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Fernando Arrabal Fando e Lis

O absurdo do mundo do dramaturgo espanhol Fernando Arrabal não nasce do desespero do filósofo em busca de penetrar o segredo da existência, mas da absurdidade dos personagens que vêem a situação humana com os olhos da simplicidade ou imediaticidade infantil que não permite uma maior compreensão da realidade do objeto observado. Também como as crianças, seus personagens são por vezes cruéis, porque não compreenderam ou sequer tentaram compreender a existência de uma lei moral. E assim como as crianças, eles sofrem a crueldade de um mundo como flagelos incompreensíveis. Em Fando e Lis - uma peça em 5 quadros - o personagem Fando empurra a amada Lis, que é paralítica, numa cadeira de rodas a caminho de Tar. Fando ama Lis, profundamente, mas ao mesmo tempo ela o irrita por ser-lhe uma pesada carga. Mesmo assim, procura diverti-la tocando em seu tambor a única coisa que sabe, a canção da pena. Fando e Lis encontram três senhores que carregam um guardachuva e que também estão a caminho de Tar. Assim como Fando e Lis, parece quase impossível que estes senhores encontrem seu destino, pois - em vez de chegarem a Tar - ficam sempre rodando em torno do ponto de partida. Fando, muito orgulhoso, exibe a beleza de Lis aos três senhores, levantando-lhe a saia para que eles vejam-lhe as coxas e até convidando-os a beijá-la. Apesar do amor que sente por Lis, Fando não consegue resistir à tentação de ser cruel com ela. No quarto quadro, vamos saber que, para exibi-la aos três senhores, Fando a deixou nua, ao relento, durante toda uma noite, com o que abalou a sua saúde e, depois, acorrentou-a e colocou-lhe algemas para ver se ela era capaz de arrastar-se como os outros. Fando espanca Lis até derrubá-la. Na queda, Lis quebra o seu tambor.

Furioso, ele a espanca até que ela perca os sentidos e, quando retornam os três homens, a encontram morta. A última cena nos mostra os três senhores de guarda-chuva a discutir confusamente o que aconteceu quando, de repente, Fando aparece com uma flor e um cachorro: ele havia prometido a Lis que, quando ela morresse, ele a visitaria em seu túmulo com uma flor e um cachorro. Os três senhores acompanham-no ao cemitério e, depois, os quatro vão tentar, novamente, encontrar o caminho de Tar. Wilson Coêlho Encenador

FANDO E LIS Texto de Fernando Arrabal Tradução de Wilson Coêlho Personagens: Lis, a mulher do carrinho Fando, o homem que a conduz a Tar e os três homens do guarda-chuva Namur Mitaro Toso

A peça tem cinco quadros.

QUADRO I

(Fando e Lis estão sentados no chão. Perto deles se encontra um grande carrinho de criança, preto, envelhecido e descascado, com rodas finas de borracha macias e raios enferrujados. Por fora do carrinho e amarrados com cordas há uma porção de objetos, entre os quais destacam um tambor, uma coberta enrolada, uma vara de pescar, uma bola de couro e uma caçarola. Lis é paralítica das duas pernas.) LIS - Mas eu vou morrer e ninguém vai se lembrar de mim. FANDO - (Docemente) - Sim, Lis. Eu vou me lembrar de você e irei vê-la no cemitério com uma flor e um cachorro. (Longa pausa. Fando olha Lis. Emocionado.) - E no seu enterro cantarei baixinho o refrão “como é bonito um enterro, “Como é bonito um enterro”, cuja música é muito engraçada. (Ele a olha silenciosamente e continua com ar satisfeito.) - Eu o farei por você. LIS - Você me ama muito. FANDO - Mas prefiro que você não morra. (Pausa) Vou ficar muito triste no dia que você morrer. LIS - Ficar triste? Por que? FANDO - (Desolado) - Não sei. LIS - Você me diz isso, só porque ouviu dizer. Isso é sinal de que você não ficará triste. Você sempre me engana.

(Como um autômato) . mas não sei se vou conseguir. LIS . LIS . LIS .Fale direito. Lis. Lis.(Num outro tom. Tente.Mas nesse tom. mas direito. FANDO .Eu acredito em você. Lis. você sabe dizer muito bem as coisas. Lis. Não é assim.(Muito triste) . FANDO .Não.(Faz um esforço. não vale.Assim também não vale. Tente outra vez. (Humildemente) . pois quando você quer. Diga apenas que acredita em mim. vou ficar muito triste. Lis.FANDO . também pouco sincero) .Você vai chorar? FANDO .Não sei bem. LIS .Não. como se comporta mal comigo.Eu acredito em você.Eu acredito em você. Não sei se vou conseguir! Não sei se vou conseguir! Você acha que isso é uma resposta? Acredite em mim. FANDO . LIS . mas não são sinceras suas palavras) . LIS .Mas acreditar em que? FANDO .(Alegre) . FANDO .Eu acredito em você. não.(Refletindo) .Farei um esforço. . eu estou dizendo a verdade. Como você é. não.(Abatido) Não.

Eu acredito em você.(Muito sincera) .(Sem ainda conseguir) . porque quando fala.Eu acredito em você. eu não tenho que me lavar.Quantas? FANDO .Lis. LIS .(Violentíssimo) .(Também comovida) .Não.Eu acredito em você. LIS .(Violento) .Então.Quanto mais. o que você tem de fazer é lutar pela vida. não. FANDO .Isso não tem importância. FANDO . LIS . quero fazer muitas coisas por você.Como eu sou feliz! LIS . FANDO . Lis! Você acredita em mim! LIS . LIS . você parece um coelho e quando dorme comigo. melhor.Eu acredito em você. . resoluto) .Eu acredito em você. FANDO . pois isso me aborrece muito.(Reflete) .(Comovido) .Você acredita em mim. não é isso.LIS .E sobretudo porque pelas manhãs você me banha na fonte e. FANDO . você me deixa ficar com toda a coberta e fica sentindo frio.(Depois de uma pausa. assim.(Faz um esforço desesperado) .Assim também não. FANDO . LIS .

É assim que você pode fazer alguma coisa por mim.(Pensa) . Lis. FANDO .E você acha que isso nos ajudará? LIS . FANDO .Lutar pela vida? Que coisas você diz! (Pausa) .Mas você tem soluções para tudo.Temos que fazer um acordo.Não.Quase uma brincadeira. não sei se elas me serviriam para vencer. para mim também é difícil.Fazer um esforço? (Pausa) . LIS . (Muito sério) . o que interessa é que nos ajude. FANDO . ajudar em que? LIS .Para você tudo é muito simples. . FANDO . se eu tivesse forças. não teria forças.É que.Isso é muito difícil.Isso não vale. o que ocorre é que me iludo dizendo que as tenho encontrado. eu nunca encontro soluções. e inclusive. LIS .Fando.Não importa. LIS .Talvez assim seja mais simples. FANDO . FANDO . FANDO .Não. faça um esforço. não sei porque tenho que lutar pela vida e.Mas. LIS . LIS .FANDO . se eu soubesse o porque. talvez.Estou quase certa.

Todos estão muito atarefados buscando uma maneira de enganarem-se a si mesmos.(Comovido) . mas como ninguém me pergunta nada. FANDO .Já sei que não vale. quando você estava naqueles dias. FANDO . LIS . LIS . Não voltarei a fazer isso. FANDO .(Terníssimo) . Comprarei uma barca quando chegarmos a Tar e levarei você para ver um rio. não voltarei a fazer. você verá que não.Lembra-se de como você me pega quando pode. além do mais. muito pelo contrário.Fazia você chorar.Tanto faz. .Mas não me serve de nada. Você quer. FANDO .Não.Sim. muito. Lis? LIS . Não. é muito bonito. Lis.Uh! Que complicado! LIS . Mas e se alguém lhe perguntar alguma coisa? LIS .Como você é esperta. está certo. Ninguém pergunta nada. Lis! LIS . Lis.(Envergonhado) .Sim.Sim. você sempre me faz sofrer.É verdade. principalmente.LIS . Fando. Você me faz chorar. Eu não lhe faço sofrer. FANDO . é muito bonito. mas logo me atormenta o quanto pode e diz que vai me amarrar com uma corda para que eu não possa me mover. dá no mesmo. FANDO .Você sempre me diz que não voltará a fazer.

