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Marcelo Miqueletto Desenvolvimento de procedimentos numéricos para análise de infiltração e estabilidade de taludes em

Marcelo Miqueletto

Desenvolvimento de procedimentos numéricos para análise de infiltração e estabilidade de taludes em bacias de drenagem

Dissertação de Mestrado

Dissertação apresentada como requisito parcial para obtenção do título de Mestre pelo Programa de Pós- Graduação em Engenharia Civil da PUC-Rio.

Orientador: Eurípedes do Amaral Vargas Jr.

Rio de Janeiro, agosto de 2007

Marcelo Miqueletto Desenvolvimento de procedimentos numéricos para análise de infiltração e estabilidade de taludes em

Marcelo Miqueletto

Desenvolvimento de procedimentos numéricos para análise de infiltração e estabilidade de taludes em bacias de drenagem

Dissertação apresentada como requisito parcial para obtenção do título de Mestre pelo Programa de Pós- Graduação em Engenharia Civil da PUC-Rio. Aprovada pela Comissão Examinadora abaixo assinada.

Eurípedes do Amaral Vargas Jr. Presidente PUC-Rio

Tácio Mauro Pereira de Campos PUC-Rio

Nelson Ferreira Fernandes UFRJ

Prof. José Eugênio Leal Coordenador Setorial do Centro Técnico Científico - PUC-Rio

Rio de Janeiro, 30 de agosto de 2007

Todos

os

direitos

reservados.

É

proibida

a

reprodução

total

ou

parcial

do

trabalho

sem

autorização

da

universidade,

do

autor

e

do

orientador.

Marcelo Miqueletto

Graduou-se em Engenharia Civil pela Universidade Federal do Paraná. Durante a gradução desenvolveu trabalhos de iniciação científica e estagiou na área de goetecnia. Atuamente trabalha como engenheiro geotécnico em projetos de aproveitamentos hidrelétricos.

Miqueletto, Marcelo

Ficha Catalográfica

Desenvolvimento de procedimentos numéricos para análise de infiltração e estabilidade de taludes em bacias de drenagem / Marcelo Miqueletto ; orientador: Eurípedes do Amaral Vargas Jr. – 2007.

152 f. : il. ; 30 cm

Dissertação (Mestrado em Engenharia Civil)– Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2007.

Inclui bibliografia

1. Engenharia civil – Teses. 2. Fluxo saturado-não saturado. 3. Estabilidade de encostas. 4. Elementos finitos. I. Vargas Jr., Eurípedes do Amaral. II. Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro. Departamento de Engenharia civil. III. Título.

CDD: 624

A meu pai.

Agradecimentos

A meu pai, Primo, pelo amor e pelo exemplo de perseverança.

A minha madrinha e amiga, Malu, pelo amor e apoio.

Ao Professor Vargas, pela orientação, amizade e conhecimentos transmitidos durante a elaboração deste trabalho.

Ao André Muller que deu início a este trabalho e que muito ajudou no decorrer de sua elaboração.

Aos colegas e amigos da sala 317, em especial ao Julio, pelas inúmeras discussões e sugestões técnicas e filosóficas.

Aos habitantes permanentes e transientes da Frederico Eyer 121-C, em especial aos amigos João, Pedro e Thaís.

Aos amigos da PUC-Rio, pela amizade e convivência.

Aos amigos de Curitiba, sempre presentes e me apoiando em pensamento.

A todos os professores do Departamento de Engenharia Civil da PUC-Rio.

A todos os funcionários do Departamento de Engenharia Civil da PUC-Rio.

À PUC-Rio, à Capes e à FAPERJ pelo suporte a esta pesquisa, muito obrigado.

Resumo

Marcelo Miqueletto. Desenvolvimento de procedimentos numéricos para análise de infiltração e estabilidade taludes em bacias de drenagem. Rio de Janeiro, 2007. 152p. Dissertação de Mestrado - Departamento de Engenharia Civil, Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro.

Este trabalho tem por objetivo o desenvolvimento de uma ferramenta

numérica para avaliação do fluxo saturado-não saturado em encostas de grandes

dimensões, com aplicação na análise de estabilidade dessas áreas. Emprega-se o

método dos elementos finitos na solução da equação de Richards, considerando a

carga de pressão como variável primária e utilizando formulação adequada para

minimização dos problemas de conservação de massa, freqüentemente, associados

a esse fato. O modelo constitutivo utilizado para a curva característica e função de

condutividade hidráulica é o proposto por Van Genuchten (1980). Para solução da

não-linearidade, emprega-se um método quasi-Newton (BFGS). Com o objetivo

de minimizar os requisitos de memória computacional, utiliza-se esquema de

armazenamento de matriz esparsa, associado ao método de gradiente bi-

conjugado, na solução do sistema de equações. Paralelamente, é apresentado

algoritmo de geração de malha tridimensional de elementos finitos, a partir de uma

malha superficial de triângulos, representativa da topografia. Análises numéricas

são executadas com a finalidade de validação do código gerado, comparando-se os

resultados obtidos com aqueles gerados por outros programas já consagrados na

literatura técnica. É proposta metodologia para geração de mapas de

susceptibilidade a escorregamentos translacionais rasos, empregando-se o método

do talude infinito, associado à estrutura da malha de elementos finitos e aos

resultados do problema de fluxo, incorporando-se, assim, o efeito do estado de não

saturação na resistência do material.

Palavras-chave

Fluxo saturado-não saturado, Estabilidade de encostas, Elementos Finitos

Abstract

Marcelo Miqueletto. Developement of numerical procedures for the analysis of infiltration and slope stability in catchment basins. Rio de Janeiro, 2007. 152p. MSc Dissertation - Departamento de Engenharia Civil, Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro.

The aim of this work is to develop a numerical tool for the analysis of

saturated-unsaturated flow in large scale natural slopes, applied to the study of the

stability of these areas. The finite element method is applied to solve the Richard’s

equation, taking into account the pressure head as the primary variable and using

an adequate formulation to minimize the mass conservation issues. The

constitutive model used to the characteristic curve and hydraulic constitutive

function is the one presented by van Genuchten (1980). A quasi-Newton method

(BFGS) is applied for the solution of the non-linearity. A sparse matrix storage

scheme, with the objective of reducing the computational memory requirements, is

associated to the bi-conjugated gradient method for the solution of the system of

equations. An algorithm of finite elements mesh is presented, which generates the

3D mesh from a triangle superficial mesh representing the relief. Numerical

analyses are performed in order to validate the code, by comparing the results with

those generated by others widely known codes presented in the technical

literature. A methodology for the generation of susceptibility maps to shallow

translational landslides is delineated, which employs the infinite slope method to

the finite elements mesh structure and the flow problem results, considering the

effect of the unsaturated state in the material strength.

Keywords

Saturated-unsaturated flow, Slope stability, Finite element

Sumário

1 Introdução

20

2 Solos não saturados

23

2.1.

Fluxo em solos não saturados

23

2.1.1. Potencial da água no solo

23

2.1.2. Curva Característica

25

2.1.3. Lei de Darcy-Buckingham

29

2.1.4. Condutividade Hidráulica

32

2.1.5. Equação Richards

35

2.2. Resistência de solos não saturados

40

2.3. Influência do fluxo em meios não-saturados na estabilidade de taludes

45

3

Implementações numéricas

48

3.1.

