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O Amor

Os Gregos Têm uma Palavra para Isso

David Roper

John Allen Chalk relata o seguinte sobre uma visita a um campus universitário:

Numa recente visita à Universidade Esta- dual de Oklahoma, uma amiga estudante me pediu para definir amor. Eu tinha acabado de participar de um devocional num dormitório. Depois do meu discurso e de um período de perguntas e respostas, aquela jovem me inquiriu em particular: “Diga-me apenas o que é amor?” Ela prosseguiu descrevendo o quadro de um romance sério com um colega da faculda- de que estava lhe fazendo exigências sexuais que a incomodavam. Apesar de tudo, ela pen- sava que aquilo poderia ser amor e, nesse caso, queria saber o que dizer para o namorado insistente. A questão era de grande importância para ela. Tinha implicações muito reais e muito imediatas. Quando recorri à descrição que o Novo Testamento faz do amor, aquela jovem tão inteligente não quis saber, e logo replicou:

“Não, não é desse tipo de amor que estou falando. O pregador da minha igreja tentou ler a mesma coisa para mim. Não, você não está entendendo”. Finalmente, consegui que ela se calasse por um tempo suficiente para que eu lesse o capítulo treze de 1 Coríntios. Mas, antes da leitura, fiz umas perguntas: “Você acredita mesmo que esse moço a ama? Você acha que é um amor maduro, adulto e duradouro que impele esse moço a fazer essas exigências a você? Preste atenção à descrição que Paulo faz do amor e veja se você pode responder essas perguntas”. Então lemos: “O amor é pa- ciente, é benigno; o amor não arde em ciúmes, não se ufana, não se ensoberbece, não se conduz inconvenientemente, não procura os seus interesses, não se exaspera, não se ressente do mal; não se alegra com a injustiça, mas regozija-se com a verdade; tudo sofre, tudo crê, tudo espera, tudo suporta”. Minha colega retirou-se sem dizer uma palavra! 1

11 John Allen Chalk, The Christian Family (“A Família Cristã”). Austin, Tex.: Sweet Publishing Co., 1971, p. 24.

O que é, afinal, isto que chamamos de “amor”? Dizemos que amamos futebol, amamos pão de queijo, ou sorvete de chocolate… ou música sertaneja ou determinado cantor. A nova geração costuma dizer: “Amei aquela calça jeans”, ou “… aquele carro”. Podemos amar morangos… di- nheiro… a mãe… e Cristo… e ir do apetite físico para a cobiça, para a afeição por entes queridos e para a devoção a Cristo num piscar de olhos. Usa- mos as expressões “morrer de amor”, “fazer amor”. Alguém definiu o “amor” como “ferida que dói sem se sentir”. O que é isto que chamamos de amor? Uma moça acaba de voltar de um encontro com um rapaz. Os olhos delas estão radiantes. Ela sus- pira: “Acho que estou apaixonada”. A mãe a contra- ria: “Você só tem quinze anos. Nem sabe o que é o amor”. Será que nós sabemos o que é o amor? Na língua portuguesa temos apenas uma palavra para amor, que usamos para descrever nossas preferências, nossos amigos e nossas paixões. Mas a língua grega, na qual o Novo Testamento foi escrito, era e é em muitos aspectos uma língua mais precisa, mais exata do que a nossa. Neste sentido, o português é como um sorvete napolitano; colocamos todos os sabores num só recipiente ou palavra. Mas os gregos geralmente tinham uma palavra diferente para cada sabor ou sentido da palavra amor. Embora o título desta lição seja “Os Gregos Têm uma Palavra para Isso”, na verdade eles tinham e têm quatro palavras para esta mesma coisa que chamamos de amor. O propósito desta lição é examinar brevemente essas quatro pala- vras como parte essencial do pano de fundo para compreendermos o que é o amor. Ao fazermos isto, reconhecemos o risco de vários perigos:

1) Gerar tédio. Fazer um estudo de palavras pode ser algo muito enfadonho, mas tentarei

mantê-lo o mais interessante possível. 2) Simplificar demais. Às vezes uma definição

é condensada demais e conclusões duvidosas são

atingidas. Por exemplo, tem se difundido a idéia de que todas essas palavras para o amor são mutua- mente exclusivas — ou que três delas são deste mundo e apenas uma é espiritual. Nenhuma dessas idéias encontra apoio no Novo Testamento. Acompanhe-me e eu tentarei evitar esses perigos 2 .