(Lis fala agora num tom muito humilde.Olhe as pedras.Eu estou dizendo que não tem flores.FANDO . LIS . Lis.Sim. LIS . me leva pra passear. (Pausa) .(Violento) . FANDO .(Gritando) .Como você é bom! FANDO . se torna mais autoritário e violento por momentos. Fando. Lis. Lis. como a do homem que levava uma mulher paralítica. LIS .Olhe.) FANDO . (Fando toma Lis nos braços e passeia com ela pela cena) . que pedras lindas! FANDO .Quer que eu lhe conte estórias bonitas.Olhe as flores.Sim. LIS .E eu sentirei todas as suas dores. Fando.Sim.Não tem flores.Primeiro. LIS . olhe as flores. a caminho de Tar. como são bonitos o campo e a estrada.Dá no mesmo. pelo contrário. como eu gosto! FANDO .Terei filhos como você também. FANDO . num carrinho? LIS . para que veja que eu não quero fazer você sofrer. Fando.Eu disse para olhar as flores! Será que não entende? .(Comovida) .

segura Lis por uma perna e a arrasta pela cena.Mas eu gostaria que você passeasse comigo no campo e me mostrasse as flores tão bonitas. Obrigada.(Soluça esforçando-se para que Fando não a ouça.(Irritado) . assim sou eu que levo você para passear.LIS . Fando. deixa Lis cair no chão. LIS . FANDO .) LIS .) LIS . sem nenhum cuidado. Já viu o bastante? LIS . me perdoa.(Quase chorando) .Como está bonito o campo com suas flores e suas árvorezinhas.(Bem docemente.Como sofro por ser paralítica! FANDO . visivelmente desgostoso. (Fando.Então. (Pausa) . não me queixo. (Longa pausa) .Você me machucou! FANDO . Sem dúvida sofre muito) .(Grita de dor) .Ou quer que eu a carregue até o carrinho? .Assim se diz: o campo com suas lindas árvores. com medo de desagradar Fando) .Você é muito pesada.(Docemente) .Não.Sim. (Fando. (Fando se cansa de carregar Lis nos braços ao mesmo tempo que se torna cada vez mais violento.Onde é que você está vendo árvores? LIS .. Muito obrigada.Você ainda se queixa.É bom que seja paralítica. Fando. (Pausa) FANDO .Ai Fando! (Imediatamente com doçura. agora está vendo as flores? O que mais queria ver? Heim? Diga.(Duramente) .) FANDO .. FANDO . sim.Sim. temendo desagradar Fando) . Fando.

devagar e temeroso. até chegar onde está Lis. não me abandone. Depois de alguns instantes.Sim. . (Grita) . se não for incômodo. LIS . vou me embora agora mesmo.(Chora) . me perdoe.Não. (Sai enfurecido.Qualquer dia eu lhe deixarei e irei para bem longe de você. Depois ele a senta comodamente. LIS . heim? Pois agora mesmo eu vou embora e não volto nunca mais.Pare de chorar.Eu tenho de fazer tudo pra você e ainda por cima você chora. Eu só tenho você no mundo. LIS . Fando.Então você continua chorando. LIS . (Fando arrasta Lis pela mão até deixá-la junto ao carrinho) FANDO .Você não faz nada mais que me amolar. FANDO .Eu nunca mais vou ser mau com você.(Muito chateado) . Se você continuar chorando. Fando toma Lis nos braços e a beija. FANDO . Fando entra de novo.) FANDO .Me perdoa. sempre. (Humilde. Ela se deixa levar sem dizer nada) FANDO .(Faz um esforço para não chorar) . sempre.(Visivelmente chateado) .Não estou chorando. eu já disse. continua chorando) FANDO . (Ela soluça) FANDO .LIS .Lis.E não chora.(Apesar de tentar impedi-lo. Fando.

(Fando empurra o carrinho que começa a cruzar lentamente a cena. se dirige para Lis e lhe acaricia o rosto com as duas mãos. Eu me lembro que quando eu estava no hospital. LIS . Você é sempre muito bom comigo.Há muito tempo que nós estamos tentando chegar a Tar e não conseguimos nada. Pausa) ..Vamos partir imediatamente. confio em você.Muito bem.Eu sei disso. para que eu pudesse me gabar que recebia cartas tão grandes. Fando pára de repente.LIS .. FANDO . olha para o fundo. Lis. LIS .Me diga o que é que você quer.. LIS . Lis. você verá como eu vou me portar bem de agora em diante. dentro dele. FANDO . (Fando toma Lis nos braços com muito cuidado e a coloca no carrinho) . FANDO .Sim.Sim. Fando! FANDO .Confia em mim. FANDO .Como você é bom. você me enviava cartas enormes. Lis. Nunca mais vou fazer isso. Fando. como você quiser. Eu não queria te fazer sofrer.Que nos coloquemos a caminho de Tar. LIS . LIS .(Envaidecido) .Sim.Vamos tentar outra vez..Eu peço perdão pelo que aconteceu.Isso não tem importância. . FANDO . Fando.

Black-Out) Fim do 1º quadro .Também me lembro que. FANDO .Isso não é nada. LIS . muitas vezes. FANDO .Como eu ficava contente! FANDO . eu confio.Eu já sei.Mas não chegaremos nunca.Sempre farei o que você mais goste. LIS .) LIS . FANDO . mas tentaremos. (Fando empurra o carrinho. como não tinha nada pra me contar. sai de cena. Fando.Você está vendo como tem que confiar em mim? LIS . empurrado por Fando.Então. vamos nos apressar para chegarmos a Tar.LIS .Sim. Lis.(Triste) . você me mandava um monte de papel higiênico para que a carta ficasse bem cheia. (O carrinho.

não se cale. Você está zangada comigo. (Suplicando) Deseja alguma coisa? Lis. diga alguma coisa. Eu sei o que é que você tem. tira Lis do carro e a coloca no chão.Como você é bonita.Lis. muito contente. Lis não faz o mínimo caso de Fando) . fale comigo.QUADRO II (Anoitece. Você gosta? (Silêncio) - . (Fando. Silêncio) .) .) . estou muito cansado. Pára. (Fando coloca as mãos sobre o rosto de Lis e a olha com entusiasmo) . Lis. Você está aborrecida? Quer que eu toque tambor para você? (Fando olha para Lis esperando uma resposta. me responde. vejo que você quer que eu toque tambor pra você. com muito cuidado. eu vou tocar a canção da pena. Lentamente.Você vai ficar melhor assim. depois continua muito contente) . (Fando continua falando num tom suplicante e lamentável) .Estou dizendo que estou muito cansado e que vou me sentar um pouco.Lis. Fale comigo. pega o tambor e coloca na altura do estômago) . Entra Fando entra em cena empurrando o carrinho no qual se encontra Lis. Ele a trata com muita atenção) .Bom.) FANDO . (Lis olha sacudindo a cabeça e inexpressiva. com muito cuidado. A corrente é bastante comprida. (Lis não responde) . Uma grossa corrente de ferro prende um dos pés de Lis ao carrinho.) . a muda de posição.Você quer alguma coisa? Me diga se você quer alguma coisa.Já sei: você quer mudar de posição. (Fando. Ela se deixa levar. Lis! (Fando a beija. Lis continua imóvel. Lis. Vou descansar um pouco. porque depois de tanto andar não avançamos e estamos no mesmo lugar de sempre. (Parece que Lis não ouve nada.Quer que eu lhe mude de posição? Você não está bem assim? (Lis não responde.O que você quer que eu toque? (Lis nada fala.Me diga alguma coisa.Claro.Fale comigo.) . vai ao carrinho. Fando vai falar num tom docemente desesperante. (Lis olha distraída.

