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Encruzilhadas narrativas: corpo, poder e sexualidade em Sade

Daniel Wanderson Ferreira 1

Em 8 de julho de 1787, depois de quinze dias de trabalho, o Marquês de Sade terminou um de seus romances intitulado “Os infortúnios da virtude”. Por razões que me são desconhecidas, o manuscrito não ganhou publicação e perdeu-se junto com os demais documentos da Bastilha até que em 1930 o texto foi publicado por Maurice Heine. O dilema das irmãs Justine e Juliette recebereu então novos contornos. No final do século XVIII, dois outros livros, “Justine ou os infortúnios da virtude”, de 1791, e “A nova Justine”, de 1799, estiveram ao alcance dos vorazes leitores dos textos eróticos franceses 2 . No entanto, o primeiro dos textos, eu arriscaria dizer, o ensaio para essas duas obras, não foi publicado durante a vida de Sade. 3 Somente no século XX, este texto foi descoberto por pesquisadores e pôde ser editado.

Hoje ele pode ser encontrado tanto nas obras completas do autor, como em outras edições. “Os infortúnios da virtude” pode até mesmo ser lido em outras línguas que não a francesa, e a naturalidade com que o leitor acessa esse texto talvez esconda uma das características que Michel Delon destaca nos manuscritos: o caráter de transitoriedade dessa narrativa. Não gostaria Sade de esconder seu manuscrito? “O caderno preparatório já possui o traço de um trabalho de modificação”, afirma Delon. 4 Arrisco-me então a ler e reescrever um texto que manteve-se oculto ao leitor por razões que podem estar relacionadas à vontade do autor.

1 Mestre em História pela Universidade Federal de Minas Gerais. Professor Assistente do Departamento de História da Unileste-MG.

2 Darnton afirma que uma dos gêneros literários mais lidos, na França, no século XVIII é o erótico. Aponta inclusive para importância desses textos para os movimentos revolucionários ocorridos no final dos anos 1780, haja vista ser esta literatura uma das vertentes do pensamento crítico francês. Ver Robert Darnton. Os best-sellers proibidos da França pré-revolucionária. São Paulo: Companhia das Letras, 1998.

3 Ver Michel Delon. Introduction. in Marquis de Sade. Oeuvres. vol.II. Bibliothèque de la Plêiade. Paris:

Gallimard, 1995. p. IX-XI

4 Michel Delon. Introduction. in Marquis de Sade. Oeuvres. vol.II, p. X, tradução pessoal.

Minha heroína, a Justine de “Os infortúnios da virtude”, é uma órfã que ganhou mundo após ser expulsa do internato onde estudava. A ausência de quem pagasse suas mensalidades fez com a jovem se separasse de sua irmã Juliette. É nesse instante que se revela a grande diferença entre as duas irmãs. Juliette, mais velha e leitora dos romances libertinos, encarou a perda como uma oportunidade se livrar das obrigações que lhe eram impostas na escola. Buscou então amigas que pudessem ajudá-la em seu projeto de tornar- se uma das grandes damas de Paris. Já Justine, mais nova e inocente, opondo-se aos desejos da irmã, mostrou-se veementemente indisposta a corromper-se: “A pureza é um dos bens que ainda possuo e tê-la é um sinal de meu compromisso com o Céu.”

Partiram cada qual a seu modo a construir o destino. Juliette arranjou-se com Senhora Du Buisson, uma das grandes damas de Paris, e Justine, buscando manter-se honesta, procurou a costureira de sua mãe, pensando encontrar ali algum abrigo. Não tendo sucesso na empreitada, a jovem de doze anos partiu à procura de quem lhe pudesse acolher. Suas trajetórias revelavam-se, já neste primeiro momento, enormemente diversas. Se a corrupção de Juliette lhe garantia maiores possibilidades no mundo, o desejo de pureza de Justine lhe conduzia por dificuldades. À heroína de minha história, a vida se fez um fardo e se não lhe damos ainda esse nome, isso decorre do fato que ser a jovem tão piedosa e inocente a ponto de não suportar qualquer possibilidade de blasfemar contra Deus.

Se Juliette fascinava-se com a liberdade que encontrava em sua nova vida, Justine iniciava uma penosa trajetória. Procurou um “caridoso eclesiástico” 5 , buscando conselho e proteção, e não obteve melhor resultado que na tentativa anterior. Pouco tempo depois, conseguiu uma casa, em Paris, que lhe hospedasse e ali, trabalhando para o Sr. Du Harpin, manteve uma vida modesta. O patrão foi acolhedor, mas não lhe prometera mais que um modesto salário, abrigo e um pouco de alimento. Embora vivesse com parcos recursos, estava satisfeita por ter encontrado acolhida. Acreditava ser possível trilhar o caminho virtuoso e não sabendo ela que o destino lhe havia guardado outra sorte, mantinha-se firme no propósito de alcançar a felicidade por meio da virtude. Não imaginava a virtuosa Justine que a acusação de crime lhe seria uma constante na vida.

