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História da América I SOMESB Sociedade Mantenedora de Educação Superior da Bahia S/C Ltda. Presidente
História da América I SOMESB Sociedade Mantenedora de Educação Superior da Bahia S/C Ltda. Presidente

História da

América I

SOMESB

Sociedade Mantenedora de Educação Superior da Bahia S/C Ltda.

Presidente

Gervásio Meneses de Oliveira

Pedro Daltro Gusmão da Silva

Vice-Presidente

William Oliveira

Superintendente Administrativo e Financeiro Superintendente de Ensino, Pesquisa e Extensão Superintendente de Desenvolvimento e>> Planejamento Acadêmico

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SumárioSumárioSumárioSumárioSumário D O P OVOAMENTO À S C IVILIZAÇÕES P RÉ - C OLOMBIANAS :
SumárioSumárioSumárioSumárioSumário D O P OVOAMENTO À S C IVILIZAÇÕES P RÉ - C OLOMBIANAS :

SumárioSumárioSumárioSumárioSumário

DO POVOAMENTO ÀS CIVILIZAÇÕES P- COLOMBIANAS: A AMERICA DOS AMERICANOS

POVOAMENTO E D IVERSIDADE D OS P OVOS A MERICANOS OVOAMENTO E DIVERSIDADE DOS POVOS AMERICANOS

P OVOAMENTO E D IVERSIDADE D OS P OVOS A MERICANOS T eorias acerca do Povoamento

P OVOAMENTO E D IVERSIDADE D OS P OVOS A MERICANOS T eorias acerca do Povoamento

Teorias acerca do Povoamento da América

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Evolução Pré-Histórica dos Povos Americanos

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Os Povos Nômades e Semi-Nômades○○○○○○○○○○○○ ○○○○○○ ○○○○○○○○○○○○○

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As Sociedades Agrícolas○○○○○○○○○○○○

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Atividade Complementar

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A MESO -A MÉRICA ESO-AMÉRICA

Civilização MaiaA M ESO -A MÉRICA A ○○○○○○○○○○○○○○○○○○○

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Surgimento da Civilização Asteca○○○○○○○○○○○○○○○○○○○ O ○○○○○○○○○○○○○

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Cultura e Sociedade Astecas○○○○○○○○○○○○

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Apogeu e Declínio da Confederação Asteca

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Atividade Complementar

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DAS C IVILIZAÇÕES P RÉ -C OLOMBIANAS À C ONQUISTA E UROPÉIA : A U AS CIVILIZAÇÕES P-COLOMBIANAS À CONQUISTA E UROPÉIA: A U SURPAÇÃO D A A MÉRICA

A CIVILIZAÇÃO A NDINA IVILIZAÇÃO ANDINA

O Surgimento da Civilização Inca

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Estado e Sociedade Incas

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A Cultura Andina

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Apogeu e Declínio do Império Inca

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Atividade Complementar

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História da América I
História da
América I

SumárioSumárioSumárioSumárioSumário

O ENCONTRO E A CONQUISTA EUROPÉIA

Da Expansão Européia ao Encontro: a Questão do OutroO E NCONTRO E A C ONQUISTA E UROPÉIA ○○○○○○○○○○○○ A Conquista Espanhola

○○○○○○○○○○○○

A Conquista Espanhola da Américaa Questão do Outro ○○○○○○○○○○○○ ○○○○○

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Estado e Igreja no Projeto Colonizador○○○○○○○○○○○○○○○○○○

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Rumo ao Mundo Colonial○○○○○○○ ○○○○

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Atividade Complementar

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Atividade Orientada

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Glossário

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Referências Bibliográficas

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Apresentação da Disciplina Caro (a) aluno (a), Olá! Vivemos em um continente vasto e diversificado
Apresentação da Disciplina Caro (a) aluno (a), Olá! Vivemos em um continente vasto e diversificado
Apresentação da Disciplina
Caro (a) aluno (a),
Olá!
Vivemos em um continente vasto e diversificado culturalmente,
com uma História rica e milenar: a América. São justamente os passos
iniciais desta história americana que trabalharemos agora.
A disciplina História da América I fora planejada para, no seu
estudo, refletir sobre os primeiros habitantes do continente americano
e
suas etapas de desenvolvimento sócio-cultural até o auge desta
evolução histórica autóctone: as chamadas “altas culturas” pré-
colombianas maia, asteca e inca. Estas civilizações, que atingiram
grande sofisticação em diversos ramos das artes e ciências, foram,
no século XVI, conquistadas pelos europeus que aqui chegaram e
estranharam o encontro com povos de cultura tão diferente da sua.
Este encontro e sua conseqüência - A Colonização - marcaram a ferro
fogo a História da América e seus efeitos ainda estão presentes em
nossos dias, sendo indispensável sua compreensão para entendermos
as raízes das sociedades americanas contemporâneas e seus
distintos processos de (sub)desenvolvimento e modos de viver.
e
Espero que esta disciplina, fazendo uma alusão ao período da
“descoberta”, lhe guie por este oceano de povos e culturas, e que este
“encontro” tenha o resultado oposto ao daquele período: em vez de
estranhamento, vontade de se aproximar; em lugar de incompreensão
genocídio, o nascimento de uma nova identidade do que é ser
americano.
e
Boa Viagem!
Lucas de Faria Junqueira
História da América I 6

História da

América I

D O P OVOAMENTO À S C IVILIZAÇÕES P RÉ - C O L O
D O P OVOAMENTO À S C IVILIZAÇÕES P RÉ - C O L O
D O P OVOAMENTO À S C IVILIZAÇÕES P RÉ - C O L O

DO POVOAMENTO ÀS CIVILIZAÇÕES P- COLOMBIANAS: A AMÉRICA DOS AMERICANOS

POVOAMENTO E DIVERSIDADE DOS PVOS AMERICANOS

TEORIAS ACERCA DO POVOAMENTO DA AMÉRICA
TEORIAS ACERCA DO POVOAMENTO DA AMÉRICA
P VOS A MERICANOS TEORIAS ACERCA DO POVOAMENTO DA AMÉRICA O ponto de partida para o

O ponto de partida para o estudo da História da

América Pré-Colombiana (ou seja, aquela anterior à conquista européia) passa, necessariamente, em

conhecermos o processo de povoamento do continente.

É sabido que o berço da evolução humana é o

continente africano, tendo os primeiros hominídeos lá surgido há milhões de anos. Existem registros arqueológicos que

comprovam esta evolução, bem como a difusão (há cerca de 1milhão de anos) da presença dos antepassados da humanidade ao redor do Velho Mundo (formado pela Eurásia e África), tendo o homem atingido o estágio de Homo sapiens sapiens – como somos atualmente – por volta de 50 mil anos atrás (PINSKY, 2003, p. 23). Pelo contrário, não há registros da presença de hominídeos na América anterior ao Homo sapiens sapiens moderno, o que invalida qualquer teoria sobre a evolução autóctone do homem americano. Daí surgem duas questões básicas que precisamos elucidar: quando e como o homem chegou no continente americano? Nas últimas décadas tem havido consenso, entre os pesquisadores da pré-história americana, de que os primeiros povoadores do continente chegaram durante a última glaciação (terminada há 10 mil anos), vindos pelo estreito de Bering. Entre 40.000 e 30.000 a.C., as águas retidas nas geleiras continentais baixaram o nível do mar 80 m, suficiente para transformar o estreito de Bering em istmo (CHAUNU, 1969, p. 16).

baixaram o nível do mar 80 m, suficiente para transformar o estreito de Bering em istmo
Formara-se na região do estreito e das ilhas Aleutas um subcontinente, denominado “Beríngia”, por onde

Formara-se na região do estreito e das ilhas Aleutas um subcontinente, denominado “Beríngia”, por onde vieram os caçadores siberianos – do ramo

por onde vieram os caçadores siberianos – do ramo História da étnico mongólico ou proto-mongólico –

História da

étnico mongólico ou proto-mongólico – seguindo as manadas de bisões que atravessaram de Bering para o Alasca. Com efeito, as Pesquisas arqueológicas têm alcançado datações cada vez mais antigas dos sítios arqueológicos espalhados pelo continente americano. Algumas datações, segundo Ciro Flamarion Cardoso, já giram em torno de 20.000 a 25.000 anos atrás (CARDOSO, 1996, pp. 16-17). Porém, não podemos considerar sensatamente uma homogeneidade migratória para a América. Não fora apenas uma única migração ou etnia que povoara tão extenso continente. Estão em voga, nos últimos anos, teorias acerca de sucessivas ondas migratórias que, em períodos e locais distintos, alcançaram as terras americanas. A primeira onda, acima exposta, fora pelo estreito de Bering há 40 ou 30 mil anos. Após esta leva de caçadores siberianos, outras migrações atingiram irregularmente o continente até a chegada dos conquistadores ibéricos: mongolóides (também por Bering), australianos (melanésios e polinésios, navegando pelo Pacífico Sul), bem como em épocas mais recentes, os Vikings, que colonizaram a Groenlândia entre os séculos X-XVI d.C. Afora estas, existem ainda teorias sobre povoadores europeus e africanos que teriam chegado a terras americanas há mais de 10.000 anos, contudo carentes de fundamentos mais sólidos. Entretanto, aqui no Brasil (Minas Gerais) fora encontrado um fóssil feminino com caracteres negróides. Segundo os testes realizados, esta mulher teria vivido há cerca de 11.500 anos. O fóssil ganhou o nome de Luzia. De qualquer sorte, mais pesquisas e achados precisam ser efetivados para que possamos defender um povoamento africano da América, pois apenas um fóssil não caracteriza, necessariamente, uma migração pelo Atlântico em épocas tão remotas (Luzia poderia ter integrado de algum modo uma migração de grupos asiáticos, ou mesmo que a conclusão dos pesquisadores quanto à sua origem esteja equivocada). Com o desenvolvimento da navegação pelo Pacífico, as migrações podem ter se dado com certa intensidade em períodos de instabilidades sociais (guerras) ou desastres naturais nas ilhas polinésias. Assim como se espalhavam pelos arquipélagos de todo o Pacífico, seria normal que alguns grupos acabassem por alcançar a América. Deste modo, o feito da chegada de Cristóvão Colombo ao continente americano, em 1492, parece não muito grande. Entretanto, como afirmou Pierre Chaunu (CHAUNU, 1969, p. 17), o mérito de Colombo não fora alcançar a América, e sim retornar dela Assim, podemos afirmar que o povoamento da América fora heterogêneo e se dera em períodos distintos. Somente esta heterogeneidade étnica pode explicar, ao lado do relativo isolamento dos povos americanos, a grande diversidade lingüística – cerca de duas mil e seiscentas línguas – à época da conquista européia do Novo Mundo. A grande antiguidade do povoamento da América coloca novas questões acerca do estágio cultural de desenvolvimento dos povoadores e primeiros americanos, das quais trataremos agora.

América I

EVOLUÇÃO PRÉ-HISTÓRICA DOS POVOS AMERICANOS
EVOLUÇÃO PRÉ-HISTÓRICA DOS POVOS AMERICANOS
EVOLUÇÃO PRÉ-HISTÓRICA DOS POVOS AMERICANOS

A rigor, boa parte da história dos povos pré-colombianos pode ser descrita como “pré-história”, dado que o critério para a entrada na era “histórica” é o surgimento da escrita, processo relativamente tardio na América e que teve pouca difusão até a conquista ibérica (os Incas, por exemplo, não chegaram a conhecer a escrita). Entretanto, por ora nos ocuparemos em estudar a evolução tecno-cultural dos povos do continente e sua diversificação ao longo do tempo-espaço americano até o desenvolvimento da agricultura. Primeiramente, temos que perguntar: a qual etapa “pré-histórica” pertenciam os primeiros migrantes e, posteriormente, seus descendentes, já americanos? A maioria dos pesquisadores concorda que os primeiros habitantes da América pertenceram ao período Paleolítico, ou seja, tinham uma cultura material rudimentar, baseada na pedra toscamente lascada:

“O homem penetrou na América vivendo à base de plantas e animais selvagens. A princípio,
“O homem penetrou na América vivendo à base de plantas e animais
selvagens. A princípio, os primitivos habitantes possuíam toscos
instrumentos de pedra lascada. Há cerca de dez mil anos [
]
nota-se a
presença no continente americano dos chamados paleoíndios, nômades,
caçadores de grandes animais, que possuíam artefatos de pedra lascada
mais aperfeiçoados, como o propulsor de dardos e pontas de lança
habilmente lascadas.” (AQUINO, 2000, pp. 38-9)

Efetivamente, a evolução cultural dos povos americanos passara pelas etapas “clássicas” da pré-história, como no Velho Mundo (desde pelo menos o Paleolítico Superior), porém não concomitante e em ritmo diferenciado em relação à evolução observada neste. Houve relativo atraso na América quanto às mudanças tecnológicas. O quadro ao lado faz a comparação cronológica entre as etapas pré-históricas no Velho Mundo e na América.

O quadro ao lado faz a comparação cronológica entre as etapas pré-históricas no Velho Mundo e
O quadro ao lado faz a comparação cronológica entre as etapas pré-históricas no Velho Mundo e

Já no período do Paleolítico Superior americano (entre 11.000 e 7.000 a. C.), a tecnologia lítica (em pedra) fora se aperfeiçoando e se diversificando entre os distintos grupos humanos, aliada a um processo de gradual especialização dos modos de subsistência. A maior parte deste desenvolvimento se deu independentemente da influência do Velho Mundo, principalmente quanto aos aperfeiçoamentos menos remotos. As representações de pontas líticas ao lado ilustram a especialização alcançada no período.

ao lado ilustram a especialização alcançada no período. História da América I Note-se que a diferença
ao lado ilustram a especialização alcançada no período. História da América I Note-se que a diferença
ao lado ilustram a especialização alcançada no período. História da América I Note-se que a diferença

História da

América I

Note-se que a diferença entre as pontas comprova a alta especialização dos grupos paleoíndios, dedicados cada qual a atividades que iam da pesca à caça de grandes animais. Esta especialização se deu em meio a mudanças climáticas no continente, que contribuíram para diversificar os modos de vida na América.

Entre oito e seis mil a.C. completou-se o recuo das geleiras para os pólos e iniciara- se uma fase quente e seca, que modificara definitivamente o meio-ambiente americano. Em muitas áreas ocorrera a extinção dos grandes mamíferos (como os mamutes, hoje somente encontrados nos museus de História Natural), impondo meios de subsistência diversos da caça especializada, como a pesca de mariscos, coleta (especializada ou não) de vegetais e animais, etc. Nesta época, em certas regiões, florestas substituíram os campos abertos, enquanto em outras ocorrera um processo de desertificação, contribuindo para a maior especialização e regionalização cultural dos grupos humanos. Temos como exemplo da influência do meio sobre a evolução e diferenciação cultural dos grupos, o particular modo de vida dos esquimós do extremo norte do continente, baseado principalmente na caça especializada dos mamíferos marinhos (focas e leões-marinhos). O período do Mesolítico americano (iniciado em algumas partes entre 8.000 e 7.000 a.C.), resultado das transformações ambientais e da evolução tecno-cultural dos diversos grupos americanos, assistiu à continuidade da especialização e regionalização das técnicas líticas, agora ainda mais aperfeiçoadas (microlitos). Os modos de subsistência, adaptando-se às mudanças do meio ambiente, alcançaram alto grau de especialização, a ponto de podermos proceder a uma classificação destes:

nas áreas de florestas, a caça e coleta vegetal predominavam; no litoral, a coleta de moluscos (abundantes após a elevação do nível dos mares em direção às plataformas continentais), pela sua regularidade, permitiu, inclusive, a sedentarização de determinadas populações, tendo os sambaquis – restos arqueológicos de conchas e demais alimentos, formando pequenos montes, encontrados nos litorais do Pacífico e do Atlântico – como testemunhas deste processo; a caça especializada de grandes mamíferos continuou predominante principalmente em regiões de planaltos da América do Norte; coexistiram também distintas especializações de caça e pesca marinha e fluviail, como as dos esquimós (AQUINO, 2000, pp. 40-41; CARDOSO, 1996, pp. 28-30).

de caça e pesca marinha e fluviail , como as dos esquimós (AQUINO, 2000, pp. 40-41;
Em um processo lento e gradual, iniciara-se em algumas regiões a domesticação rudimentar de vegetais

Em um processo lento e gradual, iniciara-se em algumas regiões a domesticação rudimentar de vegetais (derivada da coleta especializada dos mesmos), dando origem aos primórdios da agricultura na América – e a entrada na era do Neolítico. Este processo de transição da coleta para a agricultura incipiente, iniciado no continente entre 7.000 e 4.000 a.C., possibilitara a prática do modo de vida sedentário que sustentava populações maiores do que as praticantes de formas pré-agrícolas de subsistência. A sedentarização que a Revolução Neolítica proporcionou trouxe como complemento

a maior complexidade na organização social em relação aos grupos pré-agrícolas. Porém,

o que nos interessa agora é perceber os antecedentes do processo. Até o momento, nos furtamos em tratar da organização sócio-econômica dos grupos primitivos americanos, o que faremos agora, resumidamente.

Revolução Neolítica: sua concepção está ligada principalmente ao surgimento da agricultura, porém engloba também um conjunto de invenções – como polimento da pedra, cerâmica, tecelagem – que transformaram lentamente o modo de vida dos povos.

Organização social dos povos pré-agrícolas– que transformaram lentamente o modo de vida dos povos. Os pioneiros povoadores e habitantes da

Os pioneiros povoadores e habitantes da América pertenciam a pequenos grupos nômades, onde o parentesco era a base social comunitária. Denominamos esta forma organizativa de bando. Em termos sociológicos, cada bando “é sobretudo uma associação

residencial de famílias nucleares ou restritas, segundo um sistema exogâmico e virilocal (os homens de um bando devem buscar esposas em outros bandos, e estas vêm residir no bando dos maridos)” (CARDOSO, 1996, p. 31).

A baixa produtividade das técnicas primitivas impossibilitava a subsistência de

grandes populações em um mesmo território, sendo os bandos formados por poucas dezenas de pessoas. Tinham como fundamentos econômicos a divisão do trabalho por

sexo – homens caçavam coletivamente, mulheres coletavam vegetais e pequenos animais individualmente –, bem como o direito de uso comunitário do território e seus recursos.

A cultura material dos bandos era restringida pelo nomadismo, sendo bastante

rudimentar. Não havia estratificação social, tendo apenas idade e sexo como elementos diferenciadores. O “poder” advinha do prestígio pessoal, circunscrito ao bando, não existindo

consequentemente linhagens hereditárias. Diversos bandos, espalhados por um território alargado, mantinham relações entre si, integrando uma “tribo dialetal”, sem, contudo haver controle político institucionalizado entre eles.

Organização social dos povos agrícolas pré-urbanoshaver controle político institucionalizado entre eles. Foram justamente o progresso técnico-cultural

Foram justamente o progresso técnico-cultural (domesticação de plantas e animais) e a conseqüente elevação da produtividade que permitiram a sedentarização e uma organização sócio-econômica mais complexa, caracterizada pelo aparecimento de especializações funcionais (principalmente religiosas ou guerreiras). Neste estágio os núcleos populacionais cresceram para algumas centenas, formando tribos (ou aldeias) com centenas de pessoas diretamente relacionadas em termos produtivos, sendo coletivo o direito ao usufruto dos recursos. O parentesco continua tendo papel central nas relações sociais, porém indo já na direção da constituição de famílias alargadas – ou clãs – que apresentavam linhagens, ainda não hierarquizadas entre si. O prestígio (ou poder), oriundo

de funções exercidas, é legitimado pelo culto aos antepassados, sendo os “mais velhos” os detentores do saber necessário à reprodução do grupo. A passagem do estágio de tribo/aldeia para o de chefia fora caracterizado pelo surgimento de hierarquia entre as linhagens. Esta hierarquização levou, aqui e ali, a um gradual processo de criação de

História da

instituições políticas, com a hereditariedade do cargo de chefe numa única linhagem. A partir de então, existiram tendências à criação de uma corte, maior especialização do trabalho (como categorias de artesãos) e primórdios de estratificação social, porém não em classes (era ainda o parentesco a base social). As chefias poderiam conter diversas tribos, formando às vezes confederações, onde o poder era escalonado do chefe central aos chefes menores de cada aldeia.

do chefe central aos chefes menores de cada aldeia. América I Primeiras formas de organização social

América I

Primeiras formas de organização social dos povos americanos:

Bandos: Pequenos grupos nômades, ausência de agricultura e especialização do trabalho.

Tribos: Grupos maiores (sedentarizados ou semi-sedentarizados), praticantes da agricultura, maior produtividade, inícios da especialização funcional, surgimento das linhagens. Chefias: População alargada, plenamente sedentarizada início da hierarquia de linhagens e do processo de estratificação social, surgimento de instituições políticas, que dariam origem à formação de Estados na etapa urbana.

social, surgimento de instituições políticas, que dariam origem à formação de Estados na etapa urbana.
social, surgimento de instituições políticas, que dariam origem à formação de Estados na etapa urbana.
social, surgimento de instituições políticas, que dariam origem à formação de Estados na etapa urbana.

As formas de organização tratadas até aqui não foram experimentadas igualmente pelos diversos povos do continente americano. Havia mescla de modos de vida e heterogeneidade sócio-cultural entre grupos de regiões diferentes. A generalização embutida nestes modelos serve muito mais para demonstrar semelhanças do que apontar diferenças, bem como descrever, em lugar de explicar. Lembramos, ainda, que a existência de uma classificação das formas sociais primitivas não deve levar-nos a um pensamento evolucionista linear. Por mais que os povos agrícolas, até a constituição de sociedades estratificadas, tenham passado – em algum sentido – pelos estágios acima descritos, os diferentes modos de vida coexistiram na América, não somente até a chegada dos conquistadores europeus. Ainda hoje certos povos (poucos é verdade) preservam seus estilos de vida nômade ou semi-nômade, abaixo estudados.

OS POVOS NÔMADES E SEMI-NÔMADES
OS POVOS NÔMADES E SEMI-NÔMADES

O modo de vida nômade é o mais primitivo dos meios de associação comunitária conhecido. O povoamento da América fora iniciado por grupos nômades, sendo que mesmo após a Revolução Neolítica e a chegada dos europeus no continente eles eram encontrados. Seu nomadismo representava uma adaptação a ambientes difíceis de sobreviver, como os desertos do norte do atual México, onde a agricultura não prosperava. A subsistência advinha da caça e coleta, que poderiam ser especializadas ou não. Tanto sua cultura material, como organização social, eram, geralmente, as características dos bandos: rudimentares e relativamente simples. Pela baixa densidade de suas populações, ficavam os nômades em situação de desvantagem em relação aos semi-sedentários ou já sedentários, perdendo desta forma territórios e podendo cair em escravidão por guerras. Entretanto, especialmente na Meso-

América, povos guerreiros nômades vindos do norte (conhecidos como chichimecas ) invadiram e conquistaram aldeias

América, povos guerreiros nômades vindos do norte (conhecidos como chichimecas) invadiram e conquistaram aldeias e cidades, mesclando-se aos povos conquistados e absorvendo sua cultura sedentária. À época da conquista, no final do século XV e inícios do XVI, os povos que permaneciam nômades habitavam somente regiões (marginais) livres da influência direta das “altas culturas” pré-colombianas. Podemos citar como exemplos de povos nômades os

chichimecas, habitantes dos desertos mexicanos; os povos pampas, no território da atual Argentina; os nativos das planícies do centro dos atuais Estados Unidos da América, que se deslocavam seguindo as manadas de bisões; e parte dos grupos esquimós. Os povos semi-nômades (ou semi-sedentários, se preferir), eram mais numerosos que os totalmente nômades, e estavam em um estágio de organização social mais complexo

e diversificado. Viviam em comunidades maiores, formando tribos ou aldeias, tendo as

características sócio-culturais destas, descritas anteriormente. Praticavam a agricultura rudimentar, principalmente por meio da coivara, disseminada também pelos nativos

brasileiros, como os povos Tupi. Este começo da agricultura fora marcado pela transumância e complementaridade em relação à subsistência advinda da caça e coleta. Assim como o ocorrido com o nomadismo, o semi-sedentarismo representava uma bem sucedida estratégia de adaptação ao ambiente habitado – geralmente de florestas tropicais – fraco em termos de produtividade agrícola (CHASTEEN, 2001, p. 28). Num contexto de abundância de terras, era mais fácil se mudar periodicamente – quando os solos perdessem produtividade – para novas terras, do que insistir em permanecer nas de solos desgastados. Neste sistema agrícola, a caça, pesca e coleta vegetal também se beneficiavam com a mudança de territórios. A cerâmica esteve presente em parte destes povos semi-sedentários, porém só se desenvolveu plenamente com o sedentarismo. Abaixo temos um mapa identificando as densidades demográficas e os povos que habitavam a América à época de chegada de Colombo. As áreas em branco e algumas “pouco manchadas” representam os povos nômades e semi-nômades.