A pena estava na cama E a cama estava na pena. (Pausa) . enquanto canta com uma voz desafinada a seguinte canção. Envergonhado) . lhe coloquei no carrinho e a estou levando.Como sei que você quer ir para Tar. vou fazer um esforço por você e vou tocar a canção da pena que você gosta tanto. Não me importam as dificuldades.(Quando termina. (Silêncio) . Como é que você quer continuar o caminho se não fala comigo? Estou cansado. diga alguma coisa. Fando muito entristecido vai até o carrinho para deixar o tambor. só quero fazer aquilo que possa lhe agradar.Como você quiser. Depois da inspeção.Gostou. eu posso me enganar. deixa o tambor junto ao carrinho. mesmo que seja uma bobagem. eu sei que você não tem nada do que me agradecer e inclusive pode estar zangada comigo. Antes disso. (Ele vai começar. Mais triste que nunca) .Ou prefere que eu toque a canção da pena? (Silêncio. Fando começa a tocar tambor de um modo muito sem jeito. Olha de soslaio para Lis. . (Ele vai começar a tocar o tambor. Lis não responde) . Formam um só bloco. não se esqueça de mim. Namur e Toso. Eles param longe de Lis e Fando para inspecionar o lugar sem dar a menos atenção a eles. Conte-me qualquer coisa. Lis. bastante minuciosa. mas não se decide. De repente. (Pausa.Eu sinto muito por não saber outra canção além da canção da pena.) Estou com vergonha.Às vezes você se cala e eu não sei o que o que está acontecendo com você. Lis. mas diga alguma coisa. Não sei se está com fome.Bem.Fale comigo. ou se quer flores ou se está com vontade urinar. (Pausa) . (Pausa) . Lis. Lis? (Lis não diz nada. pergunta a Lis) . Entram três homens: Mitaro. Desencorajado. ele olha para Lis. Diga-me alguma coisa. (Silêncio) Mas. Me sinto muito só. Namur anda entre seus dois amigos e segura um grande guarda-chuva preto que cobre os três.) . (Lis olha sem expressão. Claro. Lis. Fale comigo. Você sabe falar muito bem quando você quer.Eu vou te levar para Tar. retoma o tambor e toca de novo. mas vê que sua música não faz efeito nela. Lis. (bis) FANDO . fale comigo. mas pára. mas isso não é um motivo para não falar comigo.

não vou ser intransigente.(A Namur) .O mais importante. E tudo por sua maldita mania de não tomar precauções. MITARO .Isso não importa. . o importante é saber para onde ele vai. (Molha o dedo com cuspe e o levanta no ar) NAMUR .(Ofendido) . MITARO .Eu insisto em dizer que o importante é saber de onde vem o vento. TOSO . temos que saber de onde vem o vento. Não quero ser como Toso.Não. NAMUR . NAMUR .(A Mitaro) . podemos dormir aqui.Você é sempre tão tranquilo. MITARO . e deixemos em paz o vento.Se fossemos por ele.Sim. MITARO .O mais importante é saber de onde vem o vento.(Chateado) . já estaríamos todos mortos.da parte de Mitaro e Namur que chegam a cheirar o chão. é dormir. TOSO .Mas antes.Enfim.Vamos dormir debaixo do guarda-chuva. creio eu. O importante é saber para onde ele vai. Como você quiser.Mortos ou pior ainda. NAMUR . MITARO . De novo os três se reúnem debaixo do guarda-chuva) TOSO .(Corrigindo-o suavemente) .

TOSO .Pois é. ficamos de acordo que o importante é saber de onde vem o vento. (Depois de uma breve pausa. TOSO . colocarmo-nos a dormir.Então. isso. o que? TOSO . exatamente. MITARO . vocês podem dizer o que quiserem. não há nada mais simples. NAMUR ..É isso. nós veremos..Além do mais. por não tomar as mínimas precauções.(Com muita raiva) .Depois.O cavalheiro se cansa. E para onde vai depois de ter vindo.(Muito satisfeito) . E quanto tempo levaria para tomarmos as precauções? Praticamente um instante.. mas o que é realmente importante é se colocar a dormir o mais rápido possível.Para mim. o que? NAMUR . MITARO . MITARO .. saber de onde vem o vento.Isso. .(Interrompendo) . Que riscos evitaríamos com nossas preocupações? Infinitos. MITARO . NAMUR .Muito bem falado. por não prevenir.Nós veremos! Assim acontecem as piores catástrofes.(Conciliador) .Eu fico muito cansado tomando precauções. e depois. MITARO . é muito difícil.Agora ele vai nos dizer que não pode fazer o menor esforço. TOSO .Exatamente. continua num tom mais baixo) . E depois..MITARO .

NAMUR . MITARO .A única coisa que eu afirmo.Sim. E tomar as justas precauções é quase impossível. é muito grande. é que o esforço não dura pouco tempo.Estávamos simplesmente tomando as precauções para poder dormir tranquilamente..(Enfadado.Talvez ele tenha razão.TOSO . É um grande esforço. mas instantâneo. não o são para um observador planetário. quando em seguida Toso disse que o importante era dormir. . NAMUR .Mas nós nos afastamos do ponto central da questão que era saber de onde vem o vento.Não é um pequeno esforço. (Continua em tom mais baixo) . não sabendo o que responder.. se cala. NAMUR .. o esforço de prever é muito grande e muito complicado. MITARO . Para saber para onde ele vai. eu me lembro bem daquilo que você me disse outro dia de que dois fenômenos simultâneos para um observador terrestre.Não venha com as suas histórias. MITARO ..Que dura pouco tempo? Depende da maneira como você o observa. depois diz) . MITARO . agora.O cavalheiro vai ficar com hérnia. tenho que reconhecer.. Daí você deduzia que a simultaneidade era relativa e que em consequência o tempo também é algo relativo. Eu já disse que tudo isso não acredito nem um cabelo. um esforço que dura pouco tempo. MITARO . Tentávamos saber de onde vem o vento. NAMUR .Exatamente.

que atéagora você nos impediu de dormir com as suas extravagâncias e a sua falta de solidariedade em relação as nossas posturas. MITARO .Eu apenas disse que o importante era dormir debaixo do guarda-chuva o mais rápido possível.Que audácia! Você ainda se atreve reconhecer cinicamente. NAMUR . . eu cairia a cara de vergonha.Você está vendo que eu renunciei a minha primeira posição que sustentava que o importante era saber de onde vem o vento.(Interrompendo num tom indignado) .Exatamente. e diga-se de passagem.TOSO .. por sua culpa.(Procura sorrir para dissimular a sua cólera) . sem nos pedir perdão.Eu me permito assegurar que todo o mundo estará de acordo em reconhecer que o importante é saber para onde vai o vento. TOSO . MITARO . mas ao contrário. (Toso não diz nada) MITARO .Nem por um instante você parou para estudar com inteligência as nossas posições. mas incisivo) . como essa luz que me ilumina. E nós continuamos discutindo por culpa sua. para conseguir um acordo mais rápido que nos facilitasse dormir rapidamente.Sem querer lhe contradizer.. NAMUR .(Sorridente. você se afastou do nosso ponto de vista de uma maneira desconsiderada e destrutiva. que o importante é saber para onde vai o vento. No seu lugar. NAMUR .(Indignado) . Toso. NAMUR .Mas. demasiadamente. quero deixar bem claro que o importante é saber de onde vem o vento.Reconhece.

Vocês não estão me ouvindo? (Fando comprova que eles estão dormindo. se dirige a eles) FANDO .(Enquanto coloca o tambor em posição conveniente) . mas eu sei lindas canções como a canção da pena.(Para Lis. Ele volta tristemente para Lis) . um deles ronca) FANDO .Deixem-me discutir com vocês. Lis.(Envergonhado) . mas com a condição de que falem comigo.Eu também sei tocar tambor. (Fando vai buscar o seu tambor. (Silêncio. (Ele ri timidamente) Não muito bem. Com licença. (Pausa) . além do mais. Os homens do guarda-chuva dormem conscienciosamente. Como vocês falam bem! Deixam que eu discuta também? (Os três homens se olham muito chateadíssimos) FANDO . Ele continua um pouco envergonhado) . muito interessado.Eu vou tocar e cantar para vocês. debaixo do guarda-chuva e começam a dormir) FANDO . (Pausa. docemente) . (Vai até eles) . De lá (mostra o lugar onde estava antes) . Você sabe dizer coisas lindas. não querem me ouvir. Fale comigo. eu ia cantar a canção da pena.Desculpe.Eles não me deram a menor atenção.Ela não quer falar comigo e eu gostaria de contar muitas coisas a alguém. no limite do enfado. Tenho muitas coisas para dizer a eles e.Lis.era muito bonito ouvir como vocês discutem.(Humildemente) . Lis continua sem olhá-lo) FANDO . Estou só.(Fando que seguia a conversa dos homens de guarda-chuva. Eu posso ajudá-los se vocês falarem comigo. (Os três homens do guarda-chuva. Vocês vão ouvir o que é bom. (Lis continua em silêncio) .Eu sei fazer muitas coisas. se deitam no chão. você é melhor do que eles.