Solução Numérica da Equação de Richards

48

3.1.1. Formulação de Elementos Finitos

49

3.1.2. Discretização no tempo

56

3.1.3. Diagonalização da matriz de massa

57

3.1.4. Tratamento da Capacidade de Retenção Específica

59

3.1.5. Solução da não-linearidade

61

3.1.6. Estimativa inicial do vetor de cargas de pressões nodais

67

3.1.7. Passo de tempo dinâmico

68

3.1.8. Critérios de convergência

70

3.1.9. Balanço de massa

72

3.1.10. Solução do sistema de equações

73

3.1.11. Gerador de malha

75

3.2. Análise de estabilidade

77

3.3. Implementação computacional

82

4

Exemplos de validação

85

4.1.

Exemplos unidimensionais

85

4.1.2.

Fluxo

unidimensional

-

Condição

de

contorno

de

Neumann

e

heterogeneidade do material.

 

92

4.2.

Exemplos bidimensionais

98

4.2.1.

Fluxo bidimensional – condição de contorno de Dirichlet.

 

98

4.2.2. Fluxo bidimensional – condição de contorno de Dirichlet – bulbo de

102

4.2.3. Fluxo bidimensional – condição atmosférica (C.C. de Neumann e Dirichlet

infiltração.

variáveis) - Talude.

106

4.3.

Exemplos tridimensionais

115

4.3.1.

Fluxo tridimensional - condição de contorno de Dirichlet.

115

5

. Exemplo de aplicação

123

5.1. Área de estudo

124

5.2. Propriedades dos materiais e parâmetros de análise

126

5.3. Resultados

131

 

6 Conclusões

142

7 Referências bibliográficas

145

8 Apêndices

151

8.1.

Modo de armazenamento de matriz esparsa indexado por linha

151

Lista de figuras

Figura 1 - Curva característica

26

Figura 2 - Menisco de água no solo (Adaptado de Lu e Likos, 2004).

27

Figura 3 - Histerese

28

Figura 4 – Área útil de fluxo em meios porosos não saturados (Adaptado de

Reichardt e Timm, 2004).

33

Figura 5 - Função de condutividade hidráulica.

34

Figura 6 - Volume elementar de solo.

36

Figura 7 – Envoltória tridimensional de resistência para solos não saturados

43

(adaptado de Lu e Likos, 2004).

b

φ

Figura 8 – Não linearidade de

Figura 9 – Elementos Finitos utilizados. (a) Elemento trilinear de 8 nós. (b)

52

44

(Adaptado de Lu e Likos, 2004).

Elemento trilinear de 6 nós.

Figura 10 – Malha tridimensional de elementos finitos paralepipédicos de 8 nós.

 

76

Figura 11 – Construção das linhas de nós, abaixo do nó de superfície.

77

Figura 12 – Diagrama de forças para o elemento 3D.

78

Figura 13 – Coluna de elementos 3D criada pelo gerador de malha.

80

Figura 14 – Seqüência de análise de estabilidade.

81

Figura 15 – Mapa de fator de segurança.

82

Figura 16 – Fluxograma.

84

Figura 17 – Curva característica.

87

Figura 18 – Curva de condutividade hidráulica.

88

Figura 19 – Carga de pressão em ponto situado a 15cm de profundidade.

89

Figura 20 – Volume acumulado.

90

Figura 21– Perfis de infiltração.

91

Figura 22 – Carga de pressão em ponto situado a 15cm de profundidade – opção

93

Figura 23 – Carga de pressão em ponto situado a 45cm de profundidade – opção

93

1.

1.

Figura 25 – Carga de pressão em ponto situado a 15cm de profundidade – opção

95

Figura 26 - Carga de pressão em ponto situado a 45cm de profundidade – opção 2.

2.

 

95

Figura 27 - Perfis de infiltração - opção 2.

96

Figura 28 – Curva característica.

98

Figura 29 – Função de condutividade hidráulica.

99

Figura 30 – Malha de elementos finitos.

100

Figura 31 – Evolução da carga de pressão no tempo para o nó 33.

101

Figura 32 - Evolução da carga de pressão no tempo para o nó 51.

101

Figura 33 – Malha de elementos finitos.

103

Figura 34 – Evolução da carga de pressão no tempo para o nó 61.

104

Figura 35 - Evolução da carga de pressão no tempo para o nó 70.

104

Figura 36 – Bulbo de infiltração.

105

Figura 37 – Geometria simplificada para talude e malha de elementos finitos –

RA=10.

106

Figura 38 – Malha de elementos finitos - RA=50.

108

Figura 39 – Evolução da carga de pressão para o nó A.

110

Figura 40 - Evolução da carga de pressão para o nó B.

110

Figura 41 - Evolução da carga de pressão para o nó C.

111

Figura 42 - Evolução da carga de pressão para o nó D.

111

Figura 43 - Evolução da carga de pressão para o nó E.

112

Figura 44 - Evolução da carga de pressão para o nó F.

112

Figura 45 - Evolução da carga de pressão para o nó G.

113

Figura 46 - Evolução da carga de pressão para o nó H.

113

Figura 47 – Malha de elementos finitos para as geometrias de taludes côncava (a e

116

Figura 48 – Evolução da carga de pressão para o nó 872, na geometria côncava.

118

Figura 49 - Evolução da carga de pressão para o nó 3781, na geometria côncava.

118

Figura 50 - Evolução da carga de pressão para o nó 2332, na geometria côncava.

b) e convexa (c e d).

Figura 51 - Evolução da carga de pressão para o nó 1365, na geometria côncava.

119

Figura 52 – Evolução da carga de pressão para o nó 872, na geometria convexa.

120

Figura 53 – Evolução da carga de pressão para o nó 3781, na geometria convexa.

120

Figura 54 – Evolução da carga de pressão para o nó 2332, na geometria convexa.

121

Figura 55 – Evolução da carga de pressão para o nó 1365, na geometria convexa.

121

Figura 56 – Área de estudo. (Fonte: Fernades et al., 2001) 125 Figura 57 – Mapa de cicatrizes dos escorregamentos. (Fonte: Gomes, 2006) 126

Figura 58 – Curva característica adotada.

Figura 59 – Curva de condutividade hidráulica adotada. 127

Figura 60 – Precipitação diária para os 22 dias de simulação. 128

130

Figura 62 – Mapa de distribuição de fator de segurança para o instante inicial. 133 Figura 63 - Mapa de cargas de pressão para o instante inicial. 133 Figura 64 - Mapa de distribuição de fator de segurança para T=180h (7,5 dias).

134

Figura 65 - Mapa de cargas de pressão para T=180h (7,5 dias). 134 Figura 66 - Mapa de distribuição de fator de segurança para T=288h (12dias). 135 Figura 67 - Mapa de cargas de pressão para T=288h (12dias). 135 Figura 68 - Mapa de distribuição de fator de segurança para T=480h (20dias). 136 Figura 69 - Mapa de cargas de pressão para T=480h (20dias). 136 Figura 70 - Mapa de distribuição de fator de segurança para T=480h (20dias) -

137

Figura 61 – Malha utilizada na análise.

127

planta.

Figura 71 – Variação do FS, da carga de pressão e profundidade crítica, ao longo do tempo, para o nó de superfície 16160. Carga inicial de -0,5m. 138 Figura 72 - Variação do FS, da carga de pressão e profundidade crítica, ao longo do tempo, para o nó de superfície 10277. Carga inicial de -0,5m. 138 Figura 73 - Variação do FS, da carga de pressão e profundidade crítica, ao longo do tempo, para o nó de superfície 13257. Carga inicial de -0,5m. 139

Figura 74 – Variação do FS, da carga de pressão e profundidade crítica, ao longo do tempo, para o nó de superfície 16160. Carga inicial de -5m. 140 Figura 75 – Variação do FS, da carga de pressão e profundidade crítica, ao longo do tempo, para o nó de superfície 10277. Carga inicial de -5m. 140 Figura 76 – Variação do FS, da carga de pressão e profundidade crítica, ao longo

do tempo, para o nó de superfície 13257. Carga inicial de -5m.

