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PSYCH

ANO 2, N 2, 1998

Revista Anual do Centro de Estudos e Pesquisa em Psican·lise da Universidade S„o Marcos

PSYCH

ANO 2, N 2, 1998 ISSN 1415-1138

Revista anual do Centro de Estudos e Pesquisa em Psican·lise da Universidade S„o Marcos

DiretoraDiretoraDiretoraDiretoraDiretora Geral:GeralGeralGeralGeral Sandra Meloni de Paula

DiretoraDiretoraDiretoraDiretoraDiretora ExExExExExecutivaecutivaecutiva:ecutivaecutiva Jacirema ClÈia Ferreira

ConselhoConselhoConselhoConselhoConselho CientÌficoCientÌficoCientÌfico:CientÌficoCientÌfico AndrÈ G. Growald, Jo„o Hilton Sayeg Siqueira, Mar- celo Perine, Maria Helena Saleme, Raquel Elisabeth Pires, Renato Mezan, Roberto Vieira

ConselhoConselhoConselhoConselhoConselho EditorialEditorialEditorial:EditorialEditorial Sandra Meloni de Paula, Jacirema ClÈia Ferreira, Maria Cristina Barbetta Mileo, Luiz Paulo Rouanet

Centro de Estudos e Pesquisa em Psican·lise Universidade S„o Marcos Rua ClÛvis Bueno de Azevedo, 176 04266-040 ó S„o Paulo ó SP Tel.: (011) 6914-4488 r. 2057 / Fax.: (011) 6163-5963 Email:psique@server.smarcos.br

CapaCapaCapa:CapaCapa Jairo Celso FFFFFotootootootooto dadadadada capa:capacapacapacapa ©Stephen Green-Armytage RRRRRevis„oevis„oevis„o:evis„oevis„o Luiz Paulo Rouanet e Marcelo Perine

PPPPProjetorojetorojetorojetorojeto gr·ficogr·ficogr·fico:gr·ficogr·fico

Simone de Castro Pinheiro Machado Marcia Cristina de S. Gomes

UNIVERSIDADEUNIVERSIDADEUNIVERSIDADEUNIVERSIDADEUNIVERSIDADE SSSSS OOOOO MARCOSMARCOSMARCOSMARCOSMARCOS

ReitorReitorReitorReitorReitor Paulo Nathanael Pereira de Souza

PrÛ-reitoresPrÛ-reitoresPrÛ-reitoresPrÛ-reitoresPrÛ-reitores Extens„oExtens„oExtens„oExtens„oExtens„o eeeee AÁıesAÁıesAÁıesAÁıesAÁıes Comunit·riasComunit·riasComunit·riasComunit·riasComunit·rias: Joaquim Pedro VillaÁa de Souza Campos GraduaÁ„oGraduaÁ„oGraduaÁ„oGraduaÁ„oGraduaÁ„o eeeee AAAAAdm.dm.dm.dm.dm. AcadÍmicaAcadÍmicaAcadÍmica:AcadÍmicaAcadÍmica Paulo SÈrgio Lopes de Ara˙jo

PÛs-PÛs-PÛs-PÛs-PÛs-GraduaÁ„oGraduaÁ„oGraduaÁ„oGraduaÁ„oGraduaÁ„o eeeee PPPPPesquisaesquisaesquisa:esquisaesquisa

Jo„o Hilton Sayeg Siqueira

Sum·rio

 

Editorial

5

PARTE I ó Artigos MotivaÁıes e ritualizaÁıes na apresentaÁ„o do material clÌnico Eduardo Boralli Rocha

9

As entrevistas ìdiagnÛsticasî em psican·lise LÈia Priszkulnik

17

Para alÈm da marginalizaÁ„o e da diabolizaÁ„o: a alternativa de Tom·s de Aquino para o prazer JosÈ Euclimar Xavier de Menezes

25

Poderia a psican·lise explicar a moral? Eduardo Dias Gontijo

39

Nota sobre a consciÍncia moral e a norma ou o ovo e a galinha Marcelo Perine

51

O

mal-estar no encontro com a feminilidade (dois fragmentos clÌnicos)

Ana Augusta W. R. Miranda

55

Neo-sexualismo e sobrevivÍncia psÌquica Paulo Roberto Ceccarelli

61

AdolescÍncia, sexualidade e subjetividade Vera Lopes Besset

71

ConsideraÁıes psicanalÌticas sobre o aconselhamento genÈtico Maria Cristina Barbetta Milleo/Maria das GraÁas da Silva Menezes

79

PARTE II ó ConferÍncias Sobre a pesquisa em psican·lise Renato Mezan

87

A

loucura como ausÍncia de cotidiano

Gilberto Safra

99

PARTE III ó Resenhas

A DORNO , Theodor W. EducaÁ„o e emancipaÁ„o

111

BARRETO, Kleber Duarte, …tica e tÈcnica no acompanhamento terapÍutico AndanÁas com Dom Quixote e Sancho PanÁa

114

ALONSO, S. L. e SIQUEIRA LEAL A. M. (org.). Freud: Um ciclo de

117

Atividades do Centro de Estudos e Pesquisa em Psican·lise da Universidade S„o Marcos

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PsychÍ ó Ano 2 ó n 2 ó S„o Paulo ó 1998

Editorial

A publicaÁ„o do segundo n˙mero da Revista PsychÍ representa para

o Centro de Estudos e Pesquisa em Psican·lise da Universidade S„o Marcos

mais uma importante conquista.

O volume e a qualidade dos trabalhos submetidos ‡ avaliaÁ„o do Con-

selho CientÌfico surpreendeu-nos favoravelmente, indicando o reconheci- mento pelo nosso empenho em constituir mais um veÌculo de difus„o e discuss„o da produÁ„o cientÌfica sobre a ampla teia da subjetividade, que possibilita m˙ltiplas aproximaÁıes.

Um dos desafios mais prementes deste final de sÈculo È o de buscar uma compreens„o mais profunda do sofrimento humano e tentar atenu·-lo em todas as suas manifestaÁıes.

Esta È a filosofia que permeia todos os projetos desenvolvidos pelo Centro, seja sob a forma de cursos de extens„o e especializaÁ„o, visando o aprimoramento da formaÁ„o de profissionais das ·reas de sa˙de fÌsica e mental, instrumentalizando-os Ètica, teÛrica e clinicamente para o exercÌ- cio digno de sua profiss„o; seja nos programas oferecidos ‡ comunidade, nos quais tentamos criar espaÁos para reflex„o sobre a condiÁ„o feminina atual, sobre as dificuldades e vitÛrias implicadas no desempenho dos dife- rentes papÈis de m„e, esposa, profissional, entre tantos.

Por tratar-se de projetos multidisciplinares, elegemos como fio con- dutor de todos eles a quest„o da melhoria da qualidade de vida, fÌsica e mental. Considerando o ser humano em sua totalidade, tentamos compre- endÍ-lo em suas in˙meras facetas e interaÁıes com o mundo.

Movidos por essa inspiraÁ„o, participamos ativamente na organiza- Á„o de dois importantes eventos na ·rea da Mastologia, onde tambÈm mar- camos presenÁa como palestrante, por meio de nossa Coordenadora CientÌ- fica: o I Encontro Internacional sobre ControvÈrsias em Mastologia e V Cur- so de AtualizaÁ„o em Mastologia do Instituto Fernandes Figueira da Funda- Á„o Oswaldo Cruz, e do SimpÛsio Internacional de AtualizaÁ„o em C‚ncer de Mama.

Essa participaÁ„o representou um importante avanÁo no sentido de afianÁar que grande n˙mero de profissionais da ·rea mÈdica j· entendem a relev‚ncia da Psican·lise para auxiliar na compreens„o e acompanhamento de diversas enfermidades e, tambÈm, para contribuir na reflex„o sobre a din‚mica instaurada entre mÈdico e paciente.

Somando esforÁos com o nosso ideal, tivemos diversos parceiros, que, ao longo deste exercÌcio, auxiliaram-nos a ampliar n„o somente nosso cam-

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Editorial

po de atuaÁ„o, como tambÈm nossa prÛpria vis„o de mundo, num regime de enriquecimento m˙tuo.

ApÛs trÍs anos de intensa atividade, durante os quais foram atendi- das quase duas centenas de pessoas, a parceria Universidade S„o Marcos/ Centro de Psican·lise e a FIOCRUZ foi renovada, possibilitando a continua- Á„o de relevantes pesquisas em andamento.

No inÌcio do ano foi firmado um convÍnio com a Bloch Editores, que vem participando e divulgando os resultados do ìProjeto Fala, Mulher!î, o qual contou com a participaÁ„o de profissionais de diversas ·reas da medi- cina ligados ao Centro de ReferÍncia da Mulher do Hospital PÈrola Byington e ‡ Faculdade Paulista de Medicina.

Prestes a encerrar o exercÌcio de 1998, estabelecemos uma parceria com a Faculdade de Sa˙de P˙blica da USP, que, contando em seu corpo docente com pesquisadores de nÌvel reconhecido pela comunidade acadÍ- mica, contribuir· de forma significativa para o avanÁo de nossos projetos nas ·reas da sa˙de fÌsica e mental.

Em termos de repercuss„o na mÌdia, os projetos do Centro de Estudos e Pesquisa em Psican·lise foram objeto de trÍs ediÁıes do programa ìTer- ceiro MilÍnioî, produzido pela Universidade S„o Marcos em parceria com a Loyola Multimidia e veiculados em rede nacional pela Rede Mulher de Tele- vis„o.

CÙnscios de que, por intermÈdio das suas v·rias atividades, a miss„o do Centro vem sendo plenamente realizada, entregamos agora ao p˙blico interessado, mais um resultado do trabalho desenvolvido ao longo deste ano.

SandraSandraSandraSandraSandra MeloniMeloniMeloniMeloniMeloni dedededede PPPPPaulaaulaaulaaulaaula

Diretora do Centro de Estudos e Pesquisa em Psican·lise Universidade S„o Marcos (SP)

PARTE I

ARTIGOS

PsychÍ ó Ano 2 ó n 2 ó S„o Paulo ó 1998

MotivaÁıes e ritualizaÁıes na apresentaÁ„o do material clÌnico*

Resumo

Eduardo Boralli Rocha

O artigo discute algumas das vari·veis motivacionais na apresentaÁ„o de material clÌ- nico, assim como a ritualizaÁ„o desse processo.

Unitermos

Material clÌnico, RitualizaÁ„o da Psican·lise, TransformaÁıes na Psican·lise.

Toda a gente que eu conheÁo e que fala comigo Nunca teve um ato ridÌculo, nunca sofreu enxovalho

Nunca foi sen„o prÌncipe ó todos eles prÌncipes ó na vida. Quem me dera ouvir de alguÈm a voz humana

N„o, s„o todos o Ideal, se os ouÁo e me falam Quem h· neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?

(

)

Fernando Pessoa, ìPoema em Linha Retaî, 1933

Q uando tornamos p˙blico um trabalho, particularmente um que envol-

va o chamado material clÌnico, uma grande quantidade de vari·veis de for- Áas formid·veis est„o em jogo. Boa parcela diz respeito, para usar uma express„o em voga, a aspectos intersubjetivos: por que publicamos, para quem publicamos, o que e como escolhemos o material a ser apresentado. As circunst‚ncias do evento certamente promovem diferentes atmosferas, abordagens e intenÁıes. Uma coisa È apresentar e discutir uma sess„o com um af·vel colega em nosso consultÛrio, outra È para um supervisor, outra ainda para o supervisor ìoficialî, para um grupo, uma platÈia (e que tipo de platÈia), uma banca de avaliaÁ„o com poder de vetar ou autorizar nosso prosseguimento em um curso e, entre outras possibilidades ainda, a publi- caÁ„o em periÛdicos de nossa ·rea profissional, local, nacional ou internaci- onal.

Freud (sempre Freud!) quando da publicaÁ„o de seus casos clÌnicos, tinha uma sÈrie de objetivos alÈm da simples narrativa do que ele havia observado e de suas conjecturas sobre o ocorrido. O mais evidente era com- provar a efic·cia da teoria e do tratamento por ele concebidos, mas havia seguramente motivaÁıes e intenÁıes polÌticas, sociais e de ìmarketingî (no que Herr Professor era mestre).

Afinal ele era o inventor e o guia intelectual de um movimento. 1

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Hoje todos sabemos que seus escritos conhecidos como ìArtigos so- bre tÈcnicaî tinham, entre outras finalidades, uma ìdedicatÛria crÌticaî a Jung e Ferenczi e suas flexibilizaÁıes do mÈtodo psicanalÌtico, o que incluÌa seus envolvimentos sexuais com pacientes.

Julia Borossa (1997) lembra que o caso do Homem dos Lobos est· intimamente ligado ‡ primeira sÈria comoÁ„o dentro do movimento psica- nalÌtico. Embora sua publicaÁ„o leve a data de 1918, o texto foi escrito por Freud quatro anos antes.

Na primeira nota de rodapÈ Freud afirma explicitamente que a histÛ- ria do caso fora concebida para desacreditar o trabalho dos inconstantes discÌpulos Jung e Adler. O criador da Psican·lise precisava rebater com vigor a virtual recusa de Jung no que dizia respeito ‡ quest„o da sexualida- de infantil. O caso do Homem dos Lobos se converteu na resposta necess·- ria. Com o conhecido talento liter·rio, Freud fez elaboraÁıes sobre a cena prim·ria e sua relaÁ„o com a sexualidade infantil.

A apresentaÁ„o de um material clÌnico tem amplitude muito mais extensa do que a mera descriÁ„o daquilo que supostamente ocorreu no consultÛrio Como lembra Ward (1997), o relato de um caso clÌnico (e os coment·rios sobre este) tem qualidades de um gÍnero liter·rio. O ìmateri- alî n„o È algo objetivo, os ìfatosî vÍm com uma etiqueta de procedÍncia teÛrica e/ou de grupo. Como afirmam Sandler e Sandler (1994): ìFatos clÌni- cos s„o as maneiras particulares nas quais organizamos os dados recebidos pelos nossos sentidosî.

Durante a apresentaÁ„o, a construÁ„o do texto e sua conduÁ„o ter„o, eventualmente, valor substancialmente maior do que a descriÁ„o do evento clÌnico. A forÁa de determinada vers„o de um caso depender·, em muito, da competÍncia estilÌstica ou sedutora do autor. O ìmaterialî pode ser o pre- texto, a alavanca do orador/autor h·bil. Isto parece-me t„o evidente como legÌtimo, mas David Tuckett (1993) alerta para uma das limitaÁıes envolvi- das nesta situaÁ„o:

ìExiste a possibilidade de que uma histÛria boa, coerente e bem contada crie o risco de seduÁ„o, o qual no contexto da comunicaÁ„o com outros pode ser resumido da seguinte forma: quanto mais uma narrativa È intelectualmente, emocionalmente e esteticamente satisfatÛria, quanto melhor ela incorpora eventos clÌnicos em padrıes ricos e sofisticados, menos espaÁo È deixado para que a audiÍncia se dÍ conta de padrıes alternativos e para elaborar narrativas alternativasî.

Evidentemente existe uma relaÁ„o do autor com seu texto e sua audi- Íncia, e desta com os primeiros. A apresentaÁ„o do material clÌnico promo-

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MotivaÁıes e ritualizaÁıes na apresentaÁ„o do material clÌnico

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ve um estado emocional em todos os presentes. Para usar a express„o de J. L. Austin (1990), a linguagem exerce uma aÁ„o sobre o ouvinte/leitor. Com quem mais nos identificamos ao ouvir a apresentaÁ„o? Com os pacientes, com o analista, com o mÈtodo empregado?

Tenho a impress„o que, via de regra, conforme a apresentaÁ„o de um material clÌnico vai se desenvolvendo, as pessoas da audiÍncia v„o mental- mente gerando falas e construÁıes alternativas ‡quelas oferecidas pelo apre- sentador, alternativas estas em sintonia com suas convicÁıes e afiliaÁıes.

Tuckett (op. cit.) elabora assim:

ìQuando ouvimos um analista contar uma estÛria clÌnica, nÛs escutamos desde

a perspectiva das idÈias que j· temos. Para complicar a situaÁ„o, entretanto,

nossas idÈias ó como as discussıes clÌnicas ir„o frequentemente testemu- nhar ó tipicamente envolvem noÁıes de justiÁa, culpa e responsabilidade retirados de nossa localizaÁ„o em nosso espaÁo cultural, social e pessoal. Quando ouvimos um colega apresentando, nossas idÈias s„o erigidas dentro dela (nossa localizaÁ„o) sem que estejamos sempre completamente atentos

a isto: nossas noÁıes de tÈcnica analÌtica apropriada e esperada, nossas cren- Áas sobre o que um analista e paciente devem estar tentando fazer juntos, e nossas teorias sobre a etiologia e o tratamento. Todos observamos calorosas discussıes onde alguns colegas sugeriram ao analista que apresentava, que ele enfatizou demais a destrutividade do paciente, outros sugeriram que ele

tem sido muito suave e em conluioî.

Ainda ponderando, em outro momento do referido artigo, afirma:

ìA facilidade com que colegas inteligentes e solÌcitos s„o capazes de sugerir maneiras completamente novas de entender o material clÌnico pode ser um dos mais estimulantes, ou alternativamente mais enfurecedores aspectos de nossa disciplinaî.

Estimulado com uma sÈrie de discussıes clÌnicas interessantes, ‡s vezes inovadoras, propus a um grupo de colegas com quem partilhava um curso de discuss„o clÌnica a criaÁ„o de um semin·rio que poderia se cha-

mar: ìTudo que fazemos em nossos consultÛrios e n„o contamos a nin- guÈmî. Todos riram e alguÈm disse: ìaÌ a gente precisa escolher sÛ amigos prÛximos para participarî. Causando uma certa surpresa, o coordenador comentou: ìeu faÁo um semin·rio assimî. Logo perguntamos se poderÌa- mos participar e ele sorrindo respondeu: ìn„o, esse semin·rio sÛ tem duas

pessoas; uma sou eu, e n„o pode entrar

Com as consideraÁıes feitas atÈ aqui, n„o È de se estranhar que mui- tos colegas, inclusive renomados e experientes analistas, n„o queiram apre-

nem sair ninguÈmî.