EROS: ATRAÇÃO FÍSICA A primeira palavra grega para amor é eros.

Eros é a forma nominal, ou seja, o substantivo. A forma verbal, ou seja o verbo, é ereo. Eros era usado pelos gregos denotando paixão ou forte sentimento. Poderia ser a paixão da ambição ou

a

paixão do patriotismo. Com freqüência, porém,

o

termo era usado pelos gregos com referência à

paixão física ou sexual. Por isso, definiremos eros como atração física. Não há nada de errado no amor eros (físico) em si mesmo. Alguns pensam que sexo é uma palavra suja, mas Deus, e não o diabo, fez o sexo. Deus os fez “homem e mulher” (Gênesis 1:27) e declarou que tudo o que criara era “muito bom” (Gênesis 1:31). No estado original de inocência,

Adão e Eva “estavam nus e não se envergo- nhavam” (Gênesis 2:25). No Novo Testamento,

Paulo fala de sexo como uma das bênçãos dentro do matrimônio (1 Coríntios 7:3–5). O escritor de Hebreus fala do leito matrimonial “sem mácula” (Hebreus 13:4). Cântico dos Cânticos de Salomão está repleto de detalhes explícitos do amor físico no contexto matrimonial. Ao que parece, isto tem deixado tanto judeus como cristãos desconcertados; por isso muitos estudiosos tentam expor o livro como uma alegoria do amor de Deus pelo Seu povo. Mas nada no livro indica que seja outra coisa além do que parece ser: uma bela história do amor de um homem por sua esposa. Todavia, independentemente de como se interprete o livro,

é impossível escapar do fato de que nele Deus imprime o seu selo de aprovação da relação física íntima entre marido e mulher.

12 Nestas lições, usarei muitas vezes uma palavra grega para “amor” e colocarei a palavra “amor” imedia- tamente antes. Gramaticalmente isto é incorreto porque em geral usarei a forma nominal da palavra grega como um adjetivo. Além disso, é redundante. “Amor agape” significa literalmente “amor amor”. Por que farei isto? Porque acredito que isto será útil ao processo de comunicação, ajudará o leitor ou ouvinte a entender o que quero dizer.

Convém observarmos, porém, que a Bíblia nunca trata cruamente o assunto do sexo. Na maior parte das vezes, os escritores bíblicos usam

o discreto termo “conhecer” significando ter

relações sexuais. Mas, embora Deus tenha criado a atração física e o sexo, não demorou muito para que o ideal divino fosse deturpado. John White tem um livro intitulado Eros Defiled (“Eros Corrom- pido”), com o subtítulo “O Cristão e o Pecado Se- xual”. Nele, o autor mostra que quem corrompeu

eros foi Satanás, cuja intenção sempre foi imitar

e

perverter os planos de Deus. Deus fez “homem

e

mulher”; Satanás fez “homem e homem”,

“mulher e mulher”. Deus colocou o sexo dentro do casamento; Satanás diz que não faz diferença onde, quando ou com quem. Deus fez a atração física como um meio para um fim; Satanás o tornou um fim em si mesmo. Sendo assim, como diz Charles Hodge, o ato mais privado, o maior segredo entre duas pessoas, é arrastado para o beco, a sarjeta, o curral. À época em que o Novo Testamento foi escrito, eros só possuía duas conotações. O deus grego do amor físico se chamava Eros, que corresponde ao deus romano, Cupido. A adora- ção desse deus envolvia ritos de fertilidade e prostituição disfarçada. Esse conceito de eros se reflete hoje em nossa palavra “erótico”, que na maioria das vezes possui conotações ruins. Para os gregos eros era a maior força motiva- dora e um dos maiores objetivos da vida; envolvia

a satisfação de cada desejo 3 . Alguns, como Platão, tentaram elevar Eros a um plano superior, mas ele sempre retinha o aspecto de egoísmo: “Quero isto para mim. Quero você para mim. E não estou preocupado com você”. Wendell Broom, professor associado da Uni- versidade Cristã de Abilene, elaborou suas próprias expressões para os quatro tipos de amor 4 . Ele chama eros de “amor bolo de moran-