5 Marquis de Sade. Les infortunes de la vertu. in Oeuvres. vol. II, p.06

“Após me ter feito um grande discurso sobre a indiferença do roubo, sobre a utilidade pela qual ele existia na sociedade, pois restabelecia um certo equilíbrio que desorganizaria totalmente a desigualdade da riqueza”, o Sr. Du Harpin ofereceu a Justine uma chave, cópia de uma verdadeira, aquela usada pelo vizinho para abrir seu apartamento. Acha que ela aceitou o projeto? “Oh senhor, é possível que um mestre ouse corromper sua doméstica”? 6 É também impossível que um mestre aceite ser contestado em seus planos. Fosse Justine mais experiente, teria ela partido naquele instante e evitado a acusação do roubo de um diamante. Mas como poderia ela escapar disso que lhe diziam as estrelas, que cada um de seus movimentos honestos lhe seria pago com o mal?

Presa e condenada à engrenagem de uma justiça que não contemplava os desafortunados 7 , Justine fugiu da prisão com a ajuda da senhora Dubois. Mas o que é a fuga para quem não tem para onde ir? E mais, se há justiça que se esquece do pobre, aquela era uma que não se lembrava dele apenas quando este estava no cárcere. E se isso não procede historicamente, ao menos assim pensava nossa heroína, que se pôs a fugir.

Não sei se Justine era por demais curiosa ou, como diz o Marquês de Sade, as estrelas apontavam seu destino, e sua fuga foi apenas um caminho para a infelicidade. 8 Parando para descansar, ela viu dois rapazes que se entrelaçavam, cometendo “este crime horrível que ultraja igualmente a natureza e a lei” 9 . Mas se o assistir à cena lhe era impróprio, porque, como bem sabe você e eu, essas coisas se mostram assim por pudor, tudo se complicou mesmo quando o senhor Bressac lhe notou a presença. Como foi dito anteriormente, sabendo ele que a inconformidade ( inconformité ) 10 é um crime grave, aprisionou logo a espiã. Aqui interrompo a narrativa para adiantar desde já o neologismo de Sade para tratar da “ non -conformité” (não-conformidade) forma usada freqüentemente pelos setecentistas para se referirem à homossexualidade 11 , para dizer que se ele

6 Marquis de Sade. Les infortunes de la vertu. in Oeuvres. vol. II, p.19, tradução livre. A íntegra do segundo trecho: “Oh Monsier, m’écriai-je, est-il possible qu’um maitre ose corrompre ainsi son domestique, lui mente?”

7 Marquis de Sade. Les infortunes de la vertu. in Oeuvres. vol. II, p.20

8 São constantes as afirmações sobre o destino traçado de Justine. Marquis de Sade. Les infortunes de la vertu. in Oeuvres. vol. II, veja p.19, 21, 23, 40 entre outras.

9 Marquis de Sade. Les infortunes de la vertu. in Oeuvres. vol. II, p.26

10 Marquis de Sade. Les infortunes de la vertu. in Oeuvres. vol. II, o neologismo é usado na p. 62.

11 Michel Delon. Notes e variantes. in Marquis de Sade. Oeuvres. vol.II, p.1159

dispensou o não para tratar do assunto e manteve o in - como parte da nova palavra, alguma razão ele teve. E se encontro uma possibilidade de arriscar um palpite, percebo nisso o desejo do autor em criar uma palavra que ocupasse uma posição intermediária entre a negação completa dos valores sociais e a passividade da aceitação. Ou seja, talvez a nova palavra esteja relacionada a uma tentativa discursiva de estabelecer novos padrões sociais, como se usa também o in -diferente, o in -alcançável e por aí afora vai, com uma tranqüilidade que nem se dá conta da negativa que prende ao prefixo latino.

Saindo de uma prisão, caiu em outra e em outra. Refém do jovem Bressac, passou a residir em seu castelo até que, não aceitando ajudá-lo a assinar sua mãe, Justine foi acusada por ele do crime pela morte da mesma. Enfim, não apenas não salvou a vida da senhora Bressac, como desentendendo-se com o libertino rapaz, tornou-se a jovem vítima novamente de sua postura moral incorrompível. Mas, porque Justine não ouviu os argumentos de Bressac de que o “poder de destruir não pertence ao homem, mas o de fazer as coisas variarem de forma”,e de que o amor pelas mães, essa gratidão que é comumente encontrada nos seres, pode ser apenas decorrência do bom procedimento dela em relação ao filho? Ou ainda, porque não lembrar aqui o que dirá a senhora Dubois quando reencontrar com a Justine: “examine o que os homens chamam crime para se convencer que isso é apenas o que as leis e os costumes caracterizam como tal, que o crime na França o deixa de ser em outro lugar”? 12

Enfim, não atentando-se para o debate que se articulava na sociedade francesa, a jovem Justine não percebia que o direito à vida e o poder de dispor-se de seu corpo como bem lhe aprouvesse (e, porque não dizer, o direito de dispor-se do corpo do outro) eram objeto ampla discussão. Segundo Foucault, do século XVIII ao início do século XX, há uma constante e acirrada disputa sobre a posse do corpo. Daí a multiplicação de regimes discursivos que se dirigiam a corrigir, controlar e maximizar as forças, a reprodutibilidade e os prazeres que se relacionam com o corpo exercitados por meio da escola, do hospital, as cidades, os imóveis, as famílias. 13