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sentar material clÌnico, principalmente detalhes mais apurados de seu tra- balho.

Diz Susan Budd (1997):

ìAlguns analistas experientes e respeitados n„o apenas nunca publicam, eles nunca relatam um de seus casos clÌnicos em p˙blico; eles sentem que fazer isso È trair o contrato que fizeram com seu paciente. NÛs devemos respeitar sua decis„o, e sua auto-negativa em n„o procurar o apoio e aprovaÁ„o de seus pares, embora reconhecendo que ainda assim, sempre h· um ponto onde a preocupaÁ„o com confidencialidade, ou respeito pela individualidade, pode tornar-se segredo e um desejo de ocultaÁ„o, ou o sentimento solipsÌsti- co que, de qualquer forma, ninguÈm nos entender·î.

Tuckett (op. cit.) vÍ fatores bem mundanos interferindo na apresenta- Á„o do caso, tais como a preocupaÁ„o do analista com sua posiÁ„o profissi- onal: o analista pode achar que se apresentar um manejo in·bil da sess„o, ou parecer n„o ortodoxo, ou talvez convencional em demasia, seus colegas podem perder a confianÁa nele, n„o o deixem progredir (se for candidato) ou n„o indiquem mais pacientes. David Tuckett assevera:

ìTais medos podem impedir por completo analistas de se apresentarem ou, no processo de seleÁ„o (de material) consideraÁıes sociais fazerem sombra ao critÈrio clÌnicoî.

Ele nos lembra ainda que umas das caracterÌsticas da apresentaÁ„o de vinhetas clÌnicas È que elas s„o selecionadas e editadas, n„o h· uma apresentaÁ„o detalhada do processo. Logo o leitor tem que ìpegar ou lar- garî o que È dito, n„o havendo espaÁo para se pÙr no lugar do analista e decidir, com mais informaÁıes, o que ele faria na situaÁ„o. Menciono este lembrete de Tuckett porque esta forma de editar uma sess„o pode, por exemplo, favorecer a apresentaÁ„o daquilo que pareÁa mais ìconvenienteî.

Ainda mais, Ward (op. cit.) comenta:

ìA vinheta clÌnica È oferecida para fazer a teoria ganhar vida na situaÁ„o real; de fato ela com frequÍncia tem precisamente esse efeito no leitor. Em

muitos escritos analÌticos o material clÌnico È brilhantemente descrito e ilu-

Infelizmente

minado. NÛs, leitores, podemos ficar cativados pela experiÍncia

essas apresentaÁıes tÍm profundas limitaÁıes epistemolÛgicas. Para toda interpretaÁ„o convincente de material existem outras, igualmente v·lidas,

que s„o obscurecidas pela apresentaÁ„oî.

Evidentemente tenho em vista que h· propÛsitos diferentes na apre- sentaÁ„o de material clÌnico. Uma situaÁ„o È a escolha de um caso que ser·

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MotivaÁıes e ritualizaÁıes na apresentaÁ„o do material clÌnico

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publicado ou apresentado em uma reuni„o formal com o propÛsito de ilus- trar e dar sustentaÁ„o a uma argumentaÁ„o teÛrica (ainda assim, em mui- tas ocasiıes, seria interessante ter acesso a maiores informaÁıes sobre o caso em quest„o); outra, s„o momentos em que apresentamos um caso em uma supervis„o ou em um semin·rio clÌnico, com o objetivo de sermos auxiliados na compreens„o do atendimento. Mas, como indica o tÌtulo do ensaio de Susan Budd (op. cit.): ìN„o me faÁa perguntas e eu n„o lhe conta- rei mentiras: a organizaÁ„o social dos segredosî, as coisas n„o correm sua- vemente como propostas teoricamente. Diz ela que: ìOs estudantes apren-

dem por tentativa e erro o que È apropriado de se apresentar; o que deve ser mencionado, o que pode ser deixado de foraî.

Eu acrescentaria, aprendem o que È mais ìprudenteî deixar de fora, e pelas mesmas razıes dos analistas mais experientes: desejo de admiraÁ„o dos colegas, prestÌgio institucional e profissional, indicaÁ„o de pacientes alÈm de poder seguir adiante em seu curso de formaÁ„o.

Passa a ocorrer a codificaÁ„o e padronizaÁ„o de relatos e da tÈcnica na busca de seguranÁa e aprovaÁ„o daquilo que se faz. Muitas vezes nos depa- ramos com um car·ter quase ritualÌstico de apresentaÁ„o: a vinheta clÌnica, um fragmento isolado de sess„o acompanhado de citaÁıes e consideraÁıes teÛricas que ìconfirmamî a apreens„o obtida pelo analista. Usualmente somos avisados que o paciente, ou a sess„o, È difÌcil, que tem havido alguns momentos delicados, mas com enorme frequÍncia a situaÁ„o È como a des- crita por Bion em um coment·rio auto-crÌtico sobre seu trabalho inicial:

atravÈs da ìficÁ„oî da narrativa, diz ele: ìO leitor È preparado para o triunfo

da psican·lise em contraste com os infort˙nios do pacienteî (Bion, Second

Thoughts, Karnac Books, 1967, apud Ward).

E onde est· o lugar para o novo, o inesperado, o estranho que, afinal, È supostamente matÈria de nosso ofÌcio?

Klein, Bion, Winnicott, Lacan, Kohut, Ferenczi e, claro, Freud, entre outros grandes clÌnicos que hoje s„o referÍncias obrigatÛrias da comunida- de analÌtica (tenha-se mais afinidade teÛrica com este ou com aquele) sur- preenderam, causaram polÍmicas, ‡s vezes disputas e atÈ rupturas. Mas a ousadia desses criadores geniais foi, e continua sendo, paradigma e estÌ- mulo para seguidas geraÁıes de psicanalistas. Entretanto, Otto Kernberg, em entrevista ao Jornal La Vanguardia, de Barcelona, em 2 de agosto de

1997, adverte: ìA Psican·lise tem um passado glorioso, talvez idealizado, e se confronta com uma mudanÁa acelerada junto a seu entorno cientÌfico e profissional, que n„o se pode deixar sem respostaî.

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O atual presidente da IPA prossegue afirmando que diante dos avan- Áos de outras ciÍncias, a Psican·lise ìtem se mantido como um corpo teÛri- co mais estabilizadoî e que se nos isolarmos do debate cientÌfico, cultural e acadÍmico podemos sofrer um ciclo vicioso de ceticismo, negligÍncia cultu- ral e ignor‚ncia, e conclui indicando duas alternativas: ìcontinuar uma tra- diÁ„o ou ter um desenvolvimento brilhante no futuroî.

Em outro n˙mero do Jornal La Vanguardia, publicado durante o Con- gresso da IPA em Barcelona, uma pequena nota chamou minha atenÁ„o:

ìLinchamentos no Senegal devidos ‡ crenÁa de que existem feiticeiros que roubam pÍnisî. A notÌcia proveniente de Dakar dava conta de que uma multid„o enfurecida havia linchado sete pessoas, causando a morte de uma, convencida de que estes eram ìladrıes de sexoî. Segundo a polÌcia, as cir- cunst‚ncias que provocaram os incidentes eram sempre as mesmas: al- guÈm tem um breve contato fÌsico, um aperto de m„os ou um esbarr„o involunt·rio com um estranho e imediatamente comeÁa a gritar que seu pÍnis est· encolhendo. Os transeuntes prÛximos agarram o suposto ìladr„o de Ûrg„os sexuaisî, em geral um estrangeiro e o espancam sem a menor piedade. O psicÛlogo senegalÍs Serigne Mor Mbaye atribui esses lincha- mentos ao ìmedo de castraÁ„oî e os associa a ìuma perda de identidade em um mundo cada vez mais complexoî (grifos meus).

Ronald Britton, em seu Ûtimo artigo no instigante livro The presenta-

tion of case material in clinical discourse (1997) estabelece relaÁıes entre a

identidade do autor psicanalista, a situaÁ„o edipiana e a ansiedade de pu- blicar. Na p·gina 17 ele faz a seguinte elaboraÁ„o:

ìDentro de nossa disciplina a press„o para integrar as teorias de diferentes escolas de pensamento psicanalÌtico significa que estamos em um perÌodo caracterizado pela desestabilizaÁ„o de paradigmas psicanalÌticos antes con- fiantemente sustentados. Neste ponto do ciclo 2 o escritor cientÌfico teme que sua publicaÁ„o possa arruinar a autoridade dos guardi„es do paradigma, e desmoralizar seus afiliados (ansiedade depressiva), ou ele pode temer a ira dos guardi„es e seu exÌlio de seus afiliados (ansiedade persecutÛria)î.

Neste momento complexo em que n„o h· um modelo hegemÙnico a nos garantir (por meio da repetiÁ„o), em que as mais diversas construÁıes teÛricas tÍm sido feitas, confrontadas, provocando toda sorte de polÍmica, apresentarmo-nos buscando evitar a ritualizaÁ„o, ousando tentar algo cria- tivo, de contato com o inusitado, seguramente promove turbulentas ansie- dades. Mas n„o podemos prescindir desse exercÌcio. Tornar p˙blico È a maneira de expressar o que fazemos e como pensamos este ofÌcio, expon- do-nos ‡s crÌticas de nossos colegas e contribuindo para a construÁ„o de um patrimÙnio psicanalÌtico.

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Precisamos tentar n„o nos deixar assustar como nossos amigos afri- canos.

Notas

* AgradeÁo a Adriana de Magalh„es Boralli Rocha por seus coment·rios e sugestıes.

1 Para um eloquente exemplo da notÛria inter-relaÁ„o de afeto e intelecto no meio psicanalÌtico È oportuno lembrar a carta de Jung a Freud, datada de 11 de abril de 1907 (apud Borossa 1997, pg. 50): ìCom sua ajuda eu pude chegar a ver profundamente as coisas, mas ainda estou longe de vÍ-las claramente. Ainda assim, tenho o sentimento de ter feito consider·vel progresso interno desde que conheci sua personalidade; parece-me que alguÈm nunca poder· realmente compreender sua ciÍn- cia, a menos que o conheÁa pessoalmente. Onde tanto ainda permanece obscuro, somente a fÈ pode ajudar; mas a melhor e mais eficiente fÈ È o conhecimento de sua personalidadeî.

2 Britton est· fazendo uso da descriÁ„o de Kuhn (1962) das diferentes fases do desenvolvimento de um ciclo cientÌfico.

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Eduardo Boralli Rocha

MotivationsMotivationsMotivationsMotivationsMotivations andandandandand ritualsritualsritualsritualsrituals withinwithinwithinwithinwithin thethethethethe presentationpresentationpresentationpresentationpresentation ofofofofof clinicalclinicalclinicalclinicalclinical materialmaterialmaterialmaterialmaterial

Abstract

This article discusses some of the variables motivating the presentation of any specific

clinical material, as well as the rituals involved in the process.

Uniterms

Clinical material, ritual in psychoanalysis, changes in psychoanalysis.

EduardoEduardoEduardoEduardoEduardo BoralliBoralliBoralliBoralliBoralli RochaRochaRochaRochaRocha

Mestre em Psicologia ClÌnica pela PUC-SP Supervisor da ClÌnica PsicolÛgica da UNIP

PsychÍ ó Ano 2 ó n 2 ó S„o Paulo ó 1998

As entrevistas diagnÛsticas em Psican·lise

Resumo

LÈia Priszkulnik

O artigo visa precisar o diagnÛstico para a Psican·lise por meio das chamadas entrevis- tas diagnÛsticas. Para delimitar o campo de atuaÁ„o do psicanalista, procura mostrar a

diferenÁa entre a clÌnica mÈdica e a clÌnica psicanalÌtica, os ìinstrumentosî que s„o usados na clÌnica psicanalÌtica e os referenciais peculiares que balizam o trabalho diag- nÛstico.

Unitermos

Psican·lise, discurso psicanalÌtico, clÌnica psicanalÌtica, pr·tica clÌnica, diagnÛstico.

F reud trilha v·rios caminhos antes de comeÁar seu trabalho em consul-

tÛrio como especialista em doenÁas nervosas. Atua como pesquisador em laboratÛrios de fisiologia e de anatomia cerebral, trabalha no Hospital Geral de Viena, estuda com Charcot em Paris e tem acesso a suas investigaÁıes sobre a histeria. De volta a Viena, ao se apresentar perante a Sociedade de Medicina para relatar o que vira e aprendera com Charcot, È recebido com muitas reservas pelas autoridades mÈdicas de l·. Resolve, ent„o, afastar-se da vida acadÍmica e das sociedades eruditas e volta-se para seu consultÛ- rio.

Para tratar de seus pacientes nervosos, Freud 1 sabe que precisa ser capaz de fazer algo para ajud·-los, mas seu arsenal terapÍutico conta sÛ com a eletroterapia e o hipnotismo. Em relaÁ„o ‡ primeira, decepciona-se com os resultados e pıe de lado seu aparelho elÈtrico. Em relaÁ„o ao segun- do, comeÁa a empreg·-lo de outra maneira que a usual pois, alÈm de meras ordens ou proibiÁıes sugestivas, formula perguntas ao paciente sobre a origem de seus sintomas.

Freud, ent„o, nos seus primeiros anos de atividade como mÈdico, tem

como principal instrumento de trabalho a sugest„o hipnÛtica, ì

mÈtodos psicoterapÍuticos aleatÛrios e n„o sistem·ticosî 2 , o que o leva a

afora os

abandonar o tratamento de doenÁas nervosas org‚nicas. Seu interesse em aprender algo sobre a origem das manifestaÁıes que vinha lutando para eliminar, cria as condiÁıes para ele empreender sua pesquisa cientÌfica e, com isso, inaugurar a Psican·lise.

Com suas proposiÁıes, a Psican·lise faz emergir um modelo de clÌnica bem peculiar, onde o diagnÛstico e o tratamento s„o abordados dentro de referenciais muito prÛprios. Freud comeÁa seu trabalho utilizando a lingua- gem mÈdica, mas aos poucos se afasta e constrÛi um sistema conceitual

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LÈia Priszkulnik

que fundamenta a constituiÁ„o do saber psicanalÌtico e da clÌnica psicanalÌ- tica. N„o parte de experiÍncias de laboratÛrio, mas do trabalho terapÍutico

e da pr·tica clÌnica.

As investigaÁıes freudianas s„o empreendidas no contato com seus pacientes, que, por sua vez, possibilitam inaugurar um novo tipo de trata- mento e construir um corpo teÛrico que sai do domÌnio mÈdico para ques- tıes do funcionamento psÌquico. A dimens„o da pesquisa (procedimento de investigaÁ„o) d· origem ‡ dimens„o do tratamento (mÈtodo baseado na in- vestigaÁ„o) e, estas duas, ‡ dimens„o do corpo teÛrico (disciplina cientÌfica). Birman 3 , refletindo sobre a posiÁ„o da clÌnica no discurso freudiano, subli- nha que ìo procedimento de investigaÁ„o È o eixo fundador do campo psi- canalÌtico, sustentando tanto o mÈtodo de curar quanto o discurso teÛricoî. Assim, a Psican·lise nasce de um pr·tica que gera uma teoria, mas a teoria pretende dar conta do que acontece no processo de investigaÁ„o e nos seus efeitos terapÍuticos. Nasce e subverte a concepÁ„o mesma de clÌnica, con- cepÁ„o ainda muito ligada a uma pr·tica especÌfica, a da Medicina.

A clÌnica mÈdica para chegar ao diagnÛstico, ao reconhecimento de

determinada doenÁa, segue um itiner·rio rigoroso. Marcondes et al. 4 , enfa-

tizando a necessidade de consideraÁıes etiopatogÍnicas, fisiopatolÛgicas e clÌnicas, descreve os passos a serem seguidos que, esquematicamente, s„o:

1) a observaÁ„o clÌnica que È constituÌda pela identificaÁ„o, anam- nese, interrogatÛrio sobre os diferentes aparelhos, antecedentes pessoais e antecedentes heredit·rios e familiares;

o exame fÌsico minucioso e sistem·tico do doente para a comple-

mentaÁ„o da observaÁ„o clÌnica;

2)

3) os exames subsidi·rios adequados, quando necess·rios.

Esses passos est„o estabelecidos, previamente, pelo saber mÈdico com

o objetivo de guiar o profissional a elaborar um diagnÛstico objetivo, que permita indicar o tratamento mais eficaz. No diagnÛstico, a definiÁ„o da doenÁa se d· a partir da perspectiva do mÈdico, perspectiva objetiva em relaÁ„o ao paciente.

A capacitaÁ„o tÈcnico-cientÌfica do mÈdico assume o primeiro plano

no desempenho clÌnico. Assim, quando alguÈm vai a uma consulta e est· sentindo algo, esse algo tem que ser org‚nico, passÌvel de uma apreens„o objetiva e, de preferÍncia, quantific·vel. A tÈcnica acaba enfatizando a ver- tente objetiva da doenÁa e colocando entre o mÈdico e o paciente v·rios aparelhos e muitos resultados de exames.

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As entrevistas ìdiagnÛsticasî em psican·lise

Ao diagnosticar, o mÈdico opera mentalmente um corte nos dados trazidos pelo paciente, tendo como eixo a idÈia de que alguns sintomas s„o essenciais e definidores da doenÁa, enquanto outros s„o secund·rios, pois, sÛ assim, a indicaÁ„o da terapÍutica produzir· o efeito desejado e trar· bons resultados, ou seja, a cura da doenÁa, o alÌvio r·pido, a eliminaÁ„o dos sintomas, a restituiÁ„o da sa˙de anterior ‡ doenÁa. Como a Medicina cien- tÌfica est· diretamente ligada a pesquisas desenvolvidas em laboratÛrios experimentais, os conhecimentos aplicados na clÌnica s„o exteriores ao prÛ- prio campo clÌnico.

Esse paradigma da clÌnica mÈdica È, frequentemente, considerado o paradigma quando se pensa na experiÍncia clÌnica como forma de conheci- mento. Consequentemente, ao se fazer referÍncia a diagnÛstico clÌnico e tratamento clÌnico, n„o se pode esquecer a acepÁ„o mÈdica das expressıes, porque o esquecimento poder· criar dificuldades ou complicaÁıes no mo- mento de tentar pensar em clÌnica numa configuraÁ„o diferente da estabe- lecida pela Medicina, como a Psican·lise inaugura.