FANDO . ainda sem gritar) . vai até Lis e dá uma volta em torno dela cheio de tristeza. em silêncio e abatido. Por fim.Fale comigo.(Num tom de queixa. Lis. termina seu número. sustentando-se sobre uma perna. Black-Out . Fando executa uma série de exercícios que são uma mistura de ballet. Fim do 2º quadro.Olhe como é difícil. enquanto grita entusiasmado. fale comigo. Fando.) FANDO . Lis. enquanto que com a mão do mesmo braço ele faz caretas. olhe como é difícil! (Lis continua calada. colocando o polegar na ponta do nariz. Silêncio) FANDO . heim? (Lis continua em silêncio. palhaçadas e gestos de bêbado.Quer que eu faça uma exibição para lhe agradar? Vou fazer acrobacias. une o joelho da outra com o cotovelo.

MITARO . FANDO . FANDO – Sim.Ouvi dizer que é impossível chegar. O que acontece é que até hoje ninguém chegou e ninguém espera chegar. NAMUR . Você tem um carrinho. MITARO . o pior é que nunca tomamos precauções. é claro que eu ando mais depressa.QUADRO III (Os homens do guarda-chuva .Então. ela e eu não chegaremos nunca? MITARO . . MITARO – O que já não é tão complicado é tentá-lo.Mas isso não é o mais grave. Como teríamos adiantado se tivéssemos tomado precauções. no carrinho) NAMUR – Já levamos muitos anos tentando isso. A alguns metros deles está Lis. Assim pode andar melhor e mais depressa. NAMUR . Namur tem razão. mas sempre volto ao mesmo lugar. isso é o pior.Não.Conosco acontece o mesmo.conversam com Fando. FANDO .Namur. não é que seja impossível. Mitaro e Toso .Você está em melhores condições que nós.Sim.

que se a. simimi.Lá de longe.É o tédio..Para sermos exatos.TOSO - (Chateado) - Vocês continuam com histórias de precauções. Soava muito bem.” NAMUR . Toso. bonito.(Cortando) – Sim. Eu já disse que o importante é seguir nosso caminho. pensamos da mesma maneira ou tenhamos as mesmas idéias mas. FANDO . FANDO . .Não é que nós. somente ouvia a música. (Cantarolando) – “Patati. NAMUR . como era bonito! NAMUR . Namur e eu.. era muito bonito de ouvir. MITARO ..Sim..Oh. Ontem. Ele é o culpado por ainda não termos chegado a Tar. o mais triste.. sobre o vento e o dormir. mas não prestava atenção. sem ir mais longe. afinal. que se o.. soa bem.O pior. NAMUR .(Desolado) .. simimó. como vocês falavam bem. Que bonito devia ser. MITARO . MITARO . isso.É verdade. mas o que acontece? NAMUR .. ficava muito bem de longe. isso. o que nos impede chegar a Tar é ele.O senhor não ouvia o que dizíamos? FANDO . patatá. mas ele.(Irônico) – Sim. chegamos a um acordo.(Lembrando-se entusiasmado) ... MITARO – Sim. sempre em contradição.. sempre colocando-se contra nós. sim.

para lhe irritar. NAMUR .(Muito contente.Você disse que o canguru é pior? . o coelho. eu somente pergunto se o que ele (aponta para Mitaro) procura são animais melhores ou piores que o porco. o canguru.Não.Para que veja. NAMUR – Pior ainda que um porco. que existe melhor que um porco? NAMUR – Olha. um porco. Silêncio) FANDO . FANDO .O canguru? FANDO .Eu sei. fala precipitadamente) .O que é que o senhor disse? Que existe pior que um porco. E os melhores são a vaca. (Namur pensa.Você se dá conta de como sempre quer me insultar? (Pensa) . MITARO .(Depois de longa pausa) – Me esqueci.(Intervindo) . NAMUR . FANDO . eu me lembro muito bem do que perguntei. olha. Ele é. Os piores são o leão. NAMUR – (Recriminando-o) – Sempre tão esquecido e tão filantrópico! MITARO .MITARO .Não conseguimos evitá-lo: está sempre metendo discórdia em nossa unidade. a ovelha.(Chateado) .Sim. a barata. quer dizer que este tio é um perito em matéria de animais. a cabra e o gato. que foi quais são os animais piores que o porco e quais são os melhores. o papagaio e o canguru. sem dúvida.

.. . FANDO . NAMUR .Mas...(Desculpando-se) .É insuportável. então ele ataca com uma bobagem. NAMUR .O senhor é demasiado forte. certeza? FANDO . sim. Quando vamos nos por a caminho.. MITARO .(Satisfeito e ofendido) – O senhor está vendo? Sempre assim.Acho que o que teríamos que fazer é discutir menos e tentar chegar a Tar. certeza? FANDO . certeza.Você tem certeza? FANDO . MITARO – Mas você fez ele chorar como se fosse um homem que vai para Tar com uma mulher dentro de um carrinho..O senhor coloca as coisas de uma tal maneira que lança a dúvida no meu espírito.(Chorando) . TOSO .Tenho. NAMUR – Mas é que o tio não tem certeza de nada e se permite coisa que na verdade.(Reprovando a Namur) . NAMUR . certeza.FANDO .Mas eu chorei muito pouco: duas lágrimas. MITARO .(Obstinado) .Você fez ele chorar.(Cruel) .Mas. NAMUR . certeza.(Um pouco envergonhado) – Sim. quando estamos em vias de encontrar um acordo.(Abatido) .

(Silêncio) MITARO – O senhor sim é que é feliz com ela. parece ausente e se deixa levar sem o menor gesto) .Venha vê-la. o senhor não acha? FANDO – Sim. verdadeiramente. NAMUR .Que sorte! FANDO . FANDO – Sim.É assim que nos ajuda? Estamos tentando terminar a discussão com esse homem para caminhar em direção a Tar e o que é que você faz? Nos importuna.O senhor está vendo! É lamentável.Levaria muito tempo pra contar.(Repreendendo Toso) . com os olhos bem abertos. (Mitaro e Namur vão com Fando ver Lis que está no carrinho.Como você é destrutivo! Como é pouco social! MITARO .Uma eternidade. Lis. é verdade. por que viajam com ele? NAMUR .(Inflexível) – Deixemos de tanta discussão e vamos em direção a Tar. MITARO . Ela é encantadora. nos chateia dia e noite. MITARO . TOSO . MITARO .(A Fando) .FANDO – Então. ela não me incomoda em nada.

Experimentem. FANDO . enquanto diz:) – Olhem como ela é bonita! MITARO . (Fando arruma a combinação com muito cuidado) FANDO .É verdade.FANDO . (Mitaro acaricia o rosto de Lis com uma das mãos) FANDO . olham Lis.(Entusiasmo) . Seu rosto é muito suave.O que eu mais gosto é de beijá-la. com as duas mãos acaricia o rosto de Lis e as escorrega ternamente) – Venham. (Fando. (Mitaro e Namur tocam a combinação) MITARO . os senhores vão ver como é bonito.É verdade. . podem acariciála. MITARO – Agora? FANDO – Sim. em perspectiva. FANDO . ela é muito bonita. que pano suave.(Realmente satisfeito) .Venham aqui. Fando continua colocando-a em diferentes posições) FANDO . (Mitaro e Namur.Olhem suas coxas.Não.Olhem para ela. acariciem assim. de cócoras. (Os dois homens se aproximam do carrinho) – Olhem que pernas bonitas e como o pano da sua combinação é suave.Sim. vocês vão ver como é bom. com as duas mãos. como são brancas e como são bonitas.Abaixem-se para vê-la por baixo. Dá gosto acariciá-lo. Toquem-na. (Fando move a cabeça de Lis. tão brancas e tão suaves. (Fando levanta a combinação de Lis para que os homens vejam suas coxas) MITARO . colocando-a em diversos ângulos.