141

Lista de tabelas

Tabela 1 - Pontos de Gauss para elemento trilinear de 8

55

Tabela 2 - Pontos de Gauss para elemento trilinear de 6

55

Tabela 3 – Valores de infiltração

108

Tabela 4 – Tempos de análise

117

Tabela 5 – Precipitação diária para os 22 dias de simulação

128

Lista de símbolos

A

C(h)

C s

C w

c'

c

c"

{f (h)}

{f }'

*

F

F

R

S

FS

g

G

{G}

h

ˆ

h x

(

,

h

0

(

x

h

H

y

,

i

)

[H ]

i

[I]

I acum

,

z t

)

Área [L 2 ]

Capacidade de retenção específica [L -1 ]

Compressibilidade do esqueleto sólido [M -1 T 2 L]

Compressibilidade da água [M -1 T 2 L]

Coesão efetiva [MT -2 L -1 ]

Coesão aparente [MT -2 L -1 ]

Coesão associada ao efeito da sucção [MT -2 L -1 ]

Função resíduo de iterações sucessivas [L 3 T -1 ]

Matriz Jacobiana ou matriz de iteração [L 2 T -1 ]

Força resistente [MLT -2 ]

Força solicitante [MLT -2 ]

Fator de segurança [-]

Aceleração da gravidade [LT -2 ]

Densidade das partículas sólidas [-]

Vetor associado aos gradientes de carga de elevação

nodais [L 3 T -1 ]

Carga de pressão [L]

Carga de pressão no interior do elemento finito [L]

Valores de carga de pressão iniciais [L]

Valores de carga de pressão imposta [L]

Carga hidráulica total [L]

Matriz de condutividade [L 2 T -1 ]

Gradiente hidráulico [-]

Matriz identidade [-]

Volume acumulado de fluido que entrou ou saiu do

sistema [L 3 ]

J

k

K, K(θ ) , K(h)

[K], [K(θ )], [K(h)], K ij

Jacobiano [L 3 ]

Coeficiente de permeabilidade intrínseca [L 2 ]

Condutividade hidráulica [LT -1 ]

Tensor de condutividade hidráulica [LT -1 ]

K s

 

Condutividade hidráulica saturada [LT -1 ]

[K s ]

Tensor de condutividade hidráulica saturada [LT -1 ]

l

Parâmetro de conectividade de poros de Mualen (1976)

[-]

m

Parâmetro do modelo de van Genuchten (1980) [-]

MB

Erro do balanço de massa [-]

n

Parâmetro do modelo de van Genuchten (1980) [-]

N

i

Funções de interpolação [-]

q

Vazão específica [L 2 T -1 ]

{q}

Vetor de vazões específicas [L 2 T -1 ]

P

Peso total do bloco na análise de estabilidade [MLT -2 ]

Q

Vazão [L 3 T -1 ]

{Q}

r, s, t

RA

Re

R

s

S

S s

Vetor de vazões nodais [L 3 T -1 ]

Coordenadas locais dos elementos [-]

Razão de aspecto [-]

Número de Reynolds [-]

Resíduo do método de Galerkin [L 3 T -1 ]

Tensão tangencial solicitante [MT -2 L -1 ]

Grau de saturação [-]

Armazenamento específico [L -1 ]

 

[S]

Matriz de massa [L 2 ]

t

Tempo [T]

u

a

Pressão do ar [MT -2 L -1 ]

u

w

Pressão da água [MT -2 L -1 ]

{v}

V

V

w

Vetor do método BFGS [-]

Volume total [L 3 ]

Volume de água [L 3 ]

V v

V s

V

{w}

e

Volume de vazios [L 3 ] Volume de sólidos [L 3 ]

Volume do elemento [L 3 ]

Vetor do método BFGS [-]

W

i

Pesos de ponderação na integração de Gauss [-]

x

i

Coordenadas globais [L]

z

Carga de elevação [L]

α

Parâmetro do modelo de van Genuchten (1980) [L -1 ]

β

Escalar multiplicador da busca linear no método BFGS [-]

χ

Parâmetro de tensão efetiva de Bishop [-]

δ

ij

Delta de Kronecker

{δ}

t

2

ε

φ'

b

φ

γ

s

γ

w

{γ}

Γ

Γ

D

Γ

N

ϕ

µ

ν

Vetor de incremento de carga de pressão nodal entre iterações no método BFGS [L] Tamanho do passo de tempo [T]

Erro de truncamento da série de Taylor

Ângulo de atrito efetivo [-]

Parâmetro de resistência não saturada (Fredlung et al., 1978) [-]

Peso específico das partículas sólidas [ML -1 T -2 ]

Peso específico da água [ML -1 T -2 ]

Vetor de incremento de vazão desiquilibrada nodal entre iterações no método BFGS [L 3 T -1 ]

Contorno do modelo

Contorno com condição de Dirichlet

Contorno com condição de Neumann

Ângulo de máxima declividade do elemento no cálculo de estabilidade [-]

Viscosidade dinâmica da água [ML -1 T -1 ]

Viscosidade cinemática da água [L 2 T -1 ]

θ

r

θ

s

Θ

ρ

ρ

σ

σ

τ

w

'

ξ

ψ

ψ

g

ψ

m

ψ

o

ψ

ψ

p

t

Unidade volumétrica residual [L 3 L -3 ]

Unidade volumétrica de saturação [L 3 L -3 ]

Umidade volumétrica relativa [L 3 L -3 ]

Massa específica [ML -3 ]

Massa específica da água [ML -3 ]

Tensão total [MT -2 L -1 ]

Tensão efetiva de Terzaghi [MT -2 L -1 ]

Resistência ao cisalhamento [MT -2 L -1 ]

Porosidade [-]

Potencial total da água [ML 2 T -2 ]

Potencial gravitacional da água [ML 2 T -2 ]

Potencial matricial da água [ML 2 T -2 ]

Potencial osmótico da água [ML 2 T -2 ]

Potencial de pressão da água [ML 2 T -2 ]

Potencial térmico da água [ML 2 T -2 ]

Domínio do modelo

{H}

Vetor gradiente de carga total [L]

{h}

Vetor gradiente de carga de pressão [L]

A rapadura é doce, mas não é mole não.