Os povos nômades e semi- nômades tenderam, ao longo do último milênio, a sofrerem cada vez maior influência dos povos sedentários, sendo absorvidos (ou absorvendo, como nos casos de Toltecas, Mistecas e Mexicas) por estes, através de guerras e escravização ou por assimilação do

modo de vida agrícola sedentário. Neste sentido, o processo de colonização européia fora o ápice (certo que trágico

e mortificante) de uma história anterior

de sobrepujamento sócio-cultural destas formas de vida comunitárias primitivas. Não obstante, temos que ter em conta que o impacto da conquista e da colonização européia fora particularmente drástico entre os povos não sedentários, pela incompatibilidade

maior entre seu modo de vida e o empreendido pelos colonizadores na América.

sedentários, pela incompatibilidade maior entre seu modo de vida e o empreendido pelos colonizadores na América.
AS SOCIEDADES AGRÍCOLAS
AS SOCIEDADES AGRÍCOLAS
AS SOCIEDADES AGRÍCOLAS A Revolução Neolítica na América iniciara-se com atraso em relação ao Velho Mundo.

A Revolução Neolítica na América iniciara-se com atraso em relação ao Velho Mundo. Acredita-se que a primeira atividade agrícola tenha ocorrido há cerca de 10 mil anos, na região de Jericó, próximo do Mar Morto (PINSKY,

História da

2003, p. 45). Para a América, a transição da caça e coleta para a agricultura começara entre 7.000 e 4.000 a.C., primeiramente na Meso-América, depois na Zona Andina. Há controvérsias em torno da invenção independente da agricultura na América, e pela multiplicidade ou não dos focos no continente. Tratam-se de questões ainda não totalmente resolvidas. Em geral, a opinião de que houve um desenvolvimento autóctone da agricultura no continente americano prevalece atualmente. Alguns problemas resultam desta proposição,

principalmente a respeito da “origem botânica de certas plantas e à prioridade geográfica de sua domesticação” (CARDOSO, 1996, p. 36). Por exemplo, a primeira planta comprovadamente domesticada na América – a cabaça (Lagenaria siceraria) – não tinha (ou ainda não se descobriu) antecedentes no continente. Ademais, era cultivada, por volta de 7.000 a.C., tanto na Meso-América como no Sudeste Asiático. Outras plantas como o algodão, que parece ter sofrido hibridação entre espécies americanas e do Velho Mundo, bem como o amendoim – típico da América, mas encontrado em sítios neolíticos chineses – apontam para certa conexão entre o desenvolvimento agrícola entre as duas margens do Pacífico. As primeiras espécies vegetais domesticadas na América – na região meso-americana , além da cabaça, algodão e amendoim, foram: o abacate, a abóbora, o feijão, a pimenta, o cacau e o milho (AQUINO, 2000, p. 41; CARDOSO, 1996, p. 37). Além dos vegetais, na Meso-América foram domesticados uma espécie comestível de cão e o peru. Posteriormente, tivemos na Zona Andina (na costa pacífica), em cerca de 5.000 a.C., a domesticação da batata, da quinoa, e do feijão, assim como do lhama o mais importante animal dos Andes. Além destes, dos principais focos de surgimento da agricultura, em data e região específicas não determinadas domesticara-se a mandioca na América do Sul, base alimentar dos povos semi-sedentários que habitavam o território do atual Brasil. As influências e permutas entre os núcleos agrícolas ainda são pouco conhecidas e comprovadas. Dentre as espécies vegetais domesticadas, três delas se destacaram, cada qual em uma região,

a

“complexos agrícolas” baseados nelas:

na

alimento preponderante; nos Andes, a

América I

nelas: na alimento preponderante; nos Andes, a América I ponto de podermos distinguir Meso-América, temos o

ponto de podermos distinguir

Meso-América, temos o milho como

batata exercera papel fundamental na alimentação (sendo diversas as espécies cultivadas); na América ao leste das Cordilheiras a mandioca prevalecia como principal gênero plantado pelos indígenas. Perceba as áreas contidas nos “complexos” e a difusão destes pelo continente.

Devemos notar que, na América, a domesticação de plantas fora muito mais rica do que

Devemos notar que, na América, a domesticação de plantas fora muito mais rica do que a de animais, pela ausência de grandes mamíferos na fauna holocena do continente, contribuindo mais decisivamente para a sedentarização e economia dos povos pré- colombianos. Durante milênios, desde os primórdios da domesticação das plantas, fora se

concretizando a “Revolução Neolítica”, que engloba, além do desenvolvimento da agricultura,

a gradual sedentarização, maior especialização do trabalho e, num estágio avançado,

instituições políticas estatais e urbanização. Como dito, fora lento este processo,

contradizendo o sentido que poderia ter a expressão “Revolução Neolítica”, indicando rápidas transformações no modo de vida dos povos que a experimentaram. Inicialmente o cultivo incipiente e rudimentar (poderíamos dizer, experimental) complementava a subsistência. Somente de forma gradual o percentual alimentar advindo da agricultura ultrapassou a coleta

e caça na dieta dos povos, não sendo um processo automático. O que não invalida o

caráter revolucionário da agricultura. Durante todo o período anterior à descoberta da agricultura, o homem ficou à mercê da natureza, tendo um papel “passivo” em relação a ela. A partir do momento em que começou a cultivar vegetais e domesticar animais, passou a obrar ativamente na produção de seu sustento, não mais dependendo de uma natureza provedora (ou seja, da disponibilidade no meio ambiente de animais caçáveis e plantas para coleta). Este processo fora revolucionário na medida em que libertara a humanidade da dependência em relação

ao meio natural, podendo crescer demograficamente a partir do desenvolvimento de seu trabalho produtivo (neste sentido, a Revolução Industrial, milênios depois, representará nova etapa de dominação pelo homem do meio natural). Claro está que ainda hoje esta “liberdade” do homem em relação ao meio ambiente é relativa, na medida em que dependemos de fatores climáticos para uma boa colheita (secas ou enchentes continuam a destruir plantações mundo afora).

A plena sedentarização, advinda do desenvolvimento agrícola, fora o ápice do

processo de diferenciação cultural dos povos pré-colombianos. Enquanto alguns

permaneciam nômades, com formações sociais muito rudimentares, a partir de 2.000 a.C. quando a agricultura estava consolidada como modo de vida na Meso-América –, tribos cada vez maiores apresentavam crescentes divisões sociais e do trabalho, bem como primórdios de urbanização.

O crescimento das forças produtivas permitiu não só o aumento populacional como

também excedentes de produção. Estes excedentes, quando apropriados via tributo em nome da coletividade por um chefe, permitiram que este os canalizasse para a manutenção de homens que trabalhavam na construção de templos ou obras relacionadas com a agricultura (irrigação). Como exemplo deste estágio transitório para a configuração do Estado e de uma sociedade estratificada em classes, temos a descrição de Ciro Flamarion Cardoso da cultura chibcha (território da atual Colômbia) quando da conquista espanhola:

“Eram politicamente uma confederação tribal com dois chefes supremos [de caráter político sacerdotal], o Zipa
“Eram politicamente uma confederação tribal com dois chefes
supremos [de caráter político sacerdotal], o Zipa de Bogotá e o Zaque de
Tunja. Havia chefes menores, constantemente em guerra uns com os outros.
] [
A agricultura, o artesanato e o comércio apresentavam desenvolvimento
considerável. Havia feiras nos povoados. [
]
Os grupos sacerdotal e
mercantil eram bem diferenciados.” (CARDOSO, 1996, p. 46)

Fica claro que a chefia (ou governo) esteve intimamente ligada com a função religiosa. A partir do momento em que os chefes político-sacerdotais

História da

requisitaram o trabalho coletivo para a construção dos templos,

e tributos para a manutenção dos mesmos,

abriu-se espaço para uma definitiva divisão do trabalho. Enquanto a maioria trabalhava nestas obras, uma pequena parcela da população (pertencente à linhagem senhorial ou nobreza a ela ligada) dirigia o andamento das construções, administrava os templos e se apropriava da renda dos tributos. Parte desta renda era utilizada para pagamento de artesãos especializados e funcionários empenhados em diversas funções. Estava consolidando-se o complexo templo-palácio:

e foram fundamentais para a produção do

excedente apropriado pelos dirigentes. Porém o esquema “hidráulico” se aplica muito mais apropriadamente na constituição das cidades-Estados da Mesopotâmia do que em relação à Meso-América. Por volta de 1200 a.C. surgira o que se considera como a primeira “civilização” americana: a dos Olmecas, na região do Golfo do México. No período entre 1200 e 900 a.C. emergiram os primeiros centros cerimoniais olmecas, como San Lorenzo e La Venta (GENDROP, 1998, p. 15). Não constituíam ainda cidades propriamente

ditas, porém já possuíam organização social hierarquizada, ao nível de chefias e confederações tribais, tendo como líderes os integrantes da classe sacerdotal. No período olmeca se consolidara parte importante da tradição cultural meso-americana, sendo considerada a “cultura mãe” da região: aparecem a escrita hieroglífica e o calendário (astronomia), o culto ao jaguar, a arquitetura piramidal dos templos, o jogo ritual com bolas de borracha, etc. Cultivavam, já com obras hidráulicas, o milho, feijão e abóbora. Em termos religiosos, fora ultrapassado o estágio simples do xamanismo e do culto aos antepassados, surgindo divindades (como o “homem jaguar”) que terão longa influência na religiosidade pré- colombiana. A cultura olmeca se difundira por extensa área na Meso-América, seguindo

o rastro dos comerciantes que buscavam a

grandes distâncias materiais como o jade. Outras culturas contemporâneas (e posteriores) se desenvolveram sob graus variados de influência olmeca (como a zapoteca, de Monte Albán, ou a maia).

olmeca (como a zapoteca, de Monte Albán, ou a maia). América I sumo-sacerdote e monarca encarnados

América I

(como a zapoteca, de Monte Albán, ou a maia). América I sumo-sacerdote e monarca encarnados num

sumo-sacerdote e monarca encarnados num só corpo. Ademais, a religião proporcionava legitimidade aos reis, posto que era em prol dela que solicitavam o trabalho dos súditos, além de em muitos casos governarem por “vontade divina” (ou encarnarem eles mesmo as divindades, à moda dos faraós egípcios ou imperadores incas). O complexo templo-palácio (por mais que seja uma generalização esquemática) pareceu ser uma pré-condição para

o

bastante ilustrativo, neste sentido,

o

Meso-América, Teotihuacán, ter sido um centro cerimonial de destaque, assim como muitas outras cidades da região, como por exemplo, as maias. Daí denominarmos de teocracia a primeira forma estatal de governo. As obras para aperfeiçoamento da agricultura (canais de irrigação, diques, represas, etc.) certamente exigiram um elevado grau de organização (sob comando do chefe),

surgimento das cidades. É

fato de que a primeira cidade da

O início da era cristã (I milênio d.C.) marca o final da preponderância olmeca e

O início da era cristã (I milênio d.C.) marca o final da preponderância olmeca e a

entrada na “era clássica” das civilizações meso-americanas, com a crescente hierarquização social, desenvolvimento agrícola e urbanístico e florescimento das cidades-Estado teocráticas. Teotihuacán (localizada num vale do Planalto Central mexicano), considerada como primeira cidade do continente americano, representou um passo além dentro de um processo milenar de desenvolvimento da civilização na América. Constituída urbanisticamente por volta de 100 d.C., a partir de quatro aldeias, fora verdadeira metrópole teocrática – a “Cidade dos Deuses” –, atingindo em seu apogeu (séculos V a VII) 85.000 habitantes, além de irradiar sua influência até a (atual) Guatemala (CARDOSO, 1996, p. 65; SOUSTELLE, 1997, p. 10). Durante séculos Teotihuacán fora verdadeira capital religiosa e centro de peregrinação, tendo como principais templos, as pirâmides do Sol e da Lua, com 63 e 43m de altura, respectivamente. Seus comerciantes detinham o controle do comércio e transformação da obsidiana (espécie de pedra), matéria-prima de suma importância na Meso-América, dada a ausência de uma metalurgia empregada na fabricação de instrumentos agrícolas e armas – neste sentido, segundo Paul Gendrop, podemos considerar que a tecnologia meso- americana jamais ultrapassou o estágio equivalente ao “Neolítico” (GENDROP, 1998, p.

16).

equivalente ao “Neolítico” (GENDROP, 1998, p. 16). Aproximadamente em 750 d.C., Teotihuacán fora destruída e

Aproximadamente em 750 d.C., Teotihuacán fora destruída e incendiada, sem que tenhamos dados que confirmem as hipóteses levantadas para sua derrocada (revoltas camponesas ou ataque externo). Outras culturas se desenvolveram por esta época, como a zapoteca de Monte Albán (abandonada em 950, após a invasão dos mistecas) e a totonaca (que conheceu seu apogeu entre os séculos VII e X), que receberam influência de Teothuacán. Antes de tratarmos das “altas culturas” da Meso-América (maia e asteca), vamos fixar o que vimos até aqui com a atividade complementar.

fixar o que vimos até aqui com a atividade complementar. Texto Complementar O Continente Meridiano “Entre

Texto Complementar

O Continente Meridiano

“Entre p 71º grau norte e o 56º grau sul, em mais de 15.000 km de NNO ao SSE, a América, este duplo continente meridiano, fracamente inclinado em relação a uma verticalidade perfeita, forma, de uma a outra bacia polar, um anteparo entre dois oceanos – o Atlântico prolongado pelo Índico, de uma parte, o oceano Pacífico, da outra. [ ] Porque é uma barreira – desesperante ao longo de 30.000 km de costas atlânticas, com sinuosidades sem fim desenrolando-se a atravessar o caminho ideal que leva da Europa

à Ásia – é que a América foi achada, explorada e grosseiramente apanhada

nas malhas da Europa no decurso dos três primiros decênios do século XVI, em ritmo insensato, jamais igualado. Este obstáculo, na verdade, é responsável pela conquista, entendida como uma modalidade particular de ocupação do solo. A América deixou desde a muito de ser uma barreira, mas não deixou de conservar a marca desta conseqüência, em certo momento essencial, do seu radical meridianismo.

O alongamento no sentido dos meridianos – a América nunca tem mais de 4.000 a

5.000 km de largura na latitude do Amazonas ou na fronteira dos Estados Unidos-Canadá –

As mudanças de clima e de

vegetação somam os seus efeitos às distâncias. Em parte nenhuma são mais rápidas do

que nos 2.200 km em vôo, que separam o sul polar do Lavrador, do norte tropical da Flórida neste incrível gargalo das isotérmicas que é a frente atlântica da grande república americana. Esta estrutura meridiana explica, sem dúvida, que tenha havido, não duas Américas como o afirmam os geógrafos, mas três continentes: uma América tropical, e de um e do outro lado uma América do norte e uma América do sul. Três mundos que, até o meado do século XIX, até a revolução dos transportes marítimos, quase se ignoram. Compreende-se que essas Américas tivessem evoluções independentes, que comunicassem entre si durante muito tempo através da Europa. Para uma navegação submetida ao regime dos ventos, o caminho mais curto entre Boston e Buenos Aires passa tão logicamente pela Europa quanto a escala do Brasil se recomenda no antigo caminho marítimo de Lisboa à Índia pelo Cabo. Considerando-se este estado de coisas, muitas anomalias dos pactos coloniais perdem a sua nocividade. [ ] O alongamento da América contribui, ainda hoje, para esculpir dois traços estruturais marcantes: vocação para a vida atlântica e dificuldade em se realizar como um todo.

O meio geográfico é tanto mais constrangente quanto mais se remota no tempo. O

soma, ainda, seus efeitos às distâncias americanas. [

O soma, ainda, seus efeitos às distâncias americanas. [ História da América I ] meridianismo da

História da

América I

]

meridianismo da América influiu de maneira decisiva no passado pré-colombiano. Conjugado com a sua imensidão, contribuiu para a compartimentação e para o isolamento das civilização que aí se sucederam.” CHAUNU, Pierre. A América e as Américas. Lisboa – Rio de Janeiro: Edições Cosmos, 1969, pp. 13-15.

– Rio de Janeiro: Edições Cosmos, 1969, pp. 13-15. CARDOSO, Ciro Flamarion S. América pré-colombiana .
– Rio de Janeiro: Edições Cosmos, 1969, pp. 13-15. CARDOSO, Ciro Flamarion S. América pré-colombiana .

CARDOSO, Ciro Flamarion S. América pré-colombiana. São Paulo: Brasiliense, 1996.

AtividadesAtividadesAtividadesAtividadesAtividades ComplementaresComplementaresComplementaresComplementaresComplementares
AtividadesAtividadesAtividadesAtividadesAtividades ComplementaresComplementaresComplementaresComplementaresComplementares

AtividadesAtividadesAtividadesAtividadesAtividades

ComplementaresComplementaresComplementaresComplementaresComplementares

1. Identifique e descreva as teorias que tratam do povoamento da América, bem

como as fases “pré-históricas” americanas.

2. Relacione as formas de organização social com os estágios de desenvolvimento

tecno-cultural até a sedentarização dos grupos americanos.

3. Disserte sobre o processo que levaria da sedentarização até o surgimento do

Estado teocrático e da urbanização na Meso-América.

A M ESO -A MÉRICA História da América I Durante o longo processo de configuração

A MESO-AMÉRICA

História da

América I

Durante o longo processo de configuração da zona que atribuímos como sendo de cultura maia, o desenvolvimento deste povo teve contornos semelhantes e - em diversos períodos sob influência decisiva – daqueles vislumbrados anteriormente, como dos Olmecas ou de Teotihuacán. Para facilitar a compreensão das fases históricas e suas localizações no espaço regional maia, apresentamos o mapa ao lado. Os pesquisadores da civilização maia dividem sua história basicamente em três fases: pré-clássica (1.800 a.C.- 200 d.C.), clássica (entre os séculos II e X) e pós-clássica (séculos X a XVI). Note-se que o critério para considerar o segundo período como “clássico” não se dá somente pelo “esplendor” alcançado, e sim pela difusão de uma cultura própria maia na época. Assim como ocorria nas regiões mexicanas por volta de 1500 a.C., nas Terras Altas (zona meridional guatemalteca) aldeias agrícolas se cristalizavam, tendo como cultivo principal o milho. Possuíam uma cerâmica sofisticada e sinais de estratificação social. Acredita-se que os povoadores do território maia provinham do oeste dos Estados Unidos (GENDROP, 1998, p. 23). Séculos depois, este processo de sedentarização levara ao surgimento de centros cerimoniais na área maia meridional (600 a.C. a 150 a.C.), sendo que dois grandes centros se destacam: Izapa e Kaminaljuyú. A partir de então a sedentarização se disseminou pelas Terras Baixas (zona central maia), formando novos centros que marcaram a fase pré-clássica da cultura maia. Entretanto, não se pode falar ainda em uma cultura maia propriamente dita, sendo notável a influência da cultura olmeca, por exemplo. Fora em Tikal, por volta de 200 a.C., onde se iniciara um cerimonialismo monumental, que se desenrolara ininterruptamente durante mais de um milênio, fazendo deste sítio a maior cidade do mundo clássico maia. Entretanto, o caráter urbano deste e de outros centros cerimoniais é contestado por parte dos estudiosos. Segundo estes, os centros cerimoniais serviriam a numerosas aldeias circundantes, sem que houvesse grande aglomeração urbana. Assim, apenas quando da ocorrência dos cultos é que os centros recebiam a massa camponesa, que após as celebrações e comercialização nos mercados retornariam às suas aldeias, permanecendo como residentes apenas a classe sacerdotal e seus funcionários, responsáveis pela manutenção dos complexos monumentais. Uma explicação para a falta de grandes aglomerações que caracterizariam centros urbanos poderia ser a baixa produtividade agrícola (onde se utilizava largamente a coivara, nos moldes dos indígenas brasileiros), em solos pobres da floresta tropical que domina o ambiente na América Central. De qualquer sorte, indubitavelmente em período posterior fica evidente a

A CIVILIZAÇÃO MAIA
A CIVILIZAÇÃO MAIA
na América Central. De qualquer sorte, indubitavelmente em período posterior fica evidente a A CIVILIZAÇÃO MAIA
formação de cidades para além dos complexos cerimoniais, tendo então influência do urbanismo mexicano. Sendo

formação de cidades para além dos complexos cerimoniais, tendo então influência do urbanismo mexicano. Sendo ou não cidades, os centros religiosos se expandiram, tendo como topo da estrutura social os sumo-sacerdotes – halach-uinic –, que detinham um poder, às vezes rotativo, distribuindo os altos cargos entre uma nobreza hereditária, sacerdotal, comercial

e

e demais funcionários, que por sua vez estavam hierarquicamente acima dos camponeses (base do sistema, que sustentava a grandiosidade religiosa) e do “povo miúdo”, ocupado em funções não especializadas. Restavam ainda os escravos, obtidos como prisioneiros de guerra (GENDROP, 1998, p. 44). A terra era cultivada coletivamente ao nível das aldeias, que pagam, enquanto comunidade, os tributos para a manutenção dos centros. Estes eram unidades políticas independentes (não formavam confederações), apenas tendo os grandes centros certa influência sobre os menores que os circundavam. As trocas culturais (difusão de estilos) se davam entre os centros, seguindo as rotas comerciais. Neste sentido, temos como produtos de destaque comercial a obsidiana, o jade, as plumas dos pássaros tropicais (admiradas pela nobreza como ornamento), a manufatura de tecidos, cerâmica policromada e o cacau – artigo de luxo que servia como moeda de troca corrente. Em termos culturais, percebe-se que a religião dominava todas as esferas da vida. Influenciada pelas tradições olmeca e de Teotihuacán, comprovadas no culto ao deus jaguar, temos um grande panteão divino, sendo que cada deus era cultuado em determinados cerimoniais. Destaca-se enquanto divindade dominante o deus do fogo – Itzamna. Outros deuses como Chac – deus da chuva – e o deus do milho eram também importantes. Entre os Maias a astronomia (que tinha um sentido místico) se desenvolveu consideravelmente, possibilitando a confecção de dois calendários notáveis, sendo um de caráter religioso e outro civil/administrativo (servindo para precisar as épocas do plantio e colheita do milho, bem como para datação de reinados). Ambos os calendários se encontravam a cada ciclo de 52 anos, demonstrando a visão cíclica de mundo. A matemática também se desenvolveu concomitantemente com a astronomia (e a administração), sendo os Maias um dos primeiros povos a ter concebido o “zero” (ausência de valor).

A arquitetura era essencialmente religiosa, destacando-se a pirâmide como construção preponderante. Enormes blocos de rocha eram transportados por um sistema

de rolagem sobre toras, pois os Maias, assim como os demais povos pré-colombianos, desconheciam a roda (talvez pela falta de grandes animais de tração, mesmo motivo para

a não utilização de arados).

tração, mesmo motivo para a não utilização de arados). militar. Abaixo destes havia os guerreiros, artesãos

militar. Abaixo destes havia os guerreiros, artesãos

“No conjunto, a arquitetura maia preocupava-se mais em distribuir grandes massas em espaços descobertos, desprezando o interior dos edifícios: os templos que coroavam as pirâmides eram pequenos, escuros, com cobertura de madeira ou em falsa abóbada” (CARDOSO, 1996, p. 70).

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O objetivo simbólico da arquitetura religiosa era o de dissolver a individualidade dos fiéis em

O objetivo simbólico da arquitetura religiosa era o de dissolver a individualidade dos fiéis em meio à massa dos espectadores, frente à monumentalidade dos templos. Fazê-los sentirem-se pequenos diante de algo maior: a coletividade dominada pelo poder

diante de algo maior: a coletividade dominada pelo poder História da das divindades. Os grandes espaços

História da

das divindades. Os grandes espaços das praças, característicos dos centros cerimoniais, também eram palcos do tiangui – ou mercado a céu aberto – e dos jogos ritualísticos com a bola de borracha. Quanto à escultura, destacam-se os relevos dos templos e principalmente as estelas (rochas monolíticas), onde gravavam-se as cenas dinásticas, religiosas, guerreiras, etc., e as datas e dizeres da escrita hieroglífica, só parcialmente decifrada. Nas artes, a cerâmica também tinha papel de destaque, sendo no período clássico de alto nível, principalmente a relativa à religião.