. MITARO . nunca se cansa? TOSO . com muito respeito a acaricia) FANDO .(Interrompendo-os) .Ótimo. vão ver como é bom.(Depois de uma pausa) – O senhor está vendo como ele é? FANDO . (Fando beija rapidamente Lis na boca) – Façam isso.Então. (Namur e Mitaro beijam Lis. NAMUR .Sim.(Muito satisfeito) . como eu.(Entusiasmado) . o que acha? MITARO .Quando é que vamos nos pôr a caminho para Tar? MITARO . para sempre.(Mitaro. gostou? MITARO E NAMUR – Sim.Nunca nos deixa terminar. nos lábios. Lis continua inexpressiva) – Então. muito.Sim. FANDO – Você também. com muito respeito. MITARO – E. FANDO .Para sempre? FANDO .Pois é minha noiva. (Apontando Namur) (Namur a acaricia) FANDO – Beijem-na também.

É preciso reconhecer que não vai falar por falar. sempre as aceitamos e as discutimos e. é inútil.. TOSO – O que eu creio é que devemos nos pôr a caminho para Tar. se olharmos bem de perto. o que se diz razão.Não adianta ensinar nada para ele. ele tem alguma razão.(Indulgente) . MITARO . não muita..Distantissíssima. mas alguma coisa sim. muito distante.Desculpe todas as suas falhas. apesar de acharmos suas proposições absurdas e dissolúveis. NAMUR .TOSO . Quando vamos fazer alguma coisa. ainda que muito distante. Ele é assim e nasceu assim. MITARO . sim. Ele nunca nos deixa entrar em acordo. às vezes.Razão.Mas talvez ele tenha razão nisso de que o bom é nos por a caminho. NAMUR – Isso é. mas ao menos sempre encontramos uma base. inclusive. . naturalmente. MITARO .Talvez seja o maior inconveniente para nós. nos esforçamos em lhe mostrar os pontos bons e os pontos maus daquilo que ele diz. Contra isso não há nada a fazer. ele sempre tem um pouco. MITARO – Sim.O que estou dizendo é que devemos nos pôr a caminho para Tar o quanto antes. NAMUR . Por isso. na mesma hora ele começa a nos perturbar com suas complicações. Eu vou explicar: nós sempre encontramos uma base de razão em tudo o que ele diz. FANDO . NAMUR .

MITARO .Não estou dizendo que não faça falta tomar as devidas precauções.. FANDO ..É simples se calar? MITARO .Ah! Que homem interessante! Quantas coisas ele fez! MITARO ..(Continua) . estou vendo. e não pense o senhor que o caminho é de rosas! NAMUR . . quando o senhor tentou? FANDO . sim.Seria tão simples que ele se calasse.(Também satisfeito) – O senhor se dá conta? FANDO – Sim.. FANDO .Foi divertido. então.Pois eu tentei um dia. FANDO . NAMUR . repete em voz alta) – Se levantou pela manhã e disse a si mesmo: “Hoje passarei todo o dia calado”. pode-se ficar calado.(Corando) . conte-nos! Ah! Que interessante! NAMUR – Como foi? O que fez? FANDO – Eu me levantei pela manhã e me disse: “Hoje passarei todo o dia calado”.NAMUR . e inclusive ter experiência. MITARO – Conte-nos.E.(Muito satisfeito) – O senhor está vendo? MITARO .E o que aconteceu. mas se se tenta de verdade.(Procurando compreender.

a história acaba mal. NAMUR .. FANDO . comecei a pensar no que poderia fazer para compensar o silêncio e me pus a andar de um lado para o outro. Mas logo aconteceu o pior.O senhor devia estar muito contente.. NAMUR . (Fando se cala) NAMUR .(Interrompendo de novo) .(A ponto de chorar) – Sim. Se o senhor nos disse que tentava passar o dia calado. decidido a não falar. Eu andava e andava. MITARO – Continue.Há uma coisa que não entendo bem.Então. muito mal.No princípio. sim.NAMUR . não vou contar.Ah! Isso muda tudo. sim. com o mel nos lábios? FANDO . NAMUR .Não. conte.Não seja estúpido.É melhor que eu me cale agora. NAMUR .Mas muito mal? FANDO .O que aconteceu? MITARO . ele falou mentalmente. NAMUR . FANDO . como é que falou? MITARO . é muito íntimo.Que pena! . FANDO .(Muito interessado) . continue que isso é muito interessante.E vai nos deixar assim.Conte.

Desde que começaram a discussão sobre o vento que eu me dei conta. Outro dia nos encontramos com outro homem que também ia para Tar e que se empenhava em dar-lhe razão o tempo todo.E como é que o senhor compreendeu tão rápido? FANDO – Eu me disse. NAMUR .(Silêncio e consternação) . NAMUR . FANDO .Eu logo me dei conta de que eram os senhores que tinham razão e não ele.É o que mais gosto no senhor.Mentalmente? MITARO . verdadeiramente. Porque às vezes.(Entusiasmado) – Pois é um bom procedimento para saber quem tem razão.. homem! NAMUR .Então eu me disse: terá razão o primeiro que disser a palavra “onde” e como os senhores a disseram antes dele. .O senhor está vendo? Para que insistir? FANDO – Sim. nem isso.MITARO ..É verdade! Como é triste! TOSO – Melhor será nos pôr a caminho para Tar.(Interrompendo) . soube que ele não tinha razão. MITARO . O senhor nos compreende.(Assombrado) – Olha cara! Ele fala mentalmente! FANDO . MITARO . sim. MITARO .Claro.

NAMUR – E. FANDO . Apesar de às vezes empregar outros sistemas.Quase sempre. é muito bom. sempre o emprega? FANDO . o senhor deve ter muita experiência. claro.Outro que também tenho empregado é o dos dias da semana. NAMUR . mas é muito complicado.Outros sistemas? FANDO .Sim.FANDO – Sim.(Lisonjeado) – Pois claro! NAMUR . MITARO .(Magoado) – Sim. MITARO . NAMUR .(Interessado) . FANDO .Isso é o que deveríamos ter feito e não perder tempo como temos perdido. MITARO – Já não é hora de se lamentar. não me falta.(No cúmulo do assombro) .Que cara fecundo! MITARO .Desde a infância eu utilizo sistemas infalíveis para reconhecê-la. (Pausa) – E que outros procedimentos o senhor utiliza para saber quem tem a razão? FANDO .Que preocupação em saber aonde está a razão.Assim.Como é? . NAMUR .

(Satisfeito) – Sim.Eu previ tudo.Então.(Alarmado) – Muito grave! FANDO . MITARO – Se compreende que o senhor prefira o sistema atual. FANDO . NAMUR .É assim: nos dias múltiplos de três.(Entusiasmado) . Se em cinco minutos. sim. sem dúvida é um sistema perfeito. nos dias pares têm razão as mães e. Foi assim que alguns dias eu dei razão quem não tinha.Mas é muito complicado: tem que se estar sempre atento ao dia que é e ter bastante cuidado para não se confundir. têm razão os senhores de idade. MITARO .(Assombrado) – Como o senhor prevê tudo! .Mais simples? E se ninguém disser a palavra “onde”? FANDO . é mais simples. nos dias terminados em zero.E se ninguém disser a palavra “mosca”. ninguém tem razão.Perfeito! FANDO . FANDO – Acontece que. MITARO . NAMUR .(Com assombro) . MITARO . ninguém disser a palavra “onde”.FANDO .Gravíssimo! Muitas vezes. MITARO . dou razão ao primeiro que disser a palavra “mosca”. isso impedia que me crescessem as unhas. eu troco pela palavra “árvore”.Mas é muito bom! FANDO . olhando bem.