13 Eran (infinitivo de erao) é o amor passional que deseja o outro para si mesmo. Em todas as eras, os gregos cantavam ardentes hinos ao sensualmente praze- roso e demoníaco Eros, o deus que a tudo compele mas nunca é compelido. Esse deus… tornou-se na filosofia dos templos de Platão o epítome da maior plenitude e elevação da vida.” (Stauffer, Ethelbert. “Agapaó, Agapé, Agapétos.” Em Theological Dictionary of the New Testa- ment [“Dicionário Teológico do Novo Testamento”], 1:35. Editado por Gerhard Kittel. Traduzido e editado por Geoffrey W. Bromiley. Grand Rapids, Mich.: Wm. B. Eerdmans Publishing Co., 1964.) 14 J. D. Thomas, ed. Spiritual Power (“Poder Espiritual”). Abilene, Tex.: Biblical Research Press, 1972, pp. 243–51.

gos”. Eu quero o bolo. Eu o quero tanto, que se o conseguir, vou consumi-lo sem ao menos pensar em como o bolo se sente. É exatamente assim que algumas pessoas tratam seus semelhantes. Provavelmente por causa dessas conotações ruins, a palavra eros não se encontra no texto grego do Novo Testamento. Todavia, ela é encontrada várias vezes na Septuaginta, a tradução grega do Antigo Testamento freqüentemente citada por Jesus e pelos apóstolos. Por exemplo, eros está na tradução da Septuaginta de Provérbios 7:18, onde uma prostituta faz o seguinte apelo: “Vem, embriaguemo-nos com as delícias do amor, até pela manhã”. Nesse versículo, “amor” é a tra- dução de eros. Esta é a primeira palavra grega para amor que queremos observar: eros, atração física, amor físico. Este é o tipo de amor a que nos referimos com as expressões “fazer amor” ou “morrer de amor”. Não é uma palavra ruim em si mesma, mas se for isolada dos outros tipos de amor, pode ser uma perversão vulgar e grosseira, uma zombaria do amor.

STORGE: AMOR DE FAMÍLIA Vou mencionar a segunda palavra grega para amor ainda que sucintamente. É uma palavra importante, mas não tão importante quanto as outras em função dos propósitos deste estudo. Storge é a forma nominal, ou seja o substantivo;

storgeo é a forma verbal, ou seja o verbo. Trata-se do amor ou lealdade baseada num laço de intimidade. Na literatura secular, era usado para

a lealdade a um governante ou a uma nação ou

até a um ídolo doméstico pagão. Visto que sempre

se refere aos laços familiares, vamos chamá-lo de amor de família. Wendell Broom chama esse amor de “amor da tia Maria”. Amamos tia Maria e tentamos ajudá-la, não com base na atração física (eros) dela, mas porque ela é a nossa tia Maria. Ela pode ficar velha, surda e meio-cega, mas ainda é

a nossa tia Maria. Um excelente exemplo desse

tipo de lealdade encontra-se em 2 Samuel 21:10 e 11, onde Rispa montou guarda ao lado dos corpos de seus dois filhos e outros parentes, espantando dali aves de dia e animais do campo à noite. A palavra encontra-se somente três vezes no

Novo Testamento grego. Em duas ocorrências ela está com um prefixo negativo (a + storge) e é traduzida por “sem afeição natural” (Romanos 1:31) e “desafeiçoados” (2 Timóteo 3:3). A NVI a traduz por “sem amor pela família”. Naqueles dias, isto incluiria coisas como homossexualida-

de 5 , a rejeição de filhos indesejados e o afogamento de crianças defeituosas. Hoje incluiria o aborto.

A palavra encontra-se uma vez no sentido

positivo, num composto que combina a forma verbal com filia (a próxima palavra grega a ser estudada). Essa combinação é traduzida por “amar cordialmente”: “Amai-vos cordialmente uns aos outros” (Romanos 12:10).

FILIA: AMOR DE AMIGO

A terceira palavra grega para amor é filia.

Esta é a forma nominal. A forma verbal é fileo. Uma grande variedade de palavras se baseia nestes dois radicais. Filia era a palavra mais comum para “amor” usada pelos gregos. Ela se aproxima do uso mais recente que fazemos da palavra “amor”. Tem a ver com afeição e sentimentos calorosos por alguém ou alguma coisa 6 . Era uma palavra geral. Podia ser usada para a afeição de um marido pela esposa ou para a afeição dos pais pelos filhos. Ou poderia ser usada para a afeição de um amigo por outro. Como este último uso é o mais comum no Novo Testamento, designaremos filia como “amor de amigo”. Se eu gosto de você e você gosta de mim, temos filia um pelo outro. Um dos maiores exemplos bíblicos desse tipo de amor é a amizade entre Davi e Jônatas no Antigo Testamento. O termo é usado no composto “Filadélfia”, que significa literalmente “amor de irmão” ou “amor fraternal”. É usado em “filantropia”, que significa “amor pela humanidade”…. e em Filipe, que é uma forma abreviada de filia + hippo (“amante de cavalos”)… e em “filosofia”, que se refere ao “amor pela sabedoria”. Wendell Broom chama esse tipo de amor de “amor time de boliche” 7 . Ele usa essa designação porque há uma troca mútua, um compartilhar. Em geral, baseia-se numa apreciação recíproca