América I

nível, principalmente a relativa à religião. América I Por volta do século X, a área civilização

Por volta do século X, a área civilização clássica da região central maia, onde despontavam como centros preponderantes Tikal, Palenque e Copan – o “triângulo maia clássico” – fora gradualmente abandonada. Não se conhece bem as causas deste declínio, porém acredita-se que fora devido ao esgotamento dos pobres solos (pressionados pela demografia), provocando emigrações rumo à região setentrional (península de Yucatán), ou por conta de revoltas camponesas contra o sistema tributário. A zona cultural maia, contudo, não desaparecerá, sendo deslocado o eixo de influência para centros periféricos, que não mais demonstrariam o esplendor dos tempos clássicos. A partir de então sofrera crescente influência dos novos rumos da região mexicana, militarizada pelas invasões de povos guerreiros nômades do norte e pelas constantes guerras entre as cidades-Estado. A mexicanização cultural dos Maias pode ser percebida pela transferência do poder da classe sacerdortal para a militar, inclusive com cidades agora sendo circundadas por muralhas, antes inexistentes. Os sacrifícios humanos também se tornariam maciços, nos moldes toltecas (e depois astecas), que dominaram centros importantes como Chichén Itzá. Foi neste estado das coisas que os espanhóis encontraram a região à época da conquista.

O SURGIMENTO DA CIVILIZAÇÃO ASTECA
O SURGIMENTO DA CIVILIZAÇÃO ASTECA
O SURGIMENTO DA CIVILIZAÇÃO ASTECA

Assim como as civilizações anteriores, os Astecas (povo mexica) herdaram o acúmulo das tradições culturais dos povos meso-americanos. Fizeram parte de um processo civilizatório milenar, representando uma síntese cultural do cadinho formado por todas as contribuições das civilizações da região. Vimos como por volta do século X o mundo clássico da Meso-América entrara em um período de instabilidade, iniciado pelas quedas de Teotihuacán e Monte Albán, seguidas do declínio maia. Dois povos vindos da zona setentrional assumiram posição de destaque no contexto de migrações e guerras do período: Toltecas e Mistecas. Abrira-se uma nova fase da civilização meso-americana, marcada pela mescla entre traços guerreiros dos povos nômades chichimecas (Toltecas, Mistecas e posteriormente Mexicas), com novas concepções religiosas, e as tradições urbanas e religiosas já existentes na região. Ocorreram transformações urbanísticas (maior difusão e acentuação do urbanismo, para além dos centros cerimoniais), religiosas, arquitetônicas, artísticas, bem como notável progresso da metalurgia (principalmente por influência misteca) e da agricultura de regadio (aumento da produtividade pela irrigação). Os Toltecas, chegados à região do Planalto Central na segunda metade do século IX, estabeleceram sua capital – Tula – ao norte de Teotihuacán, absorvendo sua cultura remanescente. Tiveram grande prestígio e influência por toda a Meso-América, sendo marcante sua presença entre os Maias. Tula transformou-se em importante centro de um império que cobrava tributos de diversas cidades e controlava importantes rotas comerciais. Já os Mistecas, após conquistarem a região de Oaxaca (Monte Albán), estabeleceram-se em Cholula. Aí floresceu rica civilização de artesãos especializados (como os ourives), que deram um passo além no progresso material meso-americano, sendo fundamentais para as transformações urbanísticas do último período pré-colombiano desta parte da América. Entretanto, outra vez ocorreria um período de instabilidade pelas terras da Meso- América, com a pressão da migração de novas levas chichimecas que destruíram Tula em 1224 a.C., ocasionando um vazio de poder que levou as diversas cidades-Estados a disputarem a hegemonia entre si. Fora neste ambiente conturbado em que os Mexicas fizeram sua aparição no Planalto mexicano. Saídos da legendária Aztlán (daí a denominação asteca) nas margens setentrionais da Meso-América no século XI, irromperam pela região século seguinte, sendo repelidos pelos povos que lá habitavam. Conseqüentemente foram se refugiar no Vale mexicano, em ilhas da zona pantanosa a oeste do lago Texcoco, onde, segundo a tradição, fundaram sua capital – Tenochtitlán – em 1325 (SOUSTELLE, 1997, p. 17). Em menos de dois séculos, a cidade iniciada com choupanas de bambu se transformaria numa metrópole de 200 mil pessoas, plenamente urbanizada, com canais, praças, mercados, templos, pirâmides, palácios, lojas e residências, estendendo-se pelas margens circunvizinhas com as quais se

templos, pirâmides, palácios, lojas e residências, estendendo-se pelas margens circunvizinhas com as quais se 23
História da comunicava por estradas e pontes. Abaixo temos um mapa contendo a zona de

História da

comunicava por estradas e pontes. Abaixo temos um mapa contendo a zona de influência que atingiu a civilização asteca.

CULTURA E SOCIEDADE ASTECAS
CULTURA E SOCIEDADE ASTECAS

América I

A cultura asteca, como dito acima, esteve marcada pelas influências dos povos meso-americanos com quem entrou em contato, e às quais mesclou com suas próprias tradições. Entre estas últimas destaca-se sua língua: o nahuatl. Comum aos povos recém chegados ao Vale, era um idioma rico e versátil. Muitos textos astecas (redigidos com a escrita pictográfica característica) sobreviveram à destruição espanhola, demonstrando o valor estético da literatura mexica. Em termos religiosos, percebemos claramente a mistura entre seus deuses tribais (e guerreiros) e os das civilizações meso-americanas (agricultores). Seu panteão era dominado por Uitzilopochtli – divindade solar da guerra, circundado por inúmeros deuses que representavam constelações e estrelas (a religião tribal asteca era essencialmente astral). Por outro lado, divindades como Tlaloc – deus da água e da chuva, de origem teotihuacana – tinha papel igualmente relevante:

Da mesma forma com que o grande sacerdote de Uitzillopocchtli e o de Tlaloc ocupavam
Da mesma forma com que o grande sacerdote de Uitzillopocchtli e o
de Tlaloc ocupavam com autoridade equivalente os dois postos mais elevados
na hierarquia sacerdotal, também o grande Templo de Tenochtitlán era
encimado por dois santuários: o de Uitzilopochtli, vermelho e branco, e o de
Tlaloc, azul e branco. Desse modo, a religião astral dos guerreiros e a religião
agrária dos povos sedentários fundiam-se por assim dizer, reconciliadas na
síntese asteca (SOUSTELLE, 1997, p. 70).

Outro exemplo de tentativa de “conciliação” entre os aspectos guerreiros e agrícolas fora a adoção de Quetzalcoatl – a benevolente serpente emplumada de Teotihuacán – que, no entanto, recebera nova roupagem astral (deus do planeta Vênus), representando juntamente com Xolotl (deus cão) a noção de morte e ressurreição. A presença da astrologia, ligada à religião, também se comprova pelo calendário cíclico nos mesmos moldes dos Maias.

pelo calendário cíclico nos mesmos moldes dos Maias. Como era comum no mundo pré-colombiano, a religião

Como era comum no mundo pré-colombiano, a religião dominava as demais esferas da vida entre os Mexicas. Tomemos como exemplo a guerra. A cosmogonia asteca (ou povo do Sol, como eles mesmos se viam) impelia-os para que mantivessem irrigadas de “água preciosa” – sangue humano – o Sol, a Terra e todas as divindades, sem a qual a engrenagem do mundo deixaria de funcionar. Daí decorriam as guerras sagradas e os sacrifícios humanos. Além das finalidades positivas para o Estado, como conquista territorial, imposição de tributos e a livre passagem de seus comerciantes, a guerra tinha a função

proeminente de garantir-lhes prisioneiros para os sacrifícios. Quando consolidaram a maior parte das conquistas (meados

proeminente de garantir-lhes prisioneiros para os sacrifícios. Quando consolidaram a maior parte das conquistas (meados do século XV) tiveram os soberanos que inventar a “guerra florida” – torneio para fornecimento de vítimas para os deuses. No campo da arquitetura, assim como nas civilizações meso- americanas que a precederam, dominava o caráter religioso, tendo

a

inovaram ao conceber a pirâmide do teocalli, que tinha em seu cume dois templos acoplados. Infelizmente os palácios (assim como a arquitetura urbana de Tenochtitlán) foram destruídos pelos conquistadores espanhóis, restando apenas os depoimentos dos cronistas e os sítios arqueológicos como registros. Devido ao caráter militarista do Estado, a construção de fortalezas nas fronteiras perfazia importante elemento da arquitetura monumental, sendo que as torres destes redutos fortificados se destacavam. Quanto às demais artes, destacaram-se pela perfeição da escultura em pedra, pelos baixo-relevos, mosaicos de pedra e pela cerâmica com motivos negros sobre fundo alaranjado ou vermelho. A metalurgia (principalmente do ouro e da prata) suscitou admiração entre os espanhóis (ávidos por metais preciosos), entretanto tinha pouca aplicação prática

– a agricultura, por exemplo, permaneceu em estado lítico. A sociedade Asteca atingiu elevada hierarquização, sendo regida por estruturas complexas e comandada por um Estado com aparelho administrativo e judiciário desenvolvido. O modo de vida dos diversos grupos sociais diferia amplamente entre si. No topo da pirâmide social estava uma nobreza crescentemente hereditária (tlatoque), encabeçada pela família real. Ao lado desta havia uma nobreza funcional de origem militar (tecutli), que permitia a ascensão dos guerreiros de destaque, caracterizando uma mobilidade social. Categorias especializadas como as dos comerciantes (ligados ao comércio exterior) e dos artesãos formavam corporações e organizações específicas. A base da sociedade era integrada por diversas categorias populares rurais e urbanas, assim como por um tipo de servidão considerada pelos cronistas espanhóis como “escravidão”. A célula social básica dos Astecas era o calpulli, “comunidade residencial com direitos comuns sobre a terra e uma organização interna de tipo administrativo, judiciário, militar e

fiscal” (CARDOSO, 1996, p. 77). A estrutura fundiária esteve atrelada aos dois pólos sociais:

as comunidades de um lado e a nobreza e o Estado do outro. Assim, existiam três formas gerais de propriedade de terra: a comunal, pertencente ao calpulli, subdividida em terras de cada linhagem e as efetivamente comunais; a dos nobres, advinda das conquistas, alienável entre eles e transmissível por herança (porém não se configurando como propriedade privada, sendo concessão como pagamento das funções sacerdotais, militares ou administrativas exercidas, podendo ser revogada pelo não cumprimento das mesmas);

e as pertencentes ao Estado, para manutenção da casa real, dos templos e da administração

militar e civil. A forma de governo entre os Astecas era a de uma monarquia (ou chefe tribal – tlatoani) hereditária, sendo um dos integrantes da família real eleito por uma assembléia. Era o monarca auxiliado por conselhos que exerciam funções administrativas e militares. Havia uma rede de administradores que fiscalizavam a cobrança dos tributos tanto internamente como pelas diversas províncias (ou cidades-Estado subjugadas) espalhadas pela extensa área de hegemonia asteca. Em termos econômicos, temos a agricultura como base da produção da riqueza. Era praticada no lago Texcoco uma forma de cultivo sobre pequenas ilhas artificiais, denominadas chinampas. Eram constituídas por estruturas de juncos e árvores que

. Eram constituídas por estruturas de juncos e árvores que pirâmide como principal forma monumental. Porém,

pirâmide como principal forma monumental. Porém, os Astecas

História da América I mantinham firme o fértil lodo pantanoso onde se cultivavam diversos gêneros

História da

América I

mantinham firme o fértil lodo pantanoso onde se cultivavam diversos gêneros como o milho, o feijão, a pimenta e o tomate.

Os animais domesticados foram o peru e uma espécie de cão. A economia interna era complementada pelo comércio com as zonas tropicais, de onde vinhas pedras, plumas, cacau (que também funcionava como base monetária) e diversos outros produtos.

como base monetária) e diversos outros produtos. APOGEU E DECLÍNIO DA CONFEDERAÇÃO ASTECA Após a
APOGEU E DECLÍNIO DA CONFEDERAÇÃO ASTECA
APOGEU E DECLÍNIO DA CONFEDERAÇÃO ASTECA

Após a fundação de Tenochtitlán (1325), os Astecas iniciaram seu período dinástico (1375) e viviam submissos em relação à cidade de Azcapotzalco. Porém, em 1434, o quarto soberano asteca, Itzcoatl, aliou-se a Nezaualcoycotl (rei de Texcoco, outra cidade vassala), derrotando e destruindo sua dominadora Azcapotzalco. Os dois soberanos vencedores, em um lance de sabedoria política, tomaram como aliada uma cidade pertencente à tribo de Azcapotzalco: Tlacopan. A partir de então estava fundada a “Tríplice Aliança” entre Tenochtitlán, Texcoco e Tlacopan, que dominaria vastas extensões da Meso-América até a chegada dos espanhóis (SOUSTELLE, 1997, p. 19). Logo, a preponderância militar de Tenochtitlán se afirmara dentro da Aliança, enquanto Texcoco se transformava em metrópole das artes, literatura e direito. Desde a morte de Nezaualcoycotl (1472) consolidara-se a hegemonia mexica, pois o soberano asteca passara a determinar a sucessão do trono em Texcoco, bem como tratara o rei de Tlacopan não mais como aliado, e sim como vassalo. Abrira-se uma série de conquistas, sob o comando militar dos soberanos astecas e seus oficiais, que comandavam os contingentes das três cidades. Cada rei mexica procurava expandir seu domínio, subjugando inúmeras cidades ao pagamento de tributo. Entretanto, o domínio sobre estas era mais econômico-militar do que político, posto que a maior parte das cidades conquistadas mantivesse governo próprio, configurando exceção apenas aquelas que mais se opunham à autoridade mexicana, que recebiam administradores astecas. Deste modo, o período de domínio asteca não deve ser considerado propriamente como “império”, pois era: “na verdade um mosaico de alianças, confederações, relações tributárias, implicando povos numerosos, heterogêneos e imperfeitamente submetidos” (CARDOSO, 1996, p. 77). Muitas das “conquistas” tinham que ser novamente realizadas, pois as revoltas contra os tributos obstavam o permanente controle dos mexicas, bem como havia enclaves nunca submetidos ao poder de Tenochtitlán, como Tlaxcala. A relação entre a capital asteca e as demais cidades baseava-se no controle de suas “políticas externas” e principalmente na cobrança dos tributos. Estes variavam de cidade para cidade, sendo os produtos e quantidades destinados aos cofres astecas determinados pelo tamanho e produção locais de cada uma. Algumas destas cidades, localizadas em pontos estratégicos e nas fronteiras “imperiais”, tinham como tributo a manutenção das fortalezas e tropas nelas situadas. Quando da conquista espanhola (1519-1521), o domínio tributário mexicano estendia- se por 38 “províncias”, entidades antes econômicas do que políticas, fiscalizadas cada uma de suas cidades por funcionários astecas – os calpixques – encarregados do registro e transporte dos tributos.

Após menos de um século de poder asteca, a chegada de Hernán Cortez, chefe da
Após menos de um século de poder asteca, a chegada de Hernán Cortez, chefe da

Após menos de um século de poder asteca, a chegada de Hernán Cortez, chefe da expedição espanhola que explorava a costa do Golfo do México, pôs fim à última civilização autóctone da Meso-América. As causas da derrota asteca se devem a diversos fatores. Enquanto Cortez, ao longo de 1519, colhia informações sobre o domínio mexicano, os Astecas nada sabiam sobre os espanhóis. Fora

o líder espanhol hábil em explorar o rancor das

cidades subjugadas pelo tributo, que sugava suas riquezas e homens destinados aos sacrifícios que banhavam de sangue os templos astecas.

Soube Cortez trazer para si o apoio dos

descontentes e unir os rivais dos Astecas, principalmente Tlaxcala, que forneceram seus guerreiros na luta contra Tenochtitlán. Porém,

a luta não se iniciara nos primeiros contatos entre mexicas e espanhóis. Montezuma II,

soberano asteca à época, acolheu os espanhóis, pois acreditava ser Cortez a encarnação do deus Quetzalcoatl, que segundo a lenda retornaria para governar os mexicas. As palavras do rei ilustram esta crença: “Sejai bem-vindo, nosso senhor, de volta a vosso país e entre vosso povo, para vos sentar sobre vosso trono, do qual fui o detentor por algum tempo em vosso nome” (SOUSTELLE, 1997, p. 103). Permanecera Montezuma como refém dos espanhóis até estes iniciarem os saques ao tesouro e massacres dos nobres. Então veio a luta, que congregava espanhóis, com sua tecnologia militar superior, e os rivais indígenas, no cerco à Tenochtitlán, que, além disto, sofrera com uma epidemia de varíola, que dizimara parte de sua população. Em 13 de agosto de 1521, fora a capital tomada e arruinada pelos conquistadores.

fora a capital tomada e arruinada pelos conquistadores. Texto Complementar: A Visão Asteca da Conquista “O

Texto Complementar:

A Visão Asteca da Conquista

“O primeiro traço fundamental da visão Asteca da Conquista é o que se poderia

descrever como quadro mágico no qual esta haveria de desenvolver-se Os astecas afirmam que, alguns anos antes da chegada dos homens de Castela, houve uma série de prodígios

e presságios anunciando o que haveria de acontecer. No pensamento do senhor

Moecuhzoma, a espiga de fogo que apareceu no céu, o templo que se incendiou por si

mesmo, a água que ferveu no meio do lago, a voz de uma mulher que gritava noite adentro, as visões de homens que vinham atropeladamente montados numa espécie de veados, tudo isso parecia avisar que era chegado o momento, anunciado nos códices, do regresso de Quetzalcóatl e dos deuses. [ ]

A dúvida a respeito da identidade dos homens de Castela subsistiu até o momento

em que, já hóspedes dos astecas em Tenochtitlan, perpetraram a matança do templo maior.

O povo em geral acreditava que os estrangeiros eram deuses. Mas quando viram seu modo

de comportar-se, sua cobiça e sua fúria, forçados por esta realidade mudaram sua maneira de pensar: os estrangeiros não eram deuses, mas popolocas, ou bárbaros, que tinham vindo destruir sua cidade e seu modo de vida. As lutas posteriores da Conquista, registradas pelos historiadores indígenas, testemunham o heroísmo da defesa. Mas a derrota final, ao ser narrada nos textos astecas, já é depoimento de um trauma profundo. A visão final é dramática e trágica. Pode-se ver

História da América I isto claramente no seguinte “canto triste” ou icnocuícatl : Nos caminhos

História da

América I

isto claramente no seguinte “canto triste” ou icnocuícatl:

Nos caminhos jazem dardos quebrados; os cabelos estão espalhados, Destelhadas estão as casas, incandescentes estão seus muros. Vermes abundam por ruas e praças,

e as paredes estão manchadas de miolos arrebentados.

Vermelhas estão as águas, como se alguém as tivesse tingido,

e se bebíamos, eram água de salitre.

Golpeávamos os muros de adobe em nossa ansiedade

e nos restava por herança uma rede de buracos. Nos escudos esteve nosso resguardo, mas os escudos não detêm a desolação

As palavras anteriores encontram novo eco na resposta dos sábios aos doze franciscanos chegados em 1524:

Deixem-nos, pois, morrer, deixe-nos perecer, pois nossos deuses já estão mortos!

Muitas outras citações poderiam acumular-se para mostrar o que foi

a experiência do povo

o trauma da Conquista para a alma indígena. (

que, após resistir com armas desiguais, viu-se a si mesmo vencido.”

)

Leon-Portilha, Miguel. A conquista da América Latina vista pelos índios. Petrópolis:

Vozes, 1984, pp. 16-18. In: PINSKY, Jaime [et al.]. História da América através de textos. São Paulo: Contexto, 2001, pp. 28-30.

através de textos . São Paulo: Contexto, 2001, pp. 28-30. História através de Documentos Abaixo, temos

História através de Documentos

Abaixo, temos um relato de Tenochtitlán, à época da conquista, feito pelo espanhol Bernal Diaz del Castilo:

as casas se erguiam separadas umas das outras,

comunicando-se somente por pequenas pontes levadiças e por canoas, e eram construídas com tetos terraceados. Observamos, ademais, os templos e adoratórios das cidades

adjacentes, construídos na forma de torres e fortalezas e outros nas estradas, todos caiados

] podia ser

Quando lá chegamos, ficamos atônitos com a

ouvido até quase uma légua de distância [

multidão de pessoas e a ordem que prevalecia, assim como com a vasta quantidade de

mercadoria [

artigos consistiam em ouro, prata, jóias, plumas, mantas, chocolate, peles curtidas ou não,

sandálias e outras manufaturas de raízes e fibras de juta, grande número de escravos homens

e mulheres, muitos dos quais estavam atados pelo pescoço, com gargalheiras, a longos

Cada espécie tinha seu lugar particular, que era distinguido por um sinal. Os

“Nesta grande cidade [

]

de branco e magnificamente brilhantes. O burburinho e ruído do mercado [

]

]

paus. O mercado de carne vendia aves domésticas, caça e cachorros. Vegetais, frutas, comida preparada, sal, pão, mel, massas doces, feitas de várias maneiras, eram também

lá vendidas. Ouros locais na praça eram reservados à venda de artigos de barro, mobiliário

doméstico de madeira, tais como mesas e bancos, lenha, papel, canas recheadas com

tabaco misturado com âmbar líquido, machados de cobre, instrumentos de trabalho e vasilhame de madeira

tabaco misturado com âmbar líquido, machados de cobre, instrumentos de trabalho e vasilhame de madeira profusamente pintado. Muitas mulheres vendiam peixe e pequenos “pães” feitos de uma determinada argila especial que eles achavam no lago e que se assemelhavam ao queijo. Os fabricantes de lâminas de pedra ocupavam-se em talhar seu duro material e os mercadores que negociavam em ouro possuíam o metal em grãos, tal como vinha das minas, em tudo transparentes, de forma que ele podia ser calculado, e o ouro valia tantas mantas, ou tantos xiquipils de cacau, de acordo com o tamanho dos tubos. Toda a praça estava cercada por “piazzas” sob as quais grandes quantidades de grãos eram estocadas e onde estavam, também, as lojas para as diferentes espécies de bens.”

MEGGERS, Betty J. América pré-histórica. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1972, pp. 96-97. In: PINSKY, Jaime [et al.]. História da América através de textos. São Paulo:

Contexto, 2001, pp. 21-22.

através de textos . São Paulo: Contexto, 2001, pp. 21-22. GENDROP, Paul. A civilização maia .

GENDROP, Paul. A civilização maia . Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed, 1998. A civilização maia. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed, 1998.

SOUSTELLE, Jacques. A civilização asteca . Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed, 1997 A civilização asteca. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed, 1997

civilização asteca . Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed, 1997 AtividadesAtividadesAtividadesAtividadesAtividades

AtividadesAtividadesAtividadesAtividadesAtividades

ComplementaresComplementaresComplementaresComplementaresComplementares

1. Uma das justificativas para a colonização da América pelos europeus era de que eles estavam retirando da barbárie e inferioridade os nativos americanos. Após a leitura sobre as complexas estruturas sociais e riqueza material das civilizações maia e asteca, construa um texto contrapondo esta idéia de que os povos pré-colombianos não tinham uma cultura sofisticada.

História da América I 2. Descreva a religiosidade das Maias e Astecas e sua visão

História da

América I

2. Descreva a religiosidade das Maias e Astecas e sua visão de mundo.

3. Como se configurava o poderio Asteca sobre as regiões conquistadas, e qual sua conseqüência para a queda frente aos espanhóis?

D AS C IVILIZAÇÕES P RÉ -C OLOMBIANAS À C O N Q U I
D AS C IVILIZAÇÕES P RÉ -C OLOMBIANAS À C O N Q U I
D AS C IVILIZAÇÕES P RÉ -C OLOMBIANAS À C O N Q U I

DAS CIVILIZAÇÕES P-COLOMBIANAS À CONQUISTA EUROPÉIA: A USURPAÇÃO DA AMÉRICA.