Sabedoria popular

1

Introdução

Movimentos de massa são fenômenos naturais, atuantes na modificação do relevo de áreas montanhosas. Com a ocupação humana dessas regiões, esses processos naturais podem ser influenciados pela ação antrópica e sua ocorrência pode ser desastrosa, causando perdas de vidas humanas e prejuízos financeiros. Sidle e Ochiai (2006) apresentam um levantamento de vários episódios de movimentos de massa, destacando-se como exemplo extremo, uma corrida de massa acontecida em 1921 na China, responsável por aproximadamente 180.000

mortes. Amaral (1997) apresenta dados referentes aos maiores escorregamentos ocorridos na cidade do Rio de Janeiro entre 1986 e 1996, os quais causaram a destruição de 413 residências, 1 hospital e a perda de 123 vidas. O mesmo autor apresenta a soma de 190 milhões de dólares investidos, entre 1988 e 1996, a fim evitar desastres associados a escorregamentos. Os fatores intervenientes nos processos de instabilização podem ser agrupados em três categorias, em função do efeito causado: modificação do estado

de tensões totais do maciço, modificação dos parâmetros de resistência do solo e

alteração dos valores de poropressão, seja elevação da poropressão positiva ou

decréscimo nos valores de sucção (e.g. Gerscovich, 1994). O processo de infiltração da água oriunda das chuvas no solo não saturado

causa modificações nos valores de umidade e, conseqüentemente, nos valores de sucção associados. A redução da sucção acarreta perda de resistência não saturada pela diminuição de coesão aparente (e.g. Lu e Likos, 2004). Com a evolução do processo de infiltração, partes do maciço tornam-se saturadas e ocorre o surgimento de poropressões positivas, causando alterações no estado tensões efetivas. Dessa maneira, torna-se fundamental a análise do fluxo em meios saturados-não saturados, com a finalidade de aplicarem-se os resultados obtidos

na

avaliação da estabilidade de encostas. Devido à não-linearidade presente na equação de Richards, a qual descreve

o

fluxo em meios saturados-não saturados, soluções analíticas somente são

21

possíveis em casos muito simples, que não condizem com as condições geométricas e de contorno encontradas em problemas reais. Este trabalho objetiva o desenvolvimento de uma ferramenta numérica, utilizando o método dos elementos finitos, para solução da equação de Richards na análise de fluxo saturado-não saturado monofásico em bacias de drenagem (Paniconi et al, 1993), visando à aplicação dos resultados gerados na avaliação da estabilidade de encostas. A área das regiões a serem estudadas é comumente da ordem de quilômetros quadrados, exigindo malhas de elementos finitos de grandes proporções. A fim de se contornar as limitações associadas aos requisitos de memória computacional e tempo de processamento, métodos numéricos eficientes devem ser empregados na solução do problema. Neste trabalho utiliza-se o método quasi-Newton BFGS (Matthies e Strang, 1979; Bathe e Cimento, 1980) na solução da não-linearidade e um esquema de armazenamento de matriz esparsa, associado ao método de gradiente bi- conjugado, na solução do sistema de equações. Em paralelo, desenvolve-se uma rotina para geração da malha tridimensional de elementos finitos, a qual, a partir de uma malha de elementos triangulares representando o relevo da área de estudo, gera a malha de elementos finitos prismáticos, utilizada nas análises. Complementarmente, aproveita-se a estrutura da malha de elementos finitos, utilizada na discretização espacial do problema de fluxo, para o cálculo aproximado do fator de segurança à escorregamentos translacionais rasos, através do método do talude infinito. Obtém-se assim, um mapa que mostra a evolução do fator de segurança no tempo, com o avanço da frente de infiltração e eventual saturação do perfil de solo, durante eventos pluviométricos. Essa abordagem segue linha semelhante à utilizada em outros trabalhos objetivando a geração desses mapas de suscetibilidade à escorregamentos translacionais rasos (Okimura e Kawatani, 1986; Montgomery e Dietrich, 1994; Wu Sidle, 1995 e Baum et al., 2002), no entanto, incorpora o fluxo não saturado transiente (Baum et al., 2002) e suas conseqüências sobre a resistência do material. Esta dissertação se estrutura em 6 capítulos:

No segundo capítulo são introduzidos conceitos básicos associados ao fluxo saturado-não saturado, potenciais, curva característica, função de condutividade

22

hidráulica e é apresentada a equação de Richards. Discorre-se brevemente sobre os aspectos relacionados à resistência ao cisalhamento de solos não saturados e a influência do fluxo saturado-não saturado na estabilidade de taludes.

O terceiro capítulo refere-se aos dos métodos numéricos utilizados,

problemas relativos à conservação de massa, solução do problema transiente e da não-linearidade, armazenamento das matrizes e solução do sistema de equações, geração de malha, análise de estabilidade, entre outros. Apresentam-se os procedimentos aplicados no cálculo de estabilidade, além do fluxograma da ferramenta numérica desenvolvida.

O quarto capítulo apresenta os exemplos de validação da ferramenta

desenvolvida, englobando problemas unidimensionais, bidimensionais e tridimensionais.

O capítulo 5 trata da aplicação da ferramenta desenvolvida na área das

bacias dos rios Quitite e Papagaio, em Jacarepaguá no Rio de Janeiro, atingida por

um grande evento de movimento de massa em 1996. Este exemplo tem por finalidade a demonstração da potencialidade da ferramenta, não se constituindo em uma retro-análise. O capítulo 6 apresenta as conclusões e sugestões para trabalhos futuros.

2

Solos não saturados

2.1.

Fluxo em solos não saturados

2.1.1.

Potencial da água no solo

A água pode ser caracterizada por um estado de energia. Essa energia pode

ser dividida em duas parcelas: cinética, associada à velocidade da água e

potencial, associada a outras componentes.

Como o movimento da água no solo é em geral lento, a parcela cinética da

energia total, proporcional ao quadrado da velocidade, pode ser desprezada.

Assim, a energia potencial representa o estado de energia da água, também

chamado de potencial total da água no solo.

Fisicamente, toda a matéria, inclusive a água, tende a assumir o mínimo

estado de energia possível, em equilíbrio com o meio. Assim, o movimento da

água se dá no sentido dos pontos de maior potencial total, para os de menor. A

taxa de decréscimo dessa grandeza, ao longo de determinada direção, é uma

medida da força responsável pelo movimento do fluido (Reichardt e Timm, 2004).

O potencial total da água no solo ψ , ou potencial hidráulico, pode ser

dividido em cinco componentes (Reichardt e Timm, 2004): térmico ( ψ ), de

t

pressão (

ψ

p

), gravitacional (

ψ

g

), osmótico (

ψ

o

) e matricial (

ψ

m

):

ψ =ψ

t

+ψ

p

+ψ

g

+ψ

o

+ψ

m

(1)

Sendo uma medida de energia, o potencial é expresso nas mesmas unidades

que esta [ML 2 T -2 ]. Pode-se também expressá-lo de forma relativa: potencial por

unidade de volume [ML -1 T -2 ], potencial por unidade de massa [L -2 T -2 ] e potencial

por unidade de peso, também chamado carga [L].

24

O potencial térmico é de difícil determinação e devido às pequenas variações de temperatura da água no solo, em condições normais, pode ser desprezado.

A componente de pressão é considerada somente quando a pressão atuante

sobre a água é maior que a pressão atmosférica, sendo neste caso considerada positiva. Seu valor, expresso em energia por unidade de peso [L], representa a altura de uma coluna de água atuando no ponto em consideração.

O potencial gravitacional é a energia potencial do campo gravitacional da

terra. Na forma de energia por unidade de peso [L], representa a elevação do ponto em consideração em relação a um dado referencial.

A componente osmótica está relacionada ao fato da água no solo ser uma

solução de sais minerais e outras substâncias. O potencial osmótico é função da

concentração de solutos, sendo tanto mais negativo quanto mais elevada for essa concentração (Reichardt e Timm, 2004). Dessa maneira, o movimento da água vai do ponto de menor para o de maior concentração. Normalmente, a variação na concentração de solutos na água é pequena, sendo esta componente desprezível, em relação às outras.

A componente matricial está ligada ao teor de água no solo não saturado ou

saturado por capilaridade, sendo resultante das forças de adsorção que mantém a água aderida às partículas sólidas e aos fenômenos de capilaridade existentes nos interstícios da massa de solo. Em solos não saturados, ocorre a formação de meniscos de água entre as partículas sólidas, em resposta aos fenômenos capilares oriundos da tensão superficial da água (e. g. Libardi, 2005; Reichardt e Timm, 2004; Lu e Likos, 2004). A água nesses meniscos se encontra a uma pressão inferior à pressão do ar, também presente nos poros. Caso se considere o ar sob pressão atmosférica, e sendo esta tomada como referencial, a água estará sob pressão negativa.