Namur se envergonha) NAMUR . fica melhor assim. não posso me queixar.(Muito satisfeito) .(Odioso) . NAMUR . que quantidade de previsões! FANDO . MITARO . Silêncio.Mas eu sei que se ninguém disser a palavra “água”.Eu prefiro sempre fazer uma coisa completa. não perguntei nada.Então.(No cúmulo do assombro) – Caramba.E se ninguém disser a palavra “árvore”? FANDO . MITARO – (Ofendidíssimo) – Você é teimoso que nem Toso. apesar de ser mais difícil no começo. NAMUR .FANDO .E se ninguém disser a palavra “água”? (Fando e Mitaro olham Namur com rancor.(Aturdido) . . mas parece que você tem uma implicância com ele. eu dou razão ao primeiro que disser a palavra “água”. Eu não quero ofendê-lo. NAMUR . está bem. Com o tempo.(Baixo) . NAMUR . MITARO – (Magoado) – Não somente ofendê-lo.Sim. estará afundado todo o sistema.(Lisonjeado) .Está bem.Eu só pergunto o que acontece se ninguém disser a palavra “água”. MITARO – Assim é melhor.

está vendo? TOSO . NAMUR .Você me envergonha..Não.Quando vamos nos pôr a caminho para Tar? (Silêncio.Então. “palavra”! NAMUR . NAMUR .que disser a palavra. com os senhores.A verdade é que eu não experimentei ainda. que venha. Namur. o senhor acabou de inventar. nos diga uma coisa: quando fez essa experiência? FANDO .Sim. FANDO . qual é sua opinião? MITARO – (Com desprezo) – Bom.Está vendo.Conosco? FANDO . NAMUR . impressionados com a pergunta de Toso) MITARO – É verdade. não é verdade. Os três se olham.(A Mitaro) . (A Mitaro) – Você. eu não acabei de inventar. devíamos nos pôr a caminho... Tenho tudo previsto..(Interrompendo) . com suas incorreções.Não sei.Isso não vale. FANDO – Me deixam ir com os senhores? NAMUR ..(Envergonhado) . . a palavra. MITARO .FANDO – Não tem importância. Se ninguém disser a palavra “água” eu dou razão ao primeiro que disser (dúvida) que disser (pensa) . É preciso saber se os três estamos de acordo.

(Falando quase no ouvido de Mitaro.NAMUR . apesar do sorriso forçado) – Bem. Mitaro. sim. o que quero é que nos ponhamos a caminho de uma vez. É muita responsabilidade. mas sorridente) . Para mim tanto faz se vamos com esse senhor ou sem ele.Bem.(Quase tendo uma congestão) – Cuidado que ele vai nos ouvir. MITARO – Bom.Assim.Quantas vezes tenho de lhe repetir? NAMUR . Nada mais e nada menos que uma mulher e um carrinho. NAMUR . acontece que estamos todos de acordo. Não podemos nos permitir tamanha companhia. (Fando começa a assobiar para que eles entendam que ele não está ouvindo) .(Contrariado. (Para Toso) . FANDO – Onde? . está de acordo que ele venha conosco? MITARO . e daí? Dá no mesmo. O senhor pode vir conosco. então você. para que Fando não o ouça) – Temos que levar em conta que ele vem com uma mulher e um carrinho.(Chateado) .(Continua falando ao ouvido de Mitaro) – Dá no mesmo! Dá no mesmo! É o que você diz agora! Depois não venha me dizer que não o avisei. Você percebe a responsabilidade que pesará sobre nós? Você se dá conta da quantidade de precauções que teremos que tomar? MITARO – Sim. para que Fando ouça. NAMUR . e daí? NAMUR . bem. (Falando alto. com um visível mau humor. Toso? TOSO – Eu.Você pensou bem em tudo que nos pode acontecer? Pense bem.E você.

. FANDO – Eu não ouvi que ninguém tenha chegado. (Os três homens se abrigam em bloco debaixo do guarda-chuva. apesar de que quase todo mundo tenha tentado. NAMUR – O senhor está vendo? Tentará sempre.Nós vamos nos pôr a caminho.. Isso demonstra o importante que é.Isso ninguém sabe. Fando coloca Lis confortavelmente no carrinho) FANDO – E quando chegaremos? NAMUR . NAMUR – E o senhor poderia deixar de tentar chegar a Tar? FANDO – (Envergonhado) – Não. bem! MITARO .NAMUR – O senhor ainda pergunta onde? A Tar. NAMUR – Tagarelices! . FANDO – Ah. para que temos que ir a Tar? NAMUR – Que pergunta! FANDO – É que é tão importante assim? NAMUR – Mas este homem nos saiu completamente tonto do cu! FANDO – (Desculpando-se) – É que eu não sabia. Onde o senhor queria ir? FANDO – Mas.

NAMUR – Verdade é que ninguém ainda chegou a Tar.. MITARO – Mas sempre fica a esperança. (Os três homens debaixo do guarda-chuva começam a andar para sair de cena. Mas são certas. Fando os segue empurrando o carrinho onde está Lis. Black-Out) Fim do 3º Quadro .MITARO – Sim.. sim.) FANDO – Eu também ouvi que é impossível chegar. tagarelices. (Todos saem lentamente.

.Me tira do carrinho. LIS .Não sei. Lis? LIS .Mas eu me sento muito mal.Onde é que dói? LIS .O que há você? LIS . FANDO . FANDO .Estou doente. tudo mudaria.(Com muita tristeza) – Você não vai morrer.Que doença você tem? LIS .O que quer que eu faça. Fando pára) FANDO .QUADRO IV (Fando entra em cena empurrando o carrinho em que está Lis. Lis tem uma comprida corrente de ferro que prende seu calcanhar ao carrinho) FANDO .Não sei. FANDO – Isso é o pior. FANDO . se eu soubesse que doença você tem. (Fando segura Lis com muito cuidado e a desce do carrinho.

(Contente) .. não vou algemar você. Lis. Me sento muito mal.Você correu muito. Fando..E no entanto nós saímos na mesma hora. FANDO .Não. O importante é que nós levamos vantagem em relação a eles.LIS – Tenho um mal-estar muito grande.Que pena que os homens do guarda-chuva não estejam aqui. FANDO . FANDO . LIS . mas eu tenho o carrinho. Eu já lhe disse isso. Essa rapidez não me fez bem. andou muito depressa.Como você é pessimista. LIS – Mas outra vez voltamos ao mesmo lugar.É verdade. me perdoa. FANDO – É verdade. como se não bastasse a corrente. Eles sabem muitas coisas. você andou muito depressa. LIS . (Pausa) LIS .(Envergonhado) . FANDO . (Pausa) . estou em grande vantagem. LIS – Mas eles devem estar ainda muito longe. Não adiantamos nada.Você sempre me pede perdão. Na certa eles curariam você. mas nunca me leva em consideração. como eu sou mau com você.E ainda por cima você sempre diz que vai me algemar as mãos. FANDO – Sim.

Eu sempre lhe digo tudo. mas você nunca me ouve. Lis.eu sei que sou culpado.Você me atormenta. LIS . FANDO . Fando. Quantas vezes eu disse que não podia suportar o mal que você me fazia! FANDO .Depois entrou numa de me amarrar com a corrente que me impede de afastar do carrinho. .Não são brincadeiras.Lis. me beija! LIS . não fique zangada comigo. LIS .Você pensa que assim tudo se ajeita arranja? FANDO . FANDO . Você devia ter me avisado.Não pense que assm se ajeita tudo. Eu prometo.Eu não sabia que lhe maltratava.É verdade. Eu não voltarei a lhe amarrar na cama a lhe bater com a correia.(Com resignação) .Você nunca me considera. Lembra-se de como às vezes. você me amarrava na cama e me batia com a correia?! FANDO .Em quem vou dar um beijinho na boquinha? LIS . Continua contente) . LIS – Mas eu dizia sempre. LIS . (Abatido. antes de eu ficar paralítica.Lis. apenas posso me arrastar. mas não brigue comigo que vou ficar muito triste. FANDO . não brigue comigo. me perdoe.Lis.LIS . Lis. Silêncio.