15 Algumas autoridades acreditam que a palavra se refere somente, ou pelo menos basicamente, a homosse- xualidade, mas é provável que tenha um significado mais amplo do que este. 16 William Barclay tem o seguinte a dizer sobre filia e fileo: “Significam olhar para alguém com uma conside- ração afetuosa. Podem ser usadas para o amor de amigo ou para o amor de marido ou mulher. Filein [infinitivo de fileo] é melhor traduzido por estimar: inclui amor físico, mas também muito mais do que isto… Essas palavras carregam em si todo o calor da verdadeira afeição e do verdadeiro amor” (More New Testament Words [“Mais Palavras do Novo Testamento”]. Nova York: Harper & Brothers, 1958, p. 12). 17 N.T.: Se preferir, use a versão “amor time de futebol”.

que pode ser destruída se um ou outro não for recíproco. Por exemplo: digamos que você é um bom jogador de boliche, eu sou um bom jogador de boliche e nós dois somos ótimos jogadores. Gostamos de estar no mesmo time de boliche. Mas você começa a beber demais e só lança bolas na canaleta. Resultado: você é tirado do time de boliche. Por mais caloroso que seja o amor filia, ele tem suas deficiências. Embora filia seja a palavra para amor mais comumente usada na época do Novo Testamento, ela não é a mais usada no texto do Novo Testa- mento. Mas ainda é uma palavra muito impor- tante no Novo Testamento grego. Filia propriamente é usada apenas uma vez no Novo Testamento, em Tiago 4:4 onde é traduzida por “amizade”. Mas a forma verbal

fileo é usada vinte e cinco vezes, das quais vinte

e uma estão nos Evangelhos, sobretudo em João. Geralmente é traduzida por “amar”. Esta é a

palavra usada em João 11:3 quando se diz que Jesus amava Lázaro. Outra forma da palavra é filos, que se encontra vinte e nove vezes no texto do Novo Testamento

e é invariavelmente traduzida por “amigo”. João

Batista era o amigo (filos) do noivo (João 3:29). Jesus era o amigo (filos) de publicanos e pecadores (Mateus 11:19; Lucas 7:34). Jesus falou de Lázaro como Seu amigo e de Seus discípulos como Seus amigos (João 11:11; Lucas 12:4; João 15:14). Os cris- tãos devem ser amigos: “Os amigos te saúdam. Saúda os amigos, nome por nome” (3 João 15). Outra forma verbal, filein, significa estimar e geralmente se refere a uma expressão de afeição, como um beijo 8 . Provavelmente, os usos mais conhecidos de filia, porém, são quando ela é combinada com outras palavras formando palavras compostas. Filadelfia (amante do irmão) é usada em Hebreus 13:1: “Seja constante o amor fraternal”. Filo-andros (amante de homem ou do marido) e filo-teknos (amante de criança) encontram-se em Tito 2:4: “a fim de instruírem as jovens recém-casadas a amarem ao marido e a seus filhos”. Daí, algumas formas significam amante da humanidade (Tito 3:14), amante de Deus (2 Timóteo 3:14), amante dos bons [homens] e amante de estranhos, i.e., hospitaleiro (Tito 1:8).

18 A lista dos usos das várias formas da palavra filia poderia se estender mais ainda. Deve-se notar que todas as formas observadas podem ser usadas num sentido negativo: amar o prestígio (Mateus 6:5; 23:6), amar a mentira (Apocalipse 22:15), etc. Mas até nesses usos, a palavra retém a idéia de afeição e desejo.

Nunca é demais enfatizar a importância do

amor filia. Em Gênesis 2:18 Deus afirmou: “Não

é bom que o homem esteja só”. Precisamos de

amigos. Precisamos de pessoas a quem nos afeiçoemos e que se afeiçoem por nós também. Até Jesus precisou de um círculo de amigos mais íntimos. Foi assim que Deus nos fez.