Para a clÌnica psicanalÌtica, a doenÁa tem um sentido para quem so- fre, sentido que est· afastado da consciÍncia, e que est· inserido na trama de uma histÛria marcada pelo desejo inconsciente do sujeito. Para buscar ou decifrar o sentido, o psicanalista n„o submete a pessoa a uma observa- Á„o clÌnica, a um exame corporal ou indica exames subsidi·rios, mas pede- lhe que fale de si mesmo sem censura ou crÌtica (associaÁ„o livre); diante do relato, procura escutar o material que est· sendo trazido, sem privilegiar a priori qualquer elemento do discurso. Caracteriza-se, ent„o, pelo fato de ser n„o diretiva, de n„o fazer uso de qualquer instrumento e de se limitar ‡ dÌade falar/escutar, estritamente. O objetivo, ent„o, n„o È eliminar o sinto- ma porque ele tem um sentido rigorosamente subjetivo e È portador de uma verdade que precisa ser revelada.

Assim, a clÌnica psicanalÌtica tem uma acepÁ„o muito peculiar do que seja o diagnÛstico. Ele n„o È feito de maneira objetiva, ou seja, a pessoa tem tais sintomas, ent„o, tem determinada doenÁa. Ele n„o aponta simples e diretamente a interpretaÁ„o analÌtica a ser feita, ou melhor, ele n„o d·, prontamente, sustentaÁ„o para a atuaÁ„o do profissional. Deve ser estabe- lecido, para determinar a direÁ„o do tratamento, dentro do espaÁo analÌtico

e tratamento coincidemî como Freud 5

afirma; outro ponto que sobressai da coincidÍncia acima mencionada, È que

o diagnÛstico deve ser preliminar, pois È quase impossÌvel defini-lo (fech·-

e na transferÍncia, j· que ì

pesquisa

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lo) sem um certo tempo de an·lise (tratamento). Deve levar em considera- Á„o o que provÈm estritamente da pesquisa e do tratamento, porque ìos casos mais bem sucedidos s„o aqueles em que se avanÁa, por assim dizer,

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LÈia Priszkulnik

sem qualquer intuito em vista, em que se permite ser tomado de surpresa por qualquer nova reviravolta neles, e sempre se os enfrenta com liberda- de, sem quaisquer pressuposiÁıesî, segundo as prÛprias palavras de Freud 6 . Coordenadas externas, noÁıes de valor geral e previsıes s„o exigÍncias da pesquisa objetiva do mÈtodo cientÌfico, mas n„o da Psican·lise.

… preciso, no entanto, estabelecer o diagnÛstico, mesmo o preliminar.

O profissional precisa de certos elementos para balizar seu trabalho. Freud 7

utiliza-se de um perÌodo de tempo de uma ou duas semanas para empreen- der uma ìsondagemî com o intuito de conhecer o caso e decidir se ele È

apropriado para a an·lise, porÈm ì

È ele prÛprio, o inÌcio de uma Psican·lise e deve conformar-se ‡s regras

desta; pode-se talvez fazer a distinÁ„o de que, nele, deixa-se o paciente falar quase todo o tempo e n„o se explica nada mais do que o absolutamen-

te necess·rio para fazÍ-lo prosseguir no que est· dizendoî. Entretanto, exis-

tem tambÈm razıes diagnÛsticas para essa fase preliminar, ou seja, a do diagnÛstico diferencial entre a neurose e a psicose.

Assim, a fase preliminar constitui um espaÁo privilegiado para o esta- belecimento do diagnÛstico preliminar porque, como acentua Freud 8 , ì ne-

nhum outro tipo de exame preliminar

A fase preliminar freudiana corresponde ‡s entrevistas preliminares

para Lacan. Pelas suas observaÁıes rigorosas, pode-se fazer o diagnÛstico

diferencial estrutural, ou seja, ì

modos de negaÁ„o do …dipo ó negaÁ„o da castraÁ„o do Outro ó corres-

pondentes ‡s trÍs estruturas clÌnicas

a forclus„o do psicÛticoî, como sublinha Quinet 9 .

AlÈm do diagnÛstico diferencial entre neurose e psicose, as entrevistas pre-

liminares servem para o diagnÛstico diferencial entre histeria e obsess„o,

ou seja, ì

ultrapassar o plano das estruturas clÌnicas (psicose, neurose e pervers„o) para se chegar ao plano dos tipos clÌnicos (histeria e obsess„o), ainda que ën„o sem hesitaÁ„oí, para que o analista possa estabelecer a estratÈgia da direÁ„o da an·lise sem a qual ela fica desgovernadaî 10 .

Apesar de que nas entrevistas preliminares as regras analÌticas de- vem ser obedecidas, n„o se pode esquecer que essas entrevistas s„o tam- bÈm diferentes da an·lise. Quinet 11 afirma que ìa associaÁ„o livre mantÈm a identificaÁ„o das entrevistas preliminares com a an·liseî, mas ìesse tem- po de diagnÛstico faz com que se distinga entrevistas preliminares da an·- liseî.

importante, ent„o, no que diz respeito ‡ direÁ„o da an·lise,

mentido do perverso

o des-

por meio dos trÍs

experimento preliminar, contudo,

esse

encontra-se ‡ nossa disposiÁ„oî.

a partir do simbÛlico

o recalque do neurÛtico

È

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As entrevistas ìdiagnÛsticasî em psican·lise

Quando alguÈm chega e pede ajuda para acabar com seu sofrimento, esse pedido por si sÛ n„o basta. ì… preciso que essa queixa se transforme numa demanda endereÁada ‡quele analista e que o sintoma passe do esta- tuto de resposta ao estatuto de quest„o para o sujeito, para que este seja instigado a decifr·-loî, como bem observa Quinet 12 . A queixa-sintoma pre- cisa se transformar em sintoma-enigma para que o sintoma se torne pro- priamente analÌtico.

Diante de alguÈm que vem buscar uma resposta pronta de um profis- sional sobre a raz„o de seu sofrimento, o analista n„o sÛ n„o d· a resposta, como transforma a resposta pedida em quest„o para o sujeito. Pedindo para

a pessoa falar livremente (associaÁ„o livre), porque sÛ conta com a escuta

do relato como ìrecurso tÈcnicoî, procura pela singularidade subjetiva da- quele que fala.

Assim, o que realmente acontece entre o analista e a pessoa È ì que conversam entre siî como escreve Freud 13 . Pode parecer que pouco aconte-

ce entre eles, mas ì n„o desprezemos a palavra; afinal de contas, ela È um

instrumento poderoso; È o meio pelo qual transmitimos nossos sentimentos

a outros, nosso mÈtodo de influenciar outras pessoas; as palavras podem

fazer um bem indizÌvel e causar terrÌveis feridasî 14 . A pessoa precisa falar com sinceridade, sem censura sobre qualquer informaÁ„o ou lembranÁa,

a exigÍncia feita pela

falar de si e de suas intimidades. Se a pessoa ì

an·lise de que dir· tudo, facilmente se tornar· acessÌvel a uma expectativa de que ter relaÁıes e trocas de pensamento com alguÈm sob condiÁıes inusitadas talvez possa tambÈm levar a resultados inusitadosî 15 . Em rela- Á„o ao analista, este precisa ouvir o relato da pessoa tambÈm sem censura,

tem a obrigaÁ„o ì

prio, da recepÁ„o sem preconceitos do material analÌticoî 16 .

tornar-se capaz, por uma profunda an·lise dele prÛ-

aceita

de

21

O uso da associaÁ„o livre permite que a pessoa fale mais do que sabe,

È apenas o que ele sabe e

esconde de outras pessoas; ele deve dizer-nos tambÈm o que no sabeî,

como sublinha Freud 17 . … importante que o paciente se comprometa a obe-

dizer-nos n„o apenas

o que pode dizer intencionalmente e de boa vontade, coisa que lhe propor-

cionar· um alÌvio semelhante ao de uma confiss„o, mas tambÈm tudo o mais que a sua auto-observaÁ„o lhe fornece, tudo o que lhe vem ‡ cabeÁa, mesmo que seja desagrad·vel dizÍ-lo, mesmo que lhe pareÁa sem impor- t‚ncia ou realmente absurdo; se, depois dessa injunÁ„o, conseguir pÙr sua autocrÌtica fora de aÁ„o, nos apresentar· uma massa de material ó pensa- mentos, idÈias, lembranÁas ó que j· est„o sujeitos ‡ influÍncia do incons- cienteî 18 , inconsciente reconhecÌvel por seus efeitos.

decer ‡ regra fundamental de tudo dizer; ele ì

pois o que se deseja ouvir do paciente ì

n„o

deve

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LÈia Priszkulnik

No desenvolvimento de seus trabalhos, Freud separa-se do discurso mÈdico e da clÌnica mÈdica, questiona a origem exclusivamente org‚nica das neuroses e das psicoses, estuda os processos mentais inconscientes, contesta a primazia da consciÍncia. Inaugura um novo espaÁo clÌnico onde as palavras daquele que sofre s„o levadas muito a sÈrio, onde as queixas s„o escutadas e n„o objetivamente observadas ou quantificadas. Esse novo espaÁo clÌnico configura a clÌnica psicanalÌtica onde aparece uma maneira peculiar de escutar o sujeito, maneira que temos a oportunidade de ver funcionar nos famosos casos clÌnicos da obra freudiana.

 

Notas

1

FREUD 4.

2

FREUD 4, p. 28.

3

BIRMAN 1, p. 138.

4 MARCONDES 7, p. 3-7.

 

5 FREUD 2, p. 152.

6 FREUD 2, p. 153.

7 FREUD 3, p. 165.

8 FREUD 3, p. 165.

9 QUINET 8, p. 23.

10 QUINET 8, p. 27.

11 QUINET 8, p. 19.

12 QUINET 8, p. 20-21.

13 FREUD 5, p. 213.

14 FREUD 5, p. 214.

15 FREUD 5, p. 215.

16 FREUD 5, p. 250.

17 FREUD 6, p. 201.

18 FREUD 6, p. 201.

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As entrevistas ìdiagnÛsticasî em psican·lise

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condiÁıes da an·lise . Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 1991. DiagnosticDiagnosticDiagnosticDiagnosticDiagnostic

DiagnosticDiagnosticDiagnosticDiagnosticDiagnostic interinterinterinterinterviewsviewsviewsviewsviews ininininin PPPPPsychoanalysissychoanalysissychoanalysissychoanalysissychoanalysis

Abstract

This article aims to define the diagnostic in Psychoanalysis through diagnostic intervi-

ews. In order to restrict the psychoanalystís field of action, she tries to establish the diference between the medical and psychoanalytic clinic in terms of the ìtoolsî used in the psychoanalytic clinic and the peculiar basis which supports the diagnostic work.

Uniterms

Psychoanalysis, psychoanalytical speech, psychoanalytic clinic, clinical practice, diag- nostic.

LÈiaLÈiaLÈiaLÈiaLÈia PPPPPriszkriszkriszkriszkriszkulnikulnikulnikulnikulnik

Profa. Dra. do Departamento de Psicologia ClÌnica do Instituto de Psicologia da USP. Docente e orientadora do Programa de PÛs-GraduaÁ„o em Psic. ClÌnica do IP - USP. PsicÛloga clÌnica. Psicanalista.

PsychÍ ó Ano 2 ó n 2 ó S„o Paulo ó 1998

Para alÈm da marginalizaÁ„o e da diabolizaÁ„o:

a alternativa de Tom·s de Aquino para o prazer

Resumo

JosÈ Euclimar Xavier de Menezes

LÍ-se com muita frequÍncia, que a Idade MÈdia È produtora de crendices, obscuridades e toda sorte de ignor‚ncias. Nesse contexto, a repress„o teria voz ativa, sobretudo quando voltada para a vida sexual. Em contrapartida, no perÌodo pÛs-psican·lise, terÌamos uma tendÍncia ‡ desrepress„o. Ser· essa leitura sustentada pela totalidade dos autores medievais? N„o se comete generalizaÁıes demasiadas com ela, a ponto de se perder uma fonte nutridora da cultura que perpassa a reflex„o psicolÛgica a propÛsito da com- plexidade da vida humana, cuja trama aparece no div„, na transferÍncia, na associaÁ„o livre, nos discursos da clÌnica analÌtica? O propÛsito do artigo È problematizar esses elementos.

Unitermos

MetafÌsica, metapsicologia, histÛria do prazer, corpo/alma, epistemologia.

As mais elevadas de todas, enfim, s„o as almas humanas, que se parecem com as subst‚ncias espirituais no sentido de poderem conhecer o imaterial; mas distinguem-se delas por terem de partir das coisas sensÌveis.

Tom·s de Aquino. Suma TeolÛgica. 76, 2

Um espectro contempor‚neo

bastante corrente, apÛs Reich 1 e Marcuse 2 (dentre outros), a idÈia de

que a desrepress„o sexual È uma exigÍncia para o homem contempor‚neo 3 .

A histÛria do ocidente, segundo essas tendÍncias, teria o timbre da intole-

r‚ncia sobre a sexualidade e sua sem‚ntica. Talvez, mais que isso: estarÌa-

mos marcados por uma atitude de marginalizaÁ„o do prazer sexual, porque

o mais intenso (e propenso ao descontrole) entre aqueles propiciados pelo

corpo, que na sua vers„o mais radical receberia o timbre de diabolizaÁ„o

nos idos medievais 4 .

A ìhipÛtese repressivaî foi questionada de modo h·bil por Foucault no erudito ìA vontade de Saberî de sua HistÛria da Sexualidade 5 . Ele sus- tenta que, ao contr·rio do que se diz categoricamente a respeito da repres- s„o sexual no Ocidente sob a influÍncia da psican·lise (esta ˙ltima justifi- cando seu lugar entre saberes e pr·ticas), o que se pode verificar È que a sociedade vitoriana em nada foi repressiva. Toda a argumentaÁ„o foucaulti- ana È entabulada para destituir a ìhipÛtese repressivaî do seu car·ter axi- om·tico. H· muito mais engodo nessa hipÛtese do que possam imaginar as nossas ìv„s psicologiasî

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JosÈ Euclimar Xavier de Menezes

N„o È meu interesse aqui verificar se Foucault teve Íxito ou n„o no seu empreendimento. A repercuss„o do trabalho do autor È imensa, e so- mente isto vale para indicar que, em termos de aceitaÁ„o pacÌfica de certos axiomas, Foucault nos permite realizar recuos para olhar com mais cuidado certos ditos, via de regra aceitos como verdades. O que resulta desses recu- os È sempre um questionamento que nos permite abrir trilhas mais prÛxi- mas das histÛrias: do corpo, do prazer, da sexualidade, das condutas, das relaÁıes, do pecado, da loucura, etc.

Esse movimento de Foucault È o referencial (invisÌvel do ponto de vista da formulaÁ„o) que aqui usarei. Desejo saber se a Idade MÈdia foi, em sua absoluta totalidade, negativa em relaÁ„o ao prazer em geral, deixando para outro momento a quest„o do adjetivo sexual. Antes, vejamos o subs- tantivo. Tentarei realizar esse desejo por meio da referÍncia mais iluminada do perÌodo medieval, Santo Tom·s de Aquino. Isolarei, da sua gigantesca Suma TeolÛgica, a quest„o que versa sobre o prazer, traduÁ„o laica do que na terminologia tomista È nomeado por ìDelectaÁ„oî.

Santo Tom·s tem uma concepÁ„o negativa do prazer?

Primeiramente indaguemos: 1. Por que ler o Tratado da DelectaÁo de um medieval quando dispomos hoje, na contemporaneidade, da ìTeoria do Prazerî da Psican·lise? 2. Como ler um medieval sem forÁar seu texto, dele extraindo elementos que enriqueÁam as concepÁıes modernas? 3. O que, do ponto de vista teÛrico, podemos, os psicÛlogos, psicanalistas, psico- terapeutas ganhar com o di·logo entre teologia e psicologia a propÛsito de um conte˙do como o prazer?

Sem d˙vida trata-se de questıes problem·ticas. As possÌveis respos- tas para elas ficar„o a cargo do leitor. O que pretendo È: 1. Rastrear uma concepÁ„o religiosa e medieval a propÛsito do prazer, num texto bem espe-

cÌfico da Suma TeolÛgica, O Tratado da DelectaÁ„o; 2. Apontar alguns ele-

mentos da concepÁ„o freudiana de prazer, que possam construir um di·lo-

go entre concepÁıes t„o

distantes. Tentemos.

O quÍ cabe a quem?

A primeira quest„o que desponta neste di·logo È a seguinte: È possÌ- vel entabular uma conversa profÌcua entre metafÌsico e metapsicÛlogo, en- tre Santo Tom·s e Freud? O segundo j· n„o superou o primeiro? Este n„o habita a idade das trevas, ao passo que aquele outro È contumaz do ìnosso Deus Logosî, padroeiro do espÌrito cientÌfico, iluminador de todas as mec‚-

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Para alÈm da marginalizaÁ„o e da diabolizaÁ„o: a alternativa de Tom·s de Aquino para o prazer

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nicas, inclusive aquelas do corpo e da alma? A metapsicologia n„o expressa a superaÁ„o da perspectiva metafÌsica sobre o prazer? Em outras palavras:

em Freud j· n„o est· a totalidade performativa de nossa clÌnica? Por que ler um medieval tratando de uma quest„o como o prazer?

ìO intelecto teÛrico ou especulativo se distingue propriamente do operativo ou pr·tico nisto: o especulativo tem por fim a verdade que considera, o pr·- tico, por seu lado, ordena a verdade considerada para o seu fim prÛprio, a operaÁ„o. … por isso que o filÛsofo diz no III Livro do Tratado Sobre a Alma que diferem entre si pelo fim, e no II da MetafÌsica diz que o fim da ciÍncia especulativa È a verdade, e o fim da operativa È a aÁ„oî.

