defenderem de programas ou programações de rádio e televisão que contrariem o

disposto no art. 221, bem como da propaganda de produtos, práticas e serviços que possam ser nocivos à saúde e ao meio ambiente. § 4.º A propaganda comercial de tabaco, bebidas alcoólicas, agrotóxicos,

medicamentos e terapias estará sujeita a restrições legais, nos termos do inciso II do parágrafo anterior, e conterá, sempre que necessário, advertência sobre os malefícios decorrentes de seu uso.

§ 5.º Os meios de comunicação social não podem, direta ou indiretamente, ser objeto de monopólio ou oligopólio.

§ 6.º A publicação de veículo impresso de comunicação independe de licença de

autoridade. Art. 221. A produção e a programação das emissoras de rádio e televisão atenderão

aos seguintes princípios:

I - preferência a finalidades educativas, artísticas, culturais e informativas;

II - promoção da cultura nacional e regional e estímulo à produção independente que objetive sua divulgação;

III - regionalização da produção cultural, artística e jornalística, conforme percentuais

estabelecidos em lei;

IV - respeito aos valores éticos e sociais da pessoa e da família.

Art. 222. (*) A propriedade de empresa jornalística e de radiodifusão sonora e de sons

e imagens é privativa de brasileiros natos ou naturalizados há mais de dez anos, aos quais caberá a responsabilidade por sua administração e orientação intelectual.

§ 1.º É vedada a participação de pessoa jurídica no capital social de empresa

jornalística ou de radiodifusão, exceto a de partido político e de sociedades cujo capital pertença exclusiva e nominalmente a brasileiros.

§ 2.º A participação referida no parágrafo anterior só se efetuará através de capital sem direito a voto e não poderá exceder a trinta por cento do capital social. Art. 223. Compete ao Poder Executivo outorgar e renovar concessão, permissão e

autorização para o serviço de radiodifusão sonora e de sons e imagens, observado o princípio da complementaridade dos sistemas privado, público e estatal.

§ 1.º O Congresso Nacional apreciará o ato no prazo do art. 64, §§ 2.º e 4.º, a contar do recebimento da mensagem.

§ 2.º A não-renovação da concessão ou permissão dependerá de aprovação de, no mínimo, dois quintos do Congresso Nacional, em votação nominal.

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§ 3.º O ato de outorga ou renovação somente produzirá efeitos legais após

deliberação do Congresso Nacional, na forma dos parágrafos anteriores.

§ 4.º O cancelamento da concessão ou permissão, antes de vencido o prazo, depende de decisão judicial.

§ 5.º O prazo da concessão ou permissão será de dez anos para as emissoras de

rádio e de quinze para as de televisão. Art. 224. Para os efeitos do disposto neste Capítulo, o Congresso Nacional instituirá,

como órgão auxiliar, o Conselho de Comunicação Social, na forma da lei.

(*) Emenda Constitucional Nº 36, de 2002

Direito Penal e os meios de comunicação social

Sobre o Direito Penal: noções gerais

Proteção do Direito Penal: por meio da lei penal, o legislador ameaça com a aplicação de uma pena de modo especial de eventuais violadores dos seus bens jurídicos (tudo aquilo que o Direito protege).

Crime: todo comportamento humano que ofende um bem jurídico protegido pelo Direito Penal. Tem como características fundamentais ser um fato típico (isto é, uma lei anterior definiu quais tipos de comportamento são crimes), não aceito e culpável.

Legítima defesa: situação em que a lei aceita o fato típico como exclusão de criminalidade.

Crime culposo: quando o agente deu causa ao resultado por imprudência, negligência ou imperícia.

Crime doloso: quando o agente quer o resultado ou assume o risco de produzi- lo.

Situações em que a lei exclui a culpa: menoridade, loucura, medida de segurança, coação irresistível, obediência hierárquica, embriaguez completa e involuntária.

Caracterização do crime de comunicação

Os crimes que poderão vir a ser praticados pelo uso dos meios de comunicação são encontrados em várias e diferentes leis: Código Penal, Código de Defesa do Consumidor, Estatuto do Menor e do Adolescente, Código Eleitoral, entre outras. Dentre esses crimes, há alguns que são definidos simultaneamente em mais do que uma lei.

Crime de comunicação: é aquele que se pratica com o uso dos meios de informação e divulgação (o que inclui os meios de comunicação).

Espécies de crimes (nos casos abaixo, têm em comum o fato de serem crimes

contra a honra):

Calúnia: imputação de fato definido como crime a alguém; e a falsidade da imputação.

Injúria: ofensa à dignidade ou decoro.

Não existe a forma culposa nos crimes de calúnia, difamação e injúria.

Situações em que o dolo pode ser excluído em acusações de calúnia, difamação e injúria: intenção de narrar, de brincar, de aconselhar e de corrigir.

Difamação: imputação de fato ofensivo à reputação de alguém.

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Liberdade de expressão: a esse direito corresponde à liberdade de crítica.

Crimes contra os costumes: a obscenidade é objeto de atenção no artigo 234 do Código Penal cujo ato é previsto como crime que diferentes formas de expressão (escrita, desenho, pintura, estampa ou qualquer objeto considerado obsceno). Esse mesmo tema, quando menores estão envolvidos, é tratado pelo Estatuto da Criança e do Adolescente nos seus artigos 240 e 241 que inclui a fotografia, representação teatral e cinema entre as formas de expressão cujos autores podem ser condenados em caso de atos obscenos envolvendo crianças e adolescentes.

Crime contra a propriedade imaterial: está previsto no artigo 184 do Código Penal e trata do desrespeito ao direito patrimonial do autor, isto é, ao direito de exclusiva reprodução que lhe cabe. Esse crime, portanto, consiste em reproduzir a obra sem autorização do autor ou do detentor dos direitos de autor.

Direito de resposta: é um instituto jurídico a serviço da verdade. Sua função não é punir, mas indenizar quem foi prejudicado por qualquer publicação de uma mídia. A indenização é uma forma de reparação. Além disso, com o direito de resposta, a lei pretende permitir que quem foi atingido por uma matéria publicada ou transmitida a oportunidade de apresentar, para o público, a sua versão do fato.

Publicação de resultado de pesquisas eleitorais: segundo o artigo 33 da lei 9.504, de 30 de setembro de 1997, a divulgação de resultado de pesquisa eleitoral deve atender uma série de exigências, tais como: registro da pesquisa com cinco dias de antecedência no Tribunal Regional Eleitoral da região; idoneidade do instituto de pesquisa; indicação clara da data da realização da pesquisa, número de entrevistas e local em que foram colhidas etc.

Referências

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BERTRAND, C. A deontologia das mídias. Tradução: Maria Leonor Loureiro. Bauru:

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Disponível

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Acesso

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