A CIVILIZAÇÃO ANDINA

: A U SURPAÇÃO D A A MÉRICA . A C IVILIZAÇÃO A NDINA O SURGIMENTO
O SURGIMENTO DA CIVILIZAÇÃO INCA
O SURGIMENTO DA CIVILIZAÇÃO INCA

Assim como se dera com os Astecas, os Incas herdaram as tradições culturais e conhecimentos técnicos das civilizações andinas que os precederam. O núcleo cultural pré- colombiano da Zona Andina compreendia partes dos atuais Peru e Bolívia, englobando posteriormente porções do Equador, Chile setentrional e noroeste da Argentina. Em meados do IV milênio a.C., pequenas aldeias de pescadores da costa do Pacífico iniciaram a domesticação de plantas como a abóbora, a vagem e o algodão. A sedentarização destes povos fora facilitada pelo suprimento regular que a pesca lhes proporcionava, processo ao qual a agricultura veio se juntar, permitindo um aumento na população das aldeias. Estas se situavam nos férteis vales dos rios que descem das cordilheiras, formando verdadeiros oásis em meio aos desertos da costa oeste da América do Sul. Na mesma época, povos interioranos dos Andes iniciaram o cultivo da pimenta, do amaranto e da quinoa, bem como domesticaram a cobaia (porquinho-da-índia) e o lhama (FRAVE, 1998, p. 8). Entre 2500 e 1500 a.C. apareceram os primeiros templos, destacando-se o santuário de Chuquitanta, na costa central peruana. A construção de grandes edifícios religiosos em pedra, como o das Mãos Cruzadas, em Kotosh (1500 a.C.) evidencia um processo de organização social análogo ao descrito sobre os Olmecas e seus centros cerimoniais. O desenvolvimento agrícola e o conseqüente crescimento populacional proporcionaram vilarejos de até mil pessoas, que circundavam os centros cerimoniais da costa, sob chefia dos sacerdotes. A primeira cultura que se difundira pela Zona Andina fora a de Chavin (nome do principal sítio arqueológico), por volta de 900

cultura que se difundira pela Zona Andina fora a de Chavin (nome do principal sítio arqueológico),

a.C. Configurou-se como um estilo artístico, religioso e arquitetônico que rompera o isolamento anterior, sem, contudo, acreditar-se que formara um “império” militar, e sim que se expandira por proselitismo (CARDOSO, 1996, p. 88; FRAVE, 1998, p. 9). Prevaleceu o culto ao jaguar ou puma (influência meso-americana?), presente em representações gravadas em pedra, na

História da

cerâmica, pintadas sobre construções ou impressas em lâminas de ouro. Por esta época difundira-se o cultivo de um tipo mais produtivo de milho, bem como os primórdios da irrigação. O progresso tecnológico seguia seu curso, aliado à organização social mais elaborada, com as chefias tornando-se governos de pequenos Estados regionais. Por volta da época de Cristo, surgiam novas culturas que desenvolveram-se rumo à urbanização. No

litoral norte florescera a cultura Mochica, onde a irrigação ampliava-se, a metalurgia dava um grande passo à frente, trabalhando-se o ouro, a prata, o cobre e ligas destes metais, além da sofisticação da cerâmica. Há indícios da existência de reis e de uma nobreza, sendo clara a forte estratificação social. No sul da costa desenvolveram-se as culturas de Nazca e de Paracas, que apresentavam estilos próprios, destacando-se as técnicas mortuárias, com tumbas onde múmias eram enterradas com jóias, cerâmica, tecidos etc. Contudo, fora nos planaltos do centro-sul da Cordilheira que surgiram as primeiras cidades propriamente ditas. A partir do século VIII d.C. duas delas se destacavam:

Tiahunaco e Huari. A primeira, situada às margens do lago Titicaca, expandira-se em direção ao sul, influindo sobre todo

o planalto boliviano (FRAVE, 1998, p. 10). Sua arquitetura

de imponentes edificações administrativas ou cerimoniais, construídas com megalitos de até 100 toneladas, demonstra

a presença de um Estado organizado. Destaca-se entre suas

ruínas a Porta do Sol, apresentada na figura ao lado. Os excedentes agrícolas necessários para a realização destas obras foram alcançados pelo desenvolvimento de terraços

para o cultivo e canais de irrigação. Populações das aldeias

e pequenas cidades vizinhas estavam a ela subordinadas,

sendo que a influência era pautada pela atração de seu centro cerimonial. Huari, estabelecida no vale médio do Mantaro, também se caracterizava como importante centro urbano, tendo preponderância econômica e militar por extensa área ao norte. Tinha influência da cultura tiahuacana, porém parece ter sido marcadamente militarista, o que é atestado pelas ruínas de fortificações e pela abundância de guerreiros e prisioneiros presentes em suas decorações murais. Tanto Tiahuacano como Huari declinaram antes do século XII (por motivos pouco conhecidos), não sem antes difundirem sua cultura e urbanismo por extensas regiões andinas. Abrira-se a partir de então um vazio de hegemonia, tendo inúmeras cidades-Estado se desenvolvido e entrado em choque entre si. No século XIII, tomaria a dianteira no processo de unificação política, formando o primeiro grande império nos Andes, a civilização Chimu. Segundo Henri Frave, o império erigido por esta civilização fora comandado por soberanos que dispunham de um poder absoluto e teocrático, tendo comandado grandes obras de irrigação nos vales de Moche e Chimaca. O alcance destas obras foi tal que, à sua época, alcançaram uma área irrigada maior que a atual, possibilitando o sustento de populações mais numerosas do que as do presente (FRAVE, 1998, p. 12). Sua capital, Chan-Chan, cidade de adobe, foi o maior

do que as do presente (FRAVE, 1998, p. 12). Sua capital, Chan-Chan, cidade de adobe ,

América I

do que as do presente (FRAVE, 1998, p. 12). Sua capital, Chan-Chan, cidade de adobe ,
centro urbano da Zona Andina Central, tendo a sua população possivelmente alcançado 80.000 habitantes, numa

centro urbano da Zona Andina Central, tendo a sua população possivelmente alcançado 80.000 habitantes, numa área entre 17 e 22 km² (CARDOSO, 1996, p. 97).

Os Chimus atingiram elevado grau de sofisticação, por exemplo, na metalurgia (vide figura ao lado), bem como na tecelagem

e

suas atividades artesanais. Seu império estendeu-se ao longo de 1.200 km do litoral, de Nepeña, ao sul, até os limites do atual Equador, ao norte. Construíram fortalezas nas áreas conquistadas e estabeleceram um estrito sistema administrativo e tributário que influenciara os Incas. Estes, em seu movimento expansionista, se chocariam com o império chimu, o que seria fatal para o último, eliminando um poderoso obstáculo para o desenvolvimento da hegemonia incaica na Zona Andina. Enquanto os Chimus iniciavam sua expansão, seus algozes, os Incas, ainda uma pequena tribo, chegavam à bacia do Cuzco, no interior do Peru meridional. Estabeleceram-se próximos a três tribos já fixadas na região, às quais se confederaram. Inicialmente, possuíam um papel inferior no jogo de forças entre as tribos. A organização da confederação repousava sobre a existência de duas metades em pé de desigualdade. De um lado estavam os ocupantes iniciais da região, que detinham o poder político-religioso (Hanan); de outro estavam os Incas, que por sua vez detinham a primazia

militar (Hurin). No curso do século XIV, os chefes guerreiros incas (os sinchis) empreenderam saques nas cidades vizinhas à confederação, aumentando o prestígio desta, bem como o seu próprio no seio da entidade. A relação de forças pendera a favor dos Incas, quando Inka Roka apoderou-se pela violência do controle da confederação, destituindo as autoridades de Hanan, acumulando suas funções. O culto do Sol, ligado ao ancestral mitológico da tribo (Manko Kapaq) foi imposto a todos os aliados. Gradualmente, a subordinação dos aliados tendeu à construção de um Estado unitário, pela perda de suas autonomias. Inka Roka, o primeiro soberano inca, chefiou diversas expedições que incorporaram uma dezena de aldeias periféricas, processo consolidado e alargado no reinado de Wiraqocha Inka, terceiro rei de Cuzco. A partir de então, o Estado inca levaria adiante sua expansão, empreendida em parte como resposta às ameaças e tentativas de invasão de outros povos, como os Chanka. Fora contra os Chanka que se configuraria o império inca, quando da vitória sobre estes levada a cabo por Pachakuti, em 1438. Pachakuti, considerado

o fundador do império, conquistara as praças fortes chankas, estabelecendo a hegemonia

incaica sobre o conjunto dos planaltos peruanos. O expansionismo inca teria que se chocar com outro, o dos Chimus. O filho de Pachakuti, Tupa Yupanki, fora designado pelo pai para combater os Chimus. Precipitando suas tropas em direção ao litoral, dominou o vale do Monche, tomando a metrópole Chan-Chan e obrigando seu soberano a capitular. As forças incas em seguida partiram em direção ao norte, conquistando Quito e Manta, no atual Equador. De volta a Cuzco (1470), para onde levou as riquezas da aristocracia chimu e os conhecimentos desta brilhante civilização, que marcaria a cultura inca posterior, Tupa Yupanki forçou a renuncia de seu pai, tornando-se imperador. Estava concretizado o poder de Cuzco sobre a Zona Andina, que nos cinqüenta anos posteriores seria alargado e conformaria o maior império americano anterior à conquista européia do qual temos conhecimento.

anterior à conquista européia do qual temos conhecimento. na cerâmica, tendo inclusive realizado a produção em

na cerâmica, tendo inclusive realizado a produção em série em

História da América I ESTADO E SOCIEDADE INCAS O Estado inca fora a maior estrutura

História da

América I

ESTADO E SOCIEDADE INCAS
ESTADO E SOCIEDADE INCAS

O Estado inca fora a maior estrutura política do mundo pré-colombiano, que em seu apogeu controlava quase um milhão de quilômetros quadrados (FRAVE, 1998, p. 25). Porém, para compreendê-lo, precisamos nos voltar primeiramente para a base tradicional comunitária dos Andes: o ayllu.

para a base tradicional comunitária dos Andes: o ayllu . A comunidade de aldeia – o

A comunidade de aldeia – o ayllu

O ayllu, ou aldeia andina, era o cerne da vida sócio-econômica característica da

região, formado por famílias vinculadas por parentesco sem, contudo, constituiram-se em clãs ou linhagens. Havia a tendência à endogamia e a um sistema de descendência paralela, sendo paterna para os homens e materna para as mulheres. A família representava a célula ou unidade produtiva, sendo constituída pelos pais e filhos celibatários. O casamento tinha

papel destacado dentro da sociedade, pois marcava a entrada do casal na vida adulta, quando recebiam um lote para cultivar e o homem a partir de então estaria sujeito à prestação de trabalho: a mita. As terras da comunidade (marka) eram divididas entre o pastoreio e a agricultura. As destinadas ao pastoreio eram de usufruto coletivo, onde cada família criava suas alpacas

e lhamas (que forneciam carne, leite e lã). Já as terras agrícolas eram partilhadas em lotes

familiares. Tal partilha não configurava propriedade privada, e sim apenas de usufruto, sendo designada pelo líder do ayllu – o kuraka. Este subdividia as terras a cada ciclo agrícola, a partir das unidades familiares: caso se constituíssem novas famílias, estas recebiam novos lotes (assim como estes reintegravam-se ao fundo comum com o desaparecimento do núcleo

familiar). O kuraka era considerado o fundador do grupo e tinha seu poder respaldado pela waka, ou divindade tutelar da comunidade.

O desenvolvimento do ciclo agrário era condicionado pela ajuda mútua entre os

vizinhos na ocasião da semeadura e da colheita. Esta reciprocidade – ou ayni – fortalecia

os laços comunitários, e o fruto da ajuda que cada família recebia era restituído aos colaboradores dando-se a parte que correspondia ao trabalho de cada um. Outras formas de auxílio eram prestadas às viúvas, doentes ou velhos, cujos campos eram cultivados por todos os homens válidos do ayllu, assim como os recém-casados tinham a casa construída pelo conjunto da aldeia. Ao kuraka eram prestados trabalhos por todos os homens do ayllu, seja no pastoreio

ou no cultivo de seus campos. Esta fora a única forma de tributação conhecida nos Andes:

a prestação de trabalho (mita) – conhecida como corvéia na Europa. O kuraka tinha ao seu

dispor uma força de trabalho contínua, formada por rodízio entre os homens adultos da aldeia, que além do cultivo e pastoreio, incluía entre os serviços a tecelagem e aqueles referentes ao atendimento de seu grupo doméstico. Os prestadores destes serviços tinham seu sustento a cargo do kuraka enquanto durasse o trabalho. Os excedentes advindos da mita colocavam o chefe em condição privilegiada frente à comunidade, porém ele estava intricado em uma rede de relações consuetudinárias que o obrigavam a redistribuir parte

do que era gerado pelo trabalho, principalmente para o sustento dos órfãos, viúvas, doentes

e velhos (waqchas), ou em caso de más colheitas, quando dava acesso aos estoques gerados

pela mita. Entretanto, não podemos extrapolar considerando a estrutura do ayllu como igualitária ou “socialista” como antigamente se pensava. A reciprocidade e redistribuição se davam assimetricamente entre os membros da aldeia. Nem o kuraka nem a waka (que também detinha terras cultivadas coletivamente) distribuíam a totalidade dos produtos gerados pelo trabalho que recebiam. As famílias mais próximas do chefe (ou poderosos denominados

kapa ) eram beneficiadas na redistribuição, ocasionando uma diferenciação social na comunidade. Esta elite, que

kapa) eram beneficiadas na redistribuição, ocasionando uma diferenciação social na comunidade. Esta elite, que tinha modos de vida distintos do restante da aldeia, mantinha- se fechada pelo casamento endogâmico. Abaixo dos kapas estavam os camponeses comuns (puriq) ou papamikuqs – “comedores de batata” (em alusão ao pouco acesso que tinham ao consumo de alimentos como o milho), vindo em seguida os waqchas, que não tinham mais condições de se sustentar, ficando dependentes do kuraka. Em termos regionais, havia no mundo andino uma estrutura política de chefias que hierarquizava os ayllus, tendo um kuraka proeminente que dominava kuraka menores, formando confederações ou “reinos”. Havia o mesmo sentido de prestações e reciprocidade entre os kuraka, pois esta estrutura reproduzia aquela interior dos ayllu. Assim, chefes e divindades regionais exploravam o trabalho de diversas aldeias, inclusive fundando colônias nos diversos ecossistemas dos Andes (o mesmo se dava internamente nos ayllu, pois as famílias recebiam lotes em altitudes diferentes, para permitir a variedade dos cultivos). Este sistema “colonial” inibia a existência normal de um comércio de trocas, pois cada povo tinha internamente acesso a produtos tanto do litoral como dos planaltos e montanhas andinas. Ocorria inclusive a reciprocidade do acesso aos ecossistemas, sendo que chefias dos planaltos trocavam terras com as do litoral, o que não impedia que houvesse imposição pela força.

o que não impedia que houvesse imposição pela força. O Estado imperial Toda esta estrutura piramidal

O Estado imperial

Toda esta estrutura piramidal hierárquica entre os ayllu e kuraka fora adotada pelo império inca. Fora a expressão máxima assumida por esta forma tradicional de poder:

“O império inca era somente uma espécie de enorme confederação de confederações, organizando em escala
“O império inca era somente uma espécie de enorme
confederação de confederações, organizando em escala nunca
vista nos Andes tais operações e exigindo trabalho nas terras do
Inca e do Sol, espécies de super-kuraka e super-waka, mas fiéis
ao padrão usual” (CARDOSO, 1996, p. 101).

Contudo, a dimensão e estrutura imperial do Estado incaico não devem ser desprezadas. A começar pelo seu símbolo maior: o Inca. Tal termo se refere mais estritamente ao imperador e seu império do que ao povo “inca” – ou de Cuzco – como um todo (CHASTEEN, 2001, p. 30). O soberano, ao assumir o poder, se apresentava como “órfão e pobre”, ou seja, um waqcha, renegando seus genitores e família. Abria mão de sua herança em proveito dos irmãos preteridos na sucessão, a fim de formar seu próprio domínio e linhagem. Deste modo, cada reinado formava uma nova linhagem imperial (panaka) que recebia a herança do soberano e cultivava sua memória e feitos. Quando chegaram os espanhóis em Cuzco, encontraram 11 linhagens imperiais, correspondentes aos 11 imperadores que governaram o império (FRAVE, 1998, pp. 51-52). A sucessão não se dava pelos padrões europeus de hereditariedade: o imperador estava fora e acima das teias de parentesco; deste modo, da mesma forma que não tinha predecessores, não podia ter sucessores. Após a morte (ou deposição) do imperador abria- se uma disputa entre os pretendentes: filhos, irmãos, sobrinhos, todos lutavam para alcançarem a franja escarlate – maskapaicha – o emblema imperial. Esta disputa transformava as panakas em facções hostis, despedaçando a etnia inca. Apenas o mérito elevava o pretendente ao posto de imperador, pois o poder tinha de ser conquistado. Concluído o embate entre os litigiantes, era o vencedor investido do poder pelo grande sacerdote, transformando-se em Inca – “Filho do Deus Sol”. Isto configurava o império como uma monarquia teocrática, sendo o imperador considerado como um mediador privilegiado nas relações deste mundo com o mundo sobrenatural. Tiveram os imperadores cada vez

maior controle sobre a hierarquia sacerdotal, tendo Wayna Kapaq assumido o posto de sumo sacerdote

maior controle sobre a hierarquia sacerdotal, tendo Wayna Kapaq assumido o posto de sumo sacerdote e não mais se considerando como representante sagrado do Sol, mas sua encarnação.

como representante sagrado do Sol, mas sua encarnação. História da Em termos administrativos o império era

História da

Em termos administrativos o império era dividido em quatro quadrantes – daí seu nome: Twantinsuyu, ou “quatro terras”. O imperador tinha um conselho formado por quatro membros – os apu – que representavam e eram responsáveis por cada seção do Twantinsuyu. Abaixo dos apu estavam os governadores provinciais – tukriquq – que residiam nas cidades principais de cada província, sendo o elo que unia o poder imperial às chefias locais. Cada quadrante era subdividido por um sistema decimal (10 mil, mil, cem e dez) de “famílias”, com funcionários que fiscalizavam cada um dos degraus do sistema. Entre os funcionários subalternos dos tukriquq achavam-se os tipukamayoqs, encarregados de registrar o efetivo das populações

América I

sujeitas à corvéia e o transporte dos produtos frutos dela. Este registro se dava por meio de cordinhas com nós – os kipus. Assim, o Estado tinha controle (inclusive realizando censos populacionais avançados para

a

trabalho – a mita – em suas terras e rebanhos, garantindo a posse de excedentes que eram canalizados para Cuzco, alimentando o brilho e luxo da capital.

Mesmo a redistribuição da produção advinda da mita, nos moldes de reciprocidade,

não encobria a apropriação realizada pela etnia incaica. Isto se observa por dois elementos.

O primeiro se configura pela quase exclusividade detida pelos incas no exercício dos cargos

religiosos e administrativos. Inicialmente estes postos eram confiados aos membros das linhagens imperiais e dos ayllu de Cuzco que gravitavam em torno do monarca. No entanto,

a etnia não se conformou numa “classe dirigente”, posto que os cargos e prerrogativas não fossem hereditários, assim como as terras doadas pelo imperador como pagamento aos serviços prestados eram apenas para usufruto, estando impedidas de serem alienadas ou passadas hereditariamente. Ademais, no início do século XVI a burocracia começara a receber elementos de outras etnias, assim como a própria etnia inca fora se estendendo, englobando primeiro as tribos da confederação, depois as aldeias conquistadas mais próximas e antigas. O poder do soberano também era mantido mediante o apoio das chefias locais, que ganharam cargos a partir de Wayna Kapaq (FRAVE, 1998, p. 61). O segundo elemento que demonstrava a preponderância dos Incas no império, bem como a ação transformadora do Estado em relação às práticas tradicionais fora a criação ou expansão de categorias de dominação específicas. Uma delas era composta pelos mitmaq. Estes advinham de populações que pela sua insubordinação eram deslocadas

parcialmente para outras regiões do império, postas em meio a etnias que lhes eram hostis, posto que fossem obrigadas a dividir a terra com tais “forasteiros”. Os mitmaq, ao tempo que recebiam novas terras e pastagens, carregavam pesadas obrigações para com o Estado. Outra categoria era a dos yana ou “dependentes perpétuos”. Estes servos ligavam- se exclusivamente ao imperador ou pessoas importantes dentro da máquina estatal, como chefes guerreiros ou altos funcionários, os quais eram presenteados pelo soberano com um yana. Sua origem remonta às tradições precedentes de servidão que existiam no mundo andino, porém fora imensamente alargada pelo império. Estes grupos de servos, segundo

a tradição, vinham de uma população próxima de Cuzco onde ocorrera uma violenta revolta,

época) sobre o contingente de trabalhadores prestadores de

sendo castigados com a servidão perpétua, passada hereditariamente para um de seus filhos. Não eram

sendo castigados com a servidão perpétua, passada hereditariamente para um de seus filhos. Não eram escravos em si, podendo ter bens e exercerem importantes funções dentro do governo e no serviço prestado ao imperador. De qualquer forma, fora um contingente atrelado ao Estado e submisso aos desígnios deste. Além dos mitmaq e yana havia uma terceira categoria com status específico: a aqlla. Era fruto do recrutamento de moças muito jovens, quase crianças, encerradas nos monastérios do Sol, onde eram educadas por mulheres incas mais velhas. Após a puberdade, algumas eram tomadas como esposas subsidiárias do imperador, enquanto outras eram dadas pelo mesmo em sinal de gratidão a personalidades de destaque. Entretanto, a maioria delas continuava a viver nos monastérios, em estrita castidade, a serviço do culto solar. Além das funções religiosas, tinham um papel econômico importante, trabalhando na fiação e tecelagem da lã resultante dos rebanhos do Sol. Formavam, juntamente com os mitmaq e yana, uma considerável força de trabalho a serviço permanente do Estado. Por fim, com o passar dos anos, a sociedade sob domínio do Estado Imperial começava a sofrer transformações pela ação do mesmo, perdendo em parte os velhos valores comunitários e dirigindo-se rumo a uma sociedade de classes cada vez mais estratificada:

“A ordem social que o Estado tendia a desenvolver manifestava claramente seu caráter estratificado ao
“A ordem social que o Estado tendia a desenvolver manifestava
claramente seu caráter estratificado ao redor de Cuzco, onde a etnia
inca se erigia em classe ociosa, graças aos numerosos dependentes
que satisfaziam suas necessidades. [
]
Era apenas questão de tempo
a transformação de um Império tradicional em um grande Estado
moderno.” (FRAVE, 1998, p. 50)
A CULTURA ANDINA
A CULTURA ANDINA

A cultura inca fora marcada pela influência das civilizações andinas precedentes. A religião fora a prova disto. Os povos andinos tinham por costume a adoração de grutas ou montanhas, transformadas em santuários (habitat das waka ou divindades tutelares). Tinham os Incas seu próprio santuário, a caverna “umbilical” de onde saíram os antepassados mitológicos da etnia – Manko Kapa e seus irmãos. A lenda afirma que Pachakuti – o fundador do império – retornou a esta caverna situada em Paqariqtampu e saiu pelo mesmo orifício que dera passagem aos antepassados míticos. Quando subjugavam novos territórios e povos, os Incas costumavam respeitar suas divindades. Entretanto, impunham o culto ao deus Sol – Inti, sendo esta a religião do Estado. Configurava-se como elemento de justificação do poder imperial, haja vista ser o Inca o “Filho do Sol”. Porém, a adoração ao Sol não fora inovação dos Incas, a Porta do Sol de Tiahuanaco o atesta. A inovação estava em transformá-lo em culto oficial do Estado e difundi-lo por todo o império. Uma prática de poder exercida pelos imperadores era o “aprisionamento” dos ídolos que representavam as waka dos ayllu, na capital Cuzco. Assim como em relação aos filhos dos kuraka, que eram levados para Cuzco com o fito de serem educados pelos Incas, a posse da waka era um seguro contra revoltas e contestações. Existiam também sacrifícios humanos, remota tradição andina, sendo, entretanto, mais comum os sacrifícios de animais, como os lhamas. A arquitetura também recebera as influências anteriores. Cuzco, com seus inúmeros palácios (cada imperador devia erguer seu próprio, onde posteriormente sua múmia era

depositada), casas, templos e a fortaleza de Sacsahuaman, exemplifica a arquitetura monumental incaica (interessante notar

depositada), casas, templos e a fortaleza de Sacsahuaman, exemplifica a arquitetura monumental incaica (interessante notar que o traçado original da

incaica (interessante notar que o traçado original da História da América I cidade era um desenho

História da

América I

cidade era um desenho de puma). Todas estas obras eram possíveis através da mita, que era prestada por milhares de camponeses recrutados para

a consecução das monumentais

construções de grandes blocos de pedra. Porém, provavelmente onde mais se exigia o trabalho forçado coletivo era nas obras hidráulicas e de construção das estradas que ligavam todo o império, de norte a sul. Ainda nisto os Incas copiaram civilizações como a dos Chimus, que à época de seu império construíram uma rede de estradas que interligava seu território, bem como inúmeras obras de regadio de grande porte. Mais uma vez o mérito inca reside em aperfeiçoar estes empreendimentos, ao dispor de numerosa mão-de-obra nunca antes vista.