AGAPE: UM ATO DE VONTADE Chegamos à quarta e mais importante palavra grega para “amor”. Hugo McCord, estudante e tradutor da Bíblia, chama esta palavra de “a mais importante da língua humana” 9 . É a palavra agape, que é a forma nominal, a forma verbal é agapao. Diferente de filia, esta palavra não era muito usada pelos falantes de grego antes de o Novo Testamento ser escrito. Nenhuma ocorrência sequer da forma nominal agape foi encontrada nos escritos seculares daqueles dias como uma palavra de uso comum 10 . A forma verbal agapao era usada com certa extensão, mas de uma forma insípida. Agapao é derivado de agamai, que significa “admirar” e parece que era esse o significado habitual de agapao entre os gregos. Quando, porém, abrimos o Novo Testamento, essa é a palavra equivalente a “amor” usada no texto original. A forma nominal encontra-se quase 120 vezes, e a verbal, mais de 130 vezes. Essa palavra é usada em João 3:16: “Porque Deus amou ao mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo o que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna”. Ela é usada em

1 João 4:8 e 16: “Deus é amor”; em 1 Coríntios 13,

o grande capítulo do amor, e nas passagens usa-

das para mostrar a supremacia e a preeminência do amor. Por que agape é a palavra principal para amor no Novo Testamento? Alguém sugeriu que Deus olhou para eros e viu que ela, em geral, tinha mais a ver com paixão do que com amor. Depois Ele olhou para storge e viu que ela era muito restrita quanto ao seu escopo, referindo-se so- mente à lealdade entre parentes. A seguir, Ele

olhou para filia e achou que essa palavra tão especial também era limitada. Era uma palavra linda que tem a ver com proximidade e afeição, mas era essencialmente para os que estavam perto e eram queridos. Ela não se aplicava nem

19 Hugo McCord, These Things Speak (“Essas Coisas Falam”), s.e., s.d., p. 127. 10 Em minhas leituras, a única referência que consegui encontrar da forma nominal foi uma deusa chamada Agape.

poderia vir a ser aplicada a todos. Então, Deus decidiu usar agape, uma palavra sem muitas características, mas que estava à espera de um significado. Ele a pegou e a transformou no âmago do cristianismo. É impossível conhecermos os processos mentais de Deus, mas o fato é que os escritores e oradores inspirados do Novo Testamento pegaram uma palavra obscura e infundiram nela um significado que ela nunca tivera antes 11 . Fizeram dela “a prin- cipal palavra do cristianismo, seu segredo mais íntimo, seu sinal externo, sua marca singular” 12 . O que é o amor para ocupar um lugar tão central no cristianismo? Embora a próxima lição, cujo título é “Amor Consistente”, se concentre em agape, incluirei aqui algumas palavras sobre esse tipo de amor. Agape não é uma palavra fácil de se definir. Num artigo sobre “amor”, a International Stan- dard Bible Encyclopedia inclui esta observação conclusiva: “Amor, seja ele usado em relação a Deus ou ao homem, é um desejo ardente e inquietante e um interesse ativo e beneficente pelo bem-estar do ser amado” 13 . Outros escri- tores, na tentativa de definir a palavra, usam expressões como “a boa vontade ativa”. Peguei em algum lugar esta definição que me agradou:

Agape é o amor por outro ser que se caracteriza pelo desejo de fazer o que é melhor para o ser amado”. Na falta de uma definição melhor, estarei usando esta nas lições desta série. Agape não é totalmente diferente dos outros amores já mencionados. Ele não é isento de emo- ção, afeição e sentimento. Faço esta observação porque ao definir agape, é fácil assumir um olhar clínico e dar à palavra um tom frio e austero. Às vezes essas palavras equivalentes a amor são usadas alternadamente 14 , especialmente filia e agape (João 11:3, 5; 13:23; 19:26; 21:20; 20:2). Por

11 Numa edição especial da revista UpReach, Harold Hazelip escreveu: “Amor, como o termo é usado no Novo Testamento, era praticamente desconhecido no mundo antigo. Não é exagero chamá-lo de uma ‘nova’ virtude. O amor tem sido chamado de a ‘descoberta’ do cristianismo” (s.d.).

12 Ibid.

13 Evans, Williams. “Love” (“Amor”). In International Standard Bible Encyclopedia (“Enciclopédia Internacional da Bíblia Standard”), 3:1932. Editado por James Orr. Grand Rapids, Mich.: Wm. B. Eerdmans Publishing Co.,

1955.