O trecho acima È extraÌdo da ExposiÁ„o sobre o livro da Natureza de

BoÈcio, cujo autor È Tom·s de Aquino. Nele o intelecto manifesta-se em suas funÁıes, teÛrica e praticamente, isto È, h· uma sÛ origem das funÁıes do conhecimento humano: o prÛprio intelecto. Dele emergem as inclina- Áıes especulativa e pr·tica. O que distingue tais funÁıes n„o È a origem, mas o fim visado, a saber, o intelecto teÛrico visa o conhecer puro e o pr·ti- co visa a aÁ„o.

O que pretendemos relevar com esta alus„o ao belo texto de juventu-

de de Santo Tom·s È o quanto a quest„o da divis„o da ciÍncia È complexa e antiga (alÈm de polÍmica), e como ele opera uma distinÁ„o que permite estabelecer um ponto convergente entre elas. Em outras palavras, uma divis„o implica em distinÁ„o, a fim de que n„o se proceda na investigaÁ„o cientÌfica cometendo confusıes. Mas tal divis„o n„o implica em separaÁ„o e isolamento absolutos dos saberes. Menos ainda em anulaÁ„o de um pelo surgimento de outro em tempo mais recente. Certamente as ciÍncias tÍm suas especificidades, fato que as distingue uma das outras. Mas tambÈm tÍm seu ponto de convergÍncia, o intelecto, onde tÍm sua origem. Em ou- tras palavras, metafÌsica e metapsicologia s„o origin·rias do intelegere hu-

mano, essa competÍncia de penetraÁ„o na intimidade das coisas. Em prin- cÌpio, ambas comungam esse lugar de nascenÁa, que È o prÛprio intelecto humano.

De outro lado, n„o se pode colocar sob o tapete, por exemplo, o modo muito especÌfico que permite a Freud manejar conte˙dos na construÁ„o da sua metapsicologia, cujos conte˙dos s„o tradicionalmente do domÌnio da filosofia. Essa especificidade È um fato que o distancia significativamente da perspectiva metafÌsica. AtÈ mesmo o opıe a ela 6 .

Observe-se a lapidaÁ„o freudiana dos conceitos de projeÁ„o, sublima- Á„o, ang˙stia, repress„o etc, assim como as suas crÌticas da religi„o e da

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JosÈ Euclimar Xavier de Menezes

cultura. Uma r·pida mirada permitir· ver que, no nÌvel sem‚ntico, j· en- contramos um tratamento dessas ìrealidadesî humanas de forma bem es- pecÌfica. A terminologia de Freud aponta para essa especificidade: meca- nismos, engrenagens, processos, movimentos, resultados, curto-circuitos, sistemas psÌquicos, investimentos libidinais, etc. Tudo isso ajuda a compre- ender que o di·logo aqui pretendido entre Santo Tom·s e Freud n„o È t„o simples e, talvez, seja impossÌvel. As abordagens sobre a ìmesma realida- deî parecem contr·rias. Apesar disso, avancemos.

Trilhas para

a Idade MÈdia

Como um metafÌsico trata os elementos que constituem o humano? Qual È a sua especificidade relativamente ‡ concepÁ„o psicolÛgica destes elementos? Como Santo Tom·s pensa o movimento da alma (Freud diz:

funcionamento do psiquismo) que aspira ao prazer, e que estatuto oferece a este movimento?

Como leremos um texto n„o usual na nossa ·rea, apoiemo-nos nas recomendaÁıes de um especialista, Otto Bird, que nos fornece algumas indicaÁıes para a leitura da Suma TeolÛgica. Ele reconhece a dificuldade de um leitor que se inicia na leitura dela: ìO leitor que abre pela primeira vez a Suma TeolÛgica de Santo Tom·s, acha-a estranha e difÌcilî 7 .

De fato, a estrutura do texto, a forma como È construÌdo, a linguagem utilizada, o uso de diversas fontes etc., causam um impacto no leitor que experimenta a sensaÁ„o de estar diante de um texto impenetr·vel. No en- tanto, essa dificuldade cede lugar a uma proximidade maior com o texto, quando da orientaÁ„o de que Santo Tom·s È a figura exponencial do mÈtodo escol·stico, muito em voga em sua Època, alÈm evidentemente da persis- tÍncia na leitura do texto. Em outros termos, o estilo liter·rio de Tom·s de Aquino È prÛprio do perÌodo. Ele È um mestre no tipo de discurso que cons- trÛi, e a sua acessibilidade È, por assim dizer, mais confort·vel quando o leitor, persistentemente, consegue penetrar na funcionalidade da estrutura do texto ou, como se diz nos dias de hoje, quando se deixa capturar pela tecitura textual:

ìO artigo como encontramos na Suma, È a express„o liter·ria na forma sim- ples e perfeita das disputas que os mestres mantÍm com os seus alunos e com outros mestres na Universidade do SÈc. XIIIî 8 .

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Para alÈm da marginalizaÁ„o e da diabolizaÁ„o: a alternativa de Tom·s de Aquino para o prazer

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Portanto, a tarefa do leitor È capturar o espÌrito do texto, entrar na din‚mica do seu funcionamento, acompanhar os movimentos que, metodi- camente, s„o realizados pelo autor.

A respeito da funcionalidade tÈcnica do texto, orienta Bird, È impor-

tante ter bem ‡ vista como e porque o artigo È construÌdo. Eis aqui os me- canismos dessa construÁ„o: 1. Uma quest„o È apresentada na forma de uma alternativa; 2. Os argumentos v„o constituindo os objetos; 3. Santo Tom·s oferece uma resposta ‡ quest„o, cuja resposta È nomeada respondeo dicendum; 4. Por fim, ele refuta as objeÁıes que se poderiam apresentar ‡s suas respostas.

Qual È o objetivo desse procedimento ìdialÈticoî? Bird releva dois aspectos: todo o esforÁo do Aquinate tem um destinat·rio, um interlocutor, para o qual devem ser remetidos os recursos adequados na argumentaÁ„o (autoridade para uns, e exercÌcio racional para outros), como tambÈm seu trabalho porta uma intenÁ„o de mestre que

ser expressa como uma variaÁ„o do ad·gio. VocÍ pode conduzir um

cavalo atÈ a ·gua, mas vocÍ n„o pode fazÍ-lo beber. De modo semelhante vocÍ pode conduzir um estudante para aprender, mas vocÍ n„o pode fazÍ-lo aprender. Isso È literalmente verdadeiro e deve ser visto e conservado clara- mente se quisermos entender o que È ensinar. A principal causa do aprendi- zado È o estudante, ao que Santo Tom·s chama de luz natural do intelecto 9 .

deve

Nessa perspectiva, querer atropelar o texto dele extraindo apressada- mente ìo mais importanteî, È incorrer em incompreensıes, em selvageria com o autor, que se oferece como acompanhante de uma passagem, talvez a mais delicada daquelas realizadas pelo homem, a saber, manter acesa a luz natural do intelecto.

Bird remata: ìA Suma È um trabalho de amor tanto quanto de raz„o, um fato que n„o deve nunca ser esquecido no nosso estudo delaî 10 .

Aplainado minimamente o caminho para a leitura desse autor ìestra- nhoî 11 , ao menos aos psicÛlogos e psicanalistas, concentremo-nos na abor- dagem de Tom·s sobre o prazer, ou melhor, delectaÁ„o 12 .

A quest„o do prazer [delectaÁ„o] situa-se no interior do ìTratado das

Paixıesî da Suma TeolÛgica. Logo, seu tratamento È realizado atravÈs da problem·tica das paixıes que, por sua vez, contextualiza-se no tratamento das questıes morais. Quem nos oferece essa pista È Guillermo Blanco:

N„o devemos estranhar que o tratado da paixıes apareÁa na teologia moral de Santo Tom·s como disputas no interior do tratado das bondade e malÌcia

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dos atos humanos. Isso se deve ao fato de que as extensas questıes que ele dedica na Suma TeolÛgica ao estudo das paixıes n„o sejam psicologia pura:

ali se tratam tambÈm de problemas morais 13 .

Essa indicaÁ„o È v·lida para nos remetermos ‡ an·lise mais cuidado- sa de dois pontos surpreendentes da concepÁ„o tomista do prazer. O pri- meiro deles refere-se ao problema: h· em Santo Tom·s uma positividade em relaÁ„o ao prazer? E o Segundo diz respeito, justamente, ao oposto, isto È, ao prazer cabe algo negativo? Acompanhemos o texto na Quest„o 31, artigos 1 e 7 respectivamente.

A unidade da Suma

A quest„o È colocada com o propÛsito de investigar se o prazer È uma paix„o e, para responder negativamente, Santo Tom·s usa as autoridades de Jo„o Damasceno e AristÛteles em trÍs argumentos, a saber:

Argumento 1: Damasceno orienta para uma distinÁ„o entre opera- Á„o, que È um movimento segundo a natureza, e a paix„o que È um movi- mento contr·rio a ela. De que lado se coloca o prazer? Do lado natural constituindo, portanto, uma operaÁ„o. A conclus„o È imediata: o prazer n„o È uma paix„o.

Argumento 2: AristÛteles È invocado no seu III Livro da FÌsica para mostrar a passividade de quem sofre um movimento. E uma distinÁ„o se faz necess·ria: uma coisa È o que È simult‚neo ao movimento e outra a ocor- rÍncia que se verifica no seu termo. Ora, sendo o prazer produzido pela conquista j· realizada de um bem, segue-se que o prazer n„o È uma paix„o; ele coroa o processo, advÈm como sua consequÍncia.

Argumento 3: O ˙ltimo argumento expressa a perfeiÁ„o, e È extraÌdo dos livros X e VII da MetafÌsica e da FÌsica respectivamente: o deleite È ocorrÍncia de um estado alcanÁado de perfeiÁ„o que, por definiÁ„o, È um estado que n„o mais sofre alteraÁ„o. Portanto, o prazer n„o È paix„o.

Mas no texto aparece uma tens„o. LÍ-se, ao contr·rio, na Cidade de Deus de Santo Agostinho, que, seja o prazer, seja o gozo ou ainda a alegria, todos se constituem como paixıes da alma. Qual a saÌda que Santo Tom·s oferece para essa tens„o estabelecida pelo confronto de autoridades que ele mesmo seleciona para fundamentar o tratamento da quest„o em debate?

Santo Tom·s nomeia paix„o o movimento do apetite sensÌvel. Deste tambÈm procede toda afecÁ„o de qualquer apreens„o sensitiva. O que isso tem a ver com a definiÁ„o do prazer, sua negatividade e/ou positividade?

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Para responder, Tom·s recorre a AristÛteles: ìA delectaÁ„o È certo movi- mento da alma e uma constituiÁ„o total e sensÌvel na natureza existenteî 14 .

Na citaÁ„o de AristÛteles aparecem dois tipos de perfeiÁ„o: a perfei- Á„o natural e a perfeiÁ„o animal. Na primeira, verifica-se um acabamento, isto È, ela ocorre de uma vez por todas, j· pronta. Em outros termos, a totalidade da perfeiÁ„o natural È dada de vez. A segunda corresponde a uma certa aproximaÁ„o gradual, isto È, n„o ocorre de vez. Donde a sensa- Á„o ser uma ocorrÍncia prÛpria aos animais. Tal sensaÁ„o provoca na alma um movimento de apetite sensitivo, nomeado prazer. ìPortanto, ao dizer-se

que a delectaÁ„o È um movimento da alma, se est· colocando o problema do gÍneroî 15 .

… prÛprio da natureza animal o registro do prazer, dado que este È

efeito da presenÁa de um bem conquistado, vale dizer, prazer È a sensaÁ„o natural frente a presenÁa conatural do bem. Trata-se, pois, de uma consti- tuiÁ„o que resulta dum movimento, mas que n„o È, como quer Plat„o no Filebo, geraÁ„o, o que implica num processo que caminha para a perfeiÁ„o. Prazer È constituÌdo como sensaÁ„o n„o de um processo em aquisiÁ„o de

um bem, mas decorrente de um bem j· adquirido, o que significa ter atin- gido o m·ximo de perfeiÁ„o natural.

E Santo Tom·s pontua seu posicionamento: ìAssim, pois, È evidente

que sendo a delectaÁ„o um movimento no apetite animal que segue a apre-

ens„o do sentido, È uma paix„o da almaî 16 .

Desse modo, os trÍs argumentos que contrariam a afirmaÁ„o de que o prazer È uma paix„o, caem por terra como desdobrado nos contra-argu- mentos que se seguem:

Contra-argumento 1: Uma perfeiÁ„o alcanÁada È causa de uma ope- raÁ„o conatural n„o impedida, portanto, de uma segunda perfeiÁ„o, o pra- zer. Em outras palavras, o prazer torna exponencial uma perfeiÁ„o realiza- da, consumada. Este È o coroamento do grau m·ximo de perfeiÁ„o alcanÁa- do. Trata-se de uma predicaÁ„o de causa, e n„o de essÍncia.

Contra-argumento 2: Estamos falando do tipo de perfeiÁ„o que o ani- mal pode atingir e, portanto, o movimento nele È duplo: um ligado ‡ finali- dade e outro ‡ operacionalidade. Pode-se acrescentar que o primeiro movi- mento È, por assim dizer, interior, e que o segundo È exterior. Este ˙ltimo pode cessar, quando da conquista do bem que se tinha como fim, coisa que n„o ocorre com o movimento interior, apetitivo, que antes da aquisiÁ„o acercava-se do bem desejando-o e, agora, tendo-o conquistado, deleita-se com ele, j· que o possui. E ainda: uma face do prazer È a saciabilidade do

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apetite em presenÁa do bem desejado, e outra È a imutabilidade do apetite,

a saber, ser apetecÌvel, o que significa estar continuamente impelido por um certo movimento, mesmo depois de satisfeito.

Contra-argumento 3: A inclinaÁ„o das paixıes n„o È negativa, n„o tendem todas para o mal, embora tal denominaÁ„o seja mais adequada para essa indicaÁ„o. Mas n„o se deve deixar de pensar que h· paixıes orde- nadas para o bem, e o prazer È uma delas.

Eis aqui configurada a positividade do prazer. Todo o esforÁo de To- m·s de Aquino nesta quest„o, converge para a demonstraÁ„o de que o prazer È um bem, È o ·pice da conquista de uma perfeiÁ„o. Como Santo Tom·s chega a ela, que cosmovis„o emoldura essa abordagem sobre o pra- zer? O auxÌlio vem de Guillermo Blanco e de Gilson, respectivamente:

A doutrina tomista das paixıes integra um sistema filosÛfico que se distin- gue pela ligaÁ„o de suas partes; em conseq¸Íncia, essa doutrina se apoia no pressuposto mais geral de filosofia natural e metafÌsica. Sem chegarmos atÈ os fundamentos ˙ltimos, podemos estabelecer que a base imediata desta doutrina È a tese da unidade substancial do composto humano 17 .

A uni„o substancial combina dois seres que, tomados em separado, s„o in- completos: È na uni„o que vÍm a constituir seres completos. Por elas mes- mas, a matÈria e a forma s„o incompletas, mas t„o logo a forma atualiza a matÈria, elas se tornam uma subst‚ncia completa 18 .

Como conceber a bipartiÁ„o de um ser que, como tal, sÛ pode ser pensado a partir do que È, a saber, composto substancialmente?

Portanto, em Santo Tom·s È a unidade substancial do homem que d· um sentido a todas as atividades por ele naturalmente realizadas. Logo, se levarmos em conta o contexto que emoldura a concepÁ„o tomista do prazer,

a saber, unidade substancial do homem e moralidade de suas aÁıes, pode-

remos compreender de modo menos ìestranhoî essa perspectiva positiva sobre o prazer, o que nos faz relativizar em muito as assertivas que preten- dem que os medievais sejam exclusivamente repressivos para com o pra- zer. Ao agir, o homem responde a essa uni„o, necessariamente.

Donde o segundo ponto que nos propusemos levantar ainda no con- texto da quest„o 31, a saber, aquele que versa sobre a negatividade do prazer que È explorado por Santo Tom·s no artigo 7. Vejamos suas conside- raÁıes.

O artigo principia com a quest„o: Existe algum prazer que n„o seja natural? ObjeÁıes:

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1. Se considerarmos o fato de que È o repouso do corpo que propor-

ciona os afetos da alma, e se verificarmos que todos os afetos s„o naturais,

inclusive os apetites animais;

2. Tudo quanto agride a natureza, violentando-a, somente a entris-

tece. Portanto, n„o pode haver, por definiÁ„o, prazer que n„o seja natural;

3. Tem-se que a constituiÁ„o de todo ser È natural. Logo, se o prazer

faz parte dessa constituiÁ„o, ele n„o pode n„o ser natural.

Entretanto, AristÛteles em MetafÌsica VII diz que certos prazeres s„o mÛrbidos e contra a natureza. Como solucionar esta tens„o?

Santo Tom·s inicia definindo os termos: O que È natural? Responde:

aquilo que È conforme com a natureza.

Mas a natureza no homem pode considerar-se de duas maneiras. Uma que considera que o entendimento e a raz„o constituem principalmente a natu- reza do homem, pois assim È constituÌdo o homem em sua espÈcie. E neste sentido podem chamar-se delectaÁıes naturais dos homens aquelas que se encontram no que convÈm ao homem segundo a raz„o, como È natural ao homem deleitar-se na contemplaÁ„o da verdade e nos atos das virtudes. De outra maneira pode tomar-se a natureza no homem enquanto se contrapıe a raz„o, quer dizer, no que È comum ao homem e aos outros seres, principal- mente no que n„o obedece ‡ raz„o 19 .

Assim, o mais deleit·vel para o homem È aquilo que mais lhe È prÛ- prio, o racional. O que n„o exclui o deleite das coisas, por assim dizer, irra- cionais, que colocam o homem em pÈ de igualdade com os outros seres. No artigo 5 dessa mesma quest„o, Santo Tom·s atribui uma primazia a um desses prazeres: o intelectual. A adjetivaÁ„o desse prazer È exuberante: È o prazer mais amado, mais nobre, mais Ìntimo, mais perfeito, que se d· na totalidade, que È incorruptÌvel. … mediante ele que o homem atinge sua dignidade mais perfeita, porque a operaÁ„o realizada È prÛpria, e È dirigida pela alma. O que n„o ocorre com os prazeres do corpo. Eles sim, s„o sub- metidos, para serem prazeres naturais, ao domÌnio anÌmico. Nesse sentido, ambos os prazeres s„o naturais.