Diversos entrepostos – os tampu – foram construídos como albergues para os funcionários do Estado de passagem, bem como para servirem de bases para o correio imperial. Em cada tampu ficavam os chaski que corriam até o próximo entreposto levando

as

mensagens determinadas, sendo um sistema eficiente de comunicação para o seu tempo.

As

estradas entrecortavam as montanhas e vales, possuindo inúmeras pontes pênsils.

Grandes arquitetos, os Incas foram, também, grandes construtores de cidades, acelerando o processo de urbanização. A justificativa ideológica para a dominação imperial residia numa “missão civilizadora” – mesmo argumento que posteriormente utilizaram os

espanhóis. Assim, deveriam difundir o urbanismo e as obras de regadio que o complementavam. Tambo Colorado, Machu Picchu, Ollantaytambo, entre outros sítios arqueológicos, exemplificam o esforço inca em difundir a vida urbana.

Picchu, Ollantaytambo, entre outros sítios arqueológicos, exemplificam o esforço inca em difundir a vida urbana. 38
Num relevo como o das Cordilheiras dos Andes, a irrigação por regadio em terraços era

Num relevo como o das Cordilheiras dos Andes, a irrigação por regadio em terraços era indispensável para a manutenção dos centros urbanos. Estas obras de elevada engenharia arquitetônica já eram praticadas pelos povos precedentes, porém no período inca atingiram seu ponto máximo. A agricultura, base da economia, tinha como principais gêneros produzidos a batata, o milho, a quinoa e a oca (um tubérculo). A preparação da terra era feita com um bastão de semear com apoio para o pé (taclla), que não somente perfurava como revolvia o solo. Nas demais artes como a cerâmica, a pintura,

o solo. Nas demais artes como a cerâmica, a pintura, escultura e a metalurgia, houve poucas

escultura e a metalurgia, houve poucas inovações em relação às tradições andinas. Entretanto, mais uma vez souberam os Incas sintetizar as diversas contribuições dos povos que conquistaram (porém de modo desigual, pois em determinados ramos, como

a

inferior). Fora a metalurgia a arte mais desenvolvida no mundo andino (mais importante centro metalúrgico pré-colombiano), onde eram trabalhados o ouro, a prata e o cobre (que era ligada ao estanho para a obtenção do bronze). Desenvolveram inclusive a platina, que a Europa só conhecera por volta de 1730 (FRAVE, 1998, p. 85). Ao lado temos estatuetas cerimoniais que ilustram a metalurgia incaica.

escultura e a cerâmica, sua qualidade estética fora

a

APOGEU E DECLÍNIO DO IMPÉRIO INCA
APOGEU E DECLÍNIO DO IMPÉRIO INCA

O império inca se desenvolveu por questões internas e externas. Afora as campanhas militares causadas por ataques de povos vizinhos, que resistiam à ascensão inca (como os Chanka), ocasionando guerras de conquista, a política interior em Cuzco impelia os incas a um estado quase permanente de guerra. Pois,

como vimos, o pretendente a soberano tinha que “merecer” o trono,

e a forma mais usual de merecimento era a vitória em campo de

batalha. Aliado a isto, a guerra era um elemento de ascensão social dentro da sociedade imperial. Como exigiam dos povos conquistados

da sociedade imperial. Como exigiam dos povos conquistados a prestação de serviço militar, diversos chefes

a prestação de serviço militar, diversos chefes guerreiros incentivavam

a realização de campanhas militares que lhes davam prestígio e cargos

dentro da hierarquia militar e social, o mesmo ocorrendo com a nobreza de Cuzco. Assim, a guerra configurava-se como indispensável para a coesão do império. No reinado de Wayna Kapaq, as conseqüências do expansionismo imperial e da política guerreira seriam fortemente sentidos. O império se estendera longe e rápido demais para que as estruturas administrativas e a diplomacia garantissem sua integridade. Havia muitos povos que deveriam permanecer submetidos ao controle de Cuzco. Quando das derrotas de Wayna Kapaq frente às ferozes etnias setentrionais, a credibilidade do projeto imperial se abalara, desencadeando insurreições autonomistas. Para contornar o estado belicoso do norte, o imperador transferiu a sede do poder político para a região, construindo Tumipampa, novo centro administrativo do império. Isto

em muito desagradara à elite cuzquenha, ciosa de suas prerrogativas de poder estatal. Afastar-se das intrigas geradas pelas panaka fora inclusive um dos motivos que levaram Kapaq a transferir a capital, o que teria conseqüências desintegradoras após sua morte. Falecido em 1528, abrira-se novamente a luta pela sucessão entre dois

filhos de Wayna Kapaq: Ataw Wallpa e Waskarr. Tendo como base de apoio o norte, Ataw Wallpa tinha um poderoso exército situado ao redor de Quito. Já Waskarr dispunha do respaldo das etnias do sul do império e reuniu para si o apoio dos descontentes com a mudança da capital. A guerra civil, entremeada com revoltas autonomistas, estava em plena atividade em abril de 1532, quando chegaram os espanhóis em Tumbes. Chefiados por Francisco Pizarro, aproveitaram os espanhóis os conflitos e intrigas incas. Cada lado da disputa pelo trono via o outro como o principal inimigo, deixando os estrangeiros em segundo plano. Enquanto isso, Pizarro tratava de conseguir o apoio das etnias descontentes com a hegemonia inca, angariando tropas para lutar com as forças imperiais. Atraiu Ataw Wallpa para uma emboscada na cidade de Cajamara: ao adentrar a praça principal com suas tropas, fora Wallpa surpreendido pelo fogo dos canhões e pelo assalto da cavalaria e dos cães espanhóis, que causaram pânico e muitas mortes entre os adversários, conseguindo aprisionar seu líder. Já Waskarr caíra prisioneiro das forças do irmão, sendo assassinado. Apesar do pagamento do resgate em troca da soltura do então empossado imperador Ataw Wallpa, fora ele também morto pela influência dos aliados nativos de Pizarro (agosto de 1533). A partir de então a anarquia se abatera sobre o império, que se desintegrava, tanto pela ação dos kuraka que se emancipavam, como por uma revolta dos yana que assassinavam seus senhores Incas. Em novembro de 1533, eram os espanhóis recebidos em Cuzco por Manko Inca, recentemente feito imperador. Este, em 1536, se rebelara contra o domínio estrangeiro e iniciara a guerra de reconquista que findara com a sua morte, em 1545. Após o fracasso da tentativa de reconquista, refugiaram-se os Incas na região de Vilcabamba (vertente oriental dos Andes), de onde ainda opuseram certa resistência aos espanhóis, sendo, entretanto, definitivamente vencidos em 1572, com o assassinato de Tupa Amarru, último dos imperadores desta etnia que governava o outrora mais poderoso Estado da América pré- colombiana.

outrora mais poderoso Estado da América pré- colombiana. História da América I Texto Complementar A Unidade

História da

América I

da América pré- colombiana. História da América I Texto Complementar A Unidade das Altas Culturas

Texto Complementar

A Unidade das Altas Culturas pré-colombianas

“Entendemos por Altas Culturas Pré-colombianas as civilizações americanas localizadas no México atual, na região norte da América Central e na faixa que se estende desde a Colômbia até o Chile, acompanhando a orla marítima do oceano Pacífico. Um observador atento poderá perceber de imediato que as regiões acima assinaladas como Altas Culturas, compreendendo respectivamente a Confederação Asteca, as Cidades- Estado maias e o Império inca, são zonas onde hoje impera o “subdesenvolvimento”, enquanto a América de língua inglesa, localizada fora desse mapa, parece ter-se “desenvolvido”. Por que o norte se desenvolveu e o sul se subdesenvolveu? Por que as regiões outrora mais “ricas” são hoje as mais pobres? Ou, por que as regiões antes mais “pobres” são hoje as mais poderosas economicamente? A ideologia colonialista resolveu, aparentemente, o problema, remetendo-o ao estigma da inferioridade racial do índio americano e do negro escravo, à miscigenação racial, aos

impedimentos geográficos e a outras teorias mais ou menos exóticas. Essas teorias têm em comum

impedimentos geográficos e a outras teorias mais ou menos exóticas. Essas teorias têm em comum a premissa de que o continente americano necessitou da presença do branco europeu para penetrar na história dos povos civilizados, e afirmam que quanto mais nos aproximamos desse modelo capitalista mais seremos “felizes”. Como os colonos ingleses construíram na América do Norte uma sociedade “à imagem e semelhança” da européia, seu desenvolvimento foi muito mais rápido que o nosso, reafirmam tais teorias. Essa explicação leva a um raciocínio formal assustador: se no passado os povos americanos não foram capazes de se desenvolverem sem a tutela dos europeus, hoje, em pleno século XX[I], continuam precisando da tutela dos mais desenvolvidos para mostrarem o caminho da superação do subdesenvolvimento. Mas a ciência moderna tem sido incapaz de provar efetivamente a suposta inferioridade americana, ou ainda de demonstrar que o fator geográfico é determinante para o desenvolvimento econômico. Não podemos aceitar a existência de povos inferiores ou sem história (nós, latino-americanos) e de povos com história (as sociedades capitalistas avançadas). Esse dualismo é artificioso e não explica a realidade. A história tem demonstrado que o desenvolvimento de uns está condicionado ao subdesenvolvimento de outros. Comprovou que o capitalismo destrói os antigos modos de produção onde for necessário para seu crescimento, mas mantém estruturas pré-capitalistas quando as considera necessárias. Está claro para a história que todos os povos são potencialmente iguais, mas não basta simplesmente dizer isso. Para abandonar explicações metafísicas, devemos inserir os povos nas estruturas sócio-econômicas, no terreno das particularidades regionais, nas diferentes formas de desenvolvimento, nas formações sociais.”

Peregalli, Enrique. A América que os europeus encontraram. Campinas/São Paulo: Ed. da UNICAMP/Atual, 1986, pp. 7-9. In: PINSKY, Jaime [et al.] História da América através de textos. São Paulo: Contexto, 2001, pp. 12-13.

através de textos . São Paulo: Contexto, 2001, pp. 12-13. História através de documentos Os conquistadores

História através de documentos

Contexto, 2001, pp. 12-13. História através de documentos Os conquistadores europeus ficaram impressionados com a

Os conquistadores europeus ficaram impressionados com a cidade de Cuzco ao descobri-la, em 1533, chegando a afirmar que era “digna de ser vista na Espanha”. Abaixo temos uma descrição dela (que fora completamente destruída posteriormente, restando poucas ruínas) feita pelo espanhol Sancho de La Hoza.

“Ela está repleta de palácios senhoriais, pois nela não vive qualquer pessoa pobre. Cada senhor ali constrói a sua casa, mesmo não tendo que residir nela permanentemente. A maioria dessas habitações é feita de pedras, outras têm a metade de sua fachada desse material. Há também muitas casas de tijolos, e elas estão dispostas em boa ordem, ao longo de ruas entrecruzadas regularmente, muito estreitas, todas pavimentadas, e sulcadas no meio com por uma calha de pedra. O único defeito dessas ruas é serem estreitas, pois de cada lado da calha há lugar somente para um cavaleiro. Essa cidade está situada na encosta da montanha, estendendo-se até a planície. A praça, quase inteiramente plana, é quadrada e pavimentada. Em torno dela há quatro casas que são as principais da cidade:

estas são pintadas e construídas em pedras entalhadas.”

In: FAVRE, Henri. A Civilização Inca. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1998, p. 65.

História da América I Seção Estante do Historiador: PINSK, Jaime [et al.] História da América

História da

América I

Seção Estante do Historiador:

História da América I Seção Estante do Historiador: PINSK, Jaime [et al.] História da América através

PINSK, Jaime [et al.] História da América através de textos. São Paulo: Contexto,

2001

da América através de textos . São Paulo: Contexto, 2001 AtividadesAtividadesAtividadesAtividadesAtividades

AtividadesAtividadesAtividadesAtividadesAtividades

ComplementaresComplementaresComplementaresComplementaresComplementares

1. Destaque as causas da expansão imperial inca, tanto internas como externas.

2. Como era a estrutura do Estado Inca em seus diversos níveis?

3. Explique o processo de conquista espanhola e o conseqüente desmoronamento

do império inca.

O E NCONTRO E A C ONQUISTA E UROPEIA DA EXPANSÃO EUROPÉIA AO ENCONTRO: A
O E NCONTRO E A C ONQUISTA E UROPEIA DA EXPANSÃO EUROPÉIA AO ENCONTRO: A

O ENCONTRO E A CONQUISTA EUROPEIA

DA EXPANSÃO EUROPÉIA AO ENCONTRO: A QUESTÃO DO OUTRO
DA EXPANSÃO EUROPÉIA AO ENCONTRO: A QUESTÃO DO OUTRO
DA EXPANSÃO EUROPÉIA AO ENCONTRO: A QUESTÃO DO OUTRO A chegada dos europeus ao continente americano

A chegada dos europeus ao continente americano fora um dos mais importantes acontecimentos da história humana, pois mudara para sempre as sociedades de ambos os lados do Atlântico, e integrara ao mundo europeu porções de terras infinitamente maiores que todo o Ocidente europeu. Mas para compreendermos os motivos que levaram os ibéricos a “descobrirem” o continente americano, precisamos entender o que se passava no Velho Mundo.

precisamos entender o que se passava no Velho Mundo. A Europa à época do encontro O

A Europa à época do encontro

O período dos descobrimentos fora uma etapa de um processo de expansão da atividade mercantil na Europa que se iniciara nos séculos precedentes. Entre o ano mil e 1492 – data da primeira viagem de Cristóvão Colombo à América – ocorrera uma conjunção de fatores que possibilitaram um empreendimento comercial deste porte. Em certas partes da Europa do século XII ocorrera um aumento na produção agrícola, que possibilitara um renascimento urbano, sendo aqui e ali edificados pequenos centros populacionais (os burgos) onde se desenvolviam mercados para trocas de alimentos, produtos artesanais e mercadorias vindas de outras regiões. Tudo isto em meio à predominância dos campos e das relações (e mentalidade) feudais. Fora somente através dos séculos que o movimento urbano-comercial ganhara vulto, se alastrando pelo interior do continente.

“A expansão agrícola foi possível graças à abertura de novas regiões cultivadas, com a derrubada de florestas, a secagem de pântanos e o incentivo da expansão comercial. Esta resultou de vários fatores. Dentre eles, a crescente existência de produtos agrícolas não consumidos nos grandes domínios rurais que constituíam excedentes econômicos passíveis de troca. Outros fatores foram a especialização de funções, demandando a compra de bens não produzidos em cada domínio rural, e a busca de produtos destinados ao consumo de luxo da aristocracia. As cidades começaram a crescer e a se transformar em ilhas de relativa liberdade, reunindo artesãos, comerciantes e mesmo antigos servos que tentavam encontrar aí uma alternativa de vida, fugindo dos campos.” (FAUSTO, 2000, pp. 19-

20).

Os centros de difusão dos novos modos de vida situavam-se nos dois extremos da Europa: o Mediterrâneo, principalmente italiano, e o Norte, com as cidades da Liga Hanseática. Entre eles havia ainda a região do Noroeste europeu (Flandres, sudeste da Inglaterra, Normandia, etc.) que além das trocas comerciais se firmava pela função produtora e industrial. Gradualmente, o

História da

circuito mercantil, onde se destacavam as cidades italianas de Florença, Gênova e Veneza, crescia em importância e se desenvolviam as práticas de trocas monetárias, bem como surgiam famílias de banqueiros (LE GOFF, 1991, pp. 8-9). Os produtos mais valorizados deste circuito não eram produzidos na Europa: vinham do Oriente Asiático, através dos mouros (muçulmanos) que controlavam as rotas comerciais e

a navegação no Mar Mediterrâneo. Assim, para terem acesso a tais produtos – as especiarias

– os demais europeus tinham que se sujeitar aos preços pedidos pelos comerciantes das cidades italianas, que intermediavam o comércio mouro com a cristandade. Fora para escapar desta dependência em relação ao acesso às especiarias que os ibéricos se lançaram nas aventuras marítimas. Mas, até constituírem as condições necessárias para alcançarem seus objetivos, tiveram antes que passar por um processo de

centralização política que culminara na formação de seus Estados Nacionais. Pois um projeto complexo e caro como uma expedição rumo ao Oriente exigia organização e capitais suficientes, que nenhum mercador individualmente detinha.

É ilustrativo da indispensabilidade de um Estado centralizado para a realização das

viagens marítimas o fato de o pioneiro em tal empreitada – Portugal – ter sido o primeiro Estado Nacional moderno, consolidado a partir da Revolução de Avis (1383-1385). Lisboa, nos séculos XIX e XV, integrava, como entreposto, o circuito comercial europeu, porém com papel secundário. Sua burguesia crescia em prestígio, e quando da disputa sucessória

ao trono, que o rei de Castela reivindicava, apoiou, juntamente com as classes populares, o filho bastardo de Pedro I – Dom João, conhecido como Mestre de Avis – levando-o ao poder. Assim, a Revolução teve um caráter de luta pela independência, resultando na formação do Estado lusitano.

A partir de então, a monarquia e burguesia lusitanas compartilharam o projeto de

expansão marítimo-comercial visando alcançar o Oriente e suas riquezas, que teve como marco importante a conquista de Ceuta (1415) no extremo noroeste da África. Seguiram-se

sucessivas expedições rumo ao sul da costa, que estabeleceram feitorias e contatos com

as nações africanas. Este processo se prolongaria por todo o século XV, culminando com a famosa Viagem de Vasco à Índia, em 1497-1499 (SARAIVA, 1999, p. 144). Contribuíram para o sucesso do expansionismo luso, além da centralização política, a favorável posição geográfica e a tradição de navegação em mar aberto (possível pela existência dos conhecimentos técnicos necessários para tanto).

A Espanha, concomitantemente com os acontecimentos em Portugal, realizava seu

processo de centralização política, forjado na luta de Reconquista ibérica contra os mouros (que Portugal já tinha expulsado de seu território):

(que Portugal já tinha expulsado de seu território): América I “Dois dos vários pequenos reinos cristãos

América I

“Dois dos vários pequenos reinos cristãos da península emergiram gradualmente como líderes da reconquista. De longe, o mais importante foi o centralmente localizado reino de Castela, cujos domínios acabaram englobando grande parte da Península Ibérica e, quando unidos aos reinos menores de Aragão, Leão e Navarra, assentaram a base política da Espanha moderna.” (CHASTEEN, 2001, p. 32).

Fora justamente o fim das lutas contra os mouros, com a queda de Granada em

Fora justamente o fim das lutas contra os mouros, com a queda de Granada em

janeiro de 1492, que possibilitara aos Reis Católicos darem seu aval para a expedição que

o navegador Cristóvão Colombo há anos solicitava sem resultados. Note-se que, tendo

Colombo partido para sua aventura no mesmo ano em que se consolidara a Reconquista, estava para Espanha (e para ele próprio) muito presente a “Mentalidade de Cruzada” que marcaria a visão ibérica no encontro com os nativos americanos.

a visão ibérica no encontro com os nativos americanos. Colombo e os índios O genovês Cristóvão

Colombo e os índios

O genovês Cristóvão Colombo, havia décadas, tentava empreender uma expedição que alcançasse o Oriente pelo Oeste do Atlântico. Buscou inicialmente o apoio português, porém Portugal estava demasiado ocupado em seu avanço rumo ao Sul da costa africana para mudar seus planos. Circulou ainda pelos reinos do Norte – França e Inglaterra – a procura de parceiros. Não existia ali, ainda, quem se interessasse pelo seu projeto. Decide então solicitar o auxílio espanhol, tendo, entretanto que esperar mais seis anos até que a queda de Granada desse a oportunidade sonhada (CHAUNU, 1969, p. 62).

Nascido em Gênova – Itália, em 1451 -, formado nas artes náuticas em sua terra natal e principalmente em Portugal, por influência de sua mulher, Filipa Moniz Perestrelo, participara da colonização lusa na ilha de Madeira. Após as glórias da descoberta da América, e de um governo efêmero no Novo Mundo (e mais três viagens atlânticas) terminou seus dias na Espanha, em maio de 1506, praticamente no ostracismo, sem saber que descobrira um novo continente.

no ostracismo, sem saber que descobrira um novo continente. Com efeito, livres do combate frente aos

Com efeito, livres do combate frente aos mouros, puderam os Reis Católicos apostar

num plano que o genovês considerava infalível. Esperava encontrar o Grande Can, soberano de uma China rica e exuberante, como afirmavam os textos de Marco Pólo. Para a Espanha,

idéia do navegador interessava, dado o controle lusitano das rotas africanas. Tinha-se que encontrar outro modo de chegar ao Extremo Oriente. Além disso, terminada a conquista Ibérica, a expansão marítima parecia um prolongamento natural de um povo que passava por um grande crescimento demográfico. Para tanto (e talvez pouco crentes no sucesso de Colombo) firmaram os Reis com ele um contrato: a Capitulações de Santa Fé, em abril de 1492. Concediam ao genovês “os títulos e cargos de almirante, vice-rei, governador e capitão-geral de todas as terras e ilhas que descobrisse ou por outros fossem descobertas cumprindo suas determinações” (AQUINO, 2000, p. 90). Além destes, teria Colombo participação nos lucros provenientes das riquezas encontradas, bem como do comércio que por ventura se realizasse. Era, de fato, uma excelente proposta, compatível com os riscos de uma viagem rumo ao desconhecido.

a

se realizasse. Era, de fato, uma excelente proposta, compatível com os riscos de uma viagem rumo

Partira a expedição, composta de três embarcações – Santa Maria Pinta e Nina – em agosto de 1492, do porto espanhol de Palos. Após dois meses de navegação, tempo suficiente para que a tripulação ficasse impaciente com a demora em encontrar terra firme, avistaram uma ilhota das Bahamas conhecida pelos índios Taínos (povo Arawak, semi-nômades do

Caribe) como Guanahani. Era o dia 12 de outubro. Os primeiros contatos entre europeus e indígenas (assim denominados, pois Colombo acreditava estar próximo da Índia) foram amistosos. Batizou o genovês a ilha de San Salvador – dando início ao processo simbólico de tomar posse do que encontrava. Não parou por aí:

de tomar posse do que encontrava. Não parou por aí: História da América I “Colombo desce

História da

América I

“Colombo desce à terra numa barca decorada com o estandarte real, acompanhado por dois de seus capitães, e pelo escrivão real, munido de seu tinteiro. Sob os olhares dos índios, provavelmente perplexos, e sem se preocupar com eles Colombo faz redigir um ato. ‘Ele lhes pediu que dessem fé e testemunho de que ele, diante de todos, tomava posse da dita ilha – como de fato tomou – em nome do Rei e da Rainha, seus senhores ’” (TODOROV, 1999, pp. 33-34)

Interessava ao Almirante saber dos nativos a respeito do Grande Can, bem como da existência de ouro na região. A descoberta de metais preciosos era, provavelmente, o primeiro objetivo de quase todos os envolvidos na empreitada, e fora com as promessas de encontrar tais riquezas que o genovês convencera os Reis e marinheiros a embarcar na aventura. Porém, precisamos enquadrar a busca por riqueza num quadro maior, pois ao menos para Colombo, o ouro não era um fim em si mesmo. Era um homem essencialmente religioso:

“A expansão do cristianismo é muito mais importante para Colombo do que o ouro, e ele se explicou sobre isso,

principalmente numa carta destinada ao papa. [

do cristianismo é o que anima Colombo, homem profundamente piedoso (nunca viaja aos domingos), que justamente por isso considera-se eleito, encarregado de uma missão divina [ ]” (TODOROV, 1999, pp. 11-12)

A vitória universal

]

Ademais, era um homem de seu tempo, imbuído dos valores cristãos enraizados na cultura medieval, mais fortes ainda no mundo ibérico. A conquista esteve situada justamente neste período de mudança das mentalidades dos séculos XV e XVI (Reforma Protestante, Renascimento, Humanismo, etc.), onde a busca de riquezas coexistia lado a lado com o desejo de expansão da fé cristã – pois não eram objetivos excludentes:

“Pode-se dizer, simplificando até a caricatura, que os conquistadores espanhóis pertencem, historicamente, à época de transição entre uma Idade Média dominada pela religião e a época moderna, que coloca os bens materiais no topo de sua escala de valores. Também na prática, a conquista terá estes dois aspectos essenciais: os cristãos vêm ao Novo Mundo imbuídos de religião, e levam, em troca, ouro e riquezas.” (TODOROV, 1999, p. 50)