A relação existente entre o teor de água no solo, expressa em termos da

umidade volumétrica θ [L 3 L -3 ], e a pressão negativa da água é chamada de curva

característica ou curva de retenção e será discutida na seqüência. Desprezando-se as parcelas térmica e osmótica, o potencial total da água no

), do

solo (ψ ) pode então ser escrito em termos do potencial gravitacional (

ψ

g

potencial de pressão (

ψ

p

) e do potencial mátrico (

ψ

m

):

25

ψ =ψ

g

+ψ

p

+ψ

m

(2)

Como o potencial de pressão e o potencial mátrico representam pressões da

água, o primeiro positivo e o segundo negativo, eles podem ser agrupados em uma

só componente. Expressando-se essa componente em termos de potencial por

unidade de peso, pode-se chamá-la de carga de pressão h [L]:

h =ψ

p

+ψ

m

O potencial total (ψ ) e potencial gravitacional (

ψ

(3)

g ) também expressos em

potencial por unidade de peso, passam a ser chamados de carga hidráulica total, H

[L], e de carga de elevação, z [L], respectivamente. Assim a carga hidráulica total

é expressa por:

H = h + z

(4)

2.1.2.

Curva Característica

A curva característica, ou curva de retenção, Figura 1, é uma relação

constitutiva de grande importância na mecânica dos solos não saturados. Ela

descreve a relação entre o potencial matricial da água no solo e seu teor de água,

ou, mais simplesmente, é a relação funcional entre a pressão negativa da água e a

umidade volumétrica.

A sucção [ML -1 T -2 ] é um valor positivo, definido pela diferença entre a

pressão de ar ( u ) e a pressão negativa da água nos solos:

a

sucção

Onde:

= u

a

u

w

u

w

= γ

w

h

Sendo γ

w

o peso específico da água.

(5)

(6)

26

Pressão de entrada de ar θ r θ s
Pressão de entrada de ar
θ r
θ s

Figura 1 - Curva característica

Analisando-se a Figura 1, alguns valores merecem destaque. O valor de

umidade residual ( θ ) é um valor de umidade associado a altos valores de sucção,

r

quando a água retida pelo solo encontra-se na forma de filmes finos ou meniscos

desconectados (Lu e Likos, 2004). O valor de umidade de saturação ( θ ) é

s

teoricamente igual à porosidade do solo, já que neste estado todos os vazios estão preenchidos pela água. A chamada “pressão de entrada de ar” é o valor de carga de pressão ou sucção para o qual ocorre entrada de ar nos vazios de solo em um processo de secagem, sendo mais elevada em solos de textura fina. A curva característica reflete os fenômenos de retenção da água no solo:

adsorção e capilaridade. Para altos valores de sucção e baixos valores de umidade volumétrica, o fenômeno de adsorção é dominante, governado interação sólido- líquido em escala molecular (forças de origem elétrica, atração de Van der Walls, etc). Para valores de umidade volumétrica mais altos e níveis de sucção mais baixos, os fenômenos capilares são preponderantes e estes são controlados

27

principalmente pelas dimensões, estrutura e distribuição dos poros (Lu e Likos,

2004).

O solo pode ser considerado como um emaranhado de capilares de formas e tamanhos variados. Em vista disso, os fenômenos associados à formação de meniscos de água entre as partículas de solo, responsáveis pelas pressões negativas de água, são de difícil quantificação, podendo ser analisados de forma aproximada e qualitativa através do modelo apresentado na Figura 2. A pressão negativa de água no interior do menisco é inversamente proporcional ao raio do menisco formado. Assim, quando o solo está quase saturado e os raios são maiores, a pressão será menos negativa.

e os raios são maiores, a pressão será menos negativa. Figura 2 - Menisco de água

Figura 2 - Menisco de água no solo (Adaptado de Lu e Likos, 2004).

Efeitos de histerese podem existir. Nesses casos a curva característica de secagem não se superpõe à de umedecimento, situando-se à direita desta última, Figura 3. Esse comportamento está associado à não uniformidade dos poros, à presença de bolhas de ar que permanecem no solo durante o processo de umedecimento e a possíveis mudanças estruturais (Gerscovich, 1994; Reichardt e Timm, 2004; Lu e Likos, 2004). Existem modelos que podem ser utilizados para descrever a dependência entre a umidade volumétrica e a carga de pressão em solos não saturados (Arya e Paris, 1981; Fredlund e Xing, 1994; Aubertin et al., 2004). No entanto, devido à

28

complexidade dos processos envolvidos, não existe uma teoria plenamente satisfatória para previsão da curva característica (Reichardt e Timm, 2004). Métodos para determinação experimental dessa relação podem ser encontrados em Reichardt e Timm (2004), Lu e Likos (2004) e Libardi (2005), por exemplo.

(2004), Lu e Likos (2004) e Libardi (2005), por exemplo. Figura 3 - Histerese Van Genuchten

Figura 3 - Histerese

Van Genuchten (1980) apresenta uma classe de funções, que foram adotadas neste trabalho, para a representação da curva característica:

  1 Θ =    ( n 1 + α ) h
1
Θ = 
(
n
1
+
α
)
h

m

(7)

Onde Θ [-] é a umidade volumétrica relativa, dada por:

Θ =

θ

θ

r

θ

s

θ

r

(8)

29

m [-], n [-] e α [L -1 ] são parâmetros a serem obtidos no ajuste desse modelo aos

dados obtidos experimentalmente. O valor de

1 α
1
α

representa um ponto pivô em

torno do qual o parâmetro n modifica a inclinação da curva. O parâmetro m afeta

a agudeza da curva, quando a mesma entra em seu patamar (Krahn, 2004).

Substituindo-se a eq. 7 na eq. 8 chega-se a:

θ

=

θ

r

+

θ

= θ

s

( θ − θ ) s r [ ( ) n ] m 1 +
(
θ
θ
)
s
r
[
(
)
n
] m
1 +
α h

para

h < 0

(9.1)

para

h > 0

(9.2)

A Figura 1 na página 26, ilustra a forma da curva característica gerada

pelas eqs.9.

2.1.3.

Lei de Darcy-Buckingham

Henry Darcy em 1856, através de uma série de estudos sobre infiltração em

colunas verticais de areia saturada, chegou às seguintes conclusões (e.g. Libardi,

2005):

A vazão através da coluna de areia, em regime permanente, é

diretamente proporcional à sua área de seção transversal;

A vazão é diretamente proporcional à diferença entre as cargas

hidráulicas totais que atuam nas extremidades da coluna;

A vazão é inversamente proporcional ao comprimento da coluna.

Matematicamente isso se traduz da seguinte maneira:

Q

=

K A

s

H

1

H

2

l

(10)

Onde Q [L 3 T -1 ] é a vazão que passa través da coluna, K s [LT -1 ] é a

condutividade hidráulica saturada do material, A [L 2 ] é a área de seção transversal

da coluna, H 1 e H 2 são as cargas hidráulicas totais [L] na extremidade da coluna e

l [L] é o comprimento da coluna.

30

O coeficiente (H 1 -H 2 )/l é chamado de gradiente hidráulico i [LL -1 ], sendo o

negativo do gradiente matemático:

i =

H

l

(11)

O sinal negativo significa que o fluxo se dá no sentido da maior para a

menor carga hidráulica total.