… claro que È legÌtimo afirmar que h· uma hierarquia dos prazeres na concepÁ„o tomista. Aqueles que se obtÍm com o uso do corpo s„o regidos, por assim dizer, pelos outros, obtidos racionalmente. A lÛgica È absoluta- mente consequente: como se define o homem? Como um ser composto, n„o ‡ moda agostiniana que transforma o corpo em pris„o da alma (Lembremos que Santo Agostinho batiza Plat„o nas ·guas do cristianismo), todas as ocor-

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rÍncias no humano s„o naturais, se balizarmos tais ocorrÍncias na primazia que a raz„o tem sobre o corpo.

Negativo ou referente positivo constante?

No entanto, verifica-se que em alguns indivÌduos os princÌpios natu- rais da espÈcie se corrompem, e s„o contrariados e, nesse aspecto, o que parece natural para esse indivÌduo singular, para a espÈcie È anti-natural.

Exemplos? Do ponto de vista da corporalidade, a alucinaÁ„o dos sen- tidos em relaÁ„o ‡s percepÁıes gustativa, visual etc, como tambÈm o sinto- m·tico deleite em comer terra. E, do ponto de vista anÌmico, o tenebroso costume da antropofagia, da zoofilia, do homossexualismo.

Tratam-se de desvios na atualizaÁ„o daquilo para o que o homem foi virtualmente criado. No dizer de Gilson:

… ‡ alma como forma substancial ˙nica, que o homem deve a totalidade do seu ser: existir, o ser-corpo, a vida, a energia sensitiva, a racionalidade. Com efeito, quanto mais elevada a forma, tanto mais ser ela contÈm virtualmente em si. 20

A alma, pois, n„o deve sucumbir aos ditames do corpo. A intimidade desta uni„o, do ponto de vista da criaÁ„o, oferece um privilÈgio tal ao domÌ- nio da alma sobre o corpo, que suas operaÁıes n„o podem ser hierarquica- mente superiores ‡s deste ˙ltimo.

Se n„o h·, como em Plat„o, um aprisionamento da alma no corpo, antes, uma uni„o, esta sÛ pode ser, do ponto de vista ontolÛgico, algo posi- tivo. Por um lado, ela transcende ao corpo no sentido de que suas aÁıes lhe permitem galgar os mais altos graus de perfeiÁ„o no ser e, por outro, a sensibilidade pode corroborar esta conquista, se por ela È dirigida.

Em outros termos: na uni„o substancial (n„o acidental) a alma tem primazia sobre o corpo. Todas as operaÁıes humanas devem ser consuma- das atendendo a esta primazia. Se pudÈssemos dizer, trata-se bem mais de um estratÈgia de auto-controle o que est· sendo estabelecido por Santo Tom·s que, propriamente, uma negatividade do prazer. Nesse sentido, mes- mo este outro movimento de Tom·s de Aquino que oferece a tutela do cor- po ‡ alma, tutela circunscrita na concepÁ„o de uma uni„o substancial dos elementos que constituem o humano, valida aquilo que nomeamos de posi- tividade do prazer no interior da Idade MÈdia. Nesse sentido, acreditamos

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serem indelicadas as leituras que rotulam a Idade MÈdia como idade das trevas, anti-cientÌfica, prÈ-cientÌfica, grosseira no tratamento dos conte˙- dos anÌmicos. O que demonstramos, neste fragmento, È que se d· justa- mente o contr·rio: Santo Tom·s nos d· a ver uma delicadeza extrema no tratamento das experiÍncias humanas. No caso do prazer, n„o sÛ o legitima, torna positivo, mas tambÈm o exalta: È ele que deve estar presente no coro- amento das mais autÍnticas operaÁıes humanas.

E tudo isso formulado no interior de um Tratado Moral! N„o È como em Freud, cuja descriÁ„o psÌquica do prazer È margeada nos processos fisi- olÛgicos. A abordagem È diferenciada, a terminologia È outra, a perspectiva muito prÛpria. E o resultado, este sim, nos mata de invÌdia, com um sentido positivo com o qual os latinos diziam:

Invidiae motus, alienae felicitates excubiae 21

Notas

1 R EICH , W. La Fonction de líorgasme, líArche, Paris, 1970.

2 ì

sensuais, que se comportam umas em relaÁ„o ‡s outras de tal forma, que as mais elevadas, a raz„o em oposiÁ„o ‡s exigÍncias da sensualidade, s„o determinadas e caracterizadas ou definidas pelos instintos. A raz„o aparece essencialmente como renunciadora, e ren˙ncia È um princÌpio conseguido ao cabo de certa luta, que tem por miss„o, n„o sÛ conduzir e orientar as baixas potencialidades humanas, como tambÈm, e muito especialmente, reprimi-lasî. MARCUSE, H. Psican·lise e polÌtica: o fim da utopia. Col. Pistas/PolÌticas. Moraes Ed. 1980, p. 49

3 A propÛsito do Viagra, atÈ Maio deste ano, nos EUA, os mÈdicos o receitaram para algo em torno de um milh„o e meio de pacientes. Este fato isolado e o espaÁo que a problem·tica do Viagra tem tido na mÌdia, d„o a dimens„o de que esta exigÍncia, muito mais que teÛrico-acadÍmica, est· impregna- da nas pr·ticas.

4 ìA decadÍncia do ethos pag„o, claramente perceptÌvel no mundo romano, levar· em linha reta ‡ clandestinidade de Eros no mundo medieval. Empenhou-se a igreja vitoriosa em interiorizar a inter- diÁ„o sob a forma de pecado e em diabolizar a sexualidade expulsando-a da esfera do sagradoî. PAES,

J.P. In Poesias ErÛticas, Cia. das Letras, 1998, p. 18; ì

uma religi„o negativa quanto ao sexo. Isso significa dizer que os pensadores crist„os encaravam o sexo, na melhor das hipÛteses, como uma espÈcie de mal necess·rio, lamentavelmente indispens·vel para a reproduÁ„o humana, mas que perturbava a verdadeira vocaÁ„o de uma pessoa ñ a busca da perfeiÁ„o espiritual, que È, por definiÁ„o, n„o sexual e transcende a carneî RICHARDS, J. Sexo Desvio e DanaÁ„o: as minorias na Idade MÈdia . Zahar Ed., 1993, p. 34; B ROWN , P. Corpo e Sociedade: o homem, a mulher e a ren˙ncia sexual no inÌcio do cristianismo, Zahar Ed., 1990.

5 FOUCAULT, M. HistÛria da Sexualidade: A vontade de Saber, Vol.1. Graal Ed. 1985.

6 Via de regra, Freud descreve estes conte˙dos como resultantes de processos psÌquicos prim·rios, cujos resultados se afiguram como alucinaÁıes, regressıes (onÌricas), delÌrios, ilusıes. ¿ guisa de exemplo, cito dois textos que podem servir de referÍncias: FREUD,,,,, S. AÁıes obsessivas e pr·ticas religiosas, SE, Vol. IX; O futuro de uma ilus„o, SE, Vol. XXI. (1927), Ed. Amorrortu 1990.

7 BIRD, O. How to read an article of the Summa In ìThe New Scholasticismî, 1953, p. 27.

8 Ibid. pp. 130/1.

a divis„o do ser humano em potencialidades mais elevadas, espirituais, e em outras mais baixas,

a cristandade foi, desde os seus primÛrdios,

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36

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9

Ibid. p. 148.

10

Ibid. p. 156.11. Freud tem um texto entitulado com este voc·bulo, cujo texto nos faz ver que o estranho È o reverso da medalha do familiar. Em alem„o, o termo negativo È extraÌdo do seu afirma- tivo: Umheimlich vem de Heimlich. Cf: FREUD, S. O estranho, SE, Vol. XVII. Amorrortu Ed. 1990. … tambÈm oportuno ressaltar que Michel Foucault, em toda a sua obra, tenta demonstrar como as psicologias n„o s„o t„o estranhas como se pretendem, em relaÁ„o ‡s tradiÁıes religiosas. Ao contr·- rio, elas s„o herdeiras de objetos e tecnologias destas tradiÁıes. Confira, no texto da nota 3, a cate- goria foucaultiana ìConfiss„oî. Com ela, Foucault pretende demonstrar como o div„ freudiano È uma extens„o-arremedo do confession·rio. … claro que isso provocou reaÁıes dos psicanalista como esta de Jacques Alain Miller: ìVejo que vocÍ procura os operadores que lhe permitir„o apagar o corte que se estabeleceu com Freud. Na Època em que Althusser impunha um corte marxista, vocÍ j· havia chegado com sua borracha. E agora, acho que seu objetivo - ou uma estratÈgia, como vocÍ diria - È Freud. VocÍ realmente acredita que conseguir· apagar o corte entre Tertuliano e Freud? In MicrofÌ- sica do Poder , Ed. Graal, 1985, pp. 259/60.

12

Em latim, delectare, deleitar, causar prazer, deliciar, seduzir, induzir, embalar. Cf.: Dicion·rio Etimo- lÛgico, Ed. Nova Fronteira, 1982, pp. 244/5.

13

BLANCO, G. O conceito de paix„o em Santo Tom·s 3. 1948. Foucault nos demonstra em seus escritos que o surgimento da psicologia no sÈculo XIX est· marcado pelo perpassamento dos problemas morais no interior dos problemas psicolÛgicos. Cf.: O Nascimento da ClÌnica Ed. Forense. 1980.

14

AQUINO, S.T. Summa Theologica I 2, Q. 31, in ìBritannica Great Booksî, V. 19, The University of Chicago, 1952, pp. 752/3.

15

Ibid p. 753.

16

Ibid.

17

Ibid. nota 13 p. 131

18

BOEHNER, P; GILSON, E. HistÛria da Filosofia Crist„. Ed. Vozes, 1970, p. 469.

19

Ibid. nota 14. P. 758

20

Ibid. nota 18.

21

Citado por REZENDE, V. Phrases e curiosidades latinas, Rio de Janeiro, 1952, p. 338

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AbstractAbstractAbstractAbstractAbstract

Itís common knowledge that the Middle-Ages werw responsible for the birth of su- perstition and obscure and absurd beliefs. In this context, repression could be help accountable, mainly as far as sexuality is concerned. On the other hand, in the post- psychoanalysis period, we would have the tendency to unrepress. Would this be the interpretation help by all medieval authors? Wouldnít we be generazing too much, to the extent of loosing the nurturing source of the culture that permeates the psycholo- gical study of the complexity of human life, whose plot comes up in the couch, via transference, free association and in the analytic clinical speech? The objetive of this article is to bring up all the problems that theses elements involve.

UnitermsUnitermsUnitermsUnitermsUniterms

Metaphysics, metapsychology, history of pleasure, body/soul, epistemology.

JosÈJosÈJosÈJosÈJosÈ EuclimarEuclimarEuclimarEuclimarEuclimar XavierXavierXavierXavierXavier dedededede MenezesMenezesMenezesMenezesMenezes

Psicanalista, Especialista em psican·lise/UNICAMP, Mestre em Psican·lise/UNICAMP, Doutorando em Filosofia/UNICAMP, Prof. do Departamento de Teologia e CiÍncias da Religi„o/PUC-SP.

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Poderia a Psican·lise explicar a Moral?

Resumo

Eduardo Dias Gontijo

O objetivo deste trabalho È demonstrar que o assassinato do pai primevo ó no mito da horda primitiva relatado por Freud em Totem e Tabu ó n„o È capaz de explicar a moral. O motivo para esta impossibilidade È Ûbvio: na ausÍncia da moral, n„o h·, rigorosamente falando, assassinato. Embora um acontecimento histÛrico qualquer pos-

sa explicar a origem de uma ou outra regra moral, a gÍnese na moral, tout court, n„o poderia ser explicada por qualquer fato determinado. N„o possuindo qualquer relev‚n- cia para explicar a gÍnese da moral, a psican·lise contribui, entretanto, com o seu modesto quinh„o crÌtico no que se refere ‡s regras morais concretas que o homem se d·. Mas, para realizar isso, ela deve partir de dois pressupostos. O primeiro: determi- nar a raz„o como intranscendÌvel, e o homem como constitutivamente racional. O segundo: conceber a moral como intranscendÌvel, e o homem como um ser constitutivamente moral.

Unitermos

Moral, regras morais, parricÌdio, raz„o.

øTu verdad? No, la Verdad, y vem conmigo a buscarla. La tuya, gu·rdatela.

Antonio Machado

IntroduÁ„o

S er· impossÌvel compreender os possÌveis nexos Èticos existentes entre

teoria e pr·tica, no caso deste campo epistÍmico especÌfico que È a Psican·-

lise, se n„o partirmos de inÌcio de dois pressupostos fundamentais: o pri-

meiro, de que todo e qualquer agir humano È passÌvel de qualificaÁ„o mo-

ral, i. È, de que toda realidade humana e cultural È constitutivamente Ètica;

o segundo, de que todo e qualquer pensar humano È passÌvel de avaliaÁ„o

segundo critÈrios racionais, i. È, de que toda realidade humana e cultural È constitutivamente racional. Se o agir e o pensar humanos se estabelecem necessariamente sob as premissas da raz„o e da liberdade moral, isso sig- nifica que a moralidade e a racionalidade juntas ó e portanto, o bem e a verdade ó n„o s„o jamais indiferentes a nada que concerne ‡ existÍncia do homem, e n„o devem nunca ser apreendidas como extrÌnsecas a qualquer um de seus afazeres.

Ego vox clamantis in deserto, rezava a Vulgata. Em relaÁ„o ao Ûbvio,

n„o podemos ser menos veementes ó ainda que nos assemelhemos ‡ po- bre figura de uma voz que clama no deserto. Certas verdades, dizia Vieira 1 , talvez n„o possam ser eficazmente ditas de forma apenas moderada, es-

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Eduardo Dias Gontijo

perando que desÁam as idÈias nas almas como a chuva do cÈu, aspirando que nossas palavras se assemelhem ao orvalho que se destila brandamente e sem ruÌdo sobre todos os seres. No que respeita a coisas t„o evidentes, sonoros brados se enlaÁam harmoniosamente ‡ raz„o ó para que a voz se faÁa rel‚mpago para os olhos, trov„o para os ouvidos, e raio para os cora- Áıes.

Do mesmo modo que o pecado original, no mito judaico da criaÁ„o, se interpreta como uma espÈcie deformada de humanismo, em que o homem, afirmando a si mesmo, nega sua essencial abertura a uma experiÍncia do Sentido que o transcende, o pecado original do psicanalista ó poder-se-ia analogamente afirmar ó È, nada mais e nada menos, aquilo que poderÌa- mos denominar psicanalismo 2 .

Denominamos psicanalismo ao duplo desconhecimento, de car·ter sistem·tico, de uma inescus·vel dimens„o Ètica do conhecimento e de uma inevit·vel dimens„o racional na aÁ„o. Ora, se a Psican·lise, enquanto ciÍn- cia, deve, por uma necessidade de seu mÈtodo, efetuar uma reduÁ„o, colo- cando ëentre parÍntesesí a esfera da raz„o, da liberdade e dos valores, o psicanalismo ir· configurar-se como atitude francamente reducionista, oriun- da de uma grosseira confus„o metodolÛgica. Assim como a ignor‚ncia sig- nifica o apego a pontos de vista parciais, o psicanalismo consistir· numa modalidade de ignor‚ncia do princÌpio de autolimitaÁ„o inerente a qual- quer ciÍncia, o qual se expressar· na afirmaÁ„o unilateral do ponto de vista particular da psican·lise e em sua indevida elevaÁ„o a uma viso de mun- do. Isso se traduziria na pretens„o de conceber o inconsciente como princÌ- pio e fundamento da cultura e da subjetividade humana, originando assim uma espÈcie de metafÌsica vulgar: a metafÌsica do inconsciente.

Psicanalismo e moralismo se opıem e se aproximam como almas gÍ- meas. Pior do que uma polÌtica despÛtica 3 da Raz„o ó ou uma atitude ide- ologizante e moralista ó em relaÁ„o aos determinantes inconscientes, irre-

mediavelmente presentes em qualquer vida humana, sÛ o seu equivalente oposto: uma polÌtica an·rquica, incapaz de apreender o profundo sentido libertador da Raz„o e da Moral. Ostentando semelhante processo de invali- daÁ„o em relaÁ„o ‡ racionalidade de sentido constitutiva da existÍncia do homem, o psicanalismo ó espÈcie de raz„o an·rquica ó termina revelan- do-se como ceticismo radical: isto È, ceticismo da Psican·lise a propÛsito de

si mesma e de sua real raz„o de ser

teorizante completamente ignorante a respeito de suas reais condiÁıes de

e uma espÈcie de furor tÈcnico-

possibilidade.

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Poderia a Psican·lise explicar a moral?

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Proferidas por um psicanalista, tais afirmativas talvez causem espan- to. Falar em verdade e bem, em plena aurora do sÈculo 21, e ainda ter a ousadia de asseverar peremptoriamente que a existÍncia humana È consti- tutivamente Ètica e racional, poderia parecer a muitos fornecer atestado ó se n„o de insanidade ou debilidade mental ó de uma profunda cegueira, tanto do ponto de vista psÌquico quanto epistemolÛgico. Testemunho de cegueira psÌquica, na forma de um desconhecimento inadmissÌvel da di- mens„o do inconsciente na err‚ncia humana, proposiÁıes como essas for- neceriam para muitos certificados concretos da pertenÁa a uma cultura psi- colÛgica essencialmente paranÛica, em que a falta de autoconhecimento e de reconhecimento dos limites do saber se institucionalizou de forma quase sistem·tica. Certid„o de cegueira epistemolÛgica, sustentada pela ignor‚n- cia, tanto a respeito da multiplicidade de perspectivas a partir das quais se pode ver o mundo e mediante as quais se pode efetivamente caracteriz·-lo, como do fato empÌrico de que qualquer pretens„o de verdade ou bem sÛ pode ser realizada do ponto de vista proporcionado por uma perspectiva particular.