Podemos perceber estes princípios (ligando riqueza e fé) em relação a dois pontos no pensamento

Podemos perceber estes princípios (ligando riqueza e fé) em relação a dois pontos no pensamento de Colombo. O primeiro seria o de que para ele, as riquezas obtidas pela conquista deveriam ser empregadas em uma cruzada para libertar a Terra Santa, como fez

transparecer aos Reis, pois desejava “ver os benefícios de minha atual empresa consagrados

à conquista de Jerusalém” (TODOROV, 1999, p. 12). Não era o único a pensar coisas do

gênero. Havia uma crença difundida na Europa, de que existia no coração da África um reino cristão que resistia às influências do mundo “bárbaro” à sua volta. A descoberta deste reino, chamado de Preste João, fora objetivo de inúmeras incursões portuguesas pelo interior africano. Não era completamente falsa esta “lenda”, pois na Etiópia desenvolveu-se em tempos remotos uma forma de cristianismo com particularidades nativas, motivo pelo qual fora poupada pelos países europeus quando da partilha da África em fins do século XIX, mantendo sua autonomia. Outro meio de se averiguar a fé do Almirante era a respeito da concepção quanto aos indígenas. O modo de vida rudimentar dos povos do Caribe encontrados por Colombo fez com que tivesse, num primeiro momento, uma visão idílica dos mesmos. Outra crença comum na Europa tratava da existência de um paraíso terrestre, onde não havia pecado. Colombo acreditava que encontraria este paraíso em suas expedições. Ao topar com os Taínos, nus, “sem maldade” (ou malícia, pois trocavam suas pepitas de ouro por qualquer coisa que lhes era entregue), com uma cultura extremamente rudimentar em termos materiais, pensara que tivesse encontrado os habitantes deste paraíso. Para ele, assim como para os portugueses que aportaram no Brasil, os indígenas eram considerados como uma “folha em branco”, pois para os conquistadores, eles não tinham “fé, lei, ou rei” (GIUCCI, 1993). Era o “mito do bom selvagem” em plena criação. Baseados em seu eurocentrismo, não podiam conceber a existência de uma cultura alternativa em relação à européia. Como os nativos eram considerados desprovidos de cultura, a grande obra civilizadora da colonização seria

retirá-los deste estágio primitivo de vida, catequizando-os, ou seja, trazendo tais povos para

a civilização cristã. Porém, esta forma de encarar os indígenas foi rapidamente se alterando. De uma

perspectiva assimilacionista (desejo de trazer os nativos para sua cultura, pois seriam “iguais”

– leia-se humanos – aos europeus, somente faltando que fossem educados para ingressar

na civilização), passa para uma outra perspectiva, de desconsiderá-los como humanos,

incompatíveis com um tratamento civilizado. Isto se dá no momento em que ocorrem os primeiros choques entre europeus e nativos. Os índios Caraíbas, por exemplo, desde o começo vão hostilizar os estrangeiros. Daí prevalecera um sentimento de alteridade (diferença) entre ambos os elementos envolvidos. Passa-se a negar a humanidade dos

nativos, descambando para uma ideologia escravagista, pois se eram “bárbaros” os nativos, tratava-se de reduzi-los à escravidão. A idéia de escravizá-los surge ainda na primeira viagem, porém será mais claramente defendida a partir da segunda (1493-1494). Os monarcas espanhóis resistiram à idéia de escravização dos nativos: preferiram súditos à escravos. Acreditando estar próximo da Ásia, Colombo continuou sua marcha para o Oeste. Descobrira novas ilhas, que denominou “Santa Maria de la Concepción, Fernandina, Isabela

e Joana. Nesta última, a atual Cuba, constatou-se a existência de ouro. Antes de retornar à

Europa, a frota atingiu o norte do Haiti, que recebeu o nome de La Española e onde se fundou o forte de Navidad” (AQUINO, 2000, p. 90). Assim terminara o primeiro episódio dos contatos Europa-América na era moderna. Em sua volta ao continente europeu, passara o Almirante por Portugal, onde foi recebido pelo Rei D. João II, em março de 1493. Neste encontro, o monarca lusitano afirmara que as terras descobertas pertenciam a Portugal, devido às bulas papais e tratados firmados

anteriormente. Teve, deste modo início a disputa diplomática entre ambos os países ibéricos, mediada pela Igreja. A querela teve como desfecho o famoso Tratado de Tordesilhas (7 de junho de 1494), que partilhara o mundo entre portugueses e espanhóis, cabendo aos primeiros as terras à leste da linha imaginária que passava (de pólo a pólo) a 370 léguas a oeste das Ilhas de

História da

Cabo Verde, e aos segundos todas as terras da outra margem da linha (oeste) divisória. Temos que ressaltar o caráter arbitrário deste Tratado, que excluía os demais países europeus (sem considerarmos todos os outros ao redor do mundo) da partilha, o que gerara protestos como os de Francisco I, monarca francês: “Gostaria que espanhóis e portugueses me mostrassem onde está o testamento de Adão que dividiu o mundo entre Espanha e Portugal” (AQUINO, 2000, p. 92).

Enquanto as coroas ibéricas lutavam entre si pela posse das terras descobertas, Colombo, em abril de 1493, teve acolhimento triunfal em Barcelona, onde, cheio de prestígio, logo conseguira apoio para uma segunda viagem atlântica, que de fato dera a partida para

a conquista, propriamente dita, do continente americano.

a conquista, propriamente dita, do continente americano. América I A CONQUISTA ESPANHOLA DA AMÉRICA “Eles

América I

A CONQUISTA ESPANHOLA DA AMÉRICA
A CONQUISTA ESPANHOLA DA AMÉRICA

“Eles chegaram. Eles tinham a Bíblia, nós tínhamos a terra. Eles nos disseram: ‘Fechem os olhos e rezem’. Quando abrimos os olhos, eles tinham a terra e nós tínhamos a Bíblia.”

olhos, eles tinham a terra e nós tínhamos a Bíblia.” Desmond Tutu, Prêmio Nobel da Paz.

Desmond Tutu, Prêmio Nobel da Paz.

De Colombo à Conquista das Altas Civilizações Americanas

A segunda expedição de Cristóvão Colombo marcara o início da colonização das

terras americanas pelos europeus, que se estabeleceram e começaram a explorar a mão- de-obra nativa, origem de tantos males ao longo dos séculos de domínio colonial. Fora esta empreitada muito superior em termos de preparo e contingente envolvido:

17 navios e cerca de 1.200 a 1.500 homens (CHAUNU, 1969, p. 65). Partira de Cádiz a 25 de setembro de 1493. Alcançara, em tempo recorde, a 3 de novembro, as Antilhas. Ainda pensando estar na costa asiática, Colombo prossegue descobrindo novas ilhas, como Porto Rico. No contato com os indígenas, fica sabendo da existência de ouro, e não se cansara de procurar o Eldorado. O contato com os Caraíbas é bem menos amistoso do que com os Arawak. Os primeiros confrontos se desenvolvem, tendo os Caraíbas, notáveis índios flecheiros, resistido à estada dos europeus em suas ilhas. Ao chegar em La Española,

constata Colombo que o forte de Navidad havia sido destruído, e seus defensores exterminados. A partir daí se delineara as duas visões sobre os nativos, divididos entre “bons” e “maus” selvagens, e a conseqüente atitude frente a eles: catequese e/ou guerra e escravização.

A colonização de São Domingos se inicia em 1494, com a fundação de outro núcleo

de povoamento, batizado com o nome de Isabela (em homenagem à Rainha), bem como a exploração do interior da ilha em busca dos metais preciosos. Segue Colombo a tentativa de encontrar a civilização do Grande Can, que ele acredita estar próxima. Explora a costa cubana, bem como a Jamaica. De volta à La Española toma contato com a difícil situação da empresa colonizadora, da qual ele era o responsável, como Vice-Rei. O choque cultural, as epidemias (principalmente a sífilis, disseminada pelas violências sexuais), assim como

a mortificante rotina de trabalho na agricultura ou na mineração de aluvião exterminaram os

nativos Arawak, que passaram a resistir aos abusos espanhóis. A servidão, originada pela necessidade de

nativos Arawak, que passaram a resistir aos abusos espanhóis. A servidão, originada pela necessidade de conseguir força de trabalho principalmente para a mineração, tinha requintes de crueldade. Aos que não conseguissem atingir as cotas estabelecidas de ouro, o castigo chegava até ao corte das mãos (vide gravura abaixo).

chegava até ao corte das mãos (vide gravura abaixo). A situação econômica se agravava dia após

A situação econômica se agravava dia após dia, pois os conquistadores se recusavam ao trabalho braçal, alegando terem vindo para a América atraídos pela riqueza fácil. O pouco de ouro que fora arrancado dos Arawak, ou mesmo dos rios, não compensava os pesados gastos na montagem do empreendimento. Os parcos rendimentos e o governo infeliz de Colombo levaram a Coroa a conceder licenças para descobrir e comerciar com as novas terras aos que as solicitassem, quebrando os monopólios do Almirante fixados em 1492. Em seu retorno à Espanha (1494), teve Colombo que reivindicar a manutenção

de suas prerrogativas, o que consegue com dificuldade, pois seu prestígio estava abalado.

O fracasso do seu comando (e o comando em si, que afastava seus opositores do governo

colonial) desagradava a muitos na Corte. A redução gradual do ouro antilhano remetido à Metrópole (que se exaurira completamente na segunda década do século XVI) e a falta de substitutos rentáveis na exploração, indicavam o ocaso da era colombiana da colonização. O desprestígio de Colombo pode ser vislumbrado pela demora no preparo da sua terceira expedição (cerca de dois anos), que contou apenas com oito navios. Saída da Espanha em maio de 1498, tal expedição continuava tendo como objetivo alcançar o Oriente asiático. Certo que navegando pela região central da América jamais conseguiria o navegador genovês encontrar o destino pretendido. Porém, ao menos a navegação junto às terras continentais, na costa venezuelana, conseguira Colombo, mesmo que não soubesse avaliar corretamente tal feito. Ao aportar em São Domingos, encontrara um ambiente pior do que havia deixado

quando do retorno à Espanha. Enfrentou uma revolta de parte dos colonos, que culminara com sua prisão e remessa à Europa. Teve que se defender das acusações contra seu governo, sendo perdoado pelos Reis Católicos. Entretanto, as grandes notícias da exploração de novas terras e riquezas, que chegavam aos ouvidos da realeza, fizeram com que fossem revogadas as prerrogativas colombianas estabelecidas nas Capitulações de Santa Fé. O tamanho da descoberta de Colombo acabara jogando contra ele, posto que tornasse inconveniente à Coroa a manutenção de seus privilégios. A partir de então, passaria apenas

a ser tratado como Almirante, não mais como Vice-Rei. Era o início do fim. Conseguira

ainda realizar mais uma viagem à América (1502-1504), quando velejou próximo ao litoral do Panamá e de Honduras, bem como bordejou diversas ilhas antilhanas, retornando em seguida ao Velho Mundo. Despojado de suas glórias por não ter cumprido o objetivo máximo de alcançar o reino chinês e suas incalculáveis riquezas (por mais que pensasse estar próximo de fazê-

História da

lo), morreu na Espanha quase esquecido por todos. Entretanto, a grande obra de Colombo – qual seja a de inserir o vasto continente americano na civilização ocidental – se perpetuaria pelos séculos. Se ele não chegara a crer na descoberta do novo continente, outros navegadores o fizeram. Impulsionados pelo desejo de tomar parte das riquezas do Oriente, como Portugal vinha fazendo com lucros fabulosos, os monarcas espanhóis concederam inúmeras licenças a navegadores de diversas origens, que se empenharam em completar a promessa colombiana de comerciar com a China e Cipango (nome dado ao Japão à época) via oeste do Atlântico. Entre estes aventureiros dos mares, podemos citar “Alonso de Ojeda, Pedro Alonso Nino, Vicente Yáñes Pinzón, Diego de Lepe” (AQUINO, 2000, p. 94) e Américo Vespúcio. Este último entrou para a História ao ter seu nome associado ao continente descoberto – a América. Integrando diversas expedições que percorreram as costas americanas, Vespúcio (que serviu também a Portugal) tinha plena consciência de se tratar de um Novo Mundo que se desdobrava a cada légua percorrida de litoral. O mérito maior do florentino Vespúcio fora o de ser um grande propagandista de suas viagens. Tinha o costume de realizar descrições do que vira nas expedições às quais fazia parte, publicando seus escritos pela Europa. Correspondia-se inclusive com o conterrâneo Lourenço de Médice, um dos mais destacados homens das finanças e comércio europeus de sua época. Publicou a obra Mundos Novus, na qual estavam contidos seus relatos. Tomara conhecimento desta o geógrafo alemão Martin Waldseemüller, que por sua vez escrevera Cosmographie Introductio, onde propôs o nome de América às terras descritas por Vespúcio, como ficou exposto no mapa-múndi que ilustrava seu livro (AQUINO, 2000, p. 94). A partir de então se generalizou (em mapas e escritos) a denominação América para designar o Novo Mundo aberto à sanha colonizadora européia, cada vez mais conhecido pelos navegadores, sendo a viagem de Fernão de Magalhães, que contornara América do Sul e alcançara o Pacífico (1519-1522), um marco da navegação mundial.

que contornara América do Sul e alcançara o Pacífico (1519-1522), um marco da navegação mundial. América

América I

que contornara América do Sul e alcançara o Pacífico (1519-1522), um marco da navegação mundial. América
Nas primeiras décadas do século XVI, as Antilhas já tinham sentido todo o peso da

Nas primeiras décadas do século XVI, as Antilhas já tinham sentido todo o peso da exploração colonial. Suas riquezas minerais tinham se esvaído, bem como as populações nativas dizimadas pelo contato e dominação espanhola. O vazio demográfico deixado fora tão grande, que certas ilhas foram praticamente abandonadas pelos colonos, pois não havia mais braços indígenas para trabalhar. Cem anos depois, esta brecha fora ocupada por outros estados europeus, como Inglaterra, França e os Países Baixos. Com o declínio caribenho-antilhano, tiveram os espanhóis que explorar novas terras para suprir as demandas cada vez maiores do mercado europeu e do Estado espanhol, elevado ao status de grande potência da Europa durante o primeiro século de colonização. Inicialmente, a direção do processo colonizador fora conferida aos colonos no Novo Mundo. Inúmeros aventureiros partiram das bases caribenhas para explorar o litoral continental. Logo tomavam conhecimento da existência de impérios e riquezas ainda por conquistar. E não se tratava de pouca coisa Estimativas apontam para uma população total da América, à época da conquista, da ordem de 40 a 80 milhões de habitantes (CHAUNU, 1969, p. 67). Afora o enorme contingente de braços para explorar, eram os espanhóis atraídos pelos boatos de grandes tesouros para serem saqueados. Animados por estas notícias, organizavam grupos não superiores a poucas centenas de pessoas, e rumavam na direção dos sonhados Eldorados, como moscas no açúcar. Os líderes (ou capitães) destes empreendimentos eram denominados adelantados. Estes firmavam um contrato (capitulación) com as autoridades coloniais para explorar e conquistar os territórios e riquezas que encontrassem desde que pagassem o quinto real (imposto de 20%). Assim, as expedições eram empreendimentos privados (na História do Brasil, os correspondentes às capitulações e adelantados foram as Capitanias Hereditárias e os Capitães-donatários). A Coroa espanhola estava assaz ocupada com as disputas dinásticas européias para poder atuar diretamente na conquista americana. Por terem esta natureza privada, tais investidas sofriam a concorrência de outros adelantados, que disputavam os tesouros e glórias das conquistas, inclusive matando-se uns aos outros – Cortez, por exemplo, teve que abandonar Tenochtitlán para combater o concorrente Narváez, que tinha chegado ao litoral mexicano vindo de Cuba (SOUSTELLE, 1997, p. 104).

para combater o concorrente Narváez, que tinha chegado ao litoral mexicano vindo de Cuba (SOUSTELLE, 1997,

Os casos de Hernán Cortez e Francisco Pizarro ficaram famosos por terem atingido as zonas centrais pré-colombianas (México e Peru), e deles já tratamos anteriormente. Porém, iguais a eles, muitos outros tentaram a sorte pelo interior do continente, por vezes perecendo pela resistência imposta pelos nativos.

História da

Deste modo, foram múltiplos os focos de irradiação da conquista, que teve como bases iniciais La Española e Cuba. Posteriormente, certas regiões no continente funcionaram como trampolins para explorações de áreas mais afastadas. Uma destas que servira de apoio para novas partidas fora o território do atual Panamá. Conhecida primeiramente por Verágua, depois por Castilla del Oro, fundaram-se aí as primeiras cidades de colonização européia no continente: Santa María la Antigua (1509) e Panamá (1519) (AQUINO, 2000, p. 96). Esta tendência à formação de núcleos urbanos pelos espanhóis fora uma das marcas que distinguem a colonização destes em relação aos portugueses (juntamente com a interiorização do povoamento urbano), mais preocupados com a construção de engenhos litorâneos (HOLANDA, 1998, pp. 95-110). Era uma estratégia de dominação erguerem-se centros urbanos, algo já praticado inclusive pelos Incas nos Andes.

Do Panamá partiram expedições ao norte e ao sul, como as de Gil González Dávila, que conquistou a Nicarágua (1522), a de Juan Vásquez de Coronado, que se apossou da hoje Costa Rica (1524), bem como as que se dirigiram rumo à América do Sul, via Pacífico, como a de Francisco Pizarro (1531). Mais ao norte, a partir da expedição de Hernán Cortez (1519) e a conseqüente conquista da Confederação Asteca, que desmoronara como um castelo de cartas pelas alianças do espanhol com os rivais dos Astecas, o caminho para a dominação européia estava aberto. Também Cortez fundara cidades: primeiramente Vera Cruz, no litoral do Golfo do México, ponta de lança para o interior, e após se apoderar de Tenochtitlán, sobre suas ruínas ergueu a Cidade do México. Completou este primeiro ciclo urbano-europeu na Nova Espanha (denominação do México durante o período colonial) a fundação de Acapulco. Deste foco colonizador, expandira- se a dominação para o sul (atuais Honduras, El Salvador e Guatemala, na década de vinte), norte (basicamente onde hoje existe a Califórnia) e oeste (pelo Pacífico, apoderando- se os espanhóis das Ilhas Molucas e das Filipinas, o que abrira o comércio oriental aos castelhanos). Completara a época da conquista o avanço espanhol rumo à América do Sul, principalmente com a expedição de Pizarro, porém secundado pela concorrência que sofrera de outros conquistadores, que se espalharam por toda a costa do pacífico e pelos planaltos andinos. À altura de meados do século XVI, a rápida e mortífera conquista espanhola estava consolidada, faltando apenas a ocupação de áreas (como a região platina e o sul do Chile) marginais que pouco a pouco foram sendo incorporadas ao domínio colonial.

platina e o sul do Chile) marginais que pouco a pouco foram sendo incorporadas ao domínio

América I

platina e o sul do Chile) marginais que pouco a pouco foram sendo incorporadas ao domínio
Os povos americanos sentiram de formas diferenciadas o peso da dominação estrangeira. Ela fora especialmente

Os povos americanos sentiram de formas diferenciadas o peso da dominação estrangeira. Ela fora especialmente atroz para os povos que ainda cultivavam seus modos de vida nômades e semi-nômades. O extermínio dos Arawak o comprova, bem como dos Tupi da costa brasílica. As exigências européias em relação aos nativos passavam primeiramente pela sua sedentarização. Era impossível dar continuidade a qualquer atividade econômica se a mão- de-obra fosse instável ou móvel. O próprio fato de ter que se sedentarizar desestruturava seu modo de vida e desarticulava suas comunidades, pois o nomadismo tinha papel importante na reprodução dos grupos. O trabalho imposto, seja nos canaviais da América portuguesa, seja na mineração antilhana, agredia seus princípios. Não havia na América a lógica da acumulação que é a base do modo de produção capitalista (assim como a propriedade privada, desconhecida, a rigor, na América pré-colombiana). Os europeus ficavam abismados com a intolerância indígena ao trabalho contínuo. Anteriormente, caçavam, plantavam ou colhiam somente o indispensável para a subsistência. A partir da chegada dos conquistadores, deveriam trabalhar o suficiente não só para sua subsistência, como também para gerar excedentes que pudessem ser apropriados pelos dominadores. Claro que a isso se opunham os nativos. Por que trabalhariam para os brancos vindos de longe se o meio ambiente e a agricultura incipiente garantia sua sobrevivência? Daí a imposição do trabalho forçado, em todas as suas variantes. Outros elementos culturais contribuíram para indispor os indígenas ao trabalho requisitado. Um exemplo conhecido é o de que, para muitos dos povos semi-nômades, o serviço na lavoura era exclusivamente feminino (os homens só faziam a derrubada da mata). Obrigar um índio a trabalhar de sol a sol numa lavoura como a da cana-de-açúcar era humilhá- lo severamente. Muitos fugiam ou preferiam a morte à realização de tarefas femininas. Desta feita, a existência destes povos onde o contato com o europeu se dava ficara tão reduzida que se criaram vazios demográficos já nos primeiros anos da colonização. A desarticulação de suas comunidades, o trabalho pesado, as doenças e as guerras dizimaram os semi- nômades do litoral brasílico e das ilhas antilhanas. Estes vazios demográficos explicam em grande parte a necessidade da mão-de- obra africana, trazida em massa para a América – algo em torno de 12 milhões de escravos trazidos ao longo do período colonial (CHASTEEN, 2001, p. 41). Os escravos se concentraram no continente americano justamente onde não havia mais trabalhadores disponíveis, mortos pela sanha européia. De outra forma sentiram os indígenas das zonas centrais das civilizações pré- colombianas (México e Andes). Apesar de também sofrerem com as guerras, epidemias e a dominação, esta se enquadrara em termos já conhecidos por estes nativos. Os Astecas e seus confederados já extraiam excedentes das comunidades camponesas – os calpulli. Assentada a poeira da guerra de conquista, os espanhóis se utilizaram das formas anteriores de apropriação na Meso-América. O trauma da dominação fora mais brando, posto que a vida comunitária tradicional fora muito menos desarticulada. Os adelantados e demais conquistadores receberam repartimientos (comunidades indígenas) onde prevalecera a encomienda. Esta fora a forma encontrada de subjugar os nativos ao trabalho forçado sem recorrer à escravidão. A justificação da encomienda (cujo termo significa “confiados”), qual seja a de assegurar a evangelização das comunidades, dificilmente se concretizava. Aos conquistadores interessava riqueza, não a catequese de indígenas com os quais pouco se importavam (claro que havia exceções, infelizmente daquelas que confirmam a regra). Os abusos no tratamento dos nativos sujeitos à encomienda, que faziam os religiosos clamarem por maior rigidez no controle e fiscalização da evangelização, pouco abalava o poder dos adelantados, que “tornaram-se como os nobres europeus, vivendo do trabalho

de lavradores servis que entregavam parte da colheita como um tributo regular” (CHASTEEN, 2001, p. 46). Outras formas de trabalho forçado coexistiram na América colonial, como o requerimiento (autorização para escravizar aqueles que se recusavam a escutar pregação), que fora empregado principalmente na produção das

minas da Nova Espanha. Para a Zona Andina, a forma empregada de exploração do trabalho nativo seguia o mesmo modelo da mexicana: utilizar as formas precedentes de tributação. Aqui a servidão se dava através da antiga mita:

Aqui a servidão se dava através da antiga mita : História da América I “Os espanhóis

História da

América I

“Os espanhóis utilizaram-na amplamente, após introduzirem modificações segundo seus interesses. Consistia em impor o trabalho a indígenas escolhidos por sorteio em suas comunidades. Em geral, esse trabalho compulsório era por quatro meses, durante o índio mitayo recebia um salário.” (AQUINO, 2000, p. 112).]

Durante as quatro primeiras décadas desde a chegada de Colombo ao Novo Mundo,

o poderio dos colonos privilegiados se mantivera praticamente intocado, tendo ao seu dispor grande quantidade de mão-de-obra para exploar. A supremacia dos adelantados tendera a se enfraquecer (porém, não completamente) e a dar lugar à presença direta do Estado espanhol no governo dos territórios dominados, na medida em que afloravam as riquezas

da América, principalmente aquelas vindas do subsolo: o ouro e a prata. Encerrava-se assim,

a segunda fase colonial, onde o poder dos potentados era praticamente ilimitado, dando

lugar ao mundo colonial de estruturas administrativas que visavam ao controle pela Coroa da vida sócio-econômica dos seus súditos além mar.

da vida sócio-econômica dos seus súditos além mar. Razões da vitória São muitas as razões que

Razões da vitória

São muitas as razões que possibilitaram a uns poucos milhares de europeus conquistarem dezenas de milhões de nativos em um vasto e rico continente como era a América. Abaixo apresentamos as consideradas principais.