LIS . Lis. LIS . Mas os homens a olhavam e ficaram muito felizes e é claro depois deviam ter continuado o caminho com mais alegria.Fando.É que as vezes você é estranha e não percebe que tudo o que eu faço é para o seu bem.Mas eu nunca mais vou fazer isso. FANDO .Eu estava do seu lado. Ele se lembra) . (Lis. FANDO . FANDO . Lis. (Silêncio) LIS ..Me beija.Pobre. permite que Fando.Fazia muito frio. apaixonadamente. a beije) . eu estou muito mal. Era um espetáculo maravilhoso. Lis. . Lis. LIS . Você não me viu? Além do mais.Esqueça todas estas coisas e não me faça pensar nelas.O mais entediado é sempre pra mim. Que pena que você não tenha os meus olhos para ver a si mesma. Eu estava tremendo.Você sempre diz isso. FANDO .Mas eu fiz isso para a vissem os homens que passassem: para que todo mundo visse como você é bonita. (Pausa.Ontem você inventou de me deixar nua toda a noite na estrada e sem dúvida é por isso que eu estou doente.Você estava muito bonita toda nua. muitos homens a acariciaram quando lhes pedi..Não.Eu me sentia muito só e com muito frio. Me sinto muito mal. estou vendo que você não gosta. LIS .FANDO . LIS . FANDO . muito séria e sem expressão. (Pausa) .

O que é que você tem no bolso? (Fando como uma criança apanhada fazendo uma bobagem. não.O que eu quero é que você me trate sempre bem.Uma coisa. vou fazer.Me mostra o que você está escondendo! FANDO . LIS .) LIS .Está bem.Não é nada demais.FANDO . É só pra brincar. .Sim.O que quer que eu faça por você. (Pausa. LIS .Está vendo? As algemas! FANDO . Lis? LIS .Mas faça um esforço.Não.(Autoritária) . Lis. LIS . FANDO . Lis percebe um volume na calça de Fando.Agora não há mais remédio.Eu já disse pra me mostrar! (Fando tira do bolso. FANDO . algemas de ferro) LIS . (Pausa) . lhe tratarei bem. procura disfarçar) FANDO .Me diz o que é. LIS .Mas não é pra fazer nada de mal. FANDO . envergonhado.

jogue fora! FANDO .(Comovido) . isso mesmo.Vê como me trata. Lis. para Tar. as formiguinhas. os escaravelhos. me abraça.Não me deixe.(Quase chorando) .Lis. para colocá-las. Lis.É.. LIS .Estou me sentindo muito mal. LIS . (Lis o abraça apaixonadamente) LIS . os sapos.E vamos continuar caminhando para Tar. . Não chore. (Eles se abraçam com paixão) . Não me trate tão mal.Sim. FANDO . muito. eu amo você.Não. FANDO .(Agressivo) . as borboletas.Me aperte nos braça.Não! (Torna a guardá-las) LIS . seremos felizes. LIS . Fando.Então..LIS .Você já vai ficar boa e então nos poremos a caminho para Tar e nós passaremos muito bem e eu te darei de presente todos os animais da terra para que você brinque com eles: as baratas. FANDO . eu não vou colocar em você.Como eu sou mau com você! Mas agora você vai ver como é que eu vou ser bom. Fando. FANDO . Lis. LIS . não chore. Fando. Só tenho a você. FANDO .Está vendo? Você está apenas esperando um descuido meu.(Muito comovido) . E cantaremos juntos e eu tocarei tambor todos os dias.

.Os dois juntos. como seremos felizes! Eu inventarei novas canções para você. .. LIS . eu só o tenho para cantar canções para você.. é verdade que é redondinho.Olhe o tambor.. os dois juntos.Como você é bom. LIS . Outras que não só fale das penas.. então seremos felizes. Eles se olham mutuamente) FANDO .Ah. LIS – Sim.(Lisonjeado) . Tudo farei por você... penas de águia e também.Como você é bom! FANDO . porque amo muito você. não tem importância! Inventarei outras coisas muito melhores. (reflete) – de penas de pássaros e também. sim.Olhe como é redondinho. e também de. (Fando vai até o carrinho e desamarra o tambor com muito cuidado. Fando! Como me trata bem! FANDO .E quando chegarmos a Tar. com muito respeito. Lis. LIS .Sim. mas não acha nada) . ( reflete. LIS . FANDO .Como é bonito! FANDO . mas também de. sim.. Depois.FANDO . FANDO .A canção da pena é muito bonita.. ele o mostra a Lis) FANDO .Pois bem.. Lis. (Pausa.Sim.Quando chegarmos a Tar.. LIS .

e também penas.Por que você acha que vou lhe fazer sofrer? LIS – (Suave) – Não me fale nesse tom. de.Não me faça sofrer. se levanta e responde) . (Ela soluça) FANDO . e também de penas e também de. mas me ponha asalgemas. LIS .O que é que você está pretendendo? FANDO .(Se esforça para não chorar) .(Com aspereza) . . Não faça isso.Que lindas canções! Como você é bom.E também mercados de penas.Sim. LIS .(Duramente) . LIS . Fando tira de repente as algemas do bolso e olha para elas nervosamente) LIS .Não chora.. LIS . FANDO – (Contente) ..Eu falo com você sempre no mesmo tom. LIS – Se está querendo fazer alguma maldade.(Violentamente) .(Humilde) . Fando! (Pausa.(Entediado.LIS .(Violento) .Nada. FANDO . FANDO .Lá vem você com as suas coisas. você vai ver.. não vou chorar. ah. Fando.Sei muito bem que você quer me colocar as algemas.Não. sim.. FANDO . Fando.

LIS . LIS .Me dê as mãos. .Você sempre desconfia de mim. FANDO .(Com doçura) .Não posso. não me faça sofrer. não desconfio de você.Não me bata. Não me ponha as algemas. ou será pior para você. (Fando dá alguns passos entre o carrinho e Lis. (Muito triste) . (Lis tenta se arrastar. Ela chora) FANDO .(Docemente) . Vá.(Fora de si) . Vá. Fando.(Irritado) . não me bata.Tente. FANDO .Não. (Muito sincera ela continua) .Fando. LIS . LIS .FANDO .Eu já lhe disse pra tentar.Não. (Lis estende as mãos. não faça isso. Fando. se arraste.Fando.(Autoritário) . tente se arrastar. Fando. FANDO .Eu não posso. FANDO .Eu coloquei para ver se você pode se arrastar com elas.Tente. suas mãos unidas pelas algemas a impedem) LIS .Acredito em você. eu já disse. Fando coloca as algemas nervosamente) FANDO – Assim é melhor. LIS .Fando. LIS .Tente. mas não consegue. Fando. FANDO .

Sobretudo. LIS .Tente. FANDO . . FANDO . Fando a contempla palpitante de emoção) LIS .Tente ou vou lhe bater.(Irritado) .Fando. LIS .Mais.Não me bata mais.Arraste-se.Arraste-se. mais. Fando. não me bata com a correia. Me deixa. FANDO .Não posso. Estou doente. LIS .Não me bata. LIS . (Fando açoita em Lis com violência) FANDO .Não posso.. LIS .Tente outra vez. Não me faça sofrer. não me bata.Não posso mais. (Lis faz um esforço supremo e consegue se arrastar.Não posso. ou será pior para você. FANDO . FANDO .Tente.(Lis faz um grande esforço sem conseguir se arrastar. (Fando vai ao carrinho e pega a correia) FANDO .) LIS . Fando.

Que necessidade você tem em contradizer? TOSO . dando voltas em torno dela.(Colérico) . Fando trabalha. (Fando a açoita. não os vê e eles também não percebem Fando) MITARO . Num falso movimento. Eles a observam com muita atenção. Nem Fando.(Levanta as mãos de Lis para ver bem as algemas) . irritado. NAMUR . Fando. Entram os três homens do guarda-chuva.Isso é que é estranho. Lis se arrasta com dificuldade. esbarra suas mãos amarradas no tambor e rasgam o couro) FANDO .(Fando volta a açoitá-la.São algemas. NAMUR .Olhe o que ela tem nas mãos. MITARO – É bonito.Ela tem sangue na boca. Tira e cheira) . distante dela. Lis. Mitaro coloca o seu dedo na boca de Lis. começa a consertá-lo. (Namur segura os lábios de Lis com os dedos como se fossem pinças e lhe abre a boca. Aproximam-se da mulher.(Interrompendo e num tom neutro) .Você rasgou o meu tambor. pega o tambor e. absorvido endireitando o tambor. Ela cai desmaiada cuspindo sangue pela boca. não é verdade? NAMUR – Não muito. MITARO . (Mitaro e Namur olham atentamente a boca de Lis) MITARO – Pois é verdade. está no meio da cena. Longo silêncio. deitada e inerte com as mãos amarradas sobre o peito. Você rasgou o meu tambor.