Arriscando-me a ficar colocado na certeira mira crÌtica de meus prÛ- prios colegas de profiss„o, gostaria entretanto de defender, nesta oportuni- dade, a tese filosÛfica de que moralidade e racionalidade s„o condiÁıes trans- cendentais de possibilidade para qualquer ato ou empreendimento humano ó inclusive das formaÁıes do inconsciente e da prÛpria empresa psicanalÌ- tica. Em segundo lugar, pretendo sugerir, ainda que sÛ nas ëentrelinhasí, que estas teses n„o s„o de forma alguma contraditÛrias com as hipÛteses fundamentais da doutrina psicanalÌtica.

Moralidade e Racionalidade

Afirmar que a moralidade e a racionalidade s„o condiÁıes transcen- dentais de possibilidade È o mesmo que articular filosoficamente a idÈia de

que a imoralidade sÛ pode ser legitimamente concebida do ponto de vista da moral e que a irracionalidade sÛ È pens·vel do ponto de vista da raz„o. E

como raz„o e moral pressupıem ambas o sentido, seria necess·rio acres- centar a estes dois um outro princÌpio, de car·ter ainda mais fundamental:

a afirmaÁ„o de que o absurdo (ou o n„o-sentido) sÛ existe do ponto de vista do sentido. Raz„o, moral e sentido s„o condiÁıes transcendentais de possi- bilidade do humano por serem intranscendÌveis. O que significa: seria im- possÌvel a um homem ëpular foraí do sentido, da moral ou da raz„o ó tais tentativas seriam t„o v„s e ociosas como procurar escapar da prÛpria som- bra em um plano deserto e ensolarado.

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As assertivas feitas no par·grafo anterior n„o constituem meros jo- gos lÛgicos desprovidos de qualquer relev‚ncia pr·tica. Para alÈm da juste- za da argumentaÁ„o lÛgica, È preciso compreender que nada È mais imoral do que n„o levar em conta a possibilidade da imoralidade ó exceto descon- siderar a moralidade como constitutiva da humanidade do homem; e nada È mais irracional do que n„o levar em conta a possibilidade da irracionali- dade ó exceto desconsiderar a racionalidade como constitutiva do huma- no. Presumir que qualquer atividade humana seja amoral ou ìarracionalî ó no sentido de que esteja situada para aquÈm ou para alÈm do ‚mbito das qualificaÁıes morais e das exigÍncias racionais ó È, para o dizer numa

simples palavra, alÈm de um grande absurdo, a imoralidade e irracionalida-

de por excelÍncia.

… imoral n„o levar em conta a possibilidade de imoralidade porque um ser humano sÛ pode reconhecer-se como moral se ele se vÍ, ao mesmo tempo, como irremediavelmente sujeito ‡ imoralidade: i. È, um indivÌduo sÛ poder· procurar ser bom na proporÁ„o em que se concebe a si mesmo como capaz de maldade, e vice-versa. A moral se perde inteiramente de vista, como horizonte, quando se crÍ possuÌ-la totalmente. Como nenhum ho- mem poderia ser absolutamente moral, ou absolutamente bom, todo indivÌ- duo Ètico, enquanto sujeito irremediavelmente finito, deve ser capaz de compreender que o Bem Absoluto, persistindo perenemente no recÙndito da alma como idÈia sumamente transcendente, n„o existe ó concretamen- te falando ó como verdade de fato; o que equivale a dizer que aspirar o Bem permanece sempre uma aspiraÁ„o, e, como tal, jamais ser· saciada. SÛ assim a sentenÁa do apÛstolo Paulo de Tarso ó no h· justo, nem mesmo um sÛ ó compartilhada por tantos entre nÛs, torna-se perfeitamente com-

preensÌvel. Esperar È reconhecer-se incompleto, escreveu Guimar„es Rosa 4 :

graciosa imperfeiÁ„o, essa nossa, poderÌamos completar

tado que se conhece como tal se eleva desde j· ao ilimitado

Um raciocÌnio an·logo È tambÈm v·lido para a racionalidade. … irraci- onal n„o levar em conta a irracionalidade porque um ser humano sÛ È raci- onal na medida em que admite em si a permanente possibilidade da irraci- onalidade: sÛ um insensato completo, que se equiparasse a Deus, seria ca- paz de se acreditar possuidor, no aqui e agora, da verdade absoluta e per- feita. De modo que È um mister racional perceber que somos capazes de

pensar aquilo que por definiÁ„o somos incapazes de conhecer 5 ; È indispen-

s·vel ver, com toda a clareza, que a verdade absoluta, definitivamente, n„o habita o nosso presente, e que toda verdade È relativa. Pois penetrar no lento e difÌcil labor do conceito exige a pretens„o de saber nos limites do conhecer; ou vislumbrar que, sem d˙vida alguma, existe a idÈia de uma

pois que o limi-

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Poderia a Psican·lise explicar a moral?

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Verdade Absoluta ó ou que pensamos o mundo inteligÌvel como uma tota- lidade estruturada ó mas n„o a conhecemos.

Admitir que irracionalidade e imoralidade s„o possÌveis significa re- conhecer, implÌcita ou explicitamente, que o conhecimento racional e o co- nhecimento pr·tico compreendem necessariamente uma sÈrie de critÈrios normativos concretos ó os quais abarcam sistemas de regras e normas que o homem autonomamente se d· ó que, em princÌpio, nos permitiriam tanto distinguir o conhecimento verdadeiro ou confi·vel daquele que È fal- so, como diferenciar o agir moralmente correto do incorreto. … neste senti- do que podemos dizer que as normas morais para o agir e as regras para o conhecimento s„o construÌdas: e isso quer dizer que se o homem seguisse necessariamente essas regras, n„o haveria motivo nenhum para formul·- las.

A relatividade das normas morais e dos critÈrios racionais nas comu-

nidades reais È, na verdade, um pressuposto das racionalidades teÛrica e pr·tica. … um dado histÛrico acima de qualquer discuss„o que os conceitos concretos de eticidade e racionalidade tendem a se modificar com a passa- gem do tempo. Sendo entidades construÌdas, essas normas revelam con- te˙dos que s„o contingentes, i. È, determinados por diferentes contextos histÛrico-sociais; precisamente por isso, s„o critic·veis. … t„o certo nosso conhecimento que os conceitos morais e racionais vigentes em uma certa Època est„o permanentemente expostos ‡ crÌtica moral e racional, como sabemos que o sol nasce e se pıe todos os dias: n„o se pode nunca, sob pena de renunciar ‡ Raz„o, absolutizar o prÛprio momento histÛrico.

A afirmaÁ„o da relatividade das coisas humanas se constitui num prin-

cÌpio importantÌssimo de libertaÁ„o dos homens dos entraves e impasses encontrados em toda moral e raz„o concretas. Mas o que n„o pode ser ja-

mais negligenciado È o fato das pretensıes universais da moral e da raz„o

no serem de modo algum relativas ó isto È, o que n„o se pode desconside- rar È a moral e a raz„o como constitutivas e definidoras 6 do humano: tal des-pretens„o È totalmente absurda, pelo simples fato de que n„o se pode

julgar a moral, porque sempre realizamos avaliaÁıes morais em funÁ„o dela; e n„o se pode eliminar a raz„o, pois invariavelmente partimos dela para

determinar qualquer irracionalidade que seja.

Donde concluÌmos que pretender, por meio de qualquer recurso a uma evidÍncia empÌrica, assegurar que o ser humano È constitutivamente irracional e/ou imoral ó e ponto final ó È seguramente um completo e descabido contra-senso, na medida em que o indivÌduo que realiza tal afir- maÁ„o est· implicitamente admitindo ou mesmo demonstrando cabalmen- te o princÌpio contr·rio.

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Uma ressalva dever· aqui ser feita. … preciso enfatizar a idÈia, neste contexto, que exclusivamente enquanto matrizes fundamentais de horizontes de sentido inescus·veis ó e de fins ó que raz„o e moral s„o constitutivas do humano: o que equivale a afirmar que, fora dos horizontes da verdade e do bem, n„o h· mais, propriamente falando, do ponto de vista ontolÛgico, pessoa humana, mas apenas animais.

Mediante os argumentos precedentes n„o pretendemos afirmar que

o homem, desde in illo tempore, seja naturalmente bom ou sensato. O pon- to de vista genealÛgico n„o pode ser confundido com o ponto de vista onto- lÛgico: a perspectiva filosÛfica reza que, somente enquanto um ser tridi- mensional 7 , educado e inserido em um universo simbÛlico ó e consequen- temente enquanto subjetividade conduzida ‡ moral e ‡ raz„o ó È que uma pessoa humana È pens·vel. AbstraÁ„o feita dessa educaÁ„o, ele n„o seria nem moral ou imoral, nem racional ou irracional: essa abstraÁ„o faria dele um ser natural.

Embora seja impossÌvel conceptualizar uma vida humana para alÈm do bem e do mal, da verdade e do erro, como queria Nietzsche, podemos contudo estabelecer ó ao formular a idÈia de uma hipotÈtica passagem da natureza ‡ cultura ó o conceito de um organismo humano aquÈm da raz„o

e da moral. Deve-se ser capaz de notar que se trata aÌ, entretanto, apenas

de um conceito-limite, an·logo ao conceito que a FÌsica pode fazer de um corpo em movimento retilÌneo uniforme. Isso porque um ser natural sÛ poderia ser concebido por um ser que n„o È somente natural, e cujos obje- tos s„o sempre dados como relacionados a projetos que s„o ao mesmo tem- po racionais e morais: i. È, apenas um ser humano poderia realizar abstra- Áıes como essas. Assim, È somente em virtude de uma abstraÁ„o da educa- Á„o, e do fato de que um indivÌduo pertence sempre a uma comunidade histÛrica e social, È que podemos conceber o homem natural como uma espÈcie de pano de fundo sobre o qual um ser moral e racional se projeta para se compreender.

Enquanto ser Ètico, o homem È um ser livre que visa o seu bem. Habitante de um mundo de valores que lhe confere sua dignidade prÛpria, encontrar· a verdade de sua liberdade no bem moral. Enquanto ser racio- nal, ele visa a verdade. O bem da raz„o È a verdade. Concebido como passÌ-

vel de objetivaÁ„o pela racionalidade cientÌfica, ele apreende-se inscrito em cadeias de determinaÁ„o. Mas somente no contexto de um projeto de liber- dade sensata em vias de realizaÁ„o, e nas premissas da raz„o que busca libertar-se das cadeias da pura necessidade e contingÍncia, seria permitido

a um ser entender-se como determinado: pedras e folhas que caem n„o se interessam pelo inconsciente e menos ainda pela lei da gravidade.

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Poderia a Psican·lise explicar a moral?

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O que se conclui disso tudo, sen„o que a Psican·lise ó como qual-

quer outra disciplina cientÌfica ó È uma disciplina da raz„o e um empreen- dimento moral, sÛ se compreendendo a si mesma a partir destes pressu- postos fundamentais assumidos em toda empresa humana qua humana?

A Psican·lise explica a Moral?

Permite-nos a Psican·lise, enquanto disciplina da raz„o e empreendi- mento moral, explicar a moral ou compreender a sua origem, a sua psico- gÍnese ou mesmo a sua ontogÍnese? A resposta que oferecemos a esta quest„o È: n„o, a psican·lise n„o explica a moral, mas È, em um certo sen- tido, explicada por ela. Trataremos agora de justificar, pelo recurso retÛrico a uma breve digress„o, essa idÈia.

O domÌnio da metapsicologia freudiana tem sido ó desde as suas

proposiÁıes inaugurais pelo seu genial inventor, atÈ as suas formulaÁıes mais acabadas ó tradicionalmente um pensamento que se poderia deno- minar, sem injustiÁa alguma, e muito menos sem macular o seu valor teÛri- co, fabuloso. Noutros termos: se a metapsicologia se configura na psican·- lise como o campo teÛrico-formal por excelÍncia, ele È ao mesmo tempo um espaÁo extremamente fecundo para a criaÁ„o de hipÛteses fant·sticas na forma de mitos e de mitologias.

Uma das formulaÁıes teÛricas mais originais de Freud foi, sem d˙vida alguma, o conceito de recalque origin·rio. E tal como a tradiÁ„o judaico- crist„ encontra no mito relatado nos trÍs capÌtulos iniciais do livro do GÍne- sis, a formulaÁ„o prototÌpica do conceito de pecado original, a psican·lise encontrou no grande mito de Totem e Tabu uma das mais geniais contribui- Áıes ao conceito de recalque origin·rio.

Mas, assim como o GÍnesis n„o È jamais apreendido pela raz„o fun- damentalista, ler Totem e Tabu ao modo do psicanalismo ó isto È, conce- bendo-o como explicaÁ„o ˙ltima da moral ó introduz grosseiras distorÁıes no pensamento psicanalÌtico.

O movimento fundamentalista crist„o 8 , ó criado no inÌcio deste sÈ-

culo (por Lyman Steward, entre 1910 e 1915) para a preservaÁ„o de uma espÈcie de protestantismo tradicional ó tende a identificar a essÍncia da religi„o com a crenÁa de que certas proposiÁıes s„o verdadeiras: isto È, apoiando-se na tese da inerr‚ncia bÌblica, os fundamentalistas acreditavam que as escrituras eram infalÌveis porque compostas de enunciados factuais, que deveriam ser tomados como verdadeiros. Se a palavra de Deus È como

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Eduardo Dias Gontijo

o diamante ó dura para sempre ó o fundamentalista se vÍ na obrigaÁ„o de ler a BÌblia como literalmente verdadeira.

De modo an·logo procede o adepto do psicanalismo. Raciocina ele que, se a psican·lise È verdadeira ó e a doutrina psicanalÌtica requer o conceito de recalcamento origin·rio ó ento ele deve aceitar o mito narra- do em Totem e Tabu como um relato verÌdico do que realmente aconteceu nas origens da cultura. Assim fazendo, o psicanalismo entendeu t„o pouco

o conceito de recalque origin·rio quanto o fundamentalista falsificou o con- ceito de pecado original e, nessa cegueira ‡ dimens„o simbÛlica do mito, perdeu todo o sentido da vera religione

Isso quer dizer que os mitos n„o s„o histÛrias verdadeiras? Pelo con- tr·rio. Pelos mitos, uma verdade, como diria Wittgenstein 9 , se mostra

Estamos aqui de volta ‡s velhas querelas infantis entre a verdade do

sÌmbolo e o sÌmbolo como verdade

te contexto, nos ser· suficiente insinuar que alguÈm que toma Totem e Tabu como um relato verdadeiro entendeu t„o pouco a histÛria como aque- la dama que ficou ofendida quando um cavalheiro, possuÌdo por sublime transe lÌrico, lhe recitou o C‚ntico dos C‚nticos, cantando: ìTeus dois seios

s„o como dois filhotes gÍmeos de uma gazela pastando entre os lÌriosî 10 .

Sendo um texto de import‚ncia fundamental para a adequada com- preens„o da metapsicologia e dos fundamentos da teoria psicanalÌtica, To-

tem e Tabu deve ser lido como um texto totalmente irrelevante para uma

adequada compreens„o do campo dos fundamentos da moral: a psican·lise

n„o pode explicar, em hipÛtese alguma ó inclusive pelo conceito de recal-

que origin·rio ó a gÍnese da moral. Caso ela se apoderasse dessa preten- s„o, ela literalmente se autodestruiria, enquanto teoria, num incrÌvel delÌ- rio autof·gico, pois perderia inteiramente de vista o princÌpio de autolimi- taÁ„o, que È condiÁ„o sine qua non de possibilidade para qualquer sistema que se queira relevante do ponto de vista cientÌfico.

mas n„o nos estenderemos nelas. Nes-

De um ponto de vista genÈrico, a pretens„o de estabelecer um funda- mento ˙ltimo para a moral atravÈs do ponto de vista particular da psican·- lise ó ou por qualquer outra disciplina cientÌfica ó tende a incorrer naqui- lo que a moderna filosofia da ciÍncia denominou, a partir de H. Albert, o trilema de M¸nchausen: ou se verifica uma tendÍncia ó claramente mito-

logizante ó de regress„o ao ëmau infinitoí no processo de fundamentaÁ„o,

ou se observa uma interrupÁ„o arbitr·ria desse processo, ou incorre-se em petiÁ„o de princÌpio. Os dois primeiros termos deste trilema s„o facilmente compreensÌveis. O terceiro ir· requerer uma maior elucidaÁ„o.

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Poderia a Psican·lise explicar a moral?

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Incorre-se, em geral, em erro de petiÁ„o de princÌpio, quando se bus- ca explicar p por q, quando ao mesmo tempo q exige ser explicado por p. Um exemplo muito frequente desse erro na literatura psicanalÌtica consisti- ria na presunÁ„o de ter finalmente compreendido ó a partir de uma leitura ìfundamentalistaî de Totem e Tabu ó a origem ˙ltima da moral a partir da culpa engendrada pelo assassinato do pai primevo seguida de um suposto canibalismo totÍmico. A gÍnese da moral ó identificada aqui redutivamen- te ‡ lei do incesto ó seria assim ingenuamente explicada pela prÛpria mo- ral, de forma an·loga a alguÈm que tentasse explicar a galinha pelo ovo, para logo em seguida explicar o ovo pela galinha. Noutras palavras, uma petiÁ„o de princÌpio se verifica nessa presunÁ„o pelo simples fato ó como lucidamente apontou Eric Weil, em sua obra Philosophie Morale 11 ó de que

nenhum assassinato primitivo pode explicar a moral, pelo Ûbvio motivo que,

na ausÍncia da moral, n„o h·, rigorosamente falando, assassinato: sem moral, n„o haveria diferenÁa nenhuma entre um pai assassinado pelos seus amo- tinados filhos e um pai estraÁalhado por uma fera qualquer.

S„o as infinitas vicissitudes e transformaÁıes daquilo que poderia se denominar ìa energia do desejoí expressas nas m˙ltiplas obras das civiliza- Áıes ó e t„o vivamente elaboradas nos escritos culturais de Freud ó que inspiram o teÛrico da Psican·lise a conceber a gÍnese da cultura por meio da hipÛtese do recalque origin·rio. Mas, do mesmo modo que um assassi- nato primitivo n„o explica a origem da cultura ó e ainda menos o advento da interdiÁ„o universal ao incesto ó nenhum recalque origin·rio È capaz de explicar a origem da moral individual ou coletiva: na ausÍncia da cultu- ra, n„o h· recalque. E muito menos Psican·lise. Crie-se um homem entre lobos, e ele ser· mais lobo do que homem.