O primeiro elemento que destacamos e que efetivamente dava aos europeus uma superioridade importante frente aos povos americanos é a sua tecnologia bélica. As armas de uma superioridade importante frente aos povos americanos é a sua tecnologia bélica. As armas de fogo (os mosquetes), desconhecidas na América, tinham um poder de destruição a longa distância que era incomparável a qualquer armamento indígena. Afora isto, o estrondo e a fumaça dos canhões espantavam os americanos, que associavam-nos a um poder sobrenatural. Provocavam um verdadeiro terror psicológico entre os indígenas. A metalurgia empregada nas espadas e lanças européias também não tinha concorrentes na América, sendo muito mais mortificantes. O uso de armamentos defensivos (escudos, armaduras, etc.) protegia os espanhóis frente a uma massa de nativos que lutavam praticamente desnudos, bem como acentuavam o caráter divino dos europeus. O emprego dos cavalos igualmente espantava os ameríndios,

Por sorte dos espanhóis, havia um conjunto de lendas e crenças nativas que colocavam os mesmos como divindades, e resignaram muitos a se submeterem à conquista sem luta. conquista sem luta.

Aliado às crenças anteriormente citadas, para os americanos, seus monarcas tinham um caráter divino ou

Aliado às crenças anteriormente citadas, para os americanos, seus monarcas tinham um caráter divino ou semi-divino, fazendo com que, em caso de morte ou captura destes, a moral para prolongar a resistência sofria pesada baixa.

fazendo com que, em caso de morte ou captura destes, a moral para prolongar a resistência

Os espanhóis beneficiaram-se ainda da experiência adquirida nas Antilhas antes do embate com os Estados americanos, o que dava-lhes a vantagem de já conhecerem antes do embate com os Estados americanos, o que dava-lhes a vantagem de já conhecerem certas crenças e parte do imaginário e estrutura política dos povos sedentários, através também de informantes e de contatos iniciais que possibilitavam traçar estratégias de invasão. Ao contrário, os nativos nada sabiam dos europeus, e se viam surpreendidos frente a um inimigo desconhecido e a priori superestimado (por conta das lendas, etc.).

Souberam bem os conquistadores explorar as dissidências indígenas entre os povos submetidos ao domínio dos grandes Estados tributários, bem como seus inimigos históricos.

indígenas entre os povos submetidos ao domínio dos grandes Estados tributários, bem como seus inimigos históricos.

O relativo isolamento (e nenhuma forma de solidariedade frente a um inimigo externo) entre a Meso-América e a Zona Andina possibilitou a manutenção do elemento surpresa na invasão ao Peru, mesmo sendo mais de uma década posterior

à invasão estrangeira das terras mexicanas.

surpresa na invasão ao Peru, mesmo sendo mais de uma década posterior à invasão estrangeira das

No caso dos incas, as disputas dinásticas dividiram e enfraqueceram as chances de resistência e vitória.

No caso dos incas, as disputas dinásticas dividiram e enfraqueceram as chances de resistência e vitória.

Por último, o alastramento de epidemias para as quais os nativos não

possuíam anticorpos dizimara populações inteiras. No cerco que sofrera Tenochtitlán,

a cidade passara por uma destas epidemias que matavam e debilitavam muitos

homens que poderiam estar em campo de batalha, caso não tivesse ocorrido. Pizarro também fora precedido por um surto que ceifou cerca de 300.000 vidas na Zona Andina.

não tivesse ocorrido. Pizarro também fora precedido por um surto que ceifou cerca de 300.000 vidas
ESTADO E IGREJA NO PROJETO COLONIZADOR
ESTADO E IGREJA NO PROJETO COLONIZADOR

No projeto da colonização, Estado e Igreja atuaram lado a lado para assegurar o êxito do empreendimento. Pois este, em princípio, tinha a dupla finalidade de trazer riquezas à Coroa ao mesmo tempo que novas ovelhas para o rebanho católico. À mentalidade predatória dos colonos se somava o desejo de milhares de missionários que vieram para a América para converter os gentios à fé no deus único cristão.

para converter os gentios à fé no deus único cristão. A administração colonial Nos primeiros decênios

A administração colonial

Nos primeiros decênios da conquista e subseqüente colonização a Coroa tivera papel reduzido. As expedições e a dominação inicial dos nativos subjugados se deram através da iniciativa privada de aventureiros e adelantados. Ao Estado cabia funcionar com árbitro das disputas entre os conquistadores e conceder as capitulaciones. Pouco propensa à despender capitais na empresa que ainda pouco gerava em retorno, estava a Coroa

espanhola mais preocupada com a política européia. Bastava a ela regulamentar a atuação dos colonos, sempre visando à receita dos tributos. Para tanto bastava a criação da Casa de la Contratación, instalada em Sevilha desde 1503. Tinha este órgão a finalidade de fiscalizar o comércio das Índias Ocidentais (à falta da conquista da verdadeira Índia no Oriente, denominaram

História da

a área colonial americana desta forma), regulando as frotas mercantes, os contratos das Companhias de comércio, etc.

A guinada no sentido de um papel mais efetivo de controle estatal colonial se dera

em decorrência das riquezas que afloravam das conquistas das zonas centrais pré- colombianas. Pois a lógica administrativa seguia a lógica econômica. O atraso de dois séculos e meio na criação do Vice-Reinado do Rio da Prata em relação ao da Nova Espanha

o atesta. As áreas periféricas, desprovidas de metais preciosos, pouco importavam para a Coroa. Fora somente quando a exploração do gado dos pampas platinos passou a elevada monta que se constituíram lá as instituições já seculares no Peru e México (outro objetivo fora frear o contrabando pela Colônia de Sacramento).

A partir de então, foram sendo criadas instituições burocráticas tanto na Metrópole

quanto na Colônia. O Conselho das Índias, criado por Carlo V em 1524 (três anos após a

queda de Tenochtitlán), tinha a atribuição de órgão supremo “sobre todas as questões coloniais, fossem de natureza judicial, legislativa, militar ou eclesiástica” (AQUINO, 2000, p. 120). Somavam-se às instituições metropolitanas máximas (a Casa e o Conselho) os juízes de residência e os visitadores, enviados para a América para fiscalizar a administração na Colônia.

A máquina burocrática no continente americano era, por sua vez, constituída por

diversos níveis administrativos. As altas autoridades eram os Vice-Reis que (como o nome indica) administravam os Vice-Reinados. A criação destes seguiu o desenvolvimento econômico colonial: Vice-Reinado da Nova Espanha (1535), do Peru (1543), de Nova Granada (1717, desmembrado do Peru), e do Rio da Prata (1776). Nas áreas periféricas foram constituídas (como na Venezuela, Flórida, Cuba, etc.) as capitanias gerais. Note-se que a transição constituída pela substituição dos adelantados pelas estruturas administrativas estatais não se dera de forma pacífica. O poder que tinham aqueles estava enraizado nas áreas sob seu domínio, tendo, por exemplo, ocorrido uma guerra civil no Peru entre a aristocracia dos conquistadores e as tropas comandadas pelo primeiro Vice- Rei, Blasco Núñes de Vela, que morrera ao longo do conflito, em 1546. Vencida a resistência dos potentados locais, estes se encastelaram nas instituições que acabavam por reger na prática a dominação sócio-política colonial: as audiências e os cabildos. As audiências, criadas a partir de 1511 (CHAUNU, 1969, p. 128), permaneceram como importantes centros de poder nas terras americanas. Inicialmente, estavam restritas às funções judiciais de tribunais de última instância na América, porém com o tempo passaram a assumir funções administrativas, inclusive substituindo os Vice-Reis em caso de seus impedimentos. Eram as audiências integradas por “ouvidores nomeados pelo rei, com funções vitalícias” (AQUINO, 2000, p. 120). Os cargos em repartições administrativas (como as alfândegas) sob jurisdição das audiências eram adquiridos mediante compra, gerando consideráveis rendas para elas. Tal mercantilização de cargos teve como conseqüências a corrupção e desvios de conduta, pois os compradores dos mesmos careciam obter o retorno sobre o investimento, bem como objetivavam enriquecer às custas de suas prerrogativas. Já os cabildos tinham funções análogas às audiências (às quais estavam subordinados), porém exerciam seu comando a nível local. Eram as câmaras municipais, responsáveis por legislar e administrar, além de funcionarem como tribunais judiciais. Formados pelos regedores, que integravam a elite crioula local e reproduziam seu domínio

judiciais. Formados pelos regedores, que integravam a elite crioula local e reproduziam seu domínio América I

América I

através da eleição anual, baseada na escolha de seus sucessores, conformavam os cabildos a base

através da eleição anual, baseada na escolha de seus sucessores, conformavam os cabildos

a base estrutural do poder na América colonial espanhola. Esta estrutura repartida de poder colonial fora o germe da posterior fragmentação da América Latina em diversos países quando o processo de independência se desdobrara na região.

o processo de independência se desdobrara na região. O Sistema colonial Tendo em vista a rivalidade

O Sistema colonial

Tendo em vista a rivalidade entre as monarquias absolutistas e o pensamento econômico vigente na Europa durante os séculos XVI a XVIII, o empreendimento colonial deveria ficar circunscrito ao país do qual derivava. Num sentido macroeconômico, referimo- nos ao sistema colonial. Fernando Novais sintetizou o que significara a colonização:

tal movimento se processa travejado

por um sistema específico de relações, assumindo assim a forma mercantilista de colonização, e esta dimensão torna-se para logo essencial no conjunto da expansão colonizadora européia. Noutras palavras, é o sistema colonial do mercantilismo que dá sentido à colonização européia no período que medeia entre os Descobrimentos Marítimos e a Revolução Industrial.” (NOVAIS, 1998, p. 14).

“Nos Tempos Modernos [

],

A expansão comercial dos séculos que precederam à colonização sofrera a influência estatal a partir da formação dos Estados Nacionais, posteriormente transformados em monarquias absolutistas. Daí em diante, o Estado passara a empreender políticas de estímulo ao comércio e à produção – o mercantilismo. A colonização, assim, se configurara como uma das facetas do mercantilismo, na medida em que os empreendimentos marítimos, dos quais ela fora conseqüência, visavam o acúmulo de riquezas pelos países que os dirigiam. Para assegurar o domínio do comércio colonial, as coroas ibéricas estabeleceram o exclusivismo do mesmo, através dos monopólios comerciais. Procuravam na adoção destas medidas excluírem os concorrentes estrangeiros da apropriação das riquezas geradas pela colonização e pelo comércio Metrópole-Colônia. Haja vista o objetivo maior de acumulação da riqueza, que sustentava o luxo das Cortes e a estrutura burocrática, e sendo na época a riqueza associada aos metais preciosos

– ouro e prata – bem como tendo os espanhóis a fortuna de encontrar reservas nunca antes

vistas desses metais em sua área colonial, o mercantilismo espanhol teve como característica principal o metalismo. Para fazer valer os monopólios, a Metrópole espanhola instituíra o sistema das frotas de galeões. Duas vezes por ano partiam de Sevilha (posteriormente de Cádiz) inúmeros galeões abarrotados de manufaturas (tecidos e quinquilharias), gêneros alimentícios (trigo, azeite e vinhos) e tudo o mais que necessitassem os colonos. As frotas foram estabelecidas para afastar o risco de ataques dos piratas e corsários (principalmente ingleses e franceses) que infestavam os mares atlânticos. Tinham também finalidades fiscais, pois os produtos americanos eram obrigados a passar nas alfândegas para embarcar nos navios que compunham as frotas de retorno à Espanha. O sistema era complementado com a instituição de portos únicos (Sevilha depois Cádiz, na Espanha; Havana, Vera Cruz, Cartagena e Porto Belo, na América). Aos demais portos americanos era vedado o comércio. Às restrições de trânsito comercial estrangeiro, somava-se a proibição do estabelecimento de outros europeus em terras coloniais espanholas. Porém, ao menos por um período de sessenta anos, houve tolerância para com a presença de portugueses. Este período se originara com a unificação política da Península Ibérica, quando a Coroa lusitana passara a pertencer aos reis espanhóis, ficando a Espanha senhora de praticamente todos os domínios coloniais americanos. Temos como exemplo da ingerência portuguesa no comércio colonial espanhol as suas atividades na região platina e do Alto Peru:

História da América I “A União Ibérica (1580-1640) constituiu-se em um período profícuo para a

História da

América I

“A União Ibérica (1580-1640) constituiu-se em um período profícuo para a presença portuguesa nas terras castelhanas do Vice-Reinado do Peru, dedicando-se os lusos sobretudo ao comércio. O objetivo primordial não poderia deixar de ser outro senão o escoamento da prata, tendo em vista o regime mercantilista da época. Ademais, no Brasil colônia ainda não haviam sido descobertas reservas de metais preciosos. A atração exercida pelas riquezas de Potosí impelia os luso-brasileiros a adentrarem pelo estuário do Prata, fixando-se desde o porto portenho às terras do Alto Peru e Lima.” (JUNQUEIRA, 2005, p. 16)

Terminada a União Ibérica, com a volta da independência portuguesa, tiveram os lusos que fundar, na margem esquerda do Rio da Prata, a Colônia de Sacramento (1680). Fora Sacramento um foco constante de contrabando realizado por portugueses e ingleses. Pois, apesar de toda a rigidez do sistema colonial imposto à América, a realidade se incumbia de abrir brechas para o contrabando. Em regiões periféricas da colonização (como a platina) a falta de recursos para arcar com os altos preços que atingiam os produtos metropolitanos fazia com que os colonos abraçassem o contrabando (realizado por qualquer europeu, desde que cobrasse preços accessíveis) como meio de abastecimento, à revelia do sistema colonial exclusivista. Os ingleses foram pródigos em burlar as restrições do Pacto Colonial, inundando a América espanhola com suas manufaturas.

inundando a América espanhola com suas manufaturas. Ademais, a incapacidade espanhola em suprir adequadamente as

Ademais, a incapacidade espanhola em suprir adequadamente as necessidades dos colonos fez com que a Coroa concedesse permissões (asientos) de comércio a estrangeiros – quase sempre ingleses – por determinados períodos (principalmente ao longo do século XVIII, por conta das constantes guerras em que se envolvia a Coroa espanhola). Os asientos desnudaram a situação crônica em que se vira a Espanha, duzentos anos após o início da colonização. O apego ao metalismo, pela enxurrada de ouro e prata que grassava pelo país, acabara por desestimular o desenvolvimento das manufaturas. Em conseqüência, os espanhóis exerciam apenas o papel de intermediários entre os países produtores de manufaturas (como a Inglaterra e os Países Baixos) e a colônia americana. No final das contas, a riqueza extraída das Américas acabava por se dirigir aos demais países europeus que se dedicavam à produção

cada vez maior de manufaturados, proporcionando neles a acumulação primitiva que posteriormente os impulsionaria para

cada vez maior de manufaturados, proporcionando neles a acumulação primitiva que posteriormente os impulsionaria para o desenvolvimento e a industrialização, permanecendo ambos os países ibéricos à margem do processo industrializante. A economia colonial deveria complementar a metropolitana. Para tanto, procuravam os metropolitanos barrar o desenvolvimento de manufaturas ou a produção de gêneros que competissem com os existentes no Velho Mundo, que ocasionassem uma redução da necessidade de importação colonial. Por outro lado, estimulavam a produção dos gêneros tropicais voltados para a exportação. O sistema produtivo implementado fora o de plantation, realizado em grandes propriedades (as haciendas) dedicadas à monocultura. A força de trabalho empregada era a mão-de-obra indígena, onde esta estava disponível. Em locais em que a população nativa havia sido exterminada, como em Cuba, tratara-se de importar os escravos africanos. Os produtos cultivados nas plantations eram principalmente o açúcar, o cacau (que possibilitou a invenção do chocolate na Europa) e o tabaco. Mas a exportação americana incluía ainda ervas como o mate e grande quantidade de couros, pois o gado fora introduzido no Novo Mundo em 1500- 1510 e se disseminara rapidamente, ocupando os espaços vazios deixados pelo genocídio nativo (No Brasil, a pecuária empurrava os indígenas cada vez mais para regiões remotas, fugindo do contato com os portugueses). Porém, a grande jóia das exportações americanas sempre fora o fruto das minas peruanas de Potosí (prata) e das mexicanas (ouro e prata). A expansão da produção agrícola só se dera com o arrefecimento da produtividade mineradora, no século XVII. Até então, o que interessava à Metrópole era a enorme extração das riquezas metálicas. No começo da colonização, ouro e prata representavam mais de 90% do valor das exportações, e mesmo ainda no século XVIII nunca ficaram abaixo de 75% ou 80% do total remetido à Espanha (CHAUNU, 1969, p. 82).

e mesmo ainda no século XVIII nunca ficaram abaixo de 75% ou 80% do total remetido
A Igreja Católica Ao lado da conquista temporal da América, pelas armas, esteve presente a

A Igreja Católica

A Igreja Católica Ao lado da conquista temporal da América, pelas armas, esteve presente a conquista

Ao lado da conquista temporal da América, pelas armas, esteve presente a conquista espiritual, pela Bíblia. No rastro dos adelantados que submetiam os americanos ao poder espanhol, milhares de religiosos se

História da

encarregavam de incluir as populações sobreviventes ao rebanho católico. Estado e Igreja foram, de certa forma, “sócios” na empresa colonial. Mas que isto, a Igreja fizera parte da estrutura burocrática ibérica, através do Patronato. A nomeação para os cargos eclesiásticos era atribuição dos reis e seus conselhos, sendo inclusive os nomeados pagos pelo Estado como qualquer funcionário integrante da máquina administrativa. Disto derivava a imoralidade característica do clero secular tanto na Metrópole como na colônia. As nomeações para a alta hierarquia eclesiástica se davam por critérios políticos, pois postos como o de bispo, garantiam prestígio e riqueza aos indicados. Muitos “religiosos” foram grandes comerciantes e detinham considerável papel na dominação sócio-política da América. Ao contrário dos sacerdotes do clero secular, que pouco se importavam com a fé de seus rebanhos, o contingente formado pelos frades e monges, das diversas ordens religiosas, se dedicava à evangelização dos nativos. Para tanto, tiveram que adaptar suas práticas e criar estratégias para efetivar seu intento de substituir o “paganismo” americano pela doutrina católica. A primeira tarefa que deveria ser empreendida era garantir que os nativos entendessem a mensagem dos religiosos. Ensinar o latim, o espanhol ou o português seria por demais complicado (além de demorado), e afastaria os indígenas da conversão. O meio de atração dos rebanhos para as pregações do Evangelho fora o aprendizado pelos religiosos das línguas americanas e a tradução, para estas, dos textos bíblicos. Nas zonas centrais da colonização, México e Peru, funcionaram como línguas veiculares de conversão respectivamente a nahuatl e a quéchua nativas. No Brasil ficara conhecida como ‘’língua geral” (baseada no Tupi) a forma de comunicação entre os jesuítas e os ameríndios. As principais ordens religiosas do clero regular na América foram as dos dominicanos, franciscanos, agostinhos e jesuítas. Eram os frades (ou freis) os responsáveis pelo corpo-a-corpo com os indígenas, que recebiam os sacramentos cristãos (batismo, catequese e extrema-unção) e aprendiam a doutrina cristã. Afinal de contas, a evangelização dos povos americanos fora a justificativa ideológica para a colonização. Urgia afastar os nativos do paganismo e idolatria com os quais foram associadas as crenças ameríndias. Para consolidar a conversão (e mostrar a supremacia da religião européia) os templos indígenas (entre outras construções) foram destruídos, e sobre eles construídas as catedrais e igrejas coloniais (como exemplo, a Catedral da Cidade do México fora erguida em cima da grande Pirâmide do Sol asteca).

América I

(como exemplo, a Catedral da Cidade do México fora erguida em cima da grande Pirâmide do
(como exemplo, a Catedral da Cidade do México fora erguida em cima da grande Pirâmide do
A difusão da religião católica acompanhava a expansão dos núcleos urbanos tanto no litoral como

A difusão da religião católica acompanhava a expansão dos núcleos urbanos tanto

no litoral como no interior, pois todo município tinha sua igreja matriz e outras que a coadjuvavam (as inúmeras igrejas coloniais do Centro Histórico de Salvador são testemunhas do processo).

Centro Histórico de Salvador são testemunhas do processo). Mais independentes que o clero secular em relação

Mais independentes que o clero secular em relação ao controle estatal, os frades

missionários foram, por vezes, inconvenientes para a as autoridades e colonos espanhóis. Enquanto que em torno das cidades e campos das zonas centrais da colonização geralmente trabalhavam lado a lado com o Estado na submissão dos nativos, nas áreas periféricas atuavam quase sempre à parte do conjunto colonizador na evangelização dos semi-nômades. Constituíram as reduções ou missões (aldeamentos habitados por indígenas que viviam e trabalhavam sob tutela destes religiosos) que em alguns casos se chocaram com colonos e autoridades coloniais. Nas missões, pretendiam proteger os nativos da servidão (ou escravidão) imposta pela atuação predatória dos colonizadores. Estes, interessados no suprimento da mão-de-obra indígena, protestavam e confrontavam os religiosos, visando à exploração das populações dos aldeamentos e reduções.

O caso extremo do conflito gerado pela oposição missionários versus colonos/Estado

fora o dos Sete Povos das Missões, na região platina. Organizado pelos jesuítas, o conjunto

formado pela grande massa de índios Guarani aldeados atingira considerável organização política e econômica, inclusive produzindo excedentes agrícolas que atiçavam a cobiça dos seus opositores. À Coroa desagradava a existência de um núcleo considerável de povoamento (composto por dezenas de milhares de índios) que estava alheio ao seu domínio, temendo a constituição de um Estado dentro do Estado (CHAUNU, 1969, p. 133). Após

quase dois séculos de permanência (1585-1768) fora destruída por forças coloniais a grande obra missionária dos jesuítas na região platina. Mesmo com sua destruição, se considerarmos a longo prazo a experiência missionária com os Guarani, os Sete Povos das Missões possibilitara a preservação de costumes e da língua guarani, ainda hoje falada no Paraguai.

O papel dos missionários, além do trabalho nas missões, fora o de protestar contra

os abusos dos colonos na exploração dos indígenas tanto pela encomienda como pela mita. Na América espanhola o maior defensor de um tratamento mais digno aos indígenas fora o frei Bartolomé de Las Casas (1474-1566). Las Casas, anteriormente dotado de uma encomienda onde observava as mortes pelas doenças e pelo trabalho forçado dos indígenas, se convertera em defensor dos mesmos através da influência da Ordem Dominicana, à qual passou a fazer parte. Durante anos escreveu textos atacando a exploração colonial das populações nativas, conseguindo, em meados do século XVI (após vencer o debate com seu opositor, Juan Sepúlveda), convencer as autoridades metropolitanas a abolir

História da América I gradualmente a encomienda . Através dos impostos cobrados pelo governo sobre

História da

América I

gradualmente a encomienda. Através dos impostos cobrados pelo governo sobre os encomienderos, esta acabaria por cair em desuso, sendo abolida definitivamente em 1719 (AQUINO, 2000, p. 112).

“Esta [a encomienda] acabará por se extinguir por si própria. É caso arrumado ao dobrar do século XVII para o XVIII. Foi substituída em quase toda a parte por um conjunto de formas de exploração

diferentes, sem ligação histórica com ela. [

que ainda hoje quase em toda parte asseguram as bases econômicas de dominação das classes oriundas da consagração da Independência – decorrem da espoliação das comunidades indígenas e da constituição de uma estrutura latifundiária de propriedade individual, transposição caricatural da que a Reconquista havia instalado na Espanha do Sul.” (CHAUNU, 1969, p. 102)

As novas formas – as

]

A ingerência dos jesuítas (a mais poderosa das ordens religiosas) na América, rivalizando com os poderes dos potentados locais e do Estado, acabou por resultar em sua expulsão tanto do Brasil como da América espanhola na segunda metade do século XVIII.