A equação de Darcy foi originalmente deduzida para fluxo permanente,

unidimensional em materiais homogêneos e isotrópicos saturados. Estendendo-se

essa equação para condições de fluxo tridimensional em meios anisotrópicos

saturados tem-se (Bear, 1972):

{q}

= −

[K ]{

s

H }

Ou, alternativamente:

q

q

q

x

y

z

=

=

=

K

s xx

K

K

s

s

yx

zx

H

x

H

x

H

x

+

+

+

K

s xy

K

s

yy

K

s

zy

H

y

H

y

H

y

+

+

+

K

s xz

K

s

yz

K

s

zz

H

z

H

z

H

z

(12)

(13)

onde {q} é a vazão específica [LT -1 ] (vazão por unidade de área) nas direções x, y

e z, [K s ] [LT -1 ] é o tensor de condutividade hidráulica saturada e {H} [LL -1 ] é o

gradiente da carga hidráulica total .

Nota-se pelas eqs. 12 e 13, que em meios anisotrópicos, a inexistência de

diferença de carga total em determinada direção, não implica na inexistência de

fluxo nessa mesma direção. Neste caso, as linhas de fluxo não são mais

perpendiculares às linhas equipotenciais, como ocorre em materiais isotrópicos.

A lei de Darcy é válida para fluxo laminar, nos quais as forças viscosas são

preponderantes. A partir da transição de regime laminar para turbulento, Darcy

deixa de ser aplicável. O número de Reynolds (Re) é um coeficiente adimensional

31

que expressa a razão entre as forças inerciais e viscosas e pode ser usado para a distinção entre fluxo laminar e turbulento:

Re =

qd

ν

(14)

Onde d [L] é o diâmetro do poro e ν [L 2 T -1 ] é a viscosidade cinemática do fluido. Em casos práticos, a lei de Darcy é válida em situações onde Re está entre 1 e 10, calculado a partir de um diâmetro médio para os poros (Bear, 1972). Relativamente ao gradiente hidráulico, parece haver um valor mínimo, abaixo do qual o fluxo é muito pequeno e interações entre a água e as partículas de solo fazem com a lei de Darcy não possa ser aplicada (Bear, 1972). Segundo Libardi (2005), o primeiro trabalho de que se tem notícia, tratando da quantificação de fluxo em meios não saturados, é de Buckingham, em 1907. Este coloca a vazão específica como:

{q} = −[K (θ )]{h(θ )}

(15)

Onde [K (θ )] [LT -1 ] é o tensor de condutividade hidráulica não saturada, agora

uma função da umidade volumétrica, e {h(θ )} [LL -1 ] é o vetor gradiente de

carga de pressão, também função de θ . Buckingham designou essas grandezas de condutividade capilar e potencial capilar, respectivamente. Esta formulação é válida somente para fluxo horizontal. Richards (1931) redefiniu a eq.15, utilizando a carga hidráulica total no lugar da carga de pressão:

{q} = −[K (θ )]{H (θ )}

(16)

A lei de movimento que rege o fluxo em meios saturados e não saturados ficou conhecida como a lei de Darcy-Buckingham (Libardi, 2005).

32

2.1.4.

Condutividade Hidráulica

O coeficiente de proporcionalidade, K s [LT -1 ], que aparece na equação de

Darcy é chamado de condutividade hidráulica. Em um meio isotrópico saturado,

representa a vazão específica por unidade de gradiente hidráulico. É uma grandeza

que depende das propriedades da matriz sólida e da fase líquida, podendo-se

separar a influência das duas fases (Bear, 1972):

K

s =

k

ρg

µ

(17)

Onde k é o coeficiente de permeabilidade intrínseca [L 2 ], que depende somente

das propriedades da matriz porosa, ρ é a massa específica do fluido [ML -3 ], g é a

aceleração da gravidade [LT -2 ] e µ é a viscosidade dinâmica do fluido [ML -1 T -1 ].

Os valores de massa específica e de viscosidade do fluido são dependentes

da temperatura, pressão e concentração de sais solúveis. Por simplificação, estes

valores são assumidos como constantes.

Em solos saturados, a permeabilidade intrínseca pode ser considerada

constante, à exceção de situações onde a estrutura da matriz porosa venha a ser

modificada devido a alterações no estado de tensões ou reações químicas

ocorridas durante o processo de fluxo.

Em um solo não saturado k é função do teor de água no mesmo. Essa

dependência advém do fato de que a área útil para o fluxo é definida pela umidade

do solo, Figura 4.

33

33 Figura 4 – Área útil de fluxo em meios porosos não saturados (Adaptado de Reichardt

Figura 4 – Área útil de fluxo em meios porosos não saturados (Adaptado de Reichardt e Timm, 2004).

Solos granulares, de textura mais grossa, apresentam condutividade hidráulica saturada tipicamente superior à de solos finos, no entanto, quando não saturados, esses materiais estão sujeitos a variações bruscas de umidade para intervalos pequenos de sucção, assim, a condutividade hidráulica também sofre uma redução acentuada. Nesta situação, solos finos podem apresentar condutividades superiores à de solos granulares, para determinados níveis de succão. Métodos para determinação experimental da condutividade hidráulica em solos saturados e da função de condutividade hidráulica em solos não saturados são descritos por Bear (1974), Lu e Likos (2004), Reichardt e Timm (2004) e Libardi (2005), por exemplo. Em função das dificuldades experimentais em se estabelecer as funções K (θ ) ou K (h) , vários pesquisadores utilizam modelos baseados na curva

característica e na permeabilidade saturada, os quais são de mais fácil determinação experimental (van Genuchten, 1980). No presente trabalho, adotou-se a formulação apresenta por van Genuchten (1980) para representar a função de condutividade hidráulica. Esta formulação emprega o modelo proposto por Mualem (1976) para previsão da condutividade hidráulica em meios porosos não saturados, baseado na distribuição estatística do tamanho dos poros. Utilizando as eqs. 9 para a representação da curva característica, van Genuchten (1980) obteve a seguinte formulação:

K

(

h

)

= K Θ

s

Onde

34

l

[

1

(

1

− Θ

1/

m

)

m

] 2

(18)

K é a permeabilidade saturada, Θ é função de h sendo dado pela eq.

s

7. O parâmetro de conectividade dos poros ( l ) foi estimado por Mualen (1976) em 0,5, sendo este valor o que melhor aproximou a função de condutividade hidráulica para uma série de diferentes materiais estudados. Esta formulação foi

deduzida considerando

m = 1

1 n
1
n

, van

Genuchten (1980). A Figura 5 ilustra a

função de condutividade hidráulica não saturada fornecida pela formulação acima.

K s h=0 CARGA DE PRESSÃO CONDUTIVIDADE HIDRÁULICA
K
s
h=0
CARGA DE PRESSÃO
CONDUTIVIDADE HIDRÁULICA

Figura 5 - Função de condutividade hidráulica.

35

2.1.5.

Equação Richards

Tomando-se um volume elementar de solo, Figura 6, de lados dx, dy e dz, a

conservação da massa nesse volume se traduz por:

( Q

entrada

Q

saída

)ρ

w

=

dM

w

dt

Q entrada

=

Q

saída

=

[q dydz

x

+

q dxdz

y

q

x

+

q

x

x

dx dydz

+

q dxdy]

z

+

 

q

y +

q

y

∂ y

y

dy dxdz

+

q

z

+

q

z

z

dz dxdy

(19)

(20)

(21)

dM w

=

ξ ρ

S

w

(

dxdydz

)

dt

dt

 

(22)

Onde ξ =V v /V [L 3 L -3 ] é a porosidade do meio (V v e V são, respectivamente,

o volume de vazios e volume total do elemento), S=V w /V v [L 3 L -3 ] é o grau de

saturação e

Substituindo as eqs. 20, 21 e 22 em 19 e desenvolvendo-se a equação

resultante, tem-se:

ρ

w

massa específica da água [ML -3 ].

q

x

x

+

q

y

y

+

q

z

z

ρ

w

= −

ξ ρ

S

w

t

(23)

Expandindo-se o segundo membro da equação:

 

q

x

x

+

q

y

y

+

z

q

z

ρ

w

= −

ξρ

w

S

t

S

ρ

w

ξ

t

ρ

ξ

w

t

S

(24)

36

36 Figura 6 - Volume elementar de solo. O termo ξρ w ∂ S ∂ t

Figura 6 - Volume elementar de solo.