Concluindo de um modo que tira proveito da met·fora hobbesiana: sÛ se poder· legitimamente afirmar que o homem È o lobo do homem ó que ele È um ser libidinoso e violento, ou um perverso polimorfo ó quando

sabemos que ele n„o È e n„o deve ser

isso.

Quanto ‡ origem ˙ltima da moralidade, a resposta mais honesta ser· ainda aquela mesma dada por Freud a Putnan 12 : aÌ de fato eu no sei a

resposta

Conclus„o: a Psican·lise È relevante para a moral?

AtÈ onde nos È permitido saber, a Psican·lise n„o explica a Moral e a Raz„o: mesmo na hipÛtese remota que, extrapolando por completo seus limites, as explicasse, moralidade e racionalidade permaneceriam ainda

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sendo condiÁıes transcendentais de possibilidade para a ciÍncia psicanalÌ-

tica enquanto empresa crÌtica, metÛdica e sistem·tica ó e portanto simbo- licamente mediada ó das formas concretas de subjetividade humana.

Definida tradicionalmente ó de uma forma bastante democr·tica, de modo a compreender uma variedade de perspectivas psicanalÌticas ó como uma modalidade particular de an·lise teÛrica do psiquismo, que procura dar inteligibilidade a um conjunto de fenÙmenos psÌquicos, denominados

formaÁıes do inconsciente 13 , por intermÈdio dos pontos de vista tÛpico, di-

n‚mico e econÙmico, e como uma tÈcnica terapÍutica mediada, em geral,

pela regra fundamental 14 da an·lise, a Psican·lise pode ser entretanto uma ciÍncia de imensa relev‚ncia para as morais e para a razıes concretas que o homem se d·.

Creio n„o ser necess·rio (e nem terÌamos tempo suficiente para isso) demonstrar que ó desde a suas origens na aurora do sÈculo ó a Psican·- lise colabora, tanto como teoria, como enquanto pr·tica clÌnica, com o de- senvolvimento Ètico e com a crÌtica moral. N„o surge ela da histÛria como uma den˙ncia ‡ hipocrisia da moral sexual em vigor na era vitoriana? N„o revela ela, pela sua Ínfase nas estruturas linguÌsticas da existÍncia, o fra- casso do princÌpio do prazer, de uma moral naturalista, e do pensamento libertino? Ao permitir ao indivÌduo penetrar o interior dos seus determi- nantes psÌquicos, n„o se faz ela uma colaboradora fiel do intermin·vel pro- jeto de liberdade do homem?

Ainda que a Psican·lise n„o possa ser, rigorosamente falando, uma

Ètica, e n„o possa nos dizer nunca o que È a virtude, ela, sem d˙vida algu- ma, contribui efetivamente para o desenvolvimento Ètico do homem. Um trecho do Semin·rio de Lacan sobre a …tica da Psican·lise 15 nos ser· aqui

n„o se pode dizer que n„o interve-

nhamos nunca no campo de virtude alguma. DesobstruÌmos vias e cami- nhos e l· esperamos que aquilo que se chama virtude vir· a florescerî.

A exigÍncia Ètica deve, por definiÁ„o, se constituir como um campo acima de todos os campos. E nenhuma disciplina cientÌfica particular pode abranger ou explicar a totalidade. Para que a Psican·lise cumpra efetiva- mente o seu papel, trazendo a sua contribuiÁ„o ao esforÁo pelo qual a exis- tÍncia se empenha para se constituir como uma totalidade, È imprescindÌ- vel que ela, obedecendo ao princÌpio de autolimitaÁo ó condiÁ„o sine qua non de possibilidade para qualquer empresa cientÌfica ó compreenda que constitui apenas um certo tipo de aproximaÁ„o, indubitavelmente muito importante, da realidade do ser humano.

suficiente para expressar essa idÈia: ì

PsychÍ ó Ano 2 ó n 2 ó S„o Paulo ó 1998

Poderia a Psican·lise explicar a moral?

49

O que a Psican·lise n„o deve, em hipÛtese alguma, pretender, È con- siderar-se uma vis„o de mundo suficiente para julgar a import‚ncia Ètica de uma situaÁ„o, inclusive a sua prÛpria. Isso significaria a sua prÛpria autodestruiÁ„o. Destruir o Outro ó para alÈm de toda pervers„o ó È de-

cretar suicÌdio.

Notas

1 Este par·grafo È um pl·gio de uma parte do belÌssimo Serm„o da SexagÈsima, primeiro dos Sermıes do Padre AntÙnio VIEIRA (Lisboa, Lello & Irm„o Editores, 1951, pp. 1-36).

2 Ver R. CASTEL. O psicanalismo (trad. br. de AntÙnio Amaral SERRA). S„o Paulo, EdiÁıes Graal, 1978.

3 Ver J. MARITAIN, Problemas Fundamentais da Filosofia Moral. Rio de Janeiro, Agir, 1977.

4 GUIMAR ES ROSA, Desenredo, in TutamÈia. Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1996.

5 Recomendo especialmente consultar a excelente obra de M. PERINE, Filosofia e ViolÍncia: Sentido e IntenÁ„o da Filosofia de Eric Weil. S„o Paulo, Loyola, 1987.

6 Revela-se tambÈm aqui a falsidade dos maniqueÌsmos, que assumem, num mesmo nÌvel ontolÛgico, a existÍncia de duas potÍncias iguais e opostas. Exemplo disso seria dizer que o homem È bom e mau, racional e irracional, sem compreender adequadamente argumento transcendental.

7 Tridimensional porque inscrito nas trÍs dimensıes da existÍncia humana: simbÛlica ou espiritual, psÌquica e org‚nica.

8 Ver B.R. TILGHMAN, IntroduÁ„o ‡ Filosofia da Religi„o. S„o Paulo, Loyola, 1996.

9 L. WITTGENSTEIN. Tractatus Logico-Philosophicus. London: Routledge & Kegan Paul Ltd., 1961 (H· traduÁ„o brasileira de Luiz Henrique Lopes dos Santos, pela EDUSP, em 1994).

10 Ct, 4,5.

11 E. WEIL. Philosophie Morale. Paris, Vrin, 1966.

12 Em um momento posterior desta mesma carta, Freud acrescenta: ìPorque eu ó e incidentalmente meus seis filhos adultos ó temos de ser seres adultos absolutamente decentes, È perfeitamente incompreensÌvel para mimî. Ver S. FREUD, Brief an J.J. Putnan, de 8 de julho de 1915, citada em E. JONES, Leben und Werk von S. Freud, vol. II, Bern-Stuttgart, 1960, 489.

13 Como as parapraxias, sonhos e sintomas neurÛticos.

14 Tradicionalmente concebidas por FREUD como compreendendo a livre associaÁ„o, por parte do clien- te, e a atenÁ„o flutuante, por parte do analista.

15 J. LACAN, O Semin·rio, livro 7, A …tica da Psican·lise (trad. br. de AntÙnio QUINET), Rio de Janeiro, Jorge Zahar Editor, 1988, p. 19.

Q UINET ), Rio de Janeiro, Jorge Zahar Editor, 1988, p. 19. CouldCouldCouldCouldCould

CouldCouldCouldCouldCould psychoanalysispsychoanalysispsychoanalysispsychoanalysispsychoanalysis eeeeexplainxplainxplainxplainxplain morality?morality?morality?morality?morality?

Abstract

The objective of this article is to prove that the primeral murder - Freudís elaboration on the myth of the primitive horde in Totem and Taboo ó canít fully explain morality. The reason for this is obvious: in the absence of morality there is, strictly speaking, no

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Eduardo Dias Gontijo

murder. Though any historic event might explain the origin of any given moral rule, the genesis of morality itself, ìtout courtî, canít be explained by any especific fact. Though unable to explain the genesis of morality, psychoanalysis nevertheless, contri- butes with its critical capability to the understanding of the moral and concrete rules that man establishes for himself. To do so psychoanalysis must conceive morality as untranscendable and man as constitutively moral.

Uniterms

Morality, moral rules, parricide, reason.

EduardoEduardoEduardoEduardoEduardo DiasDiasDiasDiasDias GontijoGontijoGontijoGontijoGontijo

Psicanalista, Doutor em Psicologia pela United States International University, Professor do Departamento de Psicologia da Faculdade de Filosofia e CiÍncias Humanas da UFMG.

PsychÍ ó Ano 2 ó n 2 ó S„o Paulo ó 1998

A consciÍncia moral e a norma ou o ovo e a galinha

Resumo

Marcelo Perine

Diferentemente das outras ciÍncias humanas, a filosofia pıe a quest„o da consciÍncia

e da norma moral de maneira especulativa.O texto esboÁa duas teses para ilustrar como se pode pÙr filosoficamente a quest„o da consciÍncia moral e da norma.

Unitermos

ConsciÍncia moral, norma, educaÁ„o, paix„o.

A quest„o da consciÍncia moral no ser humano, para a Filosofia, n„o

pode ser posta nos termos em que a pıem algumas das assim chamadas ciÍncias humanas, como a Psicologia ou a Antropologia. Isto porque a Filo- sofia, se n„o pode ignorar a contribuiÁ„o das ciÍncias, tambÈm n„o pode pretender dar uma resposta ìcientÌficaî a esta ou a qualquer outra quest„o.

Provocado pela instigante pergunta do psicanalista Eduardo Dias Gon- tijo sobre se a psican·lise pode explicar a moral, decidi provocar a reflex„o dos psicanalistas com uma breve nota de car·ter filosÛfico. O que pretendo nessa breve nota È sugerir que, para a Filosofia, a quest„o da consciÍncia moral e da norma sÛ pode ser posta e, eventualmente, respondida, de ma- neira especulativa. Para tanto, vou esboÁar duas teses filosÛficas que nos permitir„o ver uma das maneiras de pÙr filosoficamente o problema da consciÍncia moral e da norma.

A primeira tese afirma que o ser humano È o ˙nico animal moral; a

segunda afirma que o ser humano È o ˙nico animal educ·vel. Para a filoso- fia, as duas teses s„o evidentes. Trata-se, portanto, de vÍ-las, mas nisso consiste toda a sua dificuldade. Vejamos, pois.

1. Afirmar que o ser humano È o ˙nico animal moral significa, sim-

plesmente, reconhecer um fato universal: n„o se tem notÌcia de nenhum grupo humano, por mais primitivo que seja, totalmente desprovido de nor- mas. Essa evidÍncia, antropologicamente comprov·vel, aponta para duas constataÁıes igualmente evidentes.

A primeira È que sÛ o ser humano se impıe normas de comportamen-

to que n„o est„o inscritas no seu cÛdigo genÈtico, pois se as normas mais primitivas, como as que regulam a alimentaÁ„o e o parentesco, poderiam ser a express„o do instinto de sobrevivÍncia, logo se verifica uma diversida- de t„o grande de normas nos grupos humanos, que n„o È possÌvel pensar

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Marcelo Perine

num processo de regulaÁ„o determinado pelo que nÛs chamamos de ìleis da naturezaî. A segunda constataÁ„o decorre da primeira e consiste em que sÛ o ser humano pode transgredir e, ami˙de, transgride as normas que ele mesmo se d·.

O que significa o fato de n„o encontrarmos grupos humanos despro-

vidos de normas? O que significa o fato de sermos os ˙nicos animais que, em certo sentido, fazem a infelicidade do seu ser animal, impondo a si mes- mos normas de comportamento que, literalmente, transgridem as ìleis da naturezaî? E mais: o que significa que somos os ˙nicos a poderem trans- gredir n„o sÛ as ìleis da naturezaî, mas tambÈm, e principalmente, essas transgressıes das ìleis da naturezaî que s„o as normas de comportamen- to?

A resposta ìcientÌficaî a essas interrogaÁıes fica, necessariamente,

aquÈm da raiz da quest„o. Dizer, por exemplo, que um assassinato primiti- vo explica a consciÍncia moral È transgredir uma das regras mais elemen- tares da boa lÛgica e incorrer no que se chama de ìcÌrculo na provaî. Sem a consciÍncia moral, como afirmou Eduardo Gontijo no seu belo texto, n„o haveria nenhuma diferenÁa entre a morte do pai pelos seus filhos e a morte do pai estraÁalhado por uma fera: simplesmente n„o haveria assassinato.

A resposta sÛ pode ser especulativa: se perguntamos ìo que signifi-

ca?î, È porque somos os ˙nicos capazes de pÙr a quest„o do sentido, que, no ‚mbito em que nos situamos aqui, È a quest„o do bem. Filosoficamente falando, a consciÍncia moral È uma ìdimens„oî constitutiva do ser huma- no, cuja presenÁa ou ausÍncia È suficiente para demarcar a linha de separa- Á„o entre nÛs e os nossos parentes mais prÛximos do mundo animal. Como se desenvolve a consciÍncia moral, qual a sua relaÁ„o com as condiÁıes materiais da produÁ„o da vida, qual a sua estrutura e os seus mecanismos, todas essas, e outras, s„o questıes muito interessantes, porÈm, posteriores e consequentes ‡ dimens„o moral do ser humano. Essa evidÍncia abre ca- minho para a segunda tese.

2. Dizer que o ser humano È o ˙nico animal educ·vel È uma tese t„o

evidente quanto a primeira. PorÈm, a sua aceitaÁ„o È, provavelmente, mais difÌcil, tanto pela sua evidÍncia, que se prova por vias de fato, quanto pelos seus pressupostos e pelo que dela decorre, lÛgica e praticamente. Dado o frenesi naturalista que invade o nosso tempo, j· n„o È mais t„o evidente que a educaÁ„o e, portanto, a cultura, sejam estados desej·veis para a hu- manidade, pelo menos segundo as versıes mais radicais e incoerentes do ecologismo que adotaram como lema o ìvoltemos ao pliocenoî, como È o caso do grupo americano Earth First. Mas esta n„o È a sede para discutir da

cretinice ecolÛgica.

PsychÍ ó Ano 2 ó n 2 ó S„o Paulo ó 1998

Nota sobre a consciÍncia moral e norma ou o ovo e a galinha

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O principal pressuposto dessa tese È a sua dependÍncia direta da tese anterior: sÛ o ser humano È educ·vel porque sÛ ele È moral. Com efeito, sÛ um ser que reconhece uma norma pode se opor a ela. A mais importante decorrÍncia, lÛgica e pr·tica, dessa tese È que a educaÁ„o, numa parte n„o desprezÌvel, È transgress„o das assim chamadas ìleis da naturezaî. De fato, sÛ um ser que n„o È simplesmente ìnaturalî pode tornar ìnaturaisî com- portamentos que n„o procedem da ìnaturezaî. O pressuposto È relativa- mente f·cil de aceitar, desde que se aceite a evidÍncia da primeira tese. A decorrÍncia, ao contr·rio, muito provavelmente, nos escandaliza. Contudo, ela È rigorosamente lÛgica e moralmente pr·tica.

Que a educaÁ„o seja, em boa medida, transgress„o, È uma decorrÍn- cia lÛgica do fato de o ser humano ser moral. Boa parte da educaÁ„o, com

efeito, n„o È mais que domesticaÁ„o do animal no ser humano. … certo que

a educaÁ„o n„o se reduz a isso, mas È igualmente certo que, embora o ser humano n„o seja um animal qualquer, sem a domesticaÁ„o do animal a educaÁ„o n„o se completa segundo o seu fim, que consiste em fazer do

educando um educador, de si mesmo tanto quanto de todos os que tÍm necessidade de educaÁ„o. Ademais, e isto È decisivo, se a forma mais eleva- da de educaÁ„o È a educaÁ„o moral, esta consiste na educaÁ„o das paixıes, isto È, na submiss„o daquela dimens„o ìnaturalî ou empÌrica do ser huma- no ‡ sua ìdimens„oî moral. A paix„o È o que define a individualidade do ser humano e n„o h· como educ·-la sen„o recorrendo tambÈm aos meios que

a prÛpria paix„o pıe ‡ disposiÁ„o do ser humano. O que È decisivo aqui,

pelo menos para o filÛsofo, n„o È a medida do emprego das paixıes empÌri- cas agrad·veis ou das sensaÁıes dolorosas a serviÁo da educaÁ„o, pois isso depende dos casos individuais e da moral dominante nas comunidades. O

decisivo n„o È a escolha entre as paixıes, mas a escolha da paix„o como meio para educar a paix„o. Isso prova, justamente, que a educaÁ„o n„o se faz sem violÍncia contra a violÍncia ou, para usar uma fÛrmula menos es- candalosa, sem o uso da paix„o contra a paix„o. Mas a educaÁ„o moral È muito mais do que o simples domÌnio das paixıes. Ela pretende dar ao indivÌduo uma atitude correta nas suas relaÁıes com os outros membros da comunidade. Numa palavra, ela visa ‡ virtude do indivÌduo.

Seria longo desenvolver aqui o que significa esse antiquado termo virtude. Em poucas palavras, educar para a virtude significa tornar morais esses seres imorais que somos nÛs, n„o pela imposiÁ„o de uma moral con- creta, mas pela proposiÁ„o de possibilidades sempre maiores de aÁıes ra- zo·veis no interior da moral concreta. Dito de outro modo, educar para a virtude significa tornar os seres humanos capazes de decidir e agir razoa- velmente no seu lugar no mundo, segundo as exigÍncias do bem e em vista

PsychÍ ó Ano 2 ó n 2 ó S„o Paulo ó 1998

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Marcelo Perine

da eliminaÁ„o progressiva da dose de violÍncia que entra nas relaÁıes hu- manas.

Quero concluir com uma proposiÁ„o que enfeixa a articulaÁ„o das duas teses sumariamente apresentadas aqui, e mostra que a quest„o da consciÍncia moral e da norma n„o pode ser posta nos termos da alternativa entre o ovo e a galinha. Ei-la: o animal moral, que È o ser humano, sofre de si mesmo, e È dessa paix„o que a educaÁ„o moral quer e pode libert·-lo.

Bibliografia

1. PERINE, M. ìA dimens„o Ètica do homemî, SÌntese Nova Fase, 43 (1988): 23-37.

2. PERINE, M. ìEducaÁ„o, violÍncia e raz„o. Da discuss„o socr·tica ‡ sabedoria weilianaî, SÌntese Nova Fase, 46 (1989):49-70.