14 A possível exceção a isto é eros e agape. A Septua- ginta usa a palavra agapao para descrever o amor sexual (i.e., eros), mas Thayer, em seu léxico, diz que este uso é indevido. Hugo McCord concorda com ele (These Things Speak [“Essas Coisas Falam”], p. 129).

exemplo, a maioria concordaria que Romanos

12:10 tem um único intuito, mas o versículo utiliza três das palavras que estudamos: “Amai-vos cordialmente uns aos outros com amor fraternal, preferindo-vos em honra uns aos outros”. “Amai- vos” é tradução de uma palavra composta que inclui storge. O composto grego traduzido por “amor fraternal” inclui a palavra filia. E “pre- ferindo-vos” é uma tradução de uma forma da palavra agape.

Os oradores e escritores do Novo Testamento

pegaram as afeições e sentimentos naturais do

amor e os elevaram a um plano superior de modo que eles também se aplicassem ao que é desagradável ou impossível de se amar. Gostaria de enfatizar que agape é acima de tudo um ato de vontade.

A afirmação clássica disto é Mateus 5:44–48. Esta passagem nos diz para agapao nossos inimigos. Isto automaticamente tira agape do campo dos sentimentos calorosos que teríamos por um amigo. Por definição, um inimigo não é um amigo. Ob- serve-se também os parágrafos sobre amar somente aqueles que não nos amam e saudar somente os que nos saúdam (vv. 46, 47). Essa não é uma descrição típica do amor filia? O desafio que Jesus nos apresenta é o de subirmos acima desse nível e sermos como Deus na questão do amor. Wendell Broom chama, portanto, o amor agape de “amor chuva-sobre-justos-e-injustos”. Deus não isola pequenas áreas onde estão as pessoas boas e faz chover somente ali. Ele deixa a chuva cair sobre os maus também.

A ilustração clássica desse tipo de amor

encontra-se na história do bom samaritano (Lucas 10:29–37), que é contada para ilustrar o amor (agape) ao próximo (v. 27). Quando o samaritano olhou para o homem ferido e sangrando, não houve atração física (eros). O homem que havia sido açoitado não era um ente ou conhecido querido; os judeus e os samaritanos se odiavam (não tinham amor storge). O homem deixado à beira da estrada não era um amigo; ele não tinha nada para oferecer; não havia possibilidade de ação recíproca (filia). Qual seria a única motivação possível para o viajante ajudá-lo? Ele era um semelhante, um ser humano e o bom samaritano

disse, em outras palavras: “Por isso eu vou ajudá- lo”. Isto é amor agape.

CONCLUSÃO Para concluir, deixe-me apresentar três rá- pidos contrastes entre os quatro tipos de amor que estudamos:

Eros diz: “Estou atraído por você”. Storge diz:

“Sou seu parente”. Filia diz: “Eu realmente gosto de você”. Agape diz: “Eu te amo”. Eros se baseia nas glândulas. Storge se baseia nos laços genéticos. Filia se baseia nas emoções. Agape se baseia numa decisão, um ato de vontade. Eros diz: “Eu te amo porque estou atraído por você”. Storge diz: “Eu te amo porque somos parentes”. Filia diz: “Eu te amo porque gosto de estar com você”. Agape diz: “Eu te amo”, não “eu te amo se…” nem “eu te amor porque…”, mas simplesmente “eu te amo”. Não me entenda mal. Todas essas palavras são importantes. Para viver a vida em sua pleni- tude, precisamos de uma combinação desses tipos de amor. Mas agape é a base da nossa relação com Deus. Agape é a base de um casamento duradouro,

feliz e agradável a Deus, é a base de um lar feliz

e que agrada a Deus. Agape é o segredo de todas

as relações humanas duradouras. O desafio desta série é aprendermos a amar como Deus quer que amemos. O grande exemplo de amor agape é o Próprio Deus. Deus olhou para a terra. Não havia nada

de atraente na humanidade; eros não transmitiria

o que Ele sentiu. A humanidade havia rompido

sua relação com Deus; isto eliminava o amor storge. Filia também não era um termo adequado, pois os homens não eram amigos de Deus; na verdade, como disse Paulo, eram inimigos de Deus (Romanos 5:8–10). Deus nos amou e nos deu o Seu Filho embora fôssemos Seus inimigos. Isto é amor agape! Você não ama um Deus como esse?

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