O

termo

ξρ

w

S

t

está associado a variações no grau de saturação do solo,

anulando-se na saturação do mesmo. O termo

S

ρ

w

ξ

t

representa variações na

porosidade do esqueleto sólido, ou a compressibilidade do mesmo. O termo

ρ

ξ

S

w

t

representa variações na massa específica da água no tempo.

A compressibilidade do esqueleto de solo é definida por:

C s

= −

− dV V '
− dV
V
'

dσ

(25)

σ ' [MT -2 L -1 ] a tensão efetiva.

Como dV=dV s +dV v (V s é o volume de sólidos do elemento) e considerando-se as

partículas de solo incompressíveis, tem-se que dV=dV v , ou seja, a variação de volume do solo se deve exclusivamente à variação do volume de vazios do mesmo:

Onde V [L 3 ] representa o volume total e

C

s

=

dV v ∂ ξ V = − ' ' d σ ∂ σ
dV
v
∂ ξ
V
= −
'
'
d σ
∂ σ

(26)

37

w , segundo o princípio das tensões efetivas de Terzaghi para

solos saturados, onde σ [MT -2 L -1 ] é a tensão total e u w [MT -2 L -1 ] a poropressão,

dada por u

processo de fluxo:

, e admitindo-se que a tensão total não varia durante o

Como

σ

= σ '+u

w

= ρ

w

gh

C

s

ξ

= ρ

w

g

h

(27)

Analogamente a compressibilidade da água é definida por:

C

C

∂ ρ w ρ w = w ∂ u w Assim: ∂ ρ w =
ρ
w
ρ
w
=
w
u
w
Assim:
ρ
w
=
w 2
ρ
g
∂ h
w

(28)

(29)

Substituindo as eqs. 27 e 29 na eq. 24 e definindo-se o coeficiente de

, associado ao volume de água

armazenamento específico

liberado de um volume unitário de solo submetido a uma variação unitária de

carga de pressão, tem-se:

S

s

= ρ

w

g C

(

s

+ ξC

w

)

q

x

x

+

q

y

y

+

q

z

z

ξ

= −

S

t

S S

s

h

t

(30)

Como θ = ξS

e admitindo-se que não ocorrem variações volumétricas

durante o processo de fluxo

ξ

t

=

0

, tem-se:

q

q

y

q

θ

x

x

+

y

+

z

z

= −

t

S

s S

h

t

(31)

38

Aplicando a lei de Darcy-Buckingham, substituindo a eq. 16 na equação 31,

chega-se a:

x

i

H

x

j

K

ij  

(θ )

=

θ

t

+ S

s

S

h

t

(32)

Para i, j variando de 1 a 3, onde x i representa as coordenadas espaciais. Na

eq. 32 foi adotada a convenção de soma de Einstein.

A eq. 32 é a chamada equação de Richards (Libardi, 2005; Reichardt e

Timm, 2004), considerando-se os efeitos de compressibilidade da água e do

esqueleto sólido.

A equação de Richards pode ser escrita em termos da carga de pressão h, da

umidade volumétrica θ , ou numa forma mista, utilizando as duas grandezas. As

implicações dessa escolha são importantes do ponto de vista da solução numérica,

e serão comentadas mais adiante. Neste trabalho utilizou-se a equação de Richards

formulada em termos da carga de pressão.

Como em meios não saturados a umidade volumétrica e a carga de pressão

estão relacionadas entre si, então, pela regra da cadeia:

θ

t

=

(33)

θ

h

h

t

= C h

(

)

h

t

Onde C(h) [L -1 ] é chamado capacidade de retenção específica,

representando a variação da umidade volumétrica em um volume unitário de solo

para uma variação unitária na carga de pressão. Matematicamente, é a derivada da

curva característica do solo.

O tensor de condutividade hidráulica pode ser encarado tanto como função

de θ , como de h. Separando-se a carga hidráulica total em suas componentes de

pressão e de elevação tem-se:

x

i

K

ij

(

h

)

h

x

j

+ K

i

3

(

h

)

=

C

(

h

)

h

t

+ S S

s

h

t

(34)

39

(h) , dentro dos colchetes, aparece pela separação da carga

hidráulica total (H), nos seus termos: carga de pressão (h) e carga de elevação (z).

Na formulação apresentada, o efeito da fase ar no movimento da água foi

desconsiderado, simplificando o problema. O caso mais geral seria o de fluxo

bifásico água-ar, onde os movimentos de ambas as fases e conseqüentemente sua

interação, devem ser considerados simultaneamente (Nielsen et al., 1986).

A natureza transiente da equação 34 faz com que ela se apresente como um

problema de valor de contorno e valor inicial. Assim, para a sua solução, tanto

analítica, como numérica, condições de contorno e condições iniciais devem ser

introduzidas.

O termo K

i3

As condições iniciais são colocadas da seguinte forma:

h

(

x

i

,0)

= h

0

(

x

i

)

em

(35)

Onde

inicial.

As

h

0

(

x

i

)

é uma função conhecida em todo o domínio ( ) no instante

condições de contorno podem ser de dois tipos. A primeira é a de carga

de pressão prescrita, também chamada de condição de contorno de Dirichlet,

impondo-se uma restrição na variável primária, neste caso a carga de pressão:

h x

(

i

,

t

) =

h

em Γ

D

(36)

A segunda é a condição de fluxo ou velocidade prescrita, também chamada

de condição de Neumann, onde o fluxo normal a um determinado seguimento do

contorno é imposto:

K

ij

(

h

)

h

x

j

Onde

+ K

i

3

(

h

Γ = Γ

D

)

n

i

=

+ Γ

N

Q

(

x

i

,

t

)

em

Γ

N

é o contorno do problema.

(37)

40

Neuman (1973) argumenta que o efeito do armazenamento específico na

zona não saturada pode ser desprezado por ser muito menor que o termo

associado à capacidade de retenção específica. No entanto, Paniconi et al. (1991)

contrapõem que a consideração do mesmo, sendo equivalente à adoção de uma

função de capacidade de retenção específica não nula na saturação, é capaz de

acomodar efeitos de contração e expansão em solos argilosos, além de permitir a

simulação dos processos saturados e não saturados simultaneamente. Outro ponto

levantado por esses autores, é de que uma função de capacidade de retenção

específica não nula preserva o caráter parabólico da equação de Richards,

eliminando problemas que podem ocorrer quando a equação se torna elíptica na

saturação (perda do termo relativo ao tempo). Nessa situação, quando somente

condições de contorno do tipo de Neumann (vazão) são impostas, não há garantia

de solução única para o problema.

2.2.