Agora olham os joelhos com atenção) MITARO .Olhe a covinha aqui.MITARO – Cheira a sangue.Tudo isso é muito estranho.Olhe como a íngua dela é bonita! Como é macia! NAMUR . NAMUR . (Mitaro e Namur param de mexer na boca de Lis. MITARO .Como todos. (Mitaro segura a língua de Lis e a estica com os dedos) MITARO . TOSO .(Num tom frio) .Que joelhos! NAMUR . MITARO .Está morta. MITARO – Vamos ver? . Como são duros! NAMUR . com a orelha colada no peito de Lis. porque não se ouve o coração.As línguas são sempre assim.Lá vem você com as suas. (Namur toca a covinha enquanto Toso.Os dentes são sempre duros.(Friamente) . (Mitaro passa os dedos pelos joelhos de Lis) MITARO .Olhe que dentes pequenos ela tem.Você sempre tem de dizer alguma coisa. (Mitaro toca com os dedos os dentes de Lis) MITARO .Está morta. escuta atentamente) TOSO .

Sem dúvida. NAMUR .Pois é verdade.) Fim do 4º Quadro . A cabeça de Lis. Lis está morta. Fando está a ponto de chorar. é provável que ele chore. Apesar de não se ouvir nada. não se ouve o coração. (Fando vai até Lis. incorporando-a. Black-Out. Fando não diz nada. Ele trabalha energicamente para costurar o tambor rasgado) NAMUR .Lis está morta? NAMUR .Então. FANDO . A abraça.(Aturdido) . MITARO . tiram o chapéu.TOSO – Além do mais.Você sabe. ele apoia sua fronte contra a barriga de Lis. De repente. de pé e sérios.Sim. não respira.(A Fando) . A olha com respeito e se aproxima dela com uma grande tristeza. MITARO . (Namur e Mitaro vão até Fando.É preciso dizer isso a Fando. (Namur apoia sua orelha no peito de Lis) NAMUR . Os três homens do guarda-chuva.Claro. ela está morta? TOSO . cai. Fando recoloca a cabeça de Lis no chão com muito cuidado. inerte para trás.

. como aquela da pena e que ele tocaria tambor para ela. os três homens do guarda-chuva) MITARO – Ele a havia prometido que quando ela morresse ele iria vê-la no cemitério com uma flor e um cachorro. Eu me lembro que ele disse que ouvira dizer que era muito difícil chegar a Tar. mas que tentaria. Depois aconteceu que entre os dois homens e ela mataram o homem dos bilhetes para poder pagar o aluguel do triciclo. pois mais tarde disse para ela que quando chegassem. os levaram. NAMUR .QUADRO V (Em cena.Não. Ele disse que não era nada demais e guardou-as. e então foi quando eles se abraçaram. NAMUR . apesar de não terem feito com má intenção.É.Não. e que então o seu amigo lhe disse que seria melhor se ela pensasse em anedotas e que ele respondeu que não sabia. ele ia compor muitas canções lindas. MITARO . O que aconteceu é que ela havia dito que queria se suicidar e ele disse que era o melhor que ela podia fazer. E então eles foram comprar sanduiches de anchova e pagar o aluguel. não é isso. a que estou falando é a história do homem que levava num carrinho a mulher paralítica para Tar.. eu me lembro que um deles passava o tempo todo dormindo e que ele dizia que não queria pensar porque era muito cansativo. mas vieram os guardas e..Mas isso é uma outra história. Então ela se zangou e disse que. .. (Pensando) . foi aí que ela descobriu que ele levava as algemas no bolso para colocar nela.

apesar do diretor da penitenciária ter dito que não lhe escrevesse .MITARO . Além do mais. O que aconteceu foi que logo chegou um guarda ao que era muito difícil de entender e disse ao velho da flauta disse que não o entendia porque era tonto do cu. NAMUR .Não. você esquece de tudo e tudo confunde.Não. claro que podiam. claro. (Pausa). (Retificando) – Mas antes aconteceu toda aquela discussão dos homens do guarda-chuva sobre se havia ou não que tomar precauções. Mas. o que aconteceu é que ela e ele começaram a brincar de pensar.O que aconteceu é que ele vivia com sua mãe e ela queria que ele saísse de sua casa e para isso lhe dava muito mal de comer: ervilhas com água e um ovo duro para jantar. Então. MITARO . até torná-lo louco. depois. ele pensava muito mal e quando ela ensinou a ele a postura que devia se colocar para pensar.Mas. E foi logo depois quando entraram aqueles dois homens que um tocava harmônio e o outro a máquina de escrever. Mas como ele não sabia ficar numa boa posição. todas as culpas caíram sobre ele. Ele ficou doente dos gânglios e sua mãe continuou sem lhe dar boa comida.Ah. ele lhe contou como sua mãe havia maltratado o seu pai que estava no cárcere. porque quando disse a seu irmão o que fazia sua mãe. NAMUR . TOSO . me lembro. seu irmão não só acreditou como também o considerou um filho mal-agradecido por dizer essas coisas de sua mãe. você muda tudo. sim. ele só conseguiu pensar em morrer. eles estavam no cemitério de ônibus. MITARO . E tinham uma vida muito triste porque eles não podiam trocar de instrumentos.Mas isso foi mais tarde. Por isso ficou tuberculoso. depois chegou o homem inteligente e os fez ver tudo o que sabia e eles ficaram apatetados. nada disso. não. e ele se entediou muito.

. de mais a mais. (Namur e Mitaro seguiram as palavras de Toso. nem mesmo com o rabo.Não se pode com ele. era antes. MITARO – Não devemos lhe dar atenção nunca mais. isso mesmo.(Interrompendo-o) . NAMUR . porque dizia que nada estava claro e que o que havia pensado até aquele momento não era tão certo como se pensava.Você se dá conta de como sempre nos perturba? (Toso se cala) NAMUR . O que eu contava é como a garota ficou muito triste quando viu que ele não sabia fazer o burrinho. (Pensando) . estavam preocupados porque ela tinha dito que se ele achasse o plano .Onde é que estávamos? MITARO . E isto começou a lhe atormentar. ficou triste. como se ele não existisse. não.cartas assim. acabou que o filho não sabia realmente se sua mãe era ou não culpada de sua enfermidade e da loucura de seu pai.Mas o que aconteceu foi que ela levantou as saias para atrair o homem dos bilhetes e então o homem se aproximou deles e o mataram. manifestando claramente seu aborrecimento) NAMUR .Sim. NAMUR . Depois.. MITARO .E tudo isso o que tem a ver? MITARO .Eu estava dizendo que ele tinha prometido ir vê-la no cemitério com uma flor e um cachorro. o que aconteceu é que eles não sabiam nenhum método para classificar tudo e que.Não. NAMUR .Não. homem.

a venda deste e-book ou até mesmo a sua troca por qualquer contraprestação é totalmente condenável em qualquer circunstância. Esta obra é distribuída Gratuitamente pela Equipe Digital Source e Viciados em Livros para proporcionar o benefício de sua leitura àqueles que não podem comprá-la ou àqueles que necessitam de meios eletrônicos para ler. eles param e tiram os chapéus. Os homens do guarda-chuva se calam e o seguem com os olhos. Black-Out. portanto distribua este livro livremente. Dessa forma.Vamos acompanhá-lo. Imediatamente continuam andando. MITARO . sem parar e lentamente. pois assim você estará incentivando o autor e a publicação de novas obras.Sim. Talvez ele esteja cansado. os quatro.) Fim do 5º e último Quadro Cai o pano. sem se importar com nada. enquanto ele atravessa a cena sem nada dizer. No meio do palco. Após sua leitura considere seriamente a possibilidade de adquirir o original. (Os três homens sob o guarda-chuva começam a andar atrás de Fando. é o que parece.ruim ela diria.) NAMUR . Depois nós vamos nos pôr a caminho.É. todos juntos.E quando é que vamos para Tar? NAMUR – Primeiro que acompanhá-lo. MITARO . Se quiser outros títulos nos procure : . Saem. TOSO . A generosidade e a humildade é a marca da distribuição. (Entra Fando com uma flor e um cachorro amarrado numa corda de esparto. E foi então que ele achou que o melhor era avaliar tudo.

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