3. PERINE, Filosofia e violÍncia. Sentido e intenÁ„o da filosofia de …ric Weil, S„o Paulo, Loyola,

1987.

4. WEIL, E. Philosophie morale, Paris, Vrin, 1969 2 .

W EIL , E. Philosophie morale , Paris, Vrin, 1969 2 . MoralMoralMoralMoralMoral

MoralMoralMoralMoralMoral conscienceconscienceconscienceconscienceconscience andandandandand thethethethethe nornornornornormmmmm ororororor thethethethethe chickchickchickchickchickenenenenen andandandandand thethethethethe eggeggeggeggegg

Abstract

Unlike other human sciences, philosophy can speculate over the moral conscience and

norm issue. This text elaborates two theses to ilustrate how this question can be philo- sophically approached.

Uniterms

Moral conscience, norm, education, passion.

MarceloMarceloMarceloMarceloMarcelo PPPPPerineerineerineerineerine

Doutor em Filosofia pela PontifÌcia Universidade Gregoriana de Roma (It·lia), Professor de Filosofia da PUC-SP, Diretor da Unimarco Editora da Universidade S„o Marcos-SP.

PsychÍ ó Ano 2 ó n 2 ó S„o Paulo ó 1998

O mal-estar no encontro com a feminilidade. Dois fragmentos clÌnicos.

Resumo

Ana Augusta W. R. Miranda

O artigo aborda uma quest„o central da teoria psicanalÌtica, que, em Freud, È nomeada

de complexo de castraÁ„o e que Lacan faz avanÁar, trazendo a noÁ„o de falta articulada aos registros do real, simbÛlico e imagin·rio. O trabalho busca presentificar, por meio de dois fragmentos clÌnicos, o mal-estar do sujeito designado neurÛtico diante da vi- vÍncia dessa falta e as implicaÁıes disso para a vida amorosa. Aponta tambÈm para o fato de que a quest„o, embora tenha especificidades para cada um dos sexos, trans- cende a divis„o masculino x feminino, por ser uma quest„o estrutural.

Unitermos

Feminilidade, castraÁ„o, falta, gozo f·lico, clÌnica psicanalÌtica.

E m seu Semin·rio Mais, Ainda, Lacan enuncia que o discurso analÌtico

sÛ se sustenta no fato da impossibilidade da relaÁ„o sexual. … a partir daÌ que esse discurso avanÁa e determina o que est· realmente em quest„o nos outros discursos. Com relaÁ„o ‡ sexualidade tudo gira ao redor do gozo f·lico, como revela Freud ao tratar dos acontecimentos da inf‚ncia, onde a

primazia do falo se apresenta aos sujeitos. … a falicidade o que torna impos- sÌveis as relaÁıes. Isso È assim porque o significante falo, ao qual o gozo sexual est· submetido, È o representante da parte faltante da imagem que

È desejada pelos sujeitos de ambos os sexos. Quer dizer, È apenas o Ûrg„o

ereto que simboliza o lugar do gozo, mas n„o enquanto Ûrg„o, nem mesmo enquanto imagem, mas enquanto imagem negativizada, apenas enquanto representaÁ„o daquilo que n„o est· presente o tempo todo, daquilo que pode faltar. … a castraÁ„o vigorando para permitir o aparecimento do desejo e do gozo sexual.

Assim, a imagem do pÍnis n„o falta sÛ ‡ mulher, mas tambÈm ao

homem, na medida em que n„o È suficiente ser possuidor do Ûrg„o, pois ele

È detumescente. Se assim n„o fosse, n„o se prestaria ao lugar de gozo.

Para o homem, segundo Lacan, a funÁ„o f·lica serve para que ele se situe como homem e possa , dessa forma, abordar as mulheres. Mas, ainda no Semin·rio 20, Lacan diz que o que o homem de fato aborda, È a causa de seu desejo, o objeto ìaî. Isso È o ato de amor. E a mesma funÁ„o f·lica tambÈm funciona para o homem como obst·culo ao corpo da mulher por- que do que ele goza aÌ È do gozo do Ûrg„o. … preciso que haja castraÁ„o, ou seja, algo que diga n„o ‡ funÁ„o f·lica, para que ele goze do corpo da mu- lher. A castraÁ„o significa, para o homem, se colocar na posiÁ„o da mulher,

PsychÍ ó Ano 2 ó n 2 ó S„o Paulo ó 1998

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Ana Augusta W. R. Miranda

do lado do ìn„o-todoî, o que n„o inviabiliza sua posiÁ„o de macho. Lacan afirma que h· homens que l· se colocam e que se sentem l· muito bem. Certamente, nem todos.

Um de meus pacientes, um homem histÈrico em an·lise h· algum tempo, revela que o que ele chama de ìfazer vÌnculosî ó essa express„o È

utilizada por ele para designar qualquer tipo de relaÁ„o, mas principalmen-

te as que se referem ‡s mulheres ó significa para ele ser agredido, desaca-

tado, diminuÌdo pelo outro, ser tornado impotente. A saÌda que vem encon- trando È ìfazer contornosî, outra express„o utilizada amplamente por ele. Entretanto, s„o contornos amplos demais, que vÍm lhe impedindo ser atin-

gido pelo que quer que seja ou por quem quer que seja, sem que um imenso

mal-estar se produza. A ìfunÁ„oî dos ìcontornosî seria exatamente livr·-lo do mal-estar, mas fracassa. Durante quase dezoito meses de an·lise, era incapaz de pronunciar o nome da analista sem titubear, o que justifica di- zendo que sua falta de vÌnculos lhe impedia atÈ de se recordar dos nomes das pessoas. Seu acesso ‡ mulher lhe È vedado pelos contornos. Sua esposa representa para ele uma ameaÁa por ser, segundo ele, uma mulher extre- mamente escandalosa e brigona, que n„o abre m„o do que quer, matando-

o de vergonha. Prefere n„o estar em companhia dela e sÛ sente am·-la

quando a observa dormindo. ì… a ˙nica hora em que ela me d· sossegoî, diz ele. Talvez porque, enquanto dorme, ela n„o o coloca em xeque, exigin- do que ele ocupe a posiÁ„o de desej·-la, de ìvincular-seî a ela, deixando- lhe a ilus„o de que ele pode am·-la sem perder nada. Mal sabe ele, que assim dormindo, ela sonha. Gozar dela, gozar com ela, fazÍ-la gozar. … isso que ela lhe pede, mas se para isso È preciso que ele se coloque como ìn„o- todoî na relaÁ„o, como castrado, ent„o o encontro fica inviabilizado. Mas

enfim, ele procura se consolar, existem outras mulheres. Todas as outras, ‡s quais ele julga, o acesso seria mais f·cil, j· que todas elas s„o passÌveis de se apaixonarem por ele, conforme sua crenÁa. N„o lhe cobrariam nada; com elas poderia ser sem compromisso. Poderia ser, ele n„o sabe, porque com elas, ele sÛ faz olhar. ìToda mulher tem algo de belo para ser olhadoî.

E ele olha, olha, atÈ o momento em que seu olhar È correspondido, momen-

to em que, imediatamente, ele o desvia. N„o! N„o podem ser todas; È cada uma, uma a uma, remetendo-o a cada encontro, a cada aproximaÁ„o, mes- mo que esta se restrinja ao olhar, ‡ sua falta. E ele, embora n„o queira, sabe disso, tanto que n„o se aproxima alÈm dos limites seguros.

Quando lhe pergunto porque buscou a an·lise, È taxativo: ìPor uma exigÍncia delaî, referindo-se ‡ esposa. Certamente È A Mulher que o envia ‡ an·lise. N„o a sua, como imagina, mas aquilo que ela encarna, a incÛgnita da feminilidade, a possibilidade de outro gozo, a marca indelÈvel da falta.

PsychÍ ó Ano 2 ó n 2 ó S„o Paulo ó 1998

O mal-estar no encontro com a feminilidade (dois fragmentos clÌnicos)

O sujeito do sexo feminino n„o estar·, contrariamente ao que se pos-

sa supor, isento de ser impulsionado a uma an·lise pela mesma quest„o. A Mulher È mistÈrio tambÈm para a mulher. Ser mulher tem implicaÁıes in˙- meras. O encontro com a feminilidade porta algo de mal-estar, mesmo para a fÍmea. Em Freud, a feminilidade È abordada como coisa obscura. Que caminhos deve trilhar a crianÁa do sexo feminino a partir da aproximaÁ„o ao objeto primordial do desejo, o seio materno? S„o questıes que Freud se

propıe trabalhar por ter constatado que tambÈm para a mulher se apresen- ta a primazia do falo. A diferenÁa È que, para ela, a castraÁ„o se coloca em princÌpio, como prÈ-condiÁ„o de sua entrada no …dipo. … o que Lacan vai definir como a posiÁ„o ìN„o-Todaî da mulher, diante da funÁ„o f·lica. Eu o

ìn„o h· outro gozo que n„o o f·lico - salvo aquele sobre o qual a

mulher n„o solta nem uma palavra, talvez porque n„o o conhece, aquele

que a faz n„o-todaî. E mais adiante: ìN„o h· mulher sen„o excluÌda da

natureza das coisas, que È a natureza das palavras. (

ela tem em relaÁ„o ao que designa de gozo a funÁ„o f·lica, um gozo suple- mentarî. Isto È, h· um gozo para alÈm do falo, do qual, entretanto, a mu- lher nada sabe e È justamente ele que a faz ìn„o-todaî.

Dezesseis anos antes de fazer tais consideraÁıes, Lacan indica, no Semin·rio 4, que a mulher entra na sexualidade como funÁ„o de objeto. H· dois lugares nessa dialÈtica; um para o sujeito, outro para o objeto. N„o h· lugar para dois sujeitos. N„o que esse lugar de objeto tenha de ser ocupado apenas pela mulher. TambÈm se faz necess·rio ao homem ocup·-lo, como procurei mostrar a partir do caso clÌnico. Mas parece ser justamente a essa posiÁ„o de objeto, que o neurÛtico, homem ou mulher, se recusa, dificultan- do a viabilidade que resta ‡s relaÁıes que, por definiÁ„o, s„o j· impossÌveis.

O falo È o elemento imagin·rio pelo qual o sujeito falante È introduzi-

do na dialÈtica do dom, que È simbÛlica. As funÁıes genitais humanas s„o, ent„o, regidas pela lei do simbÛlico, na medida em que entram efetivamen- te em jogo nas trocas humanas. Vimos que o que o homem de fato aborda, ao pensar-se abordando a mulher, È o que est· alÈm dela, isto È, o objeto causa do desejo. Para a mulher, se estamos falando da histÈrica, vemos que ela aborda seu objeto por identificaÁ„o ao outro sexo. Ela ama por procura- Á„o, o que faz com que seu objeto seja homossexual. … assim que Dora, a paciente de um dos casos clÌnicos mais importantes de Freud, est· interes- sada na posiÁ„o que a Sra. K. ocupa, naquilo que seu pai pode amar alÈm dela mesma, aquilo que ela n„o sabe o que È. O pai È aquele que daria simbolicamente o objeto que falta; esta seria a sua funÁ„o com relaÁ„o ‡ falta de objeto pela qual a menina entra no …dipo. A histÈrica reclamar· este objeto sem, entretanto, esperar recebÍ-lo, j· que considera seu pai

cito: (

)

)

por ser n„o-toda,

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PsychÍ ó Ano 2 ó n 2 ó S„o Paulo ó 1998

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Ana Augusta W. R. Miranda

impotente. Mas amar È justamente dar o que n„o se tem. Trata-se mais do dom em si mesmo que do objeto. Entretanto, o dom sÛ pode existir com a introduÁ„o da lei simbÛlica da troca. Ele circula. O que se d· È aquilo que se recebeu. O dom È dado por nada no amor, porque ele vem de fora da relaÁ„o dual. Vem do lugar simbÛlico do terceiro. Mas Dora imagina que È da Sra. K. que o pai recebe algo e, portanto, se apega a ela para saber do que se trata. A tentativa da histÈrica È promover um discurso onde a mulher exista, n„o estando reduzida ao lugar de objeto que a fantasia do homem impıe. O que Dora n„o sabe ou n„o quer saber, È que, tambÈm para a Sra. K., o objeto est· alÈm. E È por isso que ela ama. O de que se trata È da falta. Para que Dora entre na dialÈtica do dom È preciso que o falo se coloque ausente para ela, ou presente em outro lugar. Se ela n„o pode renunciar ao falo paterno, concebido como objeto do dom, ela n„o poder· procurar recebÍ-lo de outro homem.

Acompanho o percurso de Lacan no Semin·rio 4, passando do caso de Dora ao da jovem homossexual, outro relato clÌnico de Freud. Esta, com seu amor desinteressado pela dama, estaria tentando mostrar a seu pai que este È o verdadeiro amor, j· que ela supıe estar o pai ligado ‡ m„e por encontrar vantagens aÌ. Ela ama a dama, demonstrando ao pai que se pode amar alguÈm pelo que ele n„o tem. Ela sabe que a dama n„o possui o pÍnis simbÛlico e sabe tambÈm que È o pai que o possui, porque este pai n„o È impotente como o de Dora. Metonimicamente, a jovem homossexual diz uma coisa para falar de outra.

Dora n„o tem certezas. Ela aborda a outra mulher para saber da femi- nilidade. Interroga-se a este respeito. Assim, seus sintomas surgem como met·foras. O falo encontrado no pai È insuficiente para ajud·-la a estabele- cer sua identidade feminina.

O fato de a histÈrica se identificar imaginariamente ao homem como via para abordar a quest„o da sexualidade, fazendo isso, ent„o, ‡ maneira do homem, n„o faz dela, necessariamente, uma homossexual em ato. En- tretanto, a clÌnica evidencia que as pr·ticas homossexuais se manifestam na neurose. Ao encontr·-las na histÈrica, percebemos que sua homossexu- alidade È compatÌvel com sua identificaÁ„o ao homem. Ela busca na parcei- ra o objeto cobiÁado do ponto de vista do homem, rejeitando, ao mesmo tempo, a fantasia masculina de que o valor f·lico da mulher se encontra na castraÁ„o. Ela denuncia o insuport·vel de sÛ ser amada a esse preÁo. A histÈrica, ent„o, pode dar um passo a frente em busca de sua feminilidade, indo em direÁ„o ao ato homossexual, ato que seria um traÁo de pervers„o na histeria, um recurso extremo da histÈrica, na tentativa de obter respos- tas sobre sua feminilidade.

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O mal-estar no encontro com a feminilidade (dois fragmentos clÌnicos)

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Uma paciente revela o motivo que a faz buscar a an·lise nos se- guintes termos: ìEla n„o me deixou outra saÌdaî. Refere-se aÌ ‡ parceira. Chama-me a atenÁ„o, a semelhanÁa da formulaÁ„o com aquela enunciada pelo paciente j· mencionado: ìPor uma exigÍncia delaî. Entretanto, no caso desta mulher, isso sÛ È revelado alguns meses apÛs iniciada a an·lise. Em princÌpio, ela n„o podia ter mesmo clareza do que fazia ali, porque depois de tomada a atitude de se relacionar com outra mulher, ainda havia ques- tıes a tratar com relaÁ„o ‡ sua sexualidade. Mesmo em contato com a outra mulher, o mistÈrio da feminilidade persistiu. N„o È irrelevante que a outra mulher se relacione tambÈm com um homem. A prÛpria paciente pode sen- tir-se bem por saber que um homem a deseja, mas no momento, sÛ tem certeza de que gosta de estar perto de mulheres. Entretanto, as coisas aÌ n„o v„o muito bem, porque È difÌcil saber o que a outra quer dela. Sua queixa È de que ela a chama quando bem entende, mas n„o a assume. N„o est· sempre perto, a usa como a um objeto. Diz a paciente: ìVai buscar n„o sei o quÍ em algum lugar, sai e nem me avisaî. N„o-toda. N„o est· l· o tempo todo, o que faz com que a paciente tambÈm tenha de se situar como n„o-toda nessa relaÁ„o, onde talvez esperasse que isso n„o precisaria acon- tecer.

Freud, no caso da jovem homossexual, mostra que tanto a homosse- xualidade quanto a sexualidade que ele chama de normal, implicam numa restriÁ„o na escolha de objeto. Isto È, seja ele qual for, o objeto sempre rateia, revelando a impossibilidade da relaÁ„o e apresentando ao ser falante a dimens„o da castraÁ„o.

1 Lacan 7, p. 81-2.

2 Lacan 7, p. 99.

Notas

Bibliografia

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2. . ìA dissoluÁ„o do complexo de …dipoî, in Obras completas, vol. XIX, Rio de Janeiro, Imago, 1972.

3. . ìAlgumas consequÍncias psÌquicas da distinÁ„o anatÙmica entre os se- xosî, in Obras completas, vol. XIX, Rio de Janeiro, Imago, 1972.

4. . ìA psicogÍnese de um caso de homossexualismo numa mulherî, in

Obras completas, vol. XVIII, Rio de Janeiro, Imago, 1972.

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5.

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Imago, 1972.

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6. LACAN, J. A relaÁ„o de objeto. O semin·rio, Livro 4, Rio de Janeiro, Jorge Zahar Editor,

7.

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. Mais, ainda. O semin·rio, Livro 20, Rio de Janeiro, Jorge Zahar Editor,

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1982.

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9. TOLIPAN, Elizabeth. ìOs paradoxos do gozoî, 10/11/12, Rio de Janeiro, Escola Letra Freu- diana.

gozoî, 10/11/12, Rio de Janeiro, Escola Letra Freu- diana. TheTheTheTheThe

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Abstract

This article approaches one of the central question in the psychoanalytic theory, called the castration complex by Freud an expanded by Lacan when he articulates the notion

of lack to the real symbolic and imaginary registers. This work uses two clinic frag-

ments, to depict the uneasiness of the so called neurotic subject facing the experience of this lack and its implications for his/her love life. It points out as well that even though this question presents specific characteristics for each of the genders, it trans- cends the division between masculine and feminine, because itís a structural issue.

Uniterms

Femininity, castration, lack, psychoanalytic clinic.

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