RUMO AO MUNDO COLONIAL
RUMO AO MUNDO COLONIAL

Que mundo colonial foi este surgido a partir das cinzas das civilizações pré- colombianas e do influxo da dominação européia? A resposta para esta questão é complexa, porém desde logo podemos afirmar uma coisa: fora um Novo Mundo, marcado pela junção dos modos de vida nativos com a civilização cristã imposta pelos colonizadores. Contudo, evidente que havia uma assimetria entre os colonizadores e os povos submetidos ao seu domínio, marcada pela hegemonia dos primeiros sobre os segundos. Foram transplantados para as Índias Ocidentais os valores e costumes europeus, que deveriam se sobrepor (e quando possível apagar) ao modo de vida dos nativos americanos.

A tal processo podemos chamar de transculturação (que pressupõe trocas culturais entre

as partes envolvidas, porém com hegemonia de uma delas – no caso americano, a européia- formando sociedades novas). A hegemonia exercida pelos ibéricos pode ser constatada nas inúmeras facetas das sociedades coloniais em gestação. Já analisamos o papel da Igreja no processo de submissão cultural dos nativos aos valores cristãos. Com o passar das gerações, os povos latino-americanos abraçaram verdadeiramente a religião Católica (o fato de que atualmente

os países da região constituem boa parte do contingente de fiéis o comprova, sendo inclusive

o Brasil o país com o maior número de católicos do mundo), bem como o governo de

monarcas que reinavam por um direito divino. Contudo, a religiosidade latino-americana escapara à padronização da Igreja. A mescla de contribuições indígenas, africanas e européias dava à espiritualidade dos americanos novos tons que destoavam dos preceitos de Roma. O bem enraizado sincretismo religioso dos baianos de hoje, para os quais os santos católicos se confundem com os orixás africanos é um exemplo. Além deste, a profusão de santidades “americanizadas”, como a Virgem de Guadalupe (de feições indígenas), padroeira do México, e a Nossa Senhora Aparecida (representada por uma Virgem Maria negra), padroeira do Brasil, também servem de exemplos. Não obstante, a Igreja procurava coibir os desvios e castigar os hereges. Tribunais da Santa Inquisição foram instalados em cidades como Lima desde o século XVI. Uma lista de livros proibidos na América era mantida pela Inquisição, que também se preocupava em

restringir as influências judaicas entre os americanos, perseguindo aqueles apenas superficialmente convertidos

restringir as influências judaicas entre os americanos, perseguindo aqueles apenas superficialmente convertidos (cristãos-novos).

O exercício da hegemonia da Igreja Católica, que reforçava a predominância dos

valores europeus, se deu também pelo fato de que ela monopolizava a educação na América. Universidades foram criadas nos centros urbanos espanhóis do Novo Mundo (a primeira, em São Domingos, data de 1538), sendo que ao findar-se o período colonial, havia mais de vinte delas espalhadas pela América espanhola (HOLANDA, 1998, p. 98). Ao contrário, o desleixo português com a educação no Brasil colonial fizera com que o ensino superior somente aí chegasse com a vinda da Família Real em princípios do século XIX. Sendo a educação um dos mais fortes elementos de conformação cultural, é claro que contribuíra para o enquadramento americano na civilização ocidental, mesmo que o acesso à educação fosse restrito aos privilegiados (e homens, pois na sociedade patriarcal latino-americana era vedado o ingresso de mulheres nas universidades: elas tinham apenas duas alternativas – o casamento ou a vida religiosa). Os centros urbanos onde estavam localizadas as universidades reforçavam a hegemonia cultural dos europeus. Pois estes, sempre que podiam, nelas residiam. A urbanização (como antes de dera com os Incas) possibilitava a fixação e controle dos ibéricos pelas regiões circunvizinhas. As cidades coloniais abrigavam os órgãos administrativos e suas autoridades, bem como formavam verdadeiras ilhas de cultura européia em meio à imensidão indígena (CHASTEEN, 2001, pp. 63-65).

A economia que gravitava em torno dos núcleos urbanos (que canalizavam as

atividades comerciais) era baseada na agricultura. As haciendas, além da produção para a exportação, também se dedicavam a abastecer as populações citadinas e o comércio inter- regional colonial que as zonas mineradoras necessitavam. Gradualmente as encomiendas se extinguiam, dando lugar a formas de exploração da força de trabalho nativa muitas vezes não menos degradantes. Os indígenas que ainda viviam em suas comunidades trabalhavam as terras dos latifundiários, formando um contingente dependente que era (mal) pago por seus serviços. Aos poucos, a evolução da economia colonial e o desenvolvimento das relações de trabalho não servis provocaram a desarticulação das comunidades (os calpulli mexicanos ou os ayllu andinos), pois o avanço das fronteiras agrícolas e a ganância dos latifundiários fizeram com que estes se precipitassem sobre as terras comunais. A partir de então, os indígenas trabalhariam individualmente as terras das haciendas ou tornar-se-iam arrendatários de lotes nas mesmas. Este processo de “peonização” da população indígena ou mestiça, iniciado no século XVI, e acelerado no XIX, persiste até os dias de hoje (CHAUNU, 1969, p 103).

ou mestiça, iniciado no século XVI, e acelerado no XIX, persiste até os dias de hoje
ou mestiça, iniciado no século XVI, e acelerado no XIX, persiste até os dias de hoje

Entretanto, as comunidades notadamente de traços indígenas se conservaram nas zonas mais periféricas onde o latifúndio e a exploração colonial não as atingiram em tempos coloniais. Afora estas áreas marginais, a miscigenação fora (e é) uma das marcas das sociedades latino-americanas. À população indígena veio se somar a migração européia e a africana que

História da

conformavam cada vez mais uma sociedade mestiça. Aos novos contingentes vindos de fora, contribuíra para a miscigenação o fato de que o desastre demográfico do primeiro século da colonização reduzira a população ameríndia pré- colombiana a uma fração do que era antes que as doenças e o trabalho mortificante a exterminasse. Daí a predominância étnica branca na maior parte da América Latina, se bem que com graus variados de mistura do sangue ameríndio e (em menor proporção) negro.

A própria realidade colonial levava os europeus a se relacionarem com as índias,

posto que as espanholas representassem apenas um décimo da migração chegada na América. Da exploração sexual à formação de famílias ibero-americanas fora um passo.

Da união entre estes dois elementos resultara a grande miscigenação latino-americana à qual se juntaria o elemento negro. Com o tempo, um maior número de espanholas desembarcara na América, porém apenas atenuara os casamentos inter-étnicos.

A estrutura racial tendia a seguir a hierarquia social – brancos nascidos na Espanha

no topo, escravos negros chegados da África no degrau mais baixo, tendo entre os extremos uma enorme gama elementos inter-étnicos. Para manter a hierarquia social e impedir a ascensão de mestiços, índios e negros, as metrópoles instituíram um verdadeiro sistema de castas:

metrópoles instituíram um verdadeiro sistema de castas : América I “Para exercer o controle sobre as

América I

“Para exercer o controle sobre as sociedades coloniais latino- americanas, as Coroas ibéricas classificavam as pessoas em categorias fixas, legais, semelhantes às castas indianas, mais ou menos segundo a raça. A casta de uma pessoa era anotada no registro batismal e pessoas de castas inferiores eram legalmente impedidas de se tornar sacerdotes, freqüentar a universidade, usar seda, possuir armas e muitas outras restrições. Alguém de descendência totalmente européia ocupava uma categoria no sistema e alguém de descendência totalmente africana ocupava outra. Mas o filho de europeu com africano pertencia a uma terceira categoria:

meio europeu, meio africano, logicamente. Havia uma quarta categoria para o filho de pai europeu e mãe indígena, e uma quinta para uma criança cujos pais fossem indígena e africano. E os povos indígenas tinham uma categoria própria, a sexta. Mas isso era só o começo.” (CHASTEEN, 2001, p. 73)

Ao longo do tempo estas categorias foram se multiplicando, pelos relacionamentos sexuais (ilegais) entre elas, formando até dezesseis ou mais classificações, que confundiam as distinções e pressionavam o sistema, mas isso é assunto para a disciplina História da América II Assim, grosso modo, os brancos nascidos na Espanha (chapetones) estavam em vantagem frente aos seus descendentes nascidos na América (os crioulos) que por sua vez estavam acima dos demais: mestiços, índios e negros. Fora esta estrutura a que perdurara durante a época de dominação da Espanha sobre suas posses americanas.

As outras Américas – noções preliminares Vimos até aqui como fora o desenvolvimento da colonização

As outras Américas – noções preliminares

As outras Américas – noções preliminares Vimos até aqui como fora o desenvolvimento da colonização ibérica.

Vimos até aqui como fora o desenvolvimento da colonização ibérica. Porém, no século XVII, a colonização da América teria novos agentes europeus, pois ingleses, franceses e holandeses iniciaram a montagem de suas colônias nas áreas não ocupadas por Espanha e Portugal. Desta forma, teve começo a conformação das duas Américas que tanto se distinguiriam no decorrer dos séculos – a América Latina (ibérica) e a América do Norte (de colonização francesa e inglesa). Franceses e ingleses estiveram presentes na América desde o século XVI, atuando como piratas e corsários nos saques aos navios espanhóis. Porém somente no século seguinte puderam iniciar seus primeiros movimentos migratórios, muito tímidos no começo. As áreas para as quais se dirigiram (e depois colonizaram) foram:

A América do Norte, grande espaço vazio (parcamente povoado pelos indígenas) aberto à colonização européia.
A América do Norte, grande espaço vazio (parcamente povoado pelos
indígenas) aberto à colonização européia. Os espanhóis, mais preocupados em
extrair as riquezas mexicanas e peruanas, pouco se interessaram pelos territórios
norte-americanos, ocupando de forma precária apenas a Flórida, bem como o oeste
continental, praticamente onde hoje é o território da Califórnia.
Parte das Antilhas, abandonada pelos espanhóis (ou de pouca presença
dos mesmos) após os primeiros decênios da colonização.
Posteriormente, seria ocupada a região das Guianas, na costa da América
do Sul próxima às Antilhas, outro espaço americano esquecido pelos espanhóis.

A colonização levada a cabo pelos ingleses, que fugiam da instabilidade política e

das guerras religiosas na Inglaterra, fora em muitos aspectos distinta daquela realizada por espanhóis e portugueses. Tinham objetivos diferentes e utilizaram formas outras de trabalho

que não o indígena, pois não tiveram à sua disposição a massa de ameríndios encontrada pelos espanhóis, e somente ao longo do século XVII lançaram mão do trabalho escravo

africano (nas plantations), nos moldes que os portugueses o fizeram no Brasil e os espanhóis no Caribe.

O desenvolvimento da colonização de povoamento na América do Norte, ocupada

por ingleses e franceses, explica em grande parte a desigualdade verificada na evolução histórica dos dois grandes blocos em que se divide a América. Explicar este desenvolvimento, bem como entender as causas das disparidades americanas, são tarefas a serem cumpridas também em América II.

são tarefas a serem cumpridas também em América II. À guisa de conclusão A história da

À guisa de conclusão

A história da América até aqui estudada permite que façamos um balanço do período

que vai do seu povoamento, a dezenas de milhares de anos atrás, até a conformação da

colonização ibérica do continente. Fora esta parte do globo habitada por povos que se desenvolveram (longe da influência do Velho Mundo) ao longo do tempo e do espaço de formas particulares,

apresentando grande diferenciação sócio-cultural quando aqui aportaram os europeus.

O encontro entre a Europa e a América marcara para sempre a História humana,

sendo certamente o maior evento da Era Moderna. Ambas as partes em contato em muito se transformaram (principalmente a América) após a chegada de Cristóvão Colombo, em 1492, às terras americanas.

Incorporada à expansão da cristandade e ao circuito mercantil europeu, a América colonial significara um salto em direção ao desenvolvimento das forças produtivas capitalistas, possibilitado pelo acúmulo de riquezas pela Europa Ocidental. O mundo colonial exercera forte influência em diversos aspectos da

vida dos povos do Velho Mundo. A título de exemplo, citemos um não comentado anteriormente, a alimentação: gêneros nativos da América, como

a batata, o cacau, o milho e o tomate se difundiram mundo afora, assegurando uma

diversificação adicional importante na pauta alimentar das populações não-americanas. Esta fora apenas uma das diversas facetas do alcance que tomara a descoberta da América para a evolução histórica rumo à História Contemporânea.

a evolução histórica rumo à História Contemporânea. História da América I Texto Complementar “Suas Maneiras

História da

América I

rumo à História Contemporânea. História da América I Texto Complementar “Suas Maneiras são Decentes e

Texto Complementar

“Suas Maneiras são Decentes e Elogiáveis”

“Tudo começou com Cristóvão Colombo, que deu ao povo o nome de Índios. Os

Europeus, homens brancos, falavam com dialetos diferentes, e alguns pronunciavam a palavra “Indien”, ou “Indianer”, ou “Indian”. Peaux-rouges, ou “redskins” (peles vermelhas), veio depois. Como era costume do povo receber estrangeiros, os tainos da ilha de São Salvador presentearam generosamente Colombo e seus homens com dádivas e trataram- nos com honra. “Tão afáveis, tão pacíficos, são eles” escreveu Colombo ao rei e à rainha da Espanha, “que juro a Vossas Majestades que não há no mundo uma nação melhor. Amam a seus próximos como a si mesmos, e sua conversação é sempre suave e gentil, e acompanhada de sorrisos; embora seja verdade que andam nus, suas maneiras são decentes e elogiáveis.” Claro que tudo isso foi tomado como sinal de fraqueza, se não de barbárie, e Colombo, sendo um europeu bem intencionado, convenceu-se de que o povo poderia “ser posto a trabalhar, plantar e fazer tudo que é necessário e adotar nossos costumes”. Nos quatro séculos seguintes (1492-1890), vários milhões de europeus e seus descendentes tentaram impor seus costumes ao povo do Novo Mundo. Colombo raptou dez de seus amistosos anfitriões tainos e levou-os à Espanha, onde eles poderiam ser apresentados para se adaptarem aos costumes do homem branco. Um deles morreu logo depois de chegar, mas não antes de ser batizado cristão. Os espanhóis gostaram tanto de possibilitar ao primeiro índio a entrada no céu, que se apressaram em espalhar a boa nova pelas Índias Ocidentais. Os tainos e outros povos arawak não relutaram em se converterem aos usos religiosos europeus, mas resistiram fortemente quando hordas de estrangeiros barbudos começaram

a explorar suas ilhas em busca do ouro e pedras preciosas. Os espanhóis saquearam e

queimaram aldeias; raptaram centenas de homens, mulheres e crianças e mandaram-nos

à Europa para serem vendidos como escravos. Porém a resistência dos arawak deu origem

a que os invasores fizessem uso de armas de fogo e sabres, trucidando centenas de milhares de pessoas e destruindo tribos inteiras, em menos de uma década após Colombo ter pisado na praia d são Salvador, a 12 de outubro de 1492.”

BROWN, Dee. Enterrem meu coração na curva do rio. São Paulo: Círculo do Livro; Melhoramentos, s/d, pp. 19-20.

História através de Documentos Décima segunda objeção de Juan Ginés de Sepúlveda na disputa com

História através de Documentos

História através de Documentos Décima segunda objeção de Juan Ginés de Sepúlveda na disputa com Bartolomé

Décima segunda objeção de Juan Ginés de Sepúlveda na disputa com Bartolomé de Las Casas sobre a legitimidade da conquista da América.

Valladolid, 1550/1551.

“Contra o que se diz a intenção de Alexandre papa em sua bula foi que primeiro pregassem o Evangelho àqueles bárbaros e depois de feitos cristãos fossem sujeitos aos reis de Castela, não quanto ao domínio das coisas particulares nem para torna-los escravos nem tirar seus domínios, mas somente quanto à suprema jurisdição com algum razoável tributo para a proteção da fé e ensino de bons costumes e bom governo, e que assim declarou outra bula de Paulo terceiro, digo que a intenção do papa Alexandre, como se vê claramente pela bula, foi que primeiro os bárbaros se sujeitassem aos reis de Castela e depois lhes fosse pregado o Evangelho. Porque assim foi feito desde o princípio por instrução dos Reis Católicos, que se ajustaram à intenção do papa sendo vivo o dito pontífice nove ou dez anos depois que deu a bula. E sabendo a maneira que lá se tinha na conquista, como souberam todos os papas que depois aqui sucederam e a aprovaram, não somente não se opondo, mas dando bulas, faculdades e indulgências cada um deles para as igrejas catedrais que aqui foram sendo escolhidas, e para bispados e mosteiros. Porque a bula de Paulo III não foi dada senão contra os soldados que sem autoridade do príncipe faziam estes bárbaros escravos e muitos outros agravos, e os tratavam como bestas, e por isso nela disse que os havia de tratar como a homens e próximos, pois eram animais racionais. Dizer, pois, como se diz, que não devem ser sujeitados no princípio e sim depois de feitos cristãos, está fora de toda razão. Porque se por uma causa, a saber, para proteção da fé e para que não a deixem e caiam em heresias é lícito sujeitá-los, por que não será mais lícito por duas, a saber, por esta, e primeiro por outra mais necessária, para que não impeçam a pregação

nem a conversão dos que crerem e para eliminar a idolatria e maus ritos? Digo antes que, se devesse haver distinção entre estes dois tempos, que demoraria mais dizer que deviam estar sujeitos até lhes ter pregado e tirado a idolatria e convertido à fé católica e, feito isto, que é o que pretende a Igreja, deixá-los na liberdade e domínio com que primeiro estavam, mas não deixar de sujeitá-los no princípio para não lhes fazer violência nem agravos, embora por seus pecados e idolatrias mereçam ser privados, e depois de deixada a idolatria e recebida a fé, fazer-lhes violência e tirar deles os domínios para que não deixem a fé; seria

castigá-los pelo que não fizeram, que é contra a lei divina e natural [

E digo mais: concordar

que depois de feitos cristãos devem se sujeitar aos reis de Castela como seus primeiros príncipes é contradizer tudo o que tem dito para evitar a guerra. Porque se os reis de Castela têm direito, como ele diz, de sujeitar daquela maneira depois de feitos cristãos, é certo que, se eles não querem dar obediência, com justiça poderão ser forçados a isso e para isso é necessária a guerra. Logo, com justiça se lhes podia fazer guerra por causa menor do que a que nós dissemos. E isto é destruir com sua confissão tudo o que antes dissera. De modo que, considerando bem isto e todo o resto que escreve o senhor bispo [Las Casas], destina- se a provar que todas as conquistas que até agora foram feitas, embora tenham sido guardadas todas as instruções, foram injustas e tirânicas, e confirmar o que escreveu em seu Confesionario, que mais verdadeiramente poderia ser chamado de libelo infamatório de nossos reis e nação, como pareceu aos Conselhos de Sua Majestade; e para que o Imperador se persuada a não fazer doravante nenhuma conquista, no que sua Majestade não faria o que deve, nem seria cumprido o mandamento de Cristo sobre a propagação da fé, como está delegado pela Igreja, nem aqueles miseráveis povos que não estão conquistados se converteriam. Porque não tendo que sujeitá-los, não iriam soldados para garantir os pregadores a sua custa, como até agora foram, nem à custa do rei, porque tem

]

outras coisas mais necessárias em seu reino em que gastar, e suas rendas não bastam nem para as coisas daqui. E mesmo que quisesse fazer as despesas e enviar soldados, não acharia homem que quisesse ir tão longe, embora lhe desse trinta ducados por mês, pois agora correm todo perigo e gasto pelo lucro que esperam das minas de ouro e prata e da ajuda dos índios,

História da

depois de sujeitados. E se alguém dissesse que todos os gastos seriam pagos pelos índios, pois se faz em seu proveito, está claro que não fariam isso senão à força e vencidos pela guerra, o que é voltar ao início. E assim os pregadores não iriam, e se fossem não seriam recebidos, mas tratá-los-iam como trataram no ano passado na Flórida os que foram enviados sem gente de guerra, por este mesmo parecer e indução do senhor bispo. E mesmo que não os matassem, não faria tanto efeito a pregação em cem anos como se faz em quinze dias depois de sujeitados, tendo eles liberdade de pregar publicamente e converter o que quiser, sem temor do sacerdote nem do cacique. Tudo isso é o contrário nos que não estão sujeitados. E é verdade que o senhor bispo pôs tanta diligência e trabalho em fechar todas as portas da justificação e desfazer todos os títulos em que se fundamenta a justiça do Imperador que deu não pequena ocasião aos homens livres, mormente os que leram seu Confesionario, de pensarem e dizerem que toda a sua intenção foi dar a entender a todo mundo que os reis de Castela contra toda a justiça e tiranicamente têm o domínio das Índias; mas que lhes dá aquele título tão leviano e sem fundamento, para cumprir com Sua Majestade, que pode fazer bem e mal mais do que

nenhum outro. Concluindo, portanto, digo que é lícito sujeitar estes bárbaros desde o princípio para eliminar suas idolatrias e os maus ritos, e para não poderem impedir a pregação e mais fácil e mais livremente poderem se converter, e para que depois disto não possam voltar atrás nem cair em heresias e com o contato dos cristãos espanhóis sejam mais confirmados na fé e percam os ritos e costumes bárbaros. Com estas respostas parece- me que satisfaz as objeções e argumentos do senhor bispo e dos que seguem sua opinião

] [

argumentos do senhor bispo e dos que seguem sua opinião ] [ América I Deo Gratias.”

América I

Deo Gratias.”

In: SUESS, Paulo (org.). A Conquista Espiritual da América Espanhola. Petrópolis:

Vozes, 1992, pp. 540-542.

América Espanhola . Petrópolis: Vozes, 1992, pp. 540-542. 1492 – a Conquista do paraíso (1492 –
América Espanhola . Petrópolis: Vozes, 1992, pp. 540-542. 1492 – a Conquista do paraíso (1492 –

1492 – a Conquista do paraíso (1492 – conquest of paradise). Direção de Ridley Scott, 1992, Estados Unidos/França/Espanha, 140 min. Este interessante filme narra a epopéia de Cristóvão Colombo até a chegada no Novo Mundo e o conseqüente conflito com os habitantes da América.

TODOROV, Tzvetan. A Conquista da América: a questão do outro . São Paulo: Martins Fontes,
TODOROV, Tzvetan. A Conquista da América: a questão do outro . São Paulo: Martins Fontes,

TODOROV, Tzvetan. A Conquista da América: a questão do outro. São Paulo:

Martins Fontes, 1999.

a questão do outro . São Paulo: Martins Fontes, 1999. AtividadesAtividadesAtividadesAtividadesAtividades

AtividadesAtividadesAtividadesAtividadesAtividades

ComplementaresComplementaresComplementaresComplementaresComplementares

1. Descreva as etapas da conquista espanhola da América e suas conseqüências

para os nativos.

2. Em linhas gerais, como se configurara o sistema colonial?

3. Faça um quadro sobreposto da estrutura sócio-política da América Espanhola.

História da América I Caro aluno, AtividadeAtividadeAtividadeAtividadeAtividade

História da

América I

Caro aluno,

História da América I Caro aluno, AtividadeAtividadeAtividadeAtividadeAtividade

AtividadeAtividadeAtividadeAtividadeAtividade

OrientadaOrientadaOrientadaOrientadaOrientada

Chegou a hora de iniciarmos a fixação do conteúdo estudado ao longo da disciplina. As atividades propostas, de cunho avaliativo, devem ser realizadas com atenção e zelo, para que, efetivamente, cumpram os objetivos para as quais foram formuladas.

EtapaEtapaEtapaEtapaEtapa 11111 Organize um quadro-resumo em forma de cartaz das etapas pré-históricas América, desde o povoamento até o surgimento das sociedades agrícolas e apresente-o em sala de aula. Esta atividade deverá ser feita em grupo.

EtapaEtapaEtapaEtapaEtapa 22222 Elabore um texto dissertativo sobre as características sócio-políticas e econômicas das Altas Culturas Pré-Colombianas (mínimo de 30 linhas). Esta atividade deverá ser feita individualmente.

EtapaEtapaEtapaEtapaEtapa 33333 Elabore um plano de aula sobre a conquista da América. Esta atividade deverá ser feita em dupla, seguindo um dos modelos de plano de aula que será disponibilizado na tutoria 3.

Glossário ADELANTADO – O título de Adelantado existia anteriormente na Península Ibérica, quando se referia

Glossário

Glossário ADELANTADO – O título de Adelantado existia anteriormente na Península Ibérica, quando se referia às

ADELANTADO – O título de Adelantado existia anteriormente na Península O título de Adelantado existia anteriormente na Península

Ibérica, quando se referia às autoridades que, em nome do Estado, governavam os territórios por eles conquistados aos mouros na época da Reconquista. Para a América, designava as pessoas que recebiam os direitos sobre o território, a mão-de-obra e as riquezas conquistadas na expansão da área colonial.

ADOBE –