Resistência de solos não saturados

O estado de tensões em solos não saturados difere daquele para solos

saturados ou secos. Nestes últimos, o sistema é bifásico (solo-ar ou solo-água), já

para solos não saturados, é trifásico (solo-ar-água). As mudanças nas quantidades

e, conseqüentemente, nas pressões de cada fase têm influência direta no estado de

tensões nos contatos entre partículas, afetando o comportamento macroscópico

(resistência ao cisalhamento e mudanças de volume) da massa de solo (e.g. Lu e

Likos, 2004).

Processos naturais de precipitação-infiltração-evaporação, ou processos

antropogenéticos como irrigação, mudanças de geometria ou modificações do

regime hidrogeológico, causam alterações nas fases ar e água, impactando no

estado de tensões do material e no seu comportamento.

Em solos saturados, a pressão da água é positiva e age no sentido de reduzir

a tensão atuante nas partículas. Em solos não saturados, a pressão da água é

negativa e forças de tração, resultantes da tensão superficial nos meniscos

formados entre as partículas sólidas, tendem a mantê-las unidas, Figura 2, pg. 27.

Para solos saturados é válido o princípio de tensões efetivas de Terzaghi

(e.g. Lambe e Whitman, 1969):

41

σ '= σ u

Seguindo a mesma linha, existem proposições para definição da tensão

efetiva em solos não saturados, sendo a mais conhecida a proposta por Bishop

(1959) apud Lu e Likos (2004):

(38)

w

σ

'

=

(

σ u

a

)

(

+ χ u

a

u

w

)

(39)

[ML -1 T -2 ] é a

pressão de ar e χ

saturação (de Campos, 1997).

a

sucção mátrica já definida anteriormente. O parâmetro χ é função do grau de

saturação do material, variando teoricamente entre zero (solos completamente

secos) e a unidade (solos completamente saturados).

A eq. 39 recai na eq. 38 na saturação, quando a pressão da água é superior

ou igual à do ar e admitindo-se esta última como igual pressão atmosférica (vazios

interconectados) tomada como referência (

A proposição de Bishop (1959), apesar de geral, apresenta o inconveniente

de incorporar o parâmetro χ , função não-linear do grau de saturação, do tipo e da

[-] é um parâmetro dependente do tipo de solo e do grau de

Onde σ ' , σ

e

u

w

têm o mesmo significado que na eq. 38,

u

a

A parcela (

σ u

a

)

é chamada de tensão normal líquida e (

u

a

u

w

)

é

u

a = 0)

.

história prévia de umedecimento e secagem do material (de Campos, 1997), sendo

de difícil determinação experimental (Lu e Likos, 2004).

Adotando-se o critério de ruptura de Mohr-Coulomb e incorporando-se a eq.

39, tem-se:

'

τ = c +

[(σ

u

a

)

f

+

χ(

u

a

u

w

)

f

] tan φ'

(40)

Onde c' [ML -1 T -2 ] é a coesão efetiva e φ' [-] é o ângulo de atrito interno

efetivo, parâmetros de resistência do material saturado.

(σ u

a

)

f

e

(u

a

u

w

)

f

são respectivamente a tensão normal líquida e sucção mátrica atuantes no plano de

ruptura, no instante da ruptura.

42

Seguindo outra vertente de raciocínio, Fredlund e Morgenstern (1977) demonstraram que qualquer dupla combinação das seguintes variáveis de tensão:

, pode ser usada para definir o estado de tensões

(

σ u

a

)

,

(

σ u

w

)

ou

(

u

a

u

w

)

, adotado por Bishop (1959)

para definição da tensão efetiva, é o mais simples de ser utilizado, já que uma variação na pressão intersticial da água afeta somente a sucção mátrica e o princípio das tensões efetivas de Terzaghi é restabelecido na saturação. Fredlund et al. (1978) propõem uma extensão do critério de Mohr-Coulomb para a resistência ao cisalhamento de solos não saturados:

em um solo não saturado. O par (

σ u

a

)

e

(

u

a

u

w

)

τ

= c'+(σ u )

a

f

tanφ'+(u u )

a

w

f

b

tanφ

(41)

Onde

c' ,

φ' ,

(σ u

a

)

f

e

(u

a

u

w

)

f

são

os

mesmos

definidos

anteriormente para a eq. 40. O parâmetro φ

com o aumento da sucção. Percebe-se que as equações 40 e 41 são equivalentes, com:

b

quantifica o acréscimo de resistência

b

tanφ

= χ tanφ'

(42)

Segundo de Campos (1997), na prática, a determinação de

χ

é mais

complexa que a de

avaliação da resistência ao cisalhamento de solos não saturados.

b

φ , por isso a eq. 41 é mais empregada atualmente para a

Fredlund et al. (1978) consideraram

u

a

)

seria

x(

u

a

u

um

w

)

, Figura 7.

φ b constante, assim a envoltória de

plano no espaço tridimensional de tensões

resistência

τ x(

σ

A eq. 41 pode ainda ser escrita da seguinte forma:

τ

*

= c

+

(

σ

u

a

)

f

tan

φ

'

(43)

(u

a

Onde

c

* =

c'

+

(u

a

b

u ) tanφ

w

é chamada de coesão aparente. A parcela

b

u ) tanφ

w

é parcela de coesão associada ao efeito da sucção no solo ( c" ).

43

Evidências experimentais (de Campos, 1997) demonstram que o parâmetro

φ b não é constante, mas sim uma função não-linear do grau de saturação do solo,

semelhante ao parâmetro χ . Considerando-se a eq. 42, observa-se que φ pode

variar desde valores próximos a φ' para solos saturados ou próximos da saturação,

até zero para solos secos ou próximos da umidade residual.

b

zero para solos secos ou próximos da umidade residual. b Figura 7 – Envoltória tridimensional de

Figura 7 – Envoltória tridimensional de resistência para solos não saturados (adaptado de Lu e Likos, 2004).

Existe uma correspondência direta entre a natureza não-linear da envoltória de resistência, com a forma da curva característica (e.g. Lu e Likos, 2004). Até o valor de pressão de entrada de ar, os poros se mantêm saturados e a envoltória de resistência é linear. Após a pressão de entrada de ar, a não-linearidade da resistência se torna pronunciada, correspondendo à drenagem dos poros do material. Com a dessaturação do solo, a geometria dos meniscos de água, responsáveis pelas forças de “aglutinação” entre as partículas, é modificada (Lu e Likos, 2004). Com a redução acentuada da umidade, a área de influência do menisco também se reduz, diminuindo as forças entre partículas e, conseqüentemente, o efeito de aumento de resistência do solo com o aumento de

b

sucção. Conforme o solo se aproxima da umidade residual, o ângulo φ deve se

44

Em solos residuais saturados, é comum observar-se uma não-linearidade de φ' , havendo evidências experimentais sugerindo que essa não-linearidade persiste

no estado de não saturação (de Campos, 1997). O aumento de sucção causaria aumento no valor de φ' , que poderia ser explicado por variações na estrutura do

solo, impostas pela sucção, que tenderiam a aumentar o embricamento dos grãos.

que tenderiam a aumentar o embricamento dos grãos. Figura 8 – Não linearidade de b φ

Figura 8 – Não linearidade de

b

φ

(Adaptado de Lu e Likos, 2004).

Em virtude das variações de φ' e φ a envoltória de resistência não seria um

plano no espaço tridimensional de tensões, mas sim uma superfície curva. Para contornar esse problema, em aplicações práticas como a avaliação da estabilidade de taludes, por exemplo, De Campos (1997) sugere a utilização de uma envoltória linearizada por trechos.

b

45

2.3.

Influência do fluxo em meios não-saturados na estabilidade de taludes

Processos de instabilização de taludes podem estar associados a uma série

de fatores naturais ou ocasionados pela ação do homem. De forma geral esses