12 Ver in Marquis de Sade. Oeuvres. vol.II, p.100-104, especialmente a 102.

13 Michel Foucault. Pouvoir et corps. in Dits et écrits. vol. I, 1954-1975. Paris: Gallimard, 2001. p.1624

Condenada por sua virtude, Justine seguiu de flagelo em flagelo, perdendo um dedinho aqui, sendo marcada ali, apanhando acolá e, também, como não deveria deixar de ser, sendo por fim desvirginada. Desse modo, seguiu-se ao senhor Bressac, o cirurgião Rodin, os monges do convento de Saint-Marie-de-Bois, o senhor Dalville, a senhora Dubois e a senhora Bertrand, cada qual com sua pena a pesar a vida da jovem virtuosa. Se um queria estudar corpos humanos vivos, dissecando-os, permitindo com isso o avanço do conhecimento, outro, como Dalville, foi salvo da morte pela ajuda de Justine e lhe recompensou escravizando-a. Os monges lhe roubaram a liberdade e, porque não lembrar, foi no convento da paróquia de Auxerre que Justine perdeu sua virgindade. Enfim, de dor e infortúnio Justine viveu, sendo ora aprisionada por denúncia à justiça do Estado, ora encarcerada por iniciativa privada e até santificada, para não nos esquecermos dos monges de tão santa localidade 14 , até que se encontrou com a senhora de Lorsange.

Presa sob a acusação de assassinato feita pela senhora Bertrand, Justine foi julgada e condenada à morte. Mas para que a pena fosse executada, ela deveria ir à Paris para que a pena fosse confirmada. A senhora Lorsange e o senhor de Corville estavam próximos à Lyon quando passaram os soldados que conduziam a jovem prisioneira. Sendo já final do dia e tendo os guardas que adormecer em Montargis, a senhora Lorsange, encantada com o ar inocente da condenada, solicita a de Corville passarem a noite ali, bem como conseguirem uma sessão com a acusada para saber dela mesma as razões de sua infelicidade. Ao final de uma exposição tão curta para tão longos infortúnios, descobriram- se Sophie, como se fez chamar Justine, e Lorsange as irmãs Justine e Juliette.

E se isso poderia ser o indício de uma felicidade alcançada no final ou, quem sabe, de uma certa vitória do bem contra o mal, é importante que se siga realmente até o fim da trama. Sendo liberta, Justine passa a habitar com sua irmã. Certa feita, querendo ajudar a senhora Lorsange (Juliette), ela se põe a fechar as janelas da casa, em virtude de uma tempestade. Parando, contudo, diante de uma delas, enfrenta o vento até que, em presença da irmã e do senhor Corville, recebe uma descarga elétrica que lhe mata. A irmã, abalada, torna-se carmelita e Corville, um grande funcionário e benfeitor público.

14 Um resumo dos infortúnios vividos por Justine aparece no final do romance. Ver in Marquis de Sade. Oeuvres. vol.II, p.115

Dentro dessa trama, o leitor destaca-se como aquele a quem Sade se dirige explicitamente. Se o objetivo da filosofia relaciona-se com a vida e a moral humanas, na medida em que permite descobrir os “obscuros caminhos que a Providência se serve por alcançar os fins que ela se propõe para o homem” 15 , pode o leitor, convencer-se como Juliette, de que “a verdadeira bondade está apenas no seio da virtude e que se Deus permite que ela seja perseguida sobre a terra, é para a preparar prepará-lo no céu uma recompensa maior.” 16

Contudo, por mais explicito que seja Sade ao entrelaçar seu texto a um princípio moral, um leitor atento facilmente percebe o descompasso entre o argumento que o narrador apresenta ao final do romance e o desenrolar da trama. Assim, entendendo o texto com suas marcas de ironia, encontra-se o leitor desarticulado. “Os infortúnios da virtude” é um romance e ao mesmo tempo, filosofia; defende ao final uma moral cristã enquanto revela uma trama repleta de escárnio para com o Além e sofrida para quem opta pela virtude.

Enfim, partindo-se ao infinito, “Os infortúnios da virtude” se processa num jogo em que os elementos da trama não alcançam uma coesão e apenas podem ser apresentados num constante rearranjo. Ler Sade se torna, então, instigante, na medida em que apresenta uma sociedade que se compõe historicamente, dentro de sua narrativa, num confronto de afirmações e olhares irredutíveis a um único ponto de vista. Nesse momento em que a desarticulação social e política afirmava-se na tradição Ocidental, traz o texto sadiano a oportunidade de perceber uma variedade de caminhos abertos a seguir. Reescrever sua trama tanto tempo depois é, certamente, algo a ser feito, pois se o texto aqui se articula muito mais coerente, significa que como o autor de Justine, seremos obrigados a fazer dessas páginas manuscritos e dispersas anotações a serem refeitas posteriormente.

15 Marquis de Sade. Les infortunes de la vertu. in Oeuvres. vol. II, p.03

16 Marquis de Sade. Les infortunes de la vertu. in Oeuvres. vol